SERTÃO EM MIM

Page 1


SERTÃO EM MIM

FABIANA BEZERRA

II prêmio literário demócrito Rocha

SERTÃO EM MIM

FABIANA BEZERRA

II prêmio literário demócrito

Rocha

Fortaleza, 2025

Copyright @ 2025 by Fundação Demócrito Rocha

Edições Demócrito Rocha

(Marca registrada da Fundação Demócrito Rocha)

Presidente

Luciana Dummar

Gerente-Geral

Marcos Tardin

Gestores da Editora

Marcos Tardin

Deglaucy Jorge Teixeira

Juliana Oliveira

Assistente Administrativo-Financeiro

Brenna Kelly

Gerente de Marketing e Design

Andrea Araújo

Design

Welton Travassos

Este Livro é parte integrante do projeto II Prêmio Literário Demócrito Rocha, em atendimento ao Edital Mecenas do Ceará 2025.

Projeto II Prêmio Literário

Demócrito Rcoha

Concepção e Coordenação Geral do Projeto

Valéria Xavier

Estratégia e Relacionamento

Adryana Joca

Dayvison Alvares

Editor

Daniel Oiticica

Projeto gráfico e edição de arte

Andrea Araujo

Designers

Kamilla Damasceno e Welton Travassos

Analista de Operações

Alexandra Carvalho

Analista de Projetos

Elizabete Dantas

Fotos

João Ferreira e Iago Barreto

Revisora

Damares Magalhães

Ilustrações

Carlus Campos

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD

R672s Rocha, Fabiana Bezerra

Sertão em Mim [recurso eletrônico] / Fabiana Bezerra Rocha ; ilustrado por Carlus Campos. - Fortaleza : Fundação Demócrito Rocha, 2025.

il. : PDF ; 3.009 KB.

ISBN: 978-65-5383-202-2 (ePUB)

1. Literatura brasileira. 2. Sertão. 3. Fé. 4. Religiosidade. 5. Cultura Popular. I. Campos, Carlus. II. Título.

CDD 869.8992

2025-5655

CDU 821.134.3(81)

Elaborado por Vagner Rodolfo da Silva - CRB-8/9410

Índice para catálogo sistemático:

1. Literatura brasileira 869.8992

2. Literatura brasileira 821.134.3(81)

Todos os direitos desta edição reservados à

Av. Aguanambi, 282/A - Joaquim Távora

CEP 60055-402 - Fortaleza-Ceará

Telefone (85) 3255.6007 / WhatsApp: (85) 99183.8515

edicoesdemocritorocha fdr.org.br | livrariaedr.org.br |

PREFÁCIO Um passeio sem volta

Oexercício artístico nos possibilita a experiência de inauguração de vistas, mesmo daquelas coisas, imagens, ideias já vistas anteriormente, não deixando, dessa maneira, que o mundo e a vida caiam em um ostracismo de um mais do mesmo.

O Prêmio Demócrito Rocha, já em sua segunda edição, a trazer como temática a relação do homem/mulher cearense com a geografia da terra, quer seja o sertão, as serras ou o litoral, valorizando autores que expressam, com palavras, a relação do nosso povo com o seu lugar, nos possibilita, a partir disso, enxergar um Ceará de um hoje, contemporâneo, e ao mesmo tempo intersecionado ao Ceará de sempre, possibilitando outras perspectivas de enxergá-lo, fundamental para que estereótipos sejam quebrados e que novos debates se tornem possíveis.

O poeta Artur Eduardo Benevides, ao explorar a temática literatura cearense, diz que “O Ceará [é], ele próprio, um personagem poético e romanesco, sobretudo pelo orgulho e amor com que o contemplam os seus escritores [...]”. Confirmando tal pensar, o Prêmio Literário Demócrito Rocha, além de fortalecer a prática literária e o mercado editorial com a publicação de obras inéditas, fomenta e amplia o sentimento de pertencimento cultural do cearense, com a apresentação de vistas contemporâneas desse estado tão vasto e plural, e que se reinventa dia a dia.

Em três categorias, Prosa de Ficção, Ensaio Social e Poesia, as obras vencedoras, Peixes Indóceis em mar revolto de Igor Moreira de Sousa Pin-

to, Raízes da Terra de Rayane Aline Pereira Lopes, e Sertão em mim de Fabiana Bezerra Rocha, respectivamente, celebram no seu cerne o ser cearense e a construção mútua da dualidade lugar/indivíduo, como uma experiência única. Afinal, as pessoas que fomentam a territorialidade ou seria o inverso?

Na verdade, a possibilidade de ser E não ser seria a melhor resposta. A geografia em seus diversos aspectos a se construir e se escrever também no e pelo corpo daqueles são o campo, são a rua nas praias, serras e sertões de todo o estado, e vice-versa. A partir disso é onde de fato o Ceará e o sentimento de cearensidade e de pertencimento moram e se ampliam. Além de celebrar tudo isso, torna-se importante a celebração da continuidade de um prêmio que já se consolida dentro do calendário cultural do Ceará, preocupado em descobrir cada vez mais nuances do que nosso povo e lugar têm para dizer.

Tendo a honra de estar como curador do concurso e acompanhar todo o seu processo, digo que saio um pouco mais cearense desde quando iniciei esta experiência, diante disso, indico cada um e cada uma a passar por ela. É um passeio sem volta.

Mailson Furtado, jornalista e escritor, curador do Prêmio Demócrito Rocha

A PALAVRA DOS JURADOS

Opoeta Artur Eduardo Benevides, ao explorar a temática literatura cearense, diz que “O Ceará [é], ele próprio, um personagem poético e romanesco, sobretudo pelo orgulho e amor com que o contemplam os seus escritores [...]”. Confirmando tal pensar, o Prêmio Literário Demócrito Rocha, já em sua segunda edição, trouxe como temática a relação do homem/mulher cearense com a geografia da terra, quer seja o sertão, as serras ou o litoral, valorizando autores que expressam, com palavras, a relação do nosso povo com o seu lugar. Tal concurso, além de fortalecer a prática literária e o mercado editorial com a publicação de obras inéditas, fomenta e amplia o sentimento de pertencimento cultural do cearense, com a apresentação de vistas contemporâneas desse Estado tão vasto e plural, e que se reinventa dia a dia. Enquanto jurado, fico feliz em celebrar a continuidade de um prêmio que já se consolida dentro do calendário cultural do Ceará, e sempre preocupado em descobrir cada vez mais nuances do que nosso povo e lugar têm para dizer. Sem dúvidas, saio um pouco mais cearense desde quando iniciei esta experiência, e indico cada um a passar por ela.

Mailson Furtado, jurado da categoria Poesia

Compor o júri do Prêmio Literário Demócrito Rocha é, além de uma honra, também a possibilidade de contato com a efervescência da atual produção literária no Ceará. As obras poéticas lidas, nessa segunda edição do Prêmio, demonstraram essa vivacidade. Foram obras muito diversas, que trilham diferentes caminhos poéticos, desde a proximidade à estética do cordel a outras experimentações visuais, desde obras em que se lê um olhar mais detido sobre dilemas da vida social a outras em que essa preocupação, não deixando de estar presente, ganha forma tramada a nuances mais intimistas.

Foi extremamente interessante a leitura dessas obras e as diferentes possibilidades com que elas intentaram dar conta, na forma poética, da “ênfase na relação do homem/mulher cearense com a geografia da terra” – eixo norteador dessa edição. As diferentes perspectivas de entendimento para essa “geografia da terra”, e as diferentes formas dela ser escrita, mostrou o quanto é pulsante a poesia que por aqui se faz.

Dercio Braúna, jurado da categoria Poesia

ONDE O SER SE FAZ

TERRA: A POÉTICA DE FABIANA BEZERRA

Aobra Sertão em Mim, de Fabiana Guimarães, é uma travessia poética que transcende o espaço físico do sertão para desvelar o território simbólico, espiritual e feminino que nele habita. Dividido em vinte e três seções, o livro se estrutura como uma ladainha do ser — uma peregrinação lírica em que o eu poético se reconhece nas múltiplas faces do sertão, da fé, da natureza e da própria linguagem. É um livro que une a tradição à invenção, a religiosidade popular à introspecção filosófica, o corpo à terra, o verbo ao silêncio.

Desde o início, a autora estabelece um diálogo com Guimarães Rosa, cuja epígrafe (“Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte que o poder do lugar”) anuncia a concepção do sertão como espaço existencial. Em Sertão em Mim, o sertão não é apenas paisagem árida, mas

condição de alma. O poema inaugural sintetiza esse princípio: “SERTÃO em mim / SER TÃO em mim. / SER.”

Essa tripla repetição e desdobramento gráfico cria uma poética da identidade, na qual o verbo “ser” é o núcleo de um ciclo ontológico que liga o humano ao natural, o corpo ao cosmos. O sertão é a morada e o espelho — uma topografia do ser. A linguagem, de cadência orante e imagética, busca não descrever, mas encarnar o sertão: “Sertão é milagre de renascer a cada hora de sol”, escreve a autora, transformando o calor e a secura em metáforas de resistência e transcendência.

O livro, vencedor do Prêmio Literário Demócrito Rocha na categoria Poesia, é um verdadeiro rito de passagem escrito em versos longos e cadenciados, que soam como ladainhas, preces e cânticos. A identidade emerge não como essência fixa, mas como fluxo — um contínuo renascer, uma metamorfose tecida entre o que é humano e o que é natureza.

O que a poeta propõe é uma experiência ontológica e espiritual do sertão. Ele não é apenas geografia, mas cosmogonia: o princípio e o fim de todas as coisas. Em Sertão em Mim, o sol, a pedra, o orvalho e o cacto não são meras imagens, mas manifestações do divino. Cada elemento do ambiente sertanejo — o açude seco, as flores murchas, as rendas queimadas, o pó — é convertido em símbolo de resistência e de revelação. A aridez, que em outros contextos seria sinônimo de morte, aqui é o terreno da ressurreição: “Sertão é milagre de renascer a cada hora de sol.” O sertão é o lugar onde a dor se transforma em beleza e a escassez se converte em potência criadora.

Esse processo de transfiguração é também o modo pelo qual a autora constrói uma poética feminina da existência. Fabiana Guimarães inscreve o corpo da mulher como território sagrado — extensão da terra e do verbo. Nos poemas “SER MARIAS”, “SER CACIMBA” e “SER EM TI”, o feminino aparece como força de criação, de fecundidade e de cura. A mulher é quem gera, quem acolhe, quem guarda os segredos da vida. É no corpo feminino que o sertão floresce e encontra redenção. As “sete Marias”,

“sete flores”, “sete vidas” evocadas no texto formam uma liturgia da ancestralidade: uma sucessão de vozes femininas que costuram o sagrado e o profano, o místico e o terreno, o gozo e a oração.

Há, em Sertão em Mim, uma tensão entre o erótico e o espiritual, mas essa tensão não se resolve em conflito — ela se harmoniza. O corpo é instrumento da revelação divina. Quando a poeta escreve “Minha boca receberá teu lírio, liricamente”, o erotismo é também mística; o toque, uma forma de comunhão. Essa fusão entre fé e desejo é uma das marcas mais fortes da obra, porque desarticula a oposição histórica entre corpo e alma, e restitui à mulher o direito de sentir e criar a partir de si mesma. O sagrado é experimentado pela carne, e não em oposição a ela.

Outro aspecto essencial do livro é a consciência da linguagem como corpo e matéria. Fabiana Guimarães faz da palavra um ser vivo, que nasce, pulsa e se move como o vento do sertão. “Nasce de mim a palavra parida no ventre da língua”, escreve a autora, e nesse verso se condensa a sua visão da poesia como parto e revelação. O texto se constrói com um lirismo de natureza ritualística, em que o som e o ritmo têm função encantatória. Há musicalidade na repetição, na aliteração, na variação das formas verbais — uma oralidade que aproxima o poema das rezas, cantigas e preces populares. A linguagem é o meio pelo qual a poeta experimenta o mundo e também o reconstrói; é instrumento de conhecimento e de cura.

Nos segmentos finais do livro, a temática da morte se transforma em experiência de transfiguração. Em “SER RESSUSCITADO”, o reencontro com o pai morto é descrito com serenidade e ternura, como se a morte fosse apenas um outro estado do amor. O gesto de “fiar o linho azul” ao lado do pai ressuscitado simboliza a continuidade da vida, a permanência da alma e a reconciliação entre o humano e o divino. Já em “SER REMISSÃO”, a voz poética retorna à igreja e reinterpreta o sacramento da

confissão, não mais como ato de culpa, mas de libertação: o sagrado é reintegrado à vida cotidiana, às frutas do quintal, às águas do rio, ao doce de caju. A espiritualidade se faz imanente, concreta, sertaneja.

Ao chegar às seções “SER POESIA”, “SER VIDA” e “SER PLENITUDE”, a travessia encontra seu destino: o ser reconciliado com o mundo. O sertão, que antes ardia de dor, agora floresce como fonte de sabedoria e beleza. A poesia, nesse ponto, torna-se a própria forma do existir. Fabiana Guimarães define a poesia como força orgânica presente em tudo o que vive: “Porque poesia em tudo há. Aquele que a enxerga enxerga o que há além”. O olhar poético é, assim, a capacidade de ver o invisível — de captar o mistério que sustenta o real.

O mérito de Sertão em Mim não está apenas na qualidade estética dos versos, mas na densidade filosófica e simbólica com que a autora revisita o imaginário sertanejo. Trata-se de uma obra que amplia a tradição literária do Nordeste, inserindo-a em uma dimensão universal. O sertão de Fabiana é o sertão de dentro: espaço da memória e da transcendência, da mulher e do verbo, do nascimento e do retorno. Sua poesia é um testemunho de resistência e delicadeza, um cântico à beleza escondida na aridez e à força que brota do silêncio.

O reconhecimento pelo Prêmio Literário Demócrito Rocha é, portanto, a consagração de uma voz que transforma a paisagem em espírito e o espírito em palavra. Sertão em Mim é mais do que um livro: é uma confissão de fé na poesia e na vida. Ao transformar a secura em fonte, o pó em verbo e o sertão em espelho, Fabiana Guimarães reafirma que o ser humano — como a terra que habita — é capaz de renascer a cada sol. O sertão, em sua escrita, deixa de ser metáfora de carência para se tornar lugar de plenitude. E é nesse gesto de transformar o deserto em manancial que reside a força e a beleza desta obra luminosa.

Daniel Oiticica, editor

SERTÃO EM MIM

“Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso...”

Guimarães Rosa I SERTÃO

SERTÃO em mim

SER TÃO em mim.

SER.

II SERTÃO

Os sertões em mim povoam

Mistérios de rosas murchas,

Pé de flor espinho

E primavera de cactos.

Sertão é milagre de renascer

A cada hora de sol,

Que arde no peito a extrema dor,

De queimar fios, rios, rendas, resmas.

Rês a pastar em meu corpo,

Restos de líquidos.

É fazer, refazer,

É colher e colher,

Com as mãos

Gotas de orvalhos

Em mandacarus.

Os sertões nasceram à beira de mim

Rumando os trópicos,

Luas mansas, ainda mornas,

Sobre crepúsculos,

Que descem do céu em fogo,

Abrasando a terra,

Acendendo o mar que se avizinha

Em outras plagas,

Próximas,

Tal o amor,

Que se faz perto

E me adivinha,

Tal canção,

Que se faz fluida

E me povoa.

Sertão é coisa viva,

Que pulsa, vibra, Esquenta a pele, a alma, o corpo,

Faz estio e fertiliza

A carne desfalecida

De desejos, no ensejo de ser vida?

Servida na correnteza do açude,

Que ele ressuscitará.

Sertão em mim

Choca ciclos

Da terra, da treva,

Da eternidade.

III

SERTÃO

Sertão em mim é mistério,

Que ilude meus olhos de desejos

Por tocar na secura que arde

A brasa acesa,

No manto deserto do açude,

Desvendado em areias brancas

Quase poeira de água,

Que o vento leva, Leva, leva, leva...

Leve.

Para no infinito

Derramar em correntezas,

Que meus olhos, Iludidos, jorrarão

Sobre os cactos floridos.

Sertão em mim é milagre

De coisas que se renovam

Entre a ponta dos meus dedos,

Apontando estrelas

Cadentes dentre a caatinga estralada de brilhos crepusculares.

Sertão é vermelho

É guerreiro de sol

E descobre invernos

Inventando safras

De ressurreição.

Sertão tem esporas,

Que espinham o dorso

Arranham as ancas

Entre luas mornas.

Busco entre os sertões

Mares dissolvidos

Em pedras de sal e rocha,

Que construíam marés e rotas,

Para embarcações.

Busco pedras preciosas,

Ouro, mirra, prata em pó,

Tropas de potros

Esperas;

Longas esperas tecidas.

Infinitos rumos.

Até apontarem,

Os sertões em mim,

Aportando em meu corpo

A fonte seca das águas,

Que dá a beber da sede

Em minha boca renovada.

SER MARIAS

Sete mortes,

Sete Lourdes,

Sete Marias de Deus,

Do santo Divina Graça.

Sete vidas adornadas

Entre as flores do jardim,

Nos jasmins entristecidas

A clamar por querubins.

Sete rosas brancas,

Sete lírios brancos,

Sete flores de laranja

A jorrar sete perfumes

Entre setes lumes do sol.

Sete linhos brancos

Brandos prantos,

Panos brancos,

Bordando em ponto cruz, Longos rosários de luz.

Sete flores de damasco,

Sete flores de limão,

Pra remir sete pecados

Já enterrados no chão

Entre flores de algodão.

Sete seivas de alfazema

Pra sorver com devoção

Os teus olhos renascidos

Entre as flores do perdão.

Sete sonhos refloridos

Dos teus canteiros paridos

Todos brotados

Das linhas das tuas mãos.

Sete fios de alegria

A encantarem os dias

Eternos de promissão,

Que teus segredos tecerão

Urdidos no coração.

Vindos d`alma,

Veios d`água,

Vertidos do teu sertão.

V SER CACIMBA

Veios fluidos

Em seu permanente espaço,

Espelhando imagens

Do meu rosto há tempos.

Atentos olhos a pastorear

Os templos da minha carne-menina

Banhando meu corpo

Sob a copa das mangueiras;

A beirar o poço,

Como um imenso copo de água,

Que em tardes

De diversos dias,

Anos, eras, ventanias,

Se fazia liberdade,

Acolhendo-me a pele nua,

Em fino frio e cortes de diversas correntezas.

Fazendo-se atento,

Tal quem escuta

E presencia o mistério

Do desabrochar,

Com o coração vertido

De amoroso encanto.

Cacimba... a cantarolar

Ao longo de mim

Seus fios de água

Mergulhados pelas

Rãs amanhecidas de inverno.

VI SER EM TI

Olho-te agora

Com olhos de concha

Em madrepérola abertos,

Os sertões com suas moradas,

Medonhas,

Te despertaram:

A boca, os olhos,

Os orifícios da fala,

Os devaneios,

Os delírios...

Em pudores,

Derramaram teus perfumes;

Frascos lumes,

Frescos sonhos.

Hoje sonhei contigo,

Tingido de vinho e violetas;

Uvas frescas no frescor das safras,

A adivinhar o mexido dos dias

Em livres correntezas de alegria.

Penso cidades em ti construídas,

Até que seja tarde,

E dos sertões, recorde

A fertilidade do sol,

Desvendando-te a pele,

Os pelos

E a poeira das chuvas,

Que se foram,

E em tempo deserto,

Voltarão suas chamas.

Penso verdades em ti conduzidas,

Até que se faça o contentar dos dias

Nos léxicos dos ventos e ventanias,

Estendidos em varais

De sombras e sopros,

E as primaveras,

Principiem sua safra

De mistério e milagre.

VII

SER PALAVRA

Nasce de mim

A palavra parida no ventre da língua,

Que líquida profere

O falar latente.

Pare em mim dias de luz,

Que cálidos,

Conduzem as arestas da boca.

Nascer sem dor existe?

O rio caudaloso invade o mar

Com marés enluaradas,

Aradas de sopro e mistério.

A mulher Amélia

Senhora das dores,

Pare crias

Que sangram nas noites

De luas cheias,

Até morrerem franzinas

Banhadas de cor carmim.

Seu homem,

Mordido pela serpente,

Profere esse mistério em seu corpo,

Sangrado em luas vermelhas

Que sombreiam de rosado

O rosário de contas d’água.

Olhos d`água,

Olhos d`alma,

Eternos e cintilantes,

A espiarem o mundo

E escutarem os segredos,

Que nele se revelaram.

Como faço agora

A escutar tantas senhoras:

Marias, Martas, Madalenas,

Que me chegam

Entre poemas

Deixando-me as lembranças

Na densa crença,

De que a vida

É remexida na caldeira dos milagres,

É fervida, borbulhada,

Na crescença das estradas

Abertas,

Ora desertas,

Que me chegam

Em mágicos lumes,

Perfumes e correntezas...

VIII

SER DAS COISAS

Meu pai dizia,

Por vezes muitas, repetia.

Em tardes e dias

De mar e sertão:

“Toda coisa tem uma ciência para ser feita.”

Eu tecia, com paciência,

O louvor dessas palavras

Ditas como decreto

De quem sabia a vida

Pelo sentir dos bichos.

Agora, já iniciada,

Pelo instinto dos meus gatos;

Falo assim:

“Cada coisa que há tem seu labor, Que nos faz mergulhar na sua ciência de ser.”

Ser o que move ou cala,

Para, pare,

Invade de premissas

A chama do viver.

Ser o que suscita

A palavra a ser dita,

Escrita,

Bendita na estridência da fala.

Cada coisa vivida ou morrida

Movimenta a essência da vida.

E viver é o laborioso encanto

De catar cinzas nos cantos

Adocicados dos ventos,

Construindo compotas de alegrias

Com portas abertas.

Para encher potes, vidros, Pratos, paladares, copos, corpos...

De sabores e delícias

Pra se comer, Lamber, tragar, traçar

Com a alma

Suas cores

Para amar tantos, tontos,

Todos amores,

Pois viver é grande!

É maior que o mar!

IX SER DESAPEGADO

É um agrado olhar e ver

Os olhos do sol em ti.

Do sal o sabor na boca,

O doce, a água, liquida espera,

A borbulhar no teu ventre,

Tempos de sol e mar,

A lapidar montanhas,

Passados, estios, sertões;

Madrugadas sopradas

Nos frutos do quintal,

Nos ventos do varal,

A romper manhãs úmidas

Em capins verdinhos

E cheios de graça,

Pois agrado é em mim

Te amar sem desejos

Para estar

Sem riscos e sustos,

Sem ciscos injustos,

Com rimas,

Com ímãs de quem se tem sem dor

Atraídos por puro amor, Com olor de rio

Que cresce em fino fio

E desce. E desce.

Tece estrada,

Para no mar

Chegar morada,

E se banhar em águas sagradas, Singradas de tanto se dar.

X SER ENTREGA

Um dia, quando a tarde levantar

Seus trópicos de luz

E o crepúsculo derramar-se sobre a terra,

Todos os meus versos serão teus,

Os meus gozos serão teus,

Meus delírios serão teus,

Meus suores, fluxos, frutos, medos,

Silêncios, lenços brancos,

Meus lençóis,

Vinhos e túnicas

Te serão oferecidos.

Minha boca receberá teu lírio, Liricamente, e em taça cantará

O cântico da lua nova.

Para me ter renovada

Em teus perfumes

Entre lumes conduzida

Pelas estradas à deriva,

Para achar-me

Entre teus líquidos,

E ampliar-me entre teus veios.

Esteio brando que se segue

À tempestade

Para aportar à eternidade, Que nos trará

A chuva mansa:

Terna dança entre os corpos, Copos cheios, devaneios,

Em meio ao lago das compotas.

Onde tocam os fazeres,

Terás em mim,

Ter-me-ás- assim

Cheia de fitas

Em cores rubras ampliadas

Com meu sentir enternecido.

Porque se há contentamento,

Haverá um firmamento,

De lúdicos momentos

Acetinados de estrelas

Sopradas no ar

Apontando estradas,

Metas certas de carinhos;

Cálidos linhos entre meus dedos.

Os teus dedos e desejos, Caberão em mim,

Para cheirar a pele nua,

Inundada de quereres

A fazeres em mim

Voz e silêncio, Luz e cor, Licor.

Cetim na flor do meu corpo,

Teu corpo, Copo,

Taça de desejos.

XI

SER BELEZA

Quero a pureza dos que me trazem

Olhos com sabor de graça e gozo.

Das delícias do reino da alegria,

Teço longas ventanias,

Para serem construídas

De coisas vãs,

Que de pouco em pouco

Tecem o mar,

Um pomar cheio de frutas,

Um jardim florido,

Um quintal cheio de luas,

Uma imensidão de vida

Que pulsa tal um coração

Curado pelo amor.

Quero o fino fio que me conduz ao mistério:

Em noites que se fazem molhadas

Em dias incertos de rio,

Borbulhante de piabas,

Em instantes de perfumes

Em bocados macerados

Entre invernos,

Que me fazem germinar,

E me trazem alegrias, Cantorias,

Invernadas.

Inventando-me por inteira

A cada dia que me é oferecido

Para eu ser

O instinto da beleza.

SER EM MIM

Eu sou esta que se faz aqui,

Por entre os dedos

Fiando linhos leves,

Adornando contornos

Em longos bordados

Colhendo escamas,

Entre as vasilhas,

Sobre o jirau,

Lá no quintal.

Deixando-se por toda a vida:

Espalhando-se,

Tecendo-se,

Em marcas construídas

Entre os novelos

E o zelo de ser só.

Zelo que me tem no fluir da chama,

Herdando longos bocados,

Tecendo estradas caladas, Cavadas, com a ponta dos dedos,

Dos olhos, dos ombros.

Sorvendo enchentes.

Só vendo a alma

Ser concebida nas mansas coisas

Que me possuem as horas dos dias.

Coisas mansas como a dança das esperas,

Construindo miudezas

Que seguem em correnteza

E formam ondas de alegria

Em noites e dias chuvosos.

Eu sou esta que busca

Um continente em meu rosto,

Quando toco minha imagem no espelho espalhada

E acarinho meu espírito enluarado de sol.

Eu sou esta que se faz aqui

Por entre os ventos,

Que sopram as madrugadas,

Tão minhas, quanto o que nelas

Faz pulsar meu peito

Fazendo-me sentir a vida

Transcorrer,

Escorrendo meu corpo que vibra

O gole da sangria,

O frio, a chama,

A dama da noite a exalar seu cheiro,

A buganvília a exaurir-se em cor,

O olor do rio,

Onde sorve o fio

Condutor da poesia.

XIII

SER DAS ÁGUAS

Em mim,

A cada dia,

Os lábios procriados,

Proclamam as delícias

Do reino das chuvas, das chamas,

Dos ventos, dos rios,

Em ritos de celebração.

Lagos largos, acodem os delírios e devaneios

Em veios cheios,

Esteios longos de terra molhada

Chamam-me à procriação.

São de longas tranças tecidas,

As cores desses dias diacrinos;

Tal o fazer das coisas

Que o mistério escreve na alma

Na calmaria dos invernos

E decifra os olhos

Ampliados de escuros.

Tal o fazer dos sonhos

Que a vida sussurrava

Nas torres de nuvens,

Que meu avô

Pastoreava no céu,

Em buscas de rebanhos de chuva

Galopando os olhos no infinito.

Prevendo gota a gota da água

Em suas ávidas miragens

Nos fins das tardes invernadas;

Inventadas por ele,

Em seu sonhar chuvas;

Invejadas por ele,

Das terras do sul do mundo

Onde borbulhava saúde,

Fortuna e felicidade...

Onde o gado era gordo

E farto de pasto e leite

E as ovelhas

Orvalhavam

Montanhas inteiras

Com suas brancas lãs,

Algodoadas.

Lá, sim, era a terra

Onde as chuvas prometiam

Vida perene e molhada,

Para os seus alagadiços

Durante a eternidade.

Lá, a terra era nuvem carregada

De gozo e fertilidade,

Cheia de uvas

Em robustas vinhas,

Verdes, roxas, gritando de alegria,

A prelibar o vinho dia e noite, noite e dia...

Meu avô sonhava longos invernos

Como quem pesca, sonha mar e oceanos.

XIV

SER RESSUSCITADO

Hoje sonhei com meu pai.

Ele vivo e com a serenidade dos mortos.

Rejuvenescido,

Tal o ressuscitado que hoje é,

No semblante, uma alegria de céu

Transfigurava seus olhos.

Olhar de pai ressuscitado

É bom como banhar-se

Em águas de azulado lago,

Cheio de salsas,

Florindo suas margens.

Amor de pai ressuscitado

É suave como o mover

Das asas das libélulas

Sobrevoando a levada

Atravessada por nós

No seu cavalo alazão, Quando criança eu era

E me fazia inteiramente sua

Entregue, naquele galope

De crinas esvoaçantes

Dentre o alagadiço.

Hoje sonhei com meu pai

Que me chamou sem a pressa

Dos “vivos”

E com suas graves mãos

Me acolheu os dedos

Me comovendo a tecer consigo

Um imenso pano azul

Para repousar meu corpo

Na liberdade dos pássaros

E construir canteiros de sonhos

No altar da vida.

Eu e meu pai, tão cúmplices

No viver depois da morte

Muito mais, que quando em vida,

Vivíamos os dias em osso e carne

Perecivelmente humanos.

Eu e meu pai, tão próximos

No sentir depois da morte,

Para eu aprender a viver a vida

Na lida do tear o azul

Ao fiar do longo linho

Do azul em pano,

Para que assim,

Pudesse ele me fazer

Provar na terra

O azul do céu.

XV SER REMISSÃO

Quando voltei à igreja

Já se fazia a tarde de um domingo.

O sol já era crepúsculo

E minha vida já se libertava

Das sombras do crucifixo, Que elevado sobre o altar

Ressoava nas palavras do padre,

Ecoadas de bem longe

Dentro, em mim;

SENHOR EU NÃO SOU DIGNA

DE QUE ENTREIS EM MINHA MORADA, MAS DIZEI UMA SÓ PALAVRA E SEREI SALVA.

Olhei-me inteira

Dentre o templo.

Todos os tempos

Retornaram em mim:

Vi que a casa do Pai

Estava aberta finalmente,

Para desfrutar dos vinhos e do pão da vida.

Vi o lugar de me encontrar,

De me encantar,

De me deter em mim,

De me espalhar comigo,

E rever pretéritos viveres,

Onde todos os tempos se confluíram

No meu cálice de sangue vivo:

O tempo de brincar a vida

E o tempo de colher os cacos

Do meu espelho

Espalhados entre os cômodos da casa.

Tempo de sobras e de sustos,

Tempo de plantar e colher na vida

As sementes e as flores de maio,

Tempo de agora:

De me poder dizendo ao Senhor:

Meu mais que amado Senhor,

Eu sou digna sim, que entreis

Em minha morada,

Para se banquetear contigo,

Com as ostras e as saúnas

Do rio da minha aldeia,

Com o doce de caju

Que agora já sei fazer,

Com os sapotis

Que estão em safra no meu quintal;

Eles são doces como a alegria

Que agora sinto.

Venha, Senhor, celebrar comigo

O perdão

Que a tudo redime

E faz-me livre e renovada.

Venha, meu bem amado,

Venha cear comigo

Tudo que em mim há

Com gozo.

Façamos cantorias

Para receber a lua nova

Que se levanta após o crepúsculo.

Dancemos juntos

Para celebrar minha nova colheita

Que não é mais culpa nem medo

É pura alegria semeada

Entre os trigais,

Que não tem na minha aldeia,

Mas que prelibo

Dos terreiros de outras tribos

Onde misturo-me

Até revelar em mim

Um bocado de todos os sangues

Para assim celebrar contigo

A grandeza que és.

Para assim mobilizar em mim

A sabedoria dos magos e dos pajés

Que herdaram de ti

O dom de fechar feridas abertas, De curar vexames da alma

Em desafios de buscas,

Sarando escuros e abismos

Insondáveis, impenetráveis...

Com o macerar das ervas

Entre a fragilidade dos dedos,

Com o incensar dos ares

Baforados por aromas

Dilaceradores do mal,

Para assim ser sinal

Da grandeza dos sopros

Sob teus desígnios.

Oh! Meu bem amado!

Agora já sei que não és

Um Ser de carne e osso,

Mas que és todos os ossos

E carnes

De todos os seres juntos

Que uma delas é minha própria carne

Em ti unificada,

Por isso sou em ti

E és comigo tudo que sinto,

Penso-calo-falo;

Fado ou alegria.

Sinfonia...

És o falo que floresce

No deserto a flor da vida

E nutre cada semente

Em seu próprio útero

Pois que também és,

Senhora Mãe de tudo

E um mergulho em ti,

Fecunda a eternidade.

XVI SER POESIA

A vida é... frágil

Em seu corpo de carne e salmouras;

Em seu manto de vaidades e delírios.

Parte de mim

Que o espírito sopra

Se enternece,

Por ser o que permanece

Sendo seu hálito,

No hábito de ser vida

Em sopros, construída,

Em seu tear de finos fios,

Rios de fios-luz,

Que reluz na eternidade,

Como o olhar das cabras

Comovidas com a vida

Que seus corpos geram.

Quando as olhei passando,

Pastando a eternidade do dia,

Em um viver quase anônimo,

Resignadas, entre as grades da carroça,

Vi que havia poesia no olhar das cabras,

Daquelas mansas cabras

Subjugadas ao trepidar do caminho.

Nelas, havia a poesia

De quem vai no escuro

Tateando um rumo,

Que a rota dos olhos não alcança,

E só o instinto fareja o destino.

Sem mapas ou oráculos,

Seguem o que as conduz.

Para a morte?

Ou para um pasto de vida?

Havia poesia no olhar das cabras

Uma poesia ruminada

De fazeres instintivos,

Que tecem berros

Entre as cercas do curral,

Onde se dá o limiar

Para cabras no mundo dos homens.

Havia poesia no olhar das cabras,

No berro das cabras,

Na lã das cabras,

No úbere das cabras...

Porque poesia em tudo há.

Aquele que a enxerga

Enxerga o que há além.

Além-mar, além-lago

Além-rio, riso, ou fala,

Além-veio que soletra

O mistério da vida

E toca sua polpa

Tecida em torno do mistério.

O mistério é o caroço do mundo.

XVII

SER PASSARINHO

Um dia me encontrei em ti,

Tal o silêncio,

Nas flores, toca o infinito.

Plasmei meu corpo

Na delicadeza verde

Dos teus olhos,

Para assim contemplar na vida

A tua vida, neles refletida,

Como em lago se reflete

Luz e sol,

Cor e eternidade.

Homem tu és e és menino,

Pois que dilaceras

O olor dos dias

Em buscas e navegações.

Navegar o infinito

É verter líquidos de roxa pedra,

Para extrair o néctar.

É assim que galopas o mundo

Buscando em profundos

E expostos veios a comovência,

Néctar-essência

Que faz mover

Os dedos das mãos

Para catar os grãos da vida

Entre as relíquias do mundo.

Te amar é fácil

Porque és amplo

Como o voo dos pássaros

Que pousam no meu terreiro

E pastam os meus sonhos

Na luz do dia

Até que a noite

Deite-os em seus ninhos

Fazendo deles passarinhos.

XVIII

SER DO AMOR

Ganhei uma caneta vermelha

Para escrever o amor.

Mas como se escreve o amor?

Amor se escreve?

O amor passa por mim

Me toca com o seu manto

De cores avermelhadas;

Cor da carne que deseja,

E do sangue que jorra,

Quando carne é retalhada.

Amor se escreve, sim

Nas entrelinhas da vida,

Entre as linhas, nas palavras;

Amor se soletra e se diz;

Amor se faz.

Entre os dedos, os deveres;

A disciplina do amor.

Entre os nódulos, os novelos, Longos fios nos teares, Nos altares, entre lençóis, Nos arrebóis, nas caladas.

Amor não se cala, se escreve, se fala.

Não se coíbe o amor.

Mesmo que ocultado esteja,

Amor tem cor de cereja,

Mas tem cor azul também.

Amor musgo, mudo entalo.

Amor que se quer amor

É bem claro

Tal o sol nascendo cedo

Bem nos trópicos do país

Amor vem é na raiz

Daquilo que gera amor.

XIX

SER DESCOBERTA

Quando pela primeira vez

O amor me ampliou

Os vasos de lírios,

Cavalguei minha aldeia inteira

Com o potro mais belo de meu pai.

Segurando em suas crinas

Alçava galope entre meus fluxos,

Minhas flores: cachos de açucenas,

Rosas rubras em raros diademas

A ornarem meu colo com alegrias plenas,

Entre as ventanias

Das tardes, tragadas pelo desejo

De alcançar o mundo, os homens...

As rimas e os matizes,

Daquele que acelerava

O ritmo da vida em mim

E comovia meus poros

Para antever o mistério

No pulsar de um coração,

Florescido na primavera:

Minha primeira era

De mulher ser,

Servida pelo gosto

Do homem primeiro,

Que adornava meus sentidos

Fé-mininos e me fazia

Múltipla em finas correntezas

De rio trans-bordando

Meu corpo com a mais pura graça

Em pontos cheios.

XX SER GARÇA

Eu vejo a graça do rio

Nas garças pousadas

Sobre o cio das suas margens.

Comovo-me com elas

Porque a vida é pura vertigem

De asas a sobrevoarem

Os dias digitados no infinito.

Olho-as comovida

Pelo sagrado que há

No ato de na terra

Elas pousarem

Para refazer o mistério des-garçado,

Pelos des-vios dos dedos

Nas linhas da vida.

O rio se faz pleno

Com o milagre das garças.

Sem desgarçar-se

No liame dos seus veios;

Se completa, se faz cheio

Para receber a moça

Que virá em uma das horas de agosto

Degustar seu leito.

Ela será mansa com o rio

E macia desvelará sua outra margem.

Aquela que ela avistava

Somente o mistério e nunca o corpo,

Aquela que ela provava

Com os olhos,

Somente os vestígios dos seus veios.

A moça se deixará

No rio deitar

Para saber sua inteireza

E fazer-se alga em suas verdes águas

Até chegar-se em sua alma

O espírito do rio inteiro.

XXI

SER PLENITUDE

Gozo com o gosto

De adentrar quintais

No louvor do meio-dia

Quando as reses

Ressonam o mormaço da vida

Sob as árvores,

E os galos calam o sertão do sol,

Com seu comprido cantar

A prolongar a vida

Colorida pelos varais,

Estendidos ao vento,

Que celebra os quintais

Com o cheiro bom

Das roupas lavadas.

XXII

SER DA VIDA

A vida sabe-se

Porque dela é o Reino das coisas

Solúveis e insondáveis

Que vagueiam em potros

Fiando linhos

Para bordar as cambraias do mundo.

A vida sabe-se porque dela

É o Reino das coisas acetinadas

Que deslizam sobre os lençóis

Da ceia e da seiva que aquecem

Os corpos remidos pelo amor.

A vida sabe-se porque dela

É o Reino das coisas laqueadas

Que se irmanam com o pecado

Quase insolúvel e pragueja

A alma ante as chamas.

A vida sabe-se porque

Dela é o Reino das coisas ásperas

Que se atritam até a exaustão do medo e da vaidade.

A vida sabe-se porque dela

É o Reino das misericórdias

Que reavivam o fogo das lareiras

Para aquecer os frios.

A vida sabe-se porque dela

É o reino do encantamento

Que sopra o vento nos cata-ventos

Até multiplicar as águas

Para o batismo das almas.

A vida sabe-se porque dela

É o reino das sombras

Que delimitam a luz

Na paisagem do muro.

A vida sabe-se porque

Dela é o Reino dos sonhos

Que sopram para além do azul

As pandorgas.

A vida sabe-se porque dela

É o Reino das compaixões

Que submetem as algas

Ao instinto dos peixes

Fazendo fluir oceanos.

A vida sabe-se porque dela

É o reino das andorinhas e dos colibris

Que tingem de alegria

Os canteiros do infinito.

A vida sabe-se porque dela

É o Reino do movimento

Que aproxima os eventos

Dentro da chama eterna.

A vida sabe-se porque dela

É o Reino das coisas absolutas

Que cristalizam o tempo

Na dimensão das eras

Até recomeçarem os ciclos.

A vida sabe-se porque dela

É o Reino das relíquias

Que constroem os vitrais

Das antigas catedrais.

A vida sabe-se porque

É rio que abre infinitos braços

Para abraçar o mundo

Até exauri-lo em possibilidades.

XXIII

SERTÃO

SERTÃO em mim

SER TÃO em mim.

SER.

SERTÃO

SOBRE A AUTORA

Fabiana Bezerra Rocha é natural de Mangabeira, Eusébio, Ceará. É escritora e poeta, escreve poemas, contos e prosa poética. Graduada em Letras, especialista em culturas populares e tradicionais, é também pesquisadora das culturas africanas e indígenas. Tem mais de cinquenta livros publicados para diversos públicos em várias editoras do país. Foi finalista do Prêmio Carolina Maria de Jesus.

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Issuu converts static files into: digital portfolios, online yearbooks, online catalogs, digital photo albums and more. Sign up and create your flipbook.