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UM TRATADO SOBRE

O AMOR DE DEUS BERNARDO DE CLARAVAL


Traduzido do original em Francês

Livre Ou Traité de Saint Bernard Sur L’amour De Dieu. Bernard de Clairvaux

Via: Abbaye-Saint-Benoit.ch

Tradução e revisão do original em Francês por Jocelyne Forrat Revisão ortográfica por Camila Almeida Capa por William Teixeira

1ª Edição: Julho de 2015

Salvo indicação em contrário, as citações bíblicas usadas nesta tradução são da versão Almeida Corrigida Fiel | ACF • Copyright © 1994, 1995, 2007, 2011 Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

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Breve Apresentação

Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e o Deus que é Amor, o Todo-Amorável! (2 Coríntios 1:3; 1 João 4:8, 16). Mui gratos a Deus, apresentamos mais esta tradução que Ele mesmo em graça, misericórdia e amor nos tem concedido. Trata-se do Clássico Tratado Sobre o Amor de Deus, pelo piedoso Bernardo, Abade de Claraval, o “doutor língua de mel”. A obra em si constitui um dos maiores escritos Cristãos sobre o tema, assim como a túnica de Jesus era tecida toda de alto a baixo e não tinha costura (João 19:23), assim podemos dizer que este tratado é todo tecido de alto a baixo por uma pena mui piedosa e sábia, e por um coração em ardente amor a Deus, sem costura ou remendo da tão abominável corrução moral e desejo de poder, avareza e hipocrisia, tão comum nos seus dias. Quanto ao autor, Bernardo viveu na Idade das Trevas, mas podemos definir sua vida com o nome do monastério por ele fundado: Clairvaux (Claraval), que significa “Vale Límpido” ou “Vale da Luz”. Apesar de ser um Abade da Igreja do anticristo, o Papa, e de lhe serem atribuídas muitas histórias mirabolantes pela tradição papista, além de muita veneração e apreço, Bernardo é tido em alta estima e consideração pelos protestantes, sobre isto Steven Lawson escreve: O ensino de Bernardo foi profundamente apreciado por Lutero e Calvino. Este último via Bernardo como o maior testemunho em prol da verdade entre o sexto e décimo sexto século. Já Lutero saudava Bernardo como um homem de admirável santidade e o considerava como um dos melhores santos medievais. Charles Spurgeon concordou com Lutero, dizendo: “São Bernardo foi um homem que admiro em grau máximo, e o tenho como um dos escolhidos do Senhor”. Ele continuou dizendo que Bernardo era “um dos homens mais santos e humildes”, o qual, “parece cair em delírio de amor quando fala de seu divino Mestre”.1

O nosso maior desejo com esta publicação, para nós mesmos e para vocês que pousarem os olhos nestas linhas, é que esta obra contribua para que possamos conhecer e amar ao Deus que nos amou primeiro, pois sem dúvida o maior pecado é a quebra do maior mandamento e a causa do pouco amor é falta do vero conhecimento de Deus, pois aquele que mais conhece a Deus, mais ama (1 João 4:8). Oh! que possamos conhecer e amar “Àquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados” (Apocalipse 1:5). Faz assim Senhor, por Cristo. Amém!

Editores EC, 16 de junho de 2014

______________ [1] LAWSON, Steven J. Reformador Monástico. Último Monástico: Bernardo de Clairvaux. Cap. 16. Pág. 399-423. In: LAWSON, Steven J. Pilares da graça. Longa linha de Vultos Piedosos. Vol. II. Tradução: Valter Graciano Martins. São José dos Campos, São Paulo: Editora Fiel, 2013.

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Um Tratado Sobre O Amor De Deus Por Bernardo de Claraval

Prefácio Ao mui ilustre senhor, Haimeric, cardeal-diácono e chanceler da Igreja Romana, Bernardo, abade de Claraval; vivo para o Senhor e morto em Cristo. Até agora vocês estavam acostumados a me pedir orações, e não me propunham assuntos a tratar. Não que eu me sinta mais habilidoso para um do que para o outro; mas ao menos as orações convêm melhor à minha profissão, senão da forma como cumpro os deveres; mas quanto às questões a serem resolvidas, me parece que, para tratá-las, são necessárias duas coisas que, na verdade, me fogem completamente, isto é, quero falar em espírito e precisão. No entanto eu percebo — com prazer, eu confesso — que vocês deixaram de lado as coisas da carne pelas do espírito, mas vocês deveriam ter se dirigido a alguém que oferecesse mais recursos do que eu. Esta desculpa, é verdade, é comum às pessoas capazes e igualmente às que não o são, e não é nada fácil saber se provém da modéstia ou da incapacidade, enquanto não tenha sido tentado em esforços no sentido solicitado. Portanto, vos peço receber o que me permite a minha mediocridade, pois não quero, permanecendo em silêncio, me fazer passar por um sábio. Todavia não tenho a intenção de satisfazer todas as vossas perguntas, eu responderei apenas, conforme a inspiração dada por Deus, àquela que vocês me fizeram sobre o amor de Deus; é a mais doce a ser estudada, a menos perigosa a ser tratada e a mais útil a ser ouvida; guardem as outras para os mais habilidosos do que eu.

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CAPÍTULO I Porque e como amar a Deus? 1. Vocês querem então saber de mim por qual motivo e em que medida nós devemos amar a Deus? Pois bem, eu vos direi que o motivo do nosso amor por Deus, é Ele mesmo, e que a medida deste amor é amar sem medida¹. É explícito o bastante? Sim, talvez, para um homem inteligente; mas eu tenho que falar aos sábios e aos ignorantes, e se eu falei o suficiente para os primeiros, preciso levar em conta os segundos; é, portanto, para estes que desenvolvo meu pensamento, mergulhando mais fundo. Ora eu digo que temos dois motivos de amar a Deus pelo que Ele é; não há nada mais justo, nada mais vantajoso. De fato, esta pergunta: Porque devemos amar a Deus, se apresenta sob dois aspectos: Ou nos perguntamos a que ponto Deus merece o nosso amor, ou então qual é a vantagem que vemos em amá-lO; para esta questão dupla, há apenas uma resposta: O motivo pelo qual devemos amar a Deus é o próprio Deus. E, aliás, se nós colocamos um ponto de vista de mérito, não há maior do que Deus de ter Se entregado a nós, mesmo sendo indignos; de fato, o que poderia Ele, tão Deus quanto é nos dar algo que valesse mais do que Ele? Se, portanto nos perguntamos qual o motivo que temos de amar a Deus, nós buscamos qual o direito que Ele se deu ao nosso amor, encontramos antes de qualquer coisa que Ele nos amou primeiro. Ele merece, portanto, que paguemos de volta, principalmente se considerarmos Quem é o que ama, quais são os que Ele ama e como Ele os ama. Quem é de fato Aquele que nos ama? Não seria Aquele a quem todo espírito dá este testemunho: “Tu és o meu Senhor, a minha bondade não chega à tua presença” [Salmos 16:2]? E este amor em Deus não seria a verdadeira caridade que não busca seus próprios interesses? Mas a quem se refere este amor gratuito²? O apóstolo responde: “Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus” (Romanos 5:10). Deus nos amou com um amor sem interesses e Ele nos amou quando ainda éramos Seus inimigos. Mas com qual amor Ele nos amou? São João responde: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho Unigênito” (João 3:16). São Paulo continua: “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós” (Romanos 8: 32); e este Filho diz Ele mesmo, falando dEle: “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” (João 15:13). __________ [1] Vemos a mesma coisa em uma carta de Sévère, Bispo de Milève, a santo Agostinho, das quais deste último podemos ler: “Não há medida intimada ao nosso amor por Deus, visto que a medida com a qual devemos amá-lO é a de amá-lO sem medida”. Jean de Salisbury imita este trecho escrito por são Bernardo, em seu livro “Polycratique”, liv. VII; capítulo XI. (Polycrate foi um tirano de Samos de 533 ou 532 a 522 a.C) Anátema, portanto, a Bérenger, o impudente apologista de Abélard [Abelardo], que ousa permitir-se censurar esta bela expressão do nosso santo Doutor. [2] Amor gratuito, isto é que não busca seus próprios interesses como citado acima: Algumas edições diferem um pouco nesta parte em certos manuscritos.

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Eis os direitos do santo Deus soberano, grande e poderoso que Se deu por amor aos homens pecadores, infinitamente pequenos e fracos. Mas, diremos, se — É assim para o homem, não é a mesma coisa para os anjos: eu concordo; mas é porque isto não foi necessário: aliás, Aquele que socorreu os homens na miséria, protegeu os anjos de uma miséria parecida e se o Seu amor pelos homens lhes permitiu que não permanecessem como estavam, Ele, por este mesmo amor impediu os anjos de se tornarem tal qual nós fomos.

CAPÍTULO II O quanto Deus merece o amor do homem por causa dos bens do corpo e da alma: como devemos reconhecê-los; não devemos usá-los contra Aquele que no-los deu. 2. Qualquer um que entendeu o que está escrito acima também vê, eu acho, porque isto é, por qual motivo devemos amar a Deus. Se isto não é visto pelos infiéis, Deus tem como confundir a ingratidão deles nos bens, sem contar o quanto preenche o corpo e a alma. Não é dEle, de fato, que o homem tem recebido o pão que o alimenta, a luz que o ilumina, e o ar que ele respira? Mas seria loucura contar os bens que eu acabo de declarar inumeráveis e que me basta citar os mais importantes como o pão, o ar e a luz; se os coloco em primeiro lugar, não é porque os acho os mais excelentes, pois interessam somente ao corpo, mas são os mais necessários. Sobre os bens de primeira ordem, é na alma, nesta parte do nosso ser que vence sobre a outra, que nós devemos procurá-los; são a excelência, a inteligência e a virtude [...]. 3. Estes três bens aparecem cada um sob dois aspectos ao mesmo tempo: a excelência aparece na prerrogativa própria à natureza humana e no temor que o homem inspirou sem cessar a todos os seres que vivem na terra; a inteligência, não só percebe a dignidade do homem, mas entende também que para estar em nós, todavia ela não vem de nós; enfim a virtude, em sua dupla tendência, nos faz por um lado buscar com fervor e de outro abraçar com força, uma vez encontrado, Aquele a Quem queremos pertencer. Também de nada vale a inteligência sem a excelência que pode até prejudicar sem a virtude, como podemos provar com o seguinte raciocínio: Ninguém pode se gloriar do que tem, se ele não sabe que o tem; mas se, sabendo, ele ignora que o que ele tem não vem dele, ele se gloria, mas não o faz em Cristo, e é a ele que o apóstolo diz: “E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?” (1 Coríntios 4:7) Ele não diz simplesmente: “Por que te glorias?”, mas ele acrescenta: “Como se não o houveras recebido” para mostrar que ele é repreensível, não por se gloriar do que tem, mas por se

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gloriar como se não o tivesse recebido. Assim com razão esta glorificação é considerada vaidade, já que não se apoia no fundamento sólido da verdade. O apóstolo a distingue da verdadeira glória, dizendo: “Aquele que se gloria glorie-se no Senhor” (1 Coríntios 1:31), isso é, na verdade: porque Deus é a verdade. 4. Portanto há duas coisas que precisamos saber; primeiro o que nós somos, e depois que não o somos por nós mesmos; então nós não nos gloriamos de coisa nenhuma, ou a glória que estaremos nos atribuindo será vaidade; enfim, se nós mesmos não nos conhecemos, está escrito, nós seremos confundidos com o grupo de nossos semelhantes (Cânticos 1:67). É de fato o que acontece, porque quando um homem digno não conhece nem mesmo a sua posição, o comparamos com razão, por tal ignorância, aos animais que são como os companheiros de sua corrupção e de sua vida decadente neste mundo. Portanto, não se conhecendo a ela mesma, a criatura que a razão distingue dos bichos, começa a se confundir com elas, porque ela ignora sua própria glória que é totalmente interna, cede aos chamados de sua curiosidade e se preocupa somente com sua beleza exterior e sensível; ela se torna também igual às outras criaturas, porque não sente que recebeu algo a mais do que elas. Assim é necessário combater a ignorância que faz com que talvez nos subestimemos mais do que convém. Mas evitemos com mais cuidado ainda esta outra ignorância que leva a nos atribuir além do que nós temos, como acontece quando nos enganamos em nos imputar o bem, qualquer que seja ele, que vemos em nós mesmos. Mas o que precisamos odiar e fugir mais do que estes dois tipos de ignorância, é a presunção pela qual em conhecimento de causa e propósito deliberado nós nos gloriamos do bem que está em nós, como se viesse de nós, não temendo arrancar de outrem a glória que nós bem sabemos que não nos é devida pelas coisas que estão em nós, mas que não vêm de nós. No primeiro caso, nós não nos gloriamos de nada, no segundo nos gloriamos, mas não em Cristo, e no terceiro nós não pecamos mais por ignorância, mas nós usurpamos conscientemente, reivindicando para nós mesmos, o que pertence a Deus. Ora, esta audácia comparada à segunda ignorância parece tanto mais grave e mais perigosa; se uma desconhece a Deus, a outra o menospreza; mas comparada à primeira, parece ainda pior e mais detestável, se esta ignorância nos assemelha aos brutos, esta audácia nos associa aos demônios. Pois apenas o orgulho, o maior dos males, pode se servir dos bens que ele recebeu, como se ele não os tivesse recebido, e desviar em proveito próprio a glória que um benfeitor deve achar em seus benfeitos. 5. Também à excelência e à inteligência é preciso unir o fruto que é a virtude; é pela virtude que buscamos e possuímos o Autor liberal de todas as coisas, Aquele a quem devemos, em tudo, render a glória que Lhe pertence; de outra forma seriamos rudemente punidos por não ter feito o que sabíamos que deveríamos fazer. Por que isso? Porque aquele que age desta forma, não quis adquirir a inteligência para fazer o bem, mas ao contrário, meditou

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sobre a sua própria iniquidade (Salmos 36:4-5), e ele tentou, como um servo infiel, desviar e até trazer a proveito próprio a glória que seu excelente Mestre deveria recolher em bens, sabendo ele mesmo perfeitamente, pela virtude da inteligência, que ele mesmo não era a fonte. É, portanto, bastante evidente que a excelência, sem a inteligência, é inútil, e que a inteligência, sem a virtude, nos leva a perdição. Mas para o homem que possui a virtude, não seria a inteligência maléfica e nem a excelência inútil, ele clama e louva a Deus simplesmente nestes termos: “Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua benignidade e da tua verdade” (Salmos 115:1). O que significa: Senhor, nós não Te atribuímos nem a inteligência nem a excelência, nós atribuímos tudo ao Teu nome, porque é dEle que nós recebemos tudo. 6. Mas nós nos afastamos demais do nosso desígnio, querendo provar que mesmo os que não conhecem a Cristo, sabem bem pela lei natural, pelos bens do corpo e da alma, que devem amar, também eles, a Deus, por causa do próprio Deus. De fato, para resumir em algumas palavras o que dissemos acima, qual é o infiel que não sabe que recebeu somente dAquele que faz o Seu sol nascer sobre bons e também sobre os maus, e faz cair chuva sobre os santos e também sobre os ímpios, todos os bens necessários à sua vida, dos quais já falei, como o alimento, a luz e o ar? Qual o homem, tão ímpio quanto seja, que atribuirá a excelência particular à espécie humana, que ele vê brilhar em sua alma, a outro a não ser ao que disse em Gênesis: “Façamos o homem a nossa imagem e semelhança” (Gênesis 1:26)? Quem verá o autor da inteligência em outro que não nAquele que ensina tudo aos homens? E de que mão pensaria ele receber ou ter recebido o dom da virtude, se não do Deus das virtudes? O Senhor merece, portanto, ser amado, pelo o que Ele é, pelo infiel, ainda que pouco O conheça, assim mesmo que não conheça a Cristo; também aquele que não ama a Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas as suas forças, não tem desculpas [...].

CAPÍTULO III Motivos que os Cristãos têm a mais que os infiéis para amar a Deus. 7. Os fiéis, ao contrário, sabem o quanto precisam de Jesus crucificado, mas mesmo admirando e recebendo o amor que Ele tem por nós, que está acima de todo entendimento, não demonstram nenhuma confusão em dar nada além do que eles mesmos, por menor que sejam, em retorno a uma caridade e a uma condescendência tão grandes; mas é tão fácil para eles amar mais do que se sentirem eles mesmos mais amados; porque àquele a quem se dá menos amor, esse o sentirá também bem menos. Os judeus não mais que os pagãos, não sentem a excitação pelos mesmos aguilhões do amor que oprimem a Igreja e

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fazem com que ela diga: “Eu fui ferido por amor”; ou ainda: “Sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs, porque desfaleço de amor” (Cânticos 2:5) [...] ela vê o Filho Unigênito do Pai carregando a sua cruz, o Deus de toda majestade atingido por golpes e cuspidas, o Autor da vida e da glória pregado, traspassado, cheio de opróbrios, dando por Seus amigos Sua alma abençoada. Vendo tudo isso, ela sente a espada de dois gumes do amor penetrar mais fundo em seu coração e ela clama: “Sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs, porque desfaleço de amor”. As maças que a Esposa introduziu no jardim de Seu amado tem prazer em colher da árvore da vida, têm gosto do maná do Céu e a cor do sangue do Cristo. E então ela vê a morte golpeada até a morte e aquilo que a fez magnificar o cortejo de seu Vencedor, ela ainda vê este subir triunfante, de debaixo da terra para sobre a terra e da terra para os céus, seguido de uma grande multidão de cativos, de modo que somente ao nome de Jesus, todo joelho se dobra nos céus, na terra e debaixo da terra (Filipenses 2:10). A terra, debaixo da antiga maldição, produzia somente espinheiros e abrolhos; revigorada, então, por uma nova benção, é coberta de flores. Então a esposa lembra-se deste versículo: “O Senhor é a minha força e o meu escudo; nele confiou o meu coração, e fui socorrido; assim o meu coração salta de prazer, e com o meu canto o louvarei” (Salmos 28:7), recobra o ânimo com os frutos da paixão que ela colheu da árvore da cruz, e com as flores da ressurreição cujo perfume delicioso convida o Amado a renovar as Suas visitas. 8. Enfim ela exclama. “Eis que és formoso, ó amado meu, e também amável; o nosso leito é verde” (coberto de flores) (Cânticos 1:16). Falando deste leito, ela deixa claro o que deseja, e, acrescentando que ele está coberto de flores, ela mostra no que estão baseadas as suas esperanças; não é sobre as vantagens de sua pessoa, mas sobre a atração que as flores, colhidas em um campo abençoado por Deus, têm para o seu Amado, porque é o que sentem por Cristo que quis ser concebido e alimentado em Nazaré. Este Esposo celeste, atraído pelo perfume que emana delas, tem prazer em entrar no quarto do coração, quando o encontra cheio de frutas e perfumado pelo aroma das flores. E Ele vem apressadamente e tem prazer em habitar na alma que a Ele contempla em meditação, cuidadosamente dedicada e colhe os frutos de Sua paixão e cultiva as flores de Sua ressurreição. Ora estes frutos da última colheita, isto é de todos os séculos que se foram sob o império da morte e do pecado, que amadureceram na plenitude dos tempos, são as lembranças de Sua paixão. Mas é no esplendor de Sua ressurreição que devemos ver as novas flores dos novos tempos que a graça faz reflorescer para um segundo verão; no final dos tempos, na ressurreição real, elas darão inumeráveis frutos: “Porque eis que passou o inverno; a chuva cessou, e se foi; aparecem as flores na terra, o tempo de cantar chega, e a voz da rola ouve-se em nossa terra” (Cânticos 2:11-12). Ela quer dizer, falando assim, que o verão apareceu com Aquele que fez derreter o gelo da morte para renascer em temperatura

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primaveril de uma nova vida, dizendo: “Eis que faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21:5). Seu corpo, semeado na morte, refloresceu na ressurreição, e, ao perfume que dEle emana, vimos logo nos nossos vales e planícies, o que estava árido, morto ou congelado, cobrir-se de verde, renasce em vida e volta a obter calor. 9. O frescor destas flores. O renovar destes frutos e a beleza deste campo, de onde exalam os mais doces perfumes encantam também o Pai cujo Filho fez novas todas as coisas, e lhe inspiram esta exclamação: “Eis que o cheiro do meu Filho é como o cheiro do campo, que o Senhor abençoou” (Gênesis 27:27). Sim, um campo cheio de flores, pois é de Sua plenitude que recebemos tudo o que temos. Mas a Esposa, ao se agradar dEle, vem colher em sua simplicidade flores e frutos para adornar a morada íntima de sua consciência, para que ao chegar o seu Amado, seu pequeno leito do coração exale os perfumes mais suaves. Portanto, se nós queremos que Cristo faça repetidamente em nós Sua morada, é preciso que nossos corações estejam cheios da fiel lembrança da misericórdia e do poder cujas provas recebemos em Sua morte e em Sua ressurreição. É o pensamento de Davi, quando disse: “Deus falou uma vez; duas vezes ouvi isto: que o poder pertence a Deus. A ti também, Senhor, pertence a misericórdia” (Salmos 62:11-12) Jesus Cristo provou superabundantemente, pois após morrer por nós por nossos pecados, Ele ressuscitou para nos justificar, subiu aos céus para nos proteger, e nos envia o Espírito Santo para nos consolar; e, mais tarde Ele voltará para a consumação da salvação. Ora eu vejo em Sua morte a prova da Sua misericórdia, na ressurreição a prova do Seu poder, e em todo o restante eu as encontro, as duas, reunidas. 10. Se a Esposa pede que a suportemos com flores aromáticas e que a fortaleçamos com frutos cheirosos, eu acho que é porque ela sente que o amor pode perder calor e força; mas ela só terá estímulos até ser introduzida no quarto de Seu amado, sentindo-se coberta de beijos há muito desejados e possa exclamar: “A sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e a sua mão direita me abrace” (Cânticos 2:6). Mas então ela sentirá e verá por si mesma o quanto estas provas de amor que Seu Amado lhe dava da mão esquerda, para assim dizer, pois Ele as dava sem contar nos dias em que estava entre nós, cedem em doçura aos abraços da sua mão direita e os são inferiores, e ela entenderá as Suas palavras. “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita” (João 6:63), e ela penetrará no sentido destas palavras: “Meu espírito é mais doce que o mel e minha herança mais agradável que o mel nas prateleiras”. Se em seguida dissermos: “A memória de meu nome passará de séculos em séculos” é para mostrar que os eleitos que ainda têm sede da presença do Esposo, têm ao menos a lembrança dEle para se consolarem, enquanto durar este século, durante o qual as gerações passam e se sucedem. Se está escrito: “Proferirão abundantemente a memória da tua grande bondade” (Salmos 145:7), certamente ouve-se daqueles cujo o salmista disse anteriormente: “Uma geração louvará as tuas

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obras à outra geração” (Salmos 145:4). Portanto os que vivem na terra possuem para si somente a lembrança do Esposo, e os que nos céus reinam, se alegram de Sua presença; esta última é a glória dos eleitos que já chegaram à salvação, a outra é a consolação dos que ainda estão a caminho.

CAPÍTULO IV Quem são os que acham consolo ao lembrar de Deus, e são mais puros em sentir amor por Ele. 11. Mas é interessante ver quais são os que encontram consolo ao lembrar de Deus. Não são os homens corruptos que irritam Deus sem cessar e a quem Ele diz: “Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação” (Lucas 6: 24), mas os que podem clamar com verdade: “a minha alma recusava ser consolada” (Salmos 72:2); acreditaremos neles voluntariamente, se eles acrescentarem com o Salmista: “Mas eu me lembrei de Deus” e encontrei gozo nesta lembrança (Salmos 72:3). E de fato, é verdade que aqueles que ainda não gozam da presença do Amado, olham para o futuro, e que aqueles que desprezam cavar algumas consolações na torrente das coisas que passam, experimentam coisas abundantes na lembrança das que duram eternamente. Assim são aqueles que buscam o Senhor e a face do Deus de Jacó, ao invés de buscar seus próprios interesses. Para aqueles que suplicam a Deus e buscam a Sua presença com todo desejo, a lembrança é doce; mas bem longe de saciar a sua fome, ela a faz crescer pelo alimento que deve saciá-los. É o que antecipa este alimento que diz, falando dele: “Os que comem ainda terão fome”. É também isto o que diz aquele que disto se alimenta: “eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar [me terás mostrado a tua glória]” (Salmos 17:15). Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos (Mateus 5:6). E maldita serás, raça malvada e perversa, maldito és, povo tolo e insensato, que não amas a sua lembrança e teme a sua presença! Tens razão em temer, pois agora não queres escapar dos caçadores, pois “Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína” (1 Timóteo 6:9); não poderás jamais fugir a esta palavra dura, sim, muito dura e cruel: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno” (Mateus 25:41). Quão mais suave e mais doce é aquela que ouvimos repetir na Igreja, lembrando a paixão: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna” (João 6:54)! O que nos faz dizer: Aquele que honra a minha morte, e, seguindo meu exemplo mortifica a sua carne sobre a terra, terá a vida eterna; ou então, se comigo sofres, também comigo estarás no Reino. E, portanto ainda hoje, muitos, face a estas palavras, se retiram e se afastam dizendo, se não em palavras, mas pelo comportamento: “Duro é este discurso; quem o pode ouvir?” (João 6:60-61). Desta forma

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os homens que, ao invés de conservarem seu coração reto e puro e permanecerem fiéis a Deus, preferiram colocar suas esperanças nas riquezas incertas, não podem agora ouvir falar da cruz; a simples lembrança da paixão lhes parece um peso esmagador; quanto mais serão esmagadoras para estes as palavras do juiz: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mateus 25:41)? Elas esmagarão, como uma rocha aquele sobre o qual cairão. Mas os santos serão benditos; com o apóstolo, eles não têm outra ambição senão “muito desejamos também ser-lhe agradáveis, quer presentes, quer ausentes” (2 Coríntios 5:9). E também ouvirão estas palavras: “Vindes benditos do meu Pai, etc.”. Será então que aqueles que não guardaram seu coração reto, sentirão, porém tarde demais, o quão doce e leve é o jugo e o fardo de Cristo, aos quais orgulhosamente retiraram seu coração endurecido, como se se tratasse de um jugo esmagador e um fardo pesado. Não podeis, ó malditos escravos do dinheiro, gloriar-vos na cruz do nosso Senhor Jesus Cristo e ao mesmo tempo colocar vossa esperança nos tesouros, suplicar por fortuna e experimentar o quanto o Senhor é doce; e então com certeza O temerão muito, quando O verdes, Aquele cuja lembrança não vos pareceu cheia de doçura. 12. E para a alma fiel, ela suspira com todas as suas forças após ter conhecido a Deus, e descansa suavemente em Sua lembrança; ela se gloria das ignomínias da cruz, enquanto não pode ver o Senhor face a face. Eis certamente o repouso e o sono que a Esposa, a colomba de Cristo, experimenta, esperando em meio aos bens que lhes são dados em herança; ela tem, agora, pela lembrança de Sua inefável doçura, ó Senhor Jesus, as asas brancas e prateadas da pureza e da inocência, e mais ainda, ela espera estar embriagada de felicidade quando ela avistar o esplendor em Sua face do ouro [...] e Sua sabedoria inundar de luz na glória e na felicidade dos santos. Portanto bem certa está de gloriar-se desde agora e de dizer: “A sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e a sua mão direita me abrace” (Cânticos 2:6). A mão esquerda do Esposo é a lembrança deste amor do qual ninguém mais pode igualar a grandeza e que O impulsionou a dar a vida por Seus amigos; Sua mão direita é a visão beatificada que Ele prometeu aos Seus e a alegria que os embriagará quando gozarem de Sua Divina presença. Não é por acaso que esta visão Divina e dêitica, esta inestimável felicidade da visão de Deus é representada pela mão direita, pois é desta mão que é mencionado de forma inefável: “tua mão direita há delícias perpetuamente” (Salmos 16:11). É por um motivo semelhante que a mão esquerda é como a sede desta admirável caridade da qual falamos mais acima e da qual não sabemos realmente nos lembrar; pois é nesta mão que a Esposa recosta a sua cabeça esperando que a iniquidade passe. 13. Não, não é por acaso que o Esposo coloca Sua mão esquerda sob a cabeça da Esposa, para que ela possa descansar e repousar o que podemos chamar de cabeça, isto é a profundidade de sua alma, para que ela não se enfraqueça e não se desvie para os desejos

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carnais deste tempo; pois a embalagem terrestre e corruptível do corpo é um fardo pesado para a alma e a faz entrar em tristeza, da qual ela precisa sair, levando em consideração uma misericórdia da qual tínhamos tão pouco direito, um amor tão gratuito e tão bem provado, uma honra tão inesperada, uma bondade indulgente e uma doçura tão perseverante e tão admirável. Como pela meditação cuidadosa de todas estas coisas, não se elevaria a elas o espírito que delas se alimenta, e não se desligaria de todo sentimento ruim? Que profunda impressão terá sobre ele, e como poderia não lhe inspirar desprezo por aquilo que podemos gozar somente se renunciarmos a todas estas grandes coisas? É pelo bom aroma que exalam como tantos perfumes deliciosos que a Esposa se apressa alegremente e se sente consumida de amor; quando ela se vê tão amada, lhe parece que ama tão pouco, ainda que fosse ela mesma todo amor, e ela tem razão de assim crer; de fato, que retorno pode um grão de pó tributar por um amor tão grande vindo de tão alto, quando mesmo se consumiria ele inteiramente de amor e de reconhecimento? Não foi ela alertada pela Divina Majestade, não mostrou-Se inteiramente ocupado em salvá-la? Porque “Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho Unigênito” (João 3:16). Ora obviamente é de Deus Pai que falamos aqui, e, quando foi dito: “porquanto derramou a sua alma na morte” (Isaias 53:12), trata-se aqui do Filho; quanto ao Espírito Santo lemos: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito” (João 14:26). Portanto Deus nos ama e nos ama com todo o Seu ser; pois a Trindade toda nos ama, se é permitido expressar assim, falando do Ser infinito e incompreensível no qual não há partes.

CAPÍTULO V A obrigação de amar a Deus, particularmente para os Cristãos. 14. Quando pensamos em tudo isto, podemos facilmente compreender porque devemos amar a Deus e quais os direitos que Ele tem ao nosso amor. Trata-se do infiel? Como ele não conhece Deus, o Filho, ele está na mesma ignorância em relação ao Pai e ao Espírito Santo; e da mesma forma que ele não glorifica ao Filho, ele não saberia glorificar o Pai que O enviou e nem tampouco o Espírito Santo que é um dom do Filho; ele conhece Deus menos do que nós, portanto não é estranho que O ame menos; todavia, ele não ignora o fato de que deve a si mesmo inteiramente Àquele de Quem ele sabe que recebeu a vida. Mas e quanto a mim? Ora, não posso ignorá-lO, não somente Deus me fez um ser sem que eu o merecesse; não somente Deus supre abundantemente as minhas necessidades, me consola com bondade e me governa com solicitude, porém, mais ainda, é o Autor da minha redenção e da minha salvação eterna; Ele é para mim um tesouro e fonte de glória. De fato está escrito: “Espere Israel no Senhor, porque no Senhor há misericórdia, e nele há

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abundante redenção” (Salmos 130:7), e “Nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção” (Hebreus 9:12); “Porque o Senhor ama o juízo e não desampara os seus santos” (Salmos 37: 28). Ele nos enriquece; de fato, está escrito: “boa medida, recalcada, sacudida e transbordando” (Lucas 6:38). E ainda em outro escrito: “As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam” (1 Coríntios 2:9). Ele nos enche de glória, pois, segundo o apóstolo: “de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso” (Filipenses 3:20-21)”, e mais: “Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada” (Romanos 8:18). “Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente” (2 Coríntios 4:16-17). 15. Que daria eu, portanto, ao Senhor por tudo isto? A razão e a justiça obrigam-me apressadamente a me doar inteiramente Àquele de Quem recebi tudo o que sou, e de consagrar todo o meu ser em amá-lO. A fé me diz também a ter por Ele um amor tal que eu entendo melhor o quanto devo estimá-lO mais do que a mim mesmo, pois se herdei de Sua magnificência tudo o que sou, eu Lhe devo também o Seu próprio dom. Enfim, o dia da fé Cristã não tinha ainda um Deus que se havia encarnado, não havia ainda morrido na cruz e nem descido ao sepulcro, nem subido aos céus ao lado de Seu Pai; digo, Ele não havia ainda rompido toda a extensão do Seu amor por nós, deste amor do qual tive a amabilidade de partilhar mais alto com vocês, o homem já havia recebido a ordem de amar O Senhor seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas as suas forças, isto é, de todo o seu ser, com todo amor que for capaz, como criatura dotada de força e inteligência. E não seria de forma alguma uma injustiça da parte de Deus reivindicar Sua obra e Seus dons. De fato, por que a obra não amaria Aquele que a fez, já que recebeu o poder de amar, e, por que não O amaria com todas as suas forças se é somente dEle que ela as recebeu? Adicione a isso tudo que ele foi tirado do nada sem nenhum mérito anterior, para em seguida ser exaltado; a obrigação de amar a Deus vos parecerá de tanto mais evidente e seus direitos ao nosso amor tanto mais fundamentados. Aliás, não foi Ele ao extremo em Suas bênçãos e Suas misericórdias, quando nos salvou, quando éramos semelhantes aos animais que perecem (Salmos 49:20)? De fato, pelo pecado fomos destituídos do nível de honra que era nosso, para nos tornarmos semelhantes ao boi que ara no campo, e a animais desprovidos de razão. Portanto, se devo me doar completamente ao meu Criador, o que mais não Lhe deveria como meu Restaurador, grande Restaurador? Foi-Lhe muito menos fácil me restaurar do que me criar; pois, para dar vida não somente a mim, mas a

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toda a criação, dizem as Escrituras “pois mandou, e logo foram criados” (Salmos 148:5). Mas para restaurar o ser que, com uma única palavra, feito tão completo, quantas palavras não foram pronunciadas, quantas maravilhas Ele teve que operar, quantos tratamentos cruéis, ou devo ir mais fundo ainda, quantos tratamentos indignos Lhe foram necessários sofrer! “Que darei eu então ao Senhor, em reconhecimento por tudo que fez comigo” (Salmos 116:12)? Quando Ele me criou, deu-me a minha vida: mas a devolveu a mim mesmo quando Se deu por mim; a concedeu-me uma vez, em seguida a devolveu, portanto, por mim, devo duas vezes. Mas o que darei eu a Deus por Ele? Pois, mesmo que eu pudesse me dar a mim mesmo mil vezes, que seria isto comparado a Deus?

CAPITULO VI Recapitulação, sumário dos capítulos anteriores. 16. Reconheçamos então primeiramente em que medida Deus é digno de ser amado, ou melhor, vamos entender que o deve ser sem medida. De fato, para resumir em poucas palavras, Ele nos amou primeiro, Ele tão grande e nós tão pequenos; Ele nos amou com excesso, tal como somos, e sem qualquer mérito nosso; por isso eu disse no começo que a medida do nosso amor por Deus deve ser sem medida ou exceder qualquer medida; aliás, já que este amor é imenso, infinito (pois assim é Deus) eu pergunto, quais seriam o termo e a medida de nosso amor por Ele? Além do mais, o nosso amor não é gratuito; é o pagamento de nossa dívida. Enfim, quando é o Ser imenso e eterno, o próprio amor por excelência, quando se trata de um Deus cuja grandeza é sem limites, a sabedoria incomensurável, a paz excedendo a todo sentimento e todo pensamento; quando, digo, é um Deus tal que nos ama, guardaremos em relação a Ele alguma medida em nosso amor? Eu Te amarei, portanto, Senhor, Tu que és a minha força e meu sustento, meu refúgio e minha salvação, Tu que és para mim tudo o que pode existir de mais desejável e mais amável. Meu Deus e meu sustento, eu Te amarei com todas as minhas forças, não tanto quanto mereces, mas certamente tanto quanto eu puder, se eu não puder o quanto deveria, pois é impossível para mim amá-lO mais do que todas as minhas forças. Poderei amá-lO mais somente quando receber o poder da Sua graça, e ainda assim não será o quanto mereces. Teus olhos veem toda a minha insuficiência, mas eu sei que Tu escreveste no Livro da Vida, todos aqueles que fazem o quanto podem, mesmo que não façam tudo o que devem. Eu já disse o suficiente, se não me engano, para mostrar como Deus deve ser amado, e por quais boas obras Ele mereceu o nosso amor. Eu digo, por quais boas obras, pois por excelência, quem o poderia entender, quem o poderia expressar, quem o poderia sentir?

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CAPÍTULO VII Vantagens e recompensas do amor de Deus. As coisas da terra não podem satisfazer o coração do homem. 17. Vejamos agora quais vantagens existem para nós no amor de Deus. Sim vejamos, mas que relação entre o que veremos e o que é? No entanto, não podemos nos omitir, se bem que a nossa visão não pode englobar toda a verdade. Nós nos perguntamos acima por qual motivo e em qual medida deve-se amar a Deus, e dissemos que esta questão: “por quais motivos devemos amá-lO” apresenta-se sob dois pontos de vista, pois podemos entender desta forma, que direitos tem Deus sobre o nosso amor; ou então, que vantagem nós encontramos em amá-lO? Nós falamos da melhor forma que podíamos, senão de um modo digno de Deus, dos direitos que Ele possui sobre o nosso amor: faremos o mesmo em relação às vantagens que encontramos neste amor; pois, se nós devemos amar a Deus, sem nos preocupar com a recompensa, ainda assim somos recompensados por tê-lO amado. A verdadeira caridade não pode permanecer sem paga, e, no entanto não é nem um pouco mercenária, pois não busca seus próprios interesses (1 Coríntios 8:5); o amor é um movimento da alma e não um contrato; não se pode adquiri-lo em virtude de um acordo, e também nada adquire por este meio; é totalmente espontâneo em seus movimentos e nos faz semelhantes a ele: enfim o verdadeiro amor encontra em si mesmo a sua satisfação. Sua recompensa está no sujeito amado; pois qualquer que seja o sujeito que dizemos amar, se o amamos em vista de outro, então é este que verdadeiramente amamos e não aquele cujo coração usa para atingi-lo. Por isso, Paulo não prega o Evangelho para ter o que comer, mas ele come para poder pregar o Evangelho; pois, o que ele ama não é a comida que ele obtém, mas o Evangelho que ele anuncia (1 Coríntios 9:18). O verdadeiro amor não busca recompensa, mas ele merece uma; é certo que não propomos àquele que ama uma recompensa por seu amor, mas ele merece ser recompensado e o será se continuar a amar. Enfim, em uma ordem de coisas menos elevadas, excitamos a fazê-las, com promessas de recompensas, não aos que acham que são algo, mas os que se doam com pesar. Quem jamais teve a vontade de oferecer a alguém uma recompensa para lhe fazer algo que realmente ansiava fazer? Certamente não damos dinheiro a um homem morrendo de fome e de sede, para incitá-lo a comer ou beber, e nem a uma verdadeira mãe, para que amamente o fruto do seu ventre, e não usamos de orações e promessas para incentivar alguém a cercar a sua plantação, a remoer a terra em volta das árvores ou elevar o muro de sua casa. Por uma razão mais forte ainda, aquele que ama a Deus, não teria necessidade de se sentir atraído por uma recompensa que não seja o próprio Deus; de outra forma não seria a Deus que ele amaria e sim a recompensa. 18. Está na natureza do homem o desejar, cada um conforme a sua tendência e sua percep-

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ção, o que lhe parece melhor do que aquilo que ele já possui, e de nunca estar satisfeito com algo que definitivamente não está de acordo com aquilo que ele queria. Citemos alguns exemplos: Se um homem que tem uma linda mulher, vê uma mais linda, seu coração a deseja, seu olhar arde em desejo; se ele tem uma vestimenta preciosa, ele deseja uma mais sumptuosa ainda; e com as riquezas que ele tem, inveja os que têm mais do que ele. Não é comum vermos homens ricos em terras e em propriedades comprar novos campos, e, nos seus desejos sem fim, recuar constantemente os limites de seus domínios? Aqueles que moram na realeza, em vastos palácios, não cessam de acrescentar a cada dia novos edifícios aos antigos; tomados por uma inquieta curiosidade, não param de construir e destruir, mudando o que está redondo para fazer quadrado. Se falarmos então de homens cheios de homenagens, não aspiram eles constantemente com todas as suas forças com uma ambição cada vez mais difícil de agradar por uma posição ainda mais elevada? Isto não tem fim, porque em todas estas coisas não conseguimos achar um ponto que seria propriamente dito o mais elevado e o melhor. Mas deveríamos estranhar que aqueles que não podem parar enquanto não possuírem o que tiver de maior e mais perfeito, não estejam nunca satisfeitos com o que for pior ou inferior? Mas o que eu acho insensato acima de qualquer expressão, é que desejamos sempre aquilo que não poderia jamais, não digo satisfazer, mas simplesmente adormecer os desejos ardentes. O que quer que seja que nós possuímos, nós não desejamos menos aquilo que ainda não temos e é sempre em relação ao que não temos que suspiramos mais e mais. E então o que acontece? O nosso coração, cedendo aos caprichos variados e enganosos do século, cansa-se inutilmente em sua corrida e não consegue se saciar; está sempre faminto e de nada vale o que já tem com aquilo que ainda lhe resta ter; está bem mais atormentado pelo desejo do que lhe falta do que pela satisfação do que já tem. Não podemos ter tudo e aquilo que temos o adquirimos somente com esforço, o aproveitamos com temor e tendo a dolorosa certeza de perdê-lo um dia, mesmo não sabendo qual será este dia. Este é, portanto, o caminho de uma vontade pervertida que desvia-se do supremo bem; é seguindo esta direção que ela se apressa em atingir o que a deve satisfazer; ou, melhor dizendo, é nestes desvios que a vaidade não se deixa vencer e a iniquidade se engana. Se queremos atingir um objetivo que nos propomos e enfim adquirir aquilo cuja possessão excede a todos os desejos, porque procurar em tantos outros lugares? Isto é afastar-se do reto caminho, e a morte chegará bem antes de atingirmos o alvo desejado. 19. Em todos estes desvios se perdem os ímpios que procuram, por um movimento natural, satisfazer seu apetite e negligenciam, como insensatos, os meios para conseguir o que querem; quero dizer, o de serem consumados e não consumidos. Ora, eles se consumem em vãos esforços e não conseguem chegar a uma felicidade consumada; pois, estão mais afeiçoados às criaturas do que ao Criador, e se voltam a todas elas e as experimentam umas após as outras, antes de pensar em tentar se dirigir ao Senhor que as criou. É aonde

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chegariam certamente, se pudessem um dia cumprir todos os seus desejos, ou seja, de possuir todo o universo, menos o seu Autor, e isto se faria em virtude mesmo da lei de suas concupiscências, que os faz esquecerem do que são, para almejar aquilo que não tem; senhores de tudo o que está no céu e na terra, não tardariam a considerar tudo isto insuficiente e procurariam por fim Aquele que lhes falta ainda para que tenham tudo, ou seja, o próprio Deus. E então, finalmente experimentariam o repouso; pois, se não o podemos achar além deste termo, não saberíamos também sentir a necessidade de ir além; qualquer um que ali se achasse não poderia deixar de exclamar [...] “Quem tenho eu no céu senão a ti? e na terra não há quem eu deseje além de ti” (Salmos 73:25)? E mais ainda: “Deus é a fortaleza do meu coração, e a minha porção para sempre” (v. 26). Eis, portanto, que falei mais alto, como chegaríamos ao supremo bem, se pudéssemos antes provar de todos os bens que se encontram abaixo dEle. 20. Mas é absolutamente impossível proceder desta maneira, a vida é curta demais para isso, falta-nos forças e a quantidade de pessoas que partilham o mesmo caminho é por demais considerável. Além do mais, qualquer um que queira tentar, de todas as criaturas, penará inutilmente, pois pelo longo caminho que se propõe a percorrer, não conseguiria chegar ao fim e experimentar tudo aquilo que deseja ardentemente em suas concupiscências. Por que não fazer todas estas tentativas em espírito ao invés da realidade? Seria mais fácil e mais vantajoso; o espírito recebeu uma atividade e uma perspicácia maiores que as do coração, precisamente afim de poder estar adiante em tudo, para que o coração não tenha a imprudência de se apegar ao que o espírito, que vai mais rápido que ele, ainda não achou útil. [...] Está escrito: “Examinai tudo, retende o bem” (1 Tessalonicenses 5:21), afim de que o primeiro prepare o terreno ao outro, e que o coração se apegue somente em consequência do julgamento feito pelo espírito. Não podemos de outra forma subir ao monte do Senhor (Salmos 24:3) e descansar em Seu santuário, pois é em vão que possuímos uma alma, isto é, uma alma racional, pois a exemplo dos animais nós a deixamos levar-se por impulso vindo dos sentimentos enquanto a razão se cala e não oferece nenhuma resistência. Aqueles cuja a razão não esclarece o caminho, nem por isso correm menos, mas estão fora da reta, e, apesar dos conselhos do apóstolo, não estão correndo de forma a conquistar a vitória (1 Coríntios 9:24); de fato, quando poderiam obtê-la, se a querem somente após ter conseguido todo o resto? Seria pegar um caminho cheio de desvios e engajar-se em um circuito sem fim de querer experimentar de tudo começando do começo. 21. Não é assim que o justo procede. Ferido pela desaprovação direcionada a todos aqueles que se engajaram nestes desvios, pois o caminho que conduz à perdição é largo e frequentado pela multidão, ele prefere o caminho real que não se desvia nem para a esquerda e nem para a direita, conforme as palavras do profeta; “O caminho do justo é todo

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plano; tu retamente pesas o andar do justo” (Isaías 26:7). De fato, ele toma o caminho mais curto para evitar sabiamente os longos e inúteis desvios, e ele experimenta uma palavra tão simples quanto simplificadora, não desejar o que vemos, vender o que temos e o dar aos pobres, pois, bem-aventurados são certamente os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus (Mateus 5:3); bem sabe ele que todos os que correm no estádio não chegarão na mesma posição (1 Coríntios 9:24). Enfim, porque o Senhor conhece e aprova o caminho dos justos (Salmos 1:6), e conhece também o do pecador que só pode perecer; vale mais o pouco que tem o justo, do que as riquezas de muitos ímpios (Salmos 37:16), pois, o sábio disse e o insensato o provou “quem amar o dinheiro jamais dele se fartará” (Eclesiastes 5:10), “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos” (Mateus 5:6); um espírito reto faz da justiça seu alimento vital e natural, quanto ao dinheiro, a alma não se alimenta mais do que o corpo do ar que respira. Se olhássemos para um homem, desesperado de fome, respirar fundo, aspirando profundamente para matar a fome, o chamaríamos de tolo; assim são aqueles que pensam matar a fome da alma, quando a preenchem com coisas corporais que lhe dão de fato, mas o que importa isso para o espírito? Não se alimenta ele mais do que o corpo com coisas espirituais. “Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome” (Salmos 103:1); Ele te dá abundância de bens, e, ao mesmo tempo, te excita ao bem, te fixa no bem. Ele te provê, te sustenta, te abençoa abundantemente; Ele ascende em ti os desejos, e Ele próprio os incendeia. 22. Eu já disse, o motivo do amor de Deus é o próprio Deus, e estou certo em dizer isto, pois Ele é de fato a causa ao mesmo tempo eficiente e final do nosso amor. Pois é Ele quem faz nascer a ocasião para o amor, Ele é que o incendeia e ainda Ele o enche de desejos. Ele faz com que O amemos, ou melhor, Ele é tal que não tem como não ser alvo do nosso amor; Ele o é também de nossa esperança: se não esperássemos ter a alegria de amá-lO um dia, O amaríamos agora em vão. Seu amor prepara e abençoa o nosso. Em Sua bondade excessiva Ele começa por prover em nós, e então nos cobra merecidamente de volta, e, futuramente, Ele nos reserva as mais doces esperanças. Ele é rico para todos os que O invocam; porém, em toda a Sua riqueza, nada é mais valioso do que Ele. Ele é [...] nossa recompensa, é alimento das almas santificadas e o regaste das que estão cativas. Se já és para a alma que Te busca uma fonte de felicidade, o que serás, Senhor, para aquela que Te achou? [...] Falamos sobre a consumação do amor a Deus, falemos agora quais são os começos.

CAPÍTULO VIII Nós começamos por nos amar para nós mesmos;

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é por nós o primeiro grau do amor. 23. O amor é um dos quatro [Bernardo reconhecia apenas quatro sentimentos principais: o amor, o medo, a alegria e a tristeza] sentimentos naturais que todo mundo conhece e que é por consequência inútil nomear. Ora o que é natural e o que seria justo, seria de, antes de qualquer coisa, amar o Autor da natureza: também, o primeiro e maior mandamento é este: “Amarás o Senhor teu Deus” (Mateus 22:37). Mas a natureza é frágil demais e muito fraca para tal preceito, por isso começa por amar-se a si mesma; é este amor que chamamos de carnal, e cujo homem se ama antes de qualquer outra coisa e para ele, assim está escrito: “Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual” (1 Coríntios 15:46). Não é em virtude de um preceito que as coisas acontecem desta forma, é fato da natureza. De fato, vemos alguém odiar a sua própria carne (Efésios 5:29)? Mas se este amor, como de costume acontece, tiver muita liberdade, se ele se expandir um pouco além, se sair do campo da necessidade e se esparramar nos campos da sensualidade, como um rio cujas águas se enchem, e transbordam; de súbito então se levanta para contê-lo, o dique do preceito que nos ordena “amar o próximo como a si mesmo” (Mateus 22:39). Nada mais justo, aliás, que aquele que partilha conosco a natureza, partilhe também os sentimentos da qual ela é a fonte em comum? Se, portanto, é pesado demais a um homem pensar, não digo às necessidades de seus irmãos, mas aos seus prazeres, que ele se modere ele mesmo no espaço dos seus próprios; ou então ele seria culpado. Que pense nele o quanto quiser, contanto que seja para os outros, o que é para si mesmo. Tais são, ó homem, o freio e a justa medida imposta pela lei do teu ser e da tua consciência para que não caia na armadilha de tuas concupiscências e não corras para a perdição, colocando os bens da natureza a serviço dos inimigos de tua alma, ou seja, das paixões. Mais vale partilhar com teu semelhante, ou seja, teu próximo do que com teu inimigo. Mas se, segundo o conselho do sábio, o homem renunciar às suas paixões, se contentar, segundo a doutrina do apóstolo, com o alimento e as vestes (1 Timóteo 6:8), e se ele se resignar voluntariamente a amar menos as coisas da carne que combatem contra o espírito (1 Pedro 2:11), ele não terá dificuldade, penso eu, em dar ao seu semelhante ao que ele recusa ao inimigo de sua alma. Seu amor ficará guardado nos limites da justiça e da moderação, do momento em que ele consagrar às necessidades de seus irmãos tudo aquilo que recusa às suas próprias paixões. É assim que o amor pessoal torna-se um amor fraternal, saindo de dentro pra fora. 24. Mas se, enquanto partilhamos com o próximo, vier a nos faltar o sustento, o que fazer? Nada além de orar com confiança Àquele que nos dá abundantemente, sem jamais nos recusar os Seus dons (Tiago 1:5), “Abres a tua mão, e fartas os desejos de todos os viven-

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tes” (Salmos 145:16); pois não podemos duvidar dAquele que não recusa nem mesmo o supérfluo para a maioria dos homens, vindo de bom grado ao socorro daqueles que estão necessitados. Pois Ele disse: “Buscai antes o reino de Deus, e todas estas coisas vos serão acrescentadas (Lucas 12:31), Ele portanto, se comprometeu a dar o necessário àquele que restringe o seu supérfluo e ama seu próximo; de fato, isto é buscar primeiro o Reino de Deus e implorar Seu socorro contra a tirania do pecado de suportar o jugo da pureza e da sobriedade, ao invés de permitir que o pecado reine em nosso corpo perecível. Ora ainda é justo partilhar o que recebemos das bênçãos da natureza com aqueles com quem já dividimos a própria natureza. 25. Mas, para que nosso amor ao próximo seja impecável, é preciso que Deus esteja envolvido; é de fato possível amar o próximo verdadeiramente, se não for em Deus? Ora, qualquer que não tenha sido instruído em amor, não saberia amar em Deus; é preciso, portanto começar por amar a Deus, se queremos amar o próximo nEle, de modo que Deus que é o autor de todos as outras bênçãos, o é também de nosso amor por Ele, eis como não somente Ele criou a natureza, mas ainda como Ele a sustenta, pois é tal que, após receber a existência, ainda precisa dAquele que lhe a concedeu e que lhe conserva; se ela pode somente existir nEle, ela não pode subsistir sem Ele. É para que nos convençamos e que não nos atribuamos com orgulho as bênçãos das quais lhes somos devedores, que o Criador, com profunda e salutar intenção, quis que fôssemos sujeitos a tribulações: assim, se enfraquecemos, Deus vem ao nosso socorro e, salvos por Deus, nós Lhe rendemos a honra que Lhe convém. É o que diz Ele mesmo: “E invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás” (Salmos 50:15). Eis porque o homem animal e carnal, que de início sabia apenas amar a si mesmo, começa, então, mas ainda para ele mesmo, a amar a Deus, vendo, pela sua própria experiência, que todo o seu poder, pelo menos para o bem, vem dEle e que sem Ele, ele não pode absolutamente nada.

CAPÍTULO IX Segundo e terceiro graus do amor. 26. Agora então, o homem já sente amor por Deus, mas ele O ama ainda para si mesmo e não para Deus. No entanto, existe-lhe alguma sabedoria própria em saber do que é capaz por ele mesmo e o que ele não pode fazer sem a ajuda de Deus, e de se manter impecável aos olhos dAquele que lhe conserva todo poder intacto. Mas que o cortejo das tribulações fundamenta sobre ele e o obriga a recorrer a Deus, se ele recebe a cada vez o socorro que o livra, não deveria ter ele um coração de mármore ou bronze para não ser tocado cada vez que foi socorrido, pela bondade de seu Libertador e de não começar a

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amá-lO por Ele mesmo e não mais somente pra ele. Pois a frequência das tribulações nos obriga a recorrer frequentemente a Deus, ora é impossível voltar a Ele frequentemente e não experimentar dEle, e é impossível experimentar dEle sem perceber o quanto Ele é doce. Assim acontece que logo somos levados a amá-lO verdadeiramente, muito mais por causa da doçura que encontramos nEle do que por causa do nosso próprio interesse, de modo que, a exemplo dos samaritanos dizendo à mulher quem lhes havia anunciado a vinda do Messias entre eles, “E diziam à mulher: Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo” (João 4:42). Nós também dizemos à nossa carne: agora não é mais por tua causa que amamos o Senhor, mas porque nós mesmos experimentamos e temos reconhecido o quanto Ele é doce. As necessidades da carne são uma espécie de linguagem que proclama em movimentos de alegria e felicidade, as bênçãos que, por experiência ela reconheceu a grandeza. Quando chegamos neste ponto, já não é mais difícil cumprir o preceito de amar ao próximo como a si mesmo: pois, se amamos a Deus verdadeiramente, amamos também o que é dEle, nosso amor é casto e conseguimos nos submeter ao preceito que diz: “ele torna puro o nosso coração por obediência e por amor” (1 Pedro 1:22); Ele é justo e nós cumprimos voluntariamente um tão justo mandamento, enfim, cheio de encanto e interesse, pois é totalmente desinteressado. É, portanto, um amor cheio de castidade, já que não se manifesta nem por gestos e nem por palavras, mas por obras e pela verdade; é um amor cheio de justiça, pois entrega o tanto quanto recebe. Qualquer um que ama este amor, ama tanto quanto é amado e busca então somente os interesses de Jesus Cristo, e não os seus próprios interesses, da mesma forma que Jesus procurou os nossos, ou melhor nos procurou a nós mesmos. Eis o amor daquele que diz: “Louvai ao Senhor, porque Ele é bom (Salmos 118:1). Aquele que louva ao Senhor, não somente porque o Senhor é bom para ele, mas simplesmente porque o Senhor é bom, ama verdadeiramente Deus pelo o que Ele é e não por si mesmo. Não acontece desta forma para aquele que quem está escrito: “Ele vos louvará quando lhe tiveres feito o bem”. O terceiro grau do amor é, portanto, de amar a Deus pelo que Ele é.

CAPÍTULO X O quarto grau do amor é de somente se amar para Deus. 27. Bem-aventurado aquele que pode subir até o quarto grau do amor e que conseguiu se amar apenas para Deus. “Tua justiça é como as grandes montanhas” (Salmos 36:6); é a

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mesma coisa para este quarto amor, é um monte muito elevado, uma montanha abundante em pasto e fértil, “Quem subirá ao monte do Senhor” (Salmos 24:3)? Quem me dará asas como as da colomba, para que eu possa voar até o topo e ali repousar? Um lugar tranquilo, a morada de Sião. Ah! Quão longo é meu exílio! Quando então se elevará até lá a carne e o sangue, o barro e o pó de que fui feito? Quando então, embriagado pelo amor de Deus, minha alma se anulando e não se estimando mais do que um vaso trincado, lançar-se-á em direção a Deus, se perderá nEle e, sendo um só e mesmo espírito com Ele (2 Coríntios 6:17), quando poderá clamar: “A minha carne e o meu coração desfalecem; mas Deus é a fortaleza do meu coração, e a minha porção para sempre” (Salmos 73:26)? Santo e bemaventurado clamarei, eu que pude algumas vezes, raramente, uma só vez de fato, experimentar algo parecido durante esta vida mortal, quando na verdade o teria sentido um só minuto, um só instante e como que às escondidas! Pois não é uma felicidade humana, mas já a vida eterna de se perder a si mesmo de certa forma, como se não mais existíssemos, de não ter mais ciência de si mesmo, de estar vazio de si e quase reduzido a nada; se acontecer a um mortal de subir até este nível, mesmo que só de passagem, assim como o dizíamos, por um segundo, e por assim dizer, às escondidas, este século mal parece estar com ciúmes e vem perturbar sua felicidade; este corpo de morte o chama a descer, as preocupações e necessidades da vida pesam sobre ele fortemente, a corrupção da carne recusa sustentá-lo, e, acima de tudo, o amor dos seus semelhantes lhe lembra com grande violência e força, oh pesar! Em voltar, cair em si e clamar. “Senhor, eu que sofro dos males de uma violência extrema, responda por mim”, ou ainda: “Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7:24)! 28. As Escrituras dizendo que Deus tudo fez para Ele; é preciso que as criaturas se conformem e se coloquem, ao menos algumas vezes, no pensamento do Autor. Devemos, portanto, também entrar neste sentimento e nos render totalmente a Ele, ao Seu bel prazer, não ao nosso [...]. Encontraremos a nossa felicidade bem menos no nosso sustento de cada dia e nas bênçãos que temos como herança, do que no cumprimento de Sua vontade em nós; aliás, é justamente o que pedimos todos os dias orando: “seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu” (Mateus 6:10). Oh puro e santo amor! Oh doce e santa afeição! Oh, submissão da alma inteira e desinteressada! Tanto mais inteira e desinteressada que é exemplo de todo retorno a si mesma, tanto mais tenra e doce que tudo o que a alma sente nessa ocasião é Divino. Chegar neste ponto é ser exaltado. Da mesma forma que uma gotinha de água junto a uma grande quantidade de vinho parece desaparecer tomando o gosto e a cor deste líquido; da mesma forma ainda que, na fornalha onde é mergulhado, o ferro parece perder a sua natureza e mudar-se em fogo; ou ainda como o ar penetrado pelos raios de sol torna-se em luz e parecer mais alumiar do que ser ele próprio alumiado: assim acontece para os santos em todos os seus sentimentos humanos; parece que se fundem e fluem na vontade de Deus. De outra forma, se ficasse ainda algo do homem no

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homem, como poderia ser Deus tudo em todos? Sem dúvida, a natureza humana não se dissolveria; mas seria diferentemente bela, gloriosa e poderosa. Quando isto se dará? A quem isto será dado de ver e experimentar? “Quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus?” (Salmos 42:2)? Senhor meu Deus, falou a Ti meu coração, meus olhos Te buscaram; esforçar-me-ei, Senhor, em contemplar a Tua Face. Seria-me permitido ver o Teu santo templo? 29. Em minha opinião, não creio que possamos observar perfeitamente este preceito: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento” (Mateus 22:37), enquanto o coração se vê obrigado a cuidar do corpo, que a alma não é dispensada de velar em conservá-lo cheio de vida e de sensibilidade no estado presente, e que sua energia, liberada de todos os sofrimentos, não se apoia sobre a própria força de Deus, pois, ela não saberia aplicar-se a Deus e contemplar apenas a Sua face Divina, enquanto ela tem que velar sobre o corpo frágil e infeliz dando-lhe cuidados. Que não espere, portanto, atingir este terceiro grau do amor, ou melhor, de ser ela mesma atingida, somente quando estiver revestido de um corpo espiritual e imortal, puro e calmo, obediente e submisso em tudo ao Espírito, o que só pode ser obra do poder de Deus em favor daqueles que Ele escolhe e não obra de um homem. Eu digo, portanto que a nossa alma chegará facilmente a este grau supremo do amor, quando as preocupações ou caprichos da carne não farão mais obstáculo à sua caminhada rápida e apressada em direção à felicidade que ela deve encontrar no Senhor. [...] os santos mártires, antes mesmo que a alma deles deixasse seus corpos vitoriosos, experimentaram ao menos em parte esta felicidade? Em todo caso é certo que um imenso amor fluía em suas almas, para dar-lhes forças para exporem suas vidas e desprezar as tormentas. Como eles o fizeram. Não obstante, não podemos duvidar que os terríveis suplícios que sofreram não tenham alterado, ou até destruído, a alegria de suas almas. a) [...] O que para nós está prescrito para esta vida não é, portanto, a perfeição absoluta do amor, mas o desejo desta perfeição. De maneira que, tanto quanto a fraqueza humana o permitir, estejamos constantemente ocupados somente com o pensamento, o amor, a união e a vontade de Deus.

CAPÍTULO XI O amor perfeito só será partilhado entre os santos após a ressurreição geral. 30. Mas o que pensar das almas que já deixaram seus corpos? Eu creio que estão mergulhadas inteiramente no oceano sem fim da luz eterna e da eternidade luminosa. Mas se

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ainda aspiram, o que não saberíamos negar, em se juntar ao corpo que outrora animaram, se nutrem o desejo e a esperança, é evidente que não são totalmente diferentes do que eram, e que ainda lhes resta algo que atrai sem dúvida bem pouco, mas que, entretanto, atrai a sua atenção. Também, enquanto a morte não for absorvida totalmente em sua vitória, que a luz eterna não tenha sido invadida de toda parte o domínio da noite e que a glória celeste não se expanda também em nossos corpos, as almas não podem se lançar e passar totalmente em Deus, os elos do corpo ainda as retêm aprisionadas, senão pela vida e pelo sentimento, ao menos por uma certa afeição natural que não lhes deixa nem a vontade e nem o poder de atingir a consumação Também, até que seus corpos lhe sejam devolvidos, as almas não experimentarão esta fraqueza em Deus que é para elas a suprema perfeição, não buscariam esta união se, para elas, tudo estivesse consumado, sem tê-la encontrado; mas se for um progresso para a alma de deixar seu corpo, é uma perfeição de reavê-lo. Por fim, “Preciosa é à vista do Senhor a morte dos seus santos” (Salmos 116:15); se podemos falar assim da morte, que diríamos da vida, e principalmente desta vida em questão? [...] Assim, a alma que ama a Deus tira vantagem de seu corpo fraco e enfermo, seja ele morto, vivo ou ressuscitado; durante a vida, ele produz com ela frutos dignos de arrependimento; na morte, ele lhe serve para seu repouso, e após a ressurreição, ele concorre à consumação de sua felicidade. Portanto, ela tem razão de não se achar perfeita sem ele, porque ela o vê contribuir com ela para o bem de cada um destes três estados. 31. O corpo é para a alma um bom e fiel companheiro: se ele for para ela um fardo, ele é ao mesmo tempo uma ajuda; quando cessa de ajudá-la, cessa igualmente de pesar sobre ela; enfim, ele vem ajudar e não é mais um fardo para ela. O primeiro estado é laborioso, mas útil; o segundo desocupado, mas de forma alguma tedioso, e o terceiro é glorioso. Ouçam como o Esposo dos Cânticos convida a alma para esta tripla sucessão: “Amigos meus, comam e bebam, embriaguem-se, meus tão caros amigos” (Cânticos 5:1). As almas que ele convida a comer são aquelas que trabalham em seus corpos; teriam elas os deixado para se repousar na morte, ele as chama para beber, ele se apressa em embriagá-las quando tornam a eles, e se ele as chama de “caros amigos”, indicando que estão cheias de amor; porque às primeiras, ele diz apenas: “Amigos”, esperado que aquelas que gemem, ainda sob o peso de seus corpos [...]. Quanto às que são libertas das entravas do corpo, lhe são tanto mais caras que adquiriram mais independência e facilidade para amá-lO. Mas, comparando as almas colocadas em uma ou outra destas condições, ele as tem como caríssimas, como lhe são de fato para Ele, aquelas que se encobriram com sua segunda veste reavendo seu corpo na glória, e são levadas a amar a Deus com muito mais liberdade e alegria que não lhes sobra mais nada atrás delas para retardar ou impedir o impulso. Ora, não é da mesma forma para nenhum dos dois primeiros casos; de fato, o corpo em um faz sentir seu peso e cansaço à alma e, no outro, é para ela um objeto de uma esperança onde se mescla algum desejo pessoal.

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32. A alma fiel começa então por comer seu pão, mas infelizmente! No suor de seu rosto (Gênesis 3:19); de fato, enquanto ela mora no corpo anda tão somente pela fé, que deve operar pelo amor, pois sem obras a fé é morta. Ora, são as obras, o seu alimento segundo o que diz o Senhor: “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” (João 4:34). Quando ela deixou sua carcaça mortal, ela cessa de comer o pão da dor, e, como no fim da refeição, começa a beber em grandes goles o vinho do amor; mas uma bebida não desprovida totalmente de misturas, como diz o Esposo de Cânticos, que diz: “bebi o meu vinho com meu leite” (Cânticos 5:1), porque no vinho do amor de Deus, a alma deseja reunir-se ao seu corpo, mas ao seu corpo que se tornou glorioso, mistura-se o leite cheio de mel de um afeto natural: ela já sente bem a influência da brisa do vinho do amor divino que ela bebe, mas ainda não chega a embriagar-se; o leite misturado ao vinho tempera a força; a embriaguez confunde o espírito até perder as lembranças de si próprio; e a alma que pensa da ressurreição futura do corpo que lhe pertenceu, ainda não perdeu completamente a lembrança de si própria. Mas após ter obtido a única coisa que ainda lhe falta, o que poderia doravante impedi-la de, de alguma forma, deixar-se a si mesma, para mergulhar totalmente em Deus, e de parecer ao menos o que lhe é permitido se tornar mais semelhante a Deus? Podendo então aproximar seus lábios da taça de sabedoria da qual está escrito: “Que meu cálice transborda” (Salmos 23:5)! Não devemos nos espantar se ela se embriaga da abundância que está na casa de Deus; livre de toda preocupação no que lhes diz respeito, ela bebe a grandes goles e tranquilamente, no Reino do Pai, o vinho puro e novo do Filho. 33. Ora é a sabedoria que dá esta tríplice festa onde serve apenas os manjares de amor; ela dá pão de comer aos que ainda trabalham, vinho de beber aos que já estão gozando o repouso e ela serviria embriaguez àqueles que entraram no Reino dos Céus; o que fazemos em mesas comuns, ela o faz à sua mesa, e só serve de beber após os convidados terem se servido de alimento. Enquanto estamos nesta vida, revestidos de um corpo mortal, nós ainda apenas comemos o pão dos nossos esforços, e só o engolimos depois de ter exaustivamente triturado entre os dentes; tão somente tenhamos devolvido o último suspiro, que nós começamos a beber na vida espiritual, onde nos servimos, com um relaxamento cheio de doçura, a bebida que nos é dada; depois, quando recobramos o nosso corpo devolvido à vida, nós bebemos amplamente a embriaguez em uma vida que não deve acabar. Este é o sentido das palavras do Esposo: “comei, amigos, bebei abundantemente, ó amados (Cânticos 5:1)! Comam nesta vida, bebam após vossa morte, embriaguem-se após a ressurreição, vós que então chamo com razão de Meus amados, pois estais embriagados de amor. Como não o seriam quando são aceitos nas bodas do Cordeiro, sentados à Sua mesa, bebendo e comendo em Seu reino, enquanto faz aparecer diante de Si a Sua Igreja cheia de glória, sem mácula e sem rugas, nem coisa semelhante (Efésios 5:27)? Então, eis que embriaga Seus melhores amigos e os farás beber da corrente de Suas delícias (Salmos

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36:8); pois, durante os vivos e castos abraços do Esposo e da Esposa, há um rio cujas correntes alegram a cidade de Deus (Salmos 46:4), o que para mim nada mais é do que o Filho mesmo de Deus, que passa como que servindo Seus convidados (Lucas 12:37) como prometeu, a fim de que alegrem-se os justos, e se regozijem na presença de Deus, e folguem de alegria (Salmos 68:3). Eis de onde vem esta satisfação, que não é seguida de desgosto; este ardor insaciável, portanto, calmo e tranquilo de ver; este eterno e incomparável desejo de ter, que não tem sua fonte na privação, enfim esta embriaguez sem excesso, que mergulha e se afoga, não no vinho, mas em Deus e na verdade. A alma chegou, portanto, para sempre ao quarto grau do amor, quando ama somente a Deus e O ama unicamente; pois, neste caso, não nos amamos mais para nós, mas para Ele, de modo que Ele é a recompensa, o eterno galardão daqueles que O amam e O amam para sempre.

CAPÍTULO XII Fragmento de uma carta aos Chartreux (religiosos da ordem de São Bruno) sobre o amor. 34. Eu me lembro de ter escrito no passado aos santos religiosos da Chartreuse, uma carta (a décima primeira), onde eu falava dos graus do amor, e talvez falasse de outras coisas mais, porém era sempre sobre o mesmo assunto, por isso acho interessante trazer aqui algumas passagens desta carta, além do que me é mais fácil recopiar o que já escrevi do que escrever algo novo. Eu digo, portanto que o amor verdadeiro e sincero, que vem realmente de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera, é aquele que nos faz amar o bem alheio como o nosso. Porque aquele que ama apenas o que lhe diz respeito, ou ao menos que ama mais aquilo que lhe diz respeito do que aquilo que diz respeito aos outros, mostra bem que não tem um amor puro e que não ama o bem para o bem e sim como que para ele: portanto, ele não pode obedecer ao profeta que lhe diz: “Louvai ao Senhor, porque Ele é bom” (Salmos 118:1). Talvez ele O louve porque Ele é bom para ele, mas não Lhe dá a devida glória por Ele ser bom em Si mesmo [...]. Existem homens que glorificam ao Senhor porque Ele é poderoso; acontece que dão glória porque Ele é bom para ele; enfim, vemos alguns que celebram em louvores simplesmente porque Ele é bom. Os primeiros são escravos que estremecem; os segundos, mercenários que buscam os seus interesses, e os últimos são os verdadeiros filhos que pensam somente no Pai. Ora, os primeiros e os segundos pensam somente neles, e somente os verdadeiros filhos não são interesseiros em relação ao Seu amor (2 Coríntios 13:5), e é sobre eles, penso eu, que foi escrito: “A lei do Senhor é perfeita e refrigera a alma” (Salmos 19: 7); de fato apenas ela pode mesmo arrancar a alma do amor a si mesma ou ao mundo, para voltála em direção ao amor a Deus, o que evidentemente não saberiam fazer nem o medo e

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nem o amor interesseiro; estes bem podem influenciar na aparência ou na própria conduta, mas não tocam o coração. É certo que uma alma servidora faz de vez em quando a obra de Deus, mas como não age espontaneamente, ela persevera em sua insensibilidade. É a mesma coisa para a alma mercenária; mas, como ela não age com desinteresse, ela evidentemente só cede aos pensamentos de seu próprio interesse. Ainda mais, quando dizemos próprio, dizemos individualmente e por consequência, limitado; ora, nos esconderijos das beiras, dos limites, encontram-se a ferrugem e o lixo. Que a alma servil tenha a sua lei no temor que a domina, até aceito; que a mercenária a tenha no interesse privado que a sufoca, quando as tentações da concupiscência a atraem e a levam para o mal; mas nem o medo e nem o interesse privado é sem tarefa ou, ao menos, não pode converter as almas, isto só é possível ao amor, que age sobre a vontade. 35. Ora eis em que eu a considero sem mácula, é que ordinariamente ele não reserva para si nada do que lhe pertence; aquele que não guarda nada para si, dá para Deus, certamente, tudo o que ele tem; ora o que Deus possui não pode estar viciado. Também, esta lei de Deus sem mácula e sem sujeira não é outra além do amor, que não busca seus interesses, mas o interesse dos outros. Nós a encontramos na lei de Deus, talvez porque ela é a própria vida de Deus, ou porque ninguém a possui se não a receber de Deus. Não é nada absurdo dizer que esta lei é a própria vida de Deus, já que eu digo que não é nada além de caridade. De fato, de onde vem, na suprema e bem-aventurada Trindade esta unidade inefável e perfeita que é própria dEle? Não seria isto caridade? Portanto, é ela a lei do Senhor, porque é ela que, se eu posso dizer assim, coloca a unidade na Trindade e a liga no elo da paz. No entanto, não se deve crer que faço aqui da caridade uma qualidade ou um “acidente” em Deus; seria dizer, (que Deus me proteja) que nEle há algo que não seja Ele; ela é a substância de Deus Ele mesmo, não estou dizendo algo novo ou algo inovador, pois, Deus é amor, segundo o próprio São João (1 João 4:8). Podemos, portanto, dizer, com razão, que o amor é o próprio Deus e ao mesmo tempo um dom de Deus. O amor concede amor, a substância, o evento. Quando falo dAquele que dá, eu falo da substância, e quando eu falo do que é dado, eu falo do evento; ela é a lei eterna, criativa e moderadora do universo; se todas as coisas foram feitas com peso, número e medida, é por ele que o foram. Nada existe sem lei, nem mesmo Aquele que é a lei de tudo; é verdade que Ele tornou-se Ele mesmo a lei que O rege, mas uma lei não criada como Ele.

CAPÍTULO XIII Da lei da vontade própria e da concupiscência, que é a dos escravos e dos mercenários. 36. Quanto ao escravo e ao mercenário, são também tanto um quanto o outro uma lei, mas

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não a receberam do Senhor; eles a fizeram por eles mesmos, um não amando a Deus e o outro não O amando sobre todas as coisas: a lei deles, eu repito, é deles e não a de Deus na qual ao menos a deles é submissa, pois, se eles puderam fazer cada um uma lei, não a puderam subtrair à ordem imutável da lei Divina. Aos meus olhos, é fazer uma lei para si mesmo, que de preferir a sua vontade própria à lei eterna e comum, e, por uma imitação do Criador, que eu a chamarei de contrária à ordem, reconhecer a si mesmo como mestre, nem outra regra do que a sua própria vontade, a exemplo de Deus, que é Sua própria lei e depende apenas de Si mesmo. Infelizmente! Para todos os filhos de Adão, que esta vontade que inclina e curva nossas testas até nos aproximar do inferno, (“Estou contado com aqueles que descem ao abismo”) (Salmos 88:4), é um fardo pesado e insuportável. “Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?!” (Romanos 7:24)? “Se o Senhor não tivera ido em meu auxílio, a minha alma quase que teria ficado no silêncio (Salmos 94: 17). Era sob o peso deste fardo que gemia aquele que dizia: “Se pequei, que te farei, ó Guarda dos homens? Por que fizeste de mim um alvo para ti, para que a mim mesmo me seja pesado?” (Jó 7:20). Para estas palavras: “para que a mim mesmo me seja pesado”, queria dizer que ele havia se tornado sua própria lei e até autor desta lei. Mas quando ele começa a dizer a Deus: “Porque fizeste de mim um alvo para ti”, ele mostra que não se subtraiu à ação da lei Divina; pois, ainda é próprio desta lei eterna e justa, que todo homem que recusa submeter-se ao seu doce império torna-se seu próprio tirano, e que todos os que rejeitam o jugo suave e o fardo leve do amor são forçados a gemer sob o peso esmagador de sua própria vontade. Assim, a lei Divina fez de um modo admirável, daquele que O abandona, ao mesmo tempo um adversário e um sujeito; pois, de um lado, ele não pode escapar da lei e da justiça, segundo aquilo que merece, e do outro, ele não se aproxima de Deus, nem de Sua luz, nem em Seu repouso, nem na Sua glória: portanto, ele está ao mesmo tempo prostrado diante do poder de Deus, e excluído da felicidade Divina. Senhor meu Deus, porque não apagas o meu pecado e porque não fazes desaparecer a minha iniquidade, afim de que, lançando o peso esmagador de minha vontade própria eu respire sob o fardo leve do amor, e que, não mais estando sujeito às entranhas do temor servil e nem às expectativas da ganância mercenária, eu seja levado apenas pelo Teu sopro do Espírito, porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus esses são filhos de Deus (Romanos 8:14)? Quem dará de mim testemunho e me dará a certeza de que eu também faço parte dos Teus filhos, que a Tua lei é a minha e que eu estou no mundo assim como estais também? Porque é certo que, quando observamos este preceito do apóstolo: “A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei” (Romanos 8:8), estamos neste mundo como o próprio Deus está, e portanto, não somos nem escravos, nem mercenários, mas filhos de Deus.

CAPÍTULO XIV

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Da lei do amor que é para os filhos. 37. Por este caminho, portanto, vemos que os filhos não estão sem lei, a menos que pensemos ao contrário, porque está escrito: “a lei não é feita para o justo” (1 Timóteo 1:9). Mas precisamos saber que existe uma lei promulgada no espírito de servidão, e esta imprime apenas medo; e que há outra ditada pelo espírito de liberdade, esta inspirando apenas a doçura. Os filhos não são constrangidos a se submeter à primeira, mas estão sempre sob o império da segunda. Eis, portanto, em que sentido é dito que a lei não é feita para os justos, conforme estas palavras do apóstolo: “Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor” (Romanos 8:15); não obstante, como devemos entender, que não estão sem a lei do amor, conforme este outro trecho: “Vocês receberam o espírito de adoção, sendo feitos filhos de Deus”. Enfim, escutem, de que maneira o justo diz ao mesmo tempo, que ele está e não está na lei. “Para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo)” (1 Coríntios 9:21). Não é, então, certo dizer: não há lei para os justos; mas devemos dizer: “A lei não foi feita para os justos”, ou seja, não foi feita para constrangê-los; Mas Aquele que lhes impõe esta lei cheia de doçura, faz amar e experimentar aos justos que a observam sem constrangimento. Eis porque o Senhor diz tão bem: “Tomai sobre vós o meu jugo” (Mateus 11:29), como se Ele dissesse: Eu não vos forço a tomá-lo; tome-o se o quiserem; mas, se não o tomarem, Eu vos digo que ao invés do repouso que Eu vos prometo, achareis apenas sofrimento e fatiga para a vossa alma. 38. O amor é, portanto, uma lei doce e boa; não só é ele agradável e suave a se levar, mas ele sabe também deixar leves e doces as duas leis, do escravo e do mercenário; pois, ao invés de destruí-los, ele os faz observar, segundo o que disse o Senhor: “não vim ab-rogar, mas cumprir a lei” (Mateus 5:17). De fato, ele tempera a primeira, regulariza a segunda e adoça a ambas. Jamais o amor seguirá sem temor, mas este temor é bom; ele não se livrará de todo pensamento interesseiro, mas seus desejos são acertados. A caridade aperfeiçoa portanto, a lei do escravo, inspirando-lhe um generoso abandono, e a do mercenário, dando-lhe uma boa direção aos seus desejos interesseiros; ora, este generoso abandono unido ao medo, não amortece esta última; ele a purifica somente e faz desaparecer o que ela tem de penoso. Na verdade, não há mais aquela apreensão da punição, cujo medo servil nunca é isento, mas o amor lhe substitui um casto e filial que subsiste sempre; pois, está escrito: “o perfeito amor, lança fora o temor” (1 João 4:18), devemos compreender como se havia banido o medo penoso da punição, do qual dissemos que o medo servil não é jamais isento. É uma figura comum, que consiste em tomar a causa por efeito. Quanto à ganância, ela se encontra também perfeitamente acertada pela caridade que se junta a ela, quando, cessando o desejo do que é mal, ela começa a preferir o que é melhor; ela deseja apenas o bem para chegar ao melhor ângulo. Quando, pela graça de Deus, chegamos a

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este ponto, amamos o corpo e tudo o que se refere a ele, apenas para a alma, a alma para Deus e Deus pelo que Ele é.

CAPÍTULO XV Dos quatro graus do amor, e do estado bem-aventurado dos santos no Céu. 39. No entanto, como somos carnais e nascemos na concupiscência da carne, a cobiça, ou seja, o amor, deve começar em nós pela carne; mas, se for dirigida pelo bom caminho, ela avança por graus, sob a conduta da graça e não pode deixar de chegar enfim até a perfeição, por influência do Espírito de Deus; pois, o que é espiritual não vem antes do que é carnal, ao contrário, o espiritual vem somente depois; e também, antes de vestir a imagem do homem celeste, nós devemos começar por vestir a do homem terreno. O homem começa, portanto, por amar a si mesmo, porque ele é carne e só pode gostar daquilo que diz respeito a ele próprio; então, quando percebe que não pode subsistir por ele mesmo, ele começa a buscar, pela fé, a amar a Deus, como um Ser do qual ele precisa. Portanto, é apenas em segundo plano que ele ama a Deus; e O ama ainda somente para si, não por Ele. Mas quando, pressionado pela sua própria miséria, ele começou a servir a Deus e a se aproximar dEle, pela meditação e leitura, pela oração e pela obediência, ele consegue, pouco a pouco, e se acostuma insensivelmente a conhecer a Deus, e consequentemente; a achá-lO doce e bom. Enfim, após experimentar o quanto Ele é amável, ele se eleva ao terceiro grau; então, não é mais para ele que ama a Deus, mas ele ama a Deus pelo que Deus é. Uma vez chegado neste ponto, ele não vai mais alto e eu não sei se nesta vida o homem pode realmente chegar ao quarto grau, que é de se amar a si mesmo somente para Deus. Os que acharam ter conseguido, afirmam que não é impossível; para mim, eu não creio que possamos chegar um dia a esse ponto, mas não duvido nem um pouco que possa acontecer, quando o bom e fiel servidor é convidado a partilhar a felicidade de seu Mestre e a se embriagar das delícias eternas da casa de seu Deus; pois, estando então em um tipo de embriaguez, ele se esquecerá dele mesmo de alguma forma, perderá o sentimento daquilo que ele é, e, absorvido inteiramente em Deus, ele se agarrará a Ele com todas as suas forças e logo será um só espírito com Ele [...] assim que entrasse em possessão da glória de Deus, ele estaria desprovido de toda enfermidade da carne e não pensaria mais nelas, e, que tendo se tornado totalmente espiritual, só se ocuparia das perfeições de Deus. 40. Então todos os membros do Cristo poderão dizer, falando deles, o que Paulo dizia de nosso Chefe: “ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo” (2 Coríntios 5:16). De fato, como a carne e o sangue não possuirão o Reino de Deus, não nos importávamos segundo a carne. Não que

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a nossa carne não deva entrar um dia, mas só será aceita desprovida de todas as suas enfermidades, o amor da carne será absorvido pelo do espírito, e todas as fraquezas das paixões humanas, que existem atualmente, serão transformadas em um poder totalmente Divino. Então a rede que o amor agora lança neste grande e vasto mar, para pescar toda sorte de peixes incessantemente, uma vez levados a margem, jogará os ruins para manter apenas os bons. O amor enche aqui embaixo de toda sorte de peixes, as vastas dobras de sua rede, porque em se proporcionando a todos, segundo os tempos, atravessando e partilhando de certa forma tanto a boa como a má fortuna de todos aqueles que ele abraça, ele se acostumou a se alegrar com aqueles que estão no gozo, e também em derramar lágrimas com os que estão em aflição; mas, quando ele puxar a rede para a beira mar eterna, ele rejeitará como peixes ruins, tudo o que ele sofre de defeituoso e conservará apenas o que pode agradar e cortejar. Então não mais veremos Paulo tornando-se fraco com os fracos ou preocupar-se por aqueles que se escandalizam, pois, não haverá mais nem escândalos e nem enfermidades de nenhuma espécie. Também não se deve crer que ele ainda derramará lágrimas pelos pecadores que não tiverem se arrependido aqui embaixo: como não haverá mais pecadores, não será mais necessário arrepender-se. Não pensem então que ele gemerá e derramará lágrimas sobre os que queimarão eternamente com o Diabo e seus anjos; pois, não haverá mais prantos nem aflições nesta santa cidade, apenas uma torrente de delícias regadas e que o Senhor ama mais que as todas as tendas de Jacó; nestas tendas, se experimentamos às vezes a alegria da vitória, nunca estamos fora de combate e sem perigo de perder a palma com a vida; mas na Pátria não há mais lugar nem para as derrotas nem para gemidos e lágrimas, como o dizemos em hinos da Igreja: “Assim os cantores como os tocadores de instrumentos estarão lá e terão perpétua alegria” (Isaías 61:7). E nem estará em questão a misericórdia de Deus desta estadia onde doravante só reinará a justiça; e não mais sentiremos compaixão, já que a misericórdia será banida e a misericórdia não terá mais razão de existir.

Louvado seja nosso Deus por Seu Inefável Amor!

Sola Scriptura! Sola Gratia! Sola Fide! Solus Christus! Soli Deo Gloria!

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10 Sermões — R. M. M’Cheyne Adoração — A. W. Pink Agonia de Cristo — J. Edwards Batismo, O — John Gill Batismo de Crentes por Imersão, Um Distintivo Neotestamentário e Batista — William R. Downing Bênçãos do Pacto — C. H. Spurgeon Biografia de A. W. Pink, Uma — Erroll Hulse Carta de George Whitefield a John Wesley Sobre a Doutrina da Eleição Cessacionismo, Provando que os Dons Carismáticos Cessaram — Peter Masters Como Saber se Sou um Eleito? ou A Percepção da Eleição — A. W. Pink Como Ser uma Mulher de Deus? — Paul Washer Como Toda a Doutrina da Predestinação é corrompida pelos Arminianos — J. Owen Confissão de Fé Batista de 1689 Conversão — John Gill Cristo É Tudo Em Todos — Jeremiah Burroughs Cristo, Totalmente Desejável — John Flavel Defesa do Calvinismo, Uma — C. H. Spurgeon Deus Salva Quem Ele Quer! — J. Edwards Discipulado no T empo dos Puritanos, O — W. Bevins Doutrina da Eleição, A — A. W. Pink Eleição & Vocação — R. M. M’Cheyne Eleição Particular — C. H. Spurgeon Especial Origem da Instituição da Igreja Evangélica, A — J. Owen Evangelismo Moderno — A. W. Pink Excelência de Cristo, A — J. Edwards Gloriosa Predestinação, A — C. H. Spurgeon Guia Para a Oração Fervorosa, Um — A. W. Pink Igrejas do Novo Testamento — A. W. Pink In Memoriam, a Canção dos Suspiros — Susannah Spurgeon Incomparável Excelência e Santidade de Deus, A — Jeremiah Burroughs Infinita Sabedoria de Deus Demonstrada na Salvação dos Pecadores, A — A. W. Pink Jesus! – C. H. Spurgeon Justificação, Propiciação e Declaração — C. H. Spurgeon Livre Graça, A — C. H. Spurgeon Marcas de Uma Verdadeira Conversão — G. Whitefield Mito do Livre-Arbítrio, O — Walter J. Chantry Natureza da Igreja Evangélica, A — John Gill

 Natureza e a Necessidade da Nova Criatura, Sobre a — John Flavel  Necessário Vos é Nascer de Novo — Thomas Boston  Necessidade de Decidir-se Pela Verdade, A — C. H. Spurgeon  Objeções à Soberania de Deus Respondidas — A. W. Pink  Oração — Thomas Watson  Pacto da Graça, O — Mike Renihan  Paixão de Cristo, A — Thomas Adams  Pecadores nas Mãos de Um Deus Irado — J. Edwards  Pecaminosidade do Homem em Seu Estado Natural — Thomas Boston  Plenitude do Mediador, A — John Gill  Porção do Ímpios, A — J. Edwards  Pregação Chocante — Paul Washer  Prerrogativa Real, A — C. H. Spurgeon  Queda, a Depravação Total do Homem em seu Estado Natural..., A, Edição Comemorativa de Nº 200  Quem Deve Ser Batizado? — C. H. Spurgeon  Quem São Os Eleitos? — C. H. Spurgeon  Reformação Pessoal & na Oração Secreta — R. M. M'Cheyne  Regeneração ou Decisionismo? — Paul Washer  Salvação Pertence Ao Senhor, A — C. H. Spurgeon  Sangue, O — C. H. Spurgeon  Semper Idem — Thomas Adams  Sermões de Páscoa — Adams, Pink, Spurgeon, Gill, Owen e Charnock  Sermões Graciosos (15 Sermões sobre a Graça de Deus) — C. H. Spurgeon  Soberania da Deus na Salvação dos Homens, A — J. Edwards  Sobre a Nossa Conversão a Deus e Como Essa Doutrina é Totalmente Corrompida Pelos Arminianos — J. Owen  Somente as Igrejas Congregacionais se Adequam aos Propósitos de Cristo na Instituição de Sua Igreja — J. Owen  Supremacia e o Poder de Deus, A — A. W. Pink  Teologia Pactual e Dispensacionalismo — William R. Downing  Tratado Sobre a Oração, Um — John Bunyan  Tratado Sobre o Amor de Deus, Um — Bernardo de Claraval  Um Cordão de Pérolas Soltas, Uma Jornada Teológica no Batismo de Crentes — Fred Malone

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Sola Scriptura • Sola Fide • Sola Gratia • Solus Christus • Soli Deo Gloria


2 Coríntios 4 1

Por isso, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos;

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Antes, rejeitamos as coisas que por vergonha se ocultam, não andando com astúcia nem falsificando a palavra de Deus; e assim nos recomendamos à consciência de todo o homem, 3 na presença de Deus, pela manifestação da verdade. Mas, se ainda o nosso evangelho está 4

encoberto, para os que se perdem está encoberto. Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória 5

de Cristo, que é a imagem de Deus. Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo 6

Jesus, o Senhor; e nós mesmos somos vossos servos por amor de Jesus. Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, 7 para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo. Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós. 8

Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. 10 Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; Trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus 11 se manifeste também nos nossos corpos; E assim nós, que vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também na 12 13 nossa carne mortal. De maneira que em nós opera a morte, mas em vós a vida. E temos portanto o mesmo espírito de fé, como está escrito: Cri, por isso falei; nós cremos também, 14 por isso também falamos. Sabendo que o que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará 15 também por Jesus, e nos apresentará convosco. Porque tudo isto é por amor de vós, para que a graça, multiplicada por meio de muitos, faça abundar a ação de graças para glória de 16 Deus. Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o 17 interior, contudo, se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação 18 produz para nós um peso eterno de glória mui excelente; Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas. Issuu.com/oEstandarteDeCristo 9

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Um Tratado Sobre o Amor de Deus, por Bernardo de Claraval  

Um Tratado Sobre o Amor de Deus, por Bernardo de Claraval  

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