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Água: fonte de vida

#5

CASO VERÓN: IMPUNIDADE

O que é ser basco

Biutiful

O Alerta de Vênus

Ana Junqueira

Luis Pires

Hemerson Brandão


Índice

Foto: Vânia Jucá

CAPA 56 - Moriti Neto - Água que adoece 58 - Luís Brandino - Água, um bem comum 62 - Marcos Terena - Água é vida 64 - Leonardo Boff - O preço de não escutar a natureza COLUNISTAS 8 - Delta9 - Não aguento mais ver tanta lama 10 - Paulo Netho - Foi fácil, facílimo 11 - Orivaldo - Água e consumismo: péssima combinação 12 - Haissem Abaki - Uma amizade despedaçada

Foto: Arquivo Pessoal

7 - WEBERSON SANTIAGO

Foto: Claudinei Nakasone

IMAGEM 20 - Claudinei Nakasone - Nu artístico 54 - Thiago Cervan CIÊNCIA 68 - Hemerson Brandão - O Alerta de Vênus 72 - Ana Melo - Catavento

Foto: Divulgação

MUNDO 74 - Ana Junqueira - Um país Basco ARTE 108 - Luis Pires - Biutiful CAMINHOS 112 - Osni Dias - Cidadão Campeão - Mestre White 122 - Claudio Editor-chefe: Osni Dias MTb21.511 Programação Visual e Design: Victor de Paula

Foto: Soviet Planetary Exploration Program, NSSDC

LETRAS 14 - Amne Faria - Hay que endurecerse... 16 - Marcelino Lima - De A a Z 18 - Ana Melo - Marcos Verón

Foto: Luciana Meimberg

Editorial Prezado leitor,   A Kalango traz, nesta edição, reflexões oportunas dos nossos colaboradores sobre questão estratégica para nossa sobrevivência nos próximos anos: a água. O desequilíbrio ecológico tem causado sérios danos à natureza e ao meio ambiente e é nossa responsabilidade discutir o assunto. Como cada um de nós encontra um caminho para mudar o Planeta, mostramos como um discípulo do Grão Mestre Yong Min Kim ajuda mais de duzentas crianças por meio do esporte. Destacamos a luta do povo Guarani Kaiowá que, infelizmente, não obteve da Justiça o resultado esperado no julgamento dos assassinos do cacique Marcos Verón, que embora condenados por tortura e formação de quadrilha, foram inocentados da acusação de homicídio. Trazemos também uma viagem onde Ana Junqueira descobre enfim o que é ser Basco, uma identidade própria e forte, que parece existir além do pertencimento oficial ao território espanhol. Luis Pires escreve sobre “Biutiful” e a questão da imigração ilegal. Hemerson Brandão nos fala de Vênus e Ana Melo dá a dica de passeio em São Paulo. Weberson Santiago, Marcelino Lima, Thiago Cervan, Claudinei Nakasone, Claudio e Amne Faria nos trazem arte e poesia e nossos colunistas, Paulo Netho, Haissem Abaki e Delta9 as crônicas bem humoradas do nosso cotidiano. Agradecemos pela quantidade generosa de acessos. Pedimos que continuem compartilhando nossas ideias e divulgando nosso trabalho. Críticas, sugestões e pautas podem ser encaminhadas para revistakalango@gmail.com Osni Dias revistakalango@gmail.com


http://todasaslinhas.blogspot.com

Comunicação. Psicologia. Existência.

LEIA TODAS AS LINHAS

WEBERSON SANTIAGO

“Ao lado, a primeira imagem da nova coleção da Folha de São Paulo. O tema é Ópera. Fiz as ilustrações de capa, miolo e ícones que vão ao longo dos livros. São 25 livros com cds. Foi muito bom fazer esse trabalho porque fiz boa parte na tinta mesmo. Gostaria de fazer mais assim.” http://webersonsantiago.blogspot.com/


Colunistas

Nao aguento mais ver tanta lama! ~

Por Delta9 "It’s the plan of the house, It’s the body in bed, It’s the car that got stuck, It's the mud, it's the mud..." (Tom Joe Bean / David Berne) Estou com saudades das imagens do Haiti, aonde os nossos valorosos e heróicos militares prestam serviços relevantes para a recrudescência intensa daquele singelo país. Claro que, em troca, recebem belas diárias (os militares). Não por dever, mas por direito. Sinto saudades das imagens dos nobres policiais militares, insistentemente veiculadas em horários igualmente nobres, homens intrépidos, destemidos e desarmados de apegos materiais, sujeitos a desalmados facínoras (pastores ou não) e entregues ao perigo eminente (sic), naquele esforço hercúleo,

colossal, espetacular, fantástico, de pacificar aquelas comunidades depositadas, ao longo da história, nos morros cariocas. Só em pensar nos escândalos financeiros, políticos, policiais, judiciais e coisas e tais, que não mais aparecem nos canais, uma lágrima solitária escorre de meu olhar depositando-se, sobre o meu seio esquerdo, à altura de meu sôfrego músculo cardíaco... Entretanto, pasmo-me, menos pela notícia que por meu espanto: atrozes criaturas de alma negra, seguramente downlodados de um residente evil qualquer, desviando donativos daqueles que perderam suas residencias, vilas e vidas. Suspenso meu espanto por um tempo aguardando os velhos turíbulos políticos a incensar os 27 incisos

do art 24 da Lei 8666, a Lei das Licitações, que trata da dispensa da licitação. Algo alusivo aos astronautas flutuando em suas naves, dando a entender que foram dispensados da gravidade (quando efetivamente estão caindo sem parar). Nesse turíbulo áureo cabe uma pedrinha especial de sua mirra cara aos incisos III e IV, casos de perturbação da ordem, emergência ou calamidade pública. É a farra do boi. O último berro da vaca louca, profana. Tudo po$$o naquele que me fortale$$e. Minha pasmaceira mental misturase com a outra pasmaceira midiática, acompanhando o caminho das doações. Quero, sim que minhas doações (aquela lata de goiabada, um colchonete velho e algumas roupas usadas que já não me faziam falta) sejam seguidas, sim, por microcâmeras semelhantes às utilizadas nas pranchas das celebridades das Ondas de Noronha II. Sigam, muito especialmente com a supercâmera lenta, as verbas não licitadas, as doações superfaturadas às mais diversas fundações e ONGs para abatimento no imposto de renda; os projetos engavetados, as desapropriações dos imóveis

avariados e posteriores aquisições desses bens (depois de 'limpos', claro). Sigam os tijolos e encontrarão as vidraças (ou os alicerces). Proponho, desde já, uma contraproposta à impotência midiática jornalística, que só é boa de língua: acompanhar os caminhos e descaminhos desse mar de lama que assola a hipócrita sociedade econômica brasileira, anônima ou não, prestando um inabalável auxílio aos ínclitos magistrados, egrégios tribunais e colendas autoridades responsáveis pela fiscalização dessas tantas contas. Ou acabaremos naquele estupor estúpido ao constatar que, nesse país impávido colosso, deitado eternamente em berço esplêndido, cabe aos mortos enterrarem seus mortos. ".... Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem do presente de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido." (Dalai Lama)

Delta9 é extraterrestre, publicitário e atua no Judiciário


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Foi fAcil, facIlimo Por Paulo Netho Ganhei uma solidão, novinha em folha, e uma tendinite também. A tendinite é a inflamação do tendão. A solidão é a inflamação da alma. Ganhei é modo de dizer. Na verdade, a minha solidão não é de agora, ela solidificou-se um dia após o outro até se calafetar de vez. Quando percebi que não havia nenhum buraquinho sequer por onde ela pudesse escapar, aí sim, me acalmei. Confesso: foi fácil, facílimo. Primeiro, você abandona a vida que levava. Depois reserva aos amigos, no máximo, uma mensagem pelo orkut, facebook ou celular. Nesse processo, alija também os sonhos em comum e passa a contemplar apenas o próprio umbigo. Isso deve lhe conferir certa empáfia. Mas solidão é uma coisa que corrói. A

, Agua e Consumismo: , ~ , Pessima CombinaCao Por Orivaldo Leme Biagi

tendinite veio no pacote. Vou explicar esse treco. Houve um tempo em que achei que a tela do meu computador me bastasse. Ledo engano. Sei lá, o computador me serviu apenas como muleta, um tanque de guerra, uma defesa. Você me entende? Para ser mais exato, passei a viver numa bolha, protegido de tudo e de todos. Meus dedos começaram a dar vida aos meus pensamentos. Trabalho, essa palavra foi a desculpa que arranjei para tentar justificar o injustificável. Desfaçatez das bravas. Isto sim, desfaçatez. O que eu ganhei? Ora, ganhei quilômetros de distância das pessoas amadas, da vida compartilhada e uma dor nos ossos que, se comparada, não é nada, à dor de uma vida escanteada. Como eu disse: foi fácil, facílimo.

* Quando criança, queria ser jogador de futebol, mas depois de assistir a uma apresentação do mímico Ricardo Bandeira − mudou de ideia. É poeta, escritor e “um encantador de pessoas”.

Dizer que a água é uma substância essencial à vida é, perdoe a expressão, “chover no molhado” – a própria vida pressupõe, essencialmente, da existência de água. Tanto vários relatórios de institutos espaciais quanto inúmeros filmes de ficçãocientífica (inclusive os de baixo orçamento) ressaltam que qualquer exploração de outros planetas depende da existência de água. Até os “marcianos” e seus discos voadores dependem de água para alimentar os aficcionados do “Arquivo X”. Mas a água (potável) está sendo destruída no presente momento. Entre várias razões para tal acontecimento, a questão maior é de natureza cultural: como combater o consumismo como uma prática social prioritária? A partir do século XX tal prática tornou-se absoluta numa sociedade de tamanho gigantesco (mais de 6 bilhões de

habitantes) e com os recursos bastante finitos (como a água, por exemplo). Assim, para que a água não seja destruída é preciso também salvar a natureza e, para tal, desde o início da década de 70, os movimentos ecológicos têm trabalhado bastante na conscietização mundial sobre o problema – e com a formação de várias entidades a questão ecológica ganhou relevância mundial, com as autoridades propondo legislações mais rigorosas para a defesa da ecologia. Apesar dessa conscientização mundial e das novas legislações, o problema ainda está longe de ser resolvido. O consumo desenfreado destroe a natureza e, logicamente, a água – e logo não terá como “chover no molhado”, pois nem chuva nem molhado existirão. E nem a vida humana, com ou sem filme de ficção-científica.

Orivaldo Leme Biagi é Doutor em História pela UNICAM e Professor da FAAT Faculdades


Uma amizade despedaCada , Por Haisem Abaki Hoje vim aqui para assumir uma culpa que está me consumindo. Poderia fingir que não aconteceu nada, me fazer de desentendido e seguir adiante na vida, mas não fico bem comigo mesmo quando tenho essa terrível sensação de consciência pesada. Seria mais fácil ignorar o ocorrido e não me importar com justificativas para um ato tão deplorável. Afinal, essas coisas acontecem com qualquer um e ninguém está livre de um pecadinho aqui e outro ali. Quem nunca errou que atire a primeira pedra! Vejo tanta gente fria por aí, incapaz de admitir deslizes e que nem por isso deixa de dormir um sono tranqüilo. Eu não consigo ser assim e preciso dividir tamanho tormento com alguém para aliviar essa carga que já não suporto mais. Dei um mau passo e estou numa imensa angústia existencial. A vítima foi um amigo que

não merecia ser tratado com desrespeito. Pior ainda: pisei nele sem dó e não percebi a maldade que estava fazendo. É uma amizade recente, de apenas sete meses. Mas parecia antiga, coisa de unha e carne mesmo. Era o meu mais novo amigo de infância e não tive um pingo de receio de destruir tudo com esse meu jeito bruto de ser. Conheci esse grande companheiro num shopping e logo percebemos uma tremenda identificação. Passamos a fazer caminhadas diárias juntos, sempre com muito prazer e cumplicidade. Eu sabia que podia confiar nele e o coitado achou que eu era digno do mesmo sentimento. Não era. Fui egoísta, eu confesso. Percorremos muitos quilômetros e ele estava sempre ali, calado, ouvindo até meus pensamentos. Logo, também se acostumou aos meus gostos musicais. Não dizia

nada, mas a simples presença dele Fiquei inconformado ao saber era suficiente para me incentivar que não havia mais conserto, mas cada vez mais a praticar exercícios. a caminhada precisa seguir em Era amarrado em mim. frente. Vou procurar uma nova Eu, insensível, não valorizei nada companhia e desta vez prometo disso. No começo, até achei que ele ser mais cuidadoso com meu novo estava me incomodado e pegando amigo do peito do pé. Aprendi uma muito no meu pé. Depois, vi que era lição e nunca mais serei um chulé um companheiro inseparável, mas sem coração. Deixei de ser aquela mesmo assim o tratei como se fosse pessoa pesada e não quero dar mais um objeto qualquer. Foi uma pisada “pezada” na vida. Pode acreditar. muito violenta da minha parte. Agora sou um cara com os pés no Hoje estou arrependido, ao vê-lo chão! todo arrebentado. Peço desculpas   ao meu caro amigo. Caro mesmo, Haissem é jornalista da Rádio porque não foi barato! Lamento Bandeirantes ter pensado apenas na minha caminhada solo e nem um pouquinho na preservação da sola. Reconheço meu erro, mas suplico que não pense que sou tão mau assim, querido tênis do pé esquerdo. Olhe para o colega tamanho 40 aí da direita e veja que ele ainda aguenta o tranco. Talvez apenas mais alguns metros, mas aguenta. http://haisem.blog.uol.com.br/index.html


Letras "Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás" Che Guevara

Por Amne Faria De repente estamos duros. É a vida que nos faz assim? Pessoas, egos, situações... Quem é que sabe? A selva que criamos. Aquela que descuidamos ao ponto de chamar de humanidade, tem me endurecido. Porque assim de repente se cresce, e o mundo não passa da bola cinza que gira dura com seus espinhos. Lembro do poeta que falava que temos uma humanidade desumana. Agora eu entendo, aquele porquê de tanta gente preferir viver à margem da selva de pedra e seus conceitos. Tem dias que eu tenho esta vontade de não pertencer. A sociedade me assusta. As pessoas me assustam, eu não sou mesmo daqui. É um jogo sem fim, numa roda feita por Escher. Onde quem joga melhor é o grande líder da brincadeira da vida. Ando perdendo essência pra vida. E isto também me assusta. A vida. O jogo dos jogos. Somos peças pequenas de livre incompreensão. Pois um dia nós íamos mesmo mudar o mundo, lembram-se?

Hoje eu percebi tanta coisa. O mundo é pequeno e a maioria vive o jogo. Do ser estar. Poder. Aí só nos resta endurecer. Arder. Enrijecer cada sombra de sonho perdida. Se encaixar em algum silêncio. Sem cores. Sem nenhuma ação. Erra quem acredita em mudança. No final tudo é corrompível. São, somos, peças no jogo, do jogo de alguém. E é assim e pronto. Mas e a ternura? O gato comeu. Amne Faria é poeta e acadêmica de Publicidade e Propaganda da FAAT Faculdades.


De A a Z

C

(Lado A)

Por Marcelino Lima

1. Avarandado, Ana Salvagni 2. Bangüê, Ilana Volcov 3. Chão Encantado, Ricardo Anastácio 4. Do corpo à raiz, Ivan Vilela 5. Eu venho vagando no ar, Túlio Borges 6. Folia, Boca Livre 7. Gaita Ponto, Renato Borghetti 8. História da Música Caipira, Passoca 9. Interior, Florencia Bernales e Henry Burnett 10. Jasmineiro, Túlio Mourão 11. Katxerê, Kátia França 12. Língua de Trapo, Língua de Trapo (1982) 13. Mistura e manda, Paulo Moura 14. Na quadrada das águas perdidas, Elomar 15. O Nordeste de Lua, Elisa Paraíso 16. Papo de Passarim, Zé Renato e Renato Braz 17. Quanta, Gilberto Gil 18. Romaria, Renato Teixeira 19. Samba de Trem, Edvaldo Santana 20. Trampolim, Mônica Salmaso 21. Urobóro, Roberto Corrêa 22. Violão e outras dobras, Celso Adolfo

1.Amor Certinho, Roberto Guimarães e convidados 2.Bicicleta, Boca Livre 3.Casa de todo mundo, Mario Seve 4.Dança das rosas, Consuelo de Paula 5.EmCantos Geraes, Márcio Lott e convidados 6.Fulejo, Dércio Marques 7.Gereba convida, Gereba e convidadas 8.Histórias de cada canto, Tarumã 9.Interiores, Argonautas 10.Já tô te esperando, Edu Ribeiro 11.Kleiton e Kledir, Kleiton e Kledir, Minha História (1995) 12.Levante, Trio Carapiá 13.Meu Brasil Brasileiro, Choro das 3 14.Na paleta do pintor, Tânia Grinberg 15.Objeto Sonoro, Juarez Machado e Grupo Muda 16.Quando o canto é reza, Roberta Sá & Trio Madeira Brasil 17.Rosas para João, Renato Motha & Patrícia Lobato 18.Sabiá, Paula Santoro 19.Tocando para o Interior, Nailor Proveta 20.Unplugged, Gilberto Gil 21.Viva Elpídio, Oswaldinho e Marisa Viana 22.Xiló, Zé Modesto Marcelino Lima é jornalista formado pela 23.Yamandu, Yamandu (Eldorado) PUC-SP, com pós-graduação em Teoria da 24.Zaparilha, Maurício Novaes Comunicação pela Cásper Líbero (SP)

(Lado B)

aros amigos e leitores: Publico, abaixo, lista indicativa para quem curte música brasileira de qualidade conferir e conhecer. São álbuns de vários estilos que eu tenho em meu tocador de MP3. De vez em quando, vou renovar as dicas e, a quem se interessar, posso informar onde comprar ou como baixar cada um destes álbuns.


Marcos Veron

Inocentados assassinos do cacique Por Ana Melo Divulgação-Anistia Internacional

A

pós cinco dias de julgamento e várias manifestações de líderes indígenas e militantes em frente ao tribunal, os acusados de matar o cacique kaiowá Marcos Verón são absolvidos por júri popular. O julgamento que encerrou-se em 26 de fevereiro, em São Paulo, chama a atenção de várias organizações de defesa dos direitos humanos. Verón foi morto aos 72 anos, em 2003, em Juti, Mato Grosso do Sul, após Estevão Romero, Carlos Roberto dos Santos e Jorge Cristaldo Insabralde espancarem e atirarem em índios que haviam invadido fazenda, na luta para reaver seus territórios. Verón foi levado ao hospital com traumatismo craniano, mas não resistiu. O julgamento, que começou no MS, mas foi transferido a SP porque a promotoria considerou que não havia como garantir um processo imparcial na primeira corte, chegou a ser suspenso várias vezes por

apelações dos réus, que tentaram adiar ao máximo a audiência final.

apenas por seqüestro, formação de quadrilha armada e tortura.

A decisão acolheu parcialmente as alegações do Ministério Público Federal, mas não reconheceu o crime de homicídio praticado contra Verón e a tentativa de homicídio contra mais seis líderes que estavam com ele e que neste julgamento foram ouvidos pelo júri. Por que os acusados não foram condenados? Por que não podemos acreditar na Justiça?

A pena estipulada pela juíza da 1ª Vara Criminal Federal de São Paulo, Paula Mantovani, é de 12 anos e três meses de prisão. Mas poderão cumprir em liberdade pelo fato de já terem permanecido presos durante quatro anos e seis meses, enquanto aguardavam o julgamento. Neste caso, o tempo de prisão é descontado na sentença.

É difícil compreender ou aceitar este resultado. Mas como já acompanhamos outros casos e sabemos que no Brasil assassinos de índios não são condenados, resta apenas a indignação e a tristeza. Não somente por este caso, mas porque este abre mais um precedente para tantos outros assassinatos de lideranças indígenas que ocorrem no Mato Grosso do Sul e em outros Estados e que poderão ficar impunes. Livres da acusação de homicídio, os acusados foram condenados

O promotor Luiz Carlos Gonçalves disse que a vitória não é completa, mas o resultado final foi pelo menos um avanço na luta pelos direitos dos índios. Segundo ele, o próximo passo é lutar pela condenação do fazendeiro Jacinto Honório da Silva Filho, dono da fazenda em que ocorreram os crimes e acusado de ter encomendado o assassinato de Verón. Difícil acreditar que essa condenação possa de fato acontecer. Ana Melo é jornalista e psicóloga


Imagem

Fotógrafo, professor das Faculdades Armando Álvares Penteado


Thiago Cervan

O Código Florestal, lei que protege o patrimônio natural brasileiro, está sob grave ameaça. Tramita no congresso uma proposta de reformulação incoerente e sem base científica, movida por interesses retrógrados.   Se aprovada, milhões de hectares onde deveria ser protegida a vegetação nativa estarão livres para o desmatamento. Além disso, as áreas já desmatadas irregularmente não precisariam ser reflorestadas. Isto trará impactos catastróficos para o equilíbrio das águas, solo e clima, assim como para a vida de plantas, animais e seres humanos.

www.chaua.org.br


Capa

Água que Adoece Por Moriti Neto

Q

Moriti Neto é jornalista, escreve na Revista Fórum e no site Nota de Rodapé

uando o assunto é água, holofotes não faltam nos inícios de ano. O mês de janeiro, verão após verão, pauta o noticiário com abordagens sobre enchentes e deslizamentos. À beira da cinematografia, o viés é sempre trágico. As lentes miram possíveis causas dos desastres, buscam opiniões de especialistas, mas, geralmente, abandonam as consequencias e só voltam a focar a questão no momento em que a audiência fundada na catástrofe se mostra novamente. Contudo, ao longo de cada ano, a água é protagonista de tragédias cotidianas. Um dos principais problemas é sua crescente contaminação. Bastante poluído, principalmente nas zonas litorâneas e nas grandes cidades, o lençol freático recebe todo tipo de material e sujeira, sendo contaminado com numerosas substâncias nocivas.

Entre os elementos que mais contaminam a água estão adubos, papel, excrementos, sabões, pesticidas, metais pesados (por exemplo, chumbo e mercúrio) e microrganismos capazes de provocar doenças, como hepatite, cólera e gastrenterite. Nitratos procedentes de fertilizantes nitrogenados e de fezes humanas são os maiores agentes contaminadores. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) cerca de 4,6 milhões de crianças de até 5 anos morrem anualmente de diarréia, doença relacionada ao consumo de água não potável, agravada pela fome e pela má distribuição de renda. No Brasil, o destaque negativo é para a relação lixo/água. São 39 mil toneladas de comida desperdiçada todos os dias, 60% despejadas em lixões e que poderiam alimentar 19 milhões de pessoas. Dessa combinação explosiva, resulta o chorume – originado da decomposi-

ção de resíduos orgânicos. Chegando ao lençol freático, a substância faz com que 22 milhões de brasileiros consumam água não potável. Assim, 65% das internações hospitalares, essencialmente de crianças, causando grande impacto no sistema público de saúde, são geradas por doenças provenientes da contaminação. A diarréia e as infecções parasitárias estão em segundo lugar como maior causa de mortalidade infantil no país. Para mudar tal cenário, o caminho é o abastecimento de água potável e o saneamento ambiental, que podem reduzir em 75% a taxa de mortalidade e de enfermidade da população. Porém, a tragédia cotidiana quase não recebe holofotes. O debate para a solução do problema também é pouco presente na mídia. Enquanto isso, muito além dos janeiros, o povo adoece consumindo uma água doente.


Água,

um bem comum Por Luís Brandino

“Nessas quadras a relva requeimada, através da qual, como única vegetação resistente, coleiam cactos flageliformes reptantes e ásperos, dá aos campos, revestidos de uma cor parda intensa, a nota lúgubre da máxima desolação; o solo fende-se profundamente, como se suportasse a vibração interior de um terremoto; as árvores desnudam-se, despidas das folhagens, com exceção do juazeiro de folhas elípticas e coriáceas, - e os galhos que morreram ficam por tal modo secos que, em algumas espécies, basta o atrito de um sobre outro para produzir-se o fogo e o incêndio subsequente de grandes áreas.” (Euclides da Cunha)

Luis Brandino é Jornalista e Assessor de Comunicação

E

m seu mais famoso livro, Os Sertões, o engenheiro, jornalista e escritor Euclydes da Cunha “recriou (…) as oscilações climáticas da caatinga”. Segundo Roberto Ventura [1], “tomou a natureza dos sertões como cenário, cuja vegetação, com galhos secos e retorcidos, permitiria antever o martírio do sertanejo”. Para o escritor, contudo, o sertanejo – “antes de tudo, um forte” – não temia a seca (“é um complemento a sua vida tormentosa”). Esta desertificação sazonal do semi-árido brasileiro não é apenas um fenômeno ambiental, mas traz como consequências econômicas, sociais e políticas. Ao longo da história, a oligarquia nordestina controlou o uso da água, provocando miséria entre os pequenos agricultores, que se viram obrigados a migrar para os grandes centros – capitais dos próprios estados nordestinos ou Rio de Janeiro e São Paulo.


Recordo-me de uma entrevista do cartunista Henfil (Henrique de Sousa Filho, falecido em 1988) ao Vox Populi – avô do Roda Viva – em que contara a seguinte história: ao assumir o governo, Juscelino Kubitschek teve uma luz para minimizar o sofrimento dos nordestinos com a seca. A construção de grandes açudes. Encomendou, então, aos governadores dos principais estados nordestinos um estudo. Só o governador do Rio Grande do Norte – da família Maia – envioulhe um projeto. O governador propunha a separação do estado em quatro grandes áreas onde seriam construídos os açudes. JK adorou e pediu estudos complementares a seus ministros. Descobriu-se que os quatro açudes, conforme o projeto do governador, seriam construídos em fazendas da família Maia. Ou seja, quem tem água tem o poder! A água potável é um dos grandes problemas do século XXI. Especialistas em clima afirmam que a terra e os vitais fornecimentos de água subterrânea estão secando. Um dos casos apontados é o da República Checa, que vem sofrendo com períodos de secas prolongados, seguidos por chuvas intensas que o solo não consegue absorver. A escassez de água no mundo

é agravada pela desigualdade social e da falta de manejo e usos sustentáveis dos recursos naturais. Segundo dados da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), menos da metade da população mundial tem acesso à água potável. O pior, a irrigação de plantações corresponde a 73% do consumo de água; 21% da água potável é utilizado pela indústria; apenas 6% destina-se ao consumo doméstico. Dados da Cetesb apontam que 1,2 bilhão de pessoas (35% da população mundial) não têm acesso a água tratada. As jornalistas Rita Casaro e Bárbara Ablas alertam sobre a crescente privatização dos setores de saneamento básico em países europeus e da América Latina no artigo “Os donos da água”. “Considerada o grande negócio do século XXI, os serviços de saneamento básico são disputados ferozmente pelas grandes multinacionais do setor, de olho num mercado potencial de US$ 400 milhões por ano”, escreveram. Em muitos países europeus, a exemplo de Portugal, a sociedade civil está se organizando contra a privatização dos serviços de saneamento básico e fornecimento de água. Um conjunto de deputados do Parlamento da União Européia

inclusive já propôs a aprovação da "Declaração escrita sobre a proteção da água como bem público". São Paulo viveu no início desta década – e ainda vive – uma onda privatista sem precedentes com os sucessivos governos tucanos. Em várias oportunidades, desde a posse do então governador José Serra, a imprensa veiculou que a Sabesp (maior empresa pública do

gênero no mundo) estaria na lista de privatizações. É preciso ficar atento contra estas ameaças, pois a água é um bem comum e não pode transformar-se num negócio lucrativo nas mãos de poucos. [1] VENTURA, Roberto. “Euclydes da Cunha e Os Sertões”, in CUNHA, Euclydes, Os Sertões. São Paulo, Publifolha, 2000.

Especialistas em clima afirmam que a terra e os vitais fornecimentos de água subterrânea estão secando


Água é vida!

Bem sagrado que não se pode vender! Por Marcos Terena

H

á muitos anos atrás como donos naturais de nosso habitat e guardiões únicos do meio ambiente e seus valores para a qualidade da vida, nossos velhos e nossas mulheres sabiam ensinar aos mais novos como escutar, sentir e respeitar a voz sagrada da terra, dentro de um relacionamento com equilíbrio social, econômico e espiritual. Um dia os primeiros homens brancos chegaram através das águas, trazendo sua forma de colonizar com a promessa de uma civilização moderna e desenvolvida. Não sabíamos que estávamos sendo troféus de uma nova “descoberta” e que a partir desse primeiro contato seríamos transformados em selvagens, improdutivos e incapazes. Seres sem qualquer valor. Agora quando iniciamos a fase de um novo milênio, estamos “descobrindo” uma civilização moderna de alta tecnologia construída através de um sistema que empobrece a humanidade e o meio ambiente, mas que não consegue evoluir nos relacionamentos da diversidade humana, por isso mesmo, uma civilização que não pode dar certo. Apesar de todo avanço da colonização e da catequese, nossos ancestrais nos ensinaram a continuar cultivando a vida e usufruindo da natureza. São valores jamais decifrados pelo homem branco. A civilização colonizadora do homem branco impõe-se também com seus

poderes bélicos e econômicos, e com isso, não são capazes de responder suas ansiedades e contradições. No entanto, parte dessa mesma sociedade, sensível e inspirada pelo espírito da natureza vislumbram nos Povos Indígenas e suas terras, a possibilidade de um mundo melhor, principalmente no respeito e na valorização ao bem comum, os recursos naturais, as plantas medicinais, alimentares e a água de beber. Nossa preocupação nasce dessa contradição. Quem vencerá? Aqueles que olham o meio ambiente como barganha exclusivamente economicista, individualista e monetária, ou aqueles que possuem o olhar indígena, coletivo, onde os donos são todos e cuja riqueza não se mede e nem se vende. Temos consciência de que todas as relações da tecnologia e da modernidade desse novo século, continuam baseadas em valores materiais que separa a humanidade em ricos e pobres. São valores que coloca os direitos humanos na forma exclusiva para contemplar o direito dos Estados e os direitos individuais, onde direitos coletivos não são compreendidos e muito menos assegurados. A Terra por isso, com seus bens naturais, minerais e ecológicos não é vista como um patrimônio sagrado dos Povos Indígenas, onde o respeito espiritual, ou o usufruto desses bens

é de responsabilidade e direito de todos. Quinhentos anos depois de sua chegada, a civilização moderna ainda está tateando como um cego que busca uma luz para caminhar bem. Uma das mais belas noções de bens coletivos está a água como líquido que alimenta a terra tal como o sangue no corpo humano. Água é vida! Bem Sagrado que não se pode Vender, cujo equilíbrio natural é o bem viver, integral e complementar, que não se traduz em palavras mas na capacidade de sentir, vivenciar e compreender nossa parte nessa cadeia da vida! Fomos educados como pedaços integrais desse ecossistema. Por isso, lutamos pela demarcação de nossos territórios dentro de um significado: Direito coletivo que nunca se desconecta da tradição cultural e espiritual com o Grande Criador. A voz indígena sempre foi baseada na sinceridade e na simplicidade do canto dos pássaros, nos sinais da terra, do vento, das águas e das estrelas, jamais esmoreceu no seu canto alegre, apenas deixaram de ouvi-la.

Marcos Terena é Indio do Brasil, Comunicador, Escritor e Aviador.


~ escutar O preço de nao

a natureza Por Leonardo Boff

O

cataclisma ambiental, social e humano que se abateu sobre as três cidades serranas do Estado do Rio de Janeiro, Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, na segunda semana de janeiro, com centenas de mortos, destruição de regiões inteiras e um incomensurável sofrimento dos que perderam familiares, casas e todos os haveres tem como causa mais imediata as chuvas torrenciais, próprias do verão, a configuração geofísica das montanhas, com pouca capa de solo sobre o qual cresce exuberante floresta subtropical, assentada sobre imensas rochas lisas que por causa da infiltração das águas e o peso da vegetação provocam frequentemente deslizamentos fatais.

Mas nisso não reside a causa principal desta tragédia avassaladora.

Culpam-se pessoas que ocuparam áreas de risco, incriminam-se políticos corruptos que destribuíram terrenos perigosos a pobres, critica-se o poder público que se mostrou leniente e não fez obras de preven��ão, por não serem visíveis e não angariarem votos. Nisso tudo há muita verdade.

Pior ainda: nós não conhecemos sua natureza e sua história. Somos analfabetos e ignorantes da história que se realizou nos nossos lugares no percurso de milhares e milhares de anos. Não nos preocupamos em conhecer a flora e a fauna, as montanhas, os rios, as paisagens, as

A causa principal deriva do modo como costumamos tratar  a natureza. Ela é generosa para conosco pois nos oferece tudo o que precisamos para viver. Mas nós, em contrapartida, a consideramos como um objeto qualquer, entregue ao nosso belprazer, sem nenhum sentido de responsabilidade pela sua preservação nem lhe damos alguma retribuição. Ao contrario, tratamo-la com violência, depredamo-la, arrancando tudo o que podemos dela para nosso benefício. E ainda a transformamos numa imensa lixeira de nossos dejetos.

pessoas significativas que ai viveram, artistas, poetas, governantes, sábios e construtores. Somos, em grande parte, ainda devedores do espírito científico moderno que identifica a realidade com seus aspectos  meramente materiais e mecanicistas sem incluir nela, a vida, a consciência e a comunhão íntima com as coisas que os poetas, músicos e artistas nos evocam em suas magníficas obras. O universo e a natureza possuem história. Ela está sendo contada pelas estrelas, pela Terra, pelo afloramento e elevação das montanhas, pelos animais, pelas florestas e pelos rios. Nossa tarefa é saber escutar e interpretar as mensagens que eles nos mandam. Os povos originários sabiam captar cada movimento das nuvens, o sentido dos ventos e sabiam quando vinham ou não trombas d’água.  Chico Mendes com quem participei de longas penetrações na floresta amazônica do Acre sabia interpretar cada ruído da selva, ler sinais da passagem de onças nas folhas do chão e, com o ouvido colado ao chão, sabia a direção em que ia a manada de perigosos porcos selvagens. Nós desaprendemos tudo isso. Com o recurso das ciências lemos a história inscrita nas camadas de cada ser. Mas esse conhecimento não entrou nos currículos escolares nem  se transformou em cultura geral.

Antes, virou técnica para dominar a natureza e acumular. No caso das cidades serranas: é natural que haja chuvas torrenciais no verão. Sempre podem ocorrer desmoronamentos de encostas.  Sabemos que já se instalou o aquecimento global que torna os eventos extremos mais freqüentes e mais densos. Conhecemos os vales profundos e os riachos que correm neles. Mas não escutamos a mensagem que eles nos enviam que é: não construir casas nas encostas; não morar perto do rio e preservar zelosamente a mata ciliar. O rio possui dois leitos: um normal, menor, pelo qual fluem as águas correntes e outro maior que dá vazão às grandes águas das chuvas torrenciais. Nesta parte não se pode construir e  morar. Estamos pagando alto preço pelo nosso descaso e pela dizimação da mata atlântica que equilibrava o regime das chuvas. O que se impõe agora é escutar a natureza e fazer obras preventivas que respeitem o modo de ser  de cada encosta, de cada vale e de cada rio. Só controlamos a natureza na medida em que lhe obedecemos e soubermos escutar suas mensagens e ler seus sinais. Caso contrário  teremos que contar com tragédias fatais evitáveis.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor :: www.leonardoboff.com


Ciência

^ O ALERTA DE VENUS Por Hemerson Brandão Concepção artística de como seria a superfície de Vênus Foto: ESA, J. Whatmore


M

esmo nos dias atuais é comum ouvirmos pessoas confundirem o Planeta Vênus como uma estrela e nomeálo como Estrela Dalva, Estrela Vespertina, Estrela do Pastor, entre outros. Devido ao seu belo e forte brilho no céu este planeta recebeu na antiguidade o nome de Vênus, a deusa romana do amor e da beleza. No entanto, apesar de possuir atributos de deusa, Vênus pode ser considerado como um planeta hostil. Vênus é o segundo planeta em distância do Sol. Ele possui tamanho, composição química e densidade similares ao nosso planeta e por muito tempo se acreditou que embaixo de suas espessas nuvens existiria um planeta muito parecido com a Terra, inclusive com formas de vida. Porém, após as primeiras sondas interplanetárias se aproximarem de Vênus, ficou constatado que ele na verdade é o planeta menos hospitaleiro de todo o Sistema Solar. Dados enviados mostraram que a temperatura na superfície de Vênus ultrapassa os 400° C, o suficiente para derreter chumbo. Sua atmosfera é

composta principalmente por dióxido de carbono e é tão densa que chega a ser 90 vezes mais pesada que a atmosfera da Terra. Se fôssemos para Vênus seriamos esmagados pelo peso do ar. O seu forte brilho é causado pelas nuvens de ácido sulfúrico que cobrem todo o planeta e o deixam permanentemente nublado.

o momento que se criou um efeito estufa extremo e irreversível que vemos hoje em Vênus.

Cientistas acreditam que há bilhões de

Efeito estufa similar está ocorrendo nesse momento na Terra, mas ao invés das rochas, o dióxido de carbono que está sendo lançado na atmosfera sai pelo escapamento de nossos carros, e que tem provocado o atual aquecimento global.

anos Vênus era muito parecido com a Terra, e até mesmo com grande quantidade de água em estado líquido na superfície. Porém, com a proximidade com o Sol, as rochas venusianas começaram a liberar dióxido de carbono na atmosfera, gerando um efeito estufa natural. Com o aumento da temperatura global, mais dióxido de carbono foi lançando na atmosfera até

Caso não tomarmos medidas urgentes corremos o risco desse processo se tornar irreversível, assim como foi em Vênus. Dessa forma, ver o forte brilho de Vênus no céu no entardecer, serve como um alerta diário de como devemos adotar práticas sustentáveis em nosso dia a dia, para que no futuro não transformarmos nosso belo planeta num verdadeiro inferno.

Imagem panorâmica da superfície de Vênus fotografada por uma das sondas que conseguiram pousar no planeta Foto: Soviet Planetary Exploration Program, NSSDC

Hemerson Brandão é estudioso em Astronomia e Acadêmico de Jornalismo


VĂŞnus fotografado pela sonda Mariner 10 em 1974 Foto: NASA, Calvin J. Hamilton


Mãe e filha observam painel no Catavento: espaço para todas as idades

Catavento

ciência e interatividade

C

riado em 2007 e ocupando o belo Palácio das Indústrias, em São Paulo, o espaço cultural Catavento apresenta a Ciência, a História e temas sociais de um modo inovador para jovens e crianças. A interatividade é o grande atrativo ao público, que pode participar de atividades e fazer experimentos durante a visitação ao espaço. São 4.000m² divididos em quatro seções: Universo, Vida, Engenho e Sociedade. O Catavento fica no Parque Dom Pedro II e pode ser visitado de terça a domingo, das 9h às 17h. A entrada custa R$ 6,00 e tem estacionamento exclusivo por R$ 5,00.

(Ana Melo)


Mundo

Um País Basco Por Ana junqueira

E

m visita ao Norte da Espanha, acompanhada de amigas, descubro enfim o que é ser Basco, uma identidade própria e forte, que parece existir além do pertencimento oficial ao território espanhol. Em Bilbao, Logroño (região de La Rioja) e Donostia (digo San Sebastian), nos demos conta do que é, verdadeiramente, o País Basco, que vai além das fronteiras da Espanha e chega ao Sul da França. Homens lindos. Mulheres produzidas e charmosas, povo garrido e acolhedor. A região tem hoje autonomia

administrativa reconhecida após a queda do ditador Franco, mas ainda sofre com a discriminação dos demais espanhóis por serem bravos defensores de suas origens. A cidade de Bilbao é um exemplo de pujança econômica e planejamento urbano. Antigamente industrial, escura e feia, está restaurada em seus palacetes antigos e harmonizados à arquitetura contemporânea, o que ocorreu após a construção do museu Guggenheim do arquiteto Frank Guehry, escultura monumental a céu aberto.


Logroño é a região dos vinhos La Rioja, no vale do Rio Ebro. Ah! Quanta degustação! Baco é de lá, certamente! As plantações se espalham pelo vale. Pequenos e médios produtores, muitos hotéis/ paradores fortalecendo o rentável turismo, entre vilas cercadas por muralhas medievais totalmente preservadas. De grandes propriedades, algumas Bodegas, digo, vinícolas, tais como a famosa casa Spa e hotel cinco estrelas do Marqués de Riscál, em Elciego. Ao lado do pavilhão antigo da propriedade, o arquiteto Frank Guehry construiu o hotel no estilo do Guggenheim, de aço, porém na forma das folhas das parreiras e nas cores rosa (do vinho), dourado (dos tonéis de madeira) e prateada (lembrando os rótulos do vinho Marqués de Riscal. Em Logroño, capital da região, comemoramos a passagem de ano sorvendo vinho, brindando com champagne, comendo 12 uvas (latinha com essa quantidade exata) antes das 12 badaladas da meia-

noite e fazendo 12 pedidos. É a tradição local.  No dia seguinte, primeiro do ano de 2011, partimos para San Sebastian (Donostia, em Basco), cidade praiana no limite com a França, com comércio de alto padrão e gastronomia mundialmente reconhecidos, iguarias para se comer e beber a genoux (de joelhos) como diriam os vizinhos franceses de Biarritz e de Bayonne (cidades bascas da França). Dia 3, de volta a Bilbao, para mais uma estadia no Hotel Barceló Nervión, quase em frente ao Guggenheim. Por lá ouvimos lendas dos Bascos sobre as mulheres bruxas (poderosas) que se reuniam no monte chamado Akelarre, cuja padroeira seria Mari, simbolizada por uma estrela cometa. Imaginem o que nós, brasileiras (também poderosas), aprontamos no bar do hotel: uma reunião Akelarre com a mesma energia das bruxas medievais. O coitado do garçon, diante de tanta vibração, até quebrava copos .... e o vinho correu solto e sábio! Amém.

Ana Junqueira é Matemática, Professora Universitária e Coordenadora Pedagógica

Rio que passa pela cidade visto da ponte, em Burgos


Burgos

Ă rvores tĂ­picas fazem um caminho que sugerem uma Guarda Real


Catedral gótica de Burgos Na Idade Média, foi o mais importante mosteiro feminino de Castela, abrigando raparigas pertencentes à alta nobreza e da família real castelhana


O Mosteiro de Santa MarĂ­a la Real de Las Huelgas ĂŠ um mosteiro feminino em Burgos


Donostia San Sabastian Cidade murada, regiĂŁo da cidade de Donostia-San SebastiĂĄn


Comércio e residências na região de San Sebastián


Donostia-San Sebastián é a capital da província de Gipuzkoa - a parte Vieja é a área tradicional da cidade, cercada por paredes até 1863


Mural de um palรกcio, hoje transformado em hotel


Vitral em estação ferroviária em Bilbao


Logroño Capital da provincia de la Rioja

As ruas estreitas sem tráfego de veículos é um charme a parte


Hotel MarquĂŠs de Riscal, planejado por Frank O. Gehry


Bilbao

O Museu Guggenheim Bilbao é um dos cinco museus pertencentes à Fundação Solomon R. Guggenheim no mundo


Projetado pelo arquiteto Frank Gehry o museu ĂŠ um dos locais mais visitados da Espanha


Casilde Iturriza Park, onde fica o Museo de Bellas Artes de Bilbao


Uma das vias principais de Bilbao dรก acesso ao museu


Arte

~

Crise economica e imigracao , ~ ilegal sao discutidas em Biutiful ^

Por Luis Pires

A

crise financeira desencadeada pelos Estados Unidos em 2008, transformou-se rapidamente numa crise econômica mundial, que atingiu mais duramente os países da Comunidade Européia. Dentre eles, um dos que mais a sentiu foi a Espanha – a oitava economia do mundo e a quarta da Europa. Os espanhóis viveram entre 1994 e 2007, um boom econômico ocasionado por vários fatores, entre os quais o desenvolvimento industrial do País Basco, uma das regiões mais ricas e mais belas do país (ver matéria nesta mesma edição). E também o crescimento ocasionado pela construção civil, ao lado dos serviços domésticos, o principal campo para os imigrantes. Durante mais de uma década foram construídas anualmente mais de 100 mil novas residências, mas em 2009 este número teve uma redução drástica de 80%. Após acumular três anos de PIB negativo, o desemprego

Luis Pires é jornalista e escreve regularmente em http://mundokino.wordpress.com/

atingiu em 2010 quase 5 milhões de trabalhadores, mais de 20% da população econômica ativa, expondo as debilidades da economia espanhola. Em dezembro passado o governo adotou medidas para beneficiar o emprego e o investimento com a redução de impostos a pequenas e médias empresas e para autônomos. Mas os especialistas apontam como ineficácia da capacidade inovativa da economia espanhola a fragmentação de suas empresas: mais de 95% das 3,4 milhões delas tem menos de 20 empregados. Metade formadas apenas pelo proprietário. No lado social, a crise também atingiu os serviços públicos e os programas sociais. Além do fim do auxílio extraordinário de 426 euros concedido aos desempregados, o governo estuda privatizar 30% das Loterias do Estado, 49% da Aeropuertos Españoles y Navegación Aérea (Aena) e 100% da gestão dos dois principais aeroportos do país, Barcelona-El Prat e MadriBarajas.


“Biutiful” e a questão da imigração ilegal Se já tem problemas sérios com seus próprios cidadãos, a Espanha – assim como toda a Comunidade Européia – ainda tem enfrentado um problema social de difícil solução: a questão dos imigrantes ilegais. No ano passado o Parlamento Europeu, formado por países do bloco, aprovou uma lei pela qual imigrantes considerados ilegais podem permanecer presos em centros especiais de detenção por até 18 meses, sem julgamento, até que sejam deportados. Mesmo com este endurecimento, nos grandes centros é cada vez maior o número deles espalhados pelas ruas, explorando o comércio informal e vivendo em situações bastante precárias. “Biutiful”, o novo filme do diretor mexicano Alejandro González Iñarritu, que concorre ao Oscar de Filme estrangeiro, traz este tema para a discussão. Embora curta, a carreira do diretor mexicano é consistente. Com parceria do roteirista Guillermo Arriaga, foi responsável por “Amores Brutos”, “21 Gramas” e “Babel”, todos bastante elogiados por crítica e público. Ao contrário destas obras, cujas histórias são apresentadas de maneira fragmentada, em “Biutiful” Iñarritu optou pela narrativa linear, se atendo praticamente a um único personagem, rodado em uma única cidade. Uma Barcelona escura, de cortiços

e quartos sujos e mofados, nos é mostrada através de Uxbal (Javier Bardem), pai devotado detentor da guarda dos dois filhos, que vive às turras com a ex-esposa viciada e com distúrbios de bipolaridade. Ele sobrevive explorando o trabalho de imigrantes senegaleses e asiáticos e corrompendo policiais que dão cobertura aos seus negócios escusos. Quando se descobre condenado por uma doença, o trágico herói tenta buscar a redenção, mas tudo o que faz parece complicar ainda mais o seu pouco tempo de vida. Impossível não se comover com a brilhante interpretação de Javier Bardem para um personagem em queda livre física e emocional. Não por acaso, o ator foi o responsável pela segunda indicação do filme ao Oscar, justamente a de Ator Principal. A parceria de Bardem com o diretor Iñarritu resultou em uma obra densa, simplesmente perturbadora. É um destes filmes que perduram no pensamento, mesmo depois que as luzes se acendem e sobem os letreiros. Um verdadeiro murro no estômago do espectador. Retrato de uma Espanha que luta para se recuperar economicamente, mas que possivelmente só conseguirá alcançar este objetivo a longo prazo.


FOTOS: LUCIANA MEIMBERG

Caminhos

E

m noite de verão, encontrome com Mestre White, tricampeão mundial de Taekwondo, para uma entrevista, e descubro a humildade e a generosidade que marcam sua história de vida. Na academia, para a aula dessa noite, estão cerca de 100 crianças e adolescentes que, carinhosamente, colocam-se em fila para abraçá-lo antes de começarem a prática. Aos 35 anos, solteiro, White tem mais de 300 “filhos”, alunos do Projeto Cidadão Campeão, criado por ele há quatro anos, atendendo crianças de baixa renda, na estância de Atibaia, a 60 km de São Paulo. Sozinho, sem nenhum tipo de ajuda financeira ou patrocínio, alimenta os sonhos e faz crescer a força de vontade dos pequenos futuros campeões, que se inspiram no exemplo do mestre e nas dezenas de medalhas e troféus exibidos nas

Lições do

paredes da sala de aula. Enquanto aguardo os cumprimentos iniciais dos alunos, sento-me ao lado de dona Eunice Chaves, mãe de dois filhos que frequentam o projeto. Ela conta que as aulas contribuíram para a disciplina das crianças. “O professor é um exemplo de vida. Meus filhos hoje são mais educados e obedientes graças a ele”. Apesar disso, o mestre é rígido em seus princípios e revela: “se não estudar e tiver boa conduta em casa, não fica no projeto”. Nascido em Natal, White Wagner Pinheiro Mendonça foi levado para o Rio de Janeiro ainda bebê, acompanhando as mudanças freqüentes do pai, militar e também boxeador. A mãe, dona de casa, é lembrada com carinho, mulher que sempre apoiou os sonhos do filho.

MESTRE


Crianças fazem abertura durante treino na academia de Mestre White; abaixo a pequena Tamires Vilanova, que ao chegar na academia corre nos braços do querido mestre.

Chang Tso Tai chegou de Taiwan há 15 anos portando o 1º dan (graduação). Por meio do treinamento com White, chegou ao 4º dan, categoria almejada por muitos que praticam o esporte.


No Rio, aos 10 anos, conheceu Grão Mestre Kim, dando início à prática do Taekwondo. Com 16, começou a participar de campeonatos, mas foi nos tatames de São Paulo que conheceu a vitória. Aos 20 anos, já havia conquistado três títulos nacionais. Aos 28, tornou-se mestre e conquistou o sul-americano de Taekwondo e de Hapkido. Sobre o projeto, White diz que as crianças são como anjos que iluminam sua vida. Conta que tudo começou quando uma mãe aflita o procurou pedindo bolsa de estudos para os três filhos, que, segundo ela, viviam na marginalidade e precisavam ocupar o tempo para não ficarem na rua. Na época, sua academia contava com 70 alunos pagantes e o mestre concedeu as bolsas. Apesar disso, um dos três garotos, já usuário de drogas, cometeu suicídio, o que lhe causou imensa tristeza. “Foi um ‘start’ que tive naquele momento, um sinal para que criasse um projeto social. Imaginei que teria um papel importante e uma missão dali pra frente”. Assim, a academia deixou de cobrar mensalidades e passou a receber crianças de todos os lugares. White teve que se mudar para um espaço mais amplo. Seus alunos logo passaram a representar Atibaia em campeonatos e, na primeira participação do Taekwondo em Jogos Regionais, conquistaram o 3º

lugar. Depois disso, White afirma que foram mais seis medalhas de ouro no World Open, em 2009, além de três medalhas de ouro no Brazil Open, em 2010, que teve a participação da seleção universitária da Coréia. Com tantas conquistas, mais crianças apareceram e hoje somam 322, divididas em quatro turmas em quatro bairros de Atibaia, sendo 180 na sede, no bairro do Alvinópolis. O sucesso do projeto levou a Prefeitura da cidade a uma parceria com a escola junto ao bairro do Tanque, onde várias crianças são atendidas. Em dezembro de 2010, White formou os primeiros professores, todos faixas pretas. E continua garantindo a manutenção da escola, apesar da gratuidade oferecida aos alunos, com quem mantém uma relação de carinho e respeito. No início da aula e ao final, as saudações ao mestre são uma cena à parte. A atenção a cada uma das crianças é de encher os olhos. São como filhos, ligados a ele pelos ensinamentos e pelo afeto que recebem, que a cada treino se renova, gerando uma energia capaz de renovar as esperanças e mover uma montanha imensa, talvez uma “Pedra Grande”, ponto de partida para vôos cada vez mais altos.* * A Pedra Grande é um dos pontos turístico de Atibaia, se localiza a 1.450 metros acima do nível do mar. A partir da Pedra Grande é possível ver, em dias com boa visibilidade, sete municípios.

O menino Edmilson, de 7 anos, melhor luta em evento realizado em São José dos Campos; abaixo, crianças em formação aprendem desde cedo a disciplina e o respeito.


Mestre White atento ao movimento dos seus discípulos: dedicação integral ao Projeto Cidadão


CONQUISTAS CIDADÃS

Em janeiro de 2011, vários alunos conquistaram medalhas na 2ª Copa América de Taekwondo, realizada em São José dos Campos nos dias 24 e 25. A competição contou com mais de 500 atletas de sete estados brasileiros, além de representantes do Chile e Argentina. Os alunos de Mestre White enfrentaram atletas que recém chegaram de treinamentos na Coréia bem como outros patrocinados por clubes que pagam altos salários a seus atletas. Ainda assim, a atleta Thais Kary, com 10 anos, conquistou o primeiro lugar na competição, Lucas Leite, 17 anos, o 2º e Emerson Souza, 15 anos, o 3º lugar (todos participando de competições pela primeira vez), além do pequeno Edmilson Pereira da Silva, 7 anos, que fez a melhor luta do evento.

WHITE: UNIÃO DE TODAS AS CORES Para o Mestre, seu nome tem um significado especial. “O branco é a união de todas as cores e traduz um pouco o meu nome. Comecei na faixa branca e hoje tenho crianças de todas as idades e classes sociais, de todas as cores e com faixas também de várias cores”. O projeto campeão vai além do nome que ostenta. “O mundo tem muita drogas, más companhias e as pessoas estão deixando de acreditar nos seus sonhos. O projeto leva ao jovem o sonho de ser campeão e não se contentar apenas com o que a vida hoje lhe oferece, mas ser um bom atleta, construir uma vida melhor, pensar somente em coisas boas e ser um cidadão campeão”, explica. Mestre White dedica o Projeto Cidadão à sua mãe e se emociona ao comentar. “Minha mãe foi uma grande incentivadora, não tinha estudos, mas sempre foi uma grande pessoa”. Segundo ele, o esporte ensina que podemos aprender muito com a derrota. “Hoje podemos ser derrotados, mas o amanhã pode ser diferente e devemos andar sempre de cabeça erguida. O sonho é o alimento da alma”.

Uma verdadeira familia, onde disciplina e repeito são indispensaveis


Quadrinhos


Kalango 5