O Brasil das florestas plantadas - OpCP59

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Opiniões www.RevistaOpinioes.com.br ISSN: 2177-6504

FLORESTAL: celulose, papel, carvão, siderurgia, painéis e madeira ano 17 • número 59 • Divisão F • mar-mai 2020

O Brasil das florestas plantadas


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O Brasil das florestas plantadas

índice

editorial de abertura:

6

Valdir Colatto

Diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro do MAPA

ensaio especial:

41

Roosevelt de Paula Almado

Gerente de Desenv e Tecnologia da ArcelorMittal

macrovisão estratégica:

8

11

Moacir José Sales Medrado

Diretor da Medrado e Consultores Agroflorestais

14

Vice-Presidente da STCP - Engenharia de Projetos

Vanderley Porfírio-da-Silva

Chefe Adjunto da Embrapa Florestas

26

Ricardo Anselmo Malinovski

28

Paulo Hartung

30

Camila Savastano de Queiroz

Inovações:

16 18 23 36

mercado florestal: Joésio Pierin Siqueira

estradas florestais:

integração L-P-F:

Ana Paula Dalla Corte

Professora de Geoestatística da UF-PR

Erich Schaitza

Chefe-geral da Embrapa Florestas

Pedro Jacob Christoffoleti

Professor de Biologia e Manejo de Daninhas da Esalq/USP

investimentos:

21

entidades:

Carlos Alberto Justo da Silva Jr.

Gerente-geral de Planejamento e Compettvdd da Eldorado

Jefferson Bueno Mendes

Diretor da BM2C - Business Management Consulting

CEO da Malinovski Florestal

Presidente executivo da Ibá

equidade de sexo: Coordenadora de pós-graduação da Univiçosa

reflorestamento:

32

Sebastião Renato Valverde

Professor de Política, Gestão e Legisl da UF-Viçosa

dendrologia:

34

Patricia Mattos e Evaldo Muñoz Braz

39

Philipe Ricardo Casemiro Soares

Pesquisadores da Embrapa Florestas

gestão florestal: Professor de Economia Florestal da UDESC

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Divisão Sucroenergética: • Carlos Eduardo Cavalcanti • Eduardo Pereira de Carvalho • Evaristo Eduardo de Miranda • Ismael Perina Junior • Jaime Finguerut • Jairo Menesis Balbo • José Geraldo Eugênio de França • Julio Maria M. Borges • Luiz Carlos Corrêa Carvalho, Caio • Manoel Vicente Fernandes Bertone • Marcos Guimarães Andrade Landell • Marcos Silveira Bernardes • Martinho Seiiti Ono • Nilson Zaramella Boeta • Paulo Adalberto Zanetti • Paulo Roberto Gallo • Pedro Robério de Melo Nogueira • Plinio Mário Nastari • Raffaella Rossetto • Tadeu Luiz Colucci de Andrade • Xico Graziano


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editorial de abertura

o tamanho e a importância das

florestas nativas e plantadas

O Brasil possui uma das maiores áreas de florestas do mundo, com uma área estimada em 488 milhões de hectares de florestas nativas e 9,8 milhões de hectares de florestas plantadas. Somados, esses valores representam mais de 58% da cobertura do território nacional. As florestas nativas geram bens e serviços que são a base de uma cadeia de bioeconomia, que é a produção baseada no conhecimento e uso de recursos naturais que proveem benefícios socioeconômicos e ambientais, dentro de um sistema de produção sustentável, e que envolve o manejo das florestas nativas. Já as florestas plantadas fornecem diversos produtos, madeireiros e não madeireiros, contribuindo para o abastecimento de diversas cadeias produtivas muito importantes para o País, como da construção civil, celulose, papel, energia, siderurgia e mobiliário. A produção de madeira está concentrada nas florestas plantadas, que abastece mais de 91% do parque fabril, apesar de ocupar menos de 1% da área do território nacional. A produção florestal das plantadas é uma das quatro maiores cadeias do agronegócio em termos de balança comercial. Em termos de exportações, produtos florestais representaram, em 2019, R$ 12,4 bilhões em divisas ao Brasil, sendo que os principais produtos exportados foram celulose (60%), produtos de madeira (24%) e papel (16%).

Temos vantagens comparativas e competitivas quanto à disponibilidade de recursos florestais, um amplo mercado interno, boa penetração nos internacionais, além de conhecimento e tecnologias disponíveis que abrem possibilidades para a ampliação da participação do setor florestal na economia nacional. "

Valdir Colatto

Diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro do MAPA

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Produtos florestais não madeireiros também são muito importantes e compreendem gêneros alimentícios, oleaginosos, fibras, folha de eucalipto, casca de acácia-negra, resinas, ceras e tanantes, com um valor de produção superior a R$1,2 bilhão. Essa produção é a base da economia de uma série de comunidades agroextrativistas e contribui para as economias regionais, que, por sua vez, contribuem para as economias nacionais e globais . No caso das florestas nativas, o manejo florestal sustentável é o principal instrumento de uso desses recursos. Existem mais de 309 milhões de hectares de florestas públicas, 36% do território nacional, daí a importância de políticas que promovam a conservação desses ativos


Opiniões e a condução desse uso, de maneira a produzir o menor impacto possível. Nesse sentido, a agenda das concessões florestais é estratégica, na qual o Serviço Florestal atua como o órgão gestor dessas concessões no País. Hoje, são 17 contratos de concessões em operação, distribuídos em seis florestas nacionais, no Pará e em Rondônia, totalizando mais de milhão de hectares de floresta para produção. Segundo o Cadastro Nacional de Florestas Públicas do SFB , 92% das florestas públicas estão no bioma Amazônia, 5,6% no cerrado, 1,3% na mata atlântica, 0,52% na caatinga,0,34% no pantanal e 0,05% nos pampas. A gestão da política florestal é outro tema relevante, e existem políticas públicas que buscam dar mais consistência às ações do governo sobre o território. O SFB também coordena o Cadastro Ambiental Rural (CAR), que é um registro público eletrônico de âmbito nacional, obrigatório para todos os imóveis rurais, com a finalidade de integrar as informações ambientais das propriedades e posses rurais referentes à situação das Áreas de Preservação Permanente - APP, das áreas de Reserva Legal, das florestas e dos remanescentes de vegetação nativa, das Áreas de Uso Restrito e das áreas consolidadas. Atualmente, são 6,4 milhões de imóveis declarados, perfazendo 543 milhões de hectares, sendo 205 milhões de hectares de remanescentes de vegetação nativa, sendo 21 milhões de APPs. O CAR é importante para o setor florestal não apenas no sentido de garantir a regularidade ambiental das propriedades rurais, mas também por gerar informações preciosas para a formulação de políticas públicas de planejamento e desenvolvimento florestal. Uma vez verificados passivos ambientais em propriedades e posses rurais, principalmente em área de Reserva Legal, conforme declarados pelos proprietários rurais, os programas de recuperação, para os próximos 20 anos, aproveitarão esse grande potencial para uso florestal, tendo em vista que são áreas passíveis de manejo florestal. Em casos especiais da agricultura familiar, o incremento das áreas de proteção permanente também poderão gerar renda por meio de produtos não madeireiros da agroflorestal. A estruturação de políticas públicas requer informações cada vez mais qualificadas. Nesse sentido, o SFB vem trabalhando para padronizar, adequar e ampliar a geração e o acesso às informações sobre o setor florestal, principalmente via Sistema Nacional de Informações Florestais (SNIF). Ainda na temática da informação para gestão, o SFB coordena o Inventário Florestal Nacional (IFN), que, além de disponibilizar para toda a sociedade dados sobre a situação das florestas brasileiras,

fornece informações que servem principalmente para apoiar a formulação de políticas públicas e ajudar a identificar estratégias e oportunidades para o uso sustentável, a recuperação e a conservação dos recursos florestais. Com a incorporação institucional do Serviço Florestal Brasileiro no âmbito do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), um novo arranjo para a gestão florestal brasileira é dado. A política agrícola possui um conjunto robusto de instrumentos que podem e devem ser melhor apropriados pelo setor florestal, como planejamento florestal, pesquisa, assistência técnica e extensão rural, defesa agroflorestal, informação, armazenagem, associativismo e cooperativismo, crédito rural e fundiário, seguro, tributação, incentivos fiscais e um laboratório voltado às pesquisas florestais que irá atender às demandas do setor. O MAPA já havia incorporado a política agrícola para florestas plantadas desde o final de 2014 e lançou o Plano Nacional de Desenvolvimento de Florestas Plantadas, que contém um conjunto de ações indicativas voltadas à promoção da competitividade do segmento de florestas plantadas no País. O SFB integra a Câmara Setorial de Florestas Plantadas do MAPA como forma de ampliar a sinergia entre as agendas do setor, dentro do próprio Ministério, em conjunto com as demandas advindas do próprio setor. Uma grande contribuição com a incorporação do SFB à estrutura do MAPA é que será possível incrementar uma agenda de desenvolvimento florestal mais integrada, incorporando ações que promovam o uso dos recursos florestais na dimensão e potencial do País. Temos claramente vantagens comparativas e competitivas quanto à disponibilidade de recursos florestais, um amplo mercado interno consumidor, boa penetração em mercados internacionais, além de conhecimento e tecnologias disponíveis que abrem possibilidades para a ampliação da participação do setor florestal na economia nacional. A promoção da diversificação do uso dos produtos e dos serviços prestados pelas florestas está entre as prioridades das ações do SFB. O Brasil e o mundo precisam de um setor florestal mais diverso e dinâmico, e o SFB tem uma missão de contribuir para a geração de um ambiente de negócios mais adequado e seguro ao desenvolvimento do setor, viabilizando a conservação das florestas brasileiras, nativas e plantadas, pelo seu uso sustentável. O Brasil e o mundo precisam que essa agenda seja definitivamente incorporada à estratégia de desenvolvimento nacional. n

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macrovisão estratégica

Opiniões

monoculturas, diversificação e a ocupação do espaço pela plantação florestal De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as plantações florestais comerciais ocupam uma área de 10 milhões de hectares, e, segundo o Ibá – Industria Brasileira de Árvores, o Brasil lidera a produtividade florestal, com uma média de 35,7 m³/ha/ano para os plantios de eucalipto e 30,5 m³/ha/ano para os plantios de pínus. O Setor de Plantações Florestais Comerciais (SPFC), apesar de ocupar cerca de 1% da área do País, responde por 91% de toda a madeira produzida para fins industriais. Considerando pisos e painéis de madeira, papel, celulose, madeira serrada e carvão vegetal, cresceu, em 2018, 13,1% em relação a 2017, gerando uma receita de R$ 86,6 bilhões. Esse crescimento superou o da indústria e o da agropecuária. A cada ano, aumenta sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) e, em especial, no PIB industrial. O plantio de árvores com objetivo comercial iniciou seu crescimento no final da década de 1960, com os incentivos fiscais governamentais do Instituto Brasileiro de

Desenvolvimento Florestal – IBDF. A partir daí, com o reforço de algumas políticas governamentais e capital próprio, as empresas florestais foram adquirindo grandes áreas em diferentes biomas, com maior expressividade na mata atlântica, no cerrado e no pampa. O SPFC destina cerca de 6 milhões de hectares para a conservação, somando-se às áreas de restauração, Área de Preservação Permanente (APP), Reserva Legal (RL) e Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Da área plantada, cerca de 5,8 milhões de hectares são certificados. Apesar disso, persiste, entre os cidadãos, um conflito equivocado de interesses entre produção e conservação que tem levado, muitas vezes, a uma percepção negativa do setor, mesmo em comparação com setores verdadeiramente insustentáveis. Presume-se que isso seja devido a ele ter, como principal base, espécies introduzidas de outros países, em especial, as dos gêneros Pinus e Eucalyptus; além disso, por se utilizar de plantios predominantemente monoculturais.

Espera-se que, futuramente, as plantações florestais sejam gerenciadas dentro de princípios que propiciem benefícios econômicos, sociais, ambientais e culturais para as gerações presentes e futuras "

Moacir José Sales Medrado

Pesquisador Aposentado da Embrapa Floresta e Diretor da Medrado e Consultores Agroflorestais Associados

Não sendo a certificação, por si só, capaz de superar tais pressões ambientalistas, tem-se experimentado, com êxito, a integração dos sistemas monoculturas com áreas de florestas nativas, em um modelo denominado mosaico florestal e, também, em pequenas e médias propriedades, o uso de sistemas agroflorestais, sendo os mais importantes aqueles que


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macrovisão estratégica fazem parte da Estratégia de Integração Lavoura, Pecuária e Floresta (e-iLPF) e até mesmo sistemas agroflorestais sucessionais. Os sistemas agroflorestais sucessionais caracterizam-se pelo fato de produzir matérias-primas a partir de um tipo de manejo que os deixa, de certa forma, semelhantes a uma floresta natural em estrutura e função. Esses sistemas, também, por utilizarem os recursos locais, trazem autonomia aos agricultores, reconhecem o saber local, apresentam custo reduzido e aliam a produção à conservação dos recursos naturais. Como diz Ernest Gotsch, seu criador aqui no Brasil, o fator crítico de bom resultado de tal tipo de sistema não é a qualidade inicial do solo, mas sim a composição e a densidade das espécies. Nesse tipo de sistema, não existem regras fixas e sim princípios, sendo imprescindíveis para sua implantação e manejo a experiência, o conhecimento e a criatividade de técnicos e produtores. Apesar de os sistemas agroflorestais serem muito antigos, no Brasil, produziu-se um avanço com a idealização da estratégia de integração lavoura-pecuária-floresta (e-iLPF), no final da década de 2000, quando pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, e de várias outras instituições se reuniram para propor a elaboração do seu marco referencial, de cujo grupo responsável pela base conceitual, pelos sistemas e benefícios fiz parte. Nas últimas décadas, a e-iLPF tem se mostrado a principal ferramenta para a introdução do componente florestal nas pequenas e médias propriedades rurais agrícolas e até em grandes propriedades pecuárias. Na década de 2005/2015, a área ocupada com sistemas da e-iLPF cresceu de 1,87 milhão de hectares para 11,47 milhões, superando não em quantidade de árvores, mas em área de abrangência, as plantações florestais comerciais. Para agricultores, pecuaristas e silvicultores pequenos e médios, as principais razões para o grande crescimento da e-iLPF têm sido a rentabilidade por hectare, a diminuição do risco financeiro, a rotação de culturas por necessidade técnica, a recuperação de pastagens, a redução do impacto ambiental e o apoio técnico de instituições de pesquisa e de assistência técnica públicas e privadas. A Rede da e-iLPF, que é cofinanciada pelas empresas privadas e pela Embrapa, apoia 97 Unidades de Referência Tecnológica (URTs), distribuídas em todos os biomas brasileiros, com participação de 19 Centros de Pesquisa da Embrapa. Hoje, a e-iLPF está presente em todos os biomas, e, embora a espécie florestal mais utilizada seja, ainda, o eucalipto, tem sido um espaço importantíssimo para a disseminação de outras espécies florestais para diferentes usos, como

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Opiniões mogno‑africano (Khaya ivorensis), cedro-australiano (Toona ciliata), teca (Tectona grandis L.), grevílea (Grevillea robusta), pínus (Pinus spp.), acácia mangium (Acacia mangium); acácia-negra (Acacia mearnsii), gliricídia (Gliricidia sepium), paricá (Schizolobium amazonicum), jequitibá-rosa (Cariniana legalis), canafístula (Pelthophorum dubium), vinhático (Plathymenia foliosa), angico-vermelho (Anadenanthera peregrina), aroeira (Myracrodruon urundeuva), cumbaru (Dipteryx alata), bracatinga (Mimosa scabrella), dentre outras. Certamente, será através da e-iLPF que será ampliado o uso de espécies para produção de madeira nobre plantada em espaçamentos amplos. O crescimento da área plantada com espécies florestais no País é uma das principais ferramentas que o Brasil poderá usar para a redução de suas emissões dos gases de efeito estufa em relação a 2005. Para tal, além do compromisso em zerar o desmatamento ilegal e atingir 45% de energias renováveis, sendo 18% de bioenergia, há uma previsão de adição de 12 milhões de hectares, entre atividades de restauração e reflorestamento comercial, e de 5 milhões de hectares a serem implantados com sistemas componentes da e-iLPF. Dentro desse projeto, até 2030, de acordo com o Plano Nacional de Desenvolvimento de Florestas Plantadas (Plantar Florestas), deverá ser incentivado o plantio de 2 milhões de hectares, especificamente, de plantações florestais comerciais. É importante ressaltar, também, que o futuro da plantação florestal comercial deverá estar baseado na ocupação de espaço na bioeconomia, que, através da intensificação, busca diminuir a tensão entre conservação e produção, no ecossistema, com a prevalência da competitividade, da eficiência e da produção de produtos com maior valor adicionado. Um modelo em que as empresas, além do lucro, pensarão em otimizar seus processos por meio da sustentabilidade empresarial. Assim sendo, o setor de plantação florestal comercial deverá ser um dos maiores contribuintes para a mitigação das mudanças climáticas e basear seu desenvolvimento tecnológico com o olhar nas possibilidades de desenvolvimento em conjunto com outros setores, como a construção civil, a indústria química, de têxteis e de energia, dentre outros. Espera-se, por fim, que, futuramente, as plantações florestais sejam gerenciadas dentro de princípios que propiciem benefícios econômicos, sociais, ambientais e culturais para as gerações presentes e futuras, e que, por consequência, o País as integre em seu Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável e não as trate apenas como um simples contribuinte para o Produto Interno Bruto. n


o mercado de florestas plantadas

Opiniões

como países concorrentes podem impactar

negativamente nosso crescimento

O Brasil detém cerca de 8 milhões de hectares com florestas plantadas, que perfaz 1,6% do total de florestas do País (494 milhões de hectares com florestas nativas e plantadas) e menos de 1% do território nacional. Apesar do baixo percentual de participação das florestas plantadas no total do recurso florestal, o Brasil é um dos principais players globais no setor de florestal. No que se refere ao restante da área florestal existente (98,4%), ela não tem sido utilizada de maneira a proporcionar respostas econômicas e sociais suficientes à melhoria da sociedade brasileira; ao contrário, é motivo de conflitos, que têm causado sérios prejuízos ao desenvolvimento do Brasil.

torna-se fundamental que as instituições públicas e privadas articulem e implementem uma política favorável ao desenvolvimento e à competitividade do setor florestal, bem como a indústria de base prossiga com os investimentos. "

Joésio Pierin Siqueira

Vice-Presidente da STCP - Engenharia de Projetos

Pelo lado da produção florestal, o desenvolvimento de tecnologias aplicadas às florestas plantadas (silvicultura de precisão, material genético, mecanização, etc.) nas últimas décadas, somadas às condições naturais favoráveis aos plantios florestais em diferentes regiões do país, tem permitido atingir ganhos expressivos em produtividade, redução na rotação e qualidade da madeira aos processos industrias. Essas são algumas das principais vantagens competitivas e comparativas que o Brasil possui, o que coloca o setor à frente ou em alto grau de competitividade em comparação a outros

países com tradição florestal, a exemplo do Chile, Uruguai, Nova Zelândia, EUA, Canadá, Rússia e países do Leste Europeu, importantes players produtores de madeira no cenário internacional. No entanto, na contramão das vantagens existentes que favorecem o crescimento e a competitividade do setor florestal, há uma carência de política nacional adequada e orientada às florestas nativas e plantadas. A silvicultura intensiva teve início na década de 1960, a partir de incentivos fiscais, criação de órgão responsável (IBDF), e pela excelência de marco um regulatório (Código Florestal - Lei Federal 4.771/65). No entanto, atualmente, não se evidencia a existência de uma política voltada ao incentivo da atividade florestal; ao contrário, as ações têm sido de fortalecer a minimização do setor florestal brasileiro.


o mercado de florestas plantadas O clima de negócios para investimentos é altamente dependente de políticas públicas, e as atuais não favorecem a atração de capital ao setor florestal no País. Como exemplo, cita-se o insano debate sobre a compra de terras brasileiras por estrangeiros. A indefinição administrativa vigente (parecer da Advocacia Geral da União – AGU) afeta diretamente os investimentos no setor. Investidores estrangeiros, com acesso limitado à propriedade de terras, direcionam seus investimentos para países concorrentes que estimulam a implantação de seus projetos. A ausência de tais regras no Brasil prejudica a atração de investimento, impactando negativamente o crescimento do setor de base plantada. Por sua vez, barreiras tarifárias também impactam negativamente a atividade econômica nos países. Como exemplo, os EUA seguem política interna de comércio, podendo impor tarifas sobre a importação de produtos madeireiros de coníferas, os quais ofereçam subsídios nos seus produtos. Outros países, a exemplo da Comunidade Europeia, apresentam quota anual de importação sobre produtos madeireiros (ex., compensado), cujo volume importado acima da quota será tarifado. O Brasil, um dos principais exportadores de compensado de pínus aos países europeus, tem sido afetado por essa política comercial. Alguns países com tradição florestal têm vivenciado problemas fitossanitários que afetam a dinâmica e a competitividade de seus mercados. Nos últimos anos, principalmente em 2018-2019, as florestas nativas de países do Centro-Leste Europeu têm sido impactadas por estiagem prolongada e consequente infestação do “besouro da casca” (bark beatle). Extensas áreas com árvores danificadas vêm sendo cortadas (por exigência governamental), aumentando significativamente a oferta de madeira no mercado, a preços baixos e acima da capacidade de processamento pela indústria florestal-madeireira. Isso tem afetado a dinâmica de mercado doméstico e internacional. O impacto negativo sobre países como o Brasil é indireto, embora com potencial expressivo, já que reduz a competitividade de exportação do produto nacional ao mercado europeu. Por outro lado, o crescimento do setor de florestas plantadas no Brasil também pode ser impactado positiva ou negativamente a partir do desempenho de mercados consumidores.

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Opiniões

Entre os principais importadores de produtos florestais brasileiros, nos últimos anos, destacam-se os EUA, a China, países europeus (Alemanha, Reino Unido e Itália) e da América Latina (Argentina e México). Positivamente, a China tem importado principalmente celulose de fibra curta de eucalipto, enquanto os EUA, além da celulose, são consumidores de serrado e compensado de pínus. A expansão do crescimento chinês nos últimos anos, a partir do aumento da renda e consumo interno, além da intensificação das exportações de produtos manufaturados, tem estimulado maior importação de matéria-prima, incluindo produtos de base florestal do Brasil. De forma negativa, crises econômicas e mudanças no panorama global de consumo afetam o comércio internacional. Nos últimos anos, destacam-se a crise internacional de 2008-2009 (subprime, bolha americana) seguida pela crise de 2010-2011 (dívida europeia), que reduziram drasticamente o consumo de produtos madeireiros (serrado e compensado) nos mercados em questão. Países com alta dependência comercial de mercados pouco diversificados sofrem consideravelmente em situações de crises globais. No atual momento, o surto epidêmico com epicentro na China, em evolução desde o final de 2019, tem potencial de acarretar nova crise econômica persistente, de âmbito global. Assim, é fundamental estimar o impacto que poderá trazer para os diferentes segmentos econômicos e países, entre eles o setor florestal no Brasil. Como consequência, a China, um dos principais players no comércio internacional de produtos florestais, já tem apresentado desaquecimento em sua demanda global por produtos (redução de movimentação portuária nas importações e fechamento temporário de indústrias). Em síntese, para que o Brasil minimize os impactos de países concorrentes (produtores e consumidores de produtos florestais) e possa desenvolver ainda mais o setor de florestas plantadas, precisa direcionar esforços na solução de gargalos, a exemplo da necessidade de estabelecer uma política voltada ao setor; resolver questões de insegurança jurídica, de carga tributária, de burocracia do licenciamento ambiental, de alto custo de financiamento, de infraestrutura logística deficitária, além da legislação onerosa (encargos sociais). No âmbito do comércio internacional, para mitigar impactos negativos derivados de grandes flutuações no consumo e nas importações, o setor florestal nacional deve buscar uma maior diversificação de mercados. Para tanto, torna-se fundamental que as instituições públicas e privadas articulem e implementem uma política favorável ao desenvolvimento e à competitividade do setor florestal, bem como a indústria de base prossiga com os investimentos. Como resultado, o País terá um setor florestal pujante, fortalecido e menos suscetível às oscilações de países concorrentes, proporcionando as melhores respostas sociais, econômicas e ambientais à sociedade brasileira. n



integração lavoura-pecuária-floresta

a importância da estratégia "A iLPF utiliza muitos dos atributos de uma floresta, cria diversidade em seu ambiente, produz serviços ambientais e agrega valor aos produtos, protegendo o negócio, inclusive, de possíveis adversidades do mercado. Ao produzir multiprodutos florestais, a iLPF pode atrair outros segmentos da cadeia produtiva, oportunizando mais valor à madeira. E, talvez, aí esteja a importância da estratégia de integração lavoura-pecuáriafloresta para o setor florestal." A importância estratégica da iLPF está, a cada ano, mais evidente. Em 2006, a Revista Opiniões (Jun-Ago-2006) publicou a opinião de que os setores pecuário e florestal deveriam se associar para garantir a competitividade do agronegócio brasileiro, artigo no qual discutia potenciais vantagens e gargalos existentes. Naquela oportunidade, a pecuária nacional já havia se tornado a responsável pela maior fatia do mercado mundial de

carnes e encontrava-se "em xeque", especialmente pelo potencial de emissão de gases de efeito estufa (GEEs). No entanto já se vislumbrava a importância da integração de árvores e pastagens numa estratégia para a mitigação da emissão de GEEs na bovinocultura, que utiliza considerável área no território nacional e que estabeleceria um novo paradigma para a agregação de renda e qualidade aos pecuaristas. Em 2010, surge o Plano ABC, que tem na iLPF uma das estratégias para a economia de baixa emissão de carbono na agricultura; em 2103, é instituída a Política Nacional de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (Lei nº 12.805, de 29/04/2013), reforçando ainda mais a importância estratégica da iLPF. Novamente, a Revista Opiniões publica, na edição número 35 (Mar-Maio 2014), a opinião que traz uma perspectiva da iLPF na cadeia produtiva da madeira, bem como chamava a atenção para a im-

Essa interseção dos setores agropecuário e florestal, representada pela iLPF, permite que conceitos estabelecidos se combinem, produzam sinergia e promovam a emergência de um novo paradigma para a produção sustentável. "

Vanderley Porfírio-da-Silva

Chefe Adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Florestas

portância do estabelecimento de estratégia nacional para o desenvolvimento sustentável do agronegócio no século XXI, oferecendo a iLPF como alternativa importante e que requereria inovação na gestão do espaço rural, pois introduz um novo paradigma ao modelo de negócio vigente nos setores agropecuário e florestal. No ano seguinte, a edição 40 da Revista Opiniões (Jun-Ago 2015) é dedicada integralmente à estratégia iLPF, trazendo ampliado o conceito da iLPF em distintos cenários do território brasileiro.


Opiniões Obviamente que tais artigos expressavam uma realidade latente nos meios científico e tecnológico, que foram alavancados com planos setoriais e políticas públicas que propiciaram a difusão dos conceitos inerentes à iLPF; além, é claro da capacidade inovadora do agro brasileiro, ao ponto de empresas de insumos, máquinas e implementos, pesquisa agropecuária, cooperativa de produtores, agente financeiro e de certificação se associarem, criando a Associação Rede iLPF, que busca acelerar a adoção das tecnologias de iLPF. Tal difusão facilitou, por exemplo, para que a pecuária brasileira inovasse. A pecuária nacional mudou de status: de potencial poluidora para potencial mitigadora dos gases de efeito estufa (GEEs). E, entre as tecnologias inovadoras que a pecuária adota, está a iLPF, com a presença de árvores, sem as quais o protocolo "Carne Carbono Neutro", estabelecido pela Embrapa em 2015, e a consequente criação da Associação Brasileira de Produtores de Carne Carbono Neutro (ABCCN), em 2019, não seriam possíveis. Essa inovação é decorrente da presença da árvore fora da floresta, ou seja, na pastagem. Se considerarmos que o setor florestal vai além da produção de celulose e da madeira processada, da floresta de regime único, de empresas cuja "análise de seu negócio é na ponta da indústria", teremos diversas oportunidades para as florestas multiprodutos, para as árvores nas pastagens, e, portanto, para a iLPF. E, talvez, aí esteja a importância da estratégia de integração lavoura-pecuária-floresta para o setor florestal. Por utilizar muitos dos atributos de uma floresta, a iLPF cria diversidade em seu ambiente, produz serviços ambientais e agrega valor aos seus produtos, protegendo o negócio, inclusive, de possíveis adversidades do mercado. Caso o mercado não esteja bom e/ou o recurso não seja necessário de imediato, as árvores na iLPF, quando

adequadamente manejadas, podem continuar crescendo, produzindo serviços ambientais e agregando valor ao produto. Será importante para produzir madeiras que possam substituir as madeiras extraídas de florestas naturais, que se tornarão cada vez mais escassas e de acesso limitado. Outra importância da iLPF para o negócio florestal é que, ao produzir multiprodutos florestais, pode atrair outros segmentos da cadeia produtiva, oportunizando mais valor à madeira. Mesmo quando a iLPF é orientada para a produção de biomassa, as faixas plantadas com árvores são relativamente estreitas, e a incidência de radiação solar é mais equitativa para os indivíduos que, praticamente, se comportam como árvores de bordadura com efeito sobre a volumetria total, em especial na primeira tora de cada árvore. As áreas dedicadas às lavouras e pastagens no País são vastas (mais de 95% da área destinada para uso agropecuário) e possuem potencial para incrementar a oferta de madeira, especialmente pela inclusão de espécies madeireiras que são pouco utilizadas nos plantios comerciais tradicionais, mas possuem elevado valor. A produção da matéria-prima florestal, por si mesma, pode se tornar um fim econômico para quem faz a gestão de sistemas de iLPF, portanto é possível que surjam formas mais competitivas de produzir madeira plantada. A iLPF poderá cooperar para uma gradual transição para o modelo em que áreas produtoras de matéria-prima florestal se profissionalizem como negócios independentes. Essa interseção dos setores agropecuário e florestal, representada pela iLPF, permite que conceitos estabelecidos se combinem, produzam sinergia e promovam a emergência de um novo paradigma para a produção sustentável. Particularmente ao setor florestal, todos os seus produtos poderão se apropriar da perspectiva de serem originados em sistemas de produção onde a conformidade e a compliance, inclusive com outras cadeias produtivas, estarão intrínsecas na forma de produzir a matéria-prima. O exemplo atual, mais emblemático, dessa interseção, parece dissonante, mas é real, é o do marca-conceito "Carne Carbono Neutro", improvável sem o componente florestal nas pastagens brasileiras. Para finalizar esta opinião, é necessário dizer: é recíproca a importância do setor florestal para com a estratégia de integração lavoura-pecuária-floresta (iLPF). n

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inovações

inovações geotecnológicas na era do manejo florestal de precisão O manejo florestal de precisão requer informações precisas sobre os ambientes de intervenção, tanto para florestas nativas quanto para plantios florestais. O diagnóstico é fase crucial nas operações florestais precisas. Há décadas, as ferramentas geotecnológicas vêm sendo aplicadas na caracterização dos ambientes florestais por unidade de área, no entanto a última década demonstrou grande avanço nessa temática com o desenvolvimento e o aprimoramento de formas de aquisição de dados (plataformas e sensores), aprimoramento de processamento (algoritmos e software) e formas de disponibilização de informações produzidas aos usuários finais.

Esses avanços têm proporcionado novas aplicações, não só por unidade de área mas também por observações e caracterizações individuais das árvores. Para aquisição de dados, são várias as plataformas possíveis de aplicação: orbitais (satélites), aéreas (aviões e veículos aéreos não tripulados VANTs) e terrestres. Embarcadas nelas, tem-se os sensores que captam respostas dos alvos de interesse. São dois principais grupos de sensores, os ativos e os passivos. Os sensores ativos mais comuns em ambientes florestais são: LiDAR (Light Detection and Ranging) e Radar. Os passivos englobam sensores na faixa do visível (RGB), multiespectrais e hiperespectrais.

A velocidade de surgimento de novas abordagens tecnológicas é incrível. É possível prever o que surgirá tecnologicamente em 5-10 anos? "

Ana Paula Dalla Corte Professora de Geoestatística da UF-PR

A redução no tamanho e no peso dos sensores bem como sua capacidade de coleta de informações proporcionaram que sensores de alta precisão fossem agora embarcados em pequenas plataformas, como é o caso dos VANTs. Desenvolvimento de constelações de satélites que possibilitam informações praticamente diárias das áreas florestais também são um marco na tomada de decisão (a exemplo do sistema Planet). Adicionalmente, o processamento dos dados coletados é essencial para a confiabilidade da informação produzida e garantia de informação na velocidade e na escala pretendida. É mister destacar a plataforma em nuvem Google Earth Engine (GEE), que tem se consolidado como importante


Opiniões ferramenta para análises geoespaciais, utilizando a infraestrutura do Google. De forma complementar, em software open source, como o R, foram sendo desenvolvidos vários pacotes direcionados a esse tipo de dado (rLiDAR, LidR, geoR, raster, sf, rgeos, rgdal, MASS, TreeLS, RCSF, waveformlidar, xROI, PDM, satellite, fieldRS, entre outros). Destaca-se, adicionalmente, o avanço das aplicações dos algoritmos de Machine Learning e Deep Learning (Random Forest, Neural Network, Support Vector Machine, Recurrent Neural Network e Deep Belief Network) que apresentaram contribuições para a manipulação e a compreensão de grandes bases de dados, subsidiando o desenvolvimento de novas abordagens para o manejo florestal. Para que as inovações surtam efeito, é preciso que sejam disseminadas e acessíveis aos colaboradores do processo. O desenvolvimento de Dashboard integrados aos sistemas de informações geográficas (SIG) tem possibilitado a disponibilização e a análise operacional, praticamente em tempo real, para todos os colaboradores através de aplicativos mobile. Eles permitem a realização de apontamentos em campo, diminuindo drasticamente o tempo de chegada de informações entre escritório e campo. Ademais, proporcionam mecanismos de observar status e desempenho de colaboradores, máquinas, prestadores de serviços e eventos, em tempo real, através de gráficos e mapas, por exemplo. Atrelado ao acesso de informações em tempo real, é importante ressaltar a acessibilidade que a internet das coisas (IoT) proporciona e proporcionará ao setor. Desde informações sobre o crescimento das árvores até a possibilidade de operações serem planejadas e executadas de forma semiautônomas ou autônomas. Podem-se citar algumas potencialidades de aplicação das geotecnologias para o manejo de plantios florestais. Do planejamento silvicultural até a colheita e transporte, as informações geotecnológicas são imprescindíveis. Modelos Digitais do Terreno (MDT) cada vez mais precisos têm permitido melhorias na execução das atividades. A avaliação de diversos layers sobrepostos, e muitas vezes expressos por geoestatística, proporcionam cada vez mais ações precisas nas áreas florestais. Monitoramentos de matocompetição têm sido suportados pela maior frequência de imagens de satélites disponíveis para as áreas. O inventário de sobrevivência (IS) pode ser desenvolvido com a contagem de indivíduos através das imagens coletadas com VANT. Nos inventários de qualidade (IQ), há possibilidade de redução de esforço amostral em campo. Os inventários florestais contínuos (IFC) e de pré-corte (IPC) podem se valer de métricas extraídas de nuvens de pontos (LiDAR) para correlacionar com informações de campo e, assim, proporcionar estimativas volumétricas.

Pode-se realizar censo florestal para a variável número de árvores (seja em ortofotos ou LiDAR) e, com a unidade amostral árvore, realizar estimativas volumétricas. Estudo recente comprovou a viabilidade da medição do diâmetro de árvores individuais, a partir de nuvens de pontos UAV-LiDAR de alta densidade em plantio em integração lavoura-pecuária-floresta (iLPF). É possível que, em alguns poucos anos, existam avanços nessa direção para os modelos tradicionais de plantios florestais do Brasil. Índices de uniformidade, volumetrias de pilhas, inventário de resíduos e danos, subsídios para precisão de intervenções silviculturas (como iscas formicidas, herbicidas e adubação) também são exemplos de aplicações possíveis. As aplicações para as florestas nativas são vastas, mas, em função de diversos fatores, precisam de muito avanço e desenvolvimento tecnológico. A complexidade desses ambientes e a diversidade entre os biomas brasileiros são fatores que pesam nessa equação. O planejamento das atividades de operações, desenvolvido em plataforma SIG com integração de diversos layers, incluindo a posição das árvores do inventário censitário pré-exploração, tem proporcionado redução de impactos sobre as florestas quando comparado às técnicas tradicionais de exploração. Destaca-se ainda a iniciativa de dois projetos brasileiros para a difusão de aplicações de LiDAR: o projeto Paisagens Sustentáveis Brasil (coordenação Embrapa) e o projeto Monitoramento Ambiental por Satélite no Bioma Amazônia (MSA), Subprojeto 7 (coordenação INPE). Eles têm potencializado estudos com LiDAR em florestas nativas, a exemplo: quantificação de estoques de biomassa e carbono, avaliação de impactos e monitoramento dos planos de manejo florestal, entre outros. Sensores hiperespectrais também têm demostrado factibilidade na identificação de espécies florestais pela sua assinatura digital. Estudos fenológicos da vegetação, desenvolvidos com imagens sazonais coletadas com VANT, também estão sendo potencializados. É fato que os avanços geotecnológicos estão potencializando transformação no manejo florestal, realmente se aproximando da precisão ao nível de árvore. A velocidade de surgimento de novas abordagens tecnológicas é incrível. É possível prever o que surgirá tecnologicamente em 5-10 anos? Será preciso cada vez mais um engajamento setorial entre a comunidade científica e técnica para que, em sintonia com as novas demandas, exista também perfil de formação profissional adequado a essas necessidades. Sem dúvida, é um futuro desafiador, mas fascinante. n

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inovações

Opiniões

contribuição da inovação para o crescimento das florestas plantadas Gosto de pensar na inovação como a transformação de uma ideia em algo rentável. Colocando dessa forma, podemos mais facilmente trabalhar a inovação em setores tradicionais, deixando por terra a ideia de que somente algo novo, tecnológico e extraordinário é uma inovação. Dessa feita, fica evidente que a inovação está no DNA das empresas de base florestal, desde a nítida evolução dos processos industriais, com ganhos de eficiência, qualidade de produto e a redução importante de impactos ambientais e sociais, até a base florestal, onde a inovação excede processos, ao tratarmos da biologia dos indivíduos. Por meio da inovação, temos conseguido manter a competitividade do setor frente à imensa pressão inflacionária da última década no Brasil. Em verdade, os insumos florestais tiveram um incremento de preço acima da inflação. Mesmo com o aumento expressivo do custo de fertilizantes e defensivos químicos, conseguimos frear o crescimento do custo do hectare plantado. Colhemos praticamente com o mesmo custo por metro cúbico há 10 anos, mesmo com o aumento do custo de materiais e serviços.

E, apesar do aumento de 85,24% do preço médio do óleo diesel de janeiro de 2010 a fevereiro de 2020, não refletimos 50% desse aumento no custo R$/m³/km de transporte da madeira. Sem falar do desafio de ganhar, ou até mesmo manter, a produtividade das florestas plantadas, superando as adversidades das mudanças climáticas e a expansão em novas fronteiras. Nas operações, houve resultado de ganhos de produtividade decorrentes de ações nas áreas105,5 de mm desenvolvimento operacional, engenharia de manutenção e processos, refletidas no aumento dos índices de mecanização, na redução do consumo de combustíveis, no aumento da disponibilidade mecânica e na eficiência operacional. Com a intensificação do uso de máquinas, passa a ser essencial a maximização do uso desses ativos, atrelada à confiabilidade mecânica, com custo competitivo. Encontrar e atuar na zona ideal de custo de manutenção versus disponibilidade e ações preditivas versus corretivas tem sido a agenda dos gestores operacionais. ERPs específicos foram adotados para suportar essas decisões e monitorar as atividades.

Precisamos dar propósito às pessoas. Elas precisam sentir-se parte integrante e essencial do negócio, ter orgulho do que fazem e de onde estão, em um espaço diverso e de reconhecimento, para que, então, estejam engajadas com o sucesso coletivo. "

Carlos Alberto Justo da Silva Jr. Gerente-geral de Planejamento e Competitividade da Eldorado

A pauta de inovação nesse âmbito está na telemetria dos equipamentos, que objetiva coletar dados sobre o desempenho mecânico vis-à-vis ao uso da máquina. Em sequência, reportar primeiramente ao operador, quando do uso fora dos parâmetros preestabelecidos, e, em caso de não adequação, a liderança imediata, escalando, caso entenda-se necessário.



inovações O próximo passo será a manutenção preditiva (estimar quando o componente mecânico irá falhar, dadas as condições de operação), com o uso da grande massa de dados coletados dos equipamentos e operações. Não tomamos mais decisões com base empírica. Temos, cada vez mais, ampliado o monitoramento das atividades e dos recursos da cadeia produtiva florestal. Perguntas foram feitas, dados coletados, processados e organizados e, por fim, análises têm nos permitido ser muito assertivos nas decisões operacionais. Agora, buscamos desenvolver modelos e algoritmos para encontrar padrões que fogem à percepção humana. Buscamos especialistas em data science (cientistas de dados), e não mais analistas, para encontrar oportunidades de ganhos de produtividade. Não obstante, tenho certeza de que o sucesso dessa etapa se dará ao encontrarmos ferramentas amigáveis aos usuários para a análise de dados complexos. Somente com a democratização desse conhecimento, nos níveis operacionais, iremos ter ganhos mais expressivos. Damos passos largos para viabilizar a conectividade em campo, permitindo instalar sensores diversos nas máquinas, no ambiente operacional e até mesmo nas árvores, permitindo ampliar o acompanhamento das atividades e o comportamento da floresta em tempo real e avaliar como ganhar ainda mais eficiência. Os ganhos auferidos nas provas de conceito são surpreendentes, indicando que ainda temos muito espaço com tempos ociosos e vazamentos de produção. Na área de melhoramento genético, temos nos debruçado em entender a interação genótipo-ambiente quando adentramos novas fronteiras. O melhor clone de eucalipto de uma região pode ser o pior de outra, em decorrência da mudança do ambiente em que ele está inserido. Ao mesmo tempo, buscamos, com dificuldade, materiais (clones) plásticos, tolerantes às variações climáticas, cada vez mais pronunciadas, e, ao mesmo tempo, resistentes à crescente de pragas e doenças. Com tantos fatores bióticos e abióticos ameaçando a produtividade florestal, garantir os níveis produtivos já alcançados já é um desafio. Seguimos na busca por materiais genéticos adaptados às realidades locais, é assim que alcançaremos incrementos produtivos. No processo de melhoramento genético tradicional, o ciclo é longo. Desde a hibridação, teste de progênie, produção de mudas e testes clonais, são aproximadamente 12 anos para a seleção de um clone de eucalipto. Objetivando reduzir esse tempo de resposta, estão sendo realizados experimentos de seleção genômica ampla (SGA), buscando desenvolver um modelo de predição com base em

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Opiniões marcadores genômicos para seleção, em menor tempo, de indivíduos superiores, com a otimização de testes de progênies e aceleração na seleção de testes clonais. Com a biotecnologia, também temos uma boa promessa de resultados, além dos GMOs: experimentos de poliploidia, na expectativa de que, aumentando a quantidade de genomas no núcleo, consigamos efeitos de incremento vegetativo (gigantismo) ou alteração de propriedades específicas, como de qualidade da madeira. Na área da metagenômica, buscamos prospectar microrganismos associados à cultura do eucalipto (biodiversidade microbiana) e propor formulações de comunidades sintéticas, visando ao incremento de produtividade e tolerância ao estresse hídrico. Em uma linguagem mais simples, desenvolver “probióticos” florestais. A inovação também está presente no manejo integrado e sustentável das florestas. Condição sine qua non para atingirmos os níveis esperados de produtividade e competitividade, desde a recomendação técnica de fertilizantes e defensivos e seu correto emprego ao controle de pragas e doenças, preconizando o uso racional dos recursos, de forma minimamente invasiva, a custos competitivos. Nesse front, em face das adversidades climáticas, projetos de ecofisiologia (estudo da diversidade fisiológica em relação ao ambiente e seu impacto nos organismos) para entender o estresse hídrico e térmico das plantas estão em curso. Na ação contra as pragas e doenças florestais, biofábricas estão sendo construídas para reproduzir inimigos naturais das pragas de maior relevância, reduzindo o uso de químicos e garantindo maior estabilidade das populações. Mas, por fim, por trás de todos esses processos de inovação, estão as pessoas. Nada disso será possível se não as engajarmos nesse propósito. Se inovação é a transformação de uma ideia, para que ideias surjam, é necessário que criemos um ambiente propício. Se o indivíduo está em um lugar em que ele não gostaria de estar, mas o faz estritamente por questões financeiras, de subsistência, o único pensamento que o vai cercar é de que o tempo passe rápido para que aquele período de “sacrifício” encerre. Não podemos crer que alguma ideia criativa será expressa nesse contexto. Não basta mais motivarmos com recompensas financeiras em troca de cobranças rígidas de resultado. Precisamos dar propósito às pessoas. Elas precisam sentir-se parte integrante e essencial do negócio, ter orgulho do que fazem e de onde estão, em um espaço diverso e de reconhecimento, para que, então, estejam engajadas com o sucesso coletivo. Certamente, nesse ambiente, fomentaremos as boas ideias, inovadoras e rentáveis. n


investimentos

Opiniões

investimentos florestais:

necessários e rentáveis? A resposta para a primeira parte do título é sim, e o racional é simples. Como em qualquer outro setor da economia, investimentos para a produção de matéria-prima é necessário, principalmente porque o processo de produção é intensivo em capital, tempo e tecnologia. Já quanto à segunda parte, relativa à atratividade dessa classe de investimento (plantios florestais), minha opinião é a de que a rentabilidade tem ficado aquém do seu potencial. O setor florestal é um “animal” bem diferente da maioria dos demais setores da economia, justamente por ser intensivo em capital, tempo e tecnologia, e por depender significativamente das condições edafoclimáticas para realizar sua produção. Essas características tornam o setor marginal no mundo dos investimentos. Mais especificamente, a silvicultura como atividade econômica apresenta alguns desafios “orgânicos” para os investidores florestais: longo período para o retorno do investimento; complexo processo de entrada e saída; necessidade intensiva de capital, alto grau de incerteza devido aos fatores bióticos; mercado de madeira “perfeitamente imperfeito” (clusters de comercialização associados a poucos consumidores com um alto poder de barganha).

No Brasil, essas características restringem as oportunidades de investimento a praticamente duas classes de investidores: à indústria de base florestal, principalmente à de celulose e de painéis reconstituídos, e aos investidores institucionais, normalmente fundos de pensão e alguns family offices. Marginalmente, também participam pequenos investidores, normalmente produtores rurais buscando o aproveitamento de terras de baixa produtividade. Regra geral, esses investidores têm pouco ou nenhum incentivo/intenção de participar ativamente no mercado florestal devido à baixa ou a nenhuma rentabilidade.

Com certeza, outras medidas/ ações merecem ser discutidas, como a regulação do acesso à terra pelo capital estrangeiro. O assunto está em pauta no Congresso, mas, desde 2010, temos escutado que '... em dois meses esse assunto estará resolvido'. "

Jefferson Bueno Mendes

Diretor da BM2C - Business Management Consulting

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investimentos Em nosso país, o investimento florestal se viabilizou em meados da década de 1960, com a política dos incentivos florestais, que vigorou até o início da década de 1980. A partir daí, os investimentos aconteceram somente via indústria, novamente celulose e painéis reconstituídos, até o final da década de 1990. No início da década de 2000, os investidores internacionais chegaram ao Brasil comprando ativos florestais através de gestores de investimentos (TIMOs ), repetindo o que aconteceu nos Estados Unidos em meados da década de 1980. Mais no final da década de 2000, surgiram as TIMOs nacionais, replicando o modelo adotado pelas empresas internacionais. Na primeira onda de investimentos, as TIMOs compraram ativos já produtivos, em mercados mais maduros, com boas oportunidades de arbitragem econômica. Em um segundo momento, com a exaustão das oportunidades, essas organizações iniciaram projetos greenfield, assumindo os riscos inerentes à atividade silvicultural. E, mais recentemente, começaram a financiar a silvicultura para as indústrias de celulose e de painéis reconstituídos, via compra de plantios existentes e acordos de suprimento de longo prazo, com retorno prefixado. Analisando a história do mercado de investimentos florestais (incentivos > integração floresta-indústria > TIMOs), pode-se dizer que houve uma evolução positiva, mas não o suficiente para tornar o mercado de madeiras e, por consequência, o setor florestal mais sustentável e eficaz. Quando comparamos o setor florestal brasileiro com outros players de destaque, como os Estados Unidos e os países nórdicos, vemos que há muitas oportunidades para escalarmos o ranking internacional. Mas isso somente irá ocorrer com um mercado de madeira realmente competitivo, onde haja um equilíbrio de forças. E como poderíamos melhorar a saúde desse mercado considerando que a maioria dos clusters brasileiros têm mercados significativamente imperfeitos? Entre as muitas ações necessárias, gostaria de destacar quatro, sem uma ordem de prioridade. A primeira pode parecer desnecessária, redundante, mas não é: precisamos de uma política florestal estruturante para o País, com visão, estratégia e ação de longo prazo, algo que não existiu nas últimas três décadas. Houve, sim, uma série de iniciativas “virtuais”, não estruturantes e sem consequências práticas positivas. Também houve, por parte do Governo Federal, a disponibilização de “ferramentas”, como as linhas de financiamento, mas também sem resultados estruturantes como os obtidos com a política de incentivos fiscais da década de 1960. Aqui vale um parêntese: não estou defendendo a volta dos incentivos fiscais.

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Opiniões Com o valor investido na época, poderíamos ter, hoje, pelo menos 14 milhões de hectares, ao invés dos 8 a 9 milhões existentes. Uma segunda iniciativa para tornar a estrutura do mercado mais sólida seria a efetiva inclusão dos produtores rurais na cadeia produtiva florestal. Tentativas anteriores, via “fomento florestal” e “parcerias”, promovidas por parte da indústria e pelo governo, fracassaram por razões que não cabem ser discutidas neste artigo. Em contraste, tanto na Europa quanto na América do Norte, o produtor rural é parte ativa da cadeia produtiva florestal, contribuindo significativamente para a sustentabilidade do setor florestal e da economia rural como um todo. No Brasil, esse modelo permitiria a otimização do uso da terra e a viabilização de indústrias em regiões de alta concentração populacional e sem grandes extensões de terras disponíveis para a silvicultura intensiva, ou onde o uso potencial do solo é agrícola. A terceira sugestão é a criação de mecanismos financeiros adequados à silvicultura. Pode-se argumentar, aqui, que esses mecanismos já existem, disponibilizados pelo FCO, FNE e BNDES, por exemplo. Mas, considerando o contexto do mercado silvicultural, principalmente quanto ao retorno dos investimentos, discordo da efetividade desses mecanismos. Com certeza, eles podem ser significativamente melhorados. Adicionalmente, há outros mecanismos mais democráticos e eficazes que poderiam ser adotados no Brasil, como timberland evergreen funds, real estate Investment trusts e os real state funds. Esses mecanismos dariam acesso a muitos investidores que hoje fogem do investimento florestal devido aos seus desafios orgânicos. Para finalizar minhas sugestões, acredito que os investidores devem considerar outros modelos de investimento, associando os ativos “plantios florestais”, “terra”, “agricultura” e “pecuária”. Essa associação criaria mais valor para os investidores e reduziria o risco base do investimento florestal. O modelo tradicional de negócio (aquisição de ativos com base no fluxo de caixa descontado) tem enfrentado adversidades significativas em mercados maduros. Essas quatro sugestões têm um grande potencial de tornar os mercados mais atraentes e atrair mais investimentos. Com certeza, outras medidas/ações merecem ser discutidas, como a regulação do acesso à terra pelo capital estrangeiro. Esse assunto está em pauta no congresso brasileiro, mas, desde 2010, temos escutado que “... em dois meses esse assunto estará resolvido”. Enquanto isso, os investidores internacionais têm que usar a criatividade e pagar o “custo Brasil” para investir no setor florestal, algo que muitos deles têm evitado. n


inovações

Opiniões

a necessidade de inovar no setor florestal Uma das minhas primeiras experiências de trabalho, lá nos idos de 1986, foi trabalhar contratado pela Jaako Poyry como tradutor-guia para um grupo de indonésios em visita à Ripasa. Aquele trabalho foi um marco na minha vida. Pela primeira vez, trabalhei para uma grande empresa. Meus contratantes, Valentin Suchek e Walter Jacob, eram ícones florestais dos meus tempos de faculdade, pois estavam em todos os eventos técnicos falando de futuro e economia. A Ripasa era um poço de talentos. Na direção, o Nelson Barbosa Leite, com seus dois gerentes, de silvicultura, o Edson Balloni, e de colheita, o Lineu Waduski. Os engenheiros mais operacionais eram o José Luiz Stape, começando sua carreira na silvicultura, e o José Zani Filho, um mago do viveiro florestal. Até hoje, lembro de coisas que aprendi, e uma delas tem tudo a ver com este artigo. O Lineu, conversando comigo, falou que sempre tentavam melhorar os processos no seu dia a dia, mas alguns processos tinham que ser totalmente repensados, começar do zero e fazer tudo diferente. Se bem me lembro, falava de modificar espaçamentos de plantio e da forma de fazer estradas florestais, pensando não no plantio, mas na colheita. Lineu era um cara com um olho no futuro, já havia visto máquinas finlandesas e suecas substituindo motosserras e caminhões. Naquela época, não sabia que ele simplesmente falava de conceitos de inovação incremental, melhorando tecnologias e processos existentes, e de inovação disruptiva, aquela

que chega como quem não quer nada e toma o lugar das práticas antigas. Só conheci o conceito anos depois, já trabalhando para a Embrapa. Hoje, inovação é uma palavra na boca de todos, basta ligar a televisão, ir a um evento ou olhar uma mídia social. Para alguns, inovar é comprar uma máquina nova da China, para outros é desenvolver um programa para celular, mudar a forma de vender táxis e alugar imóveis. E, como todos estão certos, começam a aparecer adjetivos para qualificá-la: os já citados, social, organizacional, mercadológica e assim por diante, cada uma com seu conceito e área de aplicação. Para mim, a inovação é uma mudança positiva, sempre ligada à solução de problemas e, consequentemente, à abertura de oportunidades. Sempre, o mais importante é resolver um problema, não promover inovação. Temos que trabalhar para resolver problemas específicos para pessoas específicas e, se tivermos sucesso, vamos estar, automaticamente, sendo respeitados e chamados de inovadores.

o mais importante é resolver um problema, não promover inovação. Temos que trabalhar para resolver problemas específicos para pessoas específicas e, se tivermos sucesso, vamos estar, automaticamente, sendo respeitados e chamados de inovadores. "

Erich Schaitza Chefe-geral da Embrapa Florestas

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inovações No setor florestal, vimos várias inovações que resolveram grandes problemas e abriram horizontes: a entrada da silvicultura clonal em eucalipto, os programas cooperativos de controle de pragas (como o da sirex, ou do percevejo-bronzeado), a entrada da fibra curta em produtos típicos de fibra longa, a valorização de trabalhadores rurais, o processo de certificação, a organização profissional de representações nos estados e no País, entre outras. Olhando para o futuro, na óptica de buscarmos soluções para problemas, eu apostaria minhas fichas em algumas inovações: • Com relação às florestas plantadas, especialmente em setores menos estruturados do que papel e celulose, não se tem um panorama preciso de onde estão e em que estado estão nossas florestas. E onde estão os consumidores para as florestas? Quais suas demandas de qualidade? Anos e anos sem mapear e tabular informações fizeram com que certas regiões falem em apagão florestal por falta de matéria-prima, outras reclamem de terem florestas sem indústrias para processá-las. A grande inovação que poderíamos atingir é ter um sistema nacional de informações com dados fidedignos coletados em escalas apropriadas e com certa regularidade. Primeiro, ele daria a real dimensão do setor florestal. Segundo, permitiria planejamento público e privado, com incentivos cirurgicamente distribuídos, tanto para plantadores como para indústrias. O Plano Nacional de Florestas Plantadas e a Câmara Setorial de Florestas Plantadas também apontam para a necessidade desse trabalho. • Temos 12 milhões de hectares a reflorestar, segundo nossa Contribuição Determinada para o Acordo de Paris. Talvez 3 ou 4 milhões de hectares sejam plantados pela indústria florestal tradicional, mas ainda teremos, pelo menos, 8 milhões de hectares dissociados da indústria, localizados em Áreas de Preservação Permanente (APP) e Reserva Legal. Se eu fosse recuperar uma APP, pensaria em simplesmente isolá-la e abandoná-la à própria sorte, deixando o tempo fazer seu trabalho. Em alguns casos, plantando algumas árvores para promover regeneração. As APPs são intangíveis e não dão retorno econômico, é difícil investir em uma restauração mais cara. Já as reservas legais podem ser usadas e gerar não só serviços ambientais como também renda. E é aqui que precisamos de duas inovações: o desenvolvimento de sistemas silviculturais multiespecíficos, biodiversos, mas rentáveis, no curto, médio e longo prazos; e a mais difícil, alinhar a visão de produtores, de órgãos ambientais e de ONGs, para que produtores possam plantar e colher com segurança jurídica, sem controles excessivos e impeditivos.

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Opiniões • Temos muitas florestas na Amazônia e na caatinga, sempre ameaçadas de corte e substituição por áreas de pecuária e agricultura. A floresta em pé, intocada, não é sustentável, pois não gera dinheiro suficiente para agricultores. Esse problema poderia ser resolvido se a sociedade remunerasse a floresta em pé, com o pagamento de serviços ambientais. Em larga escala, seria uma grande inovação, mas de onde vem o dinheiro? Várias experiências nesse sentido não conseguiram ganhar escala e ganhar caráter, pelo menos regional. O manejo florestal sustentável, implantado de maneira técnica e em larga escala talvez seja a inovação mais factível do ponto de vista financeiro para a conservação desses biomas. Para que ocorra, o Estado deveria aumentar a área de concessões, oferecer subsídios para concessionários na forma de inventários e assistência técnica, simplificar procedimentos, garantir o escoamento de produtos da floresta e combater ferozmente a ilegalidade de desmatamentos e de comercialização de madeira ilegal, barata. Tomara que o Serviço Florestal Brasileiro avance nessa área e que o Ibama seja estruturado para fiscalizar efetivamente a legalidade e a ilegalidade de desmatamentos. • Com florestas plantadas, somos líderes mundiais em crescimento. Nossas áreas florestais naturais são passíveis de manejo e de produção de madeira com diferentes características. No entanto produzimos muito pouca madeira para construção. O eucalipto, campeão de crescimento, nunca decolou como madeira serrada. O pínus é mais usado, mas tem seus problemas tecnológicos para pleno uso na construção civil. Uma vez visitei um assentamento no Amapá, com uma área derrubada enorme, queimada, com toras espalhadas pelo campo. A madeira lá, disponível, e tijolos chegando em barquinhos pelo rio, vindos de Belém do Pará, para construir casas. Tudo financiado pelo INCRA. Precisamos trabalhar em um ambiente propício para a fabricação de casas de madeira, casas mistas, com molduras estruturais, com tábuas como nossas casas polacas ou em outros sistemas construtivos, usando o poder de compra e de direcionamento do setor público. A madeira tem que se tornar competitiva frente a outros materiais, e isso só vai acontecer com a oferta de toras de qualidade para indústrias, com a diminuição de perdas industriais e com muita agregação de valor aos resíduos gerados. Hoje, com raras exceções, onde há integrações com fábricas de papel ou de chapas, os resíduos de serrarias e laminadoras são usados apenas para gerar calor, muitas vezes em sistemas de baixa eficiência. Com isso, a agregação de valor a esses resíduos florestais, começando com geração distribuída e, depois, seguindo para a obtenção de novos materiais e químicos, também é uma inovação a ser seguida. n


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Como é de conhecimento de todos, o setor de florestas plantadas é um dos poucos setores da economia que trabalha com ciclos produtivos longos, com o mínimo de 6 anos, no caso da cultura do eucalipto. Todos os anos, as empresas traçam seus planejamentos estratégicos, táticos e operacionais. Também, anualmente, após intermináveis reuniões em seus diversos departamentos, elaboram orçamentos complexos e milionários para terem previsibilidade dentro de cada operação (implantação, reformas, colheita, logística, etc.). Aparentemente, tudo é programado para funcionar de forma rotineira, constante, a custos baixos, com qualidade, alta eficiência e, principalmente, de forma segura.

Esse é o cenário de uma grande empresa florestal, que possui técnicos altamente capacitados, tecnologia de ponta e recursos financeiros favoráveis para a realização de investimento. Dashboards diários/semanais do planejado x realizado são apresentados constantemente para os gestores, que são elogiados ou criticados pelo cumprimento ou não dos indicadores preestabelecidos. Atingir a excelência e o cumprimento das metas, nesse caso, desafia o gestor a sempre melhorar, de forma incansável, a busca desses resultados. Para o planejamento das estradas florestais, não deveria ser diferente. No entanto, aqui, existe uma lacuna para reflexão e que pode afetar, a qualquer momento, a companhia, levando em consideração que as estradas são as artérias que vão garantir a fluidez das operações para a implantação, manutenção e proteção das florestas e que, em momento apropriado, serão utilizadas para o transporte da madeira para o respectivo abastecimento fabril.

Sendo as estradas o segundo maior investimento em um empreendimento florestal, perdendo apenas para as florestas em si, o seu planejamento adequado possui extrema importância para a rentabilidade do projeto. "

Ricardo Anselmo Malinovski CEO da Malinovski Florestal

Qual é a garantia que elas foram bem planejadas e estão em perfeitas condições de tráfego independentemente da fase em que serão utilizadas? Mesmo em empresas florestais com equipes técnicas robustas, percebe-se, de forma rotineira, uma incongruência na condução da importância de se ter um bom planejamento das estradas que vise à otimização de rotas, que defina, com

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Opiniões critérios técnicos palpáveis, a qualidade dessas estradas, pensando em tipo de pavimentação, CBR, raio de curvas, declividade atrelada à composição veicular de carga a ser utilizada, etc. O alicerce para o planejamento da rede viária está em uma boa base cadastral georreferenciada da empresa. Embora essa seja uma premissa importante, é comum encontrar bases de mapas incompletas ou desatualizadas, com densidades de estradas fora dos limites aceitáveis para a otimização das operações. Falta informação de qualidade das estradas atuais, o que afeta significativamente a gestão de risco do abastecimento, em caso de chuvas, por exemplo, uma vez que não se sabe quais são as estradas adequadas ao transporte. Algumas empresas sequer possuem um manual de estradas para padronização de construções e respectivas manutenções, bem como controle de qualidade dessas operações, dificultando ainda mais a garantia de trafegabilidade. O planejamento ideal da rede viária florestal deve ser integrado, reunindo normas técnicas construtivas, conhecimento da região quanto a solos, pluviosidade, análise econômica e otimização, entre outros. O horizonte de planejamento deve ser pensado para o curto e longo prazo, composto inicialmente de um projeto conceitual e um anteprojeto, onde se define o planejamento global do sistema viário, verificando a necessidade de EIA-RIMA, interpolando todos os fatores de influência para se propor um layout adequado. E, em seguida, realiza-se o projeto, onde se definem não só todos os padrões técnicos como também se contemplam os projetos geométrico, geotécnico, drenagem, etc. Atualmente, muito se fala sobre tecnologias, otimização, Big Data, floresta 4.0, etc. A grande chave, e o principal desafio, é justamente a integração. O planejamento ideal de estradas depende do planejamento ideal de todas as outras áreas do sistema produtivo, atribuído a análises de sensibilidades quanto à variância de fatores de influência, como custo do frete, demanda por produto e produtividade dos módulos. Sendo as estradas o segundo maior investimento em um empreendimento florestal, perdendo apenas para as florestas em si, o seu planejamento adequado possui extrema importância para a rentabilidade do projeto. O layout deve ser proposto de forma a atender não só à fase inicial de implantação das florestas, mas também pensando nas atividades posteriores, como a manutenção, proteção, colheita e transporte. Assim, o planejamento da rede viária deverá contemplar, de forma equilibrada, as questões sociais, econômicas, ambientais e técnicas.

O aspecto social proporciona a conexão entre polos, consolidação da economia local, além do desenvolvimento cultural, com melhores oportunidades de recreação, turismo, saúde, entre outros. Já o econômico está estritamente atrelado com a produção e o suprimento de madeira, sendo indispensáveis para a cadeia produtiva. Quanto ao aspecto ambiental, consideram-se os pontos vulneráveis e buscam-se alternativas para minimizar e/ou mitigar os impactos decorrentes da construção de estradas. Já com relação ao técnico, é considerado o planejamento, a construção e os procedimentos de manutenção e conservação. As técnicas de planejamento para a construção e a manutenção das estradas variam de acordo com a necessidade de cada empresa. Devem ser observadas as características da área quanto às condições do terreno: tipos de solos, topografia e hidrografia, bem como as condições de tráfego − dimensões dos veículos, velocidade e intensidade de tráfego. Com base em todos esses fatores, define-se a qualidade e o padrão construtivo para cada classe de estrada. Alguns dos fatores que influenciam na qualidade da rede viária são a disponibilidade de matéria-prima (cascalhos, britas, escória, argila, etc.), equipamentos e capacidade de investimentos. O planejamento de estradas não deve ser considerado algo estático, uma vez que diversas premissas utilizadas para a definição do layout se alteram com o decorrer do tempo, como a alteração do sistema de colheita e a distância de extração. Dessa forma, recomenda-se repensar e replanejar o sistema viário sempre que houver alterações como essas, visando à redução da densidade. A densidade de estradas do projeto deve ser considerada um fator determinante na composição dos custos do empreendimento, pois, quanto maior a densidade, maior serão os custos de construção e manutenção, a perda de áreas de efetivo plantio e, quando associada ao sistema de drenagem deficiente, maiores também são a predisposição a processos erosivos e os impactos ambientais. Felizmente, hoje, as tecnologias disponíveis estão ajudando, de forma significativa, a refinar o planejamento das estradas. Um dos exemplos é a utilização de imagens de satélite e/ou drone para identificação e classificação de qualidade das estradas. Também existem softwares no mercado para auxiliar no desenho das vias, de forma otimizada, correlacionando diversos fatores de influência para definição das melhores rotas, visando sempre à redução dos custos e à garantia de abastecimento. E para você, no seu negócio, qual é a importância que você dá para as estradas? n

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entidades

Opiniões

uma floresta de oportunidades O setor de árvores cultivadas tem evoluído nos três pilares fundamentais: ambiental, econômico e social. Quanto mais mantém um olhar cuidadoso para o meio ambiente, mais gera oportunidades a milhares de brasileiros. Ao passo que investe em tecnologia e está cada vez mais imerso na era da informação e conectividade, trata de capacitar e gerar renda em locais afastados dos grandes centros. Desde que assumi a presidência da Ibá, em março de 2019, tenho viajado o País visitando laboratórios, unidades fabris e florestas cultivadas. É inegável o avanço que a indústria tem levado ao interior do Brasil e o alento para trabalhadores que identificam, na atividade florestal, uma chance profissional. Atualmente, são mais de 1.000 cidades localizadas na zona de influência da indústria. Mais do que o número abrangente, o setor atinge regiões socialmente deprimidas, levando até esses locais um sopro de esperança.

Além disso, comumente, as árvores são cultivadas em áreas anteriormente degradadas pela ação humana. Somente nos plantios, o setor estoca 1,7 bilhão de CO2 equivalente. Essa indústria ainda conserva 5,6 milhões de hectares de mata nativa, estocando mais 2,5 bilhões de CO2. São mais de 500 mil empregos gerados diretamente pelas empresas de árvores cultivadas. Mas, quando se abre esse leque, a penetração é ainda maior. Analisando vagas indiretas e efeito renda, o número sobe para 3,8 milhões de brasileiros ligados à indústria. É muita gente. Aliás, a chegada do setor em cidades menores é um incentivo para empreendedores formalizarem seus negócios. A oportunidade de um pequeno prestador de serviço em trabalhar com uma empresa de porte faz com que esse movimento para deixar o mercado informal se torne um caminho viável. A boa notícia é que esses números tendem a aumentar. Esse é um setor que está investindo para, cada vez mais, ser uma opção sustentável a qualquer material de origem fóssil. Nanocelulose, bio-óleos, fios têxteis são apenas alguns exemplos de itens essenciais para nosso dia a dia e que atendem à nova era da economia de baixo carbono.

São mais de 500 mil empregos gerados diretamente pelas empresas de árvores cultivadas. Analisando vagas indiretas e efeito renda, o número sobe para 3,8 milhões de brasileiros ligados à indústria. É muita gente. "

Paulo Hartung

Presidente executivo da Ibá - Indústria Brasileira de Árvores

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que deve gerar 7,5 mil vagas no período de imPara isso, investimentos de R$ 32,9 bilhões já plantação. Já a Duratex, com investimentos de estão anunciados e, alguns deles, em andamento. R$ 3,5 bilhões, em Araguari (MG), abrirá mais Esse montante será revertido para tecnologia, pes6,5 mil vagas. Nesses dois casos, as empresas quisa, unidades fabris e florestas, impulsionando trabalharão com celulose solúvel, produto inovao número de colaboradores do setor, aumentando dor, que é capaz de produzir lenços umedecidos o raio de atuação. Com esse aporte, são mais 36 e tecidos finos para confecções. mil empregos nas obras e 11 mil vagas fixas na Outros dois investimentos levam oportunidaoperação dos empreendimentos. des ao Nordeste: um projeto da WestRock e ouA Klabin, com investimentos de R$ 9,1 bilhões tro da Klabin,TRITURADOR mostrandoFLORESTAL a amplitude de regiões na cidade de Ortigueira EQUIPAMENTO (PR), irá gerar 9 mil emPADRÃO: COM ROTOR protegida contraII, poeira. DE DENTES FIXOS (UML / São S / EX duas / VT) novas que esses investimentos cobrem. pregos no pico de obra doEstrutura Projeto Puma que Transmissão por correias. Desenvolvido especificamente para se encaixar na categoria de fábricas de embalagem de papel, um importante abrange a construção de duas máquinas de papel, Motor hidráulico de pistões de torque variável escavadeiras mais comuns e usadas com freqüência (18 - 25 ton). Graças protagonista com produção de celuloseVálvula integrada. A Berneck de controle de fluxo do sistema aos detalhes, da tais bioeconomia. como lâminas de corte intercambiáveis, correntes Tampa de trituração hidráulicaque Essa indústria por de pessoas para da iniciou as obras da nova unidade da empresa, parafusadas na estruturaé emovida sistema integrado abertura / e fechamento de corte(SC), soldadascom tampa, atinge de benefícios semelhantes a aosbarreira modelo maisdo alto da pessoas. Porníveis isso, ultrapassando produzirá MDF e serradosContra emfaca Lages Motor integrado a estrutura gama. campo profissional, o setor de árvores culmais R$ 850 milhões investidos. No Mato Grosso tivadas mantém importante diálogo com as do Sul, a Eldorado tem iniciada a construção de comunidades do entorno. Mais de 1,5 milhão uma usina de energia a partir de biomassa renode pessoas estão sendo beneficiadas em provável, com investimento de R$ 350 milhões e que gramas socioambientais, como projetos de fodeverá empregar até 1.500 pessoas nas obras. mento, geração de renda, cultura, educação, Em Três Barras (SC), a WestRock está deentre outros. sembolsando mais R$ 1,3 bilhão, com 2.700 vaSe falamos de futuro, falamos de indústria de gas temporárias, enquanto, em Porto Feliz (SP), base florestal. Sustentável, de olho nos novos usos a companhia inaugurou sua nova unidade em da madeira cultivada, inovadora, economicamente 2019, com 500 empregos diretos e indiretos na sólida e que gera oportunidades em todo o nosso região. A Bracell aplica R$ 7,5 bilhões também território. n no interior de São Paulo, em Lençóis Paulista, o

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equidade de sexo na engenharia florestal

onde estão as mulheres no setor florestal? O setor florestal é um ambiente cada vez menos estereotipado como masculino, onde as tecnologias de produção, manejo e planejamento permitem que nossos processos e operações sejam cada vez mais limpos e precisos. A revolução tecnológica no setor trouxe drones, sistemas integrados, torres de monitoramento automatizadas, veículos rastreados e a necessidade de um profissional cada vez mais arrojado e especializado para executar suas funções. Contudo o setor florestal continua a ser um reduto masculino. A cultura da hegemonia masculina no setor se materializa, principalmente, na sub-representação feminina nos espaços estratégicos e de decisão política. Mesmo não havendo dados oficiais, é possível observar que não só as empresas do setor como as entidades responsáveis por traçar suas diretrizes não possuem mulheres em seus cargos estratégicos, ou as mantém com uma participação concentrada em áreas administrativas e em funções juniores. Os cargos de liderança do setor florestal continuam, historicamente, concentrados nas mãos dos homens.

Tais informações não estão sistematizadas, contudo uma pesquisa rápida em sites de empresas públicas, privadas e instituições de ensino revela os menores índices da participação feminina. Nesse sentido, em 2016, o Forest Stewardship Council – FSC, reconhecendo as evidências do domínio masculino observadas na formulação de políticas do manejo florestal formal, abriu uma discussão importante acerca da necessidade de promover padrões de igualdade de sexo no manejo florestal. A bem da verdade, o setor florestal acompanha a tendência do mercado de trabalho mundial, em que apenas 22% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres, 32% das empresas não contam com administradores do sexo feminino. Além disso, o Brasil apresenta um fenômeno particular em que, quanto mais alto o cargo, menor a proporção de ocupação por mulheres. Esse fenômeno é chamado de “teto de vidro” e é descrito de forma simbólica como uma barreira transparente e sutil, no entanto forte por não ser nítida e capaz de dificultar severamente a ascensão de mulheres aos cargos de liderança e à tomada de decisão. As características do setor estão conectadas a estereótipos de sexo que, historicamente, codificam diferenças como naturalmente femininas ou masculinas, atribuindo habilidades e tarefas distintas para homens e mulheres. Tais diferenças influenciam processos de seleção, avaliação e promoção dentro das organizações, alimentando, assim, a hegemonia masculina no setor florestal.

Mesmo que a discussão esteja democratizada a importância ao tema assim como as decisões acerca do que será discutido continuam a ser dominadas pelos homens. "

Camila Savastano de Queiroz

Mestre em Restauração e conservação de ecossistemas e Coordenadora de pós-graduação da Univiçosa Coautora: Daniela Higgin Amaral, Mestre em Ciência Florestal pela UFV e Doutorado em Energia pela USP

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Opiniões Atualmente, o setor apresenta um cenário de maior diversidade em que as mulheres alcançaram espaços tradicionalmente ocupados por homens. No entanto a diversidade no setor não é nem de longe sinônimo de equidade na ocupação dos espaços, sobretudo no que corresponde às decisões que o conduzem. Existem mulheres em todos os níveis da cadeia florestal, do campo à indústria, mas qual é o impacto da participação dessas mulheres na construção de um paradigma de equidade de sexos para o setor? O cenário de diversidade que permite o acesso da mulher ao mercado de trabalho não cria um ambiente favorável para sua permanência, uma vez que não é capaz de garantir as mesmas oportunidades designadas aos homens dentro das corporações. Mas como o acesso ao mercado não favorece a permanência? O cenário de diversidade não é democrático e não comporta a hierarquia de sexo que produz identidades, vantagens e desvantagens que conduzem a trajetória das mulheres no mercado de trabalho e não é suficiente para evitar a banalização das questões e as preocupações que envolvem a inequidade de oportunidades entre homens e mulheres em decisões e negociações de políticas fundamentais nos setores florestais formal e informal. O contexto em que a mulher se insere no setor pode ser explicado pelo seu cotidiano em uma sociedade que diferencia a sua trajetória, suas possibilidades e sua posição quando, por meio do princípio organizador da separação entre homens e mulheres, as responsabiliza e as onera em tarefas das quais os homens são liberados. Todos os aspectos nos mostram que a mulher está estigmatizada conforme uma hierarquia social e por um lugar criado nessa estrutura que conduz e limita sua trajetória no mercado de trabalho e que se replica no setor florestal. A criação do estereótipo feminino se faz de acordo com as expectativas relacionadas à esfera reprodutiva, que carrega em si modelos limitantes dificilmente superados, segregando a participação da mulher de forma equitativa nos contextos político, social e econômico. Em recente pesquisa desenvolvida pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em que foram analisados dados de 75 países que abrangem mais de 80% da população global, os dados obtidos mostram que, no campo político, apesar de haver paridade no índice de mulheres e homens votantes, apenas 24% das cadeiras parlamentares no mundo são ocupadas por mulheres, e há apenas dez chefes de governo mulheres dentre os 193 países-membros das Nações Unidas.

Ainda de acordo com o estudo, cerca de nove em cada dez homens e mulheres em todo o mundo têm algum tipo de preconceito contra as mulheres; cerca de 50% dos entrevistados, incluindo ambos os sexos, afirmam acreditar que os homens são melhores líderes políticos, enquanto mais de 40% afirmam que eles são melhores executivos de negócios e devem ter acesso a mais empregos quando estes são escassos. Além disso, as mulheres recebem salários menores do que os homens, mesmo desenvolvendo funções semelhantes, e têm menor probabilidade de ocupar cargos seniores. O desequilíbrio entre as oportunidades para engenheiros e engenheiras florestais se materializa em um contexto bastante conservador, no qual as mulheres ainda são impactadas pelas preocupações acerca das perspectivas de carreira devido à falta de flexibilidade em suas jornadas de trabalho quando se deparam com responsabilidades como a maternidade. A questão da maternidade para a engenheira florestal é bastante controversa, na qual a mulher se depara com o estigma da maternidade compulsória ou com a perpetuação da desigualdade dos cuidados infantis, que são evidenciados com a licença maternidade em extremo desequilíbrio com a licença paternidade. Em ambos os casos, a mulher sofre com o estigma do trabalho doméstico não remunerado, sendo entendida como um elo fraco em uma corrente que, mais cedo ou mais tarde, deve partir. Não se pode negar que existe um espaço dedicado às discussões de sexo no setor florestal, todavia a participação das mulheres no processo se mantém periférica. Mesmo que a discussão esteja democratizada, a importância ao tema assim como as decisões acerca do que será discutido continuam a ser dominadas pelos homens. Reflexo de um setor, historicamente, construído e legitimado por homens e para homens. Mas como a criação de espaços de discussão não torna a participação da mulher central nesse processo? A discussão protagonizada por mulheres está restrita aos espaços criados para tal, e, quando chegam aos demais espaços, têm sua essência esvaziada e a sua repercussão enfraquecida pela ausência de pares capazes de conservar a inteireza da questão. Uma discussão expressiva acerca da mulher no setor florestal deve acolher temas como a maternidade, o assédio, o teto de vidro e a divisão sexual do trabalho, fatores que dificultam a sua inserção e permanência no mercado. O protagonismo feminino nas discussões e nas decisões que devem conduzir a política e todas as diretrizes de combate à inequidade de oportunidades entre homens e mulheres, assim como a ocupação de cargos onde se concentram as decisões do setor florestal, é o alicerce para que possamos construir um novo paradigma e romper com a posição de subordinação feminina. n

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reflorestamento

loteria ou investimento? Até a crise financeira internacional de 2008, investimento em reflorestamento era a vedete da década. O cenário de especulação perdia força com juros e inflação domados. O Brasil era a bola da vez do crescimento. As indústrias de celulose tornavam-se players mundiais, as siderúrgicas a carvão vegetal pulsavam como nunca, e as indústrias de painéis expandiam para atender à crescente demanda doméstica por móveis. Como esperado, plantios florestais brotaram para tudo quanto é estado, principalmente na região Sudeste e nos limítrofes a Minas Gerais, interessado na demanda de carvão das siderúrgicas. Entretanto a tal crise nocauteou a siderurgia, que caiu de 100% da capacidade produtiva para 30% – e assim patinou até 2018 –, comprometendo o investimento florestal e contribuindo para a queda no preço do carvão (R$ 250/ mdc para R$100, bem abaixo do de nivelamento, que é de R$150) e para o quase desaparecimento desse mercado. Os que investiram até 2008, num cenário favorável sem precedente, esperando colher em 2015, dada a idade ótima econômica de 7 anos para o eucalipto, se assustaram com o sumiço do mercado. Pior ainda para aqueles que financiaram com carência de 7 ou 8 anos, desesperando-se, com toda razão, com a dívida bancária contraída. Considerando a atividade florestal de longo prazo e, por isso, sujeita a riscos e incertezas, suscitam-se as seguintes questões: O quão seguro é ela e o seu mercado diante das crises? O quão bem esse investimento se manterá, uma vez que a venda será realizada após 7 anos? Análises podem auxiliar na previsão do mercado, mas, segundo John Galbraith, “a única função das previsões econômicas é fazer a astrologia parecer respeitável”. Em tese, as análises econômicas apontam, através de VPLs e TIRs, que a viabilidade do projeto florestal supera a da poupança, que, naquela década, projetava-se muito superior à do mercado de ações e de derivativos. Porém, diferente de outros investimentos, esse projeto tem peculiaridades que implicam outras indagações: Qual o destino da madeira? Afinal, considerando a diversidade de usos e mercados, serão eles rentáveis? Como escolher? E, no longo prazo, isso continuará viável?

Opiniões

As respostas representam a diferença entre navegar num mar de almirante, investimento, ou num revolto, jogo de azar. Diferente de commodities agrícolas, cuja prioridade de localização depende da aptidão edafoclimática regional, seguida pela logística, o investimento florestal depende, principalmente, mais desta do que daquelas. Madeira é um produto pesado e barato, coeficiente preço/peso específico muito baixo, o que inviabiliza transportá-la para longas distâncias, sendo o ideal até 100 km. Somado a isso, veículos que transportam madeira não transportam outro produto, implicando frete dobrado (ida e volta). Tocantins é um triste case de insucesso, onde reflorestaram sem a contrapartida da existência do mercado. Infelizmente, produtores que substituíram pastagens por reflorestamento e se encontram distantes do mercado de madeira estão revertendo para a pecuária, desiludiram-se fortemente com o reflorestamento e jamais retornarão a ele, mesmo que a madeira venha a valer ouro. Por sorte e lógica, praticamente nenhum produtor de grão fez tal substituição. Em que pese a queda vertiginosa do preço do carvão, que se manteve até 2018, isso não necessariamente inviabiliza um projeto, apenas o torna mais complexo de se gerenciar. Um cenário diferente é o das regiões próximas a indústrias de celulose, que passaram incólumes à crise, nas quais se tem bons mercados da madeira. Entretanto, há outros males, mas que podem melhorar. Todo e qualquer investimento será viável ou não dependendo da competência gerencial. Não basta apenas estar próximo das indústrias de celulose e não saber negociar, haja vista que elas são verticalizadas – produzem cerca de 80% do abastecimento –, garantindo-lhes o poder de definição do preço da madeira.

Análises podem auxiliar na previsão do mercado, mas, segundo John Galbraith, 'a única função das previsões econômicas é fazer a astrologia parecer respeitável'. "

Sebastião Renato Valverde Professor de Política, Gestão e Legislação Florestal da UF-Viçosa e Diretor-geral da SIF

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Coautor: Alberto Firmino Barbosa, Engenheiro Florestal pela UF-MG


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Mesmo diante das incertezas, o projeto florestal tem seu lado positivo que o diferencia do agrícola, quer seja o longo prazo, quer seja o amplo espectro de uso da madeira. Com a crise do carvão, prospectaram-se novos mercados, entre eles, o de cavaco para geração termoelétrica nas diversas indústrias consumidoras de vapor espalhadas por todo o Brasil. Essa vantagem de uso múltiplo não é a única do projeto florestal. A ela soma-se o fato de não haver senescência quando não for possível e nem viável colher a floresta no ótimo econômico de 7 anos. Um gestor que esteja em condições de postergar o corte não perderá a floresta, ao contrario do agricultor que, se não colher na data certa, perderá a cultura. Ainda que alguns custos existam, tais como o de oportunidade da terra e do capital, eles são, via de regra, menores que os possíveis ganhos futuros da floresta em pé, tornando esse investimento um portfólio financeiro que exige a estratégia de saber vender na alta, usando e abusando das prerrogativas florestais acima do ganho de densidade da madeira com a idade, num mercado que tem valorizado a unidade gravimétrica mais que a volumétrica. Um bom gestor colherá sua floresta quando houver preços favoráveis da madeira, como ocorreu a partir do último trimestre de 2018. Assim, é necessário cautela no investimento florestal e um excelente EVTEA.

Fone: (14) 3161-5110 E-Mail: roder@roderbrasil.com.br Deve-se evitar o endividamento bancário quando não se tem lastro do mercado ou nem sinal dele, para se evitar ficar refém numa condição de preço vil da madeira e, também, até mesmo para ter tranquilidade na escolha do regime de manejo ideal, se corte raso ou seletivo. Há de se implementar melhorias organizacionais no mercado florestal, e isso se passa pela ação imediata de se constituir a cultura do associativismo entre os produtores e a da parceria transparente entre eles e as empresas do setor. Do contrário, o futuro será sombrio, sobretudo se perpetuar o modelo vertical, concentrador e latifundiário da produção florestal. Exemplos de sucessos na parceria são os das agroindústrias. O atual modelo florestal não se sustentará, sobretudo nessa crescente desigualdade brasileira. Enfim, é um bom negócio o investimento florestal? Estamos, afinal, diante de tantos produtores frustrados (arrependidos, endividados e descapitalizados), de satisfeitos e de indiferentes – aqueles das regiões montanhosas que têm o reflorestamento como derradeiro –, que torna impossível generalizar as respostas. Tudo dependerá da logística, da proximidade do mercado, da competência gerencial e da evolução organizacional do setor. Não há espaço para amadores. Não dá para contar com a fezinha lotérica. n

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dendrologia

a dendrocronologia como ferramenta O conhecimento sobre o crescimento de espécies nativas é um dos requisitos essenciais para ações de uso e conservação sustentáveis de espécies arbóreas, seja em remanescentes de florestas naturais, seja em plantios. Sabendo-se como crescem as árvores de determinada espécie ao longo do seu ciclo de vida, é possível ajustar modelos de crescimento que permitam avaliar suas fases de estabelecimento, crescimento produtivo e senescência. Quando pensamos em manejo florestal, a interpretação das variações do crescimento permite identificar o incremento médio da espécie em cada uma de suas fases de vida, a influência da competição e o histórico do desenvolvimento da planta, o momento (idade) ideal de desbastes e sua frequência, o máximo desenvolvimento potencial do povoamento e o momento ideal de corte.

Outra análise possível a partir dos incrementos conhecidos é a comparação da capacidade produtiva de diferentes sítios. As características próprias de cada espécie também podem ser estudadas pelas séries de crescimento que represente toda a vida da árvore, ano a ano. São inúmeros os exemplos, na literatura, de trabalhos dedicados à seleção de genótipos mais adaptados para diferentes ambientes, tendo como base as variáveis de crescimento. Não se pretende, aqui, esgotar todas as possíveis aplicações das séries de crescimento das árvores, mas sim mostrar que, quanto mais vasculharmos, mais aplicações serão possíveis.

Todas as abordagens indicaram que aquele povoamento teria um desempenho de crescimento anual muito superior se o primeiro desbaste tivesse ocorrido aos 12 anos após o plantio.

Patricia Póvoa de Mattos e Evaldo Muñoz Braz Pesquisadores da Embrapa Florestas

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Opiniões A busca por espécies nativas com potencial madeireiro para plantio não é recente. A dificuldade expressa por produtores é a carência de informação sobre espécies alternativas. A grande lacuna ainda observada é a indisponibilidade de informações sobre o padrão de crescimento dessas espécies nativas durante todas as fases de vida. Muitas instituições direcionaram, no passado, recursos para instalação de experimentos com espécies com potencial de uso ou seleção de matrizes com características vantajosas. Com a atração e o predomínio de espécies exóticas de rápido crescimento, elas passaram a ser prioridade de pesquisa. Restrições orçamentárias ou de recursos humanos também dificultaram a manutenção e o monitoramento dos plantios experimentais com espécies nativas. O Brasil conta com dezenas de instituições de ensino e/ou pesquisa em temas florestais, sendo que muitas ainda têm interesse no tema silvicultura de espécies nativas. Entretanto plantios florestais não manejados ainda são poucos explorados como fonte de informação de padrão de crescimento. A retomada da pesquisa nesses plantios teria a vantagem de agregar informações históricas de crescimento. Recuperar informações desses experimentos é um desafio. Durante algum tempo, negava-se, equivocadamente, a possibilidade da leitura de anéis de crescimento em espécies nativas tropicais, especialmente folhosas. Atualmente, já foi superada essa barreira criada no passado: a de que espécies tropicais não formam anéis anuais de crescimento. Várias pesquisas têm indicado ser possível recuperar, com técnicas de dendrocronologia, informações sobre o histórico de crescimento de espécies nativas. Atualmente, não são poucos os exemplos de sucesso em trabalhos que usam dendrocronologia para o entendimento da dinâmica do crescimento de espécies nativas tropicais, ou mesmo em aplicações mais diretas, como subsídio ao manejo de florestas naturais ou plantadas. O conhecimento sobre a dinâmica de crescimento de espécies nativas é essencial para o planejamento do manejo, em especial para a condução de plantios de espécies arbóreas. A dendrocronologia, quando corretamente utilizada, é uma ferramenta com muitas vantagens, entre elas a possibilidade de recuperar, em prazos muito curtos, o histórico de crescimento de espécies que apresentem anéis de crescimento distintos. A associação da dendrocronologia com índices de competição, que permitam análise retrospectiva, possibilita retroagir mais eficientemente na análise, identificando momentos de maior ou menor pressão de competição e sua influência na formação da árvore durante seu desenvolvimento, o que possibilita

identificar o momento ideal de desbastes ou de corte final e, assim, prover informações necessárias para o correto manejo de novos plantios. Além disso, a aplicação da dendrocronologia para aferição dos incrementos em diferentes alturas do fuste pode indicar momentos cruciais do desenvolvimento ao longo de sua vida. Nossa primeira experiência com plantios florestais não manejados foi o estudo de um talhão de imbuia (Ocotea porosa) com mais de 40 anos de idade e cuja população apresentava árvores em diferentes classes de diâmetro. A partir das séries de crescimento medidas e datadas por dendrocronologia, foram aplicadas diferentes técnicas de análise dos dados, como modelagem do crescimento das árvores por diferentes classes de diâmetro, avaliação da relação hipsométrica e grau de esbeltez e avaliação de índices de competição correlacionados com diâmetro. Todas as abordagens indicaram que aquele povoamento teria um desempenho de crescimento anual muito superior se o primeiro desbaste tivesse ocorrido aos 12 anos após o plantio. Outro estudo importante foi em povoamento superestocado de araucária (Araucaria angustifolia) com mais de 60 anos de idade. A recuperação de séries de crescimento de árvores de classes de diâmetro diferentes e de dados morfométricos das árvores vizinhas permitiu estimar o momento em que o crescimento foi comprometido, em função da competição por luz e espaço, o que é esperado em povoamentos não manejados. Ainda, os resultados permitiram inferir sobre a dinâmica do povoamento, identificando-se alternâncias da posição sociológica entre as árvores ao longo do tempo, assim como a interrupção do crescimento em diâmetro. É interessante mencionar que a dendrocronologia também tem sido aplicada no manejo de florestas naturais, sendo a alternativa mais ágil para a recuperação de séries longas de crescimento (mais de 150 anos). A ferramenta descortina um mundo de possibilidades na recuperação de informações essenciais ao planejamento para uso ou conservação de florestas naturais. Com uma bibliografia que documenta milhares de espécies e farta biodiversidade dispersas pelos biomas brasileiros, ainda há carência de informações básicas, como taxas e padrão de crescimento para a maioria das espécies arbóreas. O fortalecimento de redes de pesquisa com o objetivo comum de ampliar o conhecimento sobre o crescimento de espécies nativas, com informações oriundas de métodos dendrocronológicos, parece ser a forma mais rápida e eficiente de suprir essa grande lacuna científica. n

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inovações

Opiniões

controle de plantas daninhas Dentre os fatores redutores de produtividade na silvicultura, destaca-se a interferência causada pela infestação de populações de plantas daninhas durante o estabelecimento da floresta implantada. Assim, para que a atividade de produção de madeira seja economicamente viável, é indispensável o manejo adequado das populações de plantas daninhas, que competem com os fatores essenciais de crescimento. Para isso, é necessário estabelecer um programa de campo, integrando todas as etapas do processo produtivo, onde a aplicação de herbicidas é, sem dúvida, uma das ferramentas utilizadas para esse fim, porém não única. Sendo assim, neste artigo, exponho minha opinião sobre as principais inovações e tendências do setor, relacionada aos herbicidas e suas formas de utilização na silvicultura, notadamente na cultura de eucalipto.

Segundo o site do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil (http://agrofit.agricultura.gov.br, em consulta aberta), para a cultura de eucalipto, estão registrados 28 ingredientes ativos herbicidas para uso no Brasil. A seguir, são listados os principais ingredientes ativos, agrupados por mecanismo de ação na planta e pela letra correspondente do HRAC (Herbicide Resistance Action Committee): Grupo G: inibidores da síntese de aminoácidos aromáticos – glifosato Grupo E: inibidores da síntese da clorofila – carfentrazone-etil, sulfentrazone, flumioxazin, oxifluorfem e saflufenacil Grupo F: inibidores da síntese de carotenoides – isoxaflutole e clomazone Grupo C: inibidores do fotossistema II – diuron (associado com o sulfentrazone) Grupo L: inibidores da síntese de celulose – indaziflam Grupo A: inibidores da síntese de ácidos graxos – fluazifop-p-butil, cletodim e haloxifop Grupo K: inibidores do crescimento inicial das plantas – trifluralina, s-metolachlor Grupo H: Inibidores do metabolismo do nitrogênio – glufosinato de amônio Grupo B: inibidores da síntese de aminoácidos de cadeia lateral – chlorimuron-etil, imazapir.

para que a atividade de produção de madeira seja economicamente viável, é indispensável o manejo adequado das populações de plantas daninhas, que competem com os fatores essenciais de crescimento "

Pedro Jacob Christoffoleti Professor de Biologia e Manejo de Plantas Daninhas da Esalq/USP e Pesquisador da Agrocon Assessoria Agronômica

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inovações É importante destacar que o uso de qualquer defensivo agrícola está associado ao seu registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Para a aquisição de qualquer defensivo agrícola, deve-se fazer uma avaliação correta do problema e da necessidade da aplicação. A compra do defensivo agrícola só deverá ser realizada mediante receituário agronômico, assinado por um técnico responsável. As eventuais informações contidas nessa publicação, sobre herbicidas para o controle de capim-camalote na cultura da cana-de-açúcar que não estão registrados no MAPA, são provenientes da literatura científica e visam discutir aspectos de manejo da planta daninha e não recomendar como forma de controle. Essa gama de produtos, na minha opinião, pode, com certeza, atender às necessidades de manejo das plantas daninhas nas áreas de florestas implantadas. No entanto o sucesso no uso dessa ferramenta está fundamentado na escolha correta do produto, através de pessoas capacitadas, envolvidas desde a recomendação até o acompanhamento dos resultados, devidamente orientadas pelos gestores de como fazer corretamente, fazendo o produto chegar no alvo, proporcionando cobertura e absorção do herbicida de forma adequada, com equipamento devidamente regulado e em ótimas condições de trabalho. Algumas inovações têm ocorrido nos herbicidas, que são usados nas diversas etapas de condução da cultura. Elas iniciam na dessecação para preparo da área para o plantio. Das 75 marcas comerciais de glifosato registradas no MAPA, novas formulações estão sendo desenvolvidas, visando tanto ao aspecto dos diferentes sais de glifosato quanto às adjuvantes que compõem essas formulações, visando à rapidez de absorção do produto e à eficácia de controle em plantas submetidas a estresse. Há formulações que procuram associar glifosato com outros herbicidas, tendo como objetivo o controle de plantas daninhas de difícil controle pelo glifosato, bem como o sinergismo entre moléculas. Após uma boa dessecação da vegetação espontânea, vem a fase de implantação da cultura, onde as inovações estão pautadas na procura de herbicidas residuais de amplo espectro, principalmente residual suficiente para reduzir ao mínimo possível as reentradas na linha de plantio. Para isso, novas formulações e associações de herbicidas estão sendo recomendadas, notadamente com os herbicidas isoxaflutole, indaziflam, sulfentrazone, diuron e flumioxazin. Dois pontos fundamentais para o sucesso do herbicida pré-emergente nessa etapa é a escolha da dose, que deve estar alinhada com a bula, a seletividade dos herbicidas, diferencial aos materiais genéticos diversos utilizados.

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Opiniões Geralmente, o herbicida aplicado no transplante da muda de eucalipto não tem residual suficiente, até o “fechamento” da cultura. Assim, é prática usual a replicação na linha, que popularmente é conhecida como prática de “remonta”. Nessa prática, a procura é por herbicidas que sejam seletivos, sem afetar o crescimento e o desenvolvimento do eucalipto, gerando controle de amplo espectro, e que tenha alguma ação de pós-emergência inicial da planta daninha. Na entrelinha, geralmente, é feito tratamento com herbicidas de ação pós-emergente, mantendo, assim, uma cobertura, o que está de acordo com práticas conservacionistas de solo. No entanto, as inovações nessa prática estão centradas na busca de associações de herbicidas que reduzam o número de aplicações e, consequentemente, entradas na área e menor custo. Assim, da mesma forma que na dessecação, a busca de tratamentos sinérgicos com o glifosato e que proporcione ao mesmo tempo residual é importante. Também herbicidas alternativos ao glifosato são buscados para o controle de plantas resistentes e de difícil controle pelo glifosato. Em qualquer uma das etapas do manejo, o equipamento de aplicação do herbicida tem papel fundamental para a colocação correta do produto no alvo. As tendências são de que o setor florestal busque cada vez mais equipamentos tratorizados, e até aéreos, como drones, que já têm se mostrado viáveis, técnica e economicamente. A escolha de pontas de pulverização adequada para cada tipo de aplicação é uma tendência, proporcionando um padrão de pulverização para cada tipo de produto (contato x translocação x pré-emergente), assim como a escolha de adjuvantes ativadores de superfície foliar, ou condicionantes de caldas que auxiliem na eficácia e na seletividade de herbicida. Conciliar as necessidades específicas de manejo de plantas daninhas de cada área específica com as tecnologias disponíveis, a um custo compatível, sem gerar impactos ambientais, é o objetivo do silvicultor na produção do eucalipto. Porém, para isso, é necessário que o recomendante do herbicida esteja ligado nas principais inovações do setor, nunca se esquecendo de que manejar plantas daninhas não é apenas feito com a aplicação dos herbicidas, mas também com uma boa prática agrícola de implantação da cultura. No entanto o herbicida é uma ferramenta muito importante, e seu uso exige conhecimentos técnicos das inovações, sempre na busca de um aperfeiçoamento e de uma redução dos impactos negativos que as plantas daninhas causam para a cultura. n


gestão florestal

Opiniões

o papel da gestão florestal no

futuro das florestas plantadas

Quando recebi o convite para escrever sobre o tema “o papel da gestão florestal no futuro das florestas plantadas”, logo me recordei de uma pergunta que sempre faço em minhas aulas na disciplina Gestão Florestal: como é a gestão florestal atualmente? Após uma profunda reflexão, me dei conta da evolução da resposta a essa pergunta. Inicialmente, tínhamos a ideia de que, no geral, algumas empresas atuantes no setor florestal consideravam a gestão como uma “receita de bolo” a ser seguida. Claro que alguns empreendedores da área ainda mantêm essa visão, seguindo a tradição que “passa de pai para filho”, ou simplesmente a ideia que “atravessa a porteira”, pois está funcionando com fulano ou sicrano. Não que seguir uma “receita de bolo” não possa nos levar ao sucesso, no entanto, felizmente, cada vez mais as empresas atuantes no setor de florestas plantadas estão atentas às suas especificidades e passam a dar mais atenção a assuntos relacionados à gestão, como planejamento, marketing, recursos humanos, qualidade, entre outros.

Uma grande evolução para a gestão de empresas florestais. Vale destacar que a importância dessa mudança de pensamento se torna maior quando falamos de ambientes altamente competitivos, como observado em diversos segmentos do setor florestal. Acompanham essa evolução o desenvolvimento e o aperfeiçoamento de tecnologias e técnicas para o manejo de florestas plantadas e nativas, realizados principalmente em parcerias entre empresas e instituições de pesquisa. Nesse contexto, a silvicultura de precisão, que despende tempo e recursos para o planejamento das atividades, facilita a administração pela alocação eficiente desses recursos para alcançar os objetivos empresariais. No entanto, quando pensamos sobre ferramentas e técnicas de gestão, seu desenvolvimento predominantemente ocorre dentro de empresas com maior controle do processo produtivo, em ambientes industriais. Talvez o fato de as especificidades do ambiente florestal não serem consideradas nessa concepção seja um ponto positivo para os apoiadores da “receita de bolo”. Cabe aos gestores florestais o trabalho de adaptação de tais ferramentas e técnicas à realidade enfrentada no campo, aproveitando ao máximo seus benefícios.

As empresas precisam definir estratégias claras de marketing. Não me refiro apenas à propaganda, algo que particularmente considero que falta às empresas florestais, especialmente para tentar eliminar os preconceitos contra as florestas plantadas e o setor como um todo. "

Philipe Ricardo Casemiro Soares Professor de Economia Florestal da UDESC Universidade do Estado de Santa Catarina

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gestão florestal Ainda sobre o planejamento, essa era uma etapa da gestão para a qual não dávamos muito valor, enquanto procurávamos pela tal “receita”. Para o presente e o futuro, os gestores florestais devem ter ciência do papel fundamental do ato de planejar, em seus diversos níveis. Nesse contexto, temos que entender que, quando executamos o planejamento estratégico, a definição da missão e da visão não deve ser vista apenas como elaborar uma frase bonita para se enfeitar a parede, como acontecia e ainda acontece em algumas empresas atuantes nos diferentes segmentos da economia. Elas são base para tudo aquilo que a empresa vai buscar, devendo ser bem comunicada por toda a organização. Uma outra atividade que não valorizávamos e que talvez ainda não percebemos a devida importância na gestão de empresas florestais é o diagnóstico. Muitas vezes, os gestores tomam a decisão com pouco conhecimento sobre os riscos, probabilidades, possíveis causas de eventuais problemas que possa enfrentar, ou até mesmo sobre ameaças e oportunidades para a empresa. Vejo essa característica muito forte nos gestores florestais com menos experiência, que, muitas vezes, com o intuito de mostrar conhecimento e proatividade, acabam tomando decisões equivocadas, que podem gerar elevados custos ou desperdícios para as empresas florestais, sem conhecer por completo a realidade enfrentada, especialmente seus limites. Gostaria de deixar claro aqui que o comentário anterior não foi colocado como uma crítica aos gestores florestais com menos experiência. Todos nós somos seres humanos, suscetíveis ao erro, assim, temos que exercitar nosso poder de aprender com os erros, ganhando experiência. Algumas vezes, como já observei dentro de universidades brasileiras, esses equívocos podem ser gerados por estímulos indiretos dos responsáveis pela formação dos gestores. Cabe também a nós, professores universitários, além de mostrar o que seria uma situação ideal dentro da área de conhecimento de cada um, apresentar a realidade e estimular o diagnóstico e o senso crítico. Voltando à gestão florestal, um fator que necessita de muita atenção por parte das empresas que atuam no ramo de florestas plantadas é o ambiente em que estão inseridas. Com a popularização do planejamento em seus diferentes níveis dentro de empresas florestais, é fundamental que estejamos atentos às mudanças no ambiente, que é dinâmico. Essa atenção deve ser maior quando trabalhamos em ambientes de alta concorrência, o que ocorre, por exemplo, com os pequenos e médios produtores florestais.

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Opiniões Basta o anúncio de uma epidemia ou pandemia, independente da classificação dada pela OMS, para potencializar as ameaças que podemos enfrentar ou simplesmente criar oportunidades para alguns segmentos. Atualmente, estamos enfrentando tal realidade com o COVID-19 ou coronavírus. Não tenho a pretensão de gerar pânico com essa afirmação. Não espero que os empreendedores florestais saiam correndo desesperados para adquirir máscaras ou álcool em gel. Os efeitos do coronavírus sobre as pessoas e a economia, de forma geral, devem passar. O que quero mostrar é que, na análise do ambiente em que estamos inseridos, devemos atentar para diversos aspectos, mesmo aqueles que, a princípio, pareçam irrelevantes para as empresas florestais. Assim, poderemos nos preparar melhor para lidar com ameaças “catastróficas” muito mais próximas do nosso setor, como o apagão florestal. Nesse caso, vale também destacar que as empresas e os gestores deveriam ter aprendido com os acertos e os erros do evento passado. Deixando de pensar somente no lado pessimista e as ameaças enfrentadas pelo setor, as organizações e seus gestores devem ser capazes de identificar novas oportunidades de negócio, desenvolvendo produtos, processos e mercados. Em resumo, eles precisam definir estratégias claras de marketing. Não me refiro apenas à publicidade e propaganda, algo que particularmente considero que falta às empresas florestais, especialmente para tentar eliminar os preconceitos contra as florestas plantadas e o setor como um todo. Essa ação pode se tornar determinante para a sobrevivência, principalmente considerando a concorrência que enfrentamos com produtos de outros setores. Finalmente, depois de refletir um pouco sobre a administração de empresas florestais e tentando responder ao tema que me foi colocado, a gestão florestal tem papel principal no futuro das florestas plantadas no Brasil. Sozinhos, material genético e equipamentos com a mais alta tecnologia não vão levar nenhuma empresa florestal a atingir seus maiores objetivos. Para isso, as empresas precisam de pessoas, grupo que também inclui os gestores florestais. Para tranquilizar as empresas atuantes no setor de florestas plantadas, vejo que seu presente e futuro estão garantidos, uma vez que os gestores atuais e aqueles ainda em formação estão se especializando em gestão florestal, o que possibilita o correto planejamento das diversas atividades, a implementação daquilo que foi planejado e seu controle, tomando decisões de maneira mais eficiente e humana. Dessa forma, as empresas atuantes no setor de florestas plantadas conseguirão sobreviver, crescer e se desenvolver. n


ensaio especial

Opiniões

um espaço aberto para o

crescimento econômico

As preocupações com a sustentabilidade dos ecossistemas continuam sendo a pauta de muitas discussões e pesquisas no Brasil e no mundo, e o uso múltiplo na sua definição mais ampla torna-se cada vez mais popular e importante em consequência da pressão demográfica, da escassez e da competição por certos tipos de terras, do aumento da demanda dos recursos naturais, bem como pelo despertar da consciência ambiental. O conceito de uso múltiplo se encaixa bastante nesse contexto, pois traz a reflexão de que precisamos conhecer toda a potencialidade dos recursos que estão disponíveis e a melhor forma de aproveitá-los, podendo-se conciliar crescimento econômico com qualidade de vida e conservação da biodiversidade.

Apesar do tema principal deste texto ser sobre os plantios florestais, o uso múltiplo tem grande aderência às florestas nativas, em especial aos ecossistemas naturais e onde o conceito de uso múltiplo é realizado na prática a partir do momento em que há a aplicação da cultura local no aproveitamento de todos os recursos que a floresta proporciona. Hall (1972), neste contexto de interpretação, define na teoria da igual oportunidade para utilização dos recursos dois princípios, 1: o uso múltiplo não requer a maximização da produção por unidade de área e nem de determinado produto, e ele precisa somente de harmonia e coordenação de usos; 2: todos os usos têm a mesma importância.

Estudar de forma aprofundada o aprimoramento das plantações florestais no âmbito da aplicação plena do conceito de uso múltiplo seria uma das melhores formas de consolidar o manejo florestal sustentável de nossas plantações "

Roosevelt de Paula Almado

Gerente de Desenvolvimento e Tecnologia da ArcelorMittal BioFlorestas

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ensaio especial O conceito de uso múltiplo não é recente. O termo foi criado pelo serviço florestal dos Estados Unidos, na década de 1950, quando se passou a adotar o manejo dos principais recursos naturais renováveis já vislumbrando a necessidade de integração das produções agrícola, pecuária, madeireira e não madeireira, gerando benefícios diretos e indiretos e também diferentes matérias-primas e produtos. Segundo Gregory (1972), uso múltiplo é o manejo dos recursos naturais renováveis, de modo que eles sejam utilizados numa combinação que melhor atenda às necessidades da população, fazendo o mais sensato uso da terra para alguns ou todos os recursos, ou serviços, sobre grandes áreas, a fim de proporcionar subsídios suficientemente capazes de sofrer adequados ajustamentos periódicos de uso, conforme as condições e as necessidades de mudança. Desse modo, os recursos potenciais da área seriam total ou potencialmente utilizados, e as práticas de manejo florestal deveriam ser aplicadas de forma coordenada e harmônica, sem prejuízo da produtividade global e da sustentabilidade da área, considerando os valores relativos dos diversos recursos, e não necessariamente a combinação de usos que daria maior retorno financeiro ou produção por unidade de área. Pois bem, mas viemos aqui para falar de plantações florestais, e o conceito de uso múltiplo de plantações florestais vem sendo utilizado para inúmeras situações em que uma área com cobertura florestal, implantada ou não, independente das espécies presentes, apresenta mais de uma atividade fim, e, por isso, não devemos confundir com multiprodutos, os quais se referem a multiplicidade de produtos obtidos a partir de plantações florestais, tendo a madeira como principal fonte de matéria-prima. Acontece que boa parte das plantações florestais pertencem a grandes empreendimentos que atuam de forma verticalizada, e podemos classificá-las na outra teoria de Hall (1972) com relação ao uso múltiplo: trata-se da teoria do uso dominante, que se baseia no princípio de que há a necessidade de separação, no espaço e no tempo, de usos competitivos, de modo a maximizar os benefícios. Portanto há um uso principal para cada lugar. O que poderíamos entender como uso múltiplo de plantações florestais: produção de madeira para um único uso ou para vários usos; proteção de água; conservação do solo; fauna; retenção de CO2; apicultura; produção agrícola; educação ambiental; melhoria da qualidade do ar; minimização do efeito estufa; controle do efeito erosivo dos ventos; regularização dos mananciais hídricos;

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Opiniões redução da pressão sobre a vegetação nativa; utilização para fins recreacionistas; alternativa de energia renovável, etc. Muitos produtos e serviços proporcionados pelo uso múltiplo não possuem valor monetário bem definido e, portanto, são repassados a todos a custo zero. Diante de um cenário onde a competitividade nas empresas florestais é moeda-chave para a sua sustentabilidade na sua forma mais ampla, destaco oito princípios básicos: 1. Lucratividade; 2. Segurança e Saúde; 3. Proteção do Ambiente; 4. Diálogo com todas as partes interessadas; 5. Desenvolvimento de competências; 6. Inovação e qualidade; 7. Governança Corporativa; e 8. Cidadania. Precisamos nos adiantar e integrar de forma deliberada e criteriosamente planejada os usos potenciais das plantações florestais, de modo a não se conflitarem, mas complementarem-se ao máximo, gerando mais crescimento econômico, satisfazendo as necessidades das populações e garantindo as necessidades e aspirações das gerações futuras. Temos muito espaço para evoluir no conceito e na prática de desenvolver as plantações florestais para uso múltiplo dentro da definição citada anteriormente, e isso pode vir de forma planejada por nós ou poderá ser imposta devido a questões como o esgotamento dos remanescentes naturais em algumas regiões do País, levando à redução da oferta de multiprodutos, restrições impostas pela legislação, pressão ambientalista, etc. A pesquisa e o desenvolvimento são fundamentais nesse contexto, pois podem fornecer respostas e aprimorar nossas práticas visando: identificar alternativas de manejo florestal sustentável que possam viabilizar o uso múltiplo; desenvolver modelos de uso múltiplo das plantações, bem como metodologia para avaliar seu desempenho social, econômico e ambiental; propor métodos específicos de inventário de múltiplos recursos em áreas com plantações florestais; desenvolver estudos visando aperfeiçoar as atividades sustentáveis já realizadas em florestas plantadas, dentre outros. No âmbito das grandes empresas florestais, visto a complexidade da condução dos negócios atualmente, como segurança e compliance, o uso múltiplo tem restrições, porque há usos conciliáveis e usos não conciliáveis que, embora possam ser potencialmente factíveis, não podem ser realizados. Estudar de forma aprofundada o aprimoramento das plantações florestais no âmbito da aplicação plena do conceito de uso múltiplo seria uma das melhores formas de consolidar o manejo florestal sustentável de nossas plantações, integrando a conservação com a produção e o desenvolvimento. n


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