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MACAÉ, DOMINGO, 28 E SEGUNDA-FEIRA, 29 DE JULHO DE 2013

Palácio dos Urubus: monumento tombado

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Requinte e muito luxo

Casarão da Rua Télio Barreto foi construído em 1865, no auge da cultura açucareira do município KANÁ MANHÃES

Patricia Lucena patricia@odebateon.com.br

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pesar de toda a importância cultural para a cidade e do alerta da população que acompanhou a destruição gradativa de um dos monumentos históricos da cidade, o Palácio dos Urubus acabou sendo vencido pela ação do tempo. Construído por 16 escravos na época do império, o casarão começou a ruir a partir da década de 90, quando a Defesa Civil interditou o imóvel. Hoje, apenas a fachada principal está de pé, escorada por tapumes que escondem os escombros. A decadência do prédio começou logo após o seu tombamento, em 1979. Isso porque, na ocasião, não houve um bom diálogo entre Prefeitura, Instituto Nacional de Patrimônio Artístico e Cultural (Inepac) e os proprietários, que acabaram saindo do casarão. Na época em que Macaé vivia o apogeu da cana-de-açúcar, os grandes senhores de engenho começaram a construir seus casarões, baseados em modelos europeus e com muito luxo. A área rural ainda ficava longe da cidade, onde se concentravam os agitos da vida social. Foi então que o primeiro proprietário, Manoel Pinto Ribeiro de Castro, casado com a macaense Felizarda Alchimenna, recebeu a casa como presente de sua avó, a Viscondessa de Muriahé. Naquele tempo, Felizarda vivia muito só em sua fazenda, já que seu marido estava sempre viajando para a capital a negócios. Foi aí que ela decidiu que queria viver na

A decadência do prédio começou logo após o seu tombamento, em 1979 cidade, próximo do murmurinho da época e de sua família. Lá teve dois filhos, o mais velho, conde Augusto, acabou herdando a casa. No entanto, após algumas decepções pessoais, como a morte de sua esposa, que faleceu no parto, aos 17 anos, Augusto decidiu vender a casa, em 1894. Já

no período republicano, o novo proprietário do sobrado, Emílio Francisco Caldas, conhecido como Chico Major, comprou a casa por vontade de sua mulher, que queria ter seus filhos na cidade. Entretanto, ele acabou morrendo alguns anos depois sem deixar herdeiros. O prédio ficou, então, para o governo, que

acabou leiloando-o. A partir daí, diversas pessoas habitaram o 'Sobrado dos Ribeiro de Castro' e acabaram descaracterizando o local, que foi se transformando em cortiço, perdendo de vez seu 'status' e beleza. A partir da década de 70, o segundo andar passou a ser habitado por famílias mais

carentes. No primeiro pavimento começaram a funcionar pequenos comércios, como sapataria, entre outros. Já nessa época, o solar ganhou um novo nome, Palácio dos Urubus, pois havia um antigo matadouro próximo à casa, o que atraía muitos urubus que ficavam no telhado.

construído na segunda metade do século XIX, o prédio tem seu projeto atribuído ao alemão Antônio Becher, que veio ao Brasil para fazer os projetos arquitetônicos de outros monumentos, como os Solares da Mandiquera e Machadinha, em Quissamã. A construção do casarão contou com tudo do bom e do melhor, no mais alto luxo. As grades e vidros de cristal foram importados da Alemanha e azulejos portugueses. O recheio da casa era valioso, com leitos de jacarandá com detalhes de flores, pássaros, brasão e dossel. A mobília da sala era dourada e estofada de pura seda. Em cada quarto, os oratórios em estilo barroco. No solar ainda existiam peças de valor imensurável, como álbuns de fotografias raras, porcelanas de Sèvres, do Macau e da Índia, além de um faqueiro de prata maciça, utilizada na visita de Dom Pedro II a Macaé. Alguns relatos mostram que o casarão foi visitado por Dom Pedro II e Dona Tereza Christina Maria, onde foram servidos bolos, biscoitos, refrescos, entre outras guloseimas. Durante o período republicano, o casarão foi de grande importância, perdendo seu brilho na década de 70. Poucos são os registros fotográficos do lugar que marcou uma época de Macaé. Atualmente, não resta mais nada dessa história de luxo e riqueza da época dos senhores de engenho e da aristocracia macaense. O Palácio dos Urubus é hoje o único prédio tombado no município de Macaé pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), por decreto homologado em 31 de janeiro de 1979, após projeto de autoria do arquiteto macaense José Carlos Franco Corrêa.


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Homenagem postuma a Tonito Parada

Em tempo de festa 200 anos, Macaé lembra de um dos seus filhos mais respeitados: Tonito Parada Isis Maria Borges Gomes isismaria@odebateon.com.br

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acaé chega aos 200 anos, nesta segundafeira, dia 29 de julho, apresentando muitas histórias e inúmeras personalidades ilustres. Neste clima festivo, merece destacar a lembrança de um dos seus filhos mais respeitados: o professor Antônio Alvarez Parada. Macaense, nascido em 27 de dezembro de 1925, conhecido como Tonito, além de ensinar com sabedoria e impecável didática, ele se firmou como um dos raros responsáveis pela memória macaense, por se tornar um cuidadoso colecionador, pesquisador e um ávido contador das histórias de sua cidade. Tonito foi um importante historiador macaense, que durante sua vida, preocupou-se em reunir e preservar documentos sobre a cidade, o que muito contribuiu e contribui para a história do município e a memória do povo macaense. Seus livros - oriundos de suas pesquisas e dos contatos com as pessoas, que participavam de sua atividade de escritor - são fontes documentais da maior relevância para as pesquisas históricas. O hisatoriador escrevia e editava livros, encontrando na imprensa um espaço privilegiado para a manifestação de ideias e opiniões sobre a cidade, o que o consagrou também como jornalista. Assim, recentemente, a Vice-Presidência de Acervo e Patrimônio Histórico editou o livro ‘Cartas da Província’, uma coletânea de todas as crônicas

publicadas pelo O Fluminense, entre 1977 e 1978, onde Tonito relatava semanalmente os acontecimentos de Macaé e deixou de fazê-lo, como ele mesmo relata no final da obra em carta ao editor, por causa de censura em algumas situações, o que ele não admitia. Tonito foi fiel colaborador do jornal O DEBATE, onde publicou mil crônicas sobre a história de Macaé, sendo considerado exímio pesquisador. Tonito começou a lecionar como professor no Ginásio Macaense e na Escola Profissional Ferroviária Senai. Ministrava aulas de quími-

ca, física e matemática. Mais tarde lecionou no Colégio Estadual Luiz Reid, onde trabalhou como professor até a data de sua morte, em 15 de março de 1986. No início de 1986, Tonito sofreu um problema cardíaco e precisou se internar para fazer cirurgia no coração. Após a operação e a recuperação, o professor planejava ir para Niterói visitar seus familiares e depois voltaria para Macaé. Cinco dias depois, Tonito recebeu alta médica e na hora da despedida, logo na saída do hospital, passou mal, teve uma trombose e morreu na hora.

“Coisas e Gente da Velha Macaé” Biografia de Tonito quem tem ou teve a oportunidade de ler o livro do professor e historiador Antonio Alvarez Parada, editado em 1958 pela Edigraf , sob o título “Coisas e Gente da Velha Macaé”, consegue entender com exatidão o que representou e que importância teve a nossa Macaé no passado. Autor de várias outras obras com todas as edições esgotadas, o professor e historiador Antonio Alvarez Parada, nos idos anos de 1978 e seguintes, ele colaborou também com O DEBATE assinando a coluna “Mil Histórias Curtas e Antigas”, posteriormente impressa em dois volumes pela Petrobras, lançados em 1995 e 1996. Nas “orelhas” o relato de Marcello de Ipanema, de Bernadete Braga Lima, Adriana Bacellar Leite e Santos e de Othon Pires, ex-aluno do Senai. Prefaciado por Gilson

Correa, Nelson Mussi, também exaluno de Tonito, registrou sua opinião e Detinha fez o agradecimento, enquanto o sobrinho e afilhado Cesário Alvarez Parada Junior, textuava: “Em uma cidade do interior, com os recursos gráficos existentes através do jornal semanário O DEBATE, escrever crônicas sem cair na mesmice e sim tentando elevar o nível intelectual do que seria lido pela família macaense, só poderia partir de uma pessoa que no seu próprio interior era simplesmente uma história ou quem sabe a forma mais viva da cultura e da compreensão do ser humano”. Deve ser encontrado na Secretaria de Patrimônio Histórico e Acervo de Macaé, como também na biblioteca municipal, os exemplares das várias obras de Tonito Parada e, principalmente a que estamos nos referindo, editada

em 1958, quando ele, em textos não muito longos, conta “A Lenda de Santana”, “Jean de Léry e a primeira referência ao nome de Macaé”, “Gondomar e a Fundação de Macaé”, “Os Sete Capitães”, “A Igreja que uma promessa edificou”, “Bellegarde”, “A Fortificação da Cidade”, “Macaé de 1817, vista por Saint-Hilaire”, “O batisado de Benjamin Constant”, “O Quilombo do Carukango”, “D. Pedro II e os papagaios”, “Lendas e inverdades sobre Mota Coqueiro”, “Casculeiro, o esquecido”, “A inauguração e as primeiras atividades do Teatro de Santa Isabel”. “Vida, Obras e Morte do Chico do Padre”, “Uma visita da Princesa Isabel e do Conde D´Eu”, “A inauguração do telégrafo”, “O Pires da Bertioga”, “A Rua da Praia do Século XIX”, “Os leilões em Macaé”, “Agenor Caldas”, “Dona Irene”.

primogênito de imigrantes espanhóis, o professor Tonito foi um dos pioneiros em pesquisas históricas de Macaé. Nasceu em 27 de dezembro de 1925, lecionou química, física, espanhol e matemática no Colégio Macaense, no Colégio Estadual Luiz Reid e no Senai, onde também foi diretor. Fundou a Academia Macaense de Letras e escreveu o Hino da cidade, cuja música é do pianista Lucas Vieira. Tonito teve uma trajetória brilhante, casado há trinta e três anos com Maria Bernadete Castro Alvarez, Detinha como é mais conhecida, viveu sua vida muito feliz ao lado de sua companheira. Suas obras sobre a história de Macaé são: “Coisas e Gente da Velha Macaé” (1958), “ABC de Macaé” (1963), “Histórias da Velha Macaé (1980), “Imagem

da Macaé Antiga” (1982) e “Meu Nome, Crianças, é Macaé” (1983), além de dois livros publicados após sua morte, “Histórias Curtas e Antigas de Macaé (1995). Nestes últimos há mil crônicas em dois volumes, textos publicados no jornal O Debate, no período de 1978 a 1985. Antonio Alvarez Parada também era colecionador. Manifestava na imprensa idéias e opiniões sobre a cidade. Outras obras inéditas aguardam publicação “Calendário Macaense ( jornal O Rebate - 1950), “Quem é quem nas ruas de Macaé” ( jornal A Cidade - de 1978 a 1980), “Setenta Anos de Poesia em Macaé (1860 a 1930) de 1979, Palácio dos Urubus - Um Breve Histórico (jornal Macaé - 1980) e ”A Sociedade Macaense” (1978)


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Páginas de O DEBATE marcadas na história de Macaé Aos seus 37 anos de existencia, o maior jornal de maior circulação da região é usado como base de pesquisas e trabalhos

KANÁ MANHÃES

Letícia Santana

leticiasantana@odebateon.com.br

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DEBATE foi fundado no dia 1º de maio de 1976 e ao longo dos 37 anos de sua existência, registrou o célere crescimento de Macaé. O mais tradicional jornal do município tem servido de base para pesquisas e trabalhos de mestrados e doutorados, porque nas suas 8.150 edições completadas hoje, O Debate tem compromisso com o município e região, sendo constantemente procurado como uma fonte permanente de consulta. Não é tão fácil para uma pessoa pesquisar em Macaé as mudanças ocorridas nos últimos 30 anos, quando a Petrobras começou a se instalar no município. Em 1974, depois da descoberta do campo de Garoupa, em 1977, as antigas oficinas da Rede Ferroviária Federal na Imbetiba, começaram a dar lugar ao Terminal Marítimo de Macaé, onde, também, em 1979, foram instaladas as sedes administrativas da empresa. Existia uma rixa política com o município de Campos que, apesar de dar o nome à bacia sedimentar de onde hoje são extraídos cerca de 83% da produção nacional de petróleo, na ocasião chegou a ter ameaçada a sua representação política. Macaé cresceu assustadoramente e hoje, cognominada de Capital Nacional do Petróleo, ostenta um orçamento estimado em quase R$ 2 bilhões e sua população atinge oficialmente 210 mil habitantes, de acordo com dados do IBGE. Com a população flutuante ultrapassa

200 mil, mas seu território que era de 1997 km² quando Quissamã e Carapebus eram importantes distritos, diminuiu para 1330 km² após a emancipação daqueles agora municípios, que dividem o bolo dos royalties pagos pela Agência Nacional de Petróleo sobre a produção na plataforma continental do litoral fluminense. Pouca gente sabe que em 1974, após a descoberta de Garoupa, a Petrobras realizava em Macaé um levantamento sócio-econômico e o então pre-

feito Alcides Francisco Ramos (legislatura 1973-1976), criou uma comissão especial para, em 1975, encaminhar para a Secretaria Especial da Presidência da República e a todas as autoridades federais e estaduais, as principais reivindicações do município. Nos bastidores, eram grandes as especulações que, mais tarde, passaram a se tornar realidade. O Distrito de Produção do Sudeste que tinha sede em Vitória (ES), seria transferido para Macaé. Em março de 1977, a COTE-

MA - Construção do Terminal Marítimo, na ponta de Imbetiba, despertou a outra especulação: a imobiliária, que até hoje predomina no mercado e torna o metro quadrado de terra como dos mais altos, igualando ou até ultrapassando alguns bairros nobres da capital do Estado. A instalação da estação de transferência de Cabiúnas (hoje Transpetro), onde são armazenados o petróleo e gás produzidos e escoados por oleodutos e gasodutos a partir de Barra do Furado, em Quissamã, para a

Refinaria de Duque de Caxias, selaram definitivamente o destino de Macaé, que passou a fazer parte da Região Norte Fluminense, primeiro, para fins de investimentos pela SEPLAN da Presidência da República e entrando, definitivamente, na nova divisão geográfica do Estado após a fusão do antigo Estado do Rio com o Estado da Guanabara. O boom do progresso se instalou e a partir daí é grande a história que muitos ainda desejam conhecer. Ao completar 30 anos, em

2006, O DEBATE teve sua coleção doada à Secretaria Municipal de Acervo e Patrimônio Histórico, instalada no Solar dos Mellos, quando o professor e escritor Ricardo Meirelles era o titular da pasta, hoje transformada em núcleo ligado a Fundação Macaé de Cultura. Através de um contato prévio, O DEBATE vive a expectativa de garantir o tombamento do seu acervo que será doado de forma completa ao Solar dos Melos, considerado hoje como a casa da história de Macaé.


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