O Wedding

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O Bomfim lá fora · março 2022 · obomfimjornal@gmail.com

Bösebrücke

Jovens empoleiram-se no arco da ponte Bösebrücke, naquele que foi o primeiro posto de fronteira a abrir, na noite de 9 de novembro de 1989. Caía o Muro de Berlim, depois de 28 anos de separação entre Este e Oeste, e o Wedding abria as portas.

A imagem é do arquivo Moments in Time 1989/1990, um projeto que reúne fotografias e filmes privados para contar a história da queda do Muro, a partir de outras memórias. Aqui, a de Peter R. Asche (para ler inteira na página 4).


Bonfim—Wedding De forma pouco pensada e totalmente programada, muito por impulso mas muito mais por tédio, cisma de quem não fica menos aqui e de quem quer ir para onde for, com a conta do que há e do que não há a dividir por dois, O Bomfim mudou-se para o Wedding, em Berlim, por uns meses.

edição e composição gráfica Rita Ferreira ilustração Joana Estrela 12–13 Rotaprint 16 fotografia Peter R. Asche 1,5 Rita Ferreira 8–11, 20–21 Rotaprint 14 Joana Estrela 19 revisão Joana Moreira danke schön Daniela Brahm Catarina Azevedo Pedro Barros O Wedding é uma edição especial d’O Bomfim, o jornal da vizinhança.

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Acaso ou geometria, calcorreamos agora as ruas do Wedding, para chegar a casa e lembrar uma das coisas que nos levou a começar este jornal há quatro anos atrás: traçar um retrato de um sítio que teima em ser como é. Mais diferente do que igualzinho, mais torto do que certinho, mais sujo do que limpinho. E o Bonfim partilha muitos dos traços que encontramos no Wedding. Mas, talvez, o aspeto mais curioso (ou o mais caprichoso) seja a forma como partilhamos o artigo. Dizemos “o” Bonfim — tal como dizemos “o” Porto. Não usamos o artigo com outras freguesias (há “a” Foz, claro). Tão pouco com outras cidades. E o Wedding também assim o é. Como que se de alguém se tratasse, a língua dá o corpo a alguns lugares que, de tanto orgulho que têm, só podiam ser “o lugar”. Uma soberba que se perdoa porque são, de verdade, sítios especiais. O Wedding


O Wedding é um bairro da cidade de Berlim que faz parte do distrito de Mitte — o que, geograficamente e a nível de organização, se pode comparar a uma freguesia, no Porto. Apesar do distrito de Mitte ser um dos mais centrais e dinâmicos de Berlim, o Wedding, no seu extremo noroeste, é um bairro essencialmente residencial, com algumas das rendas mais acessíveis de toda a cidade. A sua área extende-se por quase 10 km2 e a população ronda os 85.000 habitantes, distribuídos por (aproximadamente): 52% de pessoas de origem alemã, 18% da Turquia, 6% da África subsaariana, 6% do Médio Oriente e Norte de África, 6% da Polónia, 5% da ex-Jugoslávia e 5% da Ásia. Por aqui, vemos famílias de várias culturas e etnias, e são as comunidades migrantes que tomam conta de uma grande parte do pequeno comércio local, quer sejam serviços de restauração, de venda de produtos frescos, ou salões de beleza. A comunidade africana no Wedding é a maior em Berlim, com pessoas vindas, essencialmente, do Egito, dos Camarões e da Nigéria. Também é no Wedding que se encontra o maior número de mesquitas da cidade, algumas que se avistam por entre cafés e mercearias, outras recolhidas em traseiras e quintais. Mas a mais presente é a comunidade turca, que se “lê” desde logo em quase todas as ruas, por entre letreiros e anúncios, num bairro praticamente bilingue, feito de gente que chegou há mais de 50 anos. Com um passado fabril ainda bem visível no tecido arquitetónico — exemplo de indústrias como a da eletrónica, da farmacêutica ou das artes gráficas — o Wedding é um bairro que recebeu muito do êxodo rural do século XIX , e está profundamente associado à classe operária. Ficou cunhado com o termo “Der rote Wedding” (isto é, o Wedding vermelho), no pós-Primeira Guerra Mundial, pois era conhecido pelos seus trabalhadores, em grande parte militantes

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comunistas. E foi, assim, palco de violentos confrontos que opunham organizações do Partido Comunista ao Partido Nazi. Já depois da Segunda Guerra Mundial, o Wedding acabou por ficar no setor francês, na Berlim Ocidental, de 1949 a 1990, e viu-se separado da República Democrática Alemã, pelo Muro, de 1961 até ao seu desmantelamento, em 1989. Com o passar dos anos, as fábricas e unidades operárias foram encerrando e, durante os anos 80 e 90 do passado século, o Wedding ressentiu-se das transformações sociais e económicas, com a enorme quebra de emprego na zona. No entanto, o passado operário ainda está bem presente pelas ruas, com os seus pubs e cafés, onde os moradores mais velhos passam o seu tempo e combatem a solidão. Nos últimos anos, algumas das “carcaças” daquelas indústrias moribundas dão lugar a outras “ocupações” — especialmente por parte do setor cultural. E assim, chegam agora ao Wedding os artistas, especialmente os mais jovens. A possibilidade de alugar espaços mais baratos, quer para viver, quer para montar ateliers, tem trazido uma outra energia ao bairro — um bairro que é bem mais colorido do que o que dele se pinta, feito de tantas cores e contrastes demográficos e culturais. Atualmente, a gentrificação é tema de conversa e assunto de preocupação, com associações e movimentos muito ativos no combate à especulação imobiliária. No entanto, o bairro parece resistir e manter as suas características. Talvez pelo vai-e-vem de todos estes fluxos de pessoas, onde a manutenção do espaço é possível; talvez pelos seus genes mais tradicionais e virados à esquerda, onde a resistência se faz, ocupando o espaço que é de todos. Ou talvez porque o resto do mundo acredite que o Wedding é realmente cinzento — e ainda bem.

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BOR NHOLMER STR ASSE BOR DER CROSSING, BER LIN, 9/10 NOV EMBER 1989 Peter R. Asche (Ost-Berlin)

“Late on the evening of 9 November, our son Michael was out and about when he called to tell us that the border crossing at Bornholmer Strasse was open! We had already heard a statement from Mr. Schabowski on various TV channels, but all we had inferred was that it would be possible to visit the Federal Republic of Germany in the future by submitting the proper application. The border crossing was about ten minutes away from our apartment. I packed my T90 camera, some rolls of ORWO film, a flash, and batteries into my camera case. Then my wife and I set off and reached the crossing shortly after it had opened.

Texto e Imagens © Peter R. Asche Material partilhado sob a licença Creative Commons BY-NC-ND [https://www.wir-waren-so-frei.de/ index.php/Detail/Object/Show/object_id/1960/set_id/212]

mais memórias, narrações e arquivos fotográficos, filmes e transmissões de televisão, na plataforma do projeto Moments in Time 1989/1990: wir-waren-so-frei.de

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Beaming, joyous ‘Easterners’ were posing on the West side of the border in front of the entry signs for ‘Citizens of the FRG ’ and ‘Residents of West Berlin’. The GDR had always made this distinction! Later, many more arrived with suitcases, some with prams and buggies, children and suitcases, others in their cars. All I had was my camera case. At about three o’clock in the morning we returned home, passing by a bakery near Schönhauser Allee that was already open. Within these first hours, the baker had already figured out that it was supply and demand that controlled the market.” O Wedding


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ORWO FILM

“On the Bösebrücke bridge arch.”

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CANON T90

ORWO FILM

“A bakery stays open all night, celebrating the fall of the Wall.”

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Osloer Strasse

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Soldiner Strasse

Freienwalder Strasse

Skalitzer Strasse (mentira, não é no Wedding)

Oudenarder Strasse

Wriezener Strasse

Travemünder Strasse

Freienwalder Strasse

Martin-Opitz-Strasse

Pankstrasse


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ExRota

O “Rotaprint-Express” em frente à igreja Gedächtniskirche, em Berlim, c. 1951 (fonte: Rotaprint, Foto Wisch)

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print

ExRotaprint gGmbH Gottschedstrasse 4 13357 Berlin www.exrotaprint.de

Fundada em 1904, a Rotaprint foi uma das maiores unidades industriais de Berlim, responsável pela criação de inúmeros postos de trabalho ao longo de várias gerações, até ao seu encerramento nos anos 1980. Fabricante de máquinas de impressão offset, foi pioneira na produção de impressoras de pequenos formatos e está, assim, associada à proliferação desse tipo de edições. Com casa no Wedding, conhecido pelos seus militantes comunistas, acompanhou todas as convulsões políticas do início do século XX , viu-se desfeita e refeita pelos efeitos da Segunda Guerra Mundial, e está ainda ligada aos movimentos de protesto dos anos 1960. Já no final dos anos 1970, com o advento dos computadores pessoais e das fotocopiadoras, a produção da Rotaprint começa a ficar obsoleta e, após algumas tentativas de salvar a empresa com investimento municipal e privado, a bancarrota decreta o seu encerramento, no ano de 1989. Entregue ao Estado, é o próprio Wedding (à altura, ainda distrito) que toma conta daquele vazio complexo industrial e que, nos 20 anos seguintes, vê crescer e afirmar-se a iniciativa local que agora conhecemos como ExRotaprint. 15

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“There is no profit to be made here”

ExRotaprint

Aqui, não é para se fazer lucro.

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pelo governo de Berlim. Com um novo É difícil definir a ExRotaprint sem consupermercado Lidl construído ‘paredestar a sua história, ou melhor, a sua luta. -meias’ com o património arquitetónico Podemos pensar num colossal complexo da Rotaprint, organizam-se os inquilinos de betão, documentário arquitetónico que ali se haviam instalado (essencialda história do Wedding. Podemos pensar mente artistas) e surge então a iniciativa nas várias entidades e artistas lá alojaExRotaprint, em 2004, com o objetivo de dos, todos alinhados segundo a premissa adquirir — e proteger — a propriedade. “trabalho, arte e comunidade”. Também O processo está reportado, praticamente podemos pensar nas atividades que por mês a mês, ao longo dos três anos que se ali se organizam, entre esses inquilinos e seguem, na plataforma da ExRotaprint . a comunidade local. Podemos ainda pensar na Kantine, que se abre diariamente Até 2007, a negociação e a derradeiaos habitantes do Wedding, num trabara transferência de propriedade para a lho que põe à volta da mesa o interior e (então criada) associação ExRotaprint só o exterior. E isto tudo acontece porque, foi possível graças à «tenacidade, ideias mais do que uma definição fechada, a próprias, pressão política e, finalmente, ExRotaprint é um modelo em aberto. ao aval do distrito e do estado». Mas tamSegundo as palavras dos seus fundadobém graças ao apoio financeiro de duas res, Daniela Brahm e Les Schliesser, fundações que ajudaram a ExRotaprint a «a ExRotaprint é um modelo de desenvoladquirir o capital para comprar o espaço: vimento urbano que exclui o lucro, por a Trias e a Edith Maryon Foundation. não ter dono, e que estabelece um amHoje em dia, a ExRotaprint é responbiente aberto e heterogéneo para todos os sável pela administração e conservação grupos da comunidade». Ou melhor: «Aqui, daquele património, a partir de um não é para se fazer lucro» — motto que os acordo que celebrou por 99 anos. Todo dois artistas visuais encontraram, após o dinheiro que é ali feito com rendas é anos de burocracia e persistência, quando então aplicado na constante manutenção resgataram o complexo industrial da (dee renovação do espaço, e também canafunta) Rotaprint para o devolver a quem lizado para pagar às duas fundações que mais dele precisava. E é essa a melhor defise associaram ao projeto (a ExRotaprint nição da ExRotaprint: porque não é assim também paga a sua renda). tão tangível. É uma ideia. Ou um ideal. De forma regular, e transparente, os Quando, no seguimento da falência fundadores da ExRotaprint têm partida Rotaprint, em 1989, parte significalhado em publicações, conferências e tiva do espaço começava a ser cortejada encontros artísticos, falando da ideia para empreendimentos imobiliários, que os levou a libertarem-se do lucro um conjunto de edifícios do complexo (e da possibilidade de lucro individual) era — a tempo — abrangido por uma lei como pilar do espaço que hoje represende proteção de monumentos históricos. tam. Foi precisamente esta premissa que É por essa altura que um conjunto de pepossibilitou moldar a sua estrutura e quenos negócios e artistas da comunidamantê-la aberta. E assim mesmo terá de de local começa a alugar espaços no com- continuar, pois ninguém sabe do amanhã. plexo, sob alçada da administração do O centro de produção da Rotaprint, anos 1960 Wedding. No entanto, algumas parcelas (ilustração: Rotaprint) do espaço estavam já à venda, por uma associação encarregue de administrar a O "Taking over", documentado em: propriedade, a partir de poderes dados https://www.exrotaprint.de/en/die-uebernahme/

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Fomos à procura dos pontos de interesse turístico no Wedding. Aventura furada, já que os guias quase nada apontam no bairro. Os dois roteiros em que investimos — Secret Berlin (Jonglez Publishing, 2020) e 111 Places in Berlin That You Shouldn’t Miss (Emons, 2019) — fazem referência, cada um, a três sítios no Wedding. Seis sítios diferentes, no total, de um universo de 200 + 111 entradas. Entre as bagas silvestres na margem do rio Panke, o Museu Anti-Guerra, a duna no parque Rehberge, o baixo-relevo num antigo edifício de termas, a peça de teatro diária (que é uma novela) sobre o Wedding e a máquina de venda automática de larvas, o critério de escolha “parece esquisito” foi quem mais mandou e, assim mesmo, seguimos a pista desta última. Ficamos com alguma pena de não dar espaço à novela teatrada, mas também não íamos perceber o alemão. Chegados a Tegeler Strasse, de frente para os números 36–37, ficamos especados a tentar perceber porque há uma máquina de venda automática de larvas, virada para a rua. Sem grande mistério, encontramos uns números ao lado a casa de artigos de pesca Angelhaus Koss, a quem pertence esta vending-machine.

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Estamos muito perto do canal de Berlin-Spandau e do Spree, onde em alguns pontos é permitido pescar. Sendo uma atividade madrugadora, faz sentido uma máquina abastecedora de isco 24 horas por dia. Tudo muito bonito, mas não deixa de ser arrepiante a ideia de comprar uma caixa de larvas por 1€, como se chiclas fossem. Nos anos recentes, a “Maden-automat” é visitada por curiosos e tornou-se numa espécie de culto turístico subterrâneo, com testemunhos de pessoas que acabam por meter a moeda, apenas para comprovar que a caixinha verde traz os bichos. Sim, traz: há vídeos no Youtube com a experiência. Isto é, do unboxing. E ao que parece, as larvas acabam atiradas aos canteiros da rua. «O que da terra vem, à terra volta», dizia alguém. Mas também, «nem tanto ao mar, nem tanto à terra», dizem os bichos dentro das embalagens. Entre o tirar e o não tirar, acabamos por ir embora. Como se nunca tivesse acontecido. Se não ficar a doer a barriga, há uma padaria mesmo ao lado, na esquina da Kiautschoustrasse. É a Hansis Brot e vale a pena.

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s h u Uma das coisas que mais me tem feito falta aqui, é caminhar com música nos auriculares. No Porto, as ruas já as conheço com os pés, e posso perder um sentido sem me sentir muito perdida. Na cidade nova não se quer perder nada, não se quer falhar um anúncio ou uma conversa, e até para atravessar a rua é preciso estar mais atento. No Porto, o granito tem muito roquenrole, e o metro tem sempre o-que-deus-quiser. Faltava-me esse embate, jogar esse jogo. Meti o shuffle no telefone e fui por aí. Surrealizar por aí.

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DESCER O PANKE O Panke é um rio que corre ao longo de toda a altura do Wedding. Nasce fora de Berlim e tem um curso de quase 30 km, desaguando, a ocidente, no canal de Berlin-Spandau e, a oriente, no Spree. Com a reforma administrativa de 2001, o rio já não está oficialmente dentro das fronteiras do bairro, no entanto, toda a história que o rio reflete é a história do Wedding. Em qualquer momento, podemos entrar e sair pelos passeios que o circundam, mais ou menos silvestres, e passear pelo canal. Por Soldiner Kiez, mesmo ao lado do lago de Franzosenbecken (agora seco), está a Kolonie Panke. Aqui, podemos ver (ou bisbilhotar) uma colónia de minúsculas casas-jardim, minuciosamente arranjadas e decoradas com figuras de cerâmica, de onde se destacam as da mitologia nórdica, como elfos, entre outras imagens de um folclore intercontinental. É kitsch e é camp. Para recuperar calor, é desviar na Soldiner Strasse e procurar o número 32, onde os bolos do Rosa Parks Cafe vão mimar o corpo, num estabelecimento dedicado à ativista negra, com uma boa estante de livros a acompanhar o menu. Retomando o Panke, continuamos na descida — que começa a ficar mais acidentada depois de Osloer Strasse. Distraídos pelas bagas que nos berram naquela parte do rio (são bérberis), somos de novo surpreendidos, mas agora com azulejos. É o edifício do antigo Kafè Küche, com um radiante letreiro composto em azulejo, e onde agora existe uma Biblioteca Municipal, a Luisenbad (o nome vem da rainha Luísa e de

“Bad”, pois ali já foi uma piscina pública). Saímos da biblioteca, como se de um filme VHS em rewind, pela entrada que afinal é a principal (pois, ia lá ser por um rio?), mas lá retomamos o Panke, agora pela Uferstrasse. Estamos numa parte do rio onde, sozinha e resistente, uma chaminé de fábrica fala mais alto. Era por aqui que muita da indústria do Wedding se concentrava. As antigas oficinas da BVG (Transportes de Berlim) que encontramos nesta rua são agora os Uferstudios, espaço para ateliers de dança e para um café que se tornou icónico da cena mais artística do Wedding, o Pförtner. Neste ponto, basta virar ao lado na Bornemannstrasse, e contornar a Gottschedstrasse, para darmos de caras com o elegante edifício de entrada da ExRotaprint, outra indústria encerrada (esta, de impressão) que é agora também tomada por artistas, com foco na comunidade. Se houver fome e for horário de almoço, entrem à vontade para a Kantine, que é barata, boa e é partilhada tanto por artistas como por habitantes locais. Também há lá livros para descobrir. De barriga cheia, se for a sorte, inversão de marcha e voltamos a avistar o Panke. A descida, agora, nem sempre vai ser possível, com partes do rio inacessíveis e apenas visíveis através de pontes. O tetris pode ter de ser algum, com desvios e voltinhas, e com um salto até onde o Panke se desdobra, um pedaço mais à frente, próximo do viaduto em Schulzendorfer Strasse. Aqui, começa o fininho Südpanke. E em breve, também o Panke termina o seu curso, por Sellerpark, onde podemos, por fim, descansar as pernas.

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VISITAR A SAVVY CONTEMPORARY

CURRYWURST NO CURRY-BAUDE

S A V V Y, em Reinickendorfer Strass, 17, é o espaço de livraria da editora Archive Books, mas é também uma biblioteca, um lugar de encontro e de trabalho, e uma galeria. Tudo nasce e se molda em torno desta ideia do arquivo, onde um grupo de pessoas de diferentes coordenadas geográficas, com diferentes linguagens e sensibilidades se juntam para procurar “outras” narrativas — as que desafiam a forma de contar a História como a conhecemos, formatada por quem tem o poder e, tipicamente, eurocêntrica-patriarcal-colonialista.

Segundo a literatura, isto é, a internet, o Currywurst preferido dos “verdadeiros berlinenses” (o que quer que isso queira dizer) pode muito bem estar aqui ao lado, à saída da estação de metro de Gesundbrunnen, no Curry-Baude. Depois de ensaiarmos 10 vezes na fila «eine Currywurst mit Pommes bitte», o senhor deste boteco saudou-nos pelo impecável alemão, e aí concordamos que estávamos, de facto, num sítio fixe. O petisco come-se por ali mesmo, de pé, à porta da estação, e consiste numa salsicha bem estaladiça regada com molho de tomate e caril, que acompanha com batata frita. O preço é 3,20€ e, sinceramente, não nos pudemos queixar de nada. É o que é: comida de rua saborosa que puxa carroça até à próxima paragem.

APANHAR AR NO HUMBOLDTHAIN No limite sudeste do Wedding, mesmo à estação de Gesundbrunnen, encontramos o Humboldthain: um parque exatamente ao lado da correria da comuta, onde podemos desligar por horas do barulho dos carros, dos letreiros das lojas e dos encontrões das pessoas. E, apesar das suas áreas modestas (por comparação a outros parques de Berlim), aqui não falta espaço para se poder ficar sozinho. Lá dentro, podemos encontrar o Jardim das Rosas e, no verão, aproveitar a piscina pública e tobogã. No topo do vale, estão as Flak Towers (torres de armamento antiaéreo, ponto nevrálgico durante a Segunda Guerra Mundial), onde ainda é possível visitar o Bunker, sob marcação, apenas durante o verão.

OU O MAIS PICANTE QUE CONSEGUIREM NO CURRY UND CHILI Para os mais aventureiros, é também pelo Wedding que encontramos o Curry und Chili, no cruzamento da Osloer Strasse com a Prinzenallee, mesmo sob a linha do Tram. Um Jackass gastronómico, numa barraca sem WC , onde podem testar o limite do picante e entrar no Hall of Fame afixado no exterior (com direito a foto e tudo). Só ficamos na dúvida se batendo o recorde de picante, a comida não sairia à pala (verdade seja dita, não tivemos coragem de comer aqui).

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#standwithukraine Fechamos esta edição com as notícias dos primeiros bombardeamentos da invasão russa à Ucrânia. Com as imagens de todas as pessoas inocentes, e dos animais que as acompanham, que procuram agora fugir da catástrofe que outra putinha pariu.

Doar a organizações que estão no terreno a ajudar o povo ucraniano: UNICEF https://bit.ly/3smZX5O Médicos sem Fronteiras https://bit.ly/3vhARHh Stand for Ukraine https://bit.ly/3tfzxlR

A tristeza e a raiva baralham, a sensação de incapacidade é gigante, mas há formas de ajudar:

Cruz Vermelha https://bit.ly/3t9zcks

Ir a manifestações, se houver possibilidade, mantendo a segurança de todas as pessoas.

UN Refugee Agency https://bit.ly/3Ir9FJR

Fazer pressão junto do poder político, através da subscrição de petições, ou escrevendo para os/as representantes no Parlamento Europeu. 24

Save the Children https://bit.ly/3plKVvj

CARE https://bit.ly/36JwA5o International Medical Corps https://bit.ly/3JVg1ld International Rescue Committee https://bit.ly/3vlsgng O Wedding


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Isabel Silva Costa e Pedro Mateus. A RTP, em Berlim.


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