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II prêmio literário demócrito Rocha





II prêmio literário demócrito
Rocha
Fortaleza, 2025
Copyright @ 2025 by Fundação Demócrito Rocha
Edições Demócrito Rocha
(Marca registrada da Fundação Demócrito Rocha)
Presidente
Luciana Dummar
Gerente-Geral
Marcos Tardin
Gestores da Editora
Marcos Tardin
Deglaucy Jorge Teixeira
Juliana Oliveira
Assistente Administrativo-Financeiro
Brenna Kelly
Gerente de Marketing e Design
Andrea Araújo
Design
Welton Travassos
Este Livro é parte integrante do projeto II Prêmio Literário Demócrito Rocha, em atendimento ao Edital Mecenas do Ceará 2025.
Concepção e Coordenação Geral do Projeto
Valéria Xavier
Estratégia e Relacionamento
Adryana Joca
Dayvison Alvares
Editor
Daniel Oiticica
Projeto gráfico e edição de arte
Andrea Araujo
Designers
Kamilla Damasceno e Welton Travassos
Analista de Operações
Alexandra Carvalho
Analista de Projetos
Elizabete Dantas
Fotos
João Ferreira e Iago Barreto
Revisora
Damares Magalhães
Ilustrações
Carlus Campos
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD
R672s Rocha, Fabiana Bezerra
Sertão em Mim [recurso eletrônico] / Fabiana Bezerra Rocha ; ilustrado por Carlus Campos. - Fortaleza : Fundação Demócrito Rocha, 2025.
il. : PDF ; 3.009 KB.
ISBN: 978-65-5383-202-2 (ePUB)
1. Literatura brasileira. 2. Sertão. 3. Fé. 4. Religiosidade. 5. Cultura Popular. I. Campos, Carlus. II. Título.
CDD 869.8992
2025-5655
CDU 821.134.3(81)
Elaborado por Vagner Rodolfo da Silva - CRB-8/9410
Índice para catálogo sistemático:
1. Literatura brasileira 869.8992
2. Literatura brasileira 821.134.3(81)
Todos os direitos desta edição reservados à
Av. Aguanambi, 282/A - Joaquim Távora
CEP 60055-402 - Fortaleza-Ceará
Telefone (85) 3255.6007 / WhatsApp: (85) 99183.8515
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Oexercício artístico nos possibilita a experiência de inauguração de vistas, mesmo daquelas coisas, imagens, ideias já vistas anteriormente, não deixando, dessa maneira, que o mundo e a vida caiam em um ostracismo de um mais do mesmo.
O Prêmio Demócrito Rocha, já em sua segunda edição, a trazer como temática a relação do homem/mulher cearense com a geografia da terra, quer seja o sertão, as serras ou o litoral, valorizando autores que expressam, com palavras, a relação do nosso povo com o seu lugar, nos possibilita, a partir disso, enxergar um Ceará de um hoje, contemporâneo, e ao mesmo tempo intersecionado ao Ceará de sempre, possibilitando outras perspectivas de enxergá-lo, fundamental para que estereótipos sejam quebrados e que novos debates se tornem possíveis.
O poeta Artur Eduardo Benevides, ao explorar a temática literatura cearense, diz que “O Ceará [é], ele próprio, um personagem poético e romanesco, sobretudo pelo orgulho e amor com que o contemplam os seus escritores [...]”. Confirmando tal pensar, o Prêmio Literário Demócrito Rocha, além de fortalecer a prática literária e o mercado editorial com a publicação de obras inéditas, fomenta e amplia o sentimento de pertencimento cultural do cearense, com a apresentação de vistas contemporâneas desse estado tão vasto e plural, e que se reinventa dia a dia.
Em três categorias, Prosa de Ficção, Ensaio Social e Poesia, as obras vencedoras, Peixes Indóceis em mar revolto de Igor Moreira de Sousa Pin-



to, Raízes da Terra de Rayane Aline Pereira Lopes, e Sertão em mim de Fabiana Bezerra Rocha, respectivamente, celebram no seu cerne o ser cearense e a construção mútua da dualidade lugar/indivíduo, como uma experiência única. Afinal, as pessoas que fomentam a territorialidade ou seria o inverso?
Na verdade, a possibilidade de ser E não ser seria a melhor resposta. A geografia em seus diversos aspectos a se construir e se escrever também no e pelo corpo daqueles são o campo, são a rua nas praias, serras e sertões de todo o estado, e vice-versa. A partir disso é onde de fato o Ceará e o sentimento de cearensidade e de pertencimento moram e se ampliam. Além de celebrar tudo isso, torna-se importante a celebração da continuidade de um prêmio que já se consolida dentro do calendário cultural do Ceará, preocupado em descobrir cada vez mais nuances do que nosso povo e lugar têm para dizer.
Tendo a honra de estar como curador do concurso e acompanhar todo o seu processo, digo que saio um pouco mais cearense desde quando iniciei esta experiência, diante disso, indico cada um e cada uma a passar por ela. É um passeio sem volta.
Mailson Furtado, jornalista e escritor, curador do Prêmio Demócrito Rocha
Opoeta Artur Eduardo Benevides, ao explorar a temática literatura cearense, diz que “O Ceará [é], ele próprio, um personagem poético e romanesco, sobretudo pelo orgulho e amor com que o contemplam os seus escritores [...]”. Confirmando tal pensar, o Prêmio Literário Demócrito Rocha, já em sua segunda edição, trouxe como temática a relação do homem/mulher cearense com a geografia da terra, quer seja o sertão, as serras ou o litoral, valorizando autores que expressam, com palavras, a relação do nosso povo com o seu lugar. Tal concurso, além de fortalecer a prática literária e o mercado editorial com a publicação de obras inéditas, fomenta e amplia o sentimento de pertencimento cultural do cearense, com a apresentação de vistas contemporâneas desse Estado tão vasto e plural, e que se reinventa dia a dia. Enquanto jurado, fico feliz em celebrar a continuidade de um prêmio que já se consolida dentro do calendário cultural do Ceará, e sempre preocupado em descobrir cada vez mais nuances do que nosso povo e lugar têm para dizer. Sem dúvidas, saio um pouco mais cearense desde quando iniciei esta experiência, e indico cada um a passar por ela.
Mailson Furtado, jurado da categoria Poesia



Compor o júri do Prêmio Literário Demócrito Rocha é, além de uma honra, também a possibilidade de contato com a efervescência da atual produção literária no Ceará. As obras poéticas lidas, nessa segunda edição do Prêmio, demonstraram essa vivacidade. Foram obras muito diversas, que trilham diferentes caminhos poéticos, desde a proximidade à estética do cordel a outras experimentações visuais, desde obras em que se lê um olhar mais detido sobre dilemas da vida social a outras em que essa preocupação, não deixando de estar presente, ganha forma tramada a nuances mais intimistas.
Foi extremamente interessante a leitura dessas obras e as diferentes possibilidades com que elas intentaram dar conta, na forma poética, da “ênfase na relação do homem/mulher cearense com a geografia da terra” – eixo norteador dessa edição. As diferentes perspectivas de entendimento para essa “geografia da terra”, e as diferentes formas dela ser escrita, mostrou o quanto é pulsante a poesia que por aqui se faz.
Dercio Braúna, jurado da categoria Poesia




Aobra Sertão em Mim, de Fabiana Guimarães, é uma travessia poética que transcende o espaço físico do sertão para desvelar o território simbólico, espiritual e feminino que nele habita. Dividido em vinte e três seções, o livro se estrutura como uma ladainha do ser — uma peregrinação lírica em que o eu poético se reconhece nas múltiplas faces do sertão, da fé, da natureza e da própria linguagem. É um livro que une a tradição à invenção, a religiosidade popular à introspecção filosófica, o corpo à terra, o verbo ao silêncio.
Desde o início, a autora estabelece um diálogo com Guimarães Rosa, cuja epígrafe (“Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte que o poder do lugar”) anuncia a concepção do sertão como espaço existencial. Em Sertão em Mim, o sertão não é apenas paisagem árida, mas


condição de alma. O poema inaugural sintetiza esse princípio: “SERTÃO em mim / SER TÃO em mim. / SER.”
Essa tripla repetição e desdobramento gráfico cria uma poética da identidade, na qual o verbo “ser” é o núcleo de um ciclo ontológico que liga o humano ao natural, o corpo ao cosmos. O sertão é a morada e o espelho — uma topografia do ser. A linguagem, de cadência orante e imagética, busca não descrever, mas encarnar o sertão: “Sertão é milagre de renascer a cada hora de sol”, escreve a autora, transformando o calor e a secura em metáforas de resistência e transcendência.
O livro, vencedor do Prêmio Literário Demócrito Rocha na categoria Poesia, é um verdadeiro rito de passagem escrito em versos longos e cadenciados, que soam como ladainhas, preces e cânticos. A identidade emerge não como essência fixa, mas como fluxo — um contínuo renascer, uma metamorfose tecida entre o que é humano e o que é natureza.
O que a poeta propõe é uma experiência ontológica e espiritual do sertão. Ele não é apenas geografia, mas cosmogonia: o princípio e o fim de todas as coisas. Em Sertão em Mim, o sol, a pedra, o orvalho e o cacto não são meras imagens, mas manifestações do divino. Cada elemento do ambiente sertanejo — o açude seco, as flores murchas, as rendas queimadas, o pó — é convertido em símbolo de resistência e de revelação. A aridez, que em outros contextos seria sinônimo de morte, aqui é o terreno da ressurreição: “Sertão é milagre de renascer a cada hora de sol.” O sertão é o lugar onde a dor se transforma em beleza e a escassez se converte em potência criadora.
Esse processo de transfiguração é também o modo pelo qual a autora constrói uma poética feminina da existência. Fabiana Guimarães inscreve o corpo da mulher como território sagrado — extensão da terra e do verbo. Nos poemas “SER MARIAS”, “SER CACIMBA” e “SER EM TI”, o feminino aparece como força de criação, de fecundidade e de cura. A mulher é quem gera, quem acolhe, quem guarda os segredos da vida. É no corpo feminino que o sertão floresce e encontra redenção. As “sete Marias”,


“sete flores”, “sete vidas” evocadas no texto formam uma liturgia da ancestralidade: uma sucessão de vozes femininas que costuram o sagrado e o profano, o místico e o terreno, o gozo e a oração.
Há, em Sertão em Mim, uma tensão entre o erótico e o espiritual, mas essa tensão não se resolve em conflito — ela se harmoniza. O corpo é instrumento da revelação divina. Quando a poeta escreve “Minha boca receberá teu lírio, liricamente”, o erotismo é também mística; o toque, uma forma de comunhão. Essa fusão entre fé e desejo é uma das marcas mais fortes da obra, porque desarticula a oposição histórica entre corpo e alma, e restitui à mulher o direito de sentir e criar a partir de si mesma. O sagrado é experimentado pela carne, e não em oposição a ela.
Outro aspecto essencial do livro é a consciência da linguagem como corpo e matéria. Fabiana Guimarães faz da palavra um ser vivo, que nasce, pulsa e se move como o vento do sertão. “Nasce de mim a palavra parida no ventre da língua”, escreve a autora, e nesse verso se condensa a sua visão da poesia como parto e revelação. O texto se constrói com um lirismo de natureza ritualística, em que o som e o ritmo têm função encantatória. Há musicalidade na repetição, na aliteração, na variação das formas verbais — uma oralidade que aproxima o poema das rezas, cantigas e preces populares. A linguagem é o meio pelo qual a poeta experimenta o mundo e também o reconstrói; é instrumento de conhecimento e de cura.
Nos segmentos finais do livro, a temática da morte se transforma em experiência de transfiguração. Em “SER RESSUSCITADO”, o reencontro com o pai morto é descrito com serenidade e ternura, como se a morte fosse apenas um outro estado do amor. O gesto de “fiar o linho azul” ao lado do pai ressuscitado simboliza a continuidade da vida, a permanência da alma e a reconciliação entre o humano e o divino. Já em “SER REMISSÃO”, a voz poética retorna à igreja e reinterpreta o sacramento da


confissão, não mais como ato de culpa, mas de libertação: o sagrado é reintegrado à vida cotidiana, às frutas do quintal, às águas do rio, ao doce de caju. A espiritualidade se faz imanente, concreta, sertaneja.
Ao chegar às seções “SER POESIA”, “SER VIDA” e “SER PLENITUDE”, a travessia encontra seu destino: o ser reconciliado com o mundo. O sertão, que antes ardia de dor, agora floresce como fonte de sabedoria e beleza. A poesia, nesse ponto, torna-se a própria forma do existir. Fabiana Guimarães define a poesia como força orgânica presente em tudo o que vive: “Porque poesia em tudo há. Aquele que a enxerga enxerga o que há além”. O olhar poético é, assim, a capacidade de ver o invisível — de captar o mistério que sustenta o real.
O mérito de Sertão em Mim não está apenas na qualidade estética dos versos, mas na densidade filosófica e simbólica com que a autora revisita o imaginário sertanejo. Trata-se de uma obra que amplia a tradição literária do Nordeste, inserindo-a em uma dimensão universal. O sertão de Fabiana é o sertão de dentro: espaço da memória e da transcendência, da mulher e do verbo, do nascimento e do retorno. Sua poesia é um testemunho de resistência e delicadeza, um cântico à beleza escondida na aridez e à força que brota do silêncio.
O reconhecimento pelo Prêmio Literário Demócrito Rocha é, portanto, a consagração de uma voz que transforma a paisagem em espírito e o espírito em palavra. Sertão em Mim é mais do que um livro: é uma confissão de fé na poesia e na vida. Ao transformar a secura em fonte, o pó em verbo e o sertão em espelho, Fabiana Guimarães reafirma que o ser humano — como a terra que habita — é capaz de renascer a cada sol. O sertão, em sua escrita, deixa de ser metáfora de carência para se tornar lugar de plenitude. E é nesse gesto de transformar o deserto em manancial que reside a força e a beleza desta obra luminosa.
Daniel Oiticica, editor




“Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso...”
João
Guimarães Rosa I SERTÃO
SERTÃO em mim
SER TÃO em mim.
SER.


Os sertões em mim povoam
Mistérios de rosas murchas,
Pé de flor espinho
E primavera de cactos.
Sertão é milagre de renascer
A cada hora de sol,
Que arde no peito a extrema dor,
De queimar fios, rios, rendas, resmas.
Rês a pastar em meu corpo,
Restos de líquidos.
É fazer, refazer,
É colher e colher,
Com as mãos
Gotas de orvalhos
Em mandacarus.
Os sertões nasceram à beira de mim
Rumando os trópicos,
Luas mansas, ainda mornas,
Sobre crepúsculos,
Que descem do céu em fogo,
Abrasando a terra,
Acendendo o mar que se avizinha
Em outras plagas,
Próximas,
Tal o amor,
Que se faz perto
E me adivinha,
Tal canção,
Que se faz fluida
E me povoa.
Sertão é coisa viva,


Que pulsa, vibra, Esquenta a pele, a alma, o corpo,
Faz estio e fertiliza
A carne desfalecida
De desejos, no ensejo de ser vida?
Servida na correnteza do açude,
Que ele ressuscitará.
Sertão em mim
Choca ciclos
Da terra, da treva,
Da eternidade.
Sertão em mim é mistério,
Que ilude meus olhos de desejos
Por tocar na secura que arde
A brasa acesa,
No manto deserto do açude,
Desvendado em areias brancas
Quase poeira de água,
Que o vento leva, Leva, leva, leva...
Leve.
Para no infinito
Derramar em correntezas,
Que meus olhos, Iludidos, jorrarão


Sobre os cactos floridos.
Sertão em mim é milagre
De coisas que se renovam
Entre a ponta dos meus dedos,
Apontando estrelas
Cadentes dentre a caatinga estralada de brilhos crepusculares.
Sertão é vermelho
É guerreiro de sol
E descobre invernos
Inventando safras
De ressurreição.
Sertão tem esporas,
Que espinham o dorso
Arranham as ancas
Entre luas mornas.
Busco entre os sertões
Mares dissolvidos
Em pedras de sal e rocha,
Que construíam marés e rotas,
Para embarcações.
Busco pedras preciosas,
Ouro, mirra, prata em pó,
Tropas de potros
Esperas;
Longas esperas tecidas.
Infinitos rumos.
Até apontarem,
Os sertões em mim,
Aportando em meu corpo
A fonte seca das águas,
Que dá a beber da sede
Em minha boca renovada.


Sete mortes,
Sete Lourdes,
Sete Marias de Deus,
Do santo Divina Graça.
Sete vidas adornadas
Entre as flores do jardim,
Nos jasmins entristecidas
A clamar por querubins.
Sete rosas brancas,
Sete lírios brancos,
Sete flores de laranja
A jorrar sete perfumes
Entre setes lumes do sol.
Sete linhos brancos
Brandos prantos,
Panos brancos,
Bordando em ponto cruz, Longos rosários de luz.
Sete flores de damasco,
Sete flores de limão,
Pra remir sete pecados
Já enterrados no chão
Entre flores de algodão.
Sete seivas de alfazema
Pra sorver com devoção
Os teus olhos renascidos
Entre as flores do perdão.
Sete sonhos refloridos
Dos teus canteiros paridos
Todos brotados
Das linhas das tuas mãos.
Sete fios de alegria
A encantarem os dias


Eternos de promissão,
Que teus segredos tecerão
Urdidos no coração.
Vindos d`alma,
Veios d`água,
Vertidos do teu sertão.
Veios fluidos
Em seu permanente espaço,
Espelhando imagens
Do meu rosto há tempos.
Atentos olhos a pastorear
Os templos da minha carne-menina
Banhando meu corpo
Sob a copa das mangueiras;
A beirar o poço,
Como um imenso copo de água,
Que em tardes
De diversos dias,
Anos, eras, ventanias,
Se fazia liberdade,
Acolhendo-me a pele nua,
Em fino frio e cortes de diversas correntezas.
Fazendo-se atento,
Tal quem escuta
E presencia o mistério
Do desabrochar,


Com o coração vertido
De amoroso encanto.
Cacimba... a cantarolar
Ao longo de mim
Seus fios de água
Mergulhados pelas
Rãs amanhecidas de inverno.
Olho-te agora
Com olhos de concha
Em madrepérola abertos,
Os sertões com suas moradas,
Medonhas,
Te despertaram:
A boca, os olhos,
Os orifícios da fala,
Os devaneios,
Os delírios...
Em pudores,
Derramaram teus perfumes;
Frascos lumes,
Frescos sonhos.
Hoje sonhei contigo,
Tingido de vinho e violetas;
Uvas frescas no frescor das safras,
A adivinhar o mexido dos dias
Em livres correntezas de alegria.
Penso cidades em ti construídas,


Até que seja tarde,
E dos sertões, recorde
A fertilidade do sol,
Desvendando-te a pele,
Os pelos
E a poeira das chuvas,
Que se foram,
E em tempo deserto,
Voltarão suas chamas.
Penso verdades em ti conduzidas,
Até que se faça o contentar dos dias
Nos léxicos dos ventos e ventanias,
Estendidos em varais
De sombras e sopros,
E as primaveras,
Principiem sua safra
De mistério e milagre.
Nasce de mim
A palavra parida no ventre da língua,
Que líquida profere
O falar latente.
Pare em mim dias de luz,
Que cálidos,
Conduzem as arestas da boca.
Nascer sem dor existe?
O rio caudaloso invade o mar
Com marés enluaradas,


Aradas de sopro e mistério.
A mulher Amélia
Senhora das dores,
Pare crias
Que sangram nas noites
De luas cheias,
Até morrerem franzinas
Banhadas de cor carmim.
Seu homem,
Mordido pela serpente,
Profere esse mistério em seu corpo,
Sangrado em luas vermelhas
Que sombreiam de rosado
O rosário de contas d’água.
Olhos d`água,
Olhos d`alma,
Eternos e cintilantes,
A espiarem o mundo
E escutarem os segredos,
Que nele se revelaram.
Como faço agora
A escutar tantas senhoras:
Marias, Martas, Madalenas,
Que me chegam
Entre poemas
Deixando-me as lembranças
Na densa crença,
De que a vida
É remexida na caldeira dos milagres,
É fervida, borbulhada,
Na crescença das estradas
Abertas,
Ora desertas,
Que me chegam
Em mágicos lumes,
Perfumes e correntezas...


Meu pai dizia,
Por vezes muitas, repetia.
Em tardes e dias
De mar e sertão:
“Toda coisa tem uma ciência para ser feita.”
Eu tecia, com paciência,
O louvor dessas palavras
Ditas como decreto
De quem sabia a vida
Pelo sentir dos bichos.
Agora, já iniciada,
Pelo instinto dos meus gatos;
Falo assim:
“Cada coisa que há tem seu labor, Que nos faz mergulhar na sua ciência de ser.”
Ser o que move ou cala,
Para, pare,
Invade de premissas
A chama do viver.
Ser o que suscita
A palavra a ser dita,
Escrita,
Bendita na estridência da fala.
Cada coisa vivida ou morrida
Movimenta a essência da vida.
E viver é o laborioso encanto
De catar cinzas nos cantos
Adocicados dos ventos,
Construindo compotas de alegrias
Com portas abertas.
Para encher potes, vidros, Pratos, paladares, copos, corpos...
De sabores e delícias


Pra se comer, Lamber, tragar, traçar
Com a alma
Suas cores
Para amar tantos, tontos,
Todos amores,
Pois viver é grande!
É maior que o mar!
É um agrado olhar e ver
Os olhos do sol em ti.
Do sal o sabor na boca,
O doce, a água, liquida espera,
A borbulhar no teu ventre,
Tempos de sol e mar,
A lapidar montanhas,
Passados, estios, sertões;
Madrugadas sopradas
Nos frutos do quintal,
Nos ventos do varal,
A romper manhãs úmidas
Em capins verdinhos
E cheios de graça,
Pois agrado é em mim
Te amar sem desejos
Para estar
Sem riscos e sustos,
Sem ciscos injustos,
Com rimas,
Com ímãs de quem se tem sem dor


Atraídos por puro amor, Com olor de rio
Que cresce em fino fio
E desce. E desce.
Tece estrada,
Para no mar
Chegar morada,
E se banhar em águas sagradas, Singradas de tanto se dar.
Um dia, quando a tarde levantar
Seus trópicos de luz
E o crepúsculo derramar-se sobre a terra,
Todos os meus versos serão teus,
Os meus gozos serão teus,
Meus delírios serão teus,
Meus suores, fluxos, frutos, medos,
Silêncios, lenços brancos,
Meus lençóis,
Vinhos e túnicas
Te serão oferecidos.
Minha boca receberá teu lírio, Liricamente, e em taça cantará
O cântico da lua nova.
Para me ter renovada
Em teus perfumes
Entre lumes conduzida
Pelas estradas à deriva,
Para achar-me
Entre teus líquidos,


E ampliar-me entre teus veios.
Esteio brando que se segue
À tempestade
Para aportar à eternidade, Que nos trará
A chuva mansa:
Terna dança entre os corpos, Copos cheios, devaneios,
Em meio ao lago das compotas.
Onde tocam os fazeres,
Terás em mim,
Ter-me-ás- assim
Cheia de fitas
Em cores rubras ampliadas
Com meu sentir enternecido.
Porque se há contentamento,
Haverá um firmamento,
De lúdicos momentos
Acetinados de estrelas
Sopradas no ar
Apontando estradas,
Metas certas de carinhos;
Cálidos linhos entre meus dedos.
Os teus dedos e desejos, Caberão em mim,
Para cheirar a pele nua,
Inundada de quereres
A fazeres em mim
Voz e silêncio, Luz e cor, Licor.
Cetim na flor do meu corpo,
Teu corpo, Copo,
Taça de desejos.


Quero a pureza dos que me trazem
Olhos com sabor de graça e gozo.
Das delícias do reino da alegria,
Teço longas ventanias,
Para serem construídas
De coisas vãs,
Que de pouco em pouco
Tecem o mar,
Um pomar cheio de frutas,
Um jardim florido,
Um quintal cheio de luas,
Uma imensidão de vida
Que pulsa tal um coração
Curado pelo amor.
Quero o fino fio que me conduz ao mistério:
Em noites que se fazem molhadas
Em dias incertos de rio,
Borbulhante de piabas,
Em instantes de perfumes
Em bocados macerados
Entre invernos,
Que me fazem germinar,
E me trazem alegrias, Cantorias,
Invernadas.
Inventando-me por inteira
A cada dia que me é oferecido
Para eu ser
O instinto da beleza.


Eu sou esta que se faz aqui,
Por entre os dedos
Fiando linhos leves,
Adornando contornos
Em longos bordados
Colhendo escamas,
Entre as vasilhas,
Sobre o jirau,
Lá no quintal.
Deixando-se por toda a vida:
Espalhando-se,
Tecendo-se,
Em marcas construídas
Entre os novelos
E o zelo de ser só.
Zelo que me tem no fluir da chama,
Herdando longos bocados,
Tecendo estradas caladas, Cavadas, com a ponta dos dedos,
Dos olhos, dos ombros.
Sorvendo enchentes.
Só vendo a alma
Ser concebida nas mansas coisas
Que me possuem as horas dos dias.
Coisas mansas como a dança das esperas,
Construindo miudezas
Que seguem em correnteza
E formam ondas de alegria
Em noites e dias chuvosos.


Eu sou esta que busca
Um continente em meu rosto,
Quando toco minha imagem no espelho espalhada
E acarinho meu espírito enluarado de sol.
Eu sou esta que se faz aqui
Por entre os ventos,
Que sopram as madrugadas,
Tão minhas, quanto o que nelas
Faz pulsar meu peito
Fazendo-me sentir a vida
Transcorrer,
Escorrendo meu corpo que vibra
O gole da sangria,
O frio, a chama,
A dama da noite a exalar seu cheiro,
A buganvília a exaurir-se em cor,
O olor do rio,
Onde sorve o fio
Condutor da poesia.
Em mim,
A cada dia,
Os lábios procriados,
Proclamam as delícias
Do reino das chuvas, das chamas,
Dos ventos, dos rios,
Em ritos de celebração.
Lagos largos, acodem os delírios e devaneios
Em veios cheios,


Esteios longos de terra molhada
Chamam-me à procriação.
São de longas tranças tecidas,
As cores desses dias diacrinos;
Tal o fazer das coisas
Que o mistério escreve na alma
Na calmaria dos invernos
E decifra os olhos
Ampliados de escuros.
Tal o fazer dos sonhos
Que a vida sussurrava
Nas torres de nuvens,
Que meu avô
Pastoreava no céu,
Em buscas de rebanhos de chuva
Galopando os olhos no infinito.
Prevendo gota a gota da água
Em suas ávidas miragens
Nos fins das tardes invernadas;
Inventadas por ele,
Em seu sonhar chuvas;
Invejadas por ele,
Das terras do sul do mundo
Onde borbulhava saúde,
Fortuna e felicidade...
Onde o gado era gordo
E farto de pasto e leite
E as ovelhas
Orvalhavam
Montanhas inteiras
Com suas brancas lãs,
Algodoadas.
Lá, sim, era a terra
Onde as chuvas prometiam
Vida perene e molhada,
Para os seus alagadiços


Durante a eternidade.
Lá, a terra era nuvem carregada
De gozo e fertilidade,
Cheia de uvas
Em robustas vinhas,
Verdes, roxas, gritando de alegria,
A prelibar o vinho dia e noite, noite e dia...
Meu avô sonhava longos invernos
Como quem pesca, sonha mar e oceanos.
Hoje sonhei com meu pai.
Ele vivo e com a serenidade dos mortos.
Rejuvenescido,
Tal o ressuscitado que hoje é,
No semblante, uma alegria de céu
Transfigurava seus olhos.
Olhar de pai ressuscitado
É bom como banhar-se
Em águas de azulado lago,
Cheio de salsas,
Florindo suas margens.
Amor de pai ressuscitado
É suave como o mover
Das asas das libélulas
Sobrevoando a levada
Atravessada por nós
No seu cavalo alazão, Quando criança eu era


E me fazia inteiramente sua
Entregue, naquele galope
De crinas esvoaçantes
Dentre o alagadiço.
Hoje sonhei com meu pai
Que me chamou sem a pressa
Dos “vivos”
E com suas graves mãos
Me acolheu os dedos
Me comovendo a tecer consigo
Um imenso pano azul
Para repousar meu corpo
Na liberdade dos pássaros
E construir canteiros de sonhos
No altar da vida.
Eu e meu pai, tão cúmplices
No viver depois da morte
Muito mais, que quando em vida,
Vivíamos os dias em osso e carne
Perecivelmente humanos.
Eu e meu pai, tão próximos
No sentir depois da morte,
Para eu aprender a viver a vida
Na lida do tear o azul
Ao fiar do longo linho
Do azul em pano,
Para que assim,
Pudesse ele me fazer
Provar na terra
O azul do céu.


Quando voltei à igreja
Já se fazia a tarde de um domingo.
O sol já era crepúsculo
E minha vida já se libertava
Das sombras do crucifixo, Que elevado sobre o altar
Ressoava nas palavras do padre,
Ecoadas de bem longe
Dentro, em mim;
SENHOR EU NÃO SOU DIGNA
DE QUE ENTREIS EM MINHA MORADA, MAS DIZEI UMA SÓ PALAVRA E SEREI SALVA.
Olhei-me inteira
Dentre o templo.
Todos os tempos
Retornaram em mim:
Vi que a casa do Pai
Estava aberta finalmente,
Para desfrutar dos vinhos e do pão da vida.
Vi o lugar de me encontrar,
De me encantar,
De me deter em mim,
De me espalhar comigo,
E rever pretéritos viveres,
Onde todos os tempos se confluíram
No meu cálice de sangue vivo:
O tempo de brincar a vida
E o tempo de colher os cacos
Do meu espelho


Espalhados entre os cômodos da casa.
Tempo de sobras e de sustos,
Tempo de plantar e colher na vida
As sementes e as flores de maio,
Tempo de agora:
De me poder dizendo ao Senhor:
Meu mais que amado Senhor,
Eu sou digna sim, que entreis
Em minha morada,
Para se banquetear contigo,
Com as ostras e as saúnas
Do rio da minha aldeia,
Com o doce de caju
Que agora já sei fazer,
Com os sapotis
Que estão em safra no meu quintal;
Eles são doces como a alegria
Que agora sinto.
Venha, Senhor, celebrar comigo
O perdão
Que a tudo redime
E faz-me livre e renovada.
Venha, meu bem amado,
Venha cear comigo
Tudo que em mim há
Com gozo.
Façamos cantorias
Para receber a lua nova
Que se levanta após o crepúsculo.
Dancemos juntos
Para celebrar minha nova colheita
Que não é mais culpa nem medo
É pura alegria semeada
Entre os trigais,
Que não tem na minha aldeia,
Mas que prelibo


Dos terreiros de outras tribos
Onde misturo-me
Até revelar em mim
Um bocado de todos os sangues
Para assim celebrar contigo
A grandeza que és.
Para assim mobilizar em mim
A sabedoria dos magos e dos pajés
Que herdaram de ti
O dom de fechar feridas abertas, De curar vexames da alma
Em desafios de buscas,
Sarando escuros e abismos
Insondáveis, impenetráveis...
Com o macerar das ervas
Entre a fragilidade dos dedos,
Com o incensar dos ares
Baforados por aromas
Dilaceradores do mal,
Para assim ser sinal
Da grandeza dos sopros
Sob teus desígnios.
Oh! Meu bem amado!
Agora já sei que não és
Um Ser de carne e osso,
Mas que és todos os ossos
E carnes
De todos os seres juntos
Que uma delas é minha própria carne
Em ti unificada,
Por isso sou em ti
E és comigo tudo que sinto,
Penso-calo-falo;
Fado ou alegria.
Sinfonia...
És o falo que floresce


No deserto a flor da vida
E nutre cada semente
Em seu próprio útero
Pois que também és,
Senhora Mãe de tudo
E um mergulho em ti,
Fecunda a eternidade.
A vida é... frágil
Em seu corpo de carne e salmouras;
Em seu manto de vaidades e delírios.
Parte de mim
Que o espírito sopra
Se enternece,
Por ser o que permanece
Sendo seu hálito,
No hábito de ser vida
Em sopros, construída,
Em seu tear de finos fios,
Rios de fios-luz,
Que reluz na eternidade,
Como o olhar das cabras
Comovidas com a vida
Que seus corpos geram.
Quando as olhei passando,
Pastando a eternidade do dia,
Em um viver quase anônimo,


Resignadas, entre as grades da carroça,
Vi que havia poesia no olhar das cabras,
Daquelas mansas cabras
Subjugadas ao trepidar do caminho.
Nelas, havia a poesia
De quem vai no escuro
Tateando um rumo,
Que a rota dos olhos não alcança,
E só o instinto fareja o destino.
Sem mapas ou oráculos,
Seguem o que as conduz.
Para a morte?
Ou para um pasto de vida?
Havia poesia no olhar das cabras
Uma poesia ruminada
De fazeres instintivos,
Que tecem berros
Entre as cercas do curral,
Onde se dá o limiar
Para cabras no mundo dos homens.
Havia poesia no olhar das cabras,
No berro das cabras,
Na lã das cabras,
No úbere das cabras...
Porque poesia em tudo há.
Aquele que a enxerga
Enxerga o que há além.
Além-mar, além-lago
Além-rio, riso, ou fala,
Além-veio que soletra
O mistério da vida
E toca sua polpa
Tecida em torno do mistério.
O mistério é o caroço do mundo.


Um dia me encontrei em ti,
Tal o silêncio,
Nas flores, toca o infinito.
Plasmei meu corpo
Na delicadeza verde
Dos teus olhos,
Para assim contemplar na vida
A tua vida, neles refletida,
Como em lago se reflete
Luz e sol,
Cor e eternidade.
Homem tu és e és menino,
Pois que dilaceras
O olor dos dias
Em buscas e navegações.
Navegar o infinito
É verter líquidos de roxa pedra,
Para extrair o néctar.
É assim que galopas o mundo
Buscando em profundos
E expostos veios a comovência,
Néctar-essência
Que faz mover
Os dedos das mãos
Para catar os grãos da vida
Entre as relíquias do mundo.
Te amar é fácil
Porque és amplo
Como o voo dos pássaros
Que pousam no meu terreiro


E pastam os meus sonhos
Na luz do dia
Até que a noite
Deite-os em seus ninhos
Fazendo deles passarinhos.
Ganhei uma caneta vermelha
Para escrever o amor.
Mas como se escreve o amor?
Amor se escreve?
O amor passa por mim
Me toca com o seu manto
De cores avermelhadas;
Cor da carne que deseja,
E do sangue que jorra,
Quando carne é retalhada.
Amor se escreve, sim
Nas entrelinhas da vida,
Entre as linhas, nas palavras;
Amor se soletra e se diz;
Amor se faz.
Entre os dedos, os deveres;
A disciplina do amor.
Entre os nódulos, os novelos, Longos fios nos teares, Nos altares, entre lençóis, Nos arrebóis, nas caladas.


Amor não se cala, se escreve, se fala.
Não se coíbe o amor.
Mesmo que ocultado esteja,
Amor tem cor de cereja,
Mas tem cor azul também.
Amor musgo, mudo entalo.
Amor que se quer amor
É bem claro
Tal o sol nascendo cedo
Bem nos trópicos do país
Amor vem é na raiz
Daquilo que gera amor.
Quando pela primeira vez
O amor me ampliou
Os vasos de lírios,
Cavalguei minha aldeia inteira
Com o potro mais belo de meu pai.
Segurando em suas crinas
Alçava galope entre meus fluxos,
Minhas flores: cachos de açucenas,
Rosas rubras em raros diademas
A ornarem meu colo com alegrias plenas,
Entre as ventanias
Das tardes, tragadas pelo desejo
De alcançar o mundo, os homens...
As rimas e os matizes,
Daquele que acelerava
O ritmo da vida em mim


E comovia meus poros
Para antever o mistério
No pulsar de um coração,
Florescido na primavera:
Minha primeira era
De mulher ser,
Servida pelo gosto
Do homem primeiro,
Que adornava meus sentidos
Fé-mininos e me fazia
Múltipla em finas correntezas
De rio trans-bordando
Meu corpo com a mais pura graça
Em pontos cheios.
Eu vejo a graça do rio
Nas garças pousadas
Sobre o cio das suas margens.
Comovo-me com elas
Porque a vida é pura vertigem
De asas a sobrevoarem
Os dias digitados no infinito.
Olho-as comovida
Pelo sagrado que há
No ato de na terra
Elas pousarem
Para refazer o mistério des-garçado,
Pelos des-vios dos dedos
Nas linhas da vida.


O rio se faz pleno
Com o milagre das garças.
Sem desgarçar-se
No liame dos seus veios;
Se completa, se faz cheio
Para receber a moça
Que virá em uma das horas de agosto
Degustar seu leito.
Ela será mansa com o rio
E macia desvelará sua outra margem.
Aquela que ela avistava
Somente o mistério e nunca o corpo,
Aquela que ela provava
Com os olhos,
Somente os vestígios dos seus veios.
A moça se deixará
No rio deitar
Para saber sua inteireza
E fazer-se alga em suas verdes águas
Até chegar-se em sua alma
O espírito do rio inteiro.
Gozo com o gosto
De adentrar quintais
No louvor do meio-dia
Quando as reses
Ressonam o mormaço da vida
Sob as árvores,
E os galos calam o sertão do sol,


Com seu comprido cantar
A prolongar a vida
Colorida pelos varais,
Estendidos ao vento,
Que celebra os quintais
Com o cheiro bom
Das roupas lavadas.
A vida sabe-se
Porque dela é o Reino das coisas
Solúveis e insondáveis
Que vagueiam em potros
Fiando linhos
Para bordar as cambraias do mundo.
A vida sabe-se porque dela
É o Reino das coisas acetinadas
Que deslizam sobre os lençóis
Da ceia e da seiva que aquecem
Os corpos remidos pelo amor.
A vida sabe-se porque dela
É o Reino das coisas laqueadas
Que se irmanam com o pecado
Quase insolúvel e pragueja
A alma ante as chamas.
A vida sabe-se porque
Dela é o Reino das coisas ásperas
Que se atritam até a exaustão do medo e da vaidade.


A vida sabe-se porque dela
É o Reino das misericórdias
Que reavivam o fogo das lareiras
Para aquecer os frios.
A vida sabe-se porque dela
É o reino do encantamento
Que sopra o vento nos cata-ventos
Até multiplicar as águas
Para o batismo das almas.
A vida sabe-se porque dela
É o reino das sombras
Que delimitam a luz
Na paisagem do muro.
A vida sabe-se porque
Dela é o Reino dos sonhos
Que sopram para além do azul
As pandorgas.
A vida sabe-se porque dela
É o Reino das compaixões
Que submetem as algas
Ao instinto dos peixes
Fazendo fluir oceanos.
A vida sabe-se porque dela
É o reino das andorinhas e dos colibris
Que tingem de alegria
Os canteiros do infinito.
A vida sabe-se porque dela
É o Reino do movimento
Que aproxima os eventos
Dentro da chama eterna.


A vida sabe-se porque dela
É o Reino das coisas absolutas
Que cristalizam o tempo
Na dimensão das eras
Até recomeçarem os ciclos.
A vida sabe-se porque dela
É o Reino das relíquias
Que constroem os vitrais
Das antigas catedrais.
A vida sabe-se porque
É rio que abre infinitos braços
Para abraçar o mundo
Até exauri-lo em possibilidades.
SERTÃO em mim
SER TÃO em mim.
SER.
SERTÃO







Fabiana Bezerra Rocha é natural de Mangabeira, Eusébio, Ceará. É escritora e poeta, escreve poemas, contos e prosa poética. Graduada em Letras, especialista em culturas populares e tradicionais, é também pesquisadora das culturas africanas e indígenas. Tem mais de cinquenta livros publicados para diversos públicos em várias editoras do país. Foi finalista do Prêmio Carolina Maria de Jesus.







