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Diretrizes Nacionais da Pastoral Juvenil Marista BRASIL MARISTA

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Comissão Nacional de Evangelização de Adolescentes e Jovens

Diretrizes Nacionais da Pastoral Juvenil Marista BRASIL MARISTA

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Capa: Bronx Comunicação Diagramação: Editora Universitária Champagnat

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

S446d 2005

Secretariado Interprovincial Marista Diretrizes Nacionais da Pastoral Juvenil Maristas: PJM – Pastoral Juvenil Marista / Secretariado Interprovincial Marista. – São Paulo : FTD, 2006. 164p. : il. ; 30 cm Inclui bibliografia 1. Jovens e Adolescentes. 2. Igreja e Pastoral da Juventude. 3. Instituto dos Irmãos Maristas – Brasil. I. Título. CDD–21.ed. 259.23 Índices para catálogo sistemático: 1. Jovens e adolescentes: Pastoral Juvenil 259.23

SIMAR Secretariado Interprovincial Marista 4


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Bandeira da Pastoral Juvenil Marista do Brasil

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CREDO DA PASTORAL JUVENIL MARISTA DO BRASIL

Cremos em Deus Trindade que se faz comunidade e manifesta seu projeto na pessoa de Jesus Cristo. Cremos na vida como dom de Deus e tesouro a ser cuidado pela mulher e pelo homem, templos de amor. Cremos em Maria, a Boa Mãe que, na sua experiência de fé e ternura, é exemplo de adesão ao Reino. Cremos na Igreja Profética e Missionária, sal da terra e luz do mundo, que acolhe a juventude. Cremos que o carisma marista, revelado em Marcelino Champagnat, toca o coração da juventude. Cremos que o Ministério da Assessoria é expressão da gratuidade, assumindo a juventude como opção de vida. Cremos no protagonismo juvenil que transcende as diversidades na luta por uma sociedade justa, solidária e fraterna. Cremos no espírito transformador e criativo da juventude que, no amor e na esperança, alimenta seus sonhos. Cremos na missão evangelizadora da juventude, caminho da Civilização do Amor. Amém!

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Comissão Nacional de Evangelização de Adolescentes e Jovens Irmão João Carlos do Prado Irmão Reni Voss Irmão Adriano Sauer Irmão Francisco Magalhães Irmão Vinícius Malfatti Irmão Iranilson C. de Lima Irmão Wagner R. Cruz

Grupo de Estudos Fabiano Incerti Leia Raquel de Almeida Heck Ana Clesia Alcântara Irmão Natalino Guilherme de Souza

Assessoria Pe. Hilário Dick, SJ.

Revisão geral e de linguagem Irmão Virgilio Josué Balestro

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SUMÁRIO Apresentação ........................................................................... 17 1. Lançando as Redes .................................................................. 21 1.1 Motivações .......................................................................... 23 1.2 Recordações......................................................................... 25 1.3 Resgate ................................................................................ 26 1.4 Processo Vivido ................................................................... 27 2. Fazendo memória: Maristas e Juventude .................................. 31 2.1 As cinco primeiras décadas .................................................. 34 2.2 A cultura: do jazz ao Rock‘and Roll ..................................... 35 2.3 A Política: os 50 anos em cinco ........................................... 36 2.4 A Religião: as Associações Religiosas .................................... 37 2.4.1 As Congregações Marianas ......................................... 38 2.4.2 As Cruzadas Eucarísticas ............................................ 38 2.4.3 A Ação Católica ......................................................... 39 2.4.4 O Escotismo Católico ................................................ 41 2.5 Os anos 60 .......................................................................... 41 2.5.1 A Igreja e a juventude nos anos 60 ............................. 42 2.5.2 O Marista e a Juventude nos anos 60 ......................... 43 2.6 Os anos 70 .......................................................................... 45 2.6.1 A Igreja nos anos 70................................................... 46 2.6.2 O Marista e sua Juventude nos anos 70 ...................... 47 2.7 Os anos 80 .......................................................................... 49 2.7.1 A Igreja e a Pastoral da Juventude nos anos 80 ........... 50 2.7.2 O Marista e sua Juventude nos anos 80 ...................... 50 2.8 Os anos 90 .......................................................................... 53 2.8.1 A Igreja nos anos 90................................................... 54 2.8.2 O Marista e sua Juventude nos anos 90 ...................... 54 2.9 Novo milênio ...................................................................... 59 2.9.1 A Igreja e a Pastoral da Juventude no Novo Milênio... 60 2.9.2 Os maristas do Novo Milênio .................................... 60 3. Contemplando o mosaico: uma leitura da realidade juvenil ........... 65 3.1 Quem é o jovem .................................................................. 68 3.2 Quem são os adolescentes e os jovens brasileiros? ................. 71 13


3.3 A Juventude, a Cultura e o Lazer ......................................... 72 3.4 A Juventude e a Política ....................................................... 74 3.5 A Juventude, a Educação e o Trabalho ................................. 76 3.6 A Juventude e os Meios de Comunicação ............................ 79 3.7 A Juventude e a Família ....................................................... 80 3.8 A Juventude e a Religiosidade .............................................. 81 3.9 A Juventude e a Ecologia ..................................................... 83 3.10 A Vivência do Grupo......................................................... 84 3.11 Conclusão ......................................................................... 85 4. Caminhos de Deus e Caminho dos Jovens: nos passos de Jesus e de Maria ............................................................................... 87 4.1 Não só criaturas, mas imagens ............................................. 89 4.2 Criatividade e Juventude ..................................................... 89 4.3 Esperança Juvenil ................................................................ 90 4.4 Passo a Passo ........................................................................ 90 4.5 Visão Positiva de Deus ......................................................... 91 4.6 O ser humano, criado e criador ........................................... 92 4.7 O ser humano criatura social ............................................... 94 4.8 Humanizados de uma vez por todas em Jesus Cristo ............ 95 4.9 Maria, modelo de Assessora ................................................. 97 4.10 O Seguimento de Jesus ...................................................... 98 4.10.1 O Presépio...................................................................... 98 4.10.2 A Cruz ..................................................................... 99 4.10.3 O Altar .................................................................. 100 5. Carisma Marista na Evangelização Juvenil ............................. 101 5.1 Dimensão Profética ........................................................... 103 5.2 Dimensão Comunitária ..................................................... 105 5.3 Dimensão da Cidadania Ativa ........................................... 106 5.4 A Experiência “Montagne” ................................................ 109 6. Pastoral Juvenil Marista: opções pedagógico-pastorais no serviço à juventude ............................................................................ 111 6.1 Inseridos na Educação ....................................................... 114 6.2 As Opções ......................................................................... 116 6.2.1 O grupo ................................................................... 116 6.2.2 As Dimensões da Formação Integral ........................ 119 14


6.2.3 Acompanhamento ................................................... 121 6.2.4 Organização ............................................................. 122 6.2.5 Juventude ................................................................ 122 6.2.6 O Método ............................................................... 123 7. Assessoria e Acompanhamento na Pastoral Juvenil Marista ... 127 7.1 Carisma e Protagonismo Juvenil ........................................ 129 7.2 Modos de exercer o mesmo ministério ............................... 130 7.3 A Pertença à Pastoral Juvenil Marista ................................. 131 7.4 A Bagagem do Assessor da Pastoral Juvenil Marista ............ 132 7.5 Os saberes do Assessor da Pastoral Juvenil Marista ............... 133 8. Horizontes da Pastoral Juvenil Marista: Juventude e Protagonismo ... 135 8.1 Jovens Solidários e Autores da Paz ..................................... 137 8.2 Jovens Protagonistas .......................................................... 137 8.3 Jovens com a vida pautada pelos valores evangélicos .......... 138 8.4 Jovens com maturidade de fé e exercício da Cidadania ....... 139 8.5 Jovens que assumem a sua realidade ................................... 140 8.6 Jovens esperançosos e transformadores ............................... 141 8.7 Jovens como sal e luz do mundo ........................................ 141 8.8 Jovens comprometidos com a construção do conhecimento científico .................................................... 142 9. Princípios norteadores da Pastoral Juvenil Marista ................ 145 9.1 O anúncio como o primeiro meio de evangelização. .......... 147 9.2 O testemunho de vida como meio de evangelização .......... 147 9.3 A Ação da pastoral juvenil deve ser cristocêntrica ............... 148 9.4 Vida Litúrgica e Sacramental ............................................. 148 9.5 Maria modelo de seguimento de Jesus ............................... 149 9.6 Inserção Eclesial ................................................................ 150 9.7 Aprendizados que importa Cultivar .................................. .151 9.7.1 O aprendizado para o amor ..................................... 151 9.7.2 O aprendizado para o trabalho ................................. 152 9.7.3 O aprendizado para o convívio social ....................... 152 9.8 Inserção na Pastoral de conjunto e nos movimentos sociais ... 152 10. Referências ............................................................................ 155 15


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APRESENTAÇÃO “A Igreja confia nos jovens. Eles são a sua esperança. A Igreja vê na juventude da América Latina um verdadeiro potencial para o presente e o futuro de sua evangelização... A Igreja faz uma opção preferencial pelos jovens...” (Puebla, 1186)

Sem dúvida, a juventude é o grande investimento e o grande desafio da Igreja. Porém não basta uma opção pela juventude. É necessário traduzir a opção em abertura ao diálogo com a juventude; acolhida da cultura juvenil, discernindo e descobrindo com eles e a partir deles os clamores; a elaboração de projetos concretos de evangelização, assumindo uma postura profética por políticas públicas em prol da juventude, capaz de construir um novo mundo e uma nova Igreja. A Igreja precisa resgatar a missionariedade, sobretudo no meio juvenil que nasce do mandato do Ressuscitado: “Ide e anunciai a todos”... Como Igreja, todos somos chamados a ousar, indo além dos limites da própria Igreja; a buscar criativamente os meios e formas que ainda não conhecemos; a caminhar com coragem rumo aos desertos e periferias do mundo onde a juventude é ameaçada, manifestando e formando a juventude para uma Igreja solidária e servidora da vida. Vivemos um momento em que o individualismo distancia as pessoas e grupos, dividindo as forças, repetindo ações e disputando protagonismo. Esta postura, presente também em nível eclesial, fragiliza nossas ações evangelizadoras e nos distancia da pastoral de conjunto. Em face dos enormes desafios da humanidade, somente juntos e em parceria, conseguiremos construir outro mundo e nova humanidade. A Congregação Marista, por fidelidade ao carisma, tem marcado a história da educação da juventude brasileira. Nestes últimos tempos, tem buscado, com coragem e criatividade, iniciativas concretas de compromisso e apoio em prol da evangelização da juventude. As Diretrizes Nacionais da Pastoral Juvenil Marista é um marco na construção da comunhão, um passo rumo à Pastoral de Conjunto, um gesto de quem acredita no protagonismo e no potencial da juventude. 17


Que estas Diretrizes possam ser um instrumento de serviço à juventude, formando nossos jovens para a inserção na Igreja e um compromisso efetivo na edificação da civilização do amor. Dom José Mauro Pereira Bastos Bispo da Diocese de Janaúba Comissão do Laicato - Setor Juventude - CNBB

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A PJM faz História. “Deixa-me ser jovem, não me impeças de lutar, pois a vida me convida a uma missão realizar”. A Juventude é protagonista de sua própria história. Assim, o refrão acima apontado nunca perderá o seu valor. É neste contexto que nós, Maristas, de Norte a Sul do Brasil, através destas Diretrizes Nacionais da Pastoral Juvenil Marista, desejamos reafirmar nosso compromisso junto aos sujeitos de nossa missão, fazendo memória dos cem anos de dedicação de tantos Irmãos e Leigos no trabalho com a juventude e, ao mesmo tempo, resgatando a história, ressignificando o presente e alimentando o futuro. As presentes Diretrizes são fruto de um mutirão nacional de elaboração entre jovens e assessores da Pastoral Juvenil Marista com o intuito de nortear e integrar a diversidade dos trabalhos juvenis. Junto com a celebração de tudo o que foi construído até aqui, necessitamos implementar esta Pastoral para melhor evangelizar os jovens e a nós mesmos. Como fruto da reflexão destas Diretrizes, antevejo grande avanço na perspectiva da Formação Crítica dos jovens como protagonistas de transformação social. Outra conquista é a dimensão da Eclesialidade apresentada, apontando a necessidade de uma pastoral juvenil que vá além das instituições escolares para ser fonte de autêntica inserção eclesial nas diversas instâncias comunitárias, paroquiais, setoriais e diocesanas. “Os jovens são igreja”. Por diversas vezes, em variados capítulos deste documento, o Carisma é apresentado aos jovens como de fundamental importância na vida de cada um deles, como fonte de vitalidade para o Instituto. Assim sendo, existe um caminho a ser percorrido. As Diretrizes desenvolvem um processo, um itinerário da Educação na Fé da Juventude Marista no Brasil. Ao constatar a necessidade de uma Pastoral Marista orgânica e de conjunto, percebo com satisfação que essa dimensão foi devidamente contemplada. A formação da juventude fez parte do sonho de Champagnat e faz parte do nosso sonho hoje. Lendo as Diretrizes, é possível descobrir a profundidade deste documento com relação aos princípios norteadores, às opções pedagógicas, aos horizontes pretendidos na orientação dos jovens e na busca do protagonismo juvenil, somada ao constante acompanhamento dos assessores. 19


Prezados amigos, todos os temas aqui apresentados devem arejar os trabalhos com a juventude dentro e fora da escola, e ajudar na elaboração de um Projeto de Vida para cada um de nós: jovens, assessores, educadores e Irmãos. Saibamos, juntos, dar um renovado enfoque a nossa ação evangelizadora, destinando também aos jovens a fidelidade criativa na obra da construção do Reino de Deus. Por fim, em nome do Colegiado Interprovincial Marista, que aqui represento, desejo expressar meu reconhecimento a todos vocês que elaboraram com tanto afinco e entusiasmo estas Diretrizes que hoje lhes entregamos. Maria, a Boa Mãe, Educadora da fé e nosso Recurso Habitual, abençoe a todos e leve a bom termo as intenções destas Diretrizes.

Irmão Cláudino Fachetto, fms

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1. LANÇANDO AS REDES 1. A construção e elaboração dessas Diretrizes são fruto do desejo e da necessidade de viabilizar um mesmo objetivo nas diferentes expressões da ação da Pastoral Juvenil Marista no Brasil. Nascem com o intuito de nortear e integrar a caminhada da Pastoral Juvenil Marista, respeitando as riquezas e diferenças das propostas provinciais, a fim de favorecer uma ação juvenil em comunhão eclesial e social, visando à construção da “Civilização do Amor” 1. 2. Ao assumir com seriedade o carisma do trabalho com a juventude, somos convidados a enfrentar desafios sempre mais exigentes, porque vemos na juventude o sacramento do novo.2 O convite de lançar as redes em águas mais profundas e em aventurar-se neste percurso quer expressar a beleza e a coragem de arriscarmos, com seriedade, uma nova experiência, experiência de fé, carregada de sentido e de vida, revelada na ação evangelizadora da juventude. 1.1 Motivações 3. As Diretrizes vêm, pois, alimentar nossas opções, desafios e esperanças na ação evangelizadora da juventude marista3 no Brasil. Querem recordar e resgatar a história, dando novo e vibrante significado ao trabalho atual e alimentando o futuro. Urge saber aonde queremos chegar e a forma como estamos caminhando para alcançar a meta proposta. 4. As presentes Diretrizes ajudar-nos-ão a descobrir e reafirmar os princípios norteadores fundados na pessoa de Jesus Cristo, em quem centramos a nossa vida e por cujo projeto optamos; na pessoa de Maria, que nos ensina a seguir seu Filho e em quem reconhecemos os traços de nossa identidade marista; na inserção social e eclesial, chamados a ser “bons cristãos e virtuosos cidadãos” 4; na opção preferencial pelos pobres, destinatários privilegiados de toda a ação evangelizadora; na busca da cidadania, para que o jovem descubra seu espaço como protagonista e agente 1

CELAM. A evangelização no presente e no futuro da América Latina. Conclusões de Puebla. São Paulo: Loyola, 1979, nº.1192. A partir de agora esta referência será citada como Puebla. 2 DICK, Hilário. O Divino no Jovem – reflexões sobre a teologia do jovem. Porto Alegre: Evangraf, 2001, p. 13. 3 Entendemos por “Juventude Marista”, aqueles adolescentes e jovens que, de maneira autêntica, num processo de formação grupal, protagonizam a vivência da espiritualidade e do carisma marista, partilham suas vidas e seus sonhos e assumem o compromisso de concretizar a “Civilização do Amor” na sociedade. 4 Marcelino Champagnat, Fundador do Instituto dos Irmãos Maristas. 23


de transformação; na formação integral, visando favorecer o crescimento do indivíduo como totalidade humana, por graça e em comunidade Trinitária; no desejo da inserção nas pastorais de conjunto, aspirando a sermos mais eclesiais e, portanto, mais cristãos; na busca de uma espiritualidade juvenil, que fale à vida e aos anseios diferenciados da juventude5. 5. Fortalecidos pela missão da Igreja, como Instituto Marista, atuamos com um carisma específico, suscitado pelo Espírito Santo. Este carisma nos impulsiona à vida e nos convoca à missão de evangelizar, por meio da educação cristã, as crianças e jovens em ambientes formais e informais de educação, fundamentada num projeto educativo que permite desenvolver o serviço apostólico. 6 6. Percebendo a grande diversidade de rostos e manifestações, é possível dizer que existem diversas juventudes, cada uma com jeito bem próprio de se entender e construir os seus processos. A Juventude Marista, carregada de sinais e significados, sistematiza nestas Diretrizes sua pedagogia, seu modo de ser e viver o sonho de Champagnat, num processo evangelizador dinâmico. 7. Assim como Jesus formou e fortaleceu uma pequena comunidade com os que confiavam na sua proposta, também optamos pela pedagogia dos pequenos grupos. Reforçamos nossa dimensão eclesial, reconhecendo que a educação na fé tem, na comunidade, um espaço privilegiado. Participando dela e de sua vida, sinalizamos nosso compromisso com Cristo, assumido em nosso batismo.7 Proporcionamos aos jovens uma experiência de comunidade cristã, desenvolvendo o seu sentido de pertença à Igreja local. Estimulamos a sua ativa participação nas comunidades que celebram e alimentam a sua fé da Palavra e do Sacramento. 8 8. Por isso devemos aprofundar o conhecimento e a reflexão sobre a Palavra de Deus; viver o mandamento do amor de Cristo; celebrar nossa fé em comunidade; ser fermento profético; denunciar a injustiça social; e, desde já, anunciar o Evangelho e trabalhar na construção de um mundo novo como cidadãos e cidadãs sonhando transformação. 5

DICK, Hilário.Gritos silenciados, mas evidentes: jovens construindo juventude na história. São Paulo: Loyola 2003, p.14 ss. 6 Comissão Interprovincial de Educação Marista. Missão Educativa Marista: Um projeto para o nosso tempo. 3ª. Ed.São Paulo: SIMAR, 2003, nº. 134. A partir de agora esta referência será citada como MEM. 7 Cf. OLIVEIRA, Rogério. Pastoral da Juventude. E a Igreja se fez jovem. São Paulo: Paulinas, 2002, p.47. 8 MEM, op.cit., n.º 84, p.43 24


9. A dimensão eclesial é também ecumênica 9, e nos recorda a necessidade de levar uma vida cristã fraterna: viver, cada vez mais, atitudes de abertura, diálogo, respeito e acolhida ao diferente, para chegarmos à unidade da fé em Cristo em meio à pluralidade de experiências religiosas. A eclesialidade a partir do enfoque ecumênico descortina um horizonte largo e longo de relações novas a serem vividas na certeza de que, em Jesus Cristo, o Deus Criador nos reuniu. Como cristãos e cristãs revelamos que nossa vida e nossa fé se constroem no diálogo, no serviço, no anúncio e no testemunho de comunhão, exigências intrínsecas da evangelização10. 10. Para reafirmar a necessidade de imprimir um rumo à ação evangelizadora, desenvolveremos capítulos considerados fundamentais: faremos um resgate histórico para visualizar como aconteceu a inserção marista nas pastorais orgânicas e compreender a razão desta opção atual pela juventude; procuraremos visualizar a realidade juvenil e educacional em nosso contexto; retomaremos nossa visão sobre Jesus Cristo e Maria, caminho de Deus e caminho dos jovens; refletiremos sobre o carisma marista inserido na Igreja, em seu serviço junto aos adolescentes e jovens por meio de uma retomada da dimensão profética, comunitária e cidadã de nosso carisma; falaremos das opções pedagógico-pastorais no serviço à juventude, inseridas na educação; descreveremos os horizontes que nos animam em nosso trabalho pastoral; desenvolveremos os princípios norteadores que orientam nossa mística e o nosso serviço evangelizador; ater-nos-emos, de modo especial, ao ministério da assessoria e do acompanhamento. 11. A evangelização das crianças e da juventude é parte essencial do carisma Marista. Os assessores e assessoras partilham do carisma, encontrando nele força para alimentar seus sonhos e seu compromisso, na esperança de um “novo céu e de uma nova terra” (Is. 66,22.). 1.2 Recordações 12. Com o intuito de revisar, fortalecer e atualizar a ação evangelizadora com a juventude, o Instituto dos Irmãos Maristas implementou, nos últimos anos, uma avaliação da proposta de educação na vivência da fé dos jovens 9 A palavra grega “ecumênica” lembra a atitude que devemos ter em relação aos outros sistemas de crenças, sobretudo aos outros segmentos cristãos. 10 CNBB, Estudos nº. 71. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2003-2006). São Paulo: Paulinas, 2003, nº. 15.

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na América Latina e, mais recentemente, impulsionado pelo processo de reestruturação do Brasil Marista. 13. A Igreja lançou diversos documentos11 para a compreensão e a evangelização da juventude de acordo com as exigências de cada época12, por meio do setor juventude da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e do CELAM – Conselho Episcopal Latino-Americano. Vale recordar o trabalho de evangelização da juventude, incentivado pelos Documentos da Conferência de Puebla (1979), assumindo a opção preferencial da Igreja pelos pobres e pelos jovens e afirmando que esta evangelização deve levar em conta a realidade social, ajudá-los a se aprofundarem na fé, orientar uma opção vocacional e ressaltar a importância de uma metodologia transformadora13. 14. A formação do jovem inclui, necessariamente, a vivência comunitária. A educação na fé tem como espaço privilegiado a comunidade. Participando dela e ajudando a construí-la e reconstruí-la, reafirmamos nosso compromisso com Cristo. A Juventude Marista, chamada a ser testemunha profética do Reino de Deus entre as pessoas, encontra, na comunidade eclesial, um espaço para isso. 15. A vivência eclesial fortalece a opção pelo projeto do Reino de Deus e sinaliza a urgência do protagonismo. Por sua criatividade e ousadia, é confiada aos jovens a tarefa de se tornarem comunicadores e animadores de esperança e autores 14 da paz, discípulos novos, anunciando a vida, denunciando as injustiças e testemunhando os valores do Reino em suas comunidades e na sociedade. 1.3 Resgate 16. A graça do amor e da ternura de Deus tem-se revelado de diversas formas nestes últimos anos, mediante o trabalho com a Juventude Marista. O processo de reestruturação da instituição Marista tem-nos provocado a rever nossas propostas, metodologias e estruturas de atuação. Além de 11

Entre alguns documentos que contemplam a Pastoral da Juventude como uma das principais preocupações dos pastores e das comunidades, destacamos as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, CNBB. (1999-2002) nº. 236. 12 OLIVEIRA, op.cit., p.73. 13 Ibidem, p. 33. 14 Entendemos como autores as pessoas que, analisando a história, contribuem com suas inspirações e aspirações, a reescrevem de forma atualizada e cooperativa, legando sua obra a serviço da humanidade. 26


observarmos as dificuldades encontradas na sociedade, sentimos a necessidade e a importância de rever nossa caminhada percorrida. É preciso amadurecer uma proposta mais abrangente, que resgate elementos deixados à margem no decorrer do processo e fortaleça as conquistas da caminhada. Trata-se de uma proposta pedagógica que contemple o jovem na sua integralidade e em sua dinamicidade histórica, procurando não ser engessada nem estática, impelindo-nos a um renovado ardor no trabalho com a juventude. 1.4 Processo vivido 17. A construção das Diretrizes da Pastoral Juvenil Marista no Brasil relaciona-se com a história da caminhada interprovincial nos últimos decênios. Inicialmente, foi feita uma opção para a criação de um organismo que ajudasse na reflexão da identidade e da espiritualidade Marista, de forma comum, em todo o Brasil. Este organismo denominou-se EMIR15 (Equipe Marista Interprovincial de Reflexão). Isto no ano de 1972. Em 1993, este organismo foi reestruturado e passou a ser chamado SIMAR (Serviço Interprovincial Marista), sendo um serviço de apoio direto aos Provinciais. Na reestruturação, o SIMAR recebeu diferentes comissões: formação, educação, vocações, administração. No intuito de organizar o centenário da presença marista no Brasil, na década de 90, o SIMAR recebeu nova estruturação, passando a ter um organismo de caráter específico de pastoral juvenil e vocacional, com um integrante por província, juntamente com outros organismos vitais para a organização do Brasil Marista. A primeira grande ação deste organismo foi a promoção do I Encontro Nacional Marista de Jovens, em Mendes, RJ, em julho de 1996, com o lema “no peito da juventude bate um coração marista”. A experiência rica de Mendes apresentou um caráter de pluralidade e diversidade, porém sem uma proposta comum para as organizações juvenis das diferentes províncias. 18. A Comissão de Pastoral Juvenil e Vocacional continuou a refletir, partilhar e estudar as realidades das diferentes províncias, vindo a propor e realizar um Encontro Nacional de Assessores, no mês de janeiro de 1998, novamente em Mendes, RJ. Constatou-se uma fragmentação no trabalho, apesar do grande volume de ações e pessoas, entre Irmãos e leigos, na missão 15

Ata de fundação, 20 de outubro de 1972. Arquivo do SIMAR. 27


de evangelizar adolescentes e jovens por meio da experiência comunitária fomentada por diferentes grupos, nas diversas realidades. A partir daí, as reflexões, partilhas e estudos foram intensificando-se e o ano de 2000 veio a ser singular, por abrigar: a) um novo Encontro Nacional de Assessores, em janeiro, na cidade de Curitiba, PR, com uma reflexão voltada para a experiência vocacional; b) o II Encontro Nacional Marista de Jovens, em Porto Alegre, durante o mês de setembro, com o lema “pé na história, olho no futuro”. 19. Na continuidade das reflexões e estudos da contribuição marista à juventude brasileira, os anos seguintes restringiram-se a continuar pensando e fomentando eventos interprovinciais para a juventude e para os assessores, não se conseguindo estabelecer um processo comum que respeitasse as diferenças provinciais. Foi assim que se promoveu o III Encontro Nacional Marista de Jovens, em janeiro de 2003, na cidade de Natal, RN, com o lema “revele seu rosto amigo”. 20. O princípio de 2003 foi de intensas mudanças no Brasil Marista, comandadas pelas reestruturações das províncias, sob a coordenação do Conselho Geral da Congregação. O SIMAR passou a ter novas comissões, com funções redefinidas no serviço ao COLPROV (Colegiado dos Provinciais). A Comissão Nacional de Evangelização de Adolescentes e Jovens16 se responsabilizou pela ação, de caráter pastoral, dos adolescentes e jovens. Esta Comissão viu a necessidade de construir um instrumento que ajudasse a constituir a identidade da Pastoral Juvenil Marista no Brasil, buscando literatura para a fundamentação e assessoria17 na elaboração de Diretrizes. Vendo que o projeto de elaboração das Diretrizes era amplo, solicitou o apoio de um Grupo de Estudos18, formado por Irmãos e leigos das instâncias pastorais e evangelizadoras das diferentes Províncias Maristas do Brasil. Juntamente com este Grupo de Estudos, a Comissão, em todas as unidades maristas do Brasil, aplicou uma sondagem que ajudasse a “diagnosticar” a realidade da juventude marista no Brasil.

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Integravam esta Comissão: Ir. João Carlos do Prado – coordenador; Ir. Reni Voss (PMBCS); Ir. Adriano Jacó Sauer; Ir. Francisco Magalhães de Lima (PMRS); Ir. Wagner Cruz; Ir. Iranilson Correia; Steffen Simiens; Ir. Pedro Jadir Araújo de Mello (PMBCN). 17 Assessorou o trabalho de elaboração das Diretrizes o Pe. Hilário Dick S.J. 18 É um grupo teórico-prático com a responsabilidade de refletir e sistematizar o processo de construção da proposta da PJM, a serviço da Comissão de Evangelização de Adolescentes e Jovens. Composto por: Fabiano Incerti (PMBCS); Ir. Vinícios Malfatti, Leia Raquel de Almeida Heck (PMRS); Ir. Natalino Guilherme de Souza, Ana Clésia Alcântara (PMBCN). 28


Em fins de 2004, houve nova reestruturação da organização interprovincial marista do Brasil, passando a existir o COLIMAR (Colegiado Interprovincial Marista)19, que reorganizou as comissões do SIMAR, mantendo e apoiando as propostas de trabalho já existentes. A sede do SIMAR passou à cidade de Brasília. 21. A mobilização se estendeu a um grupo mais amplo de assessores e jovens de todas as Províncias do Brasil, convidados a contribuir no estudo e elaboração das Diretrizes, no Encontro Nacional de Assessores da Pastoral Juvenil Marista, realizado no mês de janeiro de 2005, na cidade de Florianópolis, SC. 22. O trabalho de elaboração das Diretrizes prosseguiu com a Comissão Nacional de Evangelização de Adolescentes e Jovens e com o Grupo de Estudos, que consideraram as contribuições do Encontro Nacional de Assessores, e o concluíram em 6 de agosto de 2005, em Campinas, São Paulo. O resultado desse processo encontra-se nestas “Diretrizes Nacionais da Pastoral Juvenil Marista”.

19 Integram o COLIMAR os Provinciais, vice-provinciais, superior do Distrito da Amazônia e presidentes das mantenedoras.

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2. FAZENDO MEMÓRIA: MARISTAS E JUVENTUDE 23. A história nos ajuda a analisar o passado, ajustar o presente e ressignificar o futuro. Nos mais de cem anos de chegada dos primeiros Irmãos Maristas ao Brasil, muitos fatores sociais, econômicos, políticos e culturais influenciaram a atuação do Instituto Marista em face do desafio da educação dos jovens brasileiros. 24. No primeiro momento, foi necessário um processo gradual de implantação da obra marista, com adaptação dos missionários às novas terras e reconhecimento da missão do Instituto pelas Dioceses, tanto por meio de seus bispos e religiosos, como do próprio povo. 25. Os anos seguintes foram de consolidação, demandando enorme esforço para resolver as possíveis crises geradas pela necessidade de aproximar a formação católica à exigência e legalidade da educação científica. A fidelidade às políticas nacionalistas e a aceitação dos moldes de educação propostos pelo governo facilitaram a identificação do Instituto com o país, deixando de lado muitas particularidades da tradição européia. 26. A expansão das obras foi conseqüência da dedicação e qualidade do trabalho realizado, seja nos grandes colégios das capitais, seja nas missões mais longínquas. A formação marista foi decisiva para a vida de muitos jovens que freqüentaram as escolas, bem como para a vida social e cultural dos locais onde as obras se encontravam. A evangelização da juventude, tanto pelo caminho da educação formal como pelas diversas atividades desenvolvidas visando à educação integral, foi e continua sendo o ideal que faz florescer o carisma legado por Champagnat. 27. Este resgate histórico quer realçar os principais momentos da ação pastoral do Instituto Marista no século XX, até o início deste novo milênio, destacando as experiências realizadas com adolescentes e jovens e sua parceria com a Igreja do Brasil, por meio das pastorais e movimentos. 28. Metodologicamente, é importante destacar alguns aspectos. Para compreender melhor a caminhada do Instituto Marista no Brasil e seu trabalho com a juventude é necessário abranger uma multiplicidade de relações. A forma de desenvolver as ações pastorais, em muitos momentos, esteve ligada a elementos sociais, culturais e políticos. Noutros, foi inspirada nos movimentos eclesiais e, em outros momentos, aos dois. Dificilmente conseguiríamos separar a caminhada marista do mundo que a cercava. Por isso achamos importante resgatar cada período, destacando, além da história do Instituto, também certas mudanças políticas, culturais e sociais. 33


29. Até os anos 50, como se a história andasse mais devagar, optamos por trabalhar sem as separações por décadas. Tal opção se justifica pelo fato de que, a partir dos anos 60, os registros históricos (atas, relatórios, bibliografias) e a tradição oral melhoram muito, possibilitando que cada década seja elaborada com mais riqueza. Outro fator que influenciou esta escolha é o fato de que, até os anos 50, a ação pastoral do Instituto, e mesmo da Igreja, junto aos jovens, se desenvolveu basicamente por meio das Associações Religiosas e da Ação Católica. A partir de 60 começam a surgir novos modelos de experiências pastorais para a juventude. 2.1 As cinco primeiras décadas 30. Ao começarmos a história dos Irmãos Maristas no Brasil é importante lembrar que o Novo Mundo se apresentava como terra a ser conquistada, sobretudo religiosamente. Os missionários maristas vindos da França, em 189720, tinham um projeto bem claro: a educação da juventude brasileira. Foram trazidos pelos bispos a um país carente de formação católica, comandado, basicamente, por positivistas, anticlericais e agnósticos. No início assumiram escolas paroquiais ou diocesanas.21 31. Até o ano de 1903 haviam sido constituídas três províncias: a do Brasil Central, que englobava os Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Goiás, São Paulo e Paraná; a Província do Brasil Meridional, que contava com os Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina; e a Província do Brasil Setentrional, que abarcava os Estados do norte e nordeste.22 Desde sua chegada ao país, os Irmãos Maristas colaboraram com o projeto pastoral da Igreja, multiplicando-se, sempre que possível, em número crescente de dioceses em que implantavam suas obras. É importante lembrar que, nas primeiras décadas da presença marista no Brasil, não havia, em âmbito eclesial, nenhum trabalho especificamente de organizações juvenis católicas,23 o que tornou a educação formal e a catequese os campos mais significativos de atuação neste período. 20

Ano da chegada dos primeiros Irmãos Maristas ao Brasil. O dia da chegada foi em 15 de outubro de 1897 no Rio de Janeiro. O destino final foi a cidade de Congonhas, MG. Fizeram parte deste primeiro grupo os Irmãos Luís Anastácio, Andrônico, Afonso Estevão, Basílio, Aloísio e João Alexandre. 21 AZZI, Riolando. História da Educação Católica no Brasil. Contribuição dos Irmãos Maristas. Vol.I. São Paulo: Loyola, 1996, p. 16. 22 EMIR - Equipe Interprovincial de Reflexão. Irmãos Maristas. Centenário no Brasil 1897-1997. Obra Comemorativa. São Paulo: FTD, 1997. 23 DICK, Hilário. O caminho se faz. História da Pastoral da Juventude do Brasil. Porto Alegre: Evangraf, 1999, p. 12-13. 34


32. Em meados dos anos 20, o Brasil vivia um período de tensão. A classe média começava a surgir, mas estava descontente com a República Velha. Havia uma descrença do modelo liberal e do florescimento dos governos autoritários, inspirados pelo fascismo italiano que, por meio da organização de grupos juvenis fascistas, e com a ajuda de alguns meios de comunicação, reforçavam o modelo autoritário. Na Alemanha, o partido nazista começava sua campanha junto à juventude que, mais tarde, conseguiu a afiliação de mais de seis milhões de jovens. 2.2 A Cultura: Do Jazz ao Rock’and Roll 33. Em 1922, inspirando-se no centenário da independência, o Brasil presenciou a Semana de Arte Moderna, em que ex-alunos maristas, como Oswald de Andrade, exerceram grande influência. Impulsionada pela presença de jovens e brilhantes nomes das artes e da cultural nacional, esta semana representou uma mudança de paradigma que repercute na cultura, até hoje. Além de Oswald de Andrade, despontaram também, Menotti del Picchia, Mário de Andrade, Anita Malfatti, entre outros. 34. No final dos anos 20, mas principalmente na década de 1930, uma série de manifestações culturais – vinculadas a uma nascente indústria de lazer – emergia poderosamente, atingindo todos os segmentos sociais do mundo urbanizado, principalmente a juventude. O rádio, o cinema e a música popular avançavam a grandes saltos. Começava-se a viver então a chamada Era da Cultura de Massas. Em 1938 surgiria o mais famoso serviço radiofônico do planeta, a BBC (British Broadcasting Corporation), cujo papel na resistência ao nazismo foi inigualável. 35. Nos anos 40 e primeira metade dos 50, as chanchadas, comédias musicais de visão malandra/carioca, ampliaram a identidade brasileira, tornando-se até mesmo produto de exportação. Mas não durou muito. A impregnação do cinema norte-americano se tornou intensa, “ocupando o espaço da imaginação coletiva e modelando formas superficiais de comportamento da juventude”, até que o modelo cinematográfico nacional definhou e desapareceu.24 36. Inspirada no modelo Elvis Presley e James Dean, os anos 50 foram conhecidos como “os Anos Dourados” e trouxeram um novo estilo para a 24

Extraído do sítio: www.portaldasartes.com.br. 35


juventude. Culturalmente, o Rock ‘n Roll representou o maior produto de massa comercializado na década. No Brasil, a chegada da televisão possibilitou o início da transmissão das novelas e outros programas que possibilitavam o entretenimento dos brasileiros.25 2.3 A Política: os 50 anos em cinco 37. No Brasil, as cinco primeiras décadas do século XX foram momentos de profundas transformações. De 1926 a 1930, o presidente foi Washington Luís e, durante o seu governo, o país entrou numa intensa crise. O abalo na economia americana de 1929, provocada pela quebra na bolsa de valores de New York, deixou o Brasil e grande parte do mundo em colapso econômico. 38. Com a Revolução de 30, começava a Era Vargas. Getúlio Vargas foi eleito presidente pelo Congresso, em julho de 1934, e exerceu o mandato constitucional até o golpe do Estado Novo, em novembro de 1937. O Estado Novo durou oito anos. Começou com o golpe de 10 de novembro de 1937. Seguiu um modelo autoritário, inspirado no fascismo europeu e teve seu ápice em 1939, com a criação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), responsável pela propaganda do governo e, principalmente, pela censura aos meios de comunicação e à cultura em geral. 39. Um grande número de jovens escritores, artistas, músicos, arquitetos, cineastas e professores acabaram colaborando com o sistema de Vargas. Eles ocuparam cargos importantes na nascente burocracia cultural e educacional, realizaram projetos financiados pelo governo ou, ainda, produziram espetáculos que exaltavam a nação, dentro da ótica do Estado Novo. O próprio Getúlio Vargas se aproveitou dos meios de comunicação de massa para atingir a população, especialmente os jovens. Não apenas sabia falar, mas tratou de instrumentalizar o rádio e o cinema para seus objetivos políticos. 40. A juventude brasileira teve uma forte representação de oposição ao sistema autoritário com a fundação da UNE, União Nacional dos Estudantes, em 11 de agosto de 1937. Muitas causas foram reclamadas pela juventude universitária da época, principalmente a nacionalização do petróleo e fundação da Petrobrás. 25

DICK, Hilário. Gritos silenciados, mas evidentes, op. cit., p. 242ss. 36


41. No início dos anos 40 o governo alcançou certa estabilidade. Os inimigos políticos estavam calados e as ações conciliatórias com os diversos setores da burguesia evitavam oposições. A Segunda Guerra Mundial era o cenário político mundial. Hitler, através da Hitlerjugend 26, buscava filiar jovens dispostos a lutar pela causa do nazismo. Hitler encontrou força e determinação na juventude alemã de seu tempo e soube aproveitá-la de forma avassaladora. No Brasil, Getúlio governou o país, impondo o Nacionalismo e o Brasil cresceu economicamente. O Estado Novo se estendeu até 29 de outubro de 1945, quando Getúlio foi deposto pelos militares. 42. Além de uma diversidade enorme de produções artísticas e culturais, que influenciaram de maneira direta a juventude, a década de 40 assistiu ao final da Segunda Guerra Mundial e o início da “Guerra Fria”. O mundo estava dividido em dois blocos: comunistas e capitalistas. O comunismo era liderado pela URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) e o capitalismo tinha sua força nos EUA. A”“Guerra Fria” foi um confronto indireto marcado pela “disputa ideológica” entre as duas grandes potências mundiais. 43. Em 24 de agosto de 1954, os militares, liderados por Eurico Gaspar Dutra, pediram que Getúlio Vargas renunciasse. No entanto, a resposta de Vargas foi dada em 25 de agosto de 1954, com seu suicídio. Juscelino Kubitschek ganhou as eleições e governou de 1956 até 1960. Com o lema “50 anos em 5”, Juscelino governou trazendo para o Brasil os supermercados (1957) e a indústria automobilística (1958). Seu grande feito político foi a construção de Brasília, inaugurada em 1960, transferindo para lá a capital do Brasil. 2.4 A Religião: As Associações Religiosas 44. No âmbito religioso, o trabalho com a juventude, nas cinco primeiras décadas do século XX, se desenvolveu no Brasil por meio das Associações Religiosas, especialmente as Congregações Marianas e as Cruzadas Eucarísticas. Elas tiveram grande influência na formação dos adolescentes e jovens católicos e, conseqüentemente, nos alunos maristas. A partir da década de 30, também teve vigor a Ação Católica. Enquanto o papel do Ensino Religioso era garantir uma formação religiosa mais ampla, oferecida a todos os alunos, essas Associações trabalhavam com grupos interessados no aprofundamento de sua fé. 26

Juventude Hitlerista. 37


2.4.1 As Congregações Marianas 45. As Congregações Marianas buscavam uma prática mais efetiva da religião sob o olhar e exemplo de Maria. Nas escolas maristas, as Congregações Marianas tiveram grande difusão, atraindo muitos jovens para suas fileiras, empenhados na transformação do mundo cristão.27 46. Em 1931, o boletim Marista do Brasil Meridional trazia a seguinte notícia sobre a importância dessa associação: “A Congregação Mariana ocupa o primeiro lugar entre as obras estabelecidas para a formação e perseverança de nossos alunos”28 para o incentivo da fé católica, bem como de nucleação e mobilização da juventude. 47. Na década de 40, essas Congregações foram avaliadas como positivas na opinião dos alunos do Colégio Marista de Recife e, igualmente, ganhavam força no Colégio Marista, de Salvador. No externato São José, do Rio de Janeiro, as Congregações Marianas contavam, em 1955, com 71 alunos do curso científico e 36 do ginásio, com 31 candidatos à admissão. No Colégio Marista de Uberaba, em Minas Gerais, um grande número de alunos fazia parte dos congregados, no final dos anos 50. 48. O protagonismo juvenil começou a ter espaço nos encontros dos congregados do Colégio Arquidiocesano de São Paulo, como assinala uma crônica de 1955: Nas reuniões em que o Irmão deixou que os próprios membros dirigissem o andamento dos trabalhos, foram abordados temas como namoro, baile, seus objetivos e estudos.29 2. 4.2 As Cruzadas Eucarísticas 49. Outra Associação, de grande sucesso nas obras maristas, foram as Cruzadas Eucarísticas. Instituídas na primeira metade do século XX, atendendo ao apelo do Papa Pio X, almejavam possibilitar o fácil acesso das crianças à comunhão sacramental. A exortação papal pedia que os meninos do mundo inteiro salvassem a sociedade, formando o Exército do Apostolado. Em 1922, Bento XV convocou o exército juvenil da cruzada eucarística 27

AZZI, Riolando. História da Educação Católica no Brasil. Contribuição dos Irmãos Maristas. Vol.II. São Paulo: Loyola, 1996, p. 151. 28 AZZI, Riolando. Vol.I., op.cit., p. 311 29 AZZI, Riolando História da Educação Católica no Brasil. Contribuição dos Irmãos Maristas. Vol.III. São Paulo: Loyola, 1999, p.148. 38


para socorrer o catolicismo e Pio XI declarava: “Os cruzados formam a primeira linha do exército do apostolado”.30 50. Para demonstrar a adesão à fé católica, cada cruzado recebia um distintivo ou escudo. As reuniões eram presididas por Irmãos que recomendavam a assistência à missa nas quintas e domingos, a prática da confissão e da comunhão, e a aplicação ao estudo e o respeito às autoridades constituídas.31 51. Os grupos de alunos que pertenciam a essas Associações eram considerados pelos Irmãos como a “elite” do colégio, como destaca o comentário do informativo Eco do Colégio Arquidiocesano, de 1954: “Os cruzados, os marianinhos e os congregados querem e devem ser parte viva, presente e orgânica da vida estudantil, para melhorá-la sob todos os aspectos: conduta, estudos, esporte e atuação nas famílias.”32 52. No Colégio Rosário, de Porto Alegre, as Cruzadas Eucarísticas tiveram seu início em 1940, com a nucleação dos seus primeiros membros. Os congregados participavam da Missa quase diariamente e tinham por lema: “Reza, comunga, sacrifica-te e sê apóstolo.”33 2.4.3 A Ação Católica 53. Em 1930, o Papa Pio XI lançou a Ação Católica. Ela tinha como objetivo principal recuperar a credibilidade da Igreja, difundindo os princípios católicos na vida individual, social e familiar. 34 A Ação Católica teve grande aceitação junto aos leigos, fazendo uma releitura da literatura, da filosofia, da arte, da política e de diversos outros campos do conhecimento. Nas palavras do Papa: “Não há tempo nem lugar melhor que as escolas e colégios para educar a juventude na Ação Católica.” Formada por classes sociais mais ricas, era dividida em quatro grupos: Juventude Católica Brasileira, Homens da Ação Católica, Liga Feminina Católica e Juventude Feminina Católica. Participando desses grupos, os leigos tiveram oportunidade de auxiliar a Ação Pastoral da Igreja, que passou a acontecer de forma mais orgânica. A Ação Católica Geral teve seu fim em 1950, dando espaço para o surgimento da Ação Católica Especializada.35 30

AZZI, Riolando Vol. II, op.cit., p. 108. Idem, p. 109. 32 AZZI, Riolando. Vol. III, op. cit., p.147 33 AZZI, Riolando. Vol. I., op.cit., p.314. 34 OLIVEIRA, op.cit., p. 14. 35 Idem, p 16. 31

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54. Com o objetivo de proporcionar ao jovem uma ação evangelizadora concreta em seu meio e utilizando o método ver, julgar e agir, a Ação Católica Especializada, iniciada em 1950, possibilitou o protagonismo juvenil, começando pelo meio operário. O primeiro grande grupo surgido no Brasil foi a Juventude Operária Católica (JOC). No entanto, a Ação Católica Especializada não se reduziu aos operários; sua atuação abrangeu as escolas, universidades, fábricas e fazendas. Cada meio social deveria ser evangelizado a partir de sua realidade. Formaram-se então diversos segmentos como a JAC (Juventude Agrária Católica), que se ocupou da juventude do campo; a JEC (Juventude Estudantil Católica), que nucleava grupos de estudantes para atuação em seu meio; a JIC (Juventude Independente Católica), formada basicamente pela classe média, de cunho mais espiritual e menos engajado socialmente; e a JUC (Juventude Universitária Católica), que atuava no meio universitário, articulando fé, ciência e política. Neste período, a UNE e a JUC já buscavam articulação. 55. Nas escolas maristas da Província do Brasil Norte, nos anos 50, prosperaram muitos grupos da JEC. Os jovens que participaram desses grupos, mais tarde ingressaram na JUC e foram grandes líderes do cenário político nacional. Houve grande impulso na atualização pedagógica, catequética e pastoral, com ênfase nos movimentos juvenis e nas associações religiosas.36 56. A presença da juventude estudantil também foi marcante nos colégios maristas da cidade São Paulo. Os jovens eram nucleados e assessorados por um Irmão, desenvolvendo diversas atividades, entre elas a Páscoa do Estudante, no primeiro semestre, e a Semana do Estudante no segundo.37 57. Em Uberaba, no Colégio Diocesano, a Ação Católica obteve igualmente boa representatividade. Em 1950 a JEC era muito atuante e havia a participação e coordenação de Irmãos maristas e padres da região. 58. No Rio Grande do Sul, a Juventude da Ação Católica Brasileira se reuniu em 1934. Em maio de 1940 os jovens do Colégio Rosário participaram da primeira mobilização da Juventude Católica Brasileira no Rio Grande do Sul. Às vésperas do Golpe de 64, a JEC se abriu para temáticas populares e se inseriu em comunidades de excluídos, incentivando o protagonismo juvenil.38 A Ação Católica, através da JEC, teve papel fun36

AZZI, Riolando. V III. op. cit., p. 349 Idem, p. 149. 38 Para este trabalho de abertura e inserção esteve à frente o Irmão Antônio Cechin. 37

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damental para o desenvolvimento do trabalho juvenil na Igreja e nas escolas maristas, colaborando na própria renovação eclesial proposta pelo Vaticano II39. 2.4.4 O Escotismo Católico 59. Outro movimento que teve boa aceitação nas escolas maristas foi o Escotismo Católico. Durante muitos anos ele serviu como mobilizador e formador da juventude. Em 1917, se formou o primeiro grupo de escoteiros católicos do Brasil. Oito meninos do Rio de Janeiro acrescentaram o distintivo da cruz ao uniforme de escoteiro. Em 1930 eram 815 grupos, com mais de 8000 escoteiros católicos. Peixoto Fortuna, chefe nacional da Federação dos Escoteiros Católicos, dizia que “o escoteirismo católico brasileiro quer fazer acontecer a educação integral da juventude brasileira.”40 60. O primeiro grupo de escoteiros maristas foi criado nos anos 30 e em pouco tempo o escotismo estava presente em praticamente todo Brasil. Três elementos eram importantes na formação do escoteiro marista: espírito de sacrifício, prática da disciplina e capacidade de iniciativa. Os grupos eram coordenados por Irmãos e buscavam uma formação integral, fazendo despertar no jovem o amor pela natureza41. 2.5 Os anos 60 61. Conhecida como a década das revoluções, a década de 60 se caracterizou como o período de grandes descobertas em diversos campos, como o comportamental, o científico e o cultural42. Foi a década que consagrou os Beatles e os Rolling Stones. Os estúdios de cinema produziram filmes sobre adolescentes rebeldes, apostando na alegria da juventude. Foi lançada a pílula anticoncepcional e o homem conquistou o espaço e pisou na lua. Foram os anos da morte de John Kennedy e de Martin Luther King e do Woodstock, festival de música que reuniu mais de 400 mil jovens numa fazenda dos Estados Unidos. 62. Culturalmente, no Brasil explodiram diversos movimentos alternativos, buscando uma identidade para a juventude brasileira. A Jovem 39

OLIVEIRA, op. cit., p. 17-18. AZZI, Riolando. V III. op.cit., p.165. 41 Estiveram à frente da transição os Irmãos Gobriano Maria e Egídio Luiz Setti. 42 DICK, Hilário. Gritos silenciados, mas evidentes, op.cit., p. 244-245. 40

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Guarda e a Bossa Nova geraram um fascínio junto à juventude. Foram lançados diversos músicos e artistas e fizeram grande sucesso os Festivais da Canção Popular da Record, o teatro de Arena, o Cinema Novo e o Centro Popular de Cultura. Surgiu o Tropicalismo, sob a liderança de Caetano Veloso e Gilberto Gil. No mundo inteiro, mas especialmente no Brasil, brotavam movimentos da contracultura e da rebelião juvenil, especialmente nos campi universitários. 63. Politicamente, em 1961, aconteceu a renuncia de Jânio Quadros e, em 1964 o golpe militar. O Comando Revolucionário que assumiu o poder decretou, mediante o Ato Institucional nº. 1, a escolha de um novo presidente pelo Congresso Nacional. O escolhido foi o Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, chefe do Estado-Maior do Exército e teve seu mandato prorrogado até 15 de março de 1967. 64. O Ato Institucional nº. 1 implantou a suspensão dos direitos políticos de qualquer cidadão durante dez anos, o que possibilitou a cassação de muitos mandatos parlamentares. Em fins de 1966, o Congresso Nacional foi fechado e, no inicio do ano seguinte, foi convocado para aprovar uma nova Constituição, promulgada em 24 de janeiro de 1967. No dia 13 de dezembro de 1968, o presidente assinou o Ato Institucional nº. 5, uma das expressões mais duras, antidemocráticas e ditatoriais, deixando o Congresso e o povo brasileiro com certa capitis diminutio, ainda que o Brasil contasse com outorga constitucional em plena vigência com o funcionamento do poder judiciário. Suspenderam-se os direitos políticos. Numerosas pessoas, sobretudo jovens estudantes, políticos, religiosos e artistas, foram atingidos.43 65. Costa e Silva governou de 15 de março de 1967 a 31 de agosto de 1969. A UNE, apesar de extinta, promoveu várias passeatas em todo o país. Aos jovens estudantes se juntaram alguns representantes da classe política, do meio artístico, da Igreja e das classes trabalhadoras.44 2.5.1 A Igreja e a juventude nos anos 60 66. As grandes transformações não ocorreram somente no âmbito político e cultural. O Concílio Vaticano II, realizado na primeira metade da década de 1960, representou a implantação de um novo modelo de 43

Em 28 de março de 1968, foi morto no Rio de Janeiro o estudante Edson Luis de Lima Souto. Seu enterro teve a presença de mais de 50 mil pessoas. 44 Extraído do sítio: www.brasilescola.com/historiab/costa-silva.htm em 15/10/2004. 42


Igreja: além de mudanças na dimensão clerical, possibilitou que os leigos passassem a ocupar um espaço mais expressivo no corpo eclesial. Para o Instituto Marista, dois aspectos do Vaticano II influenciaram definitivamente uma atitude mais democrática dos Irmãos nas comunidades em que se encontravam insertos e o abandono dos emblemas de distinção do antigo regime, especialmente a batina.45 67. Em 1968 foi realizada a Conferencia Episcopal de Medellín, dedicando um de seus capítulos para a juventude, chamando-a de “força social de pressão”. A Conferência de Medellín teve papel importante, traduzindo para a América Latina as conclusões assumidas pelo Concílio Vaticano II. 68. No Brasil, a Igreja havia manifestado abertura aos movimentos da Ação Católica. Em 1966, em virtude da radicalização política da JUC e da JOC, diversos conflitos se geraram com o governo militar e com a própria Igreja, marcando o fim dos movimentos e da própria AC. Com a imposição do Ato Institucional nº.5 padres e jovens foram torturados e mortos em Porto Alegre, Recife, São Paulo e Novo Hamburgo.46 2.5.2 O marista e a juventude nos anos 60 69. Nas Províncias Maristas do Brasil, a partir da década de 60, os Irmãos começaram a ser mais liberados para o trabalho junto aos movimentos eclesiais e juvenis, abrindo gradativamente as portas das obras à comunidade. 70. No anos de 1951, da Província Marista Meridional, com sede em Porto Alegre, se destacou a Província de Santa Catarina, com sede em Passo Fundo. Em 1964, da Província Meridional se destacou a Província de Caxias, com sede em Caxias do Sul, mas em 1974, esta foi reincorporada à Província Meridional, continuando a sede em Porto Alegre. Ainda em 1964, da Província de Santa Catarina se destacou a Província de Santa Maria, ao passo que a Província de Santa Catarina fixou sua sede em Jaragua do Sul e, posteriormente, em Florianópolis.47

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AZZI, Riolando. História da Educação Católica no Brasil. Vol IV. (Obra ainda não publicada). AZZI, Riolando. Vol. III. op. cit., p. 22-23. Entre eles o Pe. Antônio Henrique Pereira Neto, jovem secretário de Dom Hélder; o dominicano frei Tito de Alencar, os padres Rodolfo Lukenbein e João Bosco Penido Burnier, sem falar dos que não eram do clero. 47 O primeiro superior da Província de Santa Maria foi o Irmão Arlindo Mombach; de Porto Alegre, o Irmão Lino Hass; de Caxias, o Irmão Amábile Biazuz. 46

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71. Desde 1965, buscou-se intensificar uma intenção comum entre as diversas obras e províncias maristas para uma ação mais ampla com a juventude. Nesse período, a Juventude Estudantil Católica ainda tentava articular sua organização com os Grêmios Estudantis, servindo como nucleadores da juventude católica.48 72. Em 1969, após a extinção da Ação Católica Especializada, muitos Irmãos, de todas as Províncias do Brasil, foram convidados a participar do Curso para Lideranças Juvenis, encontro de Formação realizado na Colômbia. Voltando para o Brasil, os Irmãos das Províncias de São Paulo e do Rio de Janeiro desenvolveram diversos encontros que duravam, às vezes, uma semana, com centenas de jovens, nas cidades de Mendes, RJ, e Curitiba, PR. Em Mendes, a guarnição militar, com sede na cidade de Vassouras, interferiu por duas vezes nos encontros, pensando que os Irmãos estariam criando movimentos considerados subversivos e revolucionários.49 73. Alguns Irmãos50 foram convidados para assessorar grupos de jovens e de religiosos por todo Brasil. Outros, da Província do Brasil Norte e da Província de Porto Alegre, participaram de movimentos sociais, desenvolvendo trabalhos com a juventude excluída e marginalizada. No final dos anos 60, influenciado pelo concílio Vaticano II, pelos Sínodos promovidos pelo CELAM e pelas idéias de Paulo Freire, nasceu na Província de Porto Alegre, o CETA51, Centro de Treinamento pela Ação. O Movimento CETA, por meio do método ver-julgar-agir, buscava levar o jovem a transformar-se num agente da ação evangelizadora. O Encontro, que durava 20 dias, em três anos consecutivos, tinha por objetivo desenvolver a liderança, por meio do espírito de criatividade, inovação e formação da consciência crítica, em vistas da evangelização de outros jovens. Aqueles que completavam as etapas eram denominados de Peregrinos. Em toda sua história o CETA conseguiu formar uma dúzia de Peregrinos, mas centenas jovens passaram por pelo menos uma etapa dos encontros. O CETA foi reconhecido pela Arquidiocese de Porto Alegre, no período de sua existência, como legítimo movimento da Igreja dedicado à formação de jovens.

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Ata da Assembléia Provincial. Comissão de Pastoral da Juventude. São Paulo, 1992. Arquivo Centro Marista Marcelino Champagnat, Curitiba, Paraná. 49 Entrevista com Irmão Gilberto Rocha - Superior do Lar São José, em São José dos Pinhais, PR. 50 Especialmente Irmão Joaquim Panini. 51 Estiveram à frente do CETA, desde seu início, os Irmãos Antônio Bortolini, Firmino C. Biazuz e Albino Trevisan. 44


2.6 Os anos 70 74. Nos anos 70 o mundo assistiu a duas situações: de um lado, uma juventude que se insurgia criticamente contra os regimes autoritários, na América Latina e contra instituições “democráticas” na América do Norte e na Europa e, do outro lado, uma juventude não-revolucionária, no sentido da tomada do poder político, mas duramente crítica com os costumes vigentes na sociedade de então, buscando a criação de sociedades alternativas. Um exemplo foi o movimento Hippie. 75. Culturalmente, o mundo viu surgir e morrer, especialmente de superdose, Jimi Hendrix e Janis Joplin, ídolos da juventude. Em Nova York aconteceu a primeira passeata de homossexuais; os punks, representados pela banda Ramones, apareceram no Reino Unido, anunciando um mundo e uma juventude sem perspectivas. É importante salientar o surgimento das culturas juvenis das periferias, desde os punks, no final dos anos 70, até os grupos de hip hop em São Paulo, Brasília e outras metrópoles, até o reggae no Maranhão, o Mangue Beat, em Recife etc. 76. Socialmente, foi ao mesmo tempo uma década de grandes avanços para o feminismo no Brasil. Leila Diniz é considerada um símbolo do feminismo, explorando sua gravidez e sensualidade. Em 1975, a ONU declarava o Ano Internacional da Mulher. Em 1977 foi aprovada a lei do divórcio e, em 1978, nasceu o primeiro bebê de proveta. A televisão discutia muitas questões feministas por meio da “TV Mulher” e “Malu Mulher.”52 77. Enquanto a repressão militar censurava centenas de filmes e músicas, oferecia-se à população “pão e circo”. Foi a saída encontrada pelo governo para esconder a tortura política e social. O futebol se tornou, definitivamente, a “paixão nacional”, impulsionado pela conquista do tricampeonato mundial de futebol, no México. Ao mesmo tempo, foram construídas grandes obras, como a Itaipu Binacional e a Transamazônica.53 78. No campo político, o general Emílio Garrastazu Médici governou até 15 de março de 1974. Foram os anos mais duros do governo militar, com o silenciamento total das oposições. Depois do AI-5 não havia mais nenhuma possibilidade de oposição legal ao governo. Por isso alguns grupos de esquerda decidiram iniciar a luta armada contra o regime militar, num 52 DICK, Hilário. A Juventude no Século XX, in Revista PJ a Caminho, nº. 86, outubro/dezembro de 2001, p. 23-42. 53 Idem, p. 34

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movimento que ficou conhecido como guerrilha urbana. Fizeram parte desses movimentos principalmente estudantes, intelectuais e alguns militares. Em 1977, a UNE reconquista sua legalidade e caminha firme para conscientização política da juventude. 79. Assumiu a presidência o General Ernesto Geisel, que governou de 15 de março de 1974 até 15 de março de 1979. Em 1977, o presidente fechou o Congresso e impôs um conjunto de leis que ficou conhecido como “pacote de abril”, determinando eleições indiretas para os governos dos Estados. Antes do final de seu governo, Geisel suspendeu a censura prévia à imprensa, revogou atos de banimento de presos políticos e revogou o AI-5, mas manteve mecanismos legais que concentravam imensos poderes nas mãos do presidente.54 2.6.1 A Igreja nos anos 70 80. No âmbito eclesial, a evangelização da juventude, nas paróquias, era feita especialmente por movimentos que valorizavam aspectos subjetivos da religiosidade, colocando de lado os aspectos políticos. Alguns exemplos são os movimentos Emaús, que seguia a metodologia dos Cursilhos de Cristandade; o TLC (Treinamento de Liderança Cristã), “Shalom” e Escalada. Eram encontros de final de semana, que buscavam resolver os problemas cotidianos, acentuando a dimensão espiritual, evitando falar de política.”55 81. Apareceram também os Movimentos Internacionais da Juventude, organizados de forma independente das atividades diocesanas. Entre os mais conhecidos estavam o Movimento Geração Nova, criado na Itália, a Renovação Carismática Católica, inspirada no modelo pentecostal americano e o movimento conhecido como Comunhão e Libertação, também da Itália, dando origem às Comunidades Universitárias de Base.56 82. Em 1974 foi elaborado, em São Paulo, um importante documento conhecido como Princípios e Diretrizes para a Pastoral da Juventude, que apresentava uma Pastoral Juvenil orgânica e articulada em vários níveis, em todo o país. Depois de dois Encontros Nacionais que não repercutiram muito na caminhada da PJ, em 1978 aconteceu o 3º Encontro Nacional 54

Extraída do sitio: www.brasilescola.com/historiab/ernesto-geisel.htm, em 16 /10/2004. DICK, Hilário Dick. Gritos silenciados, mas evidentes. op.cit. p. 287. 56 OLIVEIRA, op.cit., p. 23“ 55

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desta Pastoral. Optou-se pelos mais pobres e pela utilização do método Ver-Julgar e Agir. 83. Em 1979, reunidos em Puebla, os bispos da América Latina fizeram uma opção preferencial pelos jovens, incentivando a caminhada da Pastoral da Juventude se iniciava no Brasil. A Pastoral Juventude Orgânica foi sendo gestada nesse período por iniciativa da própria CNBB e iluminada por um novo modelo de Igreja Latino-Americana que vinha sendo construído por meio das conclusões e encaminhamentos das Conferências dos Bispos da América Latina, ocorridas em Medellín e Puebla, tanto assim que, no final desta década, surgiram a Pastoral Universitária e a Pastoral da Juventude do Meio Popular. 2.6.2 O Marista e sua juventude nos anos 70 84. Com o intuito de garantir a organização e a unicidade do apostolado Marista no Brasil, nasceu, em 2 de setembro de 1972, a EMIR (Equipe Marista Interprovincial de Reflexão)57. Cabia a este órgão prestar assessoria em diversas áreas, principalmente a religiosa, para as províncias do Brasil, sendo responsável pelo lançamento e manutenção, entre outros subsídios, pela revista “Presença Marista”. 85. Outro órgão marista de projeção nacional foi criado em 1974 e chamado SIMAV – Serviço Interprovincial de Animação Vocacional.58 O SIMAV tinha por objetivo principal garantir a animação vocacional no Brasil Marista, desenvolvendo materiais promocionais e integrando ações nesta dimensão para todas as Províncias. Foi o SIMAV que possibilitou as primeiras reflexões sobre uma linha de ação comum para a Pastoral Juvenil Marista, analisando as diversas experiências das Províncias do Brasil. 86. Enquanto isso, nas obras maristas o trabalho com a juventude se desenvolveu de forma muito diferente entre as diversas províncias. Nas Províncias de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, em 1970 passou a 57 A EMIR, que mais tarde se tornará SIMAR, foi um órgão decisivo para a caminhada da Pastoral Juvenil Marista em nível Nacional como também referência para as províncias. Cf. Ata nº. 03 de 26 de dezembro de 1972: “A EQUIPE MARISTA INTERPROVINCIAL DE REFLEXÃO (EMIR) é uma equipe de ação refletida em âmbito interprovincial que tem por objetivo fazer acontecer o projeto de vida marista hoje no Brasil.” 58 Segundo a Ata nº. 1 do SIMAV de 11 de março de 1974 fizeram parte da primeira equipe: Irmão Adélio Vier - Província de Santa Maria, Irmão Erno Christ - Província de Porto Alegre, Irmão José Milson Melo de Souza Província do Brasil Norte, Irmão Orestes Bertoldi - Província de São Paulo, Irmão Claudino Falchetto - Província do Rio de Janeiro, Irmão Paulo Pasin - Província de Caxias do Sul, Irmão Ivo Strobino - Província de Santa Catarina, Irmão Paulo Urbano Portugal - Província do Rio de Janeiro. (No período de duração do SIMAV as equipes de Irmãos eram alternadas, mas sempre mantendo um representante de cada Província do Brasil)

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realizar-se o Curso para Líderes Cristãos. Por algum tempo o movimento foi muito forte nas escolas. Em 1977, foram realizados os Concílios de Jovens, conhecidos também como Encontrões.59 87. Na Província de Santa Catarina desenvolveram-se diversas atividades extraclasse com os alunos, além de atividades isoladas feitas pelos Irmãos, incluindo o recrutamento vocacional. Nesse aspecto, multiplicaramse as oficinas de técnica de trabalho e houve aprimoramento das fases de formação marista, por meio dos juvenatos, noviciados e escolasticados.60 88. No Colégio Marista de Goiânia, na Província do Rio de Janeiro, a formação religiosa dos alunos ganhou especial atenção. Em 1978, foi formada a primeira equipe de Pastoral do Colégio61, assessorando a formação dos professores, as liturgias e as atividades extraclasse. Em 1979, foi elaborado um cronograma anual de atividades pastorais que, além das aulas de Ensino Religioso, garantiram a realização do I Encontro Marial62. Em 1980, foi realizado o II Encontro Marial e o retiro dos Professores. 89. Na Província de Porto Alegre a participação dos Irmãos Maristas63 foi essencial para a organização e desenvolvimento das CEB’s – Comunidades Eclesiais de Base – durante toda a década de 70. Houve inserção junto à juventude das periferias e um trabalho ligado à Comissão da Pastoral da Terra. Em 1979, de 7 a 10 de setembro, o Colégio Marista, da cidade de São Gabriel, RS, foi sede do I Encontro Intereclesial de CEB’s do Rio Grande do Sul. 90. Buscando redimensionar a identidade marista pós-concílio e póscapítulo, em 1977, a Província Marista da Colômbia lançou o Plano REMAR64. Fruto de um processo de adaptação às exigências dos novos tempos e mantendo-se fiel à Igreja e ao carisma institucional, o Plano REMAR abrangeu diversas dimensões da vida escolar e institucional, especialmente o trabalho com a juventude.65

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Segundo a Ata da Assembléia Provincial. Comissão de Pastoral da Juventude. São Paulo, 1992. Arquivo CMMC, Curitiba, Paraná. 60 AZZI, Riolando. Vol. III. op. cit., p. 228. 61 A equipe foi coordenada pela Irmã Amarylles Brent Drumond. 62 Encontro realizado pelo Irmão Aleixo Maria Autran. 63 Neste período o Irmão Antônio Cechin assessorou as CEB´s e a CPT. 64 Movimento de Renovação Marista, planejado a partir de 1976 e oficializado em 16 de fevereiro de 1977, na Província Marista da Colômbia. Fizeram parte da elaboração do Plano os Irmãos Nestor Quiceno, Jaime Lopez e Victorino González.’ 65 DEPINÉ, Hugo. MASSALAI, Locimar. SPERANDIO Joaquim. UNTERBERGER Frederico. Fundamentos e Processo do REMAR. Florianópolis, maio de 1993. Arquivo do CMMC, Curitiba, PR. 48


2.7 Os anos 80 91. A partir dos anos 80, novas questões começaram a definir a condição juvenil e novos espaços de vivência começaram a ganhar significado. Cultural e socialmente, muitos elementos influenciaram a juventude desta época. Houve a explosão da Aids, que modificou os modelos de família e as discussões sobre o sexo. A queda do muro de Berlim e o massacre na Praça da Paz Celestial, na capital chinesa, em 1989, foram outros fatos marcantes desta década. Michel Jackson e Madona se tornam grandes ídolos da juventude mundial. No Brasil, surgiram muitas bandas e cresceu o conhecido “rock nacional”. O Rock in Rio, em Jacarepaguá, reuniu mais de 1.380.000 jovens. Entre os adolescentes nasceu o fenômeno Xuxa, que se tornou a “rainha dos baixinhos.” 92. Politicamente, o general João Figueiredo assumiu a Presidência em 15 de março de 1979. Logo no início de seu governo enfrentou os resultados do fim do “milagre econômico”. A taxa de crescimento do PIB caiu rapidamente, chegando a menos 4%, em 1983. A crise econômica significava também desemprego e queda do poder aquisitivo dos salários, comprometidos pela inflação. Em agosto de 1979 foi assinada a Lei da Anistia, suspendendo as penalidades impostas aos opositores do regime militar. Em 1983, a sociedade brasileira começou a organizar a campanha das diretas-já, propondo a realização de eleições diretas para a presidência da República, ainda em 1984. No dia 15 de janeiro de 1985, Tancredo foi eleito presidente pelo Congresso Nacional, sendo o primeiro presidente civil depois de vinte e um anos de governos militares.66 Com a morte de Tancredo Neves, em 21 de abril de 1985, assumiu a Presidência, em caráter definitivo, o vice José Sarney, que procurou dar seqüência ao projeto de redemocratização do país. No dia 5 de outubro de 1988, foi promulgada a nova Constituição Brasileira. 93. Do ponto de vista econômico, o governo Sarney foi muito conturbado. Em quatro anos foram decretados quatro planos econômicos: em 1985, o Plano Cruzado; em 1986, o Plano Cruzado II; em 1987, o Plano Bresser; e, em 1989, o Plano Verão. A inflação atingiu o recorde de taxa anual de 1.782%

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Extraído do sítio: http://www.brasilescola.com/historiab/jose-sarney.htm em 20 /10/2004. 49


2.7.1 A Igreja e a Pastoral da Juventude nos anos 80 94. A Pastoral da Juventude, na década de 80, iniciou-se com a sistematização pedagógica desta Pastoral, feita por um grupo de assessores e jovens, em nível nacional. Em 1983 a CNBB votou, para o próximo quadriênio, o destaque “juventude”. Também se realizou nesse ano o 4º Encontro Nacional e o 1º Encontro Latino-Americano de Jovens, em Bogotá. A Pastoral da Juventude Estudantil, criada em 1984, procurou recuperar os grandes enfoques e a pedagogia da Juventude Estudantil Católica, adaptando-os a outro contexto social e à realidade estudantil.67 95. Em 1985, o 6º Encontro Nacional da Pastoral da Juventude aproveitou a declaração do Ano Internacional da Juventude pela ONU (Organização das Nações Unidas) e, como gesto concreto e momento privilegiado de evangelização, assumiu a celebração do Dia Nacional da Juventude.68 Em 1987, o 7º Encontro Nacional da Pastoral da Juventude passou a ter caráter de Assembléia, constituindo-se o órgão máximo de decisões da entidade. Nesta década a Pastoral da Juventude caracterizou-se como um dos maiores movimentos mobilizadores da juventude em todo o continente americano.69 2.7.2 O Marista e sua juventude nos anos 80 96. No Instituto Marista, o REMAR, movimento criado na Colômbia e trazido para o Brasil no início dos anos 80, foi dividido e adaptado para realidades diferentes: a Província de Santa Catarina70, a Província de Porto Alegre71 e, mais tarde, para a Província do Brasil Norte.72 97. Em Santa Catarina o projeto continuou a ser chamado de REMAR e oficializou-se por meio de um seminário, realizado de 26 a 28 de janeiro de 1983, estando presentes Irmãos de todas as Províncias do Brasil, de 67

DICK, Hilário. JEC no Brasil: uma proposta que não morreu. São Paulo: CCJ, 1992. p. 2-43. Sempre tratando de temas atuais e pertinentes à juventude, os mais significativos são o de 1986, Juventude e Terra; de 1989, Juventude e Educação; 1991, Juventude e América Latina; 1993, Juventude e Aids; 1998, Juventude e Direitos Humanos; 2003, Políticas Públicas para a Juventude. 69 DICK, Hilário. Gritos silenciados, mas evidentes, op. cit., p. 244-245. 70 Em 1982, quando o Ir. Joaquim Sperandio, da Província de Santa Catarina, retornado de seu 2º noviciado participou de uma “Experiência de Porto” na Colômbia. 71 Em 1978 os Irmãos Delvino Decezero e Ignácio Etges da Província de Porto Alegre foram enviados à Colômbia, a fim de conhecer o Movimento REMAR. Mas o movimento foi implantado na Província somente em 1982. 72 Para a Província do Brasil Norte o movimento REMAR foi levado mais tarde pelo irmão Joaquim Oliveira. 68

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Córdoba (Argentina), e do Chile.73 As primeiras caravelas74 surgiram inicialmente em Jaraguá do Sul, Criciúma, e São Bento do Sul e Chapecó. Em 1984 nasceram os REBUS75, com a Equipe Paroquial de Pastoral Vocacional em Jaraguá do Sul. Também foram desenvolvidos alguns trabalhos com escolas públicas. 98. Na Província de Porto Alegre, o primeiro Centro do REMAR foi em Lajeado. Foram formados grupos de 7ª série até o Ensino Médio na maioria das escolas da Província, a partir de encontros de formação. Em 1984, o nome REMAR foi substituído por JUMAR, Juventude Marista e, em Garibaldi, aconteceu o primeiro Jumarão76. O curso para a formação de assessores foi realizado em 1985 e, em 1986, foi elaborado o plano do JUMAR, possibilitando a sistematização do processo e servindo de guia para a caminhada dos grupos. 99. Nos anos de 1986 e 1987, a equipe do JUMAR articulou-se com a Pastoral da Juventude do Alto Taquari. Para facilitar a articulação na Província, em 1998 a sede do movimento foi transferida para Porto Alegre, na residência marista do bairro Glória 77. 100. A Província Marista de Santa Maria, no ano de 1985, designou Irmãos78 para se capacitarem e criarem um projeto que atendesse aos jovens nas dimensões pastoral e vocacional. Esses Irmãos passaram um período de seis meses na Colômbia, participando do Curso de Planificação Pastoral. A atuação deles consistia numa visita periódica bimestral a cada grupo das diferentes escolas públicas e particulares da cidade, trabalhando o projeto de Jesus Cristo e a missão do jovem como cidadão e agente de transformação. No entanto, dentro da Província, foi-se consolidando uma crítica de que esta equipe não estava conseguindo atrair os jovens das próprias escolas maristas. Todavia não se desistiu da idéia de investir na formação da Pastoral da Juventude. Partindo também da necessidade de melhorar a formação dos jovens Irmãos, ficou determinado que o escolasticado passasse a ser integrado com Santa Catarina. Além dos compromissos próprios daquele 73 Com a implantação do movimento na Província de Santa Catarina foi constituida uma Comissão formada pelos seguintes Irmãos: Arcângelo Postai, Frederico Unterberger, Ivo Strobino, Joaquim Sperandio, e Roque Brugnara. 74 As “Caravelas” são os grupos que compõem o Movimento REMAR. 75 Os REBUS são encontros de um dia com alunos e educadores de escolas atendidas pelo Programa Vida Feliz, objetivando a participação ativa e a convivência social. 76 Encontro provincial dos jovens participantes do JUMAR. 77 SIMAV. Roteiro de Sistematização do Guia do JUMAR. Abril de 1993. Arquivo do CMMC, Curitiba, PR. 78 Fábio Pauletto e Paulo Lorenzoni.

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período de formação, os jovens Irmãos eram orientados a conhecerem bem a proposta do Movimento EDA79/REMAR para procurar implantálo na Província a partir de seu regresso. 101. Com o intuito de operacionalizar uma evangelização mais efetiva dos jovens, foi fundado, em 18 de janeiro de 1980, o Instituto de Pastoral da Juventude de Porto Alegre, RS, assumido por cinco Congregações Religiosas.80 O IPJ nasceu para ser um centro de formação, assessoria e pesquisa do fenômeno juvenil, estimulando o protagonismo juvenil e fornecendo elementos para o conhecimento da realidade juvenil nacional e latino-americana. Os Irmãos Maristas têm sido colaboradores do IPJ desde o seu nascimento. 102. As províncias do Rio de Janeiro e São Paulo iniciaram, conjuntamente, o Projeto Maria de Nazaré81, que serviu como modelo de trabalho com os jovens por alguns anos. Foi criado o Secretariado de Pastoral Vocacional e Juvenil, em nível Provincial. Em 1988, o Projeto Maria de Nazaré deu lugar para experiências isoladas, sob a orientação do SOR (Serviço de Orientação Religiosa). 103. Em 1987, a Província do Rio de Janeiro participou da fundação do Instituto de Pastoral da Juventude de Belo Horizonte. Servindo aos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, este IPJ, desde sua fundação, assessora de forma qualificada a juventude, promovendo cursos, retiros, assembléias, encontros e palestras. 104. O primeiro contato da Província do Brasil Norte com o movimento REMAR, adaptado à realidade brasileira, foi em 1985, por meio de um irmão82 que fazia seus estudos na Província de Santa Catarina. Retornando à Província, realizou encontros com os responsáveis por grupos de jovens (cerca de 20 pessoas) para apresentar o Movimento REMAR. No dia 11 de março de 1988, iniciaram-se as atividades do REMAR no Colégio Santo Antônio, com um grupo de alunos de 6ª série.83

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Embarcações da Amizade - Grupos de jovens até a 8ª série. Congregações que participaram da fundação do IPJ: Salesianos, Irmãs da Divina Providência, Maristas, Irmãs Filhas do Sagrado Coração de Jesus e Jesuítas. Entre os integrantes da equipe do IPJ de 1980 a 1990 estiveram os maristas: Cláudio Rockenbach, Antônio José da Silva e Sady Colvero. 81 Foi um movimento de juventude, com o objetivo de formar lideranças juvenis do Ensino Médio, inspirado no carisma marista. O Projeto Maria de Nazaré teve influência na construção da Pstoral da Juventude, especialmente na cidade de Goiânia, GO. 82 Ir. Joaquim Oliveira da Província Marista do Brasil Norte. 83 Extraído do sítio: www.edaremar.com.br/movimento em 01/11/2004. 80

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2.8 Os anos 90 105. Os anos 90 foram marcados como a década da exploração comercial da adolescência e da juventude. A transmissão ao vivo da Guerra do Golfo simbolizou o início de grandes avanços tecnológicos. A comunicação aumentou de forma admirável, especialmente pela internet, pelo CD e pelo telefone celular. A juventude protestou com o hip-hop e se divertiu com a música eletrônica. Na periferia, nasceu o funk e o hap. Aconteceu a expansão da Aids, atingindo, além de homossexuais, as mulheres e os heterossexuais. Segundo pesquisa realizada pela Brazilian Teenagers Go Global, a juventude apresentava sete valores capitais: o individualismo, o hedonismo, o conservadorismo, a vida videoclip, a diluição da hierarquia, o culto ao corpo e o capitalismo. Grande parte da juventude se afastou das utopias e dos projetos coletivos, e se prendeu ao consumo e ao modelo de sociedade capitalista.84 106. Politicamente, no Brasil, os anos 90 acompanharam um dos maiores momentos de democracia das últimas décadas. Fernando Collor de Mello derrotou Luís Inácio Lula da Silva, líder da esquerda, no segundo turno da eleição presidencial de 1989. Collor contou com amplo apoio das forças conservadoras e entre os seus compromissos de campanha estavam a moralização da política e o fim da inflação. 107. Para as elites, ofereceu uma tentativa frustrada de modernização econômica do país. No dia seguinte ao da posse, o presidente lançou seu programa de estabilização, o Plano Collor, baseado em um inédito confisco monetário. Além de pretender eliminar a inflação, estabeleceu medidas para modernizar a economia e abri-la à competição internacional. 108. Mas em 1991, as dificuldades enfrentadas pelo plano, que não acabou com a inflação e aumentou a recessão, começaram a minar o governo. A situação se agravou com o surgimento de suspeitas de envolvimento de ministros e altos funcionários em uma grande rede de corrupção. As suspeitas transformam-se em denúncias. Em 25 de abril de 1992, Pedro Collor, irmão do presidente, deu uma entrevista à revista Veja, sobre o “esquema PC” de tráfico de influência e irregularidades financeiras, organizadas pelo empresário Paulo César Farias, amigo de Fernando Collor e tesoureiro de sua campanha eleitoral. 109. Em agosto de 1992, a União Nacional dos Estudantes (UNE) e 84

DICK, Hilário. A Juventude no Século XX, op. cit., p. 38. 53


a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) organizam animadas passeatas. Os manifestantes, em sua maioria jovens, pintaram o rosto com as cores do país e passaram a ser chamados de “caras-pintadas”. Adotaram como hino de “guerra” a música Alegria, Alegria, de Caetano Veloso. 110. No dia 2 de outubro de 1992, Collor foi afastado e seu vice Itamar Franco assumiu. Durante o julgamento do impeachment no Senado, em 29 de dezembro, Fernando Collor renunciou. Mesmo assim, a sessão prosseguiu, e, no dia seguinte, ele teve os direitos políticos cassados por oito anos. Na sucessão de Itamar Franco, em 1994, foi eleito presidente da República Fernando Henrique Cardoso que, buscando a estabilização econômica; após quatro anos, em 1998, foi reeleito. 2.8.1 A Igreja nos anos 90 111. Para a Pastoral da Juventude, os anos 90 foram marcados por intenso trabalho. Realizaram-se quatro grandes seminários nacionais, além de outros ligados à Pastoral da Juventude Estudantil e à Pastoral Universitária. Em 1992, o tema da Campanha da Fraternidade contemplou a causa dos jovens através do tema “Juventude, Caminho Aberto”. A discussão sobre o tema possibilitou o conhecimento amplo sobre a PJB. Aconteceu, em 1992, o 1º Congresso Latino-Americano de Jovens, em Cochabamba (Bolívia) e, em 1993, a comemoração dos 10 anos da Pastoral da Juventude do Brasil, com a 10ª Assembléia, realizada na cidade de Viana, Espírito Santo. Até o final da década de 90 a PJ caminhou, sistematizando seus trabalhos, articulando parcerias e promovendo encontros, assembléias e várias discussões.85 2.8.2 O Marista e sua juventude nos anos 90 112. No Brasil Marista, o SIMAV86, reunido em São Paulo de 18 a 22 de junho de 1990, sentiu a necessidade de integrar o trabalho vocacional numa ação mais orgânica de pastoral juvenil. A ata da reunião diz que “houve alguns depoimentos do que está acontecendo nas Províncias. Na Província de Santa Maria, a Equipe de Pastoral de Juventude elabora seu planejamento 85 86

DICK. Hilário. O Caminho se Faz. História da Pastoral da Juventude do Brasil, op. cit., p.88-123. Serviço Interprovincial Marista de Animação Vocacional. 54


juntamente com o responsável pela Pastoral Vocacional provincial. A Província do Rio, através das Comunidades inseridas, está trabalhando na Pastoral de Juventude das dioceses/ou Regional da CNBB. O Instituto de Pastoral de Juventude de Belo Horizonte é mantido por seis Congregações. Em Colatina houve Páscoa Juvenil com 120 participantes. Há numerosos formandos provindos de Grupos de Juventude.”87 113. A necessidade de priorizar o trabalho juvenil nas Províncias do Brasil Marista amadureceu a possibilidade de se formar uma equipe que, ao lado do SIMAV, desenvolvesse uma proposta integrada. A primeira reunião conjunta entre o SIMAV e a PJ aconteceu entre 17 e 22 de junho de 1991, na cidade de Salvador, BA. A Ata desta reunião apresenta os principais objetivos e motivos que desencadearam esse processo como se explicita a seguir: (1) A caminhada do SIMAV e a evolução da compreensão do próprio SIMAV como organismo de animação da PV, abrangendo não só a pastoral do despertar, mas a da perseverança e crescimento em santidade, e a da fidelidade à missão. (2) O anseio de se consolidar a Pastoral Juvenil como o espaço e o momento propício para a Pastoral vocacional; neste sentido, foram feitas tratativas88 para se constituir, em nível de Brasil Marista, um organismo de PJ; mas, a pedido dos Provinciais, ficou com o SIMAV o encargo de ir assumindo a questão de levá-lo adiante. (3) O ano de 1992 teve a “JUVENTUDE” como temática para a Campanha da Fraternidade. E nós Irmãos Maristas, dedicados à juventude, precisamos ter isso bem presente, refletir e fazer algo. (4) A necessidade de uma pastoral vocacional mais aberta e eclesial. Após muitos esclarecimentos, foi decidido trabalharmos juntos.”89 114. Essa caminhada conjunta se desenvolveu até o dia 18 de outubro de 1997, quando se encerraram os trabalhos do SIMAV. Apesar de todo o esforço desenvolvido, a avaliação da última reunião do SIMAV falou das necessidades e falhas no trabalho com a PJ: “Outra lacuna foi quanto ao trabalho conjunto PJ - PV. Tentou-se, mas não se chegou a uma complementação, a uma unidade. Ainda existe muita separação.”90 Após o 87

45ª Ata do SIMAV, 22 de junho de 1990. Arquivo SIMAR. Esforço, empenho. 48ª Ata do SIMAV, dia 22 de junho de 1991. Estiveram presentes nesta primeira reunião conjunta os seguintes irmãos: pelo SIMAV - Ir. Joaquim Oliveira (BN), Ir. Vicente Falqueto (RJ), Ir. Afonso Levis (SP), Ir. Otalívio Sarturi (SC), Ir. José Ewaldo Neis (POA), Ir. Celso Aloísio Rauber (SM); pela PJ - Ir. Paulo Lorenzoni (SM), Ir. Onorino Moresco (POA), Ir. Frederico Unterberger (SC), Ir. Afonso Levis (SP), Ir. Helder de Souza Silva Pinto (Rio), Ir. José Airton de Carvalho (BN). 90 67ª Ata da SIMAV, de 19 de outubro de 1997. Estiveram presentes nessa reunião: Ir Odilmar Fachi - Prov. de Porto Alegre, Ir. Vanderlei Soela) Prov. do Rio de Janeiro, Ir. Joaquim Sperandio - Prov. de Santa Catarina, Ir. José Airton de Carvalho - Prov. do Brasil Norte, Ir. José Feix - Prov. de Santa Maria, Ir. Paulo Celso Ferrarezi - Prov. de São Paulo, Ir. Ewaldo Neis 88 89

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final do SIMAV, foi criada, em nível nacional, a Comissão Nacional da Pastoral Juvenil Vocacional. 115. Os Provinciais, sentindo a necessidade de um órgão que pudesse assessorar as seis províncias, criaram, em 16 de março de 1993, o SIMAR (Serviço Interprovincial Marista). A ata da EMIR, de 20 de março de 1993, apresenta o SIMAR nos seguintes termos: “Na reunião conjunta da EMIR-CONPROV, concordaram os Provinciais com a idéia e posteriormente a aprovaram, batizando-a com nome novo: Serviço Interprovincial Marista - SIMAR. O SIMAR terá um Irmão coordenador, auxiliado por leigos.”91 A EMIR foi extinta na reunião dos dias 16 e 17 de outubro de 1997, realizada em São Paulo, possibilitando, assim, que o SIMAR se constituísse num secretariado interprovincial”. 116. Enquanto se desenvolvia essa articulação nacional, as Províncias buscavam encontrar seu modelo de Pastoral Juvenil. A década de 90 foi marcada pela diversidade de experiências desenvolvidas com a juventude. 117. Na Província de São Paulo, cada colégio atuou de forma independente na condução dos movimentos juvenis. Existiam diversos modelos e um esforço para a sistematização de uma única proposta. 118. A visita dos Conselheiros Gerais92 à Província, em outubro de 1995, avaliou o desempenho da Pastoral Juvenil na Província. Entre os aspectos levantados estava a preocupação com a inexistência de movimentos juvenis em alguns colégios e a pouca articulação dos existentes com as paróquias e dioceses. E terminam exortando: “É urgente para os Colégios da Província Marista de São Paulo a preocupação com os movimentos juvenis!”93 119. A Província inaugurou, em 2 de janeiro de 1993, em Curitiba, PR, o Centro da Juventude. Desativando o Escolasticado, que atendia aos vocacionados, a casa passou a ser um centro de referência juvenil, articulado com a Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Curitiba, servindo também aos movimentos juvenis da Província. Foram realizados diversos retiros, encontros de formação de assessores, convivência, esporte e lazer. 120. Na província do Rio de Janeiro, em 1992, criou-se o Grupo de Alunos Maristas, o GAMAR. Ele influenciou maior dinamicidade no processo juvenil e desenvolveram-se vários grupos dentro das escolas da 91

87ª Ata do EMIR de 20 de março de 1993. Arquivo do SIMAR. Irmãos Pedro Marcos e Luís Sobrado. 93 AZZI, Riolando, op. cit., Vol. IV. (obra não publicada). 92

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Província. Em 1993, dois encontros marcaram e consolidaram a proposta do GAMAR. A partir de 1995, com a construção do Plano Provincial de Pastoral e encontros provinciais e regionais, o GAMAR contava com diversos grupos de alunos e com assessores pastorais. 121. Nasceu também na Província do Rio de Janeiro, em 1992, o Centro Marista de Pastoral94, na região de Venda Nova, em Belo Horizonte, MG. Partindo de um convite a um pequeno grupo de jovens para fazer uma experiência de espiritualidade e serem missionários na Arquidiocese, surgiram os grupos de Espiritualidade e Partilha e de Assessores Leigos. Foram criadas equipes especializadas em formação juvenil: o Centro de Apoio à Crisma, o Centro de Apoio ao Teatro, o Centro de Apoio aos Grupos Jovens e o Centro de Apoio à Catequese Infantil. Articulada com a Arquidiocese de Belo Horizonte, o CMP é referência em iniciativas de evangelização para a juventude. 122. Em 1996, em Colatina, ES, foi inaugurada a Casa da Juventude que, inspirada nos Centros Maristas de Pastoral, se tornou um espaço para a formação de lideranças juvenis, articulada com a Pastoral da Juventude local e diocesana.95 123. Na Província de Santa Catarina, em 4 de dezembro de 1994, inaugurou-se o “Centro Marista de Formação Frei Rogério”, Cemafrei, em Joaçaba, para atender à Igreja local, às escolas públicas e à formação da juventude da região96. Nos anos de 1995 e 1996, foi desenvolvido o Projeto Marista Encontros de Formação (depois chamado “Programa Vida Feliz”), e foi formada a primeira equipe pastoral em Jaraguá do Sul97. Em 1996, foi constituída uma equipe formada por Irmãos Maristas e leigos a fim de concretizar a proposta do CEMAFREI. Como resultado desses esforços foi implantado o Programa Marista Encontros de Formação em parceria com 80 escolas públicas; também se promoveu a articulação com a Igreja local, na formação de catequistas; e a parceria com a Pastoral da Juventude (PJ) da Diocese de Joaçaba para a formação dos assessores e líderes de grupos de jovens. Com isso nasce o Curso de Capacitação de Liderança Jovem (CCLJ), iniciado em nível diocesano com a participação e contribuição do Regional Sul IV. Da mesma forma, como continuação da parceria e do trabalho de 94

A criação do Centro Marista de Pastoral (CMP) foi iniciativa dos Irmãos Afonso Murad e Marcos Albuquerque. Irmãos Maristas. Edição Comemorativa do Centenário no Brasil, op. cit., p.12. 96 Centro Marista de Formação Frei Rogério (CEMAFREI), Joaçaba, SC. 97 A primeira equipe foi composta pelos Irmãos Anacleto Peruzzo e Joaquim Sperandio. 95

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capacitação das lideranças, iniciou-se em 1999, a primeira Missão Jovem, na Diocese de Joaçaba. 124. Em 1998, iniciou-se um trabalho em nível Provincial, com a implantação do Projeto Marista Encontros de Formação, em Pouso Redondo, SC. Em 1999, a Província contratou a assessoria de uma Empresa de Consultoria, de São Paulo, para ajudar a sistematizar os projetos da Pastoral dos Centros de Formação. O trabalho pastoral e vocacional junto às escolas públicas do Estado, por meio do projeto nos Centros de Joaçaba, Jaraguá do sul e Pouso Redondo, atingiu, em 1999, 51.277 alunos e 252 escolas.98 125. Para comemorar os 100 anos da chegada dos Irmãos ao Brasil, em 1996, na cidade de Mendes, no Rio de Janeiro, transcorreu o primeiro Encontro Nacional da Juventude Marista, com a participação de aproximadamente 450 jovens. O Encontro teve como lema: “No peito da juventude bate um coração marista”. 126. Em 1998, houve a partilha de experiência do Projeto GAMAR com a Província de São Paulo. Buscando diagnosticar as realidades e delinear as diretrizes para uma ação comum das duas províncias realizou-se, nesse ano, na cidade de Mendes, RJ, o Encontro de Assessores e Alunos do GAMAR e Líderes Juvenis dos Colégios, o que marcou a caminhada das duas províncias na perspectiva do Projeto GAMAR.99 127. Entre março de 1998 e outubro de 2002, foram realizadas diversas reuniões da Comissão de Pastoral Juvenil Vocacional, no SIMAR, em São Paulo. Participaram representantes das seis províncias, que discutiram, entre outros assuntos, a Canonização de Champagnat, o Plano Trienal das atividades da Pastoral Juvenil, o Ano Vocacional de 2000, o II e o III Encontro Nacional de Jovens em Porto Alegre e Natal, a preparação de informativos, de subsídios para PJ e PV e o Guia da Pastoral Juvenil Vocacional Marista.100

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Dados dos Programas Vida Feliz e Somar. Relato de Experiência. Encontro Nacional de Evangelização na Escola Marista. Pastoral Juvenil e Vocacional. Gamar – Grupo de Alunos Maristas – Arquivo CMMC – Curitiba, Paraná. 100 Faziam parte da Comissão Nacional da Pastoral Juvenil Marista, de 1998 a 1999, os Irmãos: Joaquim Juraci Faria de Oliveira, Pedro Jadir Araújo Melo (Brasil Norte), Israel Poste Ribeiro, Vitor Pravato, Frank Alysson e Helder de Souza Silva Pinto (Rio de Janeiro),(Província do Rio de Janeiro), Paulo Celso Ferrarezi, coordenador (São Paulo), Joaquim Sperandio (Santa Catarina), Odilmar José Civa Fachi (Porto Alegre) e Luís João Krein (Santa Maria) e Narciso Camatti e Adriano Sauer (Província Marista do Rio Grande do Sul). Cf. Atas do Simar de 18 a 23 de maio de 1998 até 18 e 19 de outubro de 2002. 99

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128. A Província de Porto Alegre inaugurou, em 1999, a CAJU, Casa Marista da Juventude. Surgiu de uma necessidade concreta de formação e evangelização da juventude.101 Nas escolas e nos centros de pastoral da Província, durante toda a década de 90, continuaram a ser desenvolvidas as atividades do JUMAR. 129. Na Província do Brasil Norte, a década de 90 foi marcada pelo fortalecimento do Movimento EDA-REMAR. O movimento, iniciado em 1988, no Colégio de Natal, teve seu impulso em 1992, sendo realizada a primeira Escola de Líderes. Para articular o EDA-REMAR no Rio Grande do Norte foram convidados Irmãos de Santa Catarina.102 Em 1993, surgem os primeiros timoneiros103 e o entusiasmo é tão grande que se amplia o apoio ao movimento. No Colégio de Maceió o movimento teve seu início em 1994; no Colégio Marista Pio X, de João Pessoa, o EDA-REMAR iniciou-se em 1996. O Colégio Marista de Salvador iniciou com duas caravelas104 de 6ª série, em 1999.105 130. Ainda em 1999, a Província de São Paulo inaugurou, em Curitiba, o Centro Marista Marcelino Champagnat, como espaço de referência para o trabalho da pastoral juvenil da Província, para a Igreja local e para o Regional Sul II. 131. No dia 18 de abril de 1999, em Roma, com a presença de milhares de jovens maristas, Irmãos, professores e colaboradores, transcorreu a canonização de Marcelino Champagnat, tornando seu carisma um patrimônio de toda a Igreja. 2.9 Novo milênio 132. Para compreendermos a juventude do novo milênio é importante pensá-lo como um jovem que ingressa na era pós-industrial, participante da grande revolução trazida por tecnologias como a informática, a telemática e a robótica, que permitiram formas inéditas de comunicação e interação dos seres humanos e revolucionaram os sistemas de relação e de produção 101 Estiveram à frente na fundação da Casa da Juventude Marista os Irmãos: Odilmar Fachi, Flávio Kirst e Narciso Camatti. Cf. www.maristas.com.br/jumar 102 Especialmente Ir. Frederico Unterberger. 103 Condutor e responsável de uma “Caravela”. (Grupo de Alunos) 104 Grupo de adolescentes ou de jovens do Movimento Remar. Cada Caravela possui um nome que expressa os objetivos do grupo. 105 Extraído do sítio: www.edaremar.com.br/movimento no dia 13 /11/ 2004.

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de bens. Em poucos anos presenciamos duas guerras, diversos atentados terroristas e uma cadeia de insegurança urbana e rural. A televisão é o meio de comunicação mais consumido pelo jovem. Nela são criados os modelos de beleza e status social, constituindo-se como o espaço em que o jovem é comercializado como um valor em si, pela idéia constante de rejuvenescimento. 133. Culturalmente, é a geração da comunicação rápida e acessível dos computadores, dos e-mails e das comunidades virtuais, característica que tem influenciado as relações afetivas individuais e familiares. 134. Politicamente, no dia 27 de outubro de 2002, o operário Luis Inácio Lula da Silva foi eleito Presidente da República. Concorrendo contra José Serra, Lula conquistou o mais importante cargo político brasileiro com uma votação recorde. É o 39º Presidente do Brasil e o 17º eleito pelo povo. Em janeiro de 2003 recebeu a faixa presidencial. 2.9.1 A Igreja e a Pastoral da Juventude no novo milênio 135. Muitos eventos marcaram a caminhada da Pastoral da Juventude nestes primeiros anos do novo milênio. Os DNJ’s, desde o ano de 2001 têm dado uma atenção especial à questão das políticas públicas para a juventude. O Curso de Dinâmica para Líderes, um dos cursos mais divulgados na Pastoral da Juventude na atualidade, realizou em 2004 o seu primeiro curso Latino-Americano, com participantes de mais de 16 países e a Semana da Cidadania, evento ecumênico, em que o jovem é chamado a assumir seu protagonismo, buscando um mundo mais justo. Em 2003 o lema da Semana foi este “É preciso saber viver”. Em 2004, América Latina: Construindo a democracia como bem comum. 2.9.2 Os maristas do novo milênio 136. O ano de 2000 foi festivo. Comemorando-se a chegada dos primeiros Irmãos ao sul do Brasil. Para tanto realizou-se o 2º Encontro Nacional de Jovens Maristas, na cidade de Porto Alegre, no Colégio Rosário. O Encontro contou com a participação de 500 pessoas entre jovens, Irmãos e leigos. Teve como lema: “Pé na história. Olho no futuro”. 137. Em 2000 e 2001 o Centro Marista de Curitiba articulou o I e II Encontro da Pastoral Juvenil, Congregações Religiosas e Movimentos 60


Eclesiais que trabalham com juventude no Regional Sul II. Nos anos seguintes transcorreram ainda o III e IV encontros. 138. Na Província de Santa Catarina, em 2001, foram concluídos os trabalhos de sistematização dos projetos de pastoral desenvolvidos pelos Centros de Formação com a assessoria da empresa Polis Consultoria. Nasceram, assim, os Programas Vida Feliz106 e SOMAR107 . Em 2004, já no contexto da Província Marista do Brasil Centro-Sul, foi realizado o Curso de Capacitação de agentes, em Curitiba e o I seminário do “Programa Vida Feliz”, em Florianópolis. Os Centros de Formação passaram a se chamar: Centro Educacional e Social Marista”– CESMAR. Além dos existentes em Jaraguá do Sul, Joaçaba e Pouso Redondo, em SC; foram abertos outros cinco centros: em Chapecó e Caçador, SC; Itapejara d’Oeste e Ponta Grossa, no PR e em Dourados, MS. 139. Buscando adaptar-se aos desafios do novo milênio, o Instituto Marista no Brasil passou por nova reestruturação de suas províncias. Em 21 de julho de 2002 as Províncias de Porto Alegre e Santa Maria tornaram-se a Província Marista do Rio Grande do Sul e, em 22 de julho de 2002, as Províncias de Santa Catarina e São Paulo formaram a Província Marista do Brasil Centro-Sul. Nasceu também, no dia 28 de julho de 2002, o Distrito da Amazônia e, em 8 de dezembro de 2003, o Brasil Norte e a Província do Rio de Janeiro constituíram a Província Marista do Brasil Centro-Norte. 140. O III Encontro Nacional de Jovens realizou-se de 12 a 16 de Janeiro de 2003, no Colégio Marista de Natal, na festa dos 100 anos da Província do Brasil-Norte. Cerca de 500 jovens participaram, vindos da maioria das unidades maristas do Brasil. O Encontro teve como lema: “Revele seu rosto amigo.” 141. Dos dias 17 a 19 de outubro de 2003, com a participação de 400 pessoas, no Colégio Marista São Luís, de Jaraguá do Sul, transcorreu o 4º congresso EDA-REMAR, com este lema: “Remando juntos, partilhando vida”. O evento aproveitou para comemorar os 20 anos do movimento REMAR no Brasil.

106 Projeto Vida Feliz. Programa de apoio desenvolvimento de adolescentes e jovens das escolas públicas da Província Marista do Brasil Centro-Sul. Visa ao desenvolvimento pessoal, escolar, cultural e de socialização de crianças, adolescentes e jovens. 107 O SOMAR visa à formação, desenvolvimento e apoio a líderes jovens para atuarem como protagonistas de ações sociais no seu ambiente, em parceria com a Igreja Local.

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142. As Províncias, respeitando as diferenças estruturais e culturais e por meio de um trabalho de profunda de reflexão e articulação, deram continuidade às diversas experiências de trabalho com a juventude. Muitos avanços foram acontecendo em âmbito pastoral, a partir da junção das Províncias. 143. A Província do Brasil Centro-Sul, para organizar e integrar a ação evangelizadora da Província montou o Plano Provincial de Pastoral. Partindo de programas e projetos, e tendo como linha de ação a dimensão humano-cristã, o Plano objetiva dar continuidade à missão legada por Champagnat de Tornar Jesus Cristo conhecido e amado. 144. Esta realidade se fez presente também no Programa da Pastoral Juvenil Marista estruturado a partir da síntese do REMAR e do GAMAR, construído em conjunto com as Províncias Maristas do Brasil e com o Distrito Marista da Amazônia. A PJM tem uma proximidade maior com a PJ nacional, com a América Latina e com o Brasil Marista. O processo está dividido em cinco etapas, começando com a 3ª série do ensino fundamental até o pós-universitário. Os documentos do Remar 25 Años foram adaptados e utilizados para a fundamentação teórica da caminhada. A metodologia é do conhecer, experienciar e aderir. 145. A Província Marista do Brasil Centro Norte organizou todos os seus trabalhos a partir de Comissões que, compostas por Irmãos e leigos, organizam e animam a vida da Província em seus diversos âmbitos. No que concerne ao trabalho com a juventude, foi constituída a Comissão de Animação da Juventude: ela acompanha e articula todas as iniciativas de trabalho com as juventudes na Província. Tais grupos pastorais têm áreas de atuação e rostos distintos, quais sejam: EDA – REMAR (Embarcação da Amizade e GAMAR (Grupos de Alunos Marista), CMP´s (Centro Marista de Pastoral), PJ (Pastoral da Juventude), PJE (Pastoral da Juventude Estudantil). 146. A Província Marista do Rio Grande do Sul adotou como modelo de Pastoral Juvenil um processo remodelado do que vinha acontecendo nas duas antigas províncias de Porto Alegre e Santa Maria. Nessa remodelação procuraram-se salvaguardar os elementos significativos e a história de ambos os lados. A nomenclatura adotada já era utilizada pela então província de Porto Alegre, numa readequação do processo REMAR, da Colômbia, dos anos 80. Todavia há de considerar-se que a centralidade do processo do JUMAR está nos grupos locais, e não na estrutura provincial. 62


147. Tendo construído uma simbologia própria e estruturado um processo significativo, com cursos que auxiliassem na capacitação e encontros que ajudam na animação dos jumaristas, o JUMAR resgatou sua trajetória e passou a fazer uma experiência de Jesus Cristo pela vivência do carisma marista no meio da juventude. Anualmente, vive momentos intensos de avaliação e planejamento em sua reunião denominada APLAJU. Todo o processo formativo está fundamentado em 5 vertentes, que procuram favorecer um formação integral no processo de educação na fé: espiritualidade, protagonismo, eclesialidade, vocacionalidade (Projeto de Vida) e função social. 148. Foi partindo dessas experiências provinciais e da preocupação com a evangelização dos adolescentes e jovens maristas, que o Colegiado dos Provinciais instituiu, no SIMAR, a Comissão de Evangelização de Adolescentes e Jovens108 com a missão de articular nas três Províncias estratégias de evangelização para este público específico. Foi percebendo a importância das experiências de pastoral juvenil, desenvolvidas pelo Instituto no Brasil que nasceu a necessidade de se buscar uma identidade comum e uma organicidade para a Pastoral Juvenil Marista. Para tanto a Comissão definiu como meta a construção de Diretrizes Nacionais da PJM, traçandolhe linhas comuns de ação que possibilitarão o desenvolvimento de cadernos temáticos que assegurem uma ação pastoral mais integrada. 149. O processo de construção começou na reunião da Comissão Nacional, de 2 e 3 de agosto de 2004. Para a elaboração do documento foram definidos capítulos, divididos entre as Províncias para serem escritos. Para colaborar nesse processo foi constituído também um Grupo de Estudos109, com a participação de Irmãos e leigos maristas. 150. Buscando conhecer a realidade das experiências com a juventude nos quatro cantos do Brasil Marista, a Comissão Nacional e o Grupo de Estudos aplicaram uma sondagem, respondida pelos diversos segmentos que trabalham com a juventude. A sondagem foi tabulada e seus dados serviram como instrumento para analisar a realidade. 108 Atualmente a Comissão Nacional de Evangelização de Adolescentes e Jovens tem a seguinte formação: Ir. João Carlos do Prado (coordenador) BCS, Ir. Reni Voss, BCS, Ir. Wagner Cruz, BCN, Ir. Iranilson Correia de Lima, BCN, Ir. Adriano Sauer, RS, Ir. Vinicius Malfati, RS e Ir. Francisco Magalhães de Lima, Distrito; O assessor do processo de construção das Diretrizes é o Padre Hilário Dick. S.J. 109 O Grupo de Estudos é formado pelos leigos Leia Raquel de Almeida Heck do Rio Grande do Sul, Fabiano Incerti do Brasil Centro-Sul, Ana Clésia Alcântara do Brasil Centro-Norte e o Ir. Natalino de Souza do Brasil Centro-Norte.

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151. As reuniões que se seguiram em 2004 serviram para ajustes no documento que passou por análise e aprovação no Encontro Nacional de Assessores da PJM, realizado de 16 a 22 de janeiro de 2005, em Florianópolis, SC. Além da partilha de experiências, o Encontro possibilitou que os assessores das três Províncias colaborassem na elaboração das Diretrizes Nacionais, permitindo melhor visualização e aceitação da proposta.

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3. CONTEMPLANDO O MOSAICO: UMA LEITURA DA REALIDADE JUVENIL 152. A Pastoral Juvenil Marista quer ser uma proposta relevante para a juventude marista do Brasil. Daí a necessidade de conhecimento aprofundado de seus atores por meio de estudos que revelem seu perfil e apontem caminhos capazes de contribuir na construção da sua vida e história. Ajudar a analisar e debater a complexa realidade da juventude brasileira, especificamente a juventude marista, constitui um dos objetivos desta Pastoral. 153. Não pretendemos ser conclusivos porque, em se tratando de juventude, seria uma incoerência. Esperamos sinalizar possíveis caminhos para compreender melhor o que é ser jovem no tempo em que vivemos. 154. As abordagens aqui construídas remetem à análise da juventude em suas diversas dimensões, como cultura, lazer, política, família, educação, trabalho, ecologia, participação, religiosidade, meios de comunicação e grupos sociais. Cada tópico trabalhado busca associar as reflexões à realidade marista. Nesta análise optamos por três instrumentos, explicitados em seguida. 155. a) Pesquisa do Instituto Cidadania110, chamada Perfil da Juventude Brasileira, realizada entre agosto de 2003 e maio de 2004 acrescida de estudos, discussões e seminários, vem aprofundando dados sobre diversas dimensões da vida e da realidade da juventude brasileira. b) Relatório de “Desenvolvimento Juvenil de 2003”, realizado pela UNESCO. O relatório aborda áreas como educação, cultura, violência, saúde, cidadania e identidade da juventude brasileira. c) Sondagem da realidade dos jovens maristas do Brasil, apresentando pistas para compreendermos hábitos, atitudes e escolhas dos adolescentes e jovens maristas, aplicada nas três províncias maristas do Brasil, abrangendo um público de 400 jovens de 15 a 24 anos. 156. Além de diversos autores e bibliografias que serviram de fundamentação para este capítulo, destacamos os documentos da Igreja que se referem à juventude. Trazemos o “Marco Referencial da Pastoral da Juventude do Brasil”, da CNBB; “Civilização do Amor, Tarefa e Esperança”, do CELAM e os documentos do Instituto Marista, especialmente “A Missão 110 INSTITUTO CIDADANIA. Perfil da Juventude Brasileira. Documento de Conclusão. Extraído do sítio: www.projetojuventude.org.br/novo/html/pesquisa_int8803.html.

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Educativa Marista” e os documentos do Movimento “Remar”, da América Latina, festejando 25 anos. 3.1 Quem é o jovem 157. Há consenso entre os estudiosos de juventude, no que diz respeito à dificuldade em conceituar a juventude. É quase impossível abranger os amplos aspectos da realidade e as variadas situações em que a juventude vive segundo suas raízes e origens étnicas, suas influências culturais e condições políticas, sociais e econômicas. 111 158. A juventude é um momento de transição, de passagem, sem estágios fixos ou predeterminados. É a passagem da dependência para a autonomia e para a participação na vida social, assumindo seus direitos e suas responsabilidades. Ela tem uma condição latente de provisoriedade e pode durar mais ou menos tempo, dependendo das experiências vividas. É um período de amadurecimento biofisiológico e psicossocial e de afirmação da identidade psicológica da pessoa.112 É o período da vida que possibilita, por um conjunto de fatores internos e externos, a assimilação e a contestação dos valores aprendidos, permitindo a elaboração de novas sínteses de vida. 159. Recentemente, constata-se que esse período se alongou e se transformou, ganhando maior complexidade e significação social, trazendo novas questões para as quais a sociedade ainda não tem respostas integralmente formuladas. 160. Falar dos jovens é, basicamente, fazer diagnóstico do próprio mundo de hoje. Eles são uma espécie de termômetro da sociedade. É pensar sobre modernidade, sociedade de mercado, conhecimento, globalização, Internet e sobre um grupo social situado no centro das questões que comovem o país e o mundo, seja como as maiores vítimas da exclusão e das desigualdades sociais, seja como esperança para a construção de um planeta mais desenvolvido, justo e solidário. 161. Os jovens são fruto de seu tempo e de sua história, inseridos numa realidade em constante transformação. Por isso torna-se fundamental considerar brevemente as principais características do atual contexto, levando em conta que a juventude é uma construção social e cultural. É fruto da história e faz história. 111

CELAM. Seção Juventude.£Civilização do Amor: tarefa e esperança: orientações para a pastoral da juventude Latino-Americana. São Paulo: Paulinas, 1997. p.32. 112 CNBB, Estudos nº. 76. Marco Referencial da Pastoral da Juventude do Brasil. São Paulo: Paulus, 1998, p. 19. 68


162. O novo modelo de sociedade, instaurada com a modernidade, fez com que a humanidade acreditasse na promessa de melhoria das condições de vida e de bem-estar, trazidos pelos avanços tecnológicos, científicos e industriais. Valores éticos e morais, conceitos políticos e sociais, o uso da ciência e das artes; enfim a cultura, criada pela humanidade em milênios, está sendo modificada, substituída e, de alguma forma, afetada radicalmente.113 163. O conhecimento científico ocasionou grandes inovações que têm beneficiado muito a humanidade. A expectativa de vida aumentou e curas foram descobertas para muitas doenças. A produção agrícola cresceu significativamente em muitas partes do mundo para suprir as necessidades não apenas das populações em desenvolvimento.114 O uso de novas tecnologias e de novas fontes de energia criou oportunidades de livrar a humanidade de trabalhos árduos. 164. Contudo tais avanços não foram capazes de apaziguar o desencanto gerado pela desigualdade social, pela exclusão e individualidade, próprios do modelo de economia capitalista. Assim, a exploração do trabalho infantil, o colonialismo cultural, o desemprego, o fim aparente das utopias e a ignorância generalizada da economia e, mais dramaticamente, a fome, têm de ser analisados a partir da influência da política neoliberal e da sua incapacidade de superar as deficiências da realidade social, especialmente nos países subdesenvolvidos, sobretudo em face da explosão demográfica das sociedades retardatárias. 165. Em nossa sociedade, a dignidade humana encontra-se ferida em várias de suas dimensões. A globalização da economia e a mundialização da cultura geraram uma desigualdade social nunca vista em toda a história. Encontramos as marcas da miséria material e espiritual por toda a parte, fruto de uma distribuição de renda injusta e de um mercado religioso que oferece soluções rápidas para os problemas. Uma pequena parte da população e de paises desenvolvidos compõe um grupo privilegiado, dono da maior parte da riqueza do mundo, enquanto a maioria da população mundial sofre com a fome, com a miséria e com o analfabetismo. É clamoroso o descaso dos paises ricos que, em busca de maior lucro, exploram e geram crises profundas nos paises em desenvolvimento. Para minorar o problema faz-se necessária uma urgente e paciente educação de qualidade das classes deserdadas. 113

CHIAVENATO, J. Ética globalizada e sociedade de consumo. São Paulo: Moderna, 1998, p. 05. Conferência Mundial sobre a Ciência para o Século XXI: Um Novo Compromisso Budapeste, 26 de junho a 2 de julho 1999. 114

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166. Esse contexto, por outro lado, acendeu na juventude a vontade de participação e mudança da realidade, tomando até formas “revolucionárias”. São milhões, em todo o planeta, jovens engajados em ações concretas, buscando o desenvolvimento sustentável e amenização das desigualdades. Aumentou significativamente também a inserção deles em instâncias políticas, como associações e partidos, garantindo que os temas mais pertinentes à juventude sejam sempre mais discutidos. 167. Em todos os cantos do planeta emergiu, em grande parte por causa dos jovens, a consciência de se gerar uma sociedade sustentável baseada no respeito à natureza, nos direitos humanos universais, na eficiência e justiça econômica e numa cultura de paz. Prova disto são os movimentos de cooperação internacional pela erradicação da fome e da pobreza e as diversas organizações governamentais e não-governamentais que desenvolvem projetos que vão desde uma perspectiva ecológica integral até o cuidado com a segurança global e o desarmamento nuclear. 168. No campo da religiosidade, a modernidade acena para uma intensa busca de espiritualidade, embora às vezes marcada pelo desencanto com a situação social, mais do que por uma procura de experiência religiosa profunda. Há uma redescoberta da espiritualidade em diversos âmbitos: na literatura, nos meios de comunicação, nas artes e na cultura.115 Isso não deixa de se refletir igualmente no campo juvenil. 169. Diante o perigo da massificação, o jovem encontra na família um apoio fundamental, embora ela esteja menor, reduzida ao seu núcleo, mais frágil e exposta à ruptura. Contribuem para fragilizá-la o trabalho fora de casa de pai e mãe, a entrega da educação dos filhos a outros, a influência da televisão na vida das crianças, adolescentes e jovens.116 Estas mudanças nos modelos familiares geram também novas maneiras de compreender a educação e a transmissão dos valores culturais e religiosos. 170. O prazer é freqüentemente colocado como instrumento para realização pessoal, servindo para fins de consumo. A busca da felicidade, da realização pessoal, da satisfação do indivíduo, quando tomadas como absolutas, têm conseqüências negativas sobre as relações sociais, as instituições, os compromissos duradouros, que se tornam frágeis e facilmente

115 116

CNBB, Estudos nº. 62. Missão e ministérios dos cristãos leigos e leigas. São Paulo: Paulinas, 1999. CNBB, Estudos nº. 71, op.cit., p. 38-39. 70


descartáveis.117 Por outro lado, cresceu a consciência do jovem em relação a sua corporeidade e sua sexualidade, possibilitando espaços de abertura para a discussão de temas considerados tabus até bem pouco tempo. 171. Surgem transformações também no imaginário simbólico, dando ênfase ao imaginário digital. Passa a existir o jovem fascinado pela informática e pela telemática, com as fabulosas possibilidades de comunicação pelas infovias, da microeletrônica a serviço dos aparelhos de som e dos computadores.118 A aceleração do tempo, provocando o enfoque no hoje e no agora, em detrimento da importância da construção histórica, é característica da contemporaneidade. O mundo virtual é definitivo para a cultura humana, crescendo a possibilidade de comunicação entre as pessoas e aumentando as formas de compreensão dos espaços reais. 172. É louvável e necessário considerar que a juventude é, por natureza, o grupo que mais se renova e que sempre faz uso do questionamento; ela capta e aceita as mudanças com mais facilidade. Isso tudo leva a considerar que a realidade juvenil é meio para a construção de um novo lugar socializador, de reorganização da subjetividade, de reconstrução da identidade do ser humano, de valorização das diferenças e da construção de novos papéis sociais em que os jovens estejam insertos. 173. Neste universo multifacetado da juventude, com suas esperanças, medos, conquistas e desafios, pretendemos abrir horizontes de análise, buscando compreender um pouco mais deste público, destinatário final das diversas expressões da Pastoral Juvenil Marista do Brasil. 3.2 Quem são os adolescentes e os jovens brasileiros? 174. Segundo o censo de 2000, os jovens superaram a marca de 34 milhões, delimitando a faixa etária de 15 a 24 anos, totalizando mais de 20% da população brasileira. 175. Ao buscarmos caracterizar o jovem brasileiro, temos de incluí-lo numa sociedade pós-moderna, num regime econômico capitalista e num modelo de mercado neoliberal e consumista. Enquanto uma pequena parte dos jovens brasileiros tem acesso aos avanços tecnológicos de uma cultura mundializada, (rapidez dos meios de comunicação, robótica, telemática), a 117

Idem, p. 35. LIBÂNIO. João Batista. Os Jovens em tempo de pós-modernidade.Considerações socioculturais e pastorais. São Paulo: Loyola, 2004, p. 125. 118

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maior parte sofre com a falta de emprego e com a violência. O Relatório da UNESCO, de 2003, sobre o perfil da juventude brasileira, revelava que a taxa de homicídios entre os jovens em 2002 foi de 54,4%, contra 21,7% das outras faixas etárias. 176. Por outro lado, não é difícil percebermos, mesmo em meio a tantos desafios, a abertura da juventude para causas nobres e gestos profundos de humanidade e solidariedade. Em diferentes momentos da história do país, distintos segmentos da juventude marcaram presença em mobilizações sociais e acontecimentos políticos.119 177. Na década de 60 muitos jovens gritaram contra a ditadura. Em meados da década de 80 a favor das diretas e nos anos 90 pelo Impeachment de Collor. No novo milênio, tem crescido a participação dos jovens em movimentos que buscam a preservação da natureza, os direitos humanos e a construção de uma sociedade mais justa. É possível sentir a vontade transformadora da juventude brasileira que, no meio das desigualdades, exige mudanças éticas, políticas e sociais. 178. Insere-se nesse contexto a juventude marista do Brasil, que representa aproximadamente 0,7% desses 34 milhões, totalizando mais de 200 mil jovens e adolescentes, distribuídos em escolas, obras e centros sociais, universidades, centros de pastoral e missões. 3.3 A Juventude, a Cultura e o Lazer. 179. Por cultura, compreendemos os valores e os costumes característicos de uma sociedade. No entanto estes costumes sofrem alterações em relação à espaciotemporalidade. Ao discutirmos a cultura e o lazer do adolescente e do jovem na atualidade, temos de pensá-lo imerso diretamente numa cultura mundializada e diferente dos jovens de 30 ou 40 anos atrás. 180. Por muito tempo, os espaços e atividades de cultura e lazer estiveram vinculados ao meio específico ao qual pertenciam. Jogar bola ou soltar pipas, apesar de recreação comum aos jovens de um mesmo período e faixa etária, estava limitado culturalmente ao pequeno espaço territorial ocupado por eles. A não ser que esses jovens tivessem acesso a outras culturas, compreenderiam que, praticamente, em todos os lugares se soltavam pipas. 119

Uma obra que analisa este aspecto é “Gritos silenciados, mas evidentes – os jovens construindo juventude na história”, de Hilário Dick, já citada. 72


181. A transformação deste modelo de relação do jovem com o mundo aconteceu a partir do advento e da implementação dos meios de comunicação e de tecnologias como a televisão, o computador, o celular e a Internet. Eles possibilitaram o acesso direto a uma infinidade de informações, o que reforçou a descoberta da identidade do jovem e do mundo que o cerca. A cultura e a sociabilidade foram expandidas e os espaços de organização e participação da juventude se multiplicaram.120 182. Falar de cultura e lazer para os jovens é tratar diretamente de suas escolhas, da formação de seus valores, das suas relações e da utilização de seu tempo livre. A condição juvenil é determinada pela produção cultural, pelas atividades lúdicas, esportivas e recreativas. Elas possibilitam a troca de experiências, informação, ampliação de referenciais, elaboração e revisão de valores. Nos espaços de lazer os jovens encontram possibilidades de experimentação de sua individualidade e das múltiplas identidades necessárias ao convívio cidadão. 183. No Brasil, os contrastes são visíveis no que diz respeito ao acesso que os jovens têm aos espaços, bens e serviços de cultura e lazer. Essa situação pode ser explicada pela Pesquisa de Orçamentos Familiares, divulgada pelo IBGE, que aponta que 82,41% do orçamento familiar são gastos com despesa de consumo e que deste total apenas 2,39% são direcionados para o lazer e para a cultura. Essa situação se agrava ainda mais nas classes populares. 184. Esses dados alertam para o fato de que a maioria dos jovens faz a opção por atividades culturais e de lazer que não impliquem excessivo gasto. Isso favorece o consumo da conhecida cultura de massa, muito comum em nosso país: utilizando-se especialmente dos Meios de Comunicação, ela uniformiza tendências culturais, diminui a análise crítica e restringe a cultura basicamente ao entretenimento. 185. A sondagem da Realidade Juvenil Marista aponta elementos que confirmam os dados anteriores e acrescentam características importantes para compreendermos a socialização e a descoberta da identidade juvenil. A maioria dos entrevistados afirmou que “sair com os amigos” é a forma de lazer mais apreciada. A ela seguem-se as diversões (baladas da noite, ouvir música, assistir a programas de TV, etc) e, em terceiro lugar, os esportes. Ir ao shopping também foi citado. 120

CNBB, Estudos nº. 76. Marco Referencial da Pastoral da Juventude do Brasil, op. cit, p.67. São impressionantes, contudo, os dados que encontramos sobre a fruição cultural e lazer dos jovens em “Perfil da Juventude Brasileira” e no comentário que fazem sobre isso Ana Karina Brenner, Juarez Dayrell e Paulo Carrano in “Retratos da Juventude Brasileira“– Análise de uma pesquisa nacional”. São Paulo: Instituto Cidadania e Fundação Perseu Abramo, 2005, p.175-214. 73


186. O primeiro elemento que merece análise é o fato de que mais da metade dos entrevistados pertence à classe média (61%), o que possibilita o acesso a formas de diversão que exijam investimento econômico. Isso fica mais claro, quando cruzamos os dados de que sair com os amigos, na maioria dos casos, está relacionado à diversão em grupos, como, por exemplo, as baladas da noite, as festas ou formas de diversão que tenham algum custo (ir ao shopping). Por outro lado confirma-se o gosto pelo lazer difundido pela cultura de massa, como a televisão, o rádio, a Internet etc. Quando perguntados sobre que livro mais gostam de ler, o destaque foi para Harry Potter, provavelmente pelo apelo e divulgação da mídia. 187. Outra constatação é a importância que os grupos juvenis exercem na vida dos jovens. Eles cooperam na elaboração e manutenção de valores sociais e coletivos e na construção da identidade pessoal. O sair com os amigos é o sintoma da necessidade que os jovens têm de inserção em espaços comunitários, possibilitando a partilha das angústias e esperanças e a vivência de experiências em comum. 188. Se compararmos esses dados aos do Projeto Juventude, perceberemos que 15% dos jovens brasileiros participam de algum grupo juvenil e quase 54% conhece grupos juvenis em seu bairro, escola ou cidade. São grupos de música, teatro, dança, esportes radicais, gangs, torcidas organizadas, grafiteiros ou grupos estritamente para diversão. Não se pode negar que, em várias manifestações artísticas os jovens exercem papéis protagônicos significativos. 189. Além da cultura de massa, é necessário possibilitar ao jovem a promoção da cultura erudita/cientifica que garante a multiplicação dos conhecimentos e da produção cientifica e tecnológica; e também da cultura popular que traz consigo elementos significativos sobre a tradição religiosa e sobre a identidade dos povos que compõem o Brasil e a América Latina. É hora de começarmos a falar igualmente de cultura juvenil. 3.4 A Juventude e a Política 190. No debate do tema do jovem e sua relação com a política, vale destacar a discussão sobre a politização dos jovens de hoje comparados com décadas anteriores. A descrença na política partidária não significa, necessariamente, ausência de consciência política. 191. Diferentemente de décadas anteriores, em que os jovens tinham ações políticas baseadas em ideais revolucionários socialistas, na ação sindical 74


e na organização dos trabalhadores ante o conflito de classes121, atualmente os jovens encontram outros focos de participação política. Há um aparente enfraquecimento dos conflitos ideológicos, uma redefinição da relação entre o público e o privado e valorização da cultura e da ecologia como espaços políticos. 192. A potência de ação e de participação da juventude encontra nestaa geração um contexto de recepção atravessado pelas novas configurações da ação política e também seus novos limites. Mesmo com essa mudança de percepção do jovem de hoje em relação aos espaços políticos, nos dados da pesquisa realizada pelo Projeto Juventude, 85% dos jovens consideraram a política importante e 65% consideram que ela influencia diretamente sua vida. 193. Esses dados se tornam evidentes também na sondagem marista: 44% dos entrevistados manifestaram que gostam de política. Dentre estes, 28% argumentam que a política é necessária para a construção de um futuro melhor. Mesmo que 45% dos entrevistados tenham manifestado que não gostam de política, isso não significa que, de uma forma ou outra, não estejam comprometidos em ações políticas122. Tais dados possibilitam analisar a importância de políticas públicas para a juventude que garantam espaços para o desenvolvimento de seu protagonismo. As políticas públicas devem ser concebidas, buscando novo paradigma que atualize os sentidos fundamentais de trabalho e educação, ampliando a compreensão da dimensão cultural e da participação na vida dos jovens.123 194. Sobre este assunto, a CNBB apóia, desde 1985, o Dia Nacional da Juventude (DNJ), cuja a maior preocupação é a promoção da dignidade dos jovens brasileiros. Desde 2001, o tema gerador são as “Políticas públicas para a juventude”. Em 2004, o lema foi: “A gente quer valer nosso suor... a gente quer do bom e do melhor!”. Trata-se de iniciativa que envolve temáticas sociais e eclesiais. No tempo em que é uma esperança no campo da construção de políticas públicas plausíveis, é também fortalecimento da caminhada de evangelização da juventude do Brasil124. 195. A construção de nova identidade coletiva para os jovens vem ressignificando os espaços de atuação política e social nas últimas décadas. 121

NOVAES, Regina, VANNUCHI, Paulo (Org). Juventude e Sociedade: trabalho, educação, cultura e participação. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004, p. 55. 122 Compreendemos ações políticas como uma ampla rede de ações que vão da atuação direta em um partido político, bem como movimentos de preservação da natureza ou de garantia de espaços culturais. 123 INSTITUTO CIDADANIA. op. cit, p.45. 124 Maiores informações sobre o assunto poderão ser encontradas nos sites www.cnbb.org.br e www.ccj.org.br. 75


A participação política dos jovens está muito diversificada. Isso se demonstra na filiação a partidos políticos, movimentos estudantis, entidades sindicais, grupos de solidariedade e cidadania, grupos de jovens (pastorais), comitês de cidadania, ou em causas específicas, como campanhas, conselhos, ONG’s, entre outros. É importante que, nesses espaços de atuação, os jovens tenham a oportunidade de participar, gerindo idéias, elaborando projetos e sejam atores diretos de ações que promovam a cidadania e a solidariedade. 196. Na sondagem marista há dados muito relevantes neste sentido. No item referente à educação para a cidadania, 82,0% deles dizem que a escola marista prepara para serem “bons cristãos e virtuosos cidadãos”, como falava Champagnat, e somente 4,5% dizem que “não”.125 Na concepção dos jovens entrevistados o princípio do “bom cristão e virtuoso cidadão” é transmitido, na educação marista, por meio da religiosidade, da reciprocidade entre fé e vida social, no exercício da educação, na formação para os valores, no incentivo à participação em projetos sociais e na vivência em grupo. 197. O jovem precisa ser visto como sujeito primordial para as principais mudanças econômicas e sociais que precisam ser desenvolvidas no país. Muitos jovens, em todo o país, têm optado por ingressar em partidos políticos, buscando dar novo sentido a esses espaços de atuação e mudando o estigma de que toda a política é suja126. Os próprios jovens reconhecem que suas participações nestas instâncias possibilitam novo modelo de política partidária, renovando seus quadros e garantindo que as questões e necessidades da juventude sejam sempre mais discutidas. 3.5 A Juventude, a Educação e o Trabalho 198. No Brasil, com a universalização do ensino, houve aumento significativo na média de escolaridade da juventude, mas há ainda muito que fazer. Atualmente, segundo dados do Projeto Juventude, o Brasil tem 16,2 milhões de estudantes na faixa de 15 aos 24 anos, o que significa um pouco menos da metade deste segmento etário. Isso se torna mais questionador, se considerarmos que, em 2002, um total de 97% das crianças de 7 a 14 anos de idade freqüentavam a escola. Entre os jovens de 18 e 19 anos, a metade está estudando, mas apenas 13,5% deles estão no ensino 125

DICK. Hilário. No mar ligeiro das Instituições Maristas do Brasil. Análise da Sondagem da Realidade dos Adolescentes e Jovens Maristas do Brasil. Curitiba: Editora Universitária Champagnat, 2005. 126 INSTITUTO CIDADANIA, op.cit., p. 91. 76


superior. Esta dificuldade de ingresso no Ensino Superior faz com que muitos jovens incorporem uma espécie de desilusão pelas ofertas e possibilidades que a sociedade tem para eles. Os jovens sentem-se (e muitas vezes são) excluídos.127 Numa sociedade de conhecimento somente a educação de alta qualidade humanista e técnica, aliada à liderança, favorece a preparação do jovem para o bom emprego e aponta novo modelo de empregador e de empresa. 199. A questão da renda familiar também influência na educação. No Brasil, a parcela com maior renda familiar per capita tem cerca de sete anos a mais de estudo do que aquela com menor renda. Outra desigualdade em função das diferenças de renda é que os estudantes de famílias carentes dificilmente chegam ao ensino superior, não importando que a escola freqüentada seja da rede de ensino público ou privado. 200. Outro aspecto que precisa ser levado em conta é que, mesmo para as parcelas mais ricas, quanto para as mais empobrecidas dos jovens, está acontecendo uma transformação na forma de apreensão da realidade. O novo milênio tem exigido uma reorganização da relação entre a educação e o universo juvenil. As transformações tecnológicas e o acesso ilimitado às informações geram jovens conectados ao mundo em segundos, mas tornam essas mesmas informações obsoletas, quase no mesmo espaço de tempo. 201. Nesse contexto, desencadeia-se o desenvolvimento de novas habilidades e competências, fazendo com que a educação ocorra de forma significativa também fora da atmosfera escolar. Os diversos ambientes freqüentados pelos jovens tornam-se contextos de aprendizado. Este novo modelo educativo exige que a escola se articule com os outros processos formativos do jovem, como a cultura popular, as associações, os grupos culturais, clubes e outros lugares de convivência. 202. Na pesquisa do Projeto Juventude, a educação aparece como o ponto de maior interesse para os jovens, seguida da questão do emprego.128 A relação entre educação e trabalho precisa ser vista com atenção pelos órgãos competentes da instituição marista. O nível educacional influencia de forma direta e decisiva as possibilidades de inserção dos jovens no bom e adequado emprego. Todos os anos um milhão e setecentos mil jovens atingem 127

CELAM, Seção Juventude. Civilização do Amor: Tarefa e Esperança. op. cit p.63. ABRAMO, Helena Wendel, BRANCO, Pedro Paulo Martoni (Org). Retratos da Juventude Brasileira. Análises de uma pesquisa Nacional. São Paulo: Instituto Cidadania e Fundação Perseu Abramo, 2005. 128

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a idade de ingresso no mundo do trabalho e o mercado não tem gerado as oportunidades de que eles necessitam.129 203. Estar na escola passou a definir uma condição de passagem do jovem para a maturidade e para enfrentar a competitividade do sistema vigente. A globalização reconfigurou o mercado de trabalho, tornando-o mais exigente130, excluindo os jovens que não conseguem ter acesso à formação adequada. Isto significa que ele somente está pronto para trabalhar, se atravessar as diversas etapas de formação exigidas. No Brasil, as desigualdades sociais desencadeiam alto índice de defasagem ou abandono escolar, gerando a entrada precoce e precária dos jovens no mercado de trabalho.131 204. De acordo com os dados do Projeto juventude, para os jovens entre 16 e 24 anos, o desemprego atinge altos índices, praticamente o triplo verificado entre a população economicamente ativa: 26,5 em cada 100 jovens se encontram desempregados. Para que todos os jovens que atingem a idade mínima legal para começar a trabalhar, ou para aqueles que completam os níveis básicos de formação, como Ensino Médio ou Universidade, seria necessária a criação de pelo menos um milhão e oitocentos mil empregos. De 65% de jovens entre 16 e 24 anos que estavam, em 2001, na condição economicamente ativa, quase 18% não trabalhava: significa 3,5 milhões, quase metade dos desempregados do Brasil. 205. No universo escolar marista, essa realidade se apresenta de forma muito diferente, não devendo significar omissão na luta corajosa pela causa da educação pública de qualidade: 61% dos entrevistados pela sondagem se denominaram como classe média, o que nos leva a concluir que têm as condições necessárias para completar a escolaridade e retardar sua entrada no mercado de trabalho, buscando alcançar melhores níveis de especialização. Somente 19% dos jovens maristas entrevistados trabalham. Desses, 83% no comércio e o restante como estagiários.132 206. Para todos os jovens que, mais cedo ou mais tarde, estarão insertos no mercado de trabalho, alguns aspectos não podem ser descuidados. A qualificação pessoal e profissional dos jovens acontecerá na medida em que alcancem maiores graus de escolarização, principalmente por meio de oportunidade e incentivo. Torna-se necessário criar uma cultura da educação 129

NOVAES, Regina, VANNUCHI, Paulo (Org), op. cit., p. 242. Idem, p. 243. 131 INSTITUTO DA CIDADANIA. op. cit, p. 32. 132 DICK. Hilário. No mar ligeiro das Instituições Maristas do Brasil. op.cit. p.12. 130

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e do trabalho. Os jovens que, normalmente, são os mais atingidos pelo desemprego poderão ser os agentes de experimentação de novas formas de inserção produtiva, como as cooperativas, associações, trabalhos sociais e voluntariado, buscando difundir uma cultura da economia solidária.133 207. É preciso ter o cuidado de que nas escolas maristas se busque sempre, por meio da formação integral, fomentar entre os jovens a preparação para o mercado de trabalho, incentivando a elaboração de seu projeto de vida. Eles aprendem que o trabalho é um meio importante de realização pessoal, dando sentido à vida, e contribuindo para o bem-estar econômico, social e cultural da sociedade.134 3.6 A Juventude e os meios de comunicação 208. Quando buscamos entender a relação dos jovens com os meios de comunicação, uma constatação fica evidente: o principal lazer e fonte de informação da maioria da população brasileira, incluindo os jovens, é a televisão. Por meio dela as pessoas têm a possibilidade de ler a realidade do mundo, em fatos que são noticiados de forma simultânea ou por programas televisivos que lançam os modismos que se transformam em produtos a serem consumidos. 209. Tal status alcançado pela televisão preocupa em dois sentidos. O primeiro é o abandono de outras fontes de informação e formação que se constituem como essenciais para o desenvolvimento dos jovens, como livros, teatros, revistas, cinema, internet, entre outros. Muitas vezes este abandono acontece pela falta de condições econômicas de acesso. O segundo é a necessidade de se aumentar a qualidade da programação exibida pela televisão, tendo presente que para muitos jovens a TV é o único mediador entre sua experiência de vida e o mundo que os cerca. 210. Esta realidade fica mais clara, quando analisamos os dados do Projeto Juventude: 82% dos jovens dizem que assistem a programas de televisão, 65% costumam ler revistas e 35% jornais. Apenas 21% afirmam navegar na WEB. No entanto, quanto àquilo a que assistem e com que senso crítico o fazem não há unanimidade. Neste universo, 60% dos jovens afirmam não confiar no que os MCS apresentam, possuem forte senso crítico: 38% acreditam parcialmente e apenas 3% acreditam plenamente. 133 134

INSTITUTO DA CIDADANIA, op. cit., p.26. MEM, op. cit., p.114. 79


211. A campanha “Quem financia a Baixaria é Contra a Cidadania”, da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e organizações da sociedade civil para a promoção dos direitos humanos e da dignidade do cidadão na mídia, apresenta periodicamente a classificação dos piores programas de televisão. Entre as principais críticas apresentadas aos programas de televisão, estão: programas que oferecem aos jovens referenciais baseados simplesmente em modelos estéticos; expõem o sofrimento humano de modo superficial; incentivam à violência e contribuem para o amortecimento da consciência diante das questões sociais emergentes. 212. Na sondagem realizada com os jovens maristas parece haver a confirmação do que foi compreendido como os melhores e piores programas de televisão, segundo a pesquisa. Alguns programas de televisão, como de outras mídias, muitas vezes não se preocupam com o conteúdo, apresentando abordagens irresponsáveis sobre questões de sexualidade e consumo. Faz-se necessário pensar numa educação para a mídia, em que a escola tem papel fundamental no desenvolvimento do pensamento crítico. Assim como os jornais, as revistas, a internet e a televisão podem ser objetos de estudo na escola; da mesma forma pode ser intensificada, na grade curricular, a montagem de programas dessas mídias. 213. O que não pode ser esquecido é que, quando absolutizado, ou mesmo quando se torna predominante, o mundo virtual provoca nos jovens a falta de potenciação do pensamento lógico racional, captando-se as idéias de forma global, mas com superficialidade. Por outro lado, no mundo digital, os jovens encontram um meio para se moverem sozinhos em campos virtuais; sentem segurança e constroem a sua identidade. Aprendem a ter opinião própria, tomam decisões que são suas; desenvolvem a habilidade de expressão, já que ao comunicar-se virtualmente, é preciso expressar idéias, abrir-se à pluriculturalidade e a visões diferenciadas de mundo. 3.7 A Juventude e a família 214. A família constitui a instituição em que os jovens mais confiam. Ela possibilita o primeiro olhar sobre a realidade, dando significado ao mundo e à existência. Nela, aprende-se a falar e, por meio da linguagem, a ordenar as experiências vividas e dar-lhes sentido.135 A família serve para o 135

NOVAES, Regina, VANNUCHI, Paulo (Org.) op. cit, p.121. 80


jovem como apoio e solidariedade no enfretamento dos desafios que a vida apresenta. 215. É na família que o jovem tem a oportunidade de desenvolver as atitudes de respeito mútuo, importante para suas experiências fora do ambiente familiar. É o espaço e o momento para a definição dos papéis, tanto internamente na própria família, quanto socialmente com outros grupos sociais. 216. Por outro lado, a família, no modelo econômico prevalecente, parece a instituição que mais sofre. Há transformação profunda nos modelos de organização familiar e enfraquecimento e fragmentação da identidade religiosa. A família nuclear entrou em crise. Há novos modelos culturais de identidade. Cada vez mais, muitos jovens buscam, fora da família, seus modelos de vida. É comum muitos filhos conviverem com a realidade de pais separados. 217. Apesar da modificação do modelo tradicional e nuclear de família e dos inevitáveis e até naturais conflitos vividos pelos jovens em relação à sua família, ela permanece como referência fundamental na vida dos jovens. Segundo dados do Projeto Juventude, a maior parte dos jovens reside com os pais; 78% são solteiros e saem da casa dos pais com a média de 22 anos. 218. No universo da sondagem realizada junto aos jovens maristas, ratificam-se os dados anteriores e confirma-se o valor da família para a vida e a formação dos jovens. A importância da família foi quase unânime nas respostas: 92,6% dos entrevistados pensam constituir uma família e os valores que desejam cultivar são o amor/união (28,0%), o respeito/educação (20,8%), os valores recebidos (19,0%) e, já com menos vigor, os valores cristãos, a humildade, a relação aberta etc.136 3.8 A Juventude e a Religiosidade 219. A religião é aspecto importante na formação da identidade do jovem. É no coração da pós-modernidade que se identificam muitos jovens que fazem a opção por ter uma religião ou, pelo menos, por acreditar em Deus. Segundo os dados do Projeto Juventude, quase 90% dos jovens entrevistados dizem ter uma religião e os outros, quase 10%, não têm religião, mas acreditam em Deus. Desses, 65% declaram-se católicos, 20% evangélicos e 3% de religiões afro-brasileiras; 10% dos jovens declararam 136

DICK. Hilário. No mar ligeiro das Instituições Maristas do Brasil. op.cit, p.24. 81


acreditar em Deus, mas sem nenhuma religião e 1% disseram-se ateus e agnósticos. 220. Houve aumento significativo de jovens em busca de movimentos ou Igrejas que oferecem segurança em meio às dificuldades que a vida apresenta, e que respondem, de forma eficiente, aos problemas cotidianos. Entre esses movimentos e Igrejas destaca-se o crescimento das Igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais, o movimento carismático católico e crenças e práticas classificadas como “nova era”, entre elas mapa astral, búzios, tarô etc. 221. Há aspectos importantes da religiosidade do jovem que precisamos levar em conta: as religiões são fontes de sentido e colaboram de forma decisiva na constituição de sua identidade e de sua visão de mundo; as Igrejas possibilitam a reunião de jovens em grupos, constituindo lugares de agregação social e de exercício de cidadania. Muitos jovens saídos desses grupos religiosos têm colaborado de forma decisiva para a sociedade, inserindo-se em partidos políticos, sindicatos, movimentos sociais, associações. Os jovens têm levado a linguagem religiosa para as artes, para a cultura e vice-versa, garantindo que as questões juvenis criam novos espaços de discussão.”137 Destaca-se, nesta dimensão, o papel das Pastorais da Juventude do Brasil, possibilitando ao jovem a oportunidade do exercício de sua fé e de seu protagonismo. 222. Na sondagem realizada com jovens maristas, 93,8% diz ter religião. Comparando este dado com o perfil da juventude brasileira, onde 10% afirmam não ter religião, percebemos que no universo da juventude marista o cenário se mostra, aparentemente, ”mais religioso”. Se a realidade juvenil brasileira é 68% católica, no mundo marista a “catolicidade” chega a 89,5%. 223. Sobre o dado de participação dos jovens em atividades eclesiais 55% dos entrevistados dizem que participam de alguma atividade, entre elas o grupo de jovens, a missa e a catequese. As experiências religiosas mais significativas para os jovens entrevistados são os encontros e os retiros.”138 224. Por meio de muitos caminhos, os jovens estão buscando respostas à sua necessidade de Deus e pelo sentido da vida. Embora muitos estejam comprometidos, por meio de sua Igreja, em ações comunitárias, de promoção da vida e do bem-estar, estamos diante de um mundo de grandes desafios pedagógicos e teológicos. 137 138

INSTITUTO CIDADANIA, op. cit., p.95 e 96. DICK. Hilário. No mar ligeiro das Instituições Maristas do Brasil. op.cit., p.16-17. 82


3.9 A Juventude e a Ecologia 225. Quando tratamos de ecologia, falamos de uma das causas que mais aglutinam jovens no Brasil e no mundo. Esse espaço tem servido também como exercício de comprometimento político. Em muitos lugares é possível perceber organizações não-governamentais lutando pelas causas ambientais e trazendo em suas fileiras enorme contingente de jovens. Por meio da ecologia os jovens estão podendo fazer novas releituras da realidade e dar novo sentido aos espaços comunitários de convivência. Muitos grupos de jovens de áreas rurais estão lutando por melhores condições no campo; os jovens urbanos, principalmente da periferia, reivindicam melhor infra-estrutura, como saneamento básico, esgoto e coleta de lixo e segurança. 226. A participação dos jovens tem sido essencial para a transformação e a conquista de espaço na discussão da ecologia. A valorização da natureza e a preocupação com o futuro do planeta têm motivado a formação de diversos grupos jovens, destacando-se ativistas e voluntários por todo o país. 139 Um levantamento realizado em 2001, o Ano Internacional do Voluntariado, revelou que o Brasil possui verdadeiro exército de trabalhadores voluntários. São 14 milhões de pessoas doando em média um dia e meio por semana às atividades voluntárias. Os trabalhos voltados para a educação correspondem a 16%. Já as atividades relacionadas a direitos humanos e saúde representam, respectivamente, 9% e 8%. A participação dos jovens nesse tipo de trabalho cresceu de 7% para 34%. São dados que revelam a medida em que a juventude brasileira tem, literalmente, arregaçado as mangas para transformar nossa realidade em algo melhor. 227. A partir dessas experiências pode-se dizer que vai surgindo o que está sendo chamado de sujeito ecológico,140 conseguindo sintetizar esse novo campo de relação (o ambiental) e buscando dar novo sentido às experiências individuais e coletivas, na luta pelo desenvolvimento sustentável. 228. No carisma marista esta dimensão está contemplada na perspectiva da educação integral, quando em “A Missão Educativa Marista”, n° 82, reforça esta idéia, dizendo: “Apresentamos a Boa Nova não apenas em termos pessoais, mas também segundo a visão de Jesus sobre a comunidade humana: alcançando os excluídos 139 140

INSTITUTO CIDADANIA, op. cit, p. 69. NOVAES, Regina, VANNUCHI, Paulo (Org.) op. cit., p. 71. 83


da sociedade, buscando o bem comum para todos e assumindo-o com responsabilidade pelo futuro da humanidade e por toda a criação.” 229. Ao olharmos para a realidade da educação marista, percebemos com alegria uma infinidade de ações e projetos em prol da vida e do meio ambiente desenvolvidos especialmente pelos jovens. Muitos deles estão envolvidos com campanhas que buscam conscientizar as pessoas quanto à preservação da natureza e trabalham incessantemente contra as estruturas opressoras, buscando a paz e o fim da injustiça. Oferecem seus serviços como voluntários em localidades do interior ou em bairros da periferia dos grandes centros, proporcionando melhores condições de vida e um ambiente saudável para futuras gerações. Isso não pode morrer. No Manifesto pela Paz, criado pelos participantes do II Fórum Marista sobre Adolescência e I Fórum Marista de Adolescentes (Curitiba, PR, 2003), fica clara a proposta marista cultivada no coração das crianças, adolescentes e jovens: Diz o Manifesto: “Sabemos que somos apenas um grãozinho de areia, comparados à imensidão deste mundo, mas a paz começa assim, com pequenas idéias, pequenos manifestos, pequenos seres que, como bola de neve, se vão juntando até englobar o mundo inteiro rumo à construção de uma cenário de Paz.” 3.10 A vivência do grupo 230. O contexto da realidade atual, marcado por mudanças rápidas em todos os setores, vem relativizando valores tidos como centrais. A insegurança das pessoas é inevitável nesse processo. Os jovens são os que mais sofrem. Seus maiores medos são o de serem atingidos, ou seus familiares, pelo desemprego e pela violência ou Aids; ou de presenciarem a morte prematura de seus pais. Diante desse contexto, tanto o relativismo quanto o fundamentalismo tornam-se atraentes; um por oferecer uma forma de narcótico alienante; outro por oferecer uma pseudo-segurança. Característica dos jovens é passar, muitas vezes, de um extremo a outro com muita rapidez. Tendo, naturalmente, a propensão de buscar laços de relações sociais fora da família, na busca de serem aceitos na sociedade, tornam-se instáveis nos compromissos e dados a experimentar sempre novas formas de relacionamentos. É neste contexto que eles buscam descobrir o seu lugar no meio social, atrás de uma identidade própria e da aceitação no mundo dos adultos, no entanto sem aderir passivamente às normas sociais e sem deixar de lado suas preferências. 84


231. A formação de grupos, o lazer e os meios de comunicação são os principais espaços de socialização que os jovens e adolescentes encontram e nos quais eles se sentem mais livres e autênticos, características fundamentais de quem busca ser sujeito de sua própria vida. A convivência em grupos favorece aspectos que se tornam importantes para a formação da identidade dos jovens. Para a maioria dos jovens de realidade urbana, quando buscam compor seus grupos de amizade, os fatores afinidade e lazer são fundamentais. Em grupos, sentem-se livres do peso da tradição. Os membros identificamse na convivência diária. Juntos, sentem-se bem, pois buscam um ideal de vida. Trabalham o autoconhecimento, descoberta de sentimentos, e sentido da vida. Juntos tornam-se corajosos e vêem seus medos amenizados. Sentemse alguém no meio social. Quando a comunidade toma consciência de seus próprios problemas, ela organiza-se por si própria e desenvolve recursos e potencialidades. Dessa forma, surge a ação comunitária. 232. De acordo com dados do Projeto Juventude, 85% dos jovens afirmam não participar ou nunca terem participado de um grupo de jovens. Dos 15% que participam ou já participaram (e isso é um dado questionador), 4% estão relacionados aos grupos de igrejas, 3% à música, 2% à dança, 2% ao teatro, 1% ao futebol e os 3% restantes apontam outras participações. 141 233. Na sondagem marista, dos 400 jovens entrevistados, 30,7% responderam que pertencem a um “grupo de jovens” há dois ou três anos e 27,8% estão no grupo”“há 1 ano”; 29,7% dos respondentes participam de grupo de 4 a 9 anos (16,5% de 4 anos). Considerando que 58,5% participam de grupos, 41,5% que”“não”, obtivemos um dado mais”“objetivo” e, talvez, menos “devoto” para a sondagem.142 3.11 Conclusão 234. Há muito ainda que ser feito com os jovens, tanto na vivência do grupo como nos outros aspectos que olhamos de forma ligeira. Os sentimentos e sonhos dos jovens e adolescentes são, muitas vezes, reprimidos por cargas de medo e insegurança em face da realidade, não raro injusta e 141 ABRAMO, Helena Wendel, BRANCO, Pedro Paulo Martoni (Org). Retratos da Juventude Brasileira. Análises de uma pesquisa Nacional. São Paulo: Instituto Cidadania e Fundação Perseu Abramo, 2005. 142 DICK. Hilário. No mar ligeiro das Instituições Maristas do Brasil. op.cit., p.21-22.

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excludente. As políticas públicas para a juventude estão longe de oferecer as oportunidades esperadas e necessárias. Sonhamos com uma Pastoral Juvenil Marista que ajude os jovens a darem seu grito de autonomia e liberdade. Em meio a tantas incertezas, cabe a essa Pastoral construir redes de solidariedade e de cidadania, buscar alternativas, formar e informar, procurando criar espaços com os jovens para expressar seus desejos e conquistas.

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4. CAMINHO DE DEUS E CAMINHO DOS JOVENS NAS PEGADAS DE JESUS E DE MARIA 235. Resgatada com singeleza a nossa história de doação à juventude, precisamos mergulhar na motivação teológica deste nosso serviço. Partimos de Deus Criador, encarando o ser humano criado e criador, criatura social, humanizada em Cristo, formada por Maria, balbuciando o que é, para um marista, o seguimento de Jesus. 4.1 Não só criaturas, mas imagens 236. Iniciemos afirmando: o ser humano é mais do que criatura, é imagem de Deus. Esta afirmativa abre novo horizonte de sentidos sobre nossa visão de Deus e do ser humano e, em conseqüência, do próprio jovem. Vislumbrar este horizonte, esforçando-nos por fazê-lo à luz do Pai de Jesus, em seu desejo de relacionar-se, será o caminho trilhado por nossas reflexões. 4.2 Criatividade e juventude 237. A relação Criação-Salvação apresenta um ser humano que, precisamente por ser imagem de Deus em Cristo, é chamado a assumir sua responsabilidade em relação à criação e sua história, colocando-se longe de toda a passividade e alienação. A relação entre Deus e o ser humano não aparece, de forma alguma, como oposição. Na fidelidade à perspectiva bíblica, sublinha-se a necessidade de uma relação de inclusão, isto é, a ação criadora de Deus fundamenta radicalmente a criatividade da criatura humana. Os compromissos responsáveis do ser humano em relação à criação e sua história fazem dele um colaborador do Deus criador, mesmo em sua limitação. O ser humano é, por assim dizer, naturalmente criativo. 238. Quando vislumbramos os jovens, ainda que apenas nas suas atividades cotidianas, entre suas muitas características é notória a criatividade. É fato que precisa ser reconhecido. Os jovens têm imenso poder criativo a ser trabalhado, ao lado daquelas outras tantas características que constituem sua especificidade. Quem trabalha com a juventude não pode esquecer que, atualmente, os meios de comunicação, não raro, buscam modelar, quando não manipular, essas características dos jovens, aprisionando-as em estereótipos que não traduzem o que, de fato, elas são em sua “novidade”. 89


4.3 Esperança juvenil 239. Nossa fé diz que tudo o que existe, pelo fato de vir do amor de Deus, é eminentemente bom. Contudo a bondade do ser humano e do mundo, por não ser experiência evidente, não é fácil de ser percebida. É pela fé que esperamos o que ainda não é visível (cf. Hb 11,1). Há, sem dúvida, sinais que alimentam nossa esperança e dão ânimo renovado, para que não desanimemos. É uma espécie de grito, de reivindicação. Logo, de acordo com o que foi dito acima da juventude e de sua criatividade, também sua maneira de ver, viver e interpretar a realidade faz com que, do meio das pessoas de fé, seu grito seja ouvido e respeitado. Este grito é de luta e de esperança de quem acredita numa nova realidade que necessita ser construída. 240. A fé alimenta e fundamenta, em última instância, a nossa esperança no ser humano e no mundo como criação de Deus. Ela impede que acreditemos somente na nossa força ou na força daquilo que somos capazes de produzir e, ao mesmo tempo, não nos deixa cair no desânimo e na frustração em face da maldade presente em nossa realidade. Na perspectiva da fé, o jovem entende que a atitude mais coerente do cristão perante o real não é nem a adoração nem a satanização; com a graça divina, cumpre enfatizar a pertença, partilha, confiança e esperança no futuro, em cuja construção o jovem é parte essencial. 4.4 “Passo a passo...” 241. Considerando o processo de evangelização das juventudes, a pergunta feita pelos discípulos, entre si (Mc 4,41), deve ser a mesma que precede todo o fazer e agir de quem trabalha com os jovens e para eles. Significa, concretamente, perguntar-nos por quem são esses jovens, quais seus anseios, angústias, alegrias e em que grau e intensidade eles incidem na sua vida e seus projetos. O evangelista deixa claro que a confissão de fé só pode ter lugar como término de um longo processo pedagógico, que envolve a experiência feita com Jesus, mas de todo é imerso na história concreta. Assim, no trabalho com as juventudes, precisamos evitar respostas precipitadas e rótulos. Com o respeito de quem pisa em solo sagrado, faz-se necessário ouvir, reconhecer, entender, valorizar e celebrar o caminhar histórico que os jovens já trilharam e estão trilhando. Este processo se dá ao mesmo tempo que se caminha. Vale a canção que afirma: “passo a passo, pouco a pouco o caminho se faz”. 90


4.5 Visão positiva de Deus 242. A visão positiva e equilibrada de Deus e do ser humano tem muito que contribuir na evangelização das juventudes, embora, no nível pastoral, ela não parece ter sido devidamente implantada. Para referir somente alguns aspectos, recordemos a questão da corporeidade e todos os tabus que ainda rondam em torno dela. Há sempre o perigo de deixar-nos enredar, no trabalho com os jovens, em um movimento pendular, ora acentuando, fomentados pelas ondas midiáticas, uma supervalorização do corpo, chegando às raias de um subjetivismo alienante, ora reduzindo-o, embalados por uma espiritualidade distorcida e não menos alienante, a algo ruim, espúrio, que deve ser controlado e tolhido. 243. Logo, quando tratamos da presença de Deus que potencia e permite entender o que somos, o tema da espiritualidade vem como imperativo. É caminho, antes de tudo, espiritual, ou seja, tem como guia o Espírito. E, ao contemplarmos a realidade das juventudes no que diz respeito à sua espiritualidade, muitos dados deveriam inquietar-nos. Já é sabido que a linguagem usada pela Igreja nem sempre responde às necessidades e às lacunas apresentadas pelos jovens. Entretanto faz-se necessário, além de nova linguagem, um trabalho árduo que abra novo horizonte de sentido, onde os jovens construam uma espiritualidade enraizada em sua realidade concreta, permitindo-lhes fazer uma experiência de encontro com o Senhor a partir do solo de suas existências. 244. O caminho a que nos referimos acima é fundamentalmente tecido por nossa fé. Esta não significa anulação da liberdade humana querida, desejada e autorizada por Deus, mas se torna a possibilidade da plena realização daquela liberdade. Por isso o caminho pelo qual deve aventurarse a juventude na conquista de seu espaço na sociedade, precisa ter como base uma sólida espiritualidade e fé profunda em Deus que os chama e, ao mesmo tempo, os impulsiona a caminhar e construir sua história de protagonismo. Dessa forma, os jovens testemunharão com sua vida e história que a transcendência criadora de Deus torna possível sua existência, e lhes proporciona a verdadeira liberdade. Fica claro, assim, que não há contradição entre sermos criaturas de Deus e nossa liberdade responsável, que nos faz colaboradores na criação. 245. O Amor de Deus estabelece com a criatura uma relação em que a “dependência” desta é o fundamento de sua autonomia e da sua liberdade. 91


A liberdade criadora de Deus confia-nos o poder de ratificar nosso próprio ser. Santo Irineu afirmou em Contra as Heresias que “Deus faz que o ser humano se faça”. O fazer de Deus rima com o autofazer-se do ser humano. O que o ser humano recebeu do Criador é ser dono de si; o que tem por graça é ser “independente”. “O fundamento que tem o ser humano fora de si é poder ser autor de si mesmo.”143 Até podemos dizer que Deus é mais Deus por ter criado um ser que, em parte, se inventa, realizando-se. 246. Quando o ser humano se sabe criatura, a experiência de sua autonomia e liberdade não fica fechada em si mesma e se insere em conceito muito mais amplo, profundo e libertário. Mais: somente nessa autonomia e liberdade o ser humano se torna ele próprio. Se se promovesse, em nossa pedagogia, a crença no “protagonismo juvenil”, essas questões tocariam na raiz daquilo em que acreditamos no fazer educativo. Vale ressaltar que todas as características, levantadas sobre a juventude, são justamente as ferramentas necessárias para a construção de seu protagonismo. 4.6 O ser humano, criado e criador 247. Os teólogos modernos, atentos à experiência que vive o homem e a mulher, justificam a importância de dar novo enfoque ao tema da criaturidade, uma vez que a teologia tradicional não responde mais, de certa forma, à nova mentalidade. Do acento do ser humano criado, simplesmente, vai-se ao ser humano criado para. “A reflexão teológica sobre a criaturidade deve incorporar não só a experiência da contingência e da finitude, mas também o dado de que essa particular contingência do ser humano é contingência criadora”144. Essas palavras significam que não podemos ancorar-nos na realidade de nossas limitações, mas reconhecer que somos naturalmente criativos, capazes de superar muitos de nossos limites. Este dado é fundamental no trabalho com a juventude. Basta lembrar que a juventude é uma das etapas da vida onde há mais possibilidade de romper barreiras e vencer limites na construção do seu protagonismo. O jovem é, por si só, construtor de caminhos ainda impensados. 248. O aspecto da criatividade precisa ser ressaltado, porque não dá para fugir da responsabilidade que temos de humanizar o mundo e, ao mesmo tempo, de estar a serviço da convivência humana solidária. Em 143 144

FAUS, José I. González. La Humanidad Nueva. Ensayo de Cristología. 9ª Ed.. Santander: Sal Terrae, 1984. Ibidem, p. 30. 92


relação ao âmbito da luta pela justiça, preocupação acentuada na América Latina, vale destacar a Salvação como criatividade: “A salvação é alcançada mediante uma política pela qual Deus liberta o ser humano para criar”145. 249. Este mundo que recebemos das mãos de Deus não é realidade fechada e concluída. Deus criou a natureza aberta à história, à responsabilidade do ser humano e sua decisão livre sobre ela. O ser humano é quem pode e deve dar-lhe sentido; pode também, da mesma forma, frustrar seu sentido e razão de ser. Pode ser o seu anjo da guarda ou o seu destruidor. 250. O que Deus criou é algo que sempre tem de se inventar e ser inventado. Deus não se apega, de forma “ciumenta”, a seu poder criador. O ser humano é chamado, por natureza e não contra a natureza, a continuar a criação, que é desejo de diferenças, não simples perpetuação de uma lei da necessidade e fatalidade. Nesta concepção de criação, a cultura precede a natureza, e a realidade é vista como espaço de liberdade, onde não existe nada totalmente acabado. O ser humano só poderá ser humano e realizar-se, realizando o mundo e, inserindo-se nele, relacionando e integrando o trabalho e o cuidado. Por isso falamos de “projeto de vida” como instrumento importante de tomar nas próprias mãos a construção da identidade das pessoas, particularmente dos jovens. 251. Porém não podemos esquecer que, embora artistas e construtores de realidade, não somos deuses, nem a criação é algo nosso. A relação que se deve ter para com a criação é, fundamentalmente, de responsabilidade e responsabilização, como autêntica relação ética. Quando o ser humano abusa do encargo que recebeu como criatura, as conseqüências são graves: ele mesmo e o mundo ficam marcados pela corrupção que podemos denominar “pecado”. Daqui brota a necessidade de se caminhar em conjunto. Neste caso, lembramos aquilo que denominamos”“parcerias”. 252. De fato, quando não vemos os demais e nos colocamos como senhores de nossos projetos e nos fechamos neles, encontramos-nos divididos entre duas situações opostas. Por um lado, prendemo-nos a uma mística que nos faz parecer mais corretos e verdadeiros em nossas opções e, por outro, preocupamo-nos diante de um futuro comprometido por nossas opções no presente. A resposta mais acertada é aquela que lembra a necessidade de parceria, de interação com os outros e em favor do outros, particularmente dos mais pobres. É uma tensão sempre presente entre o avanço do progresso e a exclusão, aparentemente necessária, dos pobres. 145

ALVES, Rubem. Religión: ¿opio o instrumento de liberación? Montevideo, 1970. p.220. 93


Entre estes, evidentemente, estão os jovens. A pobreza imposta por um sistema injusto, pode também levar ao caminho do crime e da violência. 253. Diante desses fatos, brota o questionamento: como trabalhar os conteúdos da nossa fé com linguagem nova, que responda à situação real em que estamos insertos, sem que se torne algo antigo e sem sentido para as pessoas de hoje? Essa é tarefa que a Igreja não pode mais adiar. 254. Depois desse itinerário que nos revelou quão criativos somos dentro do desejo criativo de Deus, e dos riscos que corremos na elaboração de nossos projetos e na construção de um caminho de protagonismo, devemos entender que o ministério da assessoria tem, em nossa Instituição Marista, a missão de reconhecer que “no centro do carisma de Marcelino Champagnat está a constante busca pelo modo mais eficaz de alcançar os jovens. Seu exemplo inspira as nossas intuições e energias criativas como apóstolos maristas. Buscamos ser a face humana de Jesus no meio dos jovens, ali onde eles se encontram.” 146 4.7 O ser humano criatura social 255. É pela relação que o ser humano se reconhece a si mesmo. Ora, neste marco da relação podem apresentar-se quatro aspectos distintos e complementares. a. A relação com Deus: dela provém a vida e a existência (Gn 2,7). É uma relação de criatura, constitutiva do nosso ser. Esta dependência é uma dependência libertadora. b. A relação com a terra, da qual fomos formados (Gn 2,7), e da qual devemos cuidar como jardim (Gn 2,15). Para o ser humano, que vem da terra, esta relação tem que ver com a vida e o trabalho (Gn 2,15). É uma relação de cultura e de criatividade. c. A relação com o outro: é uma relação única com alguém da mesma natureza e identidade. Não é alguém de quem se receba a salvação e a quem se obedece como a Deus. Tampouco é alguém que se tenha que cultivar como a terra, nem uma criatura para ser dominada. É uma relação de comunhão, de alteridade, de reciprocidade. Assim, podemos pensar na relação que estabelece a Igreja, isto é, a grande comunhão dos filhos e filhas de Deus. 146

MEM, p.167. 94


d. A relação com os demais seres, aos quais governa, nomeando-os e organizando-os (Gn 2,19), é uma relação de “domínio”. Este “domínio”, no entanto, só pode ser entendido enquanto responsabilidade. 256. A única forma de auto-afirmação, portanto, é efetuada pelo ser humano quando afirma seu semelhante. Só a partir do reconhecimento da diferença nasce a relação eu-tu, base de todas as outras. É autêntica experiência de alteridade. O ser humano está completo; é humano na comunhão interpessoal, não na solidão. Deve-se levar em conta que, no mesmo instante em que ocorre essa relação de alteridade, dá-se, de igual modo, a formação da identidade. Se se pensasse nas inúmeras tribos juvenis que existem, fica claro que não pode ocorrer, em seu processo de relação e articulação, nenhum tipo de uniformização ou algo que o valha. 257. Por fim, não se pode esquecer também que a temática do gênero é indispensável em nosso contexto de evangelização da juventude. Trabalhar a necessidade vital da relação entre homem e mulher, e veicular os valores que nascem dessa relação, ajuda-nos a todos, assessores e jovens, a diminuir arestas e potenciar esses mesmos valores solidamente assentados em relações de respeito e complementaridade. 4.8 Humanizados de uma vez por todas em Jesus Cristo 258. Como cristãos, professamos que, em Jesus Cristo, Deus se revelou plenamente e, ao mesmo tempo, revelou seu projeto de ser humano. O Novo Testamento mostra que, à luz do evento pascal, toda a vida de Jesus era a presença de Deus entre as pessoas e sua ação, ação de Deus em favor do ser humano, de maneira especial e preferencial dos pobres, excluídos e marginalizados. 259. Cristo é o princípio e a meta da criação. Desde o início, a história se encontra dentro do projeto do ser humano novo. Esta é a razão que move a história, uma história que precisa chegar à participação na humanidade nova do Ressuscitado. Em Cristo descobrimos qual é o projeto do ser humano sonhado, desde sempre, por Deus. 260. Portanto o ser humano foi criado em Cristo, imagem de Deus, e encarnação de uma humanização verdadeira. Deus, de fato, se humanizou em Jesus Cristo. A santificação do humano está na conformidade com Jesus Cristo mediante a ação do Espírito Santo, Princípio e Agente promotor dessa realidade nova. 95


261. Jesus Cristo é o ser humano querido por Deus desde o início, primícias da humanidade nova. Evidentemente, Jesus é também Deus, como afirma a nossa fé. E é a partir da Ressurreição que se manifesta o novo modo de conceber e de entender o ser humano. No Ressuscitado, sempre em conexão com a vida toda e com a morte de Jesus Cristo, encontra-se o verdadeiro significado do que seja o ser humano.147 262. O ser humano, à luz de Jesus e do que sua vida revelou de Deus e de nós mesmos, é realidade dinâmica e constituinte, em transformação contínua. Por isso não é reduzível a nossos conceitos e exige de nós uma atitude de abertura a algo que ainda nos escapa. Trata-se, nesse sentido, de atitude de fé e de confiança. 263. Nossa vida, a partir de Jesus, é identificada com a vida de Deus. Esta realidade recria a vida do ser humano desde o interior. Aqui encontramos uma implicação antropológica radical, a saber: o acontecido na vida de Jesus não é algo isolado, mas diz do que Deus, em seu amor criador, reservou a cada um de nós. Jesus não é alguém sozinho nesta realidade nova, é alguém conosco. 264. A comunidade reconhece, na fé, que o acontecido a Jesus depois do evento pascal, muda radicalmente a concepção que tínhamos do nosso passado, do nosso presente e do nosso futuro. Isto se deve ao fato de a vida humana de Jesus ter entrado definitivamente na plenitude, ou seja, um ser humano chegou ao fundo da realidade, entrou na vida mesma de Deus. Só a partir dessa perspectiva, o conteúdo da nossa fé pode ser, de fato, vivido, anunciado e entendido. 265. Entender o ser humano, para nós cristãos, só é possível a partir de Jesus Cristo. É a experiência concreta com a sua pessoa que nos revela tudo o que, de certa forma, Deus tinha que falar de si e de nós. Em Jesus, reconhecemos a nossa liberdade, autonomia e responsabilidade dentro da criação e, ao mesmo tempo, a nossa criatividade responsável, que nos outorga a função de co-criadores. É Jesus quem nos mostra que o outro não pode mais ser entendido como apêndice, algo separado de nós. Aqui repousa a novidade cristã: Deus não se define entre alteridade e identidade. O outro, nele, o constitui. Tocamos, assim, o mistério de Deus que é, em si mesmo, diversidade e comunhão profunda. É comunhão trinitária. 147

“A relação entre Adão e Cristo não consiste em que Este repara ou refaz o que aquele fez de errado, senão que Cristo é a consumação, verificação e presença de algo novo que estava apenas pré-anunciado no Adão primeiro.” FAUS, op. cit, p. 229. 96


266. O fato de reconhecer que Deus toca por dentro a nossa humanidade, assumindo-a e comprometendo-se com ela (Mt 15,32), faz com que, historicamente, e a partir da humanidade concreta de Jesus e de suas opções, nos coloquemos a serviço dos jovens, principalmente daqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade social e, ao mesmo tempo, em relação harmoniosa com toda a criação. Separar Jesus de suas opções históricas concretas é esvaziar o sentido que o próprio Deus foi dando à sua existência humanizada e humanizante. É separar o que, depois de Jesus, está definitivamente unido: o humano e o divino. 267. Esta convicção foi o que permitiu que a comunidade reconhecesse, na sua experiência de fé no Ressuscitado, que aquele ser humano era a plena imagem de Deus (Jo 14,7). Esta mesma experiência é, sem dúvida, o que nos autorizará a dizer o mesmo dele e de cada um de nós, assessores e jovens, quando reconhecemos que o rosto de Deus reflete também o rosto da juventude. 268. Lança-se, dessa forma, um dos nossos maiores desafios no tocante ao nosso caminho construído com os jovens: ver neles o reflexo do rosto de Deus que clama em suas necessidades e aspirações, impelindo-nos a “multiplicar os nossos modos de participar de suas vidas e seu mundo. Com espírito missionário, estamos abertos a todos os jovens, independentemente de sua crença, raça e cor, sabendo que não podemos trilhar o mesmo caminho com cada um deles em nossa missão de evangelização”.148 4.9 Maria, modelo de Assessora. “Eles não têm mais vinho!” (Jo 2,3b). 269. Pouco depois do anúncio do anjo, em visita a sua prima Isabel, Maria reconhece a ação de Deus em sua vida e na vida do seu povo. Basta observar o Magnificat e o seu conteúdo profético (Lc 1,46-55). Maria não hesita em anunciar o que significa abrir-se à ação de Deus e o que esta ação pode fazer na história. A dimensão profética de Maria é conseqüência de sua escuta e abertura ao projeto de Deus. 270. No entanto, durante o seu discipulado, Maria teve de provar os dissabores da rejeição da mensagem do seu Filho e de seu projeto. Mesmo assim, sua confiança e perseverança (Lc 2,19) confirmavam sua adesão ao ensinamento de Jesus.

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MEM, op.cit.,p.169. 97


271. Nas bodas de Caná a sensibilidade e a solidariedade de Maria transparecem de forma clara no primeiro sinal realizado por Jesus. Maria lê e entende a realidade: a festa estava ficando sem vinho, isto é, sem alegria. Ela interpela Jesus, dizendo: “Eles não têm mais vinho!” (Jo 2,3b) 272. O caráter apelativo e, ao mesmo tempo, exortativo desta frase é exigente, para os assessores e as assessoras. Primeiro, porque nos convida a lançar-nos na realidade dos adolescentes e jovens, para ajudá-los a desvelar e enfrentar as situações que podem retirar-lhes a alegria, o entusiasmo e a vontade de viver. Segundo, porque se torna exigência para nossa própria vivência fraterna, em que não pode faltar o vinho da alegria, para que nosso fazer ser e agir no mundo sejam, como em Maria e em Marcelino, o reconhecimento humilde e verdadeiro de que Deus fez e faz em nós maravilhas. Ao contemplá-las, as pessoas devem sentir o desejo de partilhar conosco a alegria do seguimento de Jesus em seu projeto de fraternidade, de maneira especial os adolescentes e jovens. 273. Em Maria reconhecemos aquela que inspirou São Marcelino Champagnat e a todos nós em nossa missão de fraternidade, profecia e cidadania, onde quer que estejamos com os adolescentes e jovens. 4.10 O seguimento de Jesus 274. O seguimento de Jesus compreende toda a realidade do ser cristão. Nesta perspectiva, queremos recordar, mesmo de forma sintética, os três lugares teológicos adotados por São Marcelino Champagnat e legados a todos os que acreditamos em seu modo peculiar – ainda que não exclusivo– de entender-se cristão. Segundo a vida e história de Jesus, esses três lugares estão apresentados no Presépio, na Cruz e no Altar. 275. Marcelino sempre recomendou aos irmãos que jamais perdessem de vista esses lugares de encontro com o Senhor, uma vez que os entendia como ápices do amor e solidariedade de Deus com cada um de nós149. 4.10.1 O Presépio 276. Tocamos, na imagem do presépio, no mistério que compreende o desejo de Deus de abraçar o humano e sua solidariedade com os excluídos 149

Para aprofundar mais a dimensão cristológica das nossas Diretrizes, não podemos deixar de chamar a atenção para o Marco Doutrinal de “Civilização do Amor - Tarefa e Esperança” (São Paulo: Paulinas, 1997), especialmente no que se refere à pessoa de Jesus Cristo. O que aí se encontra é fonte privilegiada para outros aprofundamentos de nosso carisma. 98


da terra. O presépio – lugar de despojamento e simplicidade – é o lugar de encontro com o Cristo pobre e frágil. Na vulnerabilidade e pequenez do presépio, assim como os Reis Magos, encontramo-nos com um Deusmenino, um Deus que, conosco, põe em xeque toda e qualquer falsa segurança e poder que nos assaltam, mobilizando a totalidade do nosso ser e agir cristãos. 277. O presépio não é nem pode ser entendido como lugar qualquer, mas aquele lugar que nos revela positivamente onde Deus desejou estar. Este, não outro, é o lugar onde Ele deve ser buscado. 278. No presépio nos deparamos com o Senhor que exige de nós descentralização, onde entendemos, com a devida profundidade, o sentido da palavra solidariedade. O presépio é o “lugar” que Deus escolheu para estar conosco. 279. Não é difícil perceber a atualidade e a exigência da espiritualidade que nasce do presépio. Enquanto a sociedade nos empurra para o brilho e a sedução passageira, para a disputa desenfreada pelo triunfo e glória, o presépio, em seu silêncio e acolhida, fala-nos da experiência de Deus, de sua opção consciente pelo pequeno e aparentemente frágil. É, primeiramente, um caminho de humildade. 4.10.2 A Cruz 280. Seria errôneo associar a cruz única e exclusivamente a uma realidade de morte. Embora essa visão não esteja errada, revela-se insuficiente. A cruz, no caminho do discípulo, é condição de seguimento: “se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me” (Mc 8,34). 281. A morte de Jesus na cruz não deve jamais ser entendida como algo meramente pontual. Ela foi conseqüência das opções que Jesus ia fazendo durante a sua vida. Exatamente por isso a fidelidade de Jesus à realidade e sua prática de justiça lhe trouxeram perseguição e morte. Foi assim que as primeiras comunidades captaram essa experiência como algo inerente a sua fé. Como Pedro afirmou: “estejam sempre preparados para responder a todo aquele que lhes pedir razão da sua esperança” (1Pe 3,15). Nossa esperança reside na convicção que temos de que a cruz e a morte não foram as últimas palavras de Deus na vida e história de Jesus, mas a vida confirmada em sua ressurreição. Contudo a cruz continua sendo a opção escandalosa de Deus em favor dos injustiçados. Ela produz uma tensão indispensável à nossa fé e nos faz 99


entender que não há um seguimento autêntico de Jesus que não se encontre com a realidade da cruz. 282. Podemos recordar os inúmeros desafios que se apresentam para toda a juventude hoje. São inúmeros os jovens sem trabalho, sem perspectivas de vida, excluídos, jovens que não encontram seu lugar numa sociedade que os rotula, discrimina e subjuga. Ainda diante de tantas realidade de morte, devemos estar sempre conscientes que a cruz é sinal, antes de mais nada, de esperança, uma vez que Deus ressuscitou nosso irmão Jesus e deu ao mundo a certeza de que este caminho de seguimento é caminho de ressurreição. 4.10.3 O Altar 283. Os Evangelhos são claros ao mostrar que Jesus, durante sua missão de anúncio do Reino e denúncia das injustiças, quis constituir comunidade. Exemplo disso pode ser encontrado nos diversos chamados aos discípulos no início de sua missão, constituindo o grupo dos Doze. Dessa forma, nossa fé, que nasce dessa experiência comunitária, é uma fé apostólica que se nutre fraternalmente do Pão partilhado, que é o próprio Jesus. 284. No capítulo 24 do evangelho de Lucas, encontramos o Jesus ressuscitado como o “Altar” que serve aos discípulos de Emaús o alimento das Sagradas Escrituras e parte o Pão, sua própria vida entregue por nós. Ele é, de fato, sacerdote, vítima e altar ao mesmo tempo. Com Jesus, os discípulos escutam a Palavra, enquanto caminham, depois sentam-se ao redor da mesa e partilham do pão que Jesus oferece. 285. Essa experiência de fé, vivida pelos discípulos, fez com que eles empreendessem nova caminhada rumo a Jerusalém que, para o evangelista, é o ponto central, onde o ressuscitado deveria ser encontrado e de onde os discípulos partiriam para a missão, após a experiência de Pentecostes. 286. No altar realizamos a memória que nos revoluciona e nos atualiza, no Espírito, do mistério pascal. É onde, em cada Eucaristia, Jesus se entrega a nós e ao Pai, com a mesma força transformadora, capaz de congregar-nos como irmãos, a fim de humanizar-nos e humanizar toda a realidade. 287. Entendemos a profundidade e a envergadura desses três lugares de encontro com o Senhor, na consolidação da espiritualidade de Marcelino Champagnat. Eles continuam sendo fonte e alimento do nosso jeito marista de ser, como seguidores de Jesus, apóstolos da juventude e continuadores de seu carisma. 100


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5. CARISMA MARISTA NA EVANGELIZAÇÃO JUVENIL 288. As Constituições do Instituto Marista focalizam o núcleo da missão de Marcelino Champagnat em sua experiência de fé, fundamentada no desejo de cumprir a vontade de Deus. Esta experiência o fez abraçar apaixonadamente a realidade social e eclesial150 de seu tempo e o impulsionou a construir o projeto de tornar Jesus Cristo conhecido e amado entre as crianças e jovens carentes de instrução religiosa e acadêmica151. Tendo concebido este projeto inserido no coração da vida eclesial152, com suas atitudes Marcelino Champagnat nos aponta três dimensões fundamentais do carisma marista, articuladas entre si: profética, comunitária e cidadã. 5.1 Dimensão Profética 289. “Nós, Maristas, somos animados de igual zelo, a continuarmos o carisma do nosso fundador, respondendo aos anseios e às necessidades dos jovens de hoje” (C81). 290. A história da salvação é a revelação da face misericordiosa de Deus, que se apresenta para salvar o povo e conduzi-lo a uma terra de liberdade, onde corre leite e mel (Ex 3,8b). Para cumprir este seu desejo, Deus suscitou entre o povo mulheres e homens fiéis à sua Palavra, que anunciavam a esperança na Aliança com Javé e, ao mesmo tempo, denunciavam as infidelidades do povo e as situações de discordância com o seu projeto. Fundamentada nesta história de salvação divina, através da ação das profetisas e profetas do Antigo Testamento, a Igreja, por mandato de Jesus Cristo, construiu historicamente a sua experiência de Deus reconhecendo, apoiando e estimulando as mulheres e os homens que se posicionam contra todas as situações em que a dignidade humana é violada. 291. A dimensão profética do carisma marista se insere nesta dinâmica de fé. Sabemos que nenhum carisma é dado a uma pessoa para ser escondido, guardado ou usado particularmente. Ele é dom para ser colocado a serviço 150

FURET, J. B. Vida de José Bento Marcelino Champagnat. São Paulo: Loyola, 1989, p. 56. INSTITUTO DOS IRMÃOS MARISTAS. Constituições e Estatutos. Texto do XVIII Capítulo Geral (1985) com as modificações estatutárias introduzidas pelo XIX Capítulo Geral (1993). São Paulo: Simar, 1997. nº. 2. Esta obra, de agora em diante, será citada somente como Constituições e seu número respectivo. 152 FURET, op.cit., p. 32. 151

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da Igreja, da comunidade. Assim também acontece com o carisma marista, dom de Deus dado à Igreja na pessoa de Marcelino Champagnat. O Instituto dos Pequenos Irmãos de Maria, por ele fundado, se faz portador, não proprietário, deste dom para o povo, especialmente para as crianças e jovens. Por isso os seus membros se reconhecem chamados por Deus e conduzidos por seu Espírito153 para anunciar a esperança da Boa Nova de Jesus Cristo e denunciar todo o projeto que fere a dignidade das filhas e filhos de Deus. 292. Como o Pe. Champagnat se sentiu interpelado por sua realidade social e a ela deu respostas proféticas, também somos convocados a sermos profetas do nosso tempo e convidados a escutar os apelos de Deus, expressos na vida sofrida de tantas irmãs e irmãos que caminham à margem da sociedade; somos convidados a assumir a nossa missão junto aos adolescentes e jovens lá onde eles estão. Na realidade concreta destes, com a responsabilidade de anunciar o Evangelho e denunciar a violação do rosto de Deus presente em cada ser humano, ganha forma e se concretiza a nossa missão plenificada de conteúdos concretos da realidade que nos cerca. Neste movimento nos aproximamos dos adolescentes e jovens e tomamos consciência de seus sonhos e projetos com suas dificuldades reais. Isto nos fornece matériaprima para que sejamos, de fato, construtores da justiça e da paz no mundo.154 293. É importante ressaltar ainda que o carisma legado por São Marcelino Champagnat, por ser eclesial, é essencialmente comunitário.155 Somos enviados pela comunidade156 e em nome da comunidade como profetas para dilatar as fronteiras do Reino entre os jovens e as crianças. 294. A história de Champagnat é exemplo do poder renovador da ação de Deus na história humana. Acreditamos que ele recebeu um dom espiritual único, mas dado, por meio dele, para toda a Igreja, a serviço da humanidade. Inspirado pelo Espírito, descobriu modo novo de viver o Evangelho, como resposta concreta às necessidades espirituais e sociais das crianças e dos jovens, naquela época de crise. Constatamos a atualidade deste carisma pela sua capacidade de inspirar gerações de discípulos, incluindo a nossa.157 153

Constituições, nº. 11. Idem, nº. 86. 155 Ibid, nº. 52. 156 Constituições, nº. 82. 157 MEM p.36. 154

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5.2 Dimensão Comunitária 295. O projeto de evangelização que somos conclamados a abraçar, como porta-vozes do carisma marista, no coração da Igreja, exige, por sua profundidade e envergadura, que seja alicerçado em base firme (Mt 7,2627), base que gravita, sem dúvida, ao redor do testemunho que se pode vislumbrar na vida fraterna. 296. A união, acolhida e abertura da comunidade deixam transparecer o testemunho da nossa alegria e esperança cristãs.158 Esta vida comunitária, quando alicerçada nos valores evangélicos, faz de nossas comunidades verdadeiros lares onde existem em abundância o óleo do perdão para curar as feridas e o vinho da festa para celebrar tanta vida partilhada.159 Não resta dúvida, contudo, que os adolescentes e jovens, quando se deparam com um testemunho comunitário desse porte, sentem-se interpelados ao seguimento de Jesus Cristo. Não obstante os desafios apresentados por uma sociedade marcada pelo individualismo, pobreza e exclusão, a vida fraterna abre perspectivas novas de vida para adolescentes e jovens que têm diante de si o desafio de lidar com a falta de sentido de suas vidas, o desânimo e a desesperança diante do futuro. 297. Cada vez mais nos deparamos com inúmeras experiências comunitárias de evangelização, em que adolescentes e jovens depositam toda a sua energia, seu entusiasmo e sua força transformadora. Essas experiências devem ser levadas a sério por toda a Igreja, e por nós, Assessores e Assessoras, como legítimos sinais dos tempos (Ap 1,1b). 298. A experiência do amor de Jesus e Maria por nós, a abertura e a sensibilidade às necessidades dos nossos tempos e um amor concreto pelas crianças e pelos jovens, principalmente os mais necessitados, estão no coração do carisma marista que herdamos de São Marcelino Champagnat.160 299. Faz-se necessário que nossas comunidades sejam sempre mais lugares de referência para os adolescentes e jovens, onde eles se sintam acolhidos, animados e convidados a participar de nossa vida e missão. Nosso amor fraterno testemunha que, enquanto Igreja, entendemos ser o projeto de Jesus um projeto de fraternidade; por isso é evangelizador em si mesmo. 161 158

Constituições, nº. 82 Escolhamos a vida. Documento do 20º Capítulo Geral do Instituto dos Irmãos Maristas, 2001, nº. 24. 160 MEM, p. 37. 161 Constituições, nº. 58. 159

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Esse amor fraterno pode e deve ser manifestado em nossas vidas de seguidores de Jesus. Foi o que fez o Pe. Champagnat, durante toda a sua vida, com os Irmãos. Os frutos do testemunho de amor fraterno em uma comunidade podem ser reconhecidos na fecundidade de sua evangelização, frutos que se multiplicam em meio à sociedade (Mt 13,23). 300. O reconhecimento de que todo o projeto de evangelização, segundo a missão a nós delegada pela Igreja na pessoa de São Marcelino Champagnat, passa pela qualidade da vida fraterna vivida pelos Irmãos e leigos, nos faz concluir que a fraternidade é dimensão significativa da nossa missão e ambas caminham lado a lado. O projeto de evangelização que abraçamos é essencialmente um projeto comunitário e eclesial. 301. Inspiramo-nos mutuamente para aprofundar a nossa fidelidade ao carisma, descobrindo novos aspectos na sua riqueza espiritual e no seu dinamismo apostólico. De modo especial, os jovens que estão entre nós revelam, no carisma de São Marcelino Champagnat, novas perspectivas e facetas para todos nós, hoje.162 5.3 Dimensão da cidadania ativa 302. A idéia de cidadania ativa se desenvolveu partindo da ruptura com o sistema que legitimava a relação entre senhores e súditos e reforçava os deveres destes para com aqueles. Com o tempo, ganhou novos matizes, ampliou a sua área de abrangência para todas as camadas sociais e se estruturou em um conjunto de idéias para a defesa dos direitos do cidadão. 303. Como cristãos, quando falamos de cidadania, devemos levar em conta que: a. O projeto do Reino, apresentado por Jesus, não se reduz a uma sociedade onde cada pessoa vive a sua cidadania isoladamente. b. Este projeto não pode ser efetivado sem o conceito de cidadania apresentado pelas ciências humanas. c. O Reino floresce, hoje, no seio da sociedade marcada pelo sistema neoliberal163, o qual nutre uma ideologia excludente e desumanizadora.

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MEM, nº. 41. Na Exortação pós-sinodal Ecclesia in America do Papa João Paulo II, no nº. 56, se define o neoliberalismo da seguinte forma: “Sistema que, apoiado numa concepção economicista do homem, considera o lucro e as leis do mercado como parâmetros absolutos em detrimento da dignidade e do respeito da pessoa e do povo”. 163

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304. Jesus viveu em uma sociedade em que os direitos e deveres das pessoas estavam sob o forte jugo de uma lei mosaica que se sobrepunha ao ser humano e o condicionava com decretos que, não raro, feriam sua dignidade. Tudo em nome de Deus! A esta situação, Jesus reagiu de forma incisiva: “Assim, vocês esvaziaram a Palavra de Deus com a tradição de vocês” (Mt 15,6b). 305. Como Irmãos, leigos e jovens maristas, não podemos esquecer que o Pe. Champagnat afirmava ser a escola um excelente meio para formar bons cristãos e virtuosos cidadãos.”164 Por isso se justifica a sua insistência quanto à fundação de escolas para a instrução e promoção das crianças e jovens, preferencialmente os mais pobres, por meio da educação. Vale ressaltar que o uso do termo cidadão, no contexto histórico do Pe. Champagnat, apresentava-se como grande avanço. Isto porque este termo foi universalizado pelos ideais da Revolução Francesa e não era usado pelas pessoas religiosas que trabalhavam com o povo. O Pe. Champagnat não associava diretamente o cidadão, instruído a partir dos valores evangélicos, com o cidadão dos ideais liberais da Revolução Francesa, que prescindia da religião no processo de transformar a sociedade. 306. A dura realidade em que vivem tantas crianças e jovens nos convoca pessoalmente e como grupo a crescer espiritualmente e a dar uma resposta mais audaciosa e decidida, fiel ao Evangelho e ao nosso carisma.165 307. Ao unir a vida de fé e os valores cristãos, Marcelino Champagnat vivia como sacerdote o desejo de transformar a realidade de milhares de jovens e adolescentes mediante a educação cristã e venceu, assim, duplamente, uma batalha. De um lado superou a tentação do espiritualismo que desvinculava a fé do compromisso concreto com a transformação social e, de outro, superou a tentação do ideologismo radical que separava e supervalorizava a educação sem o ensino dos valores cristãos. 308. Ao afirmar a complementaridade entre fé e vida, entre o ensino dos valores evangélicos e respeito pela dignidade da pessoa, entre fé e direitos do cidadão, o carisma marista presta um serviço de promoção humana e, ao mesmo tempo, revela ou explicita a sua dimensão cidadã. 309. Inseridos nos grandes centros urbanos ou nas pequenas cidades, os Irmãos e leigos Maristas, a exemplo do Pe. Champagnat, devem deixarse afetar pela realidade dos adolescentes e jovens que os circundam. O 164 165

Constituições, nº. 81. MEM, nº. 64. 107


aumento exacerbado da violência e da criminalidade, o uso de todo o tipo de drogas e entorpecentes, a falta de sentido para a vida, o medo, a desconfiança em relação a tudo o que nos cerca etc., são fatores que devem ser levados em conta ao elaborar qualquer projeto de evangelização para adolescentes e jovens. 310. Do mesmo modo como Marcelino Champagnat pensava nas crianças e nos jovens menos favorecidos, ao fundar os Irmãos Maristas, a nossa preferência deve ser pelos excluídos da sociedade e por aqueles que, por causa da sua pobreza material, não têm acesso à saúde, a uma vida familiar equilibrada, à escolarização e à educação nos valores.166 311. Também não se pode esquecer os sinais de vida que surgem no meio dessa cultura da exclusão. As iniciativas locais, estaduais e federais que buscam extirpar os males provocados pela injustiça social, os grupos de adolescentes e jovens que se organizam nos bairros ou em nossas escolas etc., devem ser apoiados e animados como forma de amenizar as mazelas que deixam esses adolescentes e jovens mergulhados em toda a sorte de violência e falta de perspectiva. 312. Outro ponto relevante que toca o processo de evangelização nos dias de hoje diz respeito aos meios de comunicação social. Mais do que nunca, os adolescentes e jovens são bombardeados por sons e imagens que, por um lado, abrem os seus horizontes com uma infinidade de informações de todo tipo e, por outro, não orientam como fazer para que essas mesmas informações sejam processadas e articuladas adequadamente. A sociedade midiática amplia enormemente o horizonte virtual das pessoas em detrimento, em grande parte, da otimização, efetivação e articulação das informações em seu contexto real. 313. Como a educação, a cidadania é sempre uma conquista, jamais uma imposição, doação ou algo que o valha. Logo, o carisma marista só pode ser entendido dentro da dinâmica eclesial em que se insere, alicerçado na convicção de que, para todo e qualquer tipo de projeto de evangelização, a exortação de Jesus deve aparecer como algo central e imperativo: “em primeiro lugar, busquem o Reino de Deus e a sua justiça””(Mt 6,33). Só assim o Reino aparecerá, de fato, como base e sustentáculo do carisma, do seu profetismo, do seu testemunho comunitário e eclesial e da cidadania pela qual lutamos. 166

MEM, p. 54. 108


5.4 A experiência “Montagne” 314. No interior da França, ao visitar um jovem, conforme seu costume e, atendendo a confissão, Champagnat verificou a ignorância do rapaz com relação às verdades da fé, não sabendo nem mesmo se Deus existia. Aflito em perceber o jovem Montagne, aos dezesseis anos, mergulhado em tão profunda ignorância, temendo vê-lo morrer nessa situação, sentou-se e ensinou-lhe os principais mistérios e as verdades essenciais da salvação. O jovem se encontrava tão doente que mal entendia o que Champagnat falava. Após a confissão, depois de alguns minutos, morre o jovem Montagne. Champagnat sente imensa alegria e gratidão a Deus por ter anunciado as verdades da fé antes da morte do rapaz. Neste contexto, Champagnat decide fundar uma sociedade de Irmãos destinada à instrução cristã de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social.”167

167

MEM, p.87. 109


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6. PASTORAL JUVENIL MARISTA: OPÇÕES PEDAGÓGICO-PASTORAIS NO SERVIÇO À JUVENTUDE 315. As opções pedagógico-pastorais afirmam aquilo em que, pedagógica e pastoralmente, acreditamos, aquilo pelo qual optamos, escolhemos e definimos como propostas orientadoras de ação que se considera prioridade no processo de evangelização que concebemos. Para realizarmos um trabalho em conjunto precisamos encontrar-nos em opções assumidas por todos, como “marcas” que nos orientam e caracterizam. 316. Toda a opção pedagógico-pastoral se inspira em pressupostos, que se traduzem em determinada concepção de homem e mulher que pretendemos educar, de sociedade que queremos construir e de Igreja na qual queremos viver. As opções pedagógico-pastorais são o caminho para iluminar e nortear o trabalho com a juventude, principalmente no que diz respeito à educação na fé e na vida. 317. Assim como a pedagogia e a metodologia da Pastoral da Juventude do Brasil168, a pedagogia empregada no trabalho junto à juventude marista quer ser uma pedagogia pastoral transformadora, libertadora e comunitária169 que parta da experiência, numa dimensão coerente com os valores do Reino e que se preocupe com o processo integral da formação humana, uma pedagogia que viabilize o processo de evangelização e educação na fé 170. 318. Marcelino Champagnat considerava a educação como meio para levar as crianças e jovens à experiência de fé pessoal e de fazê-los “bons cristãos e virtuosos cidadãos”. Como seus discípulos e confiantes na educação de crianças e jovens na ação evangelizadora, assumimos a mesma missão de ajudá-los a crescer em humildade e tornarem-se pessoas integradas e de esperança, comprometidas com a transformação social 171. 319. Na busca constante de sermos apóstolos da juventude, queremos seguir os passos da pedagogia de Jesus, convite e desafio permanente para participar do Reino, de forma autônoma e responsável, através das relações de fraternidade como filhos de Deus172. Nosso trabalho evangelizador quer, de forma pedagógica, apontar a construção da civilização do amor. Queremos 168

Cf. CNBB nº. 76. CELAM. Civilização do Amor: Tarefa e Esperança. op. cit., p.188. 170 CNBB, nº. 76. op. cit., p.145. 171 MEM, nº. 70. 172 CELAM. Civilização do Amor: Tarefa e Esperança, op.cit., p.187. 169

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partilhar e continuar o sonho de Champagnat, reafirmando a opção profética pelos jovens, principalmente os empobrecidos, oferecendo-lhes uma educação integral, humana e espiritual, baseada no amor e nos valores do Reino. 320. Outro aspecto importante é a pedagogia da presença e o espírito de família que assumem grande significado numa sociedade muitas vezes geradora de egoísmo, individualismo e solidão173. É necessário educar para a afetividade, para a ternura e a criatividade, ajudando o jovem e a jovem a reconhecerem-se como dom de Deus e parte da criação, como seres inacabados que se constroem no convívio com os outros, a partir dos erros e acertos, num processo dinâmico de aprendizagens e de construção de sonhos. 6.1 Inseridos na educação 321. O estilo da pedagogia marista baseia-se na visão integral que propõe conscientemente comunicar valores, empregando assim uma abordagem própria desenvolvida inicialmente por Marcelino Champagnat e partilhada por todos aqueles que, como ele, apostam que para bem educar as crianças é preciso antes de tudo amá-las, e amá-las todas igualmente 174. 322. Como maristas, reconhecemos Maria como Boa Mãe, primeira discípula e educadora, que nos inspira em nosso fazer pedagógico. Assim como Maria da Anunciação, queremos estar abertos à ação de Deus nas nossas vidas e, como em Belém, buscamos fazer Jesus nascer nos corações dos outros, de modo particular nas crianças e jovens tocados pela nossa pedagogia. Como Maria, na visitação a Isabel e em Caná, aprendemos a estar atentos às necessidades do mundo e da comunidade. Por isso todos os educadores, comprometidos com a educação de crianças e jovens, precisam questionar-se, antes de qualquer trabalho, sobre que tipo de homem/mulher esperam formar e que tipo de sociedade acreditam estar construindo. 323. Evangelizamos pela educação, tanto nas instituições escolares, como nos projetos pastorais ou sociais175 e, até mesmo, no contato informal, buscando acompanhar as crianças e os jovens nos valores humanos e cristãos, na construção de um mundo melhor, tornando Jesus Cristo conhecido e amado, conforme o carisma legado por São Marcelino Champagnat. Ajudamos os 173

MEM, nº. 11. Idem, nº. 97. 175 Ibidem, nº. 76. 174

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jovens no seu processo de educação na fé, aprendendo a ser, a fazer, a conhecer e a conviver176, procurando harmonizar fé, cultura e vida177. 324. Com espírito missionário, estamos abertos a todas as crianças e jovens, independentemente da sua crença178. Vamos aos jovens lá onde eles estão. Vamos com ousadia aos ambientes, talvez inexplorados, onde a espera de Cristo se revela na pobreza material e espiritual179. 325. Mediante a educação, queremos propor a construção da Civilização do Amor, que passa obrigatoriamente pela construção de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária. Esta só é possível por meio de uma prática libertadora, que vai transformando nossa consciência, lançandonos expeditamente na adesão a uma cultura de solidariedade que seja capaz de defender a vida acima de tudo, que respeita e preserva a natureza e nela descobre o rosto do Deus criador. 326. Reconhecemos que o trabalho de evangelização é prioritariamente ação do Espírito Santo. (1Pd 3,15) É Ele que impulsiona o carisma e desperta a vida. Pela criatividade, pela unidade, pela alegria e dinamicidade e, sobretudo pela graça, os jovens são templos do Espírito Santo, sacramentos do novo.180 Eles carregam dentro de si uma força motriz capaz de gerar a dinamicidade necessária para o processo de transformação social, exercendo seu protagonismo, entendido como ação autônoma que implica responsabilidade e coerência, e que nasce do desenvolvimento do processo da educação na fé. Os jovens que querem ser apóstolos dos jovens devem conquistar seu espaço na sociedade, como agentes transformadores das estruturas geradoras de injustiça, exclusão e violência, determinando a primazia da pessoa sobre as coisas, o testemunho fraterno sobre as palavras vazias, o serviço sobre o poder, a fé no Deus da vida sobre os ídolos alienantes. 327. O trabalho em projetos concretos de solidariedade ajuda a alimentar a fé pessoal e o compromisso social, além de estimular a autoconfiança e a convicção de que é possível mudar. Isso vai impulsionar a organização e a criação de objetivos, o resgate da teoria refletida na prática construída na vivência de grupo.

176 DELORS, Jacques. Educação: um tesouro a descobrir. Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. São Paulo: Cortez, MEC/UNESCO,1998, p.89-102. 177 MEM, nº. 126. 178 Ibid, nº. 169. 179 Constituições, nº. 83. 180 DICK, Hilário. O Divino no Jovem, op. cit., p.13.

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328. Marcelino Champagnat, inspirado em Maria, nos deixou três características que nos desafiam constantemente no nosso jeito de ser e na ação com a juventude. Na raiz, encontramos a humildade, que nos faz reconhecer nossas potencialidades e limites. Esta característica desafia-nos a assumir nossa humanidade, que se revela na forma de agir com simplicidade, em relações autênticas e sinceras conosco, com os outros e com Deus; e modéstia, fazendo o bem com gratuidade, sem ostentação, da maneira expressa por Jesus: “que tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita” (Mt 6,3). Assim, nos comprometemos em educar as gerações futuras na humildade e para humildade, em simplicidade e modéstia. 181 6.2 As opções 329. Afirmamos, em sintonia com a ação evangelizadora da Igreja, o carisma marista legado por São Marcelino Champagnat e a realidade em que nos encontramos, como opções pedagógicas: o grupo, as dimensões de formação integral, o acompanhamento, a organização, as juventudes e a metodologia, explicitadas a seguir. 6.2.1 O grupo 330. Para considerar o grupo como “espaço formativo”, precisamos caracterizá-lo numa primeira instância. Nessa caracterização tomamos por base o que nos recorda o Conselho Episcopal Latino-Americano, CELAM, em seu documento intitulado “Civilização do Amor: Tarefa e Esperança”. Dentro da Pastoral Juvenil Marista no Brasil, consideramos como “grupos de jovens” os pequenos grupos que contam com participação regular e sistemática, com idades homogêneas e envolvendo ambos os sexos. Para e s t e s j ov e n s , o g r u p o v e m a s e r e s p a ç o d e c re s c i m e n t o , amadurecimento, formação e realização pessoal e comunitária, porque ali se facilita a criação de laços profundos de fraternidade e partilha efetiva de critérios, valores e pontos de vista de vida. Para o jovem e a jovem o grupo vem a ser, ainda, uma ajuda para enfrentar os desafios que esta etapa de vida lhes impõe182. É nele que o jovem aprende a se educar para olhar e descobrir a realidade junto com os outros, experiência 181 182

MEM, nº. 103-106. CELAM. Seção Juventude. Civilização do Amor: Tarefa e Esperança, op. cit.,p.194. 116


que lhe permite encontrar a pessoa de Jesus de Nazaré. 331. Uma caminhada comprometida como grupo acaba por impulsionar a renovação permanente do compromisso de serviço e de colaboração com a Igreja e com a sociedade.183 A experiência de grupo é fundamental para ajudar o jovem e a jovem a praticar o bom cristianismo e a virtuosa cidadania”. O grupo é lugar de experiência do seguimento de Jesus Cristo. É também onde se constroem conceitos, na partilha de idéias, no reconhecimento de que todos são filhos de Deus e onde cada um é reconhecido como pessoa e valorizado como tal184. Se a caminhada do grupo for significativa e favorecer a educação, perceber-se-á na vivência do jovem um testemunho pessoal, que desembocará numa opção vocacional, desencadeando um desejo real e sincero de transformação da sociedade, a partir do Projeto de Jesus Cristo. 332. Não podemos iludir-nos, pensando que um grupo nasce pronto, ou que todos os grupos têm o mesmo desenvolvimento em maturidade. As etapas de desenvolvimento de qualquer grupo não devem ser tomadas de forma mecânica ou obrigatória. Qualquer grupo passa por “fases” que podemos comparar ao desenvolvimento de uma pessoa.185 a) O Nascimento: logo ao nascer, o grupo necessitará de todo o cuidado e orientação possível. Aqui a figura do assessor é de importância vital. b) A Primeira Infância: o grupo se espelha em outros grupos e tenta imitá-los. Ainda tem pouca capacidade avaliativa e está afoito em realizar imediatamente grandes ações. c) A Adolescência: começa a surgir um sentido de grupo, ou seja, surge um “nós” no grupo e já existe uma consciência do grupo. Nesta fase o diálogo é de grande importância. O próprio grupo começa a se inserir na realidade. Corre o risco de passar por uma crise de integração e de autoridade. d) A Juventude: não há mais tanta dependência da figura do assessor e as relações humanas se tornam muito mais aprofundadas. Como assume uma escala de valores, o jovem integrante do grupo busca o verdadeiro sentido do amor e assume compromissos com mais seriedade, passando a abrir-se à realidade social. É nesta etapa evolutiva do grupo que o jovem normalmente faz opções importantes na vida. 183

Idem, p.195. CNBB, nº. 76, op. cit, p.148. 185 CELAM, Seção Juventude. Civilização do Amor: Tarefa e Esperança,. op.cit., p.197. 184

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e) A Vida Adulta: o grupo já tem clareza de seus objetivos e os tem muito bem definidos. Há a decisão de permanecerem juntos como grupo, o que favorece níveis de comunicação profundos e a correção fraterna, gerando a aceitação mútua. O grupo é vivência de uma comunidade sincera e sem barreiras, que desperta um compromisso encarnado na realidade. Nasce o desejo de os próprios jovens serem apóstolos de jovens. f) Morte e Ressurreição (Vida Nova): o compromisso eclesial exercido pelo grupo passa a ter novo caráter e o grupo descobre outra forma de se integrar na vida da comunidade, uma vez que nenhum grupo é imortal. 333. Todavia devemos direcionar nosso olhar para o outro ponto de vista, a vida de um grupo. Qualquer participante de grupos de base vive quatro momentos específicos.186 a) Convocação: como o próprio termo diz é o momento do convite, do chamado e da “sedução” para integrar o grupo. São muitos os modos de exercê-la, exigindo criatividade e cuidado. É momento fundamental que pode influir na adesão ou não ao processo do grupo. b) Nucleação: momento de encantamento. Quando o grupo se vai reunindo e se organizando, estabelece relações. Por meio de estratégias, com o contato pessoal e sistemático, o grupo se vai conhecendo. É grande a possibilidade de exercer o protagonismo. c) Iniciação: na vivência grupal é necessário ter clareza acerca do ponto a que queremos chegar: reafirmar e visualizar a metodologia a ser empregada e as etapas a serem percorridas. A etapa da iniciação desperta o jovem para o compromisso como discípulo de Jesus Cristo. d) Militância: este termo é usado, na pastoral e nos movimentos sociais, para designar o momento de pessoas mais comprometidas, que têm consciência do processo e que abraçam uma causa. Alguns jovens assumem a militância interna no ambiente da Igreja, e outros priorizam a militância externa: política, educação ou diversas organizações civis. 334. A vivência dessas etapas, portanto, contribui para o crescimento integral na fé dos adolescentes e jovens envolvidos: eles descobrem o grupo e a ele aderem em comunidade, em face da 186

CNBB, nº. 76, op. cit., p.154-158. 118


problemática social e da necessária e ampla organização para levar a bom termo o compromisso responsável assumido. 6.2.2 As dimensões da formação integral 335. A educação na fé, muito mais do que método e técnica, têm originalidade e autenticidade que surgem do desejo do encontro e da descoberta de um Deus que se revela em Jesus Cristo, na pessoa humana, nos acontecimentos e na natureza. Esse processo deve ensejar que o jovem vivencie o projeto de Jesus Cristo, como apóstolo dos jovens, por meio de uma formação integral, com o jeito marista de ser, na construção de uma sociedade mais justa e solidária, sinal da civilização do amor. 336. Entendemos como formação integral uma formação que considera os desenvolvimentos biológicos, sociológicos, antropológicos, culturais, psicológicos e teológicos do jovem. Para tanto é imprescindível considerar as dimensões da formação integral propostas pela “Civilização do Amor” 187: a relação do jovem consigo mesmo; a relação do jovem com o grupo; a relação do jovem com a sociedade; a relação com Deus, Pai e Libertador; a relação com a Igreja; a relação com a natureza e a ecologia; e a relação com o meio educacional. a) A relação do jovem consigo mesmo. É o esforço de crescer e amadurecer como pessoa humana. O jovem é instigado a descobrir suas aptidões, sentimentos, sonhos e construir sua identidade e dignidade. É processo de autocrítica, de conversão e superação de suas crises e conflitos, de descoberta e compreensão da sua subjetividade, reconhecendo seus limites e possibilidades. É espaço para a partilha de idéias, concepções, valores e pontos de vista, abrindo-se para melhor entendimento do seu próprio jeito de lidar com as emoções e situações. Aprende a ser e a conhecer-se. b) A relação do jovem com o grupo. Aprende a ser com os outros. O grupo vai refletir a necessidade e a alegria de realizar-se como pessoa na relação com o outro. A criar laços de fraternidade e a exercitar a tolerância e o respeito. O jovem tem na família o grupo primeiro. É para ela que ele volta o seu olhar, é a partir dela que ele estabelece as relações com os demais grupos, na escola, na igreja, nos clubes sociais. É também neste caminho da aprendizagem do ser e do conviver, que 187

CELAM, Seção Juventude. Civilização do Amor: Tarefa e Esperança, op.cit., p.203. 119


o/a jovem se revela homem ou mulher, e estabelece a reciprocidade com a humanidade e com toda a criação. Descobre-se inteiro, mas inacabado. c) A relação do jovem com a sociedade. A experiência no grupo é o ponto de partida para abrir-se a relações mais amplas, ter conhecimento da realidade, a importar-se com a sociedade e reconhecer-se como cidadão. Sentindo-se parte, o jovem se compromete com a intervenção e transformação desta sociedade. É estimulado a conhecer e a entender os processos e as questões vividas na sociedade, como, por exemplo, a instantaneidade temporal provocada pela velocidade tecnológica que, por vezes, empobrece as relações, desencadeia a cultura do consumismo geradora de múltiplas necessidades facilmente descartáveis, a individualização e o desinteresse na esfera pública e política. Também conhece a existência e a articulação dos movimentos sociais e ONGs (Organizações não Governamentais), as mais diversas tribos juvenis, as iniciativas e propostas das escolas, o voluntariado, e outras formas de intervenção, contextualizada com o próprio universo juvenil. Fazendo a leitura da sua realidade, é capaz de discernir, interagir e protagonizar a ação transformadora. d) A relação com Deus. Corresponde à progressiva experiência de fé do jovem188. Reconhece-se como ser inteiro, mas inacabado, na busca da completude, onde encontra Deus. O reconhecimento da presença de Deus nos acontecimentos de sua vida, da descoberta da proposta libertadora de Jesus e do discernimento da ação do Espírito Santo nos sinais da história pessoal, grupal, eclesial e social. Desta experiência, Deus se torna próximo do jovem, um Deus que é Pai e Mãe, mistério, comunhão e missão, Uno e Trino, que se revela na Trindade, e se manifesta nos sacramentos e na vida da comunidade. A revelação plena de Deus concretiza-se em seu Filho, Jesus Cristo, no qual Ele, o Pai, estabelece sua aliança e compromisso de amor para com seus filhos, e reafirma esta mesma aliança no Espírito Santo. Pela força do Espírito Santo, os jovens e todo o povo de Deus são chamados para confirmar, testemunhar e anunciar o projeto de Jesus Cristo. e) A relação com a Igreja. No grupo, o jovem descobre que a fé precisa ser alimentada; então encontra sentido na comunidade eclesial. O jovem desenvolve seus sentimentos de pertença e responsabilidade ao reconhecer-se povo de Deus. Descobre a Igreja como sinal da presença de Deus na história e na vida das comunidades. Descobre sua missão 120


na Igreja. Neste sentido, procura viver a fraternidade e a solidariedade, numa perspectiva evangélica, estabelecendo o diálogo inter-religioso e promovendo o ecumenismo, em atitude de participação e compromisso. Vai entender que a educação na fé tem, na comunidade, um espaço privilegiado. Participando dela e de sua vida, sinalizamos nosso compromisso com Cristo, assumido em nosso batismo.189 f) Relação com a natureza e com a ecologia. A ecologia apresenta-se como grande desafio capaz de mobilizar a força juvenil em benefício de uma sociedade mais humana, justa e equilibrada. Numa sociedade por vezes consumista, é importante incentivar nos jovens a dimensão ecológica, para que esta possa ser despertada e vivenciada, partindo de uma contemplação poética e religiosa para uma ação mais comprometida, política e social190. g) Relação com o meio educacional. Aqui, não nos referimos apenas à instituição escolar sem minimizar, é claro, sua vital importância. Atentamos para a preocupação com os processos educacionais que envolvem o jovem na sua totalidade. A juventude aposta que outro mundo seja possível e acredita que isso se dá por meio da educação das pessoas em novos homens e novas mulheres. É urgente educar para a cidadania e o compromisso solidário. Isso se dá tanto no grupo de jovens, como na escola, na família, na igreja e/ou nos clubes sociais. 6.2.3 Acompanhamento 337. Outra opção pedagógica em que insistimos é o acompanhamento, incluído no ministério da assessoria191. O desenvolvimento de qualquer pessoa na fé requer a presença e a ação de agentes capacitados, para que possam realizar um acompanhamento nos processos de amadurecimento na fé dos jovens192. Este acompanhamento, de forma individual ou grupal, poderá ser feito pelos próprios jovens animadores e coordenadores nos grupos de base, mas principalmente pelo assessor, leigo ou religioso.

188

CELAM, Seção Juventude. Civilização do Amor: Tarefa e Esperança, op. cit., p.205. Oliveira. op. cit., p.47. 190 Cf. LONDOÑO, Alejandro. Ecologia: um exercício de fé: dinâmicas para grupos de jovens. São Paulo: Paulinas, 1999. 191 A vivência das responsabilidades pedagógicas será abordada no capítulo “Assessoria e Acompanhamento”. 192 CELAM, Seção Juventude. Civilização do Amor: Tarefa e Esperança, op.cit., p.272. 189

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6.2.4 Organização 338. A organização é outra opção pedagógica que assumimos como Pastoral Juvenil Marista. Acreditamos na força pedagógica da organização e, por isso, o trabalho de evangelização da pastoral juvenil marista organizase por meio de grupos de base, num processo dinâmico de comunhão e participação193, fazendo surgir estruturas de coordenação, animação e acompanhamento que revelam o caráter de serviço na missão de evangelizar adolescentes e jovens. É na organização que os jovens vão participando do processo de formação, exercendo o protagonismo, educando-se para o diálogo, tolerância, responsabilidade e autonomia, buscando assemelhar-se a Maria, em suas virtudes de humildade, modéstia e simplicidade. 339. A organização nas obras deverá estar articulada com o nível provincial, que considerará as diferentes experiências, e com a Igreja, pois estarão comungando da mesma missão. Neste sentido, a Pastoral Juvenil Marista procurará uma relação especial com a Pastoral da Juventude e a Pastoral Vocacional194. 340. Como recurso pedagógico para a organização, precisamos recorrer ao planejamento e à avaliação. Sem planejamento corremos o risco de perder tempo e desperdiçar forças. O planejamento, além de facilitar a participação e a delegação de responsabilidades, vai nortear o trabalho e objetivar a ação. 341. A avaliação permite revisar aquilo que foi feito na busca do aprimoramento. Para isso ela não pode carregar uma marca tecnicista e, sim, emancipatória. Não poderá servir como instrumento de controle e submissão, mas de revisão da própria vida e da missão. Vai ser emancipatória, quando permite descrição, análise e crítica de uma dada realidade, visando transformá-la. O compromisso principal desta avaliação é o de fazer com que as pessoas envolvidas escrevam sua própria história e gerem as suas próprias alternativas de ação, ou seja, sejam autônomas, responsáveis e protagonistas. 6.2.5 Juventude 342. A juventude, enquanto categoria social, é marcada pela diversidade e, por isso, outra opção pedagógica é o respeito e a implantação de um 193 194

Idem, p.248. Idem, p.249. 122


serviço evangelizador diferenciado com a juventude. Levar em conta este aspecto da realidade juvenil é de suma importância na construção de uma opção pedagógica coerente. Não devemos esquecer que a inconstância, a flexibilidade, a busca por novidade e a incoerência são aspectos a serem considerados diante de um ser que está formando sua personalidade. A diversidade presente no espaço social juvenil é algo natural. Pode tornar-se problema, quando vira expressão de violência e agressividade. 6.2.6 O Método 343. Reafirmamos o desejo de ser uma pastoral juvenil que promova o protagonismo juvenil. Para cumprir essa tarefa é preciso que a metodologia seja coerente com a pedagogia de Jesus e com a pedagogia pastoral que atenda ao processo integral de educação na fé. Que favoreça uma experiência comunitária, participativa e dialogal, um crescimento no sentido de pertença à Igreja e que crie consciência missionária, fomentando o testemunho e o anúncio do evangelho de Jesus Cristo195 na vida cotidiana. 344. Por meio da metodologia é possível resgatar, viver e celebrar a manifestação da graça de Deus em nossas vidas, porque com ela podemos ressignificar a história e o processo que construímos e o que está por construir. Isso será possível, quando tivermos o seguinte cuidado quadripartite. (1) Tornar presente a vida e a realidade pessoal e social do jovem. (2) Permitir ao jovem conhecer-se e assumir a si mesmo. (3) Iluminar tudo com a Palavra de Deus, desafiando o compromisso pelo qual possa amadurecer a dimensão missionária da fé e expressá-la em ações transformadoras de sua realidade. (4) Ensejar a revisão e a avaliação, para que o jovem possa perceber os processos percorridos, celebrando todas as vivências e experiências que se tornaram significativas para ele.196 345. Como Pastoral Juvenil Marista, adotamos um método que parta da realidade, suscite uma compreensão social e teológica desta experiência, leve à adesão e ao compromisso prático, exija o planejamento e a revisão e faça de tudo isso uma celebração. É o que entendemos, quando falamos do método ver-julgar-agir-avaliar-celebrar197. 195

Idem, p.296. Idem, p.297-298. 197 Há outra experiência metodológica vivenciada pela Província Marista Centro-Sul. Trata-se do conhecer, experienciar e aderir. As duas experiências se complementam. 196

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• Ver 346. É o momento de perceber, desvelar e descobrir os elementos da realidade. Partir dos fatos concretos da vida cotidiana, buscando analisar os problemas e avanços. Ao “ver” a realidade, encarnando-nos nela, a visão vai permitir uma perspectiva mais ampla, profunda e global198, motivando a execução de ações transformadoras, a partir do que se constatou. • Julgar 347. É o momento de analisar aquilo que foi observado à luz da fé, das ciências, especialmente das ciências sociais, da Palavra de Deus e dos ensinamentos da Igreja, para que se possa descobrir o que está ajudando ou impedindo as pessoas de viver como irmãos e de construir a civilização do amor. É preciso ver e julgar os acontecimentos sob a lente libertadora de Deus, e perceber que Deus não está acima ou distante de nós, mas está vivo e presente, encarnado na história e na vida cotidiana. • Agir 348. Depois de ver e julgar os fatos a partir da realidade, é hora de perceber o que é possível fazer para refletir nos problemas ou caminhar melhor nessa trilha como sociedade, de acordo com os valores do Reino. O agir nos desafia a sermos agentes transformadores e protagonistas, fazendo da vida um testemunho de fé e esperança em Jesus Cristo, colaborando ativamente na construção da civilização do amor199. • Avaliar 349. É momento de rever cada etapa. Tomar consciência do presente, recordar o passado e visualizar o futuro. A avaliação precisa valorizar200 todas as conquistas alcançadas, ainda que pequenas. É hora de aprender com os erros e se fortalecer com os avanços, revisando-os com olhar e atitude de esperança. Sua conseqüência é um novo planejamento.

198 199

CELAM, Seção Juventude. Civilização do Amor: Tarefa e Esperança. op.cit,p.299. Idem, p.300. 124


• Celebrar 350. A Pastoral Juvenil Marista é chamada a vivenciar sua missão evangelizadora, a cultivar a espiritualidade profética, autêntica, marial, encarnada na história, inspirada na pedagogia de Jesus Cristo. Neste espírito, celebra os acontecimentos e a própria vida, sob a luz da fé. Celebrar é reconhecer a graça do Deus da Vida presente em cada momento do processo vivido e em cada individualidade que integra o grupo. A celebração possibilita a integração de fé e vida, festejando conquistas, incorporando perdas, superando angústias e temores. As formas de celebração diferem de acordo com o momento, ambiente e cultura carregados de sentido e conectados no dia-a-dia do jovem. 351. Na Eucaristia, a juventude e todo o povo de Deus recordam e comungam o Mistério Pascal, que possibilita celebrar a vida, a paixão, a morte e a ressurreição de Cristo, renovando a esperança e a fé cristã. A celebração dos sacramentos, presentes na vida do jovem, são sinais eficazes da ação libertadora de Deus.201 É preciso educar para esta sensibilidade, ajudando a reconhecer a ação do Espírito Santo na Igreja, a presença viva de Jesus na história, o amor e a graça de Deus presente na vida. 352. A ação da Pastoral Juvenil Marista, balizada na pedagogia de Jesus Cristo, precisa propiciar aos jovens o conhecimento e a interiorização da Palavra de Deus encarnada na vida dos jovens e em seu contexto. Nesse sentido, ela assume como meio muito especial a leitura orante da Bíblia. 353. Para a vivência desta “leitura”, é preciso ler o texto escolhido, analisá-lo de acordo com o contexto em que se passou, e adaptá-lo para os dias atuais, iluminando a situação em que se está vivendo202. Esclarecidos pela Palavra, conhecemos um Deus Pai e Mãe, que se revela por meio dos acontecimentos diários, no chão de sua história, e que se faz homem por meio de Maria, desafiando-nos a transpor a nossa própria humanidade a serviço da justiça, do amor e da paz.

200

Ibid, p.301. CNBB, nº. 76, op.cit., p.222. 202 CELAM, Seção Juventude. Civilização do Amor: Tarefa e Esperança, op.cit., p.312. 201

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7. ASSESSORIA E ACOMPANHAMENTO NA PASTORAL JUVENIL MARISTA 354. A Pastoral Juvenil é uma ação organizada de evangelização da juventude feita por jovens e adultos, cabendo aos jovens a ação protagônica. Pela missão que os adultos têm neste processo de evangelização, é importante refletirmos sobre a assessoria e o acompanhamento na Pastoral Juvenil Marista. 355. É bastante recente a reflexão mais sistemática sobre “acompanhamento e assessoria” na Pastoral da Juventude em geral, também na Pastoral Juvenil Marista. As primeiras sistematizações oficiais vieram do CELAM e são de 1994, quando esse assunto foi tratado sistematicamente, no 9º Encontro Latino-Americano de Pastoral da Juventude203. A Pastoral Juvenil Marista quer igualmente inserir-se neste contexto, tendo a obrigação de especificar o que lhe é característico. 7.1 Carisma e protagonismo juvenil 356. Duas realidades muito fortes desafiam a PJM: (1) a vivência juvenil do carisma praticado e transmitido por Marcelino Champagnat, na fundação dos Irmãos Maristas; e (2) a crença na força pedagógica e evangélica do que representa o protagonismo juvenil, no concernente ao processo da sua formação humano-cristã, em cuja realização ele é ator principal e decisivo. Por um lado, está em jogo a identidade do carisma congregacional; por outro, irrompe a importância de que ele viva o seu processo psicológico e teológico em termos de crescente autonomia, como sujeito da sua história particular e como ator protagonista da sua caminhada. 357. O “espaço” pedagógico onde essas duas realidades se encontram, de modo mais e menos tranqüilo, é no espaço do acompanhamento e da assessoria. Por um lado, acredita-se no vigor teológico do protagonismo juvenil, ajudando o jovem a assumir-se em sua identidade e em seu papel político de construtor de comunidade; por outro lado, coloca-se o desafio da coerência vivencial de um carisma assumido por “religiosos” consagrados 203 Veja-se a bibliografia no final deste documento. As publicações sobre assessoria e acompanhamento que aí constam são as mais importantes e “oficiais” que existem. É claro que as Pastorais Específicas não deixam de tratar desse capítulo, considerando que o acompanhamento e a assessoria tomam aspectos “específicos”, dependendo do “público” com o qual se trabalha. As diretrizes “gerais”, no entanto, são as mesmas.

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aos jovens e por jovens que desejam vivenciar sua juventude e seu protagonismo encarnados na geografia de um carisma específico. As perguntas com relação ao papel da assessoria e do acompanhamento, nesta geografia, são muitas. É sobre isso que desejamos tomar uma primeira posição, como Pastoral Juvenil Marista. 7.2 Modos de exercer o mesmo ministério 358. A Pastoral Juvenil do Brasil e da América Latina afirma algumas posturas que precisam ser consideradas. 359. Na vivência das “responsabilidades” pedagógicas, fica bastante claro que há quatro modos de exercer o ministério do serviço aos grupos de jovens. 1) Como participante de grupo, entrosando-se na dinamicidade planejada do grupo, assumindo participação ativa na vivência cotidiana do grupo. 2) Como coordenador de grupo, isto é, alguém que, de modo democrático, “organiza” e “arranja” o grupo. O coordenador, neste caso, é alguém que decide, assume o papel de “representação” do grupo. Essa “coordenação” vale em nível de grupo, de paróquia (colégio), de diocese etc. Representa e organiza, em diferentes níveis. Imagina-se que esse “coordenador” tenha de 15 a 29 anos. 3) Como “animador”, isto é, alguém que está deixando de ser jovem, de ser coordenador, mas está disposto a prosseguir, colaborando na vida dos grupos. Deixa de lado seu papel de “coordenador”, para tornar-se, num segundo plano, alguém que continua aí simplesmente no papel de “ajudar”. Não é ele que “coordena”; não é ele que “representa”; não é ele que “decide”. Ajuda, como João Batista, para que outros cresçam e ele diminua. 4) Como assessor. O que o diferencia do “animador” e do “coordenador” é que ele, com o tempo e com a prática, está mais adulto, adquiriu mais experiência, construiu sua personalidade, teve mais tempo para cultivar-se na missão de servir. Não se trata de”“ser mais perfeito”, de”“ter mais poder”; trata-se de processo de amadurecimento no serviço. É uma realidade interna que se vai descobrindo. 360. Ninguém é mais do que o outro; são quatro modos de viver a experiência da doação aos jovens. Os quatro “ministérios” são diferentes, mas complementares tanto no serviço de acompanhamento às pessoas e grupos, como no serviço da assessoria, isto é, de “estar junto com”, inspirando, ajudando, desafiando no espírito de processo de todos serem mais felizes e comprometidos. 130


361. Para a PJM coloca-se aqui uma questão fundamental: não se trata da vivência genérica de um grupo de jovens, mas de jovens cuja identidade não está no comunitário, no estudantil, no universitário, no “operário”, mas no marista. Não se é, simplesmente, participante de grupo, coordenador, animador ou um assessor de grupo de jovens, mas alguém que, além de tudo isso, é marista, na vivência de um carisma de identidade específica. Esse “acréscimo” coloca, por isso, a questão dos critérios para alguém viver os diferentes ministérios assinalados. A vivência do carisma, mesmo em sua processualidade, deve ser tomada em conta. 362. A Pastoral Juvenil da América Latina, com relação à assessoria como ministério eclesial, fala: 1) de sua identidade teológico-pastoral, encarando o ministério, definindo-se pelo chamado e pela missão, realizando o ministério profético, sacerdotal e político; 2) de sua identidade espiritual, sendo pessoa de fé e que concretiza sua espiritualidade na opção pelos jovens; 3) de sua identidade psicológica, tendo vivido um processo de amadurecimento que permite olhar os jovens com outra perspectiva; 4) de sua identidade pedagógica, sendo educador que age de acordo com a pedagogia de Deus, tendo como modelo Jesus Cristo; 5) de sua identidade social, encarnado na realidade, vivenciando a empatia com ela, sendo aberto e transformando-se num ator social. 363. Tudo isso é válido também para o exercício do ministério da assessoria na PJM, agregando-se a questão do carisma marista. O assessor da PJM precisa ser, de alguma forma, teólogo marista, pastoralista marista, pessoa imbuída da espiritualidade marista e pedagogo de carisma específico. Caso contrário, a PJM não traz para a Igreja a riqueza de sua especificidade. Falar em “assessoria jovem” na PJM deve ter em conta a vivência processual dessa identidade. 7.3 A pertença à Pastoral Juvenil Marista 364. A pertença ou não à Pastoral Juvenil Marista, a partir da concepção que se tenha de “acompanhamento” ou de “assessoria”, coloca-nos vários desafios. Citamos três. 1) Quando se fala de grupo de PJM, não se fala de grupo de jovens no geral; fala-se de grupo que tem uma identidade eclesial, mas marista. Está em jogo a identidade. 2) O mesmo se pode dizer do “coordenador”, do”“animador” e do “assessor”. Sem deixar de ser Igreja, isto é, de assumir questões vitais da Pastoral da Juventude, como a questão das opções pedagógicas e 131


metodológicas, a questão dos princípios norteadores, a questão da caminhada orgânica e de pertença real ao conjunto da caminhada dos jovens sendo Igreja, o marista acrescenta a tudo isso, no seu todo, a riqueza do seu carisma. O carisma não é para ser vivido como privativo; ele é dom da Igreja que precisa ser conhecido, para enriquecer. 3) Essa “pertença”, por isso, deve levantar a questão de quais pessoas formam o “grupo marista”, de quem é “coordenador marista”, de quem é “animador marista” e de quem 锓assessor marista”? Não se é somente militante da causa juvenil; é-se militante do carisma marista. Entram, nessa geografia, a questão dos critérios para alguém “representar”, “animar” e “assessorar”. Esses critérios exigem respeitar, ao mesmo tempo, o protagonismo do carisma e o protagonismo juvenil. 7.4 A bagagem do assessor da PJM 365. Há uma bagagem que se imagina indispensável na pessoa do assessor da PJM. Queremos elencar os elementos que consideramos mais significativos. a) O assessor da PJM deve carregar consigo, na teoria e na prática, nas convicções e posturas, uma proposta evangelizadora. Ele deve saber o que quer fazer e o que está fazendo junto aos jovens, junto à Congregação e junto à Igreja. b) O assessor precisa saber mover-se num cenário definido de Igreja, num cenário definido de sociedade e de pessoa. Não se imagina uma pessoa sem coluna vertebral; tampouco alguém que não faz análise de conjuntura, seja da sociedade, seja da Igreja. c) O assessor carrega consigo uma proposta pedagógica em que acredita, que ele aprofunda e defende. Significa que ele não faz nada com espírito de aventura. d) O assessor tem uma postura igualmente com relação ao método que adota, que aprofunda, atualiza e no qual confia. e) O assessor vive e testemunha uma espiritualidade que ele procura incentivar. No centro está a Eucaristia e a Palavra. Ademais, sua devoção a Maria de Nazaré não fica na superficialidade. f ) O assessor carrega consigo uma proposta de organização que leva ao protagonismo juvenil e à vivência atualizada do carisma marista. 132


g) O assessor sonha com a formação de jovens que sejam cidadãos comprometidos com a realidade social e econômica de todo o povo, incentivando a presença ativa nos diferentes organismos que a sociedade civil oferece para a vivência da justiça e da fraternidade. h) O assessor leva consigo a convicção profunda de que nem todos os caminhos levam à felicidade coletiva. Para viver esse processo de descoberta, não age como assessor isolado, mas procura partilhar o seu sonho junto com uma equipe de assessores. 7.5 Os saberes do assessor da Pastoral Juvenil Marista 366. Todo assessor carrega consigo uma sabedoria que aprendeu e vai aprendendo na sua missão de acompanhar e assessorar a Pastoral Juvenil Marista nos seus grupos, pessoas e coordenações. Queremos apontar, contudo, 8 saberes para os quais ele precisa estar atento, explicitados a seguir. a) Saber o que é evangelização juvenil, o que é Pastoral da Juventude e o que é a Pastoral Juvenil Marista. Entende-se aqui o Marco Doutrinal, a História, o Marco Operativo etc. Embora a evangelização juvenil dependa muito de nossa criatividade, há coisas que só se aprendem lendo, estudando, discutindo e trocando experiências. b) Ter conhecimento teórico e prático do processo de educação na fé, especialmente do jovem. Há, por detrás desse processo, toda uma “cultura pastoral” que é preciso saber. Sem isso não há verdadeiro planejamento em nenhum nível. c) Ter noção de vida grupal. O grupo é o lugar privilegiado onde acontecem nossos sonhos de evangelização. Supõe pedagogia, supõe psicologia, supõe didática e outros saberes. É numa boa vivência grupal que mora a felicidade do jovem e do assessor e da assessora. d) Saber o que é acompanhamento individual e grupal. Embora isso se estude, é na troca de experiências de assessor que aprendemos a ser melhores acompanhantes e melhores acompanhados. e) Entender de planejamento, nos diferentes níveis: grupos, coordenações, organização provincial etc. Trata-se de entender e ajudar os jovens a fazerem bons planejamentos. Deve-se pensar, igualmente, na importância de cada assessor ter seu projeto de vida definido e sempre atualizado, em comunhão com as realidades que vai vivendo. f ) Ter muita convicção das opções pedagógicas fundamentais que 133


orientam todo o seu compromisso, não só na Pastoral Juvenil Marista, mas em seu modo de vivenciar sua vocação de pedagogo e de pedagoga. g) Saber posicionar-se nos diferentes cenários de Igreja e fazer de tudo para que o cenário da instituição em que trabalhe seja coerente com os pressupostos teológicos do cenário eclesial e congregacional que abraça. h) Mover-se com agilidade, compromisso e competência na análise de conjuntura, seja ela social ou eclesial. Isso repercute, evidentemente, na assessoria e no acompanhamento que faz. 367. Estes “dados” são simplesmente alguns traços do que imaginamos que deva ter o ministério da assessoria e do acompanhamento. A prática da vida, as anotações e sistematizações vão ensinar-nos que esse ministério é um modo de ser feliz, acompanhando nosso crescimento e o crescimento dos que assessoramos e acompanhamos. A assessoria não é mera “função” que nos foi dada; ela pode ser e é opção de vida que gradualmente vamos amadurecendo na nossa caminhada. O assessor não espera “ordens” nem”“destinações”; ele é alguém que procura estar atento ao chamado de Deus e dos jovens para construir, especialmente no mundo juvenil, a roseira bonita do compromisso das pessoas com a doação e com a construção de um mundo de irmãos e irmãs, onde a justiça e a paz se abraçam e onde a alegria e a seriedade fazem da vida um hino de amor.

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8. HORIZONTES DA PASTORAL JUVENIL MARISTA: JUVENTUDE E PROTAGONISMO 368. Ao contemplar os horizontes da Pastoral Juvenil Marista sonhamos com uma juventude solidária, protagonista, com valores evangélicos, comprometida com a cidadania e com o conhecimento cientifico, inserida na realidade, portadora de esperança e transformadora da sociedade. 8.1 Jovens Solidários e autores da paz 369. Os jovens, de modo geral, são sensíveis e abertos ao novo que surge. O processo formativo e a dinâmica do desenvolvimento pessoal e socioafetivo, bem como o acolhimento de propostas de vida e vivências significativas, favorecem essa abertura. Nisso os jovens são terrenos férteis para a evangelização e construção de um projeto de vida respaldado pela proposta cristã. Eles são filhos e construtores da nova realidade cultural que apresenta múltiplas e diversificadas manifestações que condicionam suas vidas e geram novas e variadas compreensões, relações e formas de expressão. Além disso, os jovens devem ser educados para expandir a solidariedade humana e serem autores da paz. 370. O desenvolvimento integral do adolescente e do jovem passa pelo reconhecimento do outro e de suas necessidades como aquele que interpela e faz sentir-se semelhante. Assim, as experiências de solidariedade são de suma importância no seu processo de amadurecimento e compromisso com a construção de uma sociedade marcada pela acolhida do diferente e na realização da paz. 371. A evangelização dos jovens será eficaz, à medida que responda globalmente às suas necessidades e aspirações. Por isso, do ponto de vista pedagógico, é importante que o anúncio evangélico e a catequese não sejam realizados apenas de forma abstrata, mas dentro de um contexto vivencial e por meio de constante acompanhamento. 8.2 Jovens Protagonistas 372. O protagonismo juvenil torna os adolescentes e o jovens os atores principais de sua formação e os lança à participação em atividades que transcendem o âmbito de seus interesses individuais e familiares e podem 137


ter como espaço a escola, a vida comunitária, num sentido mais amplo a sociedade, por meio de campanhas, movimentos e outras formas de mobilização. Trata-se de favorecer o adolescente e o jovem na participação e na vivência cidadã concreta, ampliando-se em gestos e atitudes cristãs. 373. O educador, em seu trabalho com adolescentes e jovens, deverá observar se sua postura inibe ou incentiva a participação deles. Pretende-se que sua prática venha a favorecer essa participação. Para isso deverá estar comprometido com a construção de projetos e ações que mobilizem adolescentes e jovens a partir da ótica cristã. 374. O carisma marista, voltado para uma educação integral, quer ser norteador do cuidado com a formação dos adolescentes e jovens, para que sejam sujeitos e construam relações consigo, com a sociedade e com Deus, e que essas os tornem felizes. Toda essa formação marista quer ajudar os jovens a terem uma ação cada vez mais refletida, intencional, consciente, contextualizada e organizada, visando promover uma renovação na Igreja e uma transformação da sociedade, tendo sempre como modelo de fé Maria, a Boa Mãe, Jesus e a família de Nazaré. A Pastoral Juvenil Marista deve estar atenta à formação de lideranças; nela encontra-se grande potencial para desenvolver o protagonismo. 8.3 Jovens com a vida pautada nos valores evangélicos 375. É nesse contexto que a ação evangelizadora deve pautar-se, acolhendo o jovem com suas características próprias e auxiliá-lo para que venha a fazer a releitura de seus valores, no tempo em que o lança num projeto de vida iluminado pelos valores evangélicos. 376. Tratando da presença da Igreja na escola, a declaração “Gravissimum Educationis” 204 do Concílio Vaticano II diz que a escola deve criar um ambiente de comunidade animado pelo espírito evangélico de liberdade e de caridade: ajudar os adolescentes para que, no tempo em que desenvolvem a sua personalidade, cresçam segundo a nova criatura nascida do batismo, e ordenar finalmente toda a cultura humana à mensagem da salvação, de tal modo que seja iluminado pela fé o conhecimento que os alunos adquirem gradualmente a respeito do mundo, da vida e do homem.

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VATICANO II. Compêndio do Vaticano II. Constituições, Decretos, Declarações. Petrópolis: Vozes, 2000. Declaração “Gravissimum Educationis”, nº.8. 138


377. A obra marista é lugar privilegiado e desafiador para que isso se concretize. Esse é um espaço propicio à implantação da Pastoral Juvenil que compreende uma ação evangelizadora norteada pelos princípios maristas de educação: acolhida, simplicidade, amor às crianças e aos jovens, especialmente os mais empobrecidos; e pelos valores evangélicos, como justiça, solidariedade, compaixão, misericórdia e caridade. 8.4 Jovens com maturidade de fé e exercício da cidadania 378. Em face da sociedade globalizada, é importante ajudar o adolescente e o jovem no crescimento pessoal e no amadurecimento da fé, formando as bases para que esses apreendam as exigências que a vida impõe e possam dar respostas com qualidade. 379. A globalização operada, sobretudo, via televisão, cai como luva na dinâmica do adolescente, que tem entre suas principais características o ímpeto de apreender o mundo. Por meio da televisão e da Internet, o jovem tem a sensação de estar presente em todos os eventos, o que não significa, necessariamente, que ele compreenda todo o processo pelo qual passa. Ele pode até ser solidário com a fome na África ou indignar-se com a discriminação das mulheres no Afeganistão, mas dificilmente sabe o que se passa na favela localizada a um quarteirão de sua casa; não associa essas duas realidades. 380. Evangelizar nesse contexto é desafio para o espaço essencial da educação. Para a Igreja e as escolas que têm como essência o mandato de mediar a relação entre Deus e a pessoa, a exigência é ainda maior, uma vez que devem acolher e auxiliar os adolescentes e jovens a partir das suas distintas opções pessoais. Deve-se propor um modelo de “ser” pessoa a partir do seguimento de Jesus e seu projeto de vida: autêntico, ordenado e sistêmico. Nesse sentido, a evangelização dos jovens terá sucesso, à medida que responda globalmente às suas necessidades e aspirações. Por isso, do ponto de vista pedagógico, é importante que o anúncio evangélico não seja realizado apenas de forma abstrata, mas dentro de contexto vivencial e por meio de paciente e constante acompanhamento205. 381. Em razão das discrepâncias sociais, dos avanços tecnológicos e da pós-modernidade que se apresenta com valores próprios, é fundamental que se busque conhecer as raízes cristãs, as pessoas e a sociedade. Algumas exigências e condições para o crescimento na fé e no exercício da cidadania 205

CNBB, nº. 76, op. cit., p. 153. 139


são o conhecimento do projeto apresentado por Jesus, o seu seguimento por Champagnat e pela Igreja; os ideais de simplicidade, modéstia e humildade, perseguidos pela espiritualidade marista, são necessários para atingir o ideal comum de solidariedade, fraternidade, partilha, zelo, promoção humana, transformação social, convivência respeitosa, experiências de cidadania e fé, criação de um clima favorável à aprendizagem e à evangelização. 382. “Cada criança e cada jovem é diferente. Cada grupo tem sua característica própria. Os diversos contextos culturais e as variadas circunstâncias criam suas próprias possibilidades e desafios à nossa Missão evangelizadora. Conscientes de tal pluralidade, desenvolvemos abordagens que consideram a disponibilidade e as necessidades particulares daqueles a quem somos enviados”. 206 Como parceiros temos as famílias, pois a presença e a participação delas na formação de seus filhos é fator indispensável para esses reconhecerem nos pais a adesão ao projeto de Deus. 383. Por fim, a experiência comunitária leva o jovem a confrontar-se com problemas cuja solução exige convergência de esforços e vontade política. A promoção do bem comum e a construção de uma ordem social, política e econômica humana, justa e solidária, tornam-se um compromisso de fé. A educação na fé é concebida como ação transformadora da complexa realidade socioeconômica e político-cultural. 8.5 Jovens que assumam a sua realidade 384. Acompanhamos os jovens em seu processo de busca de identidade e de crescimento pessoal, na aceitação de seus próprios dons e limitações, e em sua nova forma de relacionar-se com os demais, com os amigos e com os familiares, na descoberta de seu lugar no mundo e na superação de concepções infantis de Deus. Auxiliamo-los em sua busca de valores e ideais que possam ajudá-los a orientar sua vida. Damos especial atenção à integração positiva de sua sexualidade e afetividade. Compreendendo que ambas constituem a identidade da própria pessoa e se expressam na forma de ser e de se relacionar com o outro. Demonstramos paciência e compreensão nos momentos de dificuldades, rebeldia e instabilidade características dessa idade. 207 Também Jesus, “que crescia em idade, sabedoria e graça diante de 206 207

MEM, nº. 86. MEM, p. 50-51. 140


Deus e diante dos homens” (Lc 2,52), foi acompanhado nesse processo. A Pastoral Juvenil Marista, inspirada na família de Nazaré, acompanha os jovens no seu processo de amadurecimento humano-cristão. 8.6 Jovens esperançosos e transformadores 385. Com os bispos latino-americanos afirmamos que “a Igreja confia nos jovens. Eles são a sua esperança. A Igreja vê na juventude um verdadeiro potencial para o presente e o futuro da evangelização. Por ser verdadeira e dinamizadora do corpo social e especialmente do corpo eclesial, a Igreja faz opção preferencial pelos jovens, com vistas à sua missão evangelizadora no Continente”.208 Há que se considerar ainda “uma pastoral de juventude que leve em conta a realidade social dos jovens de nosso Continente; atenda ao aprofundamento e crescimento da fé para a comunhão com Deus e com os homens; oriente a opção vocacional dos jovens; ofereça-lhes elementos para se converterem em fatores de transformação e lhes proporcione canais eficazes para participação ativa na Igreja e na transformação da sociedade”. 209 8.7 Jovens como sal e luz do mundo 386. A presença do jovem junto a outros jovens e à comunidade é marcante e representa o sinal de esperança para a caminhada da Igreja. O jovem é sal da terra e luz do mundo. O Papa João Paulo II se dirige a eles dizendo que nas vossas dioceses e paróquias, nos vossos movimentos, associações e comunidades, Cristo chama-vos, a Igreja acolhe-vos como casa e escola de comunhão e de oração. Aprofundai o estudo da Palavra de Deus e deixai que ela ilumine a vossa mente e o vosso coração. Ganhai força a partir da graça sacramental da Reconciliação e da Eucaristia. Encontrai-vos freqüentemente com o Senhor «coração a coração» na adoração eucarística. Dia após dia recebereis um novo estímulo que vos permitirá confortar os que sofrem e levar a paz ao mundo. Muitas são as pessoas que a vida maltratou, excluídas do progresso econômico, sem um teto, uma família ou um emprego; muitas se extraviam atrás de falsas ilusões, ou perderam já toda a esperança. Contemplando a luz que refulge no rosto de Cristo ressuscitado, aprendei por vossa vez a viver como 208 209

Puebla, nº. 1186. Idem, nº.1187. 141


«filhos da luz e filhos do dia» (1Ts 5,5), mostrando a todos que «o fruto da luz consiste na bondade, na justiça e na verdade» (Ef 5,9). 210 387. Para que o jovem seja sal da terra e luz do mundo há de cultivar a vida de oração. A oração é fundamental e o carisma marista tem apontado à juventude uma mística mais próxima da realidade juvenil. É preciso intensificar com a juventude maneiras de rezar a vida, assim como era a preocupação de Champagnat. A oração e a espiritualidade devem ocupar espaço em todas as atividades com a juventude, buscando estar sempre integrada à sua situação de vida. A dimensão da espiritualidade presente no carisma marista tem ajudado a juventude a criar interesse pela oração transformadora. 8.8 Jovens comprometidos com a construção do conhecimento científico 388. Ao concluir a educação básica pretende-se que o jovem tenha delineado pelo menos um esboço de projeto de vida que inclua as pessoas e a preocupação com o social. Espera-se que a universidade subsidie quantitativa e qualitativamente esses anseios. 389. O compromisso da universidade é produzir conhecimento científico de maneira transparente e democrática, que não seja apenas discurso autoritário de especialista, mas que esteja a serviço do bem e da melhoria da qualidade de vida do ser humano. Inspirada nos ensinamentos de Jesus, a universidade educa para a responsabilidade no tratamento do conhecimento científico. Puebla corrobora tal pensamento, quando diz que “a missão primordial (da universidade) será promover uma cultura integral capaz de formar pessoas que sobressaiam pelos profundos conhecimentos científicos e humanísticos; ‘pelo testemunho de fé perante o mundo’211 pela prática sincera da moral cristã e pelo compromisso na criação de uma nova América Latina, mais justa e fraterna. Desta forma, contribuirá ativa e eficazmente para a criação e aperfeiçoamento da nova cultura, transformada pela força do Evangelho na qual o racional, o humano e o cristão consigam harmonizar-se da melhor maneira”.212 210

Mensagem de João Paulo II à juventude, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, realizada em Toronto, Canadá, no ano 2002. 211 VATICANO II, Gravissimum Educationis, nº. 10. 212 Puebla, nº. 1060. 142


390. A vida universitária é parte constitutiva do processo formativo do jovem. Compreende a ampliação dos valores apreendidos durante toda a educação básica para se tornar instrumento favorável à implementação de um projeto de vida marcado pela consistência e coerente com os valores evangélicos da justiça e da solidariedade. 391. O documento dos bispos latino-americanos, em Santo Domingo, confirma isso, quando afirma que a missão dos adolescentes e jovens que caminham para o terceiro milênio cristão é se tornarem homens e mulheres do futuro, responsáveis e ativos nas estruturas sociais, culturais e eclesiais. Na universidade, essa missão se estende à estruturação das competências e avanços do conhecimento no campo da pesquisa. Para isso se quer formar pessoas qualificadas e críticas, capazes de agir com competência profissional e como agentes de transformação da sociedade e colocar o saber construído e produzido na universidade a serviço da sociedade, principalmente daqueles que não tiveram nem terão acesso ao ensino superior.

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9. PASTORAL JUVENIL MARISTA: PRINCÍPIOS NORTEADORES 392. Além das opções pedagógico-pastorais da Pastoral Juvenil Marista, acentuamos alguns princípios que norteiam a nossa mística e o nosso serviço evangelizador. 9.1 O anúncio como o primeiro meio de evangelização 393. O anúncio de Jesus Cristo, morto e ressuscitado, como “Boa Nova” do Reino e sinal do amor de Deus, é essencialmente evangelização. Pela evangelização a Igreja realiza hoje a missão de Jesus. (...) Evangelizar, para a Igreja, nada mais é do que fazer o que Jesus fez: por palavras e ações expressar o amor misericordioso e compassivo para com todos, em especial os pequenos, pobres, necessitados e esquecidos de nossa sociedade.213 É com esse olhar que somos convidados a ser anunciadores da vida de Jesus junto aos adolescentes e jovens. O conhecimento de Jesus e sua proposta abrem possibilidades para experienciar o seu projeto de vida e tomá-lo como modelo a ser seguido. Esse anúncio ou quérigma compreende dois aspectos: é missão apostólica e exige diálogo com a compreensão e expectativa dos destinatários da mensagem, nesse caso os adolescentes e jovens. 394. “Evangelii Nuntiandi” 214 explicita que uma evangelização verdadeira depende de anúncio que considere o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o reino e o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus. 9.2. O testemunho de vida como meio de evangelização215 395. Os sinais sensíveis dessa proposta, junto aos jovens, expressam-se principalmente pelo testemunho de vida do educador e pela presença ativa no meio dos jovens. Diz-se que os homens e as mulheres de hoje escutam mais as testemunhas do que os mestres; e se escutam os mestres, é porque são testemunhas216.

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CNBB, Estudos nº. 54. Migrações no Brasil. Um desafio à pastoral. São Paulo: Paulinas, 1987. PAULO VI. A Evangelização no mundo contemporâneo – Evangelii Nuntiandi. São Paulo, Loyola, 1976, nº. 22. 215 Idem, nº. 21. 216 PAULO VI, op. cit., nº. 76. 214

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396. Champagnat desejava que os Irmãos fossem modelos para seus educandos: “Sei também que tem um bom número de alunos”, escreve a um Irmão, em 21 de janeiro de 1830; “terá, portanto, boa quantidade de cópias de suas virtudes, pois seus alunos se formam tomando-o como modelo, ordenam sua conduta seguindo seu exemplo. Relevante e sublime é sua vocação”. 397. A valorização do testemunho revela a busca do jovem por modelos que representem um jeito de viver, do qual se extrai coerência e possibilidades de vivências significativas. Encontra-se no testemunho de vivência cristã um campo aberto para se chegar ao jovem e, nesse sentido, o testemunho de Jesus apresenta um projeto de vida a ser seguido. 9.3 A ação da pastoral juvenil deve ser cristocêntrica 398. A Pastoral Juvenil Marista é cristocêntrica, isto é, Jesus Cristo é o modelo por excelência a ser seguido e o fundamento de toda a ação evangelizadora. A sua proposta é itinerário de vida para toda pessoa, tendo muito que dizer aos adolescentes e jovens de hoje. Ele é o caminho e ninguém chega ao Pai a não ser por meio dele (Jo, 14, 6) e quem o conhece também conhece o Pai. O anúncio é exigência integrante da evangelização, cujo centro e vértice é Jesus Cristo; o anúncio é a tarefa de todos e é um desafio enorme.217 399. Como animadores da Pastoral Juvenil Marista, apresentamos Jesus Cristo às crianças e jovens, tal qual fazia Marcelino Champagnat: “Não posso ver um jovem sem o imenso desejo de falar-lhe de Jesus Cristo e de quanto Deus o ama”. Quando os jovens descobrem quem é Jesus, como divina utopia, “o reino de Deus está próximo” (Mc, 1, 15) e, mais ainda, está no meio deles (Lc, 17, 20-21). Aí passam a entender que só o reino de Deus é absoluto e tudo o mais se relativiza; eles conscientizam-se de que devem procurar primeiro o reino de Deus e a sua justiça, porque o demais lhes será dado de acréscimo (Mt, 6, 33). 9.4 Vida Litúrgica e Sacramental 400. A experiência de vida comunitária, que se expressa nos gestos de acolhida, solidariedade e comprometimento com o crescimento pessoal e 217

CNBB, nº. 76. op. cit., p. 136. 148


do grupo, é nutrida no jovem por meio do contato íntimo com o Deus que se faz presente nas celebrações e nos sacramentos. É a presença de Deus agindo nos acontecimentos de sua vida, da vocação mais profunda de ser filho e irmão, do descobrimento de Jesus e da opção por segui-lo, do discernimento da ação do Espírito nos sinais dos tempos da história pessoal, grupal, eclesial e social e do compromisso radical de viver os valores do evangelho. E o jovem descobre a comunidade eclesial como lugar de alimentar e celebrar a vida na fé.218 401. Os sacramentos, sinais sensíveis da presença da graça de Cristo entre nós, atualizam, de modo original e específico, a ação de Deus para determinada situação da vida humana. Por serem sinais e símbolos, requerem iniciação e instrução, para serem devidamente compreendidos e vividos. Supõem a fé, mas ao mesmo tempo a alimentam, fortalecem e exprimem. Conferem a graça, mas, simultaneamente, nos preparam para que estejamos dispostos a acolhê-la melhor, tornando-se assim cada vez mais eficaz 219. 402. A nossa liturgia organiza e vive a celebração dos grandes mistérios da fé através do ano Litúrgico, tendo como centro e fundamento a celebração da PÁSCOA.220 9.5 Maria modelo de seguimento de Jesus 403. Entre as características fundamentais da pedagogia marista destacase o ser marial, tendo a função de desenvolver o espírito filial, para que o adolescente e o jovem possam aceitar Deus como Pai e relacionar-se com Jesus Cristo como irmão. Assim, a educação marista se concretiza na vivência das atitudes de Maria como educadora de seu filho Jesus. 404. A ‘Boa Mãe’ expressa um ideal de fidelidade a Deus, de resposta ao chamado, e identifica o tempo singular dos jovens, marcado por perguntas e respostas. Ela é presença maternal na vida de Jesus e mãe de todos, a mãe próxima que escuta e dá apoio nos momentos de questionamentos e dificuldades. 405. Maria é exemplo de amor e amizade juvenil, quando visita sua prima Isabel (Lc1, 39-45); é exemplo de humildade e simplicidade, quando louva a Deus por ter fixado o olhar em sua condição humilde (Lc 1, 47); é 218

CNBB nº. 76. op.cit, p.163-164. CNBB. Estudos nº. 26. Catequese Renovada. São Paulo: Paulinas, 1987. nº. 221 e 222. 220 Idem nº. 225 219

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exemplo de sensibilidade social e preocupação pelos pobres, quando canta sua alegria, porque Deus age com justiça, “arruinando os soberbos, destronando os poderosos e despedindo os ricos de mãos vazias” (Lc 1, 5253). O Magnificat, seu canto de louvor, reflete sua alma, preludia o anúncio das bem-aventuranças (Mt 5, 3-12) e expressa o ponto culminante da espiritualidade dos pobres de Javé. Na Bodas de Caná (Jo 2, 5), ela demonstra a sua intimidade com Deus e confiança nele, quando se dirige a Jesus, dizendo: Fazei tudo o que ele disser. Ela evidencia a presença do Senhor, que vê a necessidade dos seus filhos e dá resposta a seus apelos. 9.6 Inserção eclesial 406. Puebla221 afirma que os jovens devem sentir que são Igreja, experimentando-a como lugar de comunhão e participação. Por isso a Igreja aceita suas críticas, por reconhecer-se limitada em seus membros, e os quer gradualmente responsáveis na sua construção, até que os envie como testemunhas e missionários, especialmente à grande massa juvenil. Nela os jovens se sentem povo novo, povo das bem-aventuranças, sem outra segurança além de Cristo; povo dotado de coração de pobre, contemplativo, em atitude de escutar e discernir evangelicamente, construtor de paz, portador de alegria e de projeto libertador integral, em favor sobretudo de seus irmãos jovens. A virgem Mãe bondosa, indefectível na fé, educa o jovem para ser Igreja. 407. A dinâmica dos grandes centros urbanos e as inúmeras possibilidades de convivência nesses locais nem sempre têm dado conta da necessidade humana de viver uma espiritualidade mais intensa. Nossas unidades são contadas como espaços privilegiados para essa vivência, especificamente as obras e escolas confessionais. Temos observado que ali muitos são iniciados e alimentados na fé. Não podemos ignorar que, se não evangelizarmos ou não privilegiarmos a vivência da fé, dificilmente irão engajar-se numa comunidade eclesial. A obra e a escola devem ser esse espaço de Igreja que possibilita a inserção. 408. Estamos convencidos de que a melhor inserção eclesial não é apenas exigência de nossa missão de Igreja, mas fonte de renovação e fecundidade. Entendemos que a escola marista é lugar de encontro e de irradiação da comunidade cristã local. Realizamos a comunhão eclesial, 221

Puebla, nº. 1184. 150


inserindo-nos na pastoral de conjunto da Igreja do Brasil, desejando estar presentes na vida da Igreja local e assumindo com ela o nosso papel específico, junto com os outros colégios católicos. 409. A Igreja evangelizadora faz veemente apelo para que os jovens busquem nela o lugar de sua comunhão com Deus e com os homens, a fim de construir “a civilização do amor” e edificar a paz na justiça. Convida-os a que se comprometam eficazmente numa ação evangelizadora que não exclua ninguém, de acordo com a situação em que vivem, e tendo predileção pelos mais pobres.222 9.7. Aprendizados que importa cultivar 223 410. No processo de educação do jovem, a Pastoral Juvenil Marista tem cuidado especial quanto aos métodos utilizados. A formação da juventude deve ser libertadora e emancipatória. O ser humano é o único que se reconhece inacabado e, portanto, deve inserir-se em itinerário de construção permanente da própria personalidade, identidade e subjetividade. 411. A formação integral do ser humano visa também à integração entre fé, cultura e vida. Por isso a realidade sociocultural do jovem deve ser profundamente analisada, refletida, compreendida e considerada. Tal consciência das realidades juvenis é o primeiro princípio a ser considerado na formação da juventude. “A educação humaniza e personaliza o homem, quando consegue que este desenvolva plenamente o seu pensamento e sua liberdade, fazendo-os frutificar em hábitos de compreensão e comunhão com a totalidade da ordem real: por meio destes, o próprio homem humaniza o seu mundo, produz cultura, transforma a sociedade e constrói a história.”224 9.7.1 O aprendizado para o amor 412. Para que o jovem possa cumprir o mandato de Jesus: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,12), é preciso que ele aprenda a amar. Nesse sentido, tocamos o terreno das experiências e das oportunidades criadas com esta finalidade. A experiência cristã permite que tracemos um itinerário pedagógico na caminhada do amor. O amor constrói-se não como 222

Puebla, nº. 1188. Essa reflexão sobre os aprendizados é extraída do livro de J. B. Libânio, op. cit., p. 222-238. 224 Puebla, nº. 1025. 223

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casa. Não se edifica com pedras que existem fora de nós e que unimos segundo plano arquitetônico. Não nasce de projeto concebido no interior e que executamos fora. É bem mais complexo. É sempre trabalhado por duas mãos. Ama-se, sendo amado: é-se amado ao amar. Aprende-se a amar amando. 9.7.2 O aprendizado para o trabalho 413. O convívio com o jovem tem mostrado a necessidade da ação que leve à reflexão e que culmine novamente em ação transformadora ou transformada. A ação/reflexão/ação alimenta o protagonismo juvenil. Devemos considerar a educação para o trabalho, como aprendizado de valores que vão sustentar escolhas, decisões e suas relações. As realidades humanas padecem de ambigüidade e limites. O trabalho tem referência positiva na vida do homem. É marco de referência para a construção de sua identidade pessoal e social e seu status socioeconômico. A experiência de fé e a vivência na comunidade iluminam essa ambigüidade que existe nas relações de trabalho. 9.7.3 O aprendizado para o convívio social 414. No currículo da educação básica há uma exigência quanto ao aprender a conviver e a ser. Recomendação que se estende até à universidade. Nesse sentido, como cristãos, pretendemos que o jovem que passa pela obra marista aprenda a conviver de acordo com os ensinamentos de Jesus. Para isso faz-se necessário desenvolver algumas habilidades que favorecem a boa convivência: conhecimento de si e do outro, sensibilidade, superação do individualismo, cultivo das inter-relações, solidariedade e respeito. Grande mediação que a Igreja coloca para este aprendizado é a pastoral social, com que devemos fazer parceria. 9.8 Inserção na pastoral de conjunto e nos movimentos sociais. 415. Diante das possibilidades e inúmeros meios de comunicação, faz-se urgente uma sintonia maior, bem como a implementação de atuação em rede da Pastoral Juvenil Marista, em todos os âmbitos, com a pastoral de conjunto e nos movimentos sociais. Com isso estaremos abrindo-nos e 152


enriquecendo-nos na troca de experiências e, ao mesmo tempo, estaremos inserindo-nos numa práxis de transformação da sociedade. A experiência de atuação em rede tem sido valioso meio de revitalização, tanto de pastorais quanto dos movimentos sociais. 416. A atuação em rede, longe de representar perda de espaço da evangelização com valorização do carisma, revela-se lugar de afirmação da identidade e do carisma, enriquecendo e enriquecendo-se por meio das trocas. É tecendo a rede de nossas experiências que conseguiremos construir uma sociedade e uma Igreja mais justa, humana e fraterna.

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Secretarias Pastorais Província Marista do Rio Grande do Sul Rua Aracajú, 651 Bairro Vila Nova • CEP 91740-460 Porto Alegre – RS Telefone: (51) 3241-4722 E-mail: caju@maristas.org.br

Província Marista do Brasil Centro-Sul Av. Senador Salgado Filho, 1651 Bairro Guabirotuba • CEP 81510-001 Curitiba - PR Telefone: (41) 3015-9333 E-mail: pastoral@marista.org.br ou pjm@marista.org.br

Província Marista do Brasil Centro-Norte SDS - Ed. Venâncio III salas 307/ 308 - 3º andar • CEP 70393-900 Asa Sul • Brasília - DF Telefone: (61) 3225-4283 E-mail: juventude@marista.edu.br

Distrito Marista da Amazônia Rua Angeli, 301 Jardim Eldorado 1 • CEP 78912 – 390 Porto Velho - RO Telefone: (69) 30432739/3043-3760 E-mail: jgutemberg@zipmail.com.br

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Encontro Nacional de Assessores da Pastoral Juvenil Marista

RECANTO CHAMPAGNAT • FLORIANÓPOLIS, SC 16 a 22 de janeiro de 2005

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PARTICIPANTES Adilson Coelho Alcione J. Feix Ana Clésia da S. Alcântara Andréa Gomes Cardoso Anelise Fátima Bianchi Alexandra Regina da Costa Antonio Frutuoso Bruno Correa Quint Carolina Dorneles dos Passos Cassemiro Macedo Paim César Ribeiro Claudia Raquel Büttenbender Crislan Viana de Moura Cristine Pereira Daniel Marques Stohsefski Daniela Patrícia Gomes Silva Daniele da Silva Martins Dercio Angelo Berti Domênica Vidor Pelini Fabiano Incerti Felipe de Barros Dutra Fernanda da Costa Francisco Rocha da Silva Glauciene Elias Silveira Grimberg Dailli Silva Guilherme Flach Heloísa Maria da Silva Helquemim Maber Pereira Juvenal Ir. Adecir Poseer Ir. Adriano Jacó Sauer Ir. Alvanei Santana Finamor Ir. Ângela Maria Falquetto Ir. Carlos dos Santos Ir. Helder de Souza Silva Pinto Ir. Iranilson Correa de Lima Ir. João Batista Pereira Ir. João Carlos do Prado Ir. Luciano Osmar Menezes Ir. Manuel Da Silva Lima Ir. Natalino Guilherme de Souza Ir. Rafael Ferreira Júnior Ir. Regiere Alves da Cruz Ir. Reni Voss Ir. Tercílio Sevegnani Ir. Vitor Pravato Ir. José Wagner R. da Cruz

Ir.João Batista Rocha Ir.Rodinei Siveris Ir.Romídio Siveris Ir.Vinícius Domingos Tenedini Ir.Vinícios Malfati Irene Elias Simões Janaina Tomaselli João Gabriel Danezi Morisso Jocinélia Plotegher José Roberto dos Santos Kleberson Massaro Rodrigues Larissa Naves e Silva Santos Leia Raquel de Almeida Heck Lucas Marques Peloso Figueiredo Lucas Martins Tórgo Lucas Pydd Henchí Lucas Ribeiro Marques Campos de Oliveira Lucir Antonio Souza Marcos Lourenço da Silva Marcus Vinícius Santiago Maria Leticia Barboza Xavier Maximiliano Nardon Soares Miriam Hoffmann Moacir Antonio Szekut Oneide Perius Paulo Henrique Martins de Jesus Paulo Rogério Salazar Junior Pe. Hilário Dick Rafael Pereira de Quadros Raquel Pulita Santiago Pavani Dias Sibeli da Silva Siegle Sílvia Fighera de Medeiros Simone Costa Moreira Sirlei Ferreira da Costa Sueli Pereira Caixeta Sueli Souza Veiga Tairã de Castro Rabelo Thiago Córdova Thiago Matias de Sousa Araújo Valdemar Antonio de Vargas Vinícius Alcântara Gonçalves Wagner Adriano de Souza Welcton Rodrigues de Oliveira 163


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Diretrizes Nacionais da PJM