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PARTE I

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Corte Epistemológico Um dia qualquer do ano de 2011

(DI) - Devir Indefinido (Trans-pós-humano):

– Humano, Obsoleto Humano. Pensam eles que o Humanismo sobreviverá como ideal e paradigma, e que o Iluminismo continuará a existir. Erroneamente, ainda nutrem esperanças quanto à liberdade individual e escolha democrática, sonhos falidos de mentes pouco poderosas e incapazes de divisar o futuro. Ser-mito-humano (SMH):

– Acredita mesmo no que está me dizendo? O ser humano será simplesmente uma memória, um mito longínquo de algo que um dia fomos? Se algo, um dia, puder ser tão facilmente descartado será porque verdadeiramente nunca existiu como realidade. Se um dia deixarmos de ser humanos, como realmente está me apresentando, isso pode significar que nos iludimos quanto à nossa natureza ou que realmente nunca entendemos nada de natureza alguma. Tudo o que um dia fomos e o que justificava nosso existir ontológico não é nada mais do que uma criação histórica de importância e relevância duvidosa. 17

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Devir Indefinido:

– Não seja tolo em pensar que por isso deixaremos de existir. Nossa história “humana” é simplesmente resultado de um delírio ideológico e filosófico, criado por gênios organizadores; necessitávamos de uma base existencial e comportamental segura, para que pudéssemos nos desenvolver e justificar nosso próprio existir. O ser, ente, sempre necessitou de princípios e ideias norteadoras, não importando quais fossem: religião, filosofias, modelos ideológicos. Necessitamos de um porto seguro, um local de onde pudéssemos sair e um dia voltar. Criamos o ser humano para que assim pudéssemos ser a medida de todas as coisas. Descartes nos dizia que “pensar é existir”; não somos seres pensantes enquanto não temos um motivo norteador, pois o homem só pensa para melhorar a si mesmo, somos um para si eternos, artífices de nossa própria história. Seremos não somente transumanos, mas algo mais, diverso de tudo o que um dia fomos; seremos o protótipo, a base de um devir desconhecido. Porém, há muito sonhado, seremos cosmicamente conscientes, não por meios naturais, mas por meios tecnologicamente criados. Viveremos por intermédio e nos baseando em delírios outros, que nada terão a ver com o antigo ser humano, que se tornará não somente mitológico, mas, com toda certeza, indesejável. Ser-mito-humano:

– O homem deixou então de ser a medida de todas as coisas para tornar-se simplesmente um acidente de percurso, um 18

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modelo do que não devemos ser. Analisando a realidade por este ponto de vista, poderíamos dizer – sem medo de errar – que o humano se tornará um exemplo de um erro cósmico, uma experiência mínima, na qual divisamos as novas fronteiras do existir ontológico. Os seres serão avaliados pelo que são e sabem, pelo que representam como conjunto paradigmático de informações. Seremos bancos de dados ambulantes; você não é mais um ser “humano”, mas sim um devir indefinido. Não podemos definir o que esse ser será ou se tornará, podemos afirmar somente que este não será mais humano. Seria correto utilizar o termo pós-humano? Ou o melhor termo para essa designação seria transumano? Devir Indefinido:

– Os dois termos podem ser usados com significações diversas e complementares. O transumano é aquele que aceitou sua humanidade como uma herança sagrada, como aqueles que muito cultuam os que lhe antecederam, rendendo-lhes gratidão por ter percorrido o necessário caminho da experimentação à formação de um corpo de conhecimentos, que lhe dê base e formação ontológica. Se sou este alguém é porque teve um anterior que me possibilitou ser. O transumano não renega sua humanidade, mas fica feliz de poder transcendê-la, e não vê sua escolha transcendente como um insulto à sua antiga forma de ser e sim como uma consequência natural do avanço dos seres como eternos protótipos em busca de uma perfeição maior. Ao contrário do transumano, o pós-humano considera o humano, não como uma herança digna de ser louvada, mas 19

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como um protótipo imperfeito e passível de esquecimento. Não desejamos sempre esconder nossos erros passados com o intuito de não macular nossa consciência ou imagem? O pós-humano vê a humanidade como um estágio necessário e um exemplo do que não devemos mais ser, pois continuar a existir como humano é demasiado medíocre para o potencial que podemos desenvolver. Ser tão-somente humano é ser algo limitado, facilmente localizável e destruítível; mortal, histórico, restrito. O pós-humano deseja deixar sua humanidade, almeja ultrapassar este estágio inferior, deixando-a para trás; não seremos mais como tal, mas seremos um devir exponencialmente mais relevante do que qualquer humano um dia poderia ser. A humanidade foi um pesado fardo carregado por todos nós durante incontáveis milênios. Ser apenas humano não é mais louvável, mas sim execrável; humanidade simboliza limitação, valores restritos, ética castradora e desnecessária. Nosso crescimento exponencial e ilimitado depende de descartarmos totalmente os modelos humanísticos de ser. Para que possamos um dia nos tornar um devir indefinido, precisamos deixar nosso lar antigo e desbravar novas terras, vislumbrar novos horizontes totalmente desconhecidos. Ser-mito-humano:

– Não podemos dizer que a perspectiva futura é otimista. Seremos máquinas sem valores norteadores, morais ou princípios limitantes, algo desconhecido e totalmente paradoxal ao ser atual. Não temos, portanto, como divisar se as novas fronteiras do ser nos serão benéficas, pois perderemos tudo 20

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aquilo que já nos foi caro e valoroso. Você acredita realmente na possibilidade de se obter sucesso apostando-se nesse devir indefinido, neste ser sem parâmetros e limites? Devir Indefinido:

– Não somente acredito no sucesso desta empreitada, como posso definir e divisar sem dificuldades suas consequências e implicações. Traçarei, a título de ilustração, um modelo socioeconômico e político da sociedade, ou melhor dizendo, da organização social e existência do homem novo, do devir excelso.

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Humano, obsoleto humano  

Num determinado período, entidades discutem sobre o destino da humanidade. Devir Inde¬finido representa um mundo dominado pela técnica, acr...