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CAPÍTULO QUINTO E ÚLTIMO DEPOIS DO APOCALIPSE De outro modo, teríeis acreditado em vão. (Cor. 15:2)

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Quando abriu os olhos foi como se não visse nada nem ouvisse coisa nenhuma. Era a sensação Zero Absoluto, uma sensação de bem-estar tão grandiosa que não fazia sentido. Não era possível explicá-la, se o quisesse. Se a felicidade são momentos, aquele era um momento de felicidade imensa. Não sabia quem era, nem onde estava. Sentia que tinha um corpo, mas não sabia fazer uso dele. A sua cabeça, totalmente vazia de lembranças, não lhe dava uma única pista do que quer que fosse. Não tinha um único ponto de referência para se orientar. Uma luz mortiça, avermelhada, começou, muito lentamente, a insinuar-se sobre a sua cabeça, ao mesmo tempo que um som débil e compassado nascia do seu lado direito. Quis mover o pescoço mas não conseguiu. O corpo não obedecia aos comandos cerebrais. Um único som, ritmado, mortiço mas cristalino, e depois uma ténue auréola vermelha: aqui estava todo o seu mundo. Quem era e onde se encontrava eram perguntas cada vez mais pertinentes, cujas respostas se escondiam dentro de uma gaveta fechada à chave, numa pequena secretária a menos de cinquenta metros de si. Anna Paula de Los Milagros Vyana, era o nome escrito na capa de cor creme do dossiê que continha o 2


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processo desta rapariga de vinte e dois anos, internada no Hospital Universitário de Caracas, no qual dera entrada pelo Serviço Reanimação às 16 horas e 58 minutos do dia 15 de janeiro, em consequência do despiste do automóvel que conduzia na autoestrada Francisco Fajardo, registado pela polícia como tendo acontecido às 16 horas e 20 minutos, hora local. Com traumatismos múltiplos e perda de um feto com 20 semanas de gestação, tinha sido sujeita a três cirurgias complicadas, uma delas ao aparelho respiratório, que durou mais de seis horas e da qual não recobrou, encontrando-se em coma profundo desde há sessenta e cinco dias. Era mais ou menos a isto que poderia resumir-se o longo processo de Paula. Seria mais ou menos isto que lhe seria dito mais tarde. Uns flashes curtos e rápidos, como choques elétricos, atormentavam agora a cabeça da rapariga, como se a sua memória se reorganizasse. A consciência ia e vinha, mas não parecia querer ficar. O som de um bebé a chorar misturava-se com o barulho ensurdecedor de uma arma a ser disparada. A imagem de sangue misturava-se com a de um rosto de rapariga, o dela, provavelmente. Luzes intensas encandeavam-na sem que ela tivesse saído da escuridão. Um 3


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caleidoscópio confuso de imagens que Paula não conseguia interpretar, como se fossem fragmentos de várias vidas, ou um catálogo de vidas para ela escolher uma para si, passavam por ela como se a sua mente estivesse virgem. Queria desesperadamente ter uma daquelas vidas, uma qualquer, só para voltar à superfície, mas não sabia em que direção devia seguir. Abriu definitivamente os olhos, como se já tivesse escolhido. Agradeceu a Deus esta segunda oportunidade de poder viver. Começou a rezar em silêncio. Tentou falar mas não conseguiu. Precisava de ajuda para nascer, de umas mãos que viessem arrancála do útero de uma mãe sem forças que a expelissem para a vida. E, com a mesma necessidade que um recém-nascido tem de chorar para começar a respirar, a rapariga gritou, sentindo-se sufocar, Pedroooooo!

Acenderam-se logo várias luzes. Fizeram-se sentir vozes e movimentos. Um frenesim de cores e de sons entrava no seu corpo todo de uma vez, num 4


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atropelo. A rapariga não conseguia processar tanta informação em simultâneo. Fechou os olhos com força, obrigando-os a soltarem uma lágrima, sem saber se de dor ou se de alegria. Tinha acabado de ser parida para a vida e isso ela sabia-o, tal como sabia que Deus era o seu pai, e a sua mãe. E Pedro? Onde estava? Quem era? Que vazio enorme poderia ele preencher? Voltou a adormecer de forma a poder gerir tanta memória vazia, como se tivesse necessidade de ir buscar conhecimento dentro de si. Mas agora Paula dormia serena. Sabia que iria acordar quando fosse dia. Como se soubesse o que poderia ser um novo dia.

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*

Paula, querida, não faças isso. É nosso. Não podes deixar que sejam os teus pais a decidir. Pedro, eu tenho que lhes fazer a vontade. Tu amanhã podes deixar-me, mas eles são do meu sangue. Tu não viste como me ameaçaram? Vivemos como e de quê, com um filho? Vivemos de quê, Paula? Eu trabalho e ganho bem. Os meus vinte e dois anos não significam nada para aquilo que faço. A maior parte dos meus amigos continua na faculdade, e eu já trabalho há quatro anos, e ganho duas vezes mais do que a maior parte dos pais deles. Podes trabalhar comigo. Podemos ter uma vida tranquila. 6


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Mas eu vi-te com ela, Pedro. E é uma mulher casada, uma mulher muito mais velha. Tu vais voltar a trair-me com ela. Não, querida. Tu não viste nada. Tu pensas que viste. Foi tudo um equívoco. Eu penso que vi? Eu ando a ver coisas? Estou doida? É isso que estás a dizer, Pedro? Estou a afirmar que tu não podes ter visto nada, porque, de facto, não se passou nada. Ou antes, passouse, mas não com a dimensão que tu lhe atribuis. Tu viste o que viste. Lamento. Lamento tanto que tento enganar-me a mim próprio, como se nada tivesse acontecido. Mas eu quero esse filho, Paula! Este? Porquê este? Porque é que não tens um com ela? Paula, tu és inteligente. Por favor, pensa com calma. Eu amo-te. Quero ter esse filho contigo. É isso que eu quero. É muito? É demasiado Pedro. É um demasiado absurdo! Paula, ouve-me com atenção. Por favor. É como se estivesses num caminho bifurcado. Vais escolher uma de duas opções, e nunca mais na vida poderás 7


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fazer ideia do que te esperava naquele pelo qual decidiste não ir. Aconteça o que acontecer, não vais poder voltar atrás para alterar um único pormenor do teu passado, pois isso poderia alterar o movimento da própria Terra. Isso nunca te será permitido por Deus. Portanto, pensa muito bem, Paula. Eu já pensei muito bem em tudo, Pedro. Os meus pais não querem que eu tenha esta criança, e eu não vou tê-la. E a mim? A mim ninguém pergunta nada? Eu não sou visto nem achado nesta história? Eu sou o pai desse bebé, Paula. Por uma questão de respeito pela vida, eu também deveria ser ouvido. Tu não me pediste a minha opinião quando te embrulhaste com aquela nojenta. Não deverias ter pensado que, também tu, estavas a optar por um caminho? Eu não estava a optar. Estava, pura e simplesmente, a ser seduzido. Eu sei muito bem quais são os meus sentimentos e é por isso mesmo que estou aqui a falar contigo agora. Isso não é bem assim, Pedro. Tu estás aqui a falar comigo agora porque tomaste consciência de que 8


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ficarás sem nenhuma de nós, e queres a todo o custo ficar com aquela que te é mais interessante em termos de facilidade de relação. A outra é casada, é muito mais velha do que tu, e já tem um filho. Tu estás apenas a lutar pela perda menor, só porque já não tens nada a ganhar. Eu estou a dizer-te que quero esse filho, e tu estás a dizer-me que não tenho nada a ganhar? Eu quero ganhar um filho, Paula. E quero que esse filho seja teu também. Que sejas a minha mulher. Mete isso nessa tua cabeça de índia. Eu não volto a entrar nesta casa, Pedro. E tu não te atrevas a vir à minha procura. Nem a mim nem, ao que está ainda dentro de mim. Porque tu morreste hoje para esta índia.

A luz de uma manhã quase primaveril entrava no pequeno quarto do hospital. Paula sorriu assim que abriu os olhos. Estaria grávida de Pedro? Num gesto instintivo levou a mão à barriga. Não sentiu nada. Teria sido um sonho bizarro, como outros que recordava, 9


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embora só vagamente? Estava com a memória tão vazia que do próprio nome só se lembrava do primeiro, Paula. E os pais? Porque não se lembrava dos pais? Sentiu fome e imaginou como poderia chamar alguém. Uma enfermeira. Aquilo era um hospital. Deveria haver ao alcance das suas mãos alguma espécie de botão, mas não conseguia descobri-lo com o olhar. A máquina do seu lado direito indicava-lhe números que ela não entendia, mas não lhe dizia as horas. Os sons agora eram claros, e as imagens tinham-se tornado perfeitamente nítidas. Sentiu a sua mão tocar num fio ao movê-la um pouco. Era o botão tipo pera que ela imaginava estar por ali. Premiu-o devagar e bastaram alguns instantes para que a porta do quarto se abrisse, deixando entrar a figura de uma enfermeira corpulenta e sorridente. A mulher transportava uma pequena bandeja metálica. Buenos dias, cariño! À memória de Paula veio a imagem de uma bandeja de prata coberta com um veludo grená escuro. Porque terá pensado que aquela bandeja poderia transportar uma pistola? Confusão mental com outra imagem, de outra existência, pensou.

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A enfermeira, entretanto, tinha pousado a bandeja. Estava de mãos postas, elevando o olhar para lá do teto. Como está a minha rica menina? Que milagre aconteceu quando já ninguém esperava tê-la de volta à vida? Gracias Señor! Paula tentou falar, mas não conseguiu. Sentiu-se de novo como um recém-nascido, incapaz de articular palavras, mesmo as mais simples. Limitou-se a esboçar um sorriso. A enfermeira, desta vez, achou por bem percorrer a cara e o peito com o sinal da Santa Cruz. O doutor Juan Figueras vem vê-la daqui a meia hora. Nem queira saber, tesoro mío, andaram toda a noite de volta do seu caso. O seu nome passou mais de vinte vezes na RCTV, e hoje promete muito mais. Voltaram a passar imagens do seu acidente. Dios mío! Que coisa horrorosa! Vendo o estado do carro, é milagre a menina estar viva. Um grande Milagre! E o Pedro? Paula falava tão baixo que a enfermeira lhe aproximou o ouvido esquerdo da boca, como que pedindo que repetisse. Onde está o Pedro? 11


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Minha rica menina, pelo amor de Deus! Pense em viver. Depois o Pedro virá. Notava-se que a mulher ficara atrapalhada. Mudou de cara, fez o que tinha a fazer em silêncio, e no fim perguntou a Paula se desejava mais alguma coisa. Ela respondeu-lhe com dificuldade, mas conseguiu fazer-se entender. Comer. Gostaria de comer. Amorzinho, comer não pode, querida. Esse corpinho está muito frágil. Talvez à tarde possa comer um iogurte, mas primeiro o médico vem vê-la. E com esta a mulher grande saiu, mandando-lhe um beijo soprado pela mão. Durante o dia o quarto foi-se enchendo de flores. Enviadas por anónimos, amigos que Paula desconhecia, mas que a fizeram sentir-se acarinhada por todos. Menos por Pedro. Ela precisava de vê-lo. Por que é que ele não vinha? Os vários canais de televisão não paravam de falar do caso de Paula. Mostravam imagens do carro desfeito e prometiam “a todo o momento” uma declaração da Direção Clínica do Hospital Universitário de Caracas. Uma saída de um estado de 12


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coma do que consideravam já um cadáver era algo que unia toda a Venezuela como num abraço de fraternidade e amor. Paula de Los Milagros Vyana era ela própria símbolo de um milagre. “Tinha sido arrancada à morte por Deus para reforçar a fé dos venezuelanos”, dizia um artigo do El Nacional. Paula virou ligeiramente a cabeça para o seu lado esquerdo e viu uma grande jarra de vidro azul com um molho de rosas vermelhas. Um pequenino envelope semi-escondido nas flores mostrava duas letras quase desenhadas, FF. Paula franziu ligeiramente o sobrolho com uma vontade enorme de pegar no envelope e ler o seu conteúdo, mas o seu corpo ainda não lhe obedecia. Ao cair da noite, as televisões passavam as primeiras informações oficiais emitidas pela direção do hospital, numa curta conferência de imprensa, improvisada numa sala de reuniões. “É com regozijo que a Direção Clínica do Hospital Universitário de Caracas informa que Paula de Los Milagros Vyana saiu, ontem, pelas vinte e três horas e trinta e dois minutos, de um estado de coma profundo no qual se encontrava desde o passado dia 15 de janeiro, contrariando, felizmente, todas as 13


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expectativas quanto à evolução do seu estado clínico, depois de complexas intervenções cirúrgicas que poucas esperanças nos davam quanto à sua recuperação. A jovem internada na nossa unidade de saúde mostrou uma vontade assombrosa de sobreviver e, de acordo com exames efetuados durante a manhã de hoje, ficámos certos de que irá recuperar totalmente, ou quase, visto que não poderá ser mãe. Não arriscamos uma data para que a señorita Paula possa prescindir dos cuidados hospitalares, mas parece-nos que não será ousado dizer que dentro de duas semanas poderá ser acompanhada na sua própria casa, por uma pequena equipa do hospital. Raramente um despertar de coma é reversível, e estamos hoje mais preocupados com a recuperação das lesões que sofreu a nível interno. Consideramos a possibilidade de mais uma cirurgia, nada complicada mas necessária, na zona do tórax. Esta intervenção, no entanto, não a impedirá de fazer a recuperação em casa. Gratos pela ajuda divina no caso da jovem Milagros…”–– o médico fez um sorriso pela ligação óbvia do nome ao caso clínico em questão –– “…iremos responder a algumas perguntas dos órgãos de imprensa presentes, agradecendo, contudo, brevidade. Muchas Gracias!”. 14


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Seguiu-se um bombardeamento de perguntas.

Já tinha passado uma semana desde que Paula acordara do coma. Sentia-se bem para a gravidade do acidente que sofrera, e que lhe ia sendo explicado aos poucos. Alguns jornais que lhe chegavam às mãos, e a televisão que lhe instalaram no quarto do hospital, eram uma boa ajuda para a reorganização das suas ideias. A adaptação a uma nova vida, que decorria quase num estado de amnésia, era o mais complicado para ela. O seu cérebro continuava despejado de memórias. “Sem memórias não há vida”― lembrou-se de ter ouvido essa frase, mas não fazia ideia onde nem quando. Procurava, incansavelmente, memórias. Memórias de qualquer coisa. Réstias de vida para reconstruir a sua própria vida. E não entendia porque ninguém sabia nada de Pedro. “Será que quando chegamos a um caminho bifurcado deixamos para todo o sempre aqueles que foram noutra direção?”. Lembrou-se do sonho. 15


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Paula, ouve-me com atenção, por favor. É como se estivesses num caminho bifurcado. Vais escolher uma de duas opções, e nunca mais na vida poderás fazer ideia do que te esperava naquele pelo qual decidiste não ir. Aconteça o que acontecer, não vais poder voltar atrás para alterar um único pormenor do teu passado, pois isso poderia alterar o movimento da própria Terra. Isso nunca te será permitido por Deus. Portanto, pensa muito bem, Paula. O Pedro seria uma invenção sua? Mas no sonho parecera-lhe fazer parte da vida dela. E por que é que nesta semana que passara ninguém lhe soubera, ou quisera, responder às perguntas sobre o bebé que perdera? Não teria havido bebé? Pediu à enfermeira Raquel ― agora sabia o seu nome ― que lhe lesse o que estava dentro do envelope com os dois “efes” no meio das rosas vermelhas. Era uma mensagem curta mas intrigante. A própria enfermeira parecia não ter percebido o que lhe acabara de ler. A mulher pesada sentou-se na beira da cama de Paula para lhe ler o cartão, e depois ali continuou, passando a mão devagar e com carinho pela sua testa. 16


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Ela talvez não tivesse idade suficiente para ser sua mãe, mas era com o afeto de uma mãe que a acariciava. Paula começou a fazer perguntas, mas a enfermeira pouco sabia, ou pouco queria dizer-lhe. Os meus pais, enfermeira Raquel? Onde estão? Porque é que ainda não vieram ao hospital? A mulher levantou-se num repente, outra vez embaraçada. Parecia que todo o passado de Paula a deixava incomodada. Nunca lhe tinha dito nada sobre Pedro, nem sobre os amigos, nem sobre os pais, como se a vida dela fosse um dossiê secreto sobre o qual era proibido falar. Paula pediu-lhe ajuda para se sentar na cama e ela acorreu, pronta. Pediu que lhe passasse os dois jornais que lhe tinham levado no dia anterior. O El Nacional e El Mundo. Começou a folheá-los, embora ainda com dificuldade. Para além de algumas dores, o fio que vinha do frasco de soro espetar-se nas costas da sua mão esquerda não lhe facilitava os movimentos. Na página três do El Mundo havia uma fotografia que parecia uma imagem noturna, com milhares de velas, flores e duas fotografias a preto e branco, coladas numa parede. A legenda da foto dizia: "La principal puerta del Hospital Universitario de Caracas se ha vuelto un local de peregrinación. Miles de personas van ahí a 17


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colocar velas, flores y mensajes rogando a la Virgen de Nuestra Señora de Coromoto que interceda por Paula" A fotografia que se via, colada na parede do hospital, ao lado da sua, parecia ser a de Pedro. Só podia, só assim faria sentido, mas não estava suficientemente nítida para que Paula pudesse ver-lhe as feições. O texto do artigo do El Mundo limitava-se praticamente a transcrever a declaração à imprensa feita pela direção do hospital. Sobre Pedro não havia uma única palavra. A televisão que lhe tinha sido posta em frente da cama parecia ter falhas de receção, sobretudo nos blocos de notícias que lhe diziam respeito. Como se alguém estivesse a controlar o que ela poderia ou não ver. Uma equipa de três médicos entrou no quarto. Não era a mesma que já lá tinha estado por duas vezes. O médico mais idoso dirigiu-lhe um sorriso. Olá, Paula! Como se sente hoje? Paula leu o nome escrito na bata, Adrian Martinez, e respondeu que se sentia bem. Pousou o jornal.

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Olhe, minha querida, hoje vamos ter que fazer mais uns exames. Não é nada de especial, mas são essenciais para a cirurgia a que vai ser submetida. Paula respondeu com um ligeiro movimento da cabeça e um sorriso. Um outro médico olhou demoradamente para os valores que os números verdes da máquina à sua direita mostravam e que ela não entendia. O médico que observava a máquina chamou a atenção do Dr. Martinez para a tensão arterial. Os valores entre a sistólica e diastólica não pareciam bem. Sobretudo a mínima estava muito baixa, incompreensivelmente baixa em relação à sistólica. O Dr. Martinez parecia conferenciar com o outro médico, procurando algo no meio de várias folhas de papel que tinha dentro de uma capa de cartolina de cor creme. A médica negra que ficara junto de Paula pediu-lhe, com um sorriso suave, que deixava ver uma imensa dentição branca e luminosa, que levantasse a bata para ver o aspeto das cicatrizes. Pela primeira vez, Paula pôde ver como o seu corpo estava retalhado. Uma gigantesca costura na zona do abdómen quase pegava com uma outra que começava um pouco abaixo da sua mama direita e continuava pelo flanco até a meio das costas, junto da coluna vertebral. A médica negra, com 19


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o nome, Rosa Rey escrito na bata, sorriu de novo, dizendo que as costuras estavam com muito bom aspeto. Ajudou-a a cobrir-se e depois, com o cuidado de uma irmã mais velha, tapou-a, dando-lhe um beijo na testa. Muy bien! Os médicos saíram do quarto, falando em sussurro depois de se despedirem de Paula com um hasta luego. Passada uma hora, um enfermeiro veio buscar Paula ao quarto, com uma cadeira de rodas para ir fazer uma TAC, essencial para a cirurgia que teria lugar no dia seguinte. Esta primeira saída do quarto quase assustou a jovem. O que poderia esperá-la para além daquelas suas quatro paredes? Com dificuldade, ajudada pelo enfermeiro, conseguiu sentar-se na cadeira. O frasco de soro acompanhou-a, iniciando uma viagem por corredores sem fim. Entraram num elevador enorme, e, com eles, entrou também uma maca com uma mulher idosa, aparentemente inconsciente. Houve uma primeira paragem para que a maca saísse. Paula e o enfermeiro continuaram a descer. Paula via o número -1 iluminado a vermelho. O 20


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elevador parou, e surgiram logo mais corredores. O enfermeiro não proferiu palavra durante toda a viagem. Portas pesadas, de cor clara, abriam-se automaticamente com a aproximação da cadeira que transportava Paula. Vinte minutos depois estava de regresso, e, quando ia voltar a entrar no monta-cargas que a levaria ao quarto, um flash intenso como um relâmpago tropical disparou-lhe no cérebro. Viu a imagem de Cristo pregado na cruz, ao mesmo tempo que o som intenso de uma buzina, ou de uma sirene, parecia querer fazer explodir a sua cabeça. Deixou-a cair sobre o queixo, inanimada, preocupando o enfermeiro que lhe perguntava, repetidamente, em sobressalto, se estava bem. Um estado de inconsciência profundo invadiu a rapariga. Mal o elevador parou, a cadeira de rodas foi empurrada com vigor numa corrida pelo mesmo corredor de onde tinha vindo pouco tempo atrás. O enfermeiro gritava numa espécie de código enquanto conduzia a cadeira de Paula a grande velocidade. Rosa Rey, a médica que vira Paula há menos de duas horas, veio a correr. Mal chegaram ao quarto 131, ligaram-lhe de novo a máquina que monitorizava o seu estado de saúde. A médica descansou quando analisou os números. Paula, pelo 21


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que a máquina dizia, estava só muito fraca, e a emoção da saída do quarto provocara-lhe uma descida acentuada de tensão. Era o que parecia. A médica pediu ao enfermeiro que lhe desse um calmante suave, para que a jovem repousasse.

A imagem de Cristo surgiu de novo, e parecia que queria falar-lhe. Paula fitou os olhos do homem na cruz que a olhavam quase com piedade. “Este é o único caminho que há. O caminho do sofrimento. O fruto do teu ventre era a verdade do amor, que o ódio venceu numa batalha desigual. Porque fugiste da felicidade quando ela corria atrás de ti?” Paula não podia responder. Era como se não tivesse esse direito. Começou a rezar sem saber que o fazia. “Pai-nosso que estais no Céu…” Outro flash, e viu o corpo de um outro homem a ser projetado para trás pelo disparo duplo de uma arma. Era Carlos. Ela conhecia Carlos, mas não sabia de 22


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onde. E era Paula que segurava na pistola que disparara contra alguém que nunca lhe fizera mal. Mas sabia que não queria atingi-lo. Fora tudo um acidente. “Carlos, onde estás, meu bom amigo? Vem passear comigo, vamos procurar o Pedro juntos. Sei que contigo irei encontrá-lo. Ele não pode estar longe. Eu sinto-o.” Carlos sorria para ela e dizia que sim. Que iria com ela para onde ela fosse e cuidaria dela. Os olhos de Paula abriram-se de novo. Era noite e apenas conseguia ouvir o bip…bip… mortiço da máquina da vida. Voltou a fechar os olhos, de regresso ao Zero Absoluto. Buenos dias, cariño! A voz da enfermeira Raquel acordou Paula. A mulher, muito mexida, correu o cortinado, inundando o quarto de luz. Já viu o lindo dia que está? A rapariga respondeu com “Bom dia, Raquel!” e um sorriso.

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Hoje não come nada. Às onze horas vai ser operada. Apenas um golpezinho. Mas tenho uma boa notícia. Já lhe digo, depois de medir a temperatura desse corpinho! Aproximou-lhe o termómetro auricular, com forma de pistola, do ouvido esquerdo, provocando em Paula uma sensação estranha. Olhou de seguida para o resultado da medição. Que temperatura tão baixinha. Isto não é temperatura para uma menina, é a temperatura de um passarinho. 35.5 Graus! Francamente! Depois encarou-a com um sorriso rasgado. Hoje temos boas notícias, minha rica menina. Uma visita muito especial para o meu anjo. O seu Abuelito vem visitá-la esta tarde. É a sua primeira visita. Raquel ligou a televisão para a desligar logo a seguir, mal viu no canto superior direito do ecrã a fotografia de Paula e Pedro. Paula nem teve tempo de perceber que a televisão tinha sido ligada. A operação vai ser uma coisinha simples e rápida, e vai estar consciente. Vai levar apenas anestesia local. Por volta do meio-dia estará tudo 24


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acabado e já poderá almoçar qualquer coisinha. Depois poderá receber o Abuelito. Hasta luego! Saiu sem se esquecer do beijo voador. Paula pensou, Abuelito? Porque seria que não se lembrava de nada? Era uma tortura ter a cabeça vazia. Cheia de nada. E os pais? Teria Pais? Porque não iam visitá-la? Porque seria que a enfermeira Raquel ficava tão incomodada cada vez que lhe fazia uma pergunta que fosse sobre o seu passado? A meio da tarde, ouviu-se um toque ligeiro na porta, seguido de um outro já menos suave. Entre! A figura alta de um homem que não lhe transmitia nada de familiar entrou devagar com um sorriso tímido. Paula, minha querida, como estás? Paula sorriu como resposta. O homem beijou-a na testa e fez-lhe uma carícia suave na cabeleira negra e lisa. Abuelito? Sim, querida, sou eu.

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Veio com tempo, Abuelito? O homem, já de idade, pareceu não ter percebido a pergunta. Mas respondeu. Com todo o tempo do mundo só para ti, minha querida. Trouxe-te uma caixa de doce de leite. Sei que gostas. Pousou a caixa na mesa-de-cabeceira. Paula agradeceu com um movimento repetido dos olhos. Sente-se aqui! Paula bateu devagar com a mão na cama, quando o homem velho já se baixava já para se sentar no cadeirão azul intenso, quase turquesa, ao lado dela. Pode falar-me do Pedro? Também do Pedro. Paula continuava a não sentir nenhuma ligação familiar com este homem. Mas sabia-lhe bem poder tratá-lo por Abuelito. O seu aspeto, de pele clara e cabelo branco como neve, vestido de branco e de olhos azuis como se fossem de água, atribuía-lhe mais a imagem de um anjo, ou do próprio Deus. Não se assustou, mas sentiu

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a pele eriçar-se. Quando voltou a falar-lhe, foi com uma timidez incontornável. O senhor é mesmo meu avô? Não, Paula. Claro que não sou teu avô. Mas podes sempre tratar-me por Abuelito. Mas quem é, então? É mais fácil ir-te dizendo quem não sou. Então quem é que não é? Repara. A enfermeira veio aqui dizer-te que irias ter a visita do teu avô. Nem me viu nem eu falei com ela, mas achou que deveria dar-te essa mensagem. Não estou a entender nada. Ela não sabia que vinha? E estavas a entender alguma coisa antes de eu entrar? A enfermeira não sabia, mas achou que deveria dizer-to. Não, não estava. Nunca percebi nada. Continuo a não saber quem sou. Pode falar-me do Pedro? Eu posso e vou falar-te dele, mas tu também podes falar-me dele. Tu sonhaste com ele. Como é? É alguém que eu amo. 27


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Sonhaste com ele. Viste-o. Podes descrever-mo? É alto, moreno, tem a minha idade. É bonito, inteligente… Tens bom gosto, então, Paula. Mas onde é que ele está, agora? No teu sonho. Tu criaste-o. Ele vive lá. No meu sonho? Eu não estava grávida dele? Não acredites em tudo o que imaginas ou que te dizem. Acredita mais naquilo que vês dentro de ti. Quando sonhas, estás dentro de ti. E agora não estou… senhor…? O homem velho sorriu. Fernando. Fernando Fonseca, minha querida. Mas gostaria mais que continuasses a tratar-me por Abuelito. Esse nome é-me vagamente familiar. Fernando voltou a sorrir ligeiramente. Vagamente? Vagamente é… muito vago. Talvez pelas iniciais FF… não? O cartão que me deixou com as duas dúzias de rosas, contei-as, dizia:

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“Espero estar brevemente contigo para te mostrar a luz que te iluminará a vida.” É verdade? O velho assentiu com um movimento vagaroso da cabeça. Os meus pais? Todos temos pais. Onde estão os meus? Exatamente onde está o Pedro. Na tua memória. Mas eu tenho uma falta quase absoluta de memória. Estou praticamente amnésica. Não querida, estás a processar a tua memória. Ela vai reaparecer. Toda. E o Pedro, vai? Por que não? Tudo irá aparecer. E o meu filho? Foi uma criação tua. Mas não to mataram, ao escrever num dossier que tinha morrido no acidente de carro? Há caminhos bifurcados? Podemos escolher um deles? É impossível existirem caminhos bifurcados. Se existissem, era porque havia a possibilidade de 29


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podermos percorrer ambos, um de cada vez… ou em simultâneo. Dada essa impossibilidade, só há um. O do destino? O do Não-Destino! O destino não está escrito, vai-se escrevendo. Só está escrito o Não-Destino. Aquilo que não nos acontecerá. A rapariga sentia-se cada vez mais confusa. Suspirou. Não entendo. Tu vês-me, Paula? Sim. Podes tocar-me? Paula aproximou a mão da do homem velho e tocou-lhe. Sim. Eu existo, então… não existo? Acho que sim. Que idade achas que eu tenho? Paula sorriu. Cem anos?

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Mil trezentos e vinte e dois. Mais mil e trezentos do que tu, e isto só se a idade se pudesse realmente contabilizar. A rapariga encarou-o num tom de desafio brincalhão. E eu? Quantos tenho? Enquanto Paula de Los Milagros Vyana? Acabaste de nascer, minha filha. Todos te dirão que tens vinte e dois, tens aspeto de vinte e dois, mas tu tens no teu cérebro registos de memória equivalentes a cinco pessoas da forma como conhecemos o ser humano. Esses registos vão ser processados e reorganizados e dar-te um conhecimento excecional da vida… sim digamos da vida, em menos de um ano. Numa semana, apenas, o teu cérebro acumulará informação tão vasta que pensarás que vais enlouquecer. E farei o quê, com essa informação? Crescerás, Paula. A miúda acabada de nascer franziu a testa e o nariz. Crescerei? 31


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Isso mesmo. Daqui a uma semana poderás sentir-te como se tivesses cinquenta anos… ou cem. A tua idade é relativa. Depois de eu sair daqui, do hospital, ainda vou voltar a vê-lo? É possível. Tudo é possível. Desde que o queiramos. Eu dormi sessenta e cinco dias e não me lembro de nada. Tu estiveste naquele estado em que se pode considerar que alguém está morto. Estiveste a aguardar que vários factos acontecessem em diferentes pontos do Planeta Terra. Estiveste no Zero Absoluto, a aguardar. Disseram-te que foram 65 dias, mas podem ter sido 65 anos, ou 65 minutos ou apenas 65 segundos. O tempo não existe neste estado. Aliás, o tempo, como a idade, também é relativo. Hmmmm? Achas que um feto tem vida só pelo seu corpo estar possuído de energia? Ele pensa? Há pouco… há uma semana… não sentiste que estavas tu própria a nascer?

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Acho que não. Acho que sim. Não sei. Sim, foi como se nascesse. Credo, Abuelito, estou tão confusa. É natural, minha filha. A vida não é apenas viver. É algo muito mais complicado. Vou mostrar-te um objeto que supostamente nunca viste na realidade. Fernando tirou do bolso do casaco um volume de tecido negro que desembrulhou vagarosamente. Já tinhas visto isto antes? Paula olhou para um revolver cromado com o punho preto; e, sem dúvida alguma, respondeu, Sim. Recordas-te de onde o viste? Não. É uma sensação déjà vu. Sonhei com uma arma igual. Que dia é hoje, de que mês? 19 de março, acho eu. Com este revólver suicidou-se um jornalista, em direto, numa televisão europeia, há vinte minutos. Isso é impossível. Nenhuma arma poderia fazer uma viagem de… oito mil quilómetros? …em vinte minutos. 33


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O homem velho inclinou-se para ela, martelando bem as palavras. Mas é que há vinte minutos eram vinte horas e vinte e dois minutos do dia 15 de janeiro. E nós estamos a 19 de março. É a relatividade do tempo. Já ouviste falar de um país chamado Portugal? Vagamente. Os portugueses descobriram o Brasil. Isso. Agora vou dizer-te um nome. Tenta lembrar-te. Ricardo Nunes. Diz-te alguma coisa? Sim, diz. O quê? Não sei. A minha cabeça está muito estranha. Mas eu conheço esse nome. Poderias ser tu? Paula abriu um pouco mais os olhos espantada com a pergunta. Depois sorriu, como se tivesse começado a decifrar uma charada. Neste momento, eu poderia ser mil pessoas. Mas pensa apenas nessa pessoa. Deixa as outras.

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Ricardo Nunes. Posso ter muito a ver com ele. Poderia a ser sua mulher. A sua filha? A sua mãe? Talvez eu própria, sim. Mas não te lembras de nada relacionado contigo e com ele, pois não? Não, nada. Ele matou-se? Sou ele, quer dizer, eu fui ele? Por que me faz tantas perguntas e me dá tão poucas respostas, Abuelito? Ele não se matou. Ele veio arrancar-te do coma, Paula. Só ele teve o poder de decidir o sobre o destino. Ele foi o destino, durante um dia. As respostas estão dentro de ti. Todas as respostas de que necessitas estão contigo. Então eu estive, mesmo, em coma? Há papéis escritos. Há imagens de televisão. Acreditas nelas? Nem por isso. Não me lembro de nada. E parece que só posso ver uma parte das imagens que passam na televisão. Parece que existe uma espécie de controlo sobre o que me pode ser ou não mostrado. É como se fosse uma espécie de comando transcendental. E eu não sei se esse comando está nas mãos de pessoas ou nas de Deus. 35


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É exatamente onde eu quero chegar. Mesmo havendo imagens na televisão, ou textos escritos nos jornais, eles não valem de nada se a nossa memória não tiver registado os acontecimentos. A memória dos nossos sentidos é a única verdade. A nossa verdade. Que horas são Abuelito? Parece que estamos aqui a falar há meses. Fernando Fonseca tirou do bolso um velho relógio e abriu-lhe a tampa, estendendo-o a Paula. Não, Abuelito, não podem ser só duas da tarde. Há bocado perguntei as horas à enfermeira e eram quatro e vinte. O velho, pacientemente, fez um gesto na direção da máquina que lhe fazia a medição da tensão, pulsação, ritmo cardíaco ― e tudo estava parado. Nem o bip ritmado da máquina se ouvia. Então eu estou morta? Não minha querida filha, não estás morta. Embora também não estejas viva. Estás apenas em processamento. Não estou morta nem viva? Em processamento de quê? 36


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Estás com a tua mente a funcionar para processar a tua memória. Consegues imaginar um computador? Sim, claro. Então, a forma mais fácil de te transmitir a ideia do que somos ou quem somos, e do que estamos aqui a fazer é, talvez, dizer-te que estão aqui dois computadores a manter uma conversa, aparentemente absurda, mas vital. Nós? Dois computadores? Bom, sem hardware. E onde está o hardware? Não existe. O software prescindiu daquilo que pareceria imprescindível. E quem controla esse software? Deus? Deus são zeros e uns. Paula começou a rir. Zeros e uns? Se eu conto esta conversa a alguém, transferem-me já deste hospital para um psiquiátrico. Não tens que contar. Tens que interpretar, apenas.

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Eu falei com o Pedro há alguns dias atrás num sonho. Foi um sonho tão real que é impossível que ele não exista. Mas eu disse-te isso mesmo. Ele existe. Eu quero-o. E irás tê-lo. Como? Ele vai aparecer, simplesmente. Quando eu estiver a dormir? Estás a dormir agora? Acho que não. Há relógios nos teus sonhos? Há a noção do tempo? Acho que não. Então estás a sonhar. Tenho a certeza de que não estou. E se estiveres? Isso quereria dizer que estiveste acordada enquanto falaste com o Pedro. Fizeram amor? Eu estava grávida dele. Devemos ter feito. Mas lembras-te de ter feito? 38


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Sinto que fiz. Então como é que podes ter a certeza de que queres o Pedro de volta? Podes estar a querer trazê-lo da realidade para um sonho. Não achas? Quero-o aqui comigo, é só isso. Queres mesmo? Lembra-te do caminho bifurcado que não existe. Não se pode voltar atrás nem alterar nada. Ele falou-te sobre isso, mas considerando que podia haver dois caminhos. Como te disse, na impossibilidade de percorrer ambos, só existe, de facto, um. Sim. É tudo o que eu quero. Acreditas em mim? Acho que sim. O “acho” não existe, neste caso. Acreditas? Sss… sim. E em Deus? Sim, muito. Acreditas mesmo que Deus existe? Eu disse que Deus são zeros e uns. Paula franziu a testa. 39


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Sim. Quem nos poderia ter criado senão Deus? Tu? Paula sentia-se a participar num jogo. Eu? Como? Com a tua mente. Onde pensas que estiveste durante sessenta e cinco dias? Aqui, no hospital? A tua mente… a tua alma, onde poderá ter estado? Lembras-te do que poderá ter acontecido durante todo esse tempo? Um sonho? Qualquer coisa? Não. Não me lembro de nada. Então repara num pormenor do sonho que tiveste quando já não estavas em coma. Tu e o Pedro tinham discutido, por causa de uma outra mulher. Sim. Paula, filha, muitas vezes é preferível não saber a verdade, porque a verdade é, afinal, o desconhecido. A verdade é tudo aquilo que desconhecemos. Mas eu quero o Pedro. Quero saber a verdade.

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Mesmo que essa verdade te faça sofrer, e te faça sofrer muito? Mesmo assim. Repara, minha filha. Nem a enfermeira Raquel te quis dizer o que poderá ter-se passado. Para que é que queres saber o que pode não ter acontecido? É uma necessidade absoluta. Querida Paula. Então vou contar-te essa verdade. Aqui tens o que pôde ter acontecido. O que PÔDE! O velho fez uma pausa demorada, acompanhada de um suspiro pensativo, antes de começar a contar-lhe a história trágica dos amores de Pedro e Paula. Tu acabaste a tua relação com o Pedro, dizendolhe que ias abortar. Saíste de casa dele batendo com a porta. Não foi? Sim. Aconteceu assim no sonho. Mas esse sonho pode ter sido a realidade. Eu quero saber tudo para poder escolher a minha realidade.

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Não, Paula. Não podes escolher. Não se pode escolher como se soubesse onde vão ambos os caminhos. Só há um. Conte-me o que se passou, então. Já não quero saber se foi um sonho ou não. Mas depois não podes voltar atrás, Paula. Está bem. Conte, Abuelito, conte, por favor. O homem velho continuou. O Pedro queria esse vosso filho de uma forma que tu nem consegues imaginar. Assim como nem consegues imaginar o quanto ele te amava. Fez uma pausa curta. Mal saíste de sua casa ele desatou a chorar de uma forma tão brutal que lhe apeteceu espetar as próprias mãos no peito e arrancar o coração. Outra pausa. Continue, por favor. Durante um mês e meio foste viajar para o Brasil e não deixaste o teu contacto com ninguém para além da tua amiga Sandra Dolores. Tu já tinhas decidido que terias o vosso filho, mesmo contra a vontade dos teus

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pais, mas não contaste esse pormenor enorme ao pai do teu filho, ao Pedro. Os teus pais, católicos conservadores, excluíram-te praticamente das suas vidas, apesar de isso lhes causar uma dor imensa. O teu pai, mais sensível, não resistiu à perda da sua Guapita e não conseguiu lidar com o castigo a que se sujeitara. Morreu com um enfarte, quando estavas no Brasil. Voltaste à Venezuela com três meses de gravidez mas não conseguiste chegar a tempo ao funeral do teu pai, de quem eras a menina dos olhos. Entraste em depressão; e, quando perguntaste à tua mãe se o Pedro te tinha procurado, ela, para te proteger, mentiu-te. Disse que achava que ele tinha casado, que o soubera pela filha de uma amiga. Paula estava petrificada. Ficaste a viver com a Sandra Dolores. Há um mês, contigo em coma, a tua mãe teve um AVC e encontra-se internada num lar. Chama por ti a toda a hora e não mexe a parte esquerda do corpo, da cintura para cima. Mama? Mamita, num lar? Sim. A tua amiga, Sandra Dolores, a teu pedido e sob indicações tuas, pois estavas muito magoada com 43


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o Pedro, telefonou-lhe a dizer que tinhas casado e que tinhas abortado do filho que na realidade tinhas dentro de ti… Paula começou a chorar. O Pedro experimentou o sentimento horrível do ódio e telefonou-te por intermédio de Sandra. Foram ambos muito agressivos ao telefone e estavam a transformar o mais puro amor numa cólera imensa. Foram de tal forma violentos que saíste aos gritos, a correr como uma louca, do terraço do Hotel Hilton, onde tinham falado pelo telemóvel da Sandra. Uma nova pausa. Meteste-te no carro sem saberes para onde ir. Na Autoestrada Francisco Fajardo, conduzias o teu carro potente a uma velocidade alucinante e choravas como se o teu corpo se fosse despejar. No início do Parque Central, de quem vem de Oeste, o teu automóvel despistou-se, porque a tua cabeça fervilhava em confusão. Amavas o ódio e odiavas o amor! O homem respirou fundo, outra vez. Paula chorava com dor. Fernando Fonseca continuou. A Sandra Dolores, com um peso enorme na consciência, telefonou de novo para o Pedro e desfez a mentira, 44


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contando-lhe que não tinhas casado e que continuavas grávida. Paula estava horrorizada com o que ouvia. Pareceu que o demónio se apoderara de Pedro que, pelas indicações de Sandra, se meteu pela autoestrada no teu encalço. Mas, quando te encontrou, estava tudo perdido. Tudo tinha acabado. Nada fazia sentido. O teu carro virado de rodas para o ar ardia. Tu tinhas sido cuspida a cento e noventa quilómetros por hora e jazias a trinta metros do carro. Estavas muito ferida e a tua barriga, com uma proeminência de quase cinco meses estava rasgada. Ninguém te diria viva. Paula soluçou, apertando a mão do homem com força. Consegues imaginar isso, Paula? A rapariga apertou-lhe ainda mais a mão como resposta. O Pedro não aguentou a dor de ver a mulher que amava, a única que verdadeiramente amara em toda a sua vida, ali retalhada pela morte. Num impulso louco colocou-se no meio das faixas de rodagem, de braços abertos, como se fosse um Cristo na cruz. Imóvel. Um camião cisterna desfê-lo em bocados. 45


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Paula abraçou-se ao velho num choro convulsivo que parecia uma explosão de um planeta ou o nascimento de uma estrela. Recebeu o que procurava. Um abraço. Lembrou-se de Cristo na cruz no dia anterior. O teu… o vosso caso, apaixonou a Venezuela e uma grande parte da América do Sul. Lá fora, na entrada do hospital estão centenas de velas, milhares de flores e fotografias de ambos. Milhares de pessoas vieram aqui rezar, pedindo a Deus e à Virgem de Coromoto que te devolvessem à vida. Pedro e Paula tornaram-se um símbolo de amor mais forte que Romeu e Julieta. Não. Não Abuelito. Não quero esta verdade. Quero a anterior. Pelo amor de Deus. Devolva-me a outra. Que outra, Paula? Tinhas outra verdade? Não há dois caminhos, querida. Rigorosamente nada pode ser alterado agora. Todo o Universo teria que ser alterado. O Pedro também te disse algo parecido, recordas-te? Sim. Perfeitamente. Quero morrer Abuelito! Não quero viver uma vida com um início tão horrível. Mata-me. Tens uma arma. 46


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E tenho um relógio parado, querida Paula. Mesmo que disparasse esta arma contra ti, nada aconteceria. Lembra-te, o destino não está escrito. O que está escrito, é um Não-Destino. Não quero saber. Não quero viver. Para quê? Para quê querida? Achas que alguém disparou esta arma contra o seu melhor amigo e depois contra si próprio para nada? Ricardo Nunes encontrou a única resposta para a questão da vida e foi ele que veio arrancar-te da morte, para apanhares um avião com destino a Nova Iorque. Daqui a três semanas. Tens que fazer um percurso muito longo ainda. O que vai acontecer, lá, nessa altura? Como sabes que irei? Vais adotar uma criança negra de 4 meses, do Bronx, e vais chamar-lhe Pedro Caballero Ortiz Vyana. Vais levar a tua mãe contigo, pois algo me diz que ficarás por lá! Para sempre. Ou para quase sempre, pois o sempre não existe. Mas não me disse que o destino não está escrito? Disse. Mas o Não-Destino está, e o teu nome não consta nele.

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E se encontrar um caminho bifurcado? Não tenhas medo se encontrares um. Ao escolheres um dos dois caminhos, esse será esse o teu. Logo, repito, não há caminhos bifurcados. Vás por onde fores, é o único caminho possível. Fernando Fonseca guardou a arma no pano preto que depois meteu no bolso do casaco e sorriu ao pensar, “Ricardo Nunes só me tirou a arma da gaveta da mesinha de jogo porque eu o permiti. Uma arma de calibre 38 é tudo o que é necessário para saltar de uma vida para outra sem passar pela morte, pois ambas são apenas uma e a mesma coisa”. Sabes uma coisa, Paula? A rapariga prestou atenção. O teu destino foi escrito na Internet por uma jovem da tua idade, vinte e dois anos. Depois apareci eu como Senhor do Não-Destino mas foi Ricardo, Ricardo Nunes, que decidiu escrever, ou reescrever, o destino. Ele soube que tinha recuperado apenas metade de ti quando tu, a vários milhares de quilómetros daqui, te atiraste ao mar, na procura de um ser o que ela… o

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tu tinhas criado. Vou dizer-te outro nome, vê o que te diz: Dono da Lua. Dueño de la Luna? Nada. Porquê? Quem é o Dono da Lua? Fernando Fonseca sorriu. Oficialmente? Em 1953, um chileno chamado Jenaro Gajardo Vera publicou vários anúncios do Diário Oficial para que alguém reclamasse a propriedade da Lua. Passado o prazo legal para alguém reclamar a propriedade, Jenaro Vera tratou do registo da Lua como sendo sua, pagando quarenta e poucos pesos pelo registo na conservatória. Obviamente que sabia, apesar do registo, que a Lua não era de ninguém, nem o poderia ser, mas a sê-lo, seria propriedade da humanidade. Este foi um ato algo poético, pois ele imaginava que seria possível habitar a Lua e transformá-la num planeta de paz e felicidade. Fazer na Lua um Mundo Perfeito. Paula sorriu. O homem velho que parecia Deus continuou a falar. Mas, de facto, o Dono da Lua era Deus. O Deus de uma jovem que, sendo tu, ainda não o era. Na tua cabeça irão surgir memórias de várias pessoas, Ricardo 49


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Nunes, Carlos Oliveira, Mariana Santana, Patrícia de Melo Gouveia, Sofia Santana Nunes, Fernando Fonseca e Alice Fonseca… imagina. Tu és várias pessoas. Como muito bem disseste, tu és Ricardo, és o seu melhor amigo, és a sua filha e mulher, és a sua amante, enfim. Como poderei ser tanta gente? Não, querida. Irás ser tu própria mas com registos de memória de várias pessoas. Elas estarão dentro de ti, mas tu serás tu. Anna Paula de Los Milagros Vyana, só tu. E quando chegar a Nova Iorque? O que farei? Nada. Tudo acontecerá como tem que acontecer. Vê? Diz-me a todo o momento que o destino não está escrito, mas fala como se o meu estivesse escrito ao pormenor. Mas pode ser alterado, e o Não-Destino não pode. Fernando Fonseca tirou do casaco um pequeno bloco de papel e uma caneta. Escreveu algo, arrancou a folha e dobrou-a em duas. Paula ficou logo cheia de curiosidade. 50


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O que escreveu aí, Abuelito? Pela primeira vez desde que entrara no quarto, Fernando Fonseca respondeu-lhe quase timidamente. Digamos que escrevi o… bom, o teu destino. Agora vamos ver se esse destino se cumpre. E eu vou voltar a vê-lo depois que sair do hospital? Paula esperava agora para esta pergunta uma resposta diferente da primeira. Claro. Basta tu quereres. É omnipresente, como Deus? Deus não existe, minha querida Paula. E todos somos omnipresentes, desde que alguém nos queira junto de si com toda a sua força mental. Deus não existe nem dentro de nós? Sim, dentro de nós sim. Dentro da nossa mente, onde existe tudo. Até Deus, porque afinal Deus somos nós. Paula estava cansada. Parecia-lhe que estava naquela conversa há meses. Desligou-se da mente e entrou no Zero Absoluto.

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Uma enfermeira, que não era Raquel mas o seu oposto, alta, magra, e angulosa, entrou no quarto de Paula como se estivesse com pressa. Até a sua forma de falar era de uma secura que não tinha nada a ver com o carinho maternal da enfermeira corpulenta. Bom dia, menina Paula. Como se sente? Paula respondeu “bem, obrigada!”, sem tirar os olhos do pequeno papel de Fernando que já tinha lido dezenas de vezes, sentada na cama. Vai ter alta amanhã. Depois de almoçar. Paula sorriu como se agradecesse à enfermeira, mas o pensamento dela estava muito longe dali. A sua amiga Sandra Dolores está no gabinete do doutor Martinez a tratar dos pormenores da sua convalescença. Já aqui vem ter consigo. “A Sandra? Como será a Sandra?”

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Paula não se lembrava dela. Tinha apenas uma vaga ideia, uma vez mais como se se tratasse de um sonho. A enfermeira tirou-lhe a agulha do soro, espetada nas costas da mão esquerda. Levou o frasco consigo, despedindo-se com um curto “até já”. Quando abriu a porta para sair ficou parada, indecisa. Por fim, acabou por deixar entrar uma rapariga antes de ela própria sair. Sandra Dolores, uma jovem alta, de tez clara e sardenta, com uma cabeleira farta e arruivada, entrou quase a correr na direção de Paula, com um riso guinchado e uma boca carnuda muito aberta. Falou-lhe num misto de choro e riso. Paula, querida! Que bom voltar a ver-te! Dolores! Paula aceitou um abraço demasiado apertado, que lhe causou alguma dor mas lhe soube bem. Querida Paula! Não vim antes porque fui com a minha mãe a Puerto Ayacucho, mas nem queiras saber a alegria que tivemos quando soubemos. Voltámos ontem à noite, e, quando telefonei para o hospital e me disseram que tinhas alta amanhã, fiquei louca. Está 53


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tudo preparado lá em casa para recuperares. Mamacita está de cama por causa de uma queda que deu há dois dias e torceu um pé, mas está radiante pelo milagre que aconteceu contigo. Tem-se fartado de rezar. E eu irei ser a vossa enfermeira. Parecia que nunca mais ia não calar-se, mas Paula sentia-se bem com a companhia da amiga que não parava de falar. Estive agora com o Dr. Martinez, que me disse que, nesta altura, a tua recuperação a nível de memória é o mais importante, pois a nível físico o teu estado é razoável. Foi por isso que não tiveste visitas desde que saíste do coma. Mas vais ter apoio psiquiátrico e consultas de neurologia. Vais ver. Há de ficar como dantes. Paula portou-se à altura da situação. Não vai, não, Dolores. Tu sabes muito bem que não. Sem o Pedro, sem o nosso filho, tudo será diferente. Sandra deu-lhe outro abraço, agora com mais cuidado

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Amiga! Eu sei que essa parte vai ser a mais dolorosa, mas tens que pensar que foi assim porque Deus assim o quis. Tu não tiveste a culpa. Não tive culpa, Dolores? Eu, que te obriguei a mentires-lhe, não tive a culpa? Quem teve a culpa, então? Foi o destino, amiga. O destino assim o quis. O destino não está escrito, Sandra Dolores. O que está escrito é o Não-Destino. Sandra Dolores ficou confusa, sem perceber o que a amiga queria dizer com aquilo. Repetiu-lhe as últimas palavras, quase como que pedindo uma explicação. O Não-Destino? Paula segurou-lhe na mão e acariciou-lha devagar. Deixa. Tontices minhas. É dos sonhos esquisitos que ando a ter desde que acordei. Não ligues.

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Eram três da tarde do dia 12 de abril quando o Airbus A320 da American Airlines, voo CRVZ0113, aterrou no Aeroporto Internacional John F. Kennedy. A bordo vinha Paula de Los Milagros Vyana acompanhada da mãe. Enquanto o avião se dirigia para a manga do terminal, Paula voltou a desdobrar o pequeno papel quadriculado onde o Abuelito escrevera, “El Dueño de la Luna – Madison Avenue, 275 at 38th Street - Apartamento 430 - New York City.” Esta era a primeira vez que Paula estava em Nova Iorque, apesar de sempre ter tido uma grande atração pela Big Apple. Durante o trajeto, a partir do momento em que começaram a aproximar-se de Manhattan, a rapariga não descolava o rosto da janela do táxi amarelo, deslumbrada, cada vez mais, com a dimensão da cidade. Atravessaram toda a Baixa Este, começando a subi-la pelo centro até ao cruzamento com a Rua 38. Era um edifício antigo, mas com um excelente aspeto. O toldo grená que cobria o passeio dava-lhe o aspeto de um hotel, mas era um condomínio. O

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porteiro, vestido classicamente de fraque e cartola que tirou quando se lhe dirigiu, parecia que a esperava. Senhora e menina Vyana? Sou o George, o porteiro. Está tudo preparado. O porteiro acompanhou a rapariga, que amparava a mãe, até aos elevadores Quarto andar. Disse o homem chamando o elevador. Carregou no botão mostrando-lhes um sorriso cortês, e permaneceu no hall do prédio, onde era o seu posto, enquanto as duas portas pesadas se fechavam silenciosamente atrás de si. Quando voltaram a abrir-se, esperava-as uma mulher alta e esguia. Um homem negro vestido de branco, com uma cadeira de rodas a postos, estava já ao lado ela. A mulher estendeu-lhe a mão, e acompanhou o gesto com um sorriso. Paula não percebia o que estava a passar-se mas, como não percebia muita coisa da sua vida, não deu importância. Cumprimentou-a. A mulher começou a andar, pedindo que a seguissem. A mãe de Paula já estava na cadeira de rodas que era empurrada pelo enfermeiro negro. No fim do corredor longo, com um tapete aveludado da mesma cor que o toldo grená, sobre um chão de 57


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madeira, um número dourado indicava o apartamento, 430. A porta estava encostada e a mulher, que até ali falara em castelhano, perguntou a Paula como preferia que falassem com ela, se em inglês se em castelhano. Paula disse que era preferível o castelhano para a mãe, mas que para ela era indiferente. Apresentou uma pequena equipa que estaria ali para a servir, começando por si própria. Eu sou a sua secretária pessoal, e o meu nome é Kate Johnson. Aquela é a Maria de Guadalupe, a empregada doméstica. David Orlean, o motorista, e John, o vosso enfermeiro, que cuidará sobretudo da senhora Vyana até ser internada. Olhou para o relógio Cartier que usava no pulso. O Doutor John Hadley passará cá em casa por volta das seis. Kate mostrou a casa. O quarto de Paula, o da senhora Vyana, o do pequeno Pedro que viria daí a uns dias, o escritório de Paula com um pequeno recanto de trabalho para a própria Kate, e ainda o quarto de visitas, agora ocupado por John, o enfermeiro. Paula não resistiu a fazer uma pergunta óbvia.

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Quem paga tudo isto? Quem vos paga? A mulher que seria, que era, a sua secretária, sorriu de uma forma quase brincalhona. A menina Paula, evidentemente. Paula ficou preocupada. E eu tenho dinheiro para tudo isto? Então. A menina Paula tem dinheiro para tudo isto e para muito mais. A morte do seu pai deixou-lhe uma fortuna imensa. Tão grande que está listada na Forbes como uma das maiores do mundo. Essa fortuna é gerida aqui em New York, pela FF & RN Associates. Paula soltou um risinho, pensando nos nomes de Fernando Fonseca e Ricardo Nunes e associando as iniciais à empresa americana. Um parecia Deus, e o outro tinha-se suicidado em direto numa televisão europeia, uma televisão portuguesa. Não valia a pena sequer fazer perguntas. Já estava habituada à ideia de que iria ser necessário reaprender tudo o que não percebia. Menina Paula, eu não quero cansá-la demais mas gostaria de ler-lhe a nossa agenda para esta semana, ou melhor, para a próxima. Este fim de semana pode 59


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repousar ou se quiser, conhecer a cidade com o David. Convinha que a Sra. Carmen Montero Vyana não saísse, pois a saúde dela é muito precária. Daqui a uma hora e meia o Dr. Hadley virá visitá-la e ver os últimos exames que fez em Caracas. Na segunda-feira, pelas 4 PM, chegará o bebé Pedro que já está registado com o nome que indicou. Pedro Caballero Ortiz Vyana. A ama dormirá no quarto dele, mas também só virá na segunda-feira. Chama-se Bernardine. Nós voltamos a encontrar-nos amanhã. A que horas prefere? Costuma levantar-se cedo, ou prefere dormir até mais tarde? Depois do almoço está bem para si, Kate? Perfeito, menina Paula. Prefiro que me trate apenas por Paula. Com certeza meni… com certeza, Paula. Sorriram ambas. Paula reparou que no seu escritório havia dois computadores Mac. O mais escondido e mais pequeno, obviamente, era para Kate. Apesar de não se lembrar de alguma vez ter sequer tocado numa coisa daquelas, percebeu que iria saber utilizar o seu computador assim que se sentasse diante dele. Tinha no seu cérebro a

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informação necessária, que viria apoiá-la na altura certa. Kate ainda lhe explicou mais alguns detalhes do que seria a sua vida em Nova Iorque, dirigindo-se a uma grande mesa de cerejeira sobre a qual estavam cartões de crédito. Um American Express, um Diners e um Visa, todos platina. Havia também um livro de cheques do USB Bank e um iPhone. Pediu a Paula que lhe fizesse uma lista do que poderia precisar para além do que lhe deixara. Paula apenas sorriu, como se tivesse mais do que iria precisar. Kate pediu licença e foi para a sua secretária. Paula sentou-se num cadeirão em frente a uma janela ampla e voltou a desdobrar o papel que Fernando Fonseca lhe escrevera no hospital, em Caracas, e pareceu-lhe ter finalmente percebido o que teria que fazer no seu Mac. Escrever um livro. De repente, deu um pequeno salto na cadeira. Pedro não tinha morrido! Foi como que uma revelação súbita. De acordo com as palavras de Fernando Fonseca, Ricardo Nunes suicidara-se, mas primeiro matara o seu grande amigo, Carlos Oliveira. Ricardo terá vindo arrancá-la da morte. Faria todo o sentido, 61


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sem sentido, que Carlos tivesse vindo segurar a alma de Pedro. Pedro só morrera porque o Abuelito lho tinha dito, e a partir daí tudo se passou como se o velho estivesse a escrever o destino, ou o Não-Destino, como ele preferia dizer. Faria todo o sentido que nesta nova de vida de Paula que houvesse um Carlos Oliveira, já que ela teria assimilado uma espécie de reencarnação desse tal Ricardo Nunes. Kate! Pode chegar aqui, se faz favor? Num instante, a secretária estava junto dela. Sim, Paula? Kate, vou fazer-lhe duas perguntas, mas por favor não tire conclusões precipitadas. Acho que sabe que estou em convalescença de um acid… A secretária interrompeu-a, anuindo com um aceno da cabeça: O seu cérebro, Paula, está vazio, sei. Estou ao corrente de tudo. Carlos? Conhece algum Carlos? A secretária, pensativa, arriscou: Charles em castelhano é Carlos não é? Temos o Charles Ross. Charles, o nome mais parecido que conheço. O Charles é o seu, digamos, o seu gestor. É o presidente da 62


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FF&RN. É ele que controla todas as movimentações do seu dinheiro. Eu conheço-o? Ou melhor, vou conhecê-lo? Kate pôs um ar propositadamente reservado. O seu pai é que o conhecia muito bem, apesar de terem pouco contacto pessoal, só quando o seu pai vinha a Nova Iorque. Passavam muito tempo ao telefone e eram como dois grandes amigos. Mas Paula, muito cuidado com o Charles. Porquê? Ora, porquê? Porque o Charles é um trintão bonito, rico, e solteiro, que leva uma vida do tipo… do tipo… Kate procurava a expressão mais adequada para o definir. Do tipo, mulher é carne e ele é carnívoro. Consegui explicar-me? Ambas riram. Paula estava a perceber pelo menos uma coisa. Num período que ia de 15 de Janeiro a 11 de Março, mas que poderia muito bem ter sido apenas um momento, várias pessoas tinham trocados memórias, assimiladas memórias, e mesmo 63


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reorganizado registos de memória. O Abuelito tinha-lhe falado em Patrícia, Sofia, Carlos, Mariana… enfim. Em mentes e memórias. Seria lógico, num mundo sem lógica, que Pedro e Carlos existissem enquanto registos de memória; e, pela sincronização desta, teriam que estar materializados. Pedro tinha vinte e dois anos, Carlos, ela não sabia que idade tinha, mas este gestor trintão de que Kate lhe falara agora poderia ter a idade média de ambos. As coisas pareciam ganhar forma na cabeça de Paula, mas era muito difícil reconstruir uma mente vazia. Não obstante, parecia-lhe quase evidente que Charles era o seu Pedro. Um tal de Carlos Oliveira que morrera em Portugal, com a camisa toda suja de sangue, também lhe tinha aparecido num sonho. Um sonho bom e protetor, onde ela lhe pedia que a ajudasse a encontrar Pedro e ele lhe respondia que iria para onde quer que ela fosse para cuidar dela. Com uma ternura imensa. Paula não compreendia como poderia processar-se a transferência de registos da memória, mas o Abuelito tinha-lhe que o sonho e a realidade, a vida e a morte eram uma só e a mesma coisa. Quando posso conhecer o Charles Ross, Kate? A secretária foi ao escritório buscar a agenda. 64


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Posso ligar-lhe agora para o telemóvel. Quando gostaria que isso acontecesse? Paula deu-lhe uma resposta que era uma exigência. Domingo. Mas domingo não é dia de trabalho. E isso é importante? Quanto dinheiro meu é que ele gere? Muito mais do que pode imaginar, Paula. Mais de dois mil milhões de dólares. Devo pagar-lhe muito bem, então. Domingo às três da tarde aqui no apartamento. Telefone-lhe se faz favor e obrigada. Kate fez que sim com a cabeça e voltou ao escritório. Paula sorriu de novo, olhando o infinito. “Pedro, meu querido, eu sabia que o amor não morre. Um corpo pode ser todo cortado em bocados por um camião cisterna, mas o amor não.”

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Tocaram à porta e Guadalupe, a empregada, veio dizer que era el doctor. Kate foi receber o médico à porta. Meu caro doutor Hadley, como está? Entre, entre. Esteja à vontade! A nossa menina já chegou? Perguntou o médico mesmo sabendo a resposta. Paula voltou-se, sorrindo ligeiramente. Sentiu que era o Abuelito e eram fisicamente semelhantes. “É Deus”. Pensou. Levantou-se e cumprimentou o médico com um beijo na cara ignorando a mão dele estendida à espera da sua, como se o conhecesse há muito tempo, deixando-o ligeiramente confuso. Como está, meu querido doutor? Kate fez um sinal com o olhar, e tocou com o indicador direito na testa, como se lembrasse ao médico que a cabeça de Paula não estava bem. O Dr. Hadley insinuou um sorriso para Kate, indicando que entendia. Sente-se, meu caro doutor. Pediu a secretária fazendo um movimento com a mão. 66


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O médico aceitou imediatamente o convite de Kate e sentou-se no sofá gigantesco em pele macia e clara, quase branca, perguntado se Paula tinha com ela os exames do hospital de Caracas. Paula confirmou, e foi ao quarto. Quando voltou trazia o dossiê de capa creme com o símbolo do Hospital Universitário de Caracas impresso a azul-escuro. Passou-o ao médico, sentando-se a seu lado. O Dr. Hadley começou a folheá-lo devagar, concentrado. De vez em quando soltava um “hmmm….Hmmm”. Paula, o seu estado não é preocupante do ponto de vista clínico, pois não teve lesões cerebrais. No entanto, os meus colegas venezuelanos não sabem explicar um sem fim de pormenores, nem quanto ao seu coma nem quanto à sua falta de memória. De acordo com o que escreveram, a sua cabeça foi “formatada como se se tratasse do disco rígido de um computador.” É estranho. Fazem aqui várias alusões à informática para tentarem explicar o que pode ter acontecido consigo. Olhe, por exemplo. “… é como se a memória ROM tivesse desaparecido, como se fosse possível desaparecer o registo de ADN de alguém… desde o despertar do coma que não há acesso à memória primária de Paula Vyana, como se ela tivesse 67


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nascido com vinte e dois anos mas com informação registada no Disco Rígido que supera em muito a memória humana. Tentando fazer um paralelismo, poderíamos dizer que se a memória humana é um Disco Duro de 500 gigabytes, e a memória de Paula vai muito além de 10 terabytes encontrando-se esse espaço praticamente virgem…” Depois de ler o dossiê em silêncio, o Dr. Hadley olhou para Kate. Podemos marcar um exame, uma TAC no Manhattan Psychiatric Hospital, Kate? A secretária estava de pé com a agenda na mão. Tomou nota. Paula sorriu, timidamente. Ela sabia o que estava a passar-se, e o médico não podia ser apenas, por acaso, a cópia fiel do Abuelito.

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*

Charles? É a Kate, como está? Do outro lado da linha, a voz de Charles era jovial e brincalhona como sempre. Olá Kate! Que bom ouvi-la, continua casada? Continuo muito bem casada, Charles, obrigada. Mas olhe. Isto é sério. Estou a ligar-lhe porque a menina Paula Vyana quer que esteja cá em casa às três horas de amanhã. Impossível, minha querida Kate. Amanhã tenho um jogo de ténis exatamente às três. Diga lá à nossa menina que as coisas não são assim. Talvez na terçafeira possa reunir-me com ela no meu escritório. Lamento imenso, Charles, mas o seu ténis vai ter que ser adiado. Paula means business. Até amanhã às três, meu caro. 69


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Espere lá, Kate. O que é isso? Ela quer? E então? Também eu quero muita coisa e não tenho. Tem 2.000 milhões de dólares, mais uns trocos, dela por sua conta, portanto acho que deve adiar esse jogo. Charles blasfemou antes de desligar. A mãe de Paula seria internada num lar em Greenwich Village no domingo de manhã. Não havia condições para manter a senhora em casa. Ela precisava de cuidados especiais, e Paula tratou disso com o enfermeiro e o motorista, que tinham todos os documentos já preparados numa pasta em pele preta que Kate lhe entregara na véspera. O internamento foi rápido e quando Paula se despediu da mãe ficou com a sensação de que ela nem dera por isso. À saída, deixou correr uma lágrima fina, e voltou ao apartamento de Madison Avenue com o coração apertado mas ansiosa por se encontrar com Charles daí a umas horas. Guadalupe, a empregada mexicana, tinha preparado para o almoço uma cachapa que Paula adorava. Depois de comer, passou os olhos pelo caderno principal do The New York Times, que ao domingo pesa mais de um quilograma, com a revista 70


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semanal e vários suplementos. Reparou que sobre a mesa-de-cabeceira havia um maço de cigarros Marlboro e um isqueiro fino, de senhora, Dupont, em ouro rosa. Acendeu um cigarro e soube-lhe bem. Paula não se lembrava de alguma vez ter fumado, e nem sentia vontade de fumar desde que acordara no hospital. A leitura cansou-a e acabou por adormecer com a imagem de uma página de publicidade a um relógio. Bateram de leve na porta mas foi o suficiente para acordar. Entra Guadalupe. Só podia ser Guadalupe. Señorita Paula? Está no salão o senhor Charles! Guadalupe tinha-se encostado à porta, falando baixo e em castelhano. Paula despertou com a sensação de ter dormido anos, embora tivesse dormido apenas uma hora. Sentiu-se nervosa, e pediu à empregada que dissesse que ia já. Foi à casa de banho e lavou a cara. Olhou-se ao espelho. Parecia que não tinha a idade certa. Devia ver-se com vinte e dois anos, mas não tinha esse aspeto. Estava mais madura. Via-se com mais dez anos do que os vinte e dois que sempre lhe disseram ter. 71


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Teria dormido dez anos? Questionou-se. E o que o Abuelito lhe falara sobre o tempo? O relógio parado que tirou do bolso? Teria a ver com a imagem do The New York Times? O relógio que vira antes de mergulhar na inconsciência? Quando chegou ao salão viu a figura de um homem de costas. Alto, moreno de jeans e um blazer azul-escuro. Segurava um capacete de mota mas não estava vestido como um motard. Pela estatura, podia ser o Pedro. Olá, Charles. Paula ficou gélida quando o homem se voltou devagar e esboçou um sorriso. Tinha a camisa branca suja de sangue. Paula soltou um pequeno grito, levando as mãos à boca. Está ferido? Nada de importante. Um pequeno acidente de mota, ao vir para cá. Ainda pensei voltar atrás para fazer um penso e mudar de camisa, mas isso iria atrasar-me no nosso encontro. Preferi vir assim mesmo. Desculpe. Veio mais um flash à cabeça de Paula: via-se disparando a arma que o Abuelito lhe mostrara no 72


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hospital em Caracas. Dois tiros no peito de um homem. Um homem que era muito seu amigo e nunca lhe fizera algum mal. Charles reparou na sua palidez repentina. Está a sentir-se bem, Paula? Sim, Charles, sim, estou bem. Está cá o John, o meu enfermeiro. Ele vai fazer-lhe um penso, e até pode ser que haja cá em casa uma camisa limpa. E, de facto, lá estava uma camisa branca, imaculada, pendurada num armário, sem nenhuma razão para lá estar, mas Paula já desistira de compreender o incompreensível. Tinha a certeza absoluta que ela estava lá para o gestor e era o seu número. Ao fim de um quarto de hora, o aspeto de Charles já era outro. Durante o penso, Paula ouviu o enfermeiro John perguntar: Como é possível alguém dar uma queda de mota e ficar com dois ferimentos redondos como se fossem de balas? Mas nada profundos? Charles não respondera. Também não saberia fazê-lo. Quando voltou à sala, o gestor tentou iniciar a conversa com perguntas banais de rotina.

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Então, menina Manhattan?

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Paula?

Está a gostar

de

Sim, muito. Mas ainda não vi nada. E por favor tire o “menina”, faz-me sentir uma garota. Paula é suficiente. Muito bem, Paula. Também gosto mais assim. Nova Iorque é uma cidade maravilhosa. Estou certo de que vai adorar. Eu também tenho essa certeza. Charles, diga-me uma coisa, você conhece um tal de Fernando Fonseca? Charles fez um ar pensativo. Alguns segundos depois respondeu, convicto. Não. Não conheço. Porquê? Devia? É um nome castelhano ou português? Não sei, mas, como você é o Presidente da FF&RN Associates, pensei que as iniciais tinham algo a ver com esse nome, de alguém que conheci na Venezuela. As iniciais não têm nada a ver com essa pessoa. FF significa Flicker Found. Paula achou que o homem com quem falava era exatamente como ela esperava. Foi como se já se 74


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conhecessem há muito. Sentiu que lhe pertencia. Que se pertenciam. Sabe dizer-me quanto dinheiro tenho, Charles? O senhor gere o meu dinheiro. Tem muiiitoo. Muito mesmo, Paula. E, por favor, retire o senhor. Quer que lhe envie por e-mail, um PDF com toda a relação dos seus investimentos? Sim, faça isso. Mande para a Kate, se faz favor. Combinado. É tudo? Não. Não é tudo, Charles. Gostaria de lhe fazer uma outra pergunta. Vou dizer-lhe vários nomes portugueses e você vai dizer-me se conhece algum, está bem? É um jogo? Gosto disso. Chute! Ricardo Nunes? Não. Mariana Santana? Não. Patrícia de Melo Gouveia? Também não.

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Charles ia confirmando movimentos da cabeça.

os

“nãos”

com

Sofia Santana Nunes? Charles percebeu que Paula tinha chegado ao fim da lista. Passou a mão pela cabeleira escura e franziu as sobrancelhas. Depois, sem pedir licença, acendeu uma cigarrilha. Como se estivesse em sua casa. E Paula reparou nisso, e gostou desse à-vontade. É curioso. Também não conheço essa Sofia. E, no entanto, todos esses nomes me são familiares. Não sei porquê. Talvez por serem todos portugueses e eu trabalhar com um banco português? Olhe, não sei. Mas esses nomes são… é como se os não tivesse ouvido pela primeira vez. Mas não conheço ninguém dessa sua lista. De certeza. Paula tinha os olhos brilhantes. OK, Charles. O jogo acaba aqui. E agora, digame. O que vai fazer esta tarde? Esta noite? Não tenho nada planeado. Cancelei um jogo de ténis para poder estar nesta reunião consigo. Não combinei mais nada.

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Ótimo! Sabe o que me apetecia? Ir fazer uma compra muito especial. Depois podíamos ir jantar a um sítio… sei lá, a um restaurante agradável, italiano ou já agora português. Conheço vários italianos e um ou dois portugueses na baixa de Manhattan. Mas diga-me que compra especial quer fazer? Comprar um relógio muito especial. Um Franck Muller Color Dreams. Tem bom gosto, mas esse relógio custa vários milhares de dólares, sabe disso? Não tenho dinheiro para o comprar? Claro que tem. Pode comprar a fábrica Franck Muller, se quiser. Aceita o meu convite? Com todo o prazer. O único problema é encontrar uma joalharia, ou relojoaria, que venda Franck Muller, aberta num domingo à tarde. Mas creio que conheço uma a sul daqui. Vamos conseguir, vai ver. Podemos sempre tentar. Está pronta para sair?

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Não estou, mas fico em cinco minutos. Pode ser?

Charles respondeu com um OK sorridente. Começava a gostar da sua cliente mais importante. Quinze minutos depois estava a dar um assobio para mandar parar um táxi. Abriu a porta a Paula e entrou de seguida, dizendo para o motorista que parecia indiano.

Hi! To Celine, K-Mart Plaza Burwood Highway Corner of Blackburn Road, Burwood East. Thanks!

O condutor limitou-se a dizer, OK. Paula estava cheia de curiosidade, e não resistiu a perguntar: aonde vamos? A casa do relojoeiro suíço Franck Muller! Charles estava cada vez mais brincalhão, e Paula limitou-se a rir em resposta, também ela cada vez mais divertida. Tinha começado a cair uma chuva miudinha sobre Manhattan, dando-lhe um encanto acrescido. O 78


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motorista foi dar uma volta por Times Square, a pedido do gestor. As centenas de anúncios já estavam iluminados, e Paula ficou encantada pedindo-lhe que a convidasse durante a semana para ir passear com ele a pé, à noite, por Times Square. Ele disse que sim sem qualquer hesitação. Depois olhou para o pulso. Temos pouco tempo. São quase seis e meia. Dirigiu-se ao taxista: Please go as fast as you can, we are in a rush! Felizmente a Celine estava aberta, e Charles pagou ao taxista com uma nota de vinte dólares para pagar os dezassete da corrida, dizendo-lhe que “estava bem assim”, prescindindo do troco. Entraram na imponente e luxuosa loja de joias e relógios. Um homem negro, alto e com um aspeto agradável veio recebê-los, imediatamente. Posso ajudá-los? Charles adiantou-se. Procuramos um relógio muito especial, um Franck Muller Color Dreams, para senhora.

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O homem da joalharia respondeu com um ar sereno e disponível depois de convidar o casal a sentarse. Temos várias versões. Vou mostrar-vos todos os que temos, uns seis ou sete. Calçando as luvas brancas que tirou de uma gaveta, pediu a Charles e Paula que aguardassem um momento enquanto ia buscar as joias. Voltou com vários relógios numa caixa própria, tipo mostruário em madeira, colocando-os devagar, muito cuidadosamente, como se fossem os últimos do planeta, sobre um balcão amplo de madeira escura com um espaço forrado a veludo verde-escuro, fazendo lembrar uma pequena mesa de bilhar. Estamos perante uma coleção rara, de centenas de milhares de dólares. Temos aqui o mesmo modelo com caixa em ouro amarelo, ouro rosa, branco e, se quiserem, realmente, pois está em cofre de segurança retardada, um Color Dreams com caixa de platina coberta de diamantes na parte superior. Teremos de esperar dez minutos se o desejarem ver. Custa perto de um milhão de dólares.

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Paula agradeceu a oferta recusando-a apenas com um sorriso tímido e um quase impercetível menear de cabeça, e pegou num dos vários relógios à sua frente como se tivesse receio de tocar-lhe. Era aquela a joia dos seus sonhos. Pediu ao empregado solícito se podia pô-lo no pulso. Com um ligeiro movimento de cabeça, o vendedor colocou-lhe o relógio, advertindo-a de que no caso de ela querer levá-lo no pulso, teria que ser acertado, visto tratar-se de um relógio automático. A pulseira em metal teria também de ser ajustada. Fico com ele! Disse Paula pouco depois de ter o relógio no pulso. Feliz e sorridente, virou o pulso para que Charles opinasse. Lindo. Parece ter sido feito para si. Enquanto falava, Charles levou a mão ao bolso interior do casaco como que para sacar de uma arma, e tirou uma fina carteira de pele de crocodilo preta. Colocou o cartão de crédito sobre a mesa. O homem que os atendia ficou admirado. Não vão querer saber o preço? Charles respondeu-lhe com um sorriso vincado: O tempo não tem preço.

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Tem toda a razão. Retorquiu o empregado da Celine que se desculpou e levantou para levar de volta todos os relógios rejeitados por Paula. O cartão de crédito de Charles e o relógio de Paula ficaram sobre a mesa. Na ausência do empregado, Paula perguntou: Os meus cartões de crédito ainda não estão ativos? Paula pensou que ele, como gestor da sua fortuna, estava apenas a pagar o relógio como uma antecipação que lhe seria debitada posteriormente. A resposta de Charles deixou-a perplexa mas feliz. Minha querida, por favor considere isto como um presente de boas-vindas à Cidade que Nunca Dorme. Charles, que loucura. Nem sabemos quanto custa. Você não pode… O empregado alto sentou-se de novo à frente deles. Tinha na mão um estojo em madeira que abriu e de onde tirou vários documentos e impressos. Eram o certificado de registo, o manual do relógio, a garantia internacional e trouxe também um luxuoso catálogo de toda a coleção feminina da Franck Muller. Começou a preencher a documentação lentamente e, quando perguntou o nome, Charles respondeu com o nome 82


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completo de Paula. O vendedor levantou por momentos os olhos dos impressos. Dar um presente destes à esposa deve ter um significado especial. Casados há pouco tempo? Charles fez um sorriso de homem apaixonado, acariciando de leve a face de Paula: Nem por isso. Cinco anos. Quando o funcionário da prestigiada joalharia voltou a mergulhar os olhos nos documentos do relógio, o gestor olhou para a “sua esposa” e piscou-lhe o olho, divertido. Paula pareceu ter gostado da brincadeira mentirosa. Depois de ter retirado alguns elos da pulseira do relógio para que ficasse à medida do pulso de Paula, o empregado decidiu, finalmente, mostrar o preço que estava impresso numa pequena etiqueta ao cliente que aprovou apenas com um gesto. Passou o cartão de crédito por um pequeno terminal. Um número com cinco dígitos apareceu em verde no pequeno ecrã e que Paula conseguiu ver, esbugalhando os olhos e tapando a boca com as mãos para não soltar um som. Charles sorriu mais uma vez e mais uma vez piscou o olho 83


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direito. O homem da loja deu o talão e uma caneta de ouro para que ele assinasse, Eram quase sete e meia e já estava escuro quando saíram da joalharia já fechada. Charles transportava o saco preto com o nome da loja impresso a prata, exageradamente grande para o tamanho da caixa que continha. Apanharam novo táxi para o Chelsea Ristorante, já tinham decidido que seria comida italiana o seu jantar. Agora, noite cerrada, Paula pôde ver uma boa parte do esplendor da baixa da cidade. Sentia-se feliz, ainda sem reparar que o homem com quem o empregado da Celine casara a olhava com uma atenção particular. Um jantar italiano, num restaurante agradável, com companhia agradável. Charles quase lamentou a resposta que dera a Kate, quando esta lhe telefonou a convocá-lo para a reunião com Paula. Que ténis, que nada! Nada podia comparar-se a estas já quase seis horas junto. Sentiu uma necessidade quase absoluta de penetrar no íntimo dela. De saber toda a história da vida de Paula. Conhecê-la plenamente.

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Desculpe Paula, mas porquê essa obsessão pelo relógio? É bonito, não há dúvida mas você desejou-o como se fosse vital tê-lo. Digamos que sim. Que me era vital. Um objeto especial sem o qual morreríamos. Ambos morreríamos. Um relógio? Apenas um relógio? Isto não é apenas um relógio. Viu quanto pagou por ele? O gestor levantou o sobrolho direito, como que perguntando mais. Imagine que este é um relógio mágico, com o qual podemos controlar o tempo. Não apenas o nosso tempo, mas também o tempo dos outros. O tempo do Mundo! Ele ficou mais ainda curioso. Como é que se pode controlar o tempo, Paula? Com um relógio, não acha? Mas o tempo é incontrolável. O tempo é a vida. Hmmm… está a entender-me. Se o tempo é a vida, quer dizer que devemos medi-lo com um bom relógio. Não?

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Charles concordou, embora ainda esgrimisse um argumento. Há quem gaste fortunas em canetas e acabe a vida sem escrever um livro. Digo-lhe mais, Charles. Há mesmo quem escreva o destino da humanidade sem usar uma caneta. O destino? Essa é boa. Acredita no destino? Não! Acredito num Não-Destino. Um Não-Destino? E o que pode ser isso, minha esposa bonita? Sorriu. Paula também sorriu e tentou explicar o que ela própria não percebia: Charles, vamos imaginar o seguinte: quantos andares tem o Empire State Building? Não sei. À volta de cem, imagino! Paula continuou: OK. Faz de conta que estamos ambos no Empire State Building à porta de elevadores diferentes. Entramos ao mesmo tempo e carregamos em botões para andares diferentes, ou para o mesmo andar, não importa. Cada um dos elevadores leva-nos para o andar que escolhemos. Podemos ou não encontrar-nos dentro do edifício. Isso poderia ser o 86


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destino escrito, o nosso encontro ou não. Mas todo o prédio pode cair connosco lá dentro, e isso é o NãoDestino. É tudo aquilo em que nós não podemos tocar para alterar, pois seria tão perigoso que apenas o facto de ligarmos as luzes de nossa casa poderia estar a mexer com o futuro imediato dos japoneses. Nisso, no Não-Destino, nós não podemos sequer tocar. Charles abanou a cabeça rapidamente três vezes, como num arrepio. Achava que tinha entendido o que Paula estava a tentar dizer-lhe, mas não queria acreditar que fosse verdade. Paula tratou de desviar a conversa. Conheceu o meu pai? Sim, falei com ele centenas de vezes e encontrávamo-nos sempre que ele vinha a Nova Iorque. Gostava muito dele como ser humano, independentemente dos nossos negócios. Acho que seríamos bons amigos se ele estivesse mais tempo em Nova Iorque. Se vivesse cá, por exemplo. Lamento profundamente o que aconteceu ao Sr. Vyana. Qual era mesmo o ramo de negócios do meu pai? Petróleo, não sabia?

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Não. Ou antes, sim, claro que sabia, mas não imaginava que fosse nesta escala, nem exclusivamente. Ele não tinha outro tipo de negócios com os americanos? Que eu saiba, não. Pode dizer-me as horas no seu lindo relógio que controla o tempo? Vinte para as onze. Já reparou? O facto de eu lhe dizer as horas… O Charles é a primeira pessoa a quem digo as horas pelo meu Franck Muller. Devia cobrar por isso! Sorriu. Paula parou de brincar quando viu a expressão quase aflita do homem à sua frente. Charles, você está bem? Sim, estou. Mas é que… Mas é o quê? O que foi? Foi uma sensação de déjà vu brutal. Incrível. Gosto dessas coisas. Como foi? Foi como se eu tivesse a certeza absoluta de já termos falado disto, exatamente disto, há muito, muito tempo. Isto das horas e de cobrar por dizer as horas. Deixe. Não tem importância.

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Teve um conflito de memória. Acontece mais do que se pensa, sabe? Com muitas, muitas pessoas. Como? Um conflito de quê? Nada. Esqueça. Isto tinha pano para mangas. Nunca mais saíamos daqui, e a ideia era termos um jantar sossegado. Charles fez sorriso, mas, desta vez, amarelo.

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UM ANO DEPOIS

Paula, tenho o Jerry a telefonar-me quase de dez em dez minutos para saber quando lhe mandas o livro. Kate, pelo amor de Deus, diz-lhe que lho envio quando o terminar. Sinto que estou quase. Mal Kate tinha ouvido a resposta e já estava Jerry White a ligar para o telemóvel de Paula. Kate atendeu. É a Kate de novo, Jerry. A Paula está a escrever e pede para não ser incomodada, senão nunca terás o livro pronto. Mas eu quero que ela me diga pelo menos o título, e como vai acabar a merda da história. Tenho que mandar informação para os jornais, e não tenho o mais importante. Ela que me ligue logo que puder. Okay? Kate não teve tempo para responder. Levantou ambas as mãos e depois soltou uma espécie de grito mudo, de dentes cerrados.

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Kate, faz-me um favor. Pede à Bernardine que vista e me traga o Pedrinho. Quero senti-lo perto de mim. Kate saiu do escritório. Voltou momentos depois com o pequeno Pedro ao colo. Um menino suavemente negro, mulato, rechonchudo e vestido de branco e azul. Meu lindo filho, venha à mamã. Paula abriu os braços enquanto Kate lhe entregava a criança. A mãe agarrou-o contra o seu peito e beijou-o na cabeça. Mí corazon! Deu uma pequena volta com o menino de ano e meio nos braços. E depois ficou ali por alguns minutos, com o pequeno Pedro, a olhar perdidamente para um ponto imaginário, sentindo um bem-estar que lhe causava estranheza. A sua cabeça ainda estava muito vazia, mas a vida sorria-lhe de uma forma que ela nunca imaginara possível. Voltou a beijar a criança que sentia plenamente como sua, como se a tivesse dado à luz. Quem seria que estava a decidir a sua vida? Não podia ser Deus. Abuelito? Kate entrou de novo, apressada, com um telefone na mão. 92


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Tens o Charles em linha, Paula. Segurou no pequeno e chamou Bernardine para lhe dar de comer. Olá meu amor! Paula tinha no rosto um sorriso que poderia ser do tamanho do mundo. Meu amor, I miss you so much. Como estás? E o livro? Tens trabalhado muito? Está tudo bem se não contar com as saudades enormes! O livro está pronto. Só preciso de escolher um de dois fins, e ando nisto há uma semana. Tenho ambos escritos mas não consigo optar por um. Ah, e falta-me um título. O Jerry liga-me várias vezes ao dia, e a pressão dele agrava a minha indecisão na escolha. Felizmente ele ainda não sabe, mas o livro está acabado. Queres um conselho, querida? Dá um número a cada um dos fins, e depois escreve-os em dois bocadinhos de papel. Baralha-os e escolhe um ao acaso. Pronto, assim torna-se fácil. Paula sorriu e pensou como o amava. Amava-o de uma forma completa, como se fossem ambos um único ser.

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Amor querido, és sempre um homem tão prático. Vê-se logo que és americano. Mas diz-me. Se eu fizer isso, depois como é que sei que estou a escolher o final certo para o livro? Se vai agradar ou não ao público? As vinte páginas finais que eu escolher, que são dois finais completamente diferentes, podem ditar o sucesso ou fracasso do livro! Não há duas escolhas possíveis. Escolhendo um fim, anulas automaticamente o outro. Esse outro deixará de existir. Logo, escolheste seguramente o final certo. Paula pensou nos caminhos bifurcados. Meu amor, diz-me uma coisa. O que estás a dizer-me é que eu tenho um caminho bifurcado pela frente. Ao escolher um, estou a anular o outro? É mais ou menos isso, sim. Na vida não há a possibilidade de fazer duas escolhas sobre uma mesma coisa. Escolhas o que escolheres, neste caso o final para o teu livro, será a escolha certa pois é o único possível. Paula sorriu de novo.

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Quando é que chegas? Estou morta de saudades. Tu também és culpado na minha indecisão sobre o livro. Penso em ti vinte e cinco horas por dia! Regresso a Nova Iorque amanhã, mas o meu voo chega aí demasiado cedo, de madrugada. Não tens que te preocupar em ir buscar-me. Apanho um táxi. Quando acordares já estarei a teu lado na cama. Como está o Pedrocas? Está um doce. Cada vez vos amo mais. Dá-lhe um beijinho meu. Daqui a poucas horas já estarei de novo convosco. OK, meu amor. Boa viagem. Vou fazer como me disseste, e mando ainda hoje o original para o Jerry. E quanto ao título, dás-me uma ideia? Não sei, querida. Ainda não tinhas pensado mesmo em nenhum? Já, mas não sei se funciona. Tu conheces o texto original. Sugeres-me um que os americanos entendam? Fez-se um curto silêncio, como se Charles estivesse a pensar. Depois a voz dele disparou de uma só vez, como se já tivesse pensado várias vezes no assunto. 95


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Master of the Moon? Master of the Sun? Paula ficou gelada. Parecia não acreditar no que estava a ouvir. Master of the Moon? Senhor da Lua? Dono da Lua? Sim. Parece-te bem? Preferes a Lua ao sol? Foste tu que escreveste o livro, sabes melhor do que ninguém o que se lhe adapta melhor se a Lua se o Sol. Ou também podes fazer o mesmo para o título, escrever em dois bocados de papel cada um deles e deitar um fora. Dueño de la Luna. Paula falou tão baixinho que Charles não percebeu e pediu que repetisse. Gosto muito de Master of the Moon. Vai ficar esse. Despediram-se com uma troca de beijos e afetos telefónicos. Paula desligou e chamou Kate com um gritinho alegre. A secretária veio a correr. Era impossível não reparar no ar contente de Paula. O que foi? Perguntou a sorrir.

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Liga para o Jerry, agora. Diz-lhe que vou mandar-lhe o livro dentro de dez minutos por e-mail, pronto e com título. Kate fez um ar de quem não estava a acreditar. A sério? Estás mesmo a falar a sério? Então o livro estava todo escrito e escondeste-lhe isso? O que foi que aconteceu durante a conversa com o teu marido? Telefona-lhe. Já. Depois conto-te! Kate fez o que Paula lhe pedira. Pegou no telefone, e começou a marcar um número, nervosa. Paula fez como Charles lhe sugerira e escreveu dois números em dois pequenos papéis, com que fez duas bolas pequenas. Depois voltou a chamar Kate que a informou de que o Jerry estava furioso. Lhe exigira explicações que ela não soube dar. Kate, escolhe uma destas duas bolas e atira-a para o cesto dos papéis. Abriu a que ficara na sua mão. O NãoDestino já estava no lixo. O caminho pelo qual não iria tinha sido deitado fora. Desmanchou a bolinha de papel que tinha escrito o número um, sorriu e foi sentar-se em frente ao computador. Escolheu o documento que 97


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guardava numa pasta com o nome “Dois Destinos” e abriu o texto que o Não-Destino tinha ditado como fim do seu livro, colando-o ao resto do texto. Sem a mínima hesitação, apagou o outro do computador. Voltou ao início, e substituiu a palavra “Título” por “Master of the Moon”. A seguir foi para a última página, e escreveu: THE END

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Patrícia pousou o talher e pediu ao empregado de mesa um leite-creme, um café e uma garrafa de água natural sem gás, tudo ao mesmo tempo. O jovem rabiscou num papel, sorriu e afastou-se. Tirou o telemóvel do casaco de feltro pesado e quente, apenas para ver as horas. Eram 14 e 22. Apesar de ter a sensação de ser mais tarde, acreditou na informação e voltou a guardar o aparelho. Teria tempo de descer à zona de esplanada do café que ficava por baixo do restaurante, comprar cigarros e o jornal Tribuna. Estava tranquila, pois poderia desistir do encontro marcado para as quinze e trinta, no caso de alguma coisa correr mal. O café era forte, como ela gostava, mas nunca percebera porque não gostava do sabor do café na boca depois de o tomar. Daí sentir necessidade de beber 99


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água logo a seguir. Também lhe era desagradável conversar ou cumprimentar alguém, com um beijo, com hálito a café. Pagou a conta do almoço e desceu vagarosamente ao piso inferior, onde ficavam a pequena tabacaria-livraria e a esplanada. Dirigiu-se à jovem empregada do balcão, que devia ser ainda mais nova do que ela. Um maço de Dunhill International, se faz favor. E o jornal Tribuna, também. Só há o Diário da Manhã. O Tribuna já não temos. Então deixe, pague-se só dos cigarros. Vou espreitar as revistas e os livros. A empregada concordou com um sorriso breve. Ao primeiro passo de Patrícia no corredor estreito, deteve-se num livro que não a cativou tanto pelo título mas mais pela foto da capa: o retrato, muito antigo, de um homem em pose, vestido como se estivesse mascarado, envergando roupas de uma criança adaptadas para si. Depois de um olhar mais atento, percebeu que não era bem isso: era, sim, um fato de adulto requintadamente executado, talvez por um grande estilista da época. O homem usava, 100


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também, um chapéu preto de aba direita. “Uma foto bonita”, pensou Patrícia, arrancando o livro do lugar. Era um verdadeiro “tijolo”, com mais de setecentas páginas. Nada que a entusiasmasse; e então o título, esse ― O Velho – não a cativava mesmo. Abandonou O Velho colocando-o no sítio de onde o tirara, e os seus olhos voaram, sozinhos, ao encontro de uma lombada grená com um título aberto a branco: Master of the Moon. A capa, um homem de óculos escuros, a saltar uma duna, pouco lhe dizia. Aqui foi, de facto, o título que a impeliu para o balcão da caixa. Nunca imaginara que o seu pseudónimo no blogue, e depois no Site, poderia já existir como título de um livro. Nunca tinha ouvido falar da autora: Paula Vyana. Na leitura da curta biografia impressa na badana da contracapa, junto a uma foto a preto e branco da autora, de aspeto muito jovem, ficou a saber que era uma venezuelana, de Caracas, que vivia nos Estados Unidos. Não era importante para Patrícia. Assim como não era particularmente interessante a sinopse do livro, impressa na badana da capa. Era um romance com um enredo em torno de um caso clínico que envolvia um coma profundo. Naquela altura, era muito cedo para Patrícia saber que um livro, aparentemente sem grande 101


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interesse, escrito em inglês, lhe viria à memória quando Fernando Fonseca ― pessoa que naquela altura ela não conhecia nem imaginava vir a conhecer ― a questionasse sobre esse mesmo nome: Paula Vyana. Vou levar este livro. Quanto é? Pagou e saiu para a zona exterior do café. Nem parecia um dia de inverno. Brilhava uma luz clara e cintilava um sol quase quente, apesar do ar fresco. Estava agradável. Procurou uma mesa resguardada e começou a analisar o local. Nada de especial. Um casal de amantes traidores ― reparou nas alianças diferentes que usavam ― e mais duas ou três pessoas. Muitas mesas vagas. Pousou o livro na mesa, tirou o maço de cigarros, o isqueiro e o telemóvel. Seria tudo o que precisaria, para já. No telemóvel viu que estava adiantada para o encontro e isso tranquilizava-a ainda mais. De Ricardo Nunes, não havia sinal. Boa tarde. O que toma a menina? Pediu um café e uma garrafa de água com gás, fresca. O empregado afastou-se numa espécie de dança, a assobiar. Chateava-a tratarem-na por “menina”, mas não se manifestou. 102


Pedro Palma

O Dono da Lua

Acendeu um longo Dunhill, e esperou pelo café, que saboreou em quatro pequemos golos. Depois bebeu metade do copo com água, e o sabor a café desapareceu da boca. Tirou da mochila uns óculos vermelhos, de aros grossos, e começou a folhear o Master of the Moon. Abriu o livro no início. Logo na primeira página teve a sensação de que o narrador, a narradora neste caso, se lhe dirigia, à própria Patrícia. Perdeu-se no enredo e nunca mais se lembrou por que é que estava ali, a ler aquele livro. Olhou para o telemóvel, que lhe disse serem quinze e dez. Em frente a ela, um homem assustou-se quando o empregado, por trás, lhe atirou um “fásfavô?”. Era ele, Ricardo. Reconheceu-o pela foto que aparecia junto às suas crónicas que escrevia no Tribuna. Patrícia sorriu, ligeiramente mas incomodada com algo que nem ela própria sabia. A jovem estava deliciada a observar, discretamente, Ricardo numa autêntica pilha de nervos. Parecia que tinha bichos-carpinteiros. Não aguentava um momento quieto. Quando o rapaz veio com o que pedira, perdeu as estribeiras e deixou que o tom de voz aumentasse sem controlo. Discutiu com o empregado

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O Dono da Lua

por este se ter enganado no tipo de água. Voltou ao seu livro, decidida a deixar os nervos de Ricardo em franja. Já passava um bocado das dezasseis horas quando Patrícia viu Ricardo pagar a conta. Guardou o livro, os óculos, os cigarros e o isqueiro na mochila. Meteu o telemóvel no bolso do casaco e tirou o portamoedas. Com um gesto pediu a sua conta, olhando para a figura de Ricardo já de saída. Ricardo ainda esbarrou com um homem noutra mesa, mas estava a dirigir-se para a saída. O empregado veio, ela pagou, mas já não via a figura de Ricardo. Também saiu a correr, e ao virar um muro pequeno e curto viu de novo Ricardo, que se preparava para entrar no carro. Correu até ele, estendendo-lhe a mão. Olá! Chamo-me Patrícia! Ele não pôde vir. Ricardo encarou-a à espera de um nome, do nome. Ele não pôde vir? … Ele não pôde vir? O Dono da Lua não pôde vir.

FIM 104

O DONO DA LUA - CAPITULO QUINTO E ULTIMO  
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