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A REVISTA O MENELICK 2º ATO É UMA PUBLICAÇÃO TRIMESTRAL DA

MANDELACREW

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COMUNICAÇÃO

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DIRETOR NABOR JR. I MTB 41.678 I nabor@omenelick2ato.com DIAGRAMAÇÃO

RODRIGO

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CONSELHO EDITORIAL ALEXANDRE ARAÚJO BISPO, CHRISTIANE GOMES, LUCIANE RAMOS SILVA, NABOR JR. E RENATA FELINTO. DISTRIBUIÇÃO GRATUITA EM CENTROS CULTURAIS, SARAUS, GALERIAS DE ARTE, SHOWS, FEIRAS, FESTIVAIS, CASAS DE ESPETÁCULOS, LOJAS, BIBLIOTECAS, TEATROS, BOTECOS E ZONAS DE CONFLITO. CONTATO revista@omenelick2ato.com / ANO IV – EDIÇÃO ZER0XIII

pág 3 Paulo Nazareth e Moisés Patrício. What is the color of my skin? / Qual é a cor da minha pele?, 2013. 30 X 30 cm.

APOIO

pág 5 Arthur Bispo do Rosário. Lutas, 1938 – 1982. pág 7 SAMUEL FOSSO. Sem Título, 2008.


Q U I LOM a B O

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1 LUCIANE RAMOS SILVA 2 CARMEN FAUSTINO 3 MARIANA GABRIEL 4 MARIANA SANTOS DE ASSIS 5 SERENA ASSUMPÇÃO 6 AKINS KINTE 7 MATHEUS GATO DE JESUS 8 NABOR JR. 9 NAYARA DE DEUS 10 RENATA FELINTO 11 CHRISTIANE GOMES 12 VALÉRIA ALVES

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CRÍTICA LITERÁRIA

30 Afetos Correlatos

Sol, fogo, força e resistência 42

MARIANA SANTOS DE ASSIS

S U A AMÁ R I O

ENTREVISTA MATHEUS GATO DE JESUS

MÚSICA

36 Com os pés no peito do mundo

FUTEBOL Sobre diamantes e bananas 16

NAYARA DE DEUS

CINEMA

VALÉRIA ALVES

POESIA

82 Na sala com Ari

Café Amargo 70

AKINS KINTE e NABOR JR.

CARMEN FAUSTINO

COMPORTAMENTO

91 Yellow Fever LUCIANE RAMOS SILVA

63 A Paixão de Cláudia RENATA FELINTO

ARTES VISUAIS Sidney Amaral 01/100 Paulo Nazareth 03 Moisés Patrício 03 Arthur Bispo do Rosário 05 Samuel Fosso 07

MEMÓRIA

Eustáquio Neves 14

53 Em nome do pai

Victor Mikalonis 19

NABOR JR.

23 Minha avó era palhaço MARIANA GABRIEL e CHRISTIANE GOMES

72 As sementes de Itamar SERENA ASSUMPÇÃO

Kehinde Wiley 21 MLOK 22 MANDELACREW 34/80 Caio Vitor 62 Renata Felinto 70 Carrie Mae Weems 90


Eustáquio Neves .Série Futebol , 1997.

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PARA O CENTRO E AVANTE

texto Valéria Alves

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ltimamente temos acompanhado pela mídia impressa, noticiários de TV e programas de entretenimento o aumento no número de casos de racismo no futebol mundial envolvendo, principalmente, jogadores negros, muitos deles brasileiros, e torcidas compostas majoritariamente por pessoas brancas.

SOBRE DIAMANTES E BANANAS

Nesses noticiários a impressão que se tem é: manifestações racistas no futebol são fenômenos contemporâneos e devem ser combatidos. No Brasil, os casos mais recentes envolvendo jogadores negros foram alvo de repulsa imbuída de uma vontade enorme de combater esse tipo de comportamento nos estádios de futebol. No entanto, essa repulsa disfarça o maior, mais elaborado e antigo crime perfeito: o racismo que transita livremente nas falas, gestos, comportamentos e olhares de uma grande parcela da população brasileira.

LEÔNIDAS DA SILVA: A MAGIA NEGRA DO FUTEBOL BRASILEIRO

O racismo, dentro e fora dos campos de futebol e em outros esportes, sempre existiu, e não é algo fruto do século 21, da ascensão e expansão das redes sociais ou de mentes maldosas. No Brasil, há uma etiqueta racial que juntamente com a concepção de uma democracia ou harmonia racial, torna velado e não nomeável atitudes de descriminação e desigualdades baseadas na cor da pele dos descendentes de africanas e africanos. A “repulsa” contra atos racistas no futebol fez surgir, por exemplo, uma campanha que tinha como “estrela” um dos maiores símbolos racistas contra o negro: a banana. Por desconhecimento, ignorância, vontade de fazer barulho e deixar tudo como está e como sempre foi, ou seja, “cada um no seu lugar” foi elaborada uma campanha publicitária que ao invés de descortinar e revelar a face dos racistas, reforçou os estereótipos e barrou o diálogo entre brancos e negros na resolução desta questão que nos é cara. A campanha apenas estimulou a impunidade de um crime. Veremos como Leônidas da Silva, apelidado de Diamante Negro, mesmo sofrendo constrangimentos de toda sorte, decidiu não engolir bananas e o racismo expresso nela.

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O centroavante Leônidas da Silva nasceu em São Cristóvão, Rio de Janeiro, em 1913. Educado pelos pais para ser advogado ou médico, deixou os estudos de lado para se dedicar àquilo que mais gostava de fazer e que sonhava um dia ser a sua verdadeira profissão: jogar futebol. O primeiro clube que Leônidas jogou foi o São Cristóvão, no final dos anos 20. O talento e as jogadas criativas nunca vistas antes fizeram com que rapidamente o clube perdesse o jogador para outras equipes como o Bonsucesso, Sul-América e Sírio Libanês. Alguns jornalistas esportivos o chamavam de “mulato invocado e cheio de gás”. Em 1932, vestindo a camisa do Bonsucesso, Leônidas inventou e eternizou uma jogada que até hoje craques de diferentes times fazem, ou tentam fazer, a famosa Bicicleta. A Bicicleta de Leônidas ficou conhecida no mundo interiro durante uma partida entre Brasil e Uruguai, pela Copa Rio Branco, em Montevidéu, no ano de 1932. O Blog Imortais do Futebol relembra que quando o Brasil já vencia por 1 a 0 o time do Uruguai, na ocasião os atuais campeões do mundo, “Leônidas deu uma bicicleta para a direita, correu em direção da grande área e conseguiu marcar o segundo gol da seleção.” O craque executava a jogada com o corpo a mais de 1,5 metros do chão e na posição horizontal, algo que jamais alguém havia feito naquele momento. Com apenas 1,65m de altura e realizando tais jogadas, Leônidas da Silva ganhou o apelido de “Homem de Borracha”. Este apelido traduzia a incrível facilidade e elasticidade nas jogadas e no domínio da bola. Em 1933, o clube uruguaio Peñarol contratou o craque. No ano seguinte, de volta ao Brasil, assinou contrato com o Vasco da Gama. Quando ainda atuava no Vasco, a então Confederação Brasileira de Desportos (CBD), atual CBF, fez um contrato de exclusividade com o jogador e o levou para disputar, em 1934, a Copa do Mundo, realizada na Europa. Mesmo com a péssima campanha do Brasil no torneio, Leônidas ficou mais conhecido e admirado naquele mundial por ter marcado um gol histórico em cima do goleiro mais famoso da época, o goleiro espanhol Zamora.


Após a Copa, Leônidas passou a jogar pelo Botafogo (RJ) dando ao clube inúmeras vitórias até 1936, quando foi para o Flamengo. Lá, sofreu com o racismo que era latente em diversos clubes brasileiros à época. Leônidas foi o primeiro jogador dono do seu próprio passe e isso causava desconforto nos dirigentes dos times, pois além de ser uma estrela do futebol ele era independente, autônomo e não engolia bananas, fossem elas verdes ou maduras. Nas décadas de 1930 e 1940, enquanto o jogador vivia o auge da carreira, no Brasil, a miscigenação era um fato estudado e debatido por cientistas de diversas áreas. Então, inicia-se no país a construção de um ideário de miscigenação positiva. Edifica-se assim, uma versão nacional de um “homem cordial”, avesso à discriminação racial. Mestiços educados, geralmente, homens já com alguma expressão social, como por exemplo, Machado de Assis, são trazidos para o centro do “poder” na tentativa de consolidar a ideia da superação do passado e uma convivência harmoniosa entre os tipos nacionais. Apesar disso, a sociedade brasileira era profundamente hierarquizada. A elite controlava a mobilidade social dos negros e mulatos e internamente as relações continuavam profundamente racistas. O Brasil miscigenado, tido como degenerado, passa a valorizar a miscigenação como algo positivo, no entanto, a ideia de desaparecimento dos negros, negras e indígenas mantinha-se forte. Vestindo a camisa do Flamengo, Leônidas deu ao rubro negro inúmeros títulos e popularizou o clube. Na Copa da França, em 1938, o jogador brilhou novamente descrito como “cômico, travesso e produtivo”. O “homem de borracha”se tornou ainda mais popular e querido pelos torcedores e pela imprensa após fazer um gol descalço na partida de estréia da seleção brasileira contra o selecionado polonês. Artilheiro da Copa, Leônidas se consagra como o melhor jogador do planeta. O jornalista francês Raymond Thourmagen, espantado com a agilidade e talento do jogador, confere a ele o apelido de “Diamante Negro”. O jornalista escreve: “Esse homem de borracha da terra do ar possui um dom diabólico de controlar a bola em qualquer lugar, desferindo chutes violentos quando menos se espera. Nessa posição de fera atingida, vi Leônidas executar uma série de tesouras com as pernas, aproveitando um centro e golpeando a bola de costas para o gol. Quando Leônidas faz um gol, pensa-se estar sonhando. Esfregam-se os olhos. Leônidas é Magia Negra!”.

Ilustraç�o Victor Mikalonis

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Com o sucesso obtido na França, o Diamante Negro volta ao Brasil e é recebido com pompa e circunstâncias e uma imensa festa da torcida. Na mesma época a fábrica de cholocates Lacta comercializava um chocolate ao leite com crocante. Este era o carro chefe da empresa. Quando Leônidas volta ao Brasil com o apelido de Diamante Negro, a Lacta rebatiza seu chocolate. De ao leite e crocante vira “Diamante Negro” e foi o mais vendido na época e é o mais vendido até hoje. O produto ajudou a evidenciar ainda mais o jogador, no entanto, ele nunca recebeu nenhuma porcentagem com a venda dos chocolates, não ganhou dinheiro e nem ficou rico com a comercialização do produto, ao contrário da Lacta. Vestindo a camisa do rubro negro Leônidas se torna o artilheiro do campeonato carioca de 1940, com 30 gols. No mesmo ano, devido à algumas fraturas e o menisco rompido já em 1940, Leônidas passa a ter um desempenho um pouco menor. Os dirigentes do Flamengo achando que o clube já estava consagrado se desentenderam com Leônidas e disseram a ele que o clube não aceitaria mais negros. Leônidas da Silva teve seu salário suspenso e foi impedido de participar do campeonato seguinte. O craque que não engolia bananas, principalmente quando são enfiadas goela abaixo, entrou na justiça para exigir seus direitos. A reação do Flamengo à atitude ação foi imediata: Gustavo Adolfho de Carvalho, um dos dirigentes

do rubro negro descobriu que Leônidas havia falsificado seu certificado de dispensa militar na década de 1930 para conseguir um emprego público. Este dirigente, sem pestanejar denunciou Leônidas e fez com que ele ficasse preso na cadeia militar durante 8 meses. Ao sair da prisão, em 1942, Leônidas foi para o São Paulo. Na época seu passe custou 200 réis, o mais caro da história do futebol brasileiro até então. Com 29 anos de idade, o jogador desembarcou na capital paulista onde foi recebido por uma torcida de mais de 10 mil pessoas. No primeiro jogo da equipe contra o Corinthians o estádio do Pacaembu recebeu o maior público de toda a sua história., 71.280 pessoas. Graças as jogadas de Leônidas da Silva e de outros bons jogadores do futebol paulistano, o time do São Paulo foi campeão paulista em 1943, 1945, 1946 (invicto), 1948 e 1949. Aos 37 anos Leônidas se aposenta do futebol com o titulo de melhor jogador de todos os tempos (até surgir, anos mais tarde, um tal Pelé), começa uma nova carreira como comentarista esportivo e vive até os 90 anos de idade. A história de vida desse homem negro é sem dúvida digna de aplausos. Além de ser um magnífico atleta, através do seu corpo, personalidade, inteligência, carisma e altivez rompeu as barreiras que a sociedade lhe colocava por conta da cor da sua pele, se mostrou digno e conhecedor dos seus direitos e durante sua carreira nunca se permitiu engolir bananas, a não serem aquelas que ele mesmo comprava e comia. Kehinde Wiley, Unity, 2010. Óleo sobre tela, 108x144 cm.

PARA NAVEGAR imortaisdofutebol.com

VALÉRIA ALVES é mestranda em Antropologia das Populações Afro-brasileira e Africana pela USP. Seu campo de atuação e pesquisa está voltado para as

PARA LER A Banalização do Racismo Ana Maria Gonçalves Disponível em geledes.org.br

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questões raciais, de gênero, sexualidade e cultura. Atualmente está responsável pela Coordenação Editorial das Pílulas de Cultura/ Feira Preta.

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MINHA AVÓ ERA PALHAÇO texto Mariana Gabriel (ou melhor, Palhaça Birota) colaboração Christiane Gomes fotos ARQUIVO PESSOAL

Dona Maria Eliza Alves era palhaço. Palhaço homem: Xamego, com“X”. “Todo mundo quer saber O que é o Xamego Ninguém sabe se ele é branco Se é mulato ou negro” Esses eram os principais versos da música Xamego, canção que ficou famosa na década de 40 nas vozes do Rei e da Rainha do Baião, respectivamente o sanfoneiro Luiz Gonzaga e a cantora Carmélia Alves, e que anunciava cada entrada do palhaço Xamego no picadeiro. Até onde se sabe, Xamego foi uma das primeiras mulheres palhaças do Brasil. Minha avó. Negra, pequenina, um metro e meio de muita força e coragem. Coragem essa que foi testada para enfrentar o racismo e o machismo de sua época. Nasceu na primeira década do século 20. Força tamanha que a fez enfrentar a perda de sete filhos ainda pequenos e ainda assim ter toda alegria para criar um casal de rebentos muito amados: um músico, guitarrista do cantor Roberto Carlos por 40 anos, meu tio, Aristeu Alves dos Reis, e uma jornalista, Daise Alves dos Reis Gabriel, minha mãe. “Na vida, niña, o que vale é saúde. O resto é bolacha!”

Esse foi um dos ensinamentos de Maria-Xamego, tanto para minha mãe, quanto para mim, misturando na frase o espanhol de sua mãe, a bisavó Brígida, que nasceu no Uruguai.

O CIRCO GUARANI Na verdade, quando cheguei ao mundo já não existia mais o Circo Guarani, de propriedade da minha família. O “maior circo do Brasil”, como anunciavam os alto-falantes nas cidades por onde ele passava. Minha mãe já não fazia força de cabelo e meu tio Aristeu não fazia acrobacias, nem dava saltos mortais e flip-flap. Apesar disso, todo esse universo circense sempre esteve presente nas histórias e lembranças dos meus chegados. Meu bisavô João Alves, negro livre, embora filho de escrava, dono do Circo Guarani, nasceu em 1873, dois nos após a promulgação da Lei do Ventre Livre, que data de 28 de setembro de 1871, e que libertava os bebês das escravas, a partir desta data. Só quinze anos depois é que viria a Lei Áurea: em 13 de maio de 1988. Não sabemos ao certo em que momento ele comprou o circo ou como a história se deu. O fato é que foi um grande empresário até seus 70 anos de idade, mesmo passando pelas duas grandes guerras mundiais.

ilustraç�o MLOK

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Minha avó me encantava com o orgulho da sua infância, época áurea do Circo Guarani. Nascida em 1909 e alfabetizada por professor particular, um luxo impensável para a época, ela contava:

tinha, dupla que ficaria famosa na televisão anos depois. A grande atração do circo era Ondina, a Mulher Cobra, acrobata mãe de Oscarito, que se tornaria, na década de 40, um dos maiores nomes do cinema da Atlântida, ao lado de Grande Otelo. Sobre ela, vovó detalhava:

“Niña, meu pai fretava um trem, com todos os vagões, para levar artistas, equipamentos e animais. E a gente viajava pelo Brasil inteiro”

“Niña, a Ondina era uma contorcionista que lembrava uma cobra no picadeiro, nem parecia que tinha ossos”

Eu visualizava os números de trapézio, palhaço, animais adestrados, mágicos e malabaristas. O circo tinha leão, elefante, cobras, cachorros, gatos e o grande amigo da minha avó: um chimpanzé chamado Pescador.

Havia também um sanfoneiro que fazia muito sucesso com suas músicas, vestimentas e sandálias de couro: Luiz Gonzaga. A música A Feira de Caruaru punha a plateia abaixo – todos sabiam a letra.

“Aquele macaco era terrível, ele se fazia de morto para caçar os passarinhos e até tirava piolho da minha cabeça e preparava um remedinho, mascando umas ervinhas, que passava nos meus machucados de criança levada. E curava”.

As arquibancadas também balançavam quando uma dupla caipira famosa cantava O Rio de Piracicaba. Eram os jovens, elegantes e afinadíssimos Tonico e Tinoco. A casa ficava cheia e a praça se agitava, quando o carro de som saía pelas ruas anunciando a atração do próximo fim de semana: a Caravana do Peru que Fala, comandada pelo jovem radialista Silvio Santos, trazendo os cômicos Ronald Golias, Manoel de Nobrega e sua trupe.

Aquilo era o máximo. Havia também as peças teatrais. Era a época do circo-teatro, onde eram feitas grandes encenações como Paixão de Cristo e Morro dos Ventos Uivantes. Em alguns casos era difícil imaginar como encenavam a morte de Jesus Cristo em pleno picadeiro. “E éramos nós mesmos que fazíamos todas as roupas, os cenários e até a coroa de espinhos ” Minha avó dizia que a cena dos milagres era feita com uma simples caixinha de papelão: de um lado continha olhas secas, do outro, uvas. E um cordão imperceptível abria a caixa, que virava, fazendo todo mundo arregalar os olhos na plateia. Esse era um período anterior à televisão. O circo era o grande divertimento das pessoas e concentrava o que hoje seriam shows de música, teatro e cinema. No Circo Guarani se apresentavam famosas famílias circenses como os Temperani, dos grandes pilotos do Globo da Morte, e os Seyssel, dos palhaços Arrelia e Pimen-

“Era um alvoroço esse Peru que Fala. Niña, as moças do lugar que eram suas fãs do programa de rádio, corriam para comprar ingresso e sentar na primeira fileira das cadeiras e muitas iam embora, se ele não ficasse até o fim do espetáculo” Aliás, no início da era do Rádio, em 1929, minha avó e sua irmã, Tia Ifigênia, a Tita, tentaram a carreira de cantoras. Passaram um tempo no Rio de Janeiro investindo no sonho e ficaram na casa do Tio Benjamin de Oliveira, um dos maiores palhaços do Brasil, e o primeiro palhaço negro de que se tem notícia. Uma figura forte, presente no cenário artístico nacional e que abriu campo para os futuros artistas afrodescendentes. Vó Eliza e a Tia Tita cantaram na Rádio Nacional, onde conheceram César Ladeira, Hebe Camargo que fez sucesso na época como cantora; e Dercy Gonçalves, festejada no teatro, cinema e televisão.

“Era o Cesar Ladeira quem escolhia os artistas que participariam do seu conhecido programa na Rádio Nacional. A Hebe Camargo era novinha e usava umas tranças compridas. E a Dercy Goncalves já era muito engraçada” Alguns anos depois, com o casamento da sobrinha Noemia, com Genésio Arruda, um dos maiores nomes do teatro brasileiro, minha avó e minha tia acabaram fazendo parte de sua caravana. Genésio Arruda chegava nas cidades com o seu carro amarelo, sua banda e seu tipo caipira (um precursor de Mazzaropi) fazendo enorme sucesso. Elas viajaram, principalmente, para o sul do país ainda trabalhando como cantoras. Na época eram conhecidas como Irmãs Alves e eram muito aplaudidas quando cantavam Tiptiptim. Minha avó recordava, cantando e dançando, com seus olhos brilhantes, como se estivesse no palco de novo: Tiptiptim...tiptim Tiptiptom...tiptom... Sempre que amanhece junto em sua janela Canto essa canção

E XAMEGO NASCE.... Em 1942, elas voltaram para São Paulo e minha avó se casou com o Avô Eurico. Um homem apaixonado, que fugiu com o circo. Nesse período meu tio-avô, Tio Toninho, palhaço Gostoso, que era a grande estrela do Circo Guarani, teve um problema sério de saúde: uma doença degenerativa que o fez amputar as duas pernas. Da necessidade de se ter um palhaço substituto, nasceu o Xamego. E o que no princípio era um papel provisório acabou durando 50 anos. Não foi fácil. Mulheres não se vestiam de palhaço na época. A ideia de rir de uma mulher – difícil de aceitar ainda na nossa sociedade atual - não agradava naqueles tempos. Foi preciso que minha avó convencesse meu bisavô. E de um jeito tradicional de circo, com o famoso “faz me rir”. Minha avó contava que vestiu uma roupa

engraçada, soltou seu cabelo crespo que ficava bem armado e colocou um chapeuzinho bem pequenino na cabeça. Engraçada que era, conseguiu fazer com que meu bisavô turrão se divertisse. E o palhaço Xamego ganhou corpo!

E O PALHAÇO O QUE É? LADRÃO DE MULHER! O Xamego tinha participação em quase todos os números: na entrada com o parceiro, apresentando os filhos acrobatas, os irmãos Alves, trabalhando nas comédias e entrando no número dos malabaristas para fazer truques errados. O seu tipo principal era matreiro e gozador, o oposto do parceiro, meu avô, que fazia a linha inteligente, séria, mas que sempre caía nas armadilhas do Xamego. E isso encantava muito as mulheres da plateia. E havia muitas apaixonadas pelo Xamego. No final do espetáculo, elas esperavam, queriam vê-lo sem maquiagem. Minha mãe dizia ainda que foram várias as vezes que recebeu bilhetinhos para serem entregues para ele. Imagina! Normalmente o Circo ficava em temporada nas praças, nome dado aos locais onde se apresentavam. E só no último dia de espetáculo que o mistério era desvendado: minha avó tirava a cabeleira e se apresentava como mulher. Era uma “choradeira” das fãs apaixonadas.

O SEIO DO PALHAÇO Muitos registros do Circo Guarani foram perdidos. Numa briga de família, minha tia-avó queimou fotos e documentos. Recentemente, em busca de mais detalhes da nossa história encontramos um livro chamado Terceiro Sinal, de autoria de Dirce Militello. Lá, há um capítulo chamado O palhaço que conta as impressões da escritora sobre o Circo da minha família. E há um momento muito bonito em que ela diz ter ficado fascinada ao ver o Xamego, ainda maquiado, num intervalo de cena, amamentando uma criança: meu tio Aristeu.


Mariana Gabriel na “versão” Palhaça Birota.

Maria Eliza Alves e, ao lado, caracterizada como o Palhaço Xamego: o que a princípio era um papel provisório acabou durando 50 anos. Carteirinha da Associação Brasileira de Proprietários de Circo e Empresários de Diversões pertencente à João Alves, negro livre e dono do Circo Guarani.

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“A foto que não foi batida, que ficou dentro dos olhos e ainda vejo quando rebusco dentro de mim nos meus velhos guardados. O palhaço amamentando o filho que chorava! No camarim, o menino chorava, ela o amamentava mesmo sem tirar a maquiagem e trocar de roupa. Lá fora muita gente esperava, querendo conhecer o simpático palhaço, principalmente as moças. Engraçado como as moças se apaixonam pelos palhaços, mesmo sem conhecer o rosto... O rosto é que desperta mais atenção primeiro, talvez a curiosidade por saber quem está por trás daquela maquiagem! ou mesmo pela necessidade de sorrir!“, relata Dirce Militello sobre o episódio que presenciou.

XAMEGO EM MIM

Na famosa e tradicional feirinha da Pompéia (bairro da capital paulista) ela era muito esperada, pois sempre fazia uma grande roda para dançar e cantar. ”Como é, niña?”, ela dizia pra mim, como quem quisesse dizer “não vai dançar também?”. Já doente no hospital, ela fez um rap para um enfermeiro, que entrou cantando de madrugada: A velhinha bonitinha Vai agora levantar. Ela esta doentinha. E vai ter de se curar

Na minha primeira festa de Halloween da escola, eu tinha dois anos, era 1983, minha avó foi quem me vestiu, me maquiou, me preparou para o evento. Ela fez o meu chapéu de bruxa com cartolina cor de rosa e um nariz assustador. Tão horroroso, que eu não lembro do que era feito. Ela segurava meu rosto, fascinada, me maquiando para aquela apresentação. Lembro exatamente daquele olhar. Na escola, as pessoas se assustaram. No meio de meninas arrumadas, princesas brancas e monstros que mais pareciam príncipes, estava eu, a bruxa negra. Uma bruxa de verdade.

Como minha avó sempre gostou de uma rima, a resposta foi imediata, surpreendendo o enfermeiro, que era um jovem de quase dois metros de altura e que tinha uma voz maravilhosa.

Entendi aquilo como arte. E que quando se é bruxa, se é bruxa. Tem a ver com fé cênica e até com a coerência com que se deve levar a vida, no meu modo de ver. Tenho para mim que naquele momento entendi um pouco do fascínio que é atuar e de ser o que se quiser ser. Um universo de possibilidades se abriu. Magia pura. Foi por isso que virei a palhaça Birota.

Há cinco anos que atuo como palhaça. Um lugar de altruísmo, no sentido de ser generosa com as pessoas, distribuindo alegria. Uma possibilidade de ser livre para dizer o que se pensa, para sentir o que se quer, livre das regras sociais e preconceitos. Um lugar combativo, de questionamento de injustiças e de reflexão coletiva. Um lugar que me orgulho muito de ocupar.

Faz sete anos que minha avó faleceu. Faria 105 primaveras, em 2014. Não a vi vestida de Xamego pessoalmente, mas posso dizer que sua alegria e seu jeito de ser contagiante, onde o riso estava presente nos momentos mais difíceis, fizeram da minha vida e de todos meus amigos e vizinhos que conviveram com ela, mais leve. Ela nos levou a muitos momentos de alegria.

Acho que entendi seu recado, minha avó. Está no meu sangue. Também tenho serragem nas veias. Percebo que tenho um Xamego em mim.

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PARA VISITAR Centro de Memória do Circo Av. São João, 473 – Galeria Olido Centro / São Paulo

Meu menino bonitinho, Você pode me ajudar Vai tirar o meu sanguinho. E eu vou logo melhorar. Essa era Dona Eliza. Minha avó.

MARIANA GABRIEL, Palhaça Birota, cineasta pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e jornalista da ESPN Brasil.

CHRISTIANE GOMES é jornalista, mestre em Comunicação e Cultura pela USP.

Pacto selado.

Atua como coordenadora do corpo de dança do Bloco Afro Ilú Obá de Min, na cidade

Respeitável público, Salve o Xamego!

de São Paulo.

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afetos

nicas, como os cronistas da Antiguidade, a autora apresenta um recorte histórico de grandes nomes e momentos da comunidade negra contemporânea e relata fatos do nosso cotidiano a partir de sua perspectiva mordaz e intensa. Ou seja, mostra dominar o gênero e suas características clássicas e contemporâneas.

correlatos

Porém a crônica por si só já é um gênero que apresenta complicações para os padrões estanques e limitados da crítica literária, por seu estilo e forma composicionais. Além disso, embora demonstre grande respeito, domínio e cuidado com a língua e a literatura, Cidinha não se submete aos padrões e normas da academia ou de uma elite intelectual que despreza as manifestações culturais de intelectuais e artistas negros e pobres, tão caros à sua formação. Consequentemente, os textos produzidos serão ainda mais complexos e excitantes, ao menos para aqueles que não temem o prazer que a literatura pode, e deve, proporcionar.

texto MARIANA SANTOS DE ASSIS Ao nos debruçarmos sobre a obra da prosadora Cidinha da Silva, compreendemos melhor o desespero de nossa crítica literária diante da literatura produzida nas periferias e guetos negros do Brasil. As limitadas categorias da crítica literária não dão conta da riqueza literária, diversidade de gêneros e desenvoltura na escrita de Cidinha e de tantos outros autores e autoras que surgem à margem do cânone e da academia. Em seu Racismo no Brasil e Afetos Correlatos (2014) temos uma demonstração de sua maestria diante das possibilidades da prosa. A autora transita com facilidade entre diferentes gêneros da prosa literária e jornalística, com a liberdade de quem conhece os limites dos gêneros de que lança mão, porém os ultrapassa e submete à sua própria vontade e impulsos artísticos. Cidinha nos surpreende a cada texto com diferentes formas de informar e emocionar, mostrando-se ora a cronista/historiadora que imortaliza momentos do nosso cotidiano por meio de um registro sensível, alçando-os à categoria de fato histórico e texto literário, a um só tempo. Ora revela-se uma verdadeira jornalista, ao assumir o compromisso de informar e denunciar. Seus textos materializam e elevam a definição bakhtiniana de gêneros discursivos a níveis perturbadores. Se, segundo o autor, “cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados”¹, na obra de Cidinha vemos uma articulação impressionante dos enunciados do povo preto e pobre do Brasil com o que há de mais elaborado no cânone literário. Conhecer diferentes gêneros e ser uma leitora voraz são fatores fundamentais para ser uma boa escritora, Cidinha é dessas. Em sua obra fica evidente sua ampla e diversificada formação cultural, não apenas pelas referências constantes a artistas e intelectuais, majoritariamente negros. Mas também pela qualidade de sua prosa, escrita cuidadosa, metáforas bem elaboradas, emoções e sentimentos que levam direto à nossa alma as ideias de admiração, revolta, enlevo, doçura e reconhecimento que a autora quer nos proporcionar. Em Racismo no Brasil e Afetos Correlatos a crônica é, indiscutivelmente, o gênero predominante, porém não é a quantidade de crônicas presentes na obra que nos permite afirmar isso, mas sim, a presença constante da característica mais marcante desse gênero e peça fundamental para entender o conjunto da obra cidiniana: o tempo. Em suas crô-

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O leitor covarde e já devidamente agrilhoado pela cátedra poderá, enfadado com a impossibilidade de categorizar os textos e certificar-se das informações apresentadas, desistir da leitura. Falo daquele leitor que ainda não possui autonomia para apreciar o texto pelo texto, daquele leitor que precisa do aval de especialistas, selos de grandes editoras ou assinaturas de peso para apreciar uma leitura, ou ainda, daquele que precisa ouvir o grito dos excluídos e a voz da militante em cada linha. Convido-os, entretanto, a tentar ler com o único objetivo de sentir prazer, de deleitar-se com o trânsito constante entre a fabulação e uma realidade cercada do encantamento que só a escrita literária é capaz de proporcionar. ¹ ²Estética da criação verbal Mikhail Bakhtin Martins Fontes São Paulo, 2003

Textos como Usos e Abusos da Toga de Joaquim Barbosa; A Lapa de Seu Jorge; Marina Silva, uma Fundamentalista!; Ao Amigo Ronaldo Fraga; Mano Brown: Mil Faces de um Homem Leal nos informam e imortalizam momentos específicos, com detalhes sobre cada temática abordada e aquele toque de lirismo que só um bom cronista é capaz de criar. Nesses textos vemos a preocupação com a história e a informação falarem mais alto; nomes, sobrenomes e fontes marcam a trilha para que essas importantes figuras negras, suas conquistas ou deslizes sejam lembrados para sempre por meio de sua pena. Porém vemos a cronista se afastar da jornalista, ao percebermos que não se trata apenas de registrar um momento, trata-se de nos fazer ver e reviver pelos olhos da autora, sentir a intensidade dos fatos por meio de uma linguagem fortemente subjetiva e imagética. Tais características ficam evidentes e perturbadoras nos textos que homenageiam e exaltam figuras negras, sobretudo os textos dedicados à Ellen Oléria. Do ponto de vista da análise de gêne-

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ro, podemos dizer que, nesses textos, começamos a entrar em águas desconhecidas. O tom poético de Que o Amor Pra Sempre Viva, Minha Dádiva! e a estrutura quase epistolar de Ellen Oléria e Jean Wylls, por exemplo, confundem a estrutura clássica da crônica, dentre outras coisas porque o estilo jornalístico é posto em último plano. Além disso, a preocupação com a informação ou o ativismo de representar e enaltecer essas importantes figuras e momentos históricos, ficam completamente embotados pela emoção da autora, que dirige-se aos seus com o carinho e a admiração de quem saúda sua ancestralidade nos jovens que aprende a respeitar mais a cada dia. Definir a cantora atlântica como negra, lésbica, feminista, candanga da Ceilândia... é tomar parte do todo-Ellen, que é poeta, atriz, compositora, filha amorosamente cúmplice da mãe, irmã e amiga querida, amante da amada. É também fundadora da Confraria das Pretas Poderosas. O caminho de Ellen é exuzilhado e ela brisa, desenvolta³ ³Racismo no Brasil e Afetos Correlatos Cidinha da Silva Editora Conversê 2014

Ao falar de Ellen, ao exaltar a artista e o ser humano sensível, a autora parece falar de si mesma e de tantos outros artistas negros e pobres, que são rotulados, lidos e apreciados unicamente a partir de suas contribuições político-sociais por meio de sua arte e nunca por sua arte em si. O artista negro só recebe o reconhecimento e a apreciação que os representantes do cânone recebem, quando apresentam longo histórico de militância e o discurso restrito aos conteúdos temáticos de interesse político e social. Em Quilombolas! For Ever!; Quanto mais mundo na vida da gente, melhor!; Ardis da Imagem; O Brilho de Dira Paes em Salve Jorge a informação ou a realidade dos fatos narrados, bem como os limites do gênero, em alguns momentos, se perdem por completo e em outros oscilam de maneira inovadora, num trânsito constante pelos enunciados da poesia, da crônica e dos gêneros argumentativos. Mas é nos textos “opinativos” que a autora é mais autêntica. Primeiro, pelo respeito que demonstra pelas telenovelas, essa importante produção cultural tão apreciada pelo público negro e pobre – com quem a autora pretende dialogar – e tão criticada pelos mesmos catedráticos e ativistas, incapazes de enxergar

valor em produções que estejam fora da academia ou do discurso político. Cidinha ressalta a delicadeza e a intensidade com que questões polêmicas como as relações raciais, de gênero e classe são tratadas em nossa teledramaturgia, como vemos nos textos sobre Lado a Lado e Subúrbia, por exemplo. Mas não deixa de apontar o discurso tendencioso e os ataques à cultura, linguagem e estética negras e pobres, disfarçados pelo discurso da democracia racial ou do paternalismo da elite branca, como quando fala sobre Salve Jorge. Novamente vemos uma profusão de estilos, temas e formas composicionais² se (con)fundindo para a criação de uma nova e deliciosa proposta de crítica televisiva. Longe da arrogância dos críticos ou da frieza dos resenhistas, Cidinha nos oferece leituras emocionantes e emocionadas que alçaram a telenovela à condição de produção artístico-cultural, destacando a sutileza dos interdiscursos presentes na caracterização de personagens, cenários e enredos por meio da releitura dos episódios a partir da linguagem literária e do olhar sensível da prosadora. Nas periferias das cidades brasileiras e entre artistas e intelectuais negros e negras estamos vendo fracassar as tentativas de encarceramento do talento e da liberdade artística, impostas por uma intelectualidade tacanha e amedrontada diante da iminente perda do controle da produção cultural brasileira. Racismo no Brasil e Afetos Correlatos é um convite à liberdade de leitura e escrita literárias, mas para aceitá-lo é preciso romper as amarras do cânone e imergir no universo único criado pelo hibridismo cultural de Cidinha da Silva. É esse hibridismo cultural que tornará nossa experiência de leitura algo prazeroso e caracterizará a principal contribuição de sua obra para uma mudança efetiva nos estudos literários.

PARA SABER MAIS cidinhadasilva.blogspot.com

Ao nos confrontarmos com a impossibilidade de categorizar um texto, atribuímos isso à inabilidade do autor. Como consequência disso, vemos em nossa produção literária uma sucessão de repetições e revozeamentos dos modelos canonizados. No caso de Cidinha, a linguagem impecável, figuras e imagens elaboradas, o vasto repertório cultural e sua extensa produção não nos permite classificá-la como uma autora menos hábil e somos obrigados a rever os critérios que utilizamos para avaliar e definir o que consideramos valor literário ou literariedade e em última instância rever o próprio conceito de cânone.

MARIANA SANTOS DE ASSIS é licenciada em Letras, Bacharel em Estudos Literários e Mestre em Linguística Aplicada (UNICAMP).

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DEIXA ELA, DEIXA! A rapper curitibana Karol Conka após se apresentar na Clash Club, em São Paulo, no último mês de junho: sucesso na internet, turnês internacionais e a expectativa de um novo reposicionamento da mulher negra no cenário do rap nacional.

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texto NAYARA DE DEUS fotos MANDELACREW

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Desde então Batuk Freak vem ganhando continentes com sua bem sucedida mistura de samplers, instrumentação orgânica e batidas digitais ultra-dançantes, que impressionam pelo acento forte da música de matriz afro-brasileira. A excelente aceitação do trabalho perante público e crítica rendeu à artista, em curtíssimo espaço de tempo, o conceituado Prêmio Multishow, além de destaques em revistas e jornais como Le Monde, Liberation e a revista Rolling Stone. Este último salientou em suas páginas que o mundo precisa saber quem ela é.

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Batuk Freak, seu primeiro álbum, lançado em abril de 2013, chegou definitivamente com os pés no peito do mundo. Produzido entre os anos de 2009 e 2013, por Nave Beats - beatmaker responsável por faixas de rappers como Marcelo D2, Emicida e Kamau – o disco foi disponibilizado gratuitamente apenas em formato digital nas redes sociais. Somente na semana do lançamento foram mais de 22 mil downloads conquistados por meio de uma estratégia de mestre: o internauta que quisesse adquirir as 12 faixas cantadas pela bela precisava “pagar” pelo download com um único post no Twitter ou, no Facebook.

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E ela conseguiu! No Brasil, suas letras já são cantadas de norte a sul do país. O problema está sendo lá na gringa. Em shows recentes na França e Inglaterra, Karol descobriu que está travando a língua da rapaziada. “Foi incrível descobrir que muita gente já conhecia o Batuk Freak lá. Eles não fazem ideia do que eu canto, mas foi muito legal ver as pessoas tentando acompanhar as letras, os refrões”, disse a curitibana para o Menelick 2º Ato. “Me olhavam atentos, com cara de curiosidade. Muitos tentavam me acompanhar na dança e eu tentava ensinar o molejo brasileiro para eles, que sempre pediam bis. Foi de ‘lavar a alma’ chegar a um lugar tão distante e me sentir tão querida pelo público”, complementou a rapper que entre os dias 20 de junho e 27 de julho retornou ao velho mundo, em turnê de verão por países como Bélgica, Áustria, Alemanha, Suíça, Suécia, França e Inglaterra.

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A “KAROL COM K”! “Karol com k”! Assim o primeiro nome de Karoline dos Santos Oliveira era pronunciado em sala de aula pelos professores na hora da chamada a fim de evitar confusões com a outra Carol, com “C”, sua colega de turma. A identificação saiu do colégio, caiu na boca dos amigos do bairro e acabou pegando. Nas terras geladas de Curitiba, onde nasceu em 1987, a artista desde muito cedo sinalizava que os holofotes seriam o limite. Quando menina dedicou-se ao balé, à dança contemporânea e à arte dramática. Nas aulas de teatro preferia as esquetes cômicas e arrepiava quando o assunto era promover o riso. O “problema” é que a “com K” também sempre gostou de: escrever. Inspirada na mãe, poetisa, esboçou seus primeiros poemas a partir do momento em que aprendeu a dominar o ABC. Naturalmente “derrubava” as letras de canções internacionais e recriava as composições em nossa língua tupiniquim. “Eu escrevo versos desde os seis anos. Sempre escrevi letras e ficava cantarolando o dia todo, perturbando a minha mãe. Eu achava que seria uma cantora de MPB”, recorda-se. Inspiração maior para tornar-se uma das grandes vozes da Música Popular Brasileira não poderia haver, já que sua grande referência musical era Milton Nascimento, cantor e compositor responsável por arranjos dos mais complexos do gênero. “Ouvi muito Milton e sou apaixonada pelo trabalho dele. Foi para mim a figura do artista que me incentivou a começar a cantar. Minha formação musical foi samba e MPB, era isso que rolava na minha casa, era o que a minha família ouvia”, disse a bela, que mais tarde seria atraída pelos beats. “Entrei no rap depois de ir a uma festa, quando eu tinha uns 16 anos. Aí eu percebi que era ali que eu queria estar. Me senti muito à vontade. Voltei minhas energias e rimas para as batidas”. Se hoje, no som da casa da Karol não podem faltar nomes como Beyonce, Rihanna, Mykki Blanco, Chief Keef, Aluna Geroge, Tulipa Ruiz e Timbalada, a Mc não descarta investir em novos territórios. Fez escola na música brasileira e futuramente acredita poder dedicar-se a ela: “Não estou fechada para nenhuma possibilidade”. O START Oficialmente a carreira de Karol começou em 2002. Mas, foi em 2011 – momento bastante positivo para o rap nacional protagonizado por Criolo (com o lançamento do álbum Nó na Orelha) e Emicida (com Doozicabraba e a Revolução Silenciosa), que ela mostraria ao mundo para que veio. O ano marca a estréia do videoclipe de Boa Noite, trabalho que causa frisson na rapaziada a cada entrada do coro feminino em loop mântrico aliado à base grave e pesada. Resumindo: chegou que chegou marrenta. Na sequência vieram as 7 faixas do cd promo produzido pelo Coletivo MTV, que em ligeiros 19m40s demarcariam o espaço da artista na cena do rap nacional. Vale a pena ouvir. “Eu gosto muito de lembrar dessa fase mais caseira da produção em que eu escolhia os beats que achava que tinham a ver comigo”, diz. Para Karol o barato era a sensação do dever cumprido. “Me sentia muito bem por conseguir realizar mais uma track e disponibilizar meus raps na internet para quem quisesse ouvir”, lembra, contente.

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SEM MESMICES

ELA POR ELA

Karol quer remar contra qualquer assunto ligado à palavra feminismo. Considera “chato” e “desnecessário” repetir velhas fórmulas outrora usadas pelas mulheres no rap. Por isso, você não vai encontrar nas letras dela momentos de ode contra o machismo, mas, mensagens positivas que exaltam a necessidade de que o respeito impere. Sempre!

Louco pensar que é negra e de um estado tão “polonês” como o Paraná, a rapper cuja história é considerada curta para virar atração em folhetins de tantos países. Curitiba, por exemplo, sempre foi considerada celeiro de beatmakers. No entanto, até o “fenômeno Karol” aparecer ainda não havia despontado na capital um nome forte entre os MC’s. E ela quer mais, claro, para toda a sua turma. “O rap em Curitiba sempre foi forte e logo logo seremos reconhecidos também por nossos MC’s. Tento sempre fazer com que as pessoas de fora olhem para Curitiba com atenção para ver as coisas boas daqui”.

“Nem conheço muito o feminismo na teoria. Eu costumo dizer que defendo os direitos da mulher, sejam quais forem. A mulher tem que fazer o que ela quiser e essa liberdade não pode sofrer nenhum julgamento. Infelizmente isso é algo que ainda temos que debater em pleno século 21. Porque essa opressão velada faz com que muitas mulheres sofram por problemas graves em decorrência da baixa autoestima”, lamentou. Mas, Karol concorda que há mais perigos no Brasil. “Se a gente somar ainda com o racismo, mais comum do que a maioria imagina, a situação só piora. E é isso que está nas minhas letras: a ideia de que não importa quem você seja, o mundo é seu, o mundo é meu também. Seja o que quiser ser, seja feliz e esteja bem com você”. Agora a artista tem novos comparativos. As andanças pelo mundo vêm chamando a atenção da curitibana para todo o trabalho que ainda precisa ser feito aqui no país no que diz respeito à afirmação da negritude. “Acho que nos países em que estive o mais curioso foi ver negros em mais classes sociais. Posso estar errada, mas, me deu a impressão de que a segregação é menor por lá. Por mais que tenhamos negros bem sucedidos no Brasil, lá isso parece ser mais natural, não é algo incomum”, observou. “Vejo o Brasil neste caminho, mas um caminho que ainda parece longo demais”.

Se falar em feminismo é cair na “mesmice”, falar em feminilidade com a “com K” é sempre mais colorido e divertido. E isso porque ela abusa na produção! Até mistura o estilo old school de roupas largas e tênis no pé, mas, só se for com uma cintura alta bem marcada ou, com as pernas de fora na primeira oportunidade em que o céu se abrir. E acessórios! Dá-lhe acessórios. Sem economia! “Eu nunca liguei muito para o que os outros estão pensando. A Karol de fora do palco é igual à Karol dos shows. Eu sou sorridente, alegre e piadista o tempo

inteiro. Acho que é isso, eu sou feliz, me divirto com o que eu faço, com meus amigos, com a minha vida”. Está toda feliz, mas, é difícil na queda. A artista até sai com os amigos para curtir uma boa pista, mas, no momento, não quer saber de azaração não. Tem fama de ser muito independente e há algum tempo está correndo de uma parceria afetiva. “Estou muito feliz e tranqüila nesse sentido. Continuo corrida e muito atarefada, preferindo me concentrar nessa nova fase”. Quando encontra uma brecha na agenda aproveita para curtir Jorge, 8, seu filho. Passeiam pela cidade natal, ou, trancam-se em casa e apostam nas longas “sessões de fofurices” que praticam juntos, em família. Sempre que pode, a rapper se “interna” nos beats. “Ouvir muita música é importantíssimo para buscar referências para meus próximos trabalhos”. Se Karol, com sua saúde e beleza ímpar é o retrato do mais puro chocolate, é também ele o doce preferido da Mc. “Amo doces, chocolate faz parte do meu ser”, confessou. Se tiver a mão da mãe envolvida no assunto, então... “minha sobremesa preferida é o mousse de maracujá com chocolate que ela faz”!

PARA SABER + facebook.com/karolconka twitter.com/Karolconka MAIS FOTOS DO ENSAIO COM KAROL CONKA omenelick2ato.com PODERÁ GOSTAR TAMBÉM Angel Haze / Amanda Negrasim / Yzalú Lua Rodrigues / Cris SNJ / Pamelozza / Flora Matos Kamila CDD / Nega Gizza / Dina Di

NAYARA DE DEUS é jornalista e sommelier. Dedica parte da sua vida em busca do melhor equilíbrio entre vinhos, à audição e pesquisa de velhos e novos talentos musicais.

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foto Rafael Roncato

SOL FOGO FORÇA E RESIST�NCIA

Professor, ilustrador e talvez o mais vanguardista e criativo autor negro de histórias em quadrinhos do país, Marcelo D´Salete, um dos ilustres filhos do Colégio Carlos de Campos, autor de obras como Noite Luz (2008) e Encruzilhada (2011), volta a espalhar seu traço poético e prosa fina � serviço do resgate histórico da trajetória do negro no Brasil. Em Cumbe (2014), seu mais recente trabalho, o quadrinista abandona os conflitos urbanos do negro contemporâneo e a escuridão que ronda as periferias brasileiras, cenários das suas últimas e bem sucedidas incursões pelo universo das HQ´s, para voltar no tempo e contar, a sua maneira, histórias sobre a resistência de negros e africanos ao sistema colonial no Brasil do século 17. Em entrevista, ele revela detalhes do projeto que ganhou as ruas no início do mês de agosto.

42 D’Salete: Marcelo “...construir uma nova visualidade para personagens afro-descendentes é tentar subverter sua antiga imagem na história brasileira”. OM2ºAto

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texto Matheus Gato de Jesus transcrição Filipe Araújo ilustrações retiradas da HQ Cumbe

O MENELICK 2ª ATO: O livro Cumbe representa uma nova inflexão nos seus quadrinhos. Do mundo urbano e contemporâneo que marcaram Noite Luz e o Encruzilhada, somos agora transportados para o tempo da escravidão, para os engenhos e canaviais. Como surgiu esse projeto? MARCELO D’SALETE: Bem antes de surgir o livro Cumbe, havia realizado a leitura do Palmares - A Guerra dos Escravos, do Décio Freitas, em 2004, num curso do Petrônio Domingues no Núcleo de Consciência Negra. Essa obra do Décio Freitas é muito narrativa e percebi que existia ali uma grande saga sobre o Quilombo dos Palmares. A partir disso, passei a me interessar em pesquisar outros textos sobre a história do negro no período da escravidão. Sabia que não seria algo fácil trabalhar com esse assunto na forma de HQ (Histórias em Quadrinhos). Nessa época, 2006, eu já tinha as histórias do Noite Luz (2008) prontas e depois surgiu também o Encruzilhada (2011). Mas sempre trabalhei paralelamente na pesquisa e no roteiro de uma HQ sobre Palmares. Elaborar uma narrativa sobre o Brasil colonial exigia uma extensa pesquisa sobre engenhos, roupas, paisagens, fatos, histórias. Ainda não tinha meios de dar forma pra isso em termos de narrativa e nem de desenho. Considerava meu traço insuficiente para retratar esse período histórico. Estava muito acostumado a trabalhar temas urbanos e atuais. Em 2010, depois de muitos estudos, considerei que era o momento certo para elaborar os argumentos, roteiros e desenhos pra um livro sobre a resistência à escravidão. A partir do estudo sobre Palmares, desenvolvi diversas narrativas ambientadas nessa época. Essas histórias juntas formavam um universo complexo sobre o período do Brasil colonial. Disso surgiu Cumbe, um livro sobre as diversas formas de luta contra o sistema escravocata, desde a mais individual até as formas de enfrentamento coletivo mais diretas, como é o caso dos quilombos e 44

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das insurreições urbanas. Percebi que essas histórias têm o conceito de resistência como algo central. Enfim, Cumbe foi um primeiro diálogo com esse tempo. Para ajudar, foi um dos projetos selecionados pelo Proac de Quadrinhos, em 2013. OM2ªATO: Eu comecei enunciando uma diferença entre os seus primeiros livros e Cumbe. Mas existe uma continuidade interessante: a construção de um repertório de imagens para narrativas, fatos históricos ou cotidianos delas destituídas. O caso do Quilombo de Palmares é interessante porque hoje possui várias narrativas, mas pouca visualidade. Gayatri Spivak há tempos formulou o problema: pode o subalterno falar? O seu trabalho nos ajuda a chegar numa questão diferente: quais são as imagens possíveis quando o subalterno fala? A questão da descontinuidade entre discurso e imagem na narrativa mesmo dos dominados merece maior atenção? MDS: Grande parte das imagens sobre a escravidão e sobre o negro são imagens produzidas a partir de um olhar colonizador. Isso tanto nos desenhos e pinturas dos artistas holandeses do século 17 até as imagens produzidas por outros artistas no século 19. São imagens que vêem o negro ainda como subalterno. Imagens que o tratam com certo exotismo e surgem a partir de um olhar europeu sobre aquele grupo. Não temos imagens feitas por negros nesse período. Essas imagens de autoria negra surgiram muito depois com, por exemplo, alguns artistas negros da Academia de Belas Artes do 19. Desse modo, construir uma nova visualidade para personagens afro-descendentes é tentar subverter sua antiga imagem na história brasileira. Acredito que produzir uma história em quadrinhos como Cumbe é criar poética, visual e imagens que ficcionalmente tragam o personagem negro como protagonista dessas narrativas e como uma possibilidade de contraposição a imagem de subalterno que foi feita no passado. Mostrá-lo não somente como vítima e subserviente, mas também como autor, protagonista de uma história. OM2ºAto

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OM2ªATO: O projeto Cumbe dependeu de uma grande pesquisa histórica sobre a escravidão nos séculos 17 e 18. Um desafio colocado para uma investigação nesse tema, que assume em seu resultado final um caráter ficcional e visa dialogar com as pessoas do nosso tempo. Como não transformar a escravidão em uma metáfora abrangente do racismo. Em termos de quadrinhos quais são os recursos que lhe permitem marcar a especificidade daquele sistema no tempo e no espaço sem convertê-lo num signo da opressão em geral?

OM2ªATO: O texto e as imagens de Cumbe trazem muitas palavras, expressões e símbolos africanos. Esse recurso somado a existência de sequências sem textos, apenas com imagens, cria uma distância entre o leitor e as personagens. Distância que não é afastamento, mas a formalização estética no quadrinho da autonomia cultural dos africanos e seus descendentes escravizados. Como você construiu esse efeito?

MDS: As histórias de Cumbe surgem a partir de alguns casos específicos relatados por pesquisadores. Alguns são registros policiais e judiciais sobre casos envolvendo escravos. A ideia foi tratar esses casos ficcionalmente. Criei uma ficção a partir disso e o caso em si deixa de ser essencial. Este foi apenas um motivo, um fato inicial. A proposta foi construir personagens e narrativas para abordar as singularidades do escravizado negro dentro de um sistema de trabalho forçado. E esses casos particulares são muito importantes. Sinto que hoje temos muitos dados sobre escravidão, estátisticas, mas temos poucas experiências narrativas para perceber essa experiência de outra forma, para além do estereótipo e da imagem da vítima. Pegar esses casos particulares e transformar em histórias só é possível pela ficção. A partir disso surgiu Calunga (uma das histórias do livro) que aborda o relato sobre um negro escravizado que matou uma mulher também escrava numa fazenda (isso aparece no livro Trabalho livre, trabalho escravo: Brasil e Europa, século 17 e 19). Quais motivos ele teria pra cometer esse crime? E se tentarmos pensar isso num sistema escravista? Onde esse escravo não tem nada e a relação afetiva com uma pessoa é o único vínculo que ele tem com o mundo. Sendo que por esse motivo ele pode recorrer a atitudes extremas para ter o mínimo de autonomia dentro desse sistema. Imaginar a partir desses registros de época foi importante para dar força para o livro.

MDS: Não foi algo fácil. Eu utilizei muito o livro do Nei Lopes, Dicionário banto do Brasil, pra me familiarizar com esses termos. Utilizei também o Etnias e Culturas de Angola, do José Redinha. Dialoguei muito sobre isso também com o escritor e poeta Allan da Rosa. Tentei trazer esses traços culturais para o livro de forma que não fossem estereotipadas e que, mesmo utilizando termos que talvez não fossem compreendidos num primeiro momento, pelo contexto seja fácil de imaginar o significado. Utilizar esses termos foi uma estratégia de se aproximar da época e de trazer um vocabulário possível para esses personagens e grupo. O que fazemos hoje é uma reconstrução do que imaginamos que tenha sido possível. A minha estratégia é tornar isso ficcionalmente interessante e complexo.

OM2ªATO: Qual o significado da palavra Cumbe? MDS: Cumbe, no Kimbundo, significa sol, chama, lume. Está relacionado com a simbologia banto de alguns reis da região do Congo e Angola. Cumbe também é um termo utilizado pra definir quilombo na América Latina. Inicialmente o livro teria o nome Calunga, título de uma de suas histórias. Calunga está ligado à uma divindade, à morte, ao mar e ao Atlântico. Para o título do livro, eu queria atentar para o contexto de resistência desses grupos negros. Por esse motivo veio a palavra Cumbe e a ideia de força. OM2ªATO: Por que o universo cultural de Cumbe está centrado na cultura banto? O que justifica essa opção mediante todo repertório de culturas negras e africanas possíveis para se criar uma história? MDS: Era muito importante dentro desse livro tratar de elementos culturais dos povos negros banto que vieram para o Brasil. Os negros escravizados de origem banto (Congo e Angola) foram os mais numerosos no Brasil. No entanto, a academia por muito tempo deixou de lado essa herança e escolheu estudar os povos iorubás, mais presentes apenas no fim do século 18. Isso fez com que, por exemplo, diversas narrativas sobre negros escravizados apresentassem a cultura iorubá como fundamental (caso do filme Quilombo, de 1984, do Cacá Diegues). Minha intenção foi explorar então algo pouco abordado em termos de narrativas históricas sobre esses grupos negros. Dentro disso comecei a estudar os grupos bantos e ver o que poderia ser utilizado para dar força para os personagens e para a história. Criar um contorno sobre o que é cultura banto no Brasil talvez seja difícil, mas isso aparece de maneira muito forte e rica no nosso português, na música, nas celebrações, etc. 46

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OM2ªATO: Uma outra questão importante em Cumbe é a ideia de morte como libertação. Essa é uma moral estranhamente universal na diáspora africana nas Américas. O sociólogo Paul Gilroy fez uma análise famosa na qual indaga se essa referência a morte como liberdade e autonomia dos sofrimentos que se vive na terra não rompe com a famosa dialética do senhor-escravo de Hegel na qual a opção “racional” em permanecer vivendo superaria o desejo de auto-destruição completa. Esse é o tema da história Calunga. A personagem opta pelo suicídio no mar como um mergulho no infinito, na transcendência do mundo como um reencontro com a liberdade. MDS: Esse conceito de morte é interessante porque está contido na ideia de calunga, da divindade, do mar como algo infinito, um território de outro mundo, uma passagem. No passado, muitos negros africanos, quando viam os africanos escravizados atravessando o Atlântico, imaginavam que eles estariam passando para outro mundo. Chegar na América já seria um outro local, um lugar sobrenatural. Voltar para a África poderia significar voltar para o plano da vida anterior. A história Calunga pretende explorar esse universo. O personagem acaba mergulhando no mar com esse sonho de chegar num outro local onde ele possa estar novamente vivo e completo. A luta desses grupos naquela época, dentro desta perspectiva, deve compreender as várias formas de pensar em resistência, que pode ser direta, uma ação contra um capataz, ou uma resistência que existe nos menores gestos. Por certo, a decisão por morrer não é um gesto menor, mas sim um gesto extremo. E dentro de um sistema escravista que não permite outra alternativa, decidir pela morte acaba sendo uma resistência. Vale lembrar do filme Doze Anos de Escravidão e o modo como o personagem é sistematicamente traído em seu sonho de liberdade. A traição acontece pelo colega branco que o denuncia, acontece quando ele tenta fugir e vê outros negros sendo enforcados. Ou seja, sistematicamente ele vê que existe um sistema inescapável, algo totalmente emaranhado dentro daquela lógica social perversa. Escapar daquilo, vamos dizer assim, seria quase um milagre. Daí que a questão da morte aparece como algo mais direto e palpável. Talvez a única forma de resistência possível. OM2ºAto

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OM2ªATO: Outra coisa importante em Cumbe é a relação entre liberdade e amor. Em Calunga é a fuga frustrada de um casal apaixonado que conduz ao desfecho trágico. Na história Malungo um líder quilombola deseja rever sua irmã e conduz um ataque na fazenda em ela é cativa. A afetividade conduz a utopia da libertação. Nessas histórias a liberdade não é símbolo, mas um vínculo entre as pessoas. MDS: Dentro da nossa história sobre escravidão a questão afetiva talvez seja uma das coisas menos tratadas. Até porque temos poucos relatos de ex-escravos. A afetividade acaba sendo relegada a segundo plano quando pensamos nessa macro história da escravidão, em estatísticas. Acabamos não discutindo como esses indivíduos se relacionavam e a forma como poderiam reconstruir a sua identidade a partir dessas ligações de afeto. Construir narrativas e propor esses laços entre os personagens é, de certo modo, uma maneira de contrapor uma visão estereotipada do negro enquanto vítima e indivíduo isolado. É uma forma de criar relações e vida. Em Malungo há uma pequena família. A mãe é levada para outra fazenda e dois irmãos, não necessariamente de sangue, convivem juntos. Hoje em dia temos estudos, como o de Robert Slenes, que tratam também de possíveis relacionamentos familiares entre negros no período da escravidão, embora num período muito mais recente, já no século 19. Mesmo com a brutalidade da escravidão, não podemos deixar de vislumbrar que essas relações humanas, embora muito fraturadas, foram o que permitiu a permanência dessa cultura. Mesmo com a escravidão, ficaram ritos, danças e diversos traços de origem negra em nossa cultura. Existia um momento de celebração onde era possível tentar construir identidades, mesmo que fraturadas e subjugadas.

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OM2ªATO: As questões de gênero são flagrantes nesse ponto. Em Calunga o personagem masculino, um escravo de eito¹, suicida-se no final para encontrar a liberdade. Essa morte é uma escolha. Mas ele assassina sua companheira, uma escrava da casa, por não optar pela fuga e permanecer na escravidão. Essa morte não foi uma escolha. O problema de como um regime de opressão fragiliza as relações entre homens e mulheres negras ganha aqui muitos contornos. MDS: Algo interessante dessa história, pensando no que você disse, é que ele é o escravizado mais subjugado e com traços mais evidentes de cultura banto. É ele quem fala sobre o tata, o sacerdote; sobre a nsanga, uma espécie de bebida especial; sobre o calunga, uma divindade. Enquanto a mulher escravizada carrega um colar com o crucifixo. Ele representa a identidade banto e a morte como passagem, não como um ponto final. Ela seria mais próxima do modelo cultural branco e da possibilidade de assimilação. Vale lembrar que o símbolo da divindade calunga é um sinal de “ + “. A linha na horizontal é o mar, o mundo terreno, e a linha vertical é o plano dos espíritos. Tudo isso está ligado com a passagem do sol durante o dia (sol traz novamente a noção de cumbe). Enfim, ele mata sua companheira para que ela possa acompanhá-lo. É um assassinato, mas também, dentro de sua loucura, um ato de amor. OM2ªATO: Na história Sumidouro você aborda o problema clássico da miscigenação no período colonial. O bebê originário das relações entre o senhor e a escrava é assassinado pela senhora branca no local de tortura que nomeia a narrativa. A violência torna-se a matriz fundamental da alegoria da mestiçagem. MDS: Considero essa história a mais obscura do livro. A palavra sumidouro, o poço, traz algo de violento e trágico ao extremo. Esse era o local onde muitos negros rebelados eram mortos. O sumidouro aparece no livro do Aires Machado, O Negro e o Garimpo em Minas Gerais, e foi cantada pelo Geraldo Filme no Canto dos Escravos de forma muito linda e melancólica. Ouvi muito esse álbum quando estava produzindo Cumbe. A imagem do sumidouro era algo impressionante. E a forma como o Geraldo Filme canta é bela demais. Essa narrativa apareceu inspirada por essa música e pela peça do Nelson Rodrigues, O Anjo Negro. A peça mostra um casal, no caso um homem negro e uma mulher branca, e seus filhos mestiços. De modo trágico, os meninos são mortos pela mulher e as meninas cegadas por ácido. É uma história incrível. Uma forma perturbadora de ver as relações raciais no Brasil. A partir dessas referências iniciais, pensei em tratar do caso de um homem branco e uma mulher negra nos séculos iniciais da escravidão. Depois disso foram surgindo outros fatos para o contorno geral da história. Essa narrativa apareceu de um modo mais ou menos rápido. Mas foi algo que pensei muito antes de fazer, porque é uma das narrativas mais perturbadoras.

¹Escravos de eito eram aqueles que pegavam no trabalho duro dos canaviais, trabalhavam muito, tinham uma péssima alimentação e recebiam constantemente maus tratos (não muito diferente do tratamento dispensado aos escravos negros “convencionais”).

OM2ªATO: É uma das histórias mais fortes. Há o sumidouro como esse lugar obscuro que não deixa rastros de uma identidade. Bem, os dois últimos contos do livro tematizam a ação coletiva negra. Na história que se chama propriamente Cumbe há uma disputa política, uma divergência em como encaminhar a sublevação. As diferenças de visões e perspectivas está assinalada no desenho no próprio corpo das personagens por suas marcas corporais, marcas de tortura e também marcas culturais de origem africana. Por outro lado, existe mesmo uma retórica do sofrimento em jogo que acena para a contemporaneidade onde a identidade política é perpassada por diversos marcadores sociais da diferença como classe, raça, etnia, gênero e opção sexual que descentralizam as alternativas de representação social na esfera pública. MDS: As marcas corporais são importantes para compreender essa história, assim como outras do livro. Elas podem aparecer em termos de escarificações, que são de origem africana, e em termos de marcas de posse, que são as feitas pelos capatazes para mostrar que os negros escravizados eram propriedade, coisas. Tem também um terceiro tipo, a marca de castigo. Quando pensamos nelas estamos tratando de resistência. O castigo acontece no momento em que existe um ruído no sistema escravista, quando existe resitência ao trabalho ou quando há fuga. Diante disso surge o castigo, a violência como forma de reiterar o sistema escravista e de opressão. O castigo é a forma, vamos dizer assim, mais direta e presente da opressão. São três tipos que de certa forma são exploradas no livro. Isso apareceu na história Cumbe um pouco a partir desse personagem que tem as marcas de castigo e isso acaba virando uma forma deles próprios se diferenciarem. Aqueles que possuem marcas seriam os mais próximos de uma resistência direta e aqueles que não as têm são os mais próximos do poder da assimilação. Considero que há vários elementos que seriam interessantes abordar a partir disso. Podemos pensar na situação dos africanos que chegavam no Brasil e na dos filhos de africanos nascidos aqui. Este grupo mulato tinha um status diferenciado do africano recém chegado. Há poucos relatos disso no século 17, mas quando chegamos no século 18 e 19 essa diferenciação já é muito forte. Existia uma linha divisória entre os africanos recém chegados e os mulatos ou negros aqui nascidos. Essa categoria de negros locais era vista de forma totalmente diferente dos africanos. Isso em termos de acesso, circulação e possibilidades dentro dessa sociedade. E essa diferenciação, na verdade, foi muito bem utilizada pelo poder colonial justamente para dividir e tornar a opressão mais eficaz.

PARA SABER + dsalete.art.br cumbe.art.br

MATHEUS GATO DE JESUS é mestre em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente desenvolve na mesma instituição a pesquisa de doutorado Negros de Atenas: Intelectuais negros na periferia do Brasil moderno (Maranhão, 1870 - 1930). Também possui trabalhos sobre configuração do pós-abolição brasileiro na literatura e análises sobre a relação entre raça, etnicidade e trajetória intelectual publicados em revistas especializadas em ciências sociais.

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EM NOME DO PAI texto Nabor Jr. imagens Arquivo pessoal

“Embora queimemos todas as leis, decretos e avisos, não poderemos acabar com os actos particulares, escrituras e inventários, nem apagar a instituição da história, ou até da poesia”. Machado de Assis, em Memorial de Ayres (1908)¹

No dia 14 de dezembro de 1890, o prestigiado jurista soteropolitano Ruy Barbosa de Oliveira (1849 – 1923), então Ministro da Fazenda do governo de Manuel Deodoro da Fonseca (1827 – 1982), protagonizou um dos mais polêmicos episódios envolvendo os (raros) registros documentais da presença negra no Brasil escravocrata: determinou a arrecadação e incineração de todos os papéis, livros e documentos existentes nas repartições do Ministério da Fazenda “relativos ao elemento servil, matrícula dos escravos, dos ingênuos, filhos livres de mulher escrava e libertos sexagenários”. Ainda hoje, mais de um século após a controvérsia destruição de arquivos, as chamas do caso continuam acesas, gerando discussões calorosas. De um lado, há os que defendam os argumentos de Barbosa, segundo o qual a queima dos registros (que incluíam milhares de nomes e dados históricos sobre escravos e quilombos presentes no Brasil até então) teve como objetivo proteger os próprios recém-libertos. Uma vez que a incineração dos documentos foi feita para impedir que os antigos senhores de escravos, depois de terem usufruído por anos e anos de trabalho forçado e gratuito de milhares de homens e mulheres negros que mantinham em cativeiro, ainda recebessem indenização pelo fato de tê-los libertado “gratuitamente”. Raymundo Souza Dantas, enquanto Oficial de Gabinete do governo Jânio Quadros, caminha na praça dos Três Poderes, em Brasília (1961).

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Na outra ponta do imbróglio encontram-se, em sua maioria, intelectuais e militantes negros brasileiros, que qualificam o republicano, e consequentemente a sua atitude, como irresponsável e elitista. Para estes, sob o pretexto de “acabar com o passado negro do Brasil”, Ruy, na verdade, corroborou com os ideais predominantemente conservadores da elite branca brasileira de então e impediu - e impede, até hoje - que conheçamos uma parte fundamental da construção da história do nosso país. O que o fogo queimou, literalmente, virou fumaça e, no caso específico, o que sobrou foram cinzas de um passado escravocrata que, seja antes ou depois do referido episódio, jamais foi devidamente esclarecido (e reconhecido) pelo governo brasileiro. O fato é que, apesar da mal explicada – ou, como muitos querem nos fazer entender, mal compreendida – a destruição dos arquivos não foi capaz de, oficialmente, apagar os mais de 100 anos de história decorridos desde o dia 14 de dezembro de 1890 e todos os papéis coletados da vida dos negros no Brasil no século 20. Assim como parte significativa da contribuição do escravo africano e afro-brasileiro na construção do país se perdeu, também é verdade que há vida documentada do negro brasileiro após a queima autoritária dos arquivos por Ruy Barbosa. Algumas ações coletivas de documentação e preservação da história do negro no Brasil no pós-abolição, envolvem, por exemplo, iniciativas surgidas no seio da sociedade civil organizada, em atuações reivindicatórias e de resistência materializadas por instituições como a imprensa negra, movimento negro e grupos surgidos a partir da sua ideologia. Há ainda o esforço de acadêmicos, pesquisadores e alguns poucos espaços apoiados

pelo poder público, como o Arquivo Público do Estado do São Paulo, a Fundação Palmares e o Museu Afro Brasil. Para além disso, sobrevivem, principalmente, registros de uma consciência negra despertada no âmbito familiar. São iniciativas predominantemente individuais, solitárias, quase que silenciosas – outrora reprimidas - de preservação de fragmentos de uma história que constantemente é coagida a virar fumaça. Esses arquivos escondidos de uma trajetória desconhecida, ao contrário do que pregam as alas mais radicais dos movimentos defensores das causas da gente negra, só existem graças a consciência racial que muitos afirmam não existir, ou sequer passar pela cabeça da maioria dos negros brasileiros.

ARQUIVOS DESCONHECIDOS DE UMA HISTÓRIA NÃO REVELADA Morador da cidade de Santo André, região do Grande ABC paulista, o carioca e funcionário público Roberto Souza Dantas, de 67 anos é um destes ilustres desconhecidos preservadores da história do negro no Brasil. É dele o maior e mais significativo acervo sobre a história do primeiro embaixador negro do país, o jornalista, escritor e funcionário público federal Raymundo Souza Dantas (1923 - 2002), que serviu a primeira embaixada brasileira da República de Gana, entre os anos de 1961 e 1964. Filho mais velho do casal Souza Dantas e Idoline Botelho Souza Dantas, Roberto herdou os documentos do pai após o falecimento de uma de suas irmãs, Isa Maria Souza Dantas, em 2009. “Meu pai sempre fez questão de arquivar tudo, cada foto, cada documento, cada reportagem de jornal. Esses documentos estavam em caixas, no apartamento da minha irmã, no Rio de Janeiro.

Flagrado em um momento de descontração, o presidente Nkrumah (de terno à esquerda), conhecido como “O Libertador”, convida Souza Dantas para dançar (uma grande honraria entre os africanos) no dia da entrega das credenciais do embaixador, em 3 de outubro de 1961.

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Quando ela faleceu, a filha dela, minha sobrinha, que vive em um pequeno apartamento, não tinha espaço suficiente para guardar as coisas, então peguei tudo. Já tentei falar com a Fundação Palmares, o Museu Afro - através de um intermediário, mas eles não tiveram muito interesse em conservar este material”, revela Dantas. A maior parte dos documentos – divididos entre correspondências trocadas com importantes escritores e políticos brasileiros da época, recortes de jornais, livros, fotografias, medalhas, honrarias e alguns vídeos - cujo início da preservação e catalogação surgiu com a consciência racial do próprio Raymundo Souza Dantas, narram o difícil período da missão diplomática do embaixador na África, as dificuldades que enfrentou enquanto homem negro de status político elevado em um país racista como o Brasil, suas relações com o poder, a batalha por uma política externa legítima e proativa com os países africanos, o envolvimento com as comunidades de escravos repatriados para África, entre outros assuntos. Roberto, o mais velho dos três filhos do casal Raymundo e Idoline Dantas: consciência racial despertada pelo pai e um acervo de “ouro” guardado dentro de casa.

“A politica externa do Brasil com a África foi um grande projeto do presidente Jânio Quadros. Ele teve a visão de que aqueles 30 países que estavam se tornando independentes naquele momento teriam uma força inclusive internacional, na ONU, por exemplo. Ele já vislumbrava uma influência do terceiro mundo na política global. Ao enviar meu pai para Gana, ele também deu uma resposta a politica externa que vinha sendo exercida por Juscelino Kubischek com a África, uma vez que o Juscelino sempre apoiou o governo fascista de Salazar, em Portugal”, recorda-se Roberto, que tinha 14 anos de idade quando embarcou com pai e o restante da família para Acra, capital de Gana. Filho de pais analfabetos, a mãe, lavadeira e o pai, pintor de paredes, Raymundo Souza Dantas nasceu em 11 de fevereiro de 1923, em Estância, no Sergipe, e teve uma vida marcada por episódios de superação, autodidatismo, dedicação aos estudos, empoderamento intelectual do negro brasileiro e ao resgate das raízes ancestrais africanas que marcaram o período escravocrata no país. Na cidade de Estância, onde viveu até a adolescência, cursou, ainda criança, a escola pública por poucos meses, trabalhou como en-

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tregador de embrulhos de uma casa comercial, em uma tipografia e, no jornal que levava o nome do município, A Estância, trabalhou movimentando a impressora e distribuindo jornais aos domingos para assinantes. Permaneceu nesta atividade por quase dois anos. Em Aracajú, trabalhou nas oficinas do Correio de Aracajú, época em que ouvia várias leituras de textos de Jorge Amado, Machado de Assis e Marques Rebelo, feitas pelo amigo Barbosa, um amante da literatura brasileira. Em 1941, aos dezoito anos, chega ao Rio de Janeiro a bordo de um navio do Lloyd Brasileiro. Na capital federal, graças ao jornalista Joel Silveira, trabalha como contínuo no semanário político-literário Diretrizes. Em 1942, lê com dificuldade os textos de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, José Américo e Érico Verrísimo, e passa a colaborar na revista Vamos Ler e no jornal Diário Carioca. Trabalha como revisor na casa editora de livros infantis e no Diário Carioca. Em 1944, durante o período de três meses, escreve seu primeiro livro, o romance Sete Palmos de Terra. Seu segundo trabalho, Agonia (uma novela e alguns contos), é lançado em 1945. Em 1º de dezembro de 1945, casa-se com Idoline Botelho e, em 1946, o casal tem o seu primeiro filho, Roberto. Entre os anos de 1945 e 1946, Raymundo Souza Dantas inicia-se no aprendizado do francês, assiste à Convenção Nacional do Negro, evento que reúne a intelectualidade afrodescendente sob a liderança de Abdias do Nascimento (momento também em que a Constituinte eleita após o fim da ditadura Vargas implantava uma nova ordem jurídica no país) e começa a trabalhar em seu segundo romance, Solidão nos Campos. Em fins de 1947, descobre os autores católicos e começa a escrever a novela Vigília da Noite. O livro é concluído em 1948 e publicado no ano seguinte. Em 1961 (ano em que 32 países africanos tornaram-se independentes), durante o governo do presidente Jânio Quadros, é nomeado Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário do Brasil em Gana, na África, cargo que exerceu até 1964. Após a indicação do seu nome pelo presidente Jânio Quadros, porém, Dantas passou por uma ferrenha sabatina no Congresso da República. “O João

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Raymundo Souza Dantas, e sua esposa Idoline Botelho (a sua direita) são recepcionados na comunidade dos Tabons, em Gana, no ano de 1962. Do lado esquerdo de Dantas encontra-se a rainha Ibiana I, e sentado do lado direito de Idoline está Azuma I, líder da comunidade Tabom. Foi a primeira vez que alguém de fora da comunidade foi convidado para se sentar sob a tradicional cobertura do chefe local.

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Correspondência enviada pelo então presidente do Brasil, Jânio Quadros, ao presidente da República de Gana, Kwame Nkrumah, avisando o líder africano sobre a escolha de Raymundo Souza Dantas como o novo embaixador brasileiro em Gana.

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Goulart, que era o vice-presidente da República e também presidente do Congresso, disse na ocasião para o meu pai ficar tranquilo, pois a oposição ao Jânio na casa votaria a favor dele, e realmente votaram. O PTB, na época votou, o PSD é que deu uma mancada com alguns votando contra. Mas no fim deu tudo certo, depois de uma sabatina de mais de duas horas na Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal ele acabou tendo a nomeação aprovada por 7 votos a 1”, conta seu filho. Antes de ser indicado para ocupar o cargo de embaixador em Gana, Dantas foi nomeado como assessor do presidente Jânio Quadros. “Na época se falava oficial de gabinete, ele foi o primeiro negro a estar na assessoria direta do Presidente da República”, diz Dantas. Um dos mais importantes registros da passagem de Dantas pela embaixada brasileira em Gana está documentado no livro África Difícil, um diário onde narra o que viu e viveu não apenas em Gana, mas também em outros países da África, apresentando episódios, registrando impressões, julgamentos e ideias sobre o discutido, mas ainda insuficientemente conhecido mundo africano, além de focalizar o que deveria ter sido, e não foi, a nossa política externa com Gana e com os demais países, então recém independentes, do continente.

PARA LER África Difícil: missão condenada Raymundo Souza Dantas Editora Leitura (Coleção Nova África) Rio de Janeiro, 1965 Tabom – A Comunidade Afro-Brasileira do Gana Marco Aurélio Schaumloeffel Editora Geração Editorial 2014 PARA ASSISTIR Entrevista com Roberto Souza Dantas omenelick2ato.com PARA VER Mais imagens do acervo da família Souza Dantas omenelick2ato.com

Ao longo da vida, Raymundo Souza Dantas colaborou em vários jornais e revistas, tais como: Dom Casmurro, Vamos Ler, A Noite, Leitura, Diário Carioca, Revista Branco, Boletim Bibliográfico Brasileiro, entre outros. A trajetória de superação de Dantas, seu legado intelectual e sua importância histórica enquanto primeiro embaixador negro do país ainda continuam desconhecidos por boa parte dos brasileiros. Uma pena, pois trata-se de um referencial de extrema importância para os jovens negros de hoje, que tal qual Dantas e Benedicto Fonseca Filho (que em 2011 tornou-se o primeiro embaixador negro brasileiro de carreira), sonham em ser reconhecidos não pela cor da pele, mas por suas atitudes, caráter e capacidade intelectual – como qualquer outro ser humano - virtudes de uma história que o tempo, nem tão pouco o fogo, apagará.

NABOR JR. é jornalista especializado em jornalismo cultural, fotógrafo e fundador-diretor da revista O Menelick 2º Ato.

Jânio Quadros conversa com Souza Dantas no gabinete da presidência da república momentos após o jornalista ser sabatinado na Comissão das Relações Exteriores do Senado, em 12 de julho de 1961, tornando-se o primeiro Embaixador negro do país.

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Arte como instrumento de mobilizaçĀo: sobre a força do ato cultural

A Paixão de Cláudia Caio Vitor, Sem Título. Pastel Seco, 25x30cm (2014). 62

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texto Renata Felinto Causou-me um enorme sentimento de fragilidade e de impotência diante do mundo a notícia do assassinato da mulher Cláudia Silva Ferreira, pela Polícia Militar, aos 38 anos de idade, na cidade maravilhosa, em 16 de março deste ano enquanto à mesma comprava café e pão para alimentar sua família. Mais uma vez acidental, porém, neste caso, causado por uma seqüência de negligências e omissões do poder público em relação àquela que ele deveria servir e salvaguardar o bem estar e a vida. Acidentes que têm locais certos para ocorrerem: os morros e as periferias. Acidentes que possuem vítimas preferenciais de balas perdidas: negras e negros. Acidentes que são parte do plano para preparação dos grandes centros urbanos brasileiros para a festa da COPA, a fim de se garantir o bem estar e a preservação das vidas dos milhares de turistas que aportarão por aqui para prestigiar os jogos. Turistas ávidos por jogos, por bebidas, por iguarias, por música, por gente, por cultura brasileira. Essa cultura brasileira festiva e carnavalesca vendida pelas agências de turismo. Onde, dentro dos pacotes turísticos, oferecemos nosso melhor: a feijoada, o samba, o homem negro tocador de batuques, a mulher negra travestida de “mulata”. Cultura, em sua origem, tão negra quanto a “mulher arrastada”. Causou-me uma inconfundível sensação de não pertencimento à essa sociedade brasileira, e confirmou-me o pertencimento somente à população, à população sem face das estatísticas. Nem todas as mulheres e homens negros pouco assistidos pelo Estado em suas necessidades básicas, sucumbem à tentação fácil de vestirem o traje social nos reservado. No caso das mulheres os trajes de mulatas ou funcionárias do lar, e para os homens, de malandros ou funcionários da força, como seguranças. Não era mais uma morte de uma mulher, uma mulher negra. Sem conservadorismo, entretanto, contrariando todas as estatísticas e, especialmente, vivências do povo negro, havia ali um rompimento com um círculo histórico-familiar que acomete o segmento negro da população. Ali existia uma família, um núcleo familiar nos padrões tradicionais com mãe, pai, filhos e agregados. Contrariando a realidade de mulheres negras mães sozinhas; de crianças negras abandonadas; de pais negros alcoólatras, presidiários ou desempregados,. Ali havia uma rara família negra estruturada, ainda que, com poucos recursos financeiros, e que à despeito de todos os dispositivos do sistema para eliminar negros e negras, seja psicologicamente, seja carnalmente, eles conseguiram se manter unidos. Causou-me imensa dor assistir calada, com o peito apertado a essa tragédia. Quantas vezes mais assistiremos nossos irmãos e irmãos serem eliminados no nosso país? Fazia-se e se faz urgente que a sociedade brasileira nos veja. Pensada por e para brancos e que não incluiu em seus planos de nação a incorporação de negros e negras, somos apenas estatísticas ou as pessoas que compõem a base da pirâmide social que possibilita, com sua força de trabalho, que a “sociedade” exerça a sua cidadania cotidiana. Por meio das redes sociais, o sentimento de fragilidade e impotência; a sensação de não pertencimento e essa dor no peito foi compartilhada e ecoou em outros seres humanos que sentiam-se de forma similar. Majoritariamente mulheres, negras e brancas, e alguns homens, negros e brancos, somaram-se em poucas semanas para organizar uma manifestação pública um ato cultural que expressasse a nossa indignação, dor e amor, tendo a arte como viés estético, conceitual e reivindicador. Dedicamos algumas poucas horas das nossas vidas a pensarmos em como realizar um ato cultural sem verba ou apoio financeiro das entidades tradicionais do movimento humano. Até mesmo elas estão anestesiadas ou paralisadas? 1 64

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1. Performance da atriz Palomaris Mathias. Foto Ana Zúmas. 2. Registro da performance de Cris Rangel. Foto Lúbia Figueiredo. 3. O homem e companheiro de Cláudia da Silva Ferreira, Alexandre Fernandes da Silva. Foto Nego Júnior. 4. Detalhe do Cortejo. Foto Patrícia Ribeiro.

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5. A artista visual Olyvia Bynum. Foto Ana Paula Leôncio. 66

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Em poucos dias o coletivo constituiu-se. Encontros em residências, estúdios, ONGs. Contribuições presenciais, financeiras, afetivas, efetivas, inesperadas, desesperadas. A autorização para a realização do ato que saiu na tarde de 17 de abril. O ato marcado para 18 de abril. Será que estamos empreendendo energia em algo que faz sentido? Será que, apesar do feriado prolongado, as pessoas estarão conosco no ato por Cláudia, por nós, por nossos filhos? Será que Alexandre, marido de Cláudia aceitará vir e chegará em tempo? Será que as pessoas entenderão a subversão proposta pelo título do ato? A Paixão de Cláudia... E constituiu-se o ato. As pessoas vieram, chegando aos poucos. Mulheres, homens. Crianças, adolescentes, adultos, idosos. Negros e negras. Brancos e brancas. De preto, cor que em algumas culturas tradicionais africanas se refere ao lar, à casa. De branco, cor que nas mesmas culturas diz respeito à ancestralidade, ao luto e, entre os iorubas especialmente, é a cor do orixá criador da criatividade, Oxalá. Sexta-feira Santa, dia de Oxalá. Oxalá possamos viver e sermos respeitados na nossa natureza. Os batuqueiros convidados não estavam lá. Na ausência dos batuqueiros dos coletivos musicais de percussão e cultura popular que fazem uso do conhecimento ancestral africano, mas que não foram apoiar os descendentes de africanos em suas reivindicações por cidadania e humanidade, foram as mulheres que assumiram a sonoridade da caminhada silenciosa. Estimamos que 800 pessoas tenham participado do ato cultural. De nossa saída da Igreja de Nossa Senhora da Consolação, até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, andamos lentamente com nossos amigos, mães, pais, filhos, companheiros, conhecidos, desconhecidos, todos demasiadamente humanos. Lágrimas salgaram o caminho. Sal de limpeza. Sentimento de solidariedade, de fraternidade e sororidade, de amor, sim de amor.

Certamente não éramos 800. Considerando a espiritualidade que permeia as culturas tradicionais africanas, estavam presentes outras pessoas durante esse trajeto. Acredito sim, antepassados nossos que andaram por essas ruas e que não tiveram uma despedida respeitosa, estavam conosco. Sentiram conosco. A performance, a poesia, as artes visuais, a música, a dança, as artes cênicas, as expressões tradicionais transmitiram a mensagem que precisávamos. Alguns entenderam como uma festa, de forma depreciativa. Alguns que se dizem os guardiões dos saberes culturais dos povos tradicionais africanos e que se esqueceram que, em África, nascimento, vida e morte, são cantados, dançados, tocados, e que esse conjunto de ações garantem conexões entre o mundo visível e o mundo invisível; entre nós e os que nos cuidam e nos aguardam. Éramos e somos cidadãs e cidadãos usando um instrumento de transformação muito eficaz, a arte; desejo de celebrar nossos antepassados que sim, construíram esse Brasil com mãos, pés, sangue e suor. Há muito mais a dizer, ver e fazer, aqui fica um começo. Não, ninguém recebeu nada além de uma consciência tranquila, sentimento de cidadania em restauração, sentimento de humanidade pulsando.. Em 18 de abril de 2014, armados de rosas vermelhas, rodeamos a Mãe Preta, de Júlio Guerra, de gratidão pela existência dessas mulheres. Sentimos que agora sim essa mulher vai descansar em paz, vai de encontro aos nossos. Foi uma celebração da vida, da valiosa vida que cada um de nós têm e que o Estado identifica apenas como números. Reaprendemos que juntos somos fortes.

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RENATA FELINTO é doutoranda em Artes Visuais pelo Instituto de Artes/ UNESP, mestre e bacharel pela mesma instituição. Atua como pesquisadora, artista plástica e educadora. 68

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Café Amargo

A notícia segue... Dizem que é ano bom por aqui Bola no pé, dedo na urna.

uma poesia de Carmen Faustino ilustrações RENATA FELINTO

Turista e candidato subindo o morro Foto e abraço na criança Gosto de gol, caipirinha e cerveja Discurso bonito, santinho na mão Mantém a imagem, garantem a eleição...

Naquela manhã,

Mas lá no Morro da Congonha, é ano de luto

O gole do café desceu queimando

O coração da família partiu

Ardendo no sol

Seu corpo e sua vida banalizados na tela

Gosto forte, de sangue e asfalto...

Feridas gritando, vozes calando Mulher negra, racismo e invisibilidade social...

Na favela, o tiro nunca é perdido Achou a Mulher Negra

E agora, o gole de café

Que deixou de alimentar seus filhos

Na boca dos filhos de Cacau

Para virar saco pelas, ruas do cartão postal

Desce amargo como fel

Tudo gravado, a cena é forte, põe no ar!

Gosto forte, de saudade e de sal.

Porém, se a cor da pele é quase a cor do chão Não desperta sentimento algum Nem de justiça, nem comoção O choro profundo da família Não derramou no horário nobre da novela O grito de dor dos seus filhos Não ecoaram nos casarões da zona sul

CARMEN FAUSTINO Periférica da zona sul de São Paulo, tem formação em Letras e Literaturas. Atua no coletivo Mijiba de mulheres negras e entre prosas e poemas também é pesquisadora, articuladora cultural, revisora e educadora. 70

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itamar texto Serena Assumpção

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Algumas ações executadas foram fundamentais para que este processo se consolidasse intensamente: o lançamento do disco gravado com Naná Vasconcelos Isso vai dar repercussão, um ano após sua morte, em 2004, e o Livro de Canções e Histórias de Itamar – Porque que eu não pensei nisso antes?, em 2006. Neste mesmo ano, começamos as negociações com o selo Sesc, na tentativa de viabilizar este que é o box com toda a discografia de Itamar remasterizada, e mais dois discos de músicas inéditas. A Caixa Preta, foi lançada em 2010.

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foto Glória Flugel/1990

esde a morte de meu pai, Itamar Assumpção, em 2003, eu e minha pequena família de mulheres, estamos articulando, orientando, organizando e disponibilizando ao público seu legado musical, baseadas, principalmente, no que absorvemos do seu pensamento artístico.

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Os discos inéditos, chamados Pretobrás 2 – Maldito Vírgula e Pretobrás 3 – Devia ser Proibido, produzidos por Beto Villares e Paulinho Lepetit, respectivamente, encerram a trilogia imaginada por Itamar e iniciada com Pretobrás Vol. I – Porque que eu não pensei nisso antes…, de 1998. Como compositor compulsivo e artista disposto ao trabalho que era, deixou as músicas prontas e registradas em diversos lugares. Finalmente, em 2011, foi lançado o longa-documentário Daquele Instante em Diante, que esteve em cartaz por cerca de 40 dias, sem cobrança de ingresso, em todas as salas Itaú-Unibanco do Brasil, em uma ação singular e inédita naquele espaço cultural. Eu e minha família batalhamos isso, juntamente com outras pessoas de mente aberta e arejada, vinculadas à referida instituição. O filme - sucesso de público e crítica, continua a ser exibido eventualmente e gratuitamente. Há um ano, o diretor da produção, Rogério Velloso, num movimento arrojado e corajoso, disponibilizou o filme na rede de computadores. Declaro que esta movimentação foi apoiada por mim e por minha família, já que, acreditamos no conhecimento e na informação livres, assim como deveriam ser livres todas as formas de expressões artísticas.

foto Vange Milliet/1994

Itamar era um desses espíritos inquietos e viscerais e fazia de sua música um movimento contínuo de sua vida privada, a ponto de essas duas vidas se confundirem entre si e se confundirem com outras tantas, vidas, que ele fora capaz de criar e recriar, enquanto esteve vivo, entre nós, no planeta Terra. Penso que ele ainda vive, entre nós, mesmo que num plano mais etéreo e especial, haja vista a quantidade de pessoas que ainda hoje se dizem tocadas por sua obra e arte, independentemente de terem vivido em seu tempo ou não. Sim, Itamar está vivo! E seu legado se encerra jamais.

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Itamar Assumpção e Alzira. foto Vange Milliet

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VI NÃO VIVI Primeira vez que eu te vi meu coração não fez CLICK. Eu vi, ouvi, não vivi seu psique, seu TRIC TRIC. Não vi sushi, sashimi... nem Eros, nem Afrodite. Primeira vez que eu te vi primeiro vi seus limites. Não senti onda por ti nem o menor apetite. Eu não senti frenesi... eu não senti tremelique. Não vi nenhum colibri, não vi sua bad trip... Sino bater não ouvi nem vi se havia bronquite.

Primeira vez que eu te vi contive os meus palpites. Falei de Rilke, de Leminski assim que vi seus grafites.

foto Amiro Alves de Lima

Sol, Búzios... nós dois ali... com ares de casal vinte. Nem com os olhos comi... nem vini vidi... nem vici.

O casal Itamar e Zena Brigo de Assumpção no dia em que se casaram, em 18 de setembro de 1977.

SERENA ASSUMPÇÃO estudou Letras no Mackenzie e Política e Sociologia no Stantobury (Inglaterra). É cantora e produtora cultural.

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na sala com

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Cinema na Universidade de Brasília (UnB). Em 1971, ameaçado pelo Decreto-Lei 477/69², sob a acusação de prática subversiva em atividades estudantis e políticas, parte para o autoexílio em Estocolmo, na Suécia. “Tive que sair correndo de Brasília. Estava agitando o Cine Clube da UnB, com filmes, distribuindo panfletos de organizações e tal. Só que estava rolando uma puta repressão naquela época. Uma professora me disse que já estavam de olho em mim e que estavam esperando o momento certo para me pegar. Um amigo me colocou no carro e me levou para Ouro Preto, fiquei um mês na casa dele. De lá peguei um ônibus pra Londrina onde uns amigos comunistas me ajudaram a resolver umas coisas, logo depois fui para São Paulo onde uma organização religiosa me ajudou a sair do Brasil”, conta.

texto NABOR JR. e AKINS KINTE foto MANDELACREW

De calça e camisa pretas, com um chapéu de palha que deixa esparramar pelas orelhas o grisalho dos cabelos, ali, sentado em frente à mesa que sustenta um antigo monitor de computador, na escura sala de seu pequeno apartamento, na zona oeste da cidade de São Paulo, e fumando um cigarro atrás do outro, o irreverente e polêmico cineasta paranaense Ari Candido Fernandes, entre uma prosa e outra, envolto na cortina de fumaça que se formara entre nós, dispara: “Hoje, o cinema é meu ponto de refugio, escape; de dar porrada. Porrada com aquilo que coloco na tela, fazendo as pessoas discutirem, refletirem”. Aos 63 anos de idade, completados no último mês de julho, Ari, filho do pequeno comerciante João Cândido Fernandes e da doméstica Maria do Carmo de Jesus Fernandes, vive em São Paulo desde o início dos anos 80. Antigo ativista do movimento negro e um dos idealizadores do Dogma Feijoada, escreveu seu nome entre os principais nomes do chamado Cinema Negro¹ brasileiro dirigindo os premiados curtas-metragens Martinho da Vila, Paris 1977; O Rito de Ismael Ivo (2003); O Moleque (2005), Pacaembu, terras alagadas (2006) e Jardim Beleléu (2009). Mas, observando atentamente a frase do cineasta e, principalmente, a sua trajetória de vida, percebemos que o cinema de, e para Ari Cândido Fernandes, não é de hoje, sempre foi um ponto de convergência, reflexão e 82

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manifesto. Ora conjuntamente agindo nele próprio, ora nos que travam contato com o sua obra. Nascido em 1951, na cidade de Londrina, no Paraná, “na parte pra baixo da estrada de ferro”, como costuma salientar para acentuar sua origem humilde, Ari teve seus primeiros contatos com o cinema ainda na adolescência, em sua cidade natal, através do cineclubismo: “minha primeira militância”, lembra. “Com os meus 17, 18 anos mais ou menos, me envolvi com o cineclubismo. Nesta época costumava levar alguns filmes para serem exibidos nos centros acadêmicos da cidade, especialmente no Cine Clube Universitário do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito de Londrina. Vinha de ônibus até São Paulo pegar os filmes na Boca do Lixo (no Centro da cidade). Lembro-me de passarmos o filme O Caso dos Irmãos Nave, do Luís Sérgio Person, para os alunos dos cursos de Direito, Medicina, e alguns deles até largaram o curso depois do impacto das cenas (sic). O último filme que vim pegar, e nem cheguei a levá-lo para ser exibido, foi o São Paulo, Sociedade Anônima, também do Person. Me prenderam no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), em Londrina, e me tomaram o filme”, recorda. Pouco tempo depois do episódio, Ari, já bastante influenciado pelos ideais socialistas do Partido Comunista Brasileiro, muda-se para Brasília, onde inicia o curso de

E é justamente na Europa, ainda envolto pela atmosfera comunista que deixara para trás, que inicia sua valorosa contribuição ao cinema brasileiro. Na Suécia, onde permaneceu entre os anos de 1970 e 1975, manteve contato com integrantes do revolucionário Partido dos Panteras Negras e foi vizinho do famoso cineasta sueco Ingmar Bergmann. Em Estocolmo, além da continuidade nos estudos em cinema, trabalhou em creches, numa fábrica de pães e como estivador. Depois, seguiu para Paris onde continuou sua formação e diplomou-se em cinema pela Nouvelle Sorbonne (PARIS III- Censier). Na França, produziu seu primeiro filme: Martinho da Vila, Paris 1977. Com 8 minutos de duração, o curta exibe imagens das ruas e edifícios de Paris enquanto o

sambista Martinho da Vila, bastante a vontade, circulando por bairros e bares parisienses, faz reflexões a respeito das diferenças e semelhanças entre a cidade Luz e o Rio de Janeiro. Ainda durante o exílio na Europa, além da intensa produção cinematográfica, Ari se dedicou também ao fotojornalismo, atuando como freelancer para as agências internacionais Gamma, em Paris, e para a britânica Camera Press, em Londres. Em 1978, vai a Cuba, pela Agência Gamma, para fazer a cobertura do XI Festival Mundial da Juventude. Graças ao trabalho como fotógrafo, visitou, entre os anos de 1978 e 1979, a desconhecida Eritreia, país africano limítrofe com Sudão e Etiópia, e que somente conseguiu sua independência política em maio de 1993. Alocado a 50 quilômetros da capital do país, na companhia de guerrilheiros, com aviões jogando bombas e homens armados por todas as partes, Ari sente na pele o clima de terror da guerra civil. “Os guerrilheiros eram sempre bombardeados. Nós dormíamos de dia”, conta. A passagem pelo país africano ficou eternizada no documentário Por que a Eritreia? (1979), que recebeu o prêmio de melhor documentário pelo júri popular na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 1984. Em 1986, a passagem pelo país africano materializou-se novamente, desta vez no livro Eritréia: Uma Esquecida Guerra de Libertação Africana (Editora Edicon).

¹No Brasil, o CINEMA NEGRO aparece com o Cinema Novo, que surge como crítica ao cinema produzido pelos grandes estúdios. Podemos dizer que o Cinema Negro é, conforme definição do antropólogo, cineasta e professor Celso Prudente, curador da Mostra Internacoiolan de Cinema Negro, “o cinema que mostra, na estrutura do primeiro e do primeiríssimo plano, toda a expressão de conjunto cultural que traz relações do ser africano, que é furtado num processo de massificação, na qual lhe é negada a sua condição humana”. ²O DECRETO-LEI 477/69, também chamado de “AI-5 das universidade”, foi baixado pelo então presidente Artur da Costa e Silva durante o regime militar brasileiro. O decreto-lei previa a punição de professores, alunos e funcionários de universidades considerados culpados de subversão ao regime. Os professores atingidos eram demitidos e ficavam impossibilitados de trabalhar em qualquer outra instituição educacional do país por cinco anos, ao passo que os estudantes eram expulsos e ficavam proibidos de cursarem qualquer universidade por três anos. OM2ºAto

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Ari Cândido orienta o ator José Wilker durante as filmagens de Jardim Beleléu,na Cidade Tiradentes, em São Paulo, no ano de 2008.

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Os quase 10 anos de viagens mundo afora seriam inter- Cunha Lima. Entre as muitas realizações da Assessoria no rompidos em 1979, ano da publicação da Lei da Anistia, período, como a criação do Projeto Zumbi, destacam-se também a publicação, em 1984, do fac-símile Imprensa o que permitiu o retorno do cineasta ao Brasil. Negra Brasileira, pesquisada e prefaciada pelo historiador e sociólogo Clóvis Moura, com legendas de Miriam NicoA QUESTÃO RACIAL: PÚBLICO E PRIVADO lau Ferrara, e a editoração do Calendário Afro-Brasileiro de Ari retorna ao Brasil em 31 de dezembro de 1979, perío- Cultura, em 1986. do marcado pelo início do processo de redemocratização do país e pelo estreitamento das relações do cineasta “Posteriormente a essa reunião na Câmara, onde me injunto ao Movimento Negro Unificado (MNU). “Fui da di- dicaram para liderar um grupo que discutiria cultura, nos retoria nacional do MNU, junto com Hamilton Cardoso, reunimos na minha casa. Foi um monte de gente, pai de santo, músico, gente da dança, tetro, (...). Tomaram todos Lélia González, Batista”. os meus conhaques e meus cafés (sic). Desse encontro Em 1982, já em São Paulo, depois de um curto perío- tiramos uma comissão de 7 ou 8 pessoas que não só foi do em Londrina, é indicado para assumir a função de na posse do governador Franco Montoro, como também Assessor de Gabinete da recém-criada Assessoria para foi direto na Secretaria de Cultura para conversar com o Assuntos Afro-brasileiros, órgão sediado dentro da Se- Pacheco Chaves, que havia sido nomeado secretário da cretaria de Estado da Cultura de São Paulo e estabe- pasta. A Assessoria Afro foi a primeira no estado de São lecido no início do governo de André Franco Montoro. Paulo. Me dediquei muito a este projeto, de 1983 até eu É na nova função, dentro do serviço público, que Ari ser exonerado, em 13 de maio de 1987. Quem me subsparticipa da criação do Projeto Zumbi, do qual viria a ser tituiu foi a Tereza Santos. Promovemos apresentações, debates, exposições, muita coisa. Minha maior honra foi o primeiro coordenador. ter conseguido, ou melhor, forçado a barra, para colocar “A Assessoria para Assuntos Afro-brasileiros nasceu de os orixás no Teatro Municipal, ter colocado o Teatro Canuma reunião do Movimento Negro Unificado (MNU) re- to e Dança de Moçambique, da FRELIMO (Frente de Lializada na Câmara Municipal e que reuniu mais de 300 bertação de Moçambique), também no Municipal. Além pessoas. Era um período de redemocratização do Brasil, disso, outros lugares sagrados como o MASP, MIS. Tudo anos 80, 81, 82. Na ocasião eu já integrava a Direção de graça. Eu fui a cobaia. (sobre a nomeação para coorNacional do MNU. Anteriormente, tínhamos feito mui- denar o Projeto Zumbi). Nós ficávamos locados na rua Lítos debates no jornal Folha de São Paulo sobre qual era bero Badaró, eu, mais um funcionário (ligado as religiões o lugar do negro na sociedade brasileira. Muitos deles afro) e mais uma secretária. Nosso prédio era em frente a convocados por nós mesmos do movimento. O profes- Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Nós até tensor Hélio Santos já vinha participando de reuniões com tamos entrar na Faculdade de Direito - que tem imagem o Fernando Henrique Cardoso, no PMDB, e discutindo de Castro Alves, Luiz Gama - oferecendo o Projeto Zumbi a necessidade do negro ocupar pelo menos um espaço para eles, mas recebemos um sonoro não da diretoria. dentro das assessorias de cada uma das secretarias do A Assessoria não era apenas uma assessoria de cultura, governo Montoro. Era de um lado uma reivindicação le- mas resolvia assuntos relacionados ao negro de uma magítima, uma vez que o negro participou, votou, e merecia neira geral. Fomos também para a TV Cultura indicar uma seu espaço na administração. Por outro lado, hoje, obser- pessoa para contribuir com a nossa causa na TV, o Samuel vando toda aquela conjuntura, é fato também que havia Santiago e a Dulce Cardoso. Englobamos o esporte, trao oportunismo de muitos negros que não estavam nem zendo o pessoal do basquete, do futebol, do atletismo, aí para as reivindicações da comunidade negra. Estavam homenageando essas pessoas que estavam esquecidas”. Paralelamente a coordenação da Assessoria para Assunlá para passar a canequinha e ganhar o seu”, recorda. tos Afro-brasileiros, Ari Cândido também foi professor de Ari esteve à frente da Assessoria para Assuntos Afro-bra- Fotojornalismo na Universidade de Taubaté, onde permasileiros entre os anos de 1983 e 1987, durante as gestões neceu durante os anos de 1982 a 1991, e na Fundação dos secretários de estado Pacheco Chaves e Jorge da Cásper Líbero, de 1983 a 1992.

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FEIJOADA SEM SAL No final dos anos 90, Ari Cândido, ao lado de nomes como Noel Carvalho, Jeferson De, Billy Castilho, Rogério de Moura, Daniel Santiago, Celso Prudente, Valter José, Arnaldo Conceição, Luís Paulo Lima e Agenor Alves, participou das reuniões embrionárias do manifesto Dogma Feijoada que, inspirado no Dogma 95 dos cineastas Lars von Trier e Thomas Vinterberg, foi criado com o objetivo principal de eliminar os estereótipos do negro brasileiro no cinema nacional, estabelecendo sete mandamentos para o cinema negro no Brasil: o filme tem que ser dirigido por um realizador negro; o protagonista deve ser negro; a temática do filme tem que estar relacionada com a cultura negra brasileira; o filme tem que ter um cronograma exequível. Filmes urgentes; personagens estereotipados negros (ou não) estão proibidos; o roteiro deverá privilegiar o negro comum brasileiro e, por último, super-heróis ou bandidos deverão ser evitados. “Fui às primeiras reuniões do Dogma bem desgastado com algumas coisas que haviam acontecido na Assessoria Afro. O que eu não sabia é que estava entrando em uma barca de vaidades. Fizemos discussões, o manifesto, enfim. Título precisa ter conteúdo. Não adianta ficar no discurso panfletário. Para falar de cinema negro tem que fazer cinema negro. Colocar um monte de negro na tela é cinema negro? Isso qualquer um pode fazer e faz. O que eu quero saber é se existem negros capacitados para dialogar com o seu próprio povo, porque automaticamente estará dialogando com o Brasil, com sua história e especificidades. Mas o Dogma, a meu ver, virou só um nome”. A bronca com o que chama de “desdobramentos oportunistas” do Dogma, inclusive, ganhou capítulos judiciais. “Entrei com um processo para parar com esse oportunismo ideológico. Você esta falando que criou, mas você não criou nada. Nossos antepassados é que criaram. Nós tivemos outros cineastas negros que já morreram, como o Zózimo Bubul, o Waldir Onofre, Cajado Filho, e outros que já se foram. O cinema negro é uma corrente. O Dogma não existe mais, acharam que era colocar um negro na frente das câmeras e outro atrás e pronto? É claro que já é um avanço. Mas sou bastante crítico quanto a tudo isso. Não vejo, hoje, grandes cineastas negros, afro-brasileiros, que estejam fazendo um cinema 86

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Registro da passagem do cineasta pela Eritréia (país localizado na região conhecida como Chifre da África), durante os anos de 1970.

que possamos chamar de cinema negro brasileiro mesmo, participando da sociedade brasileira, conquistando plateias, bilheterias, corações, mentes. E mais, resgatando um patrimônio que está aí, virgem para ser explorado”.

LIMA BARRETO E CUTI Entre os quatro curtas-metragens dirigidos e roteirizados por Ari no Brasil: O Rito de Ismael Ivo (2003); O Moleque (2005), Pacaembu, Terras Alagadas (2006) e Jardim Beleléu (2009), dois deles, particularmente, chamam a atenção pelas obras e autores em que foram inspirados. O Moleque, ficção baseada num conto homônimo do escritor carioca Lima Barreto, e Jardim Beleléu, filme em homenagem ao músico Itamar Assumpção e livremente adaptado do pequeno conto Não era uma vez, do escritor e poeta Luis Silva (Cuti). Ambos os nomes fundamentais dentro da literatura negra brasileira. “Lima Barreto era um irreverente, assim como todo negro brasileiro inteligente é. Foi um cara incompreendido, não por mim. Morro de risada ao ler Lima Barreto. Mal visto, com a vida cruel, com problemas de alcoolismo. Um cara da rua, sofrido em suas relações amorosas, com os filhos. Grande cronista da vida do Rio de Janeiro. Era um cara que estava na capital, competente escritor, mas que era discriminado. Até o deixavam escrever algumas crônicas no jornal, mas nenhum editor queria editar um livro seu. O Lima Barreto ficou no ostracismo desde a sua morte até os anos 50, quando fizeOM2ºAto

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ram um apanhado do que ele havia produzido. Fui atrás de algo autobiográfico do Lima e encontrei O Moleque publicado na revista do Darcy Ribeiro, Revista de Cultura. E disse para mim mesmo, ‘é com esse que eu vou’”, revela Ari sobre o premiado curta-metrage. O filme, vencedor do International Portuguese Film Festival (2008), em Toronto, conta a história do filho de uma lavadeira de roupas, que mora em um pequeno vilarejo. O garoto é alvo de gozações de outros meninos e ele responde às provocações com muita criatividade. No elenco, Abayomi de Oliveira, Zezé Motta, Maria Ceiça, João Acaiabe, Eduardo Silva, Rodolfo Valente e Javert Monteiro. “O conto Não Era Uma Vez é brilhante e tem apenas duas páginas. Incrivelmente, os poucos cineastas negros que temos ainda não haviam adaptado nada do Cuti para o cinema. Um militante, um poeta, reconhecido lá fora, mas pouco conhecido aqui no país”, diz sobre o amigo. Como ator, Ari participou nos filmes franceses Un Desert pour Constance, de Sarah Maldoror, em Paris (1977) e Le Sauvage, de Jean-Paul Rappeneau. Também fez o papel de Juiz, contracenando com Alexandre Frota, no seriado Turma do Gueto, da TV Record.

UMA CÂMERA NA MÃO E VÁRIAS IDEIAS NA CABEÇA “Fiquei isolado por opção. Por discordar de um monte de coisa, por ver gente se enquadrar, jogar sujo. Tipo Maria vai com as outras”. Cruel e generoso ao mesmo tempo, o passado de Ari, de um lado marcado por discordâncias ideológicas perante setores do Movimento Negro e decepções com a postura dos quais ele chama de “oportunistas” – sujeitos que se utilizam do discurso da igualdade racial para conseguir benefícios para si próprios; mas também por imensuráveis contribuições a representação do negro no cinema nacional e diversos prêmios, parecem não afetar sua incansável disposição em produzir e representar, com dignidade, o negro na sétima arte. “Estou preparando uma pancada pesada. Dessa vez vou ‘brincar’ um pouco com a história do Brasil, e novamente tendo o negro como parte desta história. Dessa vez não vai ser um curta, pois preciso de mais espaço e também porque quero colocar mais coisas da minha vivência e do que estou acompanhando a 20, 30 anos”. O leão ainda ruge!

FILMOGRAFIA ARI CÂNDIDO FERNANDES Martinho da Vila, Paris 1977 Por quê a Eritréia? (1978) O Rito de Ismael Ivo (2003) O Moleque (2005) Pacaembu, terras alagadas (2006) Jardim Beleléu (2009) PARA ASSISTIR Entrevista com o cineasta omenelick2ato.com

Rascunho das ideias surgidas nas primeiras reuniões dos Dogmáticos da Feijoada: documento histórico.

AKINS KINTE é poeta, cineasta e documentarista. 88

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YELLOW FEVER Notas sobre a despigmentação artificial de pele entre mulheres negras

texto LUCIANE RAMOS SILVA

A despigmentação artificial de pele através do uso de produtos cosméticos e medicamentos que removem a melanina protetora da cútis é um tema áspero em diversas sociedades africanas porque além das questões relacionadas à saúde pública escancara também a manipulação de identidades provocada pelo chamado mundo globalizado. Nigéria, Quênia, Senegal, Congo e Camarões são alguns exemplos de países onde o comércio poderoso desses produtos existe há décadas e se fortalece anualmente através de uma engrenagem complexa que envolve mídias de massa, processos históricos e imposição de padrões de beleza. Pessoas de diferentes faixas etárias elegem o clareamento como uma forma de obter reconhecimento social. No discurso dos usuários destes produtos, em sua maioria mulheres, a pele escura é um obstáculo para oportunidades sociais, trabalho e principalmente para o “mercado amoroso”, pois seus maridos e pretendentes preferem mulheres de pele clara. Carrie Mae Weems, I Looked and Looked to See What so Terrified You, 2006. 90,8 x 60,3 cm.

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O QUE LEVA TAIS MULHERES A SE SUBMETEREM A RISCOS E DESTRUIÇÃO DE SI MESMAS?

¹(Trecho do discurso proferido por Malcon X, em Los Angeles, 1962)

Quem te ensinou a odiar a cor da tua pele? Quem te ensinou a odiar a textura do seu cabelo? Quem te ensinou a odiar o formato do seu nariz e dos seus lábios? Quem te ensinou a odiar a si mesmo do topo da cabeça a sola dos pés?¹ O desejo de ter uma “pele mais bonita” é parte de um imaginário construído ao longo dos séculos e pautado por referências e símbolos negativos associados à cor da pele. A missão pseudo-civilizadora disseminada pelo colonialismo em diversas partes do globo trouxe em seu pacote modelos de virtude ligados exclusivamente aos padrões estabelecidos pelos europeus. Assim, os modelos ideais de organização social, de saberes técnicos, científicos ou filosóficos eram vinculados apenas ao mundo do colonizador. Às peles escuras restava o fardo do primitivismo, da inferioridade intelectual, criminalidade, corrupção e depreciações de todas as naturezas. Assim, a percepção de mundo era ditada pelas lentes europeias e aos OUTROS restava a obediência. É certo que, ao longo dos tempos, incontáveis vozes questionaram e criaram formas de implodir essas imposições, mas elas permanecem no imaginário social até os nossos dias – basta observarmos que, ainda hoje, exemplos de refinamento e beleza raramente estão relacionados às estéticas negras.

Anúncios encontrados em periódicos de Gana ainda nos idos dos anos de 1970 comprovam que a prática é antiga. Quem ganha e quem perde com tudo isso?

A mentalidade colonial varreu a autoestima dos povos colonizados, causando sérios danos psicológicos que se revelam nos sentimentos de inferioridade e na admiração extrema da beleza europeia. Dejetos deixados pelo colonialismo permanecem à flor da pele e são reforçados diariamente pela mídia graúda. Qual a cor daquele homem bem sucedido, daquela mulher de status, daquela família feliz que aparece na sua televisão?

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A COR QUE ATRAPALHA Considerado um fenômeno social em países da África Sub Saariana, a despigmentação artificial afeta em grande proporção a população feminina adulta. Produtos de manipulação caseira ou soluções industrializadas milagrosas movem um mercado lucrativo e em crescimento vertiginoso. Recentemente a pop star Nígero-Camaronesa, Dencia, lançou uma linha de produtos para clareamento de pele chamada Whitenicious. Sendo ela própria a garota propaganda da marca, a cantora exibe sua pele absurdamente mais clara em relação à cor natural. Apesar de serem livremente comercializados, esses produtos possuem substâncias que destroem os tecidos, causam complicações como feridas, queimaduras, infecções e manifestações cancerígenas. É impressionante observar as mãos, pés, braços e faces de mulheres que usaram esses artigos por longos períodos. Os danos são terríveis.

NA PELE E NAS PROFUNDIDADES Ao ouvir as opiniões das consumidoras dos produtos, percebemos que o clareamento de pele é tido como capital social – e a popularidade dos cosméticos mostra isso. Em países como Índia, China, Japão e Coréia movimentos semelhantes ocorrem, com características culturais específicas, mas fortemente influenciados por imagens de beleza padronizadas a partir do modelo europeu.

A cantora pop Dencia posa para a campanha publicitária do creme de clareamento de pele Whitenicious. Popular na África Subsariana, o produto supostamente remove as manchas escuras e clareia a pele em apenas sete dias.

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E esse debate é problema dos outros? Creio que não. Vale lembrar a nossa realidade brasileira: padrões beleza impostos em campanhas publicitárias, telejornais, novelas, revistas e afins expõem a cegueira dos que consomem sem reclamar e a perversidade dos que mantem a engrenagem funcionando. A globalização, tal qual imposta pelos países do norte, ignora nossas especificidades. Não é à toa que a FIFA (Federação Internacional de Futebol Associado), recentemente vetou a participação da atriz Camila Pitanga e do ator Lázaro Ramos como casal de apresentadores do sorteio dos grupos da Copa do Mundo no Brasil, justificando o veto com a seguinte frase: “Trata-se apenas de tornar o casal da copa mais palatável ao gosto europeu”. Gosto europeu?

Yellow Fever (Febre amarela): expressão popularizada nos anos 70 que faz irônica referência à cor produzida pelos produtos de despigmentação na pele das mulheres africanas assim como ao frenesi criado com o alto consumo.O músico nigeriano Fela Kuti (1938 - 1997) lançou um álbum em 1976 com esse nome, criticando a prática.

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Por essas e outras seguimos aprisionados em imagens que não nos representam e depreciam o que somos. O fato de muitos homens negros não se relacionarem com mulheres de pele preta e de que estas frequentemente vivenciam situações de invisibilidade diante deles, não é um fator casual ou uma questão de gosto, mas sim outra consequência da desvalorização e preconceitos acumulados ao longo de nossa história. No Brasil a prática da despigmentação ainda não virou moda, mas os cânones de beleza estão a anos luz de distancia das estéticas negras. Alisamentos, chapinhas, extensões de cabelo, cirurgias plásticas e outros desamores continuam a esmagar a imagem de nós mesm@s e a podar a autonomia de nossos corpos.

PARA LER Peles Negras, Máscaras Brancas Frantz Fanon Editora: EDUFBA 2008 PARA ASSISTIR Programa Tá Bom Pra Você com: Érico Brás, Kênia Dias, Mateus Dias e Gabriela Dias Em: youtube Teste das Bonecas e as Relações Raciais (CNN) Em: youtube PARA OUVIR Yellow Fever Fela Kuti Gravadora Decca Afrodesia 1976

LUCIANE RAMOS SILVA é doutoranda em Artes da Cena pela UNICAMP, mestre em antropologia pela mesma instituição e bacharel em Ciências Sociais pela USP. Atua na área de estudos africanos, educação e artes do corpo. 98

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� e � SIDNEY AMARAL. Sem Título, 2014. Aquarela e lápis sobre papel archer. 20 x 25 cm.



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