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Parque da Devesa Promessas cumpridas, desafios futuros Artur Sá da Costa Em 2002, ao assumir a presidência da Câmara Municipal, Armindo Costa definiu a criação do Parque da Cidade como um objetivo estruturante do seu consulado: “na cidade do futuro com que sonhamos vamos também dar passos concretos no projeto de criação do Parque da Cidade, na Quinta da Devesa, em Antas.” Era uma rutura face à tibieza das opções municipais até então assumidas. Nos últimos planos de atividades da gestão de Agostinho Fernandes nunca o Parque da Cidade foi mencionado como um objetivo. O que não significa que a Quinta da Devesa não tenha entrado nas preocupações daquele edil. Tudo encravou no processo tortuoso de aquisição dos terrenos. Em 1993, a Câmara Municipal teve a oportunidade de comprar toda a Quinta da Devesa por 4 milhões de euros, a pagar em quatro prestações, mas terá faltado coragem política para decidir sobre esse investimento. A proposta foi tida como razoável e colheu o apoio do então líder do PSD (OPINIÃO PÚBLICA, 16/6/1993). Acabou por ser a gestão do presidente Armindo Costa a cumprir o sonho de fazer o Parque da Cidade. Em 10 anos – entre 2002 e 2012 – foram negociados os terrenos, foi feito o projeto, resolvida a questão do financiamento e realizada a obra. Se os Paços do Concelho foram a “obra do século XX”, como chegou a escrever o jornalista Rebelo Mesquita, o Parque da Devesa fica para a história como o “monumento” do terceiro milénio. Pela grandiosidade que legitimamente reivindica; pelo que é e concretiza; pelas ruturas e inovações que faz; pelo que simboliza, aos quais acrescem os hori-

zontes que se rasgam e os desafios que a todos são lançados. É um parque muito maior do que todos aqueles que existem na cidade. Depois, explora e potencializa com atenção e sensibilidade as condições ecológicas, naturais e patrimoniais existentes, rompendo com as práticas erradas do passado. Eis um exemplo, o Parque da Devesa não esconde o rio Pelhe que o atravessa, neutralizando os erros praticados nos parques de Sinçães e da Juventude; pelo contrário, acolhe-o, regenera-o e deixa-o espraiarse. Dá-lhe vida. Ao rio, mas também à área verde e florestal, ampliandolhes as capacidades e funções, pela incorporação no espaço de vários equipamentos culturais, ambientais e de lazer. É o que acontece quando o visitante é surpreendido, nos trilhos que percorre, por espécies ar-

bóreas autóctones, por um marco miliário da via romana Cale-Bracara, ou por uma réplica, em tamanho real, do balneário castrejo, onde pode viajar na máquina do tempo. Esta dimensão que busca o não conhecido, através da experimentação, aguça a curiosidade pelo saber e pela aprendizagem em liberdade. Em todo o caso, a sua força e magia emergem do poder simbólico que concentra, bem como das potencialidades que projeta no futuro. E nos desafios que lança aos famalicenses. Desta geração e das futuras. O Parque da Devesa é o início daquilo que somos. É a nossa utopia. É a utopia que nos alimenta e desassossega, impelindo-nos a dar presente ao futuro: construir uma cidade, cúmplice com a sua história e amiga do património cultural e do

ambiente, abraçada por um corredor verde a envolvê-la, consolidando o eixo norte/sul, vindo do Palácio da Justiça até à Devesa, depois de libertarmos o Parque de Sinçães dos seus fantasmas e constrangimentos, para seguir o leito regenerado do rio Pelhe até Ribainho; com ele convergirá o eixo este/sul, partindo do Parque do Vinhal, para se expandir pelos parques 1º de Maio e da Juventude, libertando da lei da morte o ribeiro que desce de Brufe e se esconde do olhar e do usufruto dos munícipes. Porém, este é apenas o primeiro elo da estrutura ecológica de sustentação da cidade verde, que os urbanistas há várias décadas desenharam, e está inscrita na carta dos direitos da cidadania contemporânea. Uma cidade saudável necessita de um outro anel verde, que a

alimente e a proteja. O Parque da Devesa, e em particular a sua área florestal, é uma parte desse todo. Este é o tempo de exigirmos um corredor/anel arbóreo e paisagístico, mais largo e amplo, que se estenda em volta de toda a cidade: protegendo e preservando os montes que se estendem de Cruz (S. Tiago), expandem-se pela mata de Pindela, prolongam-se por Brufe, Vinhal, Reguladora, Facho / Santa Catarina e penetram no castro de S. Miguel-oAnjo. A defesa e valorização deste anel verde são essenciais para a qualidade do ar que respiramos, como na manutenção do equilíbrio ecológico do território e da beleza da cidade que habitamos e que queremos legar aos nossos vindouros. Afinal, o parque é o início daquilo que queremos ser! pub


II

especial: 26 de Setembro de 2012

especial

Armindo Costa, presidente da Câmara Municipal de Famalicão, em entrevista

“Este é o pulmão de Famalicão, o Parque da Devesa é de todos os famalicenses” Depois de várias décadas de espera, eis que se concretiza, finalmente, o sonho de muitos presidentes de Câmara de Famalicão e dos famalicenses. A próxima sextafeira ficará marcada na história de Famalicão com a inauguração do Parque da Devesa, um equipamento que reúne natureza, história, lazer, desporto, inovação e criatividade. A obra nasce sob a alçada do autarca Armindo Costa, que confessa que passou algumas noites sem dormir, mas que sente hoje que o dever foi cumprido. Sofia Abreu Silva OPINIÃO PÚBLICA: Qual é a sensação de estar a poucos dias da inauguração do Parque da Devesa? É um sonho com mais de 50 anos dos famalicenses… é uma promessa pub

eleitoral cumprida? ARMINDO COSTA: É, sobretudo, uma sensação de enorme satisfação e de dever cumprido. Sinto-me um homem feliz. O Parque da Cidade é uma obra desejada por várias gerações de famalicenses, desde a presidência de Álvaro Folhadela Marques, na década de 1950. E eu tenho o privilégio de, enquanto presidente da Câmara Municipal, concretizar este sonho. Não foi fácil chegar aqui, mas sinto que todo o esforço que foi feito, toda a dedicação que tive, todas as noites que passei sem dormir a pensar como resolver os diversos problemas vão agora ser recompensados.

Como já referi não foi um processo nada fácil. Mas o caminho foi-se fazendo caminhando, com pequenos mas seguros passos. Primeiro foi preciso negociar os terrenos com os proprietários, num longo e penoso percurso. Depois apresentamos uma candidatura aos fundos comunitários de forma a conseguirmos arranjar financiamento para a obra e, finalmente, procuramos criar um projeto consensual por todos os famalicenses. Foi um caminho longo e difícil, mas, sem dúvida, desafiador e gratificante.

Disse, no dia em que entregou a obra à empresa de construção, que pensava que era mais fácil avançar Para que os famalicenses com- com a construção. Alguma vez adpreendam, como foi organizado o mitiu que não era possível termiprocesso para que este Parque se nar esta obra? tornasse uma realidade? Não, nunca me passou tal coisa pub


especial pela cabeça. Não sou homem de desistir de um projeto em que acredite. E eu sempre acreditei na concretização do Parque da Cidade. Lembro-me perfeitamente o que referi nessa altura. O que eu disse foi que tivemos de ultrapassar muitas dificuldades para lançar a obra no terreno e que uma coisa é sonhar e outra é concretizar. A verdade é que no início pensei que fosse mais fácil chegar até aqui. Tivemos de ultrapassar muitas dificuldades: negociar os terrenos, ultrapassar burocracias… E isso é tudo muito desgastante. Mas desistir? Não, nunca! Que espaços tinham que, obrigatoriamente, existir e que eram indispensáveis do seu ponto de vista? O programa de ação definido para o Parque da Cidade aponta para a criação de um corredor ecológico cultural, associado a estruturas de conhecimento e inovação requalificadas e plenamente integradas numa nova centralidade urbana da cidade, do concelho e da região. Isto significa que o Parque da Devesa não é apenas um parque verde é muito mais do que isso. Com a criação do Parque conseguimos regenerar uma área central que estava desqualificada. Dotamos Famalicão de um parque verde urbano de excelência, oferecendo espaços verdes em abundância e qualidade, mas também espaços desportivos de manutenção. Por outro lado, com a construção da Casa do Território conseguimos criar um equipamento cultural inovador, com excelentes condições para receber grandes exposições e outros eventos e com serviços de restauração, para as pessoas poderem usufruir plenamente do parque. O anfiteatro ao ar livre complementa a oferta cultural na cidade. Mas há mais, com a despoluição do rio Pelhe contribuímos para a qualificação ambiental da cidade. O projeto envolveu ainda a criação de um conjunto de novas acessibilidades ao parque, o que veio contribuir significativamente para a melhoria

especial: 26 de Setembro de 2012 III O Parque da Devesa juntou alguns parceiros. Ou seja, não é um equipamento exclusivamente municipal… O município não está sozinho neste projeto. Temos como parceiros a Adrave, o Citeve, a Associação de Moradores das Lameiras e a Escola Superior de Saúde do Vale do Ave. Estas instituições, que há muitos anos têm a sua vida nas imediações do parque, têm o seu projeto e a sua responsabilidade pela construção de uma cidade que é de todos. Estamos, por isso, perante um novo paradigma da gestão autárquica, em que o município partilha responsabilidades com os atores da cidade. É com esta gestão participada que estamos a construir a cidade do futuro.

da rede viária urbana. Acima de tudo, o Parque da Devesa teria de ser um projeto que iria de encontro ao compromisso da Câmara Municipal de fazer de Famalicão um pólo de bem-estar, de desenvolvimento e de qualidade de vida. E tenho a certeza que isso foi conseguido. Temos um Parque da Devesa que junta a qualificação urbana, a valorização patrimonial e a fruição ambiental, lúdica e desportiva. Tudo foi pensado para a conjugação destes fatores? Sim, sem dúvida. Eu costumo dizer que o Parque da Devesa é a maior obra de sempre nos 175 anos de história do município de Famalicão. Digo isto, exatamente pela conjugação de fatores que esta obra envolve. É a maior obra por vários motivos. Pela dimensão de espaço urbano qualificado, pelo nú-

Como será feita a gestão do Parque da Devesa? A gestão do Parque da Devesa será da responsabilidade do município. Mas os parceiros continuarão a desenvolver um papel importante na realização de iniciativas e mero de agentes e instituições que mobili- atividades de promoção do parque. Assim zamos no terreno e, claro, pelas consequên- como toda a população. O Parque da Devesa cias na qualificação da cidade e na qualifi- é uma infraestrutura que vai servir todos os famalicenses e todos têm uma palavra a dicação do concelho. zer. Qual a mais-valia deste Parque da Devesa Uma mensagem que gostaria de deixar ficar para a vida das pessoas? O Parque da Devesa é um projeto estrutu- aos famalicenses... rante para o ambiente e para a qualidade de A concretização do Parque da Devesa reprevida de todos os famalicenses. O Parque da senta a concretização de um sonho, um soCidade é um fator de desenvolvimento sem nho ambicionado por várias gerações de faprecedentes no concelho de Famalicão, com malicenses. Por isso, se para mim, enquanto consequências positivas no ambiente, no autarca, é um privilégio inaugurar esta obra, desporto e na cultura, mas também na qua- para os famalicenses deve ser igualmente lificação, na inovação tecnológica e no em- um orgulho. Este é o pulmão de Famalicão. prego. Resumindo, a mais-valia do Parque Espero que os famalicenses sintam o seu da Devesa incidirá, sem dúvida, numa me- pulsar e o seu respirar e que cuidem do parlhoria significativa da qualidade de vida de que como cuidam das suas casas, porque o todos os famalicenses nas mais diversas ver- Parque da Devesa é de todos os famalicenses. tentes. pub


IV

especial: 26 de setembro de 2012

EN GI RA MA Projectos de Construção, Lda.

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especial

especial: 26 de Setembro de 2012

V pub

Dos Paços do Concelho ao Parque da Devesa

Jardins públicos: um século de história Artur Sá da Costa Por mais estranho e paradoxal que nos possa parecer, a “Vila” de Famalicão, à entrada do séc. XX, possuía apenas um jardim público: o dos Paços do Concelho, construído no último quartel de oitocentos, pela geração de Tinoco de Sousa/Barão de Trovisqueira. Num rasgo visionário, ergueram de raiz os novos Paços do Concelho, expandindo a vila para nascente, criando um novo centro político e um – o primeiro – jardim público. Nestas contas, ter-se-á que abater o campo da feira que àquela época conquistava espaço, expandindo-se para sul, libertando-se das barracas, para desempenhar estoicamente a nobre e importante função de centro económico e social, acolhendo a feira semanal e as duas feiras francas anuais. É esta a herança que a monarquia deixa aos republicanos famalicenses, quando assumem o poder municipal, três dias volvidos sobre a revolução do 5 de outubro de 1910. E se a instrução e o ensino são, como se sabe, preocupações centrais do ideário e da ação da I república, eles elegem, sobretudo a partir de 1922, com o presidente Júlio de Araújo, o urbanismo e o ordenamento do território como questões prioritárias da ação governativa. Sem esquecer as obras de arranjo dos jardins dos Paços do Concelho, que abriram aos cidadãos, derrubando a cerca que o vedava, os autarcas republicanos apresentaram dois projetos inovadores e estruturantes: a “extinção da bandeira” e a abertura de uma avenida para ligar o centro urbano com a estação do caminho-de-ferro. No primeiro caso, tratava-se de nivelar a fachada leste do campo da feira. Como afirmou Júlio de Araújo: “vamos quadrar o campo da feira e ficará o rossio mais amplo e mais lindo de Portugal”. No caso da avenida, o objetivo era aproximar o centro da periférica estação do caminho-de-ferro e interligar o centro político (Câmara Municipal) e o centro económico (feira) com a gare das partidas e chegadas, dando, pela primeira vez uma dimensão urbana a Famalicão. O visionarismo e a ousadia de Júlio de Araújo ampliam-se à medida que o tempo escoa. Na década de 40, a avenida ficou concluída, tendo a meio um parque público, hoje sob a forma de rotunda, que o presidente Benjamim Salgado concretizou no final dos anos 60. É o segundo a inscrever o seu nome nos anais do município. Em janeiro de 1969, quando Benjamim Salgado se despediu de presidente da Câmara, fez um discurso de balanço, enfatizando o “ aformoseamento” da Vila. Tudo se resumiu à organização do jardim D. Maria II e na transformação em rotunda do parque I de Maio. Do slogan excluiu, obviamente, a divisão

Jardins dos Paços do Concelho, final do século XIX

em dois do campo da feira, ao optar por erguer no coração da Vila a Fundação Cupertino de Miranda. É este o legado do Estado Novo. Uma cidade espartilhada entre a linha do caminho-de-ferro e a nacional 14, a esventrar as suas entranhas, corroendo-a de barulho e poluição, com três pequenos jardins/parques públicos. E a cercá-la, imobilizando-a, estavam as quintas e as casas rurais e senhoriais. A liberdade conquistada com o 25 de abril serviu de suporte para por termo a este ambiente de claustrofobia urbana. O “assalto” às quintas rompeu pelo elo mais frágil a nascente, com a implantação do complexo habitacional das Lameiras e da Central de Camionagem. A

só foram contestadas, como conduziram a um beco sem saída. Louvese em seu benefício a construção do parque da Juventude. Mesmo assim enferma do pecado original crónico das políticas ambientais praticadas entre nós: enterrar os rios, como em Sinçães, privando-os do olhar e do usufruto dos cidadãos. Se à entrada do séc. XX existia na cidade de Vila Nova de Famalicão apenas um jardim público, na viragem do milénio, as áreas verdes (jardins e parques) não excedem a meia dúzia. Seis jardins/parques num século! E, sublinhe-se, nesta conta, haverá que adicionar o parque do Vinhal e esquecer que o parque de Sinçães está por concluir e ignorar que o jardim da praça D. Maria II

Parque da Devesa, Setembro de 2012

par desta explosão voluntarista e descontrolada prosseguiu a descaracterização, iniciada com Benjamim Salgado, do perfil da praça D. Maria II, permitindo-se a construção em altura e a destruição de ícones arquitetónicos, como o cinema Olímpia. Neste contexto, a quinta de Sinçaes, às portas da cidade, foi exceção, onde todos as esperanças se concentraram. A grande espectativa era a construção de um grande parque urbano. Foi a coligação PS/CDS, quem adquiriu os terrenos, mas foi o governo municipal do PS que assumiu o encargo de construir o parque. Agostinho Fernandes teve todas as condições para o concretizar. Porém, levou tempo a decidir e escolheu as piores das soluções. Não

aguarda por melhores dias. Com esta agravante, absurda e intrigante: entregaram-nos uma cidade desordenada, com o casco histórico descaracterizado, as zonas de expansão desconjuntadas, sem centros de referência e, pasme-se, sem áreas verdes. Nesta emergência, com uma cidade em perda de identidade, carente de espaços verdes, os famalicenses, escorraçados da sua própria cidade, projetaram o seu imaginário coletivo na Quinta da Devesa, agora transformada no parque verde da cidade. Muitos sonhos sonhados estão lá materializados. Quantos se perderam? Outros, muitos mais, nascerão, na vivência e experimentação em liberdade que ele nos oferece e proporciona.


VI

especial: 26 de Setembro de 2012

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especial: 26 de Setembro de 2012 VII

especial

Noé Diniz: o arquiteto que projetou o sonho coletivo O projeto do Parque da Devesa é da autoria do arquiteto Noé Diniz. A poucos dias da inauguração, o arquiteto conta que teve a missão de realizar um sonho coletivo dos famalicenses. “ Foi uma grande responsabilidade como arquiteto e um enorme orgulho como famalicense”, começa por dizer. Sobre o projeto da Devesa, Noé Diniz diz que para um arquiteto criar um projeto, seja ele qual for, há sempre um percurso comum. “É como fazer um filho. Para que sejam desejados e felizes, terá que existir muito amor. Depois, dedicação e trabalho. E foi o que aconteceu”, refere. A Quinta da Devesa, o local escolhido, contemplava imensas vantagens. “Uma parte do possível êxito do projeto devo-o ao sítio”, acrescenta, sublinhando, particularmente a integração de uma valência cultural marcante que se espera que seja um “polo de animação cívica do povo famalicense”. Trabalhando num espaço naturalmente rico, a preocupação dominante foi conjugar as características particulares do local e das construções

existentes. “Depois, coube preservar as espécies vegetais que ainda existiam e integrá-las no plano geral do parque”, explica. O projeto do Parque da Devesa, pela sua complexidade, é uma obra singular na vida deste arquiteto famalicense. “Tornar aprazíveis 27 hectares de terra abandonada e povoada de espécies infestantes, para agora serem usufruídos da forma mais diversa e particular; projetar os edifícios que, embora em ruína, testemunhavam memórias passadas e dar-lhes de

novo vida e significado; e fazer com que tudo isto se transformasse num conjunto harmonioso e vivo, foi o meu grande desafio”. Recorde-se que antes do Parque da Devesa, Noé Diniz projetou, na década de 80, o edifício das Lameiras, que fica ao lado do novo equipamento. “Tenho aqui duas das minhas obras mais significativas e às quais estou mais ligado afetivamente, as Lameiras e o Parque da Devesa. Embora separados no tempo e nos objetivos são duas utopias que penso ter realizado”.

Programa vai decorrer de sexta-feira a domingo

Três dias de festa para inaugurar “O Nosso Parque” O Parque da Devesa lançou uma campanha de inauguração intitulada “O Nosso Parque”, convidando os famalicenses para três dias de animação, que se inicia na sexta-feira, dia 28, e se prolonga até domingo à noite. A campanha inclui outdoors, banners, imprensa e difusão através das redes sociais da internet. A ideia de convidar as pessoas a descobrir “O Nosso Parque” surgiu precisamente na página oficial do parque no Facebook, onde os visitantes começaram a referir-se ao Parque da Devesa dessa forma. Assim, a equipa responsável pelo desenvolvimento deste projeto, mais não fez do que “transpor para a campanha a ideia e o sentimento de posse dos famalicenses”, explica em nota à imprensa. A campanha pretende atingir não apenas os munícipes da cidade, mas de todo o concelho, pelo que contempla outdoors nos principais polos populacionais, nas três vilas do município – Joane, Riba d’Ave e Ribeirão –, estendendo-se ainda a um jornal de cariz nacional, como forma de dar a conhecer este equipamento fora do concelho. O Parque da Devesa será oficialmente inaugurado pelo presidente da Câmara, Armindo Costa, pelas 16 ho-

ras, do dia 28, seguindo-se idêntica cerimónia na Casa do Território, um dos seus equipamentos mais importantes. Emblemática será a concha acústica do anfiteatro ao ar livre que, ao final da tarde, receberá o seu primeiro concerto, integrado numa cerimónia solene que abrirá a festa que decorrerá durante todo o fim de semana. Uma exposição, atividade desportiva, muita música, atuações artísticas, ações de sensibilização ambiental e outras atividades, para todas as idades e gostos, estender-se-ão pelos três dias e noites. A maioria dos artistas e organizações que marcarão presença nas atividades de inauguração são do concelho de Famalicão. No dia 28 à noite destaca-se o Espetáculo do Traje Cantares Populares. Já no dia 29 haverá, à tarde, um encontro de bandas filarmónicas e, à noite, concertos de Gospel e Rock. No dia 30 a tarde será preenchida com um festival de folclore, enquanto à noite tem lugar um espetáculo de artistas e grupos musicais intitulado “Chão de Estrelas”. Também os vários parceiros que acompanharam a Câmara Municipal de Famalicão neste projeto – Adrave, AML, CESPU e Citeve – terão a sua participação nos eventos. pub


VIII

especial: 26 de setembro de 2012

especial

Património Cultural Balneário Castrejo Réplica em tamanho real do monumento existente no monte das Eiras, Pousada de Saramagos, da fase proto urbana da cultura castreja (séc. Ia. C., Id. C.), destinado a banhos, associados a uma envolvência religiosa. O imóvel tem à entrada a Pedra Formosa em granito cinzelado. Em 1880 foi identificado pelo Arqueólogo Martins Sarmento, tendo o Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão retomado as escavações em 1990.

Marco Miliário Um dos três marcos miliários da via Romana Olisipo/Bracara Augusta ainda existentes no território de V.N. de Famalicão, que passaria nas imediações da quinta da Devesa. Está classificado como monumento nacional e integra a Carta do Património do Plano Diretor Municipal.

Casa do Território Centro pluridisciplinar de debates e reflexões, que simboliza no seu nome o de todos os famalicenses e o conjunto do território das 49 freguesias do concelho.

Pontão de Antas Pequena ponte medieval sobre o rio Pelhe, hoje desativada. Faz parte da Carta do património do PDM (Plano Diretor Municipal), como imóvel de interesse municipal, classificação reafirmada pela deliberação do executivo municipal de 10/12/2001.

Desafios e obstáculos para a edificação do equipamento

Construtora ACA executa obra num ano

A obra do Parque da Devesa foi entregue à empresa Alberto Couto Alves SA, que teve um período de 10 meses para colocar o equipamento à disposição dos famalicenses. A equipa técnica, responsável pela construção, foi constituída pelos engenheiros Maria Antónia Casinhas, Celso Pereira, Pedro Colaço e Nuno Castro. A obra da construção do Parque da Devesa dividiu-se, essencialmente, em dois tipos diferentes de trabalhos de construção. De um lado, a construção de 5 edifícios e do outro lado os trabalhos de paisagismo e requalificação do rio Pelhe. Na construção dos edifícios houve duas situações distintas, uma previa a construção de raiz de dois edifícios, o de apoio ao parque e o anfiteatro; a outra, a reconstrução de três edifícios: restaurante/cafetaria, serviços educativos e Casa do Território. Os principais trabalhos realizados na construção dos edifícios foram trabalhos de betão armado, alvenarias, infraestruturas elétricas e hidráulicas, divisórias e forras de paredes em placas de fibras de gesso, tectos falsos, carpintarias, coberturas em camarinha de zinco, reconstrução e reabilitação de muros de pedra, além de arranjos exteriores na envolvente dos edifícios. Já na construção do Parque e requalificação do rio Pelhe, as principais atividades que se desenvolveram foram trabalhos de terraplenagem para permitir a modulação do terreno, abertura de um lago, pavimentação de caminhos, construção de pontes metálicas para ligar os caminhos de ambas as margens, plantação de árvores e preservação de algumas existentes, sementeiras, estabilização das margens do rio

Pelhe, construção de açudes no rio e construção de um novo moinho. Na verdade, habituada a obras de elevado nível técnico, entre as quais se destaca a requalificação Urbanística da Praça do Toural em Guimarães, execução do Velódromo Nacional de Sangalhos, Parque da Cidade da Mealhada, entre outras, para a ACA é sempre aliciante colocarse à prova perante novos desafios. “O maior foi a construção da cúpula do anfiteatro”, aponta a equipa, que devido à sua configuração requereu sistemas de cofragem não usuais na construção tradicional de estruturas de betão armado. “Como no mercado não existiam sistemas modulares para esta estrutura, foi necessário construir uma cofragem em obra com recurso a peças de madeira bastante esbeltas por forma a garantir a exacta fisionomia da estrutura mantendo os corretos raios e curvaturas projetadas”, explicam os engenheiros. Outras dificuldades tiveram a ver com as estruturas existentes e que tinham de ser preservadas, porque faziam parte dos novos projectos de arquitetura, e também com a trabalhabilidade dos terrenos junto ao rio no inverno, nomeadamente quando se verificavam ocorrência de chuvas.

Tratando-se de uma obra de alguma dimensão e com o objectivo claro de cumprir os prazos inicialmente previstos, a ACA delineou uma estratégia que passou por dividir a empreitada conforme os tipos de trabalhos existentes. Optou-se por coordenar os trabalhos da empreitada em duas vertentes, a dos edifícios e a do paisagismo e com dois diretores de obra a coordenarem as duas separadamente, mas sempre com o objectivo claro da conclusão atempada da empreitada no seu todo. Assim permitiu que cada um se focasse mais especificamente nos trabalhos da sua responsabilidade. Apesar de em Portugal se estar a atravessar um “período muito difícil no sector construção, e com visíveis dificuldades de cumprimento por parte de muitos subempreiteiros que são obrigados a dispensar recursos humanos para reduzir custos”, à ACA foi colocado um desafio extra de incutir mais motivação às equipas para manter em obra o número de trabalhadores necessários para atingir o cumprimento dos prazos. “Foi tudo plenamente conseguido. Foi ainda cumprido rigorosamente o plano de equipamentos definido para a obra por forma a terminar os trabalhos no prazo planeado”.

A obra em números  A obra do Parque da Devesa desenvolveu-se numa área de 270.000m2.  Foram movimentados cerca de 400.000 m3 em escavação e aterro.  Realizaram-se cerca de 5.500m de caminhos, 2.500m no caminho principal de 3.000 em caminhos secundários.  O número médio de trabalhadores da obra foi de 72 homens por dia, havendo picos em que estiveram mais de 120.


especial

PARCEIRO Adrave: sensibilização para a natureza

A Adrave – Agência de Desenvolvimento Regional do Vale do Ave é um dos parceiros do “Programa de Ação Parceria para a Regeneração Urbana do Parque da Devesa”. A Adrave desenvolveu a implementação do Projeto Unidade de Biologia e Educação Ambiental, apoiando tecnicamente a recuperação de habitats naturais, desenvolvendo atividades didático-pedagógicas em torno da natureza e do ambiente, bem como concebendo e produzindo materiais de informação, além de sensibilizar e mobilizar o público. Desta forma, e em resultado das atividades desenvolvidas em parceria com a Universidade do Minho, através da Sociedade Portuguesa de Vida Selvagem, com o Centro de Estudos e Atividades

Ambientais (CEAB) do município de Famalicão, com as escolas e a comunidade famalicense, a Adrave acredita ter contribuído de forma transversal para a valorização dos parques urbanos, em geral, e do Parque da Devesa, em particular. “Não poderíamos deixar de nos associarmos à criação e dinamização do Parque da Devesa, um projeto de elevada importância na qualificação do espaço urbano da cidade de Famalicão e um importante equipamento de usufruto e lazer para as populações locais”, refere Joaquim Lima, administrador delegado da Adrave. Assim, as cidades, para além do seu edificado, patrimonial e moderno, têm um papel importante na proteção da natureza e

no equilíbrio do ecossistema. “A conservação da biodiversidade, a conservação dos solos, a gestão da água e regularização dos recursos hídricos, são desafios da maior importância, aos quais as cidades e as pessoas não podem de modo algum permanecer indiferentes”, defende. No Parque da Devesa, que integra uma área com 27 hectares, “foi possível conservar muitas das espécies arbóreas preexistentes e introduzir novas, constituindo um espaço de biodiversidade ímpar”, descreve Joaquim Lima, recordando que assegurar a sustentabilidade ambiental é o sétimo objetivo de desenvolvimento do milénio. “O Parque da Devesa poderá contribuir para alcançar este desígnio global e para garantir uma melhor qualidade de vida para nós e para as gerações vindouras. Este será, sem dúvida, um importante legado”, refere. De resto, no entender de Joaquim Lima, o “Programa de Regeneração Urbana do Parque da Devesa” funcionou como “um laboratório de trabalho em equipa, de partilha de metodologias, que criou rotinas e práticas de trabalho colaborativo que poderão ser transferíveis para outros projetos, com ganhos de eficácia e eficiência muito significativos”.

especial: 26 de setembro de 2012 IX

PARCEIRO Citeve: a indústria perto de todos

O Citeve está, desde a primeira hora, intimamente envolvido neste grande projeto de oferecer o Parque da Devesa aos famalicenses e a quem visita a cidade. Logo à partida, o Citeve cedeu os seus terrenos para a instalação do parque, mas, numa ligação de parceria muito forte com a Câmara de Famalicão, também recondicionou o seu edifício de modo a melhor integrá-lo no conjunto do parque. Projetou ainda e implementou um novo espaço, a indústria interativa, para permitir aos jovens o contacto com a ciência e os processos industriais. Segundo o diretor-geral, Braz Costa, com a construção do parque, o Citeve “melhora de forma extraordinária o espaço em que desenvolve as suas atividades e ainda alcança muito maior visibilidade, pela extensa confrontação que faz como espaço do Parque”. No entender deste responsável, “trata-se, claramente, de uma utilização nobilíssima para um espaço que antes os famalicenses não poderiam utilizar”. Será, assim, “com satisfação que o Citeve verá o centro de gravidade do desporto, do lazer, da cultura e das artes de Famalicão a aproximar-se das suas instalações”. Na semana de inauguração do Parque da Devesa, o diretor-geral do Citeve deixa ainda elogios ao “excelente exemplo de colaboração, entendimento e de alinhamento de objetivos, durante todo o processo que levou à materialização do Parque da Devesa, entre o Citeve e os responsáveis da Câmara de Famalicão”. pub


X

especial: 26 de Setembro de 2012

especial

PARCEIRO Lameiras está a tornar-se um ecobairro O Edifício das Lameiras, o Centro Social das Lameiras e a Associação de Moradores das Lameiras (AML) fazem parte do perímetro do Parque da Devesa. Quando a Câmara de Famalicão gizou o projeto do parque, para apresentar a candidatura aos fundos comunitários, convidou todas as organizações que operam dentro da sua área geográfica. A Associação de Moradores das Lameiras, que gere o Centro Social e o Edifício das Lameiras, não podia ficar de fora. A associação teve que estudar, em conjunto com o gabinete do município famalicense, um projeto que se adequasse com o parque e com uma zona residencial de média dimensão. O Ecobairro foi, assim, o projeto escolhido para concretizar no complexo habitacional. Depois de aprovado, as Lameiras foram incluídas no Consórcio do Parque da Devesa e foram concretizadas uma série de ações que tiveram e continuarão a ter fortes repercussões no meio en-

volvente. Foi realizada a distribuição de ecopontos domésticos em todas as habitações, a substituição de lâmpadas incandescentes por lâmpadas de baixo consumo, diversas iniciativas de sensibilização para a preservação do meio ambiente nas escolas e com a população, a realização da primeira mostra de energias alternativas realizada num bairro social a nível nacional, a criação de locais de estacionamento para bicicletas e a instalação de painéis solares para o

aquecimento de águas quentes de apoio ao desporto, entre outras. “O comportamento da população tem melhorado muito no que diz respeito à preservação do meio ambiente. Aumentámos em cerca de 40% a recolha de produtos separados para reciclagem. As pessoas começaram a convencer-se de que também são atores sociais, sobretudo no que diz respeito à sustentabilidade ambiental”, aponta Jorge Faria, presidente da direção da AML.

Para este responsável, o projeto Ecobairro das Lameiras serviu de laboratório de experiências “muito interessantes” concretizadas com a população residente e o meio envolvente. Esperase, agora, que partindo desta experiência do Parque da Devesa “se caminhe para fazer da cidade de Famalicão uma ecocidade”. Segundo Jorge Faria, existem todos os ingredientes necessários para que tal aconteça, “basta haver vontade política e parece-nos que existe”.

É o resultado da investigação coordenada por Emília Nóvoa

Exposição do Parque da Devesa percorre o país O Parque da Devesa será um grande pulmão para a cidade e uma obra estruturante para todo o concelho. Situado numa zona nobre de Famalicão, na freguesia de Antas, este “pedaço” de terra serviu já várias gerações de famalicenses, tanto como espaço de exploração agrícola ou como habitat natural protegido. É justamente a história do Parque da Devesa que dá o mote para a primeira exposição da Casa do Território, um equipamento cultural inovador inserido no Parque da Devesa. A exposição intitulada “Devesa: Percursos” abre ao público logo após a inauguração do parque e ficará patente até setembro de 2013, iniciando depois uma itinerância pelo país. Promovida pela Câmara Municipal, a exposição é fruto de um trabalho de investigação exaustivo coordenado por Emília Nóvoa, técnica do Arquivo Municipal Alberto Sampaio, e que envolveu a colaboração de diversas instituições nacionais, assim como fundos documentais de várias famílias. De acordo com a coordenadora da exposição, Emília Nóvoa, vários são os olhares que se cruzam no Parque da Devesa da cidade de Famalicão. “Perscrutar os cenários visíveis diante dos nossos olhos e aqueles que se reconstroem a partir do imaginário com o recurso às fontes históricas e a imagens do passado, é o que propomos ao visitante no percurso expositivo organizado em torno de quatro áreas temáticas: Devesa Regeneração Urbana, Devesa Natural, Devesa Rural e Devesa Antiqua e Património”. Dessa convergência dos “olhares do presente e do passado se faz, assim, o Parque da Devesa de Famalicão”, acrescenta Emília Nóvoa. pub


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