O POVO Educação 2021 - Caderno Jornal

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QUARTA-FEIRA

FORTALEZA - CE

01/12/2021

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20 ANOS

educação RETOMADA

Nova geração

VACINADA MARIA EDUARDA Alencar Costa, 14, recebeu a vacina contra Covid-19 no Centro de Eventos

BARBARA MOIRAS

| REPORTAGEM | RETORNO AO MUNDO PRESENCIAL OPOVOEDUCACAO.FDR.ORG.BR

Aponte a câmera do celular para o código, navegue pelo site do O POVO Educação e veja muitos outros conteúdos

Os olhares dos jovens para o processo de retomada das atividades cotidianas, possível agora com a ampliação da vacinação PÁGINAS 10 E 11

O POVO EDUCAÇÃO é um projeto realizado pelo O POVO. Esta edição foi elaborada exclusivamente com textos de correspondentes de escolas públicas e privadas, que exercitaram técnicas jornalísticas, desde a elaboração das abordagens das pautas ao desenvolvimento dos textos, entrevistas e sugestões de edição. Algumas imagens também são exclusivas dos correspondentes. Edição de 20 páginas encartada no jornal O POVO. Proibido ser vendido separadamente.


22 OPINIÃO educação

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QUARTA-FEIRA TERÇA-FEIRA

FORTALEZA FORTALEZA -- CEARÁ CEARÁ -- 30 01 DE DE NOVEMBRO DEZEMBRO DE 2021

educação

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QUARTA-FEIRA

FORTALEZA - CEARÁ - 01 DE DEZEMBRO DE 2021

educação

3

SUMÁRIO

EMPRESA JORNALÍSTICA O POVO

ETC

PRESIDENTE Luciana Dummar PRESIDENTE-EXECUTIVO João Dummar Neto DIRETORES-EXECUTIVOS DE JORNALISMO Ana Naddaf Erick Guimarães

O que muda pós-vacina

Frases

DIRETOR DE JORNALISMO DAS RÁDIOS Jocélio Leal

EDITORIAL

DIRETOR CORPORATIVO Cliff Villar

OPOVO EDUCAÇÃO

DIRETORA DE GENTE E GESTÃO Cecília Eurides

Da quebrada ao pódio

DIRETOR ADJUNTO DA REDAÇÃO Erick Guimarães DIREÇÃO GERAL DE NEGÓCIOS, MARKETING E PROJETOS ESPECIAIS Alexandre Medina Néri

Vontade Frouxa

EDITORIALISTA-CHEFE E EDITOR DE DIVERSIDADE E INCLUSÃO Plínio Bortolotti

ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO Daniela Nogueira OMBUDSMAN Juliana Matos Brito ESTRATÉGIA E RELACIONAMENTO Adryana Joca DIRETOR DE ESTRATÉGIA DIGITAL André Filipe Dummar de Azevedo

educação ESPECIAL O POVO EDUCAÇÃO 20 ANOS CONCEPÇÃO E COORDENADOR GERAL Cliff Villar COORDENADORA DE OPERAÇÕES Vanessa Fugi COORDENADORA PEDAGÓGICA Patrícia Lima de Alencar ANALISTA ADMINISTRATIVA Elma Gonçalves GERENTE EXECUTIVA DE PROJETOS Lela Pinheiro

DEMOCRÁTICO, SKATE GANHA FORÇA NO CEARÁ

CLIFF VILLAR

EDITOR-CHEFE DE OPINIÃO Guálter George

Coordenador Geral do O POVO Educação e Diretor Corporativo do Jornal O POVO

A

lguém já falou que educação é prioridade zero para o Brasil. Não existem dúvidas em relação a esta afirmação. As dúvidas surgem quando essa vontade expressa não se transforma em verdade concreta, tangível. Um exemplo disso são os gestores públicos que bradam a importância da educação, mas cortam verbas de creches, congelam salários de professores, mitigam merenda escolar e não dão condições físicas satisfatórias para o funcionamento das escolas. Chamo esse fenômeno de “vontade frouxa”. É mais ou menos assim: educação é

importante, educação é prioridade, é essencial... mas não ao ponto de transformar isso em realidade. Qualquer país desenvolvido tem em seu alicerce uma política educacional eficiente. Sem eficiência educacional não temos ciência. Sem ciência, não temos tecnologia. Sem tecnologia, os meios de produção não contribuem com as condições para a geração de renda. Sem geração de renda, temos a pobreza que, com a falta de educação, acaba por congelar a sociedade em castas. A educação é a lâmina que rompe essa corrente, esse ciclo de escassez. Enquanto ficarmos somente no gogó em

cima dos palanques, nada de concreto vai acontecer de fato. Palavras ao vento não farão esse catavento gerar energia. Precisamos de mais ação e menos intenção. Aqui, no programa O POVO Educação, celebramos os 20 anos de uma iniciativa que une os diálogos entre estudantes e a sociedade, entre imprensa e comunidades carentes, entre visões de mundo e realidades separadas por fossos sociais. Isso só é possível quando uma ideia sai do papel e vira ação. E O POVO Educação é isso: uma ponte real de possibilidades e de concretudes. Viva a educação que sai do papel e, enfim, transforma a realidade! n

COLETIVOS SOCIAIS PARA CONHECER E SE INSPIRAR

AGUANAMBI 282 COM CLIFF VILAR

16 Opinião

Diversidade na escola

17

BECE, orgulho cearense

APÓS REFORMA, BIBLIOTECA VOLTA A SER REFÚGIO DOS LEITORES

PAULO PAULO FREIRE FREIRE 100 anos do educador

SAIBA COMO PROFESSORES, ALUNOS E PODER PÚBLICO LIDAM COM O TEMA

ANALISTA DE PROJETOS Daniele Andrade DIRETOR GERAL DE NEGÓCIOS, MARKETING E PROJETOS ESPECIAIS Alexandre Medina Néri ASSESSORA DE COMUNICAÇÃO Daniela Nogueira ESTRATÉGIA E RELACIONAMENTO Adryana Joca

CHARGE \ Antônia Sabrina e Luan OPOVOEDUCACAO@OPOVO.COM.BR

ESTÚDIO DE BRANDED CONTENT (LABETA) DO O POVO GERENTE-GERAL Gil Dicelli EDITORA-EXECUTIVA Paula Lima EDITORA-ADJUNTA Ana Beatriz Caldas DESIGNERS Marina Mota e Natasha Ellen

ANTÔNIA SABRINA CUNHA DE FREITAS

CORRESPONDENTE ESCOLAR

LUAN DIONES OLIVEIRA TEIXEIRA

CORRESPONDENTE ESCOLAR


4 FAROL

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QUARTA-FEIRA

FORTALEZA FORTALEZA -- CEARÁ CEARÁ -- 30 01 DE DE NOVEMBRO DEZEMBRO DE 2021

educação educação

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QUARTA-FEIRA TERÇA-FEIRA

FORTALEZA - CEARÁ - 01 DE DEZEMBRO DE 2021

1 JOÃO DAVI DE MORAIS BARBOSA SARAIVA

RANNY SOUSA SALES

CORRESPONDENTE ESCOLAR

CORRESPONDENTE ESCOLAR

WESLLEY BEZERRA

CORRESPONDENTE ESCOLAR

DIVULGAÇÃO

“A intervenção proposta por Paulo Freire é uma educação comprometida com a transformação do mundo”

“A CORRUPÇÃO ALIMENTA A DESIGUALDADE, DRENA OS RECURSOS DE UMA NAÇÃO, ESPALHA-SE PELAS FRONTEIRAS E GERA SOFRIMENTO HUMANO. É NADA MENOS DO QUE UMA AMEAÇA À SEGURANÇA NACIONAL NO SÉCULO 21”

RITA VON HUNTY, drag queen interpretada pelo professor e ator Guilherme Terreri, para o documentário “Paulo Freire: 100 anos” da TV Cultura

AGUANAMBI 282 5 educação

JORNALISMO NA SALA DE AULA CAMILA DE ALMEIDA

“NOSSA DOR COMPARTILHADA É UM LEMBRETE PUNGENTE DE QUE NOSSO FUTURO COLETIVO DEPENDERÁ DE NOSSA CAPACIDADE DE RECONHECER NOSSA HUMANIDADE COMUM E DE AGIRMOS JUNTOS”

educação

Cliff Villar fala sobre os 20 anos do programa O POVO Educação e a relação entre escola, jornalismo e transformação social

“A PIOR COISA QUE PODE ACONTECER PARA UM EDUCADOR, UM GESTOR, UM GOVERNANTE É A BAJULAÇÃO, QUE ESTIMULA O COMPORTAMENTO REPETITIVO, DESFAVORECENDO A CRÍTICA” MARIO SERGIO CORTELLA, no livro A Diversidade, frase retirada do Instagram do próprio autor

DIVULGAÇÃO

“QUANDO COMPARAMOS O BRASIL E O RESTANTE DO MUNDO ENTRE A CAMADA MAIS POBRE, OS POBRES BRASILEIROS ESTÃO SENDO DESTRUÍDOS NESTES CAMPOS E NO MUNDO MELHORANDO. A PANDEMIA VIROU MÁQUINA DE DESIGUALDADE NO BRASIL”

BRENDAN SMIALOWSKI / AFP

DIVULGAÇÃO

JOE BIDEN, presidente dos Estados Unidos, em discurso na Assembleia da ONU

“PASSEI UM BOM TEMPO SEM VOAR POR CONTA DA PANDEMIA. O MEDO É TÃO IRRACIONAL QUE FIQUEI: ´SERÁ QUE OS PILOTOS DESAPRENDERAM?’ COITADA” LETRUX, frase da coluna “ Foi por medo de avião” na revista Gama

H

á 20 anos, O POVO foi desafiado a estimular o hábito de leitura em sala de aula pela Associação Nacional de Jornais (ANJ). A provocação, feita para periódicos de todo o País, fez com que o programa O POVO Educação surgisse. Na entrevista a seguir, Cliff Villar, diretor corporativo do O POVO e coordenador geral do O POVO Educação, fala sobre os atuais desafios de se reinventar ao longo de duas décadas e do impacto que ultrapassa a sala de aula.

“A união desses dois vetores, acesso e lugar de fala, forma a construção do hábito de leitura e da formação do pensamento crítico”

Pensando nos próximos 20 anos, Villar ainda anuncia metas para o projeto, que deve evoluir e se tornar uma startup com foco em produção de conteúdo e responsabilidade social. Confira:

O POVO - O que motivou o surgimento do O POVO Educação há 20 anos? Cliff Villar - Em 2001, a Associação Nacional de Jornais provocou seus filiados para que pudessem trabalhar o hábito de leitura em sala de aula. O POVO criou seu programa e de lá para cá tem ampliado suas possibilidades e criado outros desafios.

MARCELO NERI, diretor do FGV Social, em entrevista à Rádio CNN

OP - Qual o impacto do projeto ao longo desses anos na vida de estudantes cearenses? Cliff - Muito grande. Durante esse período, mais de mil estudantes tiveram contato com o processo básico de jornalismo, ampliando a visão crítica e transformando-os em agentes de transformação em suas comunidades.

􀣔 DEDOS DE PROSA

Um sonho que virou realidade. É o que a Escola de Dança e Integração Social para Criança e Adolescente (Edisca) significa para Dora Andrade, bailarina e coreógrafa cearense, que compartilhou um pouco de sua trajetória profissional com O POVO Educação.

DIVULGAÇÃO

DORA ANDRADE DANÇA E TRANSFORMAÇÃO

Desde muito jovem, a paixão pela dança move Dora. Com apenas 16 anos, ela iniciou a carreira como bailarina e entendeu que aquele era seu propósito. Hoje, com 46 anos de carreira, se mantém ativa à frente da Edisca, que se tornou uma referência artística no Ceará e consegue ir muito além do ensino da dança, contribuindo para a formação cidadã de crianças e jovens da periferia.

Dora Andrade - Eu tive muita sorte na composição da equipe, tenho uma equipe muito comprometida com a vida humana, com a questão social. Então, eu acho que estar na Edisca é um grande privilégio para qualquer pessoa. Primeiro porque você tem a possibilidade de rever seus valores, de encontrar o que realmente vale a pena nessa vida, e eu asseguro que é muito distante de tudo o que as outras pessoas julgam ou avaliam do que traz felicidade. Não é o consumo que traz felicidade, não é muito dinheiro que traz felicidade, mas é a sensação de que sua vida serviu para alguma coisa maior, do que apenas sua família nuclear, que o seu trabalho, a sua vida pôde gerar intervenções positivas na vida de outras pessoas. Isso me dá uma sensação de dever cumprido, que estive presente na época que me foi dado viver, eu não estive embaixo da cama, eu estava no fronte, estava atuando.

Dora Andrade - Na verdade, eu não saberia nem te dizer, porque eu continuo trabalhando com dança. Mas o meu foco não é mais a dança apenas. Hoje meu trabalho é muito ligado à questão social. Ao longo desses anos, a gente tem formado bailarinos extraordinários. Essa semana mesmo a gente soube que um dos nossos alunos fez uma audição e passou no Palácio das Artes, em Belo

CORRESPONDENTE ESCOLAR

VALESKA DE MELO DA SILVA

CORRESPONDENTE ESCOLAR

Horizonte. A missão da instituição não é formar bailarinos, mas formar cidadãos. Cidadãos sensíveis, éticos, comprometidos com a causa social. Eu não me sinto pertencendo ao mundo da dança, puramente. Eu hoje me sinto pertencendo com muito orgulho, com muita garra, com muita verdade ao mundo das ações sociais. OP EDUCAÇÃO - Qual o sentimento de ajudar milhares de crianças e adolescentes por meio da dança?

OP EDUCAÇÃO – O que mais mudou do início da sua carreira para os tempos atuais, em relação à dança e ao balé?

LAURA MARIA DA SILVA ARAÚJO

OP - De que forma O POVO Educação enxerga as lacunas na educação e como age para preenchê-las?

GABRIEL MENEZES CARNEIRO SIEBRA

CORRESPONDENTE ESCOLAR

JOSÉ DEIVID CALIXTO ALEXANDRE CORRESPONDENTE ESCOLAR

CLAIRTON DO NASCIMENTO FAUSTINO CORRESPONDENTE ESCOLAR

Cliff - Considero que trabalhamos com duas perspectivas. A primeira tendo como ponto de partida a sociedade e o papel do cidadão na relação social. Conhecimento das ferramentas de direito social, espaço de fala sobre assuntos como segurança pública, políticas para a juventude, cultura como ferramenta de inclusão e pertencimento, formação de lideranças comunitárias, clara comunicação social e outros temas nessa direção. A segunda é a do mercado. Nela, orientamos os correspondentes, a grande maioria das escolas da rede pública e de baixa renda, sobre as possibilidades de mercado, passando noções básicas de funções que ampliam a possibilidade de acesso ao mercado de trabalho e até mesmo, se for o caso e perfil, das bases de empreendedorismo. OP - Na sua avaliação, qual o caminho possível para aproximar os jovens do hábito de leitura e do pensamento crítico? Cliff - Acesso e lugar de fala. Acesso quando temos conteúdo adequado, com aderência de interesse por parte do jovem. Essa aderência vem desde a temática, mas também na própria construção do conteúdo, na forma de construção desse conteúdo. E lugar de fala, quando o jovem - no caso, os nossos correspondentes -, têm possibilidade de se expressar pelas plataformas do programa e até mesmo no conteúdo produzido pelo Grupo O POVO, com suas visões, opiniões, leituras e cores. A união desses dois vetores, acesso e lugar de fala, formam a construção do hábito de leitura e da formação do pensamento crítico. OP - Em um cenário em que jornais do mundo todo combatem fake news, qual a importância de um projeto como O POVO Educação? Cliff - É de grande importância. Cidadania gera cidadania. A expressão livre é fruto da cidadania e a falsa notícia, as fakes news são a deformação da liberdade de expressão. Como os correspondentes aprendem a manusear a informação, acabam conhecendo a delicada arte de editar um conteúdo jornalístico. Uma arte que une técnica, mas principalmente uma consciência do papel da informação que impacta na vida de todos na sociedade.

60 13

ESCOLAS participam do O POVO Educação a cada ano

a 15 anos

É A FAIXA ETÁRIA dos estudantes que participam do Programa

OP - Quais os critérios de escolha das escolas e dos correspondentes que participam do projeto? Cliff - Os critérios atualmente giram em seleções e indicações dos correspondentes mestres. Os mestres são os grandes parceiros desse programa. Os correspondentes têm entre 13 e 15 anos e estão entre o nono ano do Ensino Fundamental e o primeiro ano do Ensino Médio. Ao todo são 60 escolas, metade da rede pública e metade da rede privada, com dois correspondentes em cada. Essa edição que celebra os 20 anos do programa seguiu um processo especial: são todos convidados, a grande maioria já foi correspondente em outras edições. OP - Como O POVO Educação acompanhou a reinvenção da comunicação nos últimos anos? Cliff - A entrada de novas plataformas transformou também todas as atividades. Hoje, por exemplo, existem oficinas de podcasts e os correspondentes escrevem para blogs também. A tecnologia é aliada nesse processo, contribui para uma maior interação e desperta maior interesse dos correspondentes. OP - O que O POVO Educação projeta para os próximos 20 anos?

O POVO MAIS OPOVOEDUCACAO.FDR.ORG.BR

Para saber mais sobre O POVO EDUCAÇÃO e a produção dos estudantes, acesse o site. MAIS.OPOVO.COM.BR

Para outros conteúdos do O POVO.

Cliff - O Programa vai virar um núcleo de produção de conteúdo para jovens. A intenção é de que tenhamos laboratórios reais que possam interagir com o mercado, academia, gestões públicas. Esses espaços de inovação serão parceirizados com instituições e empresas e farão entregas à sociedade. Será uma startup de impacto social para acelerar cidadania, responsabilidade social, educação, respeito, geração de renda e perspectivas de uma transformação da sociedade.


6 REPORTAGEM

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QUARTA-FEIRA

FORTALEZA FORTALEZA -- CEARÁ CEARÁ -- 10 01 DE DE NOVEMBRO DEZEMBRO DE 2021

educação

REPORTAGEM

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QUARTA-FEIRA

FORTALEZA - CEARÁ - 01 DE DEZEMBRO DE 2021

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EDIÇÃO: O POVO EDUCAÇÃO | OPOVOEDUCACAO.FDR.ORG.BR | (85) 3255-6243

Papel da escola

(Libras), que apesar de ser reconhecida como uma língua pela Lei nº 10.436/2002, regulamentada pelo Decreto 5.626/2005, ainda não recebe a atenção devida. Alunos surdos ainda encontram desafios na educação e comunicação. A inserção da Libras no ambiente escolar representa inclusão e oportunidades para as pessoas surdas, e para isso ocorrer, é necessário que ela também seja ensinada a crianças ouvintes.

LEI O QUE DIZ A

Diversidade no ambiente escolar | INCLUSÃO | Para que a escola seja um local seguro para alunos com deficiência, LGBTQIA+ e negros, respeito deve ser o maior aprendizado

No ambiente escolar, a atuação do Ministério Público é fundamental para a garantia de políticas públicas continuadas aos alunos LGBTQIA+, para enfrentar o bullying, a homofobia e a transfobia. É preciso respeitar essa diversidade. Formado em Literatura Comparada pela UFC, o professor João Gomes Luiz, que é transgênero, deixa claro que, desde muito jovem, sentia que o corpo em que habitava não pertencia a ele plenamente. A música foi um divisor de águas para que João despertasse o autoconhecimento e a vocação para lecionar. Segundo o decreto n° 8.727, na Administração Federal, o respeito ao nome social está assegurado, além da Receita Federal, que expediu a instrução normativa n°1718, autorizando a inclusão do nome social no CPF do contribuinte transexual ou travesti. Então em 2020, João deu o seu pontapé inicial para a transição, e a escolha do nome veio logo depois. Apesar de estar feliz, o medo ainda se fez presente nesta etapa pela possível rejeição que o professor poderia enfrentar. Mas, com o passar do tempo e apesar das inúmeras dificuldades, João se sentiu bem aceito no ambiente em que leciona, tanto pelos

ACERVO PESSOAL

O direito na prática

A Lei Brasileira de Inclusão garante, no capítulo IV, o direito à educação para as pessoas com deficiência e todo o aparato necessário para a inclusão. Segundo Cássia Enéas, doutora em Educação e diretora do Colégio Santa Helena, os grandes desafios dessa lei são a falta de acessibilidade, a falta de formação docente e o preconceito ainda enraizado na sociedade.

Além de um direito, afirma Cássia, a inclusão é um ganho para o aluno acolhido e para a escola. A flexibilização curricular é parte intrínseca da Educação Inclusiva, assim como o ensino bilíngue. “A pandemia trouxe perdas para todos, principalmente para alunos com deficiência, mas cabe à escola, ao Município e ao Estado reverterem essa situação”, reforça a educadora. JOÃO GOMES LUIZ, professor

profissionais como pelos alunos. João Gomes Luiz, homem trans e professor, é prova viva de que a diversidade tem, sim, voz e vez, e que é direito de todos serem quem são, sem rótulos e sem barreiras.

ANTÔNIO RODRIGUES NERI

CORRESPONDENTE ESCOLAR

DANIELE CARDOSO DOS SANTOS

CORRESPONDENTE ESCOLAR

JULLY GABRIELE NASCIMENTO DE OLIVEIRA

MILENA MARTINS DA SILVA

CORRESPONDENTE ESCOLAR

ACERVO PESSOAL

PROFESSOR PAULO VILELA, fazendo o sinal que significa Libras

Ao levar a definição de diversidade para o ambiente escolar, percebe-se que se torna ainda mais polêmica na raça negra, que compreende todas as pessoas pretas e pardas. Sobre as diversas raças existentes nesses ambientes, compreende-se que, no Brasil, chama-se raça aquilo que é percebido visivelmente pela aparência, o que levou o filósofo Oracy Nogueira a entender como preconceito racial de marca. O Art. 9º do capítulo II do Estatuto da Igualdade Racial diz que a população negra tem direito à educação. Tendo essa lei como base, um aluno do Colégio Estadual Liceu do Ceará, João Vittor Gonçalves Correa, fala a respeito desse tipo de diversidade, a partir de suas vivências pessoais. Ele afirma que, na instituição, não sofreu discriminação racial e que, se houvesse a possibilidade, ele se sentiria apoiado pela gestão do colégio. De acordo com o aluno, a inclusão é praticada dentro da escola de forma igualitária, podendo melhorar em alguns aspectos, além de envolver órgãos maiores, como a secretária da Educação e os próprios alunos. Em relação ao apoio dos colegas, João Vittor diz que tem um grande vínculo com todos e, eles, sempre ajudam uns aos outros, atitude necessária em qualquer instituição. João relata que a educação repassada aos alunos é a mesma, independentemente de gênero, cor ou raça, criando assim um ambiente diverso e, ao mesmo tempo, acolhedor.

JULLY GABRIELE NASCIMENTO

A escola, além do ensino institucional, deve proporcionar uma formação mais humanizada, de forma a incentivar comportamentos mais saudáveis entre os alunos. Campanhas de prevenção ao bullying, temática recorrente no âmbito escolar, são mais que necessárias. Trabalhar a pauta dos direitos humanos com os alunos também é fundamental. No campo da diversidade, pode-se falar da Língua Brasileira de Sinais

Inclusão racial

JOÃO VITTOR, aluno do Liceu do Ceará

RITA IZABELE VASCONCELOS

CORRESPONDENTE ESCOLAR

CORRESPONDENTE ESCOLAR

Todo mundo precisa de

ACERVO PESSOAL

O ambiente escolar é onde as crianças e adolescentes passam grande parte de suas vidas, desenvolvem suas habilidades e estão em contato com indivíduos diferentes. Portanto, promover a diversidade no ambiente em que estão inseridas se faz de extrema importância. Especialmente no Brasil, onde temos uma pluralidade quando se fala em gênero, raça, cor, etnia, religião, dentre outros aspectos. O artigo 53 do capítulo IV do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) diz que: “A criança e o adolescente têm direito à educação,

visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho (...)”. Partindo desse contexto, alunos e professores falam de suas vivências com três tipos de diversidades no ambiente escolar: pessoas com deficiência, comunidade LQBTQIA+ e pessoas negras. Cássia Enéas, socióloga por formação e doutora em Educação, tem um interesse especial na Educação Inclusiva para atender melhor as crianças com deficiência. É atuante na área há 30 anos e diretora do Colégio Santa Helena. Seus

estudos para entender melhor a Educação Inclusiva começaram em 2004, mas se intensificaram em 2006, quando o colégio recebeu o desafio de acolher duas meninas com paralisia cerebral na mesma turma. Cássia diferencia Educação Especial de Educação Inclusiva. A primeira “tem a função de promover o desenvolvimento das pessoas com deficiência”, enquanto a segunda é “uma educação voltada para a formação completa e livre de preconceitos” para as pessoas com ou sem deficiência.

respeito

UM CASO DE SUCESSO

CÁSSIA ENÉAS é doutora em Educação e diretora do Colégio Santa Helena

Em Fortaleza, podemos destacar um exemplo positivo: a Escola Municipal Bilíngue Francisco Suderland Bastos Mota, localizada no bairro José Walter, onde o ensino é para crianças ouvintes e surdas e, nas aulas, é utilizada prioritariamente a Libras. O professor de Libras Paulo Vilela, da Rede Cuca, destaca que a empatia, o ato de colocar-se no lugar do outro, é vital. Buscar conhecer mais da comunidade surda, inclusive tendo o ensino de Libras desde o Ensino Infantil, é uma responsabilidade social que não se pode deixar de lado. Paulo também destaca que os projetos de inclusão devem ter a participação de pessoas surdas, desde a implementação até a execução.

Para concluir, como bem disse Paulo Freire em seu poema: “Escola é, sobretudo, gente”. Gente que aprende e que ensina. Gente que é diferente. A diversidade é importante, dentro e fora do ambiente escolar, porque fortalece a sociedade. Retrocessos batem à porta todo dia, os direitos conquistados pelas diversidades tratadas aqui escorrem pelo ralo da cidadania. Por isso, é fundamental resistir. Falar para o mundo que tudo que se precisa é respeito. Pessoas com deficiência, comunidade LGBTQIA+ e a negritude dizem chega ao preconceito, à discriminação, ao racismo, à homofobia e à transfobia! Que uma sociedade mais justa e inclusiva surja!


QUARTA-FEIRA

FORTALEZA FORTALEZA -- CEARÁ CEARÁ -- 10 01 DE DE NOVEMBRO DEZEMBRO DE 2021

educação

REPORTAGEM

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QUARTA-FEIRA

FORTALEZA - CEARÁ - 01 DE DEZEMBRO DE 2021

GUILHERME CAMILO

EDIÇÃO: O POVO EDUCAÇÃO | OPOVOEDUCACAO.FDR.ORG.BR | (85) 3255-6243

MARIA YSLAINE OLIVEIRA MENEZES

FRANCISCO GUILHERME CAMILO DE SOUZA

ANNA JÚLIA CHAVES DE OLIVEIRA

RAÍSSA ARAÚJO PACHECO

SAMARA RODRIGUES SALES

CORRESPONDENTE ESCOLAR

CORRESPONDENTE ESCOLAR

CORRESPONDENTE ESCOLAR

CORRESPONDENTE ESCOLAR

CORRESPONDENTE ESCOLAR

| SABERES | No centenário de Paulo Freire, revisitamos a importância da pedagogia do pernambucano para refletir sobre os rumos da educação brasileira

anos

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Biografia

8 REPORTAGEM

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GRAFITE do Pedagogo Paulo Freire na Universidade Estadual do Ceara (Uece)

“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”

PAULO FREIRE FREIRE de PAULO

de verdade e bons cidadãos”, afirma Conceição. “Freiriana de coração”, ela afirma ter usado, no início da carreira, a metodologia do autor, e que segue inspirando os alunos a aprenderem através de experimentos e diálogo. Em relação à admiração que Freire possui no exterior, Conceição afirma que o Patrono da Educação deveria ser mais valorizado no Brasil. “A escola ainda precisa ser mais humanizada. Muitas escolas em nosso país ainda tratam os alunos como números para os vestibulares”, ressalta. Conhecer a vida e a obra de Paulo Freire é essencial para entender a sua obra e importância. Por isso, Conceição afirma que livros e documentários são importantes para quem deseja compreender quem foi o educador e que é importante tomar a educação como a própria vida, fazendo dela algo prazeroso e não apenas uma obrigação. “A educação em nosso país deve ser atualizada no currículo dos objetos de conhecimento e em duas metodologias, onde o aluno deve ser realmente protagonista do seu aprendizado e o professor o verdadeiro orientador, norteador”, pontua. “Devemos fazer da educação a maior parceira para um país melhor”.

YSLAINE OLIVEIRA

PAULO FREIRE, Patrono da Educação Brasileira

em relação a pedagogia de Paulo Freire. “Paulo Freire é um grande brasileiro, nordestino e o seu pensamento é importante tanto no Brasil como no exterior. A sua obra tem um grande valor para a educação, para os movimentos populares e sociais, para a alfabetização de adultos, para o trabalho com a cultura, etc”, comenta. Para Maria, a educação proposta por Freire é revolucionária e segue muito presente na sociedade contemporânea. “Paulo Freire é muito atual na luta dos movimentos, nas pautas dos educadores e educadoras do nosso país, na luta pela educação pública, nas lutas populares. Está presente na necessidade de conscientizar a população, para entender seu papel político cidadão”, afirma, e garante que podemos encontrar os ensinamentos de Freire em diversas áreas. Conceição de Maria Feijó Bezerra, licenciada em Química pela Universidade Federal do Ceará (UFC), dá aulas há 26 anos. Ela sempre sonhou em ser pesquisadora, mas tudo mudou ao entrar em uma sala de aula e se apaixonar pela profissão de professora. “Posso dizer que estou na melhor parte da minha vida orientando meus alunos para serem seres humanos

Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997), nasceu em Recife, Pernambuco, no dia 19 de setembro de 1921. É um educador, escritor, filósofo e considerado o Patrono da educação brasileira, além do maior educador do País. De acordo com o pesquisador Elliot Green, o livro “A pedagogia do Oprimido”, escrito por Freire no período de ditadura, é o terceiro mais citado em trabalhos acadêmicos na área de humanidades em todo o globo. Freire entrou na faculdade de Direito em 1943, mas com o tempo percebeu que essa não era sua vocação. Em 1947, assumiu o departamento de educação e cultura do Serviço Social da Indústria (Sesi), começando, assim, seu trabalho de alfabetização. Em 1963, no governo de João Goulart, o educador pernambucano foi convidado a criar o Plano Nacional de Educação, que a princípio era financiado pela Aliança para o progresso pelo governo dos Estados Unidos, que via a educação uma forma de impedir que o comunismo avançasse no Brasil. Contudo, o governo militar brasileiro viu nesse plano uma forma de promover uma revolta da população mais pobre. Isso foi suficiente para Freire ser perseguido e preso durante 70 dias, e depois exilado para o Chile - onde ficou durante 16 anos. Na época, o governo justificativa a perseguição ao afirmar que seus ideais eram comunistas. Atualmente, muitas pessoas insistem em ignorar todo o trabalho e importância de Paulo Freire devido a esse rótulo socialista. No Chile, assessorou e coordenou projetos de alfabetização e também escreveu sua obra mais importante: “A pedagogia do Oprimido”. Após cinco anos lecionando no Instituto de Capacitação e Investigação em Reforma Agrária (Icira), Freire é convidado para ser professor visitante da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Com a lei da Anistia em vigor, Paulo Freire retorna para o Brasil, logo recebendo convites para lecionar em Universidades e entre os anos (1989 - 1991) assumiu o cargo de Secretário da Educação em São Paulo. Ainda que com altas condecorações, Freire nunca esqueceu dos movimentos sociais, sempre se envolveu nos movimentos de professores, educação popular e da luta da classe trabalhadora. Ele acreditava que a educação deve ser libertadora, ou seja, que o educando deve trilhar seu caminho, o que chamou de “Educação Crítica”. Paulo Freire escreveu, em sua Terceira Carta Pedagógica: “Se a educação sozinha, não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Além disso, ele criticava os métodos de ensino em que o professor era visto como detentor do conhecimento e o aluno apenas absorvia o que lhe falavam – o que ele chamava de “Educação Bancária”.

OBRAS DE FREIRE no Centro de Formação Capacitação e Pesquisa Frei Humberto SAMARA RODRIGUES SALES

1921

Paulo Freire foi um educador popular, suas ideias e sua luta por uma educação libertadora são reconhecidas e respeitadas no mundo todo. Freire lutou para mudar o sistema que ele chamava de concepção bancária, tecnicista e alienante da educação, em que o “detentor do saber apenas deposita o conhecimento nos alunos” e que inibe “o poder criador” e a possibilidade de perceber a nossa realidade como um processo passível de mudança, nos submetendo a uma visão fatalista e imutável da realidade. O pedagogo desenvolveu um método de ensino a partir de uma metodologia em que o aluno é alfabetizado com elementos que fazem parte do seu dia a dia, próximos da sua vivência cotidiana. O trabalho de Freire na área da educação popular, voltada tanto para a escolarização como para a formação da consciência política, serviu de inspiração para programas de alfabetização no mundo todo e ajudou milhares de pessoas a tomarem sua própria palavra. Maria de Jesus, pedagoga e militante do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), e integrante do Centro de Formação Capacitação e Pesquisa Frei Humberto, tem uma visão bastante positiva

(PEDAGOGIA DA AUTONOMIA)

9

2021 Comemoramos seu Centenário e a revolução que fez na educação, no momento em que sua obra e memória sofrem fortes ataques por integrantes da extrema-direita.

Paulo Freire nasceu no dia 19 de setembro, em Recife (PE), onde viveu até os 9 anos

1934

1943

1947

1964

1968

1969

1973

1980

1986

1996

1997

2012

Aos 13 anos perdeu seu pai, tornando-se o responsável financeiramente por todos os seus 4 irmãos.

Ingressou na Faculdade de Direito do Recife.

Começou seu trabalho de alfabetização de jovens e adultos carentes da indústria após ser nomeado diretor do departamento de educação e cultura.

Foi convidado pelo presidente João Goulart a criar o Plano Nacional de Educação. Em setembro do mesmo ano, devido à ditadura militar, foi exilado do País.

Lança o livro Pedagogia do Oprimido, sua obra mais conhecida.

Freire é convidado para ser professor visitante de Harvard.

Freire recebe seu primeiro título de “Doutor Honoris Causa” pela Open University.

Após 16 anos de exílio, com a lei da Anistia retorna ao Brasil.

Recebeu Prêmio UNESCO da Educação para a Paz.

Paulo Freire lança seu último livro, em vida: Pedagogia da Autonomia.

Faleceu por um ataque cardíaco, no dia 2 de maio.

Paulo Freire é declarado Patrono da Educação, título sancionado pela presidenta Dilma Rousseff.


10 REPORTAGEM educação

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QUARTA-FEIRA TERÇA-FEIRA

FORTALEZA FORTALEZA -- CEARÁ CEARÁ -- 30 01 DE DE NOVEMBRO DEZEMBRO DE 2021

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REPORTAGEM

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FOTO GABRIEL NASCIMENTO

FOTO LETÍCIA ALVES

| FUTURO | Com grande parte dos cearenses imunizados, o que se pode e o que não se pode fazer no dia a dia?

RETORNO

| REFLEXÕES |

A arte existe porque a vida não basta

AO MUNDO PRESENCIAL: o que muda após a vacina

LETÍCIA ALVES

CORRESPONDENTE ESCOLAR

ANAHÍ GABRIELLA

CORRESPONDENTE ESCOLAR

SAMUEL LIMA

CORRESPONDENTE ESCOLAR

LUCAS FREIRE

CORRESPONDENTE ESCOLAR

DAVI AZIM

CORRESPONDENTE MESTRE

QUANDO EU ESTIVER AÍ

DISTANCIAMENTO sinalizado em um estabelecimento em Fortaleza

FOTO GABRIEL NASCIMENTO

CORRESPONDENTE ESCOLAR

PROTOCOLOS de seguranca fixados nas paredes

FOTO FERNANDA BARROS-ESPECIAL PARA O POVO

GABRIEL NASCIMENTO

Com o avanço da vacinação contra a Covid-19 no Ceará, pode-se vislumbrar a tão sonhada “volta ao mundo presencial”. O esforço das autoridades em conscientizar a população sobre a importância da vacina resultou na percepção de que estamos na iminência do retorno ao nosso cotidiano. Sempre seguindo um plano de retomada gradual e respeitando as devidas normas, as atividades estão se adequando a um novo normal. Todas as áreas da atividade humana foram severamente impactadas com a crise sanitária mundial da COVID-19. Na economia, por exemplo, o dólar chegou ao incrível patamar de R$ 5,90 em maio de 2020. Além disso, os preços de diversas mercadorias sofreram forte elevação nos preços. O gás de cozinha, no Estado do Ceará, chegou a custar R$ 112 (botijão de 13 kg). A energia elétrica teve um aumento de 52%, de acordo com a BBC, em junho de 2021. Segundo a Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), em setembro de 2021, o arroz teve um aumento de 39,8%. Já um estudo feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que os alimentos tradicionais na mesa de um brasileiro tiveram um aumento de 60% entre março de 2020 e março de 2021. Além disso, a elevação geral dos preços ocorreu sem que houvesse medidas imediatas de contenção visando garantir o poder de compra da população. Em 2020, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil chegou à marca recorde de 14,8 milhões de desempregados, o que resultou em uma alta de 33,1% em relação ao período passado. Cerca de 1,3 milhão de empresas foram fechadas (temporária ou definitivamente) de janeiro até julho de 2020 no País. Esse cenário reduziu a produção de bens e serviços e o nível de renda, o que gerou um rombo nas contas públicas do País. Na saúde, os profissionais que estavam na linha de frente, no combate a Covid-19, precisaram se reinventar. Estavam diante de uma doença sem um diagnóstico preciso e tiveram que assistir a um volume de doentes superior à capacidade de atendimento do sistema de saúde. Salvar o máximo de vidas possíveis era o objetivo incansável desses trabalhadores. Na educação, escolas, cursos e faculdades também pararam suas atividades presenciais em março de 2020. Segundo João Felipe, aluno da rede pública estadual, o ensino remoto não conseguiu manter a mesma qualidade do ensino presencial. Para ele, “o ensino adotado não atendeu as demandas que o ensino presencial atendia. Além de ser muito desgastante, pois passamos mais de quatro horas na frente de uma tela”. Com mais de um ano de modo virtual, as carências que

Os correspondentes André Solidão e Gabriel Nascimento usam a poesia para dar conta do que a realidade nos impôs e ainda impõe como desafios do enfrentamento da pandemia.

VACINAÇÃO tem auxiliado na retomada das atividades presenciais

UM DOS PONTOS de vacinação em Caucaia

Eu tô aqui e de lá te vejo ao atravessar sua varanda de um lado ao outro. Eu tô aqui e vejo que os carros estão nas garagens, que os semáforos contam minutos sem o tempo passar. Eu tô aqui e escuto a minha vó rezingar que quer sair pra tomar café na vizinha. Eu tô aqui e recebo mais uma ligação do hospital para mais um plantão de 48 horas sem saber quando posso voltar. Eu tô aqui e vejo mais uma pessoa na rua sem máscara, chorando a dor da perda do seu filho. Eu tô aqui e vejo a moradora de rua chorar por não poder comprar máscara para se proteger e a vejo chorar pela perda de mais um de seus filhos. Eu vejo alguém cuspir asneiras contra vacinas e cuidados que deveriam ser tomados por todos. Eu vejo e tô aqui tentando entender esse novo mundo, tentando me adaptar enquanto estou a te olhar bailar da janela. Eu vejo você sumir na multidão do seu quarto escuro com uma dor que preenche o peito por estar só e não poder se fazer presente em lugares especiais. Eu tô aqui assistindo ao noticiário anunciar mais milhares de mortes enquanto aplaudem os dejetos vomitados por quem deveria nos proteger. Eu tô aqui e vejo que talvez uma hora isso tudo cesse, mas eu tô aqui pra dizer que eu morro de saudades das coisas bobas que eu fazia e nunca dei tanta importância. Eu tô aqui pra dizer que eu não vejo a hora de voltar praí, pra onde eu podia sair de casa sem medo, sem arrancar meus dedos de tanto álcool, podendo respirar ar livre, querendo sair com meus amigos para uma noite toda.

André Solidão CORRESPONDENTE ESCOLAR

FOTO GABRIEL NASCIMENTO

No caso da vacina, existe uma mudança surpreendente: valorizar o “ser presencial” ou o “estar presente”

já existiam na educação tornaram-se ainda maiores, segundo um estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em agosto de 2020. As taxas de evasão escolar, por exemplo, foram acrescidas pois, cerca de seis milhões de estudantes não dispunham de acesso domiciliar à internet em banda larga ou 3G/4G para atividades remotas de ensino. Outro fator preocupante, foi o aumento em 80% dos danos emocionais, como a ansiedade e o estresse, segundo a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Esses fatores influenciaram negativamente o rendimento escolar e poderemos perceber seus efeitos no longo prazo. Ainda nesse cenário, a desinformação teve impacto considerável sobre a sociedade, influenciando atitudes de governantes e da própria população. “As evidências sugerem que a desinformação teve um grande impacto no modo como parte do público percebeu a Covid-19 e no modo como alguns governos decidiram enfrentar a pandemia. Os primeiros estudos comportamentais relacionados especificamente à

Covid-19 também indicam que a exposição às desinformações sobre o tema podem diminuir a adesão das pessoas a recomendações oficiais de saúde, como o distanciamento social, o uso de máscaras e a vacinação”, explica Dayane Machado, doutoranda do departamento de Política Científica e Tecnológica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A vacinação não significa que podemos reduzir os cuidados. Ainda é necessário que a população fique atenta às normas de segurança sanitária estipuladas nos decretos estaduais e municipais, já que os efeitos da pandemia são coletivos. “Apenas 41% da população brasileira está totalmente imunizada e a vacinação não é milagre, é estratégia coletiva. Precisamos garantir que a imensa maioria da população seja completamente vacinada e enquanto isso não acontecer, precisamos de políticas públicas que contenham a circulação do vírus - distribuição e uso de máscaras efetivas como a PFF2, auxílio emergencial compatível com a realidade da população, redução de atividades presenciais não essenciais”, comenta.

Assim como na ciência, fazer as perguntas certas torna possível progredir diante das adversidades da vida. A interessante pergunta “o que muda após a vacina?” sugere um ato reflexivo sobre nossa caminhada comunitária. A mudança nos impele a sair de uma zona de conforto para um lugar desconhecido, ainda sem controle. O medo do que é novo, por vezes, se apresenta superior a qualquer outro sentimento. Mas no caso da vacina, existe uma mudança surpreendente: valorizar o “ser presencial” ou o “estar presente”. A nova realidade desfrutará de meios que antes eram vistos como futuristas: a integração dos mecanismos digitais no trabalho e no ensino a distância, uma maior valorização dos profissionais e novas interações entre o espaço e a sociedade. Coisas que antes pareciam ser supérfluas tomaram seu devido valor, de maneira que as relações se tornaram mais harmoniosas e acarretaram numa maior preocupação pelo outro. Foi grande a busca pelo essencial, por aquilo que nos faz bem - e isso impactará de forma positiva a vida de cada um.

A RETOMADA A retomada será um desafio! “O dia em que a terra parou” ou podemos dizer que o longo período vivido foi bem difícil, principalmente a adaptação nos tempos de pandemia. Mas, agora, o retorno será cheio de incógnitas. Como devemos nos comportar? E se houver descuidos? A utilização de máscara ainda é necessária? A transformação se faz muito necessária, diante de tudo. Essas mudanças, ainda que difíceis de se acostumar, com um tempo serão corriqueiras em nosso cotidiano. A reconfiguração de tudo e de todos é a marca deixada nesse novo mundo pós-vírus, com o tempo tudo irá tomar seu devido lugar. Uma coisa é certa, nem o nosso modelo de sociedade é o mesmo... Nova era de aprender e se reinventar.

Gabriel Nascimento CORRESPONDENTE ESCOLAR

HIGIENIZAR AS MÃOS com frequência é um dos hábitos que devem permanecer no pós-pandemia


ETC

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QUARTA-FEIRA

FORTALEZA - CEARÁ - 01 DE DEZEMBRO DE 2021

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COLETIVOS SOCIAIS PARA SE INSPIRAR

| SOLIDARIEDADE | Conheça alguns grupos que mesmo diante das adversidades, resistem e contribuem com a realidade ao redor

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FORTALEZA - CEARÁ - 01 DE DEZEMBRO DE 2021

A periferia de Fortaleza é marcada por inúmeras características e particularidades que contribuem para a sua singularidade. Entre elas, infelizmente, as mazelas sociais estão entre as mais marcantes. Segundo o Boletim Desigualdades nas Metrópoles, divulgado em maio deste ano pelo Observatório das Metrópoles, a capital do Ceará é a 10° maior em desigualdade entre as metrópoles brasileiras.

Em confronto a este cenário, as iniciativas populares surgem como uma alternativa para mudanças positivas. Os coletivos sociais presentes nas comunidades de Fortaleza atuam ferrenhamente para contrariar as estatísticas. Com ações nas ruas e nas redes, os grupos modelam o caráter solidário da cidade. Conheça alguns deles e saiba como ajudar:

GABRIELA VIANA DE MORAES

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CORRESPONDENTE ESCOLAR

NOVO FAVORITO | APÓS OLIMPÍADAS, SKATE GANHA AINDA MAIS FORÇA ENTRE BRASILEIROS VICTOR MARINHO

CORRESPONDENTE ESCOLAR

LUZIANA LOURENCO CORRESPONDENTE MESTRE

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DENDÊ DE LUTA

CASA TRANSFORMAR

ACERVO PESSOAL

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FCO FONTENELE

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Sinônimo de acolhimento, aceitação e, acima de tudo, amor, a Casa Transformar existe desde 2017 no bairro Siqueira, abrigando pessoas LGBTQIAP+ em situação de vulnerabilidade social e exclusão familiar. Além de acolher, a Casa Transformar também trabalha na profissionalização de quem por ela passa. Além de doações financeiras, a Casa recebe também doações de alimentos, material de construção, itens de higiene pessoal e artigos para o bazar do espaço.

Instagram: @dendedeluta Doações: (85) 98633 2060 Michael, Coordenador do Coletivo Pix: dendedeluta@gmail.com

Instagram: @casatransformar Doações: Pix - casatransformarlgbt@gmail.com Contato: (85) 98126 8410

REPRODUÇÃO / INSTAGRAM

ACERVO PESSOAL

COLETIVO SABIÁ

BIBLIOTECA COISA DE PRETO

Fundado em 2018 na comunidade do Dendê, em Fortaleza, o coletivo preenche as ruas locais de arte, cultura, identidade e cidadania. Do mais simples ao desafiador, o grupo promove atividades de ritmo com idosos, aulas de ginástica rítmica, taekwondo infantil, revitalização de espaços, eventos culturais (show de talentos, festival gastronômico, sarau, arraiá), reinvindicação de direitos, como transporte e iluminação pública, além de manter um constante diálogo com a comunidade para entender as demandas e lutar por um Dendê novo e popular.

“Somos quem somos, pois somos todos nós”, assim é o lema do Coletivo Sabiá, grupo que realiza diversas atividades educacionais em torno da comunidade da Sabiaguaba. Na região litorânea conseguem realizar mutirões de limpeza da tão conhecida Duna da Sabiaguaba, também fazem um trabalho de recreação com o Cine Sabiá, além de auxiliar na formação de toda a comunidade com uma biblioteca comunitária. Instagram: @coletivosabia

SKATE

Inaugurada em 2019, a Biblioteca Coisa de Preto aproxima a comunidade da Cidade Jardim 2 para o mundo da leitura, as letras e a literatura são pilares para a iniciativa. Em forma de resistir a lutas diárias e as dificuldades na periferia, o empréstimo e doações de livros é uma das pequenas ações que contribuem para a busca de novas alternativas mesmo em uma realidade marginalizada. Campeonatos de bila, pipa, oficinas educativas, competições musicais são outras atividades promovidas pela biblioteca e que transformam a rotina da Cidade Jardim 2. Instagram: @biblioteca_coisa_de_preto

Da quebrada ao pódio


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INCLUSÃO

SKATEDUCA

ESPORTE QUE JÁ FOI MARGINALIZADO VIRA O JOGO, COLOCA O BRASIL NO PÓDIO OLÍMPICO E INSPIRA NOVAS GERAÇÕES DE ATLETAS

A chegada do skate no Brasil se deu nos anos 1960, na cidade do Rio de Janeiro. Não se sabe ao certo quem trouxe esse esporte, possivelmente os brasileiros que viajavam para os Estados Unidos e que também praticavam outro esporte, o surfe. Entretanto, a primeira pista de skate só foi construída e inaugurada no fim de 1976, em Nova Iguaçu, no estado do Rio de Janeiro. Em 1977, ocorreu uma competição profissional que teve a participação da primeira equipe brasileira. Chamou atenção do público na época e, assim, despertou um maior incentivo nas prefeituras, para que investissem mais nesse esporte. Nessa mesma década, São Paulo começou a construir algumas pistas de skates. O skate começou a fazer sucesso no fim dos anos 1990,

ANDRESSIA RÉGIA GALDINO DUARTE

CORRESPONDENTE ESCOLAR

PEDRO ANTÔNIO GENEROSA AMORIM CORRESPONDENTE ESCOLAR

VICTÓRIA DAVYLA BORGES DA SILVA

CORRESPONDENTE ESCOLAR

junto com o Chorão, vocalista da banda Charlie Brown Jr, porém na época era mais um estilo de vida do que um esporte. A modalidade esportiva, por longos anos, foi discriminada na sociedade. Os jovens foram marginalizados e em diferentes épocas foram proibidos de praticar skate. A falta de estrutura nos locais disponíveis para a prática e o baixo investimento financeiro no esporte dificultaram a ascensão dessa prática esportiva. O esporte está sendo revisto devido ao talento e carisma dos atletas, em especial a Rayssa Leal, também conhecida como “Fadinha do Skate”, que se tornou a atleta brasileira mais jovem a conseguir uma medalha olímpica. Aos 13 anos, a “Fadinha” conquistou o Brasil, com a leveza de

WILDNEY CARDOSO NOGUEIRA CORRESPONDENTE ESCOLAR

uma criança, mostrando que a modalidade tão discriminada pode e deve ser considerada um esporte. Atraiu, assim, muitos jovens para prática do esporte em todo o País. Com o sucesso de audiência e trazendo medalhas nas olimpíadas de Tóquio junto com o surfe, o skate voltou com tudo, mas agora como um esporte olímpico. O skate vem crescendo no país de forma considerável e trazendo novos praticantes. Até o ano de 2015, o número chegava a uma média de 8,4 milhões de adeptos, segundo o Datafolha. A sua estreia nas Olimpíadas de Tóquio veio repleta de motivos para comemorar: o Brasil foi o segundo país com maior número de medalhas, no total de 12 medalhas divididas nas modalidades Skate Park e Skate Street.

MARIA CAROLINA LOPES SILVA

CORRESPONDENTE MESTRE

O PROJETO SKATEDUCA foi criado em abril de 2020 por Sara Oliveira Santos, skatista há nove anos, e seu companheiro Francisco Luhan, com o objetivo de acolher jovens em situação de vulnerabilidade. Além disso, a pista de skate localizada no bairro José Walter é palco para muita diversão e lazer - lá, crianças de 5 a 14 anos aprendem a andar de skate. Hoje, o projeto conta com mais de 15 crianças beneficiadas, e os materiais são adquiridos por meio de doações e uma porcentagem do valor pago dos alunos particulares. Sara relata que, mesmo com as doações, o projeto apresenta dificuldades: “Muitas vezes temos que ir a pé para a pista de skate, porque não temos o dinheiro para as passagens e nem alimentação”. A skatista fala também sobre a necessidade de capacitação e incentivos educacionais para os envolvidos no Projeto Skateduca: “É preciso um suporte maior, precisamos de um local seguro para guardar os materiais, equipamentos para as crianças e um apoio financeiro para podermos oferecer aulas com mais qualidade para eles”.

Projeto Skateduca acolhe crianças e adolescentes através do esporte

ENTENDA

DIFERENÇAS ENTRE AS MODALIDADES Park

Street

Nesta modalidade, as pistas têm o formato de “bowls” que lembram piscinas arredondadas, o que possibilita que o skatista pegue velocidade sem precisar colocar o pé no chão, usando apenas a gravidade. No Park, a altura das manobras é muito relevante na hora da avaliação, e todos os competidores têm que utilizar capacete.

No Skate Street, as pistas simulam os espaços que encontramos nas ruas das cidades, como escadas, corrimão, rampas, vãos e lombadas. Diferentemente do Park, aqui os atletas adquirem velocidade utilizando os pés, e apenas atletas com menos de 18 anos precisam usar capacete - para os maiores de idade, o uso é opcional.

“Felizmente o olhar da sociedade mudou muito depois que conseguimos esse espaço nas Olimpíadas”

ACERVO PESSOAL

CENÁRIO em Fortaleza

t

Em Fortaleza, adeptos da modalidade Street vislumbram o futuro do skate com insegurança e esperança. A cidade já conta com pistas de skate com boa qualidade de infraestrutura, como a do Cocó, a do Castelão e as da Rede Cuca, e o esporte é um dos grandes responsáveis por direcionar jovens à educação e reforçar laços familiares. No dia a dia do cearense Isac Maia, 19, o skate tem espaço privilegiado. Como está sem trabalho fixo no momento, ele dedica todo o seu tempo para o esporte, que conheceu ainda criança. Após uma pausa pela falta de condições, ele retomou a prática recentemente, há pouco mais de um ano, e já se sente melhor em muitos quesitos. Apaixonado e dedicado a esse estilo de vida, Isac demonstra no olhar e no sorriso que seus amigos têm uma certa influência nesse amor todo pelo skate. O jovem declara que sonha com um campeonato e, quem sabe, em um dia fazer parte das Olimpíadas, para levar sua história para as mais famosas pistas de skate do mundo. Apesar de gostar do esporte, Isac destaca que ainda existem dificuldades, que os skatistas vêm conseguindo superar cada vez mais com a visibilidade nas mídias e o aumento de pessoas aderindo à prática, participando de campeonatos durante o ano todo. “Atletas e admiradores do esporte estão ansiosos para o retorno das competições, quando a pandemia acabar e as competições voltarem. A energia do público que assiste é muito boa e os atletas cearenses são muito bons”, conta.

8,5

MILHÕES

de skatistas estão espalhados pelo Brasil, segundo o Instituto Datafolha

CAMPEÃ cearense

Ceres Oliveira, skatista

REPRODUÇÃO/INSTAGRAM @RAYSSALEALSK8

Rayssa Leal, a Fadinha, foi medalha de prata em Tóquio

A skatista Ceres Oliveira, hoje com 18 anos, cursa licenciatura em História e conta que começou a andar de skate aos 9 anos, sendo amor à primeira vista. Não perdendo tempo, logo buscou tutoriais na internet para aprender mais sobre como andar de skate. Ela sempre teve o apoio do pai, que a levava para várias pistas de skate em Fortaleza, no Ceará. Depois de um tempo, começou a participar de competições e está até hoje andando, apesar de algumas dificuldades. Ela possui título de campeã cearense e chegou a competir, além de ganhar de meninos; nessa época, ainda não havia a categoria feminina. E relatou sobre o cenário pós-Olimpíadas: “Felizmente o olhar da sociedade mudou muito depois que conseguimos esse espaço nas Olimpíadas. Todos viram que o skate é realmente um esporte, porque até então ainda éramos tachados como vagabundos”. Além disso, conta que, com o destaque do esporte pela conquista de medalhas, aumentou a visibilidade para o skate e considera: “Agora somos oficialmente atletas, e era tudo que precisávamos. A cena do skate vem aumentando muito depois dessa olimpíada, e estou muito contente com tudo isso, porque, além de ganhar esse espaço, ganhamos respeito também”. Atualmente esse esporte é praticado por todos, independentemente de idade ou de gênero, cativando as pessoas por ser um esporte “acolhedor” e sem preconceitos, em que estão todos se ajudando, com o objetivo de conseguirem praticar o esporte e se divertir.

V

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A nova paixão nacional NA PISTA

ACERVO PESSOAL

S K AT E

ACERVO PESSOAL

Isac Maia anda de skate desde a infância e sonha em participar das Olimpíadas

ESPORTE inclusivo É nítido o impacto que a prática do skate tem causado em muitas vidas e o quanto é importante para os esportistas o atual reconhecimento, uma vez que por muito tempo foi vista como “menos relevante” para o mundo do esporte. Hoje, segundo o Instituto Datafolha, há mais de 8,5 milhões de skatistas espalhados pelo Brasil. O skate cativou e vem cativando pessoas do mundo todo. Não existe idade certa e não há restrições de classe social ou gênero. Qualquer pessoa pode praticar o esporte, inclusive pessoas com deficiência como o curitibano Ítalo Fernandes de Lima, 26 anos. O skatista

profissional de família humilde não tem as duas pernas e, mesmo assim, não deixou de buscar seus objetivos. Essa é apenas uma entre milhares de histórias do mundo do skate; ser um skatista é ter um estilo de vida, é ter identidade e ter coragem para enfrentar o preconceito que ainda é muito forte. Apesar de terem aumentado os investimentos na categoria, ainda é preciso suporte e apoio das entidades para manutenção das pistas de uso coletivo, palestras profissionais para sanar dúvidas e aprender mais sobre projetos e editais de incentivo para os praticantes da modalidade.


16 16 OPINIÃO educação

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CORRESPONDENTE ESCOLAR

brincando com vários dos artigos da seção masculina. Mas, crescida, eu passei a me questionar: Por que as meninas não têm dinossauros em seus corredores? Elas não podem ser guerreiras? A resposta é simples: nossa sociedade as prepara para o que espera que elas se tornem ao alcançarem a vida adulta. Mães, donas de casa. E não desmerecendo as mulheres que optam por esse caminho, mas por que não oferecer outras opções? Por que os meninos têm mais opções? Outra resposta fácil: diferente das garotas, eles são livres para escolher o que querem ser. A sociedade não espera que fiquem em casa, cuidando dos filhos e do lar. Aliás, os que passam algum tempo com os filhos ou cozinham são admirados, tratados como exemplo. O que é curioso, já que a maioria das mulheres faz a mesma coisa, e não é parabenizada por isso. Em pleno século XXI, como nossa sociedade pode evoluir seus eletrônicos, mas não mudar sua mentalidade? Como meninas podem continuar brincando com bonecas de beleza irreal, ao invés de super-heroínas? n

De onde vêm as coisas?

A pressão que é ser jovem Todos os dias acordo às 6 da manhã para ir para a escola e sempre retorno às 13 horas para casa. Na hora de estudar, absorvo tudo (ou quase tudo) que tenho que guardar, mas, mesmo assim, dando meu sangue, me sinto Laura Maria da Silva Araújo insuficiente. A benCORRESPONDENTE ESCOLAR dita frase “estude enquanto eles dormem” nunca me pareceu tão chata. Eu quero dormir também. Tenho a impressão de que tenho que conquistar tudo antes dos 18 anos. Tenho que tirar notas boas na escola, orgulhar meus pais, ser um exemplo para os que me rodeiam. 24 horas é pouco. Eu me canso mais rápido. Sair com os amigos, quando tenho permissão, é um alívio, me sinto presa dentro de casa na maior parte do tempo. As pessoas fazem parecer que é fácil construir um “futuro brilhante”. Estudo, estudo e estudo. Quando pego no celular, vejo meus amigos fazendo memórias, me sinto excluída, e a partir disso, perco

a linha de raciocínio. Porém, o que importa é não perder o ritmo, tudo vai valer a pena lá na frente. Meus pais reclamam e falam que estou fazendo falta em casa, por não passar muito tempo com eles, e me sinto uma péssima filha. Acho que, às vezes, eles não veem meus esforços - como disse Djonga, “dando meu melhor na minha pior fase”. Passar tempo no celular ou ler qualquer livro me parece interessante, consigo obter mais conhecimento. Também procrastino e minha consciência pesa bastante, meu senso de urgência ultrapassa o meu máximo. Quero organizar meu tempo, mas que tempo tenho para isso? Tenho que fazer as coisas embora tenha dias que não queira fazer nada. E isso é desgastante. É uma pressão absurda. Temos que estudar milhares de matérias, sair com os amigos, treinar, ficar com os pais, ter sua própria opinião formada, ser um exemplo... Tudo isso em 24 horas, todos os dias. Podemos errar, mas não é o indicado. Nós viramos nos 30 a maior parte do tempo. Somos tudo, menos fracos. n

Tenho um professor que diz que se não soubermos minimamente como as coisas são feitas, acreditaremos que os objetos do mundo são feitos por meio de mágica. Se não pensarmos nas coisas que nos circundam e entendê-las minimamente dentro de um processo Rafael Parente de fabricação (simCORRESPONDENTE MESTRE ples ou complexa), usar a imaginação e o raciocínio para conceber como as coisas são feitas, vamos criar estudantes alheios à realidade e encheremos eles de sonhos e abstrações fantasiosas. Fantasiosas demais, ao ponto de não conceberem fatos corriqueiros do dia a dia. Quem gosta de política fala que os alunos deveriam saber quais as funções do vereador e do deputado, para votarmos melhor. E que o problema político do Brasil surge daí, ou é uma das fontes dos problemas. Como podemos ensinar política para o aluno se ele não sabe como a porta da casa dele foi criada, transportada e instalada? E por que não falar da xícara, do controle remoto, do wi-fi, da linguagem

de programação, do rádio, da imagem gerada na tela de LCD? O conceito de linha de montagem, de tecnologia e de processo de produção dentro da cabeça deles é uma animação nonsense. As etapas do ensino devem ser respeitadas metodologicamente. Tem que haver um método que vise o aprendizado das coisas reais. Precisamos auxiliar os alunos no exercício, na reflexão, na observação da sua realidade e depois de observar conceber como ela é processualmente construída. O ensino audiovisual que eu acredito e pratico é um misto de conscientização de si, por parte do aluno, (pois a partir disso iniciamos os estudos sobre a escrita do roteiro) e o aprendizado técnico (e aqui são vários: da formatação do roteiro, práticas de Set, iluminação, fotografia e edição... tem mais, muito mais). Essa é a mistura intensa de informações no ensino/aprendizagem audiovisual. Se não compreendermos como as coisas no mundo funcionam, minimamente, como são e como acontecem, como poderemos falar sobre as coisas que neste mundo estão? Educação fora disso é um exercício de alheamento. n

O consumismo em tempos de pandemia

Jadson Pereira de Lima CORRESPONDENTE ESCOLAR

Temas importantes são propostos para debates em todas as esferas da sociedade, em especial o tema mais comentado nesses últimos tempos, a Covid-19. Mas há um assunto esquecido por nós: o consumismo. Para falarmos sobre isso, devemos saber o que é consumismo. O consumismo é a ação de comprar excessivamente e sem necessidade, sendo motivado por impulso ou desejo de comprar. Este é considerado um comportamento destrutivo, que impacta em diversos aspectos da vida cotidiana. É o ter pelo ter, a compra desacerbada de objetos que muitas vezes são fúteis para o nosso dia a dia. Um exemplo prático e recente é o novo smartphone que a empresa de tecnologia Apple lançou. Em muitos lugares, as pessoas esqueceram que ainda estamos em uma pandemia, gerando aglomerações e, possivelmente, uma maior circulação do vírus, simplesmente para ter um celular novo.

O consumismo nos leva a sentimentos ruins, como a falta de empatia pelo outro, a arrogância e a falta de educação, entre outros, e além de tudo isso mostra o egocentrismo do ser humano. Gastar “rios” de dinheiro enquanto há pessoas passando fome e indivíduos em extrema miséria são exemplos desse egocentrismo. Somos capazes de esquecer que o mundo está passando por uma crise humanitária, tudo para comprar cada vez mais. Em tempos de pandemia, o olhar deveria se fixar naqueles que mais sofrem e não em nós mesmos. A reflexão que devemos fazer é: onde, como e em que situação está o meu próximo? Como posso ajudar? As colaborações não precisam ser grandes, um simples ato já faz a diferença. Assim, ajudaremos cada vez mais as pessoas e causas e não nos prenderemos somente a objetos. n

educação

PRA LER UM LIVRO

Isabella Samara Magalhães Rifane

Explorando Fortaleza, não é difícil encontrar opções de entretenimento que vão além das praias. Aqueles que preferem fugir do impiedoso sol da capital encontram válvulas de escape nos ambientes climatizados dos shoppings espalhados pela cidade. Foi em um deles que decidi aproveitar uma tarde de segunda-feira. Com tempo sobrando, aproveitei para vagar pelos corredores de uma daquelas famosas lojas que vendem de tudo: de cama, mesa e banho a brinquedos, que, pela primeira vez, ganharam uma nova perspectiva para mim. Caminhando entre as prateleiras infantis, as diferenças entre as voltadas para meninas e as voltadas para meninos eram notáveis. Eles tinham opções variadas: capacetes de bombeiros, dinossauros de plástico, bonecos que representavam super-heróis e guerreiros. A realidade era outra para as garotas. Os brinquedos de sua seção eram cozinhas de brinquedo, bebês. O conteúdo desses corredores era familiar. Eu brinquei com esses itens na minha própria infância, vi meu irmão

FÁBIO LIMA

A diferença nas prateleiras voltadas para meninas e para meninos

UM BOM LUGAR | LITERATURA | Após sete anos fechada, Biblioteca Pública Estadual do Ceará volta a ser ponto de encontro e opção de lazer para apaixonados pela leitura


educação

FORTALEZA - CE, QUARTA-FEIRA, 01 DE DEZEMBRO DE 2021

VIDA&ARTE

educação

BECE

MAS, AFINAL, QUAIS FORAM AS MUDANÇAS REALIZADAS NA BIBLIOTECA?

MAIS UM ORGULHO CEARENSE

RENATA APARECIDA RIOS FONTES

Em seus cinco andares a BECE abriga diversos setores. No térreo, por exemplo, há o setor de atualidades, com os mais novos lançamentos adquiridos. Nesse mesmo piso há também um acervo totalmente dedicado às artes, com títulos sobre temáticas e com linguagens bem diversificadas. No primeiro subsolo há um espaço multiuso voltado para reuniões, palestras, rodas de conversa, dentre outras atividades. Além disso, o visitante encontrará um setor infantil neste andar. O segundo subsolo abriga os setores de restauramento histórico e o setor de processamento técnico da biblioteca. Nos andares superiores, pode-se visitar a oficina do

O acervo atual da BECE conta com mais de 100 mil exemplares

BARBARA MOIRA

Uma tarde na BECE

“NOSSA MISSÃO É ATENDER A COMUNIDADE INDEPENDENTEMENTE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA, NÃO HAVENDO DISTINÇÃO, SEJA ELA QUAL FOR”

EMILY DOS SANTOS BRITO MARQUES

CORRESPONDENTE ESCOLAR

AMADEU BEZERRA DE MORAIS NETO CORRESPONDENTE ESCOLAR

LARA MACHADO

CORRESPONDENTE ESCOLAR

O humor conhecido no Brasil todo será patrimônio cultural; nossas praias de beleza sem igual; a deliciosa e variada culinária regional; a alegria e hospitalidade dos cearenses; um dos melhores sistemas de educação pública do País... E a BECE – de cara nova, com 100 mil títulos, muitas cores e atividades. A atual biblioteca vem atraindo um público bem diversificado e de diferentes faixas etárias. Em 25 de março de 1867, a Biblioteca Pública Governador Menezes Pimentel foi inaugurada ao público – com um acervo em torno de 1.700 obras – por João de Sousa Melo e Alvim, que era presidente da Província do Ceará. Após a inauguração dessa primeira ferramenta cultural do Ceará, muitas reformas foram realizadas. Planos para mudanças na biblioteca atual já existiam

fazer, um novo setor em que são desenvolvidos processos criativos, sendo este integrado fisicamente ao setor de obras gerais da BECE. No segundo pavimento superior, pode-se ter um encontro com raridades abrigadas na BECE bem como com o setor de microfilmagem, local responsável por identificar exemplares raros e preservar os conteúdos dessas publicações. A BECE funciona de domingo a domingo; por enquanto, atende apenas 50% de sua capacidade em virtude da pandemia. Então, aproveite a oportunidade, agende sua visita e desfrute da nova Biblioteca Pública Estadual do Ceará.

BARBARA MOIRA

| DE VOLTA | A antiga Biblioteca Pública Governador Menezes Pimentel reabriu as portas como Biblioteca Pública Estadual do Ceará (BECE) e, com certeza, vale a pena conferir todas as novidades dessa importante ferramenta cultural

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FORTALEZA - CE, QUARTA-FEIRA, 01 DE DEZEMBRO DE 2021

ILUSTRAÇÕES: ANA VITORIA LOPES CAVALCANTE

VIDA&ARTE

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ENIDE VITAL

Com acervo e programação para todos os públicos, BECE se consolida como espaço cultural

desde 2018, quando ela entrou em reforma. Sua inauguração estava prevista para março de 2020; porém, os planos foram interrompidos pela pandemia causada pela Covid-19. Após um ano de muita espera, o novo centro cultural foi inaugurado na presença do governador Camilo Santana, além de Fabiano Piúba e Enide Vital, respectivamente secretário da Cultura do Ceará e diretora da BECE, dentre

outras autoridades. Em seus 154 anos de história, a BECE apresenta atualmente projetos voltados ao desenvolvimento da escrita e leitura, em especial, reconfigurando este espaço do saber e atuando como incentivo ao conhecimento, apresentando não só informações contidas nos livros, mas também diversas manifestações de artes e todas as formas de expressões postas em seu conceito.

“É UM ESPAÇO AGRADÁVEL E CONVIDATIVO, PENSADO PARA OS JOVENS; COMO UM LUGAR NÃO SÓ DE PESQUISA, MAS TAMBÉM DE ENCONTROS E CONVERSAS”

Na pandemia, a BECE recebe visitantes mediante agendamento online

Especialista em Gestão de Bibliotecas Públicas e Escolares e Gestão de Recursos Humanos, Enide Vital é a atual diretora da Biblioteca Pública Estadual do Ceará (BECE). Em entrevista, ela ressaltou as mudanças mais marcantes da Biblioteca Menezes Pimentel para a nova BECE, reinaugurada após quatro anos de reforma. Desde a sua fundação, ela já foi realocada diferentes vezes e passou por várias reformas. De acordo com Enide Vital, a arquitetura da atual BECE foi pensada com o trabalho conjunto de arquitetos, em que a inspiração principal foi a Biblioteca Parque Estadual (BPE), no centro do Rio de Janeiro. A BECE, em seu projeto, tinha o objetivo de ser moderna, trazer praticidade, alcançar interesse na população e ser um ambiente atual, mas sem esquecer as suas origens. A paleta de cores nos tons de vermelho, laranja e amarelo representa o sol radiante do nosso Ceará. Tais tonalidades, distribuídas por toda a biblioteca, criam um ambiente alegre e agradável para o público que a visita. Desde a recepção até o detalhe de cada um dos setores, é possível apreciar o artesanato do nosso Nordeste, principalmente pelos produtos do famoso Espedito Seleiro. A sua arte é exposta em diversos bancos espalhados pela biblioteca. O local também conta com Wi-Fi grátis, espaço para cinema e outro exclusivo para as atualidades; tudo pensado para o público-alvo, que são os jovens.

Diferentemente da antiga biblioteca, o ambiente agora é climatizado e tem elevador com acesso aos cinco andares. Com o objetivo de contemplar mais significativamente as populações carentes de nossa sociedade, a diretora informa de que maneira a BECE vem funcionando para atender o maior número de cidadãos. “Atualmente a biblioteca está em atividade de maneira híbrida por causa da pandemia; o acesso presencial é com 50% do público, mas as programações on-line já tiveram início desde abril deste ano”, reforça Enide. Tais programações on-line são divulgadas antecipadamente em diversas plataformas e redes sociais. Com relação à inclusão dentro da biblioteca, a diretora destaca que foi adicionado à BECE uma nova área, o Setor Leitura Acessível. É um espaço estruturado para a inclusão de minorias, com piso tátil em toda a biblioteca, além de diversos recursos que não existiam antes da reforma (como “Dosvox”, NVDA, lupas, impressoras Braille e scanner de conversão de texto em áudio). A biblioteca tem cerca de 2.440 livros em Braille e mais 30 audiolivros. As programações on-line também são produzidas com libras. O intuito da BECE é atrair o público de todas as idades e mudar esse conceito de que biblioteca é um ambiente somente para estudos, trazendo eventos, livros de diversos temas e um espaço acolhedor. O público visitante já percebeu isso. Agora só falta você!

ENIDE VITAL

AMANDA FONSECA COELHO

CORRESPONDENTE ESCOLAR

QUEM ESTEVE POR LÁ! ANA VITÓRIA LOPES CAVALCANTE CORRESPONDENTE ESCOLAR

Os correspondentes O POVO tiveram a oportunidade de entrevistar visitantes da BECE

MATEUS LINS Professor, advogado, escritor

MADALENA HERMÍNIO Estagiária da BECE

RICARDO JORGE Autônomo

IRISNALBA MACHADO CORRESPONDENTE MESTRE

“Eu acho que mais do que uma biblioteca, ela também se transformou em um espaço cultural, que nos convida a realmente vivenciar e aproveitar o lugar.”

“Eu a conheci antes e, com a nova reforma, a estrutura ficou bem melhor [...] Uma das novidades são as paredes, que se movem; dependendo do momento ou do evento, você pode aumentar a sala do tamanho que achar melhor para acontecer o evento.”

“Eu sou estagiária de pedagogia, mas o meu estágio na biblioteca abarca todos os setores, além do setor infantil [...] Eu não cheguei a ver a biblioteca antes da reforma, mas consigo sentir, pelas pessoas que vinham antes, como a biblioteca está agora. A imagem que a biblioteca está passando e o conforto que ela está dando agora. A intenção dessa biblioteca é de fato isto: passar conforto para que as pessoas possam vir, para que possam sentir vontade de voltar, não só para estudar. Ela não só é uma mediadora de leitura, ela é uma mediadora cultural. A gente vem trabalhando também como estagiário com a coordenação, para trazer ainda mais uma faixa etária adolescente, com sessão de mangás, por exemplo, ou os livros de fantasia,

“Primeiro de tudo, não tem só livros técnicos. Acho que, quando as pessoas pensam em biblioteca, elas pensam muito em livro técnico, mas aqui tem livros para todos os públicos [...] livros que você encontraria na “Saraiva”, por exemplo. Eu já evitei de comprar vários livros, que eu iria comprar on-line e aluguei por aqui.

os quadrinhos no setor infantil e pensar outras ações culturais que envolvam vários dos setores que a gente tem aqui. Está sendo uma experiência muito rica, entre funcionários e usuários, e eu acho que o melhor da BECE é isso mesmo, é a experiência da própria biblioteca e das pessoas que a gente encontra aqui, é uma troca muito grande e muito rica.”

LARA MACHADO Designer


VIDA&ARTE

educação

FORTALEZA - CE, QUARTA-FEIRA, 01 DE DEZEMBRO DE 2021

LIA FROTA

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Obras de Zuzu Angel (à esquerda) e Cristina Pagnocelli (à direita)

O DESIGN FEMININO

NO BRASIL

e a busca por seu reconhecimento | EXPOSIÇÃO | Design por Mulheres retorna ao Museu de Arte da UFC em 2021 reafirmando a potência feminina no design brasileiro e a luta contra a supressão de sua visibilidade

LIA FROTA CATUNDA RODRIGUES DE CASTRO CORRESPONDENTE ESCOLAR

MARIA LETICIA ALVES CORRESPONDENTE ESCOLAR

STEPHANIE DIAS DE BRITO

CORRESPONDENTE ESCOLAR

JOAO GOMES LUIZ

CORRESPONDENTE MESTRE

Quem passou pelo Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará, mais conhecido como MAUC, no mês de julho de 2021, teve a grata oportunidade de prestigiar a exposição intitulada Design por Mulheres. A exibição, sob a curadoria de Luciana Eloy, é fruto de um projeto de extensão homônimo inserido no curso de Design da Universidade Federal do Ceará, em 2017, e coordenado pela arquiteta e urbanista Tania Vasconcelos. O projeto visa dar nitidez à presença marcante de mulheres designers no Brasil - esmaecida pela hegemonia masculina dentro desse universo artístico-profissional, além de investigar a gênese do Design, caminhando por expressões femininas de vanguardas modernas do século XX até o momento contemporâneo. Tania Vasconcelos, que, além de possuir experiência com expografia, é também professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo e Design do Centro de Tecnologia da UFC, afirma que “o projeto Design por Mulheres tem como missão dar visibilidade às mulheres designers brasileiras e apresentá-las em formato expositivo, o que certamente enfatiza esta visibilidade”. Esta exposição teve sua abertura em março de 2020, retornando no mês de julho de 2021, após recesso necessário devido à pandemia causada pela Covid-19. Nesta segunda temporada, a exposição apresenta as trajetórias-trabalho de nove designers brasileiras, explanando essências, pensamentos, conceitos e contribuições de: Zuzu Angel (1921-1976; Design de Moda), que, na década de 1970, no auge de sua carreira, teve seu filho Stuart Angel preso e morto pela Ditadura Militar brasileira, levando-a a criar sua moda como protesto, associada a causas sócio-políticas; Renata Rubim (1948; Design de Superfície) com

um talento nato desde os quatro anos de idade ao desenhar padrões e brincar com colorações inovadoras; Elaine Ramos (1974; Design Editorial), atualmente liderando a Ubu Editora, é uma profissional marcante que atuou também na célebre editora Cosac Naify, elevando a estética dos livros ao status de objeto-arte; Janete Costa (1932-2008; Design de Interiores) arquiteta com um trabalho de viés engajado, propunha um design de valorização do Brasil popular unido ao moderno, sem hierarquização; Marianne Peretti (1927; Artes e Design) e Clementina Duarte (1941; Design de Joias), duas amigas pernambucanas, que possuem suas criações inspiradas na presença da paisagem tropical brasileira e moderna; Cristina Pagnoncelli (1985; Design e Artes Visuais) e Andrea Kulpas (1980; Tipografia e Branding), ambas norteadas por um viés reivindicatório de questões femininas em criações coletivas, algo característico da luta de grupos contemporâneos de mulheres, e Mirthes Bernardes (1934-2020), artista visual que tem em seu currículo a vitória do concurso que culminou na marca visual símbolo da cidade de São Paulo. A edição mais recente da exposição foi encerrada no início do mês de outubro de 2021, após o término do prazo para o qual estava programada. Felizmente, uma terceira edição está prevista para os próximos anos, afirma a coordenadora do projeto, embora ainda não haja uma data definida. “A cada edição do projeto Design por Mulheres nos desafiamos a trazer novas trajetórias de designers que contribuem ou contribuíram para com a construção do Design brasileiro, o que nos leva a extensas pesquisas e investigações. Contudo, as descobertas em cada uma e em todas as biografias, assim como as inovações geradas nos

projetos expográficos, também são dificuldades, ou melhor, desafios transformados em aprendizagem”, diz Tania. Quando se fala em reconhecimento dos produtos da intelectualidade feminina, infelizmente, perduram barreiras e preconceitos de cunho sexista. Apesar de estarmos no século XXI, espaço-tempo no qual a luta pelos direitos das mulheres está em pauta de modo recorrente na mídia, nas redes sociais e movimentos diversos, a mulher, sobretudo no meio artístico contemporâneo, ainda enfrenta obstáculos como a minimização e falta de visibilidade para seu trabalho, vide o caso da designer Mirthes Bernardes, criadora do desenho que virou o padrão das calçadas da cidade de São Paulo. Em 1966, durante a gestão do prefeito Faria Lima, houve um concurso público para escolher um padrão que compusesse as calçadas de São Paulo. Mirthes trabalhava na Secretaria de Obras da Prefeitura, local para onde desenhos eram enviados a fim de participarem da seleção. Sua função era passar para o papel vegetal os desenhos dos candidatos. Certa vez, o chefe de Mirthes descobriu um rascunho seu que estava guardado numa gaveta e logo a incentivou a participar do concurso. O “rascunho” de Mirthes era inspirado no formato e contorno do mapa de São Paulo e foi este o vencedor, estampando com grande sucesso em várias calçadas da cidade. Mirthes criou uma marca identitária, contudo precisou lutar pela patente, pela garantia dos direitos autorais e do reconhecimento de sua obra artística. Entretanto, não obteve sucesso nesta empreitada. Esse caso de Mirthes Bernardes é apenas um dos diversos fatos que existem no mundo sobre a banalização do labor feminino. Nesse sentido, Tania

Vasconcelos aponta que “a valorização dos talentos, habilidades e trajetórias das mulheres é de essencial importância, tanto para o reconhecimento das mesmas, assim como um incentivo às novas gerações.” Sobre as possibilidades para as mulheres no atual horizonte do Design, a coordenadora reserva um olhar esperançador sem, no entanto, romantizar as persistentes dificuldades que assolam o processo criador feminino: “O caminho já foi mais longo e desafiador, porém ainda há muito a caminhar… As barreiras se distinguem de acordo com o local e sua cultura, mas a mulher hoje já tem seu nome inscrito em destaque em muitos espaços do universo do Design”, declara. A palavra “valor”, quase sempre associada à figura masculina, traduz também status de poder. Dessa maneira, valorizar o design feminino significa trazer poder a essas artistas, que, também como produtoras de conhecimento, estão conquistando seu espaço na sociedade com os frutos criativos e inspiradores de suas profissões… Dias mulheres virão!

REABERTURA DA EXPOSIÇÃO DESIGN POR MULHERES 2020/21 https://bit.ly/3cHcVCY MAUC (MUSEU DE ARTE DA UFC) Inaugurado em 25 de junho de 1971, Avenida da Universidade, n° 2854, Bairro Benfica, CEP 60020-181, Fortaleza/CE. Recebe visitas gratuitas do público, de segunda a sexta, das 8h às 17h. Site: https://mauc.ufc.br/pt Redes Sociais: @museudeartedaufc (Facebook / Instagram)