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FORTALEZA-CE, 21 DE MAIO DE 2020 EDIÇÃO #4

PELO MUNDO TRAJETÓRIA DA COVID-19 + ENTREVISTA + BRASILEIROS NO EXTERIOR


FORTALEZA-CE, 21 DE MAIO DE 2020

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AGIR. TODOS CONTRA O CORONAVÍRUS - # 4

EDITORIAL

SIGA EM FRENTE, EM CASA O mundo está calculando os danos. O desafio de conter uma curva ascendente de infectados pelo novo coronavírus e zerar o número de mortos usou como estratégia, única e efetiva, nos quatro cantos do planeta, o isolamento social. Os países que demoraram a tomar medidas rigorosas de quarentena amargaram uma desenfreada quantidade de vidas perdidas. Na contramão, o Brasil continua a impressionar o mundo, que aprendeu que o caminho para conter um vírus, para o qual não há vacina e é transmitido por vias aéreas e contatos com infectados, é o isolamento social. O presidente Jair Bolsonaro insiste em deslegitimar as medidas de restrição mesmo diante da curva crescente de casos e mortes. Nas páginas a seguir, desenhamos uma linha do tempo da descoberta dos primeiros casos de coronavírus aos dias de hoje. Uma entrevista com o médico Odorico Monteiro contextualiza o momento do enfrentaPAULA mento do vírus no Ceará. E ouvimos brasileiros que, LIMA espalhados pelo mundo, vivem o desafio da pandeJORNALISTA mia longe de casa. Este caderno, infelizmente, não tem o ponto final ideal. Nosso desejo sincero é de que chegue logo o dia em que escreveremos na linha do tempo sobre o coronavírus o dia em que no Brasil não há mais infectados. Seguimos, em casa. Acompanhe tudo sobre coronavírus em: www.agirbrasil.com.br

EXPEDIENTE AGIR - TODOS CONTRA O CORONA VÍRUS FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA (FDR) Presidência: JOÃO DUMMAR NETO | Direção Administrativo-Financeira: ANDRÉ AVELINO DE AZEVEDO | Gerência Geral: MARCOS TARDIN | Gerência Editorial e de Projetos: RAYMUNDO NETTO | Análise de Projetos: EMANUELA FERNANDES

AGIR - TODOS CONTRA O CORONAVÍRUS Concepção e Coordenação Geral: CLIFF VILLAR | Coordenação Executiva: ANA CRISTINA BARROS Coordenação Adjunta: PATRÍCIA ALENCAR | Direção de design: GIL DICELLI | Edição de texto: PAULA LIMA Coordenação de Produção: GILVANA MARQUES | Produção: VALÉRIA FREITAS e REBECA SABOIA Coordenação geral do Caderno: GIL DICELLI | Editora-executiva do Caderno: PAULA LIMA Editora-adjunta do Caderno: AMANDA ARAÚJO | Textos do Caderno: AMANDA ARAÚJO, ANA BEATRIZ CALDAS e LETÍCIA DO VALE | Projeto gráfico do Caderno: GIL DICELLI | Edição de arte do Caderno: JOÃO MAROPO


ÍNDICE

TRAJETÓRIA DA COVID-19 PELO MUNDO (P. 4)

ENTREVISTA COM ODORICO MONTEIRO (P.10)

BRASILEIROS PELO MUNDO (P.12)


FORTALEZA-CE, 21 DE MAIO DE 2020

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AGIR. TODOS CONTRA O CORONAVÍRUS - # 4

CO VID -19 PELO MUNDO


ANA BEATRIZ CALDAS beatriz.caldas@opovo.com.br

De pneumonia misteriosa em Wuhan, na China, à pandemia global com mais de quatro milhões de pessoas infectadas e quase 300 mil mortos, entenda a trajetória da Covid-19 pelo mundo e como a doença vem impactando os países.


AGIR. TODOS CONTRA O CORONAVÍRUS - # 4

OMS divulga, pela primeira vez, um número oficial de casos da pneumonia “misteriosa” que aterroriza Wuhan, na China: 44 casos, com 11 pacientes em estado grave. Ainda não há recomendações da entidade em relação a restrições de entrada ou saída de pessoas na região.

Na China, especialistas identificam o vírus que causa a pneumonia, um novo tipo de coronavírus, semelhante ao que causou as epidemias de SARS, em 2002, e de MERS, em 2012. Até então, já existiam seis tipos de vírus da família. O novo coronavírus é batizado de Sars-Cov-2. A primeira morte causada pelo vírus é registrada na China, vitimando um homem de 61 anos.

TRANSMISSÃO HUMANA E CASOS EM OUTROS PAÍSES

30 DE JANEIRO

PACIENTES EM ESTADO GRAVE

SARS-COV-2

EMERGÊNCIA GLOBAL

11 E 12 DE FEVEREIRO

9 DE JANEIRO China notifica a Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre um surto de pneumonia na cidade de Wuhan, localizada na província de Hubei. Ainda não há nenhuma morte em decorrência da doença. No dia seguinte, o país fecha um mercado popular, suspeitando que os animais ali comercializados para consumo humano – muitos deles silvestres – sejam os responsáveis pela transmissão da enfermidade para as pessoas.

20 E 21 DE JANEIRO

PNEUMONIA DE CAUSA DESCONHECIDA

22 DE JANEIRO

5 DE JANEIRO DE 2020

31 DE DEZEMBRO DE 2019

FORTALEZA-CE, 21 DE MAIO DE 2020

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DOENÇA É NOMEADA

Uma semana após a confirmação do primeiro caso fora da China – uma paciente na Tailândia – , outros países começam a registrar casos da doença, como Japão e Coreia do Sul. Governo dos Estados Unidos diagnostica o primeiro caso. A transmissão entre seres humanos é confirmada, e as formas de contágio são comprovadas: através das vias aéreas e do contato direto com uma pessoa infectada.

EMERGÊNCIA NA CHINA A cidade de Wuhan, epicentro de casos, é isolada. Diversas cidades chinesas entram em quarentena. A OMS reconhece o estado de emergência na China e alerta: apesar de não ser uma emergência global, a epidemia de SarsCov-2 pode se tornar uma.

Após um mês de epidemia, OMS decreta estado de emergência global. O diretor-geral da organização, Tedros Adhanom, alerta sobre o perigo da doença chegar a países com sistema de saúde mais frágeis. Itália registra os primeiros casos, mas o primeiroministro Giuseppe Conte tranquiliza a população do país e diz não haver motivos para preocupação.

OMS define o nome da doença: Covid-19, nome que une alusão ao vírus causador (coronavírus), à palavra disease (doença, em inglês) e ao ano que ela surgiu (2019). Coreia do Sul começa a desenvolver kits para testagem em massa.


CAOS NA ITÁLIA

13 DE MARÇO

8 E 9 DE MARÇO

PRIMEIRO CASO NO BRASIL

Após ter um aumento de 50% no número de mortes, o governo italiano começa a demonstrar sinais de preocupação com a Covid-19. O país entra em quarentena nacional. Vinte dias depois, o prefeito de Milão se disse arrependido pela campanha que estimulava os cidadãos a continuarem nas ruas.

EMERGÊNCIA NOS EUA Enquanto os EUA declaram emergência nacional, milhares de jovens ainda curtem festejos do Spring Break, a temporada de férias universitárias. Testagem em massa da Coreia do Sul apresenta resultados; curados agora estão em maior número do que contaminados no país.

ALERTA DA OMS OMS alerta sobre emergência global, mas líderes de diversos países não levam a epidemia a sério. Jair Bolsonaro diz a brasileiros que não há motivo para pânico. presidente norteamericano Donald Trump (foto) afirma não estar preocupado com uma possível rapidez na transmissão do coronavírus em território estadunidenses.

PANDEMIA E CONSPIRAÇÕES Com 114 países registrando casos de infecção pelo novo coronavírus e mais de quatro mil mortos, OMS categoriza surto de Covid-19 como pandemia global. Alemanha inicia testagem em massa, enquanto a maioria dos países luta contra a falta de testes e capacidade dos laboratórios de computarem resultados com agilidade. Apesar de o diretor-geral da OMS descartar a possibilidade de ataque biológico, governo do Irã insiste na teoria.

16 DE MARÇO

América Latina tem primeiro caso registrado no Brasil, na cidade de São Paulo. No dia seguinte, o Governo da Itália, que registra apenas seis mortes até então, lança a campanha “Milão Não Para”, com o objetivo de manter as atividades econômicas funcionando. Membros importantes do governo italiano culpam a cobertura da imprensa pelo impacto negativo na economia.

11 E 12 DE MARÇO

15 DE FEVEREIRO

Após quase 20 dias do registro do primeiro caso, Europa registra primeira morte por Covid-19, na França. A vítima era um turista chinês de 80 anos oriundo da província de Hubei, e sua filha também apresentou sintomas da doença e foi hospitalizada.

5, 6 E 7 DE MARÇO

25 E 26 DE FEVEREIRO

PRIMEIRA MORTE NA EUROPA

MEDIDAS DE PREVENÇÃO OMS reforça necessidade de distanciamento social como forma de evitar o colapso dos sistemas de saúde e tratar de forma mais ágil os pacientes de Covid-19. O diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus (foto), também reafirma que a testagem em massa é a maneira mais segura de evitar o avanço da doença nos países.


AGIR. TODOS CONTRA O CORONAVÍRUS - # 4

ITÁLIA CONTABILIZA 4 MIL MORTES A Europa é considerada o novo epicentro da pandemia, e a Itália soma quatro mil mortes por Covid-19. Espanha registra aumento no número de mortes por dia e tem cenário mais preocupante no continente, junto à Itália.

Após muitas especulações, Japão anuncia oficialmente o adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio, que seriam realizados em julho de 2020, para 2021. É o primeiro adiamento da história das Olimpíadas – que, no entanto, já tinham sido canceladas por ocasião das duas guerras mundiais. Enquanto mais de 150 países têm aulas suspensas, Bolsonaro chama a pandemia de “gripezinha” e questiona fechamento de escolas no Brasil.

CRISE SE ACIRRA NOS EUA

12 DE ABRIL

OLIMPÍADAS DE TÓQUIO SÃO ADIADAS

Os Estados Unidos ultrapassam a China em número de infecções por Covid-19, e o país é considerado novo epicentro global, as mortes chegaram a mil. Neste dia, o senado americano aprovou um pacote de 2 trilhões de dólares para aplacar os efeitos negativos da pandemia de coronavírus.

UM LÍDER REZA E OUTRO É INFECTADO Papa Francisco realiza missa sozinho na Praça de São Pedro, roga a Deus pelo fim da pandemia e concede o perdão dos pecados para mais de um bilhão de católicos em um momento histórico. Após debochar da seriedade da doença, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, testa positivo para Covid-19. Governo brasileiro lança campanha “O Brasil não pode parar”.

16 DE ABRIL

24 DE MARÇO Brasil tem primeira morte por Covid-19: um homem de 62 anos, hipertenso e com diabetes, que não tinha viajado para o exterior. País apresenta mais de 200 casos da doença. A chanceler alemã Angela Merkel afirma que a pandemia é o maior desafio desde a segunda guerra mundial.

26 DE MARÇO

PRIMEIRA MORTE NO BRASIL

27 DE MARÇO

20 E 21 DE MARÇO

17 E 18 DE MARÇO

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MUDANÇA DE TOM NO UK E COLAPSO NA AL Ao sair da UTI por complicações do quadro de Covid-19, Boris Johnson (foto) faz um discurso emocionado em agradecimento à equipe médica que salvou sua vida e defende o Serviço Nacional de Saúde (NHS). A mudança de tom do político reforça a gravidade da doença. Equador vive dias de horror com o sistema funerário colapsado; mais de 700 corpos de vítimas do novo coronavírus são recolhidos em casas e nas ruas.

MINISTRO DA SAÚDE DO BRASIL É DEMITIDO Após dias de intensa troca de farpas em público, Jair Bolsonaro demite o Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (foto), que vinha em uma onda crescente de popularidade pela postura na luta contra a Covid-19, incentivando o isolamento social. O empresário e oncologista Nelson Teich é apresentado como novo ministro.


15 DE MAIO

Dos 157.163 óbitos registrados até então, mais de 100 mil ocorreram na Europa, tornando o continente o mais afetado pela pandemia. No mundo, o número de casos de Covid-19 ultrapassa 2,2 milhões.

RELAXAMENTO DA QUARENTENA Após 48 dias de isolamento social obrigatório, Espanha tem primeiro dia de relaxamento da quarentena. No mesmo dia, ocupando o quarto lugar com mais mortes por Covid-19 e o segundo lugar em casos no mundo, chega a 25 mil mortes pela doença.

12 DE MAIO

2 DE MAIO

A universidade norte-americana Johns Hopkins revela o número animador de um milhão de pessoas recuperadas da doença em todo o mundo. No Brasil, 35 mil pacientes já se recuperaram do novo coronavírus.

MINISTRO DA SAÚDE PEDE DEMISSÃO A dois dias de completar um mês no cargo, o ministro da Saúde do Brasil, Nelson Teich, pediu demissão do cargo. Teich disse ao presidente Bolsonaro de que não poderia mudar o protocolo do uso da cloroquina no combate ao coronavírus, sem comprovação científica.

NOVOS EPICENTROS Analisando a curva epidemiológica da Covid-19 do Brasil e comparando-a a de outros países, pesquisadores da Uncisal divulgam estudo que aponta o país como novo epicentro da doença. O Maranhão é o primeiro estado brasileiro a entrar em lockdown, e, no Ceará, o governador Camilo Santana (foto) decreta orientações semelhantes. Na Europa, com Itália e Espanha voltando à rotina aos poucos, Reino Unido é o novo epicentro.

EPICENTRO NA AMÉRICA DO SUL Presidente da Argentina, Alberto Fernández (foto) disse em uma rádio do país que o Brasil representa uma ameaça à América do Sul pelo crescente número de casos da Covid-19. Mario Benítez, presidente do Paraguai, diz que não abrirá fronteiras com o vizinho. Nesta data, o Brasil ultrapassava 11.500 mortes.

19 DE MAIO

UM MILHÃO DE RECUPERADOS

5 DE MAIO

18 DE ABRIL 30 DE ABRIL

EUROPA TEM MAIOR TAXA DE ÓBITOS

BRASIL SE TORNA O TERCEIRO PAÍS DO MUNDO COM MAIS INFECTADOS Com quase 17.000 mortes e 254.000 pessoas infectadas por coronavírus, o Brasil tem um dos surtos mais ativos do mundo. É o terceiro país em casos, após ultrapassar o Reino Unido, a Itália e a Espanha, e o sexto em mortes. O presidente Jair Bolsonaro (foto) segue boicotando diretamente as recomendações dos governadores de isolamento e insiste em incluir a cloroquina no protocolo de saúde pública para atender aos casos leves.

FONTES > AFP > Agência Brasil > BBC News Brasil > CNN Brasil > El País > Johns Hopkins University > O POVO > Organização Mundial da Saúde (OMS) > Reuters > The New York Times > Universidade Estadual de Ciências da Saúde do Alagoas (Uncisal)


AGIR. TODOS CONTRA O CORONAVÍRUS - # 4

“O QUE SALVA SÃO MEDIDAS NÃO FARMACOLÓGICAS” FÁBIO LIMA / OPOVO

AMANDA ARAÚJO

MÉDICO ODORICO MONTEIRO FALA SOBRE ENFRENTAMENTO DA PANDEMIA DE CORONAVÍRUS NO CEARÁ

A

amandaaraujo@opovo.com.br

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produção de insumos e investimentos em ciência e tecnologia é uma questão de soberania nacional. É o que aponta o médico Odorico Monteiro em entrevista por telefone ao caderno Agir. “Produzimos avião, produzimos carros, mas o mundo - e o nosso País - não estava preparado para a crise de Covid-19”. Para ultrapassar esta pandemia, no entanto, cada um pode fazer a diferença. “O grande desafio, é uma esperança, mas se você tiver que colocar uma frase para mim, é: ainda hoje, as medidas mais importantes para resolver a pandemia são medidas não farmacológicas”, enfatiza Odorico.


AGIR - Uma vacina contra o coronavírus, na melhor das hipóteses, sairia em setembro, segundo pesquisas. Qual seria uma estimativa viável de cura da Covid-19? Odorico - Ainda hoje nós não temos uma vacina para Aids, e já foram investidos bilhões de reais, não é porque a ciência não tenha pesquisado. Ainda não se conseguiu construir anticorpos para o vírus da Aids. A gente conquistou coquetéis de medicamentos que reduzem a carga viral, e a quantidade de vírus não é suficiente para produzir a doença Aids. Tem muita gente soropositivo, vive com o vírus dentro dela, toma os coquetéis, mas não chega a produzir a doença. Uma vacina não é uma coisa que sai quando a gente quiser, tem laboratórios que passaram 20 anos estudando a dengue e ainda não têm uma vacina efetiva para dengue. Para a dengue você tem que conseguir que uma vacina seja eficiente para os quatro tipos diferentes da dengue. Qual o problema estamos tendo no Brasil, ao mesmo tempo que está tendo a pandemia do coronavírus, está tendo epidemia de dengue e das outras gripes virais. Eu acho que, dificilmente, a gente consegue uma vacina [para Covid-19] com menos de um ano, que seja eficiente e eficaz, para você adotar no mundo todo. Depois, qual vai ser o preço dessa vacina? Qual a escala de produção? O grande desafio, é uma esperança, mas se você tiver que colocar uma frase para mim, é: ainda hoje, as medidas mais importantes para resolver a pandemia são medidas não-farmacológicas, o que salva nesta pandemia são medidas não farmacológicas. AGIR - Existem pessoas defendendo que melhor seria espalhar o vírus rapidamente para criar mutações menos perigosas do vírus, sem lockdown. Isso seria possível? Odorico - Isso não existe, essa teoria de imunidade de rebanho é uma teoria genocida. É uma teoria eugênica, fascista! Porque vão morrer os pobres, vão morrer todos, mas quem mais vai sofrer com isso é a população vulnerável, porque o vírus não é democrático. Apesar de contaminar todos, quem mais está morrendo em Fortaleza, no Brasil, quem mais vai se contaminar no Brasil é a população de menor IDH. Porque é a população que mora aglutinada em pequenas casas, são as que têm menos assistência em tudo. Não tem um país que

adotou imunidade de rebanho, não tem um cientista que defende imunidade de rebanho, essa é a pior informação! Na minha opinião, tem uma única tese que é a tese de eugenia, ou seja, vamos matar os negros, vamos matar os pobres, seleção natural, quem viver são os fortes? Isso não se sustenta em pleno séculos XXI. Você dizer que 70% da população vão pegar e quem morrer “e daí?” não é uma postura. Por que o Brasil gera dúvida na população em relação à importância do lockdown, do isolamento social? Porque o presidente, que podia estar coordenando o processo nacional de articulação com os governadores, com os prefeitos, [não está]. Porque o SUS é interfederativo, só funciona se for articulada a união dos estados e dos municípios, o discurso produzido pelo presidente está matando pessoas. AGIR - Quais as chances do mundo vivenciar uma segunda fase da pandemia de Covid-19? Odorico - Estamos aprendendo com esse vírus a ter humildade. Esse vírus é um grande professor, quem mais sofre com ele é quem nega a ciência, esse é o maior problema que a gente tem. O que estou preocupado, tem três grandes blocos; um bloco de uns 100 países onde a epidemia continua em larga expansão. Três países estão liderando, o Brasil, a Rússia e a Índia. Tem um grupo de países onde a epidemia está totalmente sob controle, os asiáticos e os europeus, os casos estão em declínio. E tem um grupo aí de situação mista, que é o caso dos EUA, que está fazendo isolamento social, mas ainda há grande quantidade de casos o tempo todo. Nos EUA, já morreram quase 80 mil pessoas, duas vezes a quantidade de americanos que morreram em 15 anos de guerra do Vietnã, é um desastre também. Brasil e EUA são as piores experiências do mundo. Como o coronavírus pode voltar? O que pode acontecer é o que a gente chama de efeito sanfona, como a gente não está fazendo o dever de casa bem feito de enfrentar a pandemia, com lockdown verdadeiramente, a gente pode ficar entrando e saindo. Sai, tem uma pressão grande, abre, daqui a pouco tem muita gente morrendo em casa, nos hospitais, não tem leito de UTI. O que mais nos preocupa é levar à total exaustão do sistema de saúde, hoje estamos com 100% dos leitos público e privados do Ceará ocupados. Quando você chega a 98%, você leva à to-

tal exaustão. Nos casos novos, as pessoas começam a morrer, nas UPAs, nos postos de saúde, em casa. Porque tem as outras doenças, além do coronavírus, tem alguém com AVC, alguém infartando, apendicite, com abdômen agudo, com câncer, doença crônica. Uma intercorrência que precisa de hospital, mas não tem porque o hospital está todo em função do coronavírus. Esse colapso total entra e sai, daqui a 20 dias abre, aumenta o contágio, aí volta. AGIR - O que a pandemia nos ensina sobre investimento público em educação e pesquisa? Odorico - É que o investimento em ciência, em tecnologia, no complexo produtivo da saúde no Brasil, na produção de química fina, na produção de medicamentos, de equipamentos de proteção individual, de insumos em tecnologia, inclusive, inteligência artificial aplicada à saúde, é um problema de soberania nacional. O Brasil está totalmente com a soberania prejudicada, porque para o Ceará ter macas, aventais, luvas para enfrentamento, tem que vir de um avião da China. É incompatível um país que produz avião, que produz petróleo, que tem autossuficiência em petróleo, que tem a maior potência do mundo na produção de carne, de soja, de grãos, não conseguir produzir equipamentos de proteção individual. Isso é falta de prioridade estratégica do País, é o que deixa o País frágil, de joelho. O mundo tem dois grandes complexos, um é o bélico, o segundo complexo econômico mais importante do mundo é o da saúde. O Brasil é total dependente dessa produção. Eu confesso que toda vida que vejo gráfico da evolução da pandemia na Índia dá um frio na barriga. Primeiro, pelos indianos, um país com mais de um bilhão de habitantes, segundo porque 93% dos medicamentos produzidos no Brasil, a química fina que a gente chama, vem da Índia. Se você tiver um grande lockdown na Índia é possível que afete a produção de medicamentos mais variados no Brasil.

PERFIL

Odorico Monteiro é professor de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), coordenador do mestrado em Saúde da Família da UFC Sobral, coordenador do grupo de pesquisa LARIISA Saúde Digital e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).


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BRASILEIROS PELO

MUN DO

CONHEÇA A HISTÓRIA, AS DIFICULDADES E AS VITÓRIAS DE BRASILEIROS QUE ESTÃO EM OUTRO PAÍS ENFRENTANDO O CORONAVÍRUS


“A MAIOR DIFICULDADE É NÃO SOFRER PREOCUPADA COM MINHA FAMÍLIA”

PAULA OTTO, Estudante. Morava em Fortaleza, Ceará. 21 anos. Canadá - Vancouver

Faço faculdade e moro no Canadá há três anos. Em janeiro deste ano, comecei a receber artigos sobre o coronavírus e via casos de racismo contra chineses, já que presumiam erroneamente que eles carregavam o vírus. No final de fevereiro, só se falava disso e tinham pôsters na universidade alertando para lavar as mãos. No começo de março, passei a fazer home office. Nesse momento, as pessoas começaram a estocar produtos e faltava máscara, álcool em gel e até papel higiênico nos lugares. Você não via ninguém andando. Os policiais multavam quem estava fora. Minhas aulas irão continuar online, provavelmente, até o fim do ano. Nos mercados, só entra um número limitado de pessoas, e as outras fazem fila do lado de fora, respeitando o distanciamento. As pessoas estão respeitando, e a curva de casos está estabilizada. Sinto que no Brasil há uma sensação de pânico. A saúde pública é muito boa, não me preocupo com a situação daqui. A maior dificuldade é não sofrer preocupada com minha família e amigos. Pensei em voltar para o Brasil para enfrentar tudo isso ao lado da minha família, mas sei que estou mais segura aqui.

“TÍNHAMOS HELICÓPTEROS E DRONES PARA MONITORAR OS PASSOS DE CADA UM”

“MINHA FAMÍLIA ESTÁ MAIS TRANQUILA POR EU ESTAR AQUI DO QUE NO BRASIL”

GABRIELA MOURA, Arquiteta. Morava em Recife, Pernambuco. 38 anos. Rimini - Itália

JANAYNA GUTERRES, Estudante. Morava em Brasília, DF. 22 anos. Porto - Portugal

Moro na Itália há dois anos, com meu marido e dois filhos, um de três anos e outro de 10 meses, na região Emilia-Romagna, umas das mais atingidas pelo vírus no país. No começo de março veio o decreto de que ninguém poderia sair de casa se não fosse para serviços essenciais. Durante todo esse tempo, não saí de casa de jeito nenhum e meu marido fazia as compras. Além de carros de polícia, tínhamos helicópteros e drones para monitorar os passos de cada um. A partir do dia 4 de maio, passamos a poder sair de casa, mas sempre de máscara. Podemos ir a parques e visitar parentes, desde que com distanciamento. Tive receio de sair. Depois de tanto tempo em casa parecia que a vida era só aquilo. Mas sair foi um respiro, senti minhas energias renovadas. Mantemos o distanciamento e o álcool em gel sempre em mãos. Teve uma fase em que todo dia o número de mortos aumentava, e a gente naturaliza. As pessoas começaram a entender a gravidade da situação. Não tinha ninguém na rua, tudo estava parado, com muito respeito e um sentimento de união. Poderíamos ter fechado mais cedo, mas sinto que faltou referência. O Brasil, já sabendo dos casos, tinha condições de se preparar.

Cheguei a Porto para fazer o intercâmbio no começo de fevereiro deste ano. Em Portugal, os casos começaram a aumentar no começo de março, mas ainda estávamos confiantes de que, depois dos 15 dias de quarentena decretado pelo presidente logo no início, tudo iria ficar bem. No entanto, os casos continuavam aumentando. Ninguém sabia muito bem o que fazer. A recomendação era ficar em casa, e só tínhamos acesso a serviços essenciais. Nos primeiros dias, a polícia teve que multar as pessoas que estavam fora de casa, mas depois todo mundo começou a respeitar. Tento fazer as compras de 15 em 15 dias, sempre de máscara e luva, agora obrigatórios. Entra um número limitado de pessoas no supermercado e do lado de fora formam uma fila, cada um longe do outro. No final de abril, foi decidido abrir aos poucos o comércio. Já estive muito mais assustada, mas agora os números têm diminuído, com certeza graças ao confinamento. Acho que minha família está mais tranquila por eu estar aqui do que no Brasil. A gente não precisa esperar algo ruim acontecer com a gente, temos que aprender a lição vendo outros países.


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“ACHO QUE DAQUI A UNS DOIS MESES VAI FICAR SÓ HISTÓRIA PRA CONTAR”

SÉRGIO LUSTOSA, Designer gráfico e bartender. Morava em Fortaleza, Ceará. 41 anos. Gold Coast - Australia

Há 13 anos vivo na Austrália. Atualmente trabalho em um pub, que foi fechado no fim de março, assim como todos os estabelecimentos que causavam aglomeração de pessoas. Ficaram abertos só os serviços essenciais e os cafés funcionando como drive-thru. Fiquei meio atordoado, sem saber o que ia ser. Os policiais questionam o motivo de você estar fora de casa, e algumas pessoas recebem multa. Nos primeiros dias, foi bem estressante, ninguém saía de casa pra nada. Depois, por causa da saúde mental, o governo liberou ir à praia, fazer exercícios físicos e caminhadas ao ar livre, mas sem passar muito tempo na rua. No início, a gente ia ao supermercado e estava faltando quase tudo, papel higiênico, fruta, carne, as pessoas estavam estocando. Agora está mais normalizado. Vivo com minha esposa e meus dois filhos, de 11 e 8 anos. As aulas foram canceladas fisicamente, mas tem uma lista de atividades diariamente para fazer e mandar para o professor. Agora, o governo já liberou piquenique entre família e pessoas das mesmas casas, mas evitando aglomeração. Os casos não foram tão numerosos. Acho que daqui a uns dois meses vai ficar só história pra contar.

“VOCÊ NÃO VIA NINGUÉM NA RUA, PARECIA UMA CIDADE ABANDONADA”

GABRIEL MENEZES, Estudante. Morava em Brasília, DF. 21 anos. Varsóvia - Polônia

Cheguei na Polônia no começo de fevereiro, para fazer intercâmbio. Desde o início via algumas pessoas isoladas de máscaras, principalmente asiáticos. No dia 12 de março foi o choque. A universidade suspendeu as aulas, mas ninguém estava ouvindo falar de coronavírus. Achei que poderia viajar, aproveitar, mas uns cinco dias depois tudo começou a ser fechado, comércios, bares, restaurantes. A polícia isolou parques, e ninguém poderia estar nas ruas, a não ser para atividades essenciais. Desde o início, houve uma visão de longo prazo do governo. Atualmente, os parques estão liberados, e pequenos comércios começam a reabrir, além de shoppings, hotéis e museus. Quando estava mais rígido, você não via ninguém na rua, parecia uma cidade abandonada. Tivemos protestos de pequenos empresários contra as medidas, mas não foram manifestações grandes. No início a população ficou assustada, mas hoje não vejo preocupação extrema já que, comparado a outros países, temos poucos casos. Raramente você vê pessoas sem máscara e nos shoppings oferecem álcool em gel na entrada. A Polônia está tomando muito cuidado. Meus pais ficaram muito preocupados, mas já se tranquilizaram.


“QUANDO FUI AO BANCO, FUI TESTADA COM TERMÔMETRO NA ENTRADA”

MARIZA TEIXEIRA, Aposentada. Morava em Fortaleza, Ceará. 60 anos. Çorlu - Turquia

Moro na Turquia com meu parceiro há 10 meses. Há cerca de três meses, os estabelecimentos foram fechados, e as pessoas passaram a não sair de casa. O governo cancelou as aulas, e os policiais multam as pessoas que estão na rua sem motivo essencial. Nos mercados, só entra um número limitado de pessoas, e tudo é embalado, sem precisar pôr a mão diretamente em frutas e verduras. As pessoas também respeitam muito o distanciamento. Quando fui ao banco, fui testada com termômetro na entrada, para saber se estava com febre. Nas farmácias, vendedores e atendentes são protegidos com uma parede transparente de plástico, há uma abertura só para passar os produtos e o pagamento. O governo distribui equipamento de proteção para todos. Saímos só para atividades essenciais. Os estabelecimentos são muito próximos, e, nas raras vezes que saio, vou em horários que o mercado vai estar vazio. Não enfrento tumultos e não estou tendo dificuldades. Passo mais tempo em casa, já que meu marido, que não é do grupo de risco, se preocupa bastante e prefere ir às compras. Pensei em voltar para o Brasil, mas meus filhos disseram que eu estaria mais segura aqui.

“VER QUE NO BRASIL NÃO ESTÃO LEVANDO A SÉRIO ME PREOCUPOU MUITO”

GABRIEL FERNANDES, Bailarino. Morava em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. 27 anos. Joanesburgo - África do Sul

Sou bailarino em uma companhia de ballet clássico e estou morando na África do Sul há um ano. Percebi que a situação ficou séria quando tínhamos iniciado a temporada de Dom Quixote e logo depois ela foi cancelada, no dia 16 de março. Estava decretada a quarentena. No dia 25 do mesmo mês, estava previsto que iria ser decretado lockdown. Fui ao supermercado um dia antes e parecia cena de filme. Pessoas correndo de um lado pro outro como se o mundo fosse acabar. Eu estava surtando por dentro e ligava para minha mãe toda hora, principalmente percebendo o que acontecia no Brasil e sem poder fazer nada. Eles estão tendo um controle bem rígido, com policiamento nas ruas mandando as pessoas voltarem para casa, além de testarem os clientes para febre em supermercados. Agora, estão começando a estudar um afrouxamento das medidas. Atualmente, tenho aula online com a companhia e continuo fazendo meus exercícios, além de treinar o inglês. Penso em voltar para o Brasil todos os dias. Ver que no Brasil não estão levando a sério me preocupou muito. Minha mãe e minha irmã continuam a trabalhar porque não têm escolha. Se decidirem ficar em casa, serão demitidas pela empresa.

“CHEGAR AQUI FOI UM CHOQUE CULTURAL”

CAROLINE TAVARES, Publicitaria. Mora em Fortaleza, Ceará. 32 anos. Estava em Córdoba, Argentina

Cheguei dia 10 de março em Córdoba para um intercâmbio profissional e dia 16 entrei em quarentena. Fiquei em um hostel com 12 pessoas. Só estavam abertos estabelecimentos essenciais. No início, pedimos para quem fosse argentino fazer as compras, pois ia ser mais fácil caso o policial parasse a pessoa por causa do idioma. Quem saía tinha que fazer compra para todo mundo. Na rua, os policiais paravam as pessoas, e tinha multa para quem não estava de máscara. A volta para o Brasil foi de ônibus, pois não tinham voos disponíveis. Cheguei no País dia 20 de abril. Após atravessar a fronteira em Uruguaiana, Rio Grande do Sul, o processo de entrada foi muito rápido. Fomos recebidos pelos soldados do exército em um posto improvisado, com uma pia para higienizar as mãos. O ônibus estava cheio, cerca de 60 pessoas, e não fui encaminhada para fazer nenhum teste para saber se estava com coronavírus antes de entrar no ônibus ou depois de chegar ao Brasil. Em Fortaleza, fiz quarentena em um apartamento vazio. Chegar aqui foi um choque cultural. A grande diferença que eu vejo entre aqui e a Argentina é o fato das pessoas não aceitarem a quarentena. Isso está me deixando chocada.


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