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Ano XXX • Nº 322 • Set-Out-Nov 2013

Lutar, construir Reforma Agrária Popular!

Rumo ao 6° Congresso Nacional do MST

Literatura

encarte especial

realidade brasileira

Tatiana Belinky,

O Estado burguês

Organizações constroem

uma brasileira com

e a luta pela

plebiscito popular

sotaque russo Páginas 14

Reforma Agrária

por Reforma Política Página 10


Editorial São cinco dias de encontro, celebração das conquistas, reafirmação da luta e fortalecimento da nossa mística

Mãos à obra rumo ao nosso 6º Congresso Nacional! Estamos nos aproximando da realização do nosso 6º Congresso Nacional, que acontece em Brasília, entre os dias 10 e 14 de fevereiro de 2014. Nesse período, mais de 13.000 companheiros e companheiras de assentamentos e acampamentos de todo país ocuparão mais uma vez a capital federal, além de amigos e aliados da luta, tanto nacionais quanto internacionais. O Congresso Nacional é o maior espaço de decisões do MST, quando avaliamos nossa atuação e desenhamos as linhas políticas que orientarão nossa organização e nossas lutas para o próximo período. É um momento de fazermos um balanço crítico desses 30 anos de caminhada, de refletirmos com o conjunto da classe trabalhadora sobre nossos desafios enquanto classe para a construção de uma nova sociedade, e de fortalecer nossas alianças nacionais e internacionais. Além de ser um momento de projetarmos o futuro, pensarmos nossas táticas de luta para o período que se segue, como a organização de nossa juventude, a participação das companheiras e dos Sem Terrinha, o papel político dos assentamentos, etc.

Serão cinco dias de encontro da nossa militância, de celebração das nossas conquistas, reafirmação da luta e fortalecimento da nossa mística. Assim como fazemos em todos os nossos espaços organizativos e de luta, os debates e reflexões no Congresso Nacional serão mesclados com espaços de confraternização, além de ser um momento de mostrarmos nossa produção, nossa cultura, nossa música, nossa arte. E ainda realizarmos luta concreta, ocupando as ruas de Brasília e mostrar ao governo e à sociedade que seguimos mobilizados, recolocando novamente a Reforma Agrária no debate nacional. O Congresso, no entanto, não se resume apenas a esses cinco dias de encontro e debates em Brasília. É um processo muito anterior, que começou lá em 2011, quando iniciamos o trabalho de base para debater nosso projeto de Reforma Agrária Popular, a natureza do Estado e o que zelar e o que mudar no nosso Movimento. Ao longo desses dois anos foram realizados encontros, seminários, debates, reuniões e assembleias em todo o país, envolvendo toda

a militância, milhares de famílias acampadas e assentadas, os Sem Terrinha, amigos, intelectuais e outros movimentos sociais. Desse amplo debate coletivo construímos o Programa Agrário, que contém nossa análise do desenvolvimento do capitalismo no campo brasileiro e nossa proposta de Reforma Agrária Popular, que deverá ser aprovado durante o Congresso. Os debates que acontecerão em Brasília, portanto, são fruto de todo esse processo, resumido no Programa Agrário do Movimento e sintetizado no lema do nosso 6° Congresso Nacional: “Lutar, Construir Reforma Agrária Popular!”, ao enfatizar a necessidade da luta pela terra, contra o agronegócio e pela consolidação dos territórios já conquistados, transformando-os em espaços de produção de alimentos saudáveis e em experiências da nova sociedade que queremos construir. Agora é o momento de nos organizarmos rumo a Brasília. Aproveitar nossos encontros estaduais e atividades até a data do Congresso para rediscutir o Programa Agrário,

Carta ao leitor

dessa vez com as contribuições que vieram dos debates em todos os estados. Realizar assembleias e reuniões em nossos assentamentos e acampamentos para escolher delegados e delegadas que representarão as famílias Sem Terra de cada estado no Congresso, inclusive cada um(a) de nós. E não vamos nos esquecer de organizar cartazes, faixas e batuques para acender nossa mobilização, chamar nossos cantadores e grupos culturais para animar toda a atividade e preparar nossos produtos para abarrotarmos a Feira da Reforma Agrária. Com isso, mãos à obra rumo ao nosso 6º Congresso Nacional, com muita mística e animação para lutar e construir a Reforma Agrária Popular! Direção Nacional do MST

Frase do mês

O MST é um movimento político-social que dignifica, humaniza, socializa e moraliza uma significativa parcela da sociedade brasileira, tão discriminada socialmente, na medida em que a terra é redistribuída mediante os assentamentos associativos, criando um novo ciclo de desenvolvimento social capaz de assegurar a permanência do camponês no campo, plantando, criando, produzindo, comercializando os produtos, que

irão contribuir para abastecer o mercado consumidor de todo o país. Além de promover pela interação social das famílias, o acesso à saúde, à educação, à cultura, aos alimentos, aos bens de consumo que todo cidadão comum tem direito. Parabéns ao MST, por exercer esse belíssimo trabalho de inclusão social! Adilson Fontoura Mande sua mensagem para o Jornal Sem Terra

Foto da capa: MST-PA

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Não se esqueçam de organizar cartazes, faixas e batuques para acender e animar nossa mobilização

Edição-chefe: Luiz Felipe Albuquerque. Revisão: José Coutinho Jr. e Jade Percassi. Projeto gráfico e diagramação: Eliel Almeida. Assinaturas: Elaine Silva. Tiragem: 10 mil exemplares. Endereço: Al. Barão de Limeira, 1232 – CEP 01202-002 – São Paulo/SP – Tel/fax: (11) 2131-0850. Correio eletrônico: jst@mst.org.br. Página na internet: www.mst.org.br. Todos os textos do Jornal Sem Terra podem ser reproduzidas por qualquer veículo de comunicação, desde que citada a fonte e mantida a íntegra do material.

Sua participação é muito importante. As correspondências podem ser enviadas para jst@mst.org.br ou para a Alameda Barão de Limeira, 1232, Campos Elíseos, São Paulo/SP, CEP 01202-002. As opiniões expressas na seção “Palavra do leitor” não refletem, necessariamente, as opiniões do Jornal sobre os temas abordados. A equipe do JST pode, eventualmente, ter de editar as cartas recebidas.

“Me sinto parte desse Movimento, tendo estado muito próximo deles durante todos estes anos. Considero-me um militante do Movimento Sem Terra”. Sérgio Mamberti é ator, fez o personagem Dr. Victor no Castelo Rá-Tim-Bum e atuou por 10 anos no Ministério da Cultura.

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Estudo Bancada ruralista é a maior força do Congresso Nacional

A agenda conservadora do agronegócio Uelton Fernandes Bacharel em Direito

A definição corrente de “agronegócio” no âmbito econômico designaria o conjunto de “negócios” relacionados ao setor agropecuário, desde a produção de insumos, passando pela produção agropecuária até o processamento e comercialização dos produtos. No entanto, a definição economicista esconde o essencial: trata-se de um modelo de produção cujas relações econômicas, sociais e políticas asseguram o avanço do capitalismo no campo brasileiro. Ou seja, o termo “agronegócio” designa um modelo de desenvolvimento capitalista, concentrador da propriedade da terra e da renda no campo.

O governo curvou-se à exigência da importação de agrotóxicos e o afastamento da Anvisa e Ibama no controle dos agrotóxicos Historicamente este setor conta com a proteção do aparato político, militar, jurídico e econômico do Estado, desde a formação dos latifúndios por meio da doação de terras públicas (sesmarias) às atuais transferências de recursos públicos pelas políticas de subsídios, incentivos fiscais e subvenções diretas a determinados setores. Para garantir a perpetuação desta proteção, a representação do “agronegócio” se fez presente nos três Poderes da República. No Poder Executivo,

por exemplo, controlam o Ministério da Agricultura; no Judiciário, têm declarados membros com interesses diretos na agropecuária. No entanto, é no Parlamento que a representação do “agronegócio”, por meio da Frente Parlamentar da Agropecuária, ganha maior visibilidade, com representantes eleitos em praticamente todos os partidos, e em todos os estados brasileiros, conforme mostram os gráficos abaixo. Os representantes do “agronegócio” adotam de forma recorrente o discurso de que o setor se encontra em crise, e que se não houver uma intervenção imediata do governo ele entrará em colapso. Neste discurso vale qualquer justificativa: seca, enchente, pragas, desvalorização cambial, endividamento, as exigências de preservação ambiental, e ultimamente a demarcação das terras indígenas e de quilombolas.

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Na verdade este discurso da “crise permanente” serve de pretexto para pressionarem o governo em pontos que consideram como estratégicos para o desenvolvimento do atual modelo de agricultura. Seja na disputa pelo território, no qual se insere a edição do novo Código Florestal, a não demarcação das terras indígenas e quilombolas; seja na liberação dos agroquímicos e das sementes transgênicas, para citar alguns pontos. E a estratégia tem funcionado. Somente no último mês obtiveram mais três Leis autorizando a renegociação de dívidas do crédito rural (MP 610/2013; MP 615/2013 e MP 618/2013); a renegociação favorecida dos grandes devedores da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) (MP 619/2013). Mas, talvez as duas medidas mais importantes a que o go-

verno se curvou recentemente foram a paralisação das demarcações das terras indígenas, e a concessão para que apenas o Ministério da Agricultura decida sobre a liberação da importação, produção, distribuição, comercialização e uso de agrotóxicos, mesmo que não tenham registro no país, bastando para tanto que declare situação de emergência fitossanitária. Ou seja, o governo curvou-se à exigência dos ruralistas para a importação de agrotóxicos e o afastamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no controle destes produtos. Podem-se explicar tais resultados não somente pela força política da Bancada Ruralista, mas, de um lado, pela composição do governo em nome da governabilidade e alianças políticas eleitorais, e de outro pela fraca articulação das forças progressistas.

Para garantir a perpetuação desta proteção, a representação do “agronegócio” se fez presente nos três Poderes da República A mudança no paradigma da representação política e social mostra-se como crucial para interromper com a tradicional representação oligárquica dos latifundiários no aparelho de Estado e enfrentar a agenda conservadora do “agronegócio”.

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Entrevista Em entrevista ao JST, Geraldo Gasparin analisa o papel do Movimento para o próximo período, além de apontar as tarefas Arquivo MST

Lutar, construir Reforma Agrária Popular! Os desafios do MST para o próximo período

Por Mayrá Lima Setor de Comunicação do MST

O avanço do agronegócio como modelo hegemônico da agricultura brasileira trouxe mudanças significativas na correlação de forças, na composição das classes sociais no campo e até mesmo na relação com o Estado e os governos. Desta forma, qual o papel do MST e dos demais movimentos sociais frente à pauta da Reforma Agrária? Essa pergunta orienta todo o MST que se prepara para o seu 6° Congresso Nacional. Com o lema “Lutar, Construir Reforma Agrária Popular!”, a cidade de Brasília receberá mais de 12 mil Sem Terra durante os dias 10 a 14 de fevereiro de 2014. JST - Como podemos elencar quais os principais temas que o MST deve se debruçar neste próximo período? GG - O encontro da Coordenação Nacional e, posteriormente, o 6° Congresso Nacional são espaços onde vamos sistematizar todo o debate feito com nossa base social e com a militância sobre a atuação política do MST para os próximos cinco anos. Desta forma, é fundamental entendermos a natureza do Estado e dos governos e os mecanismos adotados por eles para resolver a questão da crise capitalista e garantir

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a acumulação por parte da classe dominante. Entender como atua o agronegócio e nossos inimigos, quem são eles, para também nos posicionarmos nesse embate de projetos: Reforma Agrária Popular x agronegócio, e nisso saber quais os setores que estão dispostos a construir alianças. Assim, a luta por outro modelo de produção de alimentos, ou seja, produzir comida saudável, barata e de qualidade é uma luta estratégica. Precisamos barrar a ofensiva neoliberal na agricultura brasileira, que subor-

Os desafios são grandes. O campo está hegemonizado pelo agronegócio e a Reforma Agrária está paralisada. Entre os dias 22 e 25 de agosto, o MST realizou mais um encontro de sua coordenação nacional. Cerca de 300 delegados enviados pelos estados traçaram os temas que orientarão a luta do Movimento. Durante o encontro, os temas do 6° Congresso foram debatidos, tal como a organicidade que o MST precisa construir para a luta pela Reforma Agrária Popular. Em entrevista ao Jornal Sem Terra, o integrante da coordenação nacional do MST pelo setor de Formação, Geraldo Gasparin, nos explica os detalhes dessa proposta, além de apontar as tarefas do Movimento para o próximo período. dina nossas riquezas naturais, nossa produção agrícola, nossa economia e nossa cultura aos interesses do capitalismo financeiro e das grandes corporações internacionais. Além disso, a defesa do petróleo sob controle estatal e pelo fim dos leilões, a reforma política, o código da mineração, o reconhecimento das áreas indígenas e quilombolas, a democratização da mídia, políticas que melhorem a mobilidade urbana, entre outros vão estar na ordem do dia de nossas mobilizações e lutas em conjunto à classe trabalhadora.

JST - Explique o teor da Reforma Agrária Popular, seus fundamentos e o que ela se diferencia da Reforma Agrária Clássica? GG - Se entendermos que a Reforma Agrária Clássica é a democratização da propriedade da terra, garantindo a reprodução dos camponeses com sua integração ao mercado interno – geração de renda como forma de melhorar as condições de vida de suas famílias –, concluiremos que ela não cabe no atual projeto de agricultura brasileira que prioriza o agronegócio.

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Este novo contexto exige novos posicionamentos dos movimentos sociais. Precisamos defender um novo projeto de Reforma Agrária, isto é, construir alianças entre todos os movimentos camponeses, com a classe trabalhadora urbana e com outros setores sociais comprometidos com mudanças estruturais. Após muitos debates, elaboramos, coletivamente, o nosso programa de Reforma Agrária Popular. Nele, reafirmamos que a terra e todos os bens da natureza devem estar a serviço de todo o povo brasileiro, sob o objetivo de produzir alimentos saudáveis, de qualidade e sem agrotóxicos. Afirmamos as sementes como um patrimônio dos povos a serviço da humanidade, além do compromisso com o reflorestamento de todas as áreas degradadas com ampla biodiversidade. É preciso ainda promover a cooperação agrícola, desenvolver as forças produtivas no campo sob novas relações sociais, sem que haja a exploração, opressão e alienação do trabalho. Precisamos desenvolver formas autossustentáveis de produção de energia em todas as comunidades, além de respeitar e demarcar todas as áreas dos povos indígenas, comunidades tradicionais, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas e de pescadores artesanais. Do ponto de vista da educação, precisamos garantir nossa cultura e identidade social. Além disso, devemos combater de forma intransigente toda a violência contra as mulheres e crianças, garantir a formação técnica e política como instrumento de emancipação cultural, política e humana de todos os camponeses, sem nenhuma discriminação social.

JST - Como fica a composição das classes sociais no campo? GG - O setor capitalista, que representa o agronegócio, tem em torno de 450 mil estabelecimentos e controla cerca de 300 milhões de hectares. Há cerca de 400 mil trabalhadores assalariados e com vínculo empregatício nas grandes propriedades, e outros 1,8 milhões de assalariados temporários nas propriedades de 500 a 2 mil hectares, totalizando 2,2 milhões de trabalhadores assalariados para o agronegócio. O Censo do IBGE (2006) revela que esse contingente de trabalhadores, na década de 1980, era de 6 a 10 milhões. Portanto, houve uma redução muito grande do número de assalariados rurais. A conclusão é obvia: o agronegócio não gera emprego e por isso é uma atividade rentável apenas para os grandes capitalistas. Na condição social de camponeses, as estatísticas apontam o número de 4,8 milhões de agricultores familiares. Destes, apenas 1 milhão de famílias possuem renda que garanta a reprodução social da família. Os demais 3,8 milhões de camponeses pobres estão inviabilizados por esse Arquivo MST

JST - Como se deu a construção dessa proposta? GG - Com o agronegócio, a burguesia, o Estado e os governos assumem a posição de que não é mais necessária uma Reforma Agrária do tipo clássica para o desenvolvimento da agricultura brasileira. As terras e a forma de produzir alimentos são disputadas pelo agronegócio. Alterou-se a correlação de forças no campo, impedindo que a Reforma Agrária avance. Por isso ela está paralisada. Está bloqueada pela aliança de classes feita entre os grandes proprietários rurais, o capital financeiro, as empresas transnacionais que concentram terras e as políticas públicas, além dos meios de comunicação.

Por conta deste modelo houve um aumento significativo da produtividade agrícola por hectare e por trabalhador em todos os ramos de produção. Esse aumento da produtividade está combinado com o aumento de escala dos monocultivos bem como uso intensivo de agrotóxicos e máquinas agrícolas. Para continuar com a sanha de acumulação de riqueza por meio da produção agrícola, esse capital procura se expandir incorporando novas áreas para o agronegócio, sobretudo na região centro-oeste no bioma do cerrado, no sul da Amazônia e no chamado Mapitoba (sul do Maranhão e do Piauí, norte de Tocantins e oeste da Bahia).

Plenária da coordenação nacional

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modelo. Produzem basicamente para a subsistência e vendem um volume pequeno de produção. Entre eles, está a base social que lutaria pela terra e pela Reforma Agrária. Eles estão à margem deste projeto de agricultura do agronegócio, incluídos no Bolsa Família, mas completamente excluídos de políticas públicas estruturantes. JST - O que será preciso para que a Reforma Agrária Popular se popularize como uma reivindicação da sociedade? GG - Dependerá essencialmente de nossa capacidade de luta. Se é uma bandeira que vai favorecer toda a sociedade, esta terá que se mobilizar por meio de seus instrumentos organizativos. A classe dominante quer impor um projeto agrícola que vise atender o grande capital, e tem hegemonizado o debate de que a Reforma Agrária não é mais necessária. A classe trabalhadora terá que fazer a luta contra-hegemônica, pois só a ela interessa a Reforma Agrária Popular. Para o MST, a verdadeira Reforma Agrária será feita num outro modelo de sociedade. Só a força popular pode propor verdadeiras mudanças na agricultura. Temos que construir novas formas de luta, ampliar a produção de alimentos saudáveis a toda sociedade, persistir com a solidariedade e com nossas experiências bem sucedidas na área da alfabetização, além de avançarmos na área da comunicação popular. A força e a resistência do povo deverão ser hegemônicas para garantir as conquistas. A Reforma Agrária Popular, portanto, deve ser uma bandeira de toda sociedade. E já estamos no caminho, quando pautamos a Campanha contra os agrotóxicos, ou fortalecemos a luta unitária entre os movimentos do campo e da cidade, como a previdência

justa aos trabalhadores assalariados do campo, a luta pelo reconhecimento dos territórios indígenas e quilombolas, ou a luta contra os leilões do petróleo e a democratização dos meios de comunicação. JST - O lema foi definido: Lutar, construir Reforma Agrária Popular. Agora, quais as principais tarefas do militante do MST? GG - O papel do MST é continuar sendo a referência que sempre foi à classe trabalhadora, mantendo sua autonomia frente a governos e partidos políticos. Nossa tarefa é organizar os trabalhadores do campo e da cidade que ainda queiram lutar pela Reforma Agrária e pelas transformações sociais. Devemos continuar com os processos formativos,

“O setor capitalista, que representa o agronegócio, tem em torno de 450 mil estabelecimentos e controla cerca de 300 milhões de hectares” preparando novos militantes para todas as lutas que a conjuntura demandar. A única forma de alterar a correlação de forças é o povo mobilizado e consciente. Neste momento de reflexão, precisamos identificar nossas lacunas organizativas e as mudanças que serão necessárias para a melhoria da nossa prática, mas nunca perdendo a referência em nossos princípios, valores e estratégia política. A militância do MST está convencida de que precisa continuar fazendo o trabalho de base, fortalecendo os espaços de participação e de tomada de decisão desde a base. Aprendemos que o caminho é um só: organizar o povo e fazer as lutas de massa. Como diz o nosso novo lema, já aprendemos que a Reforma Agrária Popular depende da luta para construí-la. Vamos aproveitar esse tempo que temos antes do Congresso para dialogar com nossa base social sobre os desafios da Reforma Agrária Popular, fazer análises históricas do desenvolvimento capitalista e da correlação de forças na sociedade. Impulsionar esse debate é a tarefa de nossa militância neste momento.

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Estado Adriano Chafik foi condenado após postergar por três vezes o julgamento

Da Redação

Após nove anos do Massacre de Felisburgo, os movimentos sociais finalmente conseguiram uma vitória em relação ao julgamento do réu confesso, Adriano Chafik. O fazendeiro foi condenado no dia 11 de outubro a 115 anos de prisão pelo Massacre de Felisburgo (MG), quando assassinou cinco sem terra e deixou outros 12 feridos em novembro de 2004, no acampamento Terra Prometida. Chafik foi culpado pelo mando e participação no ataque. O juiz Glauco Fernandes, do Tribunal do Júri de Belo Horizonte, começou a leitura da sentença à 1h59 e terminou às 2h24. Apesar da condenação, o fazendeiro deixou o Tribunal do Júri de Belo Horizonte em liberdade. Ao final da sentença, as centenas de integrantes do MST que acompanharam o julgamento no plenário do tribunal aplaudiram a decisão. “Foi condenado, falta prender. Começou a se fazer justiça, mas para completar tem que prender e fazer a Reforma Agrária”, disse Enio

Arquivo MST

Mandante do Massacre de Felisburgo é condenado a 115 anos de prisão

Adriano Chafik aguarda a condenação no Tribunal do Júri de Belo Horizonte

Bohnenberger, dirigente do MST. Também foi condenado a 97 anos e seis meses de prisão o capataz Washington Agostinho da Silva, que há 22 anos

trabalha para Chafik. Ele também ficará livre aguardando o julgamento dos recursos já apresentados pela defesa dos réus. O Massacre de Felisburgo acon-

Acampamento do MST no Paraná inaugura nova estrutura de Escola Itinerante Geani Paula Souza da Rosa Setor de Comunicação do MST

Arquivo MST

Mais de 400 sem terra acampados na antiga fazenda Variant, no município de Poreca-

Cerca de 2 mil pessoas participaram da inauguração

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tu (PR), inauguraram no mês de agosto (31) a nova estrutura da Escola Itinerante Herdeiros da Luta de Porecatu. Desde a ocupação da área, em novembro de 2008, os sem terra lutavam para assegurar o acesso funda-

teceu há nove anos e depois de várias manobras adiando por três vezes o julgamento, o juiz Glauco Soares determinou a condenação dos assassinos.

Entenda o caso

mental à educação, buscando garantir qualidade do ensino e as estruturas necessárias para o funcionamento da Escola Itinerante. “Nesses cinco anos a comunidade construiu um belo espaço de educação, trabalho e produção de alimentos que irá beneficiar o município de Porecatu, que pode crescer com mais alternativa de alimentação saudável”, disse Roberto Baggio, da coordenação do MST. A escola vai atender 80 crianças, adolescentes, jovens e adultos, desde a ciranda infantil, ensino fundamental, e médio. São dez salas de aula, refeitório, secretaria e biblioteca. Para a construção da escola houve investimentos do governo estadual e dos próprios acampados.

Réu confesso, Adriano Chafik teria comandado o ataque de pistoleiros que invadiram o acampamento Terra Prometida, em Felisburgo, no Vale do Jequitinhonha, e atearam fogo em barracos e plantações. As cinco vítimas foram executadas com tiros à queima-roupa e outras 12 pessoas, entre elas uma criança, ficaram feridas. Chafik conseguiu, poucos dias depois da confissão, por meio de habeas corpus, responder ao processo em liberdade. Quase nove anos depois da chacina, cerca de 60 famílias ainda vivem no assentamento e aguardam que parte da área seja desapropriada. Iniciado há 14 anos, o processo agora tramita no STJ.

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Estado A atividade promoveu intercâmbio artístico, cultural, turístico e a valorização das tradições dos povos do mar

Terceira Regata Ambiental do assentamento Maceió reúne seis mil pessoas O Assentamento Maceió, localizado a 150 km de Fortaleza, realizou a Terceira Regata Ambiental de Paquetes, entre os dias 20 e 21 de julho. Com o tema “Pesca Artesanal e Turismo Comunitário: Valorizando a Cultura dos Povos Nativos”, a regata teve como objetivo promover intercâmbio artístico e cultural, valorizar as tradições dos povos do mar e estímular o turismo comunitário no estado do Ceará. A atividade é uma realização da Associação dos Cultivadores de Algas do Assentamento Maceió (ACALMA) e do MST.

Para o pescador artesanal e acampado Francisco Gaspar, a atividade “é a demonstração da existência de um povo que luta e resiste contra a especulação imobiliária, contra a privatização e mostra que é possível realizar um turismo ecológico e sustentável utilizando os meios e conhecimentos dos povos nativos”. O evento contou com a participação de assentados, pescadores, agricultores, estudantes, empresários e comerciantes da região e da capital Fortaleza, além de organizações sociais e representações políticas do município.

Arquivo MST

Por Sheila Rodrigues

O evento contou com 6 mil visitantes e 80 competidores

Assentados produzirão alimentos a 2800 famílias de Nova Santa Rita

Assentados e Comunidades Quilombolas realizam Projeto Cultuarte no Piauí Por Ioneide Nunes e Marilene Nascimento Arquivo MST

Por Iana Reis Setor de Comunicação do MST

Mais de 2800 famílias carentes serão beneficiadas com os alimentos produzidos nas áreas de Reforma Agrária, no município de Nova Santa Rita (RS). A Cooperativa dos Trabalhadores dos Assentados da Região de Porto Alegre (Cootap) assinou o convênio do Programa de Aquisição de Alimento (PAA) com a Paróquia Santa Rita no último dia 29/08. Com isso, o programa do governo federal irá beneficiar a Associação de Moradores do Bairro Berto Círio, Associação dos Moradores do Loteamento Popular, Associação Filhos da Terra e Pastoral da Criança.

Sem terra e Quilombolas. Cultura camponesa e cultura afro entrelaçadas. Foi assim que os assentamentos do MST junto a Comunidades Quilombolas realizaram o Projeto Culturarte, no Assentamento Lisboa, em São João do Piauí (PI), entre os dias 13 e 14 de setembro. Com o tema Cultura Afrocamponesa, o projeto teve como objetivo valorizar a identidade cultural dos assentamentos e das comunidades quilombolas da região norte de São João do Piauí, conhecida como região de “baixo”, formada por várias comunidades que trazem consigo uma forte cultura camponesa e afrodescendente. Muita mística, apresentações teatrais, batuque, recitação de poemas, hip-hop, aboios, concurso de forró, roda de sanfona, de violão. Essas foram apenas algumas das programações da atividade, que contou ainda com modalidades de atletismo, como corrida de 100 metros, maratona e salto a distância. Essa foi a primeira experiência do Cultuarte na região. Para os organizadores, o projeto é itinerante e a ideia é que se repita em outras comunidades.

Arquivo MST

Sem terra apresentam peça de teatro

Os alimentos são produzidos por 92 famílias dos quatros assentamentos de Nova Santa Rita, que colocará nas mesas dessas famílias carentes produtos orgânicos. Esse é o primeiro convênio a oferecer alimentos orgânicos. “Isso demonstra o papel dos assentamentos e da Reforma Agrária, que é produzir alimentos saudáveis, que respeitem a natureza, gerem recursos às famílias e forneçam para os consumidores um alimento de qualidade, livre de agrotóxico”, disse Emerson Giacomelli, presidente da Cootap. Serão adquiridos mais de 325,7 mil quilos de alimentos orgânicos até o final deste ano, resultando num investimento de R$ 439,7 mil por meio do Ministério de Desenvolvimento Social.

Cerimônia celebra acordo que beneficiará mais de 2800 famílias

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Especial A jornada contou com marchas, debates, oficinas, seminários, troca de experiências, apresentações artísticas, feira de produtos da Reforma Agrária e distribuição de sementes crioulas

3500 pessoas participaram da 12° Jornada de Agroecologia no Paraná Poesia feita especialmente para a 12ª Jornada de Agroecologia, pelo poeta Ariulino Alves, o Chocolate, integrante do MST, assentado da Reforma Agrária. Está fazendo um ano De nossa Jornada anterior Consciente de nossos valores De novo viemos nos encontrar Nossos compromissos confirmar Pois quanto mais nós lutarmos Com mais desafios se deparamos Que junto temos que encarar. De Londrina a Maringá Construindo nossa soberania Plantando Agroecologia Princípio de transformação Um projeto pra nação Livre do imperialismo Combate firme ao capitalismo O gigante da repressão. Nosso Brasil é ainda jovem Bonito como a juventude Que modesta mas com atitude Carregando nossa bandeira Por esta terra brasileira Que aos poucos está sendo vencida Por uma elite atrevida Entreguista e traiçoeira. Décima segunda Jornada Também fez forte denúncia Constituição virando bagunça Por nosso próprio Congresso Formado pelos bons e perversos Que abusam de seus poderes Colocando o Brasil pra vender Dizendo em defesa do progresso. O sistema político brasileiro É corrupto e está estragado Olhem o salário dos deputados Comparem com o dos professores Ainda serem eles os defensores Da chamada democracia Além do salário o Auxílio Moradia É uma afronta aos trabalhadores. Esta elite burguesa brasileira

Setor de Comunicação do MST/PR

Os 3500 mil participantes da 12ª Jornada de Agroecologia, oriundos de diferentes regiões do Brasil e da América Latina, se reuniram na Escola Milton Santos (EMS), em Maringá, entre os dias 7 e 10 de agosto. Buscando fortalecer e dar continuidade a luta por Terra Livre de Transgênicos e Sem Agrotóxicos, e pela construção de um Projeto Popular e Soberano para a Agricultura, reafirmaram

o compromisso com a Agroecologia. Marchas, debates sobre o atual modelo de agricultura do agronegócio, dezenas de oficinas, seminários, troca de experiências, apresentações artísticas, feira de produtos da Reforma Agrária, distribuição de sementes crioulas. Tudo isso fez parte da 12° Jornada de Agroecologia, onde os participantes puderam entender e discutir o agronegócio e a construção do projeto popular, além de ampliar o diálogo com a sociedade sobre a base do modelo produtivo no campo brasileiro.

Setor de Comunicação do MST/PR

Riquieli Capitani Setor de Comunicação

Militantes lotam espaço durante plenárias da Jornada

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Julio Carignano

Ciranda Infantil entusiasma crianças durante o encontro no Paraná

Setor de Comunicação e Cultura MST/PR

Paulo Porto

Apresentação cultural Banda Saci Arte

Julio Carignano

Feira de produtos da Reforma Agrária

Seminário da Juventude

Jornal Sem Terra • set-out-Nov 2013

Ariulino Alves Chocolate (MST)

Setor de Comunicação e Cultura MST/PR

Setor de Comunicação do MST/PR

Homenagem aos militantes processados pela Monsanto por ação em 2005 na 2ª Jornada

Setor de Comunicação do MST/PR

Sem terra participam da Marcha de abertura da 12ª Jornada pelas ruas de Maringá

Que juntou-se aos meios de comunicação Apoiando sua corrupção Perceberam seu isolamento Se aproveitou do movimento Mas de rosto encapuzado Mostrando-se mascarado Fingindo com nosso empobrecimento. Nossa Décima Segunda Jornada Chegou ao romper da aurora Pois quem sabe faz a hora Não espera acontecer Sabendo o que tem que fazer Um projeto livre e soberano Enfiar os arcaicos pros canos Onde ninguém mais possa ver. A presidenta está em disputa A burguesia que está ganhando Imprensa burguesa lhe difamando Ela parece que percebeu Somente agora nos recebeu Com proposta pra ajudar E para não nos atrapalhar O plano que ela escolheu. Companheiros e companheiras Desta linda e grande Jornada Participantes de mãos calejadas Que vai ficar por lembrança Somos gente que não cansa Por esta terra sempre lutar E o mundo transformar E a juventude é nossa esperança. Bem felizes estamos de volta Cheio de força pra lutar Novos desafios para enfrentar Mas com vontade de vencer Muitas tarefas pra fazer A sociedade espera por nós Sabendo que não estamos sós Só Deus e a luta faz valer.

Apresentação cultural LPJ MCs e Veneno H2

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Durante o encerramento, sem terra fazem a partilha de sementes

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realidade brasileira

As manifestações de junho destacaram os limites e contradições da nossa democracia representativa

Organizações constroem Plebiscito Popular pela Reforma Política Ronaldo Pagotto Consulta Popular

Apesar de não terem sido dirigidas diretamente para o sistema eleitoral ou ao sistema político em geral, o substrato das diversas pautas apresentadas nas manifestações de junho carregava consigo discussões dessa magnitude. E dentre as temáticas que estavam sendo colocadas em xeque, podemos destacar o que talvez fosse a principal: os limites e contradições da nossa democracia representativa. Embora seja uma conquista e um espaço importante da luta popular, a democracia representativa é utilizada no capitalismo como parte da estrutura de dominação e manutenção da sociedade de classes, já que as regras políticas e econômicas regidas por esse sistema de representação, assim como as condições de luta, são ditadas pelas forças sociais das classes dominantes. No caso da disputa eleitoral, por exemplo, quanto mais dinheiro, maiores são as chances de se sair vitorioso.

O plebiscito terá uma única pergunta: “você é a favor de uma constituinte exclusiva e soberana sobre o sistema político?” Nesse sentido, a pauta da Reforma Política, direta e indiretamente presente nas mobilizações de junho, é estratégica. Nosso sistema político é marcado pela distância entre os eleitos, ditos representantes, e os eleitores, ditos representados. Ademais, os mecanismos para consultas populares são absolutamente restritos pela legislação. A distância entre eleitores e eleitos, e a luta para participar da política, são recados das ruas e são parte da luta por uma reforma política. Precisamos de uma reforma que modifique o papel do povo na política para além dos votos bianuais. As ruas exigem

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mecanismos de consulta pública e democracia direta, combate ao financiamento privado de candidaturas por grandes empresas, assim como o próprio papel dos partidos e os altos valores gastos em eleições milionárias.

Assembleia constituinte

O povo quer mais. Quer mais participação, mais canais para expor sua opinião, efetivos espaços de consultas públicas (plebiscitos, referendos, etc.), mais reformas, mais Estado protetor, melhores serviços públicos, mais saúde, etc. A presidenta Dilma se pronunciou em 21 de junho e lançou a proposta de realização de uma consulta popular sobre a convocação de uma Assembléia Constituinte exclusiva para realizar uma Reforma Política. A proposta foi imediatamente combatida pelos setores da burguesia, do capital financeiro, dos grandes meios de comunicação. Em menos de uma semana a proposta havia se convertido em uma sugestão, não recebida pelo Congresso e tratada como uma proposta de reforma apenas do sistema eleitoral, restrita ao funcionamento das eleições.

A proposta do campo popular

Os movimentos sociais, sindicatos e centrais sindicais, setores da igreja, partidos políticos, movimento estudantil e da juventude, dentre outros debatem e constroem propostas de Reforma Política desde final da década de 90. E nesse momento avançam na construção de um amplo trabalho de massas: a realização de um Plebiscito Popular pela convocação de uma Assembléia Constituinte exclusiva e soberana para a reforma do sistema político brasileiro. Em plenária nos dias 14 e 15 de setembro em São Paulo, as mais de 70 organizações nacionais aprovaram a realização do Plebiscito Popular em setembro de 2014, com uma única pergunta: "Você é a favor de uma constituinte exclusiva e soberana sobre o sistema político?". O principal objetivo desse plebiscito é popularizar o tema nas nossas bases, estimular o trabalho de educação e organização das massas urbanas e do campo em comitês pela Reforma Política e pressionar por mudanças. O plebiscito popular é uma organização independente dos poderes – municipal, estadual e fe-

deral; legislativo, executivo e judiciário. É exercício de democracia popular, nos moldes das grandiosas campanhas unitárias contra a dívida externa brasileira, em 2000, sobre a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), em 2002, e pela nulidade do leilão da Vale, em 2007. O momento é especial para isso. O trabalho popular é uma necessidade cada vez maior, e abordar temas que transcendem os limites dos problemas locais, regionais, dessa ou daquela categoria, desse ou daquele estado são fundamentais. Por isso essa unidade de diversos setores pode construir um amplo trabalho de massas, de conscientização política, de organização popular, de lutas concretas e de mobilização pela Reforma Política. O desafio dessa luta é mobilizar a sociedade para conquistar a convocação de uma Assembleia Constituinte Exclusiva para realizar a Reforma Política, e com isso ampliar a participação popular, combater o poder econômico e a e influência dos grandes grupos midiáticos nos processos eleitorais. É hora de arregaçar as mangas, organizar comitês, fazer o trabalho de base e avançar com as pautas do projeto popular para o Brasil.

Jornal Sem Terra • Set-out-Nov 2013


realidade brasileira

É fundamental a construção da unidade em torno de uma pauta comum

Por Igor Felippe Santos Setor de Comunicação do MST

Depois do estopim das mobilizações da juventude das grandes cidades em junho, o movimento sindical intensificou o processo de articulação e mobilização para colocar em discussão com a sociedade e defender as pautas dos trabalhadores do campo e das cidades. As centrais sindicais, como Central Única dos Trabalhadores (CUT), Força Sindical e Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Intersindical e Conlutas, realizaram duas jornadas de lutas nacionais com uma plataforma comum. Um dos pontos é a Reforma Agrária.

A redução da jornada de 44 para 40 horas semanais teria o potencial de gerar mais de 2,2 milhões de novos postos de trabalho. Nas jornadas, foram realizadas paralisações, greves, marchas e protestos em todo o país. Movimentos sociais e entidades estudantis também se somaram às mobilizações. O MST participou da construção dos atos desde o início, com a avaliação de que a unidade em torno de uma pauta comum é fundamental no processo de lutas e conquistas para os trabalhadores. Abaixo, conheça os principais pontos da plataforma:

Transporte público e de qualidade As mobilizações de junho mostraram que a vida nas grandes metrópoles está insuportável. Horas e horas são perdidas para o deslocamento casatrabalho. Quem precisa de transporte público padece no metrô e ônibus precários, lotados e caros. Quem tem carro perde tempo parado no trânsito. Assim, é preciso reorganizar as cida-

Arquivo MST

Classe trabalhadora defende propostas para alterar a sociedade

Milhares de trabalhadores e trabalhadoras se juntam na Av. Paulista, em São Paulo

des e qualificar o transporte público, melhorando a qualidade e atraindo quem usa transporte individual. Uma reforma urbana também é urgente para resolver o déficit habitacional. Mais de 5,5 milhões de moradias precisam ser construídas para acabar com o problema segundo o Ministério das Cidades.

Contra a legalização da terceirização A terceirização é manobra econômica destinada a reduzir custos de pessoal das empresas pelo rebaixamento de salários e encargos sociais. Esse procedimento representa uma retirada de direitos e amplia o número de acidentes de trabalho. O Projeto de Lei 4.330/2004, que tramita na Câmara dos Deputados, expande essa prática.

Redução da jornada de trabalho sem redução salarial A redução da jornada de trabalho, parada na Câmara dos Deputados, é um dos instrumentos que possibilita aos trabalhadores participarem da distribuição dos ganhos de produtividade gerados pela sociedade. A redução da jornada de 44 para 40 horas semanais teria o potencial de gerar mais de 2,2 milhões de novos postos de trabalho.

10% do PIB para Educação Os movimentos sociais, entidades do movimento educacional e as cen-

Jornal Sem Terra • Set-out-Nov 2013

trais sindicais fazem uma campanha para que o Plano Nacional da Educação (PNE), em discussão na Câmara dos Deputados, garanta a destinação de 10% do PIB a educação. Atualmente, o Brasil aplica cerca de 5% do PIB na área.

Movimentos defendem a desapropriação dos grandes latifúndios improdutivos (muitos em mãos do capital estrangeiro) para assentar milhares de famílias acampadas. 10% do Orçamento da União para a Saúde O projeto de lei de iniciativa popular, elaborado conjuntamente pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Conselho Nacional de Saúde (CNS), Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e outras entidades, lançado em julho, tem como objetivo obrigar a União a investir no mínimo 10% do orçamento na saúde. A proposta altera a Lei Complementar 141 de 2012 para assegurar o

repasse efetivo e integral de 10% do orçamento federal à saúde pública, o que representa um incremento de aproximadamente R$43 bilhões.

Fim do Fator Previdenciário e fortalecimento da Previdência Pública O Fator Previdenciário foi aprovado em 1999, durante a Reforma da Previdência do governo FHC, para reduzir o valor dos benefícios previdenciários. Quanto menor a idade de aposentadoria, maior o redutor e, consequentemente, menor o valor do benefício. Com isso, o valor da aposentadoria paga pela Previdência Social passou a ser calculado com base na média aritmética dos 80% maiores salários de contribuição referentes ao período de julho de 1994 até o mês da aposentadoria. É sobre essa média que incide o “fator previdenciário”.

Reforma Agrária O Brasil precisa de um novo modelo agrícola, baseado na agricultura familiar e camponesa, que fixe as pessoas no meio rural, garanta terra, gere emprego e renda. Para isso, os movimentos defendem a desapropriação dos grandes latifúndios improdutivos (muitos em mãos do capital estrangeiro) para assentar milhares de famílias acampadas. Além de uma nova política de crédito rural, mais acessível aos pequenos agricultores.

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internacional

Mais de 500 pessoas de 70 países do mundo inteiro participaram da 6° Conferência da Via

Tecendo sonhos e esperanças: os 20 anos de lutas e resistência da Via Campesina Itelvina Masioli Setor de Relações Internacionais do MST

• 16 de outubro - Dia mundial de luta pela Soberania Alimentarlutas massivas contra as transnacionais e contra os agrotóxicos; • 3 de dezembro – Dia mundial da luta contra os agrotóxicos. Lançamento da campanha nos países onde ainda não estão organizados; • 3 a 6 de dezembro - Jornada mundial contra a Organização Mundial do Comércio, em Bali;

agudizada pelo sistema econômico capitalista e patriarcal. A 3° Assembleia da Juventude, por sua vez, demarcou a necessidade de avançar na organização, na formação política e na construção de alianças com a juventude urbana, reafirmando a importância da participação política da juventude no fortalecimento da Via Campesina e na luta pela transformação social. Paralelamente, aconteceu a Feira de Agroecologia e intercâmbio de sementes camponesas, tendo em vista a agroecologia enquanto nossa opção de presente e futuro, junto à defesa do território e das sementes camponeses,

intensificando a luta contra as transnacionais e os transgênicos. Essas conferências são um espaço importante de construção política, de fortalecimento da mística da luta, da solidariedade, do internacionalismo, de confraternização e da construção do plano de ação coletivo que se realizam a cada quatro anos. A atividade fez um chamado urgente à unidade a nível internacional entre as organizações do campo e da cidade, e participar ativa, propositiva e decididamente na construção de uma nova sociedade, baseada nos princípios da soberania alimentar, da justiça e igualdade entre os seres humanos.

Tarefas e desafios

O atual período histórico nos coloca um conjunto de tarefas e desafios para posicionar a agricultura camponesa frente ao agronegócio, que se sustenta no arrendamento das terras e na expulsão dos(as) camponeses(as) de seus territórios. Diante disso, preocupa-nos a enorme força do novo colonialismo agrário, a mercantilização da vida, mediante a apropriação dos bens da natureza, como terra, água, sementes e a biodiversidade.

Arquivo MST

Mais de 500 camponeses e camponesas de 70 países de todos os continentes participaram da 6° Conferência Internacional Egídio Brunetto, realizada em Jacarta, na Indonésia, entre os dias 6 a 13 de junho. Foi um momento intenso de celebração dos 20 anos de luta e resistência na construção da Via Campesina Internacional. O lema Pela Terra e pela Soberania de nossos Povos, com Solidariedade e Luta reafirma que, mais do que nunca, é necessário lutar para que um outro mundo seja construído. A destruição do planeta causada pela sobrexploração e apropriação dos bens da natureza está na origem das múltiplas crises do sistema capitalista, colocando em risco os seres humanos e a vida do planeta. A conferência foi marcada por três importantes atividades: a 4° Assembleia Internacional das Mulheres focou na emancipação de nossos povos, unidas pelo imperativo ético e político de defender nosso direito à alimentação, à agricultura camponesa, à defesa da biodiversidade, dos bens da natureza e a luta permanente para por fim a todo tipo de violência

Agenda de lutas

O lema da 6° Conferência foi: “Pela terra e pela Soberania de nossos povos, com Solidariedade e Luta”

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Nestes 20 anos, a Via Campesina luta pela construção de novos valores, tendo como base a solidariedade, a cooperação e a complementaridade. Seguiremos visibilizando todas as lutas locais ao redor do mundo, estabelecendo alianças de solidariedade e internacionalismo com camponeses de todo o mundo, tecendo um grande movimento global pela soberania alimentar, mudanças sociais e a autodeterminação dos povos, o que só será possível com muita organização e luta.

As Conferências se realizam a cada quatro anos e são espaços de construção política, fortalecimento da luta, solidariedade, internacionalismo e da construção do plano de ação coletivo Somos nós que alimentamos o mundo e esfriamos o planeta. Nossa fortaleza é criar e manter a unidade e a diversidade, fortalecer e ampliar alianças de classe com os setores populares urbanos, intelectuais comprometidos, a juventude, as mulheres e a classe trabalhadora em geral. As alianças campo e cidade são pilares fundamentais para avançarmos nesse momento histórico da luta de classes. Com a força e a determinação das lutas de nossos povos, a Via Campesina faz um chamado a algumas ações, como a luta pela Reforma Agrária Integral e pela Soberania Alimentar, a intensificação da formação política, da educação e da comunicação como ferramentas fundamentais da luta e a luta massiva e permanente contra nossos inimigos em comum: as grandes corporações transnacionais. Nesse sentido, foi tirada como linha de ação para o próximo período a concentração de forças sobre três grandes jornadas internacionais (veja box).

Jornal Sem Terra • Set-out-Nov 2013


lutadores do povo

Cabe-nos, agora, manter seu legado vivo nos nossos sonhos e atitudes

Adelar Pizetta Setor de Formação do MST

Dada a condição de operários de seus pais, desde muito cedo Reinaldo Antônio Carcanholo adquiriu consciência sobre a realidade dos trabalhadores, o que lhe causava indignação e provocava o espírito de rebeldia. Professor do Departamento de Economia e do Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade Federal do Espírito Santo, Carcanholo nasceu em Sorocaba, interior de São Paulo, no dia 29 de agosto de 1945. Faleceu em 30 de maio de 2013, em Vitória, no Espírito Santo. Inteligente e dedicado aos estudos, no final dos anos 60 ingressou no curso de Economia na Universidade de São Paulo. Na militância estudantil, se vinculou aos grupos que lutavam contra a ditadura militar, inclusive os que defendiam a resistência armada, mas não chegou a entrar para nenhum destes. O engajamento político lhe rendeu a repressão, que passou a persegui-lo e o obrigou a ter uma atuação clandestina. Não havendo mais condições para permanecer no Brasil, foge para o Chile.

Foi um combatente dentro e fora da universidade para defender a importância da teoria crítica como arma e ferramenta de luta para os movimentos sociais Lá, conclui o Curso em Economia. Envolve-se nos processos sociais e revolucionários da Unidade Popular, liderada pelo presidente Allende. Em 1972 ingressa no Curso de Mestrado em Economia. Com o golpe militar de 1973 no Chile, busca asilo na Costa Rica, quando em 1978 ingressa no Doutorado em Economia na Universidade Autônoma do México (UNAM), sob orientação de Ruy Mauro Marini.

Arquivo MST

Reinaldo Carcanholo: um militante da emancipação humana

Foram cerca de 20 livros, dentre eles “Capital: essência e aparência”, da Expressão Popular

É necessário destacar sua atuação e solidariedade aos processos de libertação nacional que estavam em marcha na Nicarágua e em El Salvador. Com ousadia e coragem contribuiu sobremaneira com a Revolução Sandinista, participando de reuniões com os dirigentes da Frente Sandinista e Libertação Nacional (FSLN) e participando de processos de formação e educação popular.

De volta ao Brasil

Retorna ao Brasil em 1982, após quase quinze anos de exílio e militância internacionalista. Passa a atuar na Universidade Federal da Paraíba, buscando construir novas trincheiras de luta revolucionária, estruturando um Curso de Pós-Graduação em Economia de vertente marxista, tornando-se referência nacional e formando uma série de intelectuais e professores de distintas universidades brasileiras. Participa da criação da Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Economia, da Sociedade Brasileira de Economia Política e da Sociedade Latinoamericana de Economia Política e Pensamento Crítico (SEPLA), em 2005. Todos esses processos, de intensa militância acadêmica e produção intelectual, buscavam promover e incentivar o trabalho acadêmico radicalmente crítico em economia. A partir de 1991 se vincula à Universidade Federal do Espírito Santo

Jornal Sem Terra • Set-out-Nov 2013

(UFES). Passa a contribuir de forma militante com os movimentos sociais e sindicais da região, em particular com o MST-ES, e logo em seguida ao MST Nacional e, nos últimos anos, como um importante professor da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF). Foi por intermédio de sua ousadia e por compreender a importância da formação em alto nível para os dirigentes e formadores dos movimentos que, em 2005, juntamente com o MST/ENFF cria o Curso de Especialização em Economia Política no Departamento de Economia da UFES, sendo o primeiro coordenador do curso, que se encontra na sua terceira edição.

movimentos sociais, em especial com o MST, mais um dos seus filhos – este por adoção – tão queridos”. Lega-nos o exemplo da solidariedade, do amigo que sempre foi em todas as horas. Sua simplicidade contagia e convoca a todos/as para seguir na mesma trilha do estudo e da luta. Foi um combatente nas trincheiras dentro e fora da universidade para defender a importância da teoria crítica como arma e ferramenta de luta para os movimentos sociais. Lega-nos uma obra em seus trabalhos escritos, em suas palestras e intervenções teóricas. Mas, acima de tudo, lega-nos seu próprio exemplo de vida. Demonstrou o amor à vida, deu sentido a ela até o último momento. Diante da gravidade da situação de saúde que o abateu, encarou a própria morte em pé! Cabe-nos agora, manter esse legado vivo por intermédio de nossos estudos, dos cursos de formação escolar ou não, das lutas e organização

Legados

Ademais de inúmeros trabalhos escritos e apresentados em eventos acadêmicos, de publicações em periódicos e revistas científicas, o Professor deixa cerca de vinte livros escritos, dentre eles o “Capital: essência e aparência Vol 1 e 2”, publicados pela Editora Expressão Popular. Como bem disse seu filho Marcelo, “meu pai dizia que se tem algo que caracteriza a essência humana é a rebeldia [...]. Em toda sua vida, acadêmica, política, militante, Reinaldo Carcanholo sempre teve o mesmo comportamento. Não importava se ele estava dando aula em um curso mais acadêmico-formal, ou em um trabalho militante com os

popular, nos sonhos e atitudes de rebeldia e esperança na construção de uma nova racionalidade humana, socialista, que supere as relações regidas pela ordem do capital. A ele o MST rende uma homenagem, e um tributo de continuidade na luta, com o nosso reconhecimento e compromisso com a causa que Reinaldo abraçou durante toda a sua vida, sem nenhum tipo de vacilação: a emancipação humana. Viva o Professor, o Militante, o Companheiro, o Revolucionário, o Socialista Reinaldo Carcanholo.

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literatura

Escritora será sempre lembrada por suas histórias de humor, inteligência, ética, carinho e respeito Arquivo MST

Cecília Luedemann Expressão Popular

Quando era apresentada ao público, Tatiana Belinky sempre negava: “Eu não sou escritora. Eu também escrevo, como tantas outras coisas.” Uma pessoa não pode ser definida por uma profissão. Mas, entre tantas outras coisas, Tatiana também traduzia livros, escrevia peças de teatro e poesias. Mas, antes de tudo, Tatiana era uma leitora. Amava os livros, de todos os recantos do mundo, romances, contos, poemas. Amava o sentimento desperto pela imaginação e pelas palavras dos autores. De mãos dadas com os pais, menina ainda de 10 anos, deixou tudo em Petrogrado, cidade russa, e aventurou-se a viver com a família no Brasil. Na verdade, não deixou tudo. Trouxe sua língua, sua cultura e... livros. Muitos livros. A neve branquinha caía das páginas de Tchekov e o cheiro do chá preto bem quente podia ser sentido entre as capas do livro de Górki.

Rapidamente dominou a nossa língua, mas sempre lutou com o sotaque, com os sons fechados e abertos, motivo de gozação entre os colegas da escola. Orgulhosa, nunca mais abandonou o sotaque. E, mais tarde, como tradutora, mostrou o quanto era importante manter o sotaque da obra estrangeira. Sentiu-se estrangeira até ler o Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato. E foi exatamente quando conheceu a boneca Emília, consciência livre da infância, que Tatiana tornou-se inteiramente brasileira. Era isso, uma menina livre, inteligente, crítica e bem humorada. Não demorou, cresceu e adaptou os livros de Monteiro Lobato para o teatro e a televisão. Como Leon Tolstói, escritor russo que criou uma escola com livros de todos os tipos para os filhos dos camponeses (quando a ordem era apenas a leitura obrigatória da Bíblia), e como Monteiro Lobato, que criou uma editora para publicar livros engraçados

A operação do tio Onofre Talita tinha a mania de dar nomes de gente aos objetos da casa, e tinham de ser nomes que rimassem. Assim, por exemplo, a mesa, para Talita, era Dona Teresa, a poltrona era Vó Gordona, o armário era o Doutor Mário. A escada era Dona Ada, a escrivaninha era Tia Sinhazinha, a lavadora era Prima Dora, e assim por diante. Os pais de Talita achavam graça e topavam a brincadeira. Então, podiamse ouvir conversas tipo como esta: — Filhinha, quer trazer o jornal que está em cima da Tia Sinhazinha! — É pra já, papai. Espere sentado na Vó Gordona, que eu vou num pé e volto noutro. Ou então: — Que amolação, Prima Dora está entupida, não lava nada! Precisa chamar o mecânico. — Ainda bem que tem roupa limpa dentro do Doutor Mário, né mamãe? E todos riam.

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Aos 94 anos, Tatiana deu um longo suspiro e partiu à terra dos livros

e inteligentes para as crianças, Tatiana traduziu centenas de livros que considerou de grande importância às crianças brasileiras. Amou e traduziu os Poemas Pedagógicos, do ucraniano Anton Makarenko, novela que relata a reeducação das crianças marginalizadas na escola comuna depois da revolução socialista. Sempre amiga das crianças, escreveu

sobre a ética da vida, contra a violência à infância e pelo direito à proteção. Em 15 de junho de 2013, Tatiana deu um longo suspiro aos 94 anos e partiu para sempre para a terra dos livros. Será sempre lembrada por suas histórias de humor, inteligência, ética, carinho e respeito às crianças. E, agora, um convite à viagem para literatura de Tatiana Belinky.

Ser criança

O que é bom

Ser criança é dureza – Todo mundo manda em mim – Se pergunto o motivo, Me respondem “porque sim”.

“Ler (na escola ou no lar) É melhor do que estudar.” Homenagem a Ziraldo

Isto é falta de respeito, “Porque sim” não é resposta, Atitude autoritária Coisa de que ninguém gosta! Adulto deve explicar Pra criança compreender Esses “podes” e “não podes”, Pra aceitar sem se ofender! Criança exige carinho, E, sim! Consideração! Criança é gente, pessoa, Não bicho de estimação!

Estudar pode ser chato – Aprender é um barato! E por isso que é bom ler Distrair-se e aprender. A leitura é uma alegria – Livro é supercompanhia. Triste, alegre ou esquisito. Mesmo feioso é bonito Ser leitor é uma esperteza Livro sempre traz riqueza. Riso, medo, emoção – Ler faz bem ao coração! E também é bom à beça Para a alma e a cabeça.

Jornal Sem Terra • Set-out-Nov 2013


Para não esquecer Outubro 12 Jornada dos Sem Terrinha

A Soberania Alimentar é a proposta da Via Campesina para garantir alimentos de qualidade e saudáveis a todas as pessoas do mundo. Cerca de 1 bilhão de pessoas passam fome. Ao longo do mês de outubro a Via Campesina realiza diversas ações para pautar essa questão.

16 Dia Mundial da Alimentação/ Dia Internacional de Luta pela Soberania Alimentar 16 Criada a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), 1952 18 Realizada a 1ª convenção nacional de defesa do petróleo, com a Campanha do Petróleo é Nosso, 1952

50 anos depois, movimentos sociais e centrais sindicais lutam pela suspensão do leilão de petróleo do campo de Libra, marcado para dia 21/10, que entregaria as reservas do présal às transnacionais. Elas defendem que a Petrobrás explore integralmente o que seria o maior campo de petróleo do mundo.

Arquivo MST

21 Assassinato de Valmir Motta, o Keno, líder Sem Terra no Paraná, 2007

Arquivo MST

A Jornada dos Sem Terrinha é nosso momento especial para mostrar como as crianças são capazes de pensar, refletir, planejar, lutar, estudar, brincar, denunciando o capitalismo como sistema que degrada o ser humano, e anunciando o projeto popular.

Escolas Itinerantes completam 10 anos de luta no Paraná Lá se vão quase 10 anos desde a primeira Escola Itinerante do estado do Paraná, inaugurada em 30/10 de 2003, em Quedas do Iguaçu. Batizada de Escola Chico Mendes, no acampamento José Abílio dos Santos, a escola foi construída coletivamente pelas próprias famílias do MST. O objetivo é garantir aos acampados, crianças, jovens e adultos o acesso de qualidade a educação, formando um sujeito Sem Terra consciente, crítico e capaz de propor novas alternativas ao atual modelo de sociedade.

Para Alessandro Mariano, do setor de educação do MST no Paraná, a Escola Itinerante é fundamental para a vida dos acampados, pois garante o direito à educação. “O povo Sem Terra precisa ter acesso à escola estando no acampamento, em condição de luta. É preciso pensar a escola no sentido da formação humana, desde o cultural, político, social e econômico; e é necessário que fique claro que ela é uma escola do MST e pública, portanto, exige políticas públicas que garantam o seu funcionamento.”

O assassinato de Keno ganhou notoriedade internacional e dezenas de países protestaram contra a multinacional Syngenta. A pressão da sociedade, somada às duas ocupações anteriores da área, levaram à desapropriação do Centro Experimental, rebatizado de Centro de Ensino e Pesquisa em Agroecologia Valmir Motta de Oliveira “Keno”.

Gustavo Marinho

Feiras da Reforma Agrária levam alimentos saudáveis à cidade As Feiras da Reforma Agrária de Maceió (AL), Rio de Janeiro e Euclides da Cunha (SP) puderam levar o alimento saudável produzido nos assentamentos diretamente para o consumidor, durante o mês de setembro. Para o MST, esse é um momento de celebração e de valorização das conquistas do povo Sem Terra e da Reforma Agrária, por ser uma oportunidade de criar um espaço onde os assentados possam expor seus produtos agroecológicos, e poder dialogar com o público da cidade ao mostrar que é possível produzir alimentos sadios sem agrotóxicos.

Novembro 04 Assassinato de Carlos Marighella, militante comunista e na época líder da ALN, 1969 20 Massacre de Felisburgo, Minas Gerais, 2004 21 Faleceu, aos 27 anos, Salete Stronzake, educadora e dirigente do MST, 1997

Jornal Sem Terra • Set-out-Nov 2013

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“A sociedade capitalista se apresenta como sociedade do espetáculo. Importa mais que tudo a imagem, a aparência, a exibição. A ostentação do consumo vale mais que o próprio consumo. A aparência se impõe por cima da existência, parecer é mais importante do que ser” Jacob Gorender

20 de janeiro de 1923 - 11 de junho de 2013

Alameda Barão de Limeira, 1232 Campos Elíseos CEP 01202-002 - São Paulo/SP

Assinatura anual: R$ 30,00

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Jst 322  

Lutar, Construir Reforma Agrária Popular! Rumo Ao 6º Congresso Nacional do MST: os desafios do movimento para os próximos anos, e a propost...

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