Após mais de 20 anos de negociações (a idade de muitos de nós), o acordo entre o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e União Europeia (UE) finalmente foi finalizado. Não serei o únicoaadmitir minhadescrençasobre o acordo sair do papel. De fato, sei que muitos analistas, jornalistas e até professores acreditavam tanto nesse acordo quanto um adulto acredita na Fada do Dente. Entretanto, para a surpresa de todos, no dia 6 de dezembro de 2024, os presidentes de quatro dos membros do Mercosul - Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil; Javier Milei, da Argentina; Santiago Peña, do Uruguai; e Luis Lacalle Pou, do Paraguai -,juntoscomapresidentedaComissão Europeia, principal órgão executivo da UE, Ursula von der Leyen, concluíram asnegociações.(LembroqueaBolívia, embora admitida no Mercosul, não faz partedoacordo.Aindaprecisaadotaro acervonormativo,tarifas,dentreoutros elementosantesdeentrarintegralmente nobloco.)
Antes de tudo, devemos nos questionar: do que se trata este acordo? Em seu capítulo sobre comércio de bens, promete liberalizar 85% das importações brasileiras deprodutoseuropeuse 92%dasimportaçõeseuropeiasdeprodutos brasileiros. Aqui vale destacar: como bloco, a UE é a segunda maior parceiraeconômicadoBrasil,perdendo apenas para a China. Surpreende que a UE supere o comércio com os Estados Unidos,considerandoopesoqueopaís tem em toda nossa história como país independente. Não perdendo essa ironia, em parecer do Comitê Econômico e Social Europeu, foi destacado que a “UE será o primeiro parceiro comer-
cial de relevo a formalizar um acordo comoMercosul,cujaimportânciageopolítica, geoambiental e geoeconómica não deve ser negligenciada. É ainda de assinalar que nem os EUA nem a China têm um acordo comercial semelhante”
Oacordonãose limitaemdiscutir apenassobreliberalizaçãodebens.Por exemplo, há um destaque para Indicações Geográficas (IG). Do nosso lado, reconheceremos358IGseuropeias.Do lado europeu, 37 IGs brasileiras serão reconhecidas, dentre elas “Cachaça” e “Canastra”, além de facilitarem o processodereconhecimentodenovasIGs. Evitareidiscutir minuciosamente sobre cada capítulo e suas particularidades, a fim de salvar o leitor (e, francamente, a mim) de uma listagem interminável, e abordarei dois em específico: SalvaguardaseSustentabilidade.
Embora o sistema de salvaguardas não se limite ao setor automotivo, há um grande destaque deste na comunicação governamentalsobreo acordo, além de ser mais facilmente acionável
do que as salvaguardas para as outras indústrias. Se o Brasil sentir, e conseguir provar, que o aumento das importações de veículos europeus esteja prejudicando a indústria, o governo terá o direito de suspender a liberalização das tarifas por um período de três anos, além de poder renovar por mais três anos. É relevante lembrar da importância histórica desse setor, além de sua grande participação no PIB brasileiro atualmente. Por esse motivo, a desgravação tarifária para automóveis elétricos e de “novas tecnologias” será mais longa. Ainda assim, considero esse cenário mais vantajoso do que os desafortunados que desejavam vender para os EUA. Lembro aos nossos leitores que embora o execrável Elon Musk-bilionáriosul-africanoe diretor executivo da Tesla, empresa conhecida por sua produção de carros elétricos de pouquíssimo apelo visual - tenha assumido o Departamento de Eficiência Governamental na mais nova gestão de DonaldTrump, o mesmo atacou a indústria de seu aliado, removendo
os incentivos fiscais para carros elétricos. Além disso, em um momento de esclarecimento que só faz sentido em sua cabeça, decidiu ameaçar e tarifar seus aliados, México e Canadá, além daChina.Essapequenatangenteaqual impusaosleitoresfoiapenasparamostrar a importância do acordo em “um contexto internacional de crescente protecionismo e unilateralismo comercial”, nas palavras do governo brasileiro. Nãodigo queaUEseja isentade culpa no cartório, mas não há dúvidas queéumanadadacontraamaré. Quanto à sustentabilidade, enfatizo dois pontos. Na Factsheet produzida pelo governo brasileiro, afirma-se o compromisso e os desafios ao desenvolvimento sustentável, salientando as “responsabilidades comuns, mas diferenciadas entre os países”. É um princípio de Direito Internacional, criado emarescariocasnaRio92, reafirmado com o Protocolo de Quioto e em vigor desde 2005. A UE foi proponente de uma outra interpretação do princípio, quelevouàsuarelativizaçãocomacriação das “Contribuições Nacionalmente Determinadas” (NDCs), no contexto do Acordo de Paris de 2015. Em relação a esse acordo, aparece o segundo ponto que acho fundamental sublinhar: embora sejam citados diversos outros acordos sobre o clima, as partes acordaramasuspensãodoacordoMERCOSUL-UE caso algum dos lados deixe ou procure minar de alguma forma o Acordo de Paris. Segundo a CIRCABC, plataforma da Comissão Europeia, este é o terceiro acordo da UE a possuirtalcláusula.
E aqui, Javier Milei poderá fazer com que a Argentina saia do acordo antes mesmo que esse entre em vigor. Em entrevistas recentes, disse estudar a possibilidade de tirar a Argentina do Acordode Paris, por julgar a pauta climáticaumafraudeeumaideiadesocialistas. Não surpreende, já que pouco
tempo antes havia saído da OrganizaçãoMundialdaSaúde(OMS)porclaro alinhamento automático e submisso à Trump,semobtervantagensclarascom oato.NãoqueMileisepreocupemuito emsairdoMercosul,aoconsiderarmos suafaladequeestariadispostoasairdo bloco para concluir um acordo de livre comércio com os EUA. Descartando por um instante as claras desvantagens de cada país negociar acordos individualmente,eulhepergunto,caroleitor: em algum instante Trump mencionou algosobreumacordocomaArgentina? O mesmo homem que, ao ser questionado sobre as relações com o Brasil e orestodaAméricaLatina,afirmouque eram “Boa[s]. Eles precisam de nós, mais do que precisamos deles. Nós nãoprecisamosdeles, elesprecisamda gente. Todo mundo precisa da gente”? NãodigoqueaArgentinanãoéumparceiroestratégicoimportante,masquestionocomooatualpresidenteargentino temorganizado suapolíticaexterna e a efetividadedesuasdecisões.
Desafioseconsiderações paraoacordo
Para muitos, tenho certeza que foi um momento de comemoração. Fogos de artifício, abraços, gritos de exaltação e tapinhas no ombro como se dizendo “bom trabalho!”. Mas não se deu muito tempo até todos lembrarem das nossas aulas do segundo semestre, particularmente de Direito Internacional I. Embora muitíssimo relevante, a negociação de um acordo não é a parte maisárduadoprocesso.Aindafaltama assinatura(pendentesàrevisãojurídica e tradução aos idiomas de cada país), internalização (por meio da aprovação do Congresso Nacional), ratificação e promulgaçãodoacordo.
Além de vários acordos entrarem em um limbo na etapa de internalização, passando anos sem que haja pro-
gressovisível,oacordoentreestesdois blocos sofre bastante nessa etapa, principalmentenaEuropa.Pelasupranacionalidade da UE, para o acordo entrar em vigor na Europa, há de ser aprovadoprimeironoConselhoEuropeu. A instituição, com sede em Bruxelas, é a representante externa da UE nos âmbitosdesegurançaepolíticaexterna.Para oacordoseguiremfrente,deveráalcançarumamaioriaqualificada,atendendo dois critérios: 55% dos Estados-Membros (15 dos 27 países) e a aprovação porpaísesque juntos representam65% dapopulaçãodaUE.
Dentre os principais detratores do acordo, está a França. O presidente francês Emmanuel Macron criticou o acordocomoinaceitável,porprejudicar a indústria agrícola francesa. Considerandoainfluênciadessesetor,osincontáveis protestos de agricultores contra o acordo, e o caos político no qual a França se encontra, a última coisa que Macron busca é mexer com esse vespeiro. A França pode argumentar que contesta o acordo por razões ambientais,masdeixe-meserclaro:épuroprotecionismo. Não deixemos de lembrar da decisão do Carrefour de não importarmaiscarnesprovindasdoMercosul, por não atender as exigências francesas.“Livremercadoparaosoutros,mas protecionismo pra mim”, não é, Dona França? Da mesma forma, Irlanda, PolôniaeItáliaseopõemaoacordopor medo de danos a seus mercados. Esses 4 juntos formariam o necessário para a minoriadebloqueio,negandoarealizaçãodoacordo.Paraquesigaemfrente, aomenosumdessespaíses(assumindo que nenhumoutrojunte-seàoposição) deverá ser convencido que os possíveis prejuízos são menos importantes do que uma UE sem esse acordo. Considerando o cenário internacional nada animador dos próximos anos, gostaria que eles considerassem bastante suas opções…
Quandoadiplomaciaviraumepisódiode BlackMirror
Por: Maria Clara Camargo
Em um mundo onde a política internacional já parece um roteiro de ficçãocientífica,DonaldTrumpdecidiu elevaronível doabsurdoaopostarum vídeo gerado por inteligência artificial (IA) em sua rede social, Truth Social. A produção, que mais se assemelha ao delírio de um roteirista de Hollywood após uma noite mal dormida, retrata Gaza transformada em um resort de luxo, com estátuas douradas do presidente, enquanto ele e Netanyahu relaxam em cadeiras de praia sob uma chuva de dólares que diverte as crianças. Se viesse de um indivíduo qualquer, essa peça já seria, no mínimo, ofensiva; mas, ao ser compartilhada com milhões de pessoas pelo líder de uma das maiores potências mundiais, oimpactose tornaincomparavelmente maisgrave.
O vídeo, que combina a estética de um comercial de timeshare com a de um videoclipe do Pitbull dos anos 2000, foi recebido com perplexidade e indignação por especialistas e autoridades globais, sendo considerado uma grave violaçãododireitointernacional.
Varsen Aghabekian Shaheen, ministra das Relações Exteriores daAutoridade Palestina,lembrou queo deslocamento forçado de palestinos já foi tentado no passado, com consequências catastróficas, e que a história não se repetirá. Referência clara ao Nakba (1948), quando milhares de palestinos foram expulsos de suas terras durante a criaçãodoEstadodeIsrael,umtraumaque ainda ecoa na memória coletiva desse povo.
As primeiras semanas da nova administração em Washington já parecem um roteiro distópico, onde a linha
entre a sanidade e o caos se dissolve. Entrepropostasbizarras,aliançasquestionáveis e um senso de humor que beira o ofensivo, uma coisa é certa: os próximosquatroanosprometemserum verdadeiroFreakShow.
Trump, cuja abordagem diplomática constantemente trata crises globais como meras oportunidades para reforçar a hegemonia dos Estados Unidos e maximizar ganhos práticos, mais uma vez demonstrou sua tendência a simplificar problemas complexos. Sua proposta de expulsar 2,1 milhões de palestinos de Gaza para transformar o enclave em uma “Riviera do Oriente Médio” é, no mínimo, uma prova de que o presidente confunde geopolítica comumepisódiodeIrmãosàObra.
A separação do povo palestino de um de seus únicos territórios internacionalmente reconhecidos, revela a falta de sensibilidade necessária para encaminhar resoluções de paz viáveis
na região. Essa postura é um reflexo do imperialismo estadunidense em sua forma mais explícita, ignorando não apenasahistóriaeosdireitosdospalestinos, mas também as complexas dinâmicas locais e humanitárias.Aideia de transformar Gaza em um playground de luxo para elites globais, enquanto milhões de palestinos vivem sob bloqueioeemcondiçõesdesumanas,éum exemplo flagrante de como a política externa dos EUAprocura servir a interessesexpansionistas.
A criação de um Estado Palestino viável e independente é uma demanda histórica e uma condição essencial para qualquer resolução duradoura do conflito. A Arábia Saudita, por exemplo, já deixou claroque sóirá normalizar relações com Israel mediante a sua criação — Uma postura nobre, se não fosse pela aliança estratégica do país com os Estados Unidos, um dos principaisfinanciadoresdoatualcenáriode guerra. Além disso, essa solução não pode ser imposta de cima para baixo, nem ignorar a diversidade de grupos e interesses dentro da própria Palestina. AreconstruçãodeGaza,onde92%dos edifícios foram destruídos, deve ser feita de forma a beneficiar diretamente oshabitanteslocais,enãoservirainteressesexternos.
Enquanto Trump sonha com estátuas douradas e resorts luxuosos, milhõesdepessoascontinuamsofrendo as consequências de um conflito real. Gaza, um território sitiado e marcado pordécadasdeopressão,clamaporjustiça,dignidadeeliberdade.
PALESTINALIVRE!
EinsteinFloripa:dealunoparaaluno
Por: Juliana Pacheco
Números são uma forma de linguagem. Eles existem para facilitar a nossa vida, colocar as coisas em perspectiva, se olhar de fora, enxergar o amplo,criarumalinhadotempo,seguir apartirdela.E,comotodaalinguagem, podemosusarparacontarumahistória.
OEinsteinfoi umprojeto fundado em 14 de julho de 2015, por três estudantesdaUFSCquesouberamolharos números.Naépoca,8emcada10estudantes eram de escola pública, ainda assim, 7 em cada 10 universitários tinham estudado em escola particular. Não precisamos de uma calculadora aquiparaentenderqueissoevidenciava um claro problema de desigualdade, problema esse que persiste até hoje — adificuldadedoacessoàeducação,em especial ao ensino superior: o elitismo daUniversidade.
Os números contaram não apenas uma história, mas um problema, e, naquele mesmo ano, voltaram para mostrar a solução: 16 alunos de graduação, 31 alunos de primeira turma, das 18 às 22 horas, em cinco dos sete dias da semana no Centro de Ciências da Saúde(CCS),maisespecificamente,09 deagostode2015-diaemquecomeçaramasaulasdocursinhopré-vestibular social e gratuito para alunos de baixa renda da Grande Florianópolis, o EinsteinFloripa.
Um projeto pensado através do
Duplo Impacto: alunos da graduação que dão aula para alunos que querem ingressar na universidade, onde ambos podem se desenvolver e encontrar oportunidadesatravésdaeducação.Em 13dejaneirode2016,saiuoresultado, 14alunosaprovados,14vidastransformadas.Em2016,mesmoano,oprojeto cresce para comportar 60 alunos. No ano seguinte, 120. Em 2024, 57 aprovados. Ao longo desse caminho, mais de430aprovaçõese1150vidasimpactadasdiretamente,voluntáriosealunos. Muitosnúmeros.Muitasmudanças.
Aindaassim,ahistóriadoEinstein Floripa é uma que jamais poderia ser contada apenas através deles. Claro, os algoritmossãoumaparteimportanteda nossa trajetória. Afinal, nossos alunos estão conosco visando isso, seja uma notanovestibularouaclassificaçãoem uma lista de chamada - mas é apenas a tradução,partedoprocessodealgoque realmenteimporta:ossonhos.
Odesejodeentrarnoensinosuperior, de dar uma vida diferente para a própria família, de ter estabilidade, de construir algo, de conseguir acesso a uma coisa tão básica e essencial — a educação. E, mesmo que tudo isso pareça se concentrar em um único número, estar no Einstein é expandir e subverter qualquer perspectiva. É falar a linguagem do ensino, que vai além dos algoritmos, e entender que uma
conversadecorretorpodemudarvidas. É também sobre dar acolhimento. Sobre acreditar nas pessoas quando elasnãoacreditamnelasmesmas. Éler osagradecimentosdeTCCdeumaluno e encontrar o nome do Einstein lá, mesmo tantos anos depois de ter passado pelo projeto, porque essas coisas não conseguem se expressar em uma sigla. Os números podem falar muito sobre a gente, mas a história é nossa. De todas as vidas que transformamos, ecadapessoaquepassouaquitemuma partedelaparacontar.
Encontrar algo que você queira mudar no mundo, e se mover em direção a isso: é o que o Einstein Floripa faz nos quase dez anos de instituição. Neste momento, ele está com o processo seletivo aberto para organizadorese docentes, até dia 19 de março.As aulascontinuamacontecendodas18às 22horas,noCCS.
Para quem tem propósito, para quem tem história, seu lugar pode ser aqui.
Historicamente, a América Latina enfrenta dificuldades assíduas para atingir uma integração forte. Estes empecilhospossuemraízesnoprocesso decolonizaçãosofridospelospaísesda região,esãomantidospelaestruturade colonialidadequepermeiaadependência econômicadoBrasilnotocante aos países do Norte Global - isto é, o conjunto de países que usufruem do processodeacumulaçãoderiqueza.
Como um grande exemplo de integração regional, pode-se observar a rápida união entre os países do continente africano, apesar de todas as suas mazelas, cicatrizes e independências majoritariamente recentes. Na África, todas as organizações internacionais são compostas pela maior parte dos Estados africanos. A União Africana (UA), por exemplo, é composta por todos os 55 países do continente. Mesmo com a diversidade e as divergências na região, essas nações se unem pelos princípios inalienáveis do antirracismo, do anticolonialismo
Por: Nathália Silveira
e da autodeterminação dos povos. Em contraste, a América Latina, constituídapormenosdametadedonúmerode países da África, não consegue sequer alcançar esse nível de integração, com suas organizações internacionais gradualmentemaisabandonadas.
Para compreender a relação entre a falta de uma integração latino-americana e a dependência econômica do Brasil aos países do Norte Global, é valioso considerar os estudos de Celso Furtado, economista brasileiro cujos pensamentos-refinadosporsuaatuação na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e por suas interações com intelectuais como Raúl Prebisch - são uma grande referência ao entendimento econômico da AméricaLatina,e,sobretudo,doBrasil.
Com perspectivas que mantêm-se atuais em uma realidade que ainda se demonstra pungente, Furtado pôs
em foco a vulnerabilidade econômica dos países latino-americanos. O Brasil, como participante dessa classe, segue preso em uma condição de subdesenvolvimento e de uma economia pobre em diversificação e produção de tecnologias, com elos em uma condição estruturalde sujeição a importação das inovações dos países desenvolvidos para progredir em suas técnicas. Umamudançasubstancial,defato, nunca ocorreu. A industrialização da América Latina, englobando a do Brasil,nuncafoisucedidapelareduçãodas desigualdades, mas sim pela acumulaçãoderiquezaparaumfragmentoínfimo dapopulação.Osprimórdiosdessaacumulação advieram da colonização, e, no contexto do Brasil, cujas políticas econômicas sempre foram usualmente dirigidasporgruposdispostosasustentar tão-só interesses individualistas, foi pujante desde a década de 60 por um célereprocessodeindustrializaçãocom uma enorme concentração de renda. Em sua obra “A hegemonia dos Estados Unidos e o Subdesenvolvimento da América Latina”, Furtado
explora como o modelo econômico da região latino-americana permanece guiadopelaexportaçãodematérias-primas, condicionando uma organização de produção subalterna ao comércio internacional e frequentemente conduzida pelos interessesdos países reputados por seu capital político-econômico e concentração de tecnologia, e, que à vista disso, ocupam uma posição hegemônica no Sistema Internacional, como os Estados Unidos. Esses mesmos países ocupam uma posição de provimento de grande parte do financiamento da economia brasileira. Essa dependência prejudica a eficácia de políticaseconômicasdefatosoberanas.
A ausência de uma integração regional forte agrava essa sujeição econômica, mesmo com solos férteis, uma mão de obra qualificada, uma população enorme a ser abastecida e culturas tão ricas nesses territórios. O uso desses recursos para uma vantagem mútua é obstaculizado pelo carecimento de políticas de integração eficazes. Apesar de enfrentarem adversidades aproximadas, tais como instituições frágeis, democracias instáveis e falta de infraestrutura, os países latino-americanos geralmente desde-
nhamaurgênciadeestabeleceraregião como um bloco unido no Sistema Internacional. Isso atravanca posicionamentos emancipatórios nas convenções e organizações internacionais.
Para dirigir-se à verdadeira autonomia do Brasil quanto ao países desenvolvidos, é preciso fomentar uma integração sólida, contendo a celebração de acordos comerciais justos, a formação de cadeias produtivas regionais, o apoio mútuo à iniciativas de infraestrutura e a prossecução de políticas econômicas que proponham um fortalecimento regionalanti-imperialista e nãoimperialista.
Emseutexto“ObstáculosPolíticos ao Crescimento Brasileiro”, Furtado enfatiza que o verdadeiro desenvolvimento somente sucederá onde existir umprojetosocialsubjacente,umaperspectivahistóricae sociocultural, euma sociedadeconscientedeseusproblemas e que não careça de debates acerca das questões nacionais e internacionais. O territórioutilizadodeumpaís-conceito trazidoporMiltonSantos-temdepossuir valores para uma industrialização condizente com a realidade nacional, visando a redução das desigualdades socioeconômicas que a arruína.
Oelitismodasinstituições
Enquantoisso,emtodoocasoque diz respeito a quem ocupa os espaços de decisões dos países latino-americanos, refere-se a sujeitos imensamente distantes da realidade popular. Nascidos e crescidos em ambientes repletos de privilégios sociais e condições materiais,aselitesnacionaisapoderam-se das discussões acerca das políticas públicas, impossibilitando transformações efetivas e emancipatórias na políticainternacionaldaAméricaLatina.
Dessa forma, é essencial refletir acerca da composição dos espaços de decisão e como a ausência de representantes que compreendam as realidades sociais e econômicas do Brasil compromete a formulação de políticas públicas alinhadas às necessidades da população. Essa participação é fundamental para que as instituições deixem de ser castelos distantes do povo e de seu conhecimento, a fim de criar um futuro mais próspero para a América Latina, valorizando suas riquezas naturais, culturais e históricas, e promovendo uma vida digna para suas populações.
Em outubro deste ano serão completados 15 anos desde o dia em que o Brasil elegeu sua primeira presidente mulher da história. Ainda antes, em agosto, farão 9 anos da data em que o Brasil perdeu, por meio de um golpe político, a primeira presidente mulher de sua história. Desde então, três homens revezaram o mandato do PaláciodoPlanalto,comviceshomens, ministérios majoritariamente ocupados por figuras masculinas – sendo que os mais importantes, Casa Civil e Fazenda, não viram mulheres passarem pela porta desde então – e composições de governo que parecem repetir oescritodoqueé,háséculos,apolítica brasileira: um clube masculino construídoparahostilizareafastarqualquer mulher que não serve ali a algum propósitoouutilidade.
E com propósito / utilidade, é importantedizer:aolongodessesanos, algumas mulheres foram peças-chave paraosprojetosdepoderquechegaram a assumir a presidência. Michele Bolsonaro representava a figura da mulher comportada, bonitae com“classe”que contrapunha a desordem e a subversão da mulher feminista de esquerda – era uma figura lançada para servir
Por: Bernardo Almada
de espelho à mulher de classe média que não queria ser confundida com a ralé ascendente. Damares cuidava da pastadosDireitosHumanosporevocar a figura da mãe “de antigamente” que legitimava a surra, o esporro e o conservadorismo no comportamento: era a sinalização de que a assistência social poderia se desvincular da esquerda. Marcela Temer? Bela, recatada e do lar.AtémesmoPabloMarçaltinhauma candidata mulher como vice – Antônia de Jesus, policial negra, servia paramostraraoeleitoradomédioqueo coachnãoeramachistaouracista. Valedestacar,noentanto,queesse comportamento não é artifício exclusivo da direita, mesmo que seja fundamental em seu projeto. Lula teve duas oportunidades de indicar uma ministra para o STF e não o fez, montou uma bancada ministerial composta em sua maioria por homens e, na hora do aperto, o primeiro ministério de primeiro escalão a ver mudanças foi justamente o da saúde da ministra Nísia Trindade – adendo: Nísia fazia uma gestãofracaeapagadanapasta,eoque fazem Rui Costa, Alexandre Padilha e Camilo Santana se não gestões consideravelmente piores e mais apagadas
doqueadeNísia?Porqueelafoiaprimeiraaserdeixadadelado?Epior,foi quempassouquasedoisanossendofritada pelo centrão e por Lira com raríssimosacenospúblicosdopresidenteou deoutrosmembrosdogoverno.
Por isso, fica o questionamento: o brasileiro pode sonhar com a volta de uma presidenta ao poder? É de conhecimento geral que a sociedade brasileira ainda é marcada por traços fortes de patriarcalismo e que o conservadorismo ganhou tração ao longo dos últimosanoscomorespostaaosanosdePT e do progressismo - mesmo que várias vezes tímido - da esquerda no poder. É possível,portanto,queestejamosdiante de um cenário um pouco distinto para os três campos: hoje, entre esquerda, centro e direita, é a última das opções que parece avançar mais velozmente em direção à viabilização de uma candidaturafemininadegrandeporte.
Mais do que inesperado, chega a ser deprimente e fragilizante para os progressistas assistir ao campo conservador tomando a frente nesse aspecto, mas é fato: atualmente, a extrema-direita conectada ao bolsonarismo tem, ao menos, três nomes nacionalmente fortes, sendo que duas ocupam cadei-
ras no Senado. DamaresAlves, ex-ministra citada anteriormente, e Teresa Cristina, também ministra no mandato de Bolsonaro, podem até não ser nomes que, hoje, seriam competitivos para uma eleição presidencial, mas estão no degrau que vem logo abaixo. Ou seja, se por acaso decidirem concorrer para o Executivo de seus estados, largariam como favoritas, e cada uma delas possui ampla popularidade nos dois grupos que passaram a pautar mais diretamente a política brasileira recentemente: Damares entre os evangélicos e Teresa junto ao agronegócio. Oterceironomedaextrema-direitanão ocupa cargos mas é a mais ventilada para uma possível candidatura presidencial, Michelle Bolsonaro, a ex-primeira dama, constantemente pontua bemempesquisasde intenção devoto, tem menor rejeição que Bolsonaro e fez um trabalho extremamente eficaz à frente da presidência do PL Mulher. Seumarido parece ser o maior impeditivoparaumacandidatura.
Dentro do Centrão é ainda mais difícil encontrar mulheres em posições de protagonismo, MDB, União Brasil, PSD, Republicanos são fortemente dominados por homens mais velhos, mesmo que com tendências moderadamente menos conservadoras que a extrema-direita. Nesse campo, parece haver um único nome de real destaque para se prestar atenção em uma futura eleição presidencial: o da senadora e ministra Simone Tebet. Com exceção do caso distinto que é Michelle Bolsonaro, Tebet é, de longe, a candidatura com maior potencial entre as políticas mulheres atuantes hoje; a senadora apostouforteemsuacandidaturapresidencialde2022,peitouaaladominante do partido que não pretendia bancá-la, fez mais votos que nomes tradicionais como o de Ciro Gomes e emplacou de maneira bem sucedida no eleitorado a
imagem de candidata moderada e preparada.Simonetemméritos,issoéfato, mas cabe questionar: o país não pode sonhar com uma candidata mulher que seja um pouco mais? Uma candidata que, de fato, representaria um avanço do campo progressista e não alguém que, em tantos assuntos, é tão mediocrementeneoliberalquantoTebet?
Em tese, é aqui que entraria uma
resposta da esquerda. Na prática: nada. Umaministradedestaqueseriaumbom caminho para viabilizar uma futura candidatura, mas, como foi dito, Nísia foi rifada,Anielle Franco não decolou, MacaéEvaristoentrouhápoucotempo e Esther Dweck fez um ótimo trabalho com o CNU, porém é do secundário Ministério da Gestão e Planejamento. Em 2014, Marina Silva sofreu um dos maiores assassinatos de reputação que essepaísjáviuporpartedopublicitário dacampanhadeDilma,JoãoSantana–foram anos até que Marina consertasse parte do estrago, mas a ambientalista, que chegou até a liderar pesquisas de intençãodevoto,nuncamaisatingiutal patamar. Dilma foi vítima de umgolpe regado a machismo e viu até mesmo aliadosdaesquerdaatiraremcontraela; Não são poucos os casos a nível municipale estadualdemulheresque foram vorazmente atacadas e politicamente inviabilizadas.
Um eleitor poderia então argumentar: o que faltam são mulheres aptasaassumir umcargo que demanda
tanto como o de presidente. Isso seria não apenas falta de informação como também desonestidade: há alternativas de mulheres competentes ao longo de todo o espectro da esquerda e do progressismo. Há as mais antigas na política,comoBeneditadaSilvaeManuela D’ávila, a nova geração com Natália Benavides e Marília Arraes, aquelas mais combativascomo GleisiHoffman e Erika Hilton, e até aquelas que, na verdade, não são tão de esquerda assim,comoTábataAmaraleaprópria SimoneTebet.Oquefaltaentão?
Maissimplesdoqueparece:oque faltaéacoragemparabancarumacandidata mulher. Sobra a preguiça de se esconder na falácia de que o povo brasileiro é excessivamente conservador para emplacar uma mulher no poder e falta atitude para que um partido use suamáquinaparaviabilizarumacandidaturafeminina competitiva.Diante da crise da esquerda e do progressismo, o quepareceacontecerhojeéqueospartidosde esquerda, se recusandoa reconhecer uma desconexão com a base, jogampara a figura do que chamamde “identitarismo”aculpaporseusfracassos eleitorais. Por isso, volto a repetir: o eleitor brasileiro não recusa uma presidente mulher. Dilma se reelegeu em uma das eleições mais fortemente influenciadas pela Globo, pelo agro e pelo empresariado do Sudeste contra ela, Marina foi favorita por meses, Heloísa Helena chegou a fazer mais de 6milhõesdevotosmesmoconcorrendo contra Lula. Para além do machismo, a maior barreira para as mulheres na política, hoje, é a má vontade de quem mais deveria apoiá-las. Triste seria se a sucessora de Dilma no poder fosse Michelle.PioraindaDamares.
Revertendooimpedimento
Por: Graziela Alves
No dia 21 de setembro de 1975, na cidade de Sorocaba, interior de São Paulo, cinco irmãs tomaram uma decisão que ecoa até hoje na história do futebolbrasileiro.Motivadaspelospais a superar obstáculos e abraçar o amor pelo esporte, Maria Helena, Marina, Rosa, Paula e Maria José Ramalho fundaram a Torcida Organizada Tira-Prosa, a primeira torcida organizada exclusivamente feminina do Brasil, paraacompanhareapoiaroSãoBento, timedacidade.Asirmãscontamqueno início tiveram imensa dificuldade em superar o machismo, os olhares contrariados e as provocações, mas persistiram com o apoio que receberam do próprio clube e da imprensa. Foi o primeirodeumalongasériedemovimentos organizados e protagonizados por mulheres com o propósito de ocupar um meio tão violentamente segregado, que deve hoje – e sempre – ser lembradoparanosdarcoragemde,mesmo vivendoepisódiosquasediáriosdeviolência misógina, num contexto de uma forte onda internacional social e politicamente conservadora, continuar frequentandoessesespaçosecontrariando a tendência masculina de brutalização de um dos sentimentos mais intensos e inexplicáveis da experiência brasileira: apaixãopelofutebol.
A iniciativa tomada pelas torcedoras do São Bento inspirou grupos como o Movimento Alvinegras, do Corinthians,eoVerdonnas,doPalmeiras,queresolveramunir-seemtorcidas organizadas exclusivamente femininas com o objetivo de criar um espaço de segurança, respeito e combate à segregaçãodegênerodentroeforadosestádios. A existência dessas torcidas é essencial também para pressionar e fazer-se ouvir nos diversos e frequen-
tes momentos nos quais a dinâmica política por dentro dos clubes prova-se tal qual o perfil de seus representantes: misógina e conservadora. Em 2023, o Corinthians contratou o técnico Cuca, condenado em 1989 pelo estuprocoletivodeumaadolescentede 13 anos, para assumir o comando técnico do time, demitindo-o em menos de um semana devido à intensa pressão da torcida e da imprensa. Ao final do segundo e último jogo pelo Timão, Cucafoiabraçadoportodososjogadores e ouviu do então presidente Duílio Monteiro que a pressão contra ele foi “um massacre”. O rival alviverde também foi alvo de polêmica, em 2024, após o técnico Abel Ferreira, conhecidopelaposturagrosseiranalateraldo gramadoeemcoletivas,terrespondido umarepórterquesimplesmenteoquestionouacercadeumalesãosofridapelo lateral Mayke durante o jogo com a frase:“Sódevosatisfaçãoatrêsmulheres:minhamãe,minhamulhereàLeila [Pereira, presidenta do Palmeiras].” Ou seja, por maior que sejam a luta e o esforço, por mais importante e revolucionáriaquesejaapresençafeminina
nomeiodofutebol,aindasomosdiariamentesubjugadasàforçadasviolências literais e simbólicas por parte de torcedores, dirigentes, técnicos, jogadores e detodososhomensqueutilizamofutebol como instrumento de segregação e submissãodasmulheres,desdeosmais tradicionalmente conservadores até os que se aproveitam da aura dos chamados “Times do Povo”, os times populares – e supostamente mais diversos e inclusivos –, como escudo e sustentação para projetar uma imagem progressista, mas que, ao fim, sempre se provam ser, antes de qualquer coisa, masculinosemasculinistas.
Foi em 2015 a primeira vez na qual eu parei para assistir de verdade um jogo e comecei a tentar entender os comentários do meu pai, igualmente fanático pelo esporte e o maior gremista que eu conheço. Ouvi de pessoas próximas de mim na época que eu estava fingindo que assistia aos jogos pra ganhar atenção dos meninos da escola, os mesmos que riam enquanto me pediam para explicar a regra do impedimento
ou citar sem errar a escalação de times de 1500. O futebol me proporcionou muitaslágrimasdealegriaedetristeza, algumas das mais intensas sensações queeujásentinavida,eeunãoconsigo imaginaraminhavidasemele.Masele também me proporciona o mais profundo nojo toda vez que acontecem casos de machismo contra torcedoras, jogadoras, árbitras, jornalistas e qualquer mulher que sequer ouse chegar pertodoesportetãoamadoeidolatrado por quase a totalidade dos homens no Brasil e no mundo. Eles não conseguem aceitar que pessoas que eles não reconhecemcomosereshumanos, apenas como objetos sexuais e seres inferiores, entendam e compartilhem essa paixão.
Viver a comunidade do futebol e ver todos os dias a maneira como os homens nesse meio tratam mulheres me faz entender profundamente porque tantas se recusam a se interessar por jogos e procuram se distanciar o máximo possível dessa cultura, ao mesmotempoquemefazadmirarcada vezmaisasmulheresqueocupamesses espaçosenãopermitemqueavozfemininasejasilenciada.Quantomaistentaremnosimpedirdeviveresseamor,nos calandoenosviolentando,maispresentes estaremos nas arquibancadas, nos gramados, nos programas esportivos, nos jornais, nas diretorias, nos espaços “deles”. Ser uma mulher no meio do futebol é um ato político – porque ser uma mulher em qualquer espaço é um ato político. É um dos meus maiores desejos,assimcomoacreditoqueoseja para todas as mulheres fãs do esporte, que um dia a nossa realidade seja diferenteequenãoprecisemossofrercomo sofreram e sofrem tantas outras, como asirmãsfundadorasdaTira-Prosa.Que sejamoslivresparaexistirsemanecessidade de resistir. Para sermos apenas torcedorasapaixonadas.
Mãosaoalto,essatarifaé umassalto!
Por: Mariana Monteiro
Com filas quilométricas e mobilidade urbana precária, Florianópolis inicia o ano de 2025 com mais um aumento na passagem do transporte público.Ovaloranterior(R$6,00)jáera um dos mais caros do país, agora, com o reajuste de 15%, a cidade - que protagonizou a revolta da catraca 20 anos atrás - passa a liderar a lista das capitaiscomotransportepúblicomaiscaro doBrasil.Comadiminuiçãodoefetivo de trabalhadores, o sucateamento da frotaeainsuficiênciadaslinhasdeônibus,oaumentodapassagemrepresenta uma afronta à população e um ataque diretodoprefeitotiktokerTopázioNeto (PSD)àclassetrabalhadoraeestudantil dacidade.
Para “incentivar” o uso do transporte público, a prefeitura garante a gratuidade dos ônibus no último domingo do mês e, no último verão, durantetodososdomingosdejaneiroe fevereiro. Porém, ignora a necessidade dequemdependedotransportepúblico para trabalhar e estudar, restringindo a gratuidade ao lazer dos turistas, além denãobuscarsoluçõesreaisquedefato
Longe de ser um sonho irreal ou impossível, a chamada Tarifa Zeroque garante a gratuidade do transporte público-jáérealidadeemmaisde100 cidades pelo Brasil, entre elas Garopaba (SC), Luziânia (GO) e Caucaia (CE).Afalta de esclarecimento do que é a Tarifa Zero e de como ela se mantém faz com que muitos questionem sua necessidade e eficácia. Por isso, é fundamental entender mais a fundo essemovimentoeseuprojeto.
O Movimento pelo Passe Livre (MPL), fundado em Porto Alegre, em 2005, durante o Fórum Social Mundial, é um movimento horizontal e autônomo, que reúne militantes independentesediversasorganizaçõespolíticas. Ele nasceu a partir de um grupo ligadoaomovimentoestudantildeFloripa,quecomeçouatravaressadisputa no início dos anos 2000. Durante os anos de 2004 e 2005, o grupo cresceu e fez da capital catarinense o palco de suasmanifestações, que buscavambarraroaumentodastarifasereivindicaro
passe livre estudantil. Marcelo Pomar, um dos fundadores do MPL, afirmou em entrevista ao Brasil de Fato que as manifestações chegaram a reunir entre 15 e 20 mil pessoas, sendo imprescindíveis para a nacionalização do movimento em janeiro de 2005. Anos após suacriação,omovimentoentendeuque era preciso pautar, além dos direitos estudantis, o direito à cidade. Isso fez com que a organização passasse a reivindicaraTarifaZeroparaapopulação geral, sem deixar de lado sua origem e alutaestudantil,masabrangendoefortalecendosuasreivindicações.
Segundo uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística(IBGE),cercade15%darendadas famílias brasileiras é gasta com transporte, superando, assim, os gastos com alimentação. As altas tarifas negam diretamente um direito básico à população mais pobre da cidade, que se vê presa em um espaço limitado.Aqueles que dependem do transporte público para chegar ao trabalho são assaltados com aval do estado e obrigados a aguentar horas e mais horas em frotas sucateadasesuperlotadas.
O alto valor das tarifas afasta a sociedade do transporte coletivo, reduzindoacadaanoquepassaonúmerode usuários. Essa realidade gera efeito de bola de neve: quanto menor o número de passageiros, maior o valor da tarifa,
eassimpordiante.Alémdesseimpacto direto, há o sucateamento do serviço, traduzido na diminuição da quantidade de linhas e horários do transporte coletivo. Esse é então um problema que se retroalimenta, tendo uma única saída possível: a adoção da Tarifa Zero no transportepúblicomunicipal.
Nodia17defevereirode2025,os vereadores psolistas Afrânio Boppré, LeonelCamasãoeIngridSateréMawé, eapetistaCarlaAyresprotocolaramum projeto de lei que tem como objetivo a implementação da tarifa zero em Florianópolis. O texto foi uma iniciativa do MPL, que contou com o apoio de vários movimentos sociais e organizaçõespolíticasdacidade.OPLapresenta umasoluçãoparaoprincipalmotivode desconfiança da população em relação ao projeto: seu financiamento. O documento estabelece que o pagamento das tarifasdeveserfeitoapartirdaTaxado TransportePúblico(TTP),queserávinculada ao Fundo Municipal e utilizada exclusivamente para financiar a Tarifa Zero. Ficaestabelecidotambémque os contribuintesdaTTPserãoosempregadores que possuírem dez ou mais funcionários-aquelesquepossuíremnove ou menos funcionários possuirão isenção do pagamento -, e a cobrança será calculada com base na quilometragem percorrida. O valor pago pelas empresas em 2025 seria de R$139,03 por
empregado.
Testesrealizadosemdiversascidades brasileiras comprovam que a gratuidade no transporte coletivo aumenta significativamente o número de usuários. Em Caucaia (CE), por exemplo, o total de passageiros diários foi de 18 mil, em 2021 (antes da implementação da Tarifa Zero), para 90 mil em 2024. Acapital federal também pode ser utilizada como exemplo: no último carnaval, os ônibus e o metrô registraram cerca de 2,5 milhões de acessos, um aumentode46,5%quandocomparados ao mesmo período do ano anterior. A gratuidade do transporte não é um fim emsimesmo,alémdeauxiliarnarenda e garantir o acesso das famílias mais pobres, é uma prática positiva para o meio ambiente e para a mobilidade urbana. Por fim, é urgente que o PLda Tarifa Zero seja aprovado: o transporte público, gratuito e de qualidade deve serumdireitodetodos.
Eleiçõesalemãseo avançodaAfD
Por: Stephany Biava
As eleições na Alemanha são feitas de duas formas: pela majoritária e pela proporcional. A primeira etapa de uma eleição é quando o eleitor vota no seu político preferido, e aquele com mais votos ganha, ou seja, de maneira majoritária.Jánasegundaetapa,oeleitor vota emum partido, eosvotosdestinadosaelevãoparaumalistafechada de parlamentares e são equivalentes à quantidade de congressistas que irão ao Bundestag. Entretanto, é necessárioqueospartidostenham,nomínimo, três parlamentares escolhidos na fase majoritária ou 5% da soma dos votos nacionais.
Após isso, a legenda com maior número de representantes tenta formar coalizõesdegoverno,criandoumabase governista adquirindo maioria parlamentar. Se conseguir ser formado, o blococomumenteelegeolíderdasigla com maior número de cadeiras para chanceler, que é indicado pelo presidente,precisando ele ter sido eleito em seu distrito e possuir uma cadeira no parlamento.
Os quatro principais candidatos paraaseleiçõesde2025eramFriedrich Merz, do partido conservador União Democrata Cristã (CDU), Alice Weidel,dopartidodeextremadireitaAlternativa para a Alemanha (AfD), Olaf Scholz, do Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda, e Robert Habeck, atual vice-chanceler e líder dos Verdes. Nas pesquisas eleitorais, o bloco CDU e o partido União Social Cristã (CSU), lideram votos, assim comoaAfD,quetemsuapopularidade crescendo desde o ano passado, com o SPD e o Verde ocupando o terceiro e quartolugar.
No dia 23 de fevereiro deste ano os alemães foramàs urnas. Os partidos União Democrata Cristã da Alemanha (CDU) e União Social Cristã (CSU), também conhecidos como “União”, obtiveram a maioria dos votos, com 208 cadeiras, e Friedrich Merz muito provavelmente se tornando o próximo chanceler daAlemanha.AAfD dobrou seu resultado em comparação com as eleições de 2021, obtendo agora 152 cadeiras, enquanto a SPD obteve 120 cadeiras e o Verde 85 cadeiras. Vale comentar ainda que o parlamento alemãoécompostopor630cadeiras, com as restantes sendo ocupadas pelo A Esquerda(64)eSSW(1).
A direita radical alcançou seus melhores resultados eleitorais no país desde a Segunda Guerra Mundial, tornando-se a segunda maior força política do país. Esse avanço levanta preocupaçõessobreaestabilidadepolítica do país, forçando outros partidos a endurecerem discursos sobre imigração e segurança e a articularem estratégias que contenham seu crescimento em uma espécie de “cordão sanitário”. Muito embora Merz não pretenda formar coalizão com eles, sua crescente influência dentro do parlamento é um reflexo do que vem acontecendo no resto do mundo, principalmente com Donald Trump nos EUA, Marine Le Pen, Giorgia Meloni e Santiago AbascalnaEuropa.
Seu crescimento se deu baseado em pautas nacionalistas e anti-imigração, críticas à União Europeia e oposição a políticas ambientais. Questões econômicas, como a queda do PIB e
o aumento da inflação, também são fatores importantes. O crescimento do país depende muito do gás russo, mais barato do que outros, cujo fornecimento foi interrompido pela invasão à Ucrânia, além de sua dependência de indústrias automobilística, produtosquímicoseengenhariademáquinas e suas exportações, que não recebem investimentoeminfraestruturatecnológicase digitaissuficientes para competiremnomercadointernacional.
Aquestão migratória é uma pauta comum dentro do avanço da extrema direita, crescendo no país após uma série de ataques atribuídos a imigrantesqueaguardavamasilo.AAfDinsiste não ser racista ou anti-imigração e que qualquer pessoa é bem vinda no país desde que chegue por meios legais. Entretanto,osimigrantessãoimportantes para a Alemanha por conta de sua mão-de-obra, com a economia do país podendosofrersemeles,masnãoéisso queoseleitoresdopartidoveem.
Outro fator importantíssimo, não apenas para a crescente presença da extremadireitanaAlemanha,mastambém no resto do mundo, é o apoio, especialmente jovens, que têm nesses partidos uma alternativa para discursos pelos quais não se sentem representados, como questões climáticas, de igualdade de gênero e tantas outras pautas tidas como “identitárias”. A influência e o poder que esses grupos possuem nas redes sociais também é um fator chave, principalmente após o apoiodeElonMuskaAfDeoapoioda MetaaogovernoTrump.
JOGUINHO
Cantinho cultural
EUSEIQUEVOUTEAMAR(1986)
O
filme “Eu sei que vou te amar”, dirigido porArnaldo Jabor e estrelado por Fernanda Torres eThales Pan Chacon, conta a história deumcasal,jáseparado, quedecidefazerumjogodaverdade sobre a história de vida deles após reencontro.Aobra rendeu, em 1986, a Palma de Ouro de MelhorAtriz, prêmio do Festival de Cannes, para FernandaTorres,tornando-aaprimeirabrasileiraavencernacategoria
Com 10 faixas, I Can’t Let Go é o álbum de estreia da cantora e atriz britânica Suki Waterhouse. Lançado em 2022, “o primeiro trabalho completo de Waterhouse abraça os altos e baixos da vida, transformando até mesmo seus lados feios e sombrios em belascançõesparaajudarvocêasuperarsuaprópriaturbulência”. AcríticaespecializadadestacaacapacidadedeWaterhouseem encontrarsuavozmusical,mesclandoinfluênciasdoindieedream pop com uma estética retrô que remete às bandas femininas dos anos60.
De 1999 e 2007, a Grécia seguiu um modelo de crescimento baseado no endividamento, com expansão do crédito e aumento do consumo, mas sem investimentos sustentáveis. Como os gastos superavam a renda nacional, o país precisou recorrer a empréstimos. A adoção do euro reduziu o custo do crédito, mas a competitividade da economia grega declinou, agravando os déficits comerciais e aumentando a dívida.
A crise da dívida grega tornou-se mais evidente após 2009, quando se descobriu que o governo havia subestimadoseudéficit fiscal,abalandoaconfiança dos mercados. Com o risco de inadimplência, a UE e o FMI impuseram pacotes de resgate condicionados a severas medidas de austeridade. Os cortes orçamentários reduziram salários, aposentadorias e investimentos públicos, enquanto privatizações foram aceleradas. O impacto social foi devastador: o desemprego ultrapassou 25%, a economia entrou em recessão prolongadaeserviçosessenciais,comosaúde,
educação e infraestrutura, sofreram um desmonteprogressivo.
Afaltadeinvestimentosnamodernização da infraestrutura tornou-se evidente na precariedade dos transportes. O sistema ferroviário, em particular, sofreu com a redução de recursos para manutenção e segurança, agravando o riscodeacidentes.
Oacidenteeagrevegeral
Em28defevereirode2023,aGrécia testemunhou o pior acidente ferroviário de sua história, quando um trem de carga colidiu com um trem de passageiros, resultando em 57 mortes e vários feridos.Afalta de investimentos na modernização e manutenção do sistema ferroviário foi apontada como um fator determinante para o desastre, evidenciandoosefeitosdeanosdeausteridadeecortesorçamentários.
A tragédia desencadeou uma onda de protestos, considerados os maiores desde a crise da dívida. Movimentos sindicais organizaram uma greve geral, denunciando a negligência do governo e a política de liberalização imposta
pela União Europeia. As manifestações paralisaram o país, com a suspensão de voos, trens e serviços públicos, enquanto setores da sociedade exigiam responsabilização pelas falhas estruturaisegestãoinadequada.
O governo de Kyriakos Mitsotakis enfrentou pressão política significativa, com aumento do apoio a partidos anti-establishment. Pesquisas indicaram que 82% da população considerava o desastre ferroviário o maior problema do país, refletindo a insatisfação generalizada com as medidas adotadas após a crise econômica e a falta de investimentospúblicosadequados.
Eu nunca vi o Sol nascendo perto do mar, mas a Iugos