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Locarno: Camaradas e cavalheiros portugueses na cidade dos leopardos dn.pt/cultura/interior/locarno-camaradas-e-cavalheiros-portugueses-na-cidades-dos-lepardos11200095.html 11 de agosto de 2019

"Prazer, Camaradas", filme de José Filipe Costa © Direitos reservados Num ano de transição, o Festival de Locarno teve um arranque de contrastes. É como se a equipa de programadores da nova diretora Lili Hinstin, estivesse ainda numa encruzilhada de experiências. Isso ou nos primeiros dias está-se perante o efeito de espera de Vitalina Varela, o novo de Pedro Costa, o mais aguardado filme da competição e grande pretendente ao Leopardo de Ouro. A verdade é que os filmes a lutar pelo palmarés máximo estão a desiludir, enquanto que as estreias mundiais na secção Piazza Grande (supostamente obras com um apelo mais generalista...), pelo contrário, surpreendem. A exceção maior parece ser Technoboss, de João Nicolau, o primeiro filme português em competição. Uma comédia delirante que retoma o tema comum do realizador: a possibilidade do amor, neste caso através de um estudo de personagem de um simpático diretor comercial de uma empresa de instalação de equipamentos tecnológicos de segurança. Subscreva as newsletters Diário de Notícias e receba as informações em primeira mão. 1/3


Technoboss tem a delicada virtude de não se parecer com nada, a não ser com a insolência do próprio estilo pardacento de Nicolau. Profundo na sua leveza, vive igualmente das canções que este sexagenário canta. E canta como sonha ou como pensa. As letras das melodias falam do seu estado de alma e dos seus sonhos. São cantos de cisne literais. Cantos que encantam e que embalam por uma teimosia que está do lado dos românticos e dos teimosos. Nicolau fez um filme livre, com falhas, mas sempre único num tom que é só dele e que já atravessava o anterior, John From , mesmo que metade da sua graça esteja no encanto carismático do seu protagonista, o improvável Miguel Lobo Antunes, o homem que dirigia a Culturgest. Uma ideia de gentleman português com uma voz doce que encanta e que é cinema. Uma estreia do arco-da-velha! Fora de competição, outro filme português feliz, Prazer, Camaradas, de José Filipe Costa, onde vemos portugueses e estrangeiros a contar as suas experiências de voluntariado logo a seguir ao 25 de Abril em cooperativas no Ribatejo.

https://youtu.be/RboUGUnsEMM Filipe Costa fez um documentário "ficcionado" de investigação mas sempre carregado de jogo lúdico - os intervenientes interpretam-se a si próprios quando chegaram às cooperativas e às quintas e escolas em 1974/75. Cinema do real cheio de vida e sem medo de pegar pelos cornos temas como o machismo português, a herança do analfabetismo e um certo falhanço de toda esta experiência revolucionária. Os "camaradas" de Aveiras de Cima são sobretudo bem divertidos.

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De Itália, na competição, na sexta-feira passada chegou Maternal, de Maura Delpero , drama realista rodado em Buenos Aires e todo ele situado no interior de um convento que acolhe mães solteiras. A história anda à volta de uma noviça chegada de Itália que sente um forte apelo maternal após ficar a cuidar de uma menina negligenciada pela sua mãe. Exemplo infeliz de um cinema naturalista com cauções de reflexão social, filmado sem mágoa nem garra. Depreende-se que apenas foi selecionado para ajudar na quota da igualdade de género. De pulsão feminina um filme tem muito pouco. A outra desilusão inicial vem de França e assume discurso feminista: Douze Mille, da atriz Nadège Trebal , filme de vinhetas de géneros (vai do drama social ao musical pósmoderno) que conta o percurso de um casal com dificuldades financeiras na França de hoje. À exceção da intensidade de Arieh Worrthalter (ator que já tinha deslumbrado no belga Girl, de Lukas Dohnt), predomina uma insipidez estilística e uma mensagem de afirmação feminina com um moralismo discutível. Mas é precisamente na Piazza Grande, secção que se orgulha de apresentar todas as noites na Cidade Velha a maior projeção ao ar livre na Europa, que Locarno tem visto o melhor cinema. E aí chamada de atenção para o brilhante thriller alemão 7500, de Patrick Vollrath , com Joseph Gordon Levitt, todo passado no interior de um cockpit de um avião comercial ameaçado por terroristas islâmicos. Uma experiência sensorial de medo e veracidade que é também um exame à claustrofobia do espetador. Suspense puro e clássico pelo olhar de um cineasta que deverá ter agora passaporte para voos em Hollywood. 7500 ensina-nos que o medo vem das perceções culturais e dos nossos preconceitos, mas é ainda uma lição de como num espaço fechado a mise-en-scéne pode ser um jogo criativo de composição de ângulos. Curiosamente, a Amazon, que tem através da FIlmnation os direitos internacionais do filme, proibiu Gordon Levitt de falar com a imprensa não suíça ou alemã. Referência ainda para o filme de abertura do festival, Magari, de Ginevra Elkann, conto de famílias trocadas numa Itália invernal. Aqui sim, sentiu-se uma força feminina genuína.

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Profile for O Som e a Fúria

Locarno: Camaradas e cavalheiros portugueses na cidade dos leopardos [PT]  

© Diário de Notícias_Rui Pedro Tendinha

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