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quinta-feira

fortaleza - cearÁ - 30 de julho de 2020

O paradesporto como ferramenta de inserção de pessoas com deficiência à sociedade

clariane abreu, atleta


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Neste terceiro caderno do Projeto Inclusão Social pelo Esporte que apresentamos nesta quinta-feira, 30, seguimos contando histórias marcantes. Reiteramos: não falamos de super-heróis, mas de possibilidades, caminhos persistentes, investimentos em gente e futuros que são potencializados utilizando o esporte para pessoas com deficiência como mola propulsora. O paradesporto é absolutamente fascinante. Desde um anônimo que o pratica, até o principal medalhista olímpico que torna a atividade profissional com apoio financeiro e de patrocinadores, todos estão unidos na busca para melhorar o cotidiano

e as experiências. E o potencial do esporte para a contribuição no desenvolvimento e processo de inclusão social é notável porque atinge positivamente a autoestima. Vale para crianças, jovens e adultos. Neste espaço você vai conhecer o Carlinhos, a Clara, a Angelina, o Elione e a Clariene. Personagens reais, com feitos relevantes que merecem ser conhecidos e destacados. Eles não são melhores ou piores do que ninguém, mas carregam desafios especiais com muito mérito e força, participando de uma sociedade hostil que notadamente tem como objetivo priorizar a maioria, sem voltar os olhos para individualidades.

Agradecemos muito aos cinco por compartilharem conosco seus resultados e experiências. Eles representam centenas e milhares de praticantes que são protagonistas de suas vidas, construídas com empenho, treinos, persistência e amor.

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Fotos jÚlIo Caesar

AngelinA cAetAno é AtletA de Arremesso de peso.

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QUINTA-FEIRA Fortaleza - CearÁ - 30 de julho de 2020

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UNIÃO | Clariene e Elione formam um casal do paratletismo cearense com ótimos resultados e não se impõem limites para atingir os objetivos.

Há dez anos, a vida de Elione Sousa experimentou a primeira transformação impactante. No auge da juventude, sofreu acidente de moto e terminou com a perna esquerda amputada. A segunda grande mudança teve início durante o processo de reabilitação, quando ele foi apresentado ao paradesporto. “Não tinha ideia de como continuar a minha vida, achei que tinha sido o fim. O que o esporte já me proporcionou transformou a minha vida”, aponta o paratleta de 37 anos. “Eu sempre falo que o esporte me resgatou no momento em que eu sofri aquele acidente. Ele me levantou do asfalto”, recorda. A trajetória no novo universo começou na natação e foram dois títulos nacionais e um bronze na Argentina. Elione, porém, buscava outros desafios e maior longevidade no esporte. Foi aí que decidiu se aventurar nas corridas, com muletas. Em 2016, com a ajuda de outros corredores, em uma vaquinha virtual, conseguiu uma prótese e entrou no paratriatlo: 750 metros na natação, 20 km de bicicleta e mais 5 km de corrida. Bem adaptado à prótese, o cearense de Aracati experimentou provas de velocidade e salto em distância e, mais uma vez, foi bem sucedido, com conquista nacional e torneio nos Estados Unidos. “O esporte me tirou daquela situação de coitadinho, que eu me via no início.

Hoje faço coisas na área esportiva que não sabia que era capaz quando tinha duas pernas”, destaca o fã de Ayrton Senna e do paratleta cearense Betão, que o ajudou no início. Feliz com a nova rotina, Elione decidiu incentivar a namorada Clariene Abreu, 31, a se engajar no paradesporto – ela usa prótese no braço direito. O caminho foi semelhante. “Eu me espelho no Elione, que sofreu um acidente, teve a amputação da perna e viu que poderia ser uma pessoa melhor no esporte. Ele é o meu grande ídolo”, garante. Nascida em Aquiraz, a paratleta admite que a adaptação não foi simples até entender a representatividade da prática. “Por várias vezes eu pensei em desistir e não dar continuidade porque os treinos eram muito doloridos. Até que eu consegui entender o quanto era importante e não eram só as dores, nem só as competições, era o quanto o esporte em si passou a significar para mim”, recorda. Os dias de luta trouxeram dias de glória. Clariene é tricampeã brasileira no salto em distância e quarta colocada nos Jogos Parapan-Americanos do ano passado, em Lima, no Peru. “O esporte de alto rendimento transformou tudo, inclusive a questão da minha autoestima, da aceitação de mim pela falta de um membro”, reconhece. “Olhar para trás e ver o quanto a

Não tinha ideia de como continuar a minha vida, achei que tinha sido o fim, até me redescobrir no esporte Elione Sousa, Atleta de paradesporto

minha vida é diferente hoje é um prazer imenso e uma gratidão muito grande pelo Elione ter sido a pessoa que plantou essa semente”, completa, orgulhosa. A vida pessoal e profissional encontra obstáculos em razão do preconceito enraizado. “Ainda existe muito preconceito. A cada dia a gente tem que estar provando que é capaz, que isso não é justo, não cabe”, pontua Elione. “Eu me sinto uma pessoa incluída, não importa como as outras pessoas olham para mim, se é como uma pessoa que não tem um membro, ou atleta ou mulher. Eu não me permito mais sentir menos do que isso”, assegura Clariene, que enxerga papel fundamental nas gerações futuras para dissipar os tabus.


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Quinta-feira

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Fortaleza - CearÁ - 30 de julho de 2020

Fortaleza - CearÁ - 30 de julho de 2020

a personalidade tímida de Clara Carvalho contrasta com a história de superação da jovem de 15 anos. diagnosticada no momento do parto com mielomenigocele – má formação congênita na coluna vertebral –, passou por mais de 20 cirurgias e tem um acompanhamento clínico reforçado para construir carreira vitoriosa na classe S6, SB6 e SM6 da natação. a fisioterapia, por exemplo, já fazia parte da rotina desde bebê. Na adolescência, iniciou a hidroterapia para ajudar na postura corporal e qualidade de vida. o talento nas piscinas, então, começou a despontar. “Nesse momento começamos a ver em Clara a paixão em nadar, sempre dedicada a aprender”, conta roger, pai de Clara. Integrada ao núcleo Nadar, da associação d’eficiência Superando limites (adesul), os torneios aquáticos viraram rotina. aos 14 anos, com os primeiros índices paralímpicos, qualificou-se para a disputa do Campeonato Brasileiro e trouxe medalha de bronze

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nos 50 m livres. “o esporte é um dos melhores antídotos contra o preconceito e isolamento social”, aponta Clara. No início de março deste ano, a jovem paratleta foi até recife para fazer história mais uma vez: em disputa Norte/Nordeste, conseguiu cinco medalhas de ouro e outras duas de prata. “dentro da natação, faço da minha vida um exemplo para os que convivem com a deficiência seja ela qual for.”, comenta. a atuação voltou a chamar a atenção a nível nacional: foi convidada pelo técnico da seleções sub-18 e sub-20, Fabiano Quirino, a participar da semana de treinamento online de jovens da natação. “Foi o máximo participar desse encontro com diversos atletas medalhistas e reencontrar os amigos”, diz Clara. a trajetória vitoriosa no paradesporto é fortalecida pela admiração por outros atletas. a grande referência é a conterrânea edênia Garcia, tricampeã mundial e com medalhas conquistadas em todos os jogos Paralímpicos de Verão desde 2004.


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SUPERAÇÃO | Deficiente visual, Carlinhos encontrou a paixão pelo esporte no Futebol de 5 e desponta como promessa cearense no paradesporto

Quantos sonhos podem se realizar dentro de uma quadra? Os atletas de Futebol de 5, modalidade praticada por deficientes visuais, não podem vê-los, mas conseguem senti-los como poucos. Destaque da turma onde treina duas vezes por semana, o jovem Antônio Carlos Pereira Rocha não se inibe de pensar grande pelas dificuldades - e joga muito para isso. Nascido em General Sampaio, interior do Estado, Carlinhos encontrou felicidade com a bola nos pés, mas primeiro se arriscou nos tatames. Lutou judô e conquistou dois bronzes na paralímpiada escolar. Em 2017, veio o futebol. “Quem me apresentou foi um colega, que já jogava há mais tempo. Minha família me apoiou muito. Escolhi porque eu sempre joguei futebol, mesmo não vendo”, explica. Aos 16 anos, o craque cearense já disputou dois torneios regionais, mais duas paralímpiadas escolares - uma medalha de prata e outra de bronze - e um Campeonato Brasileiro. O sucesso meteórico o levou até a seleção brasileira sub-23. Não à toa ganhou a alcunha de CR10, em alusão ao português Cristiano Ronaldo (CR7), pela habilidade com a pelota - que tem guizos internos para orientar os atletas pelo som. Mas o verdadeiro ídolo de Carlinhos é cearense. “No futebol convencional, eu torço pelo Fortaleza. E um

dos jogadores que eu admiro muito é o Osvaldo, que é baixinho, veloz. Ele joga muito”, diz o jovem, que já conheceu o camisa 11 do Tricolor. Carlinhos é o mais velho dos cinco filhos de Antônio e Valdeniza e serve de inspiração. “É um garoto cheio de sonhos e não foi a deficiência que o impediu, talentosíssimo. Determinado, humilde, prestativo, sabe ouvir, sincero, comunicativo, verdadeiro, persistente...”, tenta resumir o educador físico David Xavier, técnico da jovem promessa e comandante das equipes de futebol em cadeira de rodas motorizadas do Fortaleza e da seleção brasileira. Dentro de casa, a paixão pelo futebol é incentivada, mas sem brecha para escapar dos estudos. CR10 cursa o 1º ano do ensino médio e tem o colégio como mais uma oportunidade de interações e vínculos sociais. “Quando comecei a praticar o futebol, eu também comecei a andar sozinho em Fortaleza e a conhecer outras pessoas”, recorda. “A prova é que nas fases da seleção brasileira eu fui só, teve só uma que eu fui acompanhado”, destaca, orgulhoso. A liberdade de Carlinhos e de outras pessoas com deficiência a partir da entrada no mundo do paradesporto é apontada como um dos fatores positivos. “O indivíduo com deficiência pode se tornar atleta profissional com autonomia e mais independência. O esporte é renovador

O esporte é renovador e transformador. Faz bem à saúde física e mental. Fabiana Malena, Terapeuta Ocupacional

e transformador”, ressalta a terapeuta ocupacional Fabiana Malena, que trabalha no Programa Atletas Saudáveis, na Special Olympics Brasil. Com o discurso bem ensaiado semelhante aos astros do mundo do futebol - frisa que jogador deve ter humildade e cabeça no lugar -, Carlinhos dribla os julgamentos negativos com bom humor. “Eu já sofri preconceito, só que eu sou o tipo do cara que não leva muito a sério. Mas pessoas com qualquer deficiência ainda sofrem com a questão de preconceito, então é uma coisa que ainda é muito presente”, lamenta. “A superação dessas barreiras não os tornam heróis, termo utilizado por alguns para definir um paratleta que treina, treina e treina. São pessoas que buscam, através do esporte, suas potencialidades”, destaca David.


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quinta-feira FOrTALezA - CeArÁ - 30 De jULHO De 2020

Um convite despretensioso na adolescência mudou a vida de Angelina Caetano. Deficiente da perna esquerda, na qual usa uma prótese, foi chamada para visitar um clube paradesportivo. “Quando cheguei lá, já fiquei encantada”, lembra. A primeira escolha foi a natação. Depois, incentivada pelo técnico Felipe Catunda, da Associação D’eficiência Supeando Limites (Adesul), entrou no atletismo e agarrou a oportunidade. “As pessoas com deficiência devem ter um professor, um terapeuta ocupacional, um fisioterapeuta que vai indicar ou trazer exemplos de pessoas que mudaram sua vida através do esporte”, indica Fabiana Malena, terapeuta ocupacional e diretora clínica do Programa Atletas Saudáveis, da Special Olympics Brasil. A fortalezense de 26 anos pratica o arremesso de peso. É a atual campeã cearense, campeã do Norte/Nordeste e terceira colocada do ranking nacional. A trajetória no esporte já conta com viagens e competições Brasil afora. “A cada competição fico mais motivada com a garra de vários paratletas”, diz.

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Hoje engajada no esporte, Angelina não se via capaz de quebrar recordes e conquistar títulos até cair na piscina pela primeira vez de forma profissional. “Antes eu via na TV as pessoas com deficiência competindo e achava que não conseguiria”, revela. “Sem dúvidas, a melhor coisa que me aconteceu foi conhecer o esporte. Hoje eu vivo o esporte, estou conhecendo vários lugares que sempre quis conhecer e competindo. Fico orgulhosa de mim mesma”, destaca. Apesar de acompanhar outros paratletas, na TV ou em competições que disputa, a principal referência de Angelina está fora do esporte: a mãe, Fátima Caetano. “Uma mulher forte, batalhadora. Minha família sempre me motivou a não desistir dos meu objetivos no esporte”, aponta, orgulhosa. O apoio da família e o sucesso nas pistas de atletismo ajudaram a paratleta a superar as adversidades da vida, sobretudo a postura de desconhecidos. “Infelizmente ainda existe o preconceito, eu sempre encarei isso de uma forma tranquila”, assegura.


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