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ÉDEN


Flávio Siqueira

ÉDEN Uma surprendente jornada de um homem em direção à Deus e a si mesmo

São Paulo Cia dos Livros - 2011


Título original: Éden Copyright © 2011 by Flávio Siqueira

Editor responsável: Eduardo Botino Coordenação editorial: Silvia Sena Capa: Rodrigo Rojas Imagem da capa: Rafael Arinelli Diagramação: Sidnei V. Cordeiro Revisão: Georgia Aquino

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros - RJ S63e Siqueira, Flávio Éden: uma surprendente jornada de um homem em direção à Deus e a si mesmo Flávio Siqueira. 1a ed. - São Paulo : Cia dos Livros, 2011. ISBN 978-85-63163-49-3 1. Romance brasileiro. I. Título. 11-4081

CDD: 869.93 CDU: 821.134.3 (81) - 3

027777

Cia. dos Livros - R: Néa, 79 - Vila Ré São Paulo - SP - 03662-000 www.editoraciadoslivros.com.br editora@editoraciadoslivros.com.br


Agradecimentos Sou grato a muita gente. Muitos mesmo. Mas os que agradeço publicamente aqui foram fundamentais na construção desse livro. Lulu e Flavinho, por me darem razões para ser alguém melhor todos os dias. Lenir Mota e Leonardo Siqueira, pelo entusiasmo por tudo o que faço. Leram e opinaram quando O Éden era apenas um projeto. Rita do Carmo Tavares de Almeida Pinto, por me lembrar a importância de ouvir a voz do coração no momento em que isso era tudo o que eu precisava fazer. Rafael Arinelli, por sua disponibilidade e arte que valorizou tanto esse trabalho. Anderson Cavalcante, pela amizade e conselhos tão valiosos. Roberto Leoto e Alexandre Loureiro, amigo desde sempre. Suas dicas tão úteis lhes transformaram em personagens no livro. Marco e Maitê Cena, por me ajudarem no primeiro passo que depois virou segundo. Eduardo Botino e Silvia Sena, pela dedicação e por trabalharem para que o Éden se transformasse em realidade. Todos vocês fazem parte do meu Éden.


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quele dia, que parecia mais um entre tantos outros, tinha algo diferente no ar. Ondas de felicidade e a sensação de que no fim tudo pode dar certo. Talvez houvesse uma

explicação para o fato de ter acordado tão feliz naquela manhã, mas não estava preocupado com isso. Ele dá um suspiro e novamente repara em sua imagem no vidro. Caminha entre a escrivaninha, os livros, o abajur até chegar à janela e abri-la. Sente uma rajada de vento e sorri permitindo que o ar invada o apartamento e movimente os papéis sobre a mesa. O ar estava agitado e, apesar da bagunça la fora, a vida parecia estar em ordem, com tudo em seu devido lugar. O velho Michel se detém mais alguns minutos na imagem daquele dia claro, nos raios de sol que penetravam as folhas das árvores, nas pessoas que caminhavam nas calçadas, falantes, felizes. O vento movimenta seus poucos cabelos brancos e lhe brinda com uma intensa sensação de liberdade. Ele sorri com satisfação, apoia os braços no parapeito e continua a observar o mundo que pulsa lá embaixo.

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Sim. Definitivamente havia algo diferente no ar.


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Primeiro uma música suave.

Como o sol que se põe sem que a gente perceba ou a Terra que gira pelo espaço sem nos dar tontura, um som rasgou o silêncio. Veio aos poucos, embalando o sonho, fazendo-se perceber sem pressa, dando consistência ao vazio, alterando o ritmo do mundo sem cores e confuso que lentamente ia ficando lá atrás. Quando o ritmo muda, muda tudo. Tons agudos, quase sem melodia. O caminho de volta à consciência anunciando que o sono acabou. Seis e meia. Ainda ao som do despertador, Ed se arrasta para fora da cama, lutando para reorganizar os pensamentos. “Por que será que é sempre tão difícil começar o dia?” As palavras jorram do nada, quase resmungando, enquanto procura seus chinelos com a luz ainda apagada. Estica o corpo de estatura mediana, um pouco acima do peso, mas isso já não lhe incomodava. Seus cabelos, levemente ondulados, ficam rebeldes quando acorda. Passa os dedos nervosamente entre os fios emaranhados, duas ou três vezes, na tentativa de ajeitá-los. Coça a barba escura e rala e prossegue com as mãos sobre o nariz alongado, depois a testa, como quem massageia o próprio rosto. Abre a janela o suficiente para checar o tempo e inalar o sempre reparador, ar das manhãs. Nas últimas três semanas as madrugadas foram úmidas e frias com temperaturas beirando os dois graus. Sem a lua e o céu estrelado as ruas esvazeavam-se mais cedo, como se um toque de recolher natural determinasse que fosse tempo de aconchego e lareira. 7


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Com a chegada do inverno a cidade se aquietava, portas fechadas, sem comércio, algazarras, passeios noturnos, namoros na praça, conversas dentro do carro, caminhadas com os cachorros ou crianças correndo para todos os lados. Era tempo de janelas fechadas e cobertas por grossas cortinas cor de nada, poucas visitas, poucos parentes, poucos agitos. Como sempre, a única exceção era o bar dos irmãos Dilman que, mesmo na noite mais fria, insistia em manter as portas abertas com aquelas intermináveis e ensurdecedoras “noites do cover” que agradavam os sempre mesmos dez ou quinze gatos pingados. Fora isso tem sido possível aproveitar a tranquilidade das noites frias enquanto a primavera não chega. O topo da serra continua encoberto pelo denso nevoeiro que praticamente abduziu a variedade de pinheiros da parte mais alta, perto da casa dos Benedettis. Os carros estacionados junto às calçadas, tingidos pelo orvalho, com vidros embaçados e poças sob o capô, assim como o asfalto ainda molhado. Essa madrugada foi bastante fria, apesar da expectativa dos meteorologistas de que o dia esquente um pouco. Geralmente tem sido assim: Noites e madrugadas com temperaturas muito baixas e dias mais agradáveis com sol até o meio da tarde quando, alguma chuva pode cair. Ed sente o ar gelado cortando o rosto por mais alguns instantes, depois fecha a janela e o quarto escurece novamente. Não é difícil tropeçar em alguma coisa no meio de tanta bagunça. Na cadeira de plástico, em frente ao computador, roupas limpas misturadas com as sujas formavam uma pilha de calças, cuecas, meias e toalhas. O pequeno sofá ao lado do guarda- roupas de madeira virou porta jornais velhos e mapas de voo desordenadamente empilhados. Na mesa, em frente à cama, porta incenso, caixa de fósforos, carteira, moedas soltas, chaves, documentos e comprovante de pagamentos com cartão de crédito ficavam em volta da enorme televisão.

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No único canto que restava, porta-retratos amontoados guardavam as últimas recordações de um tempo que, além daquelas fotos, só existia na memória e na intensa saudade. Sair cedo da cama sempre foi um prazer Levantar silenciosamente antes do sol, caminhar até a cozinha e aprontar um café para saboreá-lo na xícara pintada a mão, pelo filho, no ano passado, apoiado na janela da sala, esperando o dia chegar enquanto todos dormiam. Como era bom ficar olhando para o nada, aguçando a audição ao discernir os últimos sons da madrugada: os grilos e seus acordes ritmados, ventos lambendo os ouvidos enquanto o motor de um carro rugia lá longe, talvez com gente indo trabalhar, ou será que estavam voltando de alguma festa? Um senhor gordo, de gorro, casaco marrom, algo parecido com um jornal dobrado sob o braço, sempre com luvas escuras e uma grossa bolsa de couro, atravessava a rua pontualmente no mesmo horário. Seus passos pesados, constantes, permaneciam audíveis até que sua figura se distanciasse e dobrasse a esquina. A fixidez das árvores compunha o cenário que só se modificava quando uma brisa as envolvia e brincava com suas folhas. Parece que a combinação entre a quietude e a escuridão evidencia o que não percebemos durante o dia. O cheiro do café quente se misturava com o ar gelado da madrugada, com seus poucos e intensos sons; remédios temporários para a mente turbulenta e o coração espremido. Ultimamente as coisas tinham mudado muito. Quando a paz parece ir embora, vem a sensação de que o melhor é sobrecarregar a mente com tudo o que nos faça esquecer que não temos controle sobre nada, que estamos perdidos e ninguém nos vê. Melhor acordar em cima da hora e apenas se preocupar em não atrasar no trabalho. A porta do banheiro entreaberta permite que a pouca luz 9


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invada o quarto e lhe salve de mais um de seus tropeções matinais na cadeira de plástico. O corpo ainda está cansado. “Não adianta querer dormir mais um pouco, Ed...” – resmunga novamente para si mesmo – “... daqui a pouco você desperta, vá em frente”. A insônia dos últimos meses tornava o começo do dia mais difícil, mas os pensamentos que jorravam em forma de reclamação faziam com que a mente começasse a trabalhar. Deitar na cama vazia todas as noites não estava sendo tão fácil quanto imaginava. Ainda acordava de madrugada procurando a silhueta esguia e suave de Beth, mas, as mãos passeando entre os lençóis de seda que ela escolheu e o segundo travesseiro, frio, que permanecia ao seu lado, espantavam o sono e a sensação de que, talvez, tudo não passasse de um pesadelo. Despertado pela crueza da realidade, passava horas acordado olhando para o teto quase escuro, eventualmente iluminado pelos faróis dos carros que refletiam na janela do quarto, tentando entender onde as coisas começaram a dar errado. •

Quando casou, acreditava que duraria para sempre. Conheceu Beth em um curso de piano dado por Eric, seu único primo. Ainda guardava na memória o dia cinza e sem graça em que a viu pela primeira vez. Lá fora ventava muito e chovia desde o início da manhã. Quando ouviu o barulho dos sininhos da porta e na sequência ela se abrindo, pensou que pudesse ser o vento, mas dessa vez não era. Beth entra sozinha e tenta fechar o guarda-chuva molhado. Pendura o casaco ensopado e ajeita a roupa delicadamente. Pa-

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rece que foi ontem: calça bege e camiseta preta, cabelos escuros, finos e lisos. Leve sorriso nos lábios, pele alva e olhos castanhos que se desviavam sempre que percebia alguém a observando. Eric tocava distraidamente como fazia antes de todas as aulas. Era apenas o aquecimento. O som dos primeiros acordes significava que em breve visitariam o mundo da música e isso bastava para que os tons das vozes diminuíssem, e a sala fosse preenchida pelo melhor som. O tempo ficava suspenso. O velho e desgastado papel de parede com flores vermelhas desbotadas, o carpete cinza e macio, o cheiro peculiar, o som, as pessoas, as conversas, compunham o cenário onde a mágica acontecia. Além de Bach e da chuva lá fora, sons que se misturavam e complementavam, em nenhum ouvido entrava mais nada. Enquanto os ouvidos estavam cativos, os olhos relutavam pela liberdade de percorrer os caminhos que quisessem. Os de Ed se detiveram na imagem da menina sentada naquele sofá antigo e desbotado, compenetrada e linda… muito linda. Não foi tão fácil levantar-se e sentar ao lado dela. Inventar um assunto, puxar conversa, olhar nos olhos, perder a fala e ganhar o mundo. Ficar sem graça, sem sono, sem coragem. Sorrir por tudo, chorar por nada. Os sons, a textura, o toque e a sensação de que, no mundo, só os dois existiam. Não houve planos para casamento porque se casaram no primeiro dia, ainda naquele sofá. Papéis, assinaturas, votos, igrejas e festas aconteceram como formalidades complementares ao que de fato precedeu os rituais e se instalou como realidade desde o momento em que a viu. Alguns se casam sem se casarem. Para eles não restavam alternativa: casaram-se olhos, sonhos, mentes, esperanças, defeitos e sentidos. 11


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E depois todos os outros dias foram bons. A vida foi feliz até que tudo mudou. Se existisse um arquivo com as fichas de cada humano catalogadas por comportamento, a dele seria invejável. Não que fosse santo, sabia de suas limitações. Mas falha alguma lhe inibia a consciência de que era um bom homem, cumpridor de suas obrigações, fiel, respeitador da moral e das leis. Por isso a enorme dificuldade em entender por que as coisas fugiram o controle e tomaram o rumo atual. “Perfeito sei que não sou” costumava dizer “mas também sei que existe gente muito pior do que eu. Tudo o que quero é trabalhar e ganhar meu dinheiro honestamente, e dar à minha família o que não pude ter”. •

Ligou o aquecedor e as luzes do banheiro. Naquela manhã fria, qualquer água – mesmo quente - pareceria um banho de gelo e, tirar a roupa quente de dormir parecia um enorme desafio. Lembrou-se do sonho da última noite. Estava perdido em algo que aparentava ser uma floresta. Correndo entre árvores e animais, procurava desesperadamente por algo, mas não sabia o que. Enquanto corria, ouvia vozes e risadas. Correu até se cansar e chegar a uma espécie de labirinto sem saídas. Animais vinham em sua direção com olhares estranhos, como se fossem humanos. Sentiu um arrepio na espinha. Parou sem ter para onde ir e ficou esperando apavorado até que a música suave começou, aumentando o ritmo, o volume, se transformando em som de despertador avisando que já era seis e meia. Beth gostava de falar sobre sonhos. Ed não. Ela dizia que, mais do que simples decodificações do inconsciente representadas em símbolos, os sonhos poderiam conter mensagens. Gostava de filosofar dizendo: “Se Deus quiser um

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momento para nos dizer algo, tem que ser nos sonhos. Deve ser quando realmente ouvimos de verdade”. “O sonho de hoje seria um prato cheio para Beth”. Sorriu só mexendo um canto da boca, sem mudar a expressão, como fazia quando mergulhava em alguma boa lembrança. Ligou o rádio em um rápido movimento, como quem tenta afugentar um pensamento ilícito. “Antes pudesse perder tempo pensando sobre o sono ou qualquer outro tema que não seja meu trabalho e meus problemas”. Suspira. Aumenta o volume. No ar as notícias da manhã: “…. no entanto, o ministro rebateu as críticas, dizendo que sua decisão foi exclusivamente técnica. Mais informações da Capital do país…” “Não quero saber sobre decisão de ministro algum. Ah, esses políticos... todos iguais”. Resmungava enquanto se detinha em frente ao espelho e bocejava. Parou por alguns instantes, coçou a barba, pegou a escova de dente, mudou de estação a procura de qualquer música que lhe ajudasse a parar de pensar. O som de um teclado eletrônico vindo do quarto se antecipa a música do rádio. Trata de cuspir a pasta de dente na pia e sai do banheiro, correndo, sem roupa, tentando encontrar o maldito celular que adorava se esconder. Às vezes desconfiava que o aparelho tivesse vida própria e se escondia na tentativa de vingar as inúmeras quedas da mesa, bolso, mãos… “De onde vem o som… concentra… de onde vem o som”, se agitava enquanto remexia nas roupas sobre a cadeira, os papéis na mesa, os mapas e uma calça do avesso jogada no sofá… No sofá! Tenta pegar rapidamente o telefone que ainda toca dentro do bolso da calça sobre o encosto. “Alô” atende esbaforido, tentando calibrar a voz, sempre desafinada pela manhã. 13


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“Ai Ed, credo! Essa sua voz quando acorda me dá medo”. Era a voz rouca da secretária da companhia, fiel escudeira da direção. Rosto com contornos delicados, porém cansados, cabelos ralos e sorriso fácil, fumante inveterada, Cris chegou aos quarenta anos recentemente se sentindo incompleta depois de desistir de ser mãe. Durante anos lutou indo a todos os médicos, aceitando dezenas de tratamentos, gastou muito dinheiro, acreditando e desacreditando, até que o divórcio trouxe o desestímulo e a vontade de ficar só. “Pensei que ela ficasse mais bonita assim”. Ed esboça um sorriso enquanto remexe a pilha de roupas a procura da toalha verde e surrada. “Só se for para dublar filme de terror”– a secretária faz uma pausa esperando alguma risada ou comentário, mas como só ouve “Hmm”, prossegue, mudando para um tom mais sério “O Moreno pediu para que você viesse um pouco mais cedo já que apareceu um voo agora pela manhã. É coisa rápida. Um executivo perdeu a conexão do voo que o levaria para uma reunião e está com certa pressa”. Isso significava que o café seria transferido para bem mais tarde e o banho relaxante das manhãs viraria “banho de gato”. “Tudo bem” respondeu se apressando em girar a torneira do chuveiro. “Vou me preparar rapidamente. Avisa o Moreno que em meia hora chegarei aí”. Antes que Cris pudesse responder a bateria descarregou. “Droga! Devia ter recarregado durante a madrugada”, pensou alto de novo. Por um segundo lamentou ter que se apressar, mas, enquanto a água quente escorria pelo corpo, fechou os olhos e ficou feliz por ter seu trabalho. Depois de tudo o que perdeu, o trabalho parecia a última conexão com a normalidade.

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Durante quase dez anos viveu momentos muito felizes ao lado de Beth e depois, com o nascimento do Gabriel, a vida só melhorou. Descobriu cedo que ser pai lhe tornava alguém melhor. Ainda que, por força da profissão, não pudesse estar tão presente quanto gostaria, fazia o possível para compensar a ausência com bons momentos, presentes, conversas, carinhos e passeios. A última vez que se encontraram foi no aniversário de cinco anos, há sete meses. Naquele dia Ed apareceu na casa de Beth de surpresa, logo pela manhã e pediu para acordar o filho. Entrou tentando não fazer barulho, passou pelo piano, viu que seus antigos e amados quadros ainda estavam presos na parede sobre o sofá e subiu a escada sem dizer nada. A porta do quarto estava entre aberta facilitando a entrada silenciosa. Fugiu do carpete de madeira, pisando somente no tapete colorido, cheio de imagens de personagens de desenho animado em meio a dados gigantes, para não fazer barulho. Gabriel dormia esparramado pela cama com a camiseta do super-herói que o pai lhe deu e um short azul, já ficando pequeno. “Como esses anjinhos crescem rápido”, pensou enquanto se deteve por alguns segundos olhando para o filho. – Gabriel... acorda querido, é o papai… acorda… Ele se mexe na cama, vira para o outro lado, dá um suspiro e continua dormindo. – Filho, hoje é seu aniversário, vamos passear… acorda… O menino se mexe de novo, esfrega os olhos e vê o pai. Abre um sorriso e senta na cama visivelmente lutando para permanecer com olhos abertos. – Vamos tomar um banho, querido, fala Ed enquanto acaricia o cabelo despenteado do filho. Quero te levar para passear, vamos ao parque, vamos brincar… Gabriel fica em pé na cama e abraça o pai. 15


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Agora suas lembranças avançam para a tarde de sol entre árvores, brinquedos, pipoca e algodão doce. Há quanto tempo não comia algodão doce! Idas ao parque sempre os aproximavam. Gostava de sentar no banco de madeira com pintura verde descascando, perto do enorme lago, cheio de patos e gansos que iam para todos os lados. Sob a sombra da “árvore da casa do gigante” – era assim que a chamavam – ficavam horas falando sobre um maravilhoso mundo que só existe na cabeça das crianças. Gabriel nutria uma incrível curiosidade em relação à vida. Gostava de fazer perguntas, queria saber do que as coisas são feitas, por que se fala assim e não assado, porque o mundo é como é, e as pessoas nem sempre são boas. Com prazer e, sempre perto do filho, contava histórias, respondia perguntas, fazia comentários e se espantava com cada sinal de que o bebê já era um menino. Depois jogaram bola na grama e correram para ver um coelho no colo de uma adolescente gordinha, de aparelho colorido nos dentes, óculos com molduras vermelhas e sorriso com lábios sempre cerrados. Gabriel desconfiou: – Não existe coelho cinza, papai. Todos são brancos. Ed sorriu e explicou que existem coelhos de várias cores. – Um dia você me dá um coelho como esse? Perguntou o menino enquanto olhava fixamente para o bichinho. – Mas onde você vai guardar um coelho? Eles precisam de espaço, jardins, lugares para brincar. Ed se aproximou do bichinho, sorriu para a menina e acariciou as longas e peludas orelhas. – Se você deixá-lo o dia todo em uma gaiola fará mal a ele. Agora voltava o olhar para o filho. – Não, pai. Eu o deixo solto dentro de casa. A sala é grande e, se a mamãe se incomodar, ele vai morar comigo no quarto.

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– Tá bom querido – Ed sorria, não exatamente pelo comentário do filho, mas por seu jeitinho especial de tentar conciliar as coisas – Vamos pensar no assunto, está bem? Gabriel só fez um “sim” com a cabeça, retribuiu o sorriso e correu desafiando: – Vamos pai, vamos! Olhe como eu corro rápido. Consigo chegar lá na ponte em dez segundos. – Cuidado para não cair, filho. Chegando à ponte me espera, não suba sozinho. A tal ponte era uma pequena passagem sobre o lago. Nas duas extremidades pequenos degraus e, sobre a curvatura, taboas de madeira onde se fixavam os dois corrimãos também de madeira. Às vezes subiam para jogar pedaços de pão para o cardume de peixes famintos que disputavam com os patos cada migalha. Enquanto alimentava os peixes ao lado do filho, repentinamente a voz do vovô Michel submerge de algum ponto de suas mais remotas memórias: “Paternidade não se aprende. Ou você é pai desde que nasce ou nunca será”. Apesar de sensível e muito inteligente, vovô Michel teve uma infância conturbada e, especialmente depois que ficou viúvo, acabou se transformando em um homem cheio de mágoas, com enormes dificuldades para lidar com pessoas e sentimentos, ao ponto de nunca conseguir se relacionar por muito tempo com ninguém. Todos sabiam que era necessário manter certa distância para que as coisas não se complicassem. Ainda na primeira infância, Ed perdeu os pais em um acidente de carro e vovô Michel o criou. Ensinou muitos valores importantes como seriedade de caráter e apreço ao trabalho, mas por outro lado parece que o jeito frio e distante do avô lhe abriu uma fenda que iria atrapalhar em todos os futuros relacionamentos. Nunca se esqueceu do frio na espinha que sentia quando o 17


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avô voltava para casa e de como repensava em tudo o que fez durante o dia para evitar que algum detalhe escapasse e pudesse colocá-lo em maus lençóis. Pequenos esquecimentos, descumprimento de tarefas, uma nota ruim… tudo continha um grande potencial de tirar o avô do sério, o que significava severos castigos. Por não saber lidar com sentimentos, vovô Michel evitava aproximar-se do neto e isso fez com que Ed aprendesse a conter demasiadamente qualquer tipo de impulso que ameaçasse as regras impostas pelo avô. Chegou o tempo em que as emoções não saiam mais e a única maneira de sentir segurança era se preservando de tudo e de todos. Procurava ser simpático, tinha muitos amigos, teve muitas namoradas, mas sempre que algo parecia fugir do controle, Ed simplesmente desaparecia. Foi assim com todos e agora, com Beth, tudo se repetia. Mas o fato de estar reproduzindo o ciclo iniciado pelo avô, que no fim acabou lhe afastando de tanta gente, ficou mais claro depois da paternidade, afinal, lhe apavorava a ideia de que o filho também fosse assim. Isso fazia com que constantemente inventasse mecanismos para suprir a possível deficiência: “se posso aprender a pilotar aviões por que não posso aprender a ser pai?” Pensava como se uma coisa pudesse ter conexão com a outra. Mas agora estavam mais distantes do que nunca. A separação abriu feridas, mas talvez a maior fosse a distância do filho. Enquanto tentava lidar com as emoções que esses pensamentos despertavam, se lembrou que Cris pedira para se apressar. Fechou a torneira do chuveiro e lamentou ter deixado a toalha no quarto.

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Saiu molhado – coisa que Beth odiava -, deixando um rastro de água, primeiro no tapete verde com inscrições em japonês que ficava logo na saída do banheiro, depois continuou pingando pelo chão até alcançar a toalha que deixou sobre o sofá enquanto falava ao telefone. Enxugou-se ali mesmo, se arrumou e saiu sem comer nada. •

O nevoeiro se dissipara. Ao sair de casa sempre olhava o céu, não só para checar as condições meteorológicas, mas como um ato inconsciente de quem avisasse as nuvens que logo estaria entre elas. Voar sempre foi uma paixão e, mesmo que estivesse na profissão há dezesseis anos, ainda era capaz de se orgulhar do que fazia e aproveitava cada pouso e decolagem. Quando, ainda muito jovem, na escola de pilotagem, queria comandar grande aviões. A sensação de pilotá-los lhe fazia sentir poderoso. Ter em suas mãos centenas de vidas lhe tornava forte. Há alguns anos voava aviões de pequeno porte para uma companhia de táxi aéreo, mas agora contava com a indicação de amigos para que pudesse tentar a sorte em cias maiores. Era uma segunda-feira. Às sete da manhã e, apesar da necessidade de um casaco, o dia já estava um pouco mais quente. Hora de enfrentar o trânsito, estranhamente não tão ruim como de costume. Dirigiu ouvindo músicas, prestando atenção nas letras, cantarolando baixinho na tentativa de estabelecer relação cordial com a normalidade. “Faço a minha parte fingindo que está tudo bem, me comporto, me esforço para ser simpático e sorridente com todos e, em troca, devolvam - me a sensação de que tudo vai ficar bem” - falou 19


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baixinho sem ter a mínima ideia se de fato alguém lhe ouvia para aceitar o acordo. Estava vazio por dentro, mas a vida continuava, não podia se entregar. A separação revelou que já não sabia mais lidar com suas angústias interiores. Elas tinham vazado para o casamento e interferido em sua relação com Beth. Semáforo vermelho. Ruas movimentadas, pessoas atravessando a faixa de pedestres com pressa. Uma senhora segura à bolsa em uma mão e a criança com uniforme da escola na outra. Um homem de terno e óculos caminha lentamente, tentando ler o jornal, provavelmente à página de economia. Dois jovens passam conversando, talvez sobre o clássico de ontem à noite, cruzam com um gordinho de fones no ouvido que, ao reconhecê-los, para, lhes cumprimenta e volta com os amigos para o outro lado da calçada. Estranho pensar que, apesar de nossas vidas estarem fora dos trilhos, tudo continua normal e ninguém deixa de seguir sua própria rotina. Seu mundo pode estar destruído, as esperanças simplesmente evaporarem, mas lá fora nada acontece. Tudo permanece exatamente como sempre foi. O semáforo abre. A distância de Gabriel lhe dava a sensação de fracasso, aguçando o sentimento que alimentava em relação à teoria do vovô Michel. Engata a marcha e acelera. “Se existisse um jeito para fazer com que as coisas dessem certo, se eu soubesse a fórmula para não errar tanto... por que a vida tem que ser tão difícil?” suspirava, demorando um pouco mais no piscar de olhos. Aumentou o volume do rádio. . . Por alguns segundos parou para prestar atenção na voz

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suave da cantora que dizia “Lance seus olhos ao oceano, lance sua alma ao mar, quando a noite escura parecer infinita, por favor, lembre-se de mim”. Aquilo lhe fez bem. •

Olha para o velocímetro, diminui a velocidade, aciona a seta e entra a esquerda, atento ao cruzamento perigoso adiante. Do outro lado vem uma caminhonete. Ele para e dá passagem. Espera que uma senhora segurando um cachorro pela coleira e falando animadamente ao celular atravesse na faixa, em frente ao carro. Quando pensa em continuar, pisa no freio e recebe o agradecimento de um rapaz suado, correndo com um boné amarelo e um agasalho branco fechado até o pescoço. Retoma a aceleração e só diminui novamente para entrar na rotatória. Passa duas saídas e entra na terceira em direção ao aeroporto. Aciona a seta novamente prossegue pela faixa da direita diminuindo a velocidade para passar pela guarita com a placa “Identifique-se”. Sem parar abaixa o vidro e cumprimenta o guarda que o reconhece. Com menos trânsito chegou mais rápido. Parece que as madrugadas frias espantam parte das pessoas que preferem dormir um pouco mais. No estacionamento poucos carros. Apenas os de alguns funcionários, um táxi e duas motos. Estacionou na vaga de sempre. Era boa porque ficava entre a parede e um pilar de sustentação do toldo, evitando que outros estacionassem muito perto e algum motorista descuidado batesse a porta com força no seu carro. Caminha até a entrada do hangar e como sempre seu Jonas mascava um chiclete com a cabeça enfiada em algum motor de 21


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avião. Beirando os sessenta anos, magro, calvo e de macacão sempre sujo, o mecânico, além de confiável e sempre presente, era um grande contador de histórias, conselheiro e muito querido por todos. Naquela manhã parecia sério. – Bom dia, Seu Jonas. Já tomou café? – perguntou Ed enquanto caminhava em direção a sala do Moreno para o tradicional briefing coffe do inicio de expediente, quando falavam sobre os voos entre goles de café e piadas de aeroporto. Às vezes seu Jonas participava, mas levando em consideração a resposta, ficou claro que hoje o assunto era mais sério. – Bom dia, Ed. O Moreno está lhe aguardando. Passe na sala dele. Limitou-se a responder sem tirar a cabeça de dentro do motor. Sem ter muito tempo para pensar e, apenas preocupado com o voo - razão do telefonema de Cris logo cedo - Ed caminha até a sala do chefe enquanto tira as berimbelas com três faixas do bolso da camisa e começa a ajeitá-las nos ombros. A porta permanentemente aberta hoje estava fechada. Uma leve batida e a voz grave e modulada de Moreno o convida para entrar. Sentindo que as coisas não iam bem, abre a porta e para com um pé dentro e outro fora da sala. – Bom dia, chefe. O que houve? Algo errado? – Entra meu amigo. Moreno apóia as duas mãos grandes sobre a mesa, levanta-se com certa inquietação e se aproxima de Ed. Olha-o nos olhos, em um misto de ternura e firmeza: – Faz dez minutos que estou sentado naquela maldita cadeira tentando escolher as melhores palavras para dar a notícia, mas cheguei a conclusão de que o melhor é ser direto. Ed não abre a boca. Sente um frio na barriga e o coração batendo com mais força. Continua em pé, agora totalmente dentro da sala e encostado na porta que acaba de fechar.

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– Tentei te ligar, seu celular estava fora de área. – A bateria terminou logo depois que falei com a Cris - responde Ed quase não articulando as palavras de tanta ansiedade. – Me diga, Moreno, o que aconteceu? – Agora a pouco recebi a ligação da Beth dizendo que o Gabriel sofreu um acidente responde de sopetão, enquanto abaixa a cabeça por breves instantes como quem tenta recuperar a confiança, para em seguida, rapidamente a levantar em direção ao amigo sem saber que reação esperar. Ed engole seco e permanece quieto, olhando para o chão, atento as palavras pausadas e firmes do chefe. – Ela tentou falar com você, mas não conseguiu por isso me ligou. Disse que estava com o menino no carro no início da manhã indo visitar o pai dela, quando em um cruzamento, um caminhão acertou o carro. Beth se feriu levemente, mas Gabriel, que estava no banco de trás, se machucou bastante. – Como ele está? - Sussurrou Ed como se tivesse acabado de levar um soco no estômago. – Não sei exatamente. Parece que é serio, mas os médicos ainda precisam de uns exames. A Beth me ligou do hospital, está muito abalada e pediu para te avisar. – O que eu faço? Em que hospital eles estão? – Estão no Hospital Municipal de Saint Richard, há mais de 400 km daqui Moreno estava em pé e colocou as mãos sobre o ombro do amigo: – Ed, pedi para que o Loureiro viesse e ele vai fazer o seu voo. Se achar que está em condições, libero o Azteca para você ir ver o Gabriel. Tem uma pista de pouso perto do hospital. Voando, em pouco mais de uma hora estará lá. Ed sabia que precisava ser forte. Se em algum momento seu filho estivesse precisando dele, seria agora. Tinha que ser frio e ajudá-lo. Definitivamente não era hora de se desesperar. 23


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– Obrigado. Vou fazer a notificação de voo e decolar o mais rapidamente possível. Preciso ir logo ver como estão. Na volta guardo o avião e retorno com meu carro. Moreno permaneceu quieto, apertou o ombro de Ed como sinal de solidariedade. Depois pegou o telefone e pediu para o seu Jonas fazer a inspeção na aeronave. – Vá com calma meu amigo, tenha fé que vai dar tudo certo e se necessitar de algo, conte comigo. Preciso que retorne o avião até o por do sol. Tenho um voo com ele. Fez uma breve pausa e continuou: – Sei que Beth e Gabriel precisam de você agora, por isso vá com o avião, depois a gente resolve o que faz. Ele parece se lembrar de algo abre uma das gavetas da escrivaninha de madeira e pega um aparelho de telefone celular. – Leve esse com você. Não dá para ir com o seu descarregado. Ed levantou o rosto olhando nos olhos de Moreno, cerrou os lábios, pegou o celular. Depois suspirou e concordou brevemente com a cabeça. Sem dizer nada foi fazer a notificação de voo e saiu para encontrar seu filho. •

Primeiro a notícia: alguém está para chegar. Ninguém sabe explicar exatamente quando a história começa, mas a expectativa cheia de alegria é praticamente inevitável a ponto de superar todos os medos de que não dê certo. Não se conhece o sexo, as características, nada. Não há nenhuma informação a não ser a de que alguém virá e provavelmente mudará a sua vida para sempre. Depois, quem não era nada além de uma perspectiva, já pode influenciar fisicamente o mundo, começando pelo corpo da mulher. Antes alguns sintomas emocionais, depois físicos, a barriga cresce, o corpo incha, a disposição muda… Tem alguém lá dentro.

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Um chute! Todos correm para ver a barriga se mexer, quase como a comprovação final de que ali existe um ser humano em formação. Naquela fase as noites são longas, os cuidados extremos e a preocupação em fazer tudo certo viram rotina. Os ultra-sons trazem aos olhos a informação que já ganhava corpo na mente. Embaçadas, sem cor, quase sem formas, mas como evitar a emoção diante das primeiras imagens de alguém que um dia chamarei de filho. – Ouça o coração, diz o médico, enquanto a pequena caixa de som reproduz um barulho ritmado, alucinado, quase frenético; a vida em formação. Chega a hora de vê-lo pela primeira vez. Demora algum tempo para assimilar que aquele bebê nu, inchado, indefeso e completamente dependente, é o mesmo que estava na barriga da mulher. Era quem esperava há tanto tempo, e de repente está em suas mãos, frágil, indefeso e nu. Ninguém percebe quando deixa de ser o bebê chorão e dorminhoco, para virar o menino cheio de histórias, sonhos e “por quês’. Não há nenhuma fronteira ou ponto exato onde ele se transforma de bebê recém chegado, para membro da família e depois, tudo. Sem avisos, acontece rápido demais. Agora, aquele que simplesmente surgiu não se sabe de onde, é a pessoa mais importante de sua vida. O temor de perdê-lo é capaz de estraçalhar emocionalmente. É assim que Ed se sentia quando subiu na asa do pequeno bimotor Azteca, destravou a porta e pulou para o assento esquerdo. Sabia que precisava chegar perto de Gabriel, teria que fazer o voo em segurança. 25


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Já a postos, parou por breve instante, desejando que Moreno tivesse exagerado. Talvez a realidade não fosse tão ameaçadora e, chegando ao hospital, encontraria o filho lúcido e confiante. Se não sabia exatamente o que teria pela frente, precisava acreditar no melhor. Ajeita o fone, aciona a chave de bateria do avião e depois ajusta a frequência do rádio: – Solo é o Charlie Juliet Lima no páteo para acionamento. Enquanto inicia a comunicação com a torre, se esforça para que o profissional se sobrepusesse ao pai ferido e temeroso. Ajeita-se no banco e dá uma rápida lida em um check list de acionamento, conferindo cada item. – Charlie Juliet Lima, livre acionamento e táxi para a pista uno dois, ajuste de altímetro 1015, quando pronto chame a torre em uno, uno, nove decimal uno. – Ciente, Juliet Lima. Naquele instante voltava ser o comandante Ed. Sentando no confortável banco de couro bege, ajustam os manetes da mistura, o passo, confirma se a área do motor está livre e aciona o start. Primeiro o motor esquerdo. As pás giraram algumas vezes até que o ronco alto libera uma rápida fumaça que sai do escapamento. Com a mão direita acelera sensivelmente uma das manetes e logo seguida aciona o segundo motor. Igualmente ao primeiro, as pás giram algumas vezes, depois aumentam a rotação. Mão nos dois manetes, freio liberado e o inicio do táxi até a cabeceira “uno dois”. No fone um chiado e o solo liberando o táxi para outra aeronave que saia do hangar à frente. Tudo dentro da normalidade se não fosse o imenso buraco no coração. Como estaria Gabriel? Até que ponto seus ferimentos eram graves e, ainda que fosse salvo, teria que conviver com possíveis sequelas?

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A intenção em se manter otimista se desvanecia à medida que tudo passava por sua mente. Além da dor, não conseguia disfarçar um enorme ressentimento que lhe conduzia a inevitável questão: que tipo de mundo é esse onde os bons sofrem e os maus progridem? Sempre procurou ser honesto em todos os seus caminhos. Por mais que seu casamento não tenha dado certo, sabe que se esforçou para fazê-la feliz, assim como deu seu melhor na condição de pai. Sentia como se a sua vida fosse semelhante a um castelo de areia construído com esforço a beira do mar. Não importa o quanto exigiu trabalho e o tempo que levou construindo cada detalhe, chega um momento em que uma onda explode sobre tudo. É o fim do castelo, sonho, brincadeira, alegria ou motivo para se orgulhar. Não sobra nada a não ser lama e água. É assim que se sentia. Vira os manches para a direita, depois esquerda e testa os ailerons. Depois para trás e para frente checando os profundores, testas o flaps, magnetos e checa a rotação. – Torre, o Charlie Juliet Lima no ponto de espera pronto para a decolagem. Ajeita o óculos escuro, aguardando a liberação que veio a seguir : – Charlie Juliet Lima, vento uno três zero graus, oito nós, livre decolagem. •

A Lagoa está soterrada, cheia de lama e um amontoado de entulho com restos de construção que atrai pássaros e roedores. Um grande espaço do que um dia foi água límpida hoje é pura lama. Pouco mais adiante, mato e capim se estendiam na enorme área verde e mal cuidada até um terreno com aspecto abandonado. 27


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Quase não havia casas por perto, a não ser as improvisadas residências de trabalhadores da única indústria da região. Eles saiam cedo e deixavam as esposas cuidando das roupas, almoço e crianças que brincavam por todos os lados, correndo, gritando e falando sem parar. Quando algum deles apontava para a luz que vinha do céu, todos corriam e subiam a parte mais alta do terreno. Passavam sobre táboas, pulavam muros e esperavam excitados. Uma das mães aparece na porta de casa e chama a filha, mas ninguém se move até que o farol se aproxime. Aos poucos a luz aumenta e já é possível enxergar as asas e ouvir o barulho cada vez mais perto. Depois, um ronco de motor distante aumenta na mesma proporção em que o avião ganha forma, rompendo aquele pedaço de céu e passando há poucos metros de suas cabeças. Esse era rápido, barulhento e balançava um pouco as asas, provavelmente por causa do vento forte daquela manhã. Meninos e meninas aplaudiam felizes, enquanto a aeronave perdia altura até tocar na pista do aeroporto de Saint Richard, há poucos metros dali. Agora as crianças retornavam as suas brincadeiras enquanto o pequeno Azteca freava e depois dava uma rajada de motor para então liberar a pista na próxima saída à esquerda em direção ao páteo onde dois monomotores estavam estacionados. Ed pisa nos pedais controlando a direção do avião já em terra firme, se curva sensivelmente à frente para recolher os flaps, reduz os manetes de potência até o batente traseiro e desliga o farol de pouso. Taxia e para perto de uma casa de madeira com uma placa amarela e uma enorme letra “C” escrita em preto. Tira o fone, corta os manetes vermelhos de mistura e os motores param de girar. Enquanto ainda escuta o barulho da bateria ligada, coça a barba e procura um bloco de registros.

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Olha no suporte preso no “tapa sol”, remexe no compartimento ao lado de sua perna, depois vira para trás e procura em outro compartimento atrás do banco do co-piloto. Revira tudo até encontrar um caderno preto com a capa dura se desprendendo do miolo. Põe no colo com cuidado, tira a caneta do bolso e faz algumas anotações. Coloca-o sobre o painel, solta o cinto de segurança e se desloca saindo do banco esquerdo, depois passando sobre o direito, observando o rapaz do abastecimento que se aproxima uniformizado, óculos protetores de plástico e grossas luvas. – Bom dia, comandante. Precisa reabastecer? – Bom dia. Não, agora não. Provavelmente vou decolar em algumas horas, tenho um compromisso importante agora. Na volta acertaremos isso. Não conseguia parar de pensar no filho. Mesmo concentrado no voo e atento aos instrumentos, não deixava de se preocupar tentando imaginar como iria encontrá-lo. Como substituir a imagem do menino sorridente e feliz pela que provavelmente encontrará: sedado e machucado, sobre a cama de um hospital? Sentia como se estivesse sendo punido por algo que sequer imaginava o que era, sofrendo as dores de um castigo sem saber a razão. Daria tudo para que suas dores se limitassem as do início da manhã, quando tudo o que doía era à distância de Beth e Gabriel. Mas parece que um abismo chama outro abismo e agora estava lá, caminhando até um táxi que o levaria para perto do filho sabe-se lá em que condição. A última vez que entrou em um hospital foi há muitos anos e as recordações não eram boas. Foi depois de um voo transportando malote durante toda a madrugada, que recebeu a mensagem de que a querida tia Lia pio 29


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rou em sua luta contra a leucemia e provavelmente não passaria daquele domingo. Correu para o hospital e encontrou toda a família reunida, buscando forças e esperando um milagre. A recepção estava cheia. Uns conversavam em pé, outros oravam para que a situação se revertesse. Todos esperavam cheios de angústia. Foi há alguns anos, mas de vez enquando revivia a cena do choro no corredor, especialmente a imagem, seu tio fechando os olhos da esposa sem vida sobre o leito e fazendo uma breve oração de agradecimento por ter sido seu marido e por terem tido um lindo casal de filhos que ainda eram pequenos. Agora, anos depois, voltava para um hospital, cheio de medo. Na saída do aeroporto, calmaria. O Saint Richard ficava próximo a um pequeno bairro operário cortado pela estrada que ia até a cidade. O tráfego de aeronaves era reduzido e o maior movimento ficava por conta do aeroclube com poucos voos de instrução e menos ainda de associados. Aquele que há alguns anos parecia ser o orgulho da região, poderosa ferramenta de captação de empregos, perdeu importância quando outro aeroporto, maior e mais moderno, foi construído a apenas 100 km de distância. Coisas de políticos. Restou o barulho de pequenos aviões em treinamento ou algum outro testando o motor na porta do hangar. Os poucos voos regionais que garantiram certa sobrevida até o ano passado, migraram para o novo aeroporto. Essa condição dava ao saguão um aspecto abandonado e escuro, completamente vazio se não fosse uma incansável senhora com esfregão nas mãos, limpando o que já parecia estar limpo. A última lembrança dos bons tempos estava sobre a porta de saída, com acesso ao estacionamento: uma antiga placa de ferro talhado com uma águia de asas abertas, capacete de aviador e a frase “Pela conquista dos céus”. Abaixo, em letras estilizadas lia-se

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“Aeroporto de Saint Richard” mais abaixo em uma placa menor “Inaugurado em 1974”. Ed olha as placas e segue em direção a saída. Procura um táxi e só encontra o ponto vazio. Caminha sob o sol ficando cada vez mais quente até encontrar – a um quarteirão e meio do aeroporto - outro ponto de táxi, felizmente com um carro. Ed apressa o passo, chega a iniciar uma corrida com medo de o único motorista ir embora, e consegue chegar a tempo. Um senhor negro com barba e bigode brancos percebe sua aproximação e lhe cumprimenta com simpatia. É difícil ser simpático quando está indo ver um filho no hospital, mas Ed faz força para retribuir o cumprimento, combinar a corrida e se acomodar no banco traseiro sem tirar o óculos escuro, torcendo para que o motorista não tente puxar assunto. A viagem segue em silêncio. Enquanto dirigem-se para o acesso da estrada principal, passam por algumas crianças deitadas em um terreno elevado, sorrindo e acenando para a pequena aeronave que se aproxima para o pouso. Pensa em Gabriel. Como se um filme voltasse em sua mente, revive os primeiros passos do filho. Lembra-se de seu pequeno e frágil corpo, magro e rosado, com as perninhas saindo da fralda tentando se agarrar em tudo. Algumas semanas antes pediu a Beth para providenciar proteção nas pontas de mesas e cadeiras para evitar que o filho batesse a cabeça e se machucasse. Engraçado como Gabriel pulou direto da fase do colo para uma em que engatinhava como um macaquinho, com as duas mãos apoiadas no chão e as pernas arqueadas, totalmente diferente da maioria das crianças que normalmente engatinhavam com as mãos e joelhos. 31


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Aos dez meses percebeu que poderia caminhar com as próprias pernas e nunca mais parou. Ainda guarda com detalhes a memória daquele pequeno ser sorridente e com braços estendidos, equilibrando-se sobre duas minúsculas e cambaleantes pernas que lhe impulsionavam sem nenhuma segurança. Braços pequenos e gordinhos estendidos para cima, pedindo colo, sorrindo, quase como se estivesse comemorando a conquista de cada passo em direção ao pai. A chegada acontecia sempre sob aplausos e muita comemoração. Gabriel ficava exultante e, mesmo sem entender a razão, aplaudia desordenadamente, batendo as palminhas de cada mão sem fazer muito som. Depois se agitava, balançava as pernas, pedia para voltar ao chão e recomeçava a proeza. Dificilmente caia, mas quando acontecia, levantava rapidamente e, divertindo-se, continuava. Aquela era a fase das descobertas, onde cada passo literalmente representava uma enorme conquista. Apesar da paixão que alimentava pelo filho, o tempo fez com que se afastasse, transformando Ed em um pai ausente… Ele para alguns segundos. Deixa que a palavra “ausente” retumbe em seu coração quase vazio e produza ecos absolutamente desconfortáveis. Nunca pensou daquela forma. Apesar de seus compromissos profissionais, necessidade de viagens e dias fora de casa, nunca se enxergou como um pai ausente. Por que razão justamente agora esse tipo de acusação veio assolar-lhe a mente? Já não bastassem as dores da separação, agora triplicadas pelo pavor de perder o filho padecendo em um hospital, tinha que ali-

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mentar sentimento de culpa e a sensação de que não esteve por perto o suficiente? Naquele banco de táxi a caminho do hospital, começou a sentir pela primeira vez com maior intensidade que suas tentativas de compensação com brinquedos e passeios não o tornavam um pai presente e, pior, talvez Gabriel sofresse com isso e, se acontecesse algo, nunca teria a chance de se retratar. Fechou os olhos e tentou não pensar em nada. Ficou assim por alguns minutos até perceber que o carro diminuiu a velocidade e ingressou no acesso que desembocava na porta do hospital. Era uma via larga, pavimentada com cimento mais escuro que o normal e cercada por uma linda floresta, cheia de pinheiros onde o sol emoldurava a paisagem iluminando as árvores e o pequeno lago com tom esverdeado que ficava a beira da estrada. À medida que a luz transpassava as folhas, surgia um maravilhoso efeito no ar, como se pequenos raios saíssem de todos os lados e tocassem o chão, a terra, os insetos, o carro e a estrada reta e deserta. O vento agitava as árvores dando a impressão que elas dançavam ao som de alguma música inaudível aos humanos. À direita, pouco mais adiante, uma placa anunciava: “Hospital Municipal de Saint Richard a 100 metros”. O motorista que veio calado até aquele ponto, tamborila os dedos no volante e comenta algo sobre o dia esquentar mais tarde. Ed permanece quieto, apenas concordando com a cabeça. – Que coisa linda esse hospital comenta o taxista distraidamente, enquanto estaciona em frente à porta de entrada e olha para o enorme prédio branco em estilo colonial … tudo muito antigo, cheio de detalhes, todos tão conservados. Observe aquelas janelas com vidros coloridos ! Meu Deus do céu, aquilo deve custar uma fortuna... Percebendo que o silencioso passageiro não está disponível, 33


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o taxista vira para trás com alguma dificuldade, se ajeita no banco, olha em seus olhos e diz com voz firme e pausada: – Deixa eu te falar algo: Nem sempre vemos as coisas como realmente são. Às vezes precisamos passar por caminhos inimagináveis para descobrir do que somos feitos. Fique tranquilo que tudo vai dar certo. Confuso e um pouco atordoado pelo comentário inesperado e aparentemente desconectado de qualquer sentido, Ed esboça um sorriso, abre a carteira, paga a corrida e abre a porta do carro permitindo que o ar quente e abafado fure o bloqueio gelado do ar condicionado. O motorista põe a cabeça para fora da janela do carro e complementa com naturalidade – Li isso hoje em um livro e de repente me deu vontade de compartilhar com alguém. Deve servir para o senhor também né? Dá uma espécie de gargalhada, e logo vai embora. “Dever ser mais um louco”, pensa Ed, enquanto olha para a escada de poucos degraus que termina no antigo e belo prédio com a placa Hospital Municipal de Saint Richard. Ao se aproximar sente as pernas enfraquecerem e o estômago revirar, pensa mais uma vez em como será sua reação ao entrar. Expira com força e caminha em direção a porta automática de vidros azulado. Logo na entrada, à esquerda, um enorme balcão que parecia ser de mármore com duas simpáticas recepcionistas de meia idade, vestidas com casaco azul escuro e cabelos minuciosamente presos. Atrás delas um quadro com horários e algumas anotações, além de dois vasos com flores de plástico, um relógio e uma cruz. À direita o que parecia ser uma recepção vazia com dois sofás escuros e algumas cadeiras viradas para a televisão que transmita um programa de variedades. A decoração do local era simples, mas aconchegante e bela.

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– Bom dia, meu filho está internado aqui. Seu nome é Gabriel Mingot. A atendente sorri educadamente e olha para a tela de um dos dois computadores sobre a mesa. Nunca imaginaria que, depois de sete meses, reencontraria com Beth e Gabriel naquelas condições. Enquanto pensava cogitou inúmeras possibilidades, inclusive a de que se nada tivesse acontecido, se não tivessem se separado, se ainda estivesse por perto, talvez a história fosse outra. Se soubéssemos antecipadamente onde cada ato nos levaria provavelmente faríamos de outro jeito. Por que só enxergamos depois que sentimos as dores da perda? Por que não valorizamos as pessoas, a vida, enquanto está tudo bem? – O quarto do seu filho é o 201, senhor. Vou avisar que vai subir. Ed permanece quieto na recepção enquanto é invadido por um enorme sentimento de culpa. Se não estivesse tão preocupado consigo mesmo, certamente tudo seria diferente. Beth ainda estaria lá e não iria visitar seu pai sozinha e tão longe. Se estivessem juntos, ele dirigiria e, talvez... sim, talvez o maldito acidente não tivesse acontecido. Lembrou-se da dor da separação e dos conselhos do seu Jonas para que entendesse aquilo como algo natural, parte da vida. Faria isso se aquela atitude não tivesse conectada com novos caminhos que, por sua vez criou outras situações, que no fim das contas desembocaria naquele dia, naquele hospital, naquela dor. Olhou para a cruz na parede da recepção. De repente um sentimento de revolta como se pudesse projetar àquela imagem de um homem preso na cruz, toda a responsabilidade por permitir que a vida estivesse sendo tão dura. Como pode um ser que todos chamam onipotente, permitir 35


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que as coisas sejam assim? Enquanto bilhões de pessoas dobram joelhos em igrejas e saem por aí falando que ele é pai, estou aqui perdendo meu filho, a razão, o sentido e a vida. Isso é punição? Lição? Castigo? Seja o que for, é mau e covarde. Quando tudo vai bem dizem “Graças a Deus”, mas e quando as luzes se apagam, a cortina fecha e a gente não enxerga mais nada? Se creditamos a Deus o bônus das alegrias, por que não o ônus das tristezas? Se existe algum sentido na vida, certamente vem de algum sádico que se alegra com o sofrimento de humanos que tateiam no escuro enquanto tentam sobreviver. – O senhor pode subir. Os elevadores ficam no fim do corredor à direita. Ed agradeceu e caminhou quase sem sentir as próprias pernas. Quanto mais perto da realidade, mais dolorido e temeroso se sentia. Era como se todas as outras coisas tivessem perdido o significado. Como se durante anos priorizasse o que valia menos e agora, tarde demais, estivesse perdendo a única coisa que realmente importava. Sabia que não poderia esmorecer. Se restava alguma esperança, tinha que ser forte por Beth e, sobretudo, por Gabriel. A porta do elevador abre, Ed entra e dá de cara com a própria imagem refletida no espelho. Olhos inchados, aparência de menino perdido, ainda vestido com o uniforme de trabalho. Tira as berimbelas do ombro e as coloca no bolso. Olha novamente e tem uma rápida impressão de ver Gabriel em seus olhos. Lembra-se dessa sensação principalmente quando o filho era bebê e constantemente sentia como se alguns gestos e expressões da criança, fossem reproduzidos nele mesmo. Era como se seus olhos e corações estivessem tão conectados

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a ponto de trocarem experiências, permitindo-se as mesmas sensações diante da vida. Como se os dois fossem um e compartilhassem os mesmos sentidos. Parada no primeiro andar. A porta se abre. Um médico com prancheta nas mãos entra e diz bom dia. Silencio. Ed pensa rapidamente em Beth. Como será que ela está? Parece que nessas horas qualquer sentimento hostil desaparece. Se a separação insistia como um assunto permanente, importante, decisivo, agora só pensava em Gabriel. Daqui a pouco teria notícias e, tomara, se acalmaria ao saber que a situação não era tão grave. Pelo menos alguma esperança. O painel digital do elevador indica o segundo andar. Um pequeno sinal sonoro e a porta se abre. Nem sempre é fácil descrever determinadas emoções. Você pode arrumar palavras e organizá-las da melhor maneira possível. Checa a memória na tentativa de resgatar algo que se aproxime do que tenta dizer, mas não encontra. Existem momentos que são únicos e, ainda que façamos o melhor para que os outros entendam, continuaremos como exclusivos portadores daquelas emoções porque elas só podem ser experimentadas, nunca ditas. Por isso seria inútil tentar dizer o que Ed sentiu. Talvez o mais próximo seja dizer que, quando a porta do elevador se abriu, perdeu a fala, os movimentos, e a lógica. O ar saia com dificuldade e as pernas se recusavam caminhar. Tudo em milésimos, mas a impressão era de que permaneceria assim para sempre: sem ação, paralisado pela angústia de estar naquele lugar que poderia ser o último que seu filho de apenas cinco anos e meio veria na vida. Repentinamente é resgatado por uma voz conhecida: – Ed, que bom que está aqui. Beth se aproxima nitidamente cansada, com olhos inchados, cabelos desarrumados e o braço esquerdo enfaixado. 37


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Ela ainda usava a mesma calça de moletom azul marinho com a camiseta verde escrito “Hope” que vestia quando saiu de carro. Também segurava um casaco de criança na mão direita. – Foi tudo tão rápido, agora ela chora e segura no braço de Ed...saí cedo de casa para encontrar meu pai. Ainda estava escuro. Íamos seguir para o sítio e passar o dia lá. Não sei explicar exatamente como foi porque estava parada no trecho de cruzamento que dá acesso a via principal. De repente senti a batida. Era um caminhão pequeno, mas estava veloz. O motorista deve ter dormido, não sei… ela o abraça, soluça e fala com tom mais agudo, como se sentisse tudo de novo – depois nos acertou com força e atingiu o lado onde o Gabriel dormia. Ele bateu a cabeça, já chegou aqui desacordado. Os dois choraram. Duas senhoras bem vestidas, uma na casa dos cinquenta, outra pouco mais de sessenta anos, colocavam moedas na máquina de refrigerante. Percebendo a angústia dos pais, se aproximam e tentam consolá-los, dizendo para se acalmarem que as coisas se ajeitariam. Beth retribui com sorriso cheio de lágrimas, enxuga os olhos e dá um passo atrás. Ed passa as mãos no próprio rosto, desce até o queixo à medida que levanta a cabeça com olhos fechados. Estavam em um corredor comprido, cheio de portas. Em uma das extremidades, um pequeno balcão com uma senhora de idade, negra e gorda, ao lado de algumas cadeiras e uma máquina que trocava moedas por doces, salgados e refrigerantes. Na outra ponta, uma porta dupla de madeira onde deveria ser a sala dos médicos. Como era de se esperar, havia pouco barulho no ambiente limpo e claro. Foi da porta dupla que saiu um jovem de gravata, avental e

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uma prancheta nas mãos. Ele se aproxima e respeitosamente permanece calado esperando que o casal lhe ouça. Os dois percebem a presença do rapaz e olham na expectativa de alguma notícia. – Sou o Dr. Leoto e estou cuidando do Gabriel. Beth fita o chão, e é abraçada pelas senhoras. Ed se apresenta como pai e o médico continua falando em voz baixa e tom didático: – Sr. Ed, seu filho sofreu uma lesão cerebral. Ele deu entrada no hospital hoje pela manhã e chegou aqui em coma. Imediatamente iniciamos uma operação para drenagem do coágulo intracraniano que se formou entre o osso do crânio e a massa encefálica, deslocando levemente o cérebro de posição. Ed ouvia atento e com a cabeça baixa. – A operação continua sob a supervisão da equipe do Dr. Abdala. Quando terminarem será necessário que ele permaneça sedado pelo menos nas próximas 48 horas para então aliviarmos a medicação e analisarmos até que ponto irá reagir. As próximas horas são fundamentais. – Quando poderei vê-lo? Perguntou Ed. – Nesse momento ele está sendo operado e isso levará algumas horas. Cirurgias no cérebro são extremamente delicadas… o médico faz uma pausa, olha para Beth que chora encostada na parede e continua. – Precisaremos de um tempo para liberar a visita, ainda é cedo para vê-lo. Ed não diz nada. Permanece em pé, agora olhando para Beth, sem saber o que fazer para diminuir a dor. O médico apóia uma das mãos no ombro do pai desolado e, antes de retirar-se, pede para que ele tente se acalmar, garantindo que a equipe se esforçará para que tudo ocorra bem. Não há o que dizer. Nessas horas passa um filme de toda a sua vida. Instantanea 39


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mente revê sua infância, suas escolhas, as pessoas que mais importam. Repensa as prioridades, refaz conexões e sente que nada disso vale. Essa é a hora dos pactos e promessas, onde se ora para todos os santos e oferece sua vida a Deus, propondo que, se for o caso, o leve no lugar de seu filho. Você pode ser quem for, ter tudo o que quiser, mas, quando não sabe se seu filho estará vivo amanhã, sente que é o menor homem do mundo e que nada do que conquistou serve para coisa alguma. Começa a questionar até que ponto a vida faz sentido, não vê segurança em lugar algum. Melhor seria não ter nascido. Se não podemos cuidar de quem amamos, melhor que nunca tivéssemos amado ou, quem sabe, nunca existido. Como acreditar em algo ou alimentar qualquer tipo de esperança se sua vida esta indo embora assim, sem mais nem menos, sem chance de lutar? Como suportar a dor de talvez, ter que enterrar seu próprio filho sem a chance de lhe dizer que o ama, faria qualquer coisa para estar em seu lugar, que sente por tudo o que aconteceu. Se a vida lhe rouba o que é mais valioso, o que dirá das pequenas coisas que nos fazem felizes? Quem pode garantir que amanhã encontrará as mesmas pessoas, estará no mesmo lugar, terá os mesmos gostos? Não há razão para felicidade. Discordar disso só pode ser sinal de loucura ou ingenuidade, pensa Ed. “Não sou nenhum dos dois.” Murmura para si mesmo. “Nada vale porque meu Gabriel pode morrer hoje e não há o que aplaque essa dor.” Era assim que Ed se sentia. As duas senhoras continuam por perto, mas agora sentem que o casal precisa de um momento a sós.

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Elas recuam um pouco, acariciam Beth, dizem algo e se voltam para a máquina de refrigerantes. Ed caminha até as cadeiras na pequena recepção e senta com os braços apoiados nas coxas, cabeça baixa e olhos fechados. Tenta se refazer do impacto da notícia agora esforçando-se para não esmorecer, afinal de contas, Beth estava ali e precisava dele. Ela senta ao seu lado. Não dizem nada. Juntos, seguram as mãos um do outro e permanecem em vigília silenciosa pela recuperação do filho. Algumas pessoas passam por eles, uns a trabalho, outros carregando suas próprias dores. Apesar de tudo, a vida continua. Parece que dá para ouvir o sorriso de Gabriel, sua voz doce de criança contando a última brincadeira na escola, pedindo para que não saíssem do quarto a noite enquanto não pegasse no sono. Sua voz, suas histórias, seus desenhos, expressões. A textura de sua pele macia, seu cabelo fininho, seu olhar, movimentos, características tão próprias de sentir, falar e demonstrar amor. Tudo absolutamente tão vivo na memória, tão perto e ao mesmo tempo, agora parece tão distante, tão frágil. Parece que daqui a pouco ele vai sair daquele quarto, de pijama, esfregando os olhos, com cara de sono e cabelos despenteados e depois, como sempre fazia, abraçaria o pai e sentaria no seu colo. – Quero vê-lo. Ed fala baixo. Beth não diz nada. Enxuga os olhos mais uma vez, olha para o lado e depois para frente como se estivesse pensando em algo importante. Em seguida mexe no bolso da pequena jaqueta jeans do filho que só agora é percebida pelo marido. Pega um pedaço de papel dobrado e entrega para Ed que cuidadosamente o abre. 41


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Em metade de uma folha sulfite recortada, um desenho feito por Gabriel. Nele o menino andava em um jardim com árvores e fontes segurando nas mãos do pai. Ele se detém por longos segundos e, ainda olhando para a imagem, pergunta para Beth o que significa. – Ontem à noite fomos dormir cedo para sairmos de casa antes do nascer do sol. Como sempre ajudei o Gabriel a tomar banho e depois fomos até o quarto onde li alguma coisa para ele pegar no sono. Antes de adormecer ele disse que queria te escrever uma carta. Beth para por alguns segundos tentando se recuperar das emoções tão vivas na memória. Logo se recompõe e continua com certa dificuldade ... quando lhe dei o papel e a caneta, ao invés de escrever, ele começou a desenhar. Primeiro fez as árvores, depois a si próprio, depois fez você. Ed escutava calado, pensativo, sem tirar os olhos da folha. – Quando elogiei o desenho, ele disse que essa era a imagem de um sonho. Que vocês estavam em um parque, felizes, depois acordou. Falou com tanta felicidade e fez tanta questão de desenhar para depois te entregar, que dobrei o papel e deixei na jaqueta. Foi aí que Beth desistiu de segurar o choro que agora explodia compulsivamente. – Era para entregar para você, e aqui está. falava em meio a lágrimas. Mas parecia haver mais. Assim que Ed pegou o desenho do filho, Beth retirou da mesma jaqueta um envelope de carta onde estava escrito “De Beth para Ed”. Ela colocou no bolso da camisa do ex-marido e pediu para que lesse depois, com calma, fora dali. Ele permaneceu quieto, somente assentindo com a cabeça. Beth ainda chorava muito e repetia baixinho.

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– Deus, cuida do meu filho, cuida do meu bebezinho. O aeroporto Regional estava a 400 km do hospital. Dentro de um hangar, em uma sala com paredes revestidas de madeira cheias de quadros com fotos de painéis e aviões em voo Moreno pega o telefone sobre sua mesa bagunçada e disca para um número. Enquanto espera, acende um cigarro e mexe em algumas gavetas. Um, dois, três toques e ninguém atende. Aperta os olhos e traga o cigarro com força soltando fumaça em direção ao velho arquivo cinza de lata, logo atrás de sua desgastada cadeira giratória. Resmunga alguma coisa enquanto o telefone continua chamando. Ninguém atende. Solta mais um bafo de fumaça, apaga o cigarro no cinzeiro de lata, sujo, em forma de avião, respira fundo e se levanta em direção à porta. As salas ficavam em um nível mais alto, aproximadamente cinco ou seis metros do chão, permitindo que, ao sair pela porta, fosse possível observar todo o movimento no hangar. Lá dentro algumas aeronaves com motor aberto, outras simplesmente estacionadas. Recostou seu corpo gordo e baixo em um corrimão de escada e permaneceu em silêncio observando por alguns minutos. O vento forte brinca com algumas poucas folhas secas caídas no chão. Nuvens negras se formaram sobre a cidade anunciando a possibilidade de mais um daqueles temporais que ultimamente descarregavam no aproximar do fim da tarde. – Parece que hoje as chuvas virão antes. Fala Cris saindo de sua sala e, como sempre, com um cigarro nas mãos. – O Loureiro já voltou e o Ed deve retornar até o fim da tarde, ela faz uma pausa, traga o cigarro, solta a fumaça lentamente e fecha os olhos por alguns segundos com prazer. Depois da um suspiro e pergunta. – Alguma notícia sobre o Gabriel? 43


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Moreno pega um cigarro solto do bolso da camisa branca, quase amarelada, mas não o acende. Olhando para a enorme quantidade de nuvens cumulus, cinza e, especialmente preocupado com o CB - Cumulus escuros com crescimento vertical, cheios de chuva, ventos e raios que se aproxima rapidamente, responde. – Ainda não – depois, para alguns segundos como se tivesse pensando em algo e olha para Cris que solta fumaça pelo canto da boca. – Tentei ligar para Beth, mas ninguém atende. O Ed já saiu daqui com a bateria do celular descarregada, emprestei o da empresa, mas também não atende. Vamos ter que esperar. – Ele realmente precisa voltar hoje? Fala Cris franzindo a testa e tirando o cigarro da boca por alguns segundos. – O pessoal do banco marcou um voo para o inicio da noite. Pensei em mandar outro avião, mas nenhum tem a configuração adequada para esse voo. Se mandar o Arrow não caberá todo mundo, se for o Lear terão que pousar em outra pista e o preço encarecerá. O Comander está em manutenção. Ele suspira, olha para o cigarro apagado em suas mãos e continua. – Estive pensando em falar com o Bittar e pedir para usarmos o Sêneca dele, mas receio que não estará disponível já que tem voado todas as noites. – Ajudaria bastante. Cris abaixa o tom de voz. – Fico pensando no Ed, coitado… Ter que vir até aqui e depois voltar dirigindo 400 km com a cabeça cheia não é tarefa fácil. – Também pensei nisso. E confesso que até cogitei desmarcar o voo. Mas você sabe, já foi agendado há uma semana e não posso furar com eles. – Claro, sei disso.Tragando até a última bituca, Cris entra na sala de Moreno, joga o cigarro no mesmo cinzeiro em forma de avião, depois volta lentamente olhando para os primeiros pingos de chuva e faz um comentário sobre a possibilidade do aeroporto fechar.

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Moreno somente concorda com a cabeça, mas inicialmente não diz nada. Depois olha para a secretária e desabafa. – Não estou legal. Sabe, o Gabriel, o Ed, tudo isso. É difícil entender certas coisas, não sei como o Ed está suportando. – É chefe, tem coisas que… A frase é interrompida pelo toque do telefone na sala. Moreno atende, ouve um pouco e olha para Cris. – Oh meu amigo! Estamos aqui preocupados, Cris e eu estávamos falando sobre vocês, como está o Gabriel? Do outro lado da linha Ed parece desolado: – Nada bem cara, nada bem. Ele bateu a cabeça e sofreu uma lesão no cérebro. A operação durou a manhã inteira e boa parte da tarde. Só terminou agora a pouco. Moreno interrompe: – Mas e aí, já da pra saber se deu tudo certo? Alguma previsão de alta? Ed faz uma rápida pausa aparentemente recuperando o fôlego e recomeça: – Ainda não. Ele deve permanecer as próximas horas em coma induzido até que os médicos possam avaliar se haverá recuperação. Não sei, ainda não dá pra saber. – E a Beth? – Está sofrendo, claro, mas sinto que tem suportado com mais força do que imaginei que pudesse. Ed, muda para um tom mais próximo, como se estivesse fazendo uma confissão. – Ela tem me ajudado muito, muito… Tem sido mais forte do que eu… Moreno altera para um tom de voz mais firme:– Escuta Ed, acho melhor você não voltar hoje. A Beth não pode ficar sozinha, você não está bem e por aqui a chuva está forte. Darei um jeito de desmarcar o voo…pensarei em alguma coisa... Agora Ed quem interrompe. – O pai da Beth chegou ainda pela manhã e está com ela. Não há o que fazer aqui e preciso passar em casa para pegar algu 45


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mas roupas, documentos, talão de cheque e o carro. Melhor que eu faça tudo isso o mais rápido possível. Se você me autorizar, na volta pretendo ficar por aqui até o Gabriel se recuperar. – Nem precisa me pedir uma coisa dessas! Moreno levanta um pouco o tom de voz, depois suspira ,volta a olhar para Cris que está em pé ao seu lado e continua falando pausadamente. – Cara, imagino a barra que você está vivendo e acima de tudo sou seu amigo. Fique o tempo que precisar e, se preferir, peço ao Loureiro ir aí para buscar o avião amanhã cedo. – Obrigado de verdade, mas não precisa. Prefiro voltar agora conforme planejamos inicialmente. Tenho que pegar minhas coisas e quero retornar ainda nessa noite. Se tudo der certo até o fim da noite estarei aqui novamente. – Faça como achar melhor, você decide… como está o tempo aí? – Algumas nuvens, mas o aeroporto está operando visualmente e não chove. Moreno passa a mão grande, quase desproporcional, na testa calva, estica o pescoço e olha para fora através da porta aberta. – Faz alguns minutos que a chuva começou aqui no aeroporto, mas deve ser como a dos últimos dias, provavelmente terminará logo. - Agora ele procura algo sobre a mesa, tateando ente a bagunça de papéis. – De qualquer forma, o vento está sudoeste e receio que leve as nuvens justamente para os lados de Saint Richard. Venha atento ao rádio. – Fique tranquilo, amigo. Não farei nada que não seja seguro. – Sei disso. Estaremos aqui te esperando e qualquer coisa nos ligue! – Obrigado! – Ed, antes de desligar… Que horas pensa em sair daí? Moreno encontra o isqueiro que procurava sobre a mesa.

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– Estou saindo do hospital agora, devo decolar em meia hora e chegar aí até as seis horas da tarde. – Tudo bem. Força cara, conte com nossas orações, estamos aqui torcendo muito por todos, principalmente pela recuperação do Gabrielzinho. – Obrigado pela força, sei que posso contar com vocês. Moreno ouve mais um pouco, se despede e coloca o telefone no gancho, agora percebendo que seu Jonas também estava na sala aguardando o fim da conversa. Ele e Cris se aproximam da mesa do chefe e Cris, ansiosa, dispara: – E aí, o que ele disse? E o Gabriel? Moreno acende o cigarro que estava apagado nas mãos há alguns minutos, olha para os dois funcionários, dá uma tragada e responde. – Nada bem. Ed disse que ele sofreu uma lesão no cérebro e foi operado a manhã toda, terminaram agora a pouco. Vai ficar em coma induzido até os médicos acharem o momento ideal para um melhor diagnóstico. Cris não diz nada, só esfrega as mãos junto ao peito com preocupação estampada no rosto. Seu Jonas coça sobre a costeleta estilo anos setenta e pergunta: – E o Ed, como está? – Como era de se esperar, nada bem. Fico preocupado porque ele insiste em trazer o avião de volta. Disse que precisa pegar roupas, talão de cheque e uns documentos em casa. – Voltar hoje? Interrompe o mecânico. – Vai deixar Beth sozinha? Pergunta com certa indignação. – O pai da Beth está lá e cuidará da filha até a noite quando Ed deve retornar. – E se o aeroporto fechar? Jonas, irritado, aponta para o céu. – O tempo está feio, o risco de fechar não é pequeno. Fala olhando para o chefe. Cris acende outro cigarro. 47


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– Acredito que será rápido, somente durante a passagem do CB. Moreno se levanta, mas não anda. – Além do mais, ele é experiente e não se arriscará. Se perceber que o tempo está ruim acabará optando por alguma alternativa. Cris parou de esfregar as mãos, mas continua as segurando como se estivesse pronta para rezar. Olha para o chefe em pé diante da mesa e fala em tom reflexivo. – Ainda hoje chegamos aqui como se nada de novo fosse acontecer. Acordamos, viemos trabalhar, nos ocupamos com nossas tarefas pensando que tudo estivesse sob controle - Enquanto ela fala, Moreno e seu Jonas ficam parados, olhando-a fixamente – Aí, sem mais nem menos, um telefonema, uma tragédia… ela para como se fosse chorar, mas segura o impulso, muda o tom e prossegue: … agora aqui estamos nós cheios de aflição, com medo que o Ed volte nessas condições e que algo pior aconteça com o Gabriel. Faz mais uma breve pausa, suspira alto e conclui... – Impressionante como não sabemos de nada. Como somos tolos por acreditar que podemos controlar as coisas. A gente pensa isso, mas aí o vento muda e tudo se perde. Lá fora o barulho de um avião que acaba de pousar. Todos olham para fora: – Não vamos perder a esperança. Se o momento é crítico precisamos ser fortes porque Ed precisa de nós. Seu Jonas põe a mão sobre o ombro do amigo em claro sinal de apoio. Moreno continuou: – Vamos aguardar o retorno dele e depois orar para que tudo ocorra da melhor maneira possível. Depois falou, mais para consolar os amigos do que por acreditar no que dizia: – Tudo vai melhorar. Tenho certeza, ainda vamos comemorar o final. Não por fé, mas por necessidade de aliviar o clima e se sentirem mais leves, todos demonstraram alguma confiança. Seu Jonas tirou as mãos do ombro do chefe, deu dois tapinhas no seu braço e saiu da sala sem dizer nada.

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Cris desapertou as mãos e logo tratou de procurar outro cigarro. Pediu o isqueiro emprestado e perguntou desconfiada, mas precisando da resposta certa: – Chefe, você acha mesmo que tudo acabará bem? – É como você disse, Cris. Amanhã a gente acorda pensando que está tudo bem e um rolo compressor nos esmaga. Sinceramente não sei. Ele para por alguns instantes e os dois ficam em silêncio. Em seguida continua – Da mesma maneira em que o mal vem sem avisar, o bem pode surpreender. Agora olha para o porta retrato com sua foto abraçado em Nancy e Juli, esposa e filha, e usa um tom mais baixo, quase uma confissão: – Cheguei em um ponto de minha vida onde não espero mais que todas as coisas dêem sempre certo. Sei que nem tudo é como gostaríamos e, com toda a sinceridade, me parece que sequer temos consciência clara do que realmente nos faria bem. Cris senta em uma das duas cadeiras em frente a mesa e permanece em silêncio. Moreno continua em pé mexendo em umas maquetes de aviões que estão sobre o arquivo e continua no mesmo tom: – Um dia queremos uma coisa, no dia seguinte mudamos tudo. Já achei que a vida fosse injusta e Deus um sádico, depois pensei que poderia controlar os acontecimentos ao meu redor e hoje, sessenta e três anos depois que nasci… ele traga o cigarro, solta a fumaça e retoma de onde parou …sessenta e três anos depois que nasci estou aqui dizendo que nada sei, que não tenho controle sobre nada e que sequer imagino o que será de nós amanhã. Ele apaga o cigarro ainda pela metade – Só sei que quero muito que as coisas terminem bem. Cris concorda e não diz nada. Permanece sentada mais alguns segundos, com olhar perdido. Depois se levanta. – Vou para minha sala, se precisar de algo me avise. – Obrigado querida. Não vou sair daqui enquanto o Ed não chegar. Pretendo ir com ele até sua casa para ajudá-lo a pegar o que precisa ele para tempo suficiente para pensar um pouco e de 49


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pois diz – Na verdade estou pensando em voltar a noite com ele para Saint Richard. Pode ser bom que eu vá dirigindo, deixando que ele descanse um pouco, o que você acha? A secretária que já estava perto da porta volta-se para Moreno e concorda sinalizando vigorosamente com a cabeça. – Acho que ajudaria. Mas se ele recusar, não insista. Tem horas que precisamos ficar sozinhos, pensando nas coisas, colocando a mente em ordem. – Sim, tem razão, não vou insistir. Mesmo assim vou ligar para a Nancy e prepará-la para a possibilidade de que eu fique alguns dias fora. – Ela entenderia? Foi a maneira que Cris encontrou para perguntar sem tocar diretamente na má fama de ciumenta da esposa de Moreno. – Acho que sim. Ela conhece o Ed e já esteve com o Gabriel em duas ocasiões: naquela festa que fizemos aqui no ano passado e depois, quando ela e a Juli o levaram para o parque de Merlin… Bem, acho que não haverá problemas. Cris dá um sorriso solidário: – Vamos esperar o Ed. – Sim, vamos esperá-lo. •

O som parecia o de um tecido seco sendo rasgado. Vinha do alto, saindo do topo de alguma árvore. Uma coruja anunciando sua presença sobrevoa rapidamente o estacionamento e pousa em uma estrutura de ferro, que deveria ter sido algum antigo outdoor aparentemente abandonado há... algum tempo. Com penas castanho claro e manchas pretas nas costas e parte de trás da cabeça, ela observa Ed saindo da porta do hospital. Ele passa pela porta de vidro azulado e olha para o pássaro com admiração. Desde criança adorava pássaros.

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Na escola todos achavam graça quando a professora perguntava que animais gostariam de ter nascido. “Gato”, “cachorro”, “urso” e até “dinossauros” surgiam entre as respostas, mas Ed era o único a responder “urubu”. Os meninos riam, as meninas faziam caretas de nojo, e ele não entendia nada, afinal de contas, como não admirar um animal com voo tão belo. Recorda de ficar horas deitado no jardim de casa olhando para o céu somente para vê-los planando. Sabia que se alimentavam de carniças e, com certa frequência, os via na estrada sobre algum animal morto. Seu estômago embrulhava, cheirava mal, mas não fazia conexão entre o fato de comerem coisas nojentas e a necessidade de repugná-los. Caso contrário, teria que deixar de se relacionar com muita gente, como o tio Jéferson, por exemplo, que adorava comer churrasco pingando sangue, perna de rã e peixe cru. Qual a diferença? Pensava o menino, concluindo que “pelo menos os animais não raciocinam”. Enquanto uns preferiam bichos peludos com cara de bonecos de pelúcia, ele gostava de pássaros livres que olhavam tudo por cima e podiam planar por muitas horas em grandes altitudes. A coruja abre as asas e retorna em um lindo voo para as árvores que ficavam atrás do hospital. Ed acompanha a ave e, como quem desperta de um breve lapso, retoma o caminho em direção ao ponto de táxi a poucos metros da porta principal. Três motoristas conversam fora dos carros. Dessa vez quem o levará é um sujeito aparentando cinquenta anos, com farto bigode e um boné com a marca de uma casa de material de construção. Para sorte de Ed, a não ser que o passageiro tome a iniciativa, taxistas de ponto de hospital sabem que nem todos estão 51


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disponíveis para conversar sobre política, clima ou futebol e costumam viajar quietos. O trajeto até o aeroporto não durou mais do que dez minutos. Ao descer do táxi Ed olha para o céu. As condições de voo estão boas. Pensa em ligar para Moreno e perguntar como está no Regional, mas desiste ao imaginar que o amigo novamente tentaria convencê-lo a ficar em Saint Richard. Sentia que não tinha escolha. Estava com a roupa de trabalho, precisava pegar suas coisas, documentos, tomar um banho e voltar para acompanhar tudo de perto. Numa hora dessas, não dá para ficar somente com a informação do telefone. Ainda que isso lhe cause transtornos, é preciso fazer o possível para estar perto o quanto antes, olhar nos olhos, medir os ânimos e dividir a dor com quem sabe exatamente o que está sentindo. Não que seus colegas não tivessem consciência de como estava, mas ninguém além de Beth poderia ter exata dimensão daquela dor. E, quando a dor é muito intensa, você tenta desesperadamente dividi-la. Quer encontrar um par que ajude a carregá-la, para, quem sabe, torná-la um pouco mais leve. Apesar da enorme angústia e do profundo sentimento de impotência, foi bom ter visto Beth, segurar suas mãos e mostrar que aquela dor pertencia aos dois. Não importava se tivesse que voar com tempo ruim, depois dirigir a noite toda sem dormir. Estava acostumado a percorrer longas distâncias de carro e de avião. Independente de seu estado emocional sabia separar o suficiente suas angústias de sua profissão. Quando entrava no avião e sentava no assento da esquerda, tudo o que pensava era como desempenhar sua função da melhor maneira.

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Como aconteceu na chegada, o aeroporto continuava vazio. Nada além de algumas pessoas na porta de ferro que dá acesso a uma lanchonete com ventiladores de teto, coxinhas velhas, refrigerantes sem gelo e fotos de aviões por todos os lados. Ele entra no saguão, passa por alguns seguranças conversando com um funcionário da limpeza e os cumprimenta. Tira a carteira do bolso da calça e apresenta a identificação que lhe dará acesso a sala “C” onde as notificações de voo são feitas. Atrás do balcão um homem come um sanduíche parcialmente embrulhado em saco de pão, enquanto ouve no rádio uma música cantada em espanhol. O ambiente está impregnado com cheiro de café. Cumprimenta-o e segue para outro acesso onde mapas protegidos em suportes cobertos com acrílico rodeiam uma mesa com blocos de papel e duas canetas soltas. – Boa tarde, comandante. Temos informações que uma frente fria se aproxima, vindo da região sudoeste. Diz um jovem, atrás de um segundo balcão. Ed continua anotando em um dos blocos. Sem levantar a cabeça responde: – Boa tarde, tive essa informação também. Termina de assinar, se levanta e olha para o jovem magricelo, com óculos de grau elevado. – Sabe me dizer se ela interfere nos corredores? Meu voo será visual. – Negativo. Há mais ou menos meia hora caiu um temporal no aeroporto Regional, mas as aeronaves que estão vindo de lá reportaram condições visuais, apesar do vento que está forte especialmente no través da represa. – O Regional está aberto? – Até agora a pouco estava, mas posso ligar para confirmar. Ele faz um sinal de positivo com a cabeça e aguarda enquanto o rapaz se levanta em direção ao antigo aparelho de telefone cinza, daqueles com discador. 53


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Ed caminha pela sala, olha alguns mapas, mexe em alguns folhetos de prevenção de acidente aéreo e aproveita para ir ao banheiro. – O Regional está operando visualmente, senhor. Diz o rapaz assim que Ed retornou. – E quais as condições? – Chove fraco, mas o CB que causou transtornos já passou. No momento a operação é visual. – Ok, obrigado!. Ele estica a mão para o jovem e lhe dá o papel preenchido. – Vou decolar o mais rápido possível. – Bom voo comandante. – Obrigado! •

Conta-se que há alguns séculos um grupo de colonizadores europeus, depois de passar parte da madrugada e da manhã em trabalhos exploratórios, resolveu descansar sobre uma colina não muito alta. Amarraram os cavalos, armaram tendas, prepararam uma fogueira e fizeram algo para comer. Eram aproximadamente vinte homens cansados e famintos. Acostumados a longas viagens e lugares exóticos, se impressionaram com a beleza daquele céu. Mais do que as mulheres ou a natureza farta e exuberante, registros sugerem que foi o tom forte e diferenciado daquele azul que mais lhes despertou atenção, de modo que desde então a colina passou a ser chamada de “Colina do céu azul”. Séculos depois a colina virou o ponto de referência turística mais conhecida de Saint Richard, já que ali charmosos restaurantes conviviam com lojas de lembranças, dois hotéis e casas de campo de conhecidos empresários. Todos ficavam praticamente na única rua que ligava o alto da colina até a parte baixa e pobre da cidade.

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O movimento mais intenso acontecia nos fins de semana de inverno. As segundas – feiras como aquela, pouco se ouvia sons, a não ser o de algum carro ou do antigo aviãozinho vermelho, que costumava levar turistas para voos panorâmicos. O próprio dono do pequeno avião – que também era dono de um dos hotéis da cidade – se encarregava de pilotá-lo e, naquela segunda - feira, tinha decolado com dois fornecedores para impressioná-los. Ed se aproximava do Azteca enquanto observava-o decolando lentamente e curvando sobre a Colina, agora nublada. Deteve-se por um tempo lembrando que foi em um desses que aprendeu a voar. Pensou rapidamente no instrutor Livingstone, nos amigos de turma, na sensação de descobrir que também podia voar e fazer companhia aos admiráveis urubus. Subiu na asa do avião e, retirando as chaves que estavam em uma pasta azul onde ficavam mapas e papéis, destravou a porta. Levantou o encosto do banco do co-piloto e colocou a pasta atrás. Depois se arrastou por sobre o banco até sentar-se no assento do comandante. Esticou o corpo e fechou a porta do lado direito. Pensou rápida e dolorosamente nas imagens do hospital: a subida, a porta do elevador, Beth abraçando-o e chorando muito, o médico, Gabriel… Como ele estava agora? Enquanto seu pequeno corpo repousava quase sem vida sobre a cama, onde estaria sua consciência, suas memórias, sua alma? Quis pensar se ele teria consciência de alguma coisa, se, enquanto tudo aquilo acontecia, seu espírito estivesse protegido. Por alguns segundos se esforçou para crer que o filho não era somente aquele frágil corpo, que estava bem e tudo daria certo. “Do que será que somos feitos?” Falou baixinho enquanto fechava os olhos tentando fazer uma oração “Deus, se você existe, cuida do meu filho. Se você é bom, tira ele dessa e nos devolva a paz”. 55


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Abriu os olhos se sentindo estranho, por tentar se fazer ouvir por aquele que, se quisesse, teria livrado o Gabriel e lhes poupado de tanto sofrimento. Intimamente reprovou o fato de se direcionar ao provável culpado do que estava acontecendo. Sim, se houvesse um culpado teria de ser o tal do Deus, afinal de contas, quem mais poderia evitar aquela tragédia? Suspirou, abriu os olhos e viu o painel do avião. Tinha que se concentrar. Pegou um papel plastificado que estava guardado na bolsa ao lado de sua perna esquerda, e “cantou” mecanicamente o check list. Depois apertou um botão do painel e ouviu o zumbido constante da bateria. – Solo, boa tarde. Aqui o Charlie, Juliet, Lima no pátio, pronto para acionamento. No hospital Beth está aparentemente mais calma. Sentada no sofá da recepção, não diz nada. Enquanto é abraçada pelo pai, pensa em alguns momentos com Gabriel. Lembra-se de quando ele nasceu e de como esqueceu a dor do parto quando ouviu seu choro pela primeira vez. Revê seu rosto de anjo e pensa no quanto sempre gostou de vê-lo dormindo, em paz, protegido. Sente a textura de sua pele macia, a alegria de abraçá-lo, de estar por perto. Tem vontade de chorar, mas parece que não há mais lágrimas. Se existe algum estoque, certamente já esgotou. Pensa em Ed. Foi bom reencontrá-lo e sentir seu abraço e sua preocupação. Os últimos meses foram muito difíceis com a separação e agora, pior, com o acidente. Tomara que ele volte logo. Que a noite chegue e lhe traga em segurança, juntamente com a notícia de que Gabriel está melhor. Que a dor não seja eterna, que haja paz. Quieta, deita no ombro do pai e adormece.

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Enquanto olha o porta-retrato com a foto da família, Moreno pensa no amigo. Olha mais uma vez para fora. O tempo está nublado, mas não chove e o aeroporto continua aberto. Abre a gaveta, pega um analgésico e toma com água sem gelo. Remexe em uns papéis sobre a mesa e encontra o celular. Ainda sentado, disca para alguém com ar de preocupação: – Oi amor, sou eu. – Oi! Que tom é esse? Algo errado? pergunta Nancy do outro lado da linha. – Sabe o Gabriel filho do Ed que voa aqui para a gente né… ele fala quase afundado na cadeira, ainda com o porta-retrato nas mãos. – Sim, sei. Aquele menino que levamos ao parque outro dia? Pergunta a esposa com naturalidade. – O próprio. Moreno faz uma breve pausa, engole seco e diz – ele sofreu um grave acidente nessa madrugada e está internado em estado critico em Saint Richard. Ela demonstra espanto e continua ouvindo o marido – Ed foi vê-lo com o Azteca e daqui a pouco deve voltar com o avião e pegar algumas coisas em casa. Depois retorna de carro para ficar perto do filho e da ex esposa. – Moreno espera algum comentário, mas não ouve nada. Suspira e diz – Estou pensando em ir com ele. Agora Nancy mal espera que ele termine a frase e se antecipa: – Sim, acho que deve ir. Vá e fique por lá me mantendo informada. Posso fazer alguma coisa? – Sentindo-se aliviado Moreno reponde – Não querida, só ore por nós. Mais tarde eu ligo dando mais notícias. – Que coisa… ela lamenta … sim, sim, vá ajudá-lo. Espero me ligar. – Claro, vou ligar. Por favor, separa algumas roupas para mim e coloque-as na mala. Pretendo ir o quanto antes. – Vou fazer isso agora. – Ok, um beijo, até mais tarde. 57


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Menos um problema, pensa Moreno enquanto desliga o celular e coloca-o no bolso da camisa. – Tudo bem? pergunta Cris em pé na porta. – Tudo bem sim, Cris… ele continua olhando para o porta-retrato … acho que sim. •

O Azteca taxia e para na saída da interseção junto a cabeceira da pista. Com head fone e óculos escuro, Ed faz os últimos preparativos antes da decolagem. Checa os motores, mexe nos manetes, testa os magnetos e ajusta a frequência do rádio: – Torre, o Charlie, Juliet, Lima no ponto de espera, pronto. Três segundos depois a voz suave e ao mesmo tempo firme da controladora dá a liberação – Charlie, Juliet, Lima, livre decolagem, vento dois, uno, zero graus, treze nós. – Ciente: Lima. O ronco do motor aumenta. Além das luzes “strobo” piscando sobre o leme, os faróis acendem enquanto o avião alinha com a pista. Manetes à frente, checando o manifuld para que não ultrapasse vinte e sete polegadas. Agora o ronco é mais alto. A aeronave corre livre e trepida sobre o asfalto do aeroporto de Saint Richard até atingir velocidade. Sobe o nariz, as rodas e o pequeno Azteca ganha os céus. Na cabine, de olhos nos instrumentos, com a mão esquerda segurando o manche, Ed curva-se para acionar a alavanca que recolhe o trem de pouso. A cidade começa a ficar pequena, casas, carros, ruas vão sumindo lá embaixo. – Charlie, Juliet Lima, decolou ao zero dois, chame controle em uno dois uno, decimal sete – é a voz feminina novamente.

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– Obrigado, Lima. O Azteca passa sobre a “colina do céu azul” e faz uma curva a esquerda. Os instrumentos estão na linha verde, indicando que está tudo ok. Ed recolhe os flaps e ajusta a frequência do rádio, chamando o controle e informando suas condições. Sente o avião dançar um pouquinho na camada de ar. O vento está relativamente forte e daqui a pouco vai entrar na parte mais turbulenta. O ronco é intenso e contínuo. Enquanto comanda a aeronave tenta não pensar no seu drama, mas é impossível evitar flashes com imagens do Gabriel e de tudo o que viveu até agora. Faz a primeira redução no passo para vinte e cinco polegadas. Olha pela janela esquerda, vê plantações, o rio Prata e entra em uma nuvem. Elas estão baixas nessa tarde. Sentiu-se solitário. Estava a quatrocentos metros do solo, no meio da camada de ar e, pela primeira vez, sente como se estivesse a milhares de quilômetros de todos. Olha o horizonte artificial do avião para mantê-lo nivelado dentro de mais uma nuvem cinza e com pequenas gotículas de água. Ao som do sempre presente giro dos motores pensa em sua vida. Em um flash revê algumas escolhas feitas ao longo dos anos. Sente-se extremamente culpado. Está atento a seu trabalho, mas não deixa de resgatar em regiões quase adormecidas da memória, desde falas isoladas, até conversas inteiras que teve com o filho. As histórias da noite, as perguntas e as conclusões que lhe espantavam, deixando claro que o bebê estava crescendo e começando a clarear sua percepção em relação à vida. 59


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– Charlie, Juliet, Lima, chame o controle estadual. Frequência uno, uno, nove, decimal zero. A voz objetiva do controlador quebra seus pensamentos por alguns segundos. – Controle boa tarde. O Charlie, Juliet, Lima, no través da represa, mantendo sete mil pés, acionado transponder dois, dois, zero, uno. Fala Ed mecanicamente pelo head fone, enquanto ajusta o passo para vinte e uma polegadas. – Ciente, Juliet Lima mantenha o transponder e confirme suas condições visuais. O controlador parece se preocupar com a possível falta de visibilidade daquele ponto. Ed tira o óculos escuro, pois não há mais necessidade de usá-lo agora. Olha para os lados e sente alguma dificuldade em enxergar mais longe, no entanto a condição não compromete seu voo. – Aproximadamente dois mil metros de visibilidade, permaneço em boas condições para voo visual. Responde com segurança, apesar de sentir que o nevoeiro tende a aumentar. Rapidamente olha um mapa aberto sobre o banco do co-piloto e confirma as distâncias de alguns aeroportos, possíveis alternativas para pouso no caso de perder condições de visibilidade. Apesar de ainda não ser o caso, é bom se certificar. Aproveita para checar os instrumentos de motor e combustível… Combustível! Ele coloca a mão direita na testa e esfrega sobre as sobrancelhas como se tivesse se punindo por ter esquecido de reabastecer. Que falha! Deveria ter reabastecido no pouso, mas estava com pressa. Beth lhe esperava no hospital precisava saber como estava seu filho, a cabeça a mil por hora. Pelo menos tinha saído do Regional com boa quantidade de combustível. Felizmente o que restou era suficiente para voltar. Ficou irritado pelo fato de ter esquecido algo tão básico e importante.

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De qualquer forma, não haveria problemas. Mantém a aeronave estabilizada e fala sozinho pensando no que fará depois do pouso. “Devo chegar antes das seis. Depois pego o carro e em dez minutos chego em casa. Coloco algumas roupas na mala, tomo um rápido banho, pego documentos, talão de cheque, dinheiro e não devo demorar mais do que meia hora. Sem contratempos, em pouco menos de seis horas, estarei de volta ao hospital”. Ele para de falar para si mesmo e muda de expressão. Pensa em Beth. Apesar da bomba de sentimentos que explodiu ao vê-la, sentiu que aquela condição de cumplicidade reavivou algo em seu coração. Até então acreditou que a relação tinha desgastado a tal ponto de não sobrar nada, mas agora não sabe se, por influência do que vivia, questionava até a separação. Beth continuava linda. Era o tipo que não importa se está sem maquiagem ou acabara de acordar, continua elegante e feminina. Como ela estaria agora? Como sairiam dessa? Ninguém tinha a resposta. Era impossível saber. Ele suspira e desvia o pensamento para o voo. Parece que a visibilidade está diminuindo rapidamente. Para voar visualmente é indispensável que tenha referências no solo e, à medida que vai perdendo condição de enxergá-las, começa a pensar se vale pousar em alguma pista da região. O problema é que, se chegar próximo ao Regional e o aeroporto fechar, terá dificuldades em encontrar outro lugar para aterrissagem. Presta atenção nas conversas entre o controle e as outras aeronaves. Talvez alguém que já esteja adiante diga como estão as coisas. Ouve um monomotor se comunicando pouco à frente, sinal de que as condições ainda estão razoáveis. Decide continuar, não estava tão longe. 61


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– Charlie, Juliet, Lima, chame o controle de aproximação em uno, dois, uno, decimal cinco. – Chamará o controle, obrigado, Lima, responde Ed enquanto muda a frequência do rádio. Daqui a pouco estará em casa. “Antes de sair preciso fechar o registro do gás, desligar as tomadas... Vou deixar as chaves com o porteiro, não sei quando voltarei”. Pensa rapidamente. A visibilidade diminui. Enquanto se aproxima do destino, sente que existe uma grande chance do aeroporto estar fechado, sem condições para pousar visualmente. Olha novamente o mapa e percebe que só lhe resta mais uma alternativa de pista por perto. Apesar de ter combustível para chegar, não pode se dar ao luxo de demorar tanto na tentativa de encontrar um bom local para descer. Olha para os lados e quase não vê nada a não ser, nuvens. Embaixo ainda vê a freeway que terminará na cidade. Está a doze minutos para ingressar na zona de tráfego aéreo (ATZ) do Regional. Não compensa tentar a alternativa mais próxima, já que toda a região está com baixa visibilidade. – Controle, é o Charlie, Juliet, Lima”. Ed chama o controlador e pensa em todas as possibilidades, o nevoeiro chegou bem mais rápido do que de costume. – Prossiga, responde a voz fria do outro lado. – Confirme se o aeroporto Regional ainda opera visualmente? A voz demora alguns segundos e depois retorna – Negativo. O aeroporto está fechado, totalmente sem visibilidade. Ed sente um calafrio. O problema é que, sem condições de pousar no Regional, terá que optar por outro destino e, com pouco combustível, corre o risco de não conseguir. O som dos motores é contínuo.

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Ele tenta manter a calma, pensa um pouco e fala no rádio – Controle, diante das más condições do Regional, e pelo fato de estar restrito as condições de voo visual, vou optar em retornar cento e oitenta graus e prosseguir para a pista de Colorado. Mais alguns segundos. O controlador responde: – Ciente, fica a critério do comandante. No entanto as condições de visibilidade para lá também estão prejudicadas, aconselho a manter a proa enquanto tento confirmar alguma alternativa melhor. Ed concorda e permanece voando no sentido do seu destino inicial. Sente que está suando frio e começa a pensar na possibilidade de pousar na freeway. Naquelas condições, sem visibilidade e o combustível diminuindo, não restaria alternativa a não ser tentar o pouso no único lugar em que mantinha algum contato visual: a autoestrada. Está atento na frequência do rádio. Já não ouve mais a voz de nenhum outro piloto voando visualmente na região. Parece que o nevoeiro baixou rápido fazendo com que todos retornassem ao ninho. – Charlie, Juliet, Lima é o controle. Na escuta? Ed não tarda em responder – Positivo, alguma nova informação? – Fiz contato telefônico com algumas torres e a única alternativa viável é na base militar de Lagoa, confirme se tem condições de curvar na proa uno, oito, zero e prosseguir para esta alternativa? Não lhe resta escolha. A pista da base militar é longa e com poucos obstáculos. O problema é a distância, talvez o combustível não dure até lá. Todavia, se não for assim, só lhe restará duas possibilidades: Ou arrisca pousar em algum lugar ali perto com quase nenhuma visibilidade, ou tenta descer na freeway. Nesse caso o risco pode ser maior. A estrada estava cheia e os motoristas também conduziam sob neblina. Uma tentativa de pouso naquelas condições poderia virar uma tragédia. 63


••ÉDEN••

Parece que só lhe resta tentar a base. – Positivo – ele fala no rádio – Vou iniciar curva a direita, proa uno, dois, zero e prosseguir para a base militar. Se possível peço vetoração do controle. Sendo “vetorado” o controlador lhe acompanharia através de um radar, dando lhe as coordenadas para chegar ao destino. – Ciente, curve para uno, dois, zero e permaneça na minha escuta. Ed vira o manche lentamente para a direita e o puxa sensivelmente para trás mantendo a altitude do avião até que o instrumento do painel indique que está na direção correta. Com a indicação, volta o manche para a esquerda e mantém a proa. Sabe que não pode cair na tentação de diminuir sua altitude para tentar enxergar melhor porque aquela região é cheia de montanhas e, voando baixo, poderia perder a noção de onde estava e se chocar. Isso estava fora de possibilidade. Enquanto pensa no que fazer, olha compulsivamente os ponteiros de marcação do combustível que estão cada vez mais baixos. Olha para o GPS, faz algumas contas e não se sente seguro em relação a autonomia. Pensa de novo em pousar no primeiro lugar que visualizar. Apesar de estar completamente sem visibilidade na horizontal, ainda consegue enxergar algumas plantações lá embaixo, na vertical. Na altura em que está, e com aquele intenso nevoeiro, fica praticamente impossível identificar as condições dos terrenos. Se tentar pousar em algum deles e se deparar com cercas, animais ou casas seria péssimo. Resta permanecer atento a possibilidade de encontrar milagrosamente um bom terreno ou, apesar de achar quase impossível, tentar se aproximar ao máximo da base militar. – Charlie, Juliet, Lima, você está a dezesseis minutos da

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base, confirme condições? Pergunta o controlador sentindo que a pequena aeronave está em situação crítica. – Estou sem visibilidade e meu combustível acabando, acho que vou ter de fazer um pouso de emergência por aqui mesmo. Diz Ed procurando freneticamente um espaço para colocar o avião. Tudo o que pensa agora é em salvar-se. O controlador demonstra preocupação: – Confirme? Onde pretende pousar?. – Ainda não sei. Não tenho mais combustível, não conseguirei chegar à base. Antes que recebesse a resposta da torre, ouve o ronco continuo do motor engasgar, enquanto os ponteiros de indicação do motor esquerdo caem. Pane, o combustível acabou! As pás diminuem a rotação e é questão de pouco tempo para que o motor direito também pare. Estava voando sem visibilidade, longe do aeroporto e com apenas um motor. Instantaneamente começa o procedimento de pane, enquanto trata de avisar ao controle suas condições – Controle o Charlie, Juliet, Lima em emergência. Meu combustível terminou e um dos motores acaba de parar. Vou pousar por aqui mesmo. A voz demora alguns instantes como se estivesse pensando em algo melhor a dizer, depois, vencido pela inevitabilidade da situação, responde: – Boa sorte! Em seguida conclui: – Tenho aqui sua posição e já estou providenciando uma equipe de busca para a região. – Obrigado, responde Ed, enquanto o motor direito também para. – Acabo de perder o segundo motor. Com os dois motores parados e voando como um pesado planador, ele abaixa o nariz do avião na tentativa de manter a velocidade de cento e cinco nós, com cuidado, sempre atento a qualquer obstáculo como uma montanha, por exemplo, que pudesse surgir à frente. 65


••ÉDEN••

Se descuidasse da velocidade perderia sustentação. Sem motores e a baixa altitude não teria como recuperar o voo. Por isso a necessidade de estabelecer uma velocidade mínima de segurança. Pensa na ironia. Seu filho em coma no hospital e ele naquela situação. Como acontece sempre quando não há muito que fazer, tenta um pacto com Deus “Por favor, sei que não sou um exemplo de fé e que tenho falado coisas duras, mas me ajuda. A Beth e o Gabriel precisam de mim, por favor, me ajuda…. Reduz os dois manetes para “passo bandeira”. Corta a mistura, desliga magnetos e fecha a seletora de combustível mesmo que estejam vazios. Mantém o trem de pouso e os flaps recolhidos. Só poderá baixá-los quando sentir que tem garantia de pouso. O nevoeiro ainda é espesso, mas agora consegue enxergar melhor o terreno. Quando vê onde está sente outro arrepio. Já ultrapassou a região das fazendas e entrou em mata fechada. Não há muito que fazer. Divide a atenção entre os instrumentos – especialmente a velocidade - e as árvores, cada vez mais perto. O silêncio lá fora é apavorante! As pás dos dois motores estão estáticas. Está caindo. Pensa em Beth, pensa em Gabriel. Em um milésimo de segundo relembra seus melhores momentos com eles. Volta para o banco verde e descascado sob a “árvore da casa do gigante”, a ponte de madeira, o algodão doce, o futebol. Entre as árvores vê um pequeno espaço. Apesar de não ser suficiente para pousar, melhor do que jogar o avião no topo de um arbusto. Outro flash: as madrugadas na janela de casa tomando café, Beth e ele tomando suco de laranja enquanto Gabriel ainda dormia, pensa em tudo, pensa na vida que agora corre um enorme risco.

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E se morresse, para onde iria? Como as coisas iriam ficar? As pás dos motores estão paradas, não há barulho algum a não ser os que ele mesmo produz com sua respiração alta e descompassada, as buzininhas de aviso do painel e os equipamentos do avião respondendo aos toques e mudanças de posição. Suas mãos estavam agitadas, sua mente extremamente atribulada. É agora. O descampado, talvez um campo de futebol, está a poucos metros. Aciona o trem de pouso e ouve com clareza o barulho das rodas descendo: primeiro à direita, depois à esquerda e por último a da frente. Elas descem e travam. Consegue segurar a velocidade em relativa segurança, mas precisa tocar o solo o mais lento que conseguir. Estica o braço direito rapidamente e aciona a alavanca dos flaps. Anula a tendência do nariz do avião subir, empurra o manche e aponta para o inicio da clareira que deveria ter, no máximo, cem metros. O rosto do Gabriel aparece rapidamente em sua memória. Se fosse morrer em instantes, era essa a última imagem que gostaria de ver. Cruza sobre o topo de uma árvore e sente um forte impacto e um barulho amedrontador. Deve ter tocado com alguma parte do avião que ainda parece responder os controles. Uma buzina alta e aguda avisa que está perdendo sustentação. Não consegue mais controlar o avião. Está perto do solo, vê com clareza o mato e as árvores passando rapidamente. Beth, Gabriel, medo, morte, tudo ao mesmo tempo na cabeça. Sente um frio no estômago, a aeronave afunda e toca no solo. Ele tenta se proteger. Dá para perceber que uma das rodas quebrou e agora tudo gira. 67


••ÉDEN••

O barulho é enorme, tontura, pânico. “Meu Deus…” Ele grita sem ter o que fazer. “Não me deixa morrer assim”. O pequeno avião ainda gira sobre o solo e com muito barulho bate em uma árvore. Depois, mais nada. Não sentiu impacto. Não doeu. Tudo ficou escuro. •

Em um sobressalto, assustada, ofegante, Beth desperta do cochilo no ombro do pai. Leva alguns segundos para se lembrar onde está. Talvez tivesse dormido mais do que imaginava, talvez fosse o cansaço aliado ao estresse das últimas horas. Olha para os lados, esfrega as mãos nos olhos e sente como se o coração estivesse para sair pela boca a qualquer momento. – E o Gabriel, alguma notícia? pergunta olhando assustada para o pai. – Não minha filha. Ele ainda está no coma induzido, vai levar algum tempo até que os médicos possam trazê-lo de volta. Descanse, tudo vai ficar bem. Beth deita novamente no ombro do pai, como se estivesse tentado se proteger. Estica o braço esquerdo e abraça-o. – Pai, onde será que meu filho está agora? – É difícil saber, querida. Mas acho que é como se ele estivesse dormindo. Talvez esteja tendo um sonho bom e, quando acordar, estará tudo bem. – Ele passa uma das mãos no cabelo da filha –, Temos que ter confiança, temos que acreditar. Ela suspira e fica quieta por alguns segundos. No ombro do pai, abraçada em seu peito e de olhos fechados, pergunta. – E o Ed? Já voltou? Ainda passando as mãos em seu cabelo, ele comprime os

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lábios e responde para a filha aninhada em seus ombros. – Ainda não querida, mas até o fim da noite voltará. Em silêncio, sem perguntas, ela tenta cochilar. Quem sabe acorde com boas notícias? Talvez tudo não passe de um pesadelo.

Moreno tira o telefone do gancho, espera alguns segundos. Aperta a primeira tecla depois o recoloca no aparelho. – Não vai ligar? Pergunta Cris com um copo de café, encostada no batente da porta aberta da sala. O chefe aparenta nervosismo. Era difícil vê-lo assim. Na verdade, em anos de convívio essa era a primeira vez. – Ainda não. Ele dá um leve soco na mesa e fala como para si mesmo: “Ed deve ligar daqui a pouco. Provavelmente está indo para alguma alternativa.” Depois pigarreia, olha o telefone de novo, passa as mãos no rosto e se volta pra Cris. – Aqui está tudo fechado. Não tem condições de pouso. Certamente o controle o avisou e lhe encaminhou para outra pista. Em situações como a de hoje, às vezes é preciso esperar um pouco lá em cima até que as coisas aqui embaixo melhorem. Cris não esconde os traços de preocupação no rosto, pega o maço de cigarros no bolso, mas dessa vez está vazio. Ela aperta o maço, toma mais um gole de café e continua ouvindo: – Ou Ed está aguardando uma hora melhor ou está para pousar em outro aeroporto e logo nos ligará. Melhor esperarmos mais um pouco. Ele abre a gaveta, remexe por um tempo e estende a mão para Cris com um cigarro entre os dedos. Ela caminha enquanto procura o isqueiro no bolso da calça. Os dois estão quietos. Cris acende o cigarro e traga nervosamente. Moreno se levanta, caminha até a porta, tenta enxergar a pista, mas só vê um denso nevoeiro. 69


••ÉDEN••

– Daqui a pouco ele nos ligará. Seu rosto está cheio de dúvidas. – Sim, ele vai nos ligar. •

Atraídos pelo enorme e incomum estrondo, um grupo de fazendeiros pega suas pick-ups e aceleram em direção a trilha que leva a clareira. Um deles comenta que tem a impressão de ter visto um avião cortando a nevoa rapidamente e seguido sem o barulho dos motores. Enquanto rumam para o local do possível desastre, especulam se há sobreviventes e combinam como devem agir. O acesso aquele ponto não é fácil e só conseguem chegar por conta da experiência de Sanches, um militar aposentado que, depois da morte da mulher, vendeu tudo e passou a dedicar-se a seu pequeno sítio. Acostumado à mata fechada e antigo conhecedor da região, ele conduz o grupo de seis homens em direção aos destroços do avião. Quando chegam, a imagem é pavorosa. Um pequeno avião sem parte de uma das asas e com a estrutura bastante danificada. – Cuidado ao se aproximar! grita Sanches, temendo que o avião explodisse. Eles caminham cuidadosamente, preocupados se haveria sobreviventes. Um deles se aproxima do pequeno Azteca e fica arrepiado com o que vê. – Tem um homem lá dentro - ele grita agitado – Mas acho que não sobreviveu. – Mais alguém? pergunta Sanches se apressando em direção aos destroços. – Provavelmente não. O homem franze a testa e olha para o que restou do interior da aeronave.

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Na clareira, pedaços de fuselagem se misturam com galhos quebrados, papéis, pequenas peças do Azteca... – Tem uma carta aqui! grita um rapaz careca de aproximadamente trinta anos. – Guarde-a. Ordena Sanches. – Temos que entregar tudo para a perícia. O jovem olha rapidamente o envelope intacto. Estava escrito a caneta com letra feminina “De Beth para Ed.” Ele dobra o envelope, coloca-o no bolo e corre para ajudar os amigos que continuam entre os destroços.

De Beth Para Ed “Querido Ed. Sei que faz tempo que não o chamo assim. Hoje, quando cheguei a esse hospital frio, não sabia o que pensar. Depois do acidente, de ver nosso Gabriel sem saber se estava vivo, de toda dor, me senti completamente perdida. Não sabia para onde ir nem o que fazer. Senti como se alguém tivesse roubado meu chão e me jogado em um buraco de dor indizível. Já faz alguns meses que não consigo sorrir e agora eu acho que não vou conseguir nunca mais. Desculpe se as palavras não fazem muito sentido, mas estou sentada, sozinha na recepção do hospital, preciso desesperadamente falar com alguém e a primeira pessoa que me veio a mente foi você. Como eu gostaria que estivesse aqui. Ainda não sei se vou lhe entregar essa carta ou mesmo se, ao recebê-la, você vai querer ler. Não sei o que sente ou se ainda alimenta algo por mim. 71


••ÉDEN••

Para ser sincera nem sei mais quem sou. Há alguns meses eu sabia que, ao voltar para casa, encontraria você e o Gabriel. Se o trabalho estivesse chato e me sentisse cansada, minha recompensa era saber que, apesar de tudo, eu tinha vocês. Eu tinha tudo, e agora estou aqui. Sozinha, sem nada. Tem sido muito duro. Desde que nos separamos decidi que viveria para o Gabriel e que eu faria de tudo para poupá-lo dessa dor. Não era justo deixá-lo sofrer só porque nós fomos infantis. No começo ele chegava em casa chorando e aparecia de madrugada no meu quarto querendo dormir comigo. Sempre quando eu o perguntava o que estava acontecendo, ele dava uma desculpa. Dizia que estava com dor de barriga, reclamava que estava cansado, dizia que discutiu com um coleguinha de escola, mas nunca fala o real motivo. Parecia que tentava me poupar. É claro que eu sabia o motivo e o quanto ele estava sofrendo, mas queria que dissesse, que colocasse para fora, que tocasse no assunto. Não sei se eu teria que ter tomado a iniciativa e hoje me condeno por não saber. Condeno-me por tudo. Pela separação, pelo sofrimento, pelo acidente, por tudo. Estou perdida. Não sei mais quais botões apertar para que a vida faça sentindo e muito menos se amanhã vou querer acordar. Quero dormir dias, anos, não sei. Às vezes peço a Deus para me deixar dormir e só acordar quando tudo estiver terminado. Tem sido muito difícil. Numa dessas noites longas e sem sono, Gabriel me disse que tinha tido um sonho.

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Ele falou para eu descansar e parar de sofrer porque as coisas ficariam bem. Perguntei-lhe porque estava dizendo isso e ele respondeu que sonhou que vocês dois tinham ido viajar. Ele disse que estiveram em lindos lugares, conversaram bastante e conheceram muitas pessoas interessantes. Sabe, pela primeira vez em muito tempo ele parecia estar feliz. Contou que era uma viajem muito especial e que só vocês dois tinham passagem. Falou que era para eu não desanimar nunca, porque vocês dariam um jeito para que as coisas dessem certo. Depois daquele dia, parece que ele ficou mais animado. Estou chorando muito agora. Realmente não sei o que ele quis dizer e no começo me preocupei. Depois fiquei triste porque ele te incluía na solução do problema, como se estivesse esperando que voltasse. Não sei mais nada. Só sei que estou perdida e tudo o que quero é que as coisas voltem ao lugar. Preciso do Gabriel, preciso de você, preciso de paz. Desculpe o tom e, se quiser, desconsidere esta carta, mas eu precisava desabafar e dizer que sinto muito. Que dói tanto. Com amor, Beth.” •

A primeira sensação foi de absoluto acolhimento. Como se fosse um garotinho chorando no meio da madrugada escura batendo na porta do quarto do pai. Ele abre, da um forte abraço e o levanta em seus braços. Depois, foi alegria. Como se na cama quente do pai pudesse entregar-se aos sonhos sem medo. 73


••ÉDEN••

Mal consegue se lembrar da noite difícil, do frio e do terrível pesadelo que disparou o coração. Tudo ficou como uma passageira sensação que foi completamente anulada quando o pai abriu a porta e você entrou. Caminhar entre os quartos pode ter sido difícil, o corredor escuro, assustador. Mas vê-lo na porta com a mão estendida justificou aqueles passos entre os barulhos da noite e o ninho, onde nada de mal pode acontecer. Naquele lugar era difícil identificar o horizonte. Havia divisão entre águas e céu, mas a impressão é que tudo estava interligado: Nuvens, montanhas, pássaros em uma paisagem paradisíaca. Parecia que tudo se tocava. Não existia nada que, de alguma maneira, não influenciasse o todo. Cada onda, brisa, pássaros, animais, além dos cheiros e sensações, pareciam se complementar. Por mais que as cores se parecessem com as que conhecemos, se diferenciavam completamente na intensidade, brilho, e movimentos. Sim, lá tudo se movimentava continuadamente, nada era estático. O mar agitado e a ebulição das ondas limpas e claras, quebrando nas pedras, nervosas e violentas, era um espetáculo a parte. O som das águas era como de uma sinfonia de infinitos tons e variações, onde o maestro, em êxtase, regia continuadamente. O vento era incessante e parecia correr entre as montanhas como sangue nas veias. Às vezes era possível ver animais silvestres livremente ou alguns outros menores, como esquilos ou coelhos que se aproximavam curiosos, depois iam embora. Aquele lugar exalava um cheiro maravilhoso que se parecia com uma mistura de incenso e flores, como se tudo fizesse parte de um ambiente sagrado.

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Havia um profundo sentimento de conexão, como se até o ar quisesse dizer alguma coisa. Ed está sentado no alto de uma pedra. Olha para tudo maravilhado, sem saber ao certo o que está acontecendo. Um verdadeiro e vivo espetáculo natural e desenrolando diante dos seus olhos. Em cada detalhe, um presente aos sentidos. Não estranha o fato de ter esquecido a maneira como chegou ali. A impressão é que dormiu por muito tempo, e acaba de acordar em casa, no ninho. Tudo lhe parecia absolutamente familiar, e sente uma inexplicável alegria. Não sente curiosidade, medo, pressa, dúvidas, saudade… nada. Somente vontade de ficar ali, sendo acariciado pelo vento e presenteado pelo simples fato de fazer parte de tudo aquilo. Intimamente sente que voltou para casa. Voltar para casa. Acolhimento. Em paz. Era assim que se sentia. – Lindo não? Ed se volta rapidamente para trás e vê um homem de meia idade, vestido somente com um pano escuro enrolado em sua cintura como se fosse um short. Como tudo naquele lugar, seus cabelos, lisos e muito escuros, pareciam dançar ao sabor do vento. Sua pele era clara, não tinha barba ou bigode e seus olhos, estranhamente familiares, carregavam vivacidade e ternura. Sem dizer nada e, um pouco atordoado pela aparição repentina, Ed apenas sorri. – É muito bom tê-lo aqui, Ed. o homem aparenta enorme felicidade. – Temos muito para conversar – ele estende a mão direita. – venha, deixe-me te ajudar, precisamos começar a caminhada. Instintivamente Ed aceita a ajuda e se levanta. Olha lentamente para todos os lados e depois para o desconhecido como se estivesse começando a se lembrar de algo. Até agora ele continua quieto. 75


••ÉDEN••

– É possível que daqui a pouco você fique um pouco confuso. Mas não se preocupe, está tudo bem. Enquanto estiver por aqui, caminharemos juntos. O homem passa as mãos sobre os seus ombros, sorri e continua. – Você fez uma longa viagem e tem muitas coisas para ver. Não tenha medo, você está a salvo. O que ele queria dizer? Aos poucos Ed começa a lembrar das coisas, mas estranhamente nenhuma lembrança podia lhe causar dor ou sofrimento, eram apenas lembranças. Por que ele disse “a salvo?” Que risco poderia correr? Sentia como se tivesse dormido a noite inteira, tido muitos sonhos e finalmente acordado. Mas, como o desconhecido advertira, rapidamente começa a ficar confuso. Pela primeira vez pergunta onde está. O homem sorri com ternura – Cada coisa ao seu tempo – ele olha Ed como se pudesse ver todo o seu interior. – É preciso que você esteja aqui e conheça o que vou lhe mostrar. Existem coisas que você não sabe e verdades que precisa aprender. Seus olhos permanecem fechados e, cada revelação, ajudará a lhe trazer de volta para a verdade. Ed se incomoda com aquela história de “verdade”. Ainda parado sobre as pedras ele olha para as ondas muito agitadas e depois para o desconhecido que pacientemente lhe aguarda. – O que quer dizer com verdade? pergunta sem pensar muito. – Ed. Está aqui para obter algumas respostas. Você anda se questionando muito e suas dúvidas tem afetado profundamente a ti mesmo e aos que ama… Ed interrompe como se repentinamente lembrasse – Gabriel, Beth! Agora eu lembro… Como estão? Ele parece se agitar … lembro-me do avião, da queda, depois acordei aqui. Não consigo entender. O desconhecido fecha os olhos e dá um leve sorriso. Parece que está ouvindo alguma coisa. Depois abre o sorriso e os olhos.

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– Não há nada acontecendo desordenadamente. Como pode ver a sua volta, todas as coisas se conectam, e se completam. Ed o encara, mas não fala nada. – Sei que está agitado e cheio de dúvidas. Entendo que necessite de respostas para muitas questões e, acredite, as terá. Mas para isso precisamos caminhar. Há muito para falarmos durante a jornada. – Para onde vamos? – Venha e veja. Posso adiantar que a caminhada é longa e precisamos ir. O homem começa a andar. Concordando com a cabeça Ed segue-o, primeiro caminhando entre as pedras, depois, entrando em um gigantesco jardim. Tudo parece desordenadamente belo. Flores de todas as cores se misturam entre árvores frutíferas. São centenas, talvez milhares de espécies com suas próprias formas e variações, convivendo em um cenário fantástico. O caminho parecia com uma trilha, apesar de estar perfeitamente aplainado. Durante alguns minutos caminharam sem dizer nada até que Ed começou: – Parece que não consigo ordenar os pensamentos. Consigo lembrar da minha vida, mas tenho dificuldade de encaixá-la nesse contexto. O homem balança a cabeça e lhe ouve atentamente. – Lembro do avião e sei que estava caindo. Também me recordo do Gabriel, da Beth e de uma imensa dor, mas é estranho… Ed interrompe a fala por instantes como se tivesse tentando assimilar o que ia dizer. Depois continua … é estranho. Eu sei da dor, mas parece que ela não me afeta. É como se fosse somente uma informação, não uma experiência. – Ed, tudo o que você viveu permanece em sua alma como registro, mas com esse novo corpo nada do que te afetava o faz da mesma maneira. 77


••ÉDEN••

– Que novo corpo? Interrompe Ed olhando para sua barriga, depois esticando rapidamente as mãos e olhando para as extremidades. – Tudo parece como sempre. É meu corpo de sempre. – Não exatamente. Por enquanto você só consegue ver conforme sua mente estava condicionada. – Eu morri? O tom da voz de Ed é baixo e temeroso. O homem sorri, diminui os passos e olha para Ed. – Não. Morte tem a ver com interrupção e desconectividade e aqui, você está ligado a tudo. Olhando a partir desse prisma você nunca esteve mais vivo. – Isso é um jeito bonito para dizer que morri e estou no paraíso? Quase interrompendo a pergunta o homem gargalha divertidamente. – Ed Mingot, as coisas não são assim. Talvez a primeira coisa que deve entender a partir de agora é que tudo está conectado. Não existe morte, depois um paraíso com anjinhos tocando harpa e um deus velho e rabugento sentado no trono com uma prancheta nas mãos pronto para julgar. Ele dá mais uma risada nitidamente se divertindo com a imagem, depois fica mais sério e continua: – Quando você fecha os olhos na Terra, simplesmente acorda. De qualquer forma peço para que não tema, ainda há coisas a serem esclarecidas. – Se acordo ao fechar os olhos na Terra, significa que minha vida lá é uma ilusão? Ed parece incomodado. – Depende. Em parte sim. – Qual parte? – A vida se torna ilusão todas as vezes que você cria um mundo de ilusões. É você quem cria seu mundo. Tudo o que te rodeia tem a ver com suas escolhas. – Pode ser mais claro?

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– Desde cedo vocês são condicionados a acreditar que o mundo é uma máquina que atende a comandos. Vocês se preparam o tempo todo para agir a partir da expectativa de que em tudo há uma relação intrínseca de causa e efeito. Ed encolhe os ombros, quase como se estivesse constatando algo natural. – E não é assim? – Não. Responde seriamente o desconhecido. Ele encara Ed e continua. – Vocês desconsideram a possibilidade do inesperado e, apesar de todas as evidências, ainda se chocam quando descobrem que não tem controle sobre nada. – Mas tem coisas que controlamos. A ciência tem fórmulas e isso é controle. Nossas universidades também fornecem conhecimento e isso é controle. – Vocês erram quando confundem conhecimento com controle. Ed faz uma expressão de que não entendeu. – Conhecer não é controlar. Quando você descobre uma fórmula adquire conhecimento, mas isso não lhe dá controle. Se amanhã qualquer uma das possibilidades de variação se alterar, consequentemente perderá a fórmula. Por isso não devem nutrir sentimento de que descobriram ou criaram algo. O máximo que fazem é descobrir caminhos de acesso ao que já existia. – Acho que sei aonde quer chegar. – Thomas Edson não descobriu a luz, Isaac Newton não descobriu a gravidade e Bethoven não descobriu nenhuma música. Eles somente perceberam caminhos, fórmulas, métodos, para chegar ao que já era. Ele para de falar enquanto um enorme pássaro parecido com um falcão voa baixo entre as árvores e logo se afasta. O homem sorri nitidamente satisfeito e continua – O problema é que vocês não aprenderam a interpretar os sinais. Hoje mesmo, antes de vir para cá, você se deparou com uma série de sinais, mas 79


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mesmo assim não viu. Ele faz uma pausa, sorri e emenda. – Enquanto tentam manter controle sobre o que é essencialmente livre, desperdiçam a oportunidade de despertar através da simplicidade dos detalhes. Ed leva um tempo registrando a informação. Pensa no que ouviu e não consegue deixar de se lembrar do filho e de tudo o que vivera nos últimos meses. Sente que, pelo menos em parte, o desconhecido tinha razão. – Às vezes essa falta de controle me incomoda muito. Fala em tom reflexivo. – O que os faz sofrer, não é a falta de controle. Ninguém precisa de controle para viver bem. Você só sente assim porque na verdade o que lhe falta é confiança. – Você acaba de dizer que não temos controle sobre nada e agora vem me dizer que nosso problema é falta de confiança? Me dê controle e terei confiança. – Aí está o problema, Ed. Vocês só conseguem confiar em algo que possam controlar. Por isso passam a vida tentando adquirir controle sobre o que na verdade não tem. – Mas se a gente viver como se nada pudesse ser controlado e desprezando as leis de causa e efeito, estaremos criando uma enorme confusão. Ed não esconde certa irritação. Depois respira e fala com mais calma. – Nenhuma estrutura resiste a isso. – Por que pensa assim? Agora é o desconhecido quem pergunta. – Porque para que as coisas dêem certo é necessário que haja planejamento. Se acreditarmos que não temos controle sobre nada, por que faremos planos ? – Essa é uma boa pergunta, mas há nela um erro de concepção. Vocês podem realizar planos a partir de bases sólidas ou podem erguê-los sobre o engano. Qualquer plano que desconsidere o fato de não termos controle será erguido sobre o engano. – Ainda não entendi.

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– Vou usar uma linguagem que lhe é familiar. Quando você faz um planejamento de voo, traça as rotas no mapa considerando algumas variações do vento, não é? Ed permanece atento, somente concordando com a cabeça. – Isso quer dizer que, mesmo com todas as direções e velocidades contidas em um plano, se o vento mudar, tudo muda. Você decola com um plano em mente, mas sabe que ele está condicionado a condições atmosféricas que não são fixas. O plano é fixo, mas o tempo não e deve voar pensando nisso. – Isso quer dizer que eu tenho o plano, mas não posso depender dele, é isso? – Exatamente, Ed. Lembra que falávamos sobre confiança? Vocês têm a impressão que um plano lhes dá controle, quando na realidade ele só representa uma das possibilidades. É somente uma perspectiva baseada em condições que, se naquele momento se apresentam de determinada forma, no momento seguinte podem estar completamente diferentes. Em um rápido instante Ed se lembra do quanto sua vida mudou em tão pouco tempo. Sente como se aquelas palavras lhe atingissem como um golpe e diminui os passos. O homem percebe e também desacelera. – Por mais estáveis que as circunstâncias aparentem ser, elas também estão condicionadas a infinitas variáveis, fazendo com que nada seja absolutamente seguro. – É muito difícil viver sem ter o controle das coisas. Diz Ed agora voltando a caminhar com mais velocidade. Isso torna a vida extremamente instável. – E sabe por que é assim? Pergunta o desconhecido. – Não tenho a mínima ideia. – Para que vocês aprendam o valor da confiança como fruto do amor. – Espere! Interrompe Ed novamente. – Primeiro você me diz 81


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que nada está sob nosso controle e que não devemos confiar em nossos planos. Agora me fala que é assim para que aprendamos a confiar. Não lhe parece contraditório? – Se olhar na superfície pode pensar que é. Mas vamos aprofundar só mais um pouco e você mesmo concluirá. Ele faz uma breve pausa e depois prossegue didaticamente: – Geralmente a sensação de segurança está ligada ao sentimento de que estão mantendo o controle sobre algo ou alguém. Vocês acham que, enquanto sentem, conhecem, calculam, medem, tocam, vêem, cuidam, ordenam, planejam e prevêm, tudo dará certo. Quando a fagulha do imponderável entra nessa história, o mundo vira de cabeça para o ar e a primeira coisa que fazem é se desesperar como se o chão tivesse sido retirado. Ele pega uma fruta em uma das árvores, mas não morde. – Você tinha me perguntado sobre a morte. Vou lhe responder: A morte é a grande lembrança de que, apesar dos planos, descobertas, e acumulo de conhecimento, chega a hora em que nada vale e você estará entregue ao desconhecido. Ele morde a fruta e mastiga lentamente. – Por isso que vocês tentam evitá-la a partir da negação, acreditando que, quanto mais poder constituir sobre a vida, mais poderes sobre a morte terão. Sentem assim porque seu chão está pavimentado sobre a lógica do controle. Quando percebem que perderam o controle, perdem o chão. – Tudo muito bonito, mas ninguém consegue sobreviver ao sabor do vento, como se a vida tivesse vontade própria e tudo o que pudéssemos fazer fosse abrir mão da possibilidade de controlá-la e simplesmente aceitar. Ed ainda demonstra alguma irritação. – Isso só lhe parece assim porque ainda confunde conhecimento com controle e controle com poder. Mas a equação é exatamente o contrário. Primeiro você confia, e essa confiança frutificará em conhecimento e segurança. Lembre-se do que eu disse: a confiança só pode ser experimentada como fruto do amor. – Me desculpe, mas pode explicar melhor?

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– Quando você é uma criança, depende dos pais e sabe que eles suprirão suas necessidades. Durante os primeiros anos de sua vida tudo o que tem a fazer é demonstrar o que precisa, e eles lhe atenderão. Isso é confiança. Você pode ouvir seu pai falando sobre dificuldades financeiras, sente que as coisas ficam mais difíceis, mas não receia porque na verdade sua confiança não está nas variáveis, mas no caráter de seu pai. Mais do que isso, a confiança só se estabelece sobre o terreno do amor, sem o qual, nada subsiste. – Quando fala em confiar no pai, está falando sobre Deus? – Exatamente. Ele é a fonte de todo o amor e, longe dele, não há chão. Ed pensa em responder algo, mas depois engole a palavra e fica quieto. Pensa em tudo o que lhe ocorreu nos últimos meses e depois se pergunta se aquilo tem algo a ver com o amor. A separação de um casal que se ama, a dor da distância que culminou no acidente do filho que se encontra entre a vida e a morte. Como se não bastasse, ele sofre um acidente aéreo e agora caminha sem ter certeza se morreu ou está vivo, cheio de dúvidas sobre a que mundo pertence. Ele esboça reagir, pensa em dizer que tudo não passa de dogmas inventados por homens que querem justamente manter o controle sobre as coisas. Tem vontade de acusar a Deus de brincar com as pessoas como se fossem marionetes, lançando-as a própria sorte quando teoricamente poderia evitar a ocorrência de tantos males. Certamente deve ser um sádico que cria leis que estão em constante atrito e permanentemente se autoanulam. – Confiar em Deus? Melhor confiar no meu trabalho e capacidade de realizar do que ficar esperando que um ser barbudo, de roupa branca e coração distante faça algo por mim. Um sentimento de indignação lhe sobe a alma, mas evita explodir de raiva na frente daquele que nem sabe o nome. Prefere mudar de assunto. 83


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– Estamos andando aqui, você parece saber tudo sobre a minha vida, mas ainda não me disse seu nome. – Anjo. Pode me chamar assim. – Você é um anjo? – Digamos que sim. Por enquanto basta me chamar de anjo. Mesmo enquanto fala, anjo parece em permanente contato com tudo o que se move naquele cenário. Ed tenta descontrair, abre um semisorriso e depois pergunta. – Seu nome deve ser cheio de consoantes. Você é russo? O homem sorri divertidamente. Depois recomeça a caminhada e comenta. – Não sou de nenhuma nacionalidade. Aqui não temos nações ou governos. – Ok, anjo. Posso fazer mais uma pergunta? – Quantas quiser. – Para onde exatamente estamos indo? – Ed, não se preocupe com isso agora. Antes de tudo, o destino está embutido no caminho. Ele fala enquanto se detém em mais algumas árvores. – Não ande preocupado com o que vai encontrar adiante, comece a perceber que, mais do que isso, vale o que tem feito agora enquanto anda. Deixe de olhar lá na frente e preste atenção no agora. Veja a variedade de cores e sons que temos aqui e tente absorver o que de melhor cada um lhe dá. Com o tempo, a medida que caminha, naturalmente identificará seu destino. Ed pensa em insistir, mas depois desiste. Os dois avançam e seguem até chegar a um rio maravilhosamente belo e limpo onde era possível ver peixes de muitas espécies. Suas águas corriam livremente e serviam para irrigar o enorme jardim que ia até onde a vista alcançava. – Adoro nadar aqui! Anjo parece feliz. – Você nem imagina as surpresas que essas águas revelam. Em seguida pula dentro do rio. – Venha Ed, você vai gostar. Inicialmente Ed recua. Logo a seguir sorri, pensa que não

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tem nada a perder e se atira nas águas mornas e cristalinas sem mesmo tirar a roupa. A sensação era incrível. Parecia que o rio massageava todo o corpo e lhe abrigava por completo. Dentro dele não existia nenhum tipo de dor ou preocupação. Ainda que Ed tivesse consciência do que sucedera no avião e não deixasse de pensar em Gabriel e Beth, um estranho sentimento de felicidade o envolveu. Era como se estivesse sendo curado de algo que não sabia ao certo o que era, mas que certamente lhe fazia muito bem. De repente anjo interrompe seus pensamentos. – Ed, siga-me. Quero que você conheça um lugar. Em seguida fez um sinal com as mãos e mergulha. Sem pensar muito e começando a se acostumar com possibilidades absurdas, Ed mergulha e vai atrás do anjo. Primeiro, estranha a clareza daquelas águas e a facilidade de enxergar entre elas, depois se assusta por continuar respirando mesmo embaixo d’água. Isso implicava em poder ficar lá dentro o quanto quisesse, explorando cada detalhe daquele fantástico lugar. Enquanto cruzam com dezenas de cardumes das mais variadas espécies, avançam em direção a região mais profunda do rio onde o silêncio era absoluto. Anjo diminui a velocidade e se aproxima de uma grande porta de madeira com aproximadamente dez metros de altura e vinte de diâmetro. Ed se aproxima, repara em cada detalhe esculpido com precisão, aparentemente representando povos antigos com cenas do cotidiano como crianças brincando, além de homens e mulheres trabalhando. Era incrível a riqueza de detalhes como expressões, rugas, cabelos que pareciam de verdade. Também chamava a atenção 85


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que, apesar da enorme quantidade de cenas, nenhuma delas se repetia, dando a impressão de que, quem as fez, quis representar o cotidiano de um povo em todos os seus aspectos. Anjo toca na porta e ela começa a se abrir. •

A luz que saiu pelas frestas da porta iluminou as profundezas do rio. Anjo passou por ela. Ed foi logo atrás. Primeiro começou a ouvir vozes. Parecia ser de uma cidade com gente conversando, gritos de crianças brincando, patas de cavalo… Por conta de um espesso nevoeiro só era possível ouvir os sons, mas rapidamente a nevoa começou a se dissipar e as imagens foram surgindo. Parecia uma cidade europeia do começo do século passado. As ruas de pedregulho, os homens caminhavam elegantemente com seus ternos escuros e chapéus cuidadosamente arrumados. – Que loucura! Sussurrou Ed em espanto contido. Onde estamos? Anjo sorriu – Estamos em Paris, na França. Hoje é 26 de julho de 1931. – Isso é real? – Como você pode vislumbrar, é sim. – Como é possível? Ele não podia acreditar no que via. De repente estava no meio de Paris em um tempo que já deveria ter terminado. Anjo sorri e explica com paciência: – Talvez agora seja difícil para você entender, mas não somos submetidos ao seu entendimento de tempo. Para nós o tempo não existe. Aqui todas as eras coexistem simultaneamente. Ed está visivelmente atordoado. Depois repara nas pessoas que aparentemente não os enxerga.

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– Eles podem nos ver? – Não. Para eles estamos invisíveis, mas isso não muda o fato de que realmente estamos aqui. Diz anjo com naturalidade. Dois homens de barba e chapéu passam ao lado deles conversando seriamente em francês, um deles parece percebê-los, diminui um pouco os passos, mas não para, inclina sensivelmente a cabeça na direção da dupla, mas continua caminhando. Anjo nota que Ed ficou intrigado. – O fato de não nos enxergarem não implica que alguns deles não possam nos sentir. Estamos aqui e, ainda que não apareçamos fisicamente, não deixamos de interferir em suas percepções. – Essa interferência pode influencia-los de algum modo? – Em parte. Nossa interferência se restringe as suas percepções sensoriais já que muitas vezes nos sentem, mas não podemos ir, além disso. – Só pessoas especiais nos sentem? – Não existe um grupo de pessoas privilegiadas que tenham acesso as percepções que a média não tenha. A diferença é que uns percebem e outros não, mas a condição de perceber algo que não se limite a carne e sangue é de todos. Uns são apenas mais sensíveis. – E por que não podemos interferir? – Porque não fazemos parte dessa história e, se podemos nos beneficiar dela é somente como observadores, assim como estamos fazendo agora. Você deve entender que o tempo e o espaço não são limites definitivos. Nós não trabalhamos com essas categorias, muito menos nos contemos nelas. Na verdade tudo acontece ao mesmo tempo, pois de fato só existe um dia. O dia chamado hoje. – Espere! – Ed nitidamente se esforça para entender. – Se eu pensar que tudo acontece ao mesmo tempo vou entender que os acontecimentos se repetem eternamente. Ele para tentando encontrar palavras para elaborar melhor a pergunta – Por exemplo, 87


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se essa cena que estamos vendo já aconteceu, ela só pode estar se repetindo. Se tivermos acesso a ela sempre que quisermos, amanhã estará tudo igual. Aqueles homens estarão parados perto da escada, aquela mulher continuará parada perto do chafariz, aquele senhor continuará limpando a calçada. Anjo interrompe. – Para entender, antes de tudo é necessário que relativize suas referências de tempo. Enquanto pensar se utilizando dos elementos que está acostumado, não conseguirá entender. Ele faz uma pausa para se certificar que Ed está compreendendo. – Seu tempo está condicionado a uma série de elementos físicos como a luz e sua velocidade em relação a ela. Basta um astronauta sair da gravidade em direção ao espaço que terá outra percepção. Para ele o tempo será diferente. – Até aí eu entendo. – Ótimo. Sabendo disso, agora pense o seguinte. O mundo físico só existe como reflexo de cada mundo interior e, quando me refiro a mundo interior, me refiro ao seu espírito. Tudo o que acontece na Terra reproduz em algum nível uma realidade que existe em outra dimensão. – E o que isso tem a ver com o tempo? – O tempo é um meio para organizar em sua percepção humana as suas experiências. Assim como o corpo é uma máquina para que vocês sobrevivam a essa realidade temporal. – Ainda não está claro. – O tempo só existe dentro de vocês. Agora Ed sorri e diz: – Acho que está enganado, depois dos trinta você percebe que ele vive fora também. Anjo também sorri. – O envelhecimento é só uma resposta a essa condição que vocês estão fisicamente submetidos. É como um carro, depois de muito uso, acaba apresentando defeito. Mas definitivamente não significa que seu espírito envelheceu. Anjo continua falando pausadamente – Não estamos submetidos a ma-

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téria ou a física. Para nós, elas não representam barreiras. Aqui o tempo não é somente uma série de etapas irremediáveis mas sobretudo possibilidades. Temos acesso a tudo, inclusive ao que, para vocês, se perdeu no passado. – Possibilidades ao invés do irremediável. Ed repete lentamente, tentando digerir aquilo. – Sim. E como tudo o que acontece aqui se reproduz de alguma maneira em seu tempo, como humanos vocês também podem modificar sua percepção de tempo a partir do momento em que, ao invés de encará-lo como ditador implacável, passam a percebê-lo como possibilidades infinitas. – O que isso significa na prática? – Significa que, apesar de fisicamente estarem condicionados aos limites do tempo e espaço, espiritualmente não estão. É por isso que, apesar de lidarem com a experiência da morte, nutrem uma profunda sensação de eternidade. Esse conflito entre a sensação de eternidade e a constatação da temporalidade, gera o medo de morrer. Pena que nem todos sabem que o tempo é só uma mídia para que as experiências se materializem. Se soubessem, continuariam convivendo com o tempo e seus reflexos, no entanto sua percepção naturalmente se alteraria. Começariam a lidar com seu tempo apenas como uma momentânea limitação física. Seria uma ótima maneira de perceber a vida e consequentemente entender a morte. – Poxa, isso é incrível! Mas confesso que é muita informação para entender claramente. – Não se preocupe. Espiritualmente você sempre soube que é assim. Agora que tem a informação na mente, só reflita em paz no que eu te disse, e deixe que o espírito esclareça. – Vou tentar. Ed muda sua expressão. Parece lembrar-se de algo. – Ainda não entendi por que não podemos interferir na realidade que estamos vendo agora. 89


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– É concedido aos homens e mulheres o direito de escolherem por quais caminhos pretendem seguir. Os sinais estão em tudo, inclusive nos menores e aparentemente mais insignificantes acontecimentos. Portanto, cabe a eles os interpretarem e decidirem por onde ir. Eles não precisam de nós. – Mas olhando por outro ângulo podemos ajudar. Com a possibilidade de olhar mais longe, de conhecer antecipadamente o resultado de cada escolha, é possível dar-lhes uma grande ajuda. Anjo olha para Ed como se fosse uma criança confusa. – Ed, entenda que, independente de qual nível seja, qualquer ajuda que antes não produza consciência faz mal. – Pode me explicar? – No fim das contas, tudo o que vale nessa breve experiência na Terra é o nível de consciência que vocês adquiriram. Eles olham para um casal caminhando apressadamente, quase os atravessando. Anjo continua. – Se a ajuda não produzir crescimento, deixará a pessoa viciada e infantil. Só é possível crescer a partir da experiência, por isso é necessário que vocês experimentem determinados acontecimentos. – A quais acontecimentos se refere? – Para cada ser há uma história e uma experiência a ser vivida. Não existe um roteiro e pré-determinado onde todos devem experimentar da mesma maneira. – Mas a morte é um acontecimento que atinge a todos da mesma maneira. – Se engana em pensar assim, Ed. A morte acontece diferentemente para cada homem e mulher. Por mais que as experiências se repitam, elas são absorvidas de modo completamente diferente por cada ser humano e isso muda tudo. – E o que determina que seja de um modo para ele ... Ed aponta para um senhor de cabelos e barbas brancas apoiado na parede e aparentemente coçando a batata da perna. … ou para ele.

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Mostra um jovem sentado no banco de uma praça, lendo tranquilamente o jornal. Anjo olha para os dois atentamente, depois se volta para Ed e responde: – Imagine dois terrenos absolutamente iguais. Você planta uma semente em cada um deles. É possível que no primeiro cresça uma linda árvore frutífera e no outro, a árvore seja seca e sem frutos. Anjo faz uma pequena pausa – , – O que vai influenciar é a maneira como a terra absorveu os nutrientes que alimentariam a semente e a ajudariam a se desenvolver. Alguns de vocês estão atentos às experiências a ponto de conseguirem conectá-las com todo o contexto de suas vidas. Outros as percebem isoladamente, como se fossem acontecimentos aleatórios e sem sentido. Garanto que os primeiros terão mais chances de aprender. – Acho que isso tem a ver com o que você disse sobre experimentar conviver com o tempo sob a perspectiva do espírito. Anjo parece feliz com a compreensão. – Está aprendendo antes do que eu imaginava Ed, seu espírito está começando a perceber. – Mais ou menos. Não entendo o que quis dizer com conectar experiências com todo o contexto de nossas vidas. Anjo sorri pacientemente enquanto caminha pelas ruas, entre as pessoas que não lhes enxergam. – Tudo o que acontece na vida de vocês é um tipo reprodução do que antes aconteceu no interior de cada um. Ed permanece quieto, ainda tentando entender. – Preste atenção. Os acontecimentos são desprovidos de moral ou mesmo sentido. Eles simplesmente acontecem. O que dá a eles valor é a maneira como repercutem em vocês. Ed arrisca um comentário. – Por isso que para cada pessoa a reação diante de um acontecimento é completamente diferente da outra. – Exatamente. Para você a morte pode significar uma terrível tragédia, para outro um recomeço ou o inevitável fim. Isso vale para todas as coisas. Do trabalho aos relacionamentos, dos praze 91


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res mais simples as ambições mais pretensiosas, dos conflitos coletivos aos pessoais, nada tem significado se antes não fizer sentido para você. – Tudo bem, essa parte eu entendi, mas o que isso quer dizer? – Que seu mundo só existe dentro de você e tudo o que você vê fora, não passa de símbolos que remetem a verdade que se estabeleceu no seu coração. – Então tudo é uma ilusão? – Pelo contrário. Tudo se torna real a partir do momento em que você estabelece que seja. Entenda Ed, é importante que você saiba do que as coisas são feitas. Se começar a olhar para os acontecimentos como meios que relevam o que existe em seu coração, compreenderá exatamente o valor de cada coisa. – Isso é consciência. – Sim, isso é consciência - concorda anjo. É saber exatamente o quanto valem suas escolhas e o que elas representam para você em matéria de crescimento. Quando sua percepção de vida passa a funcionar a partir dessa perspectiva, você naturalmente começa a reavaliar o que te move. Lembra quando falávamos sobre criarmos um mundo de ilusões a partir de expectativas erradas e medos? Ed somente concorda com a cabeça. – É sobre isso que eu estava falando. Quando você vive sem saber onde as coisas acontecem de verdade, passa a acreditar que todas as manifestações simbólicas do que só é real no interior, são verdadeiras. E aí vive em função delas. – Por isso você disse que, dependendo de nossas escolhas, a vida pode se tornar uma ilusão. – Você está percebendo Ed, anjo fala com um sorriso de satisfação. – Seu mundo só é real quando olha para os acontecimentos do dia a dia como reflexos do que antes aconteceu no seu

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interior. É isso que determinará que tipo de significado dará a cada coisa e, em um processo de retroalimentação, como cada coisa afetará sua maneira de perceber a vida. – Tudo comunica. Ed conclui. – Sim, tudo comunica o tempo todo. Sorri anjo com satisfação. – Agora venha, quero que conheça um lugar. A cidade parecia agitada. Gente para todos os lados, indo e vindo, além de grupos que se aglomeravam cheios de expectativas, com sorrisos, gritos de guerra e, aparentemente, muita torcida. Homens elegantemente vestidos com terno e gravata desfilavam empinadamente seus chapéus intocáveis, sempre envoltos por uma espécie de faixa. A maioria das mulheres estavam acompanhadas. Usavam vestidos de algodão ou casimira, alguns possuíam uma espécie de capa, além de cabelos cuidadosamente esculpidos com tranças e curvas e, assim como os homens, chapéus, sendo que os delas eram mais suaves e arredondados. Elas tinham olhar tímido e discreto, eles olhavam com austeridade. Na multidão viam-se algumas senhoras idosas que aparentemente trouxeram as cadeiras de madeira da sala de jantar e sentaram preguiçosamente observando o movimento. Aliás, a maioria das casas que beiravam a rua estavam com portas e janelas abertas em um nítido entra e sai de famílias inteiras que pareciam ter escolhido aquele dia para se reunir. Espalhados pelas ruas grupos bradavam: – Vive la France! com pequenas bandeiras nas cores azul, branco e vermelho empunhadas com entusiasmo. Os que estavam próximo acompanhavam o brado com aplausos e comemorações dando nítida impressão que algum evento importante estava acontecendo. Ed e o anjo caminhavam sem que ninguém os notasse. – É incrível tudo isso! Exulta Ed freando os passos. Estamos 93


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aqui andando em plena Paris no ano de 1931 e tudo está acontecendo diante dos meus olhos. Anjo sorri e fala sem parar de caminhar forçando Ed a acelerar os passos para alcançá-lo. – Tudo é possível Ed, e quando você retira as lentes que muitas vezes limitam sua vida, começa a experimentá-la como de fato ela é: sem barreiras e limitações. Claro, mas a humanidade sempre terá de lidar com as barreiras do tempo e espaço. – Como você sabe? Anjo pergunta em tom provocativo. – Isso é claro. O tempo sempre será um limite, a prova de que a humanidade nunca o superará é que, se fosse assim, receberíamos constantemente a visita de gente do futuro, e sobre isso não há registros. Anjo sorri. – Então me diga uma coisa, não existe registros de homens do futuro, certo? – Certo! – Mas existem registros de objetos voadores não identificados, certo? – Ahã! Ed está curioso para saber onde isso vai dar. – E o que são esses Ufos? – A maioria acredita que são naves extraterrestres que eventualmente nos visitam. – Como sabe que em todos os Ufos existem ETs? – Todos dizem, sei que existem alguns registros. Já vi algumas fotos em sites especializados e em algumas revistas que se dedicam seriamente ao estudo desses casos. Sinceramente vejo sentido – ele muda o tom, como se tivesse argumentando para si mesmo – É mais provável que seja, afinal, seria imbecil pensar que vivemos sozinhos no espaço. – Não estou dizendo que não são ETs. Só estou te propondo cogitar que não seja somente o que dizem. – Lá vem você com seus mistérios.

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Os dois sorriem e anjo continua: – Você pilota aviões. Sabe o quanto a aviação tem evoluído nas últimas décadas. – Sim claro, mas não entendo o que tem a ver com nosso assunto. – Somente me responda. Qual é uma das maiores limitações do avião? – Acredito que a velocidade seja um deles. Precisamos dela para voar e isso implica na necessidade de grandes espaços para pouso e decolagem. – Será que no futuro alguém vai se preocupar com isso e resolver esse problema? – Não vejo empecilhos. Existem algumas aeronaves que podem pousar e decolar como os helicópteros. – Então como exercício, vamos imaginar um avião daqui a 500 anos. – Será algo fantástico, com um incrível desempenho, mobilidade para todos os lados, algo incrível. – Como os Ufos? Anjo encolhe os ombros e dá um sorriso sarcástico. – Uau! Está me dizendo que os Ufos são nossos tataratataranetos nos espiando em modernos aviões? Isso soa loucura! Mas e os ETs ? – Não estou afirmando nada. – ele dá uma piscadela e continua em tom provocativo – E se eles forem o que sobrou dos humanos depois das modificações climáticas que o mundo já está sendo submetido? E se, a exemplo do que acontece com todas as espécies, o homem também tenha se adaptado a outro estilo de vida? E se a vida que vocês procuram a partir de sua noção de tempo e espaço, e não conseguem encontrar, coexista em outra dimensão, com possibilidade de viagens entre elas, rompendo as barreiras do tempo, sem que possam interferir nos acontecimentos sob o risco de influenciar no próprio futuro? 95


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Ed põe as mãos na cabeça e interrompe. – Para, para, para, você vai me deixar maluco com isso. Depois faz uma cara intrigada e continua. – Não sei se você está brincando ou falando sério, mas de repente comecei a pensar sobre relato de Óvnis em acontecimentos históricos e grandes catástrofes. Se o que você estiver dizendo fizer sentido, eles vêm, assistem e depois vão sem interferir. Faz sentido. Anjo olha para Ed sorri e interrompe. – Na realidade isso não faz diferença para a gente agora. Só quis que cogitasse a possibilidade de olhar a vida usando outras categorias. – agora a expressão é mais séria – Mesmo submetidos fisicamente a ação do tempo, espiritualmente vocês podem ser livres. Se não se esquecerem de sua condição de seres espirituais, tudo começará a fazer sentido. – Incrível! Incrível mesmo. Nunca me permiti fugir do que a media convencionou como certo e errado. – O certo e o errado só existem dentro de vocês. São seus olhos que transformam o que é bom, em algo pecaminoso. Isso nem sempre foi assim, mas um dia vocês optaram em serem conhecedores do bem e do mal e, desde então, o mal se instalou como possibilidade interior, que como tudo, encontra sua correspondência a partir do olhar. – Dá para a gente conversar sem que você me deixe confuso? Ed parecia estar se divertindo. – É simples. Vocês não nasceram para experimentar o mal. Ele veio como consequência de uma opção. – Opção de quem? – De todos vocês. Essa escolha ainda é feita sempre que percebem a vida na condição de juízes. – Nunca me coloquei como um juiz. Ed se esquiva, diminuindo o passo. – Sempre que julgar algo ou alguém estará se colocando como juiz e isso tem a ver com escolher ser conhecedor do que é bom ou mal.

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– Pode me explicar melhor? – Essencialmente nada é mau. Na verdade tudo o que existe não passa de um meio, uma mídia para que vocês experimentem a condição de serem humanos. Quem sobrecarrega as coisas com o peso do bem ou do mal, são vocês. – E o que você me diz sobre as crianças que morrem de fome, do mundo sendo devastado, guerras, doenças, síndromes, genocídio, terrorismo… isso é mal e aí não há um simples julgamento moralista. – Não era para ser assim, Ed. Quando vocês escolheram conhecer o bem e o mal, imediatamente experimentaram o gosto da morte, e o mal se instalou no olhar como possibilidade. Isso não tem a ver com castigo ou punição, mas com escolha. – Mas quando isso aconteceu? – O tempo todo. Isso está acontecendo hoje. É uma escolha. Desde que você chegou estamos falando sobre duas realidades que coabitam os humanos: a física e a espiritual. Vocês são espíritos, mas estão exilados em um corpo. – Foi Deus quem nos exilou? – Não. Deus respeitou sua escolha, mas ainda assim deu um jeito para lhes ajudar a sair do exílio. – E que jeito foi esse? – Deixando bilhetes, mensagens em toda a Terra. Vocês podem encontrá-las quando olham para o céu, quando conversam com uma criança, dormindo ou executando as tarefas do dia a dia. Enquanto a maioria espera por estrondos, Deus sussurra na brisa, no cotidiano, no simples. Felizes os que ouvem. – Isso parece maluco. Anjo abraça Ed, enquanto acelera os passos. – Ainda falaremos mais sobre isso, mas antes precisamos ir a um lugar. Eles se aproximam de uma multidão em polvorosa, muitos empunhando bandeiras da França em uma empolgação contagiante. 97


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Famílias inteiras aparentam esperar aquele momento por muito tempo e agora festejavam pelas ruas de Paris o começo da década de trinta. Os grupos eram cada vez maiores e mais empolgados: Um deles, com dez ou doze rapazes, se abraçavam e cantavam em francês: “os frutos da vitória são bem vindos e esperados. Se houve sacrifício está na hora da esperança. Com júbilo não deixemos de cantar, unidos com alegria, “celebraremos nossa recompensa”. O lugar mais agitado era justamente o que aparentava ser uma linha de chegada. Uma cerca de madeira que não ultrapassava um metro de altura tentava conter centenas de pessoas que aguardavam próximo ao local. Em meio a multidão dois padres de batina com seus contidos aplausos, se esforçavam para não transparecer o tamanho da empolgação. Crianças de mãos dadas com os pais tentavam enxergar entre as pernas dos adultos, senhoras elegantes cochichavam entre si, esticando o pescoço, olhando para o fim da rua, fotógrafos com seus antigos e pesados equipamentos ajustavam os últimos detalhes na expectativa de algum registro que lhes valesse alguns trocados. Ali perto uma faixa Tour de France 1931. De repente a empolgação aumenta. No fim da rua surgem crianças correndo e uma aglomeração de gente que, apesar dos obstáculos de proteção, tentam acompanhar um homem sobre a bicicleta. Atrás dele um antigo automóvel com um esquisito suporte a frente do capô e algumas bicicletas presas, onde também era visível uma placa branca escrito com letras escuras A.MAGNE. Houve grande agitação. Aplausos se confundiam com gritos de congratulações. Sobre a bicicleta um jovem claro de olhos grandes e sobrancelhas grossas acena para o povo. Ele usa uma touca estilo aviador, com óculos de proteção.

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Rapidamente, Antonin Magne pedala até a linha de chegada onde lhe aguarda um atento fiscal, centenas de homens de chapéu, dezenas de mulheres e algumas crianças. A empolgação é geral e a festa contagiante. No meio da explosão de alegria surge um homem baixo de fartos bigodes, aparentemente alheio às comemorações e visivelmente a procura de alguém. Ele entra no meio da multidão, olha os grupos, pede licença e se desculpa. Avança em direção a outra extremidade da calçada e recomeça freneticamente a procura, olhando atentamente as pessoas, enfiando a cabeça nas rodas de conversa e fazendo perguntas. Enquanto olha para todos os lados tira o chapéu, mexe no bigode, depois nas sobrancelhas. Em seguida vira para um grupo de senhores e pergunta algo. Um deles, um homem gordo de barbas fartas, aponta em direção à linha de chegada. O homenzinho agradece e sai em carreira, quase derrubando uma senhora que caminhava com dificuldade. No meio de tanta euforia o desespero daquele sujeito chamava a atenção. À distância de onde ele estava até a linha de chegada não ultrapassava os cem metros. Depois de alguns empurrões e novas desculpas ele se aproxima de dois homens com uma criança de, no máximo, quatro anos. Assim que um deles, o mais alto, de nariz longo e levemente curvado, percebe a presença do homenzinho, franze a testa e se antecipa em sua direção. Eles conversam rapidamente. Parecem ter pressa. Antes mesmo de terminar a conversa o mais alto fala algo para o amigo que o acompanhava, pega na mão da criança e sai com o homenzinho que não para de falar. Com esforço conseguem furar o bloqueio de centenas de pessoas cheias de entusiasmo e depois correm pela calçada de pedra 99


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em direção a um antigo casarão branco rodeado por um pequeno e bem cuidado jardim. Diferente das outras casas, não havia o menor sinal de empolgação e a porta estava fechada. Eles atravessam o jardim, abrem a porta e entram. Dentro da casa, o cenário é completamente diferente da comemoração das ruas: Iluminação fraca, mobília luxuosa e duas senhoras de idade sentadas no sofá. Uma delas chora copiosamente, enquanto a outra, mais gorda, segura suas mãos na tentativa de consolá-la. O homem que ainda estava com a criança, as cumprimenta, fala algo rapidamente e sobe correndo pela escada. No meio dos degraus percebe que o menino lhe acompanha. Ele para, olha o menino com firmeza e rispidamente manda que desça e volte para a sala. Sem dizer nada o menino obedece, cabisbaixo, enquanto a senhora mais gorda se levanta e carinhosamente o conduz para o sofá. Certificando-se de que agora subiria sozinho, o homem avança em direção a um corredor com piso impecavelmente encerado e segue até uma das portas. Seus passos firmes e apressados ecoam por todos os cômodos da casa. Dentro do quarto um médico, um senhor idoso e uma mulher deitada na cama. – Ela está partindo, Clement. Diz o médico com voz cansada. – Posso ficar a sós com ela? Pergunta o homem fixando os olhos na mulher sobre a cama que nitidamente se esforça para vê-lo. – Claro, esperarei lá fora. Responde imediatamente o médico que coloca suas mãos sobre as da mulher, esboça um sorriso triste e sai. O senhor de idade ouve o pedido e também se retira a passos lentos, sem olhar para ninguém.

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Clement caminha, se aproxima do leito. Em silêncio segura as mãos de Isabelle. – Estou indo embora meu amor. Ela fala serenamente. – Daqui a pouco será só você e nosso filho. Ela fecha os olhos tentando se conter. – O que vou fazer sem você? O homem chora sem largar as mãos da esposa. – Não haverá mais razão para nada, não sei o que pensar. Ele solta uma das mãos, enxuga as lágrimas, inspira e retoma falando baixo e rápido. – Não sei por que tivemos tão pouco tempo. Lamento que não tenha sido mais. Ela sorri com fraqueza. – Não pense assim meu amor. Para um pouco tentando puxar mais ar, sua voz está nitidamente cansada. Recupera o fôlego e depois continua: – Não importa o tempo curto se dedicamos a ele nosso melhor. Mais um breve silêncio. Clement o interrompe quase sem voz: – Devo me despedir? Ela pisca demoradamente, tosse baixo e, como quem está perdendo rapidamente a força recosta a cabeça no travesseiro: – Até breve seria mais adequado. O homem se esforça para segurar o choro. Não quer que seu último instante com aquela que dedicou seus melhores anos seja de pranto e desespero. Já não bastava a surpresa da descoberta da doença e a velocidade com que Isabelle foi se apagando. A jovem e bela filha do general foi perdendo a luz, se esvaziando de graça, até que não restassem dúvidas de que seus dias estavam contados. 101


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Até aquele momento ele não aceitava a realidade. Para um homem frágil como Clement, que cresceu em um orfanato sem nunca ter conhecido seus pais e sempre se escondeu atrás da imagem de durão, estava sendo uma tarefa quase sobre humana encarar a realidade. Todos sabiam da sua dificuldade em lidar com as emoções. Ninguém se espantava com seu ingrato esforço de fingir que nada estava acontecendo. Durante o tempo que pode tratou da doença da esposa com frieza, tanto que naquele último dia se recusou a esperar o médico preferindo ir ver a chegada do Tour de la France. É claro que se importava. Acontece que nem todos sabem lidar com o que sentem e, quando a dor é forte demais, preferem tentar ignorá-la. – Ela vai ficar bem, não se preocupe. Disse ao sair naquela manhã, enquanto os pais de Isabelle, o médico e a tia Noir chegavam em casa. Mas não dá para fugir na hora em que a dor nos encontra. Pode ser através da boca de um homenzinho de bigode, ela nos abate implacavelmente e nos puxa para a realidade com extrema violência. Quando isso acontece, só resta aceitá-la e deixar que nos puna por nossa indiferença. Foi assim que se sentiu quando Henry, vizinho por muitos anos, lhe encontrou no meio da multidão e o avisou que deveria voltar para casa imediatamente. Naquela hora sentiu que estava tentando se iludir sem olhar para a doença da esposa, mas agora era tarde demais. Clement aperta as mãos de Isabelle e por quase dois minutos ficam em silêncio. Com pouca voz, ela fala: – Quero que entregue essa carta ao nosso filho. Não quero

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que ele me veja morrer, quero que guarde na memória a imagem da mulher disposta que sempre fui. Clement segura a carta e permanece calado. Culpava-se pela dificuldade em se relacionar com o único filho e por nunca ter aprendido lidar com crianças. Tinha pânico em ter que virar referência para qualquer pessoa e depois ser culpado por suas fraquezas. Perder Isabelle estava fora de qualquer perspectiva. A sensação de que viraria um pai solitário lhe apavorava sobremaneira. Clement tinha plena consciência que se aventurasse a criar aquela criança sozinho, estaria lhe fazendo um grande desfavor. – Você vai entregar isso a ele, não vai? Ele concorda com a cabeça e depois diz: – Se quando estiver do outro lado houver possibilidade, peça para virem me buscar. Isabelle se angústia com a resposta, mas tenta manter a calma: – Você precisa viver, Clement. Ainda é jovem, tem muito a construir. – Sei que me faltará força. Ela fala em tom consolador: – Não se… tosse secamente. … Não se preocupe, os próximos dias serão difíceis… tosse novamente … mas depois a força voltará. Ele não diz nada e com o rosto enterrado nas mãos chora muito. A sequência é o silêncio, interrompido pelos soluços de Clement. Ele tem medo de abrir os olhos. As mãos de Isabelle enfraquecem e soltam a sua. Ainda com olhos fechados ele chora compulsivamente. Sua esposa está morta e não há nenhuma ideia de como seguir a vida. Parados no canto do quarto, anjo e Ed observam calados e atentos. 103


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Clement não se move durante um tempo. Depois enxuga os olhos e se afasta obstinadamente do leito da esposa. Sem olhar para o corpo sem vida de Isabelle, se retira do quarto passando entre o médico e o senhor que esperam no corredor. Ele desce a escada sem dizer nada. – Está tudo bem, Clement? Pergunta assustada uma das senhoras sentadas no sofá. O homem não responde. – Para onde vai? Insiste a senhora. Sem dizer nada ele passa por todos, lança um breve olhar sobre o filho assustado e depois se retira. Foi à última vez que o viram. •

– Por que estamos aqui? Pergunta Ed virando-se para anjo. – Por muitas razões. – Pode me dizer alguma? – Não se preocupe. Em nossa caminhada iremos visitar muitas situações em vários tempos. É importante que seja assim. É no caminho que você compreenderá. – Como assim? – Vamos, siga-me – diz anjo sem dar explicações –.Temos que ir agora. Eles passam pelo médico e o senhor que chora sobre o corpo da filha. Descem a escada e observam a senhora gorda levando o menino para a cozinha enquanto a mãe de Isabelle sobe a escada em prantos. Saem pela porta de entrada. Uma rajada de vento brinca com as folhas das árvores. Algumas mulheres seguram os chapéus para que não saiam a esmo voando pelos cantos, enquanto as bandeiras empunhadas por alguns rapazes que ainda comemoram o fim do evento tremulam agitadamente.

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Invisíveis para toda aquela multidão, Ed e o anjo atravessam o jardim de entrada da casa e se aproximam da calçada onde uma folha de papel levanta voo. Ed não percebeu quando a folha, na verdade uma carta, foi jogada por Clement. Ela sobe e foge do alcance da visão. Ninguém nota que o ventou a carregou para bem longe. O vento que chega de repente e vai para onde ninguém sabe, carrega consigo uma história de amor entre mãe e filho. Palavras que mudariam uma vida e preencheriam o vazio que acompanharia a criança para sempre. Quem sabe onde ela irá pousar? Ninguém viu quando aquele papel simplesmente desapareceu no ar. Todos estavam demasiadamente preocupados com seus afazeres, embalados pela empolgação do momento, cuidando de suas próprias vidas, atentos apenas ao que lhes dizia respeito. Ainda sob impacto por tudo o que acabou de presenciar, Ed não percebeu um discreto sorriso do anjo quando a folha de papel desapareceu no ar. Se visse teria notado que havia certo ar de satisfação, como quem soubesse de algo mais. Ele sabia onde ela iria pousar. Ed observa-o por mais alguns segundos e depois se apressa em sua direção. – Sei que agora as coisas não fazem sentido para você, Ed, mas confie em mim. Logo tudo se encaixará. Eles caminham pelas ruas ainda cheias enquanto o barulho da comemoração diminui, até ficar distante e sumir. Na mesma proporção em que tudo fica em silêncio, o mesmo nevoeiro de quando chegaram retorna trazendo densidade e silêncio para o cenário que se desvanecia. Ed não sabe para onde está indo, mas em silêncio segue o anjo. Não consegue deixar de pensar em tudo que viu. Pensa em Clement, Isabelle e na criança. – O que houve com eles depois do que vimos? – Depois da morte de Isabelle, Clement não conseguiu voltar para a vida que tinha. 105


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– O que ele fez? – Para ele a vida só fazia sentido se fosse na mesma configuração de sempre, se continuasse tendo a velha sensação de controle. A voz de anjo é abafada no meio daquele nevoeiro. – Sem a esposa, ele não sabia ser pai. Sem ela não quis continuar e simplesmente saiu da cidade sem nunca mais voltar, deixando o filho para ser criado pela tia. – Aquela senhora gorda no sofá? – Exatamente. O problema é que o menino nunca aceitou a morte da mãe e a partida do pai. – Que história triste. Lamenta Ed. – Histórias tristes acontecem todos os dias. O que diferencia uma das outras é a maneira como as pessoas reagem a cada uma delas. – Isso tem algo com o que você disse sobre o bem e o mal estarem no olhar? – Sim, Ed, você está entendendo. São as pessoas que dão ou tiram significado das coisas. Até mesmo em uma tragédia como a que acabamos de presenciar, há dádivas. – Desculpe-me. Por mais que as pessoas possam dar significado à dor, não consigo ver nenhuma possibilidade de dádiva em uma história onde a mulher morre, o marido foge e o filho fica órfão. Diz Ed em tom contestador. – Ed… anjo faz uma pausa para que ele preste atenção: … a dádiva não está no que aconteceu, mas no que fazemos com o que houve. Há uma enorme diferença. – Pode me explicar? – Como eu já lhe disse, não era para que as coisas fossem assim. Tudo mudou quando vocês escolheram o direito de serem juízes. – O conhecimento do bem e do mal. – Sim, não se conhece o bem ou o mal sem que se experimente um pouco de cada. Só há conhecimento com experiência.

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– Prossiga. – Por mais difícil que seja vivenciar histórias como a que vimos tudo acontece para que se cumpra em vocês o direito de escolher. A dádiva, não está na dor, mas na possibilidade de transformá-la em algo bom. – O que pode se extrair de bom em uma tragédia dessas? – Ed, preste atenção: Em tudo, seja no que chamam de tragédia ou de benção, sempre existe o bem e o mal como potencial. É assim com qualquer acontecimento porque é assim dentro de vocês. Vocês carregam essa condição contraditória à vida inteira. Tudo o que acontece fora, reflete uma condição interior, do coração. Ele diminui os passos e olha para Ed. – Lembra-se que eu lhe disse que tudo está conectado? Vale para tudo. Se existe ambiguidade entre o bem e o mal, alegria e dor, esperança e tragédia lá fora, nos acontecimentos da vida, é porque tudo isso encontra correspondência no interior de vocês. É por isso que, independente do que aconteça, as coisas só se preenchem de sentido quando vocês os dão. Encontrar dádiva na dor é antes de tudo encontrar razão dentro de si mesmo e naturalmente conectá-la a experiência vivida. – Acho que estou entendendo. O sentido dos acontecimentos é dado por nós e isso tem a ver com a maneira que encontramos correspondência entre o fato e aquilo está dentro da gente. – Sim, isso mesmo. É por terem escolhido o conhecimento do bem e do mal, que vocês adicionam julgamento no olhar, transformando acontecimentos em tragédias ou dádivas. Ao julgar, naturalmente determinam o que aquilo significa para vocês e, a partir de então, terão que conviver com a escolha que fizeram. – Clement fez a dele. – Foi o que ele quis. A morte de Isabelle não continha nenhum ingrediente moral, punitivo, instrutivo ou abençoador. Ela simplesmente morreu, acontece com os corpos finitos. O signifi 107


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cado da morte dela e as implicações que disso derivaram foram escolhas de Clement a partir da maneira que a situação ecoou no seu interior. – Acho que estou entendendo. Ed acompanha os passos lentos de anjo. Mas ainda assim sinto dificuldades em olhar para uma história como essa sem pensar que eles estejam pagando por alguma falha ou talvez sendo ensinados ou provados por Deus. – Enquanto sua opção for pelo conhecimento do bem e do mal, seu olhar estará carregado de juízo e será impossível perceber qualquer acontecimento, quanto mais àqueles que geram dor, sem que seja através das categorias ligadas a mérito ou punição. Infelizmente é assim que a maioria pensa. Anjo abaixa o tom de voz e segura levemente o braço de Ed: – Ouça, Ed, acontecimentos são apenas acontecimentos. Vocês quem os transformam conforme seus próprios julgamentos. – Ouvindo você falar assim, me sinto inseguro. Parece que as coisas acontecem aleatoriamente e não podemos fazer nada para evitá-las. – Você pode evitar um acidente sendo prudente, uma doença se exercitando e se alimentando corretamente, provavelmente sua vida será mais longa se você se cuidar. No entanto, ninguém está livre de ser atingido pelo imprevisto. Aleatoriedade é só um jeito de nomear o que vocês não entendem. Não existe aleatoriedade nos significados porque cabe a vocês encontrá-los. – Uau! Pelo que você está dizendo, não importa o que acontece, mas sim como reajo diante das coisas… antes que Ed termine, anjo interrompe: – ….exatamente. Tudo o que acontece ao longo de sua vida já aconteceu na vida de bilhões de pessoas ao longo da história e ainda acontecerá com outros bilhões. Nada é novo, tudo já se repetiu de alguma forma e ainda se repetirá muitas vezes. Cada uma reagiu de uma maneira específica e, naturalmente, deu um significado próprio aquilo…

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– Mas... Agora Ed interrompeu. – ...de que valem as experiências se não há significado específico, se os acontecimentos são aleatórios e cada um dá o significado que quiser ? – Eu não disse que vocês dão o significado que quiserem, disse que dão o significado que podem, conforme o que habita seus corações. Entenda Ed, quando algo acontece e mexe com a cabeça de vocês, a reação imediata é que busquem significado naquilo. Essa é a natureza de vocês. Anjo faz uma breve pausa para valorizar a frase, depois recomeça. – Se você pensar conforme as categorias ligadas a moral, punição ou recompensa, é assim que verá. Se entender que, por mais difícil que seja, é possível transformar a dor em bem, assim será. Não existe significado próprio para as coisas a não ser aquele que lhe aguçará a possibilidade de enxergar além. Pode ser o nascimento de um filho ou a morte de quem se ama. O significado não é próprio, mas especifico, porque são dados por vocês. Em tudo há apenas um potencial para despertar sua capacidade de transformação. – Preciso de um tempo para digerir isso. Ed fala para si próprio “Me incomoda muito pensar que estamos expostos a acontecimentos quase aleatórios. Ele respira alto e olha para anjo : – Se estamos vulneráveis, temos toda razão em nos sentirmos inseguros. Faz todo sentido. – Só faz sentido por que sua segurança está baseada em uma estrutura criada a partir de crenças morais. Essas crenças tentam premiar os bons e punir os maus conforme seus próprios critérios. No fim, acabam por transformar acontecimentos em prêmios ou castigos. Vocês podem crer nisso até que algo ruim aconteça. O dia em que a fatalidade os encontra, tudo o que acreditavam volta como acusação e vocês entram em parafuso. Ed franze a testa como se estivesse lembrando algo, depois comenta: – Sei exatamente do que está falando, só não sei como caminhar em segurança se não houver onde nos apegarmos. 109


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– Vocês erram quando transferem para o exterior o que de fato acontece no interior. Lembre-se: a aparente aleatoriedade dos acontecimentos não se aplica nas escolhas que vocês fazem a partir de cada experiência, seja ela boa ou má. É assim na sua experiência pessoal, da mesma maneira na experiência coletiva de toda a humanidade. Vocês estão vivendo no mundo que criaram e lidando com suas próprias consequências. É no coração que nascem todas as possibilidades e o que acontece lá fora só reflete isso. – Fico tonto só de pensar que a responsabilidade é nossa. Anjo olha fixamente em seus olhos por alguns segundos antes de falar: – Liberdade produz vertigem. O problema é que, ao tentar se proteger dentro de suas cômodas estruturas que propõe segurança, vocês acabam se aprisionando e se acostumando com isso. Olhar a vida sob a perspectiva da liberdade pode gerar muito medo. – E o que devemos fazer? Ed parece incomodado. – Comece cuidando do que tem alimentado sua mente e seu coração. Isso é fundamental para determinar como as coisas impactarão em seu interior. Comece a olhar para dentro e perceber que tipo de dinâmicas interiores surgem quando tenta lidar com as dificuldades. Repare que o que lhes destrói quando o dia mau chega não é o acontecimento, mas o que nasce no seu coração. – Você está dizendo que o bem e o mal são ilusões criadas por nós? – Não. O bem e o mal existem, mas ao contrário do que pensam, não estão nos acontecimentos, mas dentro de vocês. Isso faz com que, através do olhar e da maneira como percebem as coisas, qualquer um possa transformar qualquer acontecimento no que quiser. – Isso explica muitas coisas. Diz Ed em tom de constatação. – Esse poder de transformar acontecimentos em bem ou mal trouxe consequências naturais como, por exemplo, a possibilidade de experimentar o mal como realidade.

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– Lamento que tenhamos escolhido deter algo tão sério. Se eu soubesse disso optaria em abrir mão desse poder. O poder veio como fruto do conhecimento. Atraídos pela possibilidade de se parecerem com Deus, vocês escolheram esse caminho. – E eu que pensava que o homem só queria ser Deus quando manipulava alguma experiência genética. – Não, Ed. Quando vocês decidiram serem conhecedores do bem e do mal, esse poder se instalou em seu olhar. – E quando escolhemos que fosse assim? – Hoje. Todos os dias, nas suas escolhas, seus passos, sobretudo seu olhar. Deter esse poder ou abrir mão dele é uma escolha diária e conectada com seu olhar em relação à vida. Depois disso trocaram mais algumas poucas palavras e seguiram pelo caminho em silêncio. Ed pensava em tudo. Tentava entender o que tinha acontecido com sua vida. Pensava em Gabriel e Beth com um sentimento estranho, como quem tinha consciência de tudo o que ocorreu, mas estranhamente não dimensionava a seriedade dos fatos. Seu filho estava à beira da morte, sua esposa sozinha e, quem sabe, lidando agora com a morte do ex-marido, mas isso parecia não importar tanto. Pelo menos não como achava que deveria se importar. Por alguns instantes começou a se sentir culpado por não estar sofrendo, mas de repente, pensou no que o anjo acabara de lhe dizer e a sensação foi de que tudo se encaminharia, e que não seria sua preocupação que ajeitaria as coisas. Será que estava morto? Anjo não deixou claro. Morto ou não, descobriu que a vida ia além do seu mundo - casa, trabalho, sofrimento- e que havia uma realidade que, apesar de não estar descrita em lugar algum, era de fato a maior realidade de todas. As 111


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descrições de paraísos com ruas de ouro e anjinhos tocando harpa sempre lhe incomodaram. Também não gostava de pensar que na morte enfrentaria os mesmos problemas que tinha em vida, como hospitais, depressões e falta de aceitação. Não sabia explicar porque naquele lugar o sentimento de acolhimento e conectividade eram tão intensos, mas estava claro o quanto tudo lhe fazia bem. Apesar da lembrança do que ocorreu antes que chegasse naquele lugar, estava em paz. Enquanto caminham seus pensamentos são interrompidos pela visão de algo escuro mais adiante. O forte nevoeiro não possibilitava identificar o que era, mas parecia ser um buraco ou algo semelhante. – Vamos, precisamos voltar pela porta. Diz anjo enquanto se aproxima do objeto. Sim, a porta! Pensou Ed, se lembrando de como tinham mergulhado no rio e encontrado aquela misteriosa porta. – Temos que passar pelo jardim. Comenta anjo agora diante da porta. Ela ainda era imponente, mas parece que não tinha mais as imagens esculpidas que tanto lhe chamou a atenção quando chegaram. Aparentemente foi substituída por outra com madeira nova e lisa. Portava duas enormes maçanetas que pareciam ser de ouro. – Como a água não invade quando você abre a porta? pergunta Ed. – Quando chegamos a água não entrou porque ela não fazia parte dessa realidade. Limita-se o anjo na curta resposta. Depois conclui – Mas agora não voltaremos pelo rio. Antes que Ed pudesse perguntar algo, anjo abre a enorme porta e olha para o outro lado. Um enorme jardim, diferente daquele primeiro. Esse era aberto, não tinha árvores grandes a não ser algumas

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mudas. As flores começavam a desabrochar e havia uma grama verde e bem cuidada. Parecia um jardim recém plantado onde tudo florescia. – Vamos, precisamos caminhar. Disse anjo enquanto passava pela porta. Ed veio logo atrás e se espantou com a maneira como o nevoeiro simplesmente desapareceu. Agora ele sentia o calor do sol e uma leve brisa. Que lugar! Pensou, enquanto fechou os olhos para ouvir o som dos pássaros com mais atenção. Eles voavam para todos os lados e brincavam sobre as cabeças de Ed e anjo. Pouco mais à frente, aproximadamente trezentos metros, filhotes de leões brincavam animadamente, arranhando e mordendo uns aos outros. A sensação de paz irradiava para todos os lados. A direita de onde estavam viu um gigantesco canteiro com mudas de todas as espécies de flores. Era impressionante a riqueza do local. As partes do solo que não tinham grama eram revestidas por uma fina areia, muito clara. Foi sentindo o calor e a suavidade nos pés que percebeu que estava descalço. Ao caminhar sobre a areia, Ed teve vontade de correr. Olhou para anjo que pareceu entender sua intenção e recebeu um sorriso permissivo. Como uma criança Ed disparou pelo gigantesco jardim, pulando sobre mudas e desviando de pequenas árvores que começavam a nascer. Experimentava uma incrível sensação de liberdade. Corria sem pensar no ridículo, sem tempo para parar ou muito menos com o que se preocupar. Enquanto pode, correu. De vez enquando se abaixava e pegava um punhado de areia. 113


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Depois apertava e se divertia ao vê-la escorrendo entre seus dedos. Olhou para os leõezinhos que brincavam e correu em direção a eles sem medo. Quando perceberam a presença do estranho, os filhotes levantaram o rosto e correram em sua direção. Anjo posicionou-se do lado e se divertia com a imagem daquele homem de barba, brincando com os filhotes como se fosse uma criança. Parece que fazia muitos anos que Ed não se permitia ser criança e agora estava colocando tudo para fora. Ele mexia nas orelhas dos pequenos leões, depois acariciava suas costas, mexia nas patas, sem o menor sinal de preocupação, era como se, no lugar de filhotes de leão, Ed enxergasse pacatos gatinhos. A brincadeira durou algum tempo. Depois Ed se levantou e andou mais um pouco pelo jardim colhendo pequenos galhos e observado atentamente a vegetação que florescia. Anjo permaneceu próximo o tempo todo e às vezes mexia em algumas plantas também. Quando cansou de brincar Ed se deitou no jardim. Anjo deitou-se ao seu lado. Os dois permaneceram quietos durante algum tempo enquanto contemplavam o céu com um azul tão brilhante que não se assemelhava em nada na Terra. É difícil precisar se o silêncio durou alguns minutos ou algumas horas. Naquele lugar o tempo era percebido de outra forma. Ed tinha muito que pensar. As coisas que anjo havia lhe dito mudavam toda a sua estrutura de pensamento, principalmente em relação ao que lhe machucou tanto pouco antes de chegar naquele enorme e misterioso jardim.

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Depois do que viu e aprendeu, pensava em Beth, Gabriel e tudo o que tinha lhe acontecido a partir de outra perspectiva. Repentinamente se deteve nos dois: Beth e Gabriel. Como eles estavam? O que tinha acontecido a eles? – Algo te incomoda, Ed? Anjo pergunta como se já soubesse o que lhe passava em mente. – Estou pensando em minha família, gostaria que as coisas tivessem tomado outro rumo. – Que rumo gostaria que fosse ? Ed não responde imediatamente. Parece que leva um tempo para pensar no que vai dizer. – Gostaria que nada de ruim tivesse acontecido. Ele faz mais uma pequena pausa e recomeça – Viver longe de Beth me fez muito mal e o acidente de Gabriel me destruiu. – Ed, não foi o acidente nem a separação. Você quem se destruiu a partir do que aconteceu. – Sim, agora sei disso. Aliás, se soubesse antes nada disso teria acontecido. Anjo não diz nada, somente olha para Ed que parece absorto em pensamentos. Está deitado na grama verde e nova com olhos fixos no céu de um azul indescritível. – O que está se passando exatamente no seu coração Ed? – Estou tentando entender porque eu e Beth nos separamos. – Quer falar sobre isso? Ed acompanha com os olhos alguns pássaros que passam ali perto. – Quando nos casamos, achei que fosse para sempre. Desde que a conheci, Beth se apoderou do meu coração, mente e melhores sonhos. Ele fecha os olhos. Sem dizer nada, uma espécie de filme passa em sua mente. Anjo também fecha os olhos e vê o que se passa. – Deixe sua mente viajar, Ed. Fique tranquilo que lhe acompanharei. 115


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Eles estão no terraço de um prédio. Parece um hotel, há uma grande piscina, pessoas se divertindo, som de música garçons empunhando bandejas com sucos e cocktails. A cidade grande acontece lá embaixo enquanto Ed e Beth parecem felizes sentados em uma cadeira de praia. Estão mais jovens, ele sem barba e ela ainda com cabelos curtos. Enquanto permanecem deitados de óculos escuros e mãos dadas, cochicham e sorriem constantemente. Dois adolescentes correm por perto e pulam na água, bem próximo ao casal. A água respinga para todos os lados e os deixa ensopados. Ed se levanta com intenção se repreendê-los, mas Beth dispara a sorrir. Ele para, olha para os meninos que aparentemente nem percebem o que fizeram, depois olha para Beth e também começa a sorrir. Já que estão molhados resolvem pular na piscina. Ficam por longos minutos. É um dia ensolarado, quente e abafado. Para quem olha o casal brincando e se abraçando na piscina fica a sensação de que aquela harmonia durará para sempre. Eles nadam, mergulham e sorriem bastante, estão felizes que as coisas deram certo. Quem diria que aqueles dois desconhecidos da aula de piano estariam casados em tão pouco tempo? Parece que mais uma vez os caminhos do coração surpreenderam e os levou para aquele lugar desconhecido onde de repente mudam as prioridades, planos e sonhos. O casamento muda a vida inteira. Depois saem da água, se enxugam e voltam para a cadeira. Ed chama um garçom e pede dois sucos de laranja. Sentado na cadeira de praia verde ao lado de Beth, o desejo de que a vida congelasse naquele momento.

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Enquanto segurava sua mão, sentia que não precisava de nada além de que a eternidade fosse assim. Quem lhe dera, se pudesse sentir que a vida era promissora e seus desejos plenamente realizados, que as dificuldades do passado ficaram em algum lugar escondido de sua memória e a sensação de que estava sozinho desaparecera completamente, como uma ilusão, ou um pesadelo que foi embora. Que a vida congelasse! Foi assim que sentiu na aula de piano do primo Eric, quando a viu entrar pela primeira vez. Em pouco tempo já dividiam o teto, a cama e os sonhos. Como nunca havia sentido antes, repentinamente a vida tomava outro rumo e tudo começou a se encaixar. Os primeiros anos não foram fáceis, especialmente por conta das dificuldades financeiras. Ed já trabalhava como piloto, mas seu baixo salário de instrutor de voo no aeroclube da cidade mal dava para pagar as contas do dia a dia. As coisas só melhoraram razoavelmente depois que Beth conseguiu um trabalho em um banco e passaram a somar os salários. Moravam em um pequeno apartamento alugado. A sala pequena e o único quarto era mais do que suficiente para quem só queria estar perto. O casal saia cedo. Beth deixava Ed no aeroporto e ficava com o carro, ou pelo menos o que restou daquele que já foi um belo modelo há quase vinte anos. Fazer o que? Era o que podiam comprar e lhes servia muito bem. Foram tempos de lutas e dificuldades. Mas ninguém pode negar que houve muitas compensações. Como não se recuperar de um dia de trabalho cansativo se sabiam que ao chegar em casa teriam um ao outro ? Pelo que tinham notícia e, mesmo pelo que percebiam na vida dos amigos, poucos eram os privilegiados que podiam casar com a vida feita. 117


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A maioria tinha que se esforçar, construir a história tijolo por tijolo, sem descuidar de firmar a relação com muita dedicação, alimentando a fé de que um dia as coisas melhorariam. Com os dois não era diferente. Nem sempre era fácil sair da cama logo pela manhã e pensar que só voltariam depois do por do sol, mas se esse era o preço para a construção de um sonho, seria pago com todo o prazer. Durante aquele tempo suas melhores energias estiveram concentradas em estabelecer um chão para que o futuro fosse bom. Sentados naquela cadeira de praia, ouvindo os sons de uma tarde de domingo em plena lua de mel, não imaginavam tudo o que iriam passar. As expectativas alimentavam a certeza de que as coisas dariam certo e, claro, com as dificuldades que inevitavelmente todo o casal enfrenta, superariam os principais desafios e seriam felizes para sempre. Juntos e felizes. •

Ed e anjo continuam deitados sobre a grama e parecem absortos em um sonho nítido e compartilhado. Eles veem quando o casal se levanta da cadeira de praia e se enrolam na toalha. Ao perceber que estavam molhadas ensaiam pedir outra, mas depois se conformam tranquilamente e se enxugam ali mesmo. Em seguida caminham até os elevadores, apertam o botão e permanecem abraçados, parados, olhos fechados, braços entrelaçados esperando o elevador e os próximos dias. Aguardando um futuro incerto e promissor que, apesar das prováveis dificuldades, seria repleto de felicidades. O mais improvável já aconteceu. Dois estranhos se apaixonam imediatamente e identificam no outro a pessoa que compartilharia tudo.

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Ainda que os pais de Beth oferecessem alguma resistência, logo entenderam que Ed era um bom sujeito e a faria feliz. Era de se compreender que temessem perder a única filha. Eles eram muito próximos, Beth uma menina. Além do mais, moravam longe e sentiam não poder acompanhar a vida da filha diante de tantas mudanças. De qualquer forma, os primeiros contatos com o genro lhes abriu uma nova perspectiva: Eles não perderiam a filha. Ganhariam mais um filho e, quem sabe, netos? Quando o sogro tocava no assunto “netos”, Ed sentia calafrios. Adorava crianças, mas o temor de ser pai era maior. Gostava de brincar com os filhos dos amigos, adorava cumprir o papel de tio, mas assim era mais fácil. Como “tio” não tinha nenhuma responsabilidade em formar e preparar um pequeno ser, vazio, sem nada, e como uma folha de papel em branco ajudar a escrever a história de outro ser humano que dependeria de seu bom desempenho por vários anos. A ideia de trocar fraldas e levantar a noite não era tão assustadora quanto de falar sobre a necessidade de evitar as drogas, dar conselhos sobre prevenção de doenças sexuais, lidar com adolescentes e perceber quando algo de errado estivesse acontecendo. Era muita responsabilidade para uma pessoa só. Melhor esperar, arrumar a vida, ganhar dinheiro e garantir uma bela estrutura financeira onde, pagando boas escolas e contratando babá, dividiria a tarefa com profissionais, diminuindo o risco de dar errado. E se a criança nascesse doente? E se depois precisasse de médicos ou remédios, como iria comprar? Seria mais um problema para todos. Não. Que o sogro esperasse! Melhor dar tempo ao tempo e deixar que a vida siga em ritmo seguro. 119


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Só que o ritmo da vida nos surpreende. Três anos depois que aquele casal entrou no elevador em direção ao quarto de hotel, os primeiros enjoos aconteceram. No começo pensaram que foi alguma indisposição, algo que tivesse comido pela manhã. Mas a persistência dos sintomas aliado ao mal estar de Beth fizeram com que ela própria tomasse a iniciativa de aproveitar a hora de almoço em uma quarta-feira fria e chuvosa, para fazer o exame de gravidez. Naquela tarde não teve vontade de comer. Disse às colegas que precisava pagar uma conta e saiu sozinha. Quase não acreditou quando leu o resultado: Positivo. Foi um misto de alegria e pavor. Sempre quis ser mãe, ia dar um neto ao pai, mas tinha medo de contar para Ed e lhe causar pânico. Demorou dois dias para criar coragem. A notícia foi dada em uma noite de lua cheia, linda, enquanto olhavam a cidade pela janela do quarto, conversando, como faziam quase sempre. – Ed, estou grávida. Falou de sopetão. Ele interrompe o que estava falando, olha para Beth com um sorriso desconfiado que logo desaparece quando vê seriedade nos olhos da esposa. – Grávida? Pergunta sem esperar resposta, olhando para Beth que chora, somente confirmando com a cabeça. Espantosamente, ao invés de pavor, sentiu alegria. Não teve medo. Abraçou a esposa que chorava copiosamente e fizeram um pacto de que dariam a criança o melhor de suas energias e amor. Quando o casal em lua de mel saiu do elevador e parou na porta do quarto, mal poderiam imaginar como seriam os meses de gravidez. Beth trabalhou mais um tempo até que a barriga cresceu e teve que repousar.

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Apesar de alguns sangramentos, não houve nada de anormal e, nove meses depois, lá estava Gabriel. Deitados na grama do jardim, Ed e anjo veem nitidamente a expressão do jovem Ed quando olha o filho pela primeira vez. Teve medo de acompanhar o parto e esperou ansiosamente na porta do berçário. Quando viu a enfermeira com uma criança enrolada nos braços se aproximou e perguntou qual o nome da mãe. Na pulseira azul presa no minúsculo pulso do recém-nascido: “Beth Mingot” Foi difícil relacionar a imagem daquele bebê nu, branco e comprido com o pequeno ser que se mexia na barriga da esposa. Gabriel nasceu muito inchado, olhos fechados e cabelo ralo. Enquanto olhava para o bebê dormindo no berçário, pensava como seriam os próximos anos. O medo que não teve quando recebeu a notícia da gravidez deve ter esperado aquele momento para alfinetá-lo, fazendo com que sentisse um enorme peso, como se a tarefa seguinte fosse quase desumana. Dormiu no hospital nas próximas duas noites e voltaram para a casa do casal, que agora, eram três. – Força, Ed. É preciso colocar para fora, aproveite, é importante que revise seus dias. A voz do anjo interfere suavemente em seus pensamentos e, mesmo chorando, Ed continua a rever o passado. O corredor do hotel termina na porta do quarto número 23. Beth está com a chave e abre a porta. Eles estão rindo animadamente, lembrando o momento em que os adolescentes pularam na piscina e os encharcou. Ed sorri quando pensa que quase foi brigar com os meninos. Beth passa as mãos no seu rosto e eles entram. Caminham a passos lentos, exatamente como fariam no dia em que Gabriel chegou em casa. Temendo que a esposa se machucasse, Ed segura em seus braços enquanto o sogro prossegue maravilhado com o neto no colo. 121


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O que seria nos próximos anos? E depois que a empolgação da novidade passasse, como lidar com a criança que se formaria dentro da casa deles? E se perdessem o emprego como sustentariam aquele bebê que logo iria para a escola, naturalmente aumentando as despesas? Os primeiros quatro anos foram difíceis, mas não se saíram mal. Conseguiram revezar nos turnos da noite, enquanto o bebê chorava copiosamente com cólica. Souberam lidar com a bronquiolite que Gabriel teve logo depois de completar um ano de vida e não se desesperaram quando tiveram que levá-lo ao hospital para tomar soro, depois de uma forte desidratação. Sabiam da responsabilidade que tinham e, apesar dos temores, as cumpriram satisfatoriamente. Foi assim durante os primeiros anos até que as coisas começaram a mudar. Talvez pela necessidade de se dedicarem a outro ser, talvez pela imaturidade de Ed que, temendo que a vida complicasse, instintivamente começou a se afastar. O amor entre os dois era exatamente o mesmo do dia em que entraram naquele quarto de hotel e deitaram na cama com luz apagada para ficar conversando. Ainda tinham prazer em estar juntos, mas aos poucos os assuntos foram diminuindo. Diminuíram os assuntos, os planos e os sorrisos. A necessidade de construir um futuro despertou a vontade de crescer profissionalmente exigindo mais empenho. Ed já não era mais o pai presente, nem o marido dedicado. “Estou lutando pela minha família” justificava a si mesmo sempre que um rompante de consciência tentava lhe fazer enxergar que estava se afastando por medo. Sim, ainda que não confessasse, era mais fácil tentar ser bom profissional do que bom pai ou marido.

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Para crescer na profissão bastava fazer bem seu trabalho e se oferecer para cumprir todas as escalas. Quando foi para o Táxi aéreo viajava quase todos os dias. Agora Beth ficava em casa com Gabriel e Ed foi deixando de se sentir responsável em dar atenção. É como se o fato de estar ganhando bem bastasse para que fossem felizes. Já estava cumprindo sua parte. Não existia mais noites de amor como a do hotel. Eram noites de sono e pesadelos. Sonhos e distanciamento. Diferente de quando se apaixonaram, não houve um momento específico para se afastarem. Foram as noites perdidas, os sonhos não compartilhados, as mudanças de caminhos e o desvirtuamento das ambições. Beth, a esposa apaixonada, mãe dedicada. Ed o profissional em crescimento, o comandante admirado. A separação foi questão de tempo. Não que o amor tivesse acabado, mas talvez não houvesse mais o que o sustentasse. Não havia mais projetos em comum a não ser os que envolviam dinheiro e bens e, com esses, Ed estava em dia. Percebeu tarde que a perda foi maior que o lucro. Estava com as mãos cheias e o coração vazio. Abriu mão do que valia e, talvez, fosse tarde demais para voltar atrás. O casal do hotel dorme tranquilamente sem imaginar que anos depois estariam insones, cada um em sua cama, cada qual em seu próprio mundo. •

Ed ainda chora. Quando abre os olhos vê anjo que permanece quieto ao seu lado. Sem dizer nada fecha os olhos novamente como se estivesse pensando em sua própria vida, como se de repente as emoções que conteve até ali saíssem de uma vez. 123


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– Ela me faz muita falta. Ed quebra o silêncio ainda com olhos fechados. – Sei disso. – Como ela está agora? – Beth é forte, sei que tem se saído bem. – Ainda vamos nos ver? – Sim. Mas não imediatamente. Se limitou a responder anjo que, com a cabeça apoiada nas mãos, também fixa o olhar no céu. – E Gabriel? Quando cheguei aqui ele estava entre a vida e a morte. – Não se preocupe com Gabriel, ele está bem. Respostas vagas. Ed não faz mais perguntas. Sente-se consumido pela intensa viagem emocional que acaba de fazer. Como em um passe de mágica visitou seus últimos anos e reviveu sentimentos que já tinha varrido para baixo do tapete. Definitivamente não foi fácil voltar à lua de mel, visitar sua casa, seus medos e suas lutas. Depois de tudo o que aconteceu, estar de novo na maternidade revisitando a manhã ensolarada em que Gabriel nasceu. Ensaiou abrir a boca, pensou em perguntar sobre o filho, mas voltou atrás achando melhor não ir além da curta e vaga resposta do anjo. Era melhor ser prudente e não acrescentar nenhuma emoção ao que acabou de experimentar. A dose tinha sido o suficiente, não precisava ir mais longe. Pelo menos agora não. Como quem se refaz de uma surra, Ed começa a se mexer. Primeiro permanece sentado por um tempo com os braços apoiados no joelho. Ele olha os filhotes de leão que ainda brincam lá na frente. Anjo permanece quieto, como se de alguma maneira também tivesse sido afetado pelo que viu. Parece distante, pensando silenciosamente.

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Deitados no meio daquele jardim, cada qual com seus pensamentos, Ed ainda sob o impacto de quem revê sua vida, anjo, talvez, como quem se torna reverente diante da dor de um amigo. Talvez. É difícil precisar o tempo que ficaram assim. Durou tanto que nem viram o cenário mudar. O fato é que foram surpreendidos com pesadas nuvens que substituíram a imagem do céu claro e extremamente azul por outro escuro, prestes a desabar um temporal. – Precisamos ir. Ainda temos alguns lugares para visitar. Diz anjo que rapidamente se põe de pé aparentemente despertando de um pensamento distante. Debaixo de fortes pingos de chuva eles se levantam e caminham. Tudo continua belo. Os filhotes de leões correm procurando abrigo e as flores parecem gostar da água. Sem medo de se molhar, os dois seguem lentamente como se nada estivesse acontecendo. – Estive pensando como podemos nos enganar tanto. Ed molha os lábios e prossegue: Olhando para meu passado fico sem entender como fui capaz de deixar que tudo o que mais amava escapasse assim. – Você escolheu a partir do momento em que definiu suas prioridades. Anjo parece refeito. – Entendo, mas às vezes fazemos escolhas sem saber o que estamos escolhendo. – Isso acontece muito. – E o pior é que, mesmo escolhendo sem saber, inevitavelmente teremos que lidar com a consequência. – As consequências de uma escolha são inevitáveis, mas quando você recobra a consciência tem a chance de transformá-la. – Posso transformar algo ruim em algo bom? – O que você pode é encontrar significado no que te fez mal e a partir disso recomeçar daquele ponto com algo melhor em mãos. 125


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– Há significado em tudo o que é mal? Ed passa a mão no rosto encharcado de chuva. – Ed, você ainda não entendeu que essencialmente não há significado nos acontecimentos. São vocês quem dão os significados. – Sobre isso tem algo me incomodando. Alguns trovões parecem estremecer o jardim debaixo de muita chuva. Anjo dá um leve sorriso. – Prossiga. – Pelo que você me disse, os acontecimentos são apenas mídias para que nos reconheçamos a partir das escolhas, é isso? – Sim. O que acontece a vocês faz com que reajam e, reagindo, o que está dentro tem que sair. Esse é o processo que determinará os significados. – Eu compreendi essa ideia, mas não consigo encaixá-la quando o problema deixa de ser o que me incomoda como individuo e passa a ser o que me atormenta como ser humano que faz parte de um todo. – Quer ser específico? Fala anjo pacientemente. – Por exemplo, quando acontece uma guerra, isso é mal e não fruto de uma opção individual. Quem está lutando na guerra ou quem ficou em casa esperando um filho lutar está experimentando um mal real e isso não tem a ver com escolha. Anjo fez uma pausa como se estivesse pensando em algo, depois tocou no braço de Ed – Quero que você enxergue uma coisa. Ele estende a mão e toca suavemente nos olhos de Ed. Como em um passe de mágica todo o cenário do jardim sob chuva vai desaparecendo como se fosse um tapete sendo enrolado rapidamente. Somem as flores, grama, areia, animais, tudo evaporando diante dos dois homens que observam imóveis. Ed fica tonto e segura no braço de anjo. A última coisa a sumir foi o chão e, sob os pés, surge uma gigantesca montanha onde é possível observar uma cidade escura. O céu tem tons roxos e, apesar do barulho do vento parecer com o som que sai de uma turbina de avião, não sentem nenhuma brisa.

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Abaixo uma cidade. Ed não pode deixar de observar que da cidade sai uma espécie de pó. Mesmo com todo o barulho do vento era possível identificar sons de vozes, gritos, risadas, conversas, choros, cantos…tudo vinha lá de baixo. Enquanto observa confuso, percebe que algo se movimenta por perto. Anjo permanece parado. Ed se assusta, mas também não se mexe. A sensação de que não estão sozinhos aumenta especialmente quando percebem algo se movendo no meio do mato. De repente uma sombra passa rapidamente e segue na direção oposta onde havia um acumulo de pó escuro. O mesmo que saia da cidade. Era uma serpente enorme. Ela tinha aspecto estranho. Apesar de grande, eram ágeis e seu rosto se assemelhava ao de humanos. Rastejando, segue até o pó e come. Seu apetite é voraz, quase insaciável. Parece faminta. Durante algum tempo percebem o animal se esbaldando no pó até que, depois de comer, passa novamente por eles e desce a montanha em direção a cidade. Ed observa de longe e percebe que na cidade há muitas outras serpentes que andam sorrateiramente entre a população. Apesar da distância, identifica uma delas enrolada em um homem e, pelo que pode perceber, despejando sobre ele parte do pó. – O que significa tudo isso? Ed pergunta em voz baixa, como se ainda estivesse com medo. – Você está vendo as dinâmicas da Terra. Anjo responde com firmeza e serenidade. – Não consigo entender. O pó, as serpentes. – Esse pó que recai sobre da cidade é resultado de todas as suas produções. Ele faz uma pausa, olha para Ed e continua.Tudo 127


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o que vocês pensam, fazem, sonham e desejam, se transforma em energia que forma uma espécie de massa coletiva. – É esse vento? – Sim. Ela permanece no ar como o vento, mas na realidade é a energia de tudo o que sai de vocês. – E o que acontece com essa energia? – Ela retorna através de uma espécie de teia que interconecta a todos os humanos. – Poxa. Estamos todos ligados a uma energia que na verdade é resultado de tudo o que sai de nós mesmos? – Ed, cada cultura cria sua própria energia a partir da produção individual dos membros daquela sociedade. Não existe ação humana que não implique em um processo de alimentação a esse sistema. Tudo o que acontece coletivamente está ligado aos resultados desse processo que tem início em cada individuo. – Não sei se entendi. Ainda me parece confuso. – Vou tentar ser mais simples - anjo fala pausadamente – Tudo o que sai de vocês repercute de alguma maneira. O fato de não poderem tocar um pensamento ou ver um impulso que se transforma em atitude, não quer dizer que eles não existam. É quase como o lixo reciclável. Você joga uma folha de papel amassado no lixo que depois de passar por um processo é reciclado e vira outra coisa. – Até aí estou entendo. – A energia que sai de vocês se recicla e vira parte de algo bem maior que na verdade é a somatória de cada produção humana. – E como isso nos afeta? – Afeta porque cada humano está conectado a tudo. Seja a natureza ou outros humanos, vocês estão expostos em um processo de realimentação, onde a energia individual se transforma em coletiva para depois afetar culturas e até a natureza. – E o que é esse pó que não para de cair? Enquanto Ed pergunta observa mais serpentes comendo vorazmente. – O pó é subproduto da própria energia. Anjo percebe que

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Ed tem alguma dificuldade para entender e procura um exemplo: Pense em um incêndio na floresta. As chamas que consomem as árvores e animais foram resultado de uma ação provocada ali mesmo. Pode ter sido um cigarro ou uma queimada; ela é fruto de uma ação. O fato de começar em um ponto específico da mata não impede que o fogo avance, já que a floresta toda se comunica. – Acho que estou entendendo. Enquanto queima, o fogo transforma as árvores, mato, grama e até animais em outra coisa, com outra consistência. – Esse é o pó? – Sim, o pó é um subproduto, resultado da somatória das energias não produtivas, que acumulam e viram cinzas. – E essas serpentes? – Elas são filhas do pó que sai da Terra. Como larvas que nascem no lixo, as serpentes nascem e se alimentam do lixo residual, ou seja, do pó. Depois influenciam os humanos a produzirem conforme suas necessidades. – Fiquei confuso de novo. – Quem alimenta as serpentes são vocês. Elas são apenas condutoras que comem o que sai de suas atitudes individuais e coletivas e, tentam influenciá-los a produzir conforme precisam. – E o que elas precisam? – Acho que notou o quanto são famintas, não? Eles olham para algumas serpentes sobre o pó. Anjo volta-se para Ed: Como eu disse, elas são apenas subproduto, consequência residual do resultado daquilo que a humanidade produz de pior. Uma vez que elas existem, naturalmente trabalharão em beneficio de mais alimento. – Há alguma razão para isso? – Para que você entenda devo dizer antes que assim como qualquer acontecimento isolado, essa energia é apenas um fenômeno e nisso não há bem ou mal. Ela existe como fruto de uma produção coletiva e os influencia a medida que estão todos conectados. 129


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– Isso está claro. – Acontece que, como qualquer tipo de energia, ela pode ser manipulada para o bem ou para o mal. – Assim como fazemos quando damos significado aos acontecimentos? – Exatamente. Tudo faz parte do mesmo processo onde vocês determinam o que será. Essa energia é só uma projeção coletiva de algo que, como já conversamos, acontece na interioridade. – Acho que essa parte entendi. É como se fosse uma escala maior de um fenômeno que é vivido individualmente. Mas e as serpentes? Confesso que ainda não ficou claro para mim. – Elas não podem se alimentar de energias produtivas. Como nascem, se reproduzem e alimentam do pó, ou seja, do resíduo dessa energia negativa, não lhes resta escolha a não ser a tentativa de influencia-los a nunca parar esse processo. – Como elas fazem isso? – Manipulando o pó. Transformando-o em uma substância nociva, tentando lhes fazer acreditar que estão desconectados. – Pelo que estou começando a entender tudo o que produzimos em nossas mentes se transforma em energia que, por estarmos todos conectados, acaba influenciando no coletivo? – Isso mesmo. Ed continua raciocinando alto: O pó que alimenta as serpentes é subproduto dessa energia. As serpentes os transformam em um meio para nos influenciar e nos dar a sensação de que estamos desconectados, consequentemente evitando que nos relacionemos com essa energia de maneira sadia. É por aí? – Estou gostando de ver. Isso mesmo, por aí. Anjo sorri satisfeito. – E por que o sentimento de desconectividade nos prejudica? – Porque ele faz com que vocês se esqueçam de sua essência. Os homens são seres comunitários e dependentes uns dos outros. Ao se sentirem desconectados andarão como se estivessem perdidos, como um navio vagando pelo oceano sem ter onde aportar.

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Ed franze a testa: Entendo o que fala. Constantemente me sinto assim. – Sei disso Ed. Esse sentimento de solidão os atinge quando vocês se sentem independentes, acreditando que podem fazer as coisas sozinhos. – Isso tem algo relacionado com o conhecimento do bem e do mal? – Tem tudo a ver. Vocês nasceram para serem felizes e compartilharem alegrias. A opção pelo conhecimento do bem e do mal adicionou ao que era essencialmente bom, a possibilidade de experimentar o que é naturalmente mal. Para que o mal deixasse de ser apenas uma possibilidade era preciso que, em parte, vocês se desconectassem de sua essência já que ela não incluía essa condição. Conhecer o mal implica em experimentá-lo como realidade. – É nisso que as serpentes trabalham? Ed parece menos assustado. – Sim, alimentadas pelo pó que sai do que vocês mesmos produzem elas tentam criar condições para que se sintam desconectados de si mesmos, da natureza e de Deus. – E aí surgem as guerras e os problemas coletivos. – Concluiu bem, Ed. Repare que grande parte dos problemas da humanidade nasce desse sentimento de desconectividade. Pense: Vocês não destruiriam o planeta se sentissem que estão conectados a ele. As guerras não aconteceriam se entendessem que o mal que um exército fará a outro de alguma maneira retornará pelas vias que os mantém ligados, pense que as pestes e as doenças que vocês enfrentam e acabam matando bilhões de pessoas, em algum ponto estão conectadas com determinadas posturas irresponsáveis ou egoístas da humanidade que as criou. – E o que dizer sobre, por exemplo, uma criança que nasce acéfala ou então cega. Ela está sendo punida por isso? Ou quem sabe passando por uma provação que a tornará mais evoluída? 131


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– Nenhuma coisa nem outra. Não estamos falando sobre punição, mas sobre escolhas. É claro que nem a criança, nem os pais, escolheram assim. Mas entenda uma coisa que ajudará a compreender melhor: A humanidade é um corpo único, formado por células individuais, que são os humanos. O que uma célula faz interfere no todo, ainda que nem todos tenham culpa. Se essa célula se sentir independente irá causar um grande problema para o corpo inteiro. Isso nunca foi imposto, mas sim uma escolha que é revalidada por vocês praticamente todos os dias que olham para si ou para o mundo através das lentes de juízes, como plenos conhecedores do bem e do mal. Lembre-se: a mudança de olhar é capaz de mudar seu mundo inteiro. A boa notícia é que, apesar dos pesares, é possível usar algo tão difícil, extraindo da situação algo que lhe tornará alguém melhor. A cegueira da criança não é um “presente” dos céus para evolução, mas ainda assim, como em tudo, é possível extrair sentido até mesmo do absurdo. – O que fica difícil entender é que nem eu e nenhuma das pessoas que me relaciono vivemos com a pretensão de serem juízes. A maioria simplesmente vive suas vidas. Não consigo pensar nisso como uma condição generalizada. – Ed, sempre que algum de vocês se relaciona com a vida através das categorias de merecimento, causa e efeito, estabelecendo barganhas através da fé, ainda que não percebam, estão se colocando na condição de juízes. E isso, se mede a partir da maneira como lidam, tanto com os problemas, quanto com as conquistas. Prova é a enorme dificuldade que vocês tem de olhar para os acontecimentos sem colocá-los nas categorias de maldição, merecimento, punição, benção, culpa, e demonstrações de mau humor ou negligência divina. – Mas o que uma coisa tem a ver com a outra? – Sempre que se julgam possuidores de méritos e passam a acreditar na imagem de que são seres autônomos e naturalmente iluminados, estão desconsiderando o fato de serem essencialmente ambíguos

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e que tua luz é sempre reflexo do próximo. Anjo abaixa um pouco o tom de voz: Atente para o seguinte: como eu já te disse, a partir do momento em que escolheram conhecer bem e mal se tornaram seres ambíguos. Bem e mal são porções opostas, portanto não haveria outra condição além da ambiguidade. A possibilidade de experimentarem a morte como realidade veio no mesmo pacote. Foi uma escolha. – Ok, vá com calma porque até aqui estou entendendo. Ed fala sorrindo. – A sensação de merecimento reafirma o sentimento de que são completamente autônomos. A partir desse momento, basta um passo para se sentirem detentores do pleno direito de definir o que é bem e o que é mal para si mesmo e, pior, para os outros. – Parece que estou começando a entender. Por favor, continue. – Essa reafirmação implica em um processo que naturalmente lhes desconectará da própria essência, o que terminará por reforçar o sentimento vazio de desconectividade e, por fim, rebelião. – As células rebeladas se transformarão em um câncer. Ed estala os dedos como se tivesse tido uma grande ideia. Anjo ri do amigo e diz: Sim, e esse câncer causará outros males, deixando o corpo inteiro doente. – Está ficando claro! Então os males que experimentamos são em decorrência desse sentimento de desconectividade que pode nascer individualmente, mas afeta a sociedade como um todo. – Isso mesmo. Mas tem um detalhe: no caso da humanidade, a opção de se desconectar não foi de uma única célula, mas de grande parte delas. Imagine o estado que o corpo ficou. – Basta olhar para o que estamos fazendo com o mundo. Anjo concorda com a cabeça, depois fala: Conhecer o bem e o mal implica, não só na capacidade de experimentá-lo, como também de criá-lo a partir do olhar. – Como o olhar pode criar ou desfazer algo? – Só sabe que está claro quem conhece o escuro, assim como 133


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só sabe que está calor, quem conhece o frio. Por isso quando incluíram em suas percepções o conhecimento do bem e do mal aceitaram ficar expostos aos dois. Desde então, o bem e o mal passaram a coexistir no único lugar onde de fato as coisas acontecem que é o coração. Quando você olha para alguma coisa está projetando nela uma condição interior que vem justamente dessa percepção do que é bom ou do que é mal. – Ai, ai. Será que entendi? – É simples. Preste atenção: Vocês escolheram conhecer o bem e o mal e, consequentemente, passaram a experimentá-lo como realidade. Como nada essencialmente existe para ser mal, vocês emprestam aos acontecimentos a condição que só existe na interioridade de cada humano. O resultado é a produção de uma energia que volta para o todo em forma de cultura e , já que estão todos conectados, acabam sendo influenciados em todos os âmbitos de suas vidas. – Isso explica muitas coisas. – Exatamente. Mas não pense que vocês estão fadados a vítimas nesse processo. – Acho que você antecipou minha próxima pergunta. Ed sorri divertidamente, depois pergunta: Como podemos interferir nisso tudo de maneira positiva? – Abrindo mão dessa condição. Tirando o julgamento do olhar. Anjo responde quase sem deixar Ed terminar a frase. – Fico pessimista só em imaginar por onde deveríamos começar. – Ed, ninguém precisa começar nada porque o processo já está concluído. – Como assim? Ed parece um pouco atordoado com a resposta. Anjo sorri e responde: Venha, precisamos conhecer um lugar. Ficará mais fácil você entender. Depois disso a cidade escura foi desaparecendo. Aos poucos

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as vozes sumiram e, como uma turbina sendo desligada, o intenso barulho de vento cessou. Já não se via serpentes nem se ouvia vozes e agora tudo o que tinham pela frente era o nada. Estavam os dois em um vazio completo onde nada se via nem ouvia. •

Uma brisa quente envolvia e massageava o corpo de Ed. Depois, barulho de água corrente, vigorosa, tornando o ambiente ainda mais belo. Ao abrir os olhos Ed confirma: Aquele escuro cenário da cidade cheia de pó e serpentes foi substituído por um imenso e belo jardim. Esse era diferente dos que já estiveram. Lá a flora e a fauna estavam plenamente desenvolvidas. Havia árvores para todos os lados. Suas folhas dançavam com a brisa que variava na intensidade. Tudo era tão bom que Ed poderia ficar parado naquele ponto contemplando por dias. Não sentia cansaço. Ainda que estivesse levemente atordoado diante de tantos ensinamentos, sentia-se estranhamente bem. A sensação de culpa por estar feliz quando a última noticia que tinha de seu filho era que estava em coma, que Beth provavelmente estivesse fragilizada no hospital, diante de sua possível própria morte, lentamente diminuía. Não tinha o que fazer. Se pudesse mudar algo certamente faria seu melhor, mas não era o caso. Estava andando com alguém chamado anjo no meio de um paraíso fantástico e não tinha a menor ideia de onde aquilo terminaria. – Você disse que precisamos conhecer um lugar? Ed fala quase sem pensar. 135


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– Sim, Ed. Estamos exatamente no lugar onde tudo começou. Ed não fala nada. Primeiro olha para os lados, em seguida encara anjo cheio de interrogação e depois se incomoda com o silêncio do companheiro que visivelmente esperava alguma pergunta: Só vai me dizer isso? O que começou aqui? – Ed, preste atenção. Ele fala em um tom mais baixo, como se quisesse valorizar o que diria a seguir. Tudo o que falamos sobre o conhecimento do bem e do mal começou e se repete aqui. – Me desculpe se estou parecendo ignorante, mas você está me deixando mais confuso. – Antes que eu lhe explique exatamente, gostaria que olhasse bem a sua volta. Ed parece contrariado, mas mesmo assim faz um giro de trezentos e sessenta graus até parar novamente de cara com anjo. – Ok é tudo muito belo, mas ainda não sei onde você pretende chegar. – Diga-me o que vê. – Vejo o rio, montanhas, cores e uma quantidade infindável de árvores, flores, plantas, enfim... – Ed, nós estamos no Éden. Ed faz uma pausa como se não tivesse entendido direito: – Que Éden? Anjo sorri e fala como quem degusta as palavras: – Estamos no jardim do Éden. Ed parece estupefato. Olha de novo para os lados em um misto de ironia e irritação. Só falta Adão e Eva surgirem em meio às árvores segurando suas folhas de parreira. Depois solta um sorriso tenso e escrachado. – Não se preocupe, Ed – anjo se diverte com o comentário. Não há a menor possibilidade de que isso aconteça. – Menos mal – Ed parece relaxar um pouco. Sempre ouvi falar sobre o jardim do Éden, mas para mim isso nunca passou de uma lenda antiga.

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– Desculpe decepcioná-lo, mas, pelo que você vê, o jardim é real. – É o mesmo jardim dos textos bíblicos? – Exatamente o mesmo. – Então nós voltamos para o tempo do jardim do Éden? – Qual você acha que é o tempo do jardim do Éden? Anjo devolve a pergunta. Ed parece confuso. Pensa alguns segundos, depois responde: – Não sei, sempre ouvi falar nessa história como uma lenda… faz uma pausa, olha uma enorme árvore frutífera que faz sombra aos dois: mas se nesse jardim a raça humana começou, deve ter bilhões de anos. Não sei… – Ed, preciso que você preste atenção no que lhe direi. Ed não se move e permanece quieto olhando para anjo como se fosse uma criança esperando por uma importante lição. – Mais do que um lugar geográfico onde aconteceu o início da viagem humana, estamos onde todas as coisas acontecem. – O que você quer dizer com todas as coisas? – Quero dizer o que disse. Tudo o que acontece em vocês, se inicia exatamente aqui. O tempo todo. – Olha, até aqui tenho me esforçado para entender, mas agora ficou difícil. Pelo que estou vendo, além da natureza não tem nada acontecendo aqui. Aliás, sequer vejo pessoas aqui. Anjo demonstra um leve traço de desapontamento. Parece incomodado com a tarefa de ensinar Ed: – Ed, quando você vai deixar de olhar para as coisas sem tentar se apoiar em suas rígidas referências de tempo e espaço? Lembre-se sempre que aqui não estamos submetidos a nenhuma dessas leis. No Éden o tempo não existe. – Agora você deu um nó na minha mente. Primeiro diz que estamos no Éden, pede para que eu olhe para os lados e me diz que aqui tudo acontece. Logo em seguida conclui que isso que eu vejo e posso tocar e botar as plantas de meus pés não está condicionado ao tempo ou espaço. Afinal, o que é isso aqui? 137


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Anjo volta a falar didaticamente: – Toda a condição física reflete outra espiritual. Nada do que você pode ver ou tocar na Terra, deixa de ter seu contraponto em outra dimensão. – Prometo que estou tentando entender. – Não se preocupe, logo ficará mais fácil. Sua dificuldade é que ainda pensa sob as categorias a que sempre esteve submetido. Por mais que queira ir mais longe, seu limite é a física ou aquilo que convencionou como verdade. Acontece que a existência não se encerra aí. Se prender a esses elementos sem considerar outras categorias sempre limitará a compreensão. – Pensando nisso, me lembro que há cada vez mais pessoas buscando fontes alternativas de conhecimento, seja ele médico, humano, filosófico ou cientifico. – É natural que seja assim porque chega um ponto onde o conhecimento encontra seu próprio limite. É a hora que devem decidir como irão continuar a viagem ou, quem sabe, resolverão parar ali mesmo. – Você está sugerindo que podemos ir além do conhecimento convencional? – Estou dizendo que você impõe seu próprio limite. É você quem escolhe até onde vai. – Isso parece desafiador. – Lembra quando vimos a energia que rondava a cidade aos pés da montanha? Aquela energia é fruto da produção coletiva que nasce de cada anseio, sensação, intenção e pensamento humano. Como tudo na vida é conectado e se relaciona de alguma maneira, ainda que não percebam vocês acabam absorvendo e sendo influenciados por isso. Esse fenômeno é chamado por vários nomes: intuição, vidência, sensitividade, não importa. O fato é que tudo é parte do mesmo processo onde humanos estão conectados e, mesmo que não saibam, compartilham informações em todos os níveis.

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– Já li algumas coisas sobre isso. – A capacidade de compartilhamento de informações entre humanos é infinitamente maior do que vocês imaginam. Ela se dá não só no campo das ideias, mas é possível que um homem tenha acesso a alguém especifico que viveu em outro tempo e cultura. De repente ele fala sobre coisas que nunca viu, descreve lugares onde nunca foi simplesmente porque essas informações permanecem arquivadas na grande rede de informações coletivas que paira sobre a cabeça de vocês sem que ninguém veja. – Nossa! Isso é revelador. E por que nem todos têm acesso? – É uma questão de sintonia. Tem gente que tem mais sensibilidade para captar determinadas informações que estão disponíveis a todos. Outros, nem tanto. Mas todos estão expostos a elas. – Engraçado como algumas coisas que você me disse antes começam a fazer sentido. Sabendo disso, deixo de pensar naquela história de máquina do tempo como um completo absurdo. Ed comenta sorrindo. – Vocês bem sabem que o tempo é relativo. Portanto, passado, presente e futuro convivem sob a mesma perspectiva. O desafio está somente em como acessá-los. Se eventualmente podemos captá-los através de sensibilidade sensorial, é natural que com o tempo os humanos descubram caminhos e fórmulas para explorar algo que, atualmente, só é conhecido instintivamente. – Assim como é feito com a energia que nos permite falar em celulares, por exemplo? – Exatamente, Ed. Apesar dos celulares só estarem presentes em sua história recentemente, a energia que possibilita duas pessoas se falarem e se verem em qualquer lugar do mundo já existia. A diferença é que antes os homens não a conheciam. Elas não foram inventadas, só descobertas. – Sensacional! Nunca tinha pensado por aí. Isso abre um leque de possibilidades infinitas. – E olha que é só o começo. A ponta de um iceberg de pos 139


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sibilidades e conhecimentos que faria você literalmente pirar. Enquanto estamos juntos só estou falando sobre o conceito, mas com o tempo poderíamos ir bem além. – Mal consigo imaginar como seria. Ed fala impressionado. – Tudo tem seu tempo. Por enquanto reflita no que temos conversado. – Tenho procurado refletir muito em tudo, mas confesso que ainda não entendi como podemos estar no jardim do Éden. Isso parece patético. Anjo fala com seriedade: – Não despreze a oportunidade que está tendo. Há muito para ver e, antes que eu lhe explique sobre o Éden, você precisa conhecê-lo. – Espero não encontrar a fruta proibida. Ed fala com ironia. – Não se preocupe. Anjo olha divertidamente como se estivesse pensando em algo e conclui divertidamente – Acho que temos conhecimento suficiente para evitarmos um alimento envenenado. – Quanto a isso há controvérsias Ed fala esboçando um sorriso e mexendo os ombros: – Pesquise nas filas dos fast foods e verá que não é bem assim. Anjo retribui com um rápido sorriso e Ed complementa. – Mas já que estamos no Éden. Explique-me que coisa é essa de fruta proibida? – O problema não é uma fruta proibida. Seria fácil evitá-la. Você deve tomar cuidado com as sutilezas, com as ciladas que muitas vezes você arma contra si mesmo. – Você esta parecendo o padre no casamento de um amigo que falava sem parar sobre tentações. É sobre isso que vai falar? Tentações?. Ed retoma o tom irônico. – Não me refiro a atitudes analisadas debaixo de juízo e consideradas imorais. Acho que já falamos sobre isso também. Mas aqui devemos tomar muito cuidado com possibilidades que surgem e podem mexer radicalmente com nossa essência. Saiba Ed,

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esse é o grande perigo: mudarmos nossa essência sutilmente, sem a clara percepção de quão longe estamos indo. – E como evitá-las? – Primeiro lugar mantendo em mente quem somos. Ele pensa algo e diz: – Essa percepção baseada em consciência te conduzirá ao encontro do dono desse jardim. Ed faz cara de espanto e pergunta rapidamente em tom de voz baixo – Adão? Anjo só meneia a cabeça e no mesmo tom de Ed responde: – Não meu amigo. Toda nossa caminhada nos aponta na direção daquele que vocês chamam de Deus. Nesse momento estamos indo ao seu encontro. Ed não diz nada. Como quem perdeu a fala permanece encarando anjo que começa a andar. – Por que está parado? Parece que a possibilidade de encontrá-lo lhe assustou. – Quem? Deus? Ed pergunta quase sussurrando. – Sim, Ed. Não há o que temer. Anjo interrompe o passo como se um pensamento tivesse surgido: – Sabe, Deus está revelado desde sempre. Seja a partir dos caminhos tradicionais, seja através de absurdos inimagináveis onde ninguém espera encontrá-lo, até nas coisas mais simples, aparentemente sem importância, mas principalmente dentro de cada um. Ed, você nunca parou para perceber, mas nunca houve um dia sequer na história de qualquer ser humano sem que Deus se manifestasse. Ele está em tudo e tudo que existe só existe Nele. – É difícil entender o que você fala. Isso parece um daqueles dogmas religiosos. Ed faz uma expressão cansada como se o assunto lhe incomodasse. – Já ouvi discursos parecidos com o que você está falando. Essa coisa de que Deus vive em nós me soa mal. Nós quem? Em todos nós? Até quando somos tão maus? Desculpe-me, mas é difícil imaginar que existe uma centelha religiosa viva em cada coração. 141


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Anjo não responde imediatamente. Parece observar Ed com certa piedade. Não fica claro, mas seus olhos, estranhamente cada vez mais familiares, revelam paciência e amor. Anjo observa Ed por uns segundos, depois fala: – Para a maioria esse jardim onde estamos, o Jardim do Éden, representa um ponto de ruptura entre a raça humana e Deus. Ed concorda com a cabeça e continua ouvindo. – Tentação, serpente, fruto proibido, queda, são palavras relacionadas a sensação que os faz acreditar que estão longe de Deus. Mas entenda Ed, nada, absolutamente nada existe fora Dele. O fato de vocês muitas vezes se sentirem do lado de fora não muda nada a não ser uma coisa: cria um sentimento abissal de orfandade e abandono, mas é o que sentem e não de fato o que acontece. Anjo faz uma rápida pausa, Ed escuta quieto: – Sentindo-se assim, as portas da alma se abrem para tudo o que oferecer religamento com o que na verdade nunca se desligou. – Do que está falando? Ed pergunta olhando para baixo. – Que tudo é muito mais simples do que a maioria imagina. Que não existem caminhos especiais que te levem a Deus a não ser o caminho do dia a dia, no chão da vida, nos passos de quem escolheu viver seus dias em amor e simplicidade, consciente de que aquilo que deseja que o outro lhe faça, será feito antes para o próximo, não porque espera qualquer recompensa ou reconhecimento, mas como quem faz a escolha das causas de cada dia a partir de um olhar iluminado pelo amor. – Na prática isso soa mais bonito do que real. Ninguém que vive em um mundo competitivo e faça conforme você está dizendo sobreviverá por muito tempo. Sinceramente não sei até que ponto existe lugar para esse tipo de atitude no mundo de hoje. Ed fala mais como quem pensa alto do que alguém querendo contra argumentar. – Ed, não há mundo algum senão o que existe em você. Sua

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visão de mundo é apenas o reflexo do mundo que lhe habita a alma. Preste atenção no que vou lhe dizer. Anjo abaixa o tom de voz e fala mais pausadamente com quem se preocupa em deixar tudo bem claro: – Nada, absolutamente nada do que existe fora deixa de ter correspondência ao que você criou dentro do seu coração porque o mundo que você enxerga lá fora é projeção do mundo que você criou aí dentro. Cada monstro, ameaça, medo, tristeza, tal como cada traço de esperança, alegria e sensação de bem estar: tudo o que lhe afeta - seja para o bem ou para o mal- no mundo, só lhe afeta porque encontrou correspondência em seu coração. O mundo realmente é tudo o que você descreveu, mas tudo isso muda quando você muda seu olhar. Os olhos são a janela da alma e refletem lá fora, para sua percepção e dos outros, tudo o que está acontecendo aí dentro onde ninguém pode enxergar. – Ok anjo, mas me diga. Se eu mudo por dentro o mundo continuará injusto e competitivo. As guerras vão continuar, os políticos serão os mesmos, ainda existirá fome e mortandade entre crianças. Muitos continuarão nascendo doentes e as pessoas não deixarão de ser mesquinhas e gananciosas... Anjo interrompe com sutileza ... – Você tem razão Ed. Tudo continuará como descreveu, mas apesar disso sua interpretação sobre cada realidade será diferente e isso tem o poder de transformar sua própria realidade. Lembre-se: os acontecimentos são apenas mídias para que você perceba como anda seu interior. O mundo seguirá seu próprio caminho conforme a humanidade faz suas escolhas de cada dia, no entanto a percepção de cada individuo em relação ao mundo é sempre reflexo da realidade do mundo que antes lhe habita a alma e é esse mundo, o que vive em você, que irá determinar como o mundo de fora, aquele em que todos vivem, lhe afetará. Ainda que tudo continue como sempre foi, as coisas serão completamente diferentes para quem escolheu não ser engolido pelo que vê, mas seguir outro caminho a partir da percepção que se instalou como 143


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fruto da consciência de que em tudo, absolutamente tudo, existe uma prova de amor. – Não sei se está claro. Concordo em parte com o que disse. Acho bonito tudo isso, mas as vezes me soa distante da realidade. É fácil falar que em tudo existe uma prova de amor quando você é perfeito fisicamente, quando não descobriu uma doença mortal, quando não acaba de sofrer uma enorme violência ou injustiça. É fácil ser assim quando não tem um filho a beira da morte no hospital... Ed para como se tivesse sentido o golpe. De repente lembra-se do filho, da esposa, de tudo o que aconteceu. Anjo espera alguns segundos, parece que lhe dá um momento para respirar. Depois coloca as mãos sobre o ombro de Ed e fala com suavidade. – Meu amigo, a vida deve ser interpretada sob a ótica do amor. Já falamos sobre isso. Nenhum acontecimento pode ser medido isoladamente, nem como justo, nem como injusto. Anjo faz mais uma breve pausa e percebe que Ed presta atenção: – Às vezes sofremos por consequência do que nós próprios causamos. Em outros casos podemos identificar o culpado como ente coletivo, como por exemplo, as agressões que o meio ambiente do planeta Terra tem sofrido, nesse caso sabemos que as escolhas individuais impactaram no coletivo gerando um mal a todos. As causas estão aí. Porém sei que existem males que não se explicam, onde não há respostas fáceis e imediatas, onde qualquer argumento pode soar heresia. Nesse caso só não surta aquele que colocou em seus olhos as lentes do amor como fruto de um coração pacificado e das escolhas de quem resolveu andar baseado em consciência. Para esses, cada acontecimento – seja de que natureza for- nunca será algo fixo, determinando um fim imutável e inexorável. Pelo contrário, ainda que doa, cada capítulo de sua vida será encarado como uma grande possibilidade de se tornar em um ser humano melhor. Ninguém disse que seria fácil e que não haveria tristezas, mas existe uma grande diferença quando você entende que o bem e o mal não vivem isoladamente nos acontecimentos,

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mas unicamente em seu coração. Entender assim é o começo para quem deseja criar seu próprio mundo mesmo quando ele parece caótico. Esse consegue identificar no caos refúgios de Graça que, independente de qualquer coisa, lhe amplia a percepção dos fatos, mudando as perspectivas, mostrando que, mesmo na pior dor, há sempre um presente do amor. Ed fala quase como um suspiro: – Você disse que estamos indo ao encontro de Deus. Mas não consigo imaginar. Essa história que me soa como lenda. – Sobre qual história se refere? – A que nos fala sobre um Deus bondosamente sentado no céu pronto para nos julgar. Desculpe-me, mas tudo o que ouço falar sobre Ele são discursos vazios de amor ou perdão, mas na prática não posso deixar de observar uma enorme lista de exigências que vão do bom comportamento, a devoção religiosa. Da frequência as igrejas ao linguajar usual, da aceitação de dogmas até a própria fé na existência Dele como condição para não ser excluído da lista celestial. Se não passarmos nessa lista iremos para o inferno eterno. Onde existe amor nisso? É tudo no mínimo contraditório. – Não sei se lembra Ed, mas a pouco falei sobre aquele que vocês chamam de Deus. Desculpe se isso lhe soa estranho, mas esse Deus, assim como vocês conceberam, não existe. •

Ed ouvia com cabeça baixa, pensativo, quieto, mas parece que a última frase lhe afeta de maneira especial. Ele levanta os olhos com certa indignação e fala em tom ríspido, voz um pouco alterada, tom acima do usual. – Não existe, como? Então para que toda aquela panacéia de ritos, ofertas, sacrifícios? E aquela multidão que frequenta as igrejas, que lê a Bíblia, que vai aos cultos, missas, encontros? E o que me diz dos sacerdotes, de gente que dedicou sua vida inteira a algo que... que não existe? 145


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– Vocês são seres cheios de fé e nada pode mudar isso. Não importa onde estejam, os caminhos que trilham, as vozes que ouvem, sempre haverá no coração um eco diferente. Um som que lhes impulsiona a acreditar que nada é por acaso e que deve existir uma razão para viver além do nascer, crescer, se reproduzir, trabalhar, comprar, consumir, envelhecer e morrer. Isso nunca será o suficiente porque isso não é o fim. – Mas você não respondeu minha pergunta – Ed ainda parece um pouco irritado - Se Deus não existe, o que dizer de tudo o que é feito em nome dele há tanto tempo? É tudo um engano? – Ed. Deus é uma palavra. D-E-U-S, quatro letras que se usadas em outra ordem, pode virar outra coisa. O fato de chamarem de deus não torna aquilo Deus, seja lá o que for. – Até aí concordo. – Então está começando a me entender. Deus não tem nome porque ele nunca pode ser medido, estudado, limitado, quantificado, definido. – Desculpe anjo, mas ouvir isso me dá a impressão de algo abstrato, distante, quase surreal. – Entendo amigo. Isso acontece porque mais uma vez pensa de acordo com suas características limitadores de tempo, espaço e moral. Se não há definições, logo aquilo não existe, é o que vocês costumam pensar. Se não posso medir, estudar, conter, logo estou falando sobre algo abstrato – é o que pensam – mas permita-me ir um pouco além. Estamos falando de Deus, não de um líder religioso, do chefe de uma fé. Daquele que colocamos na prateleira e de vez enquando vamos buscar para lustrar e guardar de volta. É isso que a maioria de vocês fazem. Ed parece um pouco mais calmo. – Olha sei que tem muita gente que faz pouco caso da fé, eu mesmo até aqui me incluo entre esses, mas há muita gente fervorosa que não abre mão de suas práticas, que mantém uma firme devoção... Ed é interrompido por anjo. – Não há devoção maior do que um coração pacificado. Não

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há maior manifestação de fé do que aquele que ama e vive com simplicidade de olhar, sabendo que os maiores tesouros não podem ser comprados. Esse anda conforme sua consciência e nunca se coloca como juiz de ninguém. Você fala sobre fervor, mas o que é isso senão a convicção de que somos aprendizes da vida, de que tudo fala e que a existência é uma grande mensagem de amor? Ed, meu amigo, o que é fé além da certeza de que quando estou em harmonia, tudo se harmoniza a minha volta? Não transforme o que é mais essencial e bonito nos seres humanos em métodos, práticas e consequencias religiosas, quantificáveis, visíveis e passiveis de medição humana. Por isso disse a pouco que esse deus, criado a imagem e semelhança de vocês, que espera ser agradado para agradar, que precisa da sua reverência para ser bom, que os julga conforme suas práticas religiosas, que mais se parece com um líder religioso mal humorado do que qualquer outra coisa, esse não existe. Ele não é Deus só porque resolveram dizer que é. Ed não diz nada. Ainda sente as palavras do anjo e tenta digeri-las. – Ed, tudo isso virará discurso se não for experimentado. Vamos amigo. Deus o que é- está lhe esperando, mas antes precisamos seguir nossa viagem. Ainda sob o impacto do que ouviu, Ed rasteja os pés e caminha, com medo, confuso e atônito, sem saber para onde vai. Não é fácil sair despedaçado do hospital onde o filho luta pela vida. O sentimento é de impotência. É como se você fosse uma folha de papel no meio de um furacão sem ter onde segurar ou controlar absolutamente nada. A cabeça gira pensando em tudo o que pode acontecer. Está morrendo de medo. Apesar de tudo, não pode deixar que o pânico paralise e deve seguir em frente. 147


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Tentando fazer as coisas que deve fazer decolar seu avião pensando na volta que fará de carro e, quando se dá conta, está enfrentando uma situação de emergência que só aconteceu porque foi negligente. Nem dá tempo para se culpar. De repente tudo o que pensa é não morrer. Usa seus conhecimentos, repensa nas simulações de pane, faz todas as orações que se lembra, mas mesmo assim cai. Depois acorda em um lugar lindo e dá de cara com um anjo que te leva para um rio e do rio para o começo do século passado onde uma mulher morre diante do marido. Como se não bastasse, em seguida vai parar em um mundo escuro, cheio de serpentes comendo pó, passeia em um jardim, brinca com filhotes de leão, revisita o passado, caminha na chuva e se descobre no meio do jardim do Éden. Depois de tudo vem o anjo e diz que Deus está a sua espera. Parecem experiências mais do que suficientes para o dia. Ed pensa em tudo e tenta um ponto de apoio racional para não achar que ficou louco. – E se eu fiquei louco e tudo isso é imaginação? E se eu estiver tendo um sonho maluco? Tudo passa pela cabeça. Enquanto caminham naquele paraíso, desviando de enormes árvores cheias de frutos, cruzando por animais, admirando o rio de águas limpas, pensa no que viveu até ali, em tudo o que o anjo lhe disse, se realmente encontrariam a Deus. Se o Éden não era exatamente uma lenda, provavelmente Deus deveria estar por ali. Como será que Ele era? Barbudo, velho, bravo? Certamente seria estranho conversar com quem sabe tudo e conhece todos os seus podres. Será que estava morto? Anjo não tinha sido claro a esse respeito. Se tivesse morrido, como estaria Beth? E Gabriel?

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“Se não posso fazer nada daqui, melhor não me consumir com esses pensamentos e tentar entender o que está acontecendo” pensou Ed. Eles caminham em silêncio. •

É impressionante como o Éden é belo. A sensação de amplitude é indescritível, parece que o céu é mais alto, os espaços maiores. Existiriam ambiguidades naquele lugar? Tudo parecia tão correto, funcionando perfeitamente, que ficava difícil imaginar que nem tudo fosse perfeito. – Imagino quantas questões devem estar povoando sua mente. Anjo quebra o silêncio. – Na verdade nem sei direito em que pensar. Quantas coisas aconteceram de maneira tão rápida. Tudo é muito esquisito. Ninguém diz nada. Continuam caminhando em silêncio por mais alguns minutos, depois anjo diz: – Antes de encontrarmos a Deus, precisamos visitar mais um lugar. – Que lugar? – Você verá. – Por que não me diz as coisas claramente? Aposto que seria muito mais fácil. – Não se afobe, Ed. Para tudo existe uma hora e, por enquanto, as coisas devem ser assim. Ed suspira em tom de conformidade. – Estive pensando em Deus. – O que pensou? – O que Ele pode querer comigo? – Por que acha estranho que Ele queira algo com você? – Se for Ele quem cuida do planeta e do universo, acredito que me encontrar não seja uma das prioridades de sua agenda. 149


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– Sabe, Ed. Uma das coisas que mais faz com que se sintam longe de Deus, é quando começam a limitá-lo de acordo com suas limitações. Se Ele não fosse capaz de se relacionar com humanos, simplesmente não seria Deus. – Como posso acreditar que Ele se preocupa com os humanos depois de tudo o que vivi? – A que exatamente se refere? – Principalmente ao acidente com Gabriel. Responde Ed com firmeza. – Você acha que foi Deus quem quis assim? – Não devo achar? Sabe me incomodo muito com essa ideia de dizer “graças a Deus” quando algo bom acontece e, quando o acontecimento é mal, dizer que Ele não quis. Ou Ele interfere nas coisas ou não interfere. Não dá pra pensar que Deus leva os créditos pelo que é bom e não se responsabiliza pelo que é mal. – Ed, me diga, o que é bom e o que é mal? – Lá vem você… – Só me responda. – Ver meu filho morrendo é definitivamente mal. – Não há dúvidas nisso. Você pensa que Deus quis assim? – Sinceramente não sei. Mas mesmo que não quisesse, pelo menos poderia ter evitado. – Ed, sei a dor que tem enfrentado e o quanto tudo o que viveu tem lhe consumido, mas, exatamente por isso, tente mudar suas categorias de percepção. Procure parar de olhar para os acontecimentos a partir de um juízo moral e lembre-se que é você quem dá significado as coisas. – Eu sei, já falamos muito sobre isso, mas que significado um pai pode encontrar quando o filho está entre a vida e a morte no hospital? – Nem sempre você entende a razão de determinados acontecimentos. Tem vezes que enfrentá-los é muito difícil e dói demais.

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Mas lembre-se: o real significado sobre qualquer acontecimento existe dentro de você. Lembra quando falávamos sobre o olhar que reflete seu interior? É sobre isso que me refiro agora. – Lembro sim, mas como isso pode me ajudar a encontrar significado em tanta dor? Será mesmo que tenho que ficar buscando significado em tudo o que acontece? O tom de Ed é quase de lamento, seus ombros encolhem enquanto fala. Anjo responde com suavidade: – Significado não é algo que se busca. Significado é algo que se encontra a partir do que é. Seu olhar reflete o mundo que vive dentro de você. Se ele estiver pacificado, ainda que esteja diante da pior tragédia e sentindo uma imensa dor, naturalmente tudo aquilo será processado em sua mente como fruto do amor. E não há outro jeito de acontecer porque, como já te expliquei, os acontecimentos são mídias que nos ajudam a acessar nosso mundo interior e colocarmos para fora o que nos habita. Ainda que muitas vezes doa - e pode doer muito - o impacto lhes despertará para o bem. – Isso parece difícil. – Isso é fruto de uma caminhada, Ed. É reflexo de suas escolhas, dos passos que dá, do que considera prioridade, daquilo que você mesmo vai construindo em seu coração enquanto vive. Pense que cada acontecimento, dos mais simples e cotidianos, aos mais complexos e dramáticos, são apenas ferramentas usadas em sua própria construção. Você mesmo se constrói a partir da maneira como usa cada ferramenta. O que importa vive em você, o que está fora, é só um meio para ajudá-lo a enxergar. – O que você tem ensinado me parece tão distante de tudo o que ouço por aí. Talvez se soubesse antes que as coisas eram desse jeito teria me poupado de tanto sofrimento, de mágoas desnecessárias. É estranho porque enquanto ouço o que você diz, tenho um sentimento ambíguo: por um lado acho bom, sinto paz, mas por outro me sinto perdido. Parece que a responsabilidade de ganhar o jogo está em minhas mãos e isso me amedronta. 151


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– A vida não é um jogo. Esse sentimento ambíguo só existe porque sua mente está programada para pensar de acordo com o fluxo da Terra, onde alguns determinam como as coisas devem ser. Tudo o que tenho lhe dito o leva a outra direção, ao contra fluxo, e é natural que nessa virada você fique tonto, tenha medo. Mas não há razão para isso meu amigo. Anjo para e sente se Ed está compreendendo, dá um leve sorriso e continua: – Tenho lhe falado sobre coisas absolutamente essenciais em qualquer ser humano. A dificuldade em aceitar que tudo é muito mais simples do que pensam nasce do elevado nível de intoxicação mental a que estão submetidos. – A que exatamente você se refere? Ed interrompe com curiosidade enquanto cruza os braços lentamente. – A maioria de vocês não vive. Acordam pela manhã, têm seus negócios, prioridades, famílias, preocupações, crenças... Sentem como se tivessem o controle, agem como se a vida respondesse a seus comandos, mas tudo isso é ilusão. – Como assim? – Vocês só seguem o fluxo. Andam conforme as ondas levam. Vivem de acordo com o que cada cultura convencionou como modelo ideal. Nesse caso mudam os símbolos, os discursos, a aparência e os métodos, mas o caminho é sempre o mesmo. – Que caminho é esse? – Ed, a caminhada de cada ser humano explica quem ele é. Cada indivíduo revela sua força e suas fraquezas naquilo que escolhe, teme e ambiciona. Você não conhece alguém somente pelo que diz ou aparenta, mas pelo caminho que escolheu trilhar. Suas ambições gritam ao mundo quem é você. – Isso faz sentido. Parece que tem lógica. – É lógico, mas poucos percebem. Poucos entendem que o mundo real é o que vive dentro de cada um e a partir dele irão projetar para fora o que são. Anjo percebe que Ed presta atenção.

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Parece cada vez mais disposto a sorver as palavras do anjo que dessa vez se antecipa a qualquer pergunta: – Deixe-me explicar: Já falamos muito sobre o fato de que os acontecimentos, sejam eles da natureza que forem, são apenas meios para nos conhecermos. Nesse caso a lógica é a mesma. Você está entendendo, Ed? – Acho que sim, continue com calma porque às vezes acho tudo isso muito complexo. Anjo esboça um sorriso e continua: – Parece complexo, mas é mais simples do que imagina. Preste atenção. Quando você olha para uma paisagem linda, um por do sol, o mar, pássaros, árvores e se sente extasiado, relaxado, feliz com tudo aquilo, está projetando naquele ambiente um sentimento que já existia dentro de você. Assim como a melancolia de um dia frio, úmido e chuvoso não está no dia, mas saiu do seu coração. Anjo olha para os lados, parece observar a beleza selvagem cheia de cores contrastantes daquele paraíso. – Enquanto caminham pela Terra vocês tendem a projetar em lugares, objetos, pessoas, situações, aquilo que está acontecendo no ambiente da interioridade. Muitos acabam acreditando que o que sentem tem causa no que vem, quando na realidade é o contrário: Cada um enxerga conforme os olhos refletem o que está no coração. – Ouvir isso me dá uma sensação estranha. Parece que nada existe de verdade, que tudo é ilusão. Ed fala com tom de voz baixo, parece um pouco incomodado. – Ed, quem cria a ilusão é o olhar. As coisas estão ali, existem de verdade, mas não necessariamente da maneira que enxergam porque quem dá significado a cada coisa são vocês. É por isso que nascem os símbolos. – Quais símbolos? Ed pergunta quase interrompendo anjo. – Quando elegem determinadas coisas e dão poderes específicos a elas, estão criando símbolos. Por exemplo, o dinheiro. Quantos matam e morrem por ele? Quantos mentem, se transfor 153


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mam, traem por acreditarem que, quanto mais dinheiro acumularem, mais felizes serão? – Ok, anjo. Concordo em parte com você. Mas tente viver sem dinheiro. Você não come, veste ou mora. Tudo bem existem coisas mais importantes do que o dinheiro, mas consegui-lo é muito difícil e a vida sem ele é uma desgraça. Não dá para fugir disso e simplesmente dizer “ahh, vou viver de brisa”. – Vocês criaram uma sociedade que precisa do dinheiro e obviamente vivem as consequências disso. Como você disse não é fácil conquistá-lo e sei que isso requer esforço e dedicação. Mas entenda amigo, não é sobre isso que me refiro e tão pouco pretendo entrar no mérito de que vocês deveriam ou não ter criado o mundo assim. Ed interrompe: – ... Eu não criei isso! Por mim as coisas seriam diferentes. Quando nasci, a vida já era assim. – Você vive o reflexo do que foi feito pelos que viveram antes, mas não é por isso que deixa de recriar seu mundo todos os dias. Não há dia em que você não tenha a chance de se recriar; fazer outras escolhas e começar um novo mundo a partir de você. – Mas isso não mudaria nada o fato de que as regras estão aí e eu teria que continuar a segui-las. – Nesse caso é assim que você as enxergaria: regras é só isso. Existem várias maneiras de seguir as regras, Ed. Você vive em sociedade, sabe como as coisas devem ser, respeita as leis, mas faz tudo conforme uma nova ordem interior. Quem consegue enxergar o mundo consciente do que realmente vale, do que é essencial ou não, segue as regras, respeita os limites pré-estabelecidos seja por indivíduos ou pela sociedade, mas não faz seu caminho a partir dessa premissa. – Pode explicar melhor? – Estou querendo dizer que cumprir as regras é importante para que vivam bem em sociedade, mas não são as regras da socie-

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dade, bem como aquilo que a maioria convencionou como prioridades, que devem tangenciar sua caminhada. A simples percepção disso subverte a ordem das coisas e evita que você seja levado pelo fluxo da Terra. – Você já tinha falado sobre esse fluxo... – Só quem cresce em consciência o identifica. É aquele que busca o conhecimento como bem valioso e entende que a sabedoria é melhor do que o ouro, quem faz seu próprio caminho. Caso contrário serão levados pelo fluxo da média, aquele que se intoxicou com as mensagens de que vale o que aparentam ser, que ter é sinal de prosperidade, de que mais vale o entretenimento do que o conhecimento. Esses preferem fugir da realidade, construir mundos a sua imagem e semelhança do que se enxergarem de fato. – Quando penso que você foi longe demais parece que dá mais um passo. Ed fala em tom de bom humor: – Mas me diga, quem alimenta esse fluxo? – Sempre há um passo a mais, meu amigo. Sobre quem alimenta o fluxo, existem setores da sociedade que teoricamente se beneficiam quando a maioria permanece cega em relação ao próprio caminho. Mais do que isso. Quanto menos humano, com suas peculiaridades, questões e ambiguidades cada humano for, menos individuo e mais parte da massa coletiva será. Quanto mais homogênea a massa, mais fácil de compreender, direcionar e manipular seus gostos, preferências e intenções. – Aquelas serpentes que vimos antes. As que se alimentavam das produções humanas. Elas têm algo com isso? – Sim Ed! Exatamente o que vimos. É um processo de retroalimentação onde aquilo que vocês são ou anseiam ser é trabalhado e devolvido em formato de consumo numa cadeia que só aumenta. Esse é o mundo onde consumo virou filosofia de vida. – Acho que estou começando a entender. Conhecimento é poder e ignorância escravidão. 155


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– É por aí. Pense quais setores se beneficiam com a ignorância da média. Pense em técnicas de comunicação que convencem e persuadem para que as coisas se mantenham como são, olhe para aquilo que grande parte das pessoas considera importante no seu dia a dia e entenderá o fluxo. – Não sei... – Ed mexe em uma pedra enorme repousando sobre a grama verde, úmida, quase brilhante. ... Às vezes isso tudo me soa ideológico demais. – Isso não é ideologia. Eu só tenho falado sobre a essência das coisas, sobre do que são feitas. Quando você entende o que constitui um sistema, seja ele qual for, dificilmente se deixará dominar por ele. Conhecerás a verdade e a verdade vos libertará. – Já ouvi essa frase... –Escutou de várias maneiras em diversas situações, em tons inimagináveis. Mas talvez só agora esteja ouvindo. Ed estava atento a tudo que o anjo lhe dizia. Por mais que aquilo não lhe parecesse novo, a sensação que cada palavra lhe iluminava a mente e clareava a percepção era quase palpável. É como se aquela conversa estivesse invertendo sua maneira de sentir a vida criando uma grande revolução interior. Mas ainda tinha suas próprias questões. Pensava em Gabriel, Beth, nas coisas que tinham deixado. Estranhamente pensar naquilo não lhe fazia mal. Parece que o mundo de angústia tinha desaparecido e isso era fundamental para que conseguisse se relacionar com as dores sem se deixar consumir por elas. Cada acontecimento permanecia vivo em sua memória. Sabia de Gabriel, Beth, da queda do avião. Entendia que estava em um lugar chamado Éden pelo anjo e não tinha certeza de estar morto ou vivo, mas estranhamente nenhum desses pensamentos podia lhe fazer mal. É como se aquela caminhada estivesse construindo uma for-

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taleza interior que lhe mantinha abrigado, seguro e em paz... Paz. Fazia tempo que aquela parecia uma palavra distante. Os acontecimentos recentes instalaram em sua alma uma espécie de veneno letal. É assim que sentia até aquele momento de paz. Por um milésimo de segundo sentiu culpa por ter paz diante da ignorância do rumo que a vida de sua esposa, filho e dele próprio estavam tomando, mas parece que as palavras do anjo começavam a fazer sentido. De repente sentia como se a paz não precisasse de nenhum elemento exterior para ser real. Começou a entender que aquela era uma condição interior que poderia existir apesar dos pesares, mesmo enquanto sentia dor. Estava leve, quase feliz. •

– Pai, você está aí? Uma voz de criança interrompe seus pensamentos. Ed se assusta e procura encontrar de onde sai aquele som. –Pai, pode me ouvir? Ed sente seu corpo inteiro arrepiar. Uma alegria imensa lhe invade quando reconhece aquela voz: Gabriel. Ele se agita, olha para os lados, mas não vê ninguém. Até mesmo anjo parece ter desaparecido. Desde que chegou ao Éden tinha perdido por completo a noção do tempo. Poderia estar lá há algumas horas ou muitos anos, não tinha como aferir. A sensação era de tamanha unidade com tudo o que existia naquele lugar que lhe dava a impressão de fazer parte do ambiente tão belo e selvagem. Caminhou por lugares inimagináveis, ouviu de um anjo palavras que poderiam mudar sua vida por completo e agora quando começou a sentir paz, quando parecia que estava aprendendo a lidar com o turbilhão de emoções que lhe sacudiu nos últimos tempos, ouve a voz de Gabriel. 157


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Seria ilusão? Será que aquela voz fazia parte de um quadro de loucura que lhe fazia acreditar que vivia no jardim do Éden ao lado de um anjo? Depois de tudo o que viu e ouviu não descartava mais nada. Tinha visto demais para acreditar somente em seus falhos sentidos. Por mais que sentisse como se cada célula do seu corpo estivesse se revirando, tentou se acalmar e discernir de onde vinha aquela voz. – Pai, eu te vejo. Estou aqui perto, tente me ver. Definitivamente era a voz de Gabriel. Ed se encheu de alegria. Aquela era a voz do seu filho, cheio de vida, o mesmo das corridas no parque, nas tardes de piscina no clube. Era o tom inconfundível, curioso, esperto e feliz do seu menino. – Gabriel, meu filho, estou lhe ouvindo! Onde você está? Quero ir até aí! Ed mal conseguia conter tamanha agitação. Ele não via o filho, mas podia ouvi-lo. – Estou perto, pai. Estou aqui bem pertinho. Como é bom poder te ver! – Mas eu não te vejo, filho. Sabe o que está acontecendo? – Não sei por que não pode me ver, mas deixa eu te abraçar... Oh pai, estou tão feliz! A voz de Gabriel era exultante. É como se estivesse comemorando algo. Ele sorria e parecia realmente feliz. Ed estava confuso, mas a confusão e a impossibilidade de enxergar o filho não superavam a alegria de ouvi-lo e, sobretudo saber que estava bem. Fazia tempo que não sentia Gabriel em meio a tanta felicidade. Por mais que não estivesse entendendo em que circunstâncias aquele encontro se realizava, a simples informação de que seu filho estava bem era suficiente para banhá-lo em alívio. – Filho, não sei até quando ficaremos juntos aqui, mas não consigo nem dizer o quanto estou feliz em poder te abraçar. Você nem imagina o quanto te amo. Por mais que temesse, Ed parecia falar sobre o que sentia. Não há explicações, mas o sentimento é

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que realmente tudo ficaria bem. Apesar de não vê-lo, Ed sentia que Gabriel estava por perto e lhe ouvia atentamente: – Sabe filho, ultimamente tem acontecido coisas bem estranhas com todos nós. Parece que temos viajado, conhecido pessoas e aprendido muitas coisas. Tudo isso tem me transformado em alguém melhor e construído certezas que antes eu nem poderia pensar. Então, não sei o que está acontecendo e nem para onde vamos, mas sei que é tudo para nosso bem e, onde quer que estejamos indo, estaremos sempre unidos pelo cordão do amor, que não quebra e nunca se desfaz. Isso vale mais do que tudo. Ed chorava, mas não era de tristeza. Não sabia se o filho precisava ouvir ou ele dizer aquelas palavras. Depois que falou não ouviu resposta de Gabriel. Ainda que não pudesse vê-lo, sabia que o filho não estava mais lá. Ele tinha ido. – Não se preocupe Ed. Esse não foi o último encontro. Gabriel está muito mais perto do que imagina. A voz do anjo rompeu seus pensamentos. Anjo, que parecia ter sumido, aparentemente observava de longe, sobre uma pedra. – Onde você estava? Perguntou Ed. – Por perto. Limitou-se anjo a responder. – Então viu tudo o que aconteceu. Ed parecia sob o impacto daquele encontro. Sua voz ainda estava embargada. – Vi e ouvi cada palavra. – Por que não consegui ver Gabriel? Para onde ele foi? – Você e Gabriel tem uma ligação que excede todas as coisas. Anjo falava pausadamente, quase em tom solene: – Vocês são ligados pelo amor e isso é maior do que tudo. Não há distância ou tempo que separe o amor. Ainda que vocês vivam no tempo da relatividade e convivam com todas as implicâncias desse fato, o amor os mantém fortes e unidos. É só por isso, pelo amor, que não sucumbem ao vácuo de existir em meio a tanta ambiguida 159


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de, onde tudo é relativizado, mesmo aquilo que é mais essencial. Toda sua relação com Gabriel se baseia nesse vinculo que nunca quebra. Não pode vê-lo porque aqui você só enxerga até onde sua percepção consegue alcançar e ela é limitada por seu entendimento. Percepção e entendimento são palavras diferentes, mas que estão intimamente relacionadas. Você só percebe quando entende e, ao perceber, passa a entender cada vez mais. – Ainda assim não entendo por que não pude ver meu filho. Ele estava perto, parece que me via, mas não pude vê-lo Ed fala como quem lamenta para si mesmo. – Ed, preste atenção no que vou lhe dizer. Cada coisa que vê aqui tem correspondência com algo que acontece dentro de você. Nada aqui pode ser visto como separado, como avulso de sua realidade interior. – Essa parte entendi, mas como você mesmo disse, eu e Gabriel estamos unidos pelo amor, então ele faz parte de minha realidade interior. Ed protesta. – Isso explica o fato de terem conversado. Mas não pode vê-lo porque sua consciência sobre os últimos fatos está limitada. É preciso um pouco mais de tempo para que entenda a razão disso tudo e aí sim terá seus olhos abertos. Enquanto isso, esse mundo em que estamos, o jardim do Éden, refletirá apenas até onde seu entendimento permitir. É por isso que precisamos caminhar um pouco mais. – Para onde vamos? Ed parece resignado. – Já te disse. Nosso destino é encontrarmos com Deus. – E por qual caminho iremos? – Siga-me e saberá. Anjo responde com naturalidade enquanto inicia alguns passos em direção a um lindo rio, enorme, com águas tão claras que era possível enxergar suas profundezas. – Eu não tinha visto esse rio aqui. Ed pensa alto. Anjo não responde. Somente dá um sorriso e apressa o passo.

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Ed ainda está sob o impacto daquele encontro com Gabriel. De repente sentiu-se inundado de paz e alegria. Não sabia para onde Gabriel tinha ido e nem de onde veio, mas estava no lucro. Há pouco tempo – apesar de não conseguir determinar quanto-sentia que o filho tinha ido embora. Viveu horas sob muita tensão, sofrendo a imensa dor da perda. Quando soube do acidente com Gabriel certamente o que mais lhe afetou foi a sensação de perda. Como se aquele que significava o bem mais precioso tivesse sido arrancado de seus braços e lançado em um abismo sem fim. Ainda que a chegada naquele lugar misterioso e a conversa com anjo tenham lhe curado uma imensa ferida, não podia deixar de pensar no filho, na esposa e como estavam. Falar com Gabriel lhe abriu as janelas da alma e deixou que a luz voltasse e iluminasse o que nem lembrava existir. Ouvir sua voz e saber que estava bem era suficiente para que aos poucos a alegria retornasse. Fez com que sentisse que no fim tudo daria certo. Não importa o rumo das coisas, Gabriel ainda existia e isso refrigerou sua alma. Agora Ed já não antecipava possíveis finais. Seu coração estava em paz e, ao invés de esperar que as coisas terminassem dessa ou daquela maneira, preferiu simplesmente confiar, seguir seu amigo de caminhada e ver o que a vida lhe reservava. Não importa para onde iam. Sabia que naquela caminhada havia muitas lições e, onde quer que estivessem indo, seria para o bem. Seria em paz. Daquele ponto em diante a caminhada seguiu em silêncio. Às vezes anjo olhava para trás como quem cuidasse do amigo, observando-o, disponibilizando-se a ajudá-lo sempre que tentava subir em alguma pedra ou passar pela mata fechada. Engraçado como antes o rio parecia mais perto. Quando retomaram os passos podia ouvir o barulho das águas, enxergar sua claridade e transparência. Parecia questão de 161


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poucos metros. Só depois percebeu a mata fechada, as pedras, as trilhas que teriam que passar. Mas aquilo não era problema, não tinha pressa. Caminhou conforme a necessidade e sentiu paz. Ainda tinha muitas dúvidas, queria saber quem de fato era aquele misterioso que se apresentou como anjo. De onde vinha aquela sabedoria? Como ele conhecia tão bem os detalhes de sua vida, de onde veio, o que sentia? Era como se conhecesse aquele homem ha muito tempo, mas só agora tivesse tido a oportunidade de conversar tão de perto. Sentia uma estranha paz ao seu lado e, ainda que se incomodasse em admitir para si mesmo, a sensação de acolhimento era imensa. Por um tempo pensou naquilo durante a caminhada. Em milésimos de segundos quis tocar no assunto, insistir para que anjo explicasse com mais clareza sobre aquele lugar e a razão de estar ali. Depois pensou que se quisesse falar, anjo teria dito. Se não disse, melhor segui-lo e ver para onde iriam. Se Deus estava a sua espera, melhor não tentar contrariá-lo e simplesmente caminhar em sua direção. Aquele lugar chamado Éden é diferente de tudo o que Ed já viu. O que mais chama a atenção é a explosão de cores e vida para todos os lados. Há uma variedade assustadora de flores, árvores e frutos. Praticamente todas as árvores são frutíferas e suas folhas carregam o ambiente com um delicioso aroma. O céu é revestido de um azul impressionante que não perde a beleza mesmo enquanto nuvens carregadas passeiam sobre aquele incrível lugar. Os sons vêm de todos os lados, são vários, mas estranhamente harmoniosos. O agitar das plantas, os rios, os animais... Todos convivendo em paz, todos contribuindo a seu modo. É difícil precisar por quanto tempo Ed e anjo caminharam.

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Parece que depois de tanta conversa, tantas perguntas e respostas, resolveram ficar em silêncio. De vez enquando anjo sorria para o amigo como se estivesse querendo animá-lo ou simplesmente tranquiliza-lo. Mas não era necessário. Estranhamente Ed estava se acostumando com todas as mudanças e, apesar de não saber explicar a razão, estava em paz, acreditando que as coisas dariam certo. Parece que o encontro com o filho lhe fez bem. Há muito tempo precisava de um momento como esse: de confissão de amor, de demonstração verdadeira de carinho com Gabriel. Enquanto caminhavam lembrou-se de alguns momentos em família. Beth preparando um almoço de domingo enquanto ele e o filho desenhavam deitados no tapete da sala. Sorriu ao se recordar do dia em que Gabriel, ainda pequenininho, aproveitou um breve momento de descuido dos pais e “roubou” o batom da mãe, pintando o próprio rosto e aparecendo na sala como se estivesse pintado de palhaço. Primeiro teve um impulso de repreendê-lo, depois todos explodiram em risos. Aproveitaram a câmera digital por perto e registraram o momento que agora repousava sobre sua mesa de computador dentro de um porta-retratos. Quanto mais Ed e anjo caminhavam, mais lembranças povoavam sua mente. Lembrou das noites de sábado em casa com pizza e DVD. Das caminhadas de domingo à tarde com Beth no parque empurrando o carrinho de bebê. Também pensou nos amigos. Em Moreno e sua eterna preocupação paternal disfarçada de rabugices. Cris e seu inseparável cigarro, às vezes com jeito duro, direto, mas sempre amorosa. No seu Jonas e sua eterna cumplicidade nos momentos difíceis. Pensou nos colegas, amigos, em gente que conviveu e que apenas cruzou o caminho. 163


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Reparou que enquanto os pensamentos fluíam, pareciam se dirigir a outro “departamento” de sua mente. Como se, apesar de serem as mesmas memórias de sempre, agora refletiam de outro jeito, outras cores, significado, criando um novo cenário para cada ambiente. Mesmo os pensamentos mais simples e cotidianos eram revestidos de uma aura especial. Nada mais parecia sem importância. Até mesmo pessoas que quase não tinha falado, passageiros que ainda se lembrava, o caixa do banco, o garçom de um restaurante, o porteiro do prédio, personagens que surpreendentemente voltavam a memória com outra importância. Sentia como se cada um deles tivesse influenciado sua história de alguma maneira e representado algo que só agora podia sentir. À medida que as lembranças lhe visitavam, Ed se entregava a cada pensamento, deixando que lhe conduzisse para onde fosse necessário. Cada pensamento conectava em outro, proporcionando uma estranha viagem emocional. Nem reparou quando molhou os pés. Estava absorto, maravilhado com a sensação de que seu passado lhe visitava de maneira viva e especial. Ele não estava sonhando. Caminhava consciente, sabia onde estava, mas conseguia dividir sua consciência daquele momento com cada lembrança que lhe visitava com efeito terapêutico, curador. Agora o barulho de água corrente, contínua. Ed caminha, aos poucos despertando daquela viagem arrebatadora. Está dentro do rio. Anjo, poucos metros à frente, permanece parado a espera do amigo que lentamente se recorda para onde iam, até perceber que chegaram ao rio. É para lá que precisavam ir. Anjo disse que aquela caminhada os levaria a presença de Deus.

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A sensação da água morna e cristalina envolvendo seu corpo em meio a paradisíaca paisagem era sensacional. Naquele ambiente tudo contribuía para um enorme sentimento de paz interior. Era realmente algo impressionante. – Siga-me Ed, quero que visite um lugar. Diz o anjo que mergulha antes que o amigo lhe pergunte qualquer coisa. Ed também mergulha e segue o anjo. Não havia peixes. Dentro da água a sensação de paz era indescritível. É como se estivessem sendo acolhidos no interior de um ambiente único e isolado de qualquer angústia. Como se o mal não tivesse acesso as profundezas daquele rio que abraçava, envolvia e conduzia os dois viajantes rapidamente. Sim, eles não precisavam bater braços e pernas para nadar. A corrente contínua aconchegava os corpos e os levava rapidamente para o outro lado. Passaram por uma belíssima vegetação aquática. Plantas, pedras e areia compunham o cenário iluminado pela luz que transpassava com facilidade as águas claras. Bastava soltar o corpo e deixar que a corrente os levasse. Ed nem estranhou que existia oxigênio lá embaixo. Pelo menos é assim que sentia já que podia respirar tal como foi naquele primeiro rio que os levou para Paris de antigamente. Para onde estavam indo? Parece que foi a primeira vez que Ed pensou realmente sobre isso depois que entrou na água. Foi um breve pensamento, uma ponta de curiosidade que nem teve tempo de lhe afetar porque logo o cenário mudou. O barulho da correnteza diminuiu. A iluminação, clara e viva foi escurecendo. Já não via pedras, plantas, areia. Sentiu seu corpo flutuar por alguns instantes e depois os pés pousaram em chão firme. Estava escuro, mas mesmo assim era possível perceber que não estavam mais dentro da água. Incrível, de repente atravessa 165


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ram uma espécie de fronteira e sentiu com clareza a mudança de ambiente, a troca do molhado pelo seco, do claro pelo escuro, o som da correnteza, da água morna que os conduzia pelo silêncio que mais parecia ser de um quarto escuro no meio da noite. – Onde estamos? Ed perguntou para anjo sem saber por que sussurrava. – Não se preocupe. Somente veja. Anjo foi econômico na resposta. Permaneceram em silêncio por mais algum tempo. Definitivamente parecia ser um quarto escuro. Talvez alguém estivesse dormindo. Um barulho. A fresta de uma porta abre lentamente deixando vazar a luz que vinha do outro lado. Por alguns instantes a porta não se move, mas é possível ver uma mão segurando a maçaneta. Alguém comenta alguma coisa. Um sussurro, aparentemente duas pessoas conversando do outro lado. Barulho de porta abrindo lentamente. Agora é possível enxergar a silhueta de uma mulher baixinha, cabelos loiros, óculos na ponta do nariz. Ela abre a porta e caminha com cuidado. Segue olhando fixo para a outra extremidade do quarto enquanto passa por Ed e anjo sem o menor sinal de que os dois estejam ali. Ed sabe que ela não pode lhes ver. – Isso é uma sombra de algo que já aconteceu. Não podemos interagir, somente observar. Fala anjo lentamente. Ed se arrepia. Sente como se aquela senhora não fosse uma estranha. Ela caminha sobre o taco de madeira, mas quase não é possível ouvir seus passos amortecidos, leves e constantes. Enquanto a senhora caminha, uma segunda pessoa abre a porta do quarto e fica parada, esperando o que quer que fosse acontecer.

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Ed olha para a senhora e, com a porta aberta e o quarto um pouco mais claro via além da silhueta. Acompanha a mulher com os olhos até perceber que ela se dirigia a um berço. No quarto o silêncio é total. Se não fosse um breve cochichar entre a mulher e a pessoa parada na porta, seria silêncio absoluto. A mulher para e toca na criança que não se mexe. Ela insiste mais um pouco, acaricia seus cabelos até que um menino aparentando por volta de três anos de idade se ajeita. Ele dormia dentro de um berço e parecia despertar de um sono profundo enquanto a senhora tentava pegá-lo no colo. Parece que ela percebe que a criança dorme profundamente e desiste de acordá-lo. Olha para a pessoa parada na porta, faz um sinal com o rosto como se quisesse dizer que iria pegar o menino. Depois se volta para o berço e cuidadosamente o envolve em seus braços. Quando consegue segura-lo o menino acorda, balbucia algumas palavras, passa as mãozinhas fechadas sobre os olhos e se aconchega nos braços da senhora. O silêncio permanece. Ed e anjo permanecem parados no meio do quarto, quietos, esperando o desfecho daquela cena. Andando cuidadosamente com a criança no colo, a senhora passa perto dos dois, mas agora, com mais iluminação, Ed consegue identificá-los. – Espere. Essa é minha avó e aquela criança sou eu. Diz quase engolindo as palavras. Anjo não responde. Lança um breve olhar sobre e Ed e logo se volta para a cena. A mulher caminha com a criança até a porta e a pessoa que ele não consegue identificar, talvez uma amiga da avó, passa a mão sobre a cabeça do menino que ainda dorme, depois fazem alguns comentários e seguem em direção a escada. 167


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Ed caminha até a porta com a intenção de segui-las. Descem uma escada acarpetada em espiral, passam pela sala com cortinas estampadas, pufes e sofás claramente da década de setenta e se dirigem até a porta de saída. Lá fora um Dodge branco os aguarda. Ao vê-las o motorista liga o motor, destrava as portas e sobe o encosto do banco da frente para que a senhora entre com a criança. Depois a outra mulher entra, volta-se para o banco de trás, faz mais alguns comentários. O motorista olha pelo retrovisor, se ajeita no banco e partem. – Podemos segui-los? Para onde vão? Ed pergunta com certa ansiedade. Ele reconheceu a avó e a si mesmo. Não consegue se recordar daquele momento, mas como poderia lembrar-se daquela noite se, além de estar dormindo, era apenas uma criança? Não sabia para onde iam, mas sentia que era importante. Queria segui-los, precisava saber para onde iam. Antes que anjo respondesse o ambiente mudou. A casa praticamente evaporou diante dos seus olhos. Cada objeto, cada som, cedeu espaço a outro, depois outro, até que estivessem em um lugar diferente. Parecia a sala escura de uma casa. Pela falta de luzes ou movimentos pressupunha que não tinha ninguém. Parados naquele lugar tudo o que conseguiam escutar era o som que vinha de fora. A cortina entre aberta deixava vazar a claridade dos faróis dos carros e da iluminação da rua. Um som de carro parece mais perto. Ele freia em frente a casa e rapidamente ouve-se o motor desligando, depois o barulho de portas e vozes que se aproximam e caminham em direção a entrada da casa. Passos cada vez mais altos. – Que lugar é esse? Ed pergunta sem paciência para esperar. – Acalme-se amigo. Não disperse sua atenção, somente observe. Responde anjo ainda atento a cena.

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Chave na porta, luz acessa e lá estavam eles: A avó com Ed criança no colo, a senhora que a acompanhou no quarto quando foi buscar o neto e o motorista do carro: Um senhor magro, com poucos fios de cabelos repuxados por gel, aparência cansada e de pouca fala. – Vou colocá-lo na cama. Diz a avó dirigindo-se a entrada do quarto que ficava atrás de um biombo de madeira. O casal sentado um ao lado do outro no sofá marrom não diz nada. Ficam em silêncio até que Dona Beatriz retorna a sala. – Será que Michel tentou ligar? Pergunta com aflição e aparência cansada. – Se tentou imaginou que fomos buscar seu neto. Deve tentar novamente. Responde a outra mulher, provavelmente esposa do motorista, uma mulher baixa e magra, cabelos tingidos de loiro, presos sobre a cabeça. Ela parece tentar acalmar Dona Beatriz que visivelmente está aflita: – Acalme-se querida. Não adianta se preocupar ou ficar telefonando para o hospital. Michel está lá desde o meio da tarde. Se algo tivesse acontecido, já teríamos notícias. Tente relaxar e descansar um pouco. Daqui a pouco Ed deve acordar e vai precisar de você. Ed observa mudo, com cabeça levemente baixa e olhos fixos em cada movimento, atento a cada fala de um momento de sua vida que não se recorda, mas que começava a entender. – Não consigo dormir. Vou ficar aqui sentada esperando boas notícias. Responde Dona Beatriz olhando para o aparelho de telefone. – Faça como quiser. responde a amiga levantando-se do sofá – Vou preparar um chá para nós três. Uma bebida quente e doce acalmará os ânimos. – Não se preocupe comigo, querida. O homem magro fala pela primeira vez. Depois se volta para Dona Beatriz e fala com ternura. 169


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– Quanto a você, Beatriz, ainda que não consiga dormir procure deitar e relaxar um pouco. Vá até o quarto, deite-se perto do Ed e tente esvaziar a mente. Da minha parte ficarei acordado em plantão ao lado do telefone. Se o Michel ligar lhe avisarei imediatamente. Qualquer notícia você saberá. A proposta do homem parece tranquilizar Beatriz que nem espera o chá. Levanta-se lentamente, agradece ao casal de amigos e caminha em direção ao quarto. – Vou me deitar, mas sei que não conseguirei dormir. Se tiverem alguma notícia, por favor, me avisem na hora. – Pode deixar – responde a amiga em tom tão baixo que mal puderam escutar. Dona Beatriz segue em passos lentos, aflita, preocupada. Vai descansar na expectativa de boas notícias. •

Ed continua atônito com tudo o que vê. Pensou que já estava habituado com as surpresas do Éden e os caminhos propostos por anjo. Mas aquilo parecia demais. Nunca pensou em revisitar seu passado dessa maneira, quanto mais naquele dia. Ele sabia que muitos dos seus traumas nasceram alí. Os acontecimentos daquele longínquo 1977 marcaram sua vida e instalaram nele questões que, apesar de se projetarem em formas diferentes ao longo do tempo, eram exatamente as mesmas: Por que tanta coisa ruim pode acontecer a pessoas boas? Por que comigo? Por que meus pais? Ao longo dos anos essas perguntas lhe visitavam, açoitavam e projetavam em quase tudo, tomando outras formas, usando outras palavras, mas no fundo ele sabia que aquele vazio, a sensação de que nunca estava completo residia ali e provavelmente tenha começado naquela noite quando não pode voltar para casa. Quando deixou de ter os cuidados do pai, o carinho da mãe, o aconchego do ninho de proteção e amor. Difícil, especialmente para uma criança de três anos, filho único, dependente em tudo.

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O telefone toca estridente interrompendo os pensamentos de Ed. O senhor magro e de pouco cabelo levanta-se com agilidade e caminha até o aparelho. Sua esposa também se levanta aflita, mas logo muda a rota em direção a porta do quarto onde sai Dona Beatriz. Ela abraça a amiga que se posiciona ao lado do homem. – Alo... Sim Michel, diga compadre, que notícia nos trás? O homem fala baixo e escuta por longos segundos sem olhar para as mulheres que, aflitas, tentam arrancar alguma informação. Ed observa com extrema atenção. – Ok meu amigo. Estamos lhe esperando. Foi tudo o que o homem disse. Ele desliga o telefone e as duas senhoras despejam perguntas: – O que ele disse? – Por que demorou tanto para ligar? – Como estão Vitor e Rose? – Vitor e Rose... – Repete Ed quase sussurrando. – Você sabe por que estamos aqui? Diz anjo voltando-se para Ed. – Vitor e Rose... meus pais. conclui Ed aparentemente sem ouvir a pergunta de anjo. – Sim. São eles. Aqui temos uma das chaves que abrirá seu entendimento para muitas coisas. Nessa noite você dormia no quarto. Era pequeno demais para se lembrar do que houve. Mas as consequências vivem em seu coração e ainda lhe fazem mal. – Mas qual a razão de revisitar esse momento tão difícil? – As experiências que vivemos ao longo da vida tem o poder de construir nosso caráter. Mesmo as mais longínquas, as que mal nos lembramos podem servir de base para organizar as que virão depois. Essa noite tem grande significado na maneira como você passou a enxergar a vida e a si próprio. Anjo faz uma pausa, percebe que Ed continua atento aos movimentos da avó e do casal de amigos. Coloca a mão sobre seu ombro e continua. 171


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– Meu amigo, tudo na vida é uma questão do amor. No fim das contas os problemas humanos sempre estão relacionados a como se sentem em relação a ele. Ed volta-se para anjo. Não diz nada, apenas escuta. – É por isso que ao longo da vida todos têm inúmeras oportunidades de relacionar-se com o amor. Nas contradições entre os diferentes, no aconchego do lar, na intimidade de amigos, nos prazeres mais simples, no sentimento de gratidão, dependência, misericórdia, ele, o amor, se expressa e abre possibilidades de interação com cada ser humano. – Tudo o que vive fora só existe porque encontra correspondência com que já é na interioridade. Arremata Ed relembrando uma conversa anterior. Anjo sorri com satisfação e continua: – Exatamente, meu amigo. Vejo que tem entendido nossas conversas e fico muito feliz com isso. Sorri, e prossegue: – O corpo de vocês é constituído de carne, sangue, órgãos e ossos. A essência de vocês é constituída de amor. O corpo se alimenta de ar, comida e água, o espírito se alimenta do amor que se expressa por ilimitadas maneiras: entre pessoas, na arte, na música, na gratidão, no silêncio, em momentos simples e felizes, de maneiras tão sutis que precedem explicações. O amor está em todos os lugares porque sem ele a alma atrofia. – Mas anjo, o que isso tem a ver com esse momento de minha vida? – Essa noite marca o momento em que você começou a questionar o amor. – Mas eu só tinha três anos. Nem me lembro exatamente de como aconteceu. Além do mais, como uma criança tão pequena pode questionar qualquer coisa? – Existem muitas maneiras de sentir. No seu caso o questionamento não nasceu como uma questão filosófica entre o bem e o mal. Mas se instalou como um sentimento que ao longo da vida lhe roubou parte da possibilidade de se relacionar com o amor e,

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consequentemente, com outras pessoas. – Fui punido por isso? – Ed, lembre-se de tudo o que já conversamos. Não se trata de punição, mas de escolhas. – Eu sei, me lembro do que falamos. Acontece que eu só tinha três anos. Será que é razoável que uma possível escolha feita nessa idade tenha o poder de influenciar minha vida inteira? Ed usa um leve tom de irritação na voz. – Aos três anos você não escolheu. Somente interiorizou um sentimento que foi cultivado ao longo do tempo. Amigo, o que você precisa entender é que as escolhas que mais nos afetam ao longo da vida são aquelas o que fazemos todos os dias. São escolhas diárias que nos formam ou deformam enquanto caminhamos. Uma opção momentânea não tem o poder de mudar nossa rota - seja para o bem ou para o mal - sem que essa escolha passe por reafirmações todos os dias. Não foi esse bebê quem determinou o que você seria hoje. Talvez aí as circunstâncias que te influenciariam nasceram, mas não houve sequer um dia em que o amor deixou de se relacionar contigo, de várias formas, em momentos ilimitados, tudo na tentativa de lhe abrir possibilidades para novas escolhas. – Eu nunca pensei nisso. Comenta Ed ainda de olho na cena do senhor magro sentado e as duas senhoras em pé a sua volta, aparentemente tentando colher alguma informação referente ao telefonema. Ele ouve por alguns segundos e continua: – Quando me separei de Beth fiquei perdido, questionando o que tinha acontecido, de repente tudo tinha terminado. Pensei nos meus traumas de infância, na minha dificuldade em me relacionar em profundidade, em me entregar.... – Ed, uma relação só é real se existir entrega e a entrega só acontece se houver amor. Você pode morar na mesma rua por muitos anos, fazer todos os dias o mesmo caminho e nunca repa 173


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rar em determinada árvore plantada ali. Você passa por ela todos os dias, mas não vê porque sua mente está sempre ocupada, cegando seus olhos e desviando sua percepção do caminho. Ela está lá, mas se alguém lhe perguntar sobre ela, você simplesmente dirá que nunca a viu. O único mundo verdadeiro para você é o que existe em sua mente. Você pode estar rodeado de possibilidades, movimentos, acontecimentos para todos os lados, gente aqui e ali, mundos a tua volta, mas só conseguirá ver aquilo que encontrar correspondência em seu interior. É por isso que muita gente não consegue ver o belo. É a mesma razão de outros verem beleza onde quase ninguém vê. Ed continua atento, quieto, ouvindo o que anjo diz enquanto sua avó e os dois amigos se aquietaram sentados no sofá, provavelmente esperando mais notícias de Vitor e Rose, pais de Ed, que após sofrerem um grave acidente de trânsito estão entre a vida e a morte no hospital. Ele olha de relance aquela sombra, o retrato de um dos momentos mais importantes de sua vida. Depois se volta para anjo que retoma o que dizia: – É por isso que suas escolhas tem o poder de determinar quem você é. São elas que criam as bases sobre as quais caminhará e decidirá todos os dias em que mundo viverá. Duas pessoas podem estar no mesmo lugar fazendo a mesma coisa, mas nada garante que o significado será igual para cada uma. Quando o significado muda, mudam todas as coisas. Um barulho de chave na porta e anjo interrompe a fala. As duas mulheres se levantam em direção a ela. O homem magro continua sentado. Era Michel, avô de Ed. Ele entra a passos lentos, rosto inchado, olhos avermelhados. Dona Beatriz olha para ele e começa a chorar. Não diz nada, somente dá-lhe um abraço. A amiga fica parada ao lado e também chora. – Eles se foram. Fala Michel tentando controlar-se. – Os mé-

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dicos tentaram de várias maneiras, mas os ferimentos foram muito graves – ele faz uma pausa, recupera o fôlego e continua: – Sei que estão melhores agora. Dona Beatriz chora muito. – Está doendo minha querida, mas temos que ser fortes. O Ed ficará conosco, seremos seus pais a partir de agora e temos que cuidar dele. Temos que ser fortes. Ed tinha três anos e dormia no quarto ao lado. Era pequeno demais para ter consciência do significado daquele momento, mas de alguma maneira aquilo se instalaria nele. Cresceu sabendo que os pais tinham morrido em um acidente de carro depois de voltar da casa de amigos. Um motorista bêbado acertou o carro do casal com violência em um cruzamento, não dando chance para desviarem. Quando maiorzinho gostava que vovô Michel contasse histórias sobre os pais. Era um jeito de se sentir mais perto deles. Agora que acompanhou tudo, que viu a angústia dos avós na tentativa de poupá-lo, depois de experimentar a sensação daquela fatídica noite, parece que dava um significado diferente para tudo aquilo. Não era mais uma história distante de algo que cresceu ouvindo, mas nunca presenciou. Parece que aquela experiência lhe trazia de volta ao chão mais básico de sua existência, onde muitas das suas questões começaram. É claro que o simples fato de observar aquela noite não era suficiente para trazer todas as respostas, mas sentia que ali começava um movimento de cura das feridas interiores onde cada pecinha seria importante na construção do quebra cabeça de suas emoções que até pouco tempo pareciam tão confusas. Ed sabia que era o começo da viagem e estava ansioso para saber quais seriam as próximas paradas. – Ouça Ed, anjo interrompe o pensamento do amigo que viaja para cada vez mais longe. – Hoje você reviu uma cena marcante em sua história com um novo olhar. Quando tudo aconteceu você era pequeno demais para se lembrar. Enquanto crescia e pensava no assunto, criava um novo ambiente, novas motivações que ali 175


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mentavam questões interiores e lhe fazia mal. Os sentimentos que nasceram depois, foram reflexos do que sua mente criava, alimentando seu coração com puro sentimento de abandono. Mas agora meu amigo... Anjo olha fixamente para os olhos de Ed ... agora, você tem aprendido muitas coisas e isso tem mudado seu olhar. Ver hoje a cena da noite em que seus pais se foram, enxergá-la com novo olhar, certamente lhe dará nova compreensão das coisas. É daqui que partimos. É nesse caminho que devemos seguir. Ed ainda está emocionado. Enxergar seus avós de perto, ainda jovens, ver a vó Beatriz que partiu menos de dois anos depois daquela noite, deixando vovô Michel triste e ranzinza, foi forte. Esteve presente na noite em que sua história mudou, mas anjo tinha razão. Durante anos pensou naquela noite de várias maneiras. Em cada fase de sua vida encontrava uma razão para se amargurar, sentindo-se realmente injustiçado pela orfandade tão precoce. Hoje estava claro. Mas não foi assim ao longo dos anos em que Ed construía sua realidade a partir de um profundo sentimento de angústia, abandono, desconfiança... Deus. Sim palavras intimamente relacionadas em seu dicionário: desconfiança e Deus. Deus mau, que tira os pais de uma criança, que torna a vida tão difícil, que observa tudo friamente a distância enquanto mais precisamos. Mas isso era antes. Aquela viagem pelo Éden tinha lhe despertado para outra realidade. As conversas com anjo sobre o bem e o mal, sobre o fato de que somos nós que criamos nossa realidade, sobre a árvore do caminho que não enxergamos, sobre Deus... Bem, isso estava mudando sua maneira de olhar. Esse novo olhar estava mudando todas as coisas. Mas havia questões em aberto. Ainda sentia muita falta de Gabriel que lhe fez tão bem ao aparecer mostrando que estava feliz. Seria bom estar com Beth depois que tantas coisas aconteceram. Tinha tanto a lhe dizer. Deus. Ainda tinha esse encontro. Anjo deixou claro que essa

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caminhada era na direção Dele e, sinceramente, Ed ansiava por isso. – Não se afobe - anjo chama o amigo ao momento - Aqui o tempo trabalha em nosso favor, depois dá uma piscada como se lesse os pensamentos de Ed. – Estive pensando no que vi e como tudo isso tem repercutido em mim de uma maneira tão... tão... – ele procura a palavra – ... tão... diferente. – Essa é a ideia. Quando você muda seu mundo interior, todo o exterior reflete o que antes aconteceu aí dentro. – Tenho pensado nisso. Aos poucos as coisas estão ficando mais claras. É estranho pensar que vivi toda minha vida sem saber disso. Aliás, é assim com a maioria das pessoas. Todos andam olhando para fora o tempo todo. Buscando nas aparências, nas posses, no que podem mostrar e convencer aos outros que, por aparentarem, são alguma coisa. – Mas a ordem é exatamente inversa... – anjo aproveita a pausa de Ed – as coisas que valorizamos só denunciam em que estágio de percepção estamos. – Que estágios são esses? – São estágios determinados pelo limite de sua percepção. Quanto mais vê para dentro, mais longe enxergará. – Acho que fiquei confuso. Anjo sorri e prossegue com paciência. – É simples, pense comigo: Já conversamos sobre o fato de que o significado que damos as coisas refletem a maneira como nos enxergamos. Quem vive pacificado, encontrará paz até na escuridão. Quem vive em trevas, não enxergará seu próprio caminho ainda que esteja diante do mais intenso brilho de luz. Não há nada acontecendo na Terra que não tenha correspondência em algo que já aconteceu nas mentes e corações humanos. Os olhos são a janela da alma. Se em seu interior houver luz, é assim que verá. No entanto se estiver em trevas, tudo a sua volta parecerá 177


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escuro e sem brilho. – Mas pelo que você disse existem vários estágios para isso. – É claro. Isso porque não há nada a sua volta, repito, nada, que não contenha uma mensagem em potencial, única e específica para cada ser humano. – Cada um vê o que quer. - Ed comenta quase como um pensamento alto. – Cada um vê o que é. Anjo corrige. – A vida é uma enorme possibilidade de relacionar-se com o amor. Tem gente que para diante de uma paisagem e se inspira maravilhosamente. Outros olham para a mesma cena e vêem um amontoado de terra com um pouco de grama, um ajuntamento de pedras, um punhado de árvores e nada mais. Sem significado, sem beleza. Por que é assim? Porque a beleza e a feiúra, o bem e o mal moram no coração. É isso que dá significado e abre as janelas da alma para que identifiquem mensagens de amor espalhadas em cada detalhe, de maneira simples e sutil ao longo do caminho. Ver assim ilumina o interior e lhe projeta para a real dimensão dessa incrível experiência que é viver. – Sabe. Confesso que aos poucos tenho assimilado tudo o que tem me ensinado. Isso me coloca de cabeça para baixo, inverte meus conceitos. Tem sido uma grande revolução mesmo. Mas é tudo tão diferente do que aprendemos ao longo da vida. Parece que toda nossa cultura trabalha em outra direção. – Talvez agora você esteja começando a entender o que eu quis dizer quando, lá atrás, me referi ao fluxo da Terra. Não é fácil enxergar onde poucos vêem. Muitas vezes terá que aprender a conviver no mundo como se não pertencesse a ele. Quase como um forasteiro que vive em uma sociedade completamente diferente e deve habituar-se aos costumes locais sem perder sua própria identidade. Esse sentimento provavelmente irá gerar uma espécie de inquietude, um desconforto como sentem os que estão fora de

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casa. Quando seus olhos se abrem e você entende que pode criar um mundo em correspondência ao que tem criado no coração, tudo ficará claro e seus valores inverterão naturalmente. – Isso é muito forte. – Sim, mas ao mesmo tempo é simples e essencial. Por isso nenhum esforço externo para se tornar alguém melhor será completamente eficaz. – O que quer dizer com esforço externo? – Aquele que exige sacrifícios, ritos, culpas, autoflagelo seja no nível físico ou mental. Caminhos tortuosos que os convencem que a aparência do bem consumida pela sociedade é suficiente para atingirem algum nível de iluminação. – Não sei se entendi. Você está dizendo que não adianta nada fazer um milhão de sacrifícios, sejam eles de qualquer natureza, aparentar ser bom ou santo, falar coisas legais, ser reconhecido como um ser iluminado, religioso, paciente, caridoso, se isso não vier do coração, se for de fora para dentro. É isso? – Exatamente, Ed. Anjo sorri com o poder de síntese do amigo. – Fico feliz porque vejo que sua essência está mudando. Seus olhos estão abrindo e você começa a enxergar. – Sabe como me sinto? Como se eu vivesse amarrado a uma corda grossa, cheia de nós e agora simplesmente os nós estão sendo desfeitos. A sensação de desfazê-los cria um profundo sentimento de liberdade. – Esse é o real aplicativo da palavra liberdade. Ela não significa simplesmente o direito de ir e vir ou poder falar o que bem entender. Liberdade é a capacidade de enxergar a vida como ela é sabendo que suas escolhas diárias constroem o futuro e criam uma nova história a cada instante. – Podemos mesmo mudar o futuro? – O futuro está sendo criado a cada segundo, Ed. Ele não é algo fixo, inexorável, fadado a um desfecho imutável. Na verdade 179


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o que acontecerá amanhã é reflexo das escolhas que tem feito no presente. Uma escolha diferente tem o poder de alterar uma cadeia de acontecimentos que refletirá lá na frente. – Não sei por que, mas sempre pensei que as coisas já estivessem determinadas. – Vocês vivem no mundo das possibilidades, por isso o conceito de destino-aquele que associa destino a futuro - é ilusório. O futuro nunca chega. Todo anseio pelo que virá é invariavelmente substituído pelo que está sendo. Futuro é uma projeção: a expectativa daquilo que talvez um dia se realize. Ele só pode influenciar no presente quando vocês permitem que assim seja. Em nada adianta viver cheio de ansiedade, questionando como será, o que vai trazer, se vai doer ou massagear, se virá presentes ou tragédias. O futuro dificilmente corresponderá exatamente ao que imaginam, seja para o bem ou para o mal. Todas as coisas acontecem no único dia que existe, a esse chamamos hoje. – E o passado, pode interferir no hoje? – Só quando você permite. E só assim. O passado nasce a cada segundo. Em cada instante, depois de cada movimento, após cada palavra proferida. É o rastro do que fizemos. O passado é o tempo reciclado pelo presente. Na Terra vocês precisam do tempo como mídia. Como você já percebeu aqui no Éden não dependemos dessas categorias. Aqui viajamos para onde quisermos, tempo não é empecilho. Mas os humanos precisam dessa categorização, quase como um arquivo para guardar e assimilar as experiências. É para isso que o tempo serve e é assim que devem enxergar. – Mas ainda assim o passado é uma realidade. Ele existe, ou pelo menos existiu. – Ele só existe como passado na mente de vocês, pois um dia o experimentaram, registraram e arquivaram interiormente, reconhecendo essas etapas como passado. As experiências que já foram constituem o que vocês são hoje, mas tudo isso muda quando

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decidem construir outro presente. A construção de um novo presente já estabelece imediatamente a possibilidade de outro futuro. Passado e futuro são caminhos que só existem dentro de vocês, como pontes que facilitam o entendimento dos acontecimentos que se vinculam com o único dia que é real, aquele que chamamos de hoje. – Uau! Quando penso que me disse tudo lá vem você com mais uma bomba. Ed sorri – Não se impressione, meu amigo. Isso é só um começo. Quando você pensar nisso como verdade e não como conceito, experimentará uma enorme revolução. – E o que devo fazer para que assim seja? – Primeiro deve saber que não estou lhe ensinando nada de novo. Quando se impressiona com os temas de nossas conversas, somente está demonstrando algum tipo de perplexidade pelo fato de ter reconhecido em minhas palavras a decodificação de um sentimento que já existia em você. – Continue, quero ouvir mais sobre isso. – É como se já soubesse de tudo. Como se algo em você lhe dissesse que sempre sentiu dessa maneira, mas nunca soube explicar. Existem várias maneiras de assimilar um ensinamento. Ouvir, interiorizar e decodificar em palavras o que se passa no coração em forma de sentimento é só um dos caminhos. Mas existem outros e esses não podem ser discernidos intelectualmente. Você pode viver uma vida intuindo que as coisas são como são, sem que seu cérebro decifre claramente os códigos de comunicação de sua alma. – E quais as consequências disso? – Nenhuma! Anjo sorri complacente e prossegue. Não lhe disse que existem várias maneiras de assimilar um ensinamento? A mente é uma delas e, saiba, geralmente a menos eficaz. É por isso que no reino da simplicidade a ordem das coisas é invertida. 181


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Olhando sob o ponto de vista do que importa, geralmente o que aparenta ser maior é o menor de todos. No entanto aquele que ninguém vê por aparentar insignificância, tende a ser maior do que imaginam. É assim para que entendam que o acesso aos conhecimentos mais valiosos não se dá através de nenhum outro caminho a não ser a partir de um coração simples, sem juízo de valores, exatamente pela via da consciência de sua ambiguidade. Ainda que não saiba explicar com palavras difíceis, esse viverá as grandes verdades da existência de maneira simples e despretensiosa porque no fim das contas é assim que a vida deve ser: simples e natural. Quem compreende seu próprio caminho discerne, quem tenta complicar, vive correndo atrás do próprio rabo e nunca descansa. – Entendo o que você diz e acho isso lindo. Mas convenhamos que faz uma enorme diferença quando conseguimos explicar a razão das coisas. Você disse que só assimilo seus ensinamentos porque de alguma maneira eles já existiam dentro de mim. Mas do que adianta eles estarem em mim, se só agora ouvindo suas palavras, é que passo a ter acesso a eles? – Você sempre teve acesso a eles. As palavras que digo são apenas outro jeito de dizer o mesmo que a natureza, suas emoções, situações básicas do dia a dia, um pássaro cantando, uma música no rádio, um bom dia de um estranho no elevador, querem dizer. Entenda Ed: tudo na vida fala sempre. Quando eu lhe disse que tudo na vida é uma possibilidade de viver uma experiência com o amor, não estava exagerando. As palavras são apenas decodificação de algo que está em todos os lugares, inclusive na própria palavra, mas entenda, o fato de também estar na palavra não significa que esteja só nela. O ajuntamento das letras tem o poder de construir caminhos em sua mente que podem te levar ao reconhecimento de algo que já existia antes que virasse som. Por isso não é a capacidade de dizer que torna a verdade em mais ou

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menos real, está entendendo? – Acho que sim. – Não estou dizendo nada que sua alma já não soubesse. A única coisa que tenho feito é lhe conduzir pela trilha que já existia em seu interior, mas estava encoberta pela mata alta, pela grama que você deixou de podar, pelos bichos que lhe assustavam e lhe impediam de seguir. Mas não fui eu quem abriu. Ela já estava lá e, agora, caminhando por ela, sente que os nós estão desatando e as questões que lhe pareciam tão difíceis e sem explicação simplesmente vão ganhando significado. – Incrível como as coisas parecem simples quando ouço você. – As coisas são simples, meu amigo. São vocês que complicam com seus medos e inseguranças. É por isso que insisto tanto na necessidade de se enxergarem, de olharem para dentro e identificarem os bichos que lhes habitam e assombram a alma. Seus medos não passam de assombrações. Se soubessem que na verdade as coisas são mais simples do que parecem e que toda mudança começa sempre de dentro para fora, não precisariam de palavras, teorias, mapas ou leis. Viveriam em um mundo onde os mestres seriam desnecessários e ninguém precisaria de um guia que ajudasse a trilhar os caminhos interiores. O caminho já existe e o senso de direção está demarcado na alma de cada ser humano desde sempre. Esse é o irresistível apelo do amor para que sigam seus próprios caminhos em simplicidade, conscientes de que tudo aquilo que precisam já é, existe e está ao alcance da percepção de todo aquele que, com olhar simples, não tem medo de se enxergar e de alguma maneira sabem que é no dia a dia, na caminhada, no dia chamado hoje que se escondem as maiores pérolas de sabedoria. – Isso tudo parece absurdo porque inverte a lógica das coisas. Se entendi corretamente não importa o nível intelectual ou o quanto alguém tem capacidade de explanar sobre uma mensagem. A pessoa pode saber de tudo o que você está me dizendo sem saber que sabe. Somente pela via da intuição, ainda que não saiba 183


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explicar usando as palavras. – Ed, a verdadeira sabedoria é um processo interior, indiscernível e não mensurável. Muitas vezes a própria pessoa não tem consciência do que realmente sabe. É por isso que a caminhada na Terra deve ser um processo de entrega, simplicidade e percepção focada em tudo o que é simples e puro. Ninguém precisa ir, além disso, porque é na simplicidade que as maiores verdades se encontram. O que passar disso pode servir de divertimento intelectual, mas não será nada além. Felizes os que sabem expressar sua sabedoria com palavras, mas esse não é maior do que aquele que não sabe nem ler, mas expressa em sua simplicidade, na caminhada, no sorriso, no olhar, no jeito simples de ver a vida e servir ao próximo. Nada supera isso. Aquele olhar perdido sinalizava que a mente estava distante. Seu corpo estava lá, mas quem poderia saber que tipo de pensamento lhe puxava para tão longe? Envolto na fumaça do charuto, sentado diante da escrivaninha de madeira, Michel contempla o vazio enquanto recosta a cabeça na confortável poltrona de couro. Se não fossem as vozes, os risinhos das crianças brincando lá embaixo na sala, o ambiente estaria em completo silêncio. Mas não havia necessidade de quietude para que Michel se entregasse a viagens tão distantes, reminiscências do seu passado que insistiam em lhe visitar. Pensava em Beatriz. Há quase cinco anos ela se foi, mas ainda sentia saudade da voz suave, pausada e carinhosa. Que falta fazia aquele sorriso constante, a presença que lhe fazia tão bem. Ele dá uma tragada no charuto, solta a fumaça lentamente. Abre a gaveta, remexe poucos segundos até encontrar uma caneta. Sobre a escrivaninha um bloco de anotações. Ali registrava alguns pensamentos. Reservado como era, escrever foi o jeito para expulsar os fantasmas da alma. Michel apaga o charuto, toma um gole do licor sobre a mesa

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e começa a escrever: “Depois que as pessoas se vão, valorizamos aspectos que antes não parávamos para reparar. Coisas simples, momentos que quando aconteceram passaram quase despercebidos, como se fossem banalidades do dia a dia. Mas um dia eles submergem a memória sem pedir licença e nos fazem morrer de saudade. Às vezes fico na dúvida se tudo ocorreu exatamente como me recordo. Isso porque hoje dá tanta saudade, mas na época não parecia especial, era só mais um retrato de um dia qualquer. Pensando assim me sinto tolo. Como dizer a alguém que estou na minha escrivaninha com saudade de um sábado em que me sentei na cozinha -enquanto Beatriz preparava uma sopa de espinafre- para pedir palpites para o jogo de palavras cruzadas que eu tentava resolver. Recordo-me do som baixinho do rádio na cozinha, da TV na sala transmitindo o jogo de futebol e o cheiro da sopa que estava em cada canto daquela velha casa. Acho que estou velho demais e começando a ficar saudosista. Não houve nada especial. Foi só isso: ela fazendo sopa, eu sentado na mesa da cozinha com meu caderninho de caça palavras e nós tentando resolve-las. Mas isso me veio à memória agora a tarde. Como se esse momento despretensioso estivesse escondido em algum lugar e agora, não sei por que, apareceu. É por isso que preciso escrever nesse caderno. Pelo menos aqui tenho um amigo. Posso desabafar, me confessar e até despejar lembranças sem importância como essa da Beatriz. A voz do pequeno Ed brincando lá embaixo também me desperta questões. Recordo com clareza do dia em que perdemos nosso filho e nossa nora, Vitor e Rose, naquele horrível acidente de carro. Na hora foi muito difícil para mim, inclusive porque acabei revivendo parte dos meus sofrimentos de infância. Parece que quanto mais tentamos colocar um sofrimento do passado para baixo do tapete, mais ele volta e tenta nos assombrar. A ironia é que agora tenho que criar o filho do meu filho, apesar de saber 185


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que nunca serei bom pai. Paternidade não se aprende. Ou você é pai desde que nasce ou nunca será. Sei que não sou e provavelmente nunca serei. Mas o que eu poderia fazer? Ed só tinha três anos, eu e a Beatriz éramos os parentes mais próximos. Ela fragilizada com a morte do filho e da nora, vendo no neto uma chance de renovar um laço de afeto e cuidado que acabara de romper. Não havia escolha. Foi trama do destino. Acontece que agora estou aqui. Solitário e sem saber ao certo o que dizer para meu neto de oito anos que cresce sem parar e parece esperar de mim o que não sou e nem posso dar. Toco a vida como um soldado. Não sei a razão da guerra, mas sei que não posso parar de lutar. Tem sido difícil...” O velho Michel para e fica olhando sobre o óculos de leitura para o papel com a caneta parada na mão. Parece que faltou ideia. Reluta em completar a frase naquele ponto. Gira a caneta entre os dedos enquanto permanece com os olhos fixos na última palavra. Um suspiro e com ritmo mais lento conclui “...Mas acho que tenho vencido as batalhas.” Ao terminar toma mais um gole do licor e permanece sentando. Ele ainda pensa. Em questão de segundos deixa a mente viajar. Depois rememora alguns acontecimentos e fecha os olhos mais um pouco. Enquanto o neto brinca com amiguinhos na sala, o avô permitia-se vagar entre o passado e o presente. Ele gostava disso. Era o momento para espantar fantasmas, realimentar questões, vasculhar os porões da mente em busca de momentos que um dia ficaram para trás. Vovô Michel era um sujeito de poucos amigos. Com exceção de sua falecida esposa, ninguém sabia a razão de tanta amargura. Não era má pessoa. Apesar de seus, cada vez mais raros, rompantes de acessibilidade, o que predominava em sua personalidade era uma enorme dificuldade em demonstrar carinho. Escrever naqueles cadernos lhe ajudava a lidar com emoções que no dia a

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dia escondia. Como por exemplo, quando encarou o fato que teria de se tornar pai e mãe do neto. Sua dificuldade com a paternidade já vinha desde quando Vitor, seu único filho nasceu. Na verdade provavelmente essa já devia ser uma questão incomoda antes mesmo do nascimento do filho. Ao contrário da grande maioria dos homens em sua idade, Michel não queria colocar ninguém no mundo. Tinha recém passado dos trinta anos de idade e estava casado há seis anos. Quando o filho nasceu, sentiu medo do desafio. A vontade era sumir como seu pai tinha feito, mas sabia das dores, do sentimento de rejeição que alimentou boa parte da vida. Não queria repetir com o filho o comportamento do pai que lhe fez tão mal. Dedicou a maior parte de sua energia ao trabalho. Não estudou muito, mas prosperou como comerciante. Tinha um mercado de médio porte montado com muito sacrifício que lhe garantiu uma vida confortável até nove anos atrás, quando vendeu o estabelecimento em troca de um pouco mais de tranquilidade. Michel e Beatriz estavam cansados. Trabalhavam quatorze horas por dia, mal tinham tempo para outra coisa a não ser lidar com funcionários, negociar com fornecedores, controlar estoque, fazer contas, cuidar do caixa e depois se preparar para tudo de novo no dia seguinte. Não foram os apelos do filho, nora ou amigos para que parassem e aproveitassem a vida que convenceu Michel a parar. Foi um assalto. Era sábado, fim de expediente e Michel preparava o fechamento do caixa. Geralmente o movimento do sábado era o melhor da semana e aquele não era diferente, pelo contrário, tinha o acréscimo de ser o primeiro sábado do mês, dia em que os trabalhadores que acabaram de receber o salário costumam fazer suas compras. 187


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Michel e Beatriz não trabalhavam sozinhos. Nos últimos anos o mercado tinha prosperado a ponto de aumentarem o quadro de funcionários. Por sorte naquela noite a maioria dos clientes já havia ido embora. Com exceção de um casal de idosos que terminava de carregar o carrinho e de um homem ruivo, com uniforme de fábrica, comprando uns maços de cigarro, os clientes já haviam se retirado. As portas estavam fechadas. Somente uma delas, a menor, dedicada para a entrada e saída de funcionários permanecia aberta. Eram os últimos momentos do expediente quando dois homens entraram rapidamente, fechando a porta, mostrando as armas e anunciando o assalto. Foi tudo muito rápido, os dois gritavam. Estavam agitados, faziam ameaças, chutavam o que vissem pela frente. Enquanto os poucos clientes e funcionários seguiram as ordens para que se jogassem ao chão com as mãos na cabeça, os dois bandidos raspavam as caixas registradoras e colocavam todo o dinheiro em sacolas. Um deles cismou que aquilo não era tudo. Perguntou quem era o responsável e Michel se apresentou. Quando o marido levantou, Beatriz se desesperou e começou a chorar copiosamente, tentando abafar a voz, se esforçando em controlar a respiração. Pensou que fossem atirar. – Cadê o resto da grana? Gritou o bandido mais agitado. Ele era baixo, gordo e usava capuz preto. – Isso é tudo o que temos. Respondeu Michel mantendo a voz controlada. – Mentira! Nos leva para o cofre ou morre agora! Gritou o mesmo assaltante. – Não temos cofre aqui e todo nosso faturamento está nas caixas registradoras. Leve o que quiser e nos deixe em paz. Esse é o último ponto que Michel se recorda dos momentos

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seguintes. Na verdade ele ainda lembra-se do bandido se aproximar rapidamente com a arma em punho, mas depois da coronhada na cabeça desmaiou e só retomou os sentidos minutos depois dos assaltantes terem fugido levando o movimento de todo dia e a resistência de Michel em vender o supermercado. Não havia mais o que discutir. Ele sabia que poderia não ser a última vez e não estava disposto a reviver aqueles momentos, especialmente por não querer expor a esposa que quase teve um colapso nervoso. Depois daquela fatídica noite decidiu vender o mercado e fazer o que nunca vez: descansar e dedicar mais tempo a sua grande paixão: a leitura. O dinheiro recebido com a venda era suficiente para uma vida regrada, mas confortável e foi assim que viveram por algum tempo. Mas para quem viveu a vida inteira trabalhando aquele descanso não parecia uma benção, pelo contrário, Michel encarava como um atestado de inutilidade. Pelo menos era assim que chamava. – Por que alguém em plenas faculdades físicas e mentais deve viver em casa como se fosse um inválido? Costumava perguntar com irritação. Não adiantava o esforço da família mostrando o lado bom, o empenho de Beatriz em deixá-lo feliz, o tempo de leitura, os chás, licores, charutos... Não. Michel poderia ter se aposentado, mas mantinha sua intransigência como sinal característico e maltratava a todo que se aproximava tentando animá-lo. Na verdade seu humor que não era dos melhores parecia ter piorado de vez. Não fazia por mal. Às vezes, depois se perceber que foi duro demais com alguém, dava um jeito de fazer uma brincadeira, algum comentário que sinalizasse que tinha se arrependido. Desculpar-se jamais! Mas tinha o jeito próprio para tentar se reconciliar com o ofendido e retomar de onde pararam. 189


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Os mais próximos aprenderam a lidar com ele. Os que viam a distância evitavam contatos justamente por imaginarem que a grosseria era somente questão de tempo. Beatriz, sua esposa, cresceu em uma enorme família onde pais, sete filhos, dois tios e uma avó viviam sob o mesmo teto. Mulher doce, delicada e de fácil trato aprendeu a lidar com Michel ao longo dos anos. Agora que estavam aposentados, ela alimentava planos para viagens e passeios que nunca puderam fazer. O sonho da esposa durou pouco. Depois de um ano aposentado, Michel resolveu que voltaria a ativa. Fez algumas ligações, contatou antigos colegas do banco em que trabalhou antes de montar o mercado, visitou ex-clientes com quem teve alguma afinidade a mais e, tempos depois, tinha uma nova atividade: trabalharia em um escritório de contabilidade de um conhecido dos tempos de banco. Não tinha a formação de contador, mas a experiência de anos lidando com empresas, depois gerindo e cuidando de todas as contas e documentação de seu negócio, garantia segurança para enfrentar essa nova empreitada. Beatriz não gostou, mas evitou reclamações. Foi difícil abrir mão dos planos, da esperança de conviver mais, de aproveitar o que deixou de lado uma vida inteira, da possibilidade de extrair do marido um lado mais sensível agora que poderiam conviver sem a necessidade de falar sobre trabalho. Definitivamente estava cansada da vida que levavam e aquela aposentadoria quase compulsória calhou como um bálsamo. No entanto a decisão não causou surpresa para ninguém, pelo contrário, houve quem apostasse que o descanso não duraria seis meses. É como se Michel precisasse do trabalho para sentir-se útil. Mais do que isso. Era um jeito de evitar que seus fantasmas mais secretos lhe assombrassem, revirassem o passado e lhe obrigasse a pensar em questões que já ficaram em algum lugar do caminho.

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Por mais que gostasse de escrever o que sentia e revisitasse constantemente o passado, sabia que só podia ir até certo ponto. Havia uma fronteira proibida onde as questões não deveriam existir. Era um limite interior, um impedimento intimo nunca compartilhado, mas evidente para quem convivia com o velho Michel. Mesmo entre os que incentivaram o casal a parar, havia o sentimento generalizado de que as férias teriam prazo de validade. E assim aconteceu. Michel voltou a trabalhar no dia seguinte em que aceitou a proposta. Não era nada grandioso, salário modesto, mas o simples fato de sentir-se útil de novo foi suficiente para que acordasse cedo, separasse a melhor roupa e saísse feliz em direção ao escritório. Beatriz estava chateada, mas entendeu. Afinal, foram anos de treino aceitando todas as decisões do marido e, em nome do bom convívio e da manutenção do matrimônio, há muito deixou de questioná-lo. Houve um tempo, ainda no começo do namoro, em que ela se incomodava com a intransigência do marido. Suas certezas, opiniões inabaláveis, a energia com que defendia suas convicções, forçava a quem se opunha a despender empenho equivalente se não quisesse ser trucidado. Michel sempre levou a sério o conceito “quem não está comigo, está contra mim” e agia como quem cresse com todas as suas vísceras nisso. Beatriz estava a seu lado. Ela sempre foi seu apoio emocional, seu equilíbrio e mais: seu ponto de contato com o mundo. Sem ela não saberia fazer as concessões que teve de fazer em suas relações profissionais. Era Beatriz quem lhe apontava o caminho com sutileza e, ainda que ele nunca confessasse, fazia com que mudasse de ideia quando sua intransigência tendia a lhe prejudicar. No começo do casamento foi ainda mais difícil. Michel não suportava ser contrariado. Agia como quem es 191


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tivesse defendendo o território em tempo integral, não abaixava guarda, não dava espaço para aproximação. Mesmo na hora de demonstrar afeto a esposa ou a Vitor, o filho ainda pequeno, era contido e extremamente econômico em seus gestos. Com o tempo se soltou um pouco. Lentamente foi deixando vazar pela crosta protetora um pouco de seu lado humano, revelando uma sensibilidade que poucos conheciam. Não foi preciso muitos anos para que Beatriz percebesse que provavelmente o comportamento do marido não passasse de um esconderijo, uma forma de se proteger. Isso porque seu lado sensível era completamente antagônico quando contrastado com seu jeito durão e inacessível. Um homem que não demonstrava afeto ao filho não podia ser o mesmo que se emocionava quando via uma criança mendigando. Existiam aqueles que evitavam contato mais próximo com qualquer pessoa, e Michel era um deles, mas isso não combinava com sua sensibilidade de olhar e a sua maneira de solidarizar-se com dramas humanos. Diante do sofrimento, ainda que mantendo gestos rudes, era o primeiro a tomar iniciativas na tentativa de ajudar, no encontro com a necessidade alheia, ele nunca se ausentava. Ainda muito cedo Michel viveu seu próprio drama. Certamente uma experiência difícil e que lhe incomodava mesmo na velhice, algo que ao longo dos anos não deixava de ser assunto proibido. A não ser em raras conversas sobre o tema com a esposa, ele não permitia que ninguém ultrapassasse a barreira protetora e se aproximasse do momento em que a vida começou a perder cor. Beatriz sabia que houve um ponto de partida. Um fato que marcou o inicio de uma profunda tristeza que lhe projetou para seu mundo particular, cercado de proteções, escondido por posturas beligerantes de defesa de território e demarcação de limites. A esposa acreditava que sua função era ajudar o marido

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a atravessar essas fronteiras, ainda que tivessem que se arriscar passando por campos minados e tiroteios. Se no começo foi difícil, o tempo revelou códigos que facilitaram a comunicação do casal. Ela sabia como penetrar a proteção sem causar dor, ele entendia que com ela certas barreiras não eram necessárias e assim foram se entendendo ao longo de trinta e sete anos de casamento. Até que tudo mudou. A morte inesperada do filho e da nora rasgou um tecido pacientemente costurado pela esposa durante muitos anos e expôs feridas do marido que pareciam cicatrizadas. Mas ao invés de esconder-se em seu próprio mundo como geralmente fazia diante de ameaças emocionais, Michel revelou uma enorme capacidade de reação e pela primeira vez na vida trocou de papel com a esposa dando-lhe apoio emocional, acolhendo-a exatamente como ela fazia quando ele se sentia perdido. Beatriz, por sua vez, não aguentou o baque. Pensou que cuidar do neto lhe daria um pouco de alento, afinal o pequeno Ed era filho do seu filho e uma criança sempre traz alegria para casa. Talvez a voz do menino, seus passinhos e brincadeiras de três anos de idade lhe ajudaria a colocar para fora um lado que se foi desde que Vitor cresceu e saiu de casa. Talvez ser mãe de novo preencheria um coração machucado pela perda precoce do unigênito, dando novo sentido, nova vida quando tudo parecia acabado. Quando foi com o casal de amigos á casa do filho em busca do neto, alimentava esperanças de que tudo acabaria bem. Tinha sido informada do acidente no início da noite. Michel foi direto para o hospital e ela amparada por um casal de vizinhos amigos que a levaram para casa com a intenção de não deixá-la sozinha. 193


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Queria ter ido com o marido, mas no fim todos concordaram que seria melhor que Michel fosse acompanhar o filho e a nora sozinho, sem interferências emotivas da esposa que ficou realmente muito nervosa ao saber do ocorrido. Na casa dos vizinhos Beatriz se lembrou que Ed estava com a babá que provavelmente não sabia de nada. Apressou-se em buscar o neto para que, juntos, aguardassem por boas noticias. Foram e voltaram no carro de Jorge, marido de Edna, vizinhos do casal por longa data. Jorge não era de falar, Edna preocupava-se em incentivar a amiga como se fosse questão de tempo para que tudo ficasse bem. Sentada no banco de trás do automóvel, Beatriz abraçava a criança com carinho, como quem quisesse transmitir paz e a sensação de que, acontecesse o que acontecesse, nunca estaria desprotegido. Olhava para o neto que dormia em paz. Depois olhou a rua onde todos cumpriam seus papéis: os carros com famílias felizes, transeuntes para todos os lados, prédios, casas, bares, restaurantes... Tudo como sempre sem que nada fosse afetado pelo drama que sua família estava vivendo. Chegaram à casa dos vizinhos cheios de ansiedade. Entraram e, mal Beatriz terminou de acomodar o neto no quarto de hóspedes, o telefone tocou. Jorge atendeu e por sua expressão parecia que as notícias não eram boas. Ao desligar evitou fazer comentários, disse que os médicos estavam tentando o melhor para que tudo desse certo e logo Michel voltaria com mais detalhes. Beatriz não gostou do que sentiu ao ouvir o amigo. Era como se algo tivesse rompido e derramado em um buraco negro todos os bons sentimentos. Foi um vazio absoluto seguido de

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uma sensação de congelamento interior. Estranho. Algo muito ruim deve ter acontecido – pensou. Preferiu não especular enquanto o marido voltava trazendo notícias. Jorge e Edna também esperaram sem muita conversa. Distante apenas alguns quarteirões de onde estavam, Michel se esforça para concentrar-se no trânsito. Como contar a esposa que o filho e a nora tinham partido? Quando telefonou, disse a Jorge que as notícias não eram boas, mas que não comentasse com as mulheres já que estava a caminho. Ele temia que Beatriz não suportasse. Ultimamente ela vinha reclamando de dores de cabeça fortíssimas acompanhadas de eventuais momentos de tontura. Estavam adiando a ida ao médico, mas sabiam que a saúde dela inspirava cuidados e mais cedo ou mais tarde teriam que lidar com isso. No carro tentava controlar as emoções. Pensava no filho, na nora, no neto, na vida que seria completamente diferente. Farol vermelho. Michel freia e olha para o céu escuro daquela noite que não gostaria de estar vivendo. Em uma fração de segundos pensa onde Vitor e Rose estariam. Será que existia vida após a morte, será que estavam bem? O farol abre e Michel prossegue em direção a sua difícil tarefa de contar a esposa o desfecho trágico e inesperado que lhes roubou o filho, a nora e deixou o neto órfão. Foram mais alguns minutos até a casa de Jorge, mas parece que o tempo era outro, demorava mais, tudo aparentava estar mais longe. Quando estacionou em frente a casa ainda não sabia o que dizer. Ele tinha as chaves. Sem cerimônias abriu a porta e entrou. Ainda parado na porta viu que seu amigo permaneceu sentado, enquanto a esposa e a vizinha correram em sua direção. Não foi preciso dizer nada para que Beatriz lhe abraçasse chorando copiosamente. Depois alguns comentários e o começo da dor que lhes acompanharia por muito tempo. 195


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Agora a grande preocupação era Ed. Sabiam que o neto sentiria falta dos pais, mas ele era pequeno demais para lidar com grandes sequelas. De qualquer forma, o menino precisava de cuidados, e os avós se desdobraram para suprir-lhe todas as necessidades. Fizeram o possível até que a poeira começou a baixar e a vida retomou seu próprio ritmo. No entanto a mudança de rotina causada por tudo o que aconteceu fez com que Beatriz deixasse sua saúde frágil em segundo plano. As dores de cabeça seguidas de tontura se tornaram cada vez mais frequentes. “Talvez seja fruto do estresse de cuidar de uma criança pequena na velhice, talvez seja a dor da perda do filho e da nora, é natural que em minha condição qualquer mulher se sinta assim” - dizia Beatriz quando o marido lhe insistia para que fossem ao médico. Não deu tempo. Um ano, nove meses e doze dias depois de enterrar o filho e a nora Michel perdeu a esposa. Era fim da década de setenta, faltava pouco para a chegada dos anos oitenta, havia clima de expectativa nas ruas e o velho homem lidava com mais uma profunda dor. Agora era só Michel e Ed. O velho entristecido com a própria sorte e o menino cheio de vida, esperando que o avô lhe conduzisse pelos dias que ainda viriam. Foram anos muito difíceis. Ed estava entrando em idade escolar. Michel teve que fazer com o neto o que não fez pelo filho. Tratou de matriculá-lo em uma escola do bairro, comprou o material e cuidou para que o menino tivesse a melhor educação. Na época em que Vitor era criança o pai não se envolvia. Deixava tudo aos cuidados de Beatriz. Depois que o filho morreu, Michel saiu do escritório de contabilidade e passou a viver com a soma do rendimento de sua aposentadoria e o valor que investiu na venda do supermercado e não chegou a gastar por ter encontrado logo outro trabalho. Na época

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foi criticado por não aceitar ficar em férias, mas parece que sabia o que iria acontecer. Se não fosse aquele dinheiro valorizado pelo tempo que permaneceu intocável rendendo no banco, não teria condições de se sustentar e criar o neto. Michel lutou o quanto pode para não sucumbir diante da perda de Beatriz, mas sua partida apagou a luz que iluminava seus caminhos. Nunca confessou a esposa o quanto a amava mais do que tudo e dependia de seus cuidados muito mais do que gostaria. Foi difícil seguir adiante, mas não havia escolha. Por ironia do destino teria que recomeçar no ofício de pai, mas agora sem o auxilio de sua fiel companheira. Ninguém pode dizer que se saiu mal. Ainda que faltasse em demonstrações de afeto, mesmo com toda a rigidez que impunha na criação do menino, Michel fez o possível para que o neto crescesse segundo seus padrões de retidão e justiça. Incutiu logo cedo amor ao trabalho e responsabilidade para com o próximo. Deu-lhe o necessário para que virasse um homem em condições de assumir suas próprias responsabilidades e formar uma família. Se não pode substituir pai e mãe, se falhou ao não saber como desenvolver laços afetivos como Beatriz certamente faria, deu seu melhor, consciente de que “Paternidade não se aprende. Ou você é pai desde que nasce ou nunca será”. Era assim que Michel acreditava. Foi com essa consciência que caminhou ao lado do neto, provendo suas necessidades e, do seu jeito, dando-lhe o apoio que precisava. Os anos passaram sem que seu velho coração amolecesse. Já tinha sofrido demais e vivido experiências que lhe marcaram para sempre como aquela que guardou para si por toda a caminhada. Beatriz sabia alguma coisa, mas agora que ela se foi ninguém jamais conheceria o inicio do processo. O momento onde o velho Michel passou a acreditar que não podia confiar nas pessoas. 197


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“Hoje o dia amanheceu frio e melancólico. Apesar da sequência de dias quentes, o tempo virou essa manhã e a nebulosidade cobre todo o céu. Como sempre, acordei com o dia ainda escuro, fiz meus exercícios, tomei banho e preparei algo para comer. Ontem Ed me ligou convidando para que eu fosse passar o fim de semana na casa dele. Respondi que pensaria no assunto, mas definitivamente não quero. Daqui a pouco vou ligar agradecendo o convite, postergando para outra oportunidade. A chuva das últimas horas que não quer cessar é uma boa desculpa para que eu fique aqui no meu canto, com meu caderno e meus pensamentos”. Michel passa os dedos sobre a barba branca e toma um gole de água sem gelo. Depois espia pela janela ao lado, vê uma senhora com guarda chuvas carregando uma sacola com compras. Ele deixa que o olhar a acompanhe, depois volta-se para o caderno e retoma de onde parou: “Não é que desgoste de desfrutar da companhia do meu neto, sua simpática esposa e do Gabrielzinho, meu bisneto. Gosto deles. Mas se ao longo de toda a vida sempre preferi a quietude e o conforto do lar, o que esperar agora que estou velho e cansado? Prefiro o silêncio, a solidão, meu charuto e meus pensamentos. Ainda mais que hoje acordei sob o impacto de um sonho tão vivo e estranho que me visitou esta noite. Não sou de me impressionar com isso, mas como parecia real! Sonhei que voltei à primeira infância, ainda em Paris, na casa de papai e mamãe. Mesmo que não tenha sido real, foi bom reviver aquele ambiente tão acolhedor. Eu corria pela calçada de pedra, depois passei pelo jardim até chegar à porta do casarão lindo e branco onde morávamos. Parece que revi as fisionomias, minhas tias ainda estavam vivas, meus pais cuidando de mim, amigos de papai que nos visitavam. Parecia um dia de festa como aquele do Tour de La France, que infelizmente terminou de forma tão trágica para nós.

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Mas no sonho o dia era bom e como mamãe estava linda! Eu era tão pequeno quando ela se foi, mas impressionante como sua fisionomia ainda está impressa em algum lugar dentro de mim que, não sei por qual razão, despertou nessa madrugada e me presenteou com uma espécie de viagem no tempo. Acordei com uma sensação estranha. Por um lado senti como as coisas poderiam ter sido se mamãe não morresse tão jovem e papai simplesmente não tivesse desaparecido. Certamente eu teria crescido com outros valores, menos medo da vida e mais confiante em demonstrar meus sentimentos. Acho que foi depois que eles se foram que resolvi guardar e proteger com vigor tudo o que se passava dentro de mim. Por outro lado acordei com um profundo sentimento de melancolia, triste por saber que aquele tempo se foi, que a vida tem passado rápido demais e não pude fazer nada para evitar que as coisas corressem como correram. Hoje sou velho, vivo só e não faz sentido lamentar. Só precisava colocar no papel os pensamentos que me rondam essa manhã. É só isso e nada mais”. •

Michel toma mais um gole de água. Levanta-se em direção a janela e caminha devagar. Lá fora a chuva aumentou. Não há ninguém na rua. O velho mexe na barba de novo, franze a testa como se um novo pensamento viesse a mente e volta-se rapidamente para a porta do quarto enquanto fixa o olhar no vazio. Não há nada ali. Pelo menos nada que possa enxergar. – Ele pode nos ver? Pergunta Ed. – Não, meu amigo. Seu avô convive com os próprios fantasmas que vez ou outra vem lhe assombrar. Anjo responde ainda olhando para o velho homem com seu casaco de lã, parado, olhando para o vazio. 199


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– Espero que não esteja falando de fantasmas mesmo. Aqueles espíritos. Anjo interrompe falando baixo. – Os fantasmas que assombram seu avô são os mais insistentes e perigosos porque são os que nascem e se alimentam com seus pensamentos, suas frustrações que lhe trazem culpa dizendo que a vida poderia ter sido melhor. – E poderia, certo? – Somos nós quem criamos nossos próprios caminhos. Seu avô criou o dele. – Aquele menino que vimos em Paris, aquela jovem morrendo, o marido que fugiu...Ed de repente desperta como se um estalo lhe abrisse os olhos. – Foi lá que tudo começou. Quando Isabelle, sua bisavó, morreu, Clement não soube lidar com a dor e preferiu refugiar-se no próprio mundo. Ele precisava de um tempo para processar tudo o que aconteceu e depois enfrentar a realidade cuidando do filho, seguindo a diante. – O que houve depois? Ed volta-se para o avô que continua em pé no mesmo lugar, perdido em suas memórias. – Seu avô viu quando o pai saiu desnorteado de casa sem olhar para trás, sem dar chances para dizer nada. Clement não pretendia sumir. Ao sair de casa, seguiu em direção a multidão que ainda celebrava o evento que mobilizava a cidade. As ruas estavam cheias, havia muita comemoração para todos os lados. Ele simplesmente se misturou a massa onde ninguém pudesse lhe identificar. Era mais um em meio à multidão. •

Nas últimas horas o silenciou predominou naquela casa. Não fosse o tumulto lá fora ou breves comentários cheios de preocupação, o silêncio seria absoluto.

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Mas parece que algo tinha acontecido. O pior, aquilo que todos temiam e, talvez por isso, estavam quietos, quase como quem não ousa respirar evitando o despertar de um monstro. – Está tudo bem, Clement? Noir, uma senhora beirando os sessenta anos de idade pergunta ao homem que desce a escada que dá acesso ao quarto. Ele parece desnorteado, não vê ninguém. – Para onde vai? Insiste a senhora. Clement não responde. Passa por elas como se tivesse acabado de ver um fantasma e precisasse correr. É o que faz. Corre em direção à porta e lança um rápido olhar sobre o menino assustado que é amparado por Noir. – Fique tranquilo, Michel. Acho que seu pai precisa tomar um ar. Está tudo bem. Sussurra a mulher no ouvido do menino que olha fixamente para o pai. Clement continua mudo. Abre a porta e sai. Lá fora tudo continua como antes. Homens em grupo comemoram o fim do evento que mobilizou a cidade nos últimos dias. Senhoras caminham acompanhadas dos seus maridos, famílias, jovens portando bandeirinhas, todos saúdam o encerramento do Tour de La France.

A imagem daquele homem saindo de casa com olhos inchados, cabelos desalinhados, segurando um casaco no braço contrasta com o ambiente de euforia que predomina nas ruas. Mas ninguém vê. Todos estão preocupados demais com sua própria felicidade, com as celebrações, com o sentimento de que tudo está no lugar. Com pressa o homem atravessa o belo jardim de entrada da casa e caminha em direção a larga avenida e nem percebe que quando um papel, a carta que a esposa recomenda ao filho, cai de suas mãos, tampouco quando o vento o carrega para longe. Isso já não tinha importância, afinal, Clement não estava dis 201


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posto a entregar aquela carta a Michel. A morte era difícil demais para aceitar e talvez sua única maneira de confrontá-la fosse não cumprir seus rituais, evitando seus caprichos e requintes de crueldade. Aquela carta significava isso: uma despedida. A admissão de que agora seria cada um por si, que Isabelle tinha sido levada para sempre e que não havia nada a fazer. “Ainda que as coisas sejam assim, não vou compactuar com isso”. Pensava Clement como se pudesse contestar o incontestável. Como se sua atitude quase birrenta fincasse na morte uma bandeira de protesto, julgando-a culpada e sem chances de defesa. “Se a morte leva quem quer, não sou obrigado a aceitá-la pacatamente.” Clement desvia dos carros, atravessa a avenida e se embrenha entre os populares. Caminha até o tumulto diminuir. Passa por ruas, becos, vielas, e não para. Precisa de um tempo a sós. Onde quer que seja não importa, tudo o que quer é parar, sentar-se à beira de qualquer lugar onde ninguém o reconheça e chorar. Isabelle se foi, não há razão para continuar. Clement sequer via o filho como um motivo para lutar, ficar e retomar a vida. Acreditava que as crianças se recuperam com facilidade, faz parte de sua natureza. Com adultos a coisa é diferente. Estava certo de que sua presença na vida de Michel só atrapalharia o menino. As vozes da multidão se calaram. Os gritos, festas e canções ficaram para trás. Naquela rua empoeirada não havia ninguém, a não ser o homem que acaba de perder a esposa. Se durante tanto tempo Clement preferiu não encarar a realidade de que Isabelle estava com os dias contados, agora era esmagado pelos fatos. Ele encontra o lugar que procurava. Uma árvore enorme a beira de um lago. Não havia ninguém, estava a sós diante da esplendida paisagem e dos pensamentos confusos e desconectados. Ficou lá até adormecer. No dia seguinte continuou a caminhada sem destino até se

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cansar e encontrar outra árvore. Foi assim durante seis dias até que certa manhã resolveu bater na porta de uma casa, uma das poucas que pode visualizar daquele ponto. Ficava do outro lado do lago. Para quem não tinha meios de atravessá-lo era necessário uma longa caminhada por uma estrada íngreme, até que pudesse alcançá-la. Clement caminhou lentamente, não só pela falta de pressa, como também por faltar forças. Há seis dias comia somente frutas, estava cansado, precisava de ajuda. – Preciso de trabalho. Foi a primeira coisa que disse ao jovem de olhar desconfiado e camisa manchada com mangas arregaçadas que lhe atendeu na porta. – Como chegou aqui? Perguntou o jovem. – Minha esposa me deixou e saí de casa em Paris vagando sem destino. Vi sua casa quando estava do outro lado do lago e achei que.... Clement é interrompido pelo jovem que parece ter o cacoete de mexer na ponta do nariz enquanto o analisava: – Precisamos de um homem que saiba mexer na terra, plantar, colher e não tenha medo do trabalho. Aqui fazemos vinho, mexemos com uva. Se estiver disposto entre, começaremos ainda esta tarde. Não houve tempo para pensar. Clement andava há seis dias sem rumo e, se quisesse sobreviver teria que trabalhar. Voltar a Paris e retomar seu emprego estava fora de cogitação. Pensava em Michel. Amava o filho, mas seu medo era maior. Não se sentia em condições de criá-lo sem Isabelle. Sabia que seria razão de mais sofrimento ficando do que sumindo. O desaparecimento da esposa representou o fim de sua vida, por isso não seria possível retomá-la. Para Clement só havia duas escolhas: Morrer ou mudar radicalmente de vida se transformando em outra pessoa. – ... Se quiser, são essas as condições. Clement só ouve o fim da frase, mas mesmo assim aceita. Diante daquela porta aberta, a proposta do jovem significava a chance que precisava naquele 203


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momento. Não sabia como seriam os próximos dias, mas quem conhece seu próprio futuro? Primeiro de Agosto de 1931. Essa é a data em que Clement Mingot começa uma nova etapa em sua vida. Na tentativa de apagar o passado aceitou a proposta de trabalho e nunca mais voltou para casa. Com o tempo aprendeu a conviver com seus fantasmas e suprimir a saudade do filho convencendo-se de que fez o melhor para Michel que certamente já tinha superado a ausência dos pais. “Crianças esquecem rápido e costumam seguir o curso natural da vida sem grande saudosismo” costumava dizer. Desde que saiu de casa Clement sabia que as coisas não seriam iguais e que teria que lidar com aquele imenso vazio que lhe tomou o coração para sempre. Depois que aceitou o trabalho nunca mais retornou. Viveu mais dezesseis anos. Nunca esqueceu Isabelle. No horizonte é possível enxergar uma árvore. Ela é grande. Mais do que isso: é majestosa, suas folhas, imensas, são sustentadas por galhos de todas as formas em várias direções. O Éden é repleto de árvores, mas aquela era única, parecia privilegiada mesmo diante de tanta beleza. Soberana em um campo de vegetação plana, verde e limpa. À distância Ed olha fixamente para o horizonte. Enquanto vê a árvore, pensa na viagem que acabou de fazer. Visitou seu passado, viu suas origens a partir das histórias do vovô Michel e seu bisavô Clement. Nunca tinha ouvido falar sobre nenhum desses acontecimentos e ainda tentava organizar as informações na mente. – Por que me mostrou essas histórias? A pergunta de Ed interrompe um longo silêncio que se instalou desde que ele e anjo voltaram dos tempos de Clement. – São suas histórias. Responde anjo que olhava fixamente para a grande árvore no horizonte, mas logo se voltou para Ed e

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prosseguiu: – As pessoas não nascem vazias como muitos pensam. Quando chegam à Terra vocês trazem na essência muito do que seus antepassados foram e fizeram. Suas escolhas atuais não deixam de ser reflexo das escolhas de outros no passado. – Já ouvi falar sobre isso e nunca gostei da ideia de pagar pelos pecados de outros que nem conheci. – Não, meu amigo. Não se trata de consequências punitivas por atos próprios ou de terceiros, tampouco como meio de processo evolutivo e cumulativo. Estou falando sobre um fenômeno que é reflexo da conexão que existe entre vocês. É completamente diferente. Não olhe para isso a partir de leis morais, meritórias ou punitivas. – Me explique melhor. Ed parece interessado. – Ainda se recorda quando falamos sobre aquela teia que os conecta distribuindo o que vocês produzem em forma de energia? – Sim, os sentimentos, sensações, pensamentos que passeiam por ela e vazam na coletividade, não é isso? – Exatamente. Mas a coletividade é feita de indivíduos. O tempo é só a mídia para que vocês organizem as experiências, mas ele não é algo tão fixo como pensam... Ed interrompe: – ... Já falamos sobre isso também. – Mas é preciso lembrar-lhe para que entenda onde quero chegar. Anjo faz uma pausa, olha para Ed como se quisesse ver até onde ele entendia e depois prossegue. – Vocês são fruto de escolhas feitas antes que nascessem. Essas escolhas têm o poder de influenciá-los, mas não determina quem serão. No entanto, elas serão a base de onde partirão para suas próprias experiências, tendo ao longo do tempo todas as possibilidades de alterá-la e melhorá-la. – Deixe-me ver se entendi. É como se estivéssemos pré-destinados a ser de determinado jeito. Como se ao nascer já estivesse impresso em mim aquilo que meus antepassados fizeram? – Não exatamente. Viver pensando em predestinação pode 205


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ser muito perigoso porque isso tende a fixá-los em uma única via, fazendo com que acreditem que não há possibilidade de mudanças. É isso que quero que entenda. Não existe absolutamente nada estático sobre a face da Terra. Mesmo uma pedra abriga micro-organismos que vivem se movimentam e, ainda que a não seja possível perceber naquele momento, o tempo mostrará como ela se altera. Nesse caso, mais uma vez, o tempo foi a mídia para que percebessem essas alterações. – Mas e nós, os humanos? Ainda não ficou claro para mim que temos condições de construir um futuro com liberdade se partimos de algo que já foi feito... Ed para como se estivesse procurando uma palavra. Cerra os olhos, franze a testa e a encontra: – ... é quase como se estivéssemos contaminados e ao longo da vida devêssemos encontrar um antídoto. Anjo acha graça do comentário do amigo – Vocês não estão contaminados. Vocês estão conectados. Há uma enorme diferença nisso. É essa conexão que permite o compartilhamento de emoções, sentimentos... de amor. É assim porque todo o fôlego de vida é soprado do mesmo lugar... – ... Deus?” Interrompe Ed. – Sim, Deus é como o chamam. Tudo o que existe parte Dele. Sejam os humanos, a natureza, o espaço, o tempo. É como se cada expressão de vida representasse uma variação de um pedacinho de Deus. É isso que os conecta. Como o tempo é só um fenômeno de percepção que lhes ajuda a organizar as experiências, não existe nele a condição de simplesmente deletar a energia residual do que outros viveram e ficou no ar. – Ainda está um pouco confuso para mim. Você está dizendo que as experiências humanas não se apagam. Elas continuam no ar. Ed tenta processar a informação, para, pensa um segundo e prossegue: – Isso me dá a impressão de que aquilo que vivemos são objetos quantificáveis, palpáveis, que nos permita dizer olha ali minha experiência voando no céu. Mas o que são experiências

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se não os sentimentos que alimentamos a partir de algo que nos acontece? Aliás você mesmo me disse isso antes, que somos nós quem damos significado a cada acontecimento. Então as experiências são sempre únicas, não é isso ? – Você está quase lá! Pense comigo: Se existe conexão, é provável que exista compartilhamento. Quem está conectado ao outro, queira ou não, transmite a ele informações a respeito do que acontece consigo mesmo. O fato do outro não perceber, não evitará que de alguma maneira seja afetado pela informação que vazou e o influenciou. Esse é um padrão natural da vida e acontece entre pessoas, animais e ambientes. Você reage de um jeito em uma casa noturna e outro em um templo religioso, a exposição a uma bela paisagem desperta impulsos que um super mercado não desperta. Estar na presença de um ser pacificado é muito diferente de conviver com outro deprimido. Baratas provocam reações diferentes das provocadas por filhotes de cachorro. São processos simples de interação que interferem diretamente naquilo que você está sendo naquele momento. – Mas nesse caso são interferências físicas, conscientes, acho que não se trata dessa subliminaridade a que você se referiu quando somos invadidos por reflexos de práticas de gente que nem viva estava quando nascemos. – Você tem razão, não é o mesmo fenômeno, mas é o mesmo princípio. Consegue se lembrar quando eu disse que tudo o que acontece no físico é reflexo do que ocorre no interior? Ed concorda com a cabeça e continua ouvindo anjo: – É sobre isso que estamos falando. Assim como o físico interfere em sua alma, o invisível também influencia quem você será. Mas preste atenção, Ed: estou falando sobre influências e nunca sobre determinismo, sobre algo imposto e imutável que simplesmente determinará quem você é. Cada vez que você é afetado pelos reflexos de um ato praticado por outro, seja no passado ou no presente, tem a chance dar uma resposta de amor. Sempre que faz isso, me 207


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lhora o outro em você. Como todos são conectados, suas respostas em amor dá ao outro uma chance que - da mesma maneira como aconteceu com você - volta para ele como outra via de possibilidades. Se ele entende e também responde em amor, criará um ciclo de pacificação que vazará para mais gente. – Fantástico! Ed interrompe. – Engraçado que agora estou me sentindo de uma maneira estranha. Parece que uma parte em mim entendeu perfeitamente o que você está dizendo e se alegrou. Outra parte ainda está confusa. – Sua alma sabe que é assim e se identifica quando reconhece uma verdade. Talvez sua mente ainda esteja tentando processar essas informações enquanto entra em conflito com seu padrão fixo e intoxicado de pensar. Por isso essa sensação de divisão interior. – É exatamente assim que me sinto. Mas quero que fale mais sobre isso. Sempre achei sem sentido quando ouvia alguém falar sobre as pessoas estarem conectadas, mas pelo que você está me dizendo essa conexão nada mais é do que uma chance de nos melhorarmos mutuamente reagindo aos impulsos a que estamos expostos em amor. – Sim Ed. É assim porque o amor é antídoto para os enganos que invariavelmente cometem ao longo da vida. Quando se deparam com o amor, imediatamente as possibilidades aparecem como meio de reconciliação, primeiro individual, e depois, uma vez reconciliados consigo mesmo e pacificados pelo amor, reconciliados estarão com a vida. Mas não se esqueça: O amor só pode ser praticado na interação entre humanos, no dia a dia, no chão da vida. – Entendi e achei lindo o que disse. Mas e no caso dos antepassados? Como posso dar uma resposta em amor para meu bisavô Clement que já morreu. Ou meu avô, Michel, que sofreu as consequências dos atos do seu pai e agora está velho, sem chances de reverter o que já passou?

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– Clement e Michel são responsáveis pelo significado que deram as experiências que viveram. Tanto a morte de Isabelle quanto o desaparecimento de Clement, trouxeram para seu bisavô e avô elementos para que trabalhassem ao longo da vida e respondessem em amor. A melhor resposta é deles, só os envolvidos poderiam dar. – Mas anjo. Eles viveram experiências dificílimas. Como uma criança que perde os pais ou o marido que não tem coragem de enfrentar a morte da esposa podem dar respostas de amor? Nesse caso só consigo imaginar respostas de dor. – Respostas de dor podem ser dadas em amor porque não há nada, nem a dor, que possa limitá-lo. Não pense que o amor se encaixa em uma lista de definições que lhe encerra em determinados comportamentos, palavras ou reações. Pelo contrário: toda reação que parte de um coração grato e pacificado, ainda que dolorido, é fruto do amor. Talvez se pareça com choro, tenha cara de dor ou isolamento, mas será amor e repercutirá no caminho como bem para quem o experimentou. – Está me dizendo que as experiências de meu avô e bisavô foram boas? – As experiências deles foram somente experiências. O significado de cada uma só os dois poderiam dar. Mas existe um detalhe: A maneira como cada um reagiu diante do que viveu, repercutiu em quem viria depois, nesse caso, você. Seus medos, suas certezas, suas tendências emocionais partem dessa fonte que é a somatória dos significados dados por aqueles que vieram antes. Isso lhe serviu como guia na vida e agora cabe a você melhorá-los em si mesmo, dando respostas a tais influências sob a perspectiva do amor. Isso encerra um ciclo que está se repetindo há pelo menos duas gerações e abre para quem virá depois de você um novo caminho. – Poxa vida... Ed parece um pouco atordoado. 209


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– Quer dizer que minhas reações diante do que acontece interferirão em tanta coisa. Tanta gente pode ser afetada... – Esse é o caldo da vida, meu amigo. Por isso vocês erram quando dizem que Deus determinou que fosse assim. Na verdade são vocês que estão criando seus próprios caminhos a partir das conexões que estabelecem ao longo da vida e de como lidam com elas. Vocês são todos e tudo ao mesmo tempo. No seu interior vive um pedaço de cada ser que respira. Há um mundo inteiro em sua mente e a humanidade vive em sua alma. Foi assim desde o início para que pudessem experimentar na plenitude o bem do amor que só é real quando compartilhado. Mas, lembra-se quando falamos da necessidade humana de conhecer além do bem, o mal? Nesse ponto voltamos ao principio de nossa conversa. – Sim, me recordo, quando disse que a escolha em conhecer o mal abriu uma janela para que o percebêssemos e, nesse caso, o experimentássemos como possibilidade, não é isso? – Ainda bem que se recorda porque isso é essencial. O conhecimento do mal interfere nas conexões humanas como um vírus que só pode ser eliminado diante dos frutos de um coração que reage em amor. Por isso é tão importante que cada um de vocês melhore a si mesmo, ao outro e a humanidade a partir de reações individuais que impactarão adiante e espalharão no “sistema” o antivírus do amor. – Cada vez mais fico surpreso com suas palavras. Elas explicam muitas coisas! – As coisas são como são. É só não complicarem e as experimentarem em simplicidade. Você não precisa saber explicar, só precisa praticar. Se um dia se esquecer das palavras que usamos aqui não tem importância desde que saiba que no fim das contas é a prática do amor como resposta às experiências da vida que os põe no caminho da verdade. E quando conhecerem a verdade, finalmente estarão libertos. – Libertos do que?

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– Dos seus próprios autoenganos. Da maneira intoxicada que se enxergam e se projetam no próximo. É estar livre das sombras que nascem a partir de escolhas deturpadas, do medo, do egoísmo e do sentimento de que são seres individuais, desconectados e consequentemente desprovidos de qualquer senso coletivo. Ed ouve atentamente, mas demonstra que um novo pensamento vem à mente. Ele concorda com a cabeça, olha ao redor e muda o tom de voz para algo mais reflexivo. Como se estivesse pensando alto: – Ouvindo o que você me diz, fico pensando como seria o mundo se esse tal senso coletivo estivesse presente em todos. Quantos males seriam evitados. – Toda agressão, seja ao próximo ou a natureza, nasce justamente desse sentimento de que estão desconectados. Quem agride, está se agredindo. Quem faz mal, está praticando o mal contra si mesmo porque essa será sua resposta a vida. Se o bem e o mal vivem em cada um como possibilidades e as experiências são meios para que possam se revelar, a prática do bem ou do mal só mostrará o que está predominando em cada coração. – Mas por que isso acontece? Ed parece um pouco angustiado com a pergunta. – Digo, se somos seres naturalmente conectados, por que é tão difícil sentir assim? – O que sentem por seus familiares amados, amigos queridos, a sensação que tem diante de uma bela paisagem, ouvindo uma bela música, assistindo a um belo espetáculo, o silêncio, só refletem essa condição que está viva em cada coração. Mas em determinado momento, os humanos preferiram seguir em outro fluxo. – O fluxo da Terra? Ed interrompe como se estivesse respondendo a uma pergunta da chamada oral dos tempos do primário. Anjo acha graça da espontaneidade do amigo, sorri e prossegue: – Exatamente. Já falamos sobre isso. O fluxo é o produto das escolhas da maioria que é elaborada e devolvida em forma de consumo, vaidade, corrida atrás do vento que no fim os deixará tão dependentes desse sistema que se sentirão completamente 211


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desconectados uns dos outros, mas completamente conectados ao sistema. Será cada um por si e todos contra todos. – Enquanto você falava me lembrei daquelas serpentes. – Elas representam todo esse processo. Nenhuma delas pode determinar os caminhos que cada um de vocês escolherá, mas podem influenciar a partir de suas próprias escolhas. Quem dá respostas em amor só aumentará em si mesmo a capacidade de autopercepção e esse discernirá o fluxo. Você viu as serpentes se alimentando da produção coletiva, elaborando-a e despejando sobre os humanos o resultado daquilo que cada um, mesmo sem saber, contribuiu como impulsos, atitudes ou pensamentos. E isso é mais um reflexo de que tudo está conectado. – Como você aprendeu tudo isso? Anjo sorri. – Isso tudo é o que é. Você mesmo já sabia, não há o que aprender. Nós só estamos aqui decodificando em palavras um sentimento que sempre existiu no interior de cada um. Outros também falam sobre isso. Pode ser uma música, um gesto, um olhar... tudo fala o tempo todo. Só precisamos perceber. Depois disso um breve silêncio. Ed continua na mesma posição, com olhar distante, fixado na grande árvore no horizonte. Parece que deixa sua mente viajar. Anjo permite a viagem do amigo e se cala até que Ed interrompe o silêncio com um comentário: – Você falou sobre música. Me lembrei de Beth. Nos conhecemos em uma aula de piano. Quando ela entrou na sala estava tocando Bach... Ele faz uma pausa, fecha os olhos e deixa a mente voltar no tempo. •

Barulho de chuva. Pingos caem sobre poças, telhados, carros, calçada. Um trovão. A chuva intermitente. O movimento da rua era abaixo do normal. Um homem segurando um pequeno cachorro branco corre ensopado, desviando

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de algumas poças, passando a mão no rosto em uma frustrada tentativa de enxugá-lo. – Por que será que, mesmo depois de molhadas, as pessoas correm quando está chovendo? Foi só um pensamento bobo. Ed se diverte com o próprio comentário, esboça um sorriso e toma mais um gole de café enquanto fecha a pequena cortina de pano bege e caminha em direção ao armário. Naquela manhã despertou vinte minutos mais cedo. Isso acontecia quase sempre que ia dormir muito tarde ou cansado. Ele passava a noite preocupado em se aprofundar no sono e perder a hora. Não era uma preocupação completamente descabida já que perdeu a hora em situações semelhantes mais de uma vez. Talvez o medo de que acontecesse novamente fazia com que parte dele não dormisse e, a parte que dormia, acordava de tempos em tempos. Não sabia que estava com dor de cabeça até o momento em que tentou colocar-se em pé. Ao sair da cama a cabeça começou a latejar, certamente fruto do porre da noite anterior. Ed saiu com alguns amigos para comemorar alguma coisa. Na verdade ele se esqueceu a razão pela qual comemoravam no segundo copo de cerveja. Era sempre assim. Um da turma ligava para o outro inventando qualquer motivo para que saíssem e fossem comemorar: A vitória do time, a chegada do fim de semana, a perda de 1 kg, a noite bonita... Tudo era motivo para brindar. Depois de algumas ligações a rede estava formada e a mesa do bar cheia. Esse era o verdadeiro motivo: estarem juntos, bebendo, conversando e aproveitando um tempo especial de suas vidas. Mas aí vinha o dia seguinte. Pior: a manhã seguinte e com ela a ressaca. Mas Ed conhecia o caminho até o banheiro, a água gelada, o café quente e o milagre estava feito. Abre a porta da dispensa e pega um biscoito. Era dia da aula 213


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de piano e se não fosse em consideração ao primo Eric, certamente dormiria até tarde. Eric era seu único primo. Filho de uma irmã de sua mãe que viu pouquíssimas vezes. Passaram anos sem saber da existência do outro. Tinham se conhecido há pouco tempo, depois que em mais uma dessas coincidências da vida, o primo se mudou para a cidade em que Ed morava. Ed não sabia da existência de Eric, mas Eric já tinha ouvido alguma coisa sobre um primo órfão que morava naquela cidade. Foi uma transferência de trabalho que levou Eric para lá e, ao chegar, logo recordou a história do primo distante. Procurou na lista telefônica, fez contato e se tornaram amigos. Eric estava entre os amigos na noite de ontem, mas isso não evitaria que estivesse na aula de piano na manhã seguinte. Ed não era um grande entusiasta da música, mas aceitou o convite do primo para ser seu aluno, não só porque seria uma boa oportunidade de estarem em contato e recuperarem o tempo perdido, como para ajudá-lo nesse projeto de fim de semana que estava no inicio e alimentava alguma pretensão de Eric sair do banco e montar um grande conservatório de música. “Não posso faltar logo na segunda aula. Eric não entenderia”. Pensa Ed enquanto se veste ao mesmo tempo em que procura as chaves do carro, carteira e documentos. No elevador percebe que mal penteou o cabelo que, como acontece todas as manhãs, ainda está levantado logo na parte de cima da cabeça. Dessa vez nem a água ajudou a abaixá-lo. Ed passa as mãos sobre o cabelo levantado algumas vezes, melhora sensivelmente, mas não resolve. Ele acha graça do seu esforço e relaxa, afinal não vai a nenhum ponto de paquera, é só a aula de piano do primo. Nada mais. Dirige sob a chuva que não dá trégua. “Ainda bem que a garagem lá no Eric é coberta”. Pensa en-

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quanto se aproxima da pequena casa cravada entre uma revendedora de carros usados e um pet shop com um cachorro esquisito desenhado na fachada. Mas a vaga coberta estava ocupada. Ed fala um palavrão qualquer enquanto para na primeira vaga que encontra. Não era longe, mas o suficiente para se molhar. Desliga o carro e se volta para o banco de trás tentando encontrar um guarda - chuva que tinha que estar em algum lugar. Era um antigo que seu avô Michel lhe deu há muitos anos e, apesar de velho, ainda servia. “Droga. Devo ter tirado ele daqui”. Lamenta enquanto revira o carro. Se o guarda-chuva tinha sumido, melhor correr até a porta. “Quanto mais rápido melhor. Deixa eu ver se peguei tudo... carteira na mão... vamos lá. 3,2,1 Já !” Ed abre a porta, coloca uma perna para fora, depois sai correndo, acionando a trava elétrica e no fundo achando graça por se lembrar do homem correndo com cachorro de manhã em frente a sua janela. “É para eu parar de rir da desgraça dos outros”. Foi o último pensamento antes que chegasse a porta de vidro e entrasse rapidamente. O ambiente, silencioso e aconchegante, parcialmente iluminado por uma luz escura, contrastava com a chuva que caia lá fora. Poucas pessoas haviam chegado, algumas sentadas conversando em voz baixa, um homem mais velho com óculos de haste escura, lentes grossas, lendo uma partitura no canto. Uma risada um pouco mais alta de uma adolescente loira, rosto redondo, vestida com uma jaqueta que lembrava aquelas roupinhas da boneca Barbie. Ed entra pisando lentamente sobre o carpete cinza, enquanto procura algum local adequado para pendurar seu casaco molhado de chuva. 215


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Ouve uma voz conhecida. Eric sai de uma porta que ficava no fundo da sala. Ele conversa com um rapaz baixinho, calvo e de bigodes espessos. Parece que dá alguma instrução sobre a aula enquanto caminham em direção ao piano postado exatamente no centro da sala rodeada por confortáveis cadeiras. – Ed! Agora foi Eric quem lhe viu aproveitando para saudar o primo, depois lhe dando um forte abraço com tapinhas nas costas. – Deixe-me ver... Está com a cara ótima! Nem parece que foi dormir tarde ontem. Graceja o primo logo se afastando e soltando uma de suas risadas espalhafatosas. Eric era um homem forte, grande, com mais de 1m90, pele machucada pelo excesso de espinhas da adolescência, algumas entradas de calvície e o resto dos cabelos sempre penteados para trás, cheios de gel. Era conhecido por seu humor e a capacidade de dizer verdades inconvenientes com tanta graça que não ofendia. Exímio pianista desde os doze anos, Eric sonhava em deixar o entediante emprego no banco para um dia dedicar-se a música. Aquelas aulas era o primeiro passo. Colocou anúncios em jornais, colou panfletos em lojas, bares, restaurantes, divulgou para amigos e colegas até que os alunos aparecessem. Naquela primeira turma eram nove inscritos contando com Ed. – Foi difícil cair da cama hoje. Ed fecha os olhos, balança a cabeça e simula um bocejo. Depois continua. Mas eis-me aqui na famosa e concorrida aula de piano do primo Eric. Espero que me transforme em um Mozart. Os dois acham graça. – Mozart não garanto, mas dependendo do seu esforço pode ir bem longe. Diz o primo com ar professoral. Aos poucos os alunos vão se ajeitando. Os que se aproximaram na aula anterior iniciam conversas tímidas e corriqueiras. Ed e Eric conversam mais alguns segundos, depois seguem

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cada um para seu posto: Ed senta-se em uma das cadeiras postadas perto de um abajur de porcelana com a cúpula bem maior do que a base, Eric caminha até o piano. – Bom dia pessoal. Os alunos interrompem as conversas e olham para o professor respondendo a saudação. – Obrigado por vir a nossa segunda aula. Fico especialmente feliz por notar que, apesar da chuvarada e ventania dessa manhã, a maioria dos que estavam semana passada voltaram hoje o que me deixa especialmente envaidecido como professor. Eric passa as mãos lentamente sobre o cabelo repuxado pelo gel como se estivesse se gabando de alguma coisa. Todos riem. – Como fizemos na primeira aula, vou começar tocando uma música para entrarmos no clima. Aproveite os próximos minutos e deixe a mente ir para onde quiser. Ela nos levará para o ponto ideal onde a aula fluirá da melhor maneira possível. Relaxem e boa viagem. Eric volta-se para o piano, estica os dedos, abre e fecha as mãos duas vezes e começa. Ninguém resiste aquele som. De repente a sala escura com carpete cinza, paredes forradas com papel cheio de flores vermelhas desenhadas, se enche da mais bela música. Cada som que vai e vem em ritmo perfeito, a harmonia das notas, a melodia que cativa as mentes e não dá chances a distração. Todos parecem extasiados. É como se o mar, o céu e tudo o que existe de mais fantástico tivessem sido capturados em uma garrafa que acabara de ser aberta deixando que aquele conteúdo espetacular vazasse, inundando os sentidos, parando o tempo, expandindo a percepção para tudo o que é belo. Quase ninguém ouviu quando os sininhos pendurados na 217


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porta de entrada balançaram discretamente. O som de piano enchendo os ouvidos com Bach, não permitia companhia. Quando Ed percebeu o barulho, pensou que pudesse ser o vento, mas enquanto a porta abria lentamente, notou que havia gente chegando. Primeiro uma mulher tentando não fazer barulho, de costas para a turma entra com metade do corpo enquanto tenta fechar o guarda-chuva completamente ensopado. Ed acha graça do esforço da aluna em não se fazer notar. Ela tira o casaco marrom e procura um espaço para pendurá-lo. Eric continua completamente absorvido, quase em êxtase diante do piano. Ed fixado na mulher de pele clara, olhos castanhos cheios de timidez. Ela ajeita a calça bege e a camiseta preta e, ainda preocupada em não atrapalhar, caminha como se estivesse pisando em ovos até encontrar um lugar. “Vem pra cá, vem pra cá...” Ed tenta hipnotizá-la. Não deu certo. Ela se ajeita no lugar mais perto da porta, um sofá antigo e desbotado que ficava encostado na parede dos quadros com fotos de Louis Amstrong, Ray Charles e outro que Ed não reconheceu. Ela recosta a cabeça, respira fundo como se estivesse tentando entrar na sintonia da aula, deixando-se embalar pela música que toma conta daquele lugar. Depois dá uma espiada na quantidade de alunos sentados a volta do piano. O senhor com óculos de haste escura e lentes grossas parece em transe, uma adolescente gordinha loira de cabelos cumpridos e jaqueta rosa não desgruda os olhos do piano, um oriental não se move, parece uma estátua, um jovem com cabelos ondulados e levantados como quem dormiu e saiu de casa sem ajeitá-los... Bem, esse olha fixamente para ela. “Ele está olhando para mim?” Pensa a aluna que disfarça,

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muda o ponto de observação até que retorna rapidamente para o rapaz que agora lança um sorriso. Ela sorri. Não dá para disfarçar, ele percebeu que ficou sem graça. A música ainda enche o ambiente. A sala está cheia de Bach. Para um observador imparcial a cena tem sua graça: Um homem grande tocando piano no centro de uma sala, alunos cativos a bela música, com exceção de um que olha fixamente para uma mulher que finge não perceber. Não era opcional. Ed não queria constrangê-la e provavelmente naquele momento nem se deu conta de quanto evidente estava sua fixação. Simplesmente não conseguia parar de olhar aquela mulher que tinha algo além da beleza. Claro, era bonita, mas algo saia daqueles olhos, existia uma energia ou qualquer coisa parecida que não só atraia Ed, mas anulava qualquer possibilidade de resistência. Parece que ele não tinha anticorpos suficientes para aquele ataque. A música durou alguns longos minutos. Ao termino houve silêncio, como se os alunos precisassem de alguns segundos para voltar a realidade, cada um guardando seu pensamento e retornando lentamente a sala de aula, despertando, desfazendo o transe proporcionado pelo som do piano que os conduziu a lugares tão distantes. Todos, menos um. Ed continuava com os olhos grudados na menina tímida que parecia se concentrar no professor. Depois, algum tempo após Eric falar, tocar alguns sons, fazer algumas demonstrações... Depois de tudo isso, houve a deixa: – Dez minutos para um chá. Continuaremos logo após. Alguns alunos se levantam, outros permanecem sentados no mesmo ponto conversando e ela, a menina linda naquele sofá velho, permanece calada. Abre a bolsa, mexe em algumas coisas, depois pega um caderninho de anotações, faz alguns rabiscos en 219


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quanto se ajeita como se estivesse procurando uma posição mais confortável. Ed não sabe se haverá outra chance. E se ela não voltasse nas próximas aulas? E se outra pessoa fosse? E se ela levantasse para conversar com alguém? Quando poderia abordá-la sozinha? Haveria outra chance? Ele se levanta, depois estica os braços. Simula uma espreguiçada, levanta um joelho, depois outro, e se esforçando para aparentar naturalidade caminha em direção ao sofá. São poucos metros até o destino final. Em apenas alguns passos chegará até aquela desconhecida que inesperadamente invadiu seus sentidos, aparentemente lhe dominando sem que restasse nenhuma escolha. Agora falta pouco. Ela finge não perceber, ele se esforça para ser natural enquanto pensa no que vai dizer. – Ed! E aí cara, o que está achando da aula? Eric com seu vozeirão potente grita do outro lado da sala, interrompendo a caminhada do primo. “Que droga!” É o pensamento. – Oh! Está ótima. Estou gostando bastante. É a resposta. – Que bom. Venha, vamos até a cozinha tomar um chá. Pedi para a Dona Vilma preparar um daqueles antes que fosse embora. – Dona Vilma? Ed parece confuso. – Sim, cara. A senhora que faz faxina lá em casa. Ela me ajuda limpando esta sala também. – Oh... Sim. Dona Vilma. – Está tudo bem? Você parece fora do ar. Acho que ainda não acordou. Certamente um chá lhe fará bem. Eric se aproxima do primo enquanto o arrasta pelo braço até o maldito chá. Ed lança um breve olhar à moça do sofá que parece prestar atenção na cena e se divertir com a nítida contrariedade do rapaz

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que foi interrompido no meio do caminho pelo grandalhão que insistia que fossem tomar o chá. – Professor. Tem um tempinho? Gostaria muito de tirar uma dúvida antes que recomeçássemos. A adolescente com jaqueta da Barbie! – Sim, claro, o que quer saber?. Eric volta-se à menina. Ele larga o braço do primo. Antes que ela fizesse a pergunta, volta-se para Ed e pergunta: – Importa-se de deixarmos o chá para depois? Ossos do ofício sabe. E solta mais uma daquelas risadas espalhafatosas. Isso primo, vá para longe, de atenção a sua aluna e não me interrompa mais! – Claro, fique tranquilo, depois a gente conversa. Foi o que respondeu. Eric vira para a menina gordinha de cabelos loiros e caminha com ela em direção ao piano. “É agora”. Ed fala para si mesmo enquanto tenta retomar a naturalidade caminhando em direção ao sofá. Agora a menina é quem sorri para ele. – Parece que você não estava muito afim do chá. Ela toma a iniciativa da conversa. Ele se aproxima, dá mais dois ou três passos, retribui o sorriso e responde: – Você nem imagina como o chá daqui é horrível. Ele sussurra em tom de segredo, depois pisca um olho e sorri de novo. – Não gosto de chá. Ela aproveita o tom e fala baixinho com a mão na boca. – Está gostando da aula?Ed engata a conversa. – Sim, estou bastante. Não pude vir na semana passada e pensei que fosse ficar perdida hoje, mas... ela nota o olhar fixo do rapaz, fica um pouco sem graça, disfarça e continua ... mas estou me surpreendendo. – Eu também. Ed solta a frase sem perceber que a combi 221


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nação de seu tom de voz com o olhar fixo deixou tudo mais claro do que intencionou. Ela apenas sorri, desvia o olhar e não diz nada. – Prazer, meu nome é Ed. – Sou Beth. – Acho que vamos nos dar muito bem. – Espero que sim. O som do piano volta a preencher a sala. Em alguns minutos a aula seria retomada e, como costumava fazer, Eric toca mais uma daquelas maravilhosas canções que cativa os ouvidos e proporciona viagens sentimentais. Ao redor do professor cada aluno se ajeita recompondo-se das conversas para entrar no clima da música. Um a um voltam para suas cadeiras, buscando os blocos de anotações, ajeitando partituras e preparando-se para a segunda parte da aula enquanto deixam-se levar pelo som do piano. Todos nos lugares de antes, menos o rapaz com cabelo levantado. Agora Ed está ao lado de Beth e é assim que pretende ficar pelo resto da vida. Às vezes olhamos para nosso passado como se fossem autônomos, desconectados do todo, fora do eixo que acreditamos ser o motor de nossas vidas. Contamos nossa história, falamos dos eventos, das coincidências que nos trouxeram até aqui sem perceber que cada peça se encaixa e, mais do que isso, foi fundamental para construir o que somos. Por mais aparentemente que, cada movimento, escolhas, passos, sejam assimétricos em relação ao outro, todos contribuíram para que uma coisa levasse a outra até desembocar no dia de hoje. Somos fruto de um caminho, reflexo de um infindável ajuntamento de momentos que, um a um, nos faz como somos e constroem aquilo que chamamos de vida. A nossa vida.

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Reconhecemos onde estamos, sabemos quem somos, mas isso até que o inesperado nos alcance e mude a perspectiva das coisas. Ele não muda as coisas, mas muda o jeito que olhamos para elas, dando novos contornos e carregando em tons que antes desconhecíamos. No fim das contas, o que realmente muda é o olhar. Isso pode alterar profundamente nossa relação com a vida. Era assim que Ed se sentia. Revivendo sua vida na posição de observador, partia de um novo ponto e isso era suficiente para a construção de um novo cenário, mais amplo, conectado não somente com os eventos isolados da sua própria história, como também com a dos seus pais, avós, pessoas que vieram antes e, sem que soubessem, influenciariam diretamente em seu próprio caminho. Definitivamente aquele lugar guardava enormes surpresas. Além de toda beleza natural, da paisagem fantástica, lhe abria passagem para que re-visitasse momentos que aparentemente já tinham se dissolvido no tempo. – Como se sente amigo? Anjo olha fixamente para Ed como se soubesse a resposta. – Um pouco confuso. Ele para alguns instantes como quem tenta reorganizar o pensamento: – É estranho poder visitar momentos da própria vida sem a possibilidade de interferir neles. É como se eu estivesse vendo e ao mesmo tempo participando de um filme onde conheço o enredo, mas mesmo assim sou afetado por cada cena. – Parece estranho não? – Sim. É como se eu viesse todos os dias a um determinado lugar, entrando pela mesma porta, olhando para o mesmo lado a partir de um ponto fixo. Tempos depois volto a esse mesmo lugar e entro por outra porta. Apesar de ser o lugar de sempre, parece que as paredes estão diferentes, que os objetos tão familiares foram reposicionados, que a iluminação mudou, o espaço não é o 223


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mesmo ainda que seja exatamente o de todos os dias. Mudou tudo porque mudei o ponto de observação. Uma nova perspectiva me deu outra interpretação. – Fico feliz que esteja entendendo. Sinto que a cada instante seus olhos se abrem. – Para ser sincero não sei lhe dizer com clareza. É difícil explicar todas as modificações que tem acontecido dentro de mim, mas realmente me sinto muito diferente. – Que tipo de diferença? Anjo parece intrigado. – Principalmente no jeito de interpretar cada acontecimento. Não sei se a causa é o impacto de revisitar o que já passou ou se tudo o que você tem me ensinado simplesmente alterou minha consciência em relação à vida, mas é diferente... Ed para mais alguns instantes aparentemente buscando o que diria a seguir: ... é algo que posso sentir mas tenho dificuldades em explicar. – Ed, nem tudo o que sente é passível de explicação. Nesse caso não há razões para se preocupar porque é bom que seja assim. – Por quê? – Porque muitas vezes suas explicações reduzem a própria experiência. – Não sei se está claro. Como a explicação de um fato pode reduzi-lo? – Reduz especialmente quando vocês tentam encaixar a experiência dentro de uma explicação limitada por sua mente, seu vocabulário, seus conhecimentos. Como tentar encaixar um cubo em um triângulo? Impossível. É como se estivessem fechados a novos conhecimentos, a não ser que eles passem pelo funil do que lhes da sensação de segurança. – Mas como vou evoluir experimentando algo que não possa explicar? Pensando assim sinto que é nesse caso em que estamos reduzindo uma experiência a apenas uma sensação, quando na verdade explicá-la poderia nos abrir portas e aumentar nossa percepção em relação ao que vivemos.

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– Cada experiência tem seu lugar. Cada caminho, ainda que aparentemente desconhecido, tem partida em uma estrada que você já passou e conectará com outro caminho que lá adiante deixara claro a necessidade de que tenha andado por onde andou. O problema é que nem sempre vocês entendem assim. Querem explicações rápidas e fáceis que justifique determinada curva, que explique imediatamente por que as coisas aconteceram de determinada forma quando na realidade tudo está conectado. Preste atenção: Nunca haverá explicações satisfatórias se a visão do todo ainda é parcial. – Mas é natural que tentemos explicar e entender nossos caminhos. – Sim é natural. Por isso devem tentar interpretá-los com a naturalidade de quem sabe que os fatos não são isolados e que a experiência de viver não pode ser reduzida ao arsenal de conhecimento que possui naquele momento, ainda com a visão parcial. Tudo está conectado e cada passo, por menor que seja, conduz em direção a algum lugar. Anjo faz uma breve pausa como se certificando que Ed está entendendo. Depois fala mais pausadamente: – Pensar é bom, vocês são seres dotados de raciocínio e capacidade interpretativa e é assim justamente para que se reconheçam e possam aprender com as experiências de vida. O que não podem esquecer é que em cada dia, depois de cada experiência, existe a possibilidade de mudar o jeito de olhar. Aquele que sabe disso entende que existem várias maneiras de interpretar um mesmo acontecimento e no fim essa variação de possibilidades permite extrair de cada um o real aplicativo que lhes fará enxergar mais e mais. – Pelo que entendi, o problema não é tentar explicar o que vivemos, até porque isso faz parte de nossa natureza. O que faz mal é limitar nosso entendimento em relação a uma experiência somente ao que estamos pré-dispostos a aceitar como verdade absoluta. Isso que você chama de reduzir uma experiência, certo? 225


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– Isso mesmo. Não é bom limitar a uma única explicação uma infindável variação de possibilidades. – As religiões fazem muito isso. – Bem lembrado. É um exemplo clássico. Geralmente a religião tenta explicar Deus. Estabelece-se leis, padrões, condutas e regras que fará com que as pessoas realmente acreditem que decifraram a Deus por completo. – E isso é possível? Ed pergunta com curiosidade, realmente atento as palavras do anjo. – Deus não é decifrável e de maneira alguma pode ser contido em um arsenal de regras e padrões. O que podemos conhecer dele só está acessível a partir de um movimento individual, dele na direção de cada humano. Por isso é uma relação unilateral e fruto de experiência pessoal. Não há meios para estudá-lo nem fórmulas que o define. Ele simplesmente é e nunca se limitará a nenhum ajuntamento de regras. – Mas isso que você está dizendo não deixa de ser um conceito. De alguma maneira suas palavras estão relativizando a ideia de Deus já que no fundo está atribuindo características a ele. – Estou dizendo que Deus não pode ser objeto de estudo ou explicação. Que não se pode limitá-lo a um padrão ou punhado de regras acreditando que isso o conterá. Para que Ele as escute, pensam as pessoas, é preciso oração de mãos juntas e olhos fechados, para que veja é preciso que sejam bons, para que os cuide espera que sejam gratos e acreditem nele, quem leiam a Bíblia e se encaixem em determinada cultura. Acreditam que assim vão estabelecendo uma relação de causa e efeito que na realidade não existe. Entenda o que vou lhe dizer Ed, não há absolutamente nada que possam fazer para que Deus lhes ame mais, assim como nenhuma atitude deplorável faria com que ame menos. Ele não está limitado as suas regras, tampouco ao seu conhecimento em relação a Ele. – Se não podemos fazer nada para que Ele nos atenda a sensação que me dá é que somos insignificantes e Ele despreocupado.

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Anjo dá um sorriso e explica: – É o contrário. Só é desse jeito porque se Ele fosse depender de méritos humanos ninguém estaria exposto ao bem de cada dia. Assim como o sol brilha sobre todos e a chuva não escolhe bons ou maus, relacionar-se com Deus é algo inerente a condição humana. Acontece o tempo inteiro e de maneira que vocês nem imaginam. A diferença é que uns percebem, outros não. – Parece que para isso você tem outra explicação além daquelas que as igrejas dão. Ed comenta com certo humor no tom de voz. – Templos são apenas construções de tijolo onde a igreja se reúne. Igreja é gente, templo é pedra. Mas a igreja não se reúne só no templo. São pessoas que se cruzam pelo caminho, se reconhecem na vida, se encontram e casam os sonhos e o desejo de fazer o bem. Ainda que esses nunca tenham colocado o pé em um templo, mesmo que se sintam excluídos e não planejem nenhuma aproximação com os sacerdotes, esses são igrejas. Muitos não sabem disso porque fixam sua relação com Deus no que os templos ensinam. Cada sentimento é uma porta de relacionamento, cada experiência é uma palavra soprada por Deus para que ouvidos humanos entendam que não estão sozinhos. Não existe uma palavra de Deus, uma voz de Deus, um alerta que Ele esporadicamente faça simplesmente porque sua palavra, voz, alerta ou qualquer tipo de manifestação estão radicalmente ligados a nossas vidas e a maneira como lidamos com ela todos os dias. O tempo todo. – Acho que estou começando a entender o que disse sobre explicações pré-condicionadas. – Sim, Ed. Aplica-se nesse caso também. Por mais contraditório que pareça, vocês deixam de se relacionar com Deus porque aceitam as condições explicadas nos templos que acabam condi 227


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cionando o que só viria com a experiência, a aplicação diária as regras que eles estabeleceram por vaidade, ignorância ou ganância. – Essa coisa de experiência... Ed para um pouco. Faz uma espécie de careta, olha para anjo, depois prossegue – ... Não sei, essa coisa de experiência me soa tão relativo. Cada um tem seu próprio jeito de sentir as coisas. Sempre que ouço alguém falar sobre experiência com Deus confesso que me sinto incomodado. – De onde acha que vem esse incomodo? Ed pensa alguns segundos. – Me parece que essa experiência que tanto falam sempre se vincula a um método. Deixe-me tentar explicar melhor. Eu vejo os religiosos na TV, na rua ou em qualquer lugar dizendo que devemos ter uma experiência com Deus. Depois concluem dizendo para irmos a determinado templo, fazermos determinada coisa, cumprimos algum rito... que no fim padronizam as tais experiências fazendo com que todos sejam iguais, falem do mesmo jeito, pensem as mesmas coisas. Isso não me parece uma experiência pessoal e revolucionaria, mas... – ... Uma doutrinação militar. Anjo completa a frase com bom humor, dá uma piscadela e sorri. – Mais ou menos isso. Ed também acha graça. – Não sei se essa seria a melhor definição, mas no fim é o que sinto. Quase como uma doutrinação militar com ares de piedade. – E você tem razão em se sentir assim. Já falamos bastante sobre as experiências, a maneira que lidamos com elas e lhes damos significado. Nesse caso é a mesma coisa e sabe por que meu amigo? Porque é muito difícil vocês conseguirem dissociar a ideia de Deus com os símbolos, discursos e métodos religiosos. O problema é que muitos, por mais bem intencionados que sejam, ensinam que Deus está fora e pode ser acessado a partir dos mais diversos ritos. – Não é assim? – Não. Deus está diretamente conectado com seus olhos. Ele

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respira em seus pulmões e sopra em cada pensamento. Não há sentimento que não passe por Ele e aspirações que Ele desconheça. Ele fala o tempo inteiro e vocês só não percebem porque estão fixados no lugar errado, esperando vê-lo fora quando na realidade ele está dentro. Só quem enxerga a si mesmo pode vê-lo. Reconhecê-lo em sua própria humanidade abre a percepção. Evolução nunca é uma questão de Deus mais perto, mas de eu mais esperto, com olhos abertos, percebendo seus movimentos na história e seus passos, sutis, em tudo, em mim. Quando você entende que Ele está em tudo e tudo existe nele, algo acontece aí dentro: Seus olhos começam a se abrir, você o percebe e entende que Ele sempre esteve aqui. – Impressionante como você consegue descrever algo que eu sentia, mas nunca soube colocar para fora. – É exatamente isso. Não colocou para fora, não externalizou, pelo menos não em palavras, mas esse sentimento existe porque encontra correspondência com sua realidade mais essencial. Sei que é dificílimo para vocês se desconectarem dessa impressão coletiva e cultural que associa Deus a uma imagem fora, um ser julgador, longe, no céu, um líder religioso. Vocês departamentalizaram Deus, colocando-o na sua própria prateleira. Apesar disso não distanciá-lo de vocês, os dificulta de enxergá-lo. – Mas é tão difícil mudar isso. – Isso não muda a não ser no interior, no seu olhar em relação aos outros e a si mesmo. É uma mudança de dentro para fora, começa com uma simples percepção e quando você vê, tudo o que começou pequenininho, como uma inquietude, aumenta e se instala como uma grande revolução. O caminho para essa conexão é o chão do amor. Deus é amor. Quem ama o conhece, quem não ama e não dá frutos em amor, ainda que o chame de amigo, fale em seu nome, aparente ser o melhor dos cidadãos, conheça todas as regras do jogo, ainda assim, esse não tem ideia de quem Ele é. 229


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– O que são esses frutos do amor? – Para isso também não existe cartilha, um único caminho em que alguém possa apontar dizendo é por ali que segue a trilha do amor. Quem ama enxerga, se entrega e cuida dos seus. Esse sabe o que fazer diante da necessidade e entende que tudo o que quer para si, deve antes ser feito para o próximo. Esse simples entendimento constrói caminhos únicos onde cada um exercita o amor com suas próprias características em simplicidade. – Enquanto você me fala, fico pensando, parece tudo tão simples e ao mesmo tempo tão complicado. – Onde enxerga a complicação? Ed pensa alguns segundos. Olha para o horizonte, busca palavras, parece que tenta organizar a mente antes de responder a pergunta do anjo. – Não sei se complicação é a palavra, mas ainda que adore tudo o que está dizendo, muitas vezes sinto que é difícil viver assim na prática porque a aceitação disso tudo nos colocaria na contramão do que está estabelecido como regra entre a maioria das pessoas. Anjo dá um sorriso acolhedor: – Mas ninguém disse que seria fácil. Estou falando sobre viver em liberdade, livre do fluxo que tende a dissolver sua humanidade em regras, modas ou padrões. Você tem razão, meu amigo. Viver em liberdade requer muita coragem porque isso representa a necessidade de rompimento com códigos que moldam sua forma de pensar. Vocês vivem em uma sociedade que dita maneiras, impões regras, fomenta uma cultura inteira baseada nas leis de causa e efeito, tentando criar a sensação de que vocês tem o controle de tudo. A luz que invade quando abrem os olhos pode incomodar no primeiro momento. – É verdade... Ed pensa mais alguns instantes, como se estivesse tentando ruminar a conversa: ... Como acreditar que não estamos perdidos?

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– Voltando a simplicidade do olhar. Abrindo mão do sentimento de que vocês detem todas as chaves, segredos e mistérios, que precisam sempre ter respostas objetivas para tudo. O crescimento só é real quando entendem que existe espaço para crescer, quando estão abertos a novos conhecimentos, sem medo, olhando a vida e os acontecimentos sempre como possibilidades. Anjo olha o amigo como se estivesse querendo confirmar que ele absorvia as palavras e prossegue: – O que lhes dá a sensação de estarem perdidos é a desconexão com a vida, é a falta de capacidade de enxergá-la como uma missão, onde tudo fala e, mesmo os pequenos detalhes da existência estão interligados, conduzindo o coração aberto e sensível a uma nova percepção, um novo caminho que lhes abrirá outros mundos e lhes fará enxergar. Vocês não estão perdidos nem sozinhos e, para saber isso, basta abrir os olhos. – Olha, isso tudo é incrível. É tão simples e fácil que dá até medo - Ed esboça um sorriso, mas não chega a completá-lo. – É que ao longo da vida a gente aprende tantas coisas e de repente você vem e diz que é tudo mais simples, que é só enxergar, que não há necessidade de regras a não ser viver. – Sabe, Ed. Uma das maiores dificuldades dos seres humanos é aceitar a liberdade. Muitas vezes vocês preferem criar muletas, apoios e não sentirem a vertigem de quem de repente se vê livre. Muitas vezes é mais fácil criar amarras para alimentar a sensação de que tem onde se apoiar. Para andar em liberdade há necessidade que comecem a caminhar sozinhos, sem se escorar nas paredes. – Entendo. Isso me traz tantas coisas em mente. – Sim. Não é só a religião que faz isso. Vocês se escondem atrás de títulos, aparência, intelectualidade, posses, classe social, grupos, tribos, linguagem e uma infinidade de bobeiras simplesmente para sentirem que pertencem a algo e que isso lhes apoiará. – Mas não existe problemas em ter títulos ou pertencer a uma classe social, certo? – Desde que saibam que qualquer agregado - seja um título 231


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ou classe social - não é suficiente para lhes dar significado. São apenas contingências momentâneas, circunstâncias relativas estabelecidas no tempo e espaço, mas que não definem quem você é. – O que define o que nós somos? – Vocês vivem no tempo da dissolvência do ser. Todo o fluxo da terra trabalha nesse sentido. Primeiro alguns criam um padrão. Seja relacionado às roupas, linguajar, tendências em tecnologia, carros, até mesmo no jeito de se alimentar. Depois esse padrão é anunciado como o melhor para você, tentando convencê-lo que sua vida nunca foi completa enquanto desconhecia aquela tendência. Em níveis diferentes, de um jeito ou outro, seja de maneira escancarada ou de forma mais sutil, esse fluxo vaza nas ambições, projetando uma autoimagem completamente distorcida e atrelada a um objeto. Ed observa atento, depois franze as sobrancelhas e dá um sorriso tímido: – Me desculpe se pareço um pouco ignorante, mas não sei se estou entendendo exatamente o que quer dizer. Anjo sorri. – Sabe anjo, às vezes preciso de um tempo para processar todas essas informações. Espero que entenda. – Não se preocupe, é claro que entendo. Mas não se assuste com o que lhe digo, primeiro tudo isso refletirá em sua alma, encontrando correspondência no interior. É como se uma luz acendesse aí dentro e depois a mente fosse iluminada, acessando cada informação com o tempo, na caminhada, conectando-as com suas experiências. – Obrigado pela paciência. – Não se preocupe. Mas permita-me voltar a sua pergunta sobre a definição do que são. – Oh sim! Ed fecha os olhos e sorri. – Gostaria muito que falasse sobre isso. – Eu dizia sobre como a maioria das pessoas constrói sua própria imagem. Elas se baseiam em tendências e, ainda que não seja de forma consciente, usam como referência o que a sociedade

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estabelece como sendo bom. É natural que cada humano se reconheça a partir de referências externas, por exemplo: Você sabe se é alto se a maioria for mais baixa, gordo se a maioria for mais magra e assim por diante, mas isso não define o que de fato são, é apenas uma referência. Anjo pausa por um instante. Olha fixamente para o amigo e prossegue em tom mais lento, como se quisesse frisar o que diria a seguir: – Na verdade, vocês são aquilo que lhes habita o coração. Quem constrói nele uma morada de amor, será assim em tudo o que fizer. Quem vive de acordo com o fluxo da terra, seguindo tendências e tentando aparentar o que não sente, viverá como folha ao vento e um dia cairá. Você entende? – Acho que sim. Não somos necessariamente o que tentamos aparentar. É como se estivéssemos tentando nos esconder. – A única realidade é a que está dentro de você. Já falamos sobre isso, sobre a constante correspondência entre o que acontece no seu interior e o que está fora, disponível aos sentidos. – Então o mundo real é o de dentro. E o de fora é o que? – É o que vocês criam a partir do que está acontecendo no interior. É reflexo do que antes pensaram, sentiram ou quiseram. Não há nada na Terra que antes não tenha acontecido em algum coração humano. – Então a Terra reflete o que somos? – A Terra reflete como estão, mas não necessariamente o que são. Quando me refiro a Terra, não deixo de me referir ao seu mundo particular, ao que vê, vive ou sente. Seu mundo, com suas próprias peculiaridades, a sua Terra, reflete como você está. Mudar seu interior significa criar um novo mundo que nasce a partir de um novo olhar. Isso define quem você é. – Pelo que entendi, somos aquilo que nós mesmos criamos? – Naquele momento sim. Mas tudo muda quando decidem se recriar a partir das suas escolhas. Se soubessem que é dado a vocês o poder de criação, tudo seria muito diferente. Para os humanos criar não é uma escolha, mas uma condição. Vocês criam 233


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mesmo enquanto não sabem e, no fim, a definição do que cada um é, passa exatamente pelo que está sendo naquele instante. Para cada um, em cada circunstancia, existem infinitas possibilidades para que recrie a si mesmo e modifique seu mundo a partir de você. Ed pensa alguns instantes, depois pergunta: – Então isso funciona mais ou menos como dizem por aí, que basta eu mentalizar algo para conseguir o que quiser. Tipo pensamento positivo, sabe? – Pensar positivo é bom, mas não se trata disso. Falo de um ambiente mais profundo, que tem a ver com seu inconsciente, com o que acontece na profundidade de seu ser, com aquilo que é, não necessariamente com o que pensa. É nesse nível que se realiza a verdadeira comunicação, de onde vaza o que vocês são. Muitas vezes um pensamento positivo, um desejo que se transforma em objetivo é somente uma tentativa de mascarar uma condição que já se estabeleceu interiormente e vocês nem notaram. – Poxa... Isso é sério. Mas como podemos saber se estamos querendo algo que nos fará bem ou se só estamos, como você disse, tentando mascarar algo ruim? – Vou te ensinar uma técnica infalível, quer? Anjo da uma piscadela como se fosse compartilhar um segredo. – Sim, quero sim. Ed, atento, nem percebe o tom de humor na pergunta. – Quando tudo parecer muito difícil e as respostas aparentarem acima de sua capacidade de compreensão, lembre-se, quando mais simples for, maior possibilidade de estar no caminho do bem. – Pode deixar mais claro? O que quer dizer com mais simples e caminho do bem? – Vocês vivem em um mundo que reflete a somatória de desejos, angústias, medos, questões e inseguranças do todo. Com o tempo absorvem a cultura local que de algum modo tende a lhes impor regras para que construam seus próprios caminhos

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baseados no que a maioria acha bom. Nessa caminhada podem se sentir desconfortáveis em muitos momentos, se questionam, se cansam, mas ninguém pode parar porque não há espaços para questionamentos. – Acho que começo a entender, por favor, continue. – Pense em uma multidão caminhando na mesma direção, todos no deserto em busca de um rio, todos olhando para baixo somente ouvindo a voz de líderes que caminham a frente dando voz de comando. – Não parem! Mais rápido! Não olhem para os lados! É o que dizem, mas o rio nunca chega. Mas um dia alguém levanta a cabeça e percebe que ao lado, perto dali , está o mar. Imediatamente ele para e, cheio de felicidade anuncia sua descoberta, mas ninguém dá crédito. – Como é possível que seja assim se já estamos nessa estrada há tanto tempo e nunca ninguém nos disse nada? Comentam alguns. Outros dizem – Certamente está louco! Nossos líderes nos avisariam porque eles enxergam por nós. Enquanto o povo passa, o homem tenta avisá-los mas poucos ouvem o que ele diz. Somente os que ousam levantar a cabeça podem se alegrar com a visão do mar. Para eles não faz mais sentido continuar no meio daquela multidão a não ser para tentar avisá-los que não há mais razão para todo aquele fardo. O mar está ali, é só enxergar. – Esse é o caminho da simplicidade que você comentava? – É só enxergar, Ed. É levantar a cabeça, deixar de fitar o chão e caminhar sob as vozes de comando que tentam lhes dizer o que é bom para vocês. No caminho da simplicidade as prioridades são naturalmente reorganizadas de dentro para fora. Nesse caminho, o sucesso não corresponde com aquilo que vocês têm, mas com aquilo que são. Nele, chamamos de prosperidade um coração pacificado, saudável, feliz por saber que na vida tudo fala e contribui para o bem. Esse entende que é no interior de cada um que vive o real significado das coisas e, com o tempo, aprende a valorizar o que acrescenta a alma e se afastar do que a desgasta. Quando falo 235


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sobre o caminho da simplicidade, me refiro a levantar a cabeça e enxergar o mar. É naquela direção que se encontrarão e, quando colocarem os pés nas águas, todo o resto, toda paz, toda alegria será consequência e se harmonizará a volta daqueles que sabem que estão no caminho do bem. •

Depois das palavras do anjo um breve silêncio. Um está pensativo, analisando tudo o que ouviu, tentando captar o espírito das palavras, aquele que está por trás do código das letras. Outro percebe o momento do companheiro e se cala em respeito, sabendo que aquele tempo era necessário. Certamente uma cena incomum. Dois homens solitários em um fantástico paraíso, rodeados pela mais bela flora, árvores, flores, montanhas, pedras, jardins deslumbrando os olhos, a diversa fauna convive em plena harmonia e mesmo nos rompantes do tempo, quando tempestades envolviam o cenário, despejando gotas para todos os lados, o ambiente era de paz, como se cada coisa contribuísse com o todo e, no fim, cooperava para a manutenção daquele lugar. – Onde está sua mente? Anjo fala baixo. Sabe que o amigo faz uma viagem importante. – É estranho... Ed parece um pouco confuso. – Sinto que o ambiente está mudando de novo. Estamos indo a outro lugar? – Aquiete o coração, amigo. Estou contigo. Vamos juntos. •

Imagine observar nosso planeta a partir de algum ponto no espaço. Lá não há sons, vento, vozes ou qualquer movimento constante. É frio. Muito frio. Cercado por estrelas e planetas, um chama a atenção: É azul, lindo, imenso.

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Para quem observa a distância pode parecer mais um entre tantos mundos no meio de um dos multiversos que sequer imaginamos quantos são. Olhando de longe não dá para saber que naquele globo bilhões de histórias estão se desenrolando, conectando e interferindo umas nas outras. É impossível discernir os desdobramentos - no tempo e no espaço - de pequenos gestos individuais. Naquela distância não se enxerga cada serzinho, pequenos, ocupando seus espaços e se movimentando apressadamente para todos os lados. Eles não pensam que estão inseridos em uma realidade absurdamente maior do que aquela que constantemente enxergam. Vêem apenas o que está diante dos seus limitados olhos e é assim que costumam guiar seus passos. Observando de um ponto qualquer do espaço, sentindo-se mergulhado no infinito, viajando entre galáxias sem fim, fica difícil acreditar que dentro daquele planeta chamado Terra existem tantos mundos. Dentro de cada homem e mulher há uma realidade única, absolutamente pessoal. Um jeito próprio de se enxergar e a partir disso interpretar a vida. Há silêncio no espaço, mas é possível sentir a vibração que sai daquele planeta. Não é algo físico, mas pulsa emanando um tipo de energia que interfere mesmo na imensa distância. Cada humano tem consciência de que está ali por algum tempo, de passagem. Eles sabem que não viverão para sempre com aquele corpo. Sentem todos os dias que seu tempo na forma que estão será breve, mas parece que aprenderam a conviver com essa realidade. Uns criaram explicações, outros desenvolveram métodos para deixar de temer. Tem os que vivem alimentando a sensação de que pertencem somente aquele tempo e aquele lugar, esperando 237


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o dia em que desaparecerão, deixando no máximo um rastro que talvez dure uma ou duas gerações, mas depois se apagará. Outros caminham como se não pertencessem aquela Terra. Esses não são diferentes em aparência. Tem os mesmos hábitos, convivem com suas rotinas, andam de carro, ônibus, jantam fora, trabalham, vão à faculdade, praticam esporte, lavam louça, levam o cachorro para passear, cantarolam no chuveiro, ficam gripados e lutam para sobreviver com o salário. Não causam nenhuma impressão para quem os observa, a não ser por um detalhe: vivem como se estivessem em férias. Como se tivessem chegado de um lugar muito distante, onde a vida fosse completamente diferente e sabem que um dia voltarão para casa. Neles há um eterno desconforto. Estão naquele lugar, mas sabem que não pertencem a ele. Lidam com a vida e seus acontecimentos com certa reverência, como se identificassem o sagrado onde ninguém vê. Para esses nada é sacro, mas tudo é sagrado: O chão, bichos, movimentos, o céu sobre a cabeça e o céu no coração. Olham para o por do sol como quem ouve música, se deslumbram com a folha levada pelo vento, com o tempo que muda, a criança que sorri. Emocionam-se com o espetáculo da vida, a mulher que dá a luz, o homem que é capaz de chorar, amar, perdoar, com as infinitas possibilidades do amor. Sentem-se como estrangeiros, porém profundamente apaixonados pelos que nasceram ali e, ainda que a duras penas, sobrevivem cheios de gratidão, divididos entre o agora e o daqui a pouco, quando voltarão para casa e se aninharão no colo do pai. Aliás, é isso o que os mantém fortes. Sabem que seu pai está ali. Vêem sua mão no céu colorido, nas nuvens que trazem a chuva e abençoam a todos. Na fotossíntese silenciosa, nos passos do animal sobre a folha seca. Na madrugada, enquanto todos dormem, ouvem o canto do pai que se confunde com o do grilo, com o bater das asas do pássaro noturno, passos de

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alguém que caminha lá longe, sensações que ecoam constantemente uma mensagem de amor, que não cessa, não cansa, não cala mesmo quando nada parece bom. Eles sabem que bem e mal são dois lados de uma coisa só e que no fim, todos levam ao mesmo lugar. É como se expor a luz do sol, sentindo o calor do dia cheio de gratidão, para depois, quando a tempestade chegar, enfrentá-la com a serenidade de quem sabe que o sol ou a chuva cumprem sua função e são necessários para que exista vida. Olhando a Terra de longe, sabe-se que ela é só um planeta entre tantos, em uma galáxia entre muitas, flutuando em um vazio infinito. Ela existe e gira em mistério, abrigando seres que carregam no coração a chama do eterno, convivendo entre o permanente conflito de saber que há fim, mas sentir que não há. Morte e vida estão presentes em suas escolhas mais simples e dividem espaço em cada coração. É por isso que, ainda que nem todos saibam, cada humano cria seu caminho a partir da maneira como lida com essas questões. Não há técnicas, nem regras. Há somente uma trilha única, pessoal, onde cada indivíduo se reconhece enquanto caminha, se conecta e reaprende a enxergar. Houve um tempo em que era mais simples. Mas o fluxo os conduz para outro lado, intoxica seus sentidos e lhes inclina na direção de suas próprias inseguranças. Convivem entre si como se fossem mundos isolados, por isso poucos entendem que em cada contato humano, por mais superficial que seja, acabam sempre enxergando o outro a partir de si mesmo. Isso os revela. Eles não sabem que as histórias se encaixam, combinam, misturam e por fim, dos níveis mais sutis aos mais perceptíveis, sempre acabam interferindo na outra e construindo uma nova história, outro mundo, a partir de cada indivíduo. 239


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As pessoas se levantam todos os dias e seguem em direção a seus compromissos sem sentir que estão dentro de um ininterrupto processo de transformação. Vivem como se fossem somente parte da massa, mais um entre tantos que tentam sobreviver para pagar suas contas, seu lazer e ter alguma paz. Sem que percebam abrem mão da condição de seres únicos, capazes de se recriar a partir do olhar. De alguma maneira abafam a chama do eterno que nunca se apaga e vive no coração, enquanto tentam desesperadamente se entreter, esquecendo-se do infinito potencial de vida que invariavelmente carregam dentro de si. Agora mesmo na Terra existem várias histórias se desenrolando. Olhando de longe não é possível identificá-las. Somente seus protagonistas a conhecem. •

No meio da madrugada um homem caminha sobre o linóleo polido da unidade de tratamento intensivo em um hospital de subúrbio. Mesmo enquanto sai de um quarto e entra no outro, seus passos – amaciados por sapatos brancos de couro - mal podem ser ouvidos. Com olhar atento observa os monitores gráficos, frascos de soro, luzes pulsantes, e os rostos abatidos dos homens e mulheres sedados. Passa pelo corredor pouco iluminado por algumas lâmpadas amarelas penduradas no teto, cruza por uma enfermeira com cabelos alinhados, aparência cansada. Cumprimentam-se apenas com um sorriso profissional e prosseguem sua rotina. Tem sido assim no último ano. Vitor Mingot, o jovem médico, é mais uma alma entre tantas que habitam a Terra, tentando ocupar seu espaço, procurando sua função no mundo.

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Não faz muito tempo que se formou. Foram anos de estudo e muito sacrifício para entrar em uma universidade pública, até que seus estudos fossem concluídos. Ainda guarda vivo na memória as lembranças de quando saia cedo de casa para a faculdade, o ônibus cheio de manhã, a entrada no campus, os amigos, os estudos e a firme convicção de que seria um bom médico. Era do tipo idealista, que se realizava com o trabalho, alimentando a sensação de que estava salvando vidas, ou, no mínimo, tentando diminuir o sofrimento dos seus pacientes. Fazer plantão em UTI não é necessariamente o sonho de todo o médico, mas Vitor estava feliz. Exercia a profissão dos sonhos e sabia que aquele era o começo. A madrugada estava fria. Bastava um “bom dia” para que o ar quente que sai da boca, em contato com o ar gelado, provocasse fumaça em cada palavra. Lá fora o silêncio era quase absoluto. A não ser um carro ou outro cortando a estrada que ficava há alguns metros da entrada do hospital, a única coisa que se podia ouvir eram os raros e cuidadosos passos que rondavam o corredor do terceiro andar. Quando possível descia até a lanchonete do primeiro pavimento e bebia um café bem quente, puro, sem açúcar. A bebida o deixava mais atento e ajudava a espantar o sono de quem ainda tinha muito trabalho pela frente. Gostava de ficar no balcão, perto do caixa onde trabalhava Fred, jovem, obeso, cabelos raspados e óculos com lentes de grau elevado. Conversavam sobre trivialidades: o resultado da última partida do time do coração, o tempo, declarações bizarras de políticos, qualquer assunto que deixasse a madrugada mais leve e ajudasse o tempo a passar mais rápido, entrava em pauta. Até as histórias, na maioria das vezes fantasiosas, de Fred e suas namoradas tornavam aquele momento mais agradável. Todos 241


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sabiam que o recatado balconista gostava de inventar peripécias com mulheres fictícias que se apaixonavam perdidamente por ele e faziam enormes sacrifícios para uma pequena lasca de seu amor. Seus olhos brilhavam enquanto descrevia “uma gata”, sempre cheia de “propostas indecorosas”, resistidas bravamente pelo herói do balcão. – Não é só porque elas insistem que sou obrigado a ceder, né cara. Comigo não é assim. Dizia Fred sempre gesticulando muito as mãos, como se esculpisse uma imagem que só ele via. “Na hora certa eu pego a menina ideal” Depois soltava um suspiro com ar de resignação. To cansado de ficar curtindo essas menininhas. Agora eu quero “a mina”. A certa, aquela que não esteja interessada em meu corpinho bonito. Em seguida gargalhava passando as mãos na proeminente barriga. Vitor achava enorme graça. Ainda que consciente sobre a inveracidade de quase todas as histórias, se divertia com o jeito do amigo contar e acreditar no que dizia. – Olha aí cara, melhor mudar de assunto porque tem mulher no ambiente. Como se estivessem falando sobre algo proibido, Fred sempre interrompia a conversa quando uma mulher se aproximava. Tudo bem. Isso fazia parte do seu jeitão engraçado, cheio de manias e cacoetes. – Bom dia, faz um café para mim? Uma jovem enfermeira se aproxima certamente na tentativa de manter-se acordada, assim como Vitor. – O santo remédio de todas as madrugadas! O que seria dos plantões sem ele? Foi quase um pensamento alto. Só depois que Vitor se deu conta que estava perto demais da enfermeira que retribuiu com um sorriso e um comentário: – Não é fácil aguentar esses plantões sem perder o ânimo. – O seu ainda vai longe? Pergunta o médico em tom casual. – Só saio daqui depois que o dia clarear. Ainda estou no meio da jornada.

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Fred se afasta para preparar o café enquanto o médico e a enfermeira engatam uma conversa. – Hoje o plantão está razoavelmente tranquilo.– Vitor toma um gole do seu café esfriando e continua: O bom de quando as coisas estão calmas é que tenho a chance de descer e conversar com meu amigo Fred, o grande conquistador do pedaço. – Estou ouvindo! Retruca o balconista a distância, ainda de costas e diante da maquina de café. Vitor pisca para a enfermeira, sorri e emenda:–Não se assuste. Ainda vai conhecer as incríveis histórias de Fred, o terrível. Essa Fred não responde, mas acha graça e ri junto com Vitor. – Desse jeito eu estou ficando até assustada. A enfermeira faz cara de espanto, depois sorri rapidamente entrando no clima. – Estou aqui falando, mas não me apresentei. Prazer sou Vitor. – Sou Rose, o prazer é meu. •

A conversa duraria mais alguns minutos. Brincaram mais um pouco com Fred que depois se aproximou e contou algumas histórias - as mais lights – para a enfermeira. Depois falaram sobre plantões, pacientes, políticas do hospital e nada mais importante. Aproximadamente vinte minutos depois cada um voltou para sua ala, atrás do seu mundo e suas obrigações. O resto do plantão foi diferente para Vitor. Passou a madrugada com a imagem daquela enfermeira baixinha, magra de expressão quase juvenil. Flagrou-se relembrando a conversa, sorrindo sozinho ao recordar trechos engraçados, até se espantar quando percebeu que pensava em meios para reencontrá-la. Tudo o que sabia sobre Rose era que davam plantão no mesmo hospital e gostava de tomar café na lanchonete do Fred. Nos plantões que vieram a seguir, Vitor tomou mais cafés do que o normal. 243


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Mais do que isso: passou a caminhar mais atento pelos corredores e prestar mais atenção nas pessoas que passavam por ele, especialmente as enfermeiras. Demorou para que reencontrasse Rose, mas quando aconteceu - novamente na lanchonete do primeiro pavimento - simulou casualidade. – Olá menina, você por aqui de novo? – Oh! Você... Rose fala como se tivesse sido surpreendida. – Pois é, vim atrás do nosso famoso cafezinho milagroso. Os dois acham graça. – Posso me sentar contigo? Pergunta Vitor enquanto coloca a mão sobre o encosto de uma cadeira vaga. – Claro... sim, fique a vontade. Rose parece levemente tímida. – Bom sinal. pensa Vitor. – Se está sem graça é porque minha presença provoca alguma reação nela - conclui sem muita modéstia. Mas ele tinha razão. Depois daquela primeira conversa diante do balcão e do Fred, Rose tentou saber mais sobre o jovem médico. Tinha gostado do seu jeito espontâneo e educado. Naquele momento nem o achou tão bonito. Homens altos e morenos costumavam lhe chamar atenção e Vitor, apesar de não ser baixo, estava longe de ser grande. Com tom de pele clara, era muito magro, mas isso não foi empecilho para que a enfermeira se flagrasse pensando nele várias vezes ao dia. Por isso também ficou feliz em encontrá-lo de novo e, assim como o colega, tentou fingir alguma naturalidade. No fim daquele segundo encontro combinaram um almoço fora do hospital. A iniciativa foi de Vitor que definitivamente não estava disposto a esperar mais vários dias por um possível encontro promovido pela sorte no meio da madrugada em um plantão de hospital. Precisava saber mais sobre a menina que se alojara em sua mente nos últimos dias e que agora, mais do que nunca, despertara a vontade de estar perto.

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Rose aceitou o convite para o almoço no Jhonnys Bar sem pestanejar. Ela também estava se envolvendo e disposta a levar aquilo adiante para ver onde iria dar. Deu em um almoço cheio de assunto e pontos em comum. Um beijo na saída do restaurante, um novo encontro, depois outro e mais outro até que não puderam mais se separar. Os colegas de hospital ficaram felizes quando souberam que Vitor e Rose iriam se casar. Ninguém se espantou com os parcos seis meses de namoro, muito menos relacionaram a união com a notícia de que Rose estava grávida. O amor dos dois era quase palpável e bastava um olhar para que qualquer um entendesse que, grávida ou não, eles se casariam naquele mesmo tempo, do mesmo jeito, com as mesmas motivações. •

Vitor e Rose casaram-se em março de 1974, ano em que nasceu seu único filho, Ed Mingot. Pouco depois do casamento, Rose conseguiu um tempo de licença no hospital e aproveitou para dedicar-se ao marido, a gravidez e a nova vida que estavam construindo. Por um tempo Vitor ainda precisava dos plantões no hospital, mas logo conseguiu juntar-se a alguns colegas dos tempos de faculdade e montar um consultório próprio que lhe ajudava a aumentar a renda. Não demorou para que os pacientes viessem e, aos poucos, permitissem que ele começasse a abrir mão dos plantões. Perto da mulher teria mais condições para se dedicar aos preparativos da chegada do filho, em alguns meses. Alugaram uma casa no mesmo bairro em que os pais de Vitor moravam e contavam com a constante ajuda da mãe, Dona Beatriz, nos trabalhos de casa e no apoio a enfermeira, mãe de primeira viagem, que ainda tentava lidar com todos os sintomas da gravidez. 245


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Michel, pai do Vitor, era mais distante, não se envolvia com muita frequência e não demonstrava excitação em relação a chegada do primeiro neto. Ele e Rose se respeitavam, conversavam de vez enquando, mas não havia nenhuma relação mais próxima de sogro e nora, de amigos, de quem faz parte da mesma família e passa a dividir as mesmas expectativas. Ela sabia que o sogro era um sujeito fechado, Vitor já havia lhe alertado há muito tempo, então não se assustava com a cara fechada de Michel, nem imaginava que fosse algo direcionado a ela. Convivia bem com essa situação e assim ninguém se sentia desconfortável. Rose teve uma gravidez tranquila. Alguns enjoos, uns sintomas aqui ou ali, mas nada muito significativo. Durante nove meses a enfermeira e o médico, marido e mulher, se prepararam como puderam: Cumpriam as rotinas de exames, faziam exercícios especializados, melhoraram a qualidade da alimentação e principalmente sonharam. Sonharam muito. – Quem será que vive aí nessa barriga? Será menino ou menina? Que nomes podemos dar? Com quem será que vai parecer? Eram algumas das perguntas mais frequentes. O dia do parto se aproximava rapidamente. Se estivessem em um quarto fechado, isolados do mundo, sem relógios, rádio ou televisão, diriam que na verdade aqueles nove meses couberam em noventa ou cento e vinte dias. Tudo passou rápido demais. De repente saltaram de dois colegas tomando café na mesa da lanchonete do hospital para marido e mulher as vésperas do nascimento de seu primeiro filho. Apesar da ansiedade tudo ocorreu sem contratempos, até que chegou o momento. Talvez por ironia do destino foi em uma madrugada fria, como aquela em que se conheceram, que Rose acordou reclamando de dores.

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– É agora meu querido. Acho que nosso bebê está vindo. Ela disse em meio a dores e forte emoção. Vitor não levou mais do que quarenta segundos para pular da cama e vestir a roupa previamente separada como tinha feito nas últimas madrugadas justamente para aquele momento. Caminharam com certa dificuldade até a porta de saída e ele a ajudou a entrar no carro. – Fique tranquila, minha querida. Daqui a pouco estaremos lá e ainda hoje saberemos quem é essa criancinha tão esperada que agora está querendo sair. Vitor tentou acalmar a esposa que parecia mais tensa. Dirigiu o mais rápido que pode até o hospital local, o mesmo em que se conheceram há pouco mais de um ano, e a levou até a sala de preparação do parto. – Ei doutor! É hoje! Era Fred parado na recepção acenando com a palma da mão grande e inchada estendida no ar. Vitor retribuiu-lhe com um sorriso e apressou-se em acompanhar o colega que faria o parto. Quando soube da gravidez, Vitor ficou feliz em pensar que faria o parto do próprio filho. Mas depois, aconselhado por colegas e pela própria esposa, temeu que a emoção em demasia lhe atrapalhasse. Melhor ficar olhando de perto, mas deixar a responsabilidade nas mãos de algum colega isento do turbilhão de sentimentos que certamente lhe atingiria naquele momento. Melhor assim. Era noite fria de outubro, todos estavam felizes, Michel e Beatriz avisados pelo filho, chegaram logo ao hospital. Os pais de Rose moravam em outro estado. Só poderiam chegar no dia seguinte. Foram horas de espera e angústia até que um médico sorridente aparece e avisa: – Parabéns a todos. Um lindo menino acaba de chegar a esta família. 247


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– Ali naquele bercinho, deitado, quieto, está Ed Mingot. Até agora é tudo o que sabemos sobre ele: Ed Mingot. Só um nome para um bebê que sequer aprendeu a permanecer de olhos abertos. Não sabemos quem será. Muito menos ele tem ideia de quem somos. Ou será quem tem? Apesar de fazer tanto tempo, ainda consigo lembrar minha mãe contanto que são os filhos que escolhem os pais. Ela dizia que, antes de nascer, as crianças vivem em uma espécie de grande parque celestial e, de lá, podem observar os possíveis candidatos a pais. Depois de acompanhar seu comportamento, decidem para qual família irão. Recordo-me que, com certa inquietude precoce, questionava a minha saudosa mãe dizendo que isso não fazia sentido, afinal, como explicar o fato de que certas crianças nascem em famílias felizes e abastardas e outras, tão infelizes, surgem em meio a tanta miséria e falta de sorte. Parece que consigo ver sua reação como se fosse hoje: Sorria, passava uma das mãos em meu cabelo, me puxava no colo e dizia que, antes de virarem bebês, as crianças eram anjinhos. Umas sentiam que poderiam ajudar e escolhiam determinadas famílias para serem úteis e fazerem o bem. Talvez, mas isso nunca saberemos. Quando soube que seria avô não senti muita coisa. Na verdade até senti: estranheza. De repente meu filho teria um filho. Como não estranhar? Um dia você descobre que será pai, nasce um bebê que vem morar em sua casa. Sem que a gente assimile direito eles saltam da fralda para a cueca, os dentes nascem, depois caem, aí nascem de novo. Eles engatinham, andam e depois não param de correr. Enquanto os pais tentam se adaptar as novas fases, os filhos se apressam em conquistar outros espaços, chegando sempre na

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frente dos pais que se esforçam para acompanha-los. Mas aí eles crescem, vão embora e viram gente com própria personalidade, vontades e desejos. Assim é a vida, certo? Aconteceu conosco, nossos pais, avós e os que vieram antes. É assim com nossos filhos, será com netos e quem vier depois. Agora estou sentado na recepção de um hospital olhando para um berçário cheio de recém nascidos e tentando me acostumar com a ideia de que aquele com roupa azul e branco é meu neto. Quem ele vai ser? Será que realmente escolheu nascer na família Mingot? Fico pensando se esse pequeno bebê já veio com alguma personalidade. Se já está pré disposto a agir ou reagir de determinada maneira, se irá nos trazer mais alegrias do que preocupações. Não sei por que faço esse tipo de questionamento logo agora quando deveria me juntar a Beatriz, Vitor e Rose, compartilhando um sentimento de realização, alimentando a esperança de que tudo vai dar certo. Mas não consigo. Acho que no fundo sinto o mesmo que senti quando Vitor nasceu. Éramos jovens, cheios de planos, quando Beatriz anunciou que estava grávida. Definitivamente não me sentia preparado para cuidar de uma criança. Recordo-me da primeira vez que vi aquele pequeno ser e me disseram que era meu filho. Senti medo, muito medo. Foi como se me entregassem uma responsabilidade acima de minha capacidade. Levou algum tempo para que eu realmente confiasse no que Beatriz me dizia quanto ao fato de que ela cuidaria bem de tudo, que saberíamos lidar com as necessidades de uma criança e, por fim, daria certo. Acho que deu. 249


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Ainda que tenhamos passado por alguns percalços, mesmos que não tenha sido fácil, olhando para meu filho, médico, feliz e agora pai, penso que minha esposa estava certa. Torço para que Rose diga o mesmo para meu filho e que ele acredite nela. Melhor: torço para que ele não tema e confie em sua própria capacidade para cuidar de uma criança e possa suprir suas necessidades. Quando penso que, bem ou mal, fui capaz, entendo que provavelmente meus receios sejam vãos. Meu filho é melhor do que eu. Seu coração é mais sábio, sua capacidade em lidar com as dificuldades sempre foi maior do que a minha. Sorte ter puxado a mãe. Olhando meu neto dormindo naquele bercinho, torço para que herde as características do pai e que saiba lidar com as dificuldades que certamente a vida lhe trará. Daqui a pouco o levaremos para casa. Será como vinte e oito anos atrás, quando saímos do hospital naquela manhã cheia de sol com nosso bebê no colo. Definitivamente as histórias se repetem. Hoje é o bebê do passado que sairá daqui grande, marido, pai, com sua cria, com seu filho que chegou a Terra agora a pouco. Como vai ser não podemos dizer. Só espero que essa folha em branco seja preenchida com muito amor e o exemplo das gerações que já não estão mais entre nós, mas de alguma maneira contribuíram para que fossemos o que somos hoje. Sou homem limitado, reconheço que fechado em meu próprio mundo que expresso sempre nesse caderno. Tenho dificuldades em colocar para fora e talvez nunca diga a meu filho o quanto estou orgulhoso. Provavelmente meu neto nunca saberá o que estou sentido agora, mas isso não me incomoda.

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O que mais quero é que ele cresça saudável e saiba o valor do caráter. Que reaja como homem diante dos problemas e se prepare para continuar nosso legado. Sorte a você, meu neto! Seja bem vindo ao planeta Terra. É o desejo do seu avô, Michel. •

– Venha amor, dê um tempo ao seu caderno e fique entre nós. O apelo de Beatriz move Michel que, sentado na recepção do berçário, fecha o caderno, guarda a caneta no bolso da camisa surrada e se levanta. Ela se aproxima, pega em suas mãos e sorri orgulhosa: – Nosso neto é lindo. Os olhos dele se parecem muito com os seus. Michel também dá um sorriso, só que mais contido e não diz nada. Ele caminha esticando o pescoço para enxergar melhor o neto recém nascido. – Veja pai, agora fomos promovidos: eu a pai, o senhor a avô. – As promoções sempre acarretam mais responsabilidades, filho. Não se esqueça disso. Vitor olha rapidamente para a mãe, da uma piscadela e volta-se para Michel: – Sei disso e prometo que vou me esforçar para corresponder às necessidades do nosso Ed. Em seguida volta-se novamente para o filho que dorme. Ele suspira, passa as mãos sobre o peito, e arremata sem desviar o olhar: – Conto com a ajuda de vocês para que eu faça desse bebê um verdadeiro homem. Beatriz se aproxima do filho e o abraça: – Sim, Vitor, conte comigo e com seu pai. Estamos aqui para isso e será uma grande alegria ajudá-los.

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Ed, homem, estava lá. Assim como fez revisitando o passado, via, mas não era visto. Parado dentro do berçário olhava a si mesmo ainda bebê dormindo em um berço. Podia ver a expressão dos pais e avós, ouvia o que diziam, caminhava entre eles. Via a própria história sob novo ângulo. Era espectador do próprio nascimento. Ele não se espantava mais com as viagens no tempo. Parece que naquela condição ficava cada vez mais claro que o limite do tempo era meramente circunstancial, vinculado unicamente a uma questão física. Existiam outros acessos, caminhos inimagináveis que conectavam um tempo ao outro, como se as histórias nunca se apagassem, mas pelo contrário, ficassem impressas de alguma maneira, mantendo canais de acessos que permitiam que de alguma forma fossem revisitadas. Era como se existissem realidades paralelas e elas acontecessem quase simultaneamente. Caso contrário como explicar o fato de Ed poder caminhar entre ambientes, rever pessoas, reviver cenas de um tempo que ficou para trás? Se podia acessá-las é porque estavam em algum lugar, acontecendo, se repetindo e disponíveis a quem pudesse enxergá-las. Foi a primeira vez que esse tipo de pensamento veio à tona com mais força. Lembrou-se que anjo já tinha relativizado o tempo, aliás, esse era um assunto recorrente entre muita gente na Terra. Será que aquilo estava acontecendo novamente? Eram apenas lembranças guardadas em algum lugar e depois projetadas como realidade ou de fato Ed estava revisitando um tempo que nunca deixou de ser? Os acontecimentos realmente se apagam ou simplesmente se transformam, deixando um rastro impresso em compartimentos atemporais, disponíveis a quem tem as chaves de acesso?

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– Isso tudo parece loucura! Ed pensava alto, enquanto não conseguia deixar de refletir nas questões do tempo, do passado, das viagens que tinha feito até ali. – Não se preocupe amigo. Só agora percebe que anjo está ao seu lado. Você tem visto muitas coisas e visitado inúmeros lugares, não só para que se entenda melhor, mas também para que aprenda a enxergar a vida com liberdade, para que consiga se livrar do condicionamento que o aprisiona em sua própria limitação. A grande maioria de suas angústias são impostas por seus próprios limites. Suas dificuldades em compreender a vida muitas vezes coincidem com a pouca percepção que tem sobre si mesmo. Não é possível entender sobre algo se você não entende a si mesmo e a própria história. Quanto mais conhece sobre qualquer coisa, menos se espanta, mais sabe lidar com as possíveis contradições do caminho. É assim para tudo, inclusive para suas vidas. Ed fixa nos olhos de anjo, pensa um pouco e comenta: – Parece que estou começando a entender muito a respeito do que tem me ensinado, mas ainda sinto dificuldades para entender como é possível que revisitemos meu passado. Tudo o que vi, todos os lugares, as pessoas, as cenas, tudo... Tudo tão real, tão vivo, tão presente. Ele para alguns segundos, olha novamente para o pai e avós que conversam do outro lado do vidro do berçário. Olha ali. Meu pai já morreu, minha avó também, mas eu posso vê-los como se nada tivesse acontecido. Isso é maluco demais. Anjo sorri. – Ed, a morte não existe. – Assim fico mais confuso. Cresci sem meus pais, perdi minha avó, então eles não morreram? – Quando você vive em um corpo precisa do tempo. Ele serve para organizar as experiências, dando a elas ordem cronológica e facilitando a compreensão do que estão experimentando. Mas o tempo é só uma mídia. – Acho que falamos sobre isso, não? 253


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– Sim, mas preste atenção: O tempo nunca começa ou encerra qualquer assunto. Aquilo que chamam de tempo, é apenas um caminho, não um fim. Um jeito para que vocês compreendam o que tem vivido e possam usá-los como mídia que os melhora ou lhes torna mais experientes. Mas entenda: tudo o que é já foi. Tudo o que foi, será e tudo o que será já aconteceu. – Agora é que não entendi completamente nada. Ficou tudo mais confuso! – E sabe por que ficou confuso? Simplesmente porque embaralhei um conceito enraizado em sua mente que não consegue pensar fora das categorias fixadas em passado, presente e futuro. Vocês só conseguem pensar assim e, qualquer coisa fora disso soa como loucura, heresia ou algo de impossível compreensão. – Exatamente. Se eu não estivesse aqui me olhando bebê, diria que tudo é uma loucura. – Mas você não está louco. Está apenas atravessando algumas fronteiras, alargando suas percepções em relação ao limitado espaço em que sempre caminhou. – Vou perguntar exatamente como a questão está latejando em mim e peço para que tente responder da maneira mais simples possível, combinado? – Combinado. Qual sua pergunta? – Pelo que entendi até aqui os acontecimentos não estão limitados ao tempo ou espaço. Parece que o que está limitado é nossa compreensão. – Sim. – Mas se... Por exemplo, se meu nascimento está se repetindo o tempo todo, ou seja, se ele não está preso ao tempo e se posso revisitá-lo é sinal de que está acontecendo e se repetindo o tempo todo, é isso? Anjo sorri, depois responde: – Repetir é uma palavra que só existe se estiver vinculada ao tempo. Se não há tempo não há repetição.

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– Você disse que responderia da maneira mais simples possível. – É simples. Tente se desprender dos conceitos fixos, relaxe e atente ao que vou lhe dizer. Agora a pouco eu lhe disse que a morte não existe e você refutou argumentando que já perdeu pessoas queridas. Pois bem, você não as perdeu. Na verdade nenhuma delas deixou de existir por nenhum segundo. A única coisa que mudou foi a relação de vocês enquadrada na categoria de tempo e espaço a que estão submetidas. Só mudou a percepção. O que chamam de morte é apenas um elemento anexado a percepção de tempo. Ela aparenta um fim, cria um desfecho, encerra um ciclo, mas isso somente na percepção de humanos que vivem condicionados a essa realidade. – Mas as pessoas deixam de existir. – Não. Você só deixa de percebê-las como sempre as percebeu, mas, sem tempo não há fim, sem fim, não há morte. A morte deixa de fazer sentido quando entendemos que a tirania do tempo é apenas uma questão circunstancial. – Poxa, isso parece muito difícil de entender. – É natural que seja assim, mas essa verdade já existe dentro de cada um de vocês. É exatamente por isso que se angustiam tanto diante da percepção da morte. Pensar que há um fim lhes agride porque isso é completamente contraditório a referência do eterno que vive em cada alma humana. Vocês sabem que são eternos, sentem como se fossem viver para sempre, não são feitos para morrer. Por isso a ideia da morte, de um fim eterno, lhes soa como enorme contradição. – E o que acontece com as pessoas quando desaparecem da Terra? Vão para algum lugar específico? – Lugar é outro conceito vinculado a espaço e ao tempo. Na verdade não é assim. As pessoas somente deixam de ser percebidas pelos sentidos porque o corpo acabou. Na condição humana, diante da limitada percepção de tempo e espaço, o corpo termina, mas é só o corpo. Você Ed, assim como qualquer ser humano que esteja, esteve ou estará na Terra não tem fim e, acredite, nem começo. 255


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– Olha, eu tento entender isso, mas é muito difícil pensar que não temos começo ou fim. Como pode ser assim? – Entendo que seja difícil e realmente vocês nunca entenderiam por completo, afinal, enquanto humanos, são seres finitos. Vocês vivem em um corpo que certamente acabará, condicionados ao tempo e espaço. Mas, ainda que não entendam por completo, convivem constantemente com o sentimento do eterno, a sensação de que nunca vão acabar, a percepção de que a vida é para sempre. Isso cria uma realidade paradoxal: seres eternos, vivendo em corpos finitos. – Sabe, enquanto você diz essas coisas eu penso em como reagimos diante da morte, como tudo é doloroso, como é difícil perder quem amamos. Mas depois, estranhamente, o luto cede espaço a continuidade da vida. É como se depois do sofrimento naturalmente restabelecêssemos a ordem e voltássemos a nossas vidas. – Ed, vocês nunca perdem ninguém. Se estiverem verdadeiramente conectados, o máximo será uma mudança de relação e é assim porque tudo o que existe só existe como realidade dentro daquele que é sem começo, meio e fim. Vocês são fagulhas de vida, expressão da imagem e semelhança de Deus, que simplesmente é. Nessa jornada a que estão submetidos o tempo e o espaço são necessidades circunstanciais. Lembre-se: Na verdade tempo e espaço são apenas categorias de percepção e nunca realidades fixas, imutáveis e inacessíveis. – Como é existir em Deus? Aliás, nunca entendi direito essa história de que somos a imagem e semelhança de Deus. – Geralmente quando alguém fala a palavra “Deus”, sua mente recorre ao arsenal de referências acumuladas por culturas que anexaram à palavra “Deus” uma série de pré-conceitos. – Às vezes acho que você fala difícil demais. Anjo sorri. – Vou tentar ser mais simples. Para a maioria das pessoas, a palavra Deus é somente um símbolo. Ela representa de-

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terminada cultura religiosa, programas pré-estabelecidos, códigos de conduta, lei, moral, éticas relacionadas a costumes e padrões. Até aí está claro? – Sim, acho que sim. – Portanto qualquer relação que se faça entre a palavra “Deus” e qualquer outra coisa, seja ela o que for, imediatamente remeterá para um desses conceitos que ao longo do tempo vocês anexaram ao símbolo: Deus – Deixe-me ver se estou entendendo. Pelo que você está dizendo falar a palavra Deus não quer dizer nada, é só uma palavra que normalmente é usada para validar o que as religiões querem ensinar. É por aí? – Sim, Ed, é por aí. Palavras são apenas códigos e, por si só não definem nada. Portanto posso chamar uma pedra, um pássaro, ou um telefone celular de Deus e isso não os transformará em deuses. São apenas palavras. Acho que isso está claro. – Sim, mas você ia falar sobre aquela história de que somos a imagem e semelhança de Deus. – Fica mais fácil lhe explicar quando entende o que acabei de dizer. Deus não está fora. Não pode ser quantificado, muito menos explicado. Ele nunca será objeto de estudo, muito menos limitado a qualquer definição. Por isso, sejam regras, cartilhas, costumes, leis ou palavras: nada poderá o conter. Ainda assim, ele está em tudo o que existe. Mesmo que não saibam, ele vive em cada história, cada percepção e definição de realidade. Ele é o laço que os mantém conectados. Não há nada que exista independente, que seja desconectado do todo, seja na Terra ou fora dela. Tudo está interligado e cada movimento interfere no todo. Não há homens ou mulheres completamente independentes de uma única realidade, que alimenta, abastece, envolve e abriga tudo o que existe. Esse é Deus. Nele tudo existe e fora dele simplesmente não há nada. Nele vocês criam sua própria realidade e escolhem que tipo de caminho trilharão. Pode ser um bom caminho e lhes fazer bem. 257


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Pode ser um caminho de dor, cheio de angústias ou mágoas, mas nenhum deles existirá fora dele. Por isso, a sensação de estar longe de Deus é apenas uma sensação, nunca uma realidade. Suas vidas só existem Nele e é isso que lhes projeta sua imagem e semelhança. Não é uma referência física, não tem a ver com domínio, poder ou aparência como alguns acreditam. Vocês são feitos a imagem e semelhança de Deus porque só podem existir Nele e, a cada um, foi dada a condição de criar. – Como podemos criar alguma coisa se só podemos existir em Deus? E se eu quiser criar uma vida fora Dele, teria liberdade para tal? – Seria como um eletrodoméstico querer funcionar fora da tomada. No entanto, seria uma escolha. Você cria sua vida a partir dos seus pensamentos, desejos, atitudes. Se quisesse criar uma vida fora de Deus, experimentaria em parte o significado dessa escolha que tem a ver com desconexão, ausência de percepção, mas seria apenas uma sensação, fruto de uma escolha, nunca uma realidade absoluta porque simplesmente não é possível existir fora de Deus. Tudo o que fazem contribuem para a construção do seu olhar, do jeito que percebem a vida. Essa será chamada a sua realidade, o seu mundo, um jeito próprio de experimentar a vida a partir das referências que alimentou ao longo do caminho. Por isso, invariavelmente, cada um cria sua própria vida. – Olha, se esse pensamento fosse levado adiante criaria uma revolução na cabeça das pessoas. Pelo menos acho que isso diminuiria demais o sentimento de culpa que a religião tenta nos colocar dizendo que estamos errados, que devemos agradar a Deus para que ele não nos puna, que devemos enquadrar nossas vidas em determinadas cartilhas que nos põe na linha e nos dizem o que é certo ou errado. – É por isso que as pessoas transformaram Deus em um sím-

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bolo. Sem isso seria impossível validar essas tais cartilhas que, com aparência de mais ou menos liberais, estabelecem códigos de conduta e relacionam a aceitação de suas regras com o fato de serem ou não aceitos por Deus. – Mas, sabe, durante um tempo eu mesmo acreditei que as regras e mesmo as culpas da religião fossem necessárias para criar uma espécie de... deixe me ver... freio. Sim, um freio para que as pessoas pudessem conter seus impulsos destrutivos. Será que o medo de ser punido por Deus não tem seu lado bom? Digo, será que isso não impede que as pessoas façam coisas que não deveriam fazer? – Se não houver consciência, faz mal. Preste atenção: Agir ou deixar de agir movido por culpa ou medo, pode evitar que determinadas atitudes destrutivas sejam cometidas, mas isso tem um preço. Ainda que a pessoa se contenha, estará alimentando pulsões interiores absolutamente destrutivas. – Como assim? Não sei se ficou claro para mim. – O bem mais precioso que alguém pode ter é a consciência. Alguns chamam de sabedoria, outros de percepção, na verdade tanto faz. O fato é que vocês lidam com uma série de acontecimentos na vida simplesmente para que exercitem o poder da consciência, de saber o lugar de cada coisa, de lidar com prioridades de maneira equilibrada, de entender o que realmente vale e o que não vale, mas aparenta valer. Consciência só se desenvolve vivendo. É a partir dela que você abre seus olhos para perceber a vida e entender que no mundo tudo fala. Medo ou culpa cegam. Quem tem medo se esconde e caminha beirando a parede. Esse nunca agirá por consciência e todo o seu caminho, ainda que aparente ser bom, o conduzirá para a negação de si mesmo e, consequentemente, o aumento de pulsões interiores proporcionalmente opostas ao que ele combate do lado de fora. Isso faz mal e infantiliza a alma. 259


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– Ouvindo você pensei, me corrija se estiver errado, que durante tanto tempo nos fizeram sentir rejeitados. Sim, eu mesmo me senti assim, acho que por toda minha vida. Se nos dizem que Deus é pai, mas nos vendem a ideia de que é tão difícil lhe agradar, seremos como filhos eternamente rejeitados que, para ter acesso ao pai, precisam de ritos, sacerdotes, templos ou qualquer outro intermediário. Lembro que quando eu era criança brincava com um menino que chamávamos de Netinho. Ele era triste e tinha medo de tudo. Seu pai era um homem duro, nós mesmos morríamos de medo do Sr Ranieri. Lembro que Netinho fazia de tudo para agradá-lo, mas nada parecia suficiente. Um dia ficamos sabendo que o Sr Ranieri, homem ciumento ao extremo, desconfiava que Netinho não fosse seu filho. Isso porque, pouco depois que sua esposa engravidou, antes que soubessem que ela estava grávida, eles se separaram. Apesar de terem se reconciliado pouco tempo depois e de nada indicar que ela tenha o traído, para o Sr. Ranieri abriu-se aí a possibilidade de que , talvez, a gravidez tivesse acontecido nesse intervalo, fruto de algum outro relacionamento que certamente nunca existiu. Apesar de ser apenas fruto de uma imaginação ciumenta, isso foi suficiente para que meu amigo nunca se sentisse filho legítimo e, ao longo de sua vida, escolhesse apenas caminhos que de alguma maneira tentassem afirmar esse vinculo de pai e filho que nunca tiveram. – É uma história triste. – Sim, mas é isso que eu vejo quando percebo o quanto nos fizeram sentir excluídos. Andamos na vida como o Netinho, tentando agradar ao Deus Ranieri que nunca está satisfeito, que se recusa a agir como pai, que nos faz sentir sempre rejeitados usando seus intermediários para, de tempos em tempos, renovarem os fardos, pesados, difíceis, que nos mantém de cabeça baixa, sentindo-nos indignos do pai.

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– Como poderiam ser rejeitados por algo que está dentro de vocês, cuja ausência simplesmente eliminaria qualquer possibilidade de vida? Se os templos, os religiosos, ou as religiões lhes aceitam ou não é um problema deles. Não há humano algum, aliás, nunca houve ou nem haverá aquele que simplesmente foi rejeitado porque agiu, pensou ou falou algo aparentemente – ou mesmo de fato - ruim. Todo sentimento de desconexão é apenas um sentimento, que pode ser alimentando por muitas coisas, inclusive a religião, mas mesmo assim é apenas um sentimento que não é real porque aí sim seria a morte. Por isso vocês nunca morrem. Mudam as referências, as percepções, termina o corpo, mas permanecem conectados o tempo todo, seja quem for, faça o que fizer, pense o que pensar, sinta o que for, tudo o que desejar ser ou criar para o seu caminho- ainda que seja um caminho mais longo e penoso- por fim, acabará de um jeito ou outro contribuindo para que um dia perceba sua real condição de estar conectado. Felizes e sábios os que percebem. Infelizes e sofredores os que não percebem, mas aí está o limite: nas percepções somente, porque de fato não há quem esteja mais ou menos conectado. Nós só existimos Nele e isso independe de quem desejamos ser. – Sabe algo que me inquieta? Ainda que eu pense assim. Que entenda que em tudo existe a possibilidade de conhecimento, que estamos conectados, que sou eu quem cria meu próprio mundo, isso não muda o fato de que a vida continuará com seus altos e baixos. Coisas boas continuarão acontecendo a pessoas ruins e coisas ruins a pessoas boas. O justo não está livre de morrer atropelado e nada garante que o mal será punido. O que muda de verdade quando, assim como você disse, eu priorizar minha consciência? Não seria apenas um jeito de tentar dar alguma resposta a minha angústia diante das inevitáveis dores e contradições da vida? – Ed, meu amigo, quando você abre os olhos e passa a enxergar a vida como uma explosão de possibilidades, começa a 261


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perceber o real sentido das coisas. Nesse ponto voltamos a nossa conversa sobre significados. O real sentido das coisas é aquele que você dá porque ele se aplica apenas a você. Por isso uso a palavra “possibilidades”, porque é assim que as coisas são. Não há necessariamente um aplicativo coletivo em cada significado porque, ainda que assim fosse, ele ecoaria de forma diferente em cada alma que o interpretaria conforme sua cultura, conhecimento, histórico de vida. Isso quer dizer uma coisa: Ainda que o mesmo fato aconteça simultaneamente para uma multidão de pessoas, cada um interpretará a partir de si mesmo, dando a um único acontecimento inúmeros significados. Seu mundo é absolutamente único, só existe a partir de você e parte de seu olhar, sua consciência. Até aí me entende? – Acho que sim. Já falamos sobre isso. Sou eu que projeto nos acontecimentos o significado a partir do que sou. Por isso os acontecimentos são apenas meios para que eu mesmo veja o que tem se passado dentro de mim. Por aí, certo? – Certo. Sendo assim, ainda que os políticos continuem como são, os religiosos não se alterarão e aparentemente o mundo continuará pelo mesmo caminho, a chuva continuará caindo sobre todos e o sol aparecerá para bons ou maus, quando você passa a enxergar as possibilidades inerentes em cada situação e prioriza sua consciência, seu mundo muda porque ele não é feito desses acontecimentos e sim de como você os interpreta. Como você mesmo disse, acontecimentos são apenas meios para que possa ver o que se passa no interior. Portanto, tudo continuará acontecendo como sempre foi, mas, olhando com os olhos da alma, agindo a partir da própria consciência, você muda o olhar. Quando os olhos são bons, tudo se iluminará. Ainda que a interpretação imediata seja de que as coisas estão erradas. – Posso te perguntar mais uma coisa? Anjo sorri. – Claro meu amigo. Fique a vontade, pergunte o que quiser.

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– Sabe, tem algo que ainda não entendo. Você mesmo disse que a chuva sempre cairá sobre todos e o sol aparecerá para bons ou maus. Às vezes sinto que seria mais confortável pensar que, agindo bem, poderíamos ser poupados de determinados acontecimentos. Por exemplo, ninguém garante que uma pessoa boa, talvez um arrimo de família, que ajude e faça o bem, não seja vitima de uma bala perdida que tire sua vida ou tire o movimento de suas pernas. Ao mesmo tempo em que muitas vezes vejo gente egoísta, que age de maneira desonesta e dissimulada se dando bem, ganhando dinheiro, vivendo feliz. Algumas crianças nascem em lares saudáveis e prósperos, enquanto outras viram bandidos porque vieram de um lar sem amor, infestado de mágoas e miséria. Por que essas constantes contradições? As coisas realmente acontecem de maneira aleatória? – Não haverá consciência se a boa ação for praticada na expectativa de alguma recompensa. Não se pode viver barganhando com céus e Terra, trocando bom comportamento por privilégio existencial, seja ele de qual natureza for. O que eu quero dizer é que vocês criaram um mundo e convivem com as consequências daquilo que criaram e continuam criando. As balas perdidas, miséria ou doenças, são fruto de escolhas e, cada escolha interfere no todo. – Tudo bem, mas a criança que nasceu em um lar de miséria ou o arrimo de família que foi vítima de uma bala perdida não escolheram que fosse assim. Por que justamente com eles? Foi determinado que acontecesse assim ou simplesmente estamos expostos a algum tipo de aleatoriedade. Isso me deixa inseguro. – Nem uma coisa nem outra. Sabe, meu amigo, nenhuma história pode ser interpretada a partir de conceitos fixos de justiça ou moral, como se fosse um carma. Isso porque cada história só tem significado especifico para cada humano. Não se trata de punição ou aleatoriedade, tampouco de justiça ou injustiça. Uma 263


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flor não está sendo recompensada por nada assim como um espinho não está sendo punido ao nascer espinho. O cachorrinho doméstico que vive cheio de agrados não tem nenhum privilegio existencial diante de um porco que vive na lama. As coisas são o que são, as pessoas convivem com suas escolhas e sofrem interferências de escolhas alheias, mas o grande erro reside em tentar anexar juízo quando tenta interpretar uma história, ou na tentativa de explicar determinada fatalidade, desconsiderar que você nunca entenderá a razão de possíveis contradições simplesmente porque elas não se aplicam a você. Cada humano é um mundo e só ele poderá dar significado ao que lhe acontece, seja a criança que nasceu doente ou a sã. Seja o pobre ou o rico. Aquele que convive com ótimas oportunidades ou a pessoa que nunca entrou em uma escola. Olhar para eles e tentar interpretar cada contradição a partir de você é completamente diferente de saber que cada contradição só passa a fazer sentido a partir do olhar de seus protagonistas. Esse, mesmo que não veja, está diante da contradição que carrega em si inúmeras possibilidades únicas e específicas. – Sim, mas e aquele rapaz jovem, arrimo de família, vitima de bala perdida que morre no meio da rua. Que possibilidade pode tirar de uma situação como essa, ainda mais depois de morto? – Se você retirar dessa situação dois elementos importantes, passará a entender. Um deles, o tempo. Já falamos sobre isso. Diante da eternidade tanto faz se durou um ano ou oitenta. Anexar a sua percepção de tempo o conceito de justiça, ou seja, julgar que é aceitável que alguém morra velho e inaceitável que outro morra jovem, é partir do conceito de que o tempo é fator determinante para conduzir suas percepções, e não é. O tempo é relativo e, existencialmente falando, não há nenhum conceito de justiça ou injustiça atrelado a ele. O segundo elemento é exatamente sua referência baseada em si mesmo. Você nunca saberá as implicações daquela partida, que possibilidades aquilo trás para todos os

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envolvidos. Ainda que imediatamente traga dor, outros caminhos de percepção podem ser abertos. No entanto, algo importante: É um erro pensar que a pessoa morreu para trazer uma lição. Não se trata disso. As pessoas morrem e em tudo há lições. Pode parecer a mesma coisa, mas nisso há uma grande diferença. – Faz sentido. Mas ainda assim me soa estranho porque isso me faz sentir que o que deve acontecer simplesmente acontece. Que cada situação difícil que me deparo só tem a ver com aquela pessoa porque só ela é quem saberá de verdade as implicações do que está vivendo. Será que pensando assim não corro o risco de perder parte do incomodo que me motiva a olhar para o próximo com misericórdia e ajuda-lo? Se eu ver alguém sofrendo e pensar “isso só tem a ver com ele e seu próprio mundo” provavelmente deixarei de me preocupar. Eu olho, vejo e vou embora cuidar da minha própria vida. Cada um cada um. – Tem gente que faz exatamente assim, mas esse desconhece um ponto: A existência das contradições e o fato de que cada uma só pode ser interpretada a partir de cada humano, não neutraliza o fato de que, ao se deparar com alguma delas, você acabou caindo dentro da história e, ainda que não entenda porque o outro está passando por determinada situação, tem a chance de responder a vida e ao próximo em amor, conforme aquilo repercutiu em você. – E o que isso quer dizer na prática? – Isso quer dizer o seguinte: ainda que você não possa interpretar a razão daquilo estar acontecendo com a pessoa, a maneira como agirá diante do acontecimento refletirá como aquilo aconteceu em você. Negligenciá-lo não significa a compreensão de que cada história é uma história, mas mostra que, em você, as histórias se esvaziam. Nesse caso o principio é o mesmo de sempre: você vai dar aos acontecimentos o sentido correspondente ao que vive em seu coração. Um coração misericordioso agirá com misericórdia, um coração vazio, agirá com omissão. Isso não tem a ver com 265


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os outros ou as possíveis contradições, mas tem a ver com você, a maneira como enxerga o mundo e responde as necessidades de quem está perto. – Poxa, acho que entendi. Pelo jeito você está dizendo, um mesmo acontecimento acaba tendo inúmeros caminhos para interpretação. Por isso fala tanto em possibilidades, certo? – Certo, Ed. Fico feliz em perceber que está entendendo. – Eu também. Ed fala em um misto de satisfação e empolgação. – Quer dizer que, apesar de não ter condições de entender porque uma possível tragédia acontece com alguém, porque isso só diz respeito a pessoa e está ligado ao que ela é, vive, e como tudo isso pode repercutir interiormente, não elimina o fato de que aquilo repercuta em mim de outra maneira, me forçando agir conforme sou. A misericórdia ou a indiferença não tem a ver com a forma como o acontecimento repercutirá em quem está exposto diretamente, mas será uma maneira de colocar para fora o que sou e, isso sim, fará toda diferença em mim. – Pensou certo. Por isso já lhe disse algumas vezes que no fim todas as coisas estão conectadas, ainda que em cada humano repercuta de forma diferente. Aquele que insiste em se colocar na condição de juiz, que vive tentando interpretar as razões para que algo ruim ou bom acontecesse aos outros, além de nunca saber, vai deixar de enxergar que tipo de significado cada acontecimento reverbera em si mesmo. E isso nada tem a ver com a maneira como as coisas interferiram na auto percepção de quem as sofreu. – Agora entendo o que quis dizer quando falou que só interpreto o mundo a partir de mim mesmo. Não existe outra forma. – Exatamente, Ed. É por isso que faz toda a diferença buscar a consciência. Entender como as coisas são e onde estão as verdadeiras prioridades. – E por que é tão difícil ser assim? – Porque vocês construíram um tipo de vida onde o fluxo segue em outra direção. As prioridades estão ligadas a anulação da

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realidade, vocês preferem se manter entretidos com algo que não lhe faça pensar, sentir, perceber. Passam horas importantes em suas vidas enchendo a mente de um tipo de cultura imediatista, egoísta e, como não poderia deixar de ser, isso vaza para suas próprias referências pessoais. – O que quer dizer com cultura imediatista e egoísta? – Exatamente o que eu disse. Não é privilégio do seu tempo. Agir assim faz parte do jeito que os humanos muitas vezes interpretam a vida. Ao longo dos anos escolhem símbolos que são imantados por essa percepção. O problema não está nos símbolos, mas, como sempre, no significado que eles carregam. – Falou difícil de novo. Pode ser mais claro? – Desculpe amigo. Estou dizendo que, ao invés de olhar para dentro, de tentar entender como está sua alma, cuidar daquilo que estão sentindo, as pessoas preferem projetar em símbolos suas necessidades, esperanças, respostas que só encontrariam olhando para dentro, não para fora. Isso as fragiliza e consequentemente as torna dependentes desse tipo de cultura que, de tempos em tempos, reformula o discurso, mas nunca mexe na essência. – Que símbolos são esses? – Eles variam com o tempo. Vão da política as religiões, do consumo ao entretenimento. Mas note para algo: Nada disso é essencialmente ruim. O problema é o que muitas vezes eles simbolizam enquanto milhares de pessoas ficam dependentes de um mundo vazio, criado a partir dessas referências. Ed não respondeu. Enquanto tentava reorganizar os pensamentos se entregou ao silêncio e só depois de um tempo notou que o cenário se alterou. Já não era mais a maternidade, perto dos pais e avós. Também não parecia o jardim. Agora estavam diante de uma espécie de túnel, provavelmente um portal iluminado por uma forte luz. Quando se deu conta, lembrou que em algum ponto da caminhada, anjo falou que estavam indo ao encontro de Deus. 267


••ÉDEN••

– Só pode ser lá. Pensou sem dizer nada. Foi uma impressão, talvez algo causado pela imensa luminosidade que saia de dentro do portal. Tinha algo a mais ali. Por milésimos de segundos pensou em perguntar sobre o tal encontro, mas depois achou melhor esperar. Anjo notou a inquietude do amigo, mas permaneceu em silêncio por mais algum tempo. Era preciso que Ed sentisse cada etapa da viagem e assimilasse o significado de tudo o que estava vivendo. O silêncio contribuiu para alimentar a sensação de que estavam diante de um momento importante, talvez decisivo. Eram dois homens parados diante de um portal de luz sendo que um deles não tinha ideia do passo que estava prestes a dar. O silêncio durou o necessário. •

– Ed, meu amigo, acho que está na hora de nos despedirmos. A voz do anjo veio suave e se misturava com um tipo de som que saia do portal, algo praticamente impossível de descrever. Parecia música, mas não tinha exatamente acordes ou variação de tons. Era sutil, contínuo e extremamente envolvente. Ed não disse nada. Sabia que em algum momento isso aconteceria apesar do incrível vinculo que nasceu entre os dois. Estranho que só agora, na iminência de ir embora, é que percebeu o quanto estavam ligados. No fundo ele sabia que o Jardim era uma passagem. Talvez um ponto de partida para outra condição, em algum outro lugar. Estava claro que o portal o conduziria para essa nova etapa. Ed olha para o amigo e novamente identifica nos olhos do anjo uma familiaridade incomum. Aqueles olhos... Isso o detém por algum tempo, como se fosse capturado por um sentimento fortíssimo que os ligava visceralmente.

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– Nunca mais nos veremos? Anjo está sereno, sua fisionomia brilha não só por conta da luminosidade que sai do portal, mas há algo mais intenso nele. Uma espécie de eletricidade que lhe faz brilhar e anexa algo poderoso em sua aparência humana. – Somos mais ligados do que imagina. Depois sorri e se aproxima: – No Éden você não enxerga minhas variações, somente vê minha plenitude e digo isso para que não se assuste depois. Isso só é possível porque independente de qualquer coisa, vivo aqui em seu coração. Ainda confuso visivelmente impressionado com o que vê, Ed sente dificuldade em encontrar as palavras. Vira-se para o portal e tudo é luz intensa, brilha iluminando o ambiente, porém sem agredir o olhar, pelo contrário, ela atrai e alimenta um sentimento irresistível de seguir adiante. Que ali é seu caminho. – Você virá comigo? – Sempre. Eu vivo em você e estarei contigo onde quer que vá. Foi por isso que estivemos juntos aqui. O que muda hoje é que, pelo menos por um tempo, não irá mais me ver desse jeito, com esse corpo, mas o que irá desabrochar todos os dias dentro de você aumentará sua capacidade de ver, não só a mim, mas a tudo o que importa. Assim como a aparência do anjo fica cada vez mais brilhante, sua voz parece modificar-se. Aos poucos ela vai deixando de expressar palavras, fica parecida com aquela espécie de música que sai do portal. Os sons se misturam e praticamente se transformam em uma coisa só enquanto uma intensa atmosfera de amor toma conta do lugar, despertando em Ed uma fortíssima sensação de acolhimento semelhante a que sentiu quando apareceu no Éden. Tudo como se realmente pertencesse aquele lugar e a entrada no portal só representasse o próximo passo. 269


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O próximo passo. Em fração de segundos, reviu tudo: A luz forte, a falta de ar, os cheiros que nem se lembrava. Os primeiros sinais de consciência, as duvidas, os medos da noite. Ouvia seu choro agudo e suplicante, sabendo que vinha de um tempo que ficou lá atrás, mas agora, para sua surpresa, jorrou como se nunca tivesse ido embora. De repente tudo girava. A velocidade era espantosa, mas o que dava vertigem era a sensação de sair de um tempo e cair em outro, como se todos os tempos existissem naquele instante. Era diferente das experiências anteriores. Sentia como se as fronteiras tivessem realmente desaparecido. Tudo acontecia em um segundo. Os amigos de infância! Lá estavam os primeiros, aqueles que nem se lembrava. Depois veio o Nestor, o Patrick, o Netinho... Todos corriam, gargalhavam e, como das outras vezes, não podiam lhe enxergar. Enquanto as imagens rapidamente desapareciam, Ed ouvia vozes familiares, mas indiscerníveis. Sorrisos, sussurros, comentários, frases soltas se misturavam como se estivessem de alguma maneira se reorganizando em sua mente. Entre tantas vozes identificou duas: Beth e Gabriel. Eles estavam bem! Tinha muito vento também. Quase como se estivesse no meio de um vendaval. De repente era outro tempo: Ed vê uma estrada a noite, no rádio do carro uma música do Jonny Rivers, o coração batendo descompassadamente. Antes que pudesse entender, vê o painel do seu avião como se estivesse de volta ao momento em que antecedeu a queda. Não deu para sentir nada tamanho a velocidade em que os cenários se alteravam.

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Rostos, cheiros, paisagens, sensações, iam e vinham quase como uma agulha de um costureiro que fura aqui, passa linha ali, vai e vem até que a costura esteja pronta. As coisas começam a fazer sentido. Passeando entre todos os cenários, olhando sua vida daquele ponto, sentiu claramente como se tudo fizesse parte de uma coisa só. Exatamente como anjo tanto dizia. Olhava as grandes alegrias e as terríveis tristezas como fruto de algo único, que, no fim das contas, o levou até aquela experiência. Aos poucos, como uma turbina que desacelera, as imagens foram sumindo. O sentimento era de leveza e a intensidade das emoções que acabara de reviver estavam diminuindo, cedendo lugar a uma espécie de êxtase. O vento se aquietou, as vozes se calaram e agora tudo era silêncio e, no silêncio, tinha paz. Ed só se deu conta de que tinha fechado os olhos quando começou a abri-los lentamente e dá de cara com um rosto conhecido. Não se recordava de onde era, mas era capaz de jurar que em algum momento de sua vida já esteve com aquele homem que se aproxima e lhe dá um grande abraço: – Estive contigo o tempo inteiro, cuidei de você em cada instante. É bom encontrá-lo nesse ponto da caminhada. Disse o homem com amor quase palpável. – Onde estou? O que eu tenho que fazer? – Ed perguntou confuso, sem esperar a resposta que viria: – Eu já fiz. E o que eu quero é o que sempre quis: Que você descanse em mim. Tudo o que você viveu contribuiu para que chegasse até aqui. Aquela voz era familiar demais para um estranho. De repente parecia que nada mais tinha tanta importância. Tudo estava em seu devido lugar. – Quem é você?. 271


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– Eu sou, e isso basta. – Acho... Bem, não me lembro de ter lhe encontrado antes, mas sinto como se sempre tivéssemos sido íntimos. – Sempre fomos porque você veio de mim. Sua essência é a minha e nunca houve nada que não saísse de mim - sua voz soava como música. Quando falava, parece que o mundo se aquietava. – Já nos vimos antes?- Ed ainda parece confuso. – De varias maneiras, com vários rostos, em vários sons, o tempo todo. Enquanto falava a fisionomia do homem mudava. É como se na mesma face houvesse traços de várias etnias e gêneros. Algo realmente impressionante. Seu rosto já não se parecia mais com homem ou mulher, apesar de traços humanos. – Você é Deus? – Chamam-me assim também. – Então você é Deus! Ele sorri acolhedoramente, chega mais perto e diz: – Sou quem sempre fui. Deus é o nome que escolheram me dar, mas Eu Sou. E você é, em mim. – Ainda não consigo entender exatamente - Ed fala em tom de confissão. – Você ainda está cheio de conceitos errados. No íntimo ainda esperava encontrar um velho justiceiro que leria seu juízo e determinaria seu destino eterno no céu ou no inferno. Não sou assim. Nunca fui. Todas as suas angústias têm a ver com o fato de se sentir separado de mim. Sempre estive contigo e minha morada sempre foi em seu coração. Não existe separação entre nós e nada tem o poder de alterar isso. Ed não conseguia mais falar. Sorvia cada som. – Agora é hora de se desvencilhar de suas concepções culturais. Você ainda verá muitas coisas que não se parecem com o que via nas casas de pedra, as que diziam ser minha casa. Com os olhos abertos, encontrará virtudes inimagináveis em gente que vive

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a margem da sociedade. Mesmo que sujeito às leis do seu tempo, viverá como quem sabe que não há limite nem separação, portanto tudo é possível. Sempre foi assim e nunca deixei de avisá-los. Experimentará a sensação de unidade e saberá que faz parte de tudo e que tudo faz parte de mim. – Você pode me dizer realmente onde estamos? Aqui é o jardim do Éden? – Sim. Aqui é o Jardim do Éden e não há outro lugar para o Éden existir a não ser dentro de vocês. Cada humano abriga seu próprio Éden onde convive diariamente com suas contradições, com a percepção do bem e do mal. Existe um mundo sendo construído em cada alma e a ele chamo Éden. É no coração de cada humano que suas histórias se desenrolam. Céu e inferno existem aqui, onde todas as escolhas são feitas e os passos decisivos são dados. – Então... Ed para um segundo, pensa e retoma: Então o Éden não é propriamente um lugar? – O Éden é um acontecimento e existe dentro de cada humano. Você esteve em seu Éden. Ele sorri enquanto olha fixamente para Ed. Seu olhar descortinava a alma: – Venha, vou te contar o que quiser saber. O conhecimento da verdade sempre liberta - Ele caminhava, Ed permaneceu olhando por alguns instantes. Ele sorriu. Parecia saber o que pensava. – A verdade vos libertará... foi apenas um pensamento alto que saiu da boca extasiada de Ed. – Faz tempo que tento conduzi-los a essa certeza. Você só precisa voltar a aprender a me ouvir. Olhar para a vida e me ver. Saber que em tudo há um pouco de mim, estou em tudo, mas nada me contém. Estou em cada centelha de vida, me movimento onde sequer o pensamento humano alcançou, passeio no tempo, me expresso no grande e no aparentemente insignificante, mas não sou nenhuma dessas coisas. O mundo é uma mensagem, felizes os que enxergam e não tentam me encaixar em seus próprios limites. 273


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– Por que se mostrou a mim? – Ed, a questão é que agora você consegue me ver. Eu nunca deixei de me mostrar a você ou a ninguém, de várias maneiras, nas mais diversas formas. Você só não conseguia ver. Sua alma estava intoxicada, sua mente blindada pela culpa e pelo medo. Mas você visitou seu Éden, reviu seus fantasmas, lidou com a sensação de que estava separado de mim e lhe fazia pensar que necessitava de intermediários que refizessem a conexão. Pois bem, estava enganado e agora pode me ver. – Vou continuar podendo lhe ver sempre? – Sempre que seu ponto de partida for o amor e olhar para o próprio caminho como quem enxerga um presente, sempre que mantiver seus olhos de criança, como quem absorve a vida com simplicidade, sempre que for assim me verá. Não será necessariamente como nesse momento, mas saberá que estou perto. Quem enxerga em amor, esse me vê. Ed apenas sorriu. Estranhamente não havia mais perguntas. – Quem me vê, viu o que precisava ver. Os que são meus me reconhecem e ouvem a minha voz, onde quer que esteja, saia de onde sair. Primeiro uma música suave.

Como o sol que se põe sem que a gente perceba ou a Terra que gira pelo espaço sem nos dar tontura, um som rasgou o silêncio. Veio aos poucos, embalando o sonho, fazendo-se perceber sem pressa, dando consistência ao vazio, alterando o ritmo do mundo sem cores e confuso que lentamente ia ficando lá atrás. Quando o ritmo muda, muda tudo. Tons agudos, quase sem melodia. O caminho de volta a consciência anunciando que o sono acabou.

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Seis e meia. Ainda ao som do despertador, Ed se arrasta para fora da cama, tentando reorganizar os pensamentos. A porta se abre rapidamente: “Bom dia!”. Gabriel entra correndo pelo quarto e pula sobre a cama. – Ah... Gabriel, desse jeito a gente ainda morre de susto. Beth! Ed levanta confuso e assustado. – O que houve meu amor? Beth pergunta enquanto ajeita Gabriel na cama exatamente entre os dois. Ele pensa por alguns segundos. O que dizer? De repente acorda entre a esposa e o filho como se nada tivesse acontecido? E o divórcio? O acidente? A queda do avião? Onde estava o anjo, Éden, Deus? Não. Definitivamente aquilo não foi um sonho. A conversa, as viagens, cada instante de sua vida que visitou, tinha sido real! Mas agora voltou como se entrasse por outra porta. Saiu da parte dolorida da história e entrou em outro cenário, como se as escolhas tivessem sido outras, como se penetrasse em outra realidade, como se tivesse tido outra chance. Anjo insistia em dizer que o tempo não existe. Ele mesmo viajou entre tempos diferentes e reviveu momentos que já tinham sido. Talvez isso explique. Talvez o tempo não tivesse voltado. Talvez aquela viajem tenha alterado as coisas e aberto uma nova fenda de possibilidades na existência. Possibilidades. Sim, não era isso que anjo vivia dizendo? Se tudo era possível, quem sabe aquela nova chance não fosse assim tão absurda? – Está tudo bem, querido? – Sim meu amor. Ed abraça a esposa e puxa Gabriel para mais perto: Nunca esteve melhor. O coração acelerado. A boca seca. A sensação de que simplesmente acabou de renascer. Estava morto e agora reviveu. 275


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– Se está tudo bem, pode melhorar com um belo café da manhã. Beth olha para seus dois homens, dá um sorriso, fecha os olhos e quase grita: Quem quer super café da manhã? – Eeuuu!” Só Gabriel responde. Ed ainda está perplexo, mas depois dá um sorriso e acompanha o filho: – Eu também! Beth se levanta e corre para cozinha. Pai e filho ficam em silêncio por alguns segundos. Ed ainda tenta assimilar tudo aquilo. Como seria possível? Mesmo depois de tudo o que viveu não sabia até que ponto estava preparado para aquela nova experiência. Ed pensa, Gabriel, quieto, olha para o pai com um jeito estranho, meio sorriso nos lábios. – Papai, sei por que está assim. – Assim como querido? – Eu também estava lá. No jardim, naquele lugar. Ed estava petrificado. Não sabia o que dizer. Gabriel continuou: – Pai eu também não sei direito. Parece que as coisas estão indo embora da minha cabeça, mas ainda lembro de uns pedaços... De você com os leõezinhos, do vovô quando era criança, da gente andando e conversando muito. Eu já era adulto né papai? Aquele olhar conhecido, a enorme sensação de familiaridade nos olhos do anjo. Anjo, Gabriel. Aquele que vivia dentro do seu Éden, o único ser humano que existia em Ed a partir do laço do amor. Mas não era o amor a chave de todas as respostas? Anjo era Gabriel adulto. Aquele que o filho um dia se tornaria já vivia em Ed como possibilidade, sem as amarras do tempo. Mas como podia ser tão sábio? Como entendia sobre tantas coisas? – As crianças são mais sábias que os adultos. Lembrou-se do que sua mãe sempre repetia. No mundo de todas as perspectivas, onde o tempo não é determinante, Gabriel poderia ser perfeitamente um adulto ainda não corrompido, intoxicado pelo... Como ele dizia? Sim, pelo fluxo dos pensamentos da Terra. Talvez anjo fosse a perfeita combinação da inocência da criança e da sabedo-

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ria, livre, simples, descompromissada com qualquer corrente de pensamento que, com o tempo, tende a se impregnar em nosso olhar. Provavelmente foi isso - pensou Ed - provavelmente. Teve a chance de aprender com o filho que no tempo e na história era apenas uma criança, mas diante do mundo das possibilidades já existia em sua total plenitude. – Os que são meus reconhecem minha voz, onde quer que ela esteja, saia de onde sair. Não foi isso que ouvira de Deus? Que loucura! Sussurrou para si mesmo. – Durante todo aquele tempo estive com meu próprio filho e não o reconheci. Lembrou-se do quanto conversaram sobre o tempo, sobre as possibilidades, sobre o fato de que tudo poderia co-existir simultaneamente, das viagens, do passado presente e do futuro como uma simples impressão. Ainda que tudo aparentasse completa loucura, estranhamente fazia sentido. Ed sabia que havia um limite para entender tudo aquilo e que o tempo lhe ajudaria a colocar as coisas no lugar. Mas por que o privilégio? Em um planeta com bilhões de almas, todas ávidas por uma chance, onde muitos dariam o que fosse para viver o que ele viveu, onde certamente a maioria teria muito mais méritos, por que justamente Ed Mingot? Ou será que aquela não era uma experiência só dele? Gabriel se aproxima. Deita no colo do pai e coloca sua mão sobre sua perna. – Vem aqui meu amor. Ed lhe dá um grande abraço. Vamos separar uma roupa. Quero visitar alguém muito importante. •

– Meu filho amado. É assim que deve se sentir até seu último dia: amado. Lamento que não tivemos a chance de conviver por mais tempo, mas saiba, houve intensidade em cada momento em que estive contigo. 277


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Quando desconfiei a primeira vez que havia um ser sendo formado dentro de mim, me senti a mulher mais realizada do mundo. Demorei algum tempo até contar a seu pai e a seu avô, pois não queria causar-lhes ansiedade desnecessária. Contei somente a minha mãe que mesmo não tendo certeza que eu estava grávida se alegrou como eu nunca tinha visto. Você nos trouxe muita alegria antes mesmo de chegar. Depois veio a gestação, os enjoos, as dores e mudanças no corpo. Como fui feliz em te conceber! Você nasceu em uma manhã fria de terça-feira. Naquele dia o ar parecia radiante com partículas iluminadas pelo sol de outono e as folhas secas caídas nas calçadas formavam um tapete natural. Parece que ainda posso ver a alegria do médico e o espanto de seu pai quando ouvimos seu chorinho, agudo, estridente, pela primeira vez. Vocês ganharam um menino! Sim, um lindo menino! – Foi a primeira exclamação do Dr. Gilbert logo que você saiu do meu ventre. Desde cedo lhe cerquei de cuidados, segui todas as recomendações que uma mãe de primeira viagem costuma seguir, exibi minha cria para todos os parentes que, felizes, vinham aos montes até nossa casa para segurá-lo e trazer-lhe mimos de todas as naturezas. O tempo passou tão rápido. Acho que nem me dei conta de quando você deixou de ser um bebê indefeso e se transformou nesse menininho curioso e experto que vejo correndo pela sala, pelo jardim e por todos os cantos. Você não sabe que a mamãe está doente. É certo que já não estarei aqui enquanto estiver lendo essas linhas, mas saiba que nunca lhe deixarei. Certa feita recebi a noticia de que minha amada avó tinha partido. Foi difícil para uma menina de oito anos entender que não veria novamente aquele rosto amável com sorriso constante e braços sempre acolhedores, contando histórias, me chamando

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de “minha neném” sempre que me via. É claro que sofri bastante, mas ainda guardo na memória certa noite em que, chorando, perguntei a meu pai por que vovó me deixou. Ele respondeu que nosso corpo um dia acaba, mas isso não é suficiente para destruir as memórias de um dia feliz, um beijo, uma palavra de carinho, a sensação de um toque, o tom de voz suave de alguém que nos quer bem. Essas coisas ficam para sempre em nossos corações e é ali que a pessoa que se foi sempre viverá em nós. “Quando sentir saudade da vovó pense nela. Lembre-se do seu cheirinho, do barulho dos seus passos, das expressões que fazia ao te ver, da sensação de estar no colo dela. Pense com carinho em tudo o que viveram que sentirá que na verdade ela ainda vive em você”. Depois disso, sempre que me sentia triste ou com saudade da minha avó, dava um jeito de resgatá-la dentro de mim. Não sei até que ponto você terá memória para resgatar em você nossos momentos. Talvez seja pequeno demais para lembrar-se de tantas coisas, mas, filho amado, sempre que sentir saudade, feche os olhos, fique quietinho e tente se lembrar de sua mãe. Mesmo que por pouco tempo, dei a você meu melhor e fiz de tudo para que fosse feliz. Essas linhas expressam meus sentimentos e, sobretudo, o amor de uma mãe que, já não existe em corpo, mas que nunca deixará de ser real. Viva em segurança, cresça feliz e grato por existir e nunca se esqueça que carregará para sempre meu amor, onde quer que vá, o que quer que seja. Não sei como serão os seus dias, mas estarei presente de um jeito ou de outro, nos seus pensamentos, nas suas lembranças e nos momentos em que precisar da segurança de sentir que é amado. Cuide de seu pai. Ele precisa ser forte. Um dia estaremos juntos de novo e, quando esse dia chegar, nós dois daremos muitas risadas e entenderemos porque as coisas tiveram que ser assim. 279


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Estou feliz por cumprir minha missão. Sei que percorri minha estrada e em breve estarei de volta ao lar. Você foi meu melhor presente e seus passos na Terra confirmarão minha certeza. Seja feliz Michel e guarde para sempre meu amor. Da mamãe, Isabelle que tanto lhe quer bem. •

O vento sopra onde quer. Ninguém sabe de onde vem e nem para onde vai. Soprando de um lado ou de outro, percorre seu caminho invisível refrigerando a todos que a ele se expõe. Para ele não existem fronteiras e, quando uma barreira tenta impedi-lo simplesmente a ultrapassa, deixando para trás qualquer impossibilidade de chegar ao seu destino. Em certa tarde agitada na Paris de 1931 o vento soprou com mais força do que fazia há dias. Ninguém percebeu que ele tinha uma missão. Sem que ninguém notasse carregou uma carta que atravessaria a calçada, a cidade e o tempo que a acolheu e fez com que as coisas mudassem. Como explicar o inexplicável? Como entender os caminhos que a vida faz e a gente sequer desconfia que esses caminhos nos transforma todos os dias? Se conhecêssemos a realidade além de nossos limites e bebêssemos da fonte além de nossos rios, talvez olhássemos com naturalidade o que hoje chamamos de impossível. Provavelmente entenderíamos que milagre é o que acontece todos os dias, de forma simples e discreta a ponto de que poucos conseguem ver. Michel novamente repassa os olhos sobre as últimas linhas escritas pela mãe, dobra o papel amarelado e envelhecido e sorri com satisfação. Há muitos anos aquelas palavras serviam de abrigo ao seu coração, lhe aquecendo nos momentos difíceis.

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Foi a certeza de ser amado que lhe manteve a doçura e fez com que soubesse lidar com as perdas e desafios ao longo do caminho. O velho Michel se levanta e caminha até a escrivaninha. Abre a gaveta e guarda a carta sem pressa, com cuidado. Depois olha para a janela e vê sua imagem refletida no vidro. Seus olhos cheios de vida se detêm mais algum tempo no próprio reflexo para logo em seguida se entregar ao vazio. Deixa que os pensamentos o conduza até que se detém na imagem de Ed que naquela tarde estava especialmente feliz. Faz duas horas Ed, Beth e Gabriel foram embora depois que lhe surpreenderam com uma visita inesperada, cheia de presentes e, sobretudo declarações. Havia algo diferente nos olhos de Ed como se ele pudesse ver algo no ar. Parecia que guardava um segredo que não pudesse ser compartilhado apesar de lhe fazer feliz. Talvez radiante fosse a palavra mais adequada. Durante algum tempo conversaram e depois se abraçaram como se estivessem se reencontrando após longos anos. Michel não sabia que essa era outra história, nem percebeu quando o vento mudou e fez com que as coisas se modificassem. Aquele dia, que parecia mais um entre tantos outros, tinha algo diferente no ar. Ondas de felicidade e a sensação de que no fim tudo pode dar certo. Talvez houvesse uma explicação para o fato de ter acordado tão feliz naquela manhã, mas não estava preocupado com isso. Ele dá um suspiro e novamente repara em sua imagem no vidro. Caminha entre a escrivaninha, os livros, o abajur até chegar à janela e abri-la. Sente uma rajada de vento e sorri permitindo que o ar invada o apartamento e movimente os papéis sobre a mesa. O ar estava agitado e, apesar da bagunça la fora, a vida parecia estar em ordem, com tudo em seu devido lugar. O velho Michel se detém mais alguns minutos na imagem 281


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daquele dia claro, nos raios de sol que penetravam as folhas das árvores, nas pessoas que caminhavam nas calçadas, falantes, felizes. O vento movimenta seus poucos cabelos brancos e lhe brinda com uma intensa sensação de liberdade. Ele sorri com satisfação, apóia os braços no parapeito e continua a observar o mundo que pulsa lá embaixo. Sim. Definitivamente havia algo diferente no ar.

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Flávio Siqueira - O Éden  

Uma surpreendente jornada de um homem em direção à Deus e a si mesmo.

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