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revista literรกria:

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EDITORIAL A tecnologia bate à nossa porta a cada segundo, nesta década, deste milênio 21; o tempo cada vez mais atemporal; os conceitos em o uma dinâmica própria de mutação; as filosofias ora se afastando, ora se chocando; a natureza em sua implacável caminhada à nova era do gelo; o homem distante da paz, sempre, almejada. Às vezes os sonhos se repetem, mas a realidade é dura e nos avisa que não temos ensaios para viver, só estreias. Assim chegamos a mais uma estreia da Revista Literária Plural, a quinta. Nosso Conselho Editorial antenado, explicita sua posição, sem censura ou rasuras, na POESIA URBANA, na condição de cidadãos livres. Ano 10 - nº 5 - agosto/2013 - Rio de Janeiro/RJ Sem medo de ser piegas, repetitivo, mas sabendo da excelência das vozes, o ROTEIRO OFICINA Editores DA POESIA versa seus eventos. Bancando Editor-chefe: Sérgio Gerônimo opiniões e fazendo história as entrevistas com Editor-assistente: Mozart Carvalho os escritores ANTONIO OLINTO (preciosa Editora-logística:Vanda Delgado pelas circunstâncias) e REYNALDO VALINHO ALVAREZ (o poeta que pensa em deAv. Mal Henrique Lott, 270/1111 cassílabos). O criador da OFICINA, o poeta Rio de Janeiro - RJ - 22631-370 FRANCISCO IGREJA, ainda com crônicas Tel:(21) 3328-4863 inéditas e atuais. Ensaios primorosos sobre www.oficinaeditores.com.br Jorge Amado, o Movimento Modernista, Arte Revista Literária Plural & Literatura, Latinidade do substantivo. ConISSN 22384308 00005 tos, resenha de livros, projeto de incentivo à leitura e escrita, e poesia: poemas dos nossos Capa/arte-final/projeto gráfico: Sérgio Gerônimo mais atuantes escritores. Impressão e acabamento: Letras e Versos Caminhe... Fotografias: Sérgio Gerônimo e Mozart Carvalho Respire... Revisão final: Adriana Bandeira Interaja... Conselho Editorial: Adriana Bandeira, Ana Carolina Tempo? Coelho, Glenda Maier, Juju Campbell, Márcia Leite e Lembra, o que já dissemos acima? Ele está atemporal. Aproveite os parentêses, as laMozart Carvalho cunas, reticências, entrelinhas. Faça a sua Normas para publicação: estreia. Conte conosco!

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Revista Literária Plural está aberta a publicações de crônicas, contos, biografias, poemas, traduções, entrevistas, resenhas de livros, roteiros em geral, monografias... Os textos deverão vir digitados em fonte TNR, tamanho 10, por e-mail ou CD (com cópia em papel) e endereçados ao Conselho Editorial.

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Sérgio Gerônimo Mozart Carvalho Vanda Delgado Editores


revista literária:

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www.oficinaeditores.com.br referência em poesia desde 1985 site referendado pelo Diretório de Poesia da UNESCO desde 2001 ROTEIRO DA POESIA no Rio de Janeiro/RJ 1 - TE ENCONTRO NA APPERJ - Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Gerônimo e Mozart Carvalho com apoio: OFICINA Editores convidam: 2ª segunda-feira do mês, às 19:30h, Bar do Ernesto, Largo da Lapa, 41, esquina com a Sala Cecília Meireles. Boletim informativo: Na Ponta Da Língua, lançamento de livro, roda de poesia, músicos, poetas convidados. Informações pelos tel:(21) 3328-4863 ou e-mail: apperj@apperj.com.br 2 - POETA SAIA DA GAVETA - na Casa do Bacalhau, Rua Dias da Cruz, 426, Méier. Coordenação de Neudemar Sant`Anna (apperjiana) e da idealizadora do projeto Teresa Drummond (apperjiana), ocorre toda 2ª terça-feira, de março a dezembro, das 18h às 22h. O rodízio de poesia é acompanhado por músicos. Informações pelo tel: (21) 9252-9031 / 8767-0581 ou e-mail: poetasaiadagaveta@gmail.com 3 - TERÇA CONVERSO NO CAFÉ - com o grupo Poesia Simplesmente e seus convidados, toda terça-feira, a partir das 18:30h. Em novembro Festival Carioca de Poesia. No Teatro Glaucio Gill, Pça Cardeal Arcoverde, Copacabana, entrada: R$5,00. Mais informações pelo e-mail: poesiasimplesmente@gmail.com 4 - AJEB-NACIONAL - Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, convida para uma tarde de descontração com poesia, música e canto, toda 4ª segunda-feira do mês, às 15:30h. Local: Confederação das Academias de Letras e Artes do Brasil, na Rua Teixeira de Freitas, 5/3o andar. Coordenação de Larissa Loretti (apperjiana). Info: lloretti1807@yahoo.com.br 5 - ENTARDECER DE POESIA & ARTE - a ALAP, Academia de Letras & Artes de Paranapuã, faz sua reunião toda 2ª segunda-feira de cada mês, na CONFALB, Confederação das Academias de Letras e Artes do Brasil, Rua Teixeira de Freitas, 05/3° andar, Lapa, a partir das 15:30h, com coordenação de Eliane Mariath (apperjiana). Mais informações pelo tel:(21) 2293-3054 ou e-mail: alap.rj@ig.com.br 6 - POESIA, VOCÊ ESTÁ NA BARRA (POVEB) - coordenação de Mariangela Mangia e Aluizio Rezende (apperjiano); 1ª terça-feira do mês, no Condomínio Novo Leblon (Areal, Bocha ou Piano Bar), Av. das Américas, 7607, Barra da Tijuca, em frente ao PromoInfoShopping, a partir das 19h. Apoio: APPERJ – Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro. Contatos: marimangia@hahoo.com.br, (21) 8186-8807 ou alurez@oi.com.br, (21) 8625-7878 7 - ENCONTRO DE POESIA - coordenado por Lydia Simonato (apperjiana) e Larissa Loretti (apperjiana), 3ª quinta-feira do mês, na Biblioteca de Botafogo, a partir das 15h, na Rua Farani, 53, Botafogo. Mais informações: lydiasimonato@yahoo.com.br 8 - PRÊMO FEUC DE LITERATURA - 2013 - regulamento no site: www.feuc.br . Organização do Centro Cultural da FEUC. 10 - SARAU LETRAS DA FAVELA - coordenação e apresentação de Joilson Pinheiro, 2º sábado do mês, na Biblioteca Parque da Rocinha, Estrada da Gávea, 454, das 16:30 às 18:30h, convidados especiais, lançamento de livro, música. Apoio: C4 e Secretaria de Cultura de Estado, Rocinha. Mais informações: faleconosco@bibliotecadarocinha.rj.gov.br 11 - IDENTIDADE CULTURAL & MOVIMENTO CULTURISTA - coordenação e apresentação de Janaína da Cunha, último sábado do mês, no Amarelinho da Cinelândia, Centro, das 12 às 17h, convidados especiais, lançamento de livro, música. Mais informações: www.novosescritores.com 13 - FESTIVAL DE POESIA FALADA DO RIO DE JANEIRO/PRÊMIO FRANCISCO IGREJA - regulamento no site: www.apperj.com.br . Organização da APPERJ.

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Salve, Jorge!

Jorge Amado é aclamado pelos seus 100 anos. É fácil encontrar quem o elogie, mas não foi sempre assim. Ler um de seus livros levaria qualquer um à cadeia. Jorge Amado já foi preso por causa de suas ideias e seus livros já foram queimados em praça pública, como nos tempos da Inquisição, como se o fogo purgasse os pecados da mente de quem produziu tais pensamentos. Jorge Amado já foi execrado, exaltado, ignorado por alguns círculos acadêmicos por ser demais regionalista, mas nunca esquecido pelos milhares de leitores em todo o mundo, conquistados pela sua forma simples de escrever, um caráter verdadeiramente lírico, através do emprego de períodos breves em orações predominantemente coordenadas, numa escrita objetiva e direta ao expressar emoções intensas, e pela facilidade que tinha para contar as histórias do povo, das pessoas humildes da Bahia.

moso, mas pela necessidade de expressar o que sentia. Em sua narrativa havia uma poesia que não cabia nas palavras, mas no coração do autor que o revelava através das personagens para cada leitor. Jorge Amado escreveu sobre os oprimidos e defendeu a ideia de que o país poderia ser ideologicamente independente e solucionar seus problemas. Acreditou que o Brasil poderia ser um modelo para o mundo, moldando um futuro pela herança de nosso passado. “(...) Liberdade de expressão não há mesmo, está cada vez mais rara pelo mundo afora. É cada vez mais difícil. Chega um momento em que você tem que controlar a palavra, isso e aquilo. Realmente as condições pra você escrever estão se tornando muito difíceis e muito duras (...).” Apesar de sua obra ser ambientada na Bahia, o Brasil se reconheceu nela. O mundo aprendeu a conhecer e a respeitar uma cultura miscigenada, assim como a culinária, a capoeira, o candomblé. “Não sou religioso, mas tenho assistido a muita mágica. Sou supersticioso e acredito em milagres... A vida é feita de acontecimentos comuns e de milagres. A sorte me acompanha, tenho corpo fechado à inveja. A intriga não me amarra os pés, sou imune ao mau-olhado... Em verdade sou um obá - em língua iorubá da Bahia obá significa ministro, velho, sábio: sábio da sabedoria do povo"

"Não me sinto constrangido, pois não sou pornográfico nem obsceno, sou um escritor realista."

E também ousado. Colocar meninos infratores como protagonistas de uma história, hoje, como Capitães da Areia, seria inovador se fosse trama de uma novela televisiva, mas foi chocante ao ser lançado em uma época em que o Brasil vivia um momento conturbado, onde tomava corpo a chamada luta de classes, e vigorava o Estado Novo de Getúlio Vargas. Ao contrário do momento literário anterior em que se enaltecia as qualidades do país, presente no movimento Modernista, havia um certo desencanto com a realidade. Os escritores frutos dessa época mostraram a realidade em que vivíamos. Jorge Amado fez do povo, um herói.

É o autor mais adaptado no Brasil, tanto para a televisão, quanto para o cinema e o teatro, mas não gostava disso. “A adaptação de uma obra literária para a televisão, cinema ou teatro, é uma violência contra o autor.” Reconhecimento máximo da expressão popular, pelo menos no Rio de Janeiro, foi ter sido tema de duas escolas de samba, em décadas diferentes.

"Nossas elites são, de fato, extremamente preconceituosas, não merecem grande atenção. Mais poderoso é o povo que supera e vence as limitações, enfrenta as terríveis condições da vida e marcha em frente, para o futuro."

“Sob os olhos graciosos de Oxalá/Desce a Serrinha/ Esquenta o país do Carnaval/É muita pimenta, dendê e cacau (...)/Põe tempero na panela Gabriela/Mexe, mexe com amor/ Cozinha com o teu calor/Bota logo o vatapá na tigela/Quem mandou foi Dona Flor” (Jorge Amado, Axé Brasil – Império Serrano, 1989)

Declarações como esta, fizeram-no um exilado de sua pátria por onze anos, de 1941 a 1952. Ao retornar ao Brasil, fez da escrita sua atividade profissional, vivendo exclusivamente dos direitos autorais dos seus livros. Comunista convicto, fez da sua arte literária uma militância para dar voz àqueles que mais necessitavam.

“O vento soprou/As letras em liberdade./Joga a rede, pescador!/O povo tem sede de felicidade./A brisa a embalar/Histórias que falam de amor./Memórias sob o lume do luar./O doce perfume da flor./Ê Bahia!/Dos santos, encantos, magia.(...)/Tem festa no pelô./Na ladeira, capoeira mata um” (Jorge. Amado Jorge – Imperatriz Leopoldinense, 2012) Adriana Bandeira - Professora de Língua Portuguesa e Literatura, com especialidade em Produção Textual, formada pelas faculdades de Letras e Educação da UFRJ, autora de projetos pedagógicos que fazem da Literatura o ponto de partida para o ensino da língua materna, autora de artigo publicado no Jornal Hispano-Americano, conferencista e debatedora em mesa-redonda na I Semana Hispânica da UFRJ, e revisora.

"O escritor, a meu ver, deve estar comprometido com o seu tempo e seu povo. O escritor brasileiro tem que ouvir o Brasil.” Jorge Amado foi um escritor que viveu sua vida através da escrita. Como ele mesmo disse um dia, não escreveu o primeiro livro para se tornar fa-

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revista literária: A Grande Lição do Século A Semana de Arte Moderna de 1922 foi um marco intelectual para o nosso país. Em 2012, completamos 90 anos deste movimento artístico que influenciou e modificou sensivelmente a vida dos brasileiros. Mas o que isso significa e qual a importância disto para nossa história e nossa memória? Um dos grandes objetivos desta “mostra cultural” era trazer a produção de uma arte que ao mesmo tempo tivesse em consonância com as tendências da vanguarda europeia e trouxesse características especificamente nacionais. Coube então uma larga discussão sobre: o que é um produto nacional? Quais as características, as formas de viver, pensar e sentir típicas de um brasileiro? Qual a nossa arte? O que nos define e apreende? O que transborda de nós e se torna “Arte”? As respostas foram várias, tão intensas, todas tão verdadeiras e diferentes entre si, como a composição nada ortodoxa de nosso país. Vários grupos se formaram e durante muitos anos estes questionamentos geraram poemas, canções, telas, histórias e memórias. Interessante pensar que na época esta reunião de artistas teve relativa importância. Alguns jornais e revistas sequer noticiaram o evento. Mais interessante pensar ainda que a exposição de fevereiro de 1922 não foi uma decisão tirada do vento. A discussão sobre a essência do nacional tem origens ainda no século XIX, por ocasião da Independência do Brasil em 1822. A proclamação da República em 1889, marco político, recoloca a questão do nacional como tema fundamental nos debates sociais. Em termos cronológicos, os artistas de 1922 eram crianças ou adolescentes em 1889. Cresceram embebidos neste clima de questionamentos. Tomaram para si tais perguntas e com sua arte buscaram possíveis soluções. A Arte como espaço do incompreensível se torna assim mais palatável para o artista. É o que o faz suportar a angústia de tantas perguntas, de tantas dúvidas que o assaltam a cada segundo. É, neste sentido, o expurgo e tentativa de compreensão. Em 1922, a catástrofe da miséria humana da Primeira Grande Guerra, embora não tenhamos sido palco dela, deixou sua influência em nosso país. Nem tanto pela questão do navio Paraná e o consequente rompimento das relações diplomáticas com o Eixo. No fundo, a pequena participação bélica do Brasil serviu para assegurar uma indenização pelo café destruído. Mas fundamentalmente porque a guerra trouxe as condições materiais da mudança. O Brasil viveu o avanço da indústria, a intensa vinda de imigrantes fugidos da fome e da guerra, as greves das reivindicações trabalhistas, a luta pelo direito ao voto feminino e as manifestações dos marinheiros. A luta pelo NOVO – palavra-chave do movimento modernista da Semana de Arte Moderna – ocupava o cotidiano nacional. Era preciso quebrar os velhos pa-

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radigmas de uma sociedade impregnada pela cultura política coronelista. Era preciso criar novas formas de viver no Brasil. Um país em constante mudança e naquele momento recebia ainda outros povos que haviam presenciado ou fugido da pior barbárie humana em escala já feita pela Humanidade. A Semana buscou pensar o que este povo tão diferente, tão distante geográfica e culturalmente tem em comum. Buscou criar identidades e raízes, como uma árvore frondosa que precisa olhar para a terra no intuito de encontrar uma seiva comum que alimenta tanta vida. O Brasil fervilhava em 1922. Efervescência e transformações. Este é o habitat por excelência dos artistas. Vida. Este bem tão precioso é a grande temática da Arte. É este o mistério que tentamos explicar. O século XXI é herdeiro de uma época de guerras, de destruições, de miséria humana. O movimento modernista nascido no início do século XX avançou suas discussões ao longo das décadas. Mas o novo esbarrou nas ditaduras, nas recalcitrâncias de um mundo em guerra, dividido entre pessoas que acreditavam que apenas suas ideias eram as corretas e não havia espaço para discordância, não havia espaço para debate, não havia espaço para efervescência e transformações. E ainda assim, os artistas encontraram as brechas para avançar. Há alguns dias, vimos em cadeia nacional a destruição acidental de parte de nossa herança artística do movimento modernista. O apartamento do marchand Jean Boghici sofreu um incêndio e diversas telas, várias criadas por artistas da Semana de Arte Moderna, foram completamente queimadas pelas chamas. Os repórteres em polvorosa tentavam conseguir uma declaração do Sr. Boghici. Este homem, muito sabiamente, fez uma declaração que retrata a essência da Arte. Ele não se importava com os quadros, pois no incêndio havia morrido algo muito mais importante e fundamental: sua companheira fiel, a gata Pretinha, que todas as noites dormia ao lado de sua cama. A Vida, a essência que instila toda produção artística, será sempre mais importante que qualquer forma de Arte. A vida, neste momento, se sobrepõe aos objetos. O habitat do artista é ser rodeado de vida. A Arte sobreviverá em outras formas de reprodução. O valor da vida é insubstituível. A Arte se recompõe de alguma forma. Ela não está perdida em nossa memória. Ainda encontramos espaços para avançar. Para tentar o NOVO. No incêndio, uma das telas de Tarsila do Amaral “Samba” foi destruída. Samba já faz parte da vida dos brasileiros. E o mais importante, é que ninguém aqui samba sozinho.

Profª Drª Ana Carolina Eiras Coelho Soares: Programa de Pós-Graduação em História/Faculdade de História/ Universidade Federal de Goiás.


8 Metas do Milênio O que se desconhece não se deseja Ovídio

O Brasil vive, nesta segunda década

dos anos dois mil, uma encruzilhada: temos de cumprir as Oito Metas do Milênio até 2015 e ao mesmo tempo dar atenção ao contingente de pessoas, que chegam aos 60/65 anos de forma acelerada, vez que pelo Censo do IBGE 2010 nasceram muito menos brasileiros do que os esperados! A ordenação de nossa população saiu da famosa pirâmide de enorme base infantojuvenil e vamos para a inversão já em 2050, quando segundo previsões dos demógrafos o Brasil para. É isso mesmo! Para de crescer, devido ao reduzido número de nascimentos. A população se estabiliza para logo a seguir ir diminuindo. Toda essa modificação populacional está se dando de maneira acelerada em nosso país. Há que se estudar mais e informar à população, que parece passar alienada, por tais mudanças que acarretarão modificações profundas não só na economia, mas em outras áreas. Cabe citar quais sejam as Oito Metas do Milênio ou o que nós podemos fazer para mudar o mundo, segundo decisão da ONU, em 2000, já que tais metas devem ser atingidas em 2015, quando os países signatários serão avaliados. O Brasil é um deles. São elas: (1) acabar com a fome e a miséria; (2) educação básica de qualidade para todos; (3) igualdade entre os sexos e valorização da mulher; (4) reduzir a mortalidade infantil; (5) melhorar a saúde das gestantes; (6) combater a AIDS, a malária e outras doenças; (7) qualidade de vida e respeito ao meio ambiente e (8) todos juntos trabalhando pelo desenvolvimento. Arroladas assim, fica bem claro que citadas Metas do Milênio têm tudo a ver com educação. Povo escolarizado sabe seus direitos e deveres, sabe defenderse da manipulação exercida por pessoas inescrupulosas que se aproveitam da ingenuidade da maioria da população, que vive dizendo “eles são todos iguais”, “... são mesmo assim”, “Nada se pode fazer” e frases do gênero a respeito de nossos políticos. Ao refletir sobre as Metas do Milênio observamos não aparecer o envelhecimento explicitado em nenhuma delas. Porém pelos dados do IBGE do censo 2010, temos que ficar em alerta. Os economistas, atentos ao que ocorre na Europa, envelhecida e agora em crise econômica séria, nos fazem ver que os cortes nos benefícios dos aposentados e a perda de conquistas sociais nos assusta a todos. Daí o tema do envelhecimento populacional interessar a todos,

mesmo os que por este ou aquele motivo, não tenham idosos na família. Trata-se de nosso próprio envelhecimento e é em todo o mundo uma questão de política de nação. Assim, acabar com a fome e a miséria, buscando educação básica de qualidade para todos tem tido grandes avanços no Brasil, mas ainda estamos com muitos bolsões, pois programas assistencialistas são paliativos e não resolvem o problema em suas raízes. Melhoramos no que diz respeito à quantidade de escolas e professores, mas a qualidade ainda deixa muito a desejar. O Brasil está mal no ranking das nações, neste quesito, quando são feitas comparações. Os especialistas ficam aterrados por mais que o governo busque mascarar os resultados. Não nos enganemos. Os brasileiros precisam aprender a ler, escrever e interpretar o que leem, para que o patamar de cidadania seja alcançado! Há que se fazer empenho na formação e treinamento dos professores de ensino básico. Em muitos países ou doutores em educação é que alfabetizam as crianças, com resultados estrondosos e ganham por sua formação e não pelo nível dos que atendem. A meta de igualdade entre os sexos e valorização da mulher reduzindo a mortalidade infantil, vem sendo atingida, pois há programas para a melhoria da saúde das gestantes. Ainda não atingimos a todas as brasileiras, mas estamos no caminho. Nosso programa de combate à AIDS é referência mundial; há, no entanto muito que fazer, ainda; o grupo mais atingido e onde esta doença mais cresce no Brasil é o de idosos: preconceito e desinformação. Por outro lado temos sido informados de doenças, extintas em muitos países e que recrudescem no Brasil como malária e tuberculose. No tocante ao meio ambiente, estamos sensibilizados; acabamos de sediar a Rio + 20, mas as coisas não se resolvem só pela via da boa vontade e do pieguismo. Precisamos de mais educação cidadã, desenvolvendo a responsabilidade com fiscalização; única maneira, que o mundo inteiro descobriu, que funciona para mudar a conduta: cobrar respeito às leis e multar! O caminho em direção a “todos juntos trabalhando para o desenvolvimento”, é meta difícil, mas que poderá ser alcançada, pelo amadurecimento decorrente de estudos mais aprofundados, nas temáticas que afetam nossa saúde e integridade. Precisamos sempre lembrar que criamos no século XX um mundo extremamente individualista, onde por nada as pessoas tão estressadas do XXI, brigam e se destroem. As cidades superpovoadas e desumanas, que criamos no Brasil não têm um plano diretor ou se o têm: o descumprimos através da corrupção, ainda com serviços básicos por fazer. Alguns prefeitos sabem administrar e o que deveria ser o usual, passa a ser admirado como uma novidade; administra-7-

dores públicos que se interessam pela saúde preventiva da população, fazem saneamento básico com água de boa qualidade para todos, bem como educação, pois isto é o mínimo que se pode esperar de uma administração pública, eleita pelo povo! No intuito de mudar a atitude popular, no tocante à participação, estamos dando ênfase à atuação das pessoas idosas em reuniões, fóruns permanentes, audiências públicas, só para dar alguns exemplos de possibilidade de participação pessoal no exercício da cidadania. Precisamos alertar as autoridades que distraídas com megaobras se esquecem do básico, da acessibilidade e infernizam a vida de todos, não só dos idosos. Interessante lembrar que com a informação do alongamento da vida, a velhice não é uma invenção social e sim decorrência de algumas variáveis, que melhorando a qualidade das cidades, trouxeram como ganho paralelo a melhoria da qualidade de vida e a oportunidade de um envelhecimento mais saudável e ativo, que podem ser estendidos a todos. A luta constante pela melhoria dos serviços públicos precisa passar pela informação sobre as leis que garantem nossos direitos, não é um “favor’ deste ou daquele político. A pressão consciente das pessoas de qualquer idade, sobre os que exercem qualquer cargo político poderá ser medida eficaz para as conquistas que desejamos na melhoria da qualidade de vida, da segurança e o Ministério Público tem sido aliado na defesa de direitos do cidadão. Há pessoas que reclamam de tudo. No entanto não são eficazes, por se dirigirem às pessoas erradas, no lugar errado. Precisamos perseguir a renovação, o progresso e o desenvolvimento sustentável. Podemos nos tornar seres de ação e não de reclamação. Vale à pena refletir sobre a responsabilidade pessoal e social no caminho da cidadania, pois as conquistas sociais são, como o nome diz, conquistas que não sendo alentadas, poderão ser perdidas. Dina Frutuoso CRP 05/587, presidente da ABRAPA, Profa Dra UFRJ/FE, Pedagoga e Psicóloga clínica, Mestre e Doutora pela UFRJ/FE, MBA/FGV em Planejamento e Gestão Estratégica, Didata de Análise Transacional, conferencista premiada pela Litteris Ed, e ZMF Ed. Artilheira do Saber, 1º lugar SBGG/1996, vice da ANG/RJ, Conselheira Estadual Titular Eleita do CEDEPI/RJ, vice-coordenadora dos Fóruns Permanentes PNEI/RJ e PMI/RJ, programa toda 3ª feira em tempo real às 07h20 www.radioriodejaneiro. am.br ou 1400 AM Rádio Rio de Janeiro.


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O DIÁLOGO ENTRE AS ARTES E A LITERATURA uma fusão de limites entre palavra, texto e imagem “Do passado caligráfico que me vejo obrigado a lhes supor, as palavras conservam sua derivação do desenho e seu estado de coisa desenhada: de modo que devo lê-las superpostas a si próprias; são palavras desenhando palavras (...).” (Michel Foucault)

O diálogo entre os tempos O diálogo entre as artes, analisado num período que vai do século XV ao século XX, desenvolveu-se num contexto em que a sociedade ocidental alimentava a ideia de separação entre os signos linguísticos e as artes plásticas. No decorrer do século XX, as relações dialógicas entre as artes e a literatura estreitava-se de forma manifesta, adequando-se como parte da história com o passar do tempo. E, como todo acontecimento histórico que dá origem a uma movimentação artística, este contribuiu singularmente para que o evento pudesse acontecer na diluição dos limites entre as diferentes linguagens e, consequentemente, pela aproximação das diversas artes. Desse modo, ao estreitarem-se as fronteiras entre o texto e a imagem, abriu-se, então, um espaço para a aproximação das artes, partindo-se do princípio de que vários poetas, num dado momento, apropriando-se das artes visuais, inseriu-as nos seus escritos poéticos, estampando as na página. Tal procedimento denominase atmaísmo. Mas o que vem a ser Atmaísmo? Atmaísmo vem da união de duas palavras: Atman e Ismos. Para os hindus, “Atman” tem o sentido de alma individual originada do deus Brahan e que recebeu deste todo o poder de criação. “Ismos” é um sufixo de origem grega, que significa “capaz de captar e irradiar beleza”. Portanto, um trabalho atmaísta é aquele em que o artista inseriu um desenho ou uma pintura em sua poesia, ou viceversa, unindo arte visual e literatura como complementação do belo. Não se trata de colagem, o trabalho atmaísta é uma arte onde convivem duas criações artísticas ao mesmo tempo, ou seja, dois trabalhos de natureza distinta compartilhando do mesmo espaço. A partir daí, os escritores, mais precisamente os poetas, passaram a incorporar elementos gráficos e imagens em seus trabalhos. Por outro lado, os artistas visuais retomaram, então, a origem visual da escrita, utilizando-se do mesmo processo das artes para acrescentar elementos textuais em suas obras, por exemplo: os grafismos, letras e arabescos de diversos alfabetos tiveram seu papel na colagem de fragmentos de textos impressos, entre outros recursos que pudessem servir de acessório ao trabalho artístico. Naquele momento, tornavam se objetos de arte tais aplicativos, tanto para aplicação nas pinturas, quanto nas poesias. A partir desse marco histórico, a palavra e a escrita passaram a compartilhar do mesmo espaço físico, agregando-se ora à imagem, ora à escrita, mas sempre em -8-

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busca de um sentido que desse uma contextualização aos temas, com o fim de conceituá-las como objeto de arte. No caso específico, a imagem passou a se servir da escrita, mas o contrário também aconteceu de forma considerável, pois os elementos artísticos com seus temas atravessaram o tempo e traduziram-se do grafismo ao visual, privilegiando sentido à imagem no mesmo instante em que, juntos, puderam participar do sentido dialogal. A reaproximação entre imagem e escrita que se deu a partir do século XIX pode contribuir no processo de resgate dos vínculos entre a palavra e a imagem. Essa contribuição representou grande importância nas experiências de determinadas épocas e de determinados artistas, tais como as do poeta francês Mallarmé, que passa a considerar a visualidade da letra e do branco do papel, como um elemento a mais em seus poemas. Assim como o trabalho pioneiro de Picasso e Braque, que com os papiers collés, inauguraram uma forte tendência da arte contemporânea, incorporando na obra artística materiais não artísticos. Portanto, letras e fragmentos retirados de jornais, partituras musicais, papéis de parede entre outros elementos gráficos, passaram a ser utilizados em obras artísticas de modo que as partes se ajustassem ao todo, tal como num quebra cabeça, criando e se ajustando de forma harmônica, para dar sentido a um outro visual artístico. Imagens e linguagens com suas possíveis variáveis Vimos que esses modos que se interpenetram nas linguagens, utilizando-se de imagem e de palavras parecem não cumprir uma ordem clássica. São manifestações que chegam a exprimir irrupções incontroladas, como diz Beneval de Oliveira em sua Arte e Dialética. No contexto da linguagem a palavra quer falar e deve falar; no contexto da pintura, o artista impõe à arte o dever que ela tem de se revelar, atendendo à demanda do resultado artístico desejado. Sabe-se que há casos em que a imagem se comporta como anunciadora de seu próprio discurso, onde o diálogo se faz presente de forma iconográfica. Exemplos podem ser exibidos no caso das legendas, onde as quais emprestam sentido ao tema título como objeto de arte, onde, às vezes, a letra é pura ilustração que se ocupa de um lugar no texto para chamar maior atenção que o próprio texto. E o texto é mais que arte expressa em seu contexto de arbitrariedade e subjetividade, pois o sentido do discurso está subliminarmente em ser uma legenda, com arte e linguagem. Neste caso, pode haver uma metáfora no discurso, tomando para si o lugar de ser do ser da arte, declarado no processo visual de modo intencional. E pode acontecer com a pintura


(imagem) o mesmo processo da escrita - palavras: a imagem retoma para si o lugar de um status de metonímia – onde a (obra de arte) fala por si só – uma declaração da qual não necessita exemplificação à significação. Portanto, a palavra já nasce (pronta) para falar imbuída de seu aparato linguístico, de seu sentido semântico com seu discurso legível e não se difere da pintura, pois em ambos os casos, os signos são distintos e podem até comungar da mesma cena no mesmo espaço. O diálogo da pintura se destaca por apresentar um corte na experiência de quem a vê (a imagem), ela pode até ter palavras, mas a imagem não é palavra. A imagem, em certos momentos, nos empresta a ideia de que gostaria de nascer palavra quando estava sendo germinada na consciência do pintor. Desse modo, o ato de imaginar pode subverter a razão e, qualquer outro adorno pode poluir a imagem. Entretanto, como negar qualquer subordinação entre imagem, palavra e texto? A partir dos anos sessenta, os meios de comunicação aumentaram sua penetração e difusão, passando a intervir em todas as instâncias da vida cotidiana, fazendo com que o convívio com as imagens caminhasse rumo à saturação. Com este avanço, houve uma crescente banalização da imagem e até do próprio texto. E o mesmo aconteceu com as relações entre os indivíduos e os objetos, ou seja, uma “feira” à cultura de consumo. De acordo com esse padrão de pensamento, artistas e poetas passaram a buscar maneiras novas de se relacionarem com a arte e com a escrita. Em última instância, essa foi uma experiência que aos poucos pode se mostrar adaptada às novas circunstâncias e, então, acrescentar às artes os novos materiais de suportes tradicionais. Nesse momento, entrava em cena e não menos sucessivamente, um novo panorama, questionado por alguns críticos, mas aceito na mais sublime condição humana: o modo de ver e de sentir a arte tal como sugere M. Ponty em seu O Visível e o Invisível: “ (...) O visível à nossa volta parece repousar em si mesmo.” Os artistas, então, motivados por essa apropriação dos novos meios, passaram a adotar tais recursos como suporte para a sua criatividade. Saber ver, saber sentir a arte em todas as suas formas de linguagem é um modo de articular o diálogo. As palavras: arte sem limite De acordo com o exposto, para tornar possível a leitura de um texto onde a grafia é pura representação estética e, no caso contrário, se a uma obra de arte for acrescentada uma legenda, como deve ser tratada essa arte? É o texto que se atrela à imagem ou é a imagem que se quer palavra? No diálogo entre as artes, palavra e imagem discursam livremente, mas é importante compreender a fusão desses limites -9-

que separam a escrita iconográfica da escrita puramente textual. Desse modo, vale citar José Enes em seu livro Noeticidade e Ontologia:

“(...) O pensamento pensa articulando o que vê, ouve, entende, induz e conclui, atuando pela fala as virtualidades semânticas do sistema semiótico das línguas. O discurso é a articulação daquilo que o pensamento entende e diz. Com propriedade se pode dizer que as palavras tem significados e que o discurso, combinando-os, lhes dá um sentido. A combinação morfológica dos sememas forma a estrutura semântica das palavras, a integração sintática destas na significação da frase e das frases numa totalidade de sentido dá o discurso.”

Vimos que o diálogo das linguagens abre um espaço a mais para ceder lugar às artes, uma vez que o pensamento do artista articula o que vê. Como espectador, Freud confessa seus limites e suas afinidades estéticas, mas não deixa de oferecer à arte um modo de pensar.

“Não sou um conhecedor de arte, mas simplesmente um leigo (…). Sou incapaz de apreciar corretamente muitos dos métodos utilizados e dos efeitos obtidos em arte (…). Não obstante, as obras de arte exercem sobre mim um poderoso efeito, especialmente a literatura e a escultura e, com menos frequência, a pintura. Isto já me levou a passar longo tempo contemplando-as, tentando apreendê-las à minha maneira, isto é, explicar a mim mesmo a que se deve seu efeito. Onde não consigo fazer isso, como, por exemplo, com a música, sou quase incapaz de obter qualquer prazer.”

As palavras ditam também o discurso freudiano e por meio delas Freud (1914) se dirige aos seus leitores, tentando assegurar indulgência para o resultado de suas incursões no campo das artes. Confessa o psicanalista o seu lugar de espectador, os seus limites e suas afinidades estéticas, sugerindo que há uma diferença de estatuto entre as artes que constituem os pólos de referência da Psicanálise, da literatura e das artes. E afirma que: “(...) os escritores criativos são aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em alta conta, pois costumam conhecer toda uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais a nossa filosofia ainda não nos deixou sonhar.” Bibliografia: BARTHES, Roland. O Prazer do Texto. Lisboa, Portugal: Edições 70, 1973. ENES, José. Noeticidade e Ontologia. Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1990. FREUD, S. Obras Completas de Freud. Vol. IX (1906 – 1908), “Gradiva” de Jensen e outros trabalhos. Merleau-Ponty, Maurice. O Visível e o Invisível. Ed. Perspectiva S.A. São Paulo, 2005. OLIVEIRA, Beneval de. Arte e Dialética. Pallas Editora e Distribuidora Ltda, Rio de Janeiro, 1983.

Vannda Santana

professora universitária, escritorta, poeta (membro da APPERJ). Dentre os livros publicados destaca-se o de crônica: “O avesso e o reverso na ponta da pena”.


revista literária:

PLURAL

Projeto: Leitura e Atitude “uma prática pedagógica’’

“Assim como uma semente tem o momento correto de ser colocada na Terra, cada um terá a própria hora de desabrochar na tarefa que lhe couber” Trigueirinho

Há um tempo de maturar semente, tempo de fecundação, germinação, brotar da terra. O tempo é o aqui, agora. Ler é fundamental para compreensão de todo um processo. A consciência situa o homem como um projeto do mundo. Mundo significa algo não pronto ou possuído, em direção do qual a consciência esta sempre se dirigindo; trata-se, mais especificamente de uma individualidade pré-objetiva, cuja unidade determina o conhecimento que se constituirá como objeto. Portar-se humanamente é situar-se no mundo, intencionalmente, buscando e atribuindo significados... Esse “portar-se”, “ter atitudes”, manifestando-se através de atos conscientes que geram experiências. As experiências vivenciadas, no sentido mais amplo do conhecimento, foram traduzidas em linguagem precisa, enriquecendo e estimulando o relacionamento entre o homem e o mundo – presente no interior do homem. Exteriorizar todo esse mundo de vivencia, toda essa fórmula mágica de emoção, capacita-nos a criatividade, a expressão. Desenvolvendo competências e formas de atuação consistem-se no seu habitual. Pode-se afirmar, portanto, que sempre é preciso partir da compreensão dos significados existenciais que todas as coisas possuem. Como o homem está no mundo, a ele se destina a descoberta dos significados, que não pode agir ou falar sobre qualquer assunto, sem que está ação ou fala adquira uma significação (Conteúdo-forma-essência). Concreto ou abstrato. Essa significação poderá ter caráter simbólico ou referencial. A busca e consequente apreciação dos modelos prontos de leitura nos mostram que nenhum deles se adapta à realidade presente, seja urbana ou rural. Há um déficit de motivos ou motivação para a leitura. Pesquisa recente do jornal “O Globo” cita que 60% dos alunos que ingressaram nas universidades não gostam de ler, e/ou se leem, o fazem apenas com os livros indicados por professores, para cumprir alguma tarefa. Diante desse quadro nos parece não existir uma direcionalidade da consciência para o objetivo, que é a leitura. Em termos de postura assumida, refuta-se nessa reflexão qualquer proposta que explique o ato de ler, segundo padrões funcionalistas, experimentais ou naturalistas. Compreendemos leitura como uma atitude, capaz de transformar o objeto ou realidade e partir para novos conceitos, novas práticas contextualizadas, privilegiando a construção de conceitos e criação de outros significados, gerando o novo homem capaz, dinâmico, organizado ciente da relação homem-cosmo. Toda e qualquer leitura sempre envolve algo lido. Ou melhor, a mensagem a ser lida é sempre palpável e encontrada no mundo, isto é, no cotidiano da vida do leitor. “É dessa vida que o 'lido' ganha significado.” Assim, nos parece oportuno falar de experiências bem sucedidas em projetos de incentivo à leitura. Historicamente tem se proposto métodos e práticas para o desenvolvimento da criança e do jovem na escola brasileira. Várias tentativas, alguns programas, poucas “Políticas de Educação”, alguns movimentos da sociedade civil organizada, porém, de fato a educação brasileira está aquém das expectativas para uma sociedade desenvolvimentista e tecnológica no âmbito nacional e, ou, internacional. Pesquisas nos dão conta que nos aproximamos do “desconstruído”. O que fazer? Como podemos encontrar a saída? Parece sempre algo como um “milagre”, agora temos o projeto “Todos pela Educação” Movimento social que estabelece cinco metas para educação de qualidade até 2022. Dentro dessa perspectiva, o Pré-Vestibular Comunitário Santa Teresinha,Tijuca/RJ vem desenvolvendo uma prática pedagógica de conscientização e atitude em nosso alunado e equipe de professores, no sentido de lhes oferecer uma sala de leitura com um acervo eficiente, atualizado e dinâmico, promovendo palestras, sociabilidade e algo muito simples, mas de grande valor parar todos. “A Solidariedade” pois no sentido maior, buscamos a troca de experiências do objeto lido e compartilhamos novos saberes, na direção de um conhecimento eficaz e eficiente, desenvolvendo o espírito crítico em nossos alunos, na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Lúcia Maria Mattos de Oliveira – foi professora de Literatura Infantil no Colégio Estadual Júlia Kubitschek Curso de Formação de Professores, é militante do movimento negro, a partir dos anos 80 no Rio de Janeiro. Participa de eventos ligados às Artes, Literatura, Roda de leituras, concursos literários, sempre acompanhada de seus alunos. Apresentou o projeto ‘’Tributo à Maria’’ na cidade do Cabo, África do Sul, no 29º Congresso IBI/2004, participou do 3º Congresso do Clube dos Trovadores Capixabas, Espírito Santo, 2005. Foi coordenadora geral no 4º Congresso Brasileiro de Poetas Trovadores – 1 Bienal de Poesia e Trovas,/2009, Paquetá/RJ. Participou, também, do III Seminário de Africanidades e seus Afro-descendentes – ‘’Histórias de Vida’’. Publicou: "Alquimizar" (poesia), "Mariinha, um amor de menina" (biografia/conto) e "Alquimisamba" (poesia) na XVI Bienal Internacional do Livro/RJ - 2013. - 10 -


FILHA DO SOL (romance, 292 pág., OFICINA Editores/RJ, 2012 ) Dorothea Nürnberg, tradução de Erika Maria Heiss Lopes A autora tece fatos históricos (as queimadas catastróficas das florestas tropicais no Amazonas, o desmoronamento da Catedral em Assis no outono de 1997, o descobrimento do Brasil pelo navegador português Pedro Álvares Cabral em abril de 1500, as narrativas desta viagem por Pero Vaz de Caminha e a primeira conferência dos povos índios do Brasil por ocasião das festividades dos 500 anos do descobrimento, em abril de 2000) em uma obra de ficção de vários planos sobrepostos. O motivo central do romance se situa na floresta amazônica, o encontro com o meio-ambiente vital dos povos indígenas do Brasil, cujo saber espiritual e biológico fascinante, respeita todas as formas de vida, incluindo o mundo das plantas e animais, contrastando inversamente com a exploração da natureza pela civilização ocidental. O Editor URBANOSEMCAUSA (poesia, 98 pág., OFICINA Editores/RJ, 2012) Mozart Carvalho e Sérgio Gerônimo Ao folheá-lo, só posso ter uma reação: Wow! Que Barato! É, eu sei, "barato" com certeza está 'passado', mas ainda está na minha moda. Parabéns aos dois autores por esse passo importante de publicação e disseminação da poesia, em momentos de tanta demonstração de urbanidade. Estou lendo cada um dos poemas, isto é, enjoying the words, the art... Estou preparando uma apresentação (curtinha) sobre a escrita surrealista na América Latina, revendo poemas na verdade, e me bati com o Cadáver, Violentar-se, e outros, que preciso remoer, pois vejo traços surrealistas... Mas vejo a influência na gente e na nossa gente da visão de surrealismo na atitude, no pensar como modo de vida, temas e metáforas, até na técnica... Enfim, delicioso o livro de vocês... Delicioso no sentido de digerir, não no sentido lírico, pois se trata afinal da cena urbana, vidas... Doídas...Vividas... Avante, companheiros! Ines Shaw, Assoc. Prof. of English & Latin American Studies Program Coordinator, NCC, State University of New York, USA. POEMAS NUS (poesia, 66 pág., OFICINA Editores/RJ, 2013) - Marcia Barroca A poeta nos oferece um conjunto de poemas que tem na escolha de seu vocabulário a unidade da obra... a poesia associa-se diretamente a mistério, magia, sombra, enigma e ambiguidade, mostrando como ela vê a função da palavra... Seu lugar é o da multiplicidade de significados, pois a palavra não se diz apenas o que aparentemente diz. Temos que lê-la, sob outros prismas. Ora, é na metaforização que encontramos um dos pontos altos do livro, pois a autora nos presenteia com imagens como : “Será rotina do mar purificar desertos?”ou “Aprendi a colorir fora do arco-íris”. Em Poema nu ,temos a chave: “O poeta...pode por poéticos disfarces/ metaforizar incógnitas imagens”. Marcus Vinicius Quiroga, escritor, crítico literário, membro do PEN CLUBE do Brasil. POESIAS QUE NÃO MORREM (poesia/tradução, 88 pág., OFICINA Editores/RJ, 2013) - Helena Amaral A escritora nos oferece a sua emoção guiada pela beleza dos poemas eleitos, colhidos em sua fantasia e a seu bel-prazer. Este presente nos cativa e nos leva àquela França que, eternamente nos aguarda, conservando na memória, nas pedras das ruas, na atmosfera encantadora, a convivência com os eternos poetas: Joachim du Bellay, Pierre Ronsard, Florian, Chateaubriand, Desbordes-Valmore, Lamartine, Victor Hugo, Arvers, Forneret, Alfred de Musset, Leconte de Lisle, Prudhomme, Mallarmé,Verlaine, Rimbaud e Apollinaire. A autora assimilou de forma impressionante o teor das poesias, na excelente tradução, respeitando, perfeitamente, o estro, o gênio criador, a forma dos poemas, criando rimas harmoniosas e mantendo vivo o pensamento do artífice, o que não é nada fácil... Eunice Khory, escritora, professora de literatura e civilização francesa, pela Universidade de Nancy, França, membro do PEN CLUBE do Brasil.

RESENHAS - 11 -


revista literária:

Crônica:

PLURAL

Antonio Olinto, 90° de paixão

(publicada primeiramente na Revista RenovArte, da UBE/RJ)

Crônica a partir da entrevista concedida, em 09 de fevereiro de 2009, aos poetas: MÁRCIA LEITE - Carioca, tradutora,

poeta, contista e cronista, diretora da APPERJ, membro do PEN CLUBE do Brasil. Publicou: Curtos & Definitivos – 2000;Versos Descarados – 2007; Aos Pés da Montanha - 2009; Lua Atravessada - 2013, todos pela Oficina Editores. SÉRGIO GERÔNIMO - Carioca, Editor-chefe da Oficina Editores, cronista, poeta, produtor cultural. Publicou sete livros de poesia sendo o mais recente “URBANOSEMCAUSA, coautoria a Mozart Carvalho. Cofundador da APPERJ, atual presidente, membro da UBE/RJ, membro do PEN CLUBE do Brasil. Antonio Olinto Marques da Rocha (10/05/1919 — 12/09/2009)

Andamos da Siqueira Campos até a Duvivier, em Copacabana, sob o sol escaldante no final da manhã de uma segunda-feira de verão carioca, com passos leves de quem vai de encontro ao prazer. E se, de vez em quando, um sorriso ansioso tremia o cantinho da boca era na antecipação do aprendizado. Sabíamos bem, que o que nos aguardava no final da caminhada era um encontro apaixonante, daqueles que estufam a alma dentro do peito e te deixam com os olhos brilhantes por dias seguidos. Íamos ao encontro do Professor Antonio Olinto, ocupante da cadeira nº 8 da Academia Brasileira de Letras, que em seu discurso de posse, em 1997, mencionou Antonio Vieira: “Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Sabemos, no entanto, que a memória vence o tempo. A memória é o antitempo, o remédio para as fissuras do tempo, e só na memória palpita uma possível imortalidade.” E essa possibilidade nos fez acelerar o passo, queríamos beber da fonte das memórias desse escritor traduzido em 37 idiomas, ganhador do Prêmio Machado de Assis, 1994, pelo conjunto de obras, da Academia Brasileira de Letras, a mais alta láurea literária do Brasil; Doutor Honoris Causa, da Faculdade de Letras do Conjunto Universitário de Ubá (MG) e Diploma de Excelência da Universidade Vasile Goldis, de Arad (Romênia), pelo seu trabalho de difusão da cultura brasileira naquele país; sua obra, de mais de 40 títulos, abrange: poesia, romance, ensaio, crítica literária e análise política. "Ficou decidido que eu seria homem, nascido em 1919, sob um papa Benedicto ou Bento, para - nu, frágil e só -, levantar o pó de cada nítido aumento e entender o verso. E o universo?" Antonio Olinto.

Beth, sua assistente há quase trinta anos, nos recebe à porta com um sorriso largo de boas-vindas. A primeira coisa que nos chamou atenção, enquanto atravessávamos a sala ao encontro de nosso entrevistado, foi a profusão de arte: esculturas, livros, quadros, máscaras africanas. Uma pequena escultura representando Olinto como Santo Antonio parecia nos acompanhar os passos com olhar divertido, olhar de menino. Bendito Antonio de tantas andanças, arcano das palavras. Menino, como é chamado por Maria do Carmo, mulher de Marcos Antonio Vilaça. “Lá vem ele. Passinho miúdo, livro na mão, sorriso de um canto ao outro da boca e em todo o coração. A imagem ficará. É Olinto.”, descreve-o o Ministro Vilaça no texto louvando a proximidade dos 90 anos do Professor. E lá estava ele, no escritório, cercado de livros, mais esculturas, outros quadros (pintados por ele, ficamos sabendo depois), sorrindo com seus olhos azuis, cor de infinito. Ah, que menino bonito! O rosto levemente dourado de sol revela um dos prazeres de Antonio Olinto: praia. Costuma ligar aos domingos bem cedinho para Beth perguntando: – Não vamos à praia? E lá vão eles, o Professor, Beth e sua família, no ritual domingueiro carioca. Após a praia, o almoço num quiosque em frente à uvivier e o papo com conhecidos que por lá passem. Aos três anos de idade, sentado no colo da babá analfabeta, Olintinho (assim era chamado em família o menino que herdou o nome do avô, Antonio Olyntho Marques da Rocha), aprendeu a ler. Tia Conceição tentava inutilmente ensinar as letras à babá. Numa dessas aulas, irritada, exclamou: – “Você não consegue aprender nada! Quer ver como Olintinho já sabe?” E o menino leu. O próprio Professor nos diz que sua primeira palavra lida foi (contrariando alguns biógrafos) ‘feiticeira’. Nada mais adequado já que ali foi lançado o feitiço que o leva ao caminho da ‘imortalidade’. A partir daí o menino tornou-se a maior atração nas reuniões familiares. E Antonio Olinto lia para a plateia! Sua mãe demora em mandá-lo à escola, já que o menino “lia tudo sozinho”. Mas aos sete anos de idade lá vai Olintinho para o Colégio Brasileiro de D. Sinhá. E vai logo dizendo à professora: – Eu sei ler. E lê tudo que a professora lhe pede. Mesmo assim decidem mantê-lo no primeiro ano, para irritação do pequeno que pergunta: – Mas o que estou fazendo aqui? Decidem então que ele frequentaria o terceiro ano. Seu pai, José Maria da Rocha, era distribuidor de filmes de Hollywood na região mineira, que em Ubá eram vistos no Cine Avenida, onde, inicialmente, a pianista que acompanhava as cenas mudas era a ‘Tia Ritinha’, que, alguns anos depois, transferiria a função ao seu jovem sobrinho Ary; isso mesmo: Ary Barroso! Que, precocemente, já dedilhava seus próprios acordes às cenas. Bons e inocentes tempos. O colapso financeiro de 1929 traz grandes mudanças à vida familiar de Olinto; seu pai perde a distribuição - 12 -


de filmes que detinha de Hollywood, indo tentar novo emprego na Bahia. Neste momento sua mãe, Áurea Gomes Rocha, comunica ao pequeno Antonio: – “Achei uma maneira de você continuar os seus estudos.Vai ser padre”. Após uma entrevista com o Bispo de Campos (RJ), Antonio foi admitido no internato. Foram quatro anos de profícuos estudos no Seminário Diocesano, indo depois para Belo Horizonte e São Paulo, quando ouviu de Dom Henrique César Fernandes Mourão, Bispo de São Paulo, após a leitura de poemas seus: “Um bom padre não pode ser poeta e um bom poeta não pode ser padre”. Decidiu ser poeta! Ganhou, então, a Igreja um romancista, quando Olinto descreve em seu livro Sangue na floresta (Rio de Janeiro: Editorial Nórdica, 1993) aspectos de sua vida no seminário; ganhou a Vida este ‘Caminhante Errante’ (conferencista em mais de 40 países). Foi o 1º Adido Cultural do Brasil, pois não era diplomata de carreira, sendo seu posto na cidade de Lagos, Nigéria, nomeado por Tancredo Neves. A esta época Olinto, já casado com Zora Seljan, também escritora, militante comunista, vivem um período de política conturbada. E é Olinto que nos conta que Zora expôs a Tancredo que ele estava enviando o marido dela a um país onde os homens eram polígamos, ao que Tancredo responde: – “E onde não o são?”. Deste período na África, rico em todos os matizes em produção cultural é que assinalamos o texto a seguir extraído de “Árvores e Deuses”, de Olinto e que Beth nos enviou, via e-mail: – De minha experiência na África, aprendi que a árvore é sagrada. Certa vez, no reino de Keto, visitando meu amigo Ewé, notei que uma árvore estendera um de seus galhos na direção de uma parede alta de sua casa e comentei: “Ewé, você vai ter de cortar aquela árvore, senão ela derruba sua casa”. Meu amigo me olhou espantado e perguntou: “Derrubar a árvore? Eu não posso derrubar aquela árvore”. Eu quis saber por que. Resposta: “Um Deus mora naquela árvore”. Depois de um ligeiro espanto, indaguei:em toda árvore mora um Deus? Diante da resposta positiva, perguntei: “E se vocês tiverem um terreno com várias árvores e precisarem do lugar para, digamos, construir uma estrada?” Resposta: “Neste caso,a gente faz uma festa para as árvores, dançamos diante delas e pedimos que os deuses mudem para outras árvores próximas, porque é possível uma árvore ter mais de um Deus”. Pensando no Amazonas, tentei avaliar quantos deuses têm sido expulsos da região pelos destruidores de árvores.

Após a permanência na África, Olinto é enviado a Londres em sua 2ª missão como adido cultural. Lá, com Zora, fundou o jornal The Brazilian Gazette: ele como redator e Zora como diagramadora. O jornal teve a existência de 30 anos (1965/1995). Essa comunhão de ideais e ideias de Olinto e Zora teve início e foi sacramentada em uma cerimônia religiosa, discreta, em Niterói (RJ), como sugeriu Dom Helder Câmara, amigo do casal. Ainda em Londres eles se associaram, por convite, ao PEN Club Internacional, e, por méritos irrefutáveis, Olinto assumiu a sua vice-presidência. Olinto e Zora organizam, então, três congressos do PEN Internacional no Brasil, colocando-nos no centro da efervescência cultural que agitava o mundo naquele momento. Em sua residência londrina recebia Jorge Amado e Zélia Gattai, Caetano e Gil em seus exílios ‘forçados’ (iam mais à procura de Jorge – coisa de baiano, conta Olinto), refugiados por pensarem diferente dos dirigentes de um Brasil amedrontado. O Professor nos revela que foi ‘aconselhado’, pelo Itamarati, a ter mais discrição no acolhimento aos cantores. Seria preciso dizer tal coisa a um mineiro? Antes de mais nada Olinto, como bom mineiro, também professava a ideologia política mineira. De Londres a New York e Beijing: conta-nos que em NY, como professor da Universidade de Columbia, foi convidado pelo, também, professor Wallace Stevens, da Universidade de New York a assistir uma aula onde Capitu, personagem de Machado de Assis em Dom Casmurro, seria submetida a um julgamento, após estudo do livro em questão, com direito a júri e advogados, funções exercidas pelos alunos: Capitu foi absolvida! Na China compareceu a uma entrevista coletiva do líder Deng Xiau Ping, o Pequeno Timoneiro. Ousado, pergunta ao entrevistado: – “Sabemos que não será fácil, mas como o senhor conseguirá mudar a China, como afirma, em 15 anos?” Responde o estadista: – “Cinco anos – educar, educar, educar, educar, educar. Mais cinco anos – educar, educar, educar, educar, educar. Nos últimos cinco anos – produção agrícola, educar, educar, educar, educar”. Lembrando este episódio, Olinto comenta: – “Por isso a China é o que é hoje!”. Este Caminhante Errante (como, carinhosamente, Sérgio Gerônimo o define), Arcano das Palavras (como eu o percebo; e certamente criarei, com a devida licença mística-poética, uma nova lâmina no meu tarot conselheiro que estampe a figura de Olinto!), nascido em 10 de maio, Dia da Cavalaria, é um Dom Quixote revisitado, conhecido pelos quatro cantos do mundo, sempre incentivando o intercâmbio e o crescimento cultural dos povos. E nós? Seus dedicados Sanchos Panzas (em séquito liderado por Beth, claro!). Olinto é um homem fiel aos seus amores: a mãe Áurea (retratada, em estilo naif, por ele próprio, como Nossa Senhora) e a eterna companheira Zora. Confirma – com seu olhar azul-azul-azul de alma sábia (Obá de Afonjá, seminarista, um pé no oriente no filosofar) - o entusiasmo pela vida, na qual sempre procurou trilhar o caminho do meio, mas vivendo, também, os ‘exageros necessários’.

Evoé, menino Olinto, 90º de paixão! - 13 -


revista literária: Na SOBrEmESa Da ViDa Talvez a expressão “na sobremesa da vida” não seja novidade para muitos de vocês. Ouvi, pela primeira vez, durante a propaganda de uma nova peça de teatro com este nome, onde o ator principal explicava tratar-se da velhice. Minha mente disparou! Terceira Idade é um nome ridículo, afinal, todos os anos mudamos de idade! Melhor Idade é uma inverdade, além de ser, também, depreciativa das outras idades, que, provavelmente, foram bastante boas e não devem ser menosprezadas. Mas envelhecer sabendo que estamos na “Sobremesa da Vida” me encantou. Podemos considerar a infância como o período antes da refeição, onde existe apenas a expectativa pela chegada dos convidados. A adolescência é como a entrada, onde, muitas vezes, há exageros de comida, excessos de bebida, muito entusiasmo, algumas brigas e, infelizmente, alguns comprometem o sucesso da refeição futura justamente por estes excessos. A fase adulta é a refeição propriamente dita – o momento mais importante, repleto de alegrias – estar entre amigos; ter a comida preparada sendo apreciada pelos convivas; saber que nossa saúde será preservada por termos nos alimentado corretamente... Mas, é também nesta fase adulta em que existem as grandes preocupações: há dinheiro suficiente para alimentar a todos? Será que minha irmã, ou meu pai, ou aquele velho amigo virão ou ainda estão aborrecidos comigo? Como sorrir se nosso pai, nossa mãe ou nossa avó já não ocuparão aquela cadeira que sempre lhes pertenceu?

PLURAL

Quando chegamos à velhice, estamos, então, na sobremesa da vida. Gosto da ideia, pois não há falsidade nela – quando chegamos à sobremesa é porque a refeição está chegando ao fim. Gosto mais ainda porque a sobremesa é doce e gostosa e não poderá, jamais, comprometer a saúde dos comensais – afinal, um pedacinho de torta de chocolate não vai matar ninguém. Além disso, para a sobremesa não precisamos nos preocupar com muito dinheiro, afinal, uma banana com um pouco de mel, ou simplesmente açúcar, podem adoçar nosso paladar! É também durante a sobremesa que já não nos preocupamos mais com os ausentes – tem sempre alguém que se levanta antes, pois “não quer engordar”, “está com pressa para ir ao trabalho” ou, muito em moda hoje em dia, precisou atender o celular, o i-pod, o i-phone ou seja lá o que for. Definitivamente, a velhice é a sobremesa da vida! Podemos estar chegando ao fim da refeição, mas ainda há muito que saborear! Ainda há um papo pendente que teremos tempo de levar adiante enquanto esperamos o cafezinho. Sim, minha gente, pois para quem sabe aproveitar bem a sobremesa, ainda haverá tempo para o cafezinho e se o indivíduo for bem esperto, bem esperto mesmo, quem sabe ainda sobra tempo para tomar um licor? Só posso desejar para mim e para todos os leitores, uma longa refeição, com uma deliciosa sobremesa. Bom apetite!

VELHICE

Bom apetite!

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Somos velhos todas as vezes em que “já não podemos mais”. Velho é o bebê que já não pode mamar no seio materno. Velha, a criança que já não ousa errar, puro receio da opinião alheia.Velho é o jovem que já não deve mais aceitar a carona dos pais. Somos todos velhos no momento exato em que já não podemos mais aceitar a mesada do “papai”! Homens são velhos quando já não podem mais dar palmadas nos filhos, grandes e fortes, capazes de nocautear o “velho”. Mulheres são velhas naquele momento em que, ainda podendo abrir as pernas, já não podem mais parir. Ainda assim continuamos seguindo as etapas. São tantas! Não sou tão velho assim: ainda enxergo; ainda ando; ainda leio! Se aceitássemos a velhice como parte da vida, saberíamos que velhos são os mortos. Só porque os mortos já não podem mais viver.

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ARTE Soletrar imagens Pintar os sons Idealizar os sonhos Realizar instantes Acreditar possível.

Glenda Maier – Presidente da APPERJ de 1996 a 2000. Cronista dos jornais Condomínios Em Foco e Jacarepaguá em Destaque. Professora de inglês e mãe por vocação cármica.


papÉIS, papElada, papElÕES (completo)

Já vi, suficientemente, gente enlouquecendo entre papéis. Seriam as ideias que insinuam a loucura meio a papéis? Seria a pretensão ao universalismo? Ou... desde que nada resiste: trocar o arquivo, agora, por pensamento lido, mais provável, inexorável? Mas nunca ninguém volta para contar nada... Já tive duas pessoas próximas, razoavelmente passíveis, de minha apreciação desinteressada, que enlouqueceram... meio e talvez devido ao excesso de papéis. O transporte dos papéis. A evacuação dos papéis. Os sonos indispensáveis à saúde dos papéis. O desligamento indispensável para rasgar papéis. Ultrapassar sinais Selecionando amigos & papéis Ideias & papéis Tesão & papéis Amor & papéis Estilo & papéis Metodologia & contemporaneidade & papéis Politização & papéis Utilidades & papéis Interesses & papéis Receitas & papéis Improvisos & papéis Discursos legais, isto é, leis & papéis Mas como, não ter chegado ainda a reciclar papéis! Seriam, no mínimo, necessárias mais umas duas décadas e mais umas quatro prateleiras e não sei quantas autorizações, com as quais eu provasse que se modificam, porém não se proscrevem, totalmente, a utilidade de certas ideias expressadas, anteriormente, que ajudaram ao prosseguimento de algumas vidas; bem ou mal ajudaram o barco a andar, apesar de hoje, estarem, completamente, ultrapassadas. E vivam os sacos particulares e os portáteis dos que selecionam, catalogam, curam e vivem "dos" ou "para" muitos, ou mesmo... alguns papéis.

Seguinte

(gíria: o que se segue a negócio...)

Se a véspera foi de festa, o dia que se segue, poderá se tornar apenas estrídulo, nessa caquética perfuração estéril. Valerá a concentração? A tentativa da melopeia. Sobre feridas latentes? Perigos abertos? Silêncios admitidos, enfim, confessos? Admitindo-os como: medo invencível, estrebuchar de fera velha, sem eco, no deserto? E só enxergar a verticalidade nas pirâmides dos prédios? Achemos outro encadeamento sem tropicalismo, mesmo que seja num exercício: um correr na praia, seguir no calçadão o desenho até a areia, um perseguir atletas e campeões em descontração, centrar lembranças de tempos e imagens em captação! Ressoprar bolhas e bolas imaginando novas ilusões. Parando nalgum quiosque, saboreando a cervejinha e: ordená-la, condicioná-la, evaporá-la, dessorá-la, fazendo a chegar à Canção.

Juju Campbell - carioca, jornalista, tradutora, ensaísta, especializada em Eça de Quei-

roz. Participa ativamente do movimento poético desde a década de 70. Apperjiana fundadora nº 008. Afiliada ao SEERJ. Publicada na Itália – “Antologia Planetária da Edicione Universum”. Alguns de seus poemas foram vertidos para o espanhol. Publicada em diversas coletâneas e antologias cariocas. Livros solo: “O Gato”; “Amaramigos”; “Poemas Descomunicados”; “Um guarda-sol aberto para um mergulho”; “Flagrantes”; “Prosa Reunida & Alguma Poesia” e “Novos transportes e construções”. - 15 -


revista literária:

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PLURAL

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ora criada numa boa situação financeira, família burguesa, pai comerciante, naturalizado, grato ao país que o acolhera, nacionalista ferrenho. Falava mal dos políticos, discutia futebol, adorava caipirinha e admirava as mulatas. Era um brasileiro, embora a herança estrangeira no sangue e uma educação muito rígida e formal. Filha sua casaria virgem no civil e no religioso! E era pra sempre! E nada de ficar se agarrando no portão com o namorado! Tudo corria como planejara até que um dia um infarto definitivo o surpreendeu deixando a família desesperada e, um tanto desamparada. Ela, mal entrada na Universidade, teve que se transferir para o turno da noite e se empregar já que era mau o estado do negócio do pai. A irmã mais nova cuidaria da casa enquanto a mãe tentaria levar o botequim, que nunca sequer conhecera em todos os longos anos de seu casamento, já que o marido a proibia. Não deu certo. Tiveram que vender. Pagas todas as despesas e dívidas, sobrou pouco e a casa onde moravam na Tijuca. Terminado o inventário, venderam-na e mudaram para um bairro mais modesto. O Meyer foi o escolhido. Adeus às amigas do colégio, às sessões de cinema aos domingos, aos lanches nas tardes de sábado, às festas em geral. Era preciso fazer novos amigos. Mas, era pouco o seu tempo. Do trabalho para a faculdade e dela para a casa, numa rotina cansativa, louca para acabar a semana. Nas férias, no entanto, as noites de sábado permitiam um baile aqui, outro acolá, levada pela irmã que, com mais tempo, já se enturmara e namorava firme. Num desses bailes conheceu Edmundo. Trabalhava numa sapataria mas era ambicioso, queria subir na vida. Cansada e revoltada com o destino e com o pai, cuja morte a sobrecarregara de obrigações, louca pra se livrar delas, jogou os ensinamentos paternos pela janela e se entregou ao rapaz que, passados os momentos de delírio, muito correto que era, pediu-a em casamento. Livrou-se do peso da mãe e da irmã que sobreviveram com os parcos recursos da pensão do pai, crochês e doces que faziam para vender. Ela, no entanto, ficara amarga. Julgava-se roubada pela vida. Nem a alegria da formatura, do emprego novo, nem o carinho do marido lutando sempre para que tivessem de tudo, nada a satisfazia. Passou a ter um ódio imenso de quem não tivesse passado por dificuldades. Chamava de “mimadas” àquelas que não haviam tido problemas, a seu ver. Odiava-as mas não transparecia pois podia vir a precisar. Nem o nascimento dos filhos adoçaram-lhe o viver. Amarga cada vez mais. Nesse ínterim, as greves se alastraram e tornou-se, primeiro, antigoverno e depois, esquerdista. Dizia-se socialista, comunista, qualquer coisa contra os que não precisavam se sacrificar para sobreviver. Edmundo, o marido, passou a não se sentir bem em casa. O ambiente era o tempo todo feito de amargura e hostilidade. Aí ele conheceu Odete numa hora de almoço. Uma Odete alegre, relaxante, feliz. Começou a chegar mais tarde em casa. Ela percebeu, cobrou, brigou, exigiu e, afinal, ele fez as malas. Não aguentava mais morar ali. Foi Edmundo sair pela porta e fechar mais um espaço em seu coração: tornou-se fria, incapaz de sentir o menor entusiasmo por qualquer homem. Foi afastando os amigos com sua dureza e algum possível amor com uma grossura eficaz. Ela trabalhava, os filhos cresciam familiarizados com a língua francesa ao lado da qual foram criados, até porque acreditava que isso era bom para eles e realmente foi. Logo que puderam, disseram ao pai e a ela que queriam fazer intercâmbio e, assim, um de cada vez, foram para a França com o sacrifício e as bênçãos dos pais. Longe de casa foram felizes como nunca. Pesquisando, conseguiram encontrar chances de viver lá. Ela ficou. Agora, mais amargurada pela saudade e pelo compromisso de cuidar da mãe já idosa, pois a irmã e o marido haviam sido transferidos de cidade. Aposentada, dava aulas particulares de francês e seus dias eram controlados por cronômetro. Foi quando encontrou uma ex-colega da época das vacas gordas. Encontrou-a na Praça Saenz Peña, toda elegante e perfumada saindo de um cinema e muito alegre em revê-la. Fingiu satisfação enquanto aspirava o perfume francês e analisava disfarçadamente a aparência da outra. Mal se conteve enquanto a ex-colega lhe falava da família e do pessoal da turma antiga. Despediram-se e a outra mereceu à distância um olhar desdenhoso de cima a baixo, inveja impressa na cara, tesoura afiada na ponta da língua: “Dondocas mimadas!...”

Às vezes Às vezes me dá vontade de grafitar a casa toda: paredes, portas, tetos, móveis... vontade de acabar com a mesmice e encher de inesperados o meu entorno. Para não fazer isso é que viajo. MARCIA AGRAU, carioca, poetisa e prosadora, pertencente a APPERJ, AACLIP, AAP, CPLP, ALBL, PEN Clube do Brasil.

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Sobre o beijo O beijo é o brinde da carne, que celebra o seu próprio devoramento, encerra sua curvatura em sombras, dobras fissuradas, onde se come e se mora (comemora!) o fim que ainda está por acontecer. Beijar é o que sela o encontro. Sela presa, doce guia, porque une pela boca a junta dos corpos, que se adiantam desgovernados em precipício... E separam as partes, os lábios, em contra adição, porque faz calar a palavra. Que diria se pudesse? Um... Manipula-se um contato íntimo, e ao mesmo tempo impessoal - deixa-se de ser si mesmo. O selo da carta é o que antevê a correspondência, que não se faz, porque o selo é a cela da boca. Cadeia de pensamentos descarrilhados, desacatos amorosos, proferidos em ruído branco... O que se busca no silêncio deste sinal, não se traduz no movimento da língua, e o ato de se calar se justifica para que o grito não seja reconhecido; afinal aqui não há quem diz ou quem escuta. O texto vibra em alta frequência nas bocas que se tampam...Túnel fechado, conversa ação. Procura-se o ponto alto da pronúncia, como se a sua busca fosse uma compreensão- tradução universal- do que se passa, passa, passa... A todo instante com o tempo, com o respirar, com a troca dos lábios- eu não sei se essa borda bucal que sinto agora é minha, ou sua, de quem? Porque beijo com dedos, impressões digitais... Parafraseios que tateiam o escuro, procuram encontrar uma razão úmida, cursiva, para que o que se esvai em mudez entre as partes não se faça apenas espera. Espera-se reviver algo que não aconteceu. E como se tudo fosse possível, o deserto alcança a secura das dunas, papilas ondulares. Língua de areia no vento das águas. Na contração das palavras, dos músculos, das letras, o imperceptível se anula no beijo. Mas também não se declara, não se anuncia, é só ausência, circula na Torre de Babel para chegar, a saber... Do quê? Dessa presença sem nome... E chega o momento em que se abandona ali, tão próximo e tão distante, a boca de um corpo que se dizia único. O outro como um horizonte inalcançável. Eu troco no beijo o que não tenho de mim, e você me devolve o que não é seu. Compartilha-se o que não se tem... Esse silêncio faz calar, porque o que contraem agora são as fibras, os músculos, e não as vogais. Não se diz em convulsão, assim como não se respira quando é preciso engolir. No beijo, o que se passa entre as partes, é um entre-passagem que é muro, e é convite. Esbarrar de obras, que modelam suas esculturas de corpo, passando entre elas a ausência da morte, do fim, do auge, do início consolador, porque a busca temerária muscular é para que ela mesma- a procura, o girar em torno, de poder dar voltas, sem partidas ou chegadas- não escape, e não escorra mais com a saliva. É a magia do desvio, e a admissão que o centro, a união, é da mesma espécie do erro. Beijar é buscar morrer parcialmente e perder as referencias. E admitir depois que isso só se faz sozinho. Morrer e se perder é apenas uma questão de respeito: eu te devolvo aquilo que não só me pertence. Isso não é algo que se troca. Só passa... É por isso que os olhos se fecham, pois perder as formas do visível é pior do que a descompostura da língua. E voltamos a ver as coisas redondas, preenchidas, quadradas, coloridas, paralelas. É melhor assim, e isso é um consolo. O que não é meu, talvez eu toque ou mantenha distante, pois é garantia de luz contínua..., mas a minha boca, esta que não me diz nada (o que ela diz... o quê?), esta eu quero que chegue a mim, porque a minha fala é o que trai a separação de mim mesma.

Maria Luísa F. Fonseca, nascida em Mariana/MG é graduada em Psicologia pela

PUC-MG, atuando na área clínica. Pesquisadora em dança contemporânea, participa do Grupo Entre-Corpos, onde procura investigar os processos criativos relacionados à subjetividade. Arrisca-se como fotógrafa e escritora nos momentos de lazer. Atualmente faz pós-graduação em Dança e Consciência Corporal. - 17 -


revista literária:

Saudade Na minha vida, carregarei para a eternidade uma saudade que os anos não apagam. Posso encher o meu coração de amor por um varão, posso ter um sentimento forte e verdadeiro, mas não esqueço o amor incondicional de um homem bom, inteligente e maravilhoso, que se foi. Uma criatura que adivinhava os meus desejos, que sentia uma imensa felicidade, em me ver feliz. Um homem em quem eu confiava, mais do que em mim mesma. Um ser humano que só pensava em ajudar, em construir. Jamais tomei conhecimento de qualquer ato seu desonroso. Hoje vem à minha memória a história de uma empregada nossa chamada Zélia que o adorava. Fazia as comidas que ele mais gostava e uma torta de banana, deliciosa. Tratava-o com um carinho especial; tudo de melhor, era para o Dr. José. Eu não sentia ciúme, talvez porque me sentisse plena de amor. Ela era baixa, cabeça grande, negra com um semblante meigo. Gostava dela e ficava feliz, ao perceber a sua dedicação ao meu marido. Estava próximo da Páscoa e ele me pediu que comprasse um presente para a Zélia, uma roupa cor de rosa, que era a sua cor predileta. Escolhi um conjunto de blusa de manga curta e casaco de manga comprida. Ela adorou. Dias depois, mais ou menos às vinte e uma horas, estávamos jantando, quando entra Zélia com o conjunto rosa todo respingado de sangue. Trancou-se no quarto e não abria a porta; ela estava sangrando muito. Então, ela saiu ensanguentada e chorosa. É importante destacar que Zélia saia todo dia, às dezenove horas, dizendo que ia para a escola com um caderno debaixo do braço. José achava ótimo que ele estudasse; estimulava a todos a se dedicarem ao estudo. Eu servia o jantar. Levou-a ao hospital Miguel Couto; fiquei em casa com o bebê. Recusava-se a explicar o que houve. Enquanto aguardava que ela fosse atendida, ele conversou com o guarda que fez o registro policial. Soube, então, o que ocorrera. Fora agredida na cabeça com o salto do sapato de uma namorada do seu ex-namorado, porque abordara o rapaz acompanhado. Logo em seguida, vem a enfermeira

a quem ele tanto recomendara Zélia, dizendo: "ela não deixa raspar nem um pedacinho do cabelo para o doutor suturar; está irredutível e com hemorragia". José convenceu a equipe que poderia interferir. Levaram-no à sala de mulheres para convencer Zélia a permitir que lhe raspassem um pedacinho do couro cabeludo. Ele não era médico, era engenheiro, mas sabia convencer as pessoas; foi acolhido na sala, ficou junto dela e dizia para ela que não iria ficar feia, que não seria sequer visualizado o local raspado. Com todo carinho repetia "você não vai ficar feia". Ela foi anestesiada e suturada. Voltou para a casa, tranquila. Quando foram para o hospital, chorava muito. Não contou a história da agressão e nós não comentamos o assunto. Passado mais ou menos um mês, José lendo o jornal, perguntou: "Zélia você está afiada na leitura? Leia este trecho para mim". Ela não soube ler. Ele ficou decepcionado e disse-me: "Coitada, sai toda noite há um ano e não sabe sequer soletrar, vou ajudá-la; aos sábados, pela manhã, darei aulas para ela, vai aprender rápido". A ela disse: "Zélia, vou ensinar-lhe a ler, você vai toda noite ao colégio e ainda não aprendeu a ler". Fiquei furiosa e naquele dia, quando ela foi ao mercado, aproveitei para conhecer o famoso caderno e, para minha surpresa, não havia uma linha escrita. O colégio era uma desculpa para sair cedo para namorar, o estudo era um álibi. Rimos muito com a descoberta. Nada comentamos com ela e as aulas de reforço não aconteceram. Mais ou menos seis meses depois, ela conheceu um namorado paraibano e retornou com ele para sua terra natal. Dizia que jamais esqueceria a bondade de José. Para mim, todas as lembranças do meu marido trazem uma grande saudade. É uma recordação que já foi muito sofrida, mas hoje, após tantos anos, é um sentimento de perda, uma eterna saudade.

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PLURAL

O reflexo e a felicidade Como é melancólica a beleza fenecida Para o caminhar no tempo O tempo passado se reflete Às vezes é triste a visão do passado Que se faz tão presente! Quando se deseja que o tempo pare Por motivos reais ou imaginários Lembro-me de uma jovem linda Era triste e sentia-se pressionada Com uma pele de cetim Que se mirava ao espelho Com prazer renovado sempre De repente, passou a odiar O seu reflexo, olhava-se pouco Usava pequenos espelhos Minúsculos que só permitiam Visualizar apenas os olhos Para maquiar os cílios e pálpebras Coitada, fora agredida pela acne! Que só tocou levemente na sua face Mas, de modo forte e indelével, sua alma Então a jovem em seu imaginário Via-se feia, com o rosto esburacado Passou a odiar sua imagem refletida Era triste, infeliz e complexada Mas, um dia repentinamente, Alcançou altos voos, libertou-se Do cativeiro em que vivia acuada E milagrosamente fez as pazes com o espelho A sua figura refletida e luminosa Entrou em concordância com o espírito O cristal então refletiu felicidade A imagem embelezou-se Mesmo com o passar dos anos...

Zara Paim

- natural de Salvador/BA. Professora Adjunta da UFF, ingressando por concurso público e logrando o 1º lugar, em 1990. Mestre em Patologia Bucal. Membro da Academia Tiradentes de Odontologia e Sociedade Brasileira dos Dentistas Escritores, da AJEB. Membro correspondente da Academia de Letras de Xapuri e membro honorário da Academia de Letras do Estado do Acre. Recebeu a Soberana Ordem do Mérito Odontológico. Foi agraciada com prêmio no concurso Modesto de Abreu, da Academia de Letras do Estado do Rio de Janeiro. Membro da ACLERJ, da ALAP, do InBrasCI, da Sociedade Eça de Queiroz, da UBE, da APPERJ. Presidente da AMPLA Academia Mundial pela Paz, Letras e Artes.


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Ando dispersa por tuas ruelas, becos, ruas. Encontro-me em cada esquina com teu quente hálito de madrugada. Boemia escancarada na calçada. Sob teus açoites de sóis, derrapo por entre avenidas. Entre um cruzamento e outro, esbarro na beleza ímpar do teu céu de mil cores. Fogo a aquecer cada vez mais meu peito ardente de paixão. Mas, também, não engano meus sentidos, uma vez que nos mesmos cruzamentos deparo-me invariavelmente com a miséria debruçada na janela de meu peito. Agonizante Cristo derramado na cruz do cruzamento. São jovens, crianças, velhos, por vezes mulheres, evadidos dos guetos, das escolas, das famílias. Buscam, quase sempre, migalhas de centavos. Talvez para enganar a sobrevivência que teima em abandoná-los, ou, é quase certeza, alimentarão a monstruosidade do vício, do álcool, do craque, que roubam seus últimos suspiros. Realmente tu és contraditória, bela poética por um lado, triste drama no reverso. Esse teu espírito deslumbrante encanta-me. Continuo a namorar-te incansavelmente sem tentar decifrar teus desencantos. Tomo tua mão, andarilha, sem destino, carrego-te na aventura do descobrir-se. Vagamos de bar em bar, onde incautos derramam suas mágoas no copo ou fingem que a alegria vem da embriaguez química. Nas casas, há famílias que se compreendem, ou tentam chegar a algum lugar comum à felicidade. Mas também há casas com pedaços de pessoas que se amontoam sem qualquer significado. Essa é a incoerência do ser que te habita. Sem se compreender também não consegue compreender seu estar, seu permanecer, seu relacionar. Permanece caótico nos buracos que invadem as ruas, obstruindo teu doce sussurrar convidativo ao amar, ao poetar, ao espraiar-se na doce areia de teu verde mar. Vagalumes não iluminam mais tuas noites, dantes deslumbrantes de estrelas. Essas foram roubadas pelas luzes de neon dos edifícios que esconderam o azul e o mais revoltante, apagaram o ocaso apaixonante sobre as águas do rio em que me banhei. Ah! Mas resta leve felicidade, o canto dos pássaros voltou as tuas árvores e entre tristezas e afagos, pode-se vislumbrar a esperança sempre presente no final do túnel das contradições. Valsamos entre frevos e cocos pelas avenidas. Outra vez podemos deliciar-nos com os trejeitos fagueiros do teu povo hospitaleiro que teima em não desistir do viver, embora a violência engula a cada dia seus muitos filhos. Tuas flores perfumam mais o ar e xananas desabrocham teimosamente nos canteiros sorrindo das tuas peraltices que encantam mesmo quando vêm tremendas tempestades e alagam-te cruelmente impedindo nosso romântico trafegar de namorados. Eh! Minha querida, a urbanidade causa transtornos em teu dia a dia e nós ficamos separadas ante os distúrbios da incompreensão voraz a arregaçar nossas mangas em busca de soluções quase sempre incompreendidas, quase sempre esquecidas toda vez que há uma mudança de gestão governamental, que ignora as realizações anteriores e tenta novas sem qualquer compromisso contigo e com tua população que continua sempre órfão nas mãos de vilões aproveitadores mascarados de ovelhas da salvação. Esse é o grande pecado da credulidade humana.

s to en to m tra es sa ve nt en ua de e nt sp s e e s e rd eu d o o m a ed el e ,a z e lic d a ap rt r st pe s u fo la vo ve , eu te o ne o l, jos m a, o ir a ci c e e so ei b , d ch ra, de nto m o b so o , ê , i e ,f ad os ze rp de de or v o a r ur el sli co o a su ao rit s te u ej m e s pí o do p de an te es vo, a d ca es nh de o, om m d n p o rp c e de e ra ur ra eu s da os e ss r, c ist b m e ici d co e s d el re u s ed de a m as l f s d a eg te to ísc ve ta nd da s to m en eito s de al or o a s e sin m n o p p i o u de a em rva nto se s m te n re ar ni ca sa to do s a ab eg o e to a n u o av n d es ov e ta ho te aj lc rg n ico la e de in de m a a-m as ág e on a ia tua iag trel so -m m r ad r d ran o rri faz xu a r s ud o e nç so e lu me mb de e la sa ab ob e u a s a ,s te ba su ga me eta e no ha re m m u m pl r n f s e z- do rai nu a ca per a re lu tra a , ç u a a lh usa te ta uv gu e e om r ch me to d c ei ,f

transtornos urbanos

Jania Souza, potiguar, artista plástica, escritora, poeta; bancária, economista, contadora; sócia da SPVA/RN, UBE/RN, AJEB/RN, APPERJ, Clube dos Escritores Piracicaba; participação em coletâneas nacionais e internacionais; publicações individuais: 2007, Rua Descalça pelas Edições Bagaço/PE; 2009, Fórum Íntimo e Magnólia, a besourinha perfumada pela Editora Alcance/RS; 2011, Entre Quatro Paredes pela Corpos Editora/Porto-Portugal. Contato: www. janiasouzaspvarncultural.blogspot.com

nesse passo de lembranças e saudades meu amor enlaça tuas curvas sensuais em beijos, afagos, carícias tão quentes enquanto o amor total realiza-se plenamente presente e passado fundem-se só há eterno momento.

REVELAÇÕES Acordou no computador. Resmungou um eureca e descobriu novas formas de arrumar seus pensamentos no corpo mecânico, sempre passivo, mas, bastante receptivo às novas informações. Meninas inquietas gemem nos dedos que dançam eufóricos sobre as vestes do sensível teclado com suas luzes de neon artificial. Ousadia! Lembra uma cidadela badalada em trajes de festa noturna no auge da idade. Entre um abrir de boca e um espreguiçar, o pensamento corre as páginas com velocidade impar. Uns engolem outros na voracidade da primazia. Ação fatal na seleção das ideias que sufoca primores da criatividade antes do seu nascituro. Há uma batalha no campo da massa cinzenta precisamente porque os neurônios recusam-se a transmitirem as informações exatas em cadeia cinética criando um mundo paralelo fantástico de alucinações. Esse ato impossibilita a visão simplória e ao mesmo tempo fenomenal das sensações do real que se fundem ao imaginário na produção de uma confusão, que oscila entre o trivial e o prejudicial. O universo mental continua inexplicável. Torna palpável a grande incógnita da dualidade universal. Ego que coabita com universo exterior das formas, das relações, das sensações com o mundo real que existe antes dele haver se materializado, que existe também durante sua caminhada e que permanecerá após seu último suspiro. Ego que vive dentro de seu próprio eu, em seu próprio universo complexo com particularidades jamais reveladas, em sua totalidade ou em parte, em suas exteriorizações para o mundo das relações. A máquina fala, chora, grita, sussurra amarga. Rouba seus pensamentos. Devora-os e apropria-se das suas sensações. Há uma simbiose entre emoções humanas e tecnológicas. O retrato é pincelado com todas as cores da alma. Na surdina do romance trançado entre dedos e teclas, mundos são revelados, enquanto o sol despenca entre os suspiros da noite.

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revista literária:

PLURAL

FILHA DO SOL (excerto do romance homônimo)

Gianfranco segue as instruções de João e sente como seu corpo, que até agora lhe era familiar, se dilui completamente; parece sair flutuando e, de repente, se sente ameaçado, é tomado por um pânico descontrolado ao rodopiar pelo espaço, mas João, com uma energia invisível, o prende ao solo e lhe fala com voz exorcizante: – Deixe suas asas crescerem, imagine seu corpo se transformando em uma águia; agora você está totalmente livre, só seus pensamentos dominam o seu mundo. Devagar o medo vai desaparecendo, transforma-se em um crescente sentimento de felicidade que se derrama sobre a percepção dilatada de Gianfranco e lhe possibilita seguir os conselhos de João, que ouve de muito longe. Asas crescem de seus ombros, pés de pássaro, com unhas afiadas, formam-se debaixo de seu olhar anuviado, seus olhos hirtos de pássaro olham para João que se esconde detrás de uma cortina brilhante. – E agora voe, decole, pule no ar e voe! Gianfranco tenta alçar voo, precisa de um enorme esforço, para conseguir estender suas asas, decolar de um chão coberto por arestas agudas e voar para um espaço repleto de raios coloridos. Luzes estranhas pairam sobre o mundo abaixo dele, que só consegue reconhecer de lado, com um olho; depois o chão se transforma e ele e a terra deslizam para o mar aberto, negro, um mar sem horizonte e sem céu, para uma lonjura sem fim. Longe, de muito longe, ele percebe a voz de João lhe ordenando insistentemente para voltar; são palavras que roçam nas suas asas, mas que não retêm o seu voo, o anseio que não consegue frear, de voar sempre em frente, para bem longe acima do mar. De repente um grito, uma pancada forte que parece quebrar suas asas, que o puxa para baixo e o faz despencar nas ondas. Antes de Gianfranco afundar na água preta ele ainda vê um pássaro prateado, uma gaivota que perfura o horizonte que, de repente, explode em chamas. Depois tudo é noite, noite profunda que flui sobre sua consciência, encobre as dores em seus membros, a náusea e o medo que novamente se manifestam. O grito das araras, que voam para dentro do raiar da manhã, chama Gianfranco de volta para seu corpo, de volta para a rede de João e o obrigam a ceder à forte náusea e sair correndo da cabana para a floresta. O chão debaixo de seus pés descalços está úmido e uma chuva mansa cobre a mata. Gianfranco se esquece das cobras e aranhas que provavelmente cruzam seu caminho e corre de pernas bambas, para a mata, onde livra seu corpo da cerveja de mandioca fermentada e dos resíduos grudados na mucosa de sua boca, com o gosto metálico da fumaça alucinógena. Ao regressar à maloca, João está diante da entrada e lhe oferece uma tigela com água. – Você se entregou logo na primeira tentativa, não se segurou, deixando se fascinar por um sentimento agradável. Não se viaja para fora do corpo para ter sensações agradáveis, mas para ver, para aprender, para ter uma noção daquela realidade que nós não somos capazes de descobrir com nossos cinco sentidos, mas que, no entanto, é a própria verdade, é a forma de energia da qual viemos e à qual novamente voltaremos quando tivermos despido nosso corpo. É importante estar a par, nesta nossa forma de existência, dos outros mundos para poder expandir nossa consciência. Esta é a verdadeira, a nossa única tarefa importante aqui na terra: expandir nossa consciência; o resto é bobagem, sem importância e irrisório. E então? Você, por acaso, tem medo de saltar para a luz dos mundos de prata? Isto, que você julgou ser seu, desde o começo, não seria só uma utopia, um pressentimento ilusório, suavemente encoberto por uma ternura sem esperança? Desesperança. Não, era algo maior, mais profundo, mais doloroso, era um estranho penetrar em uma sensação de alheamento, do fascínio de um prazer descoberto. Escravidão. Escravidão dos sentidos. Comparável ao eterno ondular do mar perto do Equador, esse contínuo acariciar, morno e úmido, ar saturado de sal, transpassado por ventos impetuosos e manifestações de poder de uma natureza indomável. Indomável. Amor? Sacrificado à dor permeada pelo sal da liberdade. Um fim de luta antes da hora, um precoce içar de velas, uma rota precocemente entregue aos ventos contrários? Pedro Álvares Cabral afasta os rebordos pretos de pensamentos das nuvens do sono. Velas escuras, que dilaceram o horizonte da noite, caravelas sobre as espumas do verde mar, pingando sal sobre a areia branca. Sobre as palmeiras das costas tropicais, uma águia preto-azulada, escurece o sol antes de cair com suas penas em chamas. Penas de arara em fogo e, no centro do flamejante arco-íris, a silhueta preto-azulada de Rosângela. Pedro levanta-se e afasta as pesadas cortinas cinzentas empoeiradas para o lado, olha para uma Lisboa azul -acinzentada na névoa de um mês de março instável. Bondes recortam a manhã de algodão e, sobre o rio cansado, gaivotas perdidas traçam brancas laçadas dentro da luz apagada.

Dorothea Nürnberg (Mag.phil.) nasceu em Graz, Áustria, em 1964. Estudou filologia alemã e francesa em Graz e na Sorbonne/Paris. Membro do P.E.N.Clube Internacional Writers Association. Entre suas obras mais importantes estão ciclos Líricos, peças de teatro, textos em prosa e obras fotográficas. Seus romances são editados também no Brasil, nos Estados Unidos e na Índia. Obra mais recente: Sterntänzer (Dançando Estrelas) romance, Editora Ibera, Viena, abril 2012.

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Soldados do tamarindeiro À sombra do tamarindeiro, a infância se confirma. Quando se é criança, as coisas sempre se mostram maiores do que realmente são. A sombra do tamarindeiro parecia sem fim. O limoeiro e a laranjeira pareciam anões, o coqueiro então, com os coquinhos bem alto quando vistos da janela de casa, não tinha mais tanta importância, mera mudinha. Sob sua sombra, onde o sol nem chegava por causa da espessa copa do tamarindeiro, o tempo parecia nem existir. Eram tantas brincadeiras no quintal vizinho. Tantas quantas são possíveis lembrar. Mas a que mais ganha pontos do saudosismo é a que mais se anuvia na recordação, aquela que julgo ter ganhado muitos episódios dirigidos apenas por mim, mas que a memória de criança se permitiu esquecer com maior facilidade: a de soldadinhos de tamarindos. Já ouvi dizerem por aí sobre brincadeiras com espigas de milho, mangas verdes com pauzinhos, caixinhas de fósforos, cabos de vassoura... Mas, até certo momento da vida não me lembrava dos dias em que essa árvore serviu de campo de batalha. Os tamarindos eram soldados. Lutando contra besouros, tatuzinhos-bolas, formigas e outros inimigos imaginários do mal, ou do bem dependendo do meu interesse. Os tatuzinhos acabavam neutros porque sempre se escondiam bem rápido sob a terra fofa. E era o cachorro do vizinho que dava o alerta de perigo ao pisar nas folhas secas. E nessa hora as frutinhas azedas estavam sempre a postos, como os bons soldados que eram. As formigas não resistiam, os besouros tão pouco. A armadura dos guerreiros era intransponível e, sob o comando da minha alta patente, agraciada por mim mesma, seu estilo de combate era infalível. Quando os insetos se retiravam, e quando os filhos do vizinho estavam longe o bastante do meu reduto, eu baixava a guarda, me tranquilizava e olhava os pássaros catando os tamarindos. Lá se vão os soldadinhos... Lá se vai o meu exército... Lá se vai minha lembrança de criança... O triste não é deixar de lembrar os outros dias de sombras frias do pé de tamarindo. É deixar uma história de meninice e pés descalços sem o fim merecido. Não é inverdade arquitetar uma lembrança. Gosto da fluidez dessa mistura. Faz bem. Pois a realidade das crianças se mistura também às brincadeiras e sonhos. E mesmo que nunca mais tenha visto uma árvore dessas, minha imaginação me supre com uma nova lembrança idealizada: deitada sobre os galhos e folhas secas, sob o infinito céu azul de primavera, vejo as folhas se balançarem com o vento, pronta para mais um duelo de tamarindos e insetos. No quintal do meu vizinho, debaixo do tamarindeiro, observando o cachorrinho e as crianças, que não paravam de abocanhar os tamarindos, as laranjas e tudo o que tivesse um gosto razoável, percebia que minha intenção era outra. Eu sentia haver um desígnio para toda essa brincadeira, apenas não o compreendia completamente. Éramos eu e os soldados, munidos com suas armaduras. Eu e meus inimigos, com toda sua insetidade. Hoje sou apenas eu, vislumbrando uma janela de memória.

Jackeline Vasconcelos Valentim nascida em São Paulo e professora graduada em Letras pela UFMS, atuante no ensino de jovens e adultos. Leitora apaixonada e aspirante a escritora. Trabalhos publicados anteriormente na antologia poética Nós da Poesia Vol. 2, organizado pelo instituto Imersão Latina. Outros textos em zumbiliterario.blogspot.com.br. Contato: jack_super17@yahoo.com.br.

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revista literária:

PLURAL

CHEgADA NO APARTAMENTO DO POETA Tarde quente e ruas cheias, quando chegam ao estacionamento da garagem, em Ipanema, do apartamento do poeta Reynaldo Valinho Alvarez. Com Mozart Carvalho, no elevador, Sérgio Gerônimo comenta sobre as palavras escritas por Valinho, na quarta capa do seu livro de poemas PANínsula – “cada poema corresponde a uma estação desse itinerário cumprido com entusiasmo e harmonia – trata-se de um diário poético de uma bela viagem”, generosidade do poeta e conhecimento sobre a Península Ibérica. Na porta do apartamento Reynaldo os recebe com um sorriso amistoso, como sempre. NASCIMENTO

No Rio de Janeiro, em Dia de Reis, ano 1931, filho de pai espanhol e mãe portuguesa, na rua General Caldwell, que fica atrás da antiga sede da Casa da Moeda (“Desde o nascimento corro atrás do dinheiro!”). A família, nos primeiros meses de vida do menino, decide ir morar com a avó materna, “mulher irrequieta, que não parava em lugar algum”, de espírito nômade, portadora genética da inquietude que acompanha os poetas. A família morou no Catete, Glória, em companhia da matriarca, e depois foi residir, sem ela, numa vila da rua Evaristo da Veiga, onde Reynaldo viveu dos três aos nove anos, início de suas lembranças da infância, em frente à sede da sociedade carnavalesca “Os Fenianos”.

O DESPERTAR DO IMAgINÁRIO

Os flashes dos fotógrafos misturavam-se à música dos bailes carnavalescos do clube vizinho, ao desfile das “Grandes Sociedades” e ao burburinho da multidão nas calçadas e bares. Os olhos daquele menino, limitado ao território seguro, imposto pelos pais, por trás do portão da vila onde morava, não perdiam um movimento das mulheres seminuas que confraternizavam com os foliões no intervalo dos bailes dos Fenianos. Talvez já ali, observando aquela realidade fantasiada, que lhe fora vedada a participação, e apenas como um espectador mirim extasiado, ainda incapaz de uma compreensão total daquelas cenas, tenha brotado dentro dele a Poesia. Mais tarde aquela visão transformaria mulheres em deusas, semideusas, bacantes. E o batuque, em sinfonia. Porque, como afirmou décadas depois: “a realidade não basta, há necessidade do mítico”. A primeira escola que frequentou foi a Celestino da Costa, na rua do Lavradio, onde moravam seu tio avô Ermínio, espanhol daqueles que “não levam desaforo para casa”, e sua esposa, tia Rosa. O casal “juntou algum dinheirinho”, como se dizia na época, trabalhando duro em sua pequena pensão, situada na mesma rua. Foi no jantar de despedida desses tios-avós, de regresso à Espanha, que o menino pobre viu, pela primeira vez, uma garrafa de champanha ser aberta e encantou-se com o espocar da rolha, ao ser retirada, e as borbulhas douradas do líquido. Logo que os tios-avós chegaram à Espanha, ocorreu o golpe militar chefiado pelo General Francisco Franco, no dia 18 de julho de 1936, iniciando uma guerra civil que duraria quase três anos. A Galícia foi uma das primeiras regiões a cair sob o domínio das tropas de Franco. A guerra mergulhou os habitantes das pequenas propriedades rurais em grandes dificuldades. As cartas que relatavam a situação chegavam censuradas, com trechos cobertos por tinta preta. Os envelopes eram violados e depois novamente lacrados. Em todas, vinha escrito o lema franquista: “Arriba España”.

A REALIDADE

Quando Reynaldo cursava o quarto ano do ensino primário, a família mudou-se para o Catumbi, rua Itapiru, 17, no Catumbi. Ali, Reynaldo assistiu à inundações, em que viu porcos, cabritos e carneiros berrando, arrastados pelas águas que desciam dos morros próximos. Ele concorda quando Sérgio Gerônimo comenta que esta visão dessas catástrofes urbanas, representadas pelas grandes enchentes de verão, voltaria a aparecer em seus livros. Valinho acrescenta que a profª Délia Cambeiro, da UERJ, pesquisadora da poesia urbana, está elaborando um estudo comparativo que abrange sua obra e a de um poeta italiano. No curso clássico, feito no Colégio Pedro II, onde conheceu Maria José, sua musa e colaboradora, transferida do Colégio Belisário dos Santos, então uma referência no bairro de Campo Grande, Reynaldo já compunha sonetos com fluidez e domínio da técnica poética. Maria José fazia rádioteatro na rádio MEC, sempre como protagonista dos textos, baseados na história e folclore brasileiros, escritos por dois professores do colégio. A partir daí nasceu o amor e a união que já dura há sessenta e três anos: cinco de namoro e cinquenta e oito de casamento. “A Realidade se impõe, mas há a necessidade de algo mais criativo: a religião, a ideologia, o mito, alguma coisa que permita ao ser humano acrescentar sua contribuição ao mundo já feito, que encontram ao nascer.”

FORTUNA LITERÁRIA

Reynaldo Valinho Alvarez publicou trinta e cinco livros, sendo dezesseis de poesia, dois de ficção, dois de ensaio, quatorze de literatura infantojuvenil e um livro de tradução. Teve obras publicadas em Portugal, na Espanha, na Itália, na Suécia e no Canadá. Foi traduzido para o sueco, o italiano, o francês, o espanhol, o galego, o persa, o corso e o macedônio. Foi premiado numerosas vezes no Brasil e também laureado em Portugal, na Itália e no México. Recebeu o Jabuti de Poesia em 1998, o Camaiore Internacional de Poesia, da Itália, em 1999 e o Golfinho de Ouro de Literatura, do Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro, por toda a sua obra, e o Prêmio Iberoamericano de Poesia “Fray Luis de León”, 2009, de Salamanca/ES. Manteve colunas literárias no Jornal de Letras e na Última Hora. Fez parte da direção de entidades culturais e pertence ao Pen Clube do Brasil e a Academia Carioca de Letras. Escreveu crônicas e programas de literatura para o rádio e integrou comissões julgadoras de prêmios literários de âmbito

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nacional. Nesta altura da conversa, Reynaldo menciona ‘A Faca pelo fio’, sua obra reunida, pela Biblioteca Nacional, que não foi publicada completa, porque o livro não poderia ultrapassar 400 páginas. Em vez de optar por uma paginação com muitos espaços em branco, teria sido melhor fazer como as edições de bolso de obras completas, nas quais todos os espaços são tomados pelo texto, como se faz na Europa. Nas palavras de Astrid Cabral, sobre “A faca pelo fio”: “Aqui estão presentes as formas de predileção do autor (o soneto, com a variante do soneto-e-meio, os decassílabos em estrofação progressiva) e outras de menos frequência no conjunto, como os tercetos arrematados por dísticos, ou os amplos versos modernistas. Como se pode perceber desde a primeira leitura, estamos diante de um poeta que, se rejeita a rebeldia iconoclástica das vanguardas, abraça a tradição de modo criativo sem submeter-se à rigidez das convenções. A atitude estética é de assumida resistência face à desintegração do mundo contemporâneo, abalado em múltiplos planos. À extrema atualidade de seu recorrente tema – o esmagamento do homem nas megalópoles do século XX – ele contrapõe o antídoto das formas artísticas duradouras e universais do Ocidente, atento sempre à simetria e ao equilíbrio clássicos na construção do seu projeto verbal. Ao lidar com a dialética natureza/civilização, Valinho denuncia as falácias do progresso, esquadrinha a miséria dos excluídos e chora o exílio do ser urbano, num mundo onde ‘os pássaros não cantam como anteontem’ e a própria chuva de bênção redentora passa à causa de lama, pois ‘A chuva suja e lava, mas não limpa / os ossos infiltrados de tristeza’.”

“EU PENSO EM DECASSÍLABOS.” COMENTÁRIOS E OPINIÕES DE REYNALDO VALINHO ALVAREZ

“ Meus livros são, em geral, construídos e apresentam uma unidade dentro da diversidade, tanto no plano formal quanto no conteúdo, se é que é possível separar forma e conteúdo em poesia. Creio que os dois se fundem de modo indissolúvel.” “Na prática, sou quase, como um analfabeto digital. Não me mandem e-mails. Usem os correios ou o telefone, onde estou sempre disponível.” “A realidade é dura, às vezes dura demais e até mesmo intragável. Todos, para se defenderem, constroem seu próprios mitos. Eu, por exemplo, junto o mundo mítico da Galícia ao do Rio de Janeiro. Trata-se de uma fusão que só interessa a mim, a mais ninguém. Aos outros, só interessa, na minha obra, o que tiver de universal.” ”A Poesia faz parte do mundo mítico.” “Além de emocionar, a Poesia também remete ao processo da reflexão e ao questionamento dos códigos preestabelecidos. Há poesia reflexiva, poesia oral e outras instâncias da poesia. Hoje, há uma abertura da linguística, uma permissividade verbal válida dentro de um contexto. Uma vertente da literatura atual opta por escrever como as pessoas com pouca formação escolar. A frase ‘Eu vou falar pra tu.’, por exemplo, é frequente nas telenovelas. Eu não me inclino a usar essa linguagem em meus escritos. Sei o que é a reprodução da coloquialidade numa tentativa de fotografar a realidade da vida. Sei também que o idioma é um organismo vivo, em contínua mutação, ao longo do tempo. Penso que a telenovela obedece a condicionamentos de público e mercado que não regem a literatura.” “Baudelaire é precursor da poesia urbana, instaurada por Cesário Verde em Portugal e Augusto dos Anjos no Brasil. Em Cesário e Augusto, a oralidade é marcante.” “A poesia transcende, sai do trivial, da fila do banco para a idealização e a abstração, sem perder a marca do humano. A minha poesia usa mais substantivos concretos do que abstratos, mas não se reduz ao registro fotográfico.” “Entregue ao universo de leitores, a poesia é passível das interpretações mais contraditórias, assim como os outros gêneros literários, submetidos hoje a avaliações extraliterárias como as do marketing, do “politicamente correto” e outras mais, como tem sucedido, por exemplo, com Monteiro Lobato.” “Não acredito em fórmulas ou na ditadura ideológica no que se refere à criação literária.” “Falta ao poeta o marketing que rege as relações editorias com o mercado. A maioria das pessoas não vai à livraria para comprar livros como presente de aniversário, natal, páscoa, ou seja o que for. No caso da literatura infantojuvenil, os livros que vendem são os adquiridos pelo Ministério da Educação ou pelas secretarias municipais ou estaduais de educação, que os distribuem ou os armazenam em seus depósitos. Quanto aos livros de poesia, não encontram editores, distribuidores ou livrarias para expô-los.” “Meus compromissos e responsabilidades atuais não me dão tempo para acompanhar a produção de tantos poetas, nem para escrever novos livros.” “De modo geral, estamos hoje livres da ditadura das escolas literárias, entre elas as que se consideravam libertadoras, como o Modernismo.” “Sou um poeta urbano, é verdade, mas não somente urbano. Transito também por outras áreas, desde sempre.” Após o bate-papo e antes do cafezinho, mas depois dos flashes, na sala de estar do apartamento em Ipanema - Rio, Reynaldo pede licença e se ausenta um momento, retornando em seguida com um objeto em sua mão. “UMA COISA É GANHAR UM CONCURSO, OUTRA É RECEBER O PRÊMIO SEM ESPERAR.” Pergunta a Sérgio Gerônimo se ele lembra daquela estatueta. Emocionado, Sérgio vê na palma da mão de Reynaldo a estatueta que simboliza o aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro, que é ofertada às autoridades e personagens ilustres, que marcam com a sua passagem a vida daquele colégio. Reynaldo recebeu a singela homenagem, quando expôs sua obra aos alunos, no projeto Encontro com o Escritor, de coordenação do coronel Delgado (Sérgio Gerônimo), então, professor daquela centenária Casa de Thomaz Coelho. Sérgio sentiu-se muito honrado pela lembrança do amigo. Evoé, poeta Valinho!

PALAVRAS FINAIS

“Tenho dificuldade em aceitar a finitude, ainda. Parafraseio as palavras, que um amigo meu atribuiu ao jornalista e escritor Jota Efegê, como as que ele tivesse escolhido para sua lápide: - Aqui jaz, muito contra sua vontade...” - 23 -


revista literária:

PLURAL

Mar de ossos

Em ti, ó mar, milhares já cantaram As conquistas e sucessos e amores... Mas por ti, companheiro, suportaram As duras perdas, os cruéis horrores. Em quantos tantos naufrágios narrados, Em tempestades da longa jornada, A divina paixão de enamorados Calou-se nas profundezas do nada?

ra tu ira rs te ve fi Li ni ta de m r u oe se os r e o . P n rs eto ess al ire cu po ou of on oe on e D r si h c d é , p fis ac s o s io ro C rso ivr a C-R r p mia ive m, l ld PU e ato ade m d itu c e n Ca ela or A o nfi é p d à ad I r sa isa J e ci d d e u R ra A n gu esq PE ag ou A ortu , p AP foi blic P rio à já Pu tá do s, s. 011 lia etra ário 2 L er em lit as, m

Um mar de ossos, já diz a História Mar português, que tanto fez chorar, Triste vida incerta, tu és a Glória, Destino dos Varões, mote a glosar.

Sem contar co’a família dizimada Da infeliz mãe, c’os seus nobres rebentos, Por seu ilustre amor foi enterrada. Lastimoso sucesso, triste evento...

Nos mares tantas vezes navegados, Da alma Imprecisas rotas sempre a singrar, Desvendarei meus sonhos mais que alados, Da amurada do castelo, Mesmo c’os meus olhos sempre a sangrar. Vislumbro o fosso que me isola. E, sedenta de naufrágios, Agarro-me ao menor sinal de precipício.

voar

voar

Ri

sc o Se r Se á O rá um u ra r só bi isc um sco o? Só D se cis ? e i Se ss q co gu e m ue na e m ta eu o t in ng pa ra ha en ss ç es te o o cr ao ita m ? eu co m pa ss o.

voar

Em meus sonhos, posso E subo às minhas torres de clausura Em busca do farol que não me guia Mas que brilha, provocante, para o mar. Enciumados, meus cabelos dançam na água E as saudades sem-fim do Éter Fundem-se aos cachos que serpenteiam, Bailando, nas águas, ainda uma vez.

Tatiana Alves é poeta, contista e ensaísta. Participou de diversos concursos literários, tendo obtido vários prêmios. É colaboradora da Revista Samizdat, já tendo escrito para os sites Anjos de Prata, Cronópios, Germina Literatura e Escritoras Suicidas. É filiada à APPERJ, à Academia Cachoeirense de Letras e à AEILIJ. Possui sete livros publicados. É Doutora em Letras e leciona Língua Portuguesa e Literatura no CEFET / RJ.

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PEQUENO ÉPICO MARÍTIMO EM DEZ CANTOS 6. Flutua e flutua e flutua

1. De déu em déu foi dar no mar alçada ao mar alçou o alto-mar navegou remotas ilhas a beijar la-nave-va na direção árticoatlânticoíndicopacífico – águas de nações. 2. Desconhece do naufrágio as ânsias avança avança furando as ondas impávida caixa noeana a flutuar sem arco em que pouse em que pousar.

serpente assustada peixe sem pudor. 7. Avistou o sol do Japão foi avistada de um transatlântico no binóculo do Menino: Pai, uma escova de dentes! Que heroísmo! Grave, o Pai: Filho, isto é glória e tragédia da nossa Civilização.

avança

8. Borrascas a sacodem ondas buscam sepultá-la jangada de Odisseus mesmo assim três vezes passou pela Taprobana aportou quase contornou o Bojador sem dar pelo som da última sílaba nenhum monstro a carranca lhe mostrou sofreu tsunamis na costa das Índias riscou o mapa translúcido das manchas d’óleo escapuliu de hélices loucas sentiu a fúria do rabo das baleias confundida como foi o Profeta habitou o estômago dum pelicano.

3. Ela que navegou a enseada de uma boca em espumas de artifício foi dobrar cabos tormentosos outros calmos visitar vadia as praças dos continentes. 4. Ela seu arcabouço amarelo anatômico e útil alcandorado prototipia de submarinos ela sua proa de cerdas rompidas e gastas sua vela vazia de vento. 5. Não possuiu a luzíada ambição embarcação errática trilhando mares já de muito navegados por isso deve ser cantada por arremedo de vate.

9. De amálgama mais feliz que o das Naus Titânicas viajou viajou viajou vagueou vagueou vagueou por muitos dias faltos de História.

10. Passa tranquilos anos encalhada a uma praia e eis que lhe lambe uma onda nova viagem enceta de imprevistas rotas e aventuras MARCOS RUFFO é natural do Rio de Janeiro. Funcio- frouxos destinos flutuantes nário público.Tem participado de jornais alternativos e co- enquanto frui desapressada letâneas de concursos. Publicou: Livros Içam Velas em 2010 sua incômoda eternidade. e o folheto Corpo: Ode e Elegia em 2011. Algumas de suas leituras preferidas são: o Livro de Jó, o Paraíso Perdido, Memorial de Aires, Explorações no Tempo e O Menino e o Palacete.

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revista literária:

PLURAL

RENOVAÇÃO

Ser poeta às vezes é desgastante! Falar sobre dor, amor e vivências, Quando a alma esta vazia, vazia de pensamentos... Querer contar histórias, vividas e até sentidas, por ele ou por outro alguém! Juntar palavras, formar frases e rimar, às vezes é tão difícil! No entanto, há momentos em que a poesia flui, EU POETA não precisa de motivos, apenas flui... As palavras vão aparecendo, as frases se formando, a situação toma forma e aí, ela acontece! Sentimentos afloram em sua mente, a poesia nasce e você fica feliz pois compôs mais uma poesia!

Sinto-me renovada! Acordei para a vida, seu amor despertou minha vontade de viver! Me despi do amargor antigo, joguei fora toda dor e a tristeza recolhida! Vejo um novo amanhã, repleto de luz e amor, onde a felicidade é constante, num futuro promissor! Seus olhos transmitem amor, sua mão segurando a minha a me levar pela vida, com segurança e destemor! Não pensamos em tristezas, só queremos viver este encontro tardio, até o fim de nossoa dias! O amor é renovação!

Quem sabe um dia passe, Essa dor que se faz maior A cada instante? Esse sofrer que é uma constante, Esse querer que não acaba mais!...

E X P E C T A T I V A

Quem sabe eu encontre um dia, Essa paz que tanto necessito? Que chega em forma de esperança E morre com um grito!

QUEM SABE?

Quem sabe um dia, Onde eu for, talvez exista Algo em forma de um amor? Quem sabe talvez você!...

Marice Prisco

Na expectativa Me perco! Não sei se vou Ou permaneço... Espera, Angustiante espera!... Não ficar Estática, Na situação Expectante, De não saber Se vais chegar? Penso, Espero. Desespero! A cabeça voa, Na dor, vou embora!...

- Comendadora, Advogada, Escritora. Possui várias premiações em salões de artes, como, também, em mostras de artes individuais e coletivas. Diretora Cultural da ALAP (Acad. de Letras e Artes de Paranapuã), Secretária da ABD (Associação Brasileira de Desenho e Artes Visuais), Secretária da APALA ( Acad.Pan -Americana de Letras e Artes). Poetisa com participações em várias antologias e revistas literárias com algumas premiações em concursos literários. Membro da Federação das Acad. de Letras e Artes de S. Paulo - FALASP, da Federação das Acad. de Letras e Artes do Estado de Minas Gerais (FALAENG), Bibliotecária da UBE- União Brasileira de Escritores/RJ. Membro fundador da Acad. de Ciências, Letras e Artes Lusófonas, em Portugal, do Círculo Literário do Forte de Copacabana e Artilheiro da Cultura do mesmo, também Membro fundador do Círculo Literário do Museu Conde de Linhares. Participou do livro "Les Poètes Brésiliens à Paris", na França e do " Elas Pintam, Elas Pensam", na Bienal do Livro de S. Paulo/2012. - 26 -


I Viva São Jorge!

cr ô in nic éd as ita s

O Santo deve ter sido acordado lá na lua, tanto foi o foguetório. Assustado, deve até ter pensado, que tinham chegado, definitivamente os ianques, para estabelecer a sua Companhia das Luas Zenitais e explorar o romântico satélite dos emocionados expectadores de corrida de submarinos das praias cariocas. Mas era para ele a homenagem fogueteira. Dia de Ogum, 19 de março. Morteiros e revólveres furavam a neblina sonolenta da manhã na favela. Disparara no céu o cavalo divino, que pisoteava o chão para acordar todo mundo. Fogos, estampidos. “Viva ao Santo Guerreiro!”, “protetor das donzelas”, “exterminador do mal”, “justiceiro”. Sua capa vermelha é fortaleza dos oprimidos, a lança é arma dos perseguidos. “Que venha o santo!” Pois que venha, porque parece que anda meio esquecido pelos seus fiéis. Com fogos e atabaques, cedo começou o festejo de seus filhos. No terreiro de mãe Dalva, o santo recebia as visitas e louvores merecidos. Nada demais que em frente, o bicheiro Paulo da Maré fazia sua salva de tiros de 45 e metralhadoras. Mais acima, o Dragãozinho já tinha mandado empinar a pipa para alarmes do dia, porém, como era dia do seu padroeiro, sete pipas rebicavam nas alturas. Às seis horas da manhã a favela já está, normalmente, calma. Pois na alta madrugada, não dormiu os ativistas da noite: uma sorte de tipos, deixando, quando não, algum “presunto”, nos amontoados de lixo. Lá pelas quatro e meia, começa a sair a classe operária. Pelas cinco ou seis já saiu a turma dos operários de obras, as empregradas domésticas e lavadeiras, as babás, os carregadores de feira, os guardadores de automóvel e todos os párias, que a sociedade capitalista se orgulha de ter. Depois dessas horas, normalmente (já disse isso), só os marginais permanecem em paz. Mas nem sempre! Pois quando há batida policial, o que é até corriqueiro, a cobra fuma. Só que os policiais nunca conseguiram, realmente, subir o morro, que é feudo de Dragãozinho e Paulo da Maré. Mas hoje é dia especial. São Jorge é o pai de todos: safados e operários, bicheiros e traficantes, donas de casa e crianças.Todos de branco, acordados às seis da matina, fazem a revoada para Ogum - alvorada. O cheiro de pólvora disfarça os vapores fedorentos da baía de Guanabara. Os pardais, ironicamente, também, favelados fogem desesperados. É manhã, é dia do santo e os tambores, freneticamente, rebolam as pessoas: “...com sua lança nos defenderá, altivo guerreiro em seu corcel, o seu manto nos libertará, valente Ogum cavalga no céu!...” “eh! oh! eh! oh!”

A sociedade estava organizada em todas as suas representações. O poder econômico, o poder religioso, o poder legal, o poder ilegal: todos reverenciando o padroeiro. E o povo, é claro, a massa de manobra, os ingênuos produtores da riqueza.

Opa! Que eles não o saibam!

Mas hoje é dia especial: Dia de São Jorge - é o pai de todos!

II Meu padrinho Fileira para os batizados! Paulo da Maré é o padrinho de todos os nascidos em março, fora os de quebra, é claro! Mas se é de março, se nasceu e viveu ali, tem que ser batizado pelo bicheiro. É promessa que ele fez: ser padrinho de todos os aniversariantes do mês do seu protetor. Quando ocorre de algum nascer depois do dia do santo, é batizado no ano seguinte. E ano a ano aumenta a população dos jorginhos/ paulinhas na favela. Até dizem, que em junho, as festas juninas eram a época, em que mais se trepava na favela. Só para ver se o filho nascia em março, para ser afilhado do Paulo da Maré. Mas isso já era intriga e indiscreção dos inimigos com meu padrinho.

FRANCISCO IGREJA

(in memoriam - 1949/1992)

Autor de: Script; Procura-se um poema; Nascimento de Irene; Das sortes e do destino; coautor de 4 poetas modernos, livronline Postais de Irene, todos de poesia. Ensaísta publicou: A Semana Regionalista de 22. Em conto: Renascer de Jacinto. Publicou, também, o Dicionário de Poetas Contemporâneos. Idealizador e um dos fundadores da APPERJ. Criou os Cadernos de Poesia OFICINA.

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revista literária:

R E N O V A Ç Ã O

Como a Fênix, Reviveu das cinzas. Eu mergulhei Na vida, Revivendo com Muita felicidade Na primavera, Um amor vivido Outrora. Reiniciei com Um novo amor Que retornou do Universo da vida Para colher no jardim, As flores Com o perfume do amor! Para renovar Nossa união Na jornada da vida.

PLURAL

SEU CORPO Eu sou louco, louco por você! Ao deslizar a minha mão No seu corpo suavemente, Sinto vibrar meu coração! Ao passear no seu corpo,

vibração

Sinto uma enorme E meu corpo delira Ao sentir o seu calor. Assim amanheço todo dia Sentindo o seu corpo em mim Numa simbiose de amor!

PROCURANDO PALAVRAS Eu fico num canto, tocando meu violão, À procura de melodia, para fazer uma canção, Para você meu amor! Vêm palavras suaves na minha mente, Vêm palavras doces e quentes, Que eu procuro harmonizar Com a doçura do seu rosto, Que eu procuro descrever. Vou seguindo a melodia, Procurando captar palavras soltas no ar, e,

LUZ BRILHANTE

som do meu violão,

Continuo a dedilhar, no E vou compondo essa canção! Procuro palavras lindas Conforme é você meu amor! Eu me inspiro no sorriso Que você transmite para mim! Assim termino a canção Com grande alegria e emoção!

Wagner Fraguas

O sol que brilha no verde Reflete no seu olhar A me amar meu amor1 Digo com todo carinho, Esta luz brilhante no ar Iluminando sua alma, Que alegre fica A contemplar nosso amor! Este amor verdadeiro Embalando nossas vidas E traduzindo a alegria De vivermos juntos! A luz que reflete no verde Ilumina o seu olhar!

- Comendador, artista plástico e poeta, com participações em jornais e revistas literárias, nasceu no Rio de Janeiro e iniciou nas artes em 1950, sendo aluno dos professores Levino Fanseres, na Colmeia dos Pintores do Brasil onde depois lecionou e, Eurico Alves no Liceu de Artes e Ofícios. Fez várias exposições individuais e coletivas, no Brasil e internacionais em Porto Rico, Estados Unidos, Rep. Dominicana e Portugal. Possui vários prêmios de viagens,comendas, medalhas de ouro, prata e outras premiações. Curador de diversos salões de artes e jurado em outros. É membro de várias academias de letras, dentre elas, a ALAP (Acad. de Letras e Artes de Paranapuã), a APALA (Acad. Pan-Americana de Letras e Artes) e da ACLAL (Acad. de Ciências, Letras e Artes Lusófona), em Portugal, como membro fundador. Faz parte da diretoria da ABD (Associação Brasileira de Desenho e Artes Visuais) e do recém-criado Círculo de Literatura do Museu Conde de Linhares. Recebeu o título de Artilheiro da Cultura, do Circulo Literário do Forte de Copacabana. Participou do livro Les Poètes Brésiliens à Paris, na França.

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A

NAMORADOS

V

ER

SO

S

À

SE

D

U TO R

Manhã azul. Dois jovens namorados, calças arregaçadas na canela, vão descalços, alheios, abraçados; o olhar dele, encantado, preso ao dela.

Sim, é verdade. Não vou negar. Pelas belezas que me revela, há muito tempo que eu gosto dela. Não adianta, não vou mudar. Ela me seduz, me fascina! Eu a desejo desde menina. Dona do meu pensamento, ela me encanta, me domina, me envolve, empolga e ensina. Eu a procuro a todo momento. Entre absorta e consciente, vivo a buscá-la, constantemente.

Caminham pela praia, deslumbrados, não pela natureza pura e bela. Estão embevecidos, concentrados nas palavras de amor ditas a ela. E, ao ver este casal apaixonado, deixando marcas fundas, paralelas na areia fofa e úmida do chão, meu triste coração, desencantado, marcado por pisadas e sequelas, quer retornar ao tempo da ilusão.

O bêbado e a rosa

Não vou negar. É verdade, sim. A poesia vai me acompanhar até a morte, até o fim.

Quando a sua mão trêmula estendeu e ofertou-me uma rosa colorida, em Barbacena, um bêbado me deu a maior emoção da minha vida. Seu olhar suplicava um gesto meu, talvez uma moeda, uma comida. Alguém comigo estava e percebeu minha expressão alegre e comovida.

Poeta, sonho: ao som de violinos tangidos por anjos alados, casaremos na Torre Eiffel. Poeta, invento: no dorso de um pássaro, voaremos pela cidade, entre as folhagens, rumo ao céu.

Então, abri o meu melhor sorriso; agradeci-lhe e perguntei por que me dava aquela flor maravilhosa.

MAGIA

Vi que o ébrio perdera o seu juízo quando falou: “Eu gosto de você. Um anjo me mandou dar-lhe esta rosa.”

Poeta, crio: um sol de agosto, amarelo, imenso, na mágica e luminosa Paris. Chagall me a(s)cende!

Neide Barros Rêgo

Mineira de São Tomás de Aquino, reside em Niterói desde 1951. Dirige o Centro Cultural Maria Sabina, que fundou em 1961, onde leciona Arte de Dizer e realiza eventos líteromusicais. Poetisa e declamadora premiada, antologista, cantora lírica, esperantista com apresentações no Brasil e no exterior. Integra diversas academias de letras. É detentora do título “Intelectual do Ano 2010”, outorgado pelo Grupo Mônaco de Cultura.

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revista literária:

PLURAL

Não me causou surpresa a avassaladora marcha de protestos Brasil afora, antes uma sensação de alívio, um “até que enfim!”. Nem os ‘vândalos’ (sic) (?) - nem P2 algum (!) - conseguiram desestabilizar o movimento, a grandiosidade e a beleza da onda humana clamando por RESPEITO. Não mais entradas – ou saídas – por ‘ portas dos fundos’ (lembram Lula pós Maluf?) , não mais mensalões, cuecas recheadas de dinheiro, enriquecimentos ilícitos, Amarildos ou PECs e etc...Ao povo o que é do/para o povo! Quem (sobre)viver verá!

Márcia Leite

POESIA

CLICK SE LIGA

A VOZ DO POVO é ouvida quando o POVO fala alto e diz, claramente, o que quer. Unindo minha voz a todos os que desejam, seriamente, mudanças, eu exijo que as mordomias usufruídas por todos os políticos sejam paulatina e inexoravelmente extintas. Eu exijo que a FICHA LIMPA seja respeitada e todos os suspeitos de atividade criminal ou de corrupção sejam imediatamente afastados dos cargos públicos e não possam, JAMAIS, se candidatar a qualquer cargo político e/ou público.

Glenda Maier

Mozart Carvalho Não consigo entender por que há pessoas que, ainda, imaginam que estamos bem. Em um passado, não muito distante, jovens foram às ruas pedir as “diretas já”. Sonhavam com um Estado Democrático. O voto era importante para “Mudança”. Mudamos? Ouvia e me indignava quando, algumas pessoas, diziam que o brasileiro não sabia votar, ou que não estávamos preparados para exercermos a democracia em nosso país. Não soubemos escolher? Hoje, levamos “borrachadas” nas ruas. Manifestantes são sinônimos de baderneiros, arruaceiros e vândalos – lamento informar, mas é natural que movimentos de massa, às vezes, percam o controle. Nem tudo fica “arrumadinho” quando a massa se indigna. Esse governo que foi para as ruas contra a ditadura não é arrumadinho. É truculento, é cínico e defende com unhas e dentes “o poder”. Esse “poder” que os movimentaram a sair de suas casas em busca de um estado democrático. Muitos dos que compõem o governo jogavam bolinhas de gude para cavalos quebrarem as pernas e picharam muros com palavras de ordem. Hoje, querem e “exigem” ORDEM. Não soubemos fazer a diferença votando? A única coisa que posso garantir é que vamos tentar de novo mudar esse país. É que estamos nas ruas, novamente, pedindo decência, retidão, honestidade e comprometimento. Não queremos somente educação, saúde e moradia se não tivermos pessoas, nos representando decentemente, com essa envergadura. - 30 -


A palavra manifestação vem do latim manifestus, formada por manus (mão) e festus (agarrado, apanhado), significando pegar com a mão o que está no ambiente, o que está no ar. E o que vimos foram jovens com as mãos erguidas para tornar manifesto, para revelar, tornar público as insatisfações crescentes de toda uma sociedade. Uma explosão de mãos para gritar para as autoridades, sejam civis ou religiosas, o que já não mais suportamos. Adriana Bandeira

URBANA SÉRGIO GERÔNIMO uma reunião de braços e pernas, debatendo-se com ares de noite espantosa, fria de lua pálida, prateando timidamente caras e bocas, de olhos aguçados felinos, onde estariam eles? a matilha, os esforços que não contrariam vontades, as juras dos não juramentados em parlamento (brincadeiras de consultorias à parte...), mas onde? as consequências banalizadas pelo desgoverno, central de doenças perpétuas, inconsequências de atitudes do tipo: eu não sabia... não vejo nenhum problema administrativo... não há conflitos de interesse... há milícias malícias maledicências, conchavos conluios confiscos, quero arder desobediências, civil / covil, militar, espiritual, em armadilhas de cartões-postais, onde tudo é arrumadinho, sempre, vou aplaudir a minha pobreza, sozinho só social urbanamente, é meio assim estranho. - 31 -

Não acredito nesta história de que agora o gigante acordou. Estivemos sempre acordados, atentos e indignados. Agora o que acontece é que finalmente entendemos a força do coletivo, o coro absoluto das vozes unidas. Somos uma república criança de 124 anos. Estamos aprendendo a gritar nossa vontade, nossos desejos e nossas esperanças! Ana Carolina Coelho

A volta pelo bairro inteiro era demorada, quem ficava nos balcões, varandas, janelas, é que estava esperando “a banda passar”. E comentavam: essa banda está demorando demais! Depois, outros diziam: será que houve barulho? Violência, desordem insuportável, intervenção policial, não havia, nunca ninguém precisou de polícia. Juju Campbell


revista literária:

PLURAL

Trânsito Livre (para Itamar Silva) não apenas a balança Filizola nem o rádio de pilha prateado no balcão de cimento cor-de-rosa recendendo a álcool e vozes de outros pátios

Haverá chance do porvir sem achincalhes? Retiraremos máscaras e antolhos? Quem desacionará a chave-mestra da engrenagem? Quem comandará o cessar-fogo?

nem tampouco o mostruário vário no varejo volúvel e indeciso de fumo, brincos, drágeas, calendários entre garrafas e caixotes reunidos

A que sorte, remate ou desfecho Será lançado tal funesto enredo?

B I junto a vassouras piaçava e dorsos de franguinho a quilo R O certo olhar também exala e reclama S um quê de esperança C um sorriso A

No asfalto e no morro – extravagante esteio – Só transitam livremente: risco e medo.

esse meu jeito torto de olhar vem do costume que não larga de me defender, de desconfiar sou curta e grossa no dizer mas nunca desaprendi de todo do jeito macio de gentil querer

FAVELA II no fundo do barraco desbotado na cama preparada de caixote o magro corpo aguarda sua sorte

em quantas emboscadas me meti? em que guerras, em que pântanos? em que breu fiz brotar o lume? em que peito fiz cravar a dor?

o deixa-estar do semblante desolado flutua como argamassa cozida ao ponto pela vida artesã que assenta o molde

antigos sinos ainda soam lentos neste piscar de olhos costumeiro e aquecem sedas pérolas, fazem assento no ouro verde deste meu terreno

sua alma promete vagar onipresente enquanto seu pulsar se fizer sentir no mundo sem grande estardalhaço e sem fricote

tantos tiros escutei noites adentro tanto tive que inventar para aliviar a fome quanto choro disfarçado suportei só para criar com orgulho o meu nome minha idade já provou sombras de cajueiros incontáveis histórias de mãe-preta, escuros medos minha honra já pede o cultivar de rosas dos jardins suaves do mais íntimo degredo

Íntimo degredo (para Geralda)

Vera Versiani – ofício: Poesia, Música, Matemática, Fotografia. Há dez anos coordenadora, regente e arranjadora do Grupo cênico-musical Eco do Santa Marta. Publicou: Alma Favela; Nada Para Humanos; Solilóquios, Quiasmas e Epigramas; e os Aforismos Implicantes I, II, III e IV.

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modus perversus não é sempre que penso bondades ainda não recebi as asas prometidas nem comecei o caminho das santinhas até meu pai, homem digno de doer teve lá seus pecadilhos de intolerância confesso que às vezes penso maldadezinhas e não me penitencio por isso.

faroleiro

O que quer essa alma que canta versos com cheiro de mares, campos de trigo e mostarda? De onde ela veio assim reencarnada em marulho de sonhos? O que quer essa alma no corpo de um homem que me faz rir como um marinheiro, faroleiro das minhas águas?

a morte do poema a escuridão vence as estrelas escondendo os personagens da janela mágica o corpo do poeta é pés descalços sobre cerâmica fria seu olhar anseia vento vivo que desfaça céu de nuvens

obisidiana a distância entre o conhecimento e o talento é um vão imenso uma cratera enevoada cercada por lâminas de pedras que afiam facas

a poesia aceita o diadema que a mansidão lhe oferece e o adorno de vidro aprisiona a rebeldia nos cabelos os vizinhos dormem seus dias telhados permanecem além e áridos só o cálice vazio sobre a mesa acompanha a morte do poema

o segredo do trespasse é revelado aos pouquinhos e compreendido apenas pelos que não praticam a suficiência e os simples de caminho.

a extensão daquela inação ultrapassa o cume dos montes aves noturnas gritam em suas asas o mistério na noite é rito de passagem.

homens floridos nada impede alguns homens de florescer por dentro se tempos de dores, os brotos apenas se recolhem até a próxima e inevitável floração mesmo que estas flores não sejam visíveis a olhos apressados ou descrentes o importante é que o aroma das almas floridas espalhe seus óleos pela vizinhança. Márcia Leite, carioca, poeta, contista e cronista, diretora da APPERJ, membro do PEN Clube do Brasil. Editou, durante 7 anos o boletim literário Deleites da APPERJ. Publicou: Curtos & Definitivos, Oficina Editores – RJ, 2000; Versos Descarados, Oficina Editores – RJ, 2007 ; aos pés da montanha, Oficina Editores – RJ, 2008 e Lua Atravessada, Oficina Editores – RJ, 2013. Coordenadora do evento poético: TODAS ELAS E ALGUNS DELES, RJ.

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revista literária:

PLURAL

A BUSCA Nas margens do Rio Paraná Encontrou seu refúgio. Histórias e lendas Se confundiam no fundo do rio, sugando sonhos ...fantasias. Solitária enfim, afogava-se em lágrimas, sonhando com a Paz, e a Harmonia !

SAUDADE BEBEU MORANGOS E PITANGAS PARA PINTAR A ALMA, ROXA DE SAUDADE. DIFICIL RESPIRAR... ENTRE VÊNUS E MARTE O SEU CORAÇAO PALPITAVA. EM RUAS ESTREITAS, AVENIDAS LARGAS, LÁGRIMAS DE DOR, NAO A DEIXAVAM. TECEU O NOME DELE, EM SEU TRAVESSEIRO, CARINHO EM DELÍRIO. PROCUROU O FRESCOR, NO UNIVERSO DA POESIA NELA DORMIA SUA SOLIDÃO. PROCUROU RIMAS, BOTÕES DE ROSA NELAS A BELEZA EM DÓ MENOR.. NÃO MAIS OUVIA VIOLINOS NEM O CANTAR DO ROXINOL APENAS, DOR E A VISÃO DO SEU AMOR

Seguindo pela encosta do rio, um novo caminho : Verde, de beleza intocável. Terra fértil, num Mundo Encantado ! Às margens do Rio Paraná reencontrou sua alegria para viver um grande amor que, naquele instante, do nada... surgia! JO

RO

E MA SIST DA L I A MI PER LA V E E D U R Y SCE O Q J O GO AMO ORE S R EL FUE , EL ...FL IGO ES NTO LIZA O AM CA RTE AND ES ANO , FE LOR AD UM D H I R VA LIC OR SE L FE CA VAN MI EL E JE O DE QU ROJ EL

SOBREVIVE POR LAS MANHANAS LA LHUVIA , ME PONE A BAILAR MAJESTAD EL SOL CON SU MAGNANIMIDAD NOS REGALA MAGNOLIAS IRRESISTIBLE BELDADES INFINITA ALEGRIA DE VIVIR ES EL FUEGO QUE SOBREVIVE EN NUESTRO SER

O PENSAMENTO É UM VULCÃO INATIVO EM ERUPÇÃO IDEIAS VOAM À DISTÂNCIA LANÇAM LAVAS NASCEM POEMAS

Rachel Levkovits

Participou da Antologia de Poetas Brasileiros, dos Cadernos de Poesia OFICINA 29 e 30 e do Perfil 2000 a 2010/11 e na Revista Literária Plural. Diretora de Divulgação da Casa do Compositor Musical (CCM) e Diretora da APPERJ. Coordenou o Encontro de Poetas e Escritores em Rosario e San Lorenzo/Argentina, em novembro de 2012, representando a APPERJ. Recebeu o Prêmio Luso Brasileiro Melhores Poetas de 2013.

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Ponto de Cruz

Opostos

choro a erosão do tempo traçado em ravinas

ao sol dos nossos olhos claras diferenças: água-fogo, alma-corpo sal-doce, sério-louco deitemos as facas e juntemos os gostos à luz dos opostos quero deste amor sonho maior que pesadelo como se pudéssemos na impossibilidade do ato enxugar uma simples pedra de gelo

sei do que é deserto: o caminho do homem a vida é trama dedicada à seca entrelaçam-se desmandos desenganos desenredos

Fosse a Faca, Fosse o Fogo Fosse a faca com seu brilho de prata a imagem que se espalha pelo espelho, mas o que se vê, rebrilha vermelho, olho d´água de pranto: sangria vasta.

no horizonte de esperas o sertão bordado de mandacarus

Fosse o leito do rio língua de fogo a lamber feridas, salvar derrames, mas o que se sente, já tarde e exangue, é flagelo da carne, exposta em tocos.

escrevo meu rumo no ponto de cruz

Escolha

Fosse um só curso sem corte de lâmina ou desnível de vida – lume flúveo, mas o que se vinga na luta em fluxo ruma em desonra, desordem e infâmia.

vida e morte (farinhas do mesmo saco) pratos que o destino dá

Fosse a força vã de dois afluentes o encontro de paz entre duas famílias, mas o que se banha do abraço líquido corre turva como almas turbulentas.

bem e mal (brilhos de um mesmo olhar) alvos que o homem escolhe

In Faca de Ponta, Fogo de Palha (Oficina Editores, 2012)

JORGE VENTURA Poeta, ator, jornalista e publicitário. Diretor de Comunicação Social da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Rio de Janeiro) e do SEERJ (Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro), Cônsul Poetas Del Mundo (região Recreio dos Bandeirantes/RJ), Membro da SBPA (Sociedade Brasileira dos Poetas Aldravianistas) e Membro da IWA (Associação Internacional de Escritores e Artistas). Publicou: Turbilhão de Símbolos (Imprimatur, 2000), Surreal Semelhante (Imprimatur, 2003), Sock! Pow! Crash! – 40 anos da série Batman da TV (Estudo Jornalístico | Opera Graphica, 2006) e Faca de Ponta, Fogo de Palha (Oficina Editores, 2012).

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revista literária:

PLURAL

A

VR LA

IMPORTANTE

O EXÍLIO A PA OD I L XÍ ou E om O

Distraio meu pensamento brinco troco ideias foco que a gente se engana

t vra a l a A p io o f faca da da a afi

em

Qu

ista ta uis o é v Desta forma mantenho distância q al ouc m a das ideias fixas p é it e lia s tão o é d t í r do domínio do medo o fam igo nã on er das dúvidas infundadas em re am dade s a e ent soci ou ra s s adu pa s t em i o Pensamento ci ad do ad ilên eveni s t livre s n O pr rela s co DILEMA r s tocado pelo afeto o a o p do tag elos ada fortalecido pelos embates os caut l i d ex Difícil negociar s i o d fo com o sentimento vra o a Permanece resguardado l a de nid com a emoção sa i A p medo exida defi c da depressão pre com o intimo em tumulto do erpl ho in a r do comodismo p n av ns da cami pal me o da vontade de desistir a s do sH do O sentimento sõe o o s u a e m ad c o ntr Instantâneo ste um dis ae j De retom vo r a de a h t Irredutível o ue Quem somos? ser ar n pau q a a forte ar tom rar n p a ent nci Quem somos? ê g ur ento r e m uma pessoa iz Co endim Entrelaça-se com a emoção ad r t um rótulo a en to op domina ã e ç uma personagem f a tiva controla a situação mo nega a palavra Fruto das convenções do mundo É quando não há do estabelecido desculpas das forças do poder compreensão acordo Que denominam o homem velho O entendimento pede negro tempo pobre vivência vontade de abrir janelas Jogando-os em guetos PARA ENXERGAR A IMPORTÂNCIA DE NOVAS PAISAGENS em espaços isolados em grupos fechados

os?

som

HELOISA

Negando-lhes a visão de totalidade do mundo do belo IGREJA, nasceu Carioca, sua primeira veste foi à curioda liberdade

sidade pela vida, depois a inquietação do mundo. Em busca de entendimento dedicou-se aos estudos de Pedagogia, Português e Literatura e Filosofia. Hoje, entregue à Poesia, acredita que encontrou um rico manancial de compreensão e paz.

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Afinal, quem somos? uma pessoa um rótulo ou uma personagem


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Beatriz Escorcio Chacon

-um poema que samba-

Dona Doce Ivone Lara Rainha da Ginga e d'Harmonia da corda negra faz rendas nos enredos dessa vida. Alto-relevo algodoada trama de seda sianinha essa mulata rendada estende seu pano da costa sobre o samba carioca.

O samba de agora é só paetê mas o samba dessa Dona laraiá laraiá é o Poema do Alvorecer.

Dona Doce Ivone do Samba reborda o jongo um lamento de candeeiro reza forte de madrinha lua estampada no terreiro. Laraiá rendado na saia de roda dessa Rainha! Madureira Minas Angola Salvador Vaz Lobo Serrinha.

O samba de agora é só desfile mas o samba dessa Dona laraiá laraiá é breve no seio é Poesia.

Laraiá rendado na saia de roda ô salve, Rainha! Cascadura Irajá Cavaquinho Esperança na Face dessa Menina.

- também vai com repeniques para Eurídice, Sérgio Gerônimo e à Família Imperial Suburbana

é carioca da Piedade, vive em Itaipu, Niterói, onde começou a mostrar poemas pra colocar na parede, com desenhos de Miguel Coelho, em 1987. Jornalista pela UFF, é autora dos livros de poemas ‘Mesa Posta’ e ‘Veios do Corpo’, e do infantil ‘Surpresa de Quintal’. Aposentada, avó, aparentemente dona vadia de casa, faz performances poéticas, eventos de arte, prepara novo livro – uma novela de vozes femininas. Participa da Associação Niteroiense de Escritores e APPERJ. Entre as Coletâneas – Prêmios, Crítica, Participação: ‘I Concurso Jornal Balcão de Poesias’, Rio, 1988. ‘Saciedade dos Poetas Vivos’. Ed. Blocos, Rio, 1991 e 1995. ‘Prêmio Stanislaw Ponte Preta’, Crônica, Rioarte, 1992 e 1994. ‘Além do Cânone-Vozes Femininas Cariocas Estreantes na Poesia dos Anos 90’, org. Helena Parente Cunha, Ed. Tempo Brasileiro, 2004. ‘Contos do Rio’, Prosa e Verso de o Globo, Ed. Bom Texto, 2005. ‘Poesia Sempre’, nº 24, cap. Poesia Inédita, Fundação Biblioteca Nacional, Rio, 2007.

Mulata Rendada


revista literária:

PLURAL

ATRAÇÃO COMO SENÃO

MERGULHA DORES

Vi como se não visse como se não quisesse, guardei como se pudesse, esperei.

Inúmeros barcos fundeados, naquela aldeia de mergulhadores, dançam com a mesmas águas que levam prendas e flores. Geração após geração a mergulhar. Vão se repetindo as mesmas dores: Avó chorou, que avô ficou no mar. Pai disse adeus num barco de cores. Mãe chamou o filho e o embarcou. Sustento da família, a ele cabia. Obediente, ele foi. Doente voltou. A mãe rezando pra Virgem Maria. Naquela aldeia, os pescadores ainda mergulham sem proteção. Viram peixes, viram lenda. Voltam incapazes, pela descompressão. Águas levam oferendas. Homens continuam a mergulhar. Vivem como pescado na rede. E, morrem sem tempo de amar.

Vi aquele olhar disfarce como se não olhasse mas olhava, eu sei. Várias vezes, como se não como se nada fosse tão especiais olhares. É como senão. É como senão. Como se fosse como se pudesse... Como? Eis a questão.

CONVERSA FIADA

SER TÃO DESGRAÇA E RIQUEZA

Olho de seca osso de fora come lama seca caga pedra preta o boi da sede agoniza o boi agoniza tudo do verde que foi. Seca a lágrima que não corre silencioso e seco o córrego. Seca a alma no preço da água e jardim de esqueletos nem córrego nem lágrima. Sertanejo peleja mas a sede continua a ser tão desgraça continua a ser tão riqueza. A senda, a senha: Ser Tao.

O fuso e o fio o fio do luar o fio de Ariadne a novelar. Teseu como tantos não agradeceu. O fio da vida anos a fio a fiar.

PA

RA

Um lugar, onde estrelas mais perto onde noite brinque de surpresa silêncio quebrado em ondas de desejo.

S

Um lugar entre céu e terra talvez, pedra que resiste na praia úmida de afagos e beijos do mar nua livre de preconceitos para amar. Um lugar, onde brisa e corpos onde água e sal, amor e prazer. Bocas lascivas, atípico verão céu para nós, em 3ª dimensão.

Celi Luz é carioca. Poeta, ficcionista, professora de Língua Portuguesa da Rede Municipal/RJ, onde

foi Destaque Poesia - 2005. Publicação em antologias, jornais e sites; livros: O Sol da Palavra - Ed. Ibis Libris, 2009; Senhorita Eme (infantil) - Oficina, 2012. Premiada em prosa e poesia, homenageada em escolas, e na Casa de Cultura Elbe de Holanda. Prêmio Lions Cultura - 2009. Membro da APPERJ, da UBE/RJ, e Poetas del Mundo. - 38 -


LIVROS & JORNAIS

Caneco chinês decorado de um anil suave – que beleza! comporta com leveza, meu café. Leio Manuel Quintão rebuscado num prefácio de livro onde versejam o céu dourado, descrevendo um outro lado quais poetas do Parnaso.

Quero amigos – flores na estrada – que me façam sentir que sou amada e me ajudem o mundo compreender. Que me deem remédio que preciso aconchego de palavras cariciantes, ensinem-me também a envelhecer.

Horas felizes essas minhas, minutos de rica solidão encaminham-me para a luz do conhecer, minha paixão. Tempo que haveria de ter mais porém meu mundo sem escolha impõe-me revistas e jornais.

Amigos que me tirem algum riso envolvam-me trazendo o paraíso do calor humano de um ser.

Lá na minha estante dezenas de volumes me observam provocantes, contendo bem fechada luz inebriante.

Proferir palavras de afeto manter o carinho necessário descer com eles do calvário sustentá-los se um mal lhes suceder.

Quero ser amiga dos amigos, secar alguma lágrima, se preciso, dar a mão a quem esmorecer.

Quero amigos que alegrem meu viver que escutem por vezes os meus ais mesmo que em mensagens virtuais.

Às prateleiras de vidro horas quebradas, não me sobram mais. Repenso minha vida enfrento minha jornada e não escolho quais.

– Aí está você !

AMIGOS VIRTUAIS

Anna Salles

– de mundo tão cheio que às vezes deseja desertar. Ama seu computador; o tempo para ela é quase dor – se lhe falta pra fazer o que ela quer. Apperjiana, pertence ao Sindicato dos Escritores do Estado do RJ, à Sociedade de Cultura Latina de Sta. Catarina, e gosta de correr atrás de rimas. É de Cantagalo/RJ e cursou Direito na Universidade do Estado do RJ. Aposentada nas horas vagas! - 39 -


revista literária:

PLURAL

Joelma Arde Hóspedes de faces descoradas alarmados com fumaça, tão perto da catástrofe de verdade. Joelma Arde Um clarão de labaredas alcança o edifício, agora simples papel em chamas. Gritos, gritos confusos, não se sabe de onde vêm. Jo elma Chagas de Jó ressuscitadas. Corpos pretos despencam das janelas; braços erguidos em vão, impossibilitados de aparar os que se atiram ao chão. Por todo lado, uma centelha que não se deixa abafar dá canseira aos bombeiros, e proclama, do alto de sua majestade: - Crio e dou fim, quando me aprouver. De manhã, a indesejada celebridade dos jornais, que estampam o horror e o desespero como retratos banais. De que foram vítimas? De estar naquele lugar na hora desazada? Mas a sorte, que deu-lhes a morte, Morte terrível, bárbara, O que pensa um passarinho? É quem regula nossas vidas; Nada do futuro nos antecipa Para podermos nos resguardar, E, vamos assim, Como bêbados numa estrada, Sem saber que direção pegar.

Ave

Será que ele só tem olhos para o ninho? Será que se sente sozinho? Às vezes sob a chuva, às vezes sob o sol, Será que pia contente espreitando de repente um canto do firmamento? Ah! Se pudesse voar e ficar ao seu lado num galho empoleirada, Pensando em nada, Só sentindo o frescor do vento na minha asa.

Contrariada O mesmo banco, A mesma praça, As mesmas flores, O mesmo jardim, Precoce Tudo é tão lindo, Mas estou triste, Porque não tenho um balanço só pra mim.

Menina... Mas outra, da mesma idade, Precisa de reforço. Arranca o casulo grosseiro de criança, E veste a roupa mais fina de moça, E lhe ensina a lição, Sem presunção, Com firme vocação.

Helena Amaral é poeta, tradutora de francês, traduziu as Flores do Mal, de Baudelaire. Deu

palestra na Maison de France com o título: “ Baudelaire: interpretando as Flores do Mal.” Organizou e publicou o livro Poesias que não morrem (seleta de poetas franceses), Oficina, 2013. - 40 -


Rolam as pedras, rolamos nós As pedras rolam e rolam... Nós rolamos também... Se as pedras sempre se encontram, nós nos encontraremos também. Sonho Será que esta regra é para todos ou será que não. Como saber? Esta terra é Nua Pergunte a você mesmo, todos Este vento é Frio devem me dizer, para me ajudar, Este sonho é Forte mas eu me pergunto, pergunto e não consigo a mim responder Uma flor nasce Que agonia! Que desespero! e me encanta Como vou então fazer? O vento sopra Ah! Vá para a escola da vida, e me espanta lá você vai com certeza aprender, tudo leva a Escola da Vida é boa, tudo levanta todos nela aprendem, de verdade, as verdades, A Terra imensa todas sim. que se estende Se ficar se escondendo, Será que neste Mundo você vai desaparecer. alguém Corra! me entende? Vale a pena tentar a luta para o bem-viver. Na verdade, só o Sonho aqui me prende.

Faz parte da vida

Liberdade cheia de graça

Liberdade cheia de graça, com muita graça nos convida, sempre, para o bom da vida intensamente aproveitar, viver, sorrir, cantar, correr, dançar, pular e mil cambalhotas dar; em nuvens brancas e fofas, uma carona pegar e belos lugares conhecer. A colorida esperança está no ar; faz-nos sonhar, brincar, voar, amar... Liberdade que te quero livre, sempre belos sonhos realizar. Livre sempre, pode ser não deixar ninguém nos amarrar. Livre somos e sempre seremos, sem amarras, corrente ou barras. Pegar a felicidade com garra cheia de graça e enorme coragem. Não permitir que qualquer pessoa nos torne prisioneiros. Com uma enorme força, das correntes libertar-nos e para longe irmos, até a alegria encontrarmos e feliz sorrirmos.

Faz parte da vida Um dia de sol e Outro chover Faz parte da vida Um dia de amor Outro dia estar só Faz parte da vida Sorrir e Chorar Faz parte da vida Tristeza e Alegria Faz parte da vida Um dia te ver E outro dormir Faz parte da vida Sentir a paz um dia Outro sentir agonia Faz parte da vida Saudades sentir, chorar doído No outro se conformar Faz parte da vida Um dia subir No outro descer Faz parte da vida A juventude e o Amadurecer Faz parte da vida um dia ganhar no outro perder

Nicolina Calabrese - professora de língua portuguesa e literaturas (brasileira e portuguesa), pedagoga, especialista em educação, administração e supervisão escolar. Participou em várias atividades na Academia Brasileira de Letras, no Real Gabinete Português de Leitura/RJ; em congressos de Língua e Literatura/UFRJ.Tem trabalhos relevantes com a Secretaria Municipal de Educação/RJ, durante mais de 30 anos. Foi Diretora de escola. É membro da UCAI - Brasil, por ter participado da Primeira Antologia da União Católica de Artistas Italianos, editada no Brasil. É membro do Centro de Literatura do Forte de Copacabana/RJ, participando de suas reuniões, eventos e publicações. Publicou nas antologias: Forte de Copacabana; Palavras no 3º Milênio (internacional-editora Phoenix) e da AJEB. - 41 -


PLURAL

revista literária: Dep ois v Abe i ma r jane tas, fech is janela l s. Ta Não as cláss adas ntas i c a . a s s (d Janela 5º andar havi Talv ois b a co ez o a n t seja e t que ado ntes m ). do p olhare chamo . jane s, vo átio la da é gua da igrej yeurs d s a a s Con Ro se tá-la angrand , do pot chuva sto n O p A r a s o o c m ou n ra ão um que . har nela ja u a a , m o ã m u d lt o ver o q s nu ro é um O que é rosto para o a o. um eus olh ? Conta ue ven sto t a m n u e os, a cava ou é r-m aov sa o r n a se não a s, p para jane p c , e s b o l e n e o e u u . r v g l u e i m s n v h los o a la Jane lhar ar ara páss oand para as Ro o que o o s o o o l c a d a e u c r o s m o? sto orp nti gue ven lto e o q se ol Rosto ando. nu A h e to lh o o e u a s a . v u e n e ed do estã (out contin tud (enqu ulso, treito a olh cansa . o de par a o it d e r r t s a à e e an o o an on d gra Rosto rua falt as jama janela sua fre qu to a de a e par do. onde a , as hor dil is se eoh nte e n e Avulso, nquanto anda) , de de t esc da) rua de. R aixo (e anto afastam orizont or fre osto ou ,a fa e para b o corpo r r e o o c ) s n e c l hare ue Tan te. frio que ont re pa s hor lta tudo o q à janela m, s tos Ros de m n rári ra b as, uspe . io , (n to d me ela o à aix contrár debruça ranco e i . s t o t la a s e o m. n ão e fu smi se d jan o eb rp ou quem de mesmice, d e fundos, supe c o nfr ndo ce, d ebru ela io od Rosto fr de frente. Rost ão janelas on s, s e br ça. qu tam up )s il, a em de grad ão confrontam ) sã erpo nco n a ( q , s c o t ena uan o ja sto Tan abertas são do a nela . as. in t r quando o c s a s b o as ã s cena cor ertas quem a tin as. Janela 1º andar

Janela 2º andar

Janelas

“O mesmo acontece com as estátuas sem braços de Rodin – nada falta de importante.” Raine Maria Rilke

Vitrina 3

“Dizes: - Sortilégio como se jogasses uma pedra na janela ou da janela.” Fernando Ferreira de Loanda

Vitrina 1

Sou este corpo atrás dos vidros. Não voo. Ando de rua a outra preso ao olhar desejoso de minhas roupas. Se torno invisível não me esqueço sou quem cede o corpo ao febril de querer sempre as roupas. Contudo sou calmo tesoura ou linha não me perpassam; meus olhos, ainda que brancos, olham.

Sou branco. Será vazia minha solidez?! ou a roupa que veste, tira, parece forçada peça modelada diante do olhar - espelho que não esquece. E eu, quem sou?! entalhe?! suporte?! Ponham-me roupas, aparências, cor e sigo branco. O volume dentro é que me salva.

Alcina Morais

Natural de Minas Gerais. Carioca há mais de 30 anos. Publicou livro de poesia intitulado Olho d’água (Oeil d’eau), na França, edição bilíngue português/francês – Yveline Editions, lançado no Salon du Livre, em Paris (março/2011). Entre mais de 300 títulos diferentes, este livro foi escolhido pela Academia de Letras de Goiás – ALG, em setembro/2011, como um dos 5 melhores livros de poesia. Publicou poemas traduzidos para o espanhol nas seguintes revistas mexicanas: Tierra Adentro, Casa del Tiempo e Blanco o Movil. É membro da UBE/RJ, APPERJ, ARTPOP/Cabo Frio (acadêmica correspondente) e ALAV – Academia de Letras e Artes de Valparaiso – Chile. - 42 -


Luzes do Asfalto

O Rio e Eu

Filos Vem do alto o sol nascente descortinando o asfalto. Lá no céu, o tempo mostra muitas cores, luzes sombras... E na rota, o andarilho já apalma todo o chão. Os olhos presos ao chão não enxergam a nascente. Segue trilhas, andarilho, na tristeza do asfalto, e na face brotam sombras quando as chagas ficam à mostra. Mas a dor também se mostra, na sangria desse chão. Vira esquinas, entre sombras que envenenam a nascente... E o chicote do asfalto a açoitar o andarilho. Desce a noite no andarilho... Viva alma não se mostra. Só, retira do asfalto cada pedra do seu chão. Vê a morte na nascente quando a luz já chega em sombras. Todo dia são as sombras que acordam o andarilho, com a foice na nascente e a tristeza que se mostra... Pés descalços sangram o chão quando ralam no asfalto... Não há brechas no asfalto, ele é pleno de sombras. Sobrevida vira chão quando vira andarilho. Ninguém o vê, mas se mostra... Suando o pão ao sol nascente. Cata a dor, pobre andarilho! Vive em sombras sua nascente que enterramos no asfalto.

Muitos metros caminhei. tenho mais a caminhar... Alguns mundos visitei, de passagem, eu fui lá. Mas um dia, que surpresa! Firmamento me acenou. - Ser estrela...Ah, quem me dera! Mas “Não Posso, não” me afastou. Logo, Tempo me levou para o meio da questão. Sob o céu, intenso, Chão convidou o meu Coração. - Sem vestígios da Aurora? Puxou-me o velho “Não posso, não.”

Acolhida por um freixo Com a mente a flutuar Vi que a rocha sobre o rio Faz o seu curso mudar. Sem ter forças que o levem Novamente à nascente, Deita ao leito a própria alma, Reerguendo muita gente Em seu seio, tantas vidas E também escuro lodo Espelhando a própria sorte, Não se revela ao todo Na ribeira, aplaca sedes Para o deleite das flores Larga, em quedas, desencantos Transmutando as próprias dores. Mas o dia se escondeu Quando a lua em mim entrou. Já não sou mais como antes, Nesse rio que passou.

Noite

A noite veio muda... E infiltrou-se pelos cantos... Foi fechando toda trilha que aos sonhos conduzia. Espalhou uma densa bruma... Escondeu todo encanto... E secando a esperança, era pranto que colhia. E a noite chegou plena... Tão ciente de seu breu... Sem dar margens para a lua lá no céu aparecer, Fez seus raios encolherem quando a aura escureceu, E matou a poesia que brigava pra viver. E a noite foi tirana... Não deu brechas pras estrelas. Comandando um vento frio, apagou a luz das velas. Dominando a escuridão, exilou pontos de luz. E a noite veio em ondas... E até hoje nos conduz... Quando cai, nos prende e arrasta... Leva-nos às profundezas... Abre em chagas nosso peito, onde brotam as tristezas.

Luzia Magalhães Cardoso - Assistente Social e professora universitária. Artigos científicos

em coautoria publicados na Revista Serviço Social e Sociedade nº 102/ SP, Cortez, 2010 e na Polêm!ca Revista Eletrônica, vol. 9, no 1 (2010). Ebook publicado pela livraria Freitas Bastos "Engajou-me a Poesia" - www.freitasbastos.com/engajou-me-a-poesia.html . Alguns de seus poemas, contos e crônicas foram publicados pela CBJE em 2010 e 2011, e em coletâneas em livros eletrônicos, pela CBJE/Br Letras - www. camarabrasileira.com/livroseletronicos.htm . Poema selecionado na coletânea da Universidade de São João Del Rei/MG, em 2011. Blogs: http://evivendoquesevive.blogspot.com , http://contosecronicasporluzia.blogspot.com e http://www.youtube.com/user/luziamaga - 43 -


revista literária:

CONTÁGIO

O FINAL Vamos deixar que o tempo passe e, que amasse, nossa vontade de viver e de ser o que não somos. Vamos ficar exatamente onde estamos, pois o caminho da esperança, sempre é longe demais e... cansa! Indiferentes e ausentes, jamais perderemos o que nunca encontramos!

PLURAL

Não tirem meus sonhos, minha ilusão , minha esperança! O sangue que corre em minhas veias é um velho palhaço que ainda pula e dança! Ah! Coração saltitante de paixão! Veja como é linda a vida! Deixem-me compartilhar da inocencia das crianças, e contagiar-me dessa fragilidade que tudo pode, que tudo quer e tudo alcança! LIXO

Do pó viemos, ao pó voltaremos...

Talvez sejamos apenas lixo do universo em constante reciclagem e cada nova vida uma nova embalagem... Talvez a morte seja pura sorte e novas oprtunidades de felicidade... Há tanta coisa no mundo, que vale nada, e, nós, vermezinhos arrogantes, criamos fantasias e contos de fadas nessa ciranda inexplicável e tonta. Talvez até a verdade seja"faz de conta"... A raça humana existe e persiste entre a genialidade e a loucura onde Deus é o criador! Nós somos apenas criaturas...

NOITES DE OUTUBRO Nas noites amenas de outubro, quando a chuva mansamente cai, parece-me que em cada gota despedaça-se um triste ai... Quieta, ouvindo a canção que a ,chuva canta sobre o telhado , recosto-me ao travesseiro e relembro sonhos do passado. Faz tanto tempo, anos, talvez, nem sei... Tanto tempo que ninguém mais crê que, ainda hoje, nas noites de chuva, sinto saudades e penso em você!

DIRCE RAMOS DE LIMA

É pedagoga. Escreve poemas, crônicas, contos e minicontos. Nascida em Pirajú/SP de onde saiu ainda criança. Atualmente tem duplo domicílio: Piracicaba (SP) e Rio de Janeiro (RJ). Pertence ao Clube dos Escritores Piracicaba e interage com diversos outros setores culturais literários, blogs, imprensa, saraus, etc.

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Meu pai criança

Deixe-me sentir a terra sob os pés e reter este sol em minha face e escutar onde águas infinitas se debruçam em teu seio sem combate.

Tens a dor deste milênio, tens o sorriso da flor, tens minha esperança partida, tens eterno o meu amor.

Deixe-me sonhar meu contentamento e encontrar a paz de estar contigo e esquecer onde vale o esquecimento... e estar a espera... E estás comigo!

E a cisma que ultrapassa -- já no seu último instante! – tem no bojo a minha graça... Mas já te via distante!...

Deixe-me no infinito de meu sentimento: -- sem rumores surdos de quem combateu, sem ausências suas... sem ressentimento, sem ausências minhas... sem perder-me seu! Deixe-me cobrir-me de esperança -- cristalina como a aurora dum estio -num momento terno da sua criança... E meu coração chora o que já sentiu!...

Vai meu pai!... É tua a hora de rever os sonhos teus! Vai seguindo -- vai agora! -os longos passos de Deus.

Deixe-me...

Deixe-me beber meu arrependimento e sorver o que aurora me revelaria e ao sentir-te triste, em meu lamento, ver suas lágrimas... E eu saberia!

Vai depressa, sem descanso, que tua hora já chegou, ela veio no atropelo da aurora deste amor.

Deixe-me verter lágrimas minhas e quem sabe ao sorrir-me a luz do dia você possas encontrar a paz, que tinha, no arco-íris que se formaria!... Em e o todo nas nde a luga a h ce, d divi r – e m arm a v na on irtud mão belís ia q e, s Eé a ue às c s de imas – o em n s c a v en aid ten enho enas! que nde oite u, ade as – a cal crim lua de be des à am l s e den vid s da estr ezas ho s t a e ã u... s q ma las Ea oe u i e s s d suss xtr – a toda u e equ ra u m e a gora flor er s pe rrou as! nin tod mo da m nas – gué o f rta, m rut se ais b que e no c o c a e la tou res des p o o c r o o rom ns esi ... u a na mem nram t pid ran ign a o d gid orâ a hu paz o j a! – nci man da uíz ad i h o e s dade arm eu o Par decaí nia d aís o! a

Crimes no Paraíso

É na escalada segura onde vive a oração!... Se é no amor tua procura tens no amor meu coração!...

Sonhei contigo...

Vai querido!... Pai criança! Vai sonhando tua infância nos verdes campos de Deus pois quem dera eu soubesse aonde ficam os meus!...

Sonhei contigo à luz da eterna lua e no sonho, como mágica, havia suave claridade... e transparecia teu corpo onde a curva se acentua!... E toquei em ti coberta e nua... e teu corpo, encoberto, eu queria!... e sobre ti meu corpo seduzia teu desejo mudo, numa curva tua! E na manhã daquele dia tão mundano, nas sobras de um carinho adormecido, patético amor, de um coração humano, soçobra meu peito, afoga meu gemido... e desperto ao teu lado, sem engano!... e meu sonho encontra meu sentido...

Julio Treiguer, de família gaúcha nasceu no Rio e vive em Campinas-SP. Algumas premiações: Prêmio de poesia do CNL 2007 da Taba Cultural com o livro 46 Poemas; 1º lugar no IV CNPoeArt 2010; selecionado e 2º lugar em poesia portuguesa no Prêmio “Poesia, Prosa e Arti Figurative-Il Convivio 2010 e 2011, Itália; 3º lugar no IV CP do CEA HPSE MS 2010; e 1º lugar em poesia no Prêmio Buriti 2011. É membro da ACL, SEERJ, APPERJ, CPAC e Accademia Il Convivio. - 45 -


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revista literária:

Inundada de sonhos, a lua toda nua salpicava raios de prata àquela janela. Um olhar cintilante jogava tímidos beijos. Seu rosto refletia a luz do luar um desejo incontido oferecia um cálice de vinho e uma rosa vermelha unindo a cor púrpura ao amor.

A lua canta o doce verbo amar. Eu canto o desejo e peço encantado em vir conhecer onde mora o pecado.

Na pintura às vezes um borrão diz tanto!

Sob uma árvore secular em plena selva, desfio sonhos...

Poesia na selva

Em busca do verbo escrevo, rabisco, rasgo papel. As folhas soltas se misturam ao verde.

O poeta cisma que é perfeito tudo que dita a louca inspiração, mas o tudo se dilui na própria indefinição. À dor de não poder dar ao verbo a cor do verso, rabisco e sofro no labirinto. Na translúcida aquarela derramo letras em subtons... E o poema por fim é luz.

Há um silêncio no ar. Um silêncio misterioso dentro de mim. Olho a imensidão da natureza pura, inatingível! Surge a inspiração! Escrevo, escrevo... A poesia vai tomando a cor e o colorido da floresta que me envolve me abrasa e domina meu ser. Tudo é paz na escuridão. Tudo é luz no meu coração.

Amor é sentimento d'alma grandeza do espírito. Ame a si mesmo e verá a beleza que a natureza expande o céu, o mar, os rios, a floresta, tudo é amor. A lua, as estrelas que inspiram o poeta. Eu vivo, a cada instante, bem dentro do meu mundo que é só amor. Amor para sentir amor para dar. Sou poeta, sonho porque a vida é a poesia do amor. Viva!

A janela do pecado

Em instantes sibilou no ar e pousava a janela envolto em pétalas de rosa um poema convite.

Procuro o verso as letras se unem... Não encontro a rima pra falar do pranto

PLURAL

Amor

ELSE DE OLIVEIRA - nasceu no Amazonas em 1916. Bacharel em Farmacologia, artista plás-

tica e poeta, diplomada na ADABL/2003. Prêmios: Salão Nacional de Belas Artes; V Concurso Nacional de Poesia Francisco Igreja/2001 - APPERJ; Concurso Tobias Barreto de Menezes; XII Salão de Atmaísmo/2004; Concursos Relâmpagos APPERJ. Participou da Revista Literária Plural nº 1, 2, 3, 4 e 5. Recebeu o Certificado de Mãe Apperjiana 2012. Publicou: AQUARELAS (poesia - Oficina Editores/ 2012). - 46 -


Vejo a beleza P fechada em tua casa é fico com pena quando r a tiram de sua Paz o Navegar, navegar procurando, sempre estão l sinto a brisa pelo teu valor a acariciar minha pele és bela e triunfante como é lindo o mar Pérola, pérola a balançar, balançar de real valor, que como se estivesse a Deus perfeição criou ninar. pérola vá rolando É lindo o brilho fugir de teu opressor do sol tocando só te resta o espelho o mar, para mostrar tua dor gaivotas a voar, voar, entre linhas ficaste E eu a pensar com tuas irmãs como é linda que pena! o ser humano a natureza ser usurpador. criada por Deus para todos Um olhar reverenciar Um olhar de um minuto leve ou marcou minha vida forte, morna e senti o mesmo olhar de volta ou fria, és beleza! Um olhar de alegria peixinhos a pular, pular Um olhar passageiro tanta vida tem no mar. transformou minha vida Vejo a onda Um olhar deu as mãos para outro olhar chegar na areia tão sensual inesquecível a namorarmar, Olhei para dentro de mim e meu coração batia mais forte namorar, namorar...

Momentos

MAR MARÉ AMAR

Que sensação maravilhosa! Um olhar é tão expressivo e não adiantava fugir Voltei a sorrir Meu olhar olhava as ondas do mar Meu olhar pela primeira vez se transformou em amor Um amor tão especial nos juntou para sempre mesmo sentindo saudade aos poucos um olhar foram mil olhares por bastante tempo vida, choro e alegria! Nunca mais vou esquecer este olhar.

Aqui estou no meio da madrugada, pensando... pensamentos, reflexões; fugindo de ti estou, tudo mudou... sobraram somente as lembranças, boas e ruins, mas lembranças de períodos, de vida... minha vida! tantos encontros e desencontros, momentos...

MARIANGELA CALABRESE - nasceu no Rio de Janeiro e tem dupla nacionalidade: brasileira e ita-

liana. É professora, artista plástica, pintora, escultora, escritora, amante das Letras. Possui medalhas e diplomas em exposições e concursos: no Jardim Botânico, Salão I e II; na Biblioteca Estadual do Rio de Janeiro; no Espaço Cultural do Aeroporto Antônio Carlos Jobim; no 3º Salão de Arte da ANLA e na ABI, medalha de prata/2006. Realizou trabalhos relevantes na Secretaria Municipal de Cultura (Biblioteca)/RJ, no Arquivo Geral da cidade do Rio de Janeiro; Secretaria Municipal de Educação/RJ; na Casa da Vila da Feira e Terras de Santa Maria/RJ - II Salão de Artes Plásticas. É membro do Centro de Literatura do Museu Histórico do Forte de Copacabana/RJ. Participou da Antologia da UCAI - Brasil, das Antologias Del Secchi e da AJEB. - 47 -


revista literária:

Alimentando o seu SER

Sem falsidade Aquela criancinha pobre e humilde, Rica em simplicidade e sinceridade, Dá um abraço apertado No cachorrinho sem raça, Transferindo simplesmente o amor Que sente brotar em seu interior. No abanar do rabinho, No brilho que vejo em seus olhinhos, Não quer saber de seu nome, Se tem dinheiro ou poder. Percebe que ali está um Ser Que como ele é fruto de Deus, Como as plantas e outros animais, Para o lapidar de nossa evolução. Esquece aqueles que o jogaram Do carro em movimento Só porque não servia mais de brinquedo Para os filhos que Deus lhes enviou, Desprezando outras obras Igualmente importante de nosso Criador.

A realidade é que somos Seres Energia Com parte matéria e parte espiritual. Mesmo a nossa parte somática, Em toda a sua dinâmica, é energia. As nossas emoções, Influem diretamente em nossa estrutura. Os problemas do Mundo Material Estão diretamente ligados ao mundo espiritual. Se na matéria os opostos se atraem, Na espiritualidade são as afinidades que se priorizam. Os cuidados que devemos ter com o alimento do corpo Temos de atentar para o saber nutrir o nosso espírito. Somos envolvidos, mas também envolventes. Preciso de equilíbrio e harmonia. O acesso que eu permitir, por minha escolha, Chegar até a mim será negativo ou positivo. Alimente o seu corpo, Higienize a sua alma, Ilumine os seus objetivos para um real viver.

Percebi que as orquídeas nos ensinam O como saber realmente viver. Ignoram os incultos que a tratam por parasitas. Elas só querem um lugar, talvez um apoio, Para continuarem a disseminar a beleza. Integrando a energia da Mãe Natureza, São formas Divinas para as nossas reflexões, Quanto aos valores materialistas E os do íntimo de nossos corações. Também EU POSSO isto fazer! Não só escrevendo ou falando, Mas realmente por mim exemplificando O que consiste o caminhar-lapidar De um SER em eterna evolução.

reflexões

PLURAL

Portal da Natureza Não sou, como pode estar parecendo, Uma certa abertura no muro, Uma simples porta, Um singelo azulado portão Separando dois espaços diferentes Do reino da natureza. Sou na realidade do aqui e agora Deste Planeta um Portal, Misto de matéria, filosofia e ficção. Eu vos convido a entrar e a se alimentar De tudo que é realmente verdade, Sem os limites de espaço tempo e idade. Ofereço-vos conhecimento e emoção. Sou a real Escola, Templo sem dimensão, Desta e de outras vidas De eterno caminhar de autolapidação.

Luecir LUCAS Gonçalves Militar da Reserva. Bacharel em Física. Orquidófilo, proprietário do Orquidário LuVan, em Maricá/RJ. Ecologista. Compreensão da vida pela observação e análise da Natureza, é a sua bandeira como educador há vários anos. Participação em diversas coletâneas. Promotor e coordenador do evento de poesia São Pedro da Poesia, de 2000 a 2007, e em 2012 em Bambuí, distrito de Maricá/RJ. Destaque Cultural em 2002, da ALAP – Academia de Letras e Artes de Paranapuã/RJ. Delegado da APPERJ Região Lagos/Maricá/RJ. - 48 -


ME APAIXONEI...

MENINA FEIA

(baseado em fato real)

Ipanema Fim de tarde

Só Sempre só

O mar Um banco A moça

Desce o sol Buzinam os carros Deserta a areia

Ninguém perto Barulho das ondas Uma lágrima

Um beijo! Ah! Se lhe dessem um beijo!

Por que chora?

Apenas um... Na boca Sensual, lascivo Apaixonado... Toda a existência Por um beijo.

Sol sumindo Ela triste Vai o dia Vem a noite Tudo igual Todo dia Por que chora? Porque é feia Nasceu feia E assim morrerá Lá longe o mundo Multidão perdida Ninguém a liga Dezoito anos Magrela, baixinha, Nariz enorme... E usa óculos!

Não, não foi de repente Na realidade, coisa gradativa Difícil explicar o que se sente Frente a uma...A uma verdadeira diva Quando formosa te dirigias a todos nós Com teu incrível jeito e charme a aparecer Unidos a um lindo sorriso e doce voz Mal sabia eu que o resto do mundo iria esquecer Sim! Teu vivo olhar penetrante Envolto por frases soltas de leve ironia Me mostraram que ainda sou gente Criando dentro de mim imensa alegria Os dias, as semanas, foram passando E o meu coração batendo cada vez mais forte Tu eras tudo! Só nisto estava pensando Por que merecera eu tanta sorte? Na janela do meu quarto, de madrugada Montes de estrelas brilhando; parecia dia... E tua firme presença em mim gravada Dava-me forças, me rejuvenescia...

Não! Jamais! Jamais! Pobre menina feia Quanta injustiça...

Subitamente me toquei Aquele sentimento não tinha sentido Ali, ao meu lado, dormia pessoa que sempre amei E tu, diva, também já tinhas o teu cupido

Chega a noite Ninguém perto Ainda canta o mar

Ó coração insistente Reflexões serenas a derrubar Fez-me comprar afetuoso presente Como que dizendo:Vá amar!

Levanta a moça Vai para casa

A imprudência custou-me caro O teu cupido veio me interpelar De um educado modo, hoje raro, Sussurrou: ela já tem o seu par

E chora...

Meu sonho, minha ilusão, chegou ao fim. Com ela senti-me intruso; em casa um traidor Vistes, coração, o que fizestes? Pobre de mim... Mas uma coisa aprendi: Não divida nunca o amor.

Mário Weikersheimer Brasileiro, carioca, 73 anos, casado, engenheiro civil e corretor de seguros; três anos de estudos na Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro. Três livros publicados: "Saudades do Amanhecer" (1998), "O Enterro Utópico" (2002) e “Os mais belos momentos da minha vida” (2009).

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revista literária:

Vida Sementes Brotos Flores Desabrocham, Brilham, Fenecem

PLURAL

Amor Convivência Amor Amor Doação Amor Entendimento Amor Generosidade Amor Criativo Amor Pleno Um grande e belo amor Cultivado a cada dia Dá sentido às nossas vidas

Ovos Fetos Seres em formação Desenvolvem-se, Amadurecem, Falecem Pó Pó+terra Pó+terra+cal Pedra, rocha, montanha

Em seus lábios Em seus lábios Encontro o sorriso Encontro o beijo Encontro o humor

Processos naturais Ciclos O tempo passa Estou no meio da jornada.

Em seus lábios As declarações De amor De dúvidas De dádivas Que juntos alcançamos Envolvem meus ouvidos E me enovelam

Haicai Ave voando Esplêndida ventura O dia marca

Em nosso laço Em nosso espaço Em nosso estar Apaixonados

ELIANA Wissmann ALYANAK - Psicóloga, poetisa e musicista. Apperjiana desde 2001. Quatro livros individuais publicados. Pela Oficina Editores participa das Antologia PERFIL, OFICINA AGENDA LITERÁRIA, em suas edições de 2001 até 2013 e nos volumes 1, 3 e no atual 5 da REVISTA LITERÁRIA PLURAL. É Membro Efetivo da ACADEMIA DE LETRAS DE CAMPOS DO JORDÃO, da REAL ACADEMIA DE LETRAS, e do CLUBE DE ESCRITORES PIRACICABA. - 50 -


Um dia de janeiro, na serra de Friburgo “Uma pequena batida na vidraça, como se qualquer coisa a tivesse atingido, seguida de uma ampla queda leve como grãos de areia que deixassem tombar do alto de uma janela, em cima, e depois a queda, estendendo-se, regulando-se, adotando um ritmo, tornando-se fluida, sonora, musical, inumerável, universal: a chuva.” M. Proust, Em busca do tempo perdido.

Um lugar mágico, para jamais esquecer! Uma pequena parte do reino encantado da natureza! Um paraíso sobre a Terra! Ao fundo um lago. Ramos de uma árvore frondosa caem sobre ele. Gramados ao seu redor. Muitas árvores por todo o canto. Uma profusão de verde. Uma piscina de águas muito azuis. Mais ao longe, o vale extenso encoberto por uma pesada neblina. Hortências por toda a parte. No alto do platô a casa de cujas janelas envidraçadas da sala se descortina toda uma paisagem maravilhosa. Uma chuva fina cai sem parar. O sonho não se desfaz Sentimentos! Quais? Tranquilidade, paz interior, deslumbramento com a VIDA. O Nirvana será assim? Uma teia de aranha embebida por gotículas de chuva forma uma renda, um rico bordado de bela trama. A neblina cerrada torna a atmosfera, ainda mais mágica. O frio presente e o vento gelado recomendam o agasalho, mas a temperatura externa não diminui o calor que vem do mais profundo do íntimo, do coração, da alma... “Secret Garden”, adágio, uma bela música, suave e acalentadora de sonhos, traz a tona sentimentos fortes e amoráveis, e faz o fundo musical desse momento, tão especial... Sintonia com Deus-Luz, a energia que permeia o universo infinito é tudo o que sinto nesse recorte do tempo e uma grande felicidade inunda o meu ser.

José Maria T. Barroso, mineiro de Passa-Quatro, é atualmente Consultor de avaliação patrimo-

nial, inspeção predial e de Plano de Negócio. É Oficial do Corpo da Armada (CMG), Engenheiro Industrial Mecânico, Graduado e Bacharel em Geografia pela UFF, e cursou a Escola de Cinema também pela UFF. Fala inglês e espanhol, com noções de alemão e francês. Conhece os EUA, grande parte da América Latina e Central, Oriente Médio, Europa de Leste a Oeste e Norte, Sul, Centro e Leste do Brasil. Publicou, em 2012, Cuba – 50 Anos Depois. - 51 -


Para Viver

Abelha, abelhinha Abelha minha Abelha rainha Minha rainha Quero ser Teu produto de consumo Tua busca e teu rumo Teu servo mais dedicado Teu amante mais ousado Teu macho mais usado Teu prazer continuado Quero voar neste azul contigo E renascer feliz para a vida Não ser como qualquer zangão Que por vontade e vocação Decide se dar e morrer No auge da realização Pois, amor é elevação Amor é para viver.

De Todas as Maneiras

revista literária:

PLURAL

Te amo Com a pureza da criança E o desejo do adulto Com a ternura do poeta E a carícia de fogo do amante Te amo Musa que inspira Amiga que conforta Amante que realiza Mulher que é companheira Fêmea que é alma gêmea Te amo, enfim De todas as maneiras.

Enseada O mar A constante inconstância A beleza da liberdade Sem tempo nem hora De chegar e ir embora A terra A imobilidade A espera e a certeza Da chegada A qualquer momento Do que vai e sempre volta A enseada O acolhimento e repouso Do mar inquieto Já cansado De tanto ir e voltar A permanência O abraço da terra Num corpo de mar.

Um Amor Maior Um amor maior É desses que faz a gente Perder a chave de casa E esquecer o caminho Falar bastante sozinho Ou, com estrelas, paredes Com flores e passarinhos Faz acordar de madrugada E se sentir cativado Sabendo o quanto é bom Amar e também ser amado Um amor maior É assim desse jeito Que, de mansinho chegou Bateu, abriu a porta e entrou E agora mora em meu peito.

José Rodrigues

Carneiro, brasileiro, nascido no Estado do Ceará, em 25 de fevereiro de 1943. Poeta tem trabalhos publicados no Projeto Prata da Casa, da Petrobras. Membro efetivo da Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro – APPERJ e da Associação Internacional Poetas del Mundo. É autor dos livros de poesia: Vale a Pena..., Di-Versos e Versos Travessos. - 52 -


Noctívaga

Quando a noite desce lambendo a cidade criaturas escusas abandonam os abrigos sombras se instalam sem piedade e os postes focam no asfalto o perigo Boca escarlate exibida com altivez nas mãos carrega o copo cheio faróis confundem a diminuta lucidez o torpe e a razão a dividem ao meio Olhos famintos convidam ao pecado o corpo à mostra desperta o desejo quem passou por ela diz ter sido marcado quem provou seus lábios quer mais que beijo Tropeços e sustos em muros pulados labirintos tomados por guarda paralela desmentem que à noite todos os gatos são pardos deixam mais insana a busca que não é só dela Com o salto quebrado em acidentada ladeira encontra, enfim, nos becos o vício queria a viagem e não viu fronteiras sentidos em órbita e depois: suplício Máculas e lágrimas enquanto o mundo dorme em paz ela espera a aurora para sua redenção ao se perceber incólume, ela jura: nunca mais e ávida espera por mais um crepúsculo de perdição

Cristiane Oliveira, carioca, residente no bairro Tijuca/RJ, cursando Marketing (úl-

timo período) na Universidade Veiga de Almeida. Gerente de Produtos no Bradesco. Autora do Blog de poemas Duelos & Duetos. A paixão pela literatura começou muito cedo, ainda menina devorava nossos maravilhosos escritores e vem, desde então, escrevendo contos, crônicas e poemas - 53 -


revista literária:

PLURAL

AS QUATRO ESTAÇÕES

CHEIRO DE MÃE

Música que é vida e gáudio, tanto anima os sonhos meus. É bem fácil ser Vivaldi, quando o parceiro é Deus.

Suas carnes cheirosas, minha mãe, humana rosa. Acolhedor, o embalo entre os fartos seios, suave regaço, doce ninho. Da pele ebúrnea, macia, lembranças remotas do primeiro e verdadeiro amor.

Quero teu calor e o aconchego morno do espaço entre teus braços, regaço protetor.

Cheiro de mãe... Nardo de todas as flores, perfumando o coração. Morno, o perfume de carinho, exalando proteção. Seus braços, tão meus, sempre abertos, berço certo, porto seguro; de tempestades, o muro, prenúncio inquieto de passos inseguros, em meus caminhos incertos, a perscrutar vagos futuros que ela, sabiamente, me querendo independente, iluminava com os olhos, cor de fogo, cor de luz, a cobrir de mel meus escarpados escolhos. Bela fada, abelha, rainha, a adoçar com pensamentos, o destino que à minha ignota sina conduz, às conquistas, às derrotas, às vielas escuras e tortas, às veredas de inúmeras voltas, ou talvez, retortas, sem volta... Mas, se pudesse, o berço seria eterno, não haveria, para os filhos, nenhum inverno, venceria todos os dragões, aplacaria trovões e apagaria, do livro do destino, todas as provações.

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Quero mergulhar no escondido poço e contigo desfrutar paraíso teu, colosso. Quero curar, a sabendas, de teu âmago silente, rasgaduras e emendas, com desvelo leniente. Quero debelar todas as feridas-fendas e a supurada pungente dor, tudo substituindo – singela humana oferenda – pelo meu eterno amor! QUERO TE QUERER

Mãe, concentrado mágico, de amor, amizade e sabedoria. Mãe, Musa, egéria a aspergir alegrias. Mãe, soldado alerta a driblar, a contornar tristezas. Mãe, ternura, energia, esperanças acesas. Mãe, o sopro puro, aprilino, o reflexo, a síntese, o hino do amor e do poder Divinos.

Quero descerrar a cortina dos teus olhos e desvendar tesouros entre escolhos.


Tudo brota à minha volta, tudo vibra à minha volta. Aragem singela sopra e se espalha. Respira a felicidade. Aspiro essências que a tarde orvalha. O ar marinho com delícia invade o caminho e realça nosso viver. Sua brisa se esparge e se alastra, anunciando a despedida da tarde. O sol, eclipsado, névoa é, neste inverno. Há um frio suave

Reina, o consorte, a cada momento, em todos os meus pedaços. E a vida se fez deslumbramento, encanto em todos os meus espaços.

Um frio que não gela, mas abraça e, gélido, arde e a gente se sente parte do Todo, presente no efêmero, a respirar perene felicidade.

Altiva, destemida e forte, luz mensageira surgiu. Esculápio desafiando a morte, nardo de vidas sorriu.

Rosas ganharam espinhos. Sementes de dor submergiam. Orvalhos choravam, baixinho, nênias, tristezas encobriam.

Afastada do meu caminho, nada via, sabia ou sentia. Dentro do peito um ninho; esperança, nele, dormia.

Lilases em limbos, lesos, feridos, lampejados, umedecidos, róscidos, lágrimas de dor, remorso, cortes, ludra sorte. Invólucros ilícitos na liça víride, falida, entre vida e morte. O ser sucumbe ao corte, a vida só nasce para a morte.

Companheiro de calados olhos, amor contido distribuiu, imperando, agora, em meus refolhos onde a vida se fez vida e fluiu.

FALÊNCIA FALÊNCIA FALÊNCIA

VIVÊNCIA

Escalavrados, ex-excelsos, de alma lesados, lesivos, sem palmas, no esquema... Pústulas, eritema, excrescências nas murchas folhas de louros, louros fictícios, lauréis reluzindo, luzentes luxúrias, causas espúrias... labéus.

DESPERTAR NELE EUNICE KHOURY

Jornalista, tradutora, artista plástica (pintura), pedagoga, professora de francês, radialista e vice -presidente da Rádio Imprensa FM/RJ. Foi bailarina clássica do Corpo de Baile do Theatro Municipal e do Ballet do Rio de Janeiro. Membro do Pen Club, da APPERJ. Publicou mais de 15 livros de diferentes gêneros, destacando-se: Tio Simon e outras crianças, Hipopótamo Omatópopih e o Lobo Bom Bombom, infantis. - 55 -


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PLURAL

A Latinidade do Substantivo A maior parte dos substantivos, em português, origina-se de substantivos latinos, mas existem substantivos que se originaram de adjetivos latinos, como maçã, de [mala] – matiana (de maçã). Muitos se formaram já em plena autonomia da língua portuguesa, por composição, ou derivação por meio de sufixo – jaqueira, bilheteiro; ou se tiraram de verbos como choro, proveniente do verbo chorar – lat. Plorare; honra, do v. honrar – lat. Hon(o)rare. É importante salientar que existem substantivos, na língua portuguesa, que se derivaram do acusativo – o que indica complemento de um verbo sem o uso de uma preposição obrigatória (objeto direto) - lebre, de lep(o)re, rosas, de rosas (ac. pl.). Entretanto, alguns surgiram do nominativo – o que conhecemos como sujeito, o elemento pelo qual informamos algo, por exemplo: Vênus < Venus (Venus cantat). Encontramos outros casos oriundos, por exemplo, do ablativo, que é o caso do adjunto adverbial: Sagres < Sacris. No latim o substantivo faz parte do discurso e segue o sistema de flexão nominal denominado declinações. O autor Ernesto Faria, em sua Gramática Superior da Língua Latina, classifica em nove as partes de discursos e denomina os “Substantivos como nomes de pessoas ou de divindades, nomes de lugar são chamados substantivos próprios; ou nomes de seres vivos, de coisas, ou de qualidades abstratas, que se aplicam indistintamente a todos os seres, e denominados, por isso, substantivos comuns” (FARIA, 1958: 52). “Os substantivos são divididos, no latim, em cinco grupos, ou sistemas de flexão, chamadas declinações e que se caracterizam pelas vogais que finalizam o tema da palavra, ou pela ausência de vogal” (FARIA, 1955: 14). As declinações são caracterizadas pela vogal que finaliza o tema, chamados também de sonânticos ou pela ausência de vogal, o que constitui o grupo dos temas consonânticos. A desinência zero dá-se na ausência de desinência que serve para caracterizar um caso. Por exemplo, nos temas consonânticos da terceira declinação, os que terminam em nasal (-n), ou líquida (-l, -r) não recebem desinência nenhuma no nominativo singular, em oposição a todos os demais casos. O que distingui, então, nestes temas, como nos diz Ernesto Faria “o nominativo singular é precisamente a ausência de desinência, razão por que se diz que eles têm desinência zero” (1958:68). Declinar é, pois, fazê-la passar por todos os casos - Nominativo, Vocativo, acusativo, Genitivo, Dativo e Ablativo - do singular e do plural. Assim, pertencem à primeira declinação os temas em A; a segunda, os terminados em O; à terceira, os terminados em I ou em Consoante; à quarta, os terminados em U e a quinta, os terminados em E. É necessário tecer algumas considerações acerca da declinação dos substantivos: a primeira declinação, tema em A, compreende os substantivos, geralmente do gênero feminino; a segunda declinação, tema em O, os substantivos são geralmente do gênero masculino ou neutro; a terceira declinação, tema em I, compreende substantivos e adjetivos masculinos, femininos e neutros. Quanto ao tema, os nomes da terceira declinação dividem-se em dois grupos: • Os temas terminados em “i”, chamados temas sonânticos. • Os temas terminados em “consoante”, chamados por isso de consonânticos. A quarta declinação, temas em U, abrange os substantivos do gênero masculino, feminino e neutro. A quinta declinação, temas em E, envolve exclusivamente substantivos do gênero feminino, excetuandose apenas “dies” (dia), que pode ser masculino ou feminino, e seu composto “meridies” (meio dia), que é sempre masculino. A declinação dos adjetivos pouco difere dos substantivos, mas estão divididos em dois grupos: adjetivos de primeira classe que são aqueles que seguem no masculino e no neutro na segunda declinação de substantivos e no feminino a primeira; e adjetivos de segunda classe que são aqueles que seguem nos três gêneros a terceira declinação. Cabe observar que não há em latim adjetivos que sigam a quarta ou a quinta declinação. Sabemos que as orações exercem funções próprias do substantivo. A Gramática Latina de Ravizza mostra que as línguas modernas têm mais tendência “para a coordenação, isto é, para colocar os conceitos próximos à maneira de proposições principais” (1958: 300). O latim apresenta-se mais propenso à subordinação. Ravizza continua a sua assertiva dizendo que a tendência do latim é “exprimir com uma proposição independente o conceito principal e a subordinar os conceitos secundários em forma de proposições dependentes” Oração subordinada é, em particular, a oração que estabelece uma ralação de dependência referente à outra do mesmo período. Segundo Ernesto Faria: “a subordinação se desenvolveu tendo por ponto de partida a simples justaposição, processo pelo qual as conjunções passaram a governar um determinado modo é perfeitamente paralelo aquele pelo qual as preposições passaram a sempre acompanhar um determinado caso”. - 56 -


Tendo em vista essa considerações de Ernesto Faria as orações substantivas recebem esse nome porque desempenham o papel de sujeito ou de objeto direto, funções próprias da classe dos substantivos. Por outro lado, são ainda chamadas de completivas ou integrantes porque, ao exercerem uma dessas funções, integram, isto é, complementam, na condição de subordinadas, o sentido de uma oração desprovida, como elas próprias, de autonomia sintático-semântica e que se classifica como principal. As orações, que se comportam como substantivos estão agrupados em quatro tipos: justapostas (sem conectivo), conjuncionais (com ut, ne, quin, quominus e quod), infinitivas, interrogativas indiretas: pronominais, adverbiais e de partículas. Os dois primeiros tipos constroem-se com o subjuntivo, com exceção das introduzidas por quod, cujo verbo, embora possa vir nesse modo, figura, geralmente, no indicativo. As introduzidas por quin são particularmente frequentes com verbos de dúvida e impedimento, bem como com outros giros, formulados em torneios negativos e interrogativos. Ex.: non multum abest quin; quid abest quin?; mora nulla est quin; non dubito quin; quis dubitat quin?; nil obstat quin; quid obstat quin, etc. Já as encabeçadas por quominus são regidas por verbos de impedimento figurando em qualquer modalidade de frase, inclusive afirmativa, mas raramente aparecem como complemento das outras fórmulas interrogativas e negativas empregadas com quin. As interrogativas indiretas são introduzidas pelos mesmos pronomes (quis, quid, etc.) e advérbios (ubi, unde, cur, ut, etc.) interrogativos empregados na oração independente, e pelas mesmas partículas (-ne, num, an, etc.) caracterizadoras da interrogação direta. Trazem geralmente verbo no subjuntivo, podendo também vir com o indicativo. O emprego das interrogativas indiretas com o indicativo é retomado na fase pós-clássica, adquirindo mais força no latim decadente e no vulgar. As de partículas podem ser simples ou disjuntivas (duplas, tríplices). São simples, se introduzidas pela enclítica -ne, por num ou nonne; duplas, quando figuram em construções do tipo: utrum ... an, -ne ... an (anne), an ... an, -ne ... -ne, siue ... siue, utrum ... necne, utrum ... an non, etc., e tríplices, ocorrendo em seqüências como an ... an ... an (cf. Pl., Aul., 730), etc. As infinitivas apresentam os seguintes traços: ausência de termo subordinante, sujeito (se expresso) no acusativo e verbo no infinitivo. Podem também, como as introduzidas por quod, exercer o papel de sujeito ou de objeto direto da principal. Como o objeto direto integram o sentido de verbos declarativos, perceptivos, volitivos e de sentimento e, como sujeito, o sentido de verbos e expressões impessoais. As completivas iniciadas por quod costumam integrar verbos de acontecimento modificados por advérbios, declarativos, de sentimento, felicitação, censura, louvor, adição, etc., expressões impessoais, locuções como bene, male facio, dentre outras. Como nos diz Evanildo Bechara, cabe a gramática tradicional nos revelar “o registro dos fatos da língua geral ou padrão, estabelecendo os preceitos de como se fala e escreve bem ou de como se pode falar e escrever bem uma língua”. Fontes: BAIGENT, Michael. Os Manuscritos de Jesus. Editora Nova Fronteira. 2006. BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. Ed. Revisada e ampliada. Editora Lucerna. 37º ed. 2004. CAMARA, Mattoso. História e Estrutura da Língua Portuguesa. Ed. Padrão – Livraria Editora Ltda. 2ºed. 1976. _________________ Dicionário de Lingüística e Gramática.Ed. Vozes. 12ºedição. 1985. _________________ Princípios de Lingüística Geral. 6ºed. 1980. FARIA, Ernesto. Gramática Superior da língua Latina. Biblioteca Brasileira de Filosofia – nº 14. Ed. Rio de Janeiro, 1958. ______________. Dicionário Escolar Latino – Português. 3º ed. 1962. FARIA, Ruth e Ernesto. Novo Curso de Latim (1º e º séries do curso ginasial), Ed. da Organizações Simões. Brasília – DF. 1955. RAVIZZA, P. João. Gramática Latina. Niterói: Escola Industrial D. Bosco, 1958. SARAIVA, F. R. dos Santos. Dicionário latino-português. 10a ed., Rio de Janeiro/Belo Horizonte: Garnier, 2000.

MOZART CARVALHO

Profº de Língua Portuguesa. Produção Textual/Literatura/Inglês/Literaturas Americana e Inglesa. Especialista em Língua Latina. Membro do Grupo de Estudo de Línguas Clássicas e Orientais (LECO)/UERJ. Poeta carioca, ensaísta, ilustrador, tradutor. Atual vice-presidente da APPERJ. Membro do PEN Clube do Brasil, da União Brasileira de Escritores/RJ, da Academia Brasileira de Poesia – Casa de Raul de Leoni, da Academia de Letras e Artes Lusófona/Portugal, da Academia de Artes, Ciências e Letras da Ilha de Paquetá. Membro do Conselho Editorial da OFICINA Editores. Publicou 2 livros infantis: O cervo e o lago e A raposa e a cegonha, sendo este roteirizado para teatro; 2 livros de poesia: Urbanosemcausa e pelo avesso. Em 2011, a convite do Nassau Community College/New York State University, esteve em NewYork/USA, onde profer iu palest ra sobre “Construction, Work and Poetry” & “APPERJ in the Modern Literary Process”. Apresentou a performance de poesia interativa UrbanosEmCausa, junto ao poeta Sérgio Gerônimo a convite do Brazilian Endowent for the Arts, New York/USA. Em 2012, a convite do PEN Club da Áustria, lança o livro URBANOSEMCAUSA (coautoria de Sérgio Gerônimo), em Viena. Tem poemas publicados e vertidos em inglês, espanhol, francês e grego. Participante ativo do circuito de poesia contemporânea. - 57 -


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M ia o TI Ga prol d

al lur ar p o e ism ogo nta n a f e org erra, sust ente e t s a, cia s pre íbrio u g z á vên fa quil nte e e se vi on brio ovo ntem acia c n sta em cia a uilí r eq m um a con sup orân rto á e tu eo fo h ign esticando o sol pelas pernas rpe não o, a scon nico e p ú os d de se em uma tentação úmida me ausa ser é front os m i o r n o c e no coração arquitetei ass põ cido mas e co gêne rios m d i ú colocar óculos a de a se onhe ast ões s esp hor o c b ã s para sentir a improvável ç ivo e a não n de i t t e u o respiração de mundos diversos mp obje ais q rmos ção co a m ize imin adas ensaiava assim compor passos é d já de iscr vilt as d de estrelas do mar a d res a juga das d e o às estrelas do ar a t ulh s sub straí ade m ça d de repente um jovem espasmo ab an ores mani ervis i r c flechou o horizonte c hu ns s sas de ome as fal ras no limite de velocidades h iss tu minhas asas do amanhã absurdas/constantes m s cul ábia e r s são tão flexíveis à p to da reza ções em manhãs de prazer s n ra u quanto foram antes de eu aprisionando ma a nat rocu sofia s o o o p l surgir atos e desatinos m as, fi man re sob é t hu mp de m amanheceu em alerta ajoelho-me ão dog dos a se n estacionado nos cílios de nem aniz e ao cosmos rg e cúmplices das retinas lanço meus pedidos es se o d como suspeitos ida gaia assim seja de de preservarem ascendo à luz futura cores melodias andanças vontades medos mudanças Em

SOLar

O ET

! NO Y: SA

asas

SÉRGIO GERÔNIMO

sempre... um teatro de marionetes

eu finjo que falo vocês fingem que ouvem

pernas coração sedução dormiram dormiram sonhos de não acordar

Estão me ouvindo?

são bocas famintas as páginas que agora abro palavras jorram em torrentes correntes sem rumo que atropelam ouvidos desprovidos de qualquer sintonia e que por ironia saltam de linhas escritas do anverso repletas de cumplicidades e retóricas absolutistas mudos os espaços de vazios infinitos temem os infinitivos verbais e desinências parindo verdades estacionadas em neurônios cansados hoje, ontem, amanhã se reescrevem em sinônimos ininterruptos em uma mesma música de pautas disritmadas

intrigantemente o sol gozou silencioso em mim

Alves Delgado – Psicólogo, pós-graduado em Psicossomática Contemporânea, foi professor de Língua Inglesa no Colégio Militar do Rio de Janeiro, carioca, poeta, cronista e ensaísta. Editor-chefe da OFICINA Editores. Publicou em poesia: "Profanas & Afins"; "Outras Profanas"; "Enfim afins"; “Coxas de Cetim''; "Gemini"; “PANínsula”; “BelaBun”; “Código de Barras”; “Conversa proibida”; "Urbanosemcausa"; no prelo: “Mary Columbus”. Fundador da APPERJ – Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro, atual Presidente e Presidente de Honra, membro do PEN Clube do Brasil, da União Brasileira de Escritores/RJ, da Academia Brasileira de Poesia – Casa de Raul de Leoni, do Sindicato dos Escritores/RJ, da Academia de Letras e Artes Lusófona/Portugal, da Academia de Artes, Ciências e Letras da Ilha de Paquetá; Vice-presidente de honra da Academia de Letras e Artes de Paranpuã. Em 2011, a convite do Nassau Community College/New York State University, esteve em New York/USA, onde proferiu palestra sobre “Construction, Work and Poetry” & “APPERJ in the Modern Literary Process”, e, também, a convite, apresentando a performance de poesia interativa UrbanosEmCausa, junto ao poeta Mozart Carvalho no Brazilian Endowent for the Arts New York/USA. Em 2012, a convite do PEN Club da Áustria, lança o livro URBANOSEMCAUSA (coautoria de Mozart Carvalho), em Viena. Tem poemas publicados e vertidos em inglês, espanhol, francês, italiano, russo. Coordena o evento poético no Rio de Janeiro: “Te Encontro na APPERJ” e o Festival de Poesia Falada do Rio de Janeiro. Participante ativo do circuito de poesia contemporânea. - 58 -


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