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LARISSA GODOY

Acadêmicos de Jornalismo vão a campo e traçam um raio-X da feira em Alvinópolis Página 7

Reportagem mostra o olhar por traz da rotina de um feirante, no jornal e na Internet. Veja na página 7

O melhor pastel de São Paulo está na feira: conheça o segredo do sucesso nesta edição

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NOVEMBRO 2013 • Matéria Prima JESSICA TAVARES

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Matéria-Prima

L ESPECIA VRE FEIRA LI

Jornal-laboratório do Curso de Jornalismo da FAAT Faculdades • Atibaia • Novembro 2013 • nº 18

FOTOS: FABIO GALUPPI

É DIA DE FEIRA Alunos do quarto semestre do curso de Jornalismo da FAAT vão a campo desvendar uma das profissões mais antigas do mundo. Espalhadas por diversas ruas da cidade de Atibaia, as feiras-livres oferecem de tudo um pouco e, durante duas semanas, acompanhamos a rotina dos feirantes. Das tradicionais frutas, legumes e verduras, até roupas, flores e pastéis são oferecidos por pessoas de simpatia e generosidade à toda prova. As curiosidades desse elo que liga o homem ao campo estão neste especial. Além das páginas a seguir, disponibilizamos ainda um vasto conteúdo na internet. Leia, desfrute e compartilhe com os amigos.


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EDITORIAL

Um histórico da feira-livre

Os segredos de uma feira Evelyn Teixeira Quantas pessoas, quantas vidas, quantas chegadas e partidas podem haver em meio à agitação de uma feira? O que pode ser descoberto em meio ao barulho que quase silencia o desejo de compartilhar histórias de vida, experiências e conhecimento? Num primeiro olhar a feira-livre parece apenas um monte de barracas com diversos tipos de produtos, cercadas por um amontoado de pessoas. É impossível imaginar um significado maior para tudo isso sem observar de maneira mais profunda e sensível o que existe de fato em uma feira. Eu, particu-

larmente, nunca tinha pensado que iria conhecer, ali, tantas histórias capazes de me emocionar. Trabalhando com esta edição especial do Matéria Prima, descobrimos que uma feira é muito mais do que meras barracas e seus consumidores – cada indivíduo ali tem algo para compartilhar – algo que enriquece de uma maneira única quem se dispõe a ouvir. E você, leitor, poderá conhecer nesta edição algumas dessas histórias – histórias de pessoas batalhadoras, que em meio à correria e trabalho pesado de uma feira, encontram sempre um sorriso, uma boa conversa e uma forma de tornar melhor o dia das pes-

José Pinheiro

soas que por ali passam. Esta edição é especial por vários motivos: não apenas pelas histórias que contém, por ser o primeiro trabalho de campo dos alunos do segundo ano de Jornalismo, ou mesmo por abordar um único assunto. É especial, principalmente, pela possibilidade de propagar o que aprendemos acompanhando de perto essas pessoas que fazem parte da feira: que não há nada mais bonito do que conhecer novas histórias e lições de vida. Que a troca de experiências ainda é uma das coisas mais enriquecedoras que existem. E que ainda é possível, sim, ter fé no ser humano. Boa Leitura!

A feira livre é um evento em local público, com dias e horas marcadas, aonde pessoas vendem e mostram seus produtos a outras pessoas que procuram mercadorias (frutas, legumes, verduras, lanches, roupas, etc.) com um valor mais baixo. As feiras livres no mundo tiveram inicio no Oriente Médio, à aproximadamente 500 a. C. nomeadas de Fenicía de Tiro. A palavra feira vem do latim feria, que significa “dia santo ou feriado”, assim mostra a etimologia que mantinha junto a religião. Na Idade Média, a partir do fim do século XI, a crise do feudalismo afirma o surgimento das feiras medievais, marcando o ressurgimento do comércio na Europa, a partir desse contexto histórico os europeus puderam vivenciar um maior contato com o Oriente Médio, lugar aonde vinha as mercadorias raras, como: cravo, canela, pimenta, seda, perfumes, porcelana). Durante a realização das feiras interrompiam-se guerras, a paz era garantida para que os vendedores pudessem expor seus produtos. A guarda mantinha vigilância no perímetro da feira para proteger os que a participavam.

Uma viagem por gerações Marcelo Rachid Os restos de uns são a fartura de outros. Com essa ideia os historiadores presumem que as feiras surgiram no mundo por volta de 500 a.C., no Médio Oriente, onde a primeira feira livre surgiu relacionada a festividades religiosas. Inicialmente as feiras se resumiam em mercadores de lugares distantes, trazendo produtos exclusivos para troca. As feiras perderam forças, até ressurgirem com potencia máxima na idade média, fazendo com que o comercio na Europa ressurgisse. Graças as Cruzadas, expandiram

seu contato com o Oriente, de onde chegavam mercadorias exóticas tais como: cravo, canela, pimenta, seda, perfumes e porcelanas. E assim surgiu o Renascimento Comercial. Durante a realização das feiras medievais havia uma trégua nas guerras: a paz era garantida para que os vendedores, dispostos lado a lado, pudessem trabalhar com segurança, guardas vigiavam toda a feira para não ter nenhum imprevisto. Com o renascimento do comércio a moeda se tornou essencial, tendo desaparecido quase que totalmente nos séculos anteriores. As feiras atraíam pessoas de vários lugares e havia

uma grande variedade de moedas em circulação, o que desenvolveu os bancos e o câmbio. Já no Brasil, as feiras livres confundem-se com a nossa própria história, as feiras multiplicaram-se, tendo um papel importante não só no abastecimento das primeiras aglomerações humanas, mas também como elemento fundamental estruturador da própria organização social e econômica das populações. Mesmo nos dias atuais, em plena sociedade da informação e da economia globalizada, as feiras resistem como um traço sociocultural que identifica regiões e realidades muito distantes. 

Com sua evolução a feira passou a ser mensal ou até mesmo semanal, em variados lugares da Europa. A feira mais antiga registrada em relatos oficiais era portuguesa, conhecida como Ponte de Lima, no ano de 1125, seguida pelas feiras de Melgaço e de Constantim de Panóias. No Brasil, a chegada da feira não tem data certa, mas ela se constituiu junto com a descoberta do país, pois ela veio de Portugal e se fixou aqui para vender alimentos as pessoas que trabalhavam na exploração das florestas. A feira desde seu inicio a 500 a.C. até os dias atuais manteve seu objetivo, que era manter um segundo mercado de venda de mercadorias por um preço mais baixo e destinado a todas as classes econômicas.

Fotografia time-lapse é um processo cinematográfico em que a frequência de cada quadro por segundo de filme é muito menor do que aquela em que o filme será reproduzido. Quando visto a uma velocidade normal, o tempo parece correr mais depressa e assim parece saltar. A fotografia time-lapse pode ser considerada a técnica oposta à fotografia de alta-velocidade. Alterações que normalmente surgem como sutis aos nossos olhos, como o movimento do Sol e das estrelas no céu, tornam-se evidentes. Veja a montagem da feira em time-lapse feita por Guto “Piercing” Felipe: http://youtu.be/jyImbwGUKTM

Veja também: http://www.youtube.com/watch?v=yI7sDt10_kA

Matéria-Prima especial Feira-livre Ano 6, nº 18 – Novembro de 2013

Jornal-laboratório do Curso de Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, da FAAT – Faculdades, produzido pelos alunos do 4º Semestre do curso de Jornalismo. Os textos publicados são de responsabilidade dos autores, que os assinam, não refletindo a opinião da Instituição. FACULDADES ATIBAIA – FAAT: Diretores da Mantenedora: Profa. Marilisa Pinheiro de Souza; Prof. Hercules Brasil Vernalha; Prof. João Carlos da Silva; Prof. Júlio César Ribeiro. Corpo Administrativo: Prof. Saulo Brasil Vernalha (Diretor de Normatização Institucional); Profa. Maria Gorette Lourenço (Diretora Administrativo-Financeira); Prof. Gilvan Elias Pereira (Diretor Acadêmico). D ­ iretor de Comunicação: Professor Angel de Souza; Coordenador de Captação de Alunos e Pesquisa e Extensão: Orivaldo Leme Biagi; Coordenadora Geral da Pós-Graduação: Hilda Maria Cordeiro Barroso Braga.

Professores-orientadores: Moriti Neto, Osni Dias (MTb 21.511) e William Araújo (MTb 20.015). Editores: Fernanda Domingues (Texto), Paloma Rocha Barra (Imagem) e Paulo Toledo (Arte final e Computação Gráfica) CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL: Coordenador do Curso de Jornalismo: Prof. Ms. Osni Tadeu Dias


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Feira em Alvinópolis reúne pessoas encantadoras e uma Maria especial Nos primeiros momentos de conversa, repórter nota algo diferente: o sotaque estrangeiro FOTOS: FABIO GALUPPI

Livia Magrini Quando cheguei à feira, o sol estava muito quente, mas ainda assim, animador. O ambiente e toda aquela movimentação me foram agradáveis desde o primeiro momento. As vozes suaves de fundo davam uma sensação de quase silêncio. Os acenos de bom dia e as trocas de olhares eram calorosos, capazes de transformar o dia de qualquer um ali presente. A princípio, minha missão era abordar um casal, desses que esbanjam companheirismo até na hora de comprar frutas e verduras e de escolher o melhor preço entre as barracas. Mas não era pra acontecer – eu tinha mesmo que encontrar aquela mulher. Quando a vi, ainda distante, senti medo por não ter a mínima ideia de como abordá-la e dizer um simples “oi, tudo bem?”. Ainda não podia imaginar que nossa conversa fluiria de uma forma tão especial. Seu nome é Maria Rosa de Jesus, uma senhora de 84 anos, postura cansada e um sorriso encantador. Dona Maria é feirante há 35 anos, sendo 20 deles na cidade de São Paulo, e os outros

ENCANTADORA: Maria, exemplo de superação e coragem na feira que acontece aos sábados pela manhã

15 na principal feira livre de Atibaia, localizada em frente à igreja Cristo Rei. Logo nos primeiros momentos de conversa, notei algo diferente em sua fala: o sotaque. Dona Maria veio de Portugal, com o marido e o filho. Enquanto me contava essa parte de sua história, houve uma pausa. Sua voz ficou mais baixa, quase não dava para ouvi-la. Me estiquei entre o es-

bonitas que já encontrou. Fiquei sem palavras e segurei forte em sua mão, para tentar expressar minha gratidão. Perguntei se ela poderia sorrir para que uma foto fosse tirada. Ela pegou um chumaço de alface da própria barraca e sorriu. Para mim, aquele sorriso foi tudo. Talvez, daqui alguns dias, ela nem se lembre mais de mim, ou talvez até já tenha me esquecido. Mas eu sempre me lembrarei dela. Daquela Maria com uma força que encantou meu coração e me ensinou que algumas entrevistas possuem uma magia forte demais, capaz de engrandecer qualquer jornalista. Graças a ela, hoje eu compreendo quão humana é a minha futura profissão.

paço que nos separava da barraca e pude entender o que dizia: Dona Maria perdeu o marido pouco tempo depois de chegar ao Brasil. Aquela mulher que deixou o seu país junto da família, criou sozinha o filho em uma terra desconhecida, estava ali, naquele dia ensolarado, contando sua história para mim e dizendo com tamanha alegria que as feiras do Brasil são as mais

Sorridente, Dona Maria participa da feira livre de Atibaia há 15 anos

Um baú de histórias pra contar Marina Bastos Além do trabalho sacrificante, a feira revelou-se ser um baú de histórias, todos tem uma para contar, além do trabalho e dos horários malucos consegui perceber todo momento a ânsia por se fazer ouvir, a timidez foi óbvia, mas só num primeiro momento. Esperei ouvir alguma indignação a respeito de política, da infraestrutura da feira, mas pelo contrário, ouvi histórias de pessoas, de famílias, e como a feira poderia ser um ganha pão, um hobby e uma esperança. A historia que mais me

Centenas de pessoas circulam pela feira, de todos os credos e idades

emocionou foi a da Sra. Helica. A principio ela não queria falar, não queria estar perto de nós, estava com medo porque havia denuncias a seu respei-

to, mas depois desabafou. Esta senhora vai à feira antes de todos, e ajuda os feirantes a descarregar seu caminhão, para então conseguir comprar fiado

umas caixas de frutas e legumes para vender em sua própria casa. Ela mora próximo a um condomínio e nos fundos da sua casa distribui tudo o que pega nas feiras. O mais impressionante não é a forma clandestina com qual ela trabalha, mas sim sua história de vida pra chegar até aí. Helica sempre foi envolvida com a feira, apesar de estar sorrindo todo o tempo ela lamenta muito por não ter estudado e pelo mau casamento. Hoje em dia, ela se coloca em uma posição bem mais tranquila, em sua casa mora seu companheiro e mais 3 filhos, de idades entre 6 e 10 anos, e sustenta

estas crianças com trabalho da venda de frutas e legumes e a criação de galinhas. Nestes minutos em que conhecemos a história da Dona Helica vimos a imagem de milhares de brasileiros, aquela sensação de que daqui pra frente a vida vai ser muito melhor, a esperança de poder seguir em frente, consertando os erros que são possíveis e esquecendo o que não dá para mudar, esperando sempre o melhor, como diria o samba “a vida podia ser bem melhor, e será”. É nestas palavras que todos os feirantes acreditam ao ver o dia começar antes mesmo de amanhecer.


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Frutas, legumes, verduras e um flanelinha: meu dia de repórter Figurando como a maior de Atibaia, a feira livre em Alvinópolis é um local de encontro, passeio e compras Larissa Godoy Às nove da manhã o sol ardia na cabeça de quem se estava na feira livre em Alvinópolis. Em meio a uma imensidão de barracas, modelos de automóveis ali presentes mostram que o espaço costuma ser frequentado por todos os segmentos sociais. Um simpático flanelinha se aproxima e ajuda a manobrar o carro. Nosso passeio começa então pelo imenso corredor que reúne 120 barracas, que vendem diversos produtos, entre frutas, legumes, roupas e brinquedos. Às nove e meia à multidão ainda não tomou conta da

rua estreita. Os passos lentos e os olhos atentos me ajudam a perceber algo de singular por ali. Uma calmaria não convencional. Naquela feira livre, que por natureza é um local de gritos, manifestações e brincadeiras de feirantes a fim de chamar os clientes, os sorridentes feirantes não gritam – deixam que os consumidores venham até eles. E os clientes vão. Perguntam, testam e levam as frutas que estarão em suas casas. Dez horas da manhã. O sol que antes ardia nas cabeças, agora queima a nossa pele, que passa de branca para rosada, deixando marcas na pele. Tiro então minha câme-

ra da bolsa. Acabou a observação, hora de colocar a mão na massa. – Vai queimar o filme, moça – disse um feirante, que ao ver tirar algumas fotos, tentou puxar assunto. – Vai não, senhor. A foto ficou boa! – E vocês, estão fazendo o que aqui? Uma hora essa pergunta ia chegar até mim. Minha primeira matéria externa começava a ganhar asas e chegar às pessoas. – Somos estudantes da FAAT, estamos desenvolvendo um trabalho da faculdade. – Que legal. Vi meus colegas conver-

sando e fui ao encontro deles, que gravavam uma entrevista, com microfone, câmera e tudo o que têm direito. Observei, tirei algumas fotos e, ao ser abordada, me desviei da ideia de aparecer no vídeo. Por sorte fui salva por um colega, que chegou na hora certa… Moradores, comércio, feirantes. Conversamos e entrevistamos pessoas que, de algum jeito, têm suas vidas entrelaçadas pela feira. Histórias e depoimentos que, de alguma maneira, fazem a história da cidade. Um espaço que deixa de ser apenas um centro de comércio de hortifrutigranjeiros para se tornar

um ponto de encontro, de passeio e um espaço de distração para quem quer fugir do movimentado centro da cidade. O relógio passava do meio-dia e nosso trabalho estava terminando. Com a sensação do dever cumprido, me vi fazendo o mesmo caminho de algumas horas antes. Agora com o sol em cima da minha cabeça, com as 120 barracas ao fundo e o flanelinha que encontrei no começo da minha história, ainda em seu trabalho, auxiliando os que ainda chegavam para ganhar suas moedas de agradecimento.


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FOTOS: FABIO GALUPPI

O lugar da diversidade Vanessa Tenofio Beraldo

Às dez horas da manhã, a feira do Alvinópolis estava repleta de consumidores. Jovens, adultos e idosos. Muitos acompanhados da família ou dos respectivos namorados. Uma imagem comum eram as senhoras com a famosa sacolinha de feira, repleta de frutas, verduras e legumes. “A senhora vem sempre à feira?”, pergunto para dona Aparecida de Oliveira, 58 anos. “Moro em Bom Jesus dos Perdões, a gente (estava com as filhas) vem cerca de uma vez por ano para passear e olhar as frutas.” Assim como dona Aparecida, muitas pessoas vão à feira como forma de lazer. Além das barracas de frutas e legumes, há também as que vendem roupas, acessórios e bijouterias. Em contrapartida, existem aqueles que fazem da feira de sábado um hábito. É o caso de Paola Vertina, 30 anos, uma uruguaia que mora atualmente em Atibaia e vai à feira todos os sábados para comprar verduras e legumes. Marcelo Nakagami, 35 anos, também vai à feira todos os sábados. Porém o seu interesse, é o “Pastel do Zago”. Quando pode, Marcelo leva a sua ex-mulher para juntos passearem.

Perfil dos consumidores Nome: Marcelo Nakagami e Telma Pinheiro Idade: 35 e 29 anos Profissão: Motoboy e Diarista Cidade: Atibaia Marcelo vai à feira todos os sábados, para comer pastel na barraca do Zago. Telma vai eventualmente comprar frutas e verduras, atraída pela variedade e qualidade dos alimentos

LARISSA GODOY

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Nome: Aparecida de Oliveira Idade: 58 anos Profissão: Aposentada Cidade: Bom Jesus dos Perdões Vai à feira cerca de uma vez por ano para passear com a família.

Não importa qual é a finalidade. Se existe uma palavra que descreve os consumidores da feira de Atibaia é “diversidade”. Enquanto uns fazem lista e vão com sacolas que ficam cheias de frutas e verduras, outros vão passear e experimentar os vários sabores que a feira proporciona.

Nome: Verônica Marçal das Chagas (mãe) Idade: 60 anos Profissão: Aposentada Cidade: Nasceu em São Carlos, mas mora em Atibaia há 38 anos. Seu marido vai à feira todos os sábados. Verônica acha que é mais vantajoso comprar algumas frutas e verduras no supermercado.

Nome: Michele Marçal das Chagas (filha) Idade: 26 anos Profissão: Engenheira Cidade: Morou um tempo em São Paulo, atualmente mora em Atibaia Quem vai à feira todos os sábados é seu pai. Michele disse que sente falta de uma feira que possua só produtos orgânicos, já que quando morava em São Paulo, ia toda semana.


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O melhor pastel de São Paulo está na feira de Alvinópolis Na feira em Atibaia, o início de uma jovem estudante na vida de repórter Emily Caroline K. Pereira

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9 de novembro, 8h. Eu e Jéssica, minha colega de faculdade que adotei como fotógrafa, chegamos à feira. O professor Osni Dias e os profissionais responsáveis por áudio e imagem, Alex Natal e Kleber Oliveira, já estavam lá, aguardando o resto da turma. É o começo da cobertura especial da feira livre de Alvinópolis. Começo para nós duas, que acabamos de chegar. Na verdade começou bem mais cedo, de madrugada. O Alex

FOTOS: FABIO GALUPPI

e dois estudantes acompanharam um feirante da saída de casa até a chegada à Avenida Major Alvim e a montagem da barraca. Estou animada com o trabalho na feira. Começo a observar o movimento. Gente chegando e indo embora, de sacolas cheias. Procuro atentamente por consumidores a quem possa entrevistar. Com nossa pequena equipe a postos, começamos a descer a feira. Continuo obeservando. Pessoas indo e vindo. Movimento. Vida. Sigo imaginando abordar alguém, já que sou tão tímida... Por fim, quando menos espero, estamos em frente a uma barraca que vende nada menos que o melhor pastel de São Paulo, título recebido em 2010. O professor Osni já está falando com um e com outro, colhendo informações.

“Somos da FAAT, os alunos de Jornalismo estão desenvolvendo um trabalho na feira e gostaríamos de fazer algumas perguntas”. A moça do balcão responde: “quem pode responder já está chegando”. Um jovem de origem asiática, vestido de branco. Seu nome é Eric Rodrigo Agena Silva. Eu fico ao lado, com o microfone na mão, esperando algo que nem mesmo sei o que é. “Emily, venha cá. Você vai entrevistá-lo”, diz o professor. Nunca segurei antes um microfone de repórter, daqueles que a gente vê na TV. Mas consigo, afinal. Não é um bicho de sete cabeças. O Eric é todo sorrisos, simpático o tempo todo, como quem sabe que esta é minha primeira vez. Agradeço ao entrevistado e sigo meu caminho. Mas o profes-

sor Osni nos chama. Dito e feito. Nova entrevista, desta vez, um membro da AFAT – Associação dos Feirantes de Atibaia. Seu nome é Paulo Tomé, ele tem uma barraca de brinquedos e bijuterias. Mais uma vez, meu coração dispara, mas aos poucos eu sinto o prazer de falar em frente à câmera. Sinto-me importante. É uma boa experiência, que levarei para a vida. Olho no relógio. 8h55. Tenho que correr. Quero ficar mais, mas não é possível. Fiz o que pude. E gostei do que fiz.

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FOTOS: FABIO GALUPPI


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A vida na feira: reportagem mostra o olhar por traz da rotina de um feirante João da Cunha relata suas dificuldades e, também, seu orgulho em ser feirante há 30 anos André de Oliveira Pinto Eram 2h52m da manhã de um sábado quando nossa equipe partiu para a casa do feirante João da Cunha, que é casado e tem duas filhas. Estava frio e um pouco de neblina tomava conta da rua. Tivemos que ser rápidos, pois sabíamos que se atrasássemos poderíamos perder os primeiros momentos do dia de João. As ruas estavam vazias e silenciosas. Todos os sábados, João da Cunha acorda por volta das 2h da manhã; prepara as frutas nas caixas, muitas delas ficam em câmaras refrigeradas. Separa as caixas de acordo com os tipos de produtos e, em seguida, coloca tudo no caminhão; na maioria das vezes ele faz tudo isso sozinho. Toda essa preparação não acontece apenas no sábado, isso deve ser feito todos os dias da semana, exceto de segundas-feiras, pois ele ainda trabalha no CEASA. João nos conta que sempre sai as 3h30m, pois ainda precisa buscar dois de seus funcionários no outro lado da cidade. Aceitamos o desafio e o acompanhamos no trajeto. Dentro

FABIO GALUPPI

“Não me vejo fazendo outra coisa” afirma João da Cunha

do caminhão conversamos sobre muita coisa. João nos contou sobre sua história e sobre suas dificuldades. Ele cresceu trabalhando na feira com seu pai e seu avô. Além disso, João disse que os dias chuvosos é a pior parte do trabalho. Dependendo da força, a chuva pode estragar as frutas e destruir as barracas. Quando isso acontece não há nada que pode ser feito para resolver o problema. “Muitos feirantes acabam com prejuízos enormes quando isso acontece” afirmou João da Cunha. Outro fato que João nos revela é que atualmente encontrar mão de obra para trabalhar

na feira não é fácil. Uma das razões é a instabilidade de renda. Muitos comerciantes acabam deixando a profissão porque ela não garante renda fixa. A conversa continuou e foi cativante. Pegamos os funcionários, então partimos para a feira. Às 4h15 começa o processo para descarregar as frutas do caminhão. O local já conta com alguns feirantes, mas a rua vazia e escura, não parecia ser o local onde haveria uma feira. O processo de montagem foi lento e demorado. As estruturas da barraca precisavam ser bem encaixadas para não correr o risco de desmontar em cima das frutas. A barraca só ficou completamente pronta perto das 7h. Avistamos os primeiros fregueses e, em pouco tempo, aquele local parecia mágico. Pessoas diferentes umas das outras começaram a ocupar o cenário. Cores, movimento, sons e cheiros trouxeram vida ao ambiente, e aquilo que nos prontificamos a fazer havia acontecido: vivemos a vida de um feirante. Assim, quando João da Cunha disse “não me vejo fazendo outra coisa” eu sabia o porquê.

Compartilhando conhecimento e saúde Jessica Tavares Alunos de graduação em jornalismo da FAAT fizeram um trabalho de imersão na feira do Alvinópolis, bairro conhecido e muito populoso de Atibaia. O trabalho foi motivado pelo coordenador do curso, professor Osni Dias. Foram dois sábados e, no decorrer dos encontros, conhecemos muitos feirantes com histórias de vida surpreendentes. Chegando ao local marcado por volta das 8h da manhã, naquele sábado típico para um passeio na feira e para beliscar um belo petisco, não demorou para sentimos o cheirinho do pastel e do caldo de cana. Tudo isso só para animar a nossa chegada. Percorrendo a feira com o olhar curioso, encontramos uma barraca de ervas medicinais. Hector Suarez, um senhor de

cabelos grisalhos, nos atendeu muito solícito. Sua esposa, dona Neli Ortiz, chega e nos conta, muito carismática, o porquê do trabalho na barraca de ervas medicinais. “Há muito tempo trabalhei com hortifrutis, mas depois de um curso sobre ervas decidi me dedicar a ajudar às pessoas com o meu conhecimento.” Dona Neli mostra alguns saquinhos de ervas que tem mais saída em sua barraca. Sobre questionamentos sobre determinada

erva por parte dos fregueses, Neli mostra alguns livros que contém as respostas necessárias, caso as dúvidas surjam. Durante o encontro na feira podemos reparar que ela é praticamente dividida: de um lado, a maioria das barracas eram de roupas, bolsas, brinquedos e sapatos. Do outro lado, a parte de alimentação, onde a barracas de hortifrútis, pastéis, pamonhas, ervas medicinais, flores e a culinária japonesa e baiana atraem a atenção dos consumidores. Isso não atrapalhava os curiosos na procura por algo, em especial. Além das histórias, encontramos amigos, familiares e pessoas que pouco conhecemos, mas que acordaram cedo pra montar sua barraca e vender seus produtos sempre frescos. E nós, de forma prazerosa e gratificante, aproveitamos todo esse cuidado e apreço que eles têm em cada detalhe na feira do Alvinópolis.

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Dona Ednalva, comerciante: feira atualmente tem pouco movimento

Impacto da feira no local Lucas Valério A seis e meia da manhã toca o celular. Era o despertador, colocado no dia anterior para despertar. Olhei para o relógio, ainda era cedo e decidi que dormiria mais cinco minutos, mas este cinco minutos se tornaram duas horas. Levanto da cama correndo, troco de roupa e vou direto para o ponto de ônibus. De repente, percebo que estava fazendo outro caminho. Ao chegar à feira, fui surpreendido pelo coordenador do curso, que já me colocou numa fria: eu faria uma reportagem audiovisual com a Dona Ednalva, comerciante de roupas usadas, há sete meses naquele ponto. Ela contou que a feira era bastante movimentada, mas hoje tem pouco movimento. Os feirantes reclamam que a feira não tem o mesmo brilho de antigamente. Em outra entrevista, com Dona Maria Gonçalves de Melo, ouço que a feira não tem banheiros, Dona Ednalva, assim como Dona Maria deixam os feirantes usarem

o banheiro. Elas disseram à reportagem que outras pessoas cobram R$ 2,50 pelo uso. Dona Maria acha que o certo seria disponibilizar sanitários aos feirantes. Outra reclamação da Dona Maria é que nem sempre ela consegue tirar o carro da garagem em razão de sempre ter um caminhão na frente da casa dela. Ainda segundo a moradora, muitas vezes ela consegue tirar o carro da garagem em razão de sempre ter um caminhão na frente da casa dela. Ainda segundo a moradora, muitas vezes ela precisou tirar o carro às quatro da manhã para poder sair de casa. Ao longo da feira pudemos ver várias pessoas de diferentes características e costumes. Ao final da minha cobertura, entrevistei o pároco da Igreja que fica ao lado da feira, a Igreja Cristo Rei. Padre César contou sobre sua vida, a comunidade onde ele realiza o ministério de padre, e apontou que o bairro do Alvinópolis é abençoado por Deus por ter uma feira nas imediações.


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Histórias de vida e personagens que compõem a rica e variada feira

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Após algumas horas, conversas e percepções possibilitaram não só um aprendizado, mas uma nova apreciação para coisas que parecem simples FOTOS: ALEX NATAL

Milca Oliveira Pinto As 2h30 da manhã do dia 9 de novembro o despertador tocou. Este seria o início de uma experiência jornalística inédita para todos nós, estudantes do jornalismo da FAAT. A cobertura da feira livre permitiu um olhar diferente ao cotidiano dos feirantes de Atibaia. Desde a madrugada até o pico do sol, acompanhamos, observamos e registramos as mais diversas histórias de vida e trabalho dos personagens que compõem a rica e variada feira da cidade. Começando pelo exemplo de vida do feirante João da Cunha que monta sua barraca de hortifruti durante a madrugada, num ritual cuidadoso e demorado para garantir as vendas quando amanhecer. Já no final da rua, esbanjando simpatia e jovialidade, encontramos D. Celina Abreu Menezes. Em meio aos tecidos, cores, texturas e detalhes estampados na barraca, percebemos todo o talento, exclusividade e criatividade com que D. Celina tece diversos tipos de roupas. Com uma experiência de 30 de feira, o uruguaio Hector Suarez carrega uma bagagem

Personagens ricos em histórias. Abaixo, João Paulo Oliveira. Abaixo dele, D. Celina Abreu Menezes.

Equipe de repórteres começou o trabalho na madrugada e terminou somente ao final da Feira: aprendizado

imensa de conhecimento sobre diversos tipos de ervas. Em sua barraca são oferecidos mais de 250 tipos de produtos, desde o mais conhecido, como a camomila, até o mais peculiar, como o chimichurri. Em uma extensa barraca colorida de hortifruti, conhecemos João Paulo Oliveira, que há vinte anos conquista clientes com produtos de qualidade. E que pode, com o esforço

de seu trabalho, formar seu filho, Júlio César, em Direito. Após algumas horas, as conversas e percepções que fizemos nos possibilitaram uma nova apreciação para as coisas que, às vezes, parecem simples. A feira é este grande exemplo, por trás de um lugar aparentemente, há uma diversidade riquíssima de pessoas com suas histórias, talentos, jeitos e sotaques.

REGIÃO

Pequenas feiras, grandes histórias em Joanópolis Roberta Damiani A feira de Joanópolis não chega a ser grande, como as de São Paulo ou mesmo de Atibaia. São poucas as barracas e, em sua maioria, vendem roupas. Ao todo, a feira conta com uma barraca de hortifruti, um carro de flores e seis barracas de roupas. Mas, mesmo sendo uma feira tão pequena, tem muitas histórias para contar. Seu Sebastião Aparecido dos Santos, morador de Bragança Paulista, é um dos pioneiros na feira de Joanópolis. Feirante há 42 anos, ele conta que já fez muitos amigos ao longo desse tempo e que a feira já foi em diferentes lugares da cidade. Fiquei muito tem-

po conversando com o seu Bastião da Feira, como gosta de ser chamado. Ele me contou que ele e sua barraca já trabalharam em Vargem, Atibaia e Bragança, e em todos os lugares foi bem recebido, sempre com boas vendas. Os produtos que vende frutas, legumes e verduras - são cuidadosamente selecionados por seu filho, que hoje é quem toca a barraca, da qual seu Bastião antes tomava conta. As verduras são plantadas em sua casa, enquanto os outros produtos são buscados no CEASA, em Campinas. Outro feirante com quem conversei foi Regis das Flores, um senhor muito simpático, que me contou em detalhes

ROBERTA DAMIANI

como foi entrar para o mundo da Mãe Natureza - ele vende diversos tipos de plantas, de orquídeas a ervas medicinais. Algumas ele mesmo planta, outras, vai a lugares distantes comprar. “O melhor para o cliente”, diz, orgulhoso. Gra-

ças aos conhecimentos repassados por sua descendência indígena e natureza nordestina, o senhor Regis ensina os clientes a usar as ervas que compram e qual utilidade de cada planta. Quando seu Regis fala, dá

para perceber o quanto gosta do que faz. Fica claro que há algo especial com aqueles pequenos fragmentos verdes - o que, para mim, como observadora naquele momento, foi o mais tocante. Seu Regis começou vendendo orquídeas para as datas especiais, já que nestas épocas as vendas são maiores. Até que um banco comprou tudo o que tinha para vender e mudou-se para o interior. A feira de Joanópolis, mesmo sendo pequena e com poucos comerciantes, conta muitas histórias. Quem olha, logo percebe que ali tem coisas únicas, que não se encontram em outro lugar: tem tradição, tem paixão, tem fidelidade... Tem histórias.


Matéria Prima Especial Feira