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OPI N I ÃO “Acreditamos que as competências de comunicação e relação clínicas devem ser treinadas e avaliadas em todos os momentos da formação dos médicos, de forma integrada e longitudinal, garantindo a sua centralidade na educação médica.” — Pedro Morgado

A comunicação faz a relação clínica — 60

100mg de humanidade Pilar Burrillo Simões — 56 Os Domínios Verticais Germinaram e Desenvolveram José Manuel Mendes — 58 A humanização do estudante de Medicina Rosélia Lima relata os ensinamentos com Mark Mekelburg — 59 A comunicação faz a relação clínica Pedro Morgado refere que “as competências de comunicação e relação clínicas devem ser treinadas e avaliadas em todos os momentos da formação dos médicos” — 60


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A Comunicação faz a Relação Clínica Pedro Morgado


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Ser médico é hoje, tal como foi na origem da Medicina, estar disponível para cuidar daqueles que precisam de ajuda de acordo com as leges artis. As tarefas do médico incluem, por isso, a compreensão da pessoa doente, o diagnóstico do(s) seu(s) problema(s), a tranquilização do seu sofrimento, a proposta de soluções terapêuticas que sejam razoáveis e entendíveis, o esclarecimento das suas dúvidas, a aquietação dos seus medos, a preparação do acompanhamento subsequente e a garantia da adesão às ações negociadas. A comunicação com o doente e com os outros profissionais de saúde é um elemento nuclear no exercício da medicina. Sem comunicação eficiente não existe relação terapêutica, ou seja, deixa de ser possível maximizar os efeitos dos tratamentos prescritos e prevenir o surgimento de novas formas de doença. A relação entre médicos e doentes encontra-se em permanente transformação, tracionada por pressões que resultam do progresso da própria medicina científica e também da reconfiguração da sociedade. O deslumbramento com os sucessos do progresso científico e tecnológico que oferecem ao doente (e ao médico) soluções cada vez mais eficazes para os problemas de saúde faz perigar o investimento na relação clínica, minimizar o impacto das emoções na evolução da doença e negligenciar o tratamento integral da pessoa e do seu sofrimento. É por isso que à medida que a medicina se torna mais tecnológica e as suas ações preventivas e terapêuticas mais precisas e individualizadas, aumenta a relevância do bom uso das competências de comunicação em contexto clínico. Em simultâneo, a massificação (e, por vezes, desregulação) do acesso à informação criou novos e importantes desafios. Com acesso fácil a informação relevante, os doentes passaram a ser mais participativos na consulta e a questionar de forma mais contundente e sistemática as opções terapêuticas que os médicos lhes apresentam. Se é verdade que as más fontes de informação (das notícias falsas às manchetes irrealistas e alarmistas) constituem um problema relevante dos nossos dias, o facto de termos doentes melhor informados constitui-se como uma oportunidade altamente positiva já que permite envolve-los no processo de tomada de decisão e assim coresponsabilizá-los pela adoção das medidas preventivas e terapêuticas acordadas. Mesmo sendo assimétrica, a relação em contexto clínico deve organizar-se em torno da pessoa doente, garantindo-lhe centralidade em todas as fases da consulta.

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É por isso necessário assegurar que os médicos no ativo e os médicos em formação estejam dotados do conhecimento e das competências necessárias ao estabelecimento de uma relação clínica efetiva e terapêutica com os seus doentes e com os outros profissionais de saúde. Depois de um longo período em que foram abordadas de modo informal e assistemático nos cursos de Medicina, as escolas médicas passaram a incluir nos seus currículos momentos formais de aprendizagem e avaliação deste tipo de competências. A fase da formação em que devem ser incluídas e as modalidades de ensino-aprendizagem e avaliação utilizadas têm suscitado um intenso debate. Acreditamos que as competências de comunicação e relação clínicas devem ser treinadas e avaliadas em todos os momentos da formação dos médicos, de forma integrada e longitudinal, garantindo a sua centralidade na educação médica. É o que acontece no curso de Mestrado Integrado em Medicina da Universidade do Minho, com atividades de desenvolvimento de competências de comunicação e relação clínica distribuídas ao longo dos seis anos do curso, integradas em diferentes Unidades Curriculares, e englobando diversas estratégias de ensino-aprendizagem tais como o TBL (team-based learning), seminários interativos, treino com recurso a mesas interativas, treino prático com pacientes estandardizados e treino em contexto profissional. A avaliação é efetuada através de exames práticos de tipo OSCE (objective structured clinical examination) e de exames integrados com Perguntas de Resposta Aberta e Perguntas de Escolha Múltipla. Estamos convictos de que o desenho longitudinal e a abordagem integrada das competências de comunicação e relação clínica favorecem o treino em contexto e o desenvolvimento de aptidões mais duradouras do que a formação incidental ou em unidades curriculares especificamente dedicadas às competências de comunicação clínica. Num tempo em que o conhecimento médico de base científica se produz e se aplica com uma voracidade inédita, as competências tradicionalmente designadas por “soft skills”, entre as quais se inclui a comunicação clínica, assumiram uma relevância ainda mais decisiva no exercício profissional em Medicina. É por isso que esta área pode e deve ser ainda mais aprofundada tanto na formação graduada como pós-graduada em cuidados de saúde.


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A Comunicação faz a Relação Clínica (Haja Saúde)  

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