EDIÇÃO
“Narrativas de tragicampanha”
“Ó nuvem sombria, execrável treva que caiu sobre mim, escuridão pavorosa e sem remédio! Ai de mim! Como me traspassam as dores do meu sofrimento e a lembrança de meu infortúnio!”
A frase acima pertence ao desfecho da clássica tragédia grega, Édipo Rei, mas poderia ter sido proferida pelo candidato à prefeitura de São Paulo, Pablo Marçal, após ser atingido com uma cadeira arremessada pelo candidato adversário Datena durante um debate. Já no hospital, Marçal rapidamente se voltou às redes sociais, onde adotou um discurso focado em conquistar a compaixão e admiração de seus seguidores. Em uma de suas publicações, declarou: “servir ao povo é uma missão, vou ter que aguentar tudo”. Este tipo de narrativa, no entanto, não é nova. Na atualidade, não se destaca o mais competente, mas sim aquele que sabe como transformar suas próprias “tragédias” em ferramentas de mobilização política, aquele que provoca mais emoções e propaga mais desinformação.

Nas narrativas trágicas, o sofrimento é um fio condutor da história capaz de gerar reflexão e uma inescapável demonstração da fragilidade do personagem, que tenta lutar contra seu destino; para Marçal, um artifício de manipulação de seus espectadores. Na tragédia nossa, a narrativa não é definida por força divina, mas pelo aparecimento cada vez mais comum de figuras “autênticas”, sem repertório ou capacidade argumentativa, e que representam o anseio de nosso tempo: o compartilhamento. Quanto maior e mais absurdo o espetáculo, mais engajamento.
O que uma facada, um tiro e uma “cadeirada” tem em comum na política? A teatralidade. Se nas narrativas da antiguidade lutava-se contra o sofrimento, que revelava a fragilidade dos heróis, nos tempos da comunicação em massa, a dor é digna de um roteiro muito bem orquestrado. Dor é autopromoção, autopiedade e uma ridícula tentativa de influenciar o eleitorado. Em tempos de eleições, as circunstâncias se desenham não pela fatalidade do destino, mas por encenações heroicas de falsas tragédias pessoais.
LENDAS E DEMOCRACIA
A democracia como fábula, governo Salvador Allende e os limites da democracia
SETEMBRO AZUL
A história da educação para surdos no Brasil e na UFSC
M DE MEDÍOCRE
Pablo Marçal e o absurdo como plataforma política
COMUNICARI
O seu cantinho cultural e os acontecimentos do momento
A CANARINHA VOA?
Desencantamento com a seleção brasileira, futebol, torcida e presidentes
POESIA PARA A ALMA
Quando arte e reflexão se misturam e desnudam
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O PINIÃO
A DEMOCRACIA COMO FÁBULA
Na primeira edição do jornal, propus a reflexão acerca do sentido de democracia para além da simples escolha de representantes, mas uma democracia que emane do povo e seja realizada pelo menos de forma ativa e participativa. Neste momento desejo dar continuidade ao tema questionando: O que acontece quando a vontade, escolha e participação do povo se faz insuficiente? Quais são os limites de todos os conceitos de democracia?
Estas perguntas percorreram os estudos políticos e sociais do século XX e fazem-se novamente presentes, em momentos de crise sistêmica na qual o tecido social se rasga e abre caminho para a luz desnudar suas contradições, permitindo enxergar e compreender quais são os fatores que interagem e sustentam o pleno funcionamento do mesmo.
A democracia é uma conquista da sociedade civil após sucessivas batalhas e incontáveis perdas e surge como um caminho para a população civil lutar para garantir que as suas necessidades mais básicas sejam atendidas – moradia, alimentação, acesso à saúde, educação, cultura, esporte, lazer e trabalho. Ainda que insuficiente, é um símbolo
Por Giancarlo D’aquino
de possibilidade de condições mais adequadas para o convívio em sociedade e para a progressão e aperfeiçoamento da humanidade e seus significados e representações.
No entanto, é importante entender que a democracia como escolha ou como poder popular está cercada e subjugada por um contexto econômico-políticosocial capitalista e imperialista. Neste contexto, intervenções externas, golpes militares e políticos são sistematicamente planejados, financiados e realizados pelo governo estadunidense visando a manutenção da sua posição hegemônica e a garantia da subordinação dos países periféricos. Portanto, enquanto a democracia for útil ao interesse do capital hegemônico, ela permanece como ferramenta, mesmo com suas falhas e limitações, quando ela significa algum risco aos interesses hegemônicos, se torna um inimigo a ser derrotado.
Um “sistema internacional anárquico” e a “necessidade de autopreservação” são muitas vezes utilizados como justificativa às ações imperialistas em outros territórios e a história da modernidade é repleta de exemplos. Porém, para além de nome e datas, entender o real impacto que
o fim da democracia e do poder popular causaram, depende de compreender quais as condições de vida de uma população, as suas dores e seus sonhos, os seus feitos e histórias, e, principalmente, de ouvir a memória de quem ficou e dos que se foram, levados por força externa e cruel. Força essa que, como diria o legado do povo chileno, é “incapaz de parar os avanços sociais”. Para aprofundar a discussão gostaria de propor uma reflexão sobre o governo Allende e sobre as possibilidades e limites de uma democracia.
Salvador, Allende
Em 4 de setembro de 1970, a Unidade Popular do Chile é eleita ao poder executivo, nomeando Salvador Allende como presidente, sagrando-se vencedor apesar de concorrer contra a poderosa máquina publicitária adversária e o apoio declarado da CIA estadunidense contra a sua campanha desde 1962.
Dentro das capacidades que a Constituição e o cargo executivo possibilitavam, somados ao enorme apoio popular, os dois primeiros anos de governo de Allende são marcados pela nacionalização do cobre, principal artigo de exportação
chileno, assim como de demais setores estratégico para a economia do país. É aqui que tem-se o crescimento do acesso ao ensino superior em 89%, o aumento do poder de compra da população, que se consegue triplicar a quantidade de terras destinada à reforma agrária, a construção de mais de 100 mil moradias populares. Somado a isso, marca-seo fortalecimento da participação dos trabalhadores na política e na economia, assim como a sua autonomia e autogestão para tomada de decisões dentro do chão de fábrica: a criação de restaurantes populares, creches e lavanderias públicas, a criação da secretaria de saúde destinada à mulher; todas essas medidas voltadas a reduzir os impactos da tripla jornada de trabalho na vida das cidadãs chilenas. Além disso, exercendo o respeito, reconhecimento e fortalecimento do poder político Mapuche, etnia indígena que representa mais de 10% da população do Chile.
As eleições de meio de mandato apresentaram um cenário em que a burguesia nacional e seus representantes ocupavam a maioria dos cargos legislativos, boicotando, no ano de 1973, todo e qualquer projeto proposto pela Unidade Popular, entre eles estavam: a criação da Secretaria da Família, da lei de reajustes e salários, a lei de participação dos funcionários nas fábricas, a lei para criação de empresas autogestionárias; além de outros vinte projetos de lei do governo que são desfinanciados.
Dentro do período, Allende enfrentava árdua batalha para defender a sua democracia participativa dos ataques das instituições estadunidenses, as quais treinavam e financiavam medidas para desestabilizar o governo. Dentro deles estavam o estoque de alimentos e de bens essenciais, a greve das transportadoras que durou vinte de sete dias e levou ao aumento da inflação, o apoio aos sindicatos patronais, que paralisam as ativi-
dades das minas de cobre e reduziram o seu volume de exportação, a inserção de quarenta agentes treinados da CIA dentro do país, assim como o financiamento de grupos paramilitares e de seus atos terroristas como o grupo neo-nazista “Pátria e Liberdade”, responsável por assasinar dois importantes quadros do governo da Unidade Popular. Não obstante, no mês de julho, militares da alta cúpula do exército chileno realizam a tentativa de um golpe de Estado fracassado, levando a um pedido de Estado de sítio por parte do Executivo, o qual também é boicotado.
Mesmo enfrentando todos os limites que a democracia representativa liberal e a forte pressão imperialista, no aniversário de três anos de sua eleição, o governo Allende recebe o apoio de mais de oitocentos mil chilenos em uma das maiores mobilizações da história do país. Neste evento, o presidente declara seu interesse em convocar um plebiscito popular para criar uma nova Constituição, e garantir democraticamente que a vontade da população chilena fosse capaz de superar os limites impostos pelos interesses de sua elite.
Palavras ao vento
Em 11 de setembro de 1973, a Rádio Magallanes transmite as últimas palavras, um discurso para a história, um apelo à memória, à luta pela esperança de que o povo chileno pudesse, um dia, reencontrar seus caminhos, para uma sociedade e uma vida novamente humanas:
“Diante dos acontecimentos, posso dizer aos trabalhadores que eu não renunciarei. Nesta etapa histórica, pagarei com a minha vida minha lealdade ao povo. Digo a vocês que tenho a certeza de que a semente que plantamos na consciência digna do povo chileno não poderá ser extirpada definitivamente. Eles têm a força, eles poderão nos subjugar, mas não
poderão impedir os progressos sociais, nem pelo crime, nem pela força.
A História é nossa, é o povo que a faz.” A sede do governo foi bombardeada em um exercício conjunto entre as marinhas chilenas e estadunidenses, sob a tutela do general Augusto Pinochet. A ação culmina com o assassinato de Allende, e com dezessete anos de uma ditadura sanguinária e do ataque às conquistas políticas e sociais eleitas.
O caso do governo Allende demonstra que, mesmo com a coragem e o apoio popular necessários para a construção de um governo social e comprometido com a criação de condições de vida dignas, a democracia liberal burguesa se apresenta como incapaz de propiciar as condições mínimas para que tal projeto seja implementado.
Cinquenta e um anos passados, ficam as palavras e o legado heroico de Allende e de todo o povo chileno, descritos em suas palavras finais, sabendo certa a sua morte, mas eterna a sua luta: “Vão adiante sabendo que, cedo ou tarde, os trabalhadores abrirão as grandes alamedas pelas quais passarão homens livres a fim de construir uma sociedade melhor. Viva o Chile, viva o povo, viva os trabalhadores!”

P OLÍTICA

M de messiânico, masculinista e midiático:
M de Marçal
Por: Sophia Dalla
Messiânico, influencer e coach (leia-se com “c” de “charlatão”). Pablo Marçal trouxe consigo uma nova onda de políticos que não só se alinham às pautas da extrema direita e sua evangelização, mas são fruto do digital, com uma influência nas redes sociais que ultrapassa a de qualquer político tradicional. Condenado por furto qualificado, vendedor de cursos on-line – esquemas de pirâmide de cursos digitais sobre como enriquecer que paradoxalmente enriquecem o “coach” – e ex-candidato à prefeitura de São Paulo pelo PRTB em 2024, com destaque para a falsificação do laudo médico de Guilherme Boulos (PSOL), Marçal tem um currículo grotesco e rasteiro, somado a um perfil narcisista. Em um estágio em que a crise do capital é totalizante – afeta todas as nossas relações como indivíduos e como sociedade –, a descrença na máquina pública traz à tona a perversidade do messianismo contemporâneo: a atualização do discurso

da fé faz valer a máxima do sonho de “como se tornar um milionário”, numa busca individual em detrimento da vida comunitária. A desesperança no aparato do Estado, nas políticas públicas e, essencialmente, nas relações de trabalho, conduz ao parasitismo coach da lógica de enriquecimento rápido, e à evangelização das relações não só sociais, como políticas Somado a isso, há o movimento masculinista de homens cisgênero médios que se sentem ameaçados pela expansão de direitos e da atuação política de grupos que não sejam o seu. Figuras como a de Erika Hilton (PSOL), uma mulher negra trans que ocupa a Câmara dos Deputados de São Paulo e luta ativamente por pautas progressistas, são alvo de notícias falsas e pautas inventadas para minar a esquerda, como é o caso da “ideologia de gênero” e os banheiros unissex, que são fantasmas que a direita tanto tenta combater. São pessoas que veem em Marçal – um milionário religioso com um discurso anti-sistema – a representação de seu ídolo e de seus ideais conservadores nos costumes e neoliberalizantes nas finanças. Além disso, o candidato coach-influencer traz consigo novas problemáticas: a falta de legislação com os marketeiros digitais e influencers que se candidatam à política. Não há como tratar com isonomia os candidatos que apresentam uma projeção exponencial nas redes sociais. O patrimônio inicialmente declarado de 88 milhões, o qual depois voltou atrás, declarando 193 milhões, foi alvo de diferentes críticas, em razão das diferentes empresas que patrocinavam e da sua movimentação em grupos do
Discord para premiação de cortes de vídeos com maior engajamento, sem falar da incisiva campanha de Tabata Amaral (PSB), que denunciou o envolvimento do coach com o Primeiro Comando da Capital, o PCC.
Por fim, os milhões de votos em Marçal representam não só a vitória do discurso meritocrático, empreendedor e individualista que o neoliberalismo busca vender, mas também sobre como a extrema direita não precisa de Bolsonaro para se retroalimentar. A não eleição de Pablo Marçal para a prefeitura de São Paulo não classifica uma conquista da democracia, mas deve nos alertar sobre os novos desafios envolvendo o digital, o messianismo, o masculinismo e a política. Resta a nós, então, entender este fenômeno e combatê-lo antes que os 1,7 milhões de votos na prefeitura de São Paulo se tornem os 50%+1 necessários para assumir a presidência da República.

E sporte
Desencantamento:
Seleção Brasileira se afasta cada vez mais do jogo bonito, da torcida e de 2026
Uma das mais emblemáticas discussões dentro do universo e da cultura do futebol é o duelo entre o histórico e o momento. A partir do instante em que um time entra em campo até o apito final do árbitro, o que pesa mais: a experiência, a tradição e a famosa “camisa que entorta um varal”? Ou o entrosamento do elenco, o clima com o técnico e a fase do artilheiro? Se tratando da seleção masculina de futebol do Brasil, se a resposta fosse a primeira alternativa, certamente o cenário atual não seria tão preocupante. Desde o início há mais de um ano das qualificatórias para a Copa do Mundo de 2026, são 9 jogos: 5 vitórias (apenas duas por diferença maior que a mínima: 5x1 contra a Bolívia e o recente 4x0 contra o Peru), 1 empate e 4 derrotas. À sequência instável também se somam turbulências internas, que vão desde uma clara desorganização da Confederação Brasileira de Futebol até polêmicas como discussões de jogadores com a torcida e entrevistas coletivas com declarações que não se conectam em nada com a realidade da seleção. Ocupando, com muitas oscilações, a quarta de seis colocações que conquistam uma vaga direta para o maior torneio de seleções do planeta, com pouca evolução em números, quase nenhuma em qualidade de jogo, e cada vez mais afastada dos brasileiros, a Seleção precisa mais do que nunca tentar mostrar que as 5 estrelas entram em campo com os jogadores.
Quando se debate o baixo desempenho do atual elenco da seleção brasileira, quase sempre é citado o fato de que vários dos jogadores são titulares em grandes clubes europeus mas não conseguem render nesse mesmo nível pela seleção. A principal diferença entre o futebol de clubes e o futebol de seleções é o tempo: se torna muito mais complexo desenvolver uma ideia de jogo quando não existe o convívio constante e o entrosamento que os jogadores desenvolvem jogando juntos durante temporadas inteiras por seus clubes. Antes do confronto do dia 10/09 contra o Paraguai, o técnico Dorival Júnior respondeu à cobranças da imprensa
Por Graziela Alves
apoiando-se no argumento de que a seleção não iria “dar espetáculo do dia para a noite”. Por mais que sejam válidas as discussões acerca da falta de tempo, e que este seja um sério obstáculo no caminho para reencontrar o jogo bonito, outras comissões conseguiram executar a tarefa de vencer e convencer pela seleção com elencos de “menor expressão” do que o brasileiro, como é o caso da Colômbia, que vêm desenvolvendo um bom futebol e venceu a Argentina, atual campeã do mundo, na oitava rodada das Eliminatórias. No fim, é parte essencial do papel de uma boa comissão técnica encarar a realidade e encontrar maneiras de fazer com que os jogadores se encaixem tanto entre si quanto com o estilo de jogo proposto pelo treinador.
Como se não fossem suficientes os problemas dentro de campo, fora dele o panorama pessimista se aprofunda. Desde a inesquecível Copa do Mundo de 2014, se desenha um movimento de afastamento entre seleção e público, ficando perdidos pelo caminho a identificação e o sentimento de representação, seja devido à falta de desempenho, seja devido à postura cômoda e, em muitos casos, egocêntrica apresentada em episódios como a discussão do capitão Danilo com um torcedor que fazia críticas da arquibancada após o empate em 0 a 0 contra a Costa Rica pela Copa América e a declaração do atacante Endrick de que os jogadores, em tom de sacrifício, abriram
mão de suas férias para disputar o torneio. O fenômeno da torcida da Argentina no Mundial de 2022, que levou para o outro lado do mundo o espírito das tradicionais barras bravas, deveria servir de exemplo e é prova de que é possível recuperar esse sentimento de pertencimento e de identificação com a seleção. Além do desempenho e da postura, também é importante destacar que não só a seleção e os jogadores, mas os jogos em si têm se tornado cada vez mais inacessíveis de uma maneira geral. Fica muito mais complexo manter vivos o simbolismo, a conexão emotiva e a cultura de futebol que historicamente acompanharam a seleção brasileira quando a entidade responsável por essa preservação não faz sequer questão de esconder que não se importa com esses elementos.
O futuro da seleção brasileira é incerto. Há quem acredite que, mesmo com uma lista grande de dificuldades, a classificação será garantida nos ombros da mística de ser a única seleção que nunca ficou de fora de uma Copa do Mundo. Outros temem que a aura do passado não seja o bastante para superar a falta de entrega. Independente das várias conclusões possíveis quando se trata do debate entre o histórico e o momento de um time de futebol, a realidade a ser encarada é dura o suficiente para exigir pés no chão, dedicação e clareza para repensar a ideia de jogo que a maior seleção da história do esporte quer apresentar.

S AÚDE

SETEMBRO AZUL CAMPANHA PARA VISIBILIDADE DA COMUNIDADE SURDA NO BRASIL
Por: Rodrigo Packer
A campanha de Setembro Azul, que busca dar visibilidade à comunidade surda no Brasil, através de uma iniciativa que busca promover a inclusão e a promoção dos direitos das pessoas surdas. Essa campanha é uma oportunidade para aumentar a conscientização sobre a cultura surda, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e as barreiras enfrentadas por essa comunidade.
Durante o mês de setembro, diversas ações são realizadas, como eventos, palestras e atividades que destacam a importância da acessibilidade e da inclusão em diferentes contextos, como educação, saúde e trabalho. A campanha também visa sensibilizar a sociedade sobre a necessidade de um ambiente mais inclusivo, onde a comunicação e o respeito à diversidade sejam promovidos. Além disso, o Setembro Azul reforça a importância do aprendizado de Libras por parte da população em geral, para que as interações com pessoas surdas sejam mais fluidas e respeitosas. Essa iniciativa é fundamental para construir uma sociedade mais justa e igualitária, onde todos possam ter voz e vez.
HISTÓRIA
DA CRIAÇÃO DAS
LIBRAS E EDUCAÇÃO DE SURDOS
Antes de 1857, a comunicação entre surdos no Brasil se baseava principalmente em formas de linguagem gestual informais. Essas línguas de sinais surgiram espontaneamente em comunidades surdas, geralmente sem um sistema padronizado ou reconhecimento formal. As comunidades criavam sinais próprios para expressar ideias e emoções, utilizando gestos manuais e expressões faciais, frequentemente influenciados pela cultura local. As línguas de sinais variavam entre regiões, resultando em diferentes dialetos; o que era compreendido em uma comunidade podia não ter o mesmo significado em outra. A comunicação gestual facilitava a interação entre surdos e ouvintes, embora houvesse barreiras de compreensão, e os surdos adaptavam sua comunicação para incluir ouvintes, utilizando gestos e mímicas. A presença de imigrantes e o contato com comunidades de surdos de outros países enriqueceram o repertório de sinais, criando uma mistura de influências. A falta de instituições educacionais para surdos antes do século XIX significava que a transmissão de sinais e práticas linguísticas era feita de maneira informal, através do convívio cotidiano. Essas práticas foram fundamentais para a formação da identidade surda no Brasil. Com o tempo, a necessidade de uma linguagem mais estruturada levou à criação da Língua Brasileira de Sinais
(LIBRAS) e ao reconhecimento das línguas de sinais como parte essencial da cultura surda.
A ideia de implementar um ensino para surdos no Brasil ganhou força no século XIX, culminando na fundação da primeira escola para surdos em 1857, em São Paulo, por Henrique de Souza. Influenciado por métodos europeus, Souza reconheceu a importância da comunicação visual para o aprendizado de crianças surdas. Essa escola foi um marco, oferecendo um espaço para a educação e socialização dos surdos. No entanto, o movimento educacional enfrentou desafios, como a falta de formação para professores e a resistência da sociedade, que frequentemente via a surdez como uma limitação.
A imigração de surdos da América Latina, especialmente no século XIX e início do XX, trouxe novas influências às comunidades surdas brasileiras. A primeira escola se tornou um ponto de referência para alunos de países vizinhos, enriquecendo a comunicação e a cultura local. Essa interação gerou um intercâmbio cultural rico, fortalecendo a identidade surda e contribuindo para a evolução da LIBRAS.
O Congresso de Milão, em 1880, foi um marco na educação de surdos, promo-
vendo a ideia de que a oralidade deveria ser a única forma de comunicação. Essa decisão marginalizou as línguas de sinais e desvalorizou as comunidades surdas, resultando em uma educação inadequada para muitos surdos, que enfrentaram exclusão social e educacional. A resistência a essa abordagem levou à revitalização das línguas de sinais, culminando no reconhecimento oficial da LIBRAS em 2002. Hoje, há um crescente reconhecimento da importância de incluir a língua de sinais na educação e na sociedade, promovendo os direitos da comunidade surda.
Na atualidade, políticas públicas promovem o uso de LIBRAS em serviços de saúde e eventos, com a obrigatoriedade de intérpretes. A presença da língua na mídia e em conteúdos digitais tem aumentado a visibilidade da cultura surda. No entanto, desafios persistem, como a falta de acessibilidade e a necessidade de maior conscientização social. A luta pela valorização da LIBRAS e pela inclusão plena da comunidade surda continua a ser uma prioridade, refletindo o desejo de restaurar e fortalecer a identidade cultural da comunidade surda no Brasil.
LIBRAS E SUAS CURIOSIDADES
Muitas pessoas têm a ideia equivocada de que a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) é apenas um conjunto de gestos engraçados ou uma cópia do português. No entanto, a realidade é bem diferente: a LIBRAS é uma língua distinta, caracterizada por sua modalidade gestual-visual, que combina sinais e expressões faciais. Reconhecida oficialmente como a segunda língua do Brasil, a LIBRAS é estruturada em diversos níveis, como fonológico, morfológico, sintático e semântico. Diferente do português, a LIBRAS não possui artigos, tempos verbais e outras regras comuns às línguas orais. Assim como a língua portuguesa, a LIBRAS é mutável e apresenta características regionais, com diversas variações entre as diferentes áreas do país. Um levantamento realizado em 2010 pelo IBGE indicou que cerca de 10 milhões de pessoas no Brasil possuem deficiência auditiva ou surdez, o que evidencia a necessidade do uso da língua de sinais para comunicação. Contudo, atualmente, em
um grupo de 10 surdos, 5 não têm acesso a um ensino inclusivo adequado e alfabetização, e 2 não concluem sequer o ensino médio.
A LIBRAS conta com aproximadamente 14.500 sinais, que, por meio de expressões faciais e combinações, permitem a formação de palavras e frases. É importante notar que a LIBRAS não é uma língua universal; existem várias línguas de sinais ao redor do mundo, como a American Sign Language (ASL), a Langue des Signes Française (LSF) e a Lengua de Señas Argentina (LSA).
Além disso, a LIBRAS também tem aplicações curiosas, como o treinamento de cachorros, que podem aprender comandos baseados em sinais, desde que recebam o treinamento adequado. Vale ressaltar que apenas em 2010 a atividade de tradução em língua de sinais passou a ter regulamentação no Brasil, um passo importante para a valorização e inclusão da comunidade surda.
Dessa forma, a LIBRAS é mais do que um meio de comunicação; é um elemento crucial da identidade cultural da comunidade surda, que merece ser respeitado e reconhecido em sua singularidade e importância.

INCLUSÃO DA UFSC
A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) tem se esforçado para promover a inclusão de estudantes surdos, reconhecendo a importância de um ambiente acadêmico acessível. A universidade oferece serviços de apoio, como tradutores e intérpretes de Libras, facilitando a compreensão do conteúdo nas aulas e eventos. Além disso, investe na capacitação de docentes para atender às necessidades desses alunos, promovendo um ambiente acolhedor.
A adaptação de materiais didáticos também é uma prioridade, com o desenvolvimento de recursos acessíveis, como vídeos legendados. Grupos de apoio e redes de convivência são criados para fomentar a integração social e acadêmica. A UFSC
ainda realiza campanhas de sensibilização para envolver toda a comunidade acadêmica nas questões de acessibilidade e respeito à diversidade.
Apesar dos esforços da Universidade para promover a inclusão de estudantes surdos, ainda existem desafios significativos que esses alunos enfrentam no ambiente acadêmico.
Um dos principais pontos de dificuldade é a disponibilidade de intérpretes de Libras em todas as aulas e eventos. Embora a universidade tenha feito progressos, muitas vezes a demanda por intérpretes supera a oferta, o que pode resultar em barreiras na comunicação e na compreensão do conteúdo. Isso pode afetar diretamente o desempenho acadêmico e a participação dos estudantes nas atividades.
Além disso, a adaptação de materiais didáticos ainda é uma questão a ser aprimorada. Em muitos casos, vídeos e textos não estão disponíveis em formatos acessíveis, como legendas ou versões traduzidas, dificultando o acesso à informação. Essa falta de recursos adaptados pode limitar o aprendizado e a inclusão dos alunos surdos nas discussões em sala de aula.
Outro desafio é a formação contínua de docentes e servidores em relação à inclusão de alunos surdos. Embora haja iniciativas para capacitar professores, ainda existem lacunas no entendimento das melhores práticas para atender a esses estudantes, o que pode resultar em experiências educacionais inconsistentes.
A socialização e a construção de redes de apoio também representam um desafio. Muitos estudantes surdos podem se sentir isolados devido à barreira linguística e à falta de interação com colegas. A criação de espaços que promovam a convivência e a troca de experiências é fundamental, mas ainda precisa ser ampliada.
Por fim, a sensibilização da comunidade acadêmica como um todo sobre a importância da inclusão e do respeito à diversidade ainda é um processo em andamento. Campanhas de conscientização e iniciativas que envolvam todos os membros da universidade são essenciais para promover um ambiente mais acolhedor e inclusivo
Saudades do céu azul brigadeiro: o cenário das queimadas no Brasil
Você provavelmente percebeu que durante o último mês nossa vidinha foi assolada por uma bolha de fumaça, e você provavelmente também sabe o motivo disso. As queimadas no Brasil, especialmente em 2024, atingiram níveis alarmantes, configurando uma crise ambiental sem precedentes. Apenas em agosto, o país registrou 5,65 milhões de hectares queimados. Naturalmente, a devastação é acompanhada de uma espessa nuvem de fumaça que cobre tanto o campo quanto as cidades, talvez uma nova marca registrada de nossos tempos. da bioeconomia”.
Lula coloca-se como um diplomata ambiental, com um discurso permeado pela defesa de ações contra a mudança climática, mas não conseguiu escapar da realidade das queimadas que assolam o país. As queimadas em agosto no país cresceram 149% em relação ao mesmo período no ano passado, aumentando questionamentos contra o governo na área ambiental.
O discurso de Lula também contrasta com as políticas energéticas de seu governo, como a exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas e a pavimentação de uma estrada na Amazônia, o que pode aumentar o desmatamento. Essa ambiguidade tem gerado críticas de ambientalistas, como Tica Minami, e do Observatório do Clima, que apontam que o discurso ambiental de Lula perdeu força e foco, além de não apresentar metas concretas para a ação climática, mesmo com a aproximação da COP-30, a ser realizada no Brasil.
O consultor político Thomas Traumann
Por Stephany Biava
comentou que Lula, antes visto como um campeão da causa ambiental, agora enfrenta dificuldades para sustentar essa imagem. Segundo ele, embora não seja inteiramente responsável pelos incêndios, o governo poderia ter evitado parte deles se a greve do Ibama não tivesse durado tanto.
Quem precisa de vegetação nativa?!
A ministra Marina Silva alegou que não foi apenas uma grande estiagem, mas também uma grande seca, com 58% do território nacional em situação de seca, dos quais ⅓ enfrenta também uma escassez hídrica. A maior seca dos últimos anos no pantanal, no cerrado na caatinga e na amazônia. O governo descobriu que seu preparo não foi suficiente.
Segundo o Monitor de Fogo (criado pelo MapBio em 2019), 70% das queimadas no Brasil em 2024 destruíram vegetação nativa. O estado do Amazonas, com 21,6 mil queimadas, bateu o recorde de pior índice de queimadas em 26 anos, encontrando-se em estado de emergência ambiental. Enquanto isso, Manaus e as outras 61 cidades amazonenses estão cobertas de fumaça, tornando o ar irrespirável para milhões de pessoas. Os três estados que mais queimaram nos oito primeiros meses deste ano ficam na Amazônia: Mato Grosso (21%), Roraima (17%) e Pará (14%). O bioma que concentrou 48% de toda a área incendiada no Brasil no período. O cenário no Cerrado não é menos encantador. Estima-se que 2,4 milhões
de hectares foram destruídos em agosto, a maior área queimada nos últimos seis anos. O bioma está sofrendo de um verdadeiro ataque de limpeza ambiental, piorando também a qualidade do ar das cidades ao seu redor. Já o Pantanal bateu recorde de queimadas entre janeiro e agosto, com 1,22 milhão de hectares atingidos pelo fogo. A perspectiva é de que esses eventos possam se tornar cada vez mais frequentes e mais intensos. Boa parte dos incêndios ocorreram em áreas privadas, fora dos domínios da responsabilidade do governo, mas a postura do governo federal foi de trabalhar em conjunto no pantanal, assumindo mais de 80% das operações, na Amazônia cerca de 60%, além de estarem em mais de 70% das operações no geral. Estão trabalhando para conter o problema do fogo. No Brasil não estamos preparados, assim como todos os outros países, como o Canadá e Portugal, o mundo, a humanidade, não está preparado para as mudanças climáticas, como aponta o ministra do meio ambiente.
O governo federal anunciou recentemente um pacote de medidas, em que parte da verba vai para reformar serviços de defesa civil, auxiliar corpos de bombeiros e brigadistas. Esses recursos miram estruturas de combate, não de prevenção, como uma contradição. Marina Silva alega estarem fazendo o combate nos dois eixos, já que o fogo já está acontecendo, com essa verba também sendo utilizada para a prevenção, com políticas públicas que vão se estruturando.

COMUNICA RI
Primeira edição do Canarinho!
Em setembro demos início oficialmente ao Canarinho! O Jornal das Relações Internacionais. Oba! Que venham muitas edições!
Setembro e Outubro nas RIs
Por Stephany Biava
Se você ficou de fora no último mês porque está totalmente perdido ou porque foi abduzido em um dos pontos de abdução de Floripa não se preocupe! O Canarinho está aqui para te atualizar de tudo o que rolou nos últimos meses!
Mês de recepção dos calouros e Interatléticas
Agora muito mais do que bem recepcionados, nossos novos futuros internacionalistas provaram um pouquinho do que vão ser os próximos 4 anos! Contamos com diversas programações para recebê-los da melhor forma: tour pela UFSC, com fala sobre o CARI e lanchinhos; Carioke; MiniSEPEX; e, é claro, a Recepção!
A3RI no Interatléticas
Durante o mês de setembro nossos atletas (ou não tanto) competiram pela balinha no IA! Participamos de modalidades como: vôlei de areia masculino e feminino, vôlei de quadra masculino e feminino, futsal masculino e feminino, handebol feminino, basquete masculino, tênis de mesa e xadrez! Não surpreendendo ninguém, perdemos todos os jogos! Mas realmente o que importa é competir! E nossos futuros internacionalistas provaram isso!
XV Semanari
Entre os dias 30 de setembro e 4 de outubro aconteceu a XV edição da Semana Acadêmica de Relações Internacionais, com o tema: “Rupturas Globais: reflexões sobre a nova desordem mundial”, refletindo os os desafios contemporâneos em escala global.
Nosso evento contou com as seguintes palestras:
Transição Hegemônica e Caos Sistêmico, com Pedro Antônio Vieira;
Entre duas hegemonias: desafios e oportunidades para o Conesul em um mundo em transição, com Rita Coitinho;
Cine Debate, com o filme Guerra Civil, em parceria com o Cineri;
Narrativas de Guerra: cinema, jornalismo e a representação de conflitos internacionais, com Flávia Guidotti;
O povoado: como nascem as ideias da extrema direita, com Waldir Rampinelli;
Mini Simpósio dos Estudantes, com apresentação de trabalhos de nossos futuros internacionalistas;
O trabalho do internacionalista no campo humanitário: o contexto migratório brasileiro, com Emilly de Amarante Portella;
A luta pela libertação da Palestina e a nova ordem mundial; e Moeda e hegemonia: o papel do dólar na transição da ordem mundial.
Fica aqui um agradecimento a todos que participaram dessa semana, seja palestrante, ouvinte ou organização! Arrasaram muito!!

O JOGUINHO
DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Um beijo e um queijo
Entre Juscelino Kubitschek (JK), J. K. Rowling, John F. Kennedy (JFK) e O Voigt, quem:
• É mais interessado no bem do Brasil?
• É mais importante?
• É menos importante?
• Tem mais cara de estudante do CFH?
• Dirige melhor?
• Faz a pior comida?
• Corre mais rápido em caso de vida ou morte?
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Substituam nossos biomas!
Os principais fatores que intensificam o risco de queimadas são as condições climáticas adversas. Fenômenos climáticos podem alterar os padrões de chuva, aumentando a temperatura e diminuindo a umidade, criando um clima perfeito para a propagação de incêndios. Mas, ao longo dos últimos anos, os extremos climáticos tornaram-se cada vez mais frequentes, favorecendo a ocorrência de ondas de calor.
Além das causas iniciais das queimadas, há o fenômeno de retroalimentação, no qual plumas de fumaça geradas pelos incêndios podem formar nuvens especiais, as quais podem provocar tempestades com raios, que, ao atingirem áreas secas, podem iniciar novos focos de incêndio, perpetuando o ciclo de queimadas.
Marina Silva chamou esses incêndios criminosos de terrorismo climáticos. Indicativos de ações coordenadas, com o fogo se alastrando em uma velocidade que não condiz com um acidente. Mas, as motivações e quem está por trás desses casos cabe à polícia. Silva alega haver algo muito estranho e que precisa ser investigado, precisando ser tratado na sua dimensão e devido lugar, além de ser muito difícil ter
Por Stephany Biava
controle do fogo quando começam para que não se tornem um incêndio. Em entrevista para o podcast Café da Manhã, a ministra colocou que incêndios são diferentes de desmatamento, já que esse segundo demora tempo para se concretizar, havendo tempo para fazer os devidos procedimentos para mitigá-los. Já no incêndio, em pouquíssimo tempo o fogo alastra-se.
Segundo o Delegado da Polícia Federal, Humberto Freire, parte dos incêndios florestais no país podem ter começado de forma coordenada. “A gente vê que alguns incêndios começaram quase que ao mesmo tempo. Isso traz o indício de que podem ter acontecido ações coordenadas. É um ponto inicial da investigação”. Flávio Dino também aponta a hipótese de ação humana em parte das queimadas.
Muito embora o uso do fogo para práticas agrícolas no Pantanal e na maior parte da Amazônia seja proibido, ele continua corriqueiro, com o agronegócio sendo um dos principais responsáveis pelas queimadas, devido à expansão desenfreada do setor, que leva ao desmatamento ilegal e à utilização do fogo como forma de limpar a terra. O sul do estado do Amazonas não é
conhecido como “arco do fogo” por nada, apelidado assim devido a forte presença da agropecuária.
Ah, Lula!
No dia 24 de setembro, o presidente Lula discursou na Assembleia Geral das Nações Unidas. Durante sua fala, o presidente alegou estarmos condenados à interdependência da mudança climática, afirmando que: “O planeta já não espera para cobrar da próxima geração e está farto de acordos climáticos não cumpridos. Está cansado de metas de redução de emissão de carbono negligenciadas e do auxílio financeiro aos países pobres que não chega. O negacionismo sucumbe ante as evidências do aquecimento global.
(...) No sul do Brasil tivemos a maior enchente desde 1941. A Amazônia está atravessando a pior estiagem em 45 anos. Incêndios florestais se alastraram pelo país e já devoraram 5 milhões de hectares apenas no mês de agosto. O meu governo não terceiriza responsabilidades nem abdica da sua soberania. Já fizemos muito, mas sabemos que é preciso fazer mais. Além de enfrentar o desafio da crise
climática, lutamos contra quem lucra com a degradação ambiental. Não transigiremos com ilícitos ambientais, com o garimpo ilegal e com o crime organizado. Reduzimos o desmatamento na Amazônia em 50% no último ano e vamos erradicá-lo até 2030. Não é mais admissível pensar em soluções para as florestas tropicais sem ouvir os povos indígenas, comunidades tradicionais e todos aqueles que vivem nelas. Nossa visão de desenvolvimento sustentável está alicerçada no potencial da bioeconomia”.
Lula coloca-se como um diplomata ambiental, com um discurso permeado pela defesa de ações contra a mudança climática, mas não conseguiu escapar da realidade das queimadas que assolam o país. As queimadas em agosto no país cresceram 149% em relação ao mesmo período no ano passado, aumentando questionamentos contra o governo na área ambiental.
O discurso de Lula também contrasta com as políticas energéticas de seu governo, como a exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas e a pavimentação de uma estrada na Amazônia, o que pode aumentar o desmatamento. Essa ambiguidade tem gerado críticas de ambientalistas, como Tica Minami, e do Observatório do Clima, que apontam que o discurso ambiental de Lula perdeu força e foco, além de não apresentar metas concretas para a ação climática, mesmo com a aproximação da COP-30, a ser realizada no Brasil.
O consultor político Thomas Traumann comentou que Lula, antes visto como um campeão da causa ambiental, agora enfrenta dificuldades para sustentar essa imagem. Segundo ele, embora não seja inteiramente responsável pelos incêndios, o governo poderia ter evitado parte deles se a greve do Ibama não tivesse durado tanto
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou no dia 24 de setembro, em Nova York, na abertura do debate de chefes de Estado e de governo da 79ª edição da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU).
Seu discurso destacou a fragilidade da negociação internacional, especialmente em um momento em que a ONU enfrenta grandes desafios. Ele critica os altos gastos militares e a escalada de conflitos, citando a guerra na Ucrânia e a grave crise humanitária na Palestina, enfatizando a urgência do diálogo.
Lula também trouxe à tona as consequências das mudanças climáticas, ressaltando que o Brasil está na vanguarda de práticas sustentáveis, como a redução do desmatamento. Ele defende uma reforma na governança global, especialmente na ONU, para torná-la mais representativa e eficaz, pedindo mudanças no Conselho de Segurança.
Ao abordar a desigualdade econômica, o presidente enfatizou a necessidade de ações coletivas para combater a fome e melhorar as condições de vida das populações mais vulneráveis. Ele concluiu fazendo um forte apelo à solidariedade e ao multilateralismo, reforçando o compromisso do Brasil em enfrentar esses desafios juntos com outros países.


Cantinho cultural

DEFINITELY MAYBE (1994) por Oasis
Por anos a fio pareceu muito mais provável que algum dos irmãos Gallagher cometesse um crime de ódio contra a integridade do outro do que retomassem a parceria de sucesso que dominou os anos 90 no Reino Unido - a banda Oasis. No entanto, no aniversário de 30 anos do álbum de estreia da banda, o Definitely Maybe - chegou, e trouxe junto consigo um momento de reconciliação dos irmãos Caim e Abel ingleses. Não só Liam e Noel fizeram um relançamento especial do seu antológico primeiro álbum como já anunciaram uma turnê que deve varrer o Reino Unido lotando estádios. Também há rumores de uma possível vinda ao Brasil, por isso, ficamos no aguardo aqui porque a qualquer momento pode sair o anúncio que os saudosistas do Britpop querem ver.
Gêneros: Rock, Rock alternativo, Britpop Destaques: Live Forever, Supersonic, Slide Away Disponível em: Spotify, Apple Music, Youtube, Deezer

ME CHAMA DE GATO QUE EU SOU SUA (2023), por Ana Frango Elétrico
No álbum “Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua”, a cantora e compositora Ana Faria Fainguelernt, conhecida pelo nome artístico Ana Frango Elétrico, explora o amor e a sexualidade com composições tanto em inglês quanto em português, aplicando com muita criatividade traços da história da MPB e da Bossa Nova a outros gêneros, como o jazz, o funk e o indie rock. Fruto de uma bagagem cultural que vai de Jorge Ben Jor e Tom Zé até Prince e Björk, o álbum lançado em 2023 foi aclamado pela crítica, levando Ana a viajar pela Europa com a turnê de divulgação do disco e a ser indicada ao Grammy Latino. De volta ao Brasil, a cantora segue nos palcos e se apresenta em Florianópolis no dia 2 de novembro.
Gêneros: MPB, Jazz, Disco, Indie pop-rock, Eletropop Destaques: Insista em Mim, Electric Fish, Dr. Sabe Tudo Disponível em: Spotify, Apple Music, Youtube, Deezer
Canto dos pássaros
A alma que canta
por Malu Mauro
Hoje, acordei, e, como de costume, revirei-me para o lado, no intuito de sentir o aroma de canela do travesseiro no qual costumava reclinar a cabeça do meu amado, e, então, com melancolia, levantei. O cheiro de café fresco e o som dos pássaros no jardim me trouxeram memórias, e, se me empenho, sou capaz de ouvir as vozes dos meus meninos, que parecem tão distantes quanto o tempo em que ali ecoavam.
Em seguida, para escrever minhas colunas semanais, dirigi-me ao escritório, o qual, por ser próximo à sala de estar, permitia-me observá-los brincar. Logo, sentei-me na cadeira e, ao me reclinar em análise, na tentativa de recordar a última vez que havia encontrado essas crianças, percebi que nem elas, nem eu, existíamos mais. Naquele momento, em meio a uma epifania do viver, reconheci-me como alguém que jamais fui, e nunca serei novamente. Encontrei-me ao me perder, e notei a volatilidade do ser humano que, obstinado, luta contra a única certeza que lhe é contemplada nessa existência, a metamorfose.
Paixão Bohêmia
a boemia de uma paixão com sabor de morango e limão regida por arrepios e fascínios mais perigosos que os próprios delírios admito-te parecer até uma miragem essa nossa mistura de amor com sacanagem com palato de fruta madura e mordida fazendo-te renunciar essa vida eremita e ai de mim mera amante do teu lindo viver cortante de todas as minhas rijas amarras finalmente liberta de todo o veto e rendida, eu confesso permito-me te amar livre e por completo
Não me entenda mal, a essência da alma lavada é, indubitavelmente, eterna a meu ver, porém, receio que o meu eu daquelas manhãs barulhentas e caóticas, hoje, só vive em memórias minhas e deles. No entanto, receio que minha relevância nos pensamentos cotidianos de meus filhos não seja de tanta recorrência e, de certa forma humilhante, sinto-me dispensável a eles. Na realidade, sou incapaz de reconhecer uma só pessoa viva a qual carece de mim e, em uma imensidão de solitude, já consigo sentir o frio da solidão.
Enfim, questiono-me se um dia fui digna de ocupar as meditações matinais de alguém, se fui capaz de provocar sentimentos tão fortes que se transformaram em sensações carnais, como um ardor na garganta ou uma palpitação que remetia a um infarto. Assim, acompanhada, unicamente, pelas lembranças em minha mente e corpo, ambos marcados pelo tempo, aguardo o reencontro com meu grande amor, que, singularmente, está comigo todas as manhãs, no perfume suave de canela, impregnado na roupa de cama, nas melodias e no coração.

O JORNAL DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Créditos para a Gabi Jenner(@gabjenner) por uma arte que continuará eternamente linda, apesar do Rio de Janeiro.... Além do visual, o CARI agradece a todos os autores que preencheram estas páginas e que construíram mais um voo desse humilde pássaro: Bernardo Almada (@ bernardoalmada), Giancarlo D’aquino (@giandaquino), Graziela Alves (@grazirossal), Malu Mauro (@malumauro_), Paloma Mota (@palomanmota), Rodrigo Packer (@_packerr), Sophia Dalla (@sophdcs) e Stephany Biava (@stezbiava). Também estendemos a mão a todos os corretores desta edição: Sophia Dalla, Guilherme Mendes e Ane Beatriz de Assis(@anebeatrizz_).
Ademais, este jornal só pode estar na sua mão devido ao trabalho de Mariana Costa (@maricosta04_) e a generosidade do Centro de Ciências Socioeconômicas da UFSC e suas valentes impressoras. Ultimamente, um grande abraço a todos que participaram do projeto, seja escrevendo, discutindo ou lendo, pois ao final de tudo, estrelas sozinhas jamais serão constelação.