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Centro de Estudos do Humanismo Crítico [Portugal & América Latina]

Grupo de Debates Noética

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Poesia, Filosofia, Novelas & Sarau D´Amor Na Escrita De

João Barcellos

ORGANIZAÇÃO

MARTA NOVAES & JOHANNE LIFFEY

Edicon & TerraNova

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Índice Abertura

Acerca do Poeta e Filósofo João Barcellos Marta Novaes

Prefácio Parte 1 Parte 2 Parte 3 Parte 4 Parte 5

Os noemas de João Barcellos na Identificação sócio-histórica dos nossos passos Ruy Hernández

Poesia Solta Poemas d´Amor O Sonho Acerca Do Sonho / Poemas de João Barcellos O Sonho Nos Panflos Da TJIA / texto de MACS Poesia Historiográfica c/ texto de MACS Literatura Tecnológica Textos de Cristina Jordão, Marta Novaes e Carlota M. Moreyra

Parte 6

Novelas

- UM OLHAR DE PAZ NO INFERNO DA GUERRA - ARRASA QUARTEIRÃO - UMA MORGADINHA DOS TRÓPICOS - CÂNTICOS D´AMOR & GUERRA

Anexos IDENTIDADE & CULTURA POPULAR A REINVENÇÃO DOS ISMOS NA MAMADA POLÍTICA Marx à Luz de Sócrates e Reis

SEXUALIDADE Questões Míticas & Místicas Uma Pessoa Na Demanda Da Humanidade Joana d´Almeida y Piñon e Ruy Hernández entrevistam João Barcellos

Acaso & Transitoriedade Sarau Noético Nota: alguns textos não observam o “Acordo” Ortográfico por decisão de quem os escreveu.

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* “Tanto a poesia quanto a filosofia não têm cercas, são campos do saber universal que qualquer pessoa pode (e deve, conscientemente) tanger para melhorar a visão humana de si mesma e, aí, criar rotas de aperfeiçoamento social e espiritual, porque toda a pessoa é guerreira do saber quando aspira à plenitude humana.” J. C. Macedo citado por Ruy Hernández [Barcelona, 1981]

“Liberdade – essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda!” Cecília Meireles citada por Maria C. Arruda [Paraty, 2010]

“...hodiernamente, carecemos muito mais de um vero rearmamento/saneamento Ético e Moral, capaz de erguer identitariamente as consciências psicológicas e morais das pessoas levando-as à Indignação e ao Protesto, à Resistência, em suma, contra tudo o que achem justamente mal...” Manuel Reis citado por João Barcellos [Rio de Janeiro, 2003]

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ABERTURA

Acerca do Poeta e Filósofo João Barcellos Marta Novaes

A palavra é, em João Barcellos, o cântico urgente da inquietação que só gente como a gente percebe e sabe transmitir na visão de um futuro humano e humanizador. A todo o instante ele é o poeta e é o filósofo, o político de olhar público, mas também é o homem que gosta de amar mulher – e, de tal mistura vivencial, arrecada amizades e parcerias sociais e profissionais. Nisto que eu chamo de “mistura vivencial”, uma definição dada por meu avô (e seu amigo) Figuera de Novaes, está o sarau permanente de amor e cultura.

É o intelectual que está nas ruas e praças das cidades sem deixar de passar pelas roças e docas, que escuta mais do que fala e, quando fala, faz da palavra uma sinalização de valores humanos. Alquimista, ele é o verdadeiro mago a agenciar a vivência do eu singular e plural por opção sociocultural: por isso, quando utiliza a palavra oferece preciosidades a quem o escuta. “Poesia, Filosofia & Sarau d´Amor” é um livro que reúne uma pequena parte do que é e representa culturalmente João Barcellos, assim como já havíamos feito no livro “João Barcellos / Poesia, Ensaio & Novela”. Agora, trazemos ao plano literário o sarau que ele realiza em todo e qualquer evento, porque a sua presença é sempre uma referência sociocultural, tanto na poesia quanto na historiografia. Neste “Poesia, Filosofia & Sarau d´Amor” tratamos do João Barcellos na plenitude do seu ato cultural enquanto mistura vivencial – sim, ele mesmo.

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PREFÁCIO

Os noemas de João Barcellos na Identificação Sócio-Histórica dos Nossos Passos Ruy Hernández

Qualquer pessoa olha a vida pelo que ela lhe devolve nesse olhar, entretanto, no seio da diversidade comunitária que faz o mundo que somos surgem pessoas – homens e mulheres de rara beleza poética, porque filosófica – que não se deixam envolver somente pelo reflexo vivencial: são pessoas que interceptam a vida numa frase ou num artefacto, num acto ou num desejo, e constroem um jogo cultural que nos liga (aqui, o melhor é dizer religa) ao espaço exterior para uma reflexão nos entornos sociais. Mestre na construção de conteúdos socioculturais e tecnológicos, João Barcellos cria ficções a partir de dados concretos – mas de dados concretos raramente assimiláveis pela maioria das pessoas – para trabalhar a percepção de quem o escuta [palestras, saraus culturais] e de quem o lê [literatura, jornalismo], de sorte que os seus exercícios em noemas resultaram em sucessos: do que os escribas oficiais não registam nos manuais académicos, eis que João Barcellos elucida com pesquisas localizadas e diz à comunidade “olhem aqui, no vosso seio, a verdade histórica que em vós fez nascer a nação que hoje são”, ou, em poemas e novelas, “cantem o espaço e o tempo que em vós amanhece e vos faz narrativa social de realidades nunca ousadas por quem faz o mando político”. É verdade. Assim é João Barcellos, um português que vagueia pelo mundo. E ele, por cada ideia mal explicada que encontra na mente de outras pessoas logo busca traduzila para a óptica filosófica do “guardar uma ideia é fácil, mas é preciso ensinar a quem o faz que é seu dever civilizacional encontrar respostas, sejam quais forem, sobre a ideia que em si não se faz luz”. A acção da narrativa é em João Barcellos o foco primário que o leva a mergulhar na problemática dos elementos secundários, porque ele sabe que “é no submundo das estórias sociopolíticas que reside a raiz da ideia que não se faz luz, da história cujo círculo documental não fecha porque as chamas da ignorância e da ganância levaram parte da biblioteca à qual as gentes só têm acesso pelos manuais escolares impressos pela prostituição intelectual”, e então, senhoras e senhores, intelectuais de vivência em humanismo crítico, como João Barcellos, mesmo sob os obstáculos impostos por essa prostituição e essa ganância, tratam de “envolver a verdade em noemas e atravessar o deserto cultural para que as comunidades possam, em tal oásis, ter acesso à própria história”. Na sua passagem por Lisboa, em 2001, eu deixei Barcelona para o reencontrar após alguns anos. No breve diálogo que tivemos anotei o seguinte:

“Nenhuma comunidade se desenvolve quando no presente desconhece o passado que transporta o futuro... ora, o que fomos ontem é a carga sociocultural com a qual enfrentamos o desafio de sermos amanhã...”.

E este, senhoras e senhores, é o intelectual autêntico que abraça o mundo para se dizer “português, sim e sempre”, mas que nunca se permite deixar de recepcionar as outras pessoas: a sua regionalidade sociocultural é o berço de um olhar global onde cintila a diversidade humana, por isso, em cada pesquisa historiográfica e em cada peça ficcional, João Barcellos é o mundo e é a comunidade que ele observa.

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As dificuldades são muitas para quem opta pela banda do outro lado, isto é, pela banda da verdade que faz de uma ideia não percebida a luz que redime uma pessoa, um comunidade, uma nação. O isolamento doi. Mas “está no isolamento intelectualmente provocado a acção filosófica que permite buscar a luz e, na luz a verdade, a paz”, como ele mesmo diz. Social e editorialmente João Barcellos é a pessoa que faz o que deve ser feito, mas sabe que muitas portas se fecham, que “só as portas das pessoas conscientes de si mesmas são abertas para os noemas que traduzem os nossos passos”. Meses antes, em 2000, na mesma Lisboa, ele dizia que “o medo de viver a verdade corroi a consciência das pessoas, limita-as ao estar impedindo-as de ser, é diferente de se usar um pseudónimo que, ao contrário do nome de baptismo, permite ser singular e estar plural”, o que eu já tinha escutado em 1973, quando começou a assinar literária e jornalisticamente João Barcellos. Por isso, em cada livro, em cada palestra, ele carrega o mundo e o eumesmo. Nesta colectánea que intitulamos “Poesia, Filosofia & Sarau D´Amor Na Escrita De João Barcellos”, demonstramos (e apenas em amostragem) como o noema está na obra deste intelectual português como instrumento em prol da verdade e como ele é um dos raros escritores e jornalistas cujo dom permite tal façanha.

Pais Basco, 2012.

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Parte 1

/ Poesia Solta

Poesia Noética d´Eu

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liberdade de ser o eu pensa diz o que deverá estar e ele o é não pelo que é vive no desejo d´estar pelo que em si alimenta transformação d´eu que rebenta amarras na intenção de fabricar aquilo não visto mas que o é

comunidade dizemos de nós tudo o que deve ser lido ego e vaidade mercantil idade o querer sem ciência é lixo fala d´eu e acaba com o nós o uno é todo e é feixe de nós o pensamento vibra no vário sentido cósmico estar sem idade

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construir das raízes que na rede estão às que no cesto vão o mundo é como a cerâmica e s´entrelaça é e não é foi e será pelo que é a uva pisada é néctar que s´alcança mensagem que vai de mão em mão pensar é estar e ser transformação

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eu e a multidão estado d´espírito alma de varas muitas na variação do vento cósmica agitação profundas e vibrantes cores no alento da massa que somos em proporção o mundo em uno grito

divindade que em mim o é claro e escuro tomam a mente como ouro e ferro do morro arrancados no braço um fátuo fogo nos é íntima lamparina do agora já sem passado cânticos faíscam na chama e nos vem o aperto d´alma bem fundo o que feito foi é o mundo legado nest´apoteose em cósmico acerto

Cântico Livre Essencial e inequívoco Olhar liberto d´algemas Construção Eis me pessoa que se diz no percurso Ilusão Visual comunicação no efêmero esforço Da alquimia que não me basta Dia a dia de novas vontades e obstáculos

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Por esta luz que me dá vida em eterna chama Especulação E quem sou eu? E vós? Átomos d´ilusão [entre Camboriú e Blumenau, 2010]

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Rara Flor corpos chamam a si a terna vivência fragrâncias soltas a energia magnetiza cérebros processam toques e sussurros fragrâncias soltas naturalmente sexual não importa quem é quem porque não existem muros

apenas corpos poética ação floral desejos fogosos

etérea existência é o amor filosofia d´eternidade quando os corpos chamam a si a terna vivência fragrâncias soltas eletrizam a humanidade a paz é uma rara e verdadeira flor [Paraty, 1997]

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Parte 2

/ Poemas d´Amor

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Sutis Fragrâncias A ave, súbito, aparece... ela nos dá uma manhã de desafios, uma tarde de terna ilusão e uma noite de sutis fragrâncias. Somos dessas fragrâncias o epicentro da paixão: por ela vivemos todos os desafios – é um amor que sempre floresce!

Ilha d´Amor Flor que brota entre o asfalto. Flor que se diz ao mundo. Rebeldia por um desejo de viver o todo que somos no canto do eu. O abraço que somos é um eu que nos faz ilha d´amor – um viver que não é único mas é mundo qual flor a brotar em cântico alto!

Namorar: Chave Para Uma Vida “Namorar. Ver em outra pessoa um Eu Que nos diz ´Nós´. Verbo do prazer Espelhado no toque de pele que em cada Ser Faz do Outro um coração d´Eu. Por que a vida é um eterno enamorar!” [Macedo, J. C. – in ´Poemas d´Amor´, Coimbra/Pt, 1975]

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Leva algum tempo para que a Pessoa percebe que o Namoro é um dos exercícios mais saudáveis do aprendizado da Vida. E como a Vida nos diz que precisamos aprender, sempre!, precisamos também aprender a Namorar, porque, o que é bom tem de ser vivido e experienciado de forma a dar-nos Prazer, não apenas no instante de uma Paixão, mas sobretudo na sublime vivência dos caminhos que o Amor nos traz. A percepção dos jogos da Vida é um ganho de qualidade social e cultural que, aos poucos, agrega valor ao nosso quotidiano e nos torna mais civilizados. Por isso, cada Paixão que vivemos/namoramos é um ciclo que vai do instante ao compromisso de uma geração. E não necessariamente nessa ordem. Por isso, também, Namorar é... muito bom. E recomenda-se q.b.! Com o imperialismo do Consumismo que nos cerca a toda a hora, a ditar modas/normas de comportamento, os jovens vivem hodiernamente um jeito de estar-objeto, i.e., ter de ser/parecer de uma ´tribo´ para poderem ser aceitos, e se não está “in” fica “out”, porque “civilização” consumista não quer saber de Amor, quer saber/orientar de jovens ´consumisticamente corretos´. É o fim da ´picada´. Então, o ´celular´ e o ´e-mail´ substituem a Palavra e, quantas vezes, o Gesto, o Toque de Pele. Porque, hoje, “namorar” é ser consumidor[a] de algo. Até aquele comportamento de ´ficar´ já está obsoleto! Verdade. E o ´ficar´ tinha/tem algo de Verdade, porque ninguém ´fica´ se não quer, logo, existe Paixão, existe possibilidade de Amor. Assim mesmo. Falar de/em Namorar é considerar sempre, em última instância, o olhar que leva as peles ao toque, até pelo beijo mais sutil. E é sempre bom lembrar que foi o jeitinho de Namorar no arrepio das peles que a Civilização Humana se fez. E se faz. Apesar dos modismos do ´consumisticamente correto´, que desconhece a palavra-sensação Amor. É por isso que um presente entre namorados nunca deve ser mais que a Paixão que os une..., já que o ato de Namorar pode ser a chave para uma Vida!

O beijo leva-nos em voo pleno de graça e aventura. Uma canção nasce em nós a dizer da madura emoção que é o desejo. Nós somos o terreno em que o amor nunca se anula!

a imagem que em nós é mostra em olhar novo o amor que renova sentimentos corpos se unem quais filamentos mágicos em jornada pelo novo o nós é um profundo eu em fé o amor é sempre o caminho novo e se consagra pelo que é

A mulher que te anima tem em si a fragrância da alma – flor que renasce no abraço onde germina também a paixão de amorosa graça. O teu olhar é um adejo de garça ao nascer do sol, fonte de generosa vida!

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As Nossas Pontes

Vejo além de mim o que em teus olhos percebo e me faz viver, amar para viver! Os olhares são pontes de vida, pulsações, ligam íntimos horizontes, criam emoções. Só se constroem estas pontes querendo e fazendo viver!

Em Amor Ah, as palavras que o amor não diz são cores sublimes – elas ajudam a perceber o mundo, elas são em nós o mundo! Precisão? Ora, o amor não é matemática nem geometria. A pura emoção de se ser abraçado por alguém e não por uma máquina gera uma alquimia além da razão.

Gira o mundo no fim de ano, qual máquina, e nós, em amor, fazemos o nosso mundo!

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Viver a Vida [Blumenau, 2010]

em terno olhar envolves a vida espaço-tempo sensações d´alegria instantes sutis amor sem tempo flores que em ti desabrocham em liberdade viver a vida é uma filosofia d´amar

O olhar, mergulhado na imensidão, Canta um destino Eu fui aos campos d´arroz Com uma rosa na mão. E disse: como tu cuidas desse grão Com amor, eu quero ser a foz Que recebe a água a que deste a tua benção. E quem canta um destino Está além, é amorosamente uma ilusão.

A água dos rios ...ah, correnteza de vidas! Quem não percebe nas suas rotinas A nossa existência, causa-me calafrios, Porque somos água, somos outros rios Em outras rotinas... Humanas fontes, geramos vidas E em nós vão se outros rios!

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Amar Em Almas Leves Sopram ventos. Nuvens leves... Levíssimas nuvens contornam os nossos corpos. Do êxtase d´amar em almas leves Acordamos. Celestes corpos Abençoam os nossos desejos e os horóscopos. Gotas de chuva caem. Leves. Levíssimas graças, quais divinos sopros D´amores perenes. Levíssimas nuvens contornam os nossos corpos E saúdam este amar em almas leves!

Amor Nuclear Existem em nossos olhares Rupturas que se acham. Fissões nucleares. Humanos artefatos que se apaixonam Em tal força que não se abandonam! Profundos mares Sob brisas que em nós s´enrolam. Outros amares. Quando os seres se apaixonam São como nós: criam olhares!

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Quadras no Ritmo d´Amar 1 Percebo-me a cantar na emoção De te perceber em mim. Percebo-me a cantar a não-razão D´estar contigo em mim. No abraço de prazeres um querer querubim Que nos faz reinar em revolução. E mesmo que o sentido não seja assim, O que vivemos é paixão!

2 Sentir de ti a fragrância Da vida que me toma e me dá rumos Não é estar vida, é ter a circunstância Da construção da vida com outros fios e prumos. No querer alguém não há assuntos. Sobram fragmentos dessa delicada instância Dita paixão, que desconhece rumos, Mas nos dá do todo a fragrância!

3 Diz-se que para a vida se ter Não é preciso ganhar trabalho nem esforço, Que no enlace de uma mulher O homem se concede até o ato generoso. E, no entanto, um homem só é generoso No instante em que a vida o quer E o deixa a sós, no mesmo e igual esforço, De querer sem dominar uma mulher!

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fogueira natalina ardem em nós fogueiras desejos aleatórios tempo que não o é luz calor somos espaço onde se lê um talvez amor quereres alegóricos linhas e urdideiras de eus em nós

é preciso dizer ao mundo do eu que vive em nós ó inesperadas fogueiras ternas lareiras ainda o fraterno natal tecido nas almas avós 2002

Incenso d´Amor dos corpos uma brisa d´incenso propaga-se ao jardim à mata aos rios e mares bailam olhares e sorrisos de marfim somos nós a fonte d´incenso no abraçar dos sonhos

Sublime Ardor fábrica de paixão em leito d´amor árvore de doces frutos louca maresia de fluidos o que nos deixa queridos são almas de sentimentos profundos é um toque de sublime ardor uma quase ilusão 2006

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Saudação Da Vida Porque Natal Somos

como a noite abraça a lua para gerar o dia no sorriso do sol nós abrimos os corações almas na rua

solstício d’esperança nua fogueira de sonhos e emoções eis nos qual paiol desejo de vida que implode e flutua

solstício d’esperança nua revolução na vida que continua 2001

Paz Amorosa 1 Nos caminhos que percorremos O mundo não nos ignora Nos caminhos que fazemos Há um mundo novo em que cremos Porque é amor de paz amorosa 2 E é por esta paz amorosa Que vivemos E é nestes caminhos que fazemos Que nossa alma é clamorosa atitude nos beijos que tecemos 2006

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Que O Mundo Se Ilumine No Abraço De Fraternidade Que toquem os sinos. Que nos continentes do calor o Sol Se faça relógio d´Amor. Que nos continentes do frio a Lua Se faça altar d´Amor. E todas as pessoas possam anotar o rol Daquilo que nos faz peregrinos!

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Já sabemos que a Lua se vai no abraço do Sol, Símbolos da Paz que em nós soa como sinos! E [nisso] da Paz todos podemos ser reinol, Somos o Natal do coração e no dia a dia peregrinos! 2004

Brindar Ao Cosmo Com O [Nosso] Coração Quando desejamos um Bom Natal e um Bom Ano Novo, tecemos aí a teia da Fraternidade que a Pessoa Humana carreia desde o seu nascimento. Na verdade, não tecemos: damos continuidade à Humanidade que somos. E quando a Pessoa Humana deseja a outra um Bom Natal e um Bom Ano Novo, e o faz... de alma amorosa, eis que o Cosmo se percebe brindado, a Lua e o Sol, como as constelações, brilham, e esse reflexo que, por nossa vez, percebemos, é o Amor a gerar Paz no instante natalino de todos os dias! Bom Natal! Bom Ano Novo!

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Do Jeito Que Queremos

em nossos abraços fermenta o beijo encanto e estrada do amor em nossos abraços se faz o leito onde a vida ganha mais fervor fonte de prazer e d´amor que nos deixa do jeito que queremos em nossos abraços

2005

Em Fraternidade nas árvores que adornamos nas velas que acendemos eis que a Humanidade celebramos e do Amor em Nós dizemos a cada fim de ano nos enamoramos do Novo e com ele renascemos em cada gota de cera está o que sonhamos em cada adorno cintilam sentimentos na Pessoa que somos cantamos a beleza da Vida que vivemos para nos Outros a amorosa Fraternidade alcançarmos fim de ano é festa mas também momentos de renovado olhar sobre os Atos em que fomos para novamente nos dizermos

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Namorar 1 No teu olhar me recolho Para um tempo onde as flores são parte de um jardim Eterno. Entre elas sinto-me a percorrer os riachos Que a vida nos oferece. Encontro-me a namorar assim Pleno Nesse olhar em que me recolho.

2 Namorar é estar na vida, construir um sonho. Abrir espaços com as almas. Projetar em nós o teto Que vai abrigar, ou já abriga, aquele sonho Que nos mostra da vida o instante certo, que pode ser eterno!

Sabor Amor Paixão. O amor é o ato divino E o altar da vida. Ilusão? Tudo é uma conquista, Cada pessoa um destino E uma revolução. Nós, concretizamos a ilusão, Fabricamos um destino Com rota alquímica Nos vinhedos do amor. Ilusão Que nos é vida Com sabor a vinho, Paixão!

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Um Soneto Os nossos beijos Trazem-nos a flor da alma. Os nossos beijos Fazem-nos navegar em esperança. Vivemos em cada beijo um abraço De cumplicidades para um bom viver. Em nós está o néctar do prazer! Desejamos de cada abraço e cada beijo o laço Onírico da paixão feita amor! Em nós está a fé do humano fervor. Os nossos beijos São a fonte onde o amor espelha a sua alma. Os nossos beijos Têm a doçura da brisa: são a alma renovada!

12 de Junho de 2005

Incenso d´Amor dos corpos uma brisa d´incenso propaga-se ao jardim à mata aos rios e mares bailam olhares e sorrisos de marfim somos nós a fonte d´incenso no abraçar dos sonhos

Sublime Ardor fábrica de paixão em leito d´amor árvore de doces frutos louca maresia de fluidos o que nos deixa queridos são almas de sentimentos profundos é um toque de sublime ardor uma quase ilusão

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O Caminho Do Coração Em nossos olhares vive o abraço que do Amor é gozo. Nas batidas d´alma que alimentam o coração a razão até que existe, mas o melhor é o abraço d´emoção! Em nossos olhares queda-se o medo. O fervor da Vida enche-nos, quais taças de puro cristal a transbordar de paixão – pois, a Aventura de viver abre caminhos ao Prazer e à Ilusão! Em nossos olhares está a Vida. E se o Amor vem na Ilusão do instante que gera essa formidável Luz, que a Paixão seja em tudo e para tudo o caminho que leva ao coração! 2005

Vemo-nos aqui e além Enquanto uma viola diz do sossego Que somos no prazer d´amar Em íntimo sarau. Somos porque estamos por um ato d´amar Que nos é enlevo E nos diz que somos alguém!

Doce e morno o abraço Que nos envolve a gerar vida. Pelo beijo que nos desnuda Alcançamos o cântico do amor. E pelo que isso muda Em nós, eis a vivência tão querida Que transcende o abraço!

Cantamos em nós O doce estar em Vida. Cantamos em nós A terna existência tão querida. Não há uma palavra preferida, Mas um Amor que pulsa em nós!

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Nós

Nossos dedos se cruzam. Mãos dadas. Ruas e praças são caminhos do paraíso que construímos em Nós.

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E porque cremos em Nós, alcançamos a Humanidade pelo juízo que nos faz caminhar de mãos dadas: almas do Uno quando nossos dedos se cruzam! É o Amor que se crê como fonte da Paz. É o Amor que temos e que nos satisfaz. Em nossas mãos dadas as sortes do Mundo se cruzam!

Árvore d´ Amor Olhei a palma da mão e vi uma imagem tão velha quanto a Humanidade. Olhei a palma da mão e vi laços que também vejo em teus olhos de ternura. No ano novo que se anuncia, queremos a fartura do Amor que nos vive em laços de desejos. Queremos aquele algo mais que nos é identidade, sim, o que na palma da mão eu vi! É como um Poema lindo que escrevo a cada instante, enamorado. Uma eterna criança rindo. Um beijo que chega num abraço encantado. É a árvore da fertilidade. O terno Amor que se constrói foi o que eu vi.

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Três Poemas em 8 de Março

1. Instinto. Toque de pele. Porteira que nos leva à fusão – Que diz de nós em um. Que diz de olhares em paixão. Instinto. Alma que ferve. Estrada e cântico onde a evolução D’enamoramentos. Nada é ruim E tudo é nascente paixão.

2. Pelos quatro cantos do mundo Talvez algum amor assim Seja espelho do que somos por aqui, Onde cada encanto é um jardim. Pelos quatro cantos do mundo Surgem amores, cantares de querubim A tratar das almas, a tratar do paraíso daqui, E é o que percebemos em nós: outro jardim.

3. As ondas quebram, o mar Se diz o amplexo do todo amoroso. Maresias que em nós se ampliam – A paixão que nos diz é um mar amoroso! As ondas quebram. Há um amar Em cada gesto nosso. O tempo vai, vagaroso, E, em nós, os espaços se ampliam – Maresias de um cantar doce, amoroso!

2004

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Poema de Natal 2002

Ouvem-se sinos lá longe. Falam de um talvez horizonte Que em nós é certeza. Sabemos do amor a plena Amplitude do gesto e nem há nome Para este horizonte. É que o horizonte Somos nós e a vida não tem nome!

Poema de Ano Novo 2002

Ao olhar os teus olhos Percebo-me vivo. Acho-me em ritmo de paz. Canto em ti a semente que nos traz Um amor cativo De gestos e anseios novos. Ao olhar os teus olhos Percebo-me do amor um nativo!

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Natal 1 O nascer, Que em nossos olhos Vem colorir O amanhecer, É uma jornada. É natal. E é um querer Florir...

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O amor vem aos nossos olhos Para ao mundo nos dizer!

2 O nascer, Que em nossos olhos Vem colorir O amanhecer, É uma jornada. É natal. E é um querer Florir... O amor vem aos nossos olhos Para ao mundo nos dizer!

Ano Novo É como soltar pipa para voar Em noss´alma. Um terno gesto D´amor, Uma vida a abraçar. Fazemos crescer a árvore De paixão enfeitada... Frescor Em doce namorar. Somos a árvore do amor: Cresce a cada ano novo para a alegria gozar!

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Ano Novo 2 É como soltar pipa para voar Em noss´alma. Um terno gesto D´amor, Uma vida a abraçar. Fazemos crescer a árvore De paixão enfeitada... Frescor Em doce namorar.

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Somos a árvore do amor: Cresce a cada ano novo para a alegria gozar!

Na Brisa Que Nos É Vida Dia dos Namorados

sabemos que o que nos vai n´alma não é só divina alquimia mas o ritmo d´energia em que o Amor não dorme esse relógio d´água e pensamento e luxúria que nos é toque d´alvorada no instante em que a Vida no coração nos anima a tua presença em Mim é leve brisa que me faz ver o Nós no beijo que nos envolve e nessa sensação d´alegria percebo que nosso olhar é pluma e é alegoria em corso de fitas de mil cores e para onde me volte eis me em Ti a cantar a Vida o prazer dos corpos é a plena estrada da Vida ato divino que nos dá o Amor e nele nos consome pela eterna Alegria que é a sede e é a fome de se estar para ser Paixão na leve brisa

No Encantamento Da Vida no abraço que nos anima a viver está a fonte para a inspiração do amor fonte que é de turbulência e é de paz jornada espiritual em corpos de prazer olhamos na alma sentimos no olhar somos seres a beirar o todo que se ama

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já em nós não é possível conter a vida que pulsa sem temor há uma construção de paz a alicerçar a casa que nos é prazer 2007

Sutis Fragrâncias A ave, súbito, aparece... ela nos dá uma manhã de desafios, uma tarde de terna ilusão e uma noite de sutis fragrâncias. Somos dessas fragrâncias o epicentro da paixão: por ela vivemos todos os desafios – é um amor que sempre floresce!

Ilha d´Amor Flor que brota entre o asfalto. Flor que se diz ao mundo. Rebeldia por um desejo de viver o todo que somos no canto do eu. O abraço que somos é um eu que nos faz ilha d´amor – um viver que não é único mas é mundo qual flor a brotar em cântico alto! 2009

Amando a Vida o Sol vem todos os dias depois que a Lua o liberta entre nuvens d´Amor para nos dizer que é o Amor o traço único que nos leva pela Vida todos os dias são essas nuvens de leveza e paz que encontro em ti e que me fazem viver o Amor todos os dias

12.8.2008

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flores os teus olhos são flores da alquimia que respiro em teu corpo e assim me renovo para a vida encanto-me e prossigo a vida mas sei que nada seria assim sem este louco amor em teu campo de flores

o espírito da coisa sei que vivo e no viver sou amor e sendo isso sou deus porque reflexo qual luz e amplexo do todo sublime e belo adeus que um espírito pode exprimir num corpo em calor já ouvi mil vezes que superior alguém veio e nesse vir deu exemplo e traído foi pelo próprio reino carnal escorraçado e humilhado qual animal sim o que veio ao inferior esqueceu que o humano rói d’inveja de si mesmo e não sabe de si como simples meio sei que vivo e neste viver sou reflexo do que veio mas sinto-me apenas um poema que a cada verso dói

paixão no bar ele olha para o copo de barro onde o café oh negra e líquida coisa que dá fumacinha e repassa o pensar que o liquida desde que se sabe freguês e aqui o é ela sabe que seu eu deixa rastros às vezes imperceptíveis mas que até eunucos dão pelo seu estar pois o campus tem amplidão para esmagar caminhos estranhos ele e ela há muito sabem que a fumacinha do café não é fronteira mas profundo sinal a paixão está em cada fiapo que mal surge e logo dá o recado que lhes fere nos olhares a menina oh a paixão é energia subterrânea e aqui o é ou não seja aquela fumacinha a eterna ginga de outro olé

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Vida O som está longe Mas é como se estivesse entrando Em mim. O som que vem de longe É o vômito de uma arma estourando Em mim. No conforto do lar. No trabalho. A escrever no computador ou no papel, como agora. Um lar... Um trabalho. Milhões de pessoas não sabem o que é isso neste agora! Há uma vida lá fora Que não desconheço, sei dela pelo trabalho, Pelas notícias que leio e ouço a cada hora – Notícias da guerra e da fome... vida sem atalho! O som que vem de longe, Lá dos campos de batalha, é o mesmo que escuto entrando Na urbe do embate civil sem fim. O som que está longe E escuto não me é estranho: é a vida se resgatando Por um momento em mim.

Amor Não sei se há uma passagem. Sei que o amor o é sempre, Qual luz! Não sei se há uma passagem. Sei que o ódio também o é sempre, Túnel sem luz! Paradoxos. Mentiras. Hipocrisias. A mente humana equilibra-se por um estar De posição, de nome. Se a alquimia Da palavra ser aparece a revolução fica no ar... Rara é a mente humana que surge a batalhar Pelo amor, pela dignidade – a viver pela alquimia Da consciência livre. Presa pelo terror que paira no ar A pessoa que o é morre com um olho na alegria. Não sei se há uma passagem. Sei que o amor o é e nos leva em frente, Sempre, qual luz! Não sei se há uma passagem. Sei que o ódio também o é... contra o amor, Sempre, cortando a luz!

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Três Gotas Filosóficas No Halloween 1995

31 Vida 1 este sonho que me é chão altar e oração não interrompo é cântico d´ilusão não há razão é sonho

Cosmo deus o é em mim água e suspenso jardim entre reis e plebeus igreja do todo sem sangue ruim vive em mim eterno adeus

Vida 2 somos jovens a cantar a vida não sentimos a era ida e então a velhice toma a vida a mantém erguida renova-se nos jovens

Acerca do Halloween // Muitos séculos atrás, o verão tinha o seu término em 31 de Outubro (pelo atual calendário católico), ao final das colheitas na sociedade celta. O dia era de festa e tinha nome: Samhain, o Ano Novo Céltico. Várias pesquisas apontam para duas origens do nome Halloween: a) da palavra Hallowinas - nome das guardiãs escandinavas do saber oculto nas terras do norte; b) ou versão de All Hallows' Even (q.s. Noite de Todos os Santos).

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Parte 3

/ O Sonho

32 Poemas de Joรฃo Barcellos Texto de Maria Augusta de Castro e Souza

Parte 1

Acerca Do Sonho Poemas escritos ao sabor de leituras sobre Arendt, Sรณcrates, Freud, Reich, Freinet, Piaget, Yourcenar, Espanca, Wallon e etc.

1 vejo em mim a profundidade da vida e ela poderรก ser mas eu estou para ser vim dos confins de uma barriga o vazio mora em mim e do nada que vive em mim eu faรงo a imagem de uma vida

2 sou algo sem tempo do meu sono profundo sei de um eu real mas percebo-me virtual construo um novo mundo qual futuro sem tempo o sonho me dรก alento para um viver profundo 2001

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POESIA NO CARNAVAL 2016

Samba No entorno d´umbigo A mulher dança no pique do pé A bater o terreiro Camponês ou sapateiro O homem canta no pique do pé E vai além d´umbigo

Quem és tu? Quem sou eu? Ó paixão de viver a liberdade Aprisionada No eu E no tu

O mundo é o terreiro Vamos no pique do pé Somos tudo além d´umbigo

Lá Vem Cordão E tantas são as caras e bocas Peles pintadas Pandeiros e guizos Passos vagabundos d´alegria Jatos d´água Serpentinas no ar A rua é pequena Ah nem é rua mais O cordão d´entrudo É gozo e toma tudo Gestos informais A alegria é uma arena Cânticos no ar Sensualidades sob jatos d´água Olhares de maresia Batuques d´almas sem juízos Vidas sonhadas E tantas são as caras e bocas

O Beijo Sabores da vida Na ruptura da quietude

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Ele vem para marcar os corpos Esquentar almas Ele é memória de jogos Sedução d´almas Entre sangues e poros Ele nos dá a plenitude Do gozo em vida [E ele, sempre ele] Diz de nós e da atitude Ousadia de viver a vida Poesia nunca dita Mas presente na quietude

A Paixão Ela corre nas veias Cântico a fluir no chamado À flor das peles incensadas Toque de cósmico olhar Sublime alquimia Desejos a correr na via Sem sinalização em espaço só d´alegria Oh corporal moradia Tempo de entregas a furtar Da vida ternas chamas Ela é a fênix do desejo cantado Serenata a correr nas veias E do eterno nada um súbito chamado Eis que ela implode nas veias

Máscaras Somos nada e tudo Na rua ou no salão Fantasia Amores e desamores se vão O vinho esquenta tudo Alquimia

Ritmos e danças e adereços O carnaval desconhece endereços Não entrega cartas d´amor Olímpica boemia E quando se gasta a fantasia Ó súbito terror A cidade d´asfalto mostra endereços Vai se a alquimia d´adereços

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Fantasia Alquimia Somos danças e cânticos d´emoção Vidas que se fazem no nada e no tudo

Chorinho 1 Veio de lá Das cantorias rurais Este ritmo que ora enche o salão Da cidade Abre alas para corações apaixonados Cura a desilusão Busca por olhares iguais E é milonga na banda de lá Esta harmonia do ser liberto veio Das cantorias rurais E ainda está por lá

2 Da escravidão prenha de sambas Entre canaviais e usinas d´açúcar Laranjais e cafezais eis que a urbe s´ajoelha Bebe o som que veio de lá Dos tambores e cantorias rurais Ora é canção ao piano na sombra do pão d´açúcar Entre senhorinhas e bambas

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Parte 2

36 O Sonho Nos Panflos Da TJIA Maria Augusta de Castro e Souza

O sonho. Ah, esta quimera (...?!) que nos alimenta o espaço e o tempo que nunca queremos perder.

sonho porque estou sonho porque penso sonho e sonho e volto a sonhar todos os sonhos e estou em todos os sonhos porque é a vida a operar e se penso foi a vida que m ´alertou [J. C. Macedo / Guimarães, 1972]

O que é uma pesoa sem sonhos? O animal às portas da civilização? Sim, “...porque a quimera de vislumbrar a possibilidade de um amanhã e, quiçã, factos de eventos passados, em imagens que brotam em nosso inconsciente, é um ´algo´ que diferencia a humanidade da irracionalidade animal. Então, o sonho é um dos mecanismos que no cérebro nos faz criar caminhos novos e conceitos e ser uma alavanca para empreendimentos de relevância civilizacional”, diziam o poeta J. C. Macedo e a professora Hanne Liffey em panflo da Turma de Jovens Intelectuais Anarquistas [tjia], num sarau de artistas e intelectuais [Coimbra, 1975]. Naquele evento, dedicado ao tema “O Sonho Que Somos”, os dois jovens souberam equilibrar os questionamentos com o título escolhido e logo afloraram conceitos oriundos das pesquisas de Sigmund Freud e de Carl Gustav Jung, e mais deste do que daquele pelos arquétipos teorizados e que têm ajudado na compreensão do sonho como fenômeno humano. É certo que “o simbolismo que faz acontecer o sonho está nas vivências de cada pessoa” [Macedo], mas, deve-se entender que “além do simbolismo (re)criativo operado na gramática cerebral a pessoa,no seu sonho, ela própria e as outras, quando não se desdobra ela mesma em outras para figurar um painel de possibilidades alquímicas que, depois, poderá até vivenciar na realidade” [Liffey]. O português de Barcelos e a irlandesa de Dublin fizeram do sarau um autêntico laboratório em torno das definições de Constantin Stanislavski para buscar em cada participante um acto próprio em palco diverso sob a óptica da pessoa que o é em si mesma, singular e plural.

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[“O Sonho”, de Picasso]

“O sonho liberta o cérebro das inquietudes rotineiras, até porque ele – o cérebro, essa massa bioeléctrica que nos ilumina – é pura matemática e pura gramática e depende da bagagem sociocultural de cada pessoa em suas rotinas profissionais e comunitárias”, dizia o mesmo panflo. Por isto, “o sonho nem sempre reflecte um desejo reprimido, mas, quase sempre, um desejo de conquista e de liberdade, aspecto pouco estudado, por exemplo, nos trabalhos de Freud, ele mesmo uma pessoa de vivências reprimidas. Ora, temos que pensar o sonho como instrumento libertador e não cair na simples tentação esquizofrénica de catalogá-lo como fotografia psicológica” [idem].

não cabe em mim a certeza talvez a estranheza de um eu sem mim

em cada jornada onírica revelo um retrato sonho sonhado

é um eu em mim a cantar a certeza da profunda beleza que no inconsciente é fé em mim [J. C. Macedo / Barcelos, 1972]

O sonho é como o pensamento: não há machado que lhe corte a raiz. Nos dois poemas que pincei da colectânea de Johanne Liffey para ilustrar este texto, lembro que ela – filha do poeta J. C. Macedo –, a desafiar, disse-me: “tu escolhes-te os mais fáceis”. Talvez não. A maioria dos poemas de J. C. Macedo são psicologicamente filosóficos, autênticos saraus culturais para os ouvidos de pessoas que gostam de viver a vida e não de asfixiá-la com rotinas de mercantilismo. Poderia aqui dizer que J. C. Macedo é um Fernando Pessoa livre das amarras esotéricas e religiosas, porque lhe interessa somente a fé na humanidade a partir de cada pessoa, algo que o filósofo Manuel Reis também defende em vários livros da sua vasta obra. Assim, quando J. C.Macedo insinua e canta que “o sonho é um eu em mim”, ele sabe que é o mesmo que dizer e cantar “digo-vos que vivo sonhando a vida que sou”, e ele diz e ele canta.

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Tudo isto para dizer-vos que ler os poemas de João Barcellos, compostos também para um sarau cultural, no Brasil, levou-me a buscar tudo o que havia escutado e lido de Macedo e de Liffey durante as jornadas socioculturais e políticas da TJIA. E termino: o sonho somos nós na demanda da vida.

MACS. Berlin-De, 2011

Parte 4

/ Poesia Historiográfica

Poesia Historiográfica A redescoberta da epopéia e da ecologia no acto poético de João Barcellos Maria Augusta de Castro e Souza / MACS

Ao deslumbrar-se com as novas camadas de conhecimento histórico que ele mesmo removeu no plano luso-brasileiro das eras quinhentista e seiscentista, João Barcellos retorna à circunstância que o levou, entre 1969 e 1974, a ler o mundo local e mundial com o olhar poético. No livro “Do Fabuloso Araçoiaba Ao Brasil Industrial” [1], ele reservou uma parte [2] para dar à luz alguns poemas escritos no fervor das pesquisas feitas nas velhas regiões do Piabiyu [3] entre a Piratininga jesuítica [4] e o sertão que logo ali se abria até o Berasucaba [5] e já depois de observações em Santos e Cananéia, no litoral da então Capitania paulista. Sobre tais poemas, a jornalista portenha Marta Novaes lembra-nos que “Uma das características do trabalho lítero-histórico de João Barcellos é o traçado poético com que ele desenvolve as suas linhas de raciocínio para, assim, levantar com suavidade as poeiras que escondem gentes e eventos do passado ibérico e luso-judaico que fez e faz a América”. São poemas que tratam dos perfis psicológicos da colonização lusa na ´ilha´ Brasil a começar pelas acções do Bacharel de Cananéia, quase uma ópera de encantamento entre a bravura e a sobrevivência sanguinária, que se encontra também no ´velho´ Affonso Sardinha e, no geral, nos colonos que abriram os sertões

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americanos para Portugal encontrar outros povos e riquezas; entretanto, ao redescobrir a odisséia do governador Francisco de Souza, o poeta também redescobre a onírica presença da acção romântica, e, além da poesia, dedica-lhe a novela “Morro d´Apoteose” no mesmo livro. Nestes poemas pode-se ouvir o grito das gentes desterradas e que se esforçam para construírem outro Eu, quiçá, outro Portugal: gentes a desbravar o sonho da ´terra prometida´ entre gentes e terras de uma América perdida no tempo humano. No percurso social e poético, ele desenvolve teses acerca dos aspectos comunitários e científicos que se prendem intimamente aos factores ecológicos, agora mais conhecidos como ambientais, mas que ele continua a nomear como socioecológicos, uma vez que “a reacção das pessoas à descomunal paisagem natural e animal mostra um despreparo filosófico que as deixa absolutamente impotentes e, logo, partem para os actos d´ignorância, i.e., preferem destruir a Natureza a fazerem conviver a Humanidade com ela”. Por isso a sua leitura atenta sobre as obras de Haeckel e Darwin, Ab´Sáber (de quem era vizinho, amigo e colaborador), Lutzemberger e Figuera de Novaes, além do amigo e mestre Manuel Reis, entre outros. Esta é a estrutura mental que o torna um intelectual eclético, aberto ao mundo das possibilidades para melhorar o que somos enquanto Humanidade e, obviamente, a História é aqui uma carga preciosa para a percepção da Pessoa que é e está, fazendo ou não fazendo. A jornalista Marta Novaes conseguiu na sua observação reter o essencial da óptica de João Barcellos, mas, ele mais do que isso, ele é o português que além de Portugal se percebe Portugal por inteiro e gera em si mesmo a possibilidade de desterrar e exibir a história que lhe deu origem. O seu contacto com o espaçotempo da lusa americanidade perspectiva a essência poética que emerge em cada um dos seus actos. Na verdade, o Mestre João penetra a alma daquela gente e olha esse espaço-tempo no relógio real, o das sombras do sol a pino, o das chuvas diluvianas, o da morte sob a flecha atirada de um arco, e mesmo o da morte que leva o corpo para a mesa de uma tribo de canibais em festa, porque ´manjar´ o inimigo é reter a sua força... A médica Johanne Liffey [6] diz que “o Barcellos de hoje é o J. C. Macedo do tempo da batalha pela liberdade no Portugal perdido na escuridão ditatorial, porque existe uma ditadura ´escolástica´ que não permite tratar a história como ela é, só pelo que a política (des)manda”, e concordo com ela. E até o filósofo Manuel Reis [7] buscou esta questão para aprofundar a sua análise ao trabalho do Mestre João [8], uma análise que é, ao mesmo tempo, uma homenagem de português para português. Esta poesia historiográfica é apresentada seccionada, por fragmentos, com se por cada documento achado, ou por cada incógnita iluminada, um verso seja escrito e cantado. A riqueza do conteúdo documental e psicológico é tão profunda que o poeta leva-nos para a intimidade das gentes e suas causas. É o caso da novela “Morro d´Apoteose”: não é um poema, é isso e um filme, ou melhor, é isso e uma ópera. Revejo em “Do Fabuloso Araçoiaba Ao Brasil Industrial” de 2011 o jovem poeta de 1973 a esbravejar contra a pinochetada yankee que derrubou Allende, ou, logo depois, quando escreveu o panflo distribuído em Peniche contra a construção de uma central de energia nuclear na aldeia de Ferrel, porque a História é um acto contínuo de sobreviver às circunstâncias que nos surgem como obstáculos, e ao conhecermos a (nossa) História sabemos como reagir em prol da Humanidade e da realidade de cada Povo. Nas suas andanças socioculturais e ecológicas pela América do Sul, e principalmente Chile, Brasil e Argentina, ele continuou a desbravar a Humanidade com ênfase numa luso-americanidade genuinamente verdadeira, o que se observa e sente no livro “João Barcellos / Contos, Poesia & Novelas” [9], uma colectânea publicada pelos amigos em justa celebração intelectual. Maria Augusta de Castro e Souza – Berlin/De, 2012

NOTAS 123456789-

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“Do Fabuloso Araçoiaba Ao Brasil Industrial”, edição Edicon (São Paulo, Brasil – 2011) c/ Centro de Estudos do Humanismo Crítico (CEHC, Guimarães – Portugal). “Poesia Sob A Brisa Da História Luso-Brasileira”, pp 168-177, c/ apresentação da jornalista Marta Novaes. Piabiyu [do guarani, q.s. ´caminho feito a pé´]. Aldeia nativa renomeada São Paulo dos Campos de Piratininga pelo seu fundador, o jesuíta Manoel da Nóbrega, em 1554, após ter perdido em 1553 a aldeia Maniçoba no sertão próximo a Jundiaí. Berasucaba, Byraçoiaba ou Araçoiaba – morro perto de Sorocaba onde Affonso Sardinha (o Velho) e o filho (o Moço) do mesmo nome instalaram a primeira fundição de ferro da América, cerca de 1597. Conversa telefônica [London e Berlin, fevereiro de 2012]. Análise publicada na colectânea “Debates Paralelos”, Volume 8, 2012, pp.106-158. Edição Edicon e CEHC. Assim é ele tratado carinhosamente entre as turmas latinoamericanas ligadas ao CEHC. “João Barcellos / Contos, Poesia && Novelas”, edição Edicon (São Paulo, Brasil – 2011).

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Na Serrania de Botucatu do que outrora mar foi ora é maresia de poética urbana a nova casa é um sal da terra em quimérica vivência tal o mar que se foi

a terra que piso é o berço que tenho e nele não me detenho até cantar o sonho em que ando perdido sou gente da terra e lido com a esperança de ser arraial neste ar de bom vento

neste brutal sertam faço um novo mundo qual mar que galga almas virgens batalhas de vivas vertigens e nada m´alcança eu sou o mundo a fé e a capela no sertam

nativos de trouxa às costas arcos e flechas e pouca fala dizem d´águas e comem raízes e delas bebem bagaço colonos põem de lado o embaraço querem construir outras raízes aos poucos vão à fala conquistam os povos bravios e erguem casas novas

entre sesmeiros e escravos pela serrania de wotucatu aquém do grande sertam goyaz vem o rio em cânticos de paz

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a dizer de um eu e de um tu queda d´água entre livres abraços entre ouro e grãos de café e melaços lá vai o brasil pelo piabiyu

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sigo a vida pelos meandros da serrania não tem porteira que me pare (nem ventania nem frio) este passo d´arriba sou bravio como pardo fruto c´anima quem aventura quer na serrania

[Poemas inseridos no livro “Pardinho”, 2013]

No Encanto Ybiraçoiabano poesia a bordo da história

1 ao largo e no meio de sorocas pulsa uma vida das fortes perobas ao amoroso ypê toda a pessoa aqui sente e vê o mundo que acontece nas ocas nas bacaetavas ou na vila

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nos leitos d´água e roças do cerro ybiraçoiaba pelo yperozinho e o sarapuí veio à nação a gente d´iperó e no piabiyu eis nova casa

2 gentes e muares arreios e esporas breves olhares de românticas moças pelas imensas sorocas se fazem outros cantares a vida ocorre nas roças faxinais e outros altares bravos e ternos olhares na esplanada das roças

Minerador De Sonhos [anotações poéticas em torno do fidalgo Francisco de Souza, o ´marquês das minas´, junto do Araçoiaba, em 2011]

Berasucaba Céus, o que vejo eu?! O grito quase espanta a própria alma, mas o fidalgo olha o morro enquanto ´ouve´ o falatório que em Sevilha e na Bahia o cercara tempos antes. Tal como o velho Sardinha dissera anos antes o morro não é igual aos outros: é uma ilha. Alevanta-se das sorocabas qual olho a dizer d´aventuras, a engolir a alma de quem quer que o chame de ´meu´! Ah, mas aqui estou eu! Assenta vistas o fidalgo, e logo manda fabricar pelourinho para que o povo fique d´olho: saiba-se que quem ordena também não cala a injustiça. E é pompa e é jubileu.

Na Faísca Do Sonho Nas minas de Berasucaba, braço forte e experiente d´africano cata minério, funde ferro, e cata lenha para carvão. O fidalgo, das minas o marquês, entrega-se de corpo ao arraial, Na sua mente fervilha o paraíso, o porvir glorioso que o Sardinha possui e não quer mais.

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Do passado são a banda militar, as festas, os luminosos arraiais do absoluto poder, ele vive o que está por vir aos pés da dourada lagoa na encosta do Berasucaba, onde o arraial do Sardinha. Ai, minha nossa senhora do Monte Serrat, a ilusão faz-me cativo do paraíso... O sonho o faz escravo. Quantos ouros e pratas e esmeraldas o seu onírico abraço alcançou? Nada. E não desiste. Há uma revolução na alma: o sonho é tudo. Enquanto do sonho há noção nada faz um fidalgo valente virar escravo...!

43 O Paraíso d´Além-Mar Dizem as astutas gentes do (pau) Brasil que riquezas são muitas. Fartos do mar, os lusos, já sem trono, já sem nação, querem do Jeribatyba e do Anhamby as ditas minas, querem mais que vias de ligação... querem as lagoas douradas, as iluminadas gemas. Há abusos, alegrias e miséria muita, mas é este o Brasil que lhes cabe na sorte d´além-mar, por ele fazem nação outra, depois do mar! Lá na Lisboa castelhana dizem ser febril a idéia das riquezas que um Sardinha tem e outros lusos têm. A pulga está atrás da orelha: a ´ilha´ é quase uma nação! O esperto Felipe cria um marquês das minas, o fidalgo Francisco de Souza o é no fervor da emoção e parte em duas a ´ilha´: a norte, o resto, a sul os lusos que desbravam sertões, rios e minas do (pau) Brasil, a ´ilha´ dourada que s´aprende a amar pelo sonho e pela fé do paraíso d´além-mar!

um fidalgo na villa e vem o fidalgo que a el-rey quer encher d´oiro a pança lá diz o bando popular qual grito d´alvoroço já a fanfarra espanta a bucólica Villa o cortejo a celebrar pompa e circunstância piratiningos de pés no sertão e fragrância tropical estão d´olhos abertos e a Villa é festa a receber o ilustre moço ele que d´el-rey vem a ordenar dar fim ao político escambo da Villa sem ordenança e sem mão d´experiente fidalgo será o marquês das minas este fidalgo

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que entre manhas e provisões traz esperança

eldorado do Berasucaba sob a luz d´uma vela jaz o sonho d´homem que no Berasucaba quis revelar d´américa o eldorado e é luz que ora espalha tênues raios focos d´esperança para um universo de farturas e misérias e rara humana fé no rosto fidalgo a provação d´algo que não é nem foi e o sonho jaz como ferro em brasa a lembrar que preciosos metais nem sempre brilham e que o eldorado está n´alma de quem o faz como no Berasucaba se faz ora a vera luz d´uma vela dos mares conquistados em navio e caravela há uma fidalga maresia que ilumina o Morro Berasucaba

Poemas acerca d´O Bacharel & sua odisséia na Ilha do Pau Brasil

Ó terra, minh´alma! Longe está a Liberdade a alcançar. Ó terra, minh´alma em ti s´espraia em novo olhar e sentidos. Desterrado, mas forte no querer a Vida, não quero saber de norte nem de sul: preciso m´encontrar, saber d´Eu em profunda fala, olhar adiante com a Verdade, que em minhas ventas está a idade d´alguém acusado de ser “ninguém”, alma penada, perdida... Quero vos contar a sina d´alguém que sabe da Morte em Vida. Dizem que sou “nada”, e o garrote mostraram-me, mas fui ao mar de longo para uma morte que dizem mansa, e eis me, ora, noutra realidade. Disseram-me “és nada”, e da boa cidade caí em ilhas onde o luso faz aldeia e outra cama. Decidi ser Eu mesmo, a vida não entregar ao acaso d´injustiças místicas. Se há norte

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Eu o sou, e minha fala é meu forte! Ora quero ouvir d´alguém “és tudo” , cantar outra sina, noutras paragens ser a Palavra e a Ordem. Ah, ora Eu sou a nova cidade! Degredado, náufrago e “nada”, eis me agora um quase “tudo”. Estou na Ilha do Pau Brasil e tenho dama da terra com dote de Poder para aqui o Eu reinar. Quem sou Eu? Falem agora... Já não sou de um lote nem sou besta de carga, sou quem decide do garrote, e para Portugal novas gentes estou a fazer medrar; vendo até barcaça para o luso sem pingo d´alma que quer por aqui ficar. Que o Mundo me aguarde...

45 Entre as tribos d´América, gentes de idade que não sei, estou rei e senhor: tenho cama de folhas e de rede, dama da terra que me faz desejar a Vida, e outras que me vêm com dote de muitos poderes de cacique. Se antes não a tive, a Sorte ora me faz bem. O que sou e o que faço está a s´espraiar nas rotas das tribos e fiz porto pra nele a barcaça ancorar. Do “nada” este Eu é “tudo” e... Liberdade! Nem tudo é paz... Lusos sabem de castelhanos em Iguape e que na Cananéia vieram me saudar. “Tu não tens alma, nem és luso!”, disseram-me. Quiseram ordenar a este Eu livre ordens do rei luso, e eu disse: “Ei, anote aí: ninguém vem aqui sem pena de morte pra dizer a Eu, o Bacharel, como s´arranchar entre as gentes da Ilha do Pau Brasil. Se vosso rei não alcança outro olhar, eu vos digo que aqui a criatividade é o reino e a Vida é a rainha. Não há cidade grande, temos porto e aldeia, robusta dama que dá gente nova pra terra e que muito gosta d´amar no balanço da rede”. Entenderam? Não. E ouvi o toque de guerra que nos faz destruir até rico alforge, como se o Mundo Novo não possa se achar em Liberdade. Tudo se destrói, tudo se derrama em nome d´el-rey, aqui, à vista d´Iguape! Disseram-me: “És castelhano. Não tens dignidade pra ser luso nem cristão-novo!”. Ouvir tal palavra da inquisição sem pingo d´alma é piada pra encantar no batuque da lua cheia. Eles não sabem que o corte da maniçoba do dia a dia é livre ação sem calote d´escambo reinol. “Eu sou o que está a libertar um Eu que vocês agrilhoaram”, disse. Mais: “Sou arma que o vosso rei não desarma. Eu sou a impunidade...” Se com ´nuestros hermanos´ dei fim à reinol vassalidade que queriam em Gohayó, isso foi lição dada, que entre a Cananéia e a Iguape tem rei a lutar pelo livre viver d´Eu – e, est´Eu é do porte da imensidão que aqui é, e das nove e tantas damas da terra tenho legião mameluca para armar e m´ir arriba! Sou o Novo Mundo por herança d´aventura, e vou morrer como quero... em Liberdade, sem saber do longe nem da latitude.

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Ó terra, minh´alma é em ti Nação e no sertão outro mar. Fui desterrado e sou rei perante a Morte e a Vida, e Eu-mesmo sou o garrote. Ó terra, ó Ilha do Pau Brasil, não há amar que te resista, mas a aventura não é mansa no querer da Liberdade!

Da Mulher Ao Poder Não me digam o que fazer, aprendo n´América que o Poder está na Mulher – ela, que me é tudo e porto feliz. Com ela conquisto o Mundo e é nela que m´encontro bem longe dos males d´Ibérica, sorte feliz. Aqui sou o rei que o é pelo Homem disperso na Mulher quimérica!

Rei Sou Sou o Bacharel que o Porto das Naus abriu para nele âncoras lançar ousado marujo, mesmo o que também é filho do Luso – esse que me ultrajou! E desses ventos maus ainda vou cobrar o juro... O que é justo. Negaram-me, e ora sou o senhor das naus! [Cananéia, Gohayó & Iguape, 1991]

Poemas acerca da odisséia do ´velho´ Affonso Sardinha

Ferro do Berasucaba Rios que cortam a floresta, águas que alimentam a civilização sedenta das coisas d´além, poder e muita riqueza.

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Entre a hipocrisia, a avareza, um vero e ousado sertanejo no rio Ypanen minera e funde ferro para a revolução Que n´América é heróica gesta na precária fundição, de onde sai a enxada e o anzol; e fazem a festa um dito o Velho e um Moço pela ação. No ferro do rio Furnas eis a fundação d´América nova, porta aberta ao mundo e estrada para a nova nação! [Fazenda Ipanema, 2008]

Capitam Affonso & Jeribatyba Tenho de ti linda Poty, mas não sei quem és nem para aonde vais. Sei que em ti jerivás, de lés-a-lés, Perambulam sonhos d´ouro e outros iguais. Diz-me quem tu és, ofereço-te todos os meus ais!

[Carapicuíba, 12.10. 2003]

Capitam Affonso & Anhamby Os povos dizem-me de um Rio Grande no porto que é Carapocuyba, e eu quero ser assim tão grande quanto a foz que nele faz além o Jeribatyba... Eu sou do novo mundo a falange, Eu sou quem faz e quer a vida arriba! [Butantã, 12.10. 2003]

Affonso Sardinha (o Velho) [Um anti-herói luso na formação do Brasil]

No vasto campo oceânico com âncora em Cabo Verde ele sabe d´aventura e sabe do mundo novo, mas é o que sabe até se deslumbrar

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em Cananéia com o império de um poderoso Bacharel que dizem já ser o senhor do Pau Brasil. Depois de tanto sal eis o barril de pólvora de um desterrado Bacharel no tropical hemisfério – e tanta é acosta florida que se perde n´olhar. Estranho mundo novo que tem dono até n´aventura da vida. E como é linda e imponente a terra do Brasil, tanto quanto o longe oceânico... O quase susto não gera pânico. Ele sabe por velhos marujos que além da parede serrana está a futura e farta ação. Os povos têm ali caminho ardiloso no qual se dizem... E só d´olhar percebe ele que pode fabricar um império, e logo marcha como fizera o Bacharel, mas vai além da serra, febril... E há os rios, eles cortam em mil pedaços a ilha. Formam um rico anel de vida que sustenta os povos, qual minério aquoso que a todos faz sonhar com rotas de traço frondoso em larga distância e pouca largura. Ah, a parede? Se os rios rompem a parede transpô-la é um ato fantástico. Ele não quer ser cunhado prático, embuchador de filha de cacique, quer a rede de comércio e ouro em fartura, pois que d´especiarias o Brasil é pouco, ou muito... quando o sertão puder avistar. “Não sou colono”, ele diz, “Sou o império do sonho que n´alma é farnel d´ousadia, como o é esta ilha do Pau Brasil”! Heróis morrem logo, ele sabe. E não cai no ardil da coisa fácil: na costa enche d´experiências o farnel e marcha então pela serra até apanhar o rio das jerivás, que lhe deixa o planalto avistar, pleno de rotas e gentes. Planalto tão frondoso como o Portugal na primavera da fartura em flores e aromas e aves. Ah, e depois da parede ele vê, sente, vive um paraíso orgiático... Caminha na mata ciliar de um rio majestático, sente-se envolvido, conquistado; e, cheio de sede por mais largura procura um alto à sua envergadura pelas margens difíceis do seio aquoso. Além das jerivás e das belas aves, urge caminhar, ir ao que os povos dizem Piabiyu, e ir a outro rio pela Carapocuyba além Ybitátá. Sonhos a granel, sim, como os que o jesuíta ouviu entre as mil falas sobre o Guarani e dele mais de mil e uma trilha continental. E sabe agora que o Bacharel

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é dono de um naco d´ilha, não do império que os povos têm pronto para tomar pelo traço vário e longo, mesmo que doloroso. Ele sabe agora que depois da Maniçoba está a dura realidade, mas que a hiléia é uma gruta verde de gemas e minério. Avançar é o lema, é o risco! Pelos sertões ribeirinhos do povo plumático conhece na Carapocuyba o ponto d´atalaia que serve no Jaraguá a defesa nativa. Uma agulha a ser tomada... sim, mas depois. Que rincão novo tem Byturuna e tem Berasucaba para se lavrar nas minas além do rio Ypanen. Ah, minério em serra, d´ouro e ferro, para bracelete e anel e as ferramentas que fazem o novo Brasil. Da ilha já tem mameluco da sua Poty guarani, é polimil e serve Piratininga com engenho d´açúcar e é almotacel; faz do Piabiyu e das Koty franca zona e nela joga o seu império – o ´velho´ Affonso Sardinha está pronto para reinar e leva junto o ´moço´, sangue d´América, olhar novo para um Brasil cuja conquista d´imensidão perdura, Brasil que em si é grande, mas que agora bebe um desejo de senhor oceânico! [São Paulo dos Campos de Piratininga, 25.4.1991.]

Diário Poético-Filosófico poemas soltos cada palavra impressa no papel é um esboço da morte tudo que me é vida é anel quebrado em sorte vivo a morte com escritos que eternizo no papel

não me vejo no minuto nem na hora ou no dia sou o momento vivo de ler o que tento ensaio caminhos d´alquimia sou um bárbaro sem casulo não me animo nem me anulo a morte me é alimento e sangria

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do tempo nada sei do espaço só o que (ocupo e) sou no instante em que a morte me fizer nada deixem as labaredas acabar com os restos do nada a vida não foi levada pela morte tempo-espaço eu sou na escrita que sempre direi

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África Creme. Sim, creme d´amendoim No lombinho de búfalo. Oh, bela Maputo! Som. O som de uma corda ressoa, Ecoam da velha N´Gola outros rituais. Madrugadas sensuais! África, suave berço de tudo, Fragrâncias e sons naturais...

Europa do teu vinho do teu azeite e em teu leite há toques de poesia ancestral baila-se no arraial bebe-se a essência

o que sou é o que visto sempre nu olho o mundo nem a roupa com a qual m´iludo me deixa bem visto o que me é físico prende-me o espírito

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eu não m´iludo nem quero ser bem visto o que sou é o que visto e assim sou mundo

Iracema Na imagem que de ti arquiteto, oh Iracema, há uma alquimia de folguedo e um golpe de jurema. Palavras Canções Choros Lágrimas Rituais Amores Desamores Entregas Negações

Paixões

És uma casa em construção, oh Iracema, alicerce d´ilusão. Tudo em ti é melodia e poema. Pura beleza. Incertos rituais no altar pagão. Oh, Iracema, No mel da tua virgindade sou ilusão e folguedo. Cálice de jurema. [poema incluído no livro “Fortaleza”, 2014]

Ilha do Brasil quanta paisagem verde e o pao vermelho qu´inunda a costa ai ai ai e quanta gente nua e tudo assim do jeito que a gente gosta acaso de visão e abordagem precária ninguém vê mas lá está iracema extasiados pelo tinto do pao marujos nem provam a pinga da jurema a ilha é mui grande e de tudo dizem a el-rey que de carta e mapa o diz ao papa assim nasce a ilha do brasil lusa por lei que ora o tinto brasil dá púrpura ao papa

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muitas eras depois outros marujos se fazem à mesma costa ai ai ai esta gente nua e a bela iracema dos lábios de mel em ritual por quem viver gosta é sonho na paisagem verde

[poema incluído no livro “Fortaleza”, 2014]

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POEMA DA QUARTA PARTE & DO PAO BRASIL NO RYO SIARÁ Ora, Se é Terra ao Largo D´Este Mar, é Terra Nossa!

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1 E quão vasta é a costa... Ó, que monstros habitam tamanha ilha?! Se em Lisboa o velho Pessanho nem alcança a quarta parte do mundo na luneta d´almirante, ora vive Portugal a odisseia que Sanches Brandão alcança já descabelado, mas de braga e sem turbante diante de coisa que se diz ser occidental ilha neste 1342, ano do desaparecimento dos terríveis monstros! Ora que é 1342, singra o barco português em novos encontros d´acaso. O mundo é tudo e uma humana ilha!

2 Não se diga – porque os lusos foram na força da natureza e emborrascados – de ciência nem d´arte de içar velame latino em caravelão..., não se diga, pois, mal do acaso, que o acaso é aqui uma bolinada de ventos e maresia na vera emoção da morte qu´espreita cada marujo, e se de fiasco ou de sorte se trata, eis Portugal a navegar em arte d´estar onde outras gentes não têm a alma da força. Da borrasca à finisterra quis Sanches Brandão e sua tropa maruja fazer louvação ao nada, mas encontrou tudo em nova parte!

3 Floresta, montanha, rio, homem e mulher, planta e animal; muito sol e natural nudez, e tinta escarlate nos corpos nativos que dizem d´arte nova – e quais deuses, os portugueses extasiados. Que gente é esta a viver como ao mundo veio e que prova ser a finisterra invenção d´ignorância? Os aparvalhados

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portugueses caem de joelhos diante d´altivez e da pureza naturalíssima de cada homem, cada mulher. Sabem da vida pela ciência de a cada instante sobreviver, têm como vestimenta a solidária nudez.

4 Antes do trato da fala surge o trato do falo, mas logo a marujada entende que não é só desejar, que do ritual de vivências o costume em terra nova d´além finisterra é ser natural. Da tinta escarlate que veste os corpos d´atitude quer Sanches Brandão o pao de tinta. Ah, descomunal achado! Eis o pau-brasil que faz reis e papas sonhar ricas roupas. Ó, político afago... Além das tormentas, os monstros não se viram, só o trago d´aguardente da marujada no velho medo de morta acordar. 5 O capitão olha as três partes da carta d´Isidoro, Olha-a de um jeito e d´outro como se ampulheta fosse – súbito, pega um farrapo de velame e desenha com carvão de fogueira: Eis aqui a quarta parte!, diz. A seus pés está o novo mundo. Portugal não é mais um pedaço ibérico sem eira além de si, e o capitão Sanches Brandão registra o mundo desta terra para dar a ver a Afonso IV a nova posse, vencidos os falsos monstros e rasgada a carta d´Isidoro. Do tropical ryo siará o capitão diz: Sem riso nem choro, eu vos digo, ó mundo, Portugal ora é reino grande em fé e posse!

6 O gajeiro que a boa nova dera após a borrasca guarda do capitão adaga d´ouro, e a tropa naval se recompõe dia após dia entre gentes de alegre nudez. De tal sorte que alguns ficam na foz do ryo siará com mulheres novas de riso largo já aguardando novo mundo, outra raça de porte guerreiro. Povo de cais em cais, ó Portugal, ora tens outras paradas: gentes d´além mar te renovam como o sol se põe para fazer com a lua um amor de terna borrasca! Embarcado o pao de tinta, Lisboa será alcançada e, a Flandres, como Roma, saberá que outro poder se lhes opõe!

7 A melancólica cançoneta dos marujos em quarto d´atalaia destoa da festa d´arromba que o palácio real vive que do relato e mapa do capitão manda el-rey fazer carta régia a Clemente VI, o papa em Roma. É festa na Lisboa rica, que nos becos o povo nem sabe da vera grey

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e chora a vida do nada e da dor. Vero, que a vida nem é longa, logo, o melhor é apanhar o prazer possível. O mundo ora vive a era da marinhagem n´alto mar, mas já está d´atalaia! Já querem ver a Lisboa cair na gandaia para na calada lhe levar o mapa. É o mundo!, diz-se, e assim se vive!

8 Terra, terra e mais terra. O papado de Roma vê a terra nova como quintal e o pao de tinta é preciosidade. Taxas por cabeça d´escravo e quintal de produtos, que o papado não vive d´ares nem d´água benta! Os reinos fiéis são aqueles como Portugal... Tudo pro papado nada pro povo!, que a canalha não é benta... Alvíssaras!, que Roma é tudo e é de Deus a cidade, que se faça ouvir na cristandade [e de Portugal] a boa nova! Mais barcos se fazem ao mar´alto, os marujos têm canção nova mas nem os velhos gajeiros lhe sabem a idade.

9 Longe de tudo, abrilhantado, o capitão Sanches Brandão está na sombra do velho Pessanho. Assim é a vida!, escuta outra vez após o Te Deum, que lhe soou a mortalha. Outros já navegam a buscar na terra nova mais pao de tinta. Outros reis querem do papa carta livre, e Afonso IV maltrata tais quereres: É nosso esse mar!, diz, em jeito de boa pinta, mas de olho na Flandres. Quer riqueza e alimentos, quer solidez, quer o mundo a seus pés, já esqueceu até o capitão! Franceses e ingleses estão d´atalaia, pois, ninguém vê mais o capitão. O que querem? Chegar à terra nova do português!

10 Mergulhado n´alcova palaciana vai o reino de Portugal, que os cronistas dizem ser d´intrigas. O mal de sempre no ibérico pedaço. Com terra n´além-mar e um pau-brasil que é fortuna, Portugal esvai-se entre linhagens fúteis e um clero tal e qual. A já famosa Ilha do Brasil é pirateada com vil ganância e as gentes de lá ora são úteis bestas de carga. Ontem, hoje e sempre, o mundo humano s´elimina com espelho em Portugal. Para o capitão Sanches Brandão foi o ryo siará um novo graal e 1342 a página que o mundo guardará para sempre! Ilha do Brasi, ou de Brandão [1342-2013]

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Parte 5

/ Literatura Tecnológica

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Além de romance, poesia, história, contos e ensaios, João Barcellos publicou, com a TerraNova Comunic e a Ed Edicon, no Brasil e Portugal, uma série de livros técnicos e atua na imprensa especializada a par da exibição de conteúdos em palestras para professorado e empresariado – a saber: COMUNICAÇÃO VISUAL [2008]; ESTAMPARIA [2010]; DO FABULOSO ARAÇOIABA AO BRASIL INDUSTRIAL [2011]; IMAGEM ESPECIALIZADA [2012]; INDÚSTRIA DIGITAL [2013 + palestra, 2013-2015]; ALQUIMIA, MODA & COMUNICAÇÃO VISUAL [2014], SUSTENTABILIDADE [palestra, 2014 e 2015] e O FERRO, O MUNDO, O YBIRAÇOIABA [palestra, 2016]. // João Barcellos é co-fundador [2008] da Revista Impressão & Cores e foi co-fundador/editor do jornal O Serigráfico [2006-2011], do Science and Education [Dublin], do En Vivo y Arte [Barcelona] e da revista Vida & Construção, entre outros.

Literatura Técnica entrevistando João Barcellos

Utilizei o ensaio-palestra “Indústria Digital”, que depois virou mais um livro de João Barcellos, para dar corpo a uma tese acadêmica. Mas a poética com que ele fala e escreve sobre tecnologias deixou-me na espera de uma entrevista. Quando? Quase embarcando na ponte aérea Sampa-Rio vi aquele senhor andando calmamente pelo saguão. E aquela barbicha de ´kung-fu´ era inconfundível: “É ele, o escritor”, foi o que pensei. Chegando mais perto, embora certa, perguntei se era ele. “Ah, eu mesmo!”, respondeu. Identifiqueime e ele lembrou da minha solicitação para utilizar o ensaio-palestra na tese. Disse-lhe que tinha uns minutos e se poderia, então, conceder-me uma entrevista. “Desde que eu possa publicar, toda ou parte, na Revista I&C, tudo bem”, respondeu. Sentamos no bar e eu registrei:

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CJ – Professor, como é ser um fazedor de conteúdos históricos e tecnológicos? JB – É abrir a bagagem de mais de 40 anos de atividade literária, historiográfica e editorial, adicionar conhecimentos gerais e experiências profissionais entre têxteis e eletromecânicos, e, enfim, reinventar dia a dia a linguagem da comunicação social. CJ – Assim, até que parece fácil... JB – Só parece, menina. Você é uma jovem professora e só vai perceber se é fácil ou não com a maturidade profissional. CJ – Percebi a dificuldade para formular a minha tese acadêmica, e ainda tive que ligar para o senhor confirmando dados (Ele ri e aponta o dedo para o meu nariz como que a dizer “está vendo”). Acerca deste segmento da Comunicação Visual (que você defende, também em livro, ser uma indústria de conglomerados como têxtil, têxtil digital, moda, serigrafia, solda eletrônica, tampografia, enfim...), você escreveu cinco livros, hoje esgotados. Foi bom o resultado? JB – Muito bom, porque pude publicitar a minha opinião em meio a definições tecnológicas e provar que tudo o que vestimos e calçamos, ou estampamos, é comunicação visual. Mais: provei que os segmentos da Comunicação Visual ainda não têm uma cultura industrial própria, por isso a desinformação que grassa por aí! CJ – É mais uma informação de catálogo... JB – ... Ah, ah, ai..., quando tem catálogo! CJ – Por que falta literatura técnica nos segmentos da Comunicação Visual? JB – Mesmo quando viajam, os empresários não se preocupam e adquirir livros técnicos. Eu e a Editora Sertec somos os pioneiros por aqui pela continuidade das publicações. CJ – O senhor se acha isolado? JB – Já teve empresário que me disse serem os livros técnicos uma perda de tempo. Infelizmente, é a maioria que diz isso. Uma nova onda empresarial está tomando o curso da indústria brasileira também nestes segmentos, por isso sigo em frente. Última chamada para o voo de Curitiba e João Barcellos vai encontro de outros jornalistas para mais uma missão no meio da Comunicação Visual. Sinto-me honrada e dou a notícia às minhas colegas. Um hit numa madrugada de garoa na Sampa. Cristina Jordão – Professora de Artes Visuais. Aeroporto de Congonhas, Brasil. Março de 2016.

Literatura Tecnológica No Universo Editorial De João Barcellos Entrevistar o intelectual João Barcellos é fácil e, ao mesmo tempo, uma tarefa complicada. Explico: Além de editor, ele é romancista e poeta, ensaísta e pesquisador de história, conferencista, a par de escritas tecnológicas sobre os ramos da comunicação visual. Então, conversar com este mestre é sempre um desafio e exige um estudo profundo sobre ele. Agora, depois de ler as conferências “Têxtil Digital / Sublimação Nanotecnológica De Estampas Em Tecido & Outros Objetos”, que preparou para a Fespa Brasil e para a Febratex, e “Moda Agreste”, para a Agreste Tex, decidi entrevistá-lo sobre a sua literatura tecnológica. Marta Novaes – O que é Literatura Tecnológica? João Barcellos – Um meio de divulgar processos e parâmetros de utilização no meio industrial e artesanal, com o que se expandem conhecimentos específicos – que é o que se faz, por exemplo, na Imprensa Especializada de nichos técnicos. MN – Você focou estudos e publicações (5 livros publicados) no que chama de ramos da Comunicação Visual... JB – Sim, a saber: Fui editor do jornal O Serigráfico por 11 anos, mas decidi deixar o ramo para me dedicar só à literatura e à área institucional. Entretanto, um empresário e um amigo da área comercial convenceramme a criar a revista Impressão & Cores, agora com 8 anos de atividade, e decidi aproveitar os conhecimentos para publicar temas de importância ligados à serigrafia, impressão digital, tampografia, têxtil e gráfica digital, etc., e os livros tiveram (e têm, ainda) uma boa aceitação.

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MN – A nossa amiga e professora Mariana d´Almeida y Piñon disse, em 2011, que você é um “Construtor de conteúdos poéticos, filosóficos, lítero-historiográficos e tecnológicos [...], um mestre na comunicação social que em cada livro nos dás oferece uma lição”. Na verdade, isto é a sua vida... JB – É tudo. MN – Os seus “livros de conteúdo tecnológico são gotas de saber no deserto estabelecido por parte do empresariado brasileiro”, como afirmou o fotojornalista e serigrafista Mário de Castro, na homenagem pública feita a você em 2015, em Embu das Artes. O que me diz sobre este assunto? JB – É verdade. São raros os empresários e as empresárias que apoiam a Literatura Tecnológica, assim como não apoiam a Publicidade institucional na Imprensa especializada, e isto é muito grave para um Brasil que precisa crescer com uma Educação a valorizar a nova filosofia industrial da produção socioambiental e a troca de conhecimentos. Para parte do empresariado brasileiro a formulação de uma tinta, por exemplo, ainda é um ´segredo´ industrial... Ora, estamos no Século 21 e “a indústria virou um aldeia global, não é mais o chão-de-fábrica entre quatro paredes”, como já escutei o empresário Sérgio Schmitz (da J-Teck Brasil) dizer várias vezes, e a professora Fernanda Marques (do gd Noética) utilizar a mesma receita! MN – Mais algum livro a ser publicado? JB – Sim, tenho dois livros prontos e acredito que serão publicados em 2016. MARTA NOVAES – Editora da revista Jeroglifo (Buenos Aires) / Especial para a Revista I&C.

LITERATURA & JORNALISMO Uma entrevista com João Barcellos

Os quarenta e cinco anos de experiência como escritor e como jornalista, ele começou com quatorze em meio a jornais escolares, poesia e crônicas historiográficas mimeografadas, naquele Portugal mergulhado nas sombras da anti-Cultura salazarista, fizeram-no cidadão do mundo, mas, sempre o Português na defesa de si mesmo e na divulgação da autêntica história da sua terra-mãe, onde quer que esteja. Voltado para a construção de conteúdos, ele é o intelectual e o arquiteto do permanente sarau sociocultural e político que deve informar e formar pessoas em todas as atividades profissionais. Ele é João Barcellos, um dos mais respeitados intelectuais da linha alternativa, isto é, o escritor e o jornalista que rejeita os dogmas mercantis do consumismo que enlata a Cultura. CMM O que é ser intelectual e arquiteto de conteúdos, na área cultural e na jornalística? JB É, primeiro, conquistar uma bagagem sociocultural que permite olhar o mundo que somos sob o prisma do que fomos e, assim, produzir o presente pelas circunstâncias de raiz e não por ideais descartáveis; segundo, é estar presente no mundo pelo que se é projetando material de informação que forma opinião, de baixo para cima, do local para o mundial, por isso, é tão importante uma fonte e um jornal regional quanto uma fonte e um jornal transnacional: o que está em jogo é a verdade transportada nos conteúdos, e isto vale para quem escreve, escritor(a) ou jornalista. CMM Desde muito jovem você trabalha com assuntos de história e filosofia, isso ajudou na sua formação como editor de conteúdos? JB Olha, como disse, a bagagem sociocultural é tudo para se alcançar um bom nível profissional, pois, como defendia Sócrates, precisamos aprender a estar para sabermos ser (o que Heidegger sintetizou muito bem milênios depois). Eu tive, e tenho, uma família que me permitiu buscar o Saber, apesar das inúmeras dificuldades que passamos por causa do regime ditatorial salazarista, e aprendi que eu seria eu depois de conhecer a minha história: esta é a primeira parada para alguém que quer viver um humanismo crítico e batalhar pela própria independência, o que tem reflexos na sua própria geração, na sua comunidade, entre erros e acertos. Por isso é que dos conteúdos datilografados e mimeografados aos gerados em computadores eu pude construir uma carreira independente produzindo livros, jornais, revistas, sites (conteúdos eletronicamente gerados), saraus e palestras... CMM Era por isso que o professor Aziz Ab´Sáber dizia que você é “um gerador de conteúdos gerais que arrasa quando se debruça sobre um em particular”... JB Ah, ah! Ele foi um dos grandes incentivadores que tive no Brasil, assim como Manuel Reis, em Portugal, a Rosemary O´Connor, na Irlanda, ou o Figuera de Novaes, no Chile. Devo muito a esses

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intelectuais, e também a Agostinho da Silva e a Francisco Igreja, entre outros. Foram e são parcerias de alto nível sociocultural que me fizeram mergulhar em assuntos como a vera historiografia lusófona, a ecologia, a formação sociopolítica do Brasil, as questões políticas do mundo, as religiões... CMM Sem nunca deixar de ser o poeta! JB Toda a nossa atividade é uma poesia que pode ser escrita e cantada. Veja, quando analiso e anoto questões historiográficas ou políticas, faço ao mesmo tempo poesia, e, às vezes, uma novela em torno deste ou daquele pormenor em estudo. Crio a todo o instante. CMM Desde jovem você é arredio à prisão mercantil editorial. É por isso que manda imprimir os seus livros em vez de aguardar que uma editora o faça? JB Tenho vários livros produzidos por editoras, mas eu prefiro trabalhar com o que faço e produzir segundo as possibilidades que cubram os custos e gerem uma renda que pague as contas. Não preciso de mais do que isto. Sou criticado por não ter uma visão capitalista e não ser um ricaço, ou um professor universitário cheio salamaleques acadêmicos... Fico enojado com tudo isso. Prefiro ser eu mesmo no comando daquilo que faço, como escritor, pesquisador e editor. Olhe, organizo duas coletâneas literárias, junto com o filósofo Manuel Reis, e as turmas ligadas ao Centro de Estudos do Humanismo Crítico (Portugal e América Latina) e ao Grupo de Debates Noética, que mantém uma revista eletrônica com o mesmo nome, e já estamos com dez volumes em cada coleção tratando de sociedade, política, ecologia, religião, história, filosofia, educação e literatura propriamente dita. Não precisamos que nenhuma editora nos diga o que fazer. Temos a colaboração da editora Valentina Lyubtschenko, uma aliança profissional com mais de vinte anos. Assim, o que eu produzo e aquilo que o grupo produz diz respeito a mim e ao grupo. Por exemplo, na geração de conteúdos para segmentos como o têxtil e o gráfico, através da Revista Impressão & Cores, da qual sou o editor, ou do ´site´ Noética, há uma total independência de quem colabora. Assim deve ser e assim será. CMM Você dá muita importância à Imprensa Regional e à Cultural. O que fascina você? JB Eu ´nasci´ na Imprensa Regional e nela aprendi a produzir Conteúdo Cultural. Uma grande escola profissional, e não existe universidade que a substitua, da mesma maneira que não existe universidade que ´produza´ o escritor. Não estou a dizer que a Academia não presta, apenas que ela é inteiramente dedicada a dogmas próprios e situa-se muito longe das necessidades populares. O jornalismo de conteúdos (a reportagem é mera crônica pontual de circunstâncias) é um exercício que exige experiência sociocultural, conhecimentos específicos (não ´especialidade´, entenda-se...), e é a mesma exigência para quem escreve poesia, romance, conto, tudo isto é um ensaio literário onde as experiências humanas são o lado bom. CMM O que você pode dizer para as novas gerações que chegam à Literatura e ao Jornalismo? JB Um velho recado de Unamuno: ler, ler e ler.

Nota Final Esta entrevista (via internet) foi produzida para as minhas aulas de Artes Gráficas ilustrandoas com a experiência vivida, mas vale para todos os setores profissionais pela lição de vida e de independência de um profissional das Letras como João Barcellos. MOREYRA, Carlota Maria – Paris-Fr., 2013.

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Parte 6

/ Novelas

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NOVELAS UM OLHAR DE PAZ NO INFERNO DA GUERRA * ARRASA QUARTEIRÃO * UMA MORGADINHA DOS TRÓPICOS

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UM OLHAR DE PAZ NO INFERNO DA GUERRA

Um Romance Na Celebração De Amílcar Cabral

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Prólogo

“[...] E sempre que o gina rompe o espaço vindo do Bijagós, as cubatas das tabancas baloiçam e... oxalá! Súbito, o estrondo do fiat não é luz mas fogo em jeito de estrondo. Nem capuz ajuda, nem aquilo que além reluz é oiro... É um tudo ou nada que acolá e aqui nos mata e faz tremer como as cubatas, mas... nossa dignidade não é coisa que se compre!

J. C. Macedo – “Um Poema Para Miriam (Colega guineense ´perdida´ em Guimarães)”, 1973.

Os estrondos que os povos cabo-verdeano e guineense gostaram de ouvir saíram para o espaço na voz de Amílcar Cabral e não das bombas lançadas pelos caças FIAT (os ´gina´), que tentaram calar a voz dessa África quando a infantaria e a cavalaria tiveram que recuar a partir de Madina do Boé para não perderem de vez o controle daquela possessão ultramarina. Infelizmente, “[...] uma parte dos cabo-verdianos não quis observar que a unidade com os guineenses, proposta por Amílcar Cabral, é a única via social e política que poderá consolidar a luta pela liberdade. Pensaram na proposta como um lirismo ideológico, mas a palavra de Amílcar Cabral é mais do que política, é uma aposta de estruturas sociais para anular o efeito nefasto do colonialismo português no pensamento africano [...]. Pensaram que o grande obreiro do PAIGC queria ser mais um caudilho num ´império´ com algumas ilhas, e os próprios camaradas, insanos e prenhos da alienação soba-rei, criaram a cilada. Agora, o africanista e libertador Amílcar Cabral jaz em nossa memória para sempre!” [MACEDO, J. C. – in “É Preciso Dialogar Para Libertar”. Artigo, assinado “Eolo”, em panflo da TJIA, lançado na região do Minho. Guimarães, 1973]. E assim foi, na análise do poeta português, que aquela parte da África perdeu uma grande oportunidade de ser um exemplo de unidade geopolítica para todos os povos do continente. E quem esteve na edição de 1973 do Cascais Jazz, pôde verificar que entre a máxima “podem fazer tudo, mas não chamem a polícia” e a apresentação de Sarah Vaughan (com Carl Shroeder, John Gianelli e Jimmy Cobb), fez daquele novembro jazzístico também uma marcação contra o belicismo colonial português com a bandeira do PAIGC a passar de mão em mão como mensagem cultural de um povo que repudiava a famigerada Guerra Colonial. Existiam muitas pessoas, então, contrárias ao espírito salazarista-caetanista de fazer diplomacia ultramarina em África, uma diplomacia com alguns apoios de intelectuais da elite branca brasileira, mas “[...] um punhado de cabo-verdianos falsamente nacionalistas pensou apenas no próprio umbigo e fez o serviço sujo que qualquer agente da PIDE gostaria de ter feito. Não que a contrainformação da PIDE estivesse por fora do caso, deve ter-se apropriado das informações internas do PAIGC, em Conakry (e os atuais dirigentes do PAIGC, tanto tempo depois, devem uma explicação pública e internacional...), para deixar à vontade os candidatos a soba-rei... Pensar em Amílcar Cabral é fazer jus a uma política libertadora que ouvimos nos cânticos de Zeca Afonso e recebemos na estética do gingado das danças insulares, mas é preciso mais do que pensar, é preciso agir...”, como afirmou J. C. Macedo [“Eolo”] no panflo da TJIA [Braga, Dezembro de 1973]. A ação de Amílcar Cabral foi “um olhar de paz no inferno da guerra” e pinço essa frase de J. C. Macedo, inserta naquele panflo citado, para intitular a novela que escrevi e vos deixo ao sabor dos ventos libertadores que sopram no humanismo crítico das pessoas de bem.

Parte Um 62

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Capítulo 1 O tempo está no corpo de Benjamim, velho metalúrgico, filho de mineiro escravo e neto e bisneto de minerador escravo. O seu corpo é a moldura de uma alma que carreia a força da África em sua plenitude criativa. Cada dobra na sua pele é um traço do mapa da vida que levou os seus ancestrais da N´Gola, peritos em fazer do ferro obras de arte, para os confins da América e, além do paredão da costa atlântica, darem o suor e o sangue no Cerro Berassucaba, na velha rota guarani chamada Piabiyu, a oeste da jesuítica Sam Paulo dos Campu de Piratin, como os escrivães gostavam de registrar nas atas municipais. Benjamim foi e ainda é o tipo “pau pra toda obra a ser feita com a maestria do saber da vida”. Livre dos equipamentos de tortura e prisão, mas ainda um negro, sempre escutou o seu avô Domingues dizer que “se existe uma história do Brasil essa é a história dos que fizeram das minas de ferro a alavanca da indústria na América”. E ele sabia-o muito bem, pois, frequentara cursos técnicos e, sempre que podia, escapava para as bibliotecas públicas para saber “como foi que o Affonso Sardinha fez a primeira usina de ferro da América, no longínquo Berassucaba, e como o barão de Mauá se fez o primeiro grande empreendedor do Brasil”. Porque na escola ninguém sabia como o Brasil industrial havia acontecido, e os professores olhavam com desconfiança aquele “negão metido a intelectual”. Na família, era o único alfabetizado e com curso médio. “Bem, mas no Brasil como na África, negro estudado continua negro socialmente banido, mas pode até ser respeitado como ´branco´ quando põe gravata de executivo ou farda de policial”, murmurava amiúde entre companheiros de escola e, principalmente, com os companheiros de sindicalismo anarquista na grande e multirracial cidade de São Paulo. Naquela metrópole singular, onda cada pessoa é por si mesma entre cimento e aço, percebera que deveria ir além de mero “negão pra todo serviço, mesmo o de ´enfiar´ em madame a querer matar curiosidade sobre a ´coisa preta´”. Tinha facilidade para entender as letras e os números, era só aprender a jogar no quadro negro e entender cada vez mais... Agora, o seu olhar perde-se nos campos de cultivo rudimentar de onde as pobres famílias de Madina do Boé tiram o sustento. – Ah, estás aí... – Ai, Maria. Cara, nem senti ocê de tão mansinho que chegou até mim! Ele levanta-se do tronco em que estivera a refletir sobre si e o mundo, e diz: – Cara – já está há três anos na Guiné dominada pelos portugueses, mas não perdeu a gíria brasileira –, que aflição é essa?! A mulher tem no olhar uma angústia que corta a alma de Benjamim. É coisa muito grave, pensou. Olhou-a atentamente. Raras foram as vezes em que a viu em tal estado de angústia. A mais triste foi quando a polícia política da Província de São Paulo apanhou um grupo de anarco-sindicalistas dos setores gráfico e metalúrgico e encarcerou-o quebrando a resistência com violentos golpes de cassetete e coronhadas: entre os elementos subversivos estava ele. E ela, na praça próxima, com um minúsculo objeto esculpido a representar os seus antepassados nas mãos: – Ó, meu irã, ajuda meu homem... – implorava, enquanto assistia a tudo sem poder fazer fosse o que fosse para tirar o seu homem dali. A minha fula é mulher brava, lembra ele a cena, enquanto a abraça. – Maria, que aflição é essa?! – repete. – Estão a dizer por aí, ao longo do Corubal, que o tal brigadeiro Spínola vai reforçar os quartéis da tropa portuguesa... – Ah, sim... – diz ele. É uma fala calma, mas forte. Sem deixar de abraçar Maria, olha o além com preocupação. – Era de prever, porque os guerrilheiros do Cabral fazem desta região uma espécie de quartelgeneral, e os embates vão ser cada vez mais duros por aqui... Ela olha-o bem nos olhos, e questiona: – E nós?

1969. Salazar recusara várias propostas de solução pacífica oriundas de nacionalistas africanos. A sociedade portuguesa, apesar dos esforços espirituais da cristandade católica como pilar ideológico, começa a recusar a Guerra Colonial como pensamento e ação do Todo português e, aos poucos, o próprio Salazar vê-se acuado, mas não desarma, ajoelha com os igrejistas diante do fracasso e não desiste. Faz como Hitler e como Franco: é a nação que tem de se mover, os dirigentes apenas dirigem! Já com Salazar hospitalizado e incapaz, o presidente Américo Thomaz chama Marcello Caetano, em 1968, mas na substituição o regime prossegue na caminhada desfavorável ao diálogo político e focado na contenda militarista e policialesca.

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Diante da dificuldade encontrada em fazer frente à subversão desencadeada por nacionalistas africanos, a tropa portuguesa opta por reforçar as unidades mais estratégicas situadas na Guiné, entre Bissau e as colinas do Boé, até porque o imenso corredor atlântico entre as ilhotas do Bijagós favorece a ligação com Cabo Verde, corredor de difícil vigilância. A tropa salazarista-caetanista está quase isolada em Madina do Boé enquanto a tropa africanista de guerrilheiros cabo-verdianos e guineenses avança com apoios logísticos a partir de Conakry na fronteira com a Guiné, ainda com controle português, mas também com apoios de Dakar. O domínio português em Angola, Moçambique e S. Tomé e Príncipe tem um ritmo político-militar estabilizado, mas o governo de Lisboa já pressente que a perda de mais de metade do território na Guiné é um fator de desestabilização, e tem no experiente Spínola a esperança para uma mudança nesse teatro bélico que opõe o colonialismo ao africanismo libertário. As primeiras grandes manifestações guineenses contra a presença colonial dos portugueses tinham acontecido no cais de Pindjiguiti, em Bissau, onde rapidamente chegavam as notícias de uma África que se libertava de vez dos grilhões europeus, a começar pelo Gana, e logo a Guiné Conakry e o Senegal. O importante cais de Bissau, que para os portugueses sempre foi uma feitoria mercantil, era já um centro de atividades anarco-sindicalistas que a polícia política de Salazar tinha debaixo de olho. Logo após a independência do Gana, em 1957, os trabalhadores do Pindjiguiti fizeram a primeira greve política sob a orientação de um jovem ativista nascido na guiné, mas filho de cabo-verdiano: Amílcar Cabral.

Tudo seria diferente para os militares portugueses a partir dos atos de rebeldia verificados naquele cais.

Numa primeira fase, tanto guineenses como cabo-verdeanos uniram-se para dizer não à gestão colonialista de Portugal e atuavam segundo a cartilha ideológica de um africanista nato que, havendo estudado em Lisboa, conhecia muito bem a dinâmica política do ideal ultramarino defendido pelo primeiro-ministro Salazar. – Já prevendo a subversão na África portuguesa depois da libertação do Gana, o governo salazarista colocou parte da chefia da PIDE sob o comando de oficiais militares para ter a absoluta certeza de que entre a inteligentzia e a tropa não haveria furos... – alertara Cabral em reunião de guerrilheiros. A reação portuguesa à rebelião em Pindjiguiti foi extrema: muitos trabalhadores presos e algumas dezenas de mortos. Um erro estratégico do Governo de Lisboa, porque, politicamente, Pindjiguiti passou a ser a bandeira anticolonial que os nacionalistas africanos fizeram esvoaçar em todo o mundo. O isolamento do ideal ultramarino salazarista começou na Guiné e ali teria continuidade, apesar do combativo, mas, algumas vezes, diplomático Spínola.

A sua Maria, da etnia fula, deixara a Guiné para ser costureira na metrópole São Paulo. De entre as colinas do Boé foi para uma das ilhas paradisíacas do Bijagós e ficou por dois meses entre as matriarcas de Orango. Encontrou outro olhar, outro viver a vida, e com elas aprendeu algo que lhe traria muita felicidade alguns anos depois... Entretanto, na sua terra, embora a costura seja um ofício masculino, aprendera com o avô aquela arte em meio ao cultivo do arroz. Era tão prendada a pretinha dos olhos grandes que na metrópole brasileira foi imediatamente recolhida por uma família da elite local e tratada como escrava, mas, ainda assim, conseguira estudar à noite com o apoio de uma jovem costureira portuguesa, também ela a trabalhar em casa de família e a receber gorjetas em vez de salário. Num desses cursos profissionalizantes e de

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alfabetização para adultos, Maria conheceu Benjamim, que ali distribuía panfletos contra as oligarquias getulistas e a monarquia que subsistia nos coronéis rurais e industriais. No primeiro encontro político ficou a conhecer as palavras e as ações do agrônomo Cabral, o cara que está a dar a combate aos portugueses na África. Ela não tinha nem noção dessa coisa: – Me fala dessa coisa, ah... colonialismo, quero saber tudo e por que esse cara, o Cabral, põe a cabeça a prêmio em nosso nome! – quis saber, alguns dias depois e ainda a digerir tanta informação sobre a sua África. E ele percebeu que ela tentava esconder a vergonha por não estar a par do assunto. – Não sinta vergonha, Maria, ninguém nasce com a sabedoria! – disse-lhe. Gente africana de origens diferentes, ele angolano e ela guineense, mas com a mesma fé islâmica e a esperança de voltarem para uma África livre, puramente africana. Gostavam do samba e praticar a capoeira tão tradicional no ritual das meninas africanas que assim escolhem o seu homem, mas que os brasileiros dizem ser ritual seu. Num final de tarde e percebendo que ele gostava de sua presença, a fula cozinhou uma refeição de peixe à moda guineense para o amigo n´gola. E ele gostou, repetiu. – Se ele gostar é o teu homem! – ensinaram-lhe as mulheres de Orango. O amor uniu-os e fortaleceu no casal o africanismo que Amílcar Cabral dilatava em suas andanças políticas, e já conversadas entre anarco-sindicalistas portugueses e brasileiros, até porque os portugueses tinham, então, forte influência no estabelecimento desse sindicalismo anti-soviético, tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo. Nem sempre o problema dos anarcas estava na polícia política getulista, também na traição de classe promovida pelos sindicalistas ligados aos partidos comunistas que atuavam sob a ótica soviética. E logo, Maria deixou as algemas da aristocracia coronelística paulistana para se juntar aos quadros anarquistas em luta por um Brasil livre de racismo e caudilhos fascistas, nos governos e nas empresas. Em poucos meses, a guineense das bandas de Madina do Boé era uma das militantes mais ativas, e o seu N´Gola um apaixonado muito orgulhoso. Benjamim enfrenta o olhar dela. – Eh, meu bem – começa ele, pausadamente –, essa retirada significa que já determinaram ser a nossa região o foco principal da guerrilha. Daqui a pouco vão estar por aqui apenas em rusgas de comandos especiais com cobertura aérea... – Ou seja – interrompe, esperta –, com os quarteis por aqui eles conheciam a gente e apenas policiavam, agora, vão matar indiscriminadamente, porque guerrilheiro bom é turra morto, como dizem. – Sim, é isso mesmo, meu bem. – Apesar da mansidão da fala, Benjamim demonstra uma enorme preocupação em seu olhar, e continuou: – Nós já somos vigiados por sermos brasileiros anarcas, embora por aqui sejamos unicamente lavradores. Cara, quando olho a águas do Corubal tenho a impressão que Madina do Boé já é um território livre, inacessível às estratégias do colonialismo de Salazar e seus generais. Faz-me lembrar aquelas gentes paulistas diante do ditador Vargas... Às vezes, o Poder é tão podre e tão comprometido com o niilismo que acaba por se minar e implodir. É o que me parece que acontece agora com as tropas portuguesas diante da fortaleza do idealismo que move o Cabral e a sua (que também é nossa, verdade seja dita...) bandeira africanista.

* Benjamim teve na Sampa um professor e um amigo. Era técnico especialista em manutenção de aeronaves, em Berlin, mas fugiu para a África em navio e aportou clandestinamente na Lourenço Marques, a velha e bela Maputo do valoroso povo moçambicano, para logo cruzar o oceano de novo rumo ao Brasil. Esse técnico esteve na equipe que estudou o FIAT G9, aeronave recém chegada à Alemanha para aplicação tática e, com os engenheiros militares, desenvolveu outros sistemas.

Na longa viagem até Moçambique travou conhecimento com Idalécio, um cabo-verdeano de meia idade que fazia todos os serviços no navio de carga com bandeira brasileira. O homem era a revolta em pessoa. E escutou dele a existência de campos de concentração em Bissau, da tirania dos governadores portugueses. – Eu não vou morrer sem ver esses portugueses fugirem com o rabo entre as pernas. Temos uma resistência

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passiva, sabe. Aproveitamos até a administração portuguesa para aprendermos, mas quando eles percebem que estamos mui inteligentes, como dizem, isolam a gente ou matam – disse Idalécio, num inglês de cartilha, mas perfeitamente compreensível e que deixou o alemão quase boquiaberto. E ele soube, então, que a África se movia, não o fim do mundo tão apregoado pelos ocidentais. Depois, no cais de Santos, convenceu o cabo-verdeano a ficar em terras brasileiras, de onde poderia ajudar o seu povo. – Eu estou marcado para morrer por ter feito oposição ao governador, lá da Praia, e ao Vaz Monteiro, lá em Bissau, pois, ele dirigia os campos de concentração em Safim e outros como se fosse o próprio Hitler. Não posso ficar por aí à vista... – revelou. – Está bem, mas aqui é o Brasil, você pode recomeçar como meu ajudante na oficina de mecânica que vou abrir em São Paulo. Se você passar fome, eu também vou... – propôs o alemão. Foi nessa oficina que Benjamim iniciou a carreira proletária quando concluiu o curso de mecânica, indicado por um dos mestres ao alemão, por ser “um cara que manja mesmo do negócio e quer aprender mais”. E ali conheceu o africanista Idalécio, já um anarco-sindicalista negro ilustrado e cineclubista. – Olhe seu Walter, se um dia eu voltar para África, e sei que vai acontecer, nunca esquecerei as lições de vida e de política que recebi nesta oficina! – agradeceu Benjamim. Entretanto, o alemão estava preocupado, pois, sabia que no dia do retorno de Benjamim, o seu companheiro de jornada, Idalécio, estaria com ele. – Sim, e eu sei que não você não irá só! – constatou, com um sorriso e uma olhada de soslaio para Idalécio. O alemão fizera de Idalécio seu sócio na oficina para calar os preconceitos da clientela burguesa daquela São Paulo ainda dominada pelo espírito colonialista vivido por muitos empresários portugueses – e, mais difícil de engolir, mui salazarista... Por várias vezes a polícia secreta do getulismo invadiu a oficina em busca de “um negão anarquista, elemento dito Idalécio”, mas tempos depois passou a ´achar´ dois e o alemão teve que se explicar, mas saiu-se sempre bem da enrascada ao apresentar-se com documentação falsa de um judeu berlinense com quem trabalhou num dos campos de aviação. *

Maria afasta-se do abraço, amorosa, mira o horizonte e parece não desarmar: – Pode ser como ocê fala, bem, mas acho eu que em ambas as margens do Corubal vamos viver uma guerra louca se o Cabral não conseguir armamento moderno para o PAIGC enfrentar os caças FIAT que Portugal comprou da Itália... – Ah, é verdade! – exclama ele, surpreso consigo mesmo. – Já me ia esquecendo, cara, e esses caças (cara, os nazis chamavam esse caça italiano de gina, talvez por causa de o modelo ser G9..., fala-se gi naine...) foi projetado para a NATO como aeronave tática, mas, é óbvio que agora, depois que a Grande Guerra terminou, o único país a utilizar o gina em missões de bélicas é Portugal. Lembra o mecânico, o Walter, bem? Aquele que me deu trabalho e, depois, cobertura para a nossa saída do Brasil... – e vê que ela, após breve hesitação, diz que sim com a cabeça –, pois é, caramba!, ele trabalhou com essas aeronaves na Luftwaffe quando projetaram tanques externos de combustível para as asas: eram tanques modificados para, com pressurização, expelirem uma mistura d´água com carbonato de cálcio que chegava ao solo como um spray para simular um ataque de armas químicas. “Aquilo foi uma loucura quase carnavalesca, e deu certo!”, disse-me ele, ainda exuberante depois de tantos anos. Isso quer dizer (e temos que passar esta informação à turma do Cabral) que o gina não será apenas uma arma tática, pelo menos aqui na Guiné, e em particular nesta região do Boé. – Benjamim – havia certo temor nos olhos de Maria –, isso significa que vão bombardear Madina do Boé até o PAIGC desaparecer... Ele solta um risada franca e diz: – Isso é o que o Salazar gostaria que acontecesse. Mas não será assim. Olha, bem, olha para a topografia deste lugar – e movimenta a mão direita num círculo à sua frente –, é mais fácil uma metralha antiaérea instalada numa tabanca abater o gina que o Salazar sorrir de vitória em sua cama no hospital!

A muitos quilômetros do Boé, oficiais da tropa portuguesa rediscutiam posicionamentos. – Isto aqui não é só canoa artesanal no Corubal, nem peças de artesanato de papiro ou irãs, meus senhores – diz um major comando da elite militar, e continua –, é também a parte insular de Bijagós, de difícil vigilância pelas muitas ilhas que ali existem, e a parte continental com duas áreas agrícolas e planaltos que favorecem uma grande produtividade, e aí estão pessoas nativas e, com elas, o esconderijo natural dos turras que o Cabral ideologiza agora, além de que os rios Geba e Corubal fazem a ligação natural com o

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interior da Guiné. Ora, senhores, canoas e jangadas são importantes meio de transporte para o IN, então, as NT têm que entender isto de uma vez, porque não estamos aqui para fazer turismo entre o QG de Bissau, onde estamos, e os esconderijos de folhagem dos turras que se comunicam, ainda... imaginem!, além do rádio, por assobios codificados para cada tipo de situação, ou seja, senhores, um assobio no meio da mata ou entre roças não é apenas um som, é um sinal do IN que observa as NT. – Outra questão, senhores – interrompe um capitão da arma de comunicações, apagando o cigarro que fumou pela metade –, chama-se rádio. Tanto em Dakar como em Conakry os turras emitem mensagens públicas contra Portugal com o total apoio dos governos locais, e já agora, também em Casablanca, assim, a situação que enfrentamos é uma geopolítica de interesses que vai muito além dos guerrilheiros do PAIGC e do lirismo socialista de Amílcar Cabral, e se nem a PIDE consegue gerar contrainformação em tempo real, por enquanto, as NT precisem mesmo agir com todas as precauções e trilhar terrenos já sinalizados pelos batedores. Alguns dos nossos homens, por exemplo, esquecem que os crocodilos do Bijagós avançam também pelos rios...

67 A presença militar é a defesa ideológica dos “Cinco séculos de Portugal na África” que na cartilha política de Salazar orienta uma falsa questão. E foi essa falsa questão que muitos jovens africanos dessas regiões começaram a debater e contrariar nas universidades de Lisboa, Porto e Coimbra, a partir da década de 1940. Estudantes africanos como o angolano Agostinho Neto, o cabo-verdeano Cabral, o santomense José Tenreiro, a moçambicana Noémia de Sousa e também Marcelino dos Santos, o guineense Vasco Cabral, entre muitos outros e outras. A cartilha salazarista tentou falsificar a história portuguesa, primeiro, com a invenção de uma “escola náutica em Sagres dirigida pelo infante Henrique” e, não bastasse tamanha grosseria, apareceu com os “Cinco Séculos de Portugal na África”... que o são de fato, mas não de colonialismo. – Entre as descobertas marítimas dos Séculos XV e XVI e o colonialismo do século XX existe uma diferença que se choca com a própria história, e não podemos encarar povoamento de região com dominação militar, nem mesmo a relação mercantil (escravos, ouro, etc.) de outros pontos com o desejo militarista de minar e aniquilar a liberdade dos povos africanos que, durante séculos, aprenderam a conviver com os portugueses e a sua língua – afirmara Amílcar Cabral, em um dos seus encontros com estudantes universitários. Para os jovens estudantes africanos em Portugal, tudo conta a partir da partilha da África pelas potências na Conferência de Berlim, no final do século XIX, embora só anos depois tenha Portugal iniciado a ocupação político-militar efetiva da sua área ultramarina e tendo como escudo as decisões daquela conferência. A possessão ultramarina era uma feitoria mercantil diversa para o governo de Lisboa, e foi o povo da Guiné quem mais pagou pela determinação colonial lusa: após quase 80 anos de chacinas, Portugal neutralizou a resistência das nações locai e seus sobas-reis. Então, para os jovens africanos ilustrados nas escolas de Portugal e conhecedores da história, “A presença colonial portuguesa na África deve ser combatida exemplarmente com acções de resistência armada, uma vez que Salazar recusa-se a dialogar pacificamente. Cada uma das nações deve ser uma secção da resistência pela libertação da África, e o momento é óptimo para se se desencadear a batalha”, explicava um panfleto que circulou nos campus de Coimbra e Lisboa, em 1959. Pelo tipo de mensagem ideologizada todos sabiam, e a PIDE também, que a autoria só poderia ser de um agrônomo cabo-verdeano... – Esse agrônomo formado em Portugal, chamado Amílcar Cabral – continua o capitão – personaliza a mais alta traição aos princípios da convivência pacífica. Ora, senhores, nós damos educação a esses turras e eles voltam-se contra nós... Bandidos armados!

O mais jovem oficial presente, um alferes da cavalaria, levanta a mão direita e diz: – É por isso que temos de estudar muito bem a característica geo-militar desses bandidos armados, pois, eles atuam preferencialmente em cima das nossas falhas e do nosso desconhecimento no teatro operacional. Não é a cartilha salazarista que os oficiais da tropa portuguesa leem e discutem, mas é já a influência spinolista que aqui se manifesta, principalmente entre jovens oficiais do quadro permanente aquartelados na região guineense. A messe do oficialato em Bissau é um ninho de descontentamento com a hierarquia obtusa e irredutível de Lisboa, mas a ação é passiva, cautelosa. “Ninguém vence uma batalha se não se aplicar com inteligência no estudo de cada pormenor”, afirmara ele anos antes na escola de cadetes em

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Mafra. “Às vezes, um recuo táctico vale uma vitória a longo-prazo”, escreveu num artigo em revista militar. A questão “recuo” não é uma estratégia bem recebida no alto comando militar e alguns generais, como Costa Gomes, defendem o continuísmo de ações diretas como força estratégica única num esforço geral das forças armadas para recompor o controle nas áreas de atuação dos nacionalistas africanos. Em algumas decisões o brigadeiro Spínola é um homem só, e conta apenas com os seus homens mais chegados para ter a certeza do cumprimento das ordens. Conscientes de que “não enfrentamos na África grupos de maltrapilhos nem ignorantes em matéria castrense”, os oficiais têm nas palavras de Spínola uma orientação que lhes transmite segurança.

– O mais importante seria o Walter nos dar instruções de como sabotar esse gina – diz Maria, muito preocupada com o assunto. Benjamim não parece tão assustado. Faz novamente aquele gesto com mão e assevera: – Meu bem, até a nossa roça de cana d´açúcar e arroz é para eles uma suposta armadilha montada pela guerrilha. E ela atalha, nervosa: – Então, Benjamim, os portugueses devem achar que produzimos alimentos para a guerrilha...? Com uma risada, Benjamim abraça Maria com força sem deixar de ser carinhoso. – Enquanto os esbirros do Salazar, não, agora são do Caetano..., pensam e agem assim com a gente, os guerrilheiros continuam as suas tarefas. E depois, cara, tanto a tropa como a PIDE não sabem como encarar a Guiné de frente e, aos poucos (e olha que o brigadeiro do monóculo já anotou esta realidade..., pelos discursos dele à sua tropa) serão empurrados para Bissau... por isso, Maria, minha fula, é que eles vão atravessar o Corubal e fortalecer unidades que antes eram pontes logísticas. – Caramba, bem – diz ela, subitamente com outro brilho no olhar –, eu nem tinha pensado nisso. Sim, o povo guineense combate por ele mesmo e tem uma aliada poderosa: a terra. Sorrindo, ele emenda a conversa: – E outro pormenor: o Walter foi para a Luftwaffe, mas, obrigado pelas leis do Hitler, como obrigados pelas leis do Salazar aqui estão soldados, sargentos e oficiais milicianos..., cumprem uma ordem nacionalista, e se não o fizerem ou são presos ou terão de fugir de Portugal. E mesmo entre o generalato salazarista existem pensamentos opostos, pois, Gomes da Costa quer aqui uma guerra aberta, quase suicida, e o Spínola acha que o tempo militar já acabou e que é preciso achar um fim político para esta contenda! Pode até ser que a PIDE faça uma bala perdida aniquilar o pensamento pouco salazarista do homem do monóculo, como fez com o general sem medo Humberto Delgado!

Ainda no Quartel-General da tropa portuguesa, em Bissau, o mesmo major comando dá a palavra a um tenente-coronel aviador, que pilota um gina. – Senhores, temos ainda um tempo de atuação com o gina, pois, em breve o IN terá misseis terra-ar fornecidos pelos comunistas da Rússia e da China, ou comprados mesmo nos EUA, porque na guerra o dinheiro não tem ideologia, tem peso monetário... Temos a informação de uma conversa de Amílcar Cabral com um agente soviético no sentido de enviar um grupo de turras para treinamento, ou em Cuba ou na Rússia, e a PIDE acha que um Vietnam pode acontecer por aqui em breve se não conseguirmos neutralizar as ações dos turras nas colinas do Boé. O tenente-coronel lança o olhar para a porta e fulmina o furriel que entrara sem bater. – Esssttaaa..., sargento miliciano, é uma reunião de oficiais do Estado-Maior! O furriel, da arma de comunicações, meio desleixado, parecendo alheio ao comentário e sem se dar ao luxo de responder, avançou pela sala e entregou ao oficial um bilhete, dizendo: – Não preciso aguardar resposta, senhor! – Estes rapazes milicianos acham que podem fazer o que querem só porque estão na peluda – quase gritou o major, e o seu olhar mostra uma vontade enorme de dar uma lição no jovem mensageiro. Pálido, o tenente-coronel levanta a mão esquerda e pede silêncio. O que acabara de ler deixou-o entre a perplexidade e o enjoo. Alguns oficiais à sua frente pensaram que ia vomitar, ou desmaiar. Mas logo se recompôs com dois movimentos bruscos de ombros, como que a endireitar a coluna. – Senhores, na passagem norte do rio Corubal, no Che-Che, onde efetuamos recuo para novas instalações da NT, uma balsa afundou neste dia 6 de Fevereiro e levou com ela mais de 40 elementos nossos – anuncia. O papel treme na sua mão direita. – Ainda não se sabe o que realmente aconteceu ali. Um minuto de silêncio em memória dos nossos! E os 14 oficiais de Estado-Maior levantam-se imediatamente. O silêncio corta o ar como lâmina de sabre.

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Capítulo 2 Depois de reuniões na Guiné Conakry, o agrônomo Amílcar Cabral está em Cabo Verde, na ilha de Santiago, terra do seu pai, para se inteirar do progresso organizacional da guerrilha contra Portugal. Reuniões em Conakry e em Dacar, após uma viagem por Paris e Roma, deram-lhe a certeza de que “a aventura africanista pela liberdade deixou de ser um projeto e assenta agora na certeza da vitória que já une os povos de Cabo Verde e da Guiné”, como acabara de afirmar num encontro com os outros dirigentes no mais natural dos esconderijos da região: o Arquipélago dos Bijagós. – Não sabemos se é bom que Amílcar continue com essas cartas ao Salazar exigindo o fim da guerra, cartas que ele nem lê, ou se lê... limpa alguma coisa nelas! Por outro lado, camaradas, Cabo Verde é uma realidade e a Guiné é outra realidade: são povos diferentes... E também, não devemos esquecer que os portugueses estão aqui porque querem ficar, ou não teriam feito a guerra de chacinas que fizeram no império de Gaza para acabar com Gungunhana, não teriam feito da Guiné um cemitério a céu aberto, nem teriam reaberto o campo de concentração de Tarrafal... – Ora, camarada – intervém Amílcar Cabral, sem se mostrar preocupado com a crítica –, concordo que querem ficar! Mas isso depende muito da nossa união... É certo que são culturas diferentes, mas a luta por uma África livre é a mesma, e a curta distância em que estes dois povos vivem permite organizar e estabilizar uma resistência conjunta e, quem sabe, no futuro, viverem sob a mesma bandeira. Lembrem-se que a Guiné Conakry, por exemplo, é resultado da união de várias etnias proposta por Touré e que vivem agora sob uma única bandeira. Já quanto ao Salazar, é do nosso interesse político e diplomático esse tipo de instrumentos que servem para mostrar ao mundo que não somos nem incultos nem meros selvícolas! E deixem-me dizer-vos: se alguma coisa me acontecer, ela será executada por pessoas que estão entre nós! Na sala pequena nos fundos de uma padaria faz-se silêncio. Parece que a cidade da Praia se fechou entre aquelas pessoas e nem o murmúrio marítimo consegue passar a barreira. – Se quisermos sobreviver ao policiamento político de Salazar e à sua tropa, teremos que estar unidos! – atira uma das duas mulheres presentes ao encontro. É a companheira de Amílcar, que em algumas situações faz ponte de comunicação. – Não sei qual será o futuro, mas sei que neste momento é mais importante a união de cabo-verdeanos e guineenses do que discutir quem é mais nacionalista e africanista diante do colonialismo! – diz um dos militantes mais ativos entre os trabalhadores do cais de Pindjiguiti e que não esconde diferenças ideológicas com Cabral. – Eu sou cabo-verdeano, nasci aqui e vou morrer cabo-verdeano, não serei nunca guineense com todo o respeito que esse povo me merece. Entanto, camaradas, neste momento, interessa apenas que somos africanos e temos que sobreviver como tais até derrotarmos o Salazar e os seus malditos cães de guerra, pois..., e agora o Caetano! O grupo fechou o acordo de “luta unida contra o Portugal salazarista” e Cabral passou a orientar as etapas de ação, em ter elas, a cooptação de 20 cabo-verdeanos e guineenses para treinamento com novas armas na URSS, como já acontecera na China. E logo, em Londres, o intelectual Basil Davidson inicia a publicação de artigos acerca da situação calamitosa da África colonizada por franceses, portugueses, holandeses e ingleses. Cabral utiliza o codinome Abel Djassi no campo político, enquanto que no cultural assina ensaios e poemas como Larbac, um anagrama utilizado desde os tempos de universitário em Portugal. O político e o intelectual passam a ser a bandeira maior entre os africanistas que apostam na África livre. – Os nacionalistas de Cabo Verde acenderam um estopim para acabar contigo. Alguns querem é trabalhar para os portugueses... Amílcar Cabral e a companheira caminham esgueirando-se até uma casa próxima. – Eu sei, eu sei que é difícil! Alguns deles são grumetes, querem só uma oportunidade para estar Poder, nem que seja na esfera do colonialismo português! – Parece que às vezes o inimigo não é o salazarismo de Marcello Caetano, mas camaradas que sentam conosco... Ele escuta-a apreensivo. A situação de ruptura regional foi contornada mais uma vez, mas ele não sabe até quando. – O meu receio é que isto chegue aos ouvidos da PIDE, e essa gente é esperta o suficiente para transformar estas diferenças numa arma contra nós! – Por enquanto, a ala cabo-verdeana do PAIGC depende muito do sucesso da ala guineense, e é lá que vamos derrotando o salazarismo. O casal entra arfando pelos fundos da casa depois de verificar, por uns minutos, que não havia movimentação estranha nas proximidades.

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A cada movimento do casal em Cabo Verde a região vulcânica treme de novo para uma erupção tão localizada quanto os desejos que os salazaristas têm para eliminá-lo. Os agentes da PIDE alternam-se na busca ao casal de acadêmicos. Após trabalhar como agrônomo e aproveitar a situação para conhecer melhor as realidades dos povos daquela região africana de língua portuguesa, Amílcar Cabral coligiu as anotações para aproveitar o potencial de resistência e nele projetar a batalha contra a presença colonial portuguesa. Aquele jovem acadêmico, que um dia o Benfica quis como jogador de futebol, da mesma maneira que investiu no moçambicano Eusébio, tinha outra visão social e preferiu a luta para ser livre. Gostava de se exprimir com a poesia, mas era também um bom orador e habituou-se a estar na linha da frente de todos os atos em que participava. Gostava de uma boa conversa e captava a simpatia das pessoas com muita facilidade. – O engenheiro Cabral sabe falar com a gente e a gente o entende muito bem – diziam, e dizem, pessoas que têm de trabalhar a sol a sol para sobreviverem. Essa era também uma característica que o impôs como dirigente do processo pela formação do PAIGC. A minha luta pode levar-me ao Tarrafal da morte lenta ou à morte em ação, mas o meu povo cabo-verdeano e guineense não me verá humilhado pela derrota, decidira o jovem agrônomo quando pôs de lado a profissão e enveredou pela política de combate a quem não o queria como africano livre. Sabia dos interesses da URSS e da China na região, assim como da ponte operacional soviética montada em Cuba, e foram os soviéticos e os cubanos quem o ouviram primeiro e lhe abriram as portas para diálogos internacionais sobre a situação de pobreza e humilhação a que Portugal submete os africanos de Cabo Verde e da Guiné. E assim falava na abertura de todas as reuniões na Europa e na África, e ali, em Conakry e no Senegal, encontrou as regiões para montar os pontos de ação guerrilheira que logo avançaram e assentaram praça além da Praia e além de Bissau. Após o sucesso da campanha política no cais de Pinbdjiguiti, ele passou a ser considerado pedra de toque para a libertação daquele pedaço da África colonizada.

Logo que o casal entra na casa, ela retira um pedaço de madeira do chão e vê um papel dobrado. – Mensagem, aqui... – Ela mostra-se assustada. O último local para uma mensagem urgente dirigida a Cabral é a “casa da Praia, alugada à esposa de um militar português”. – Conakry em 3 dias – lê ele a mensagem cifrada. – Então é verdade – comenta ela, mais aliviada, mas ainda tensa. – Até o Sèkou Touré quer discutir o teu plano de unidade para cabo-verdeanos e guineenses, ele, que para ser o que é teve que reunir os povos para formar uma nação! – Sim – diz, com certa secura. – E ele já conversou sobre isso até na RDA, imagina! Mas, seja como for, ele é o nosso maior aliado e é em Conakry que temos a nossa base de orientação operacional para o PAIGC. Ele anda ressabiado por causa do Spínola... O gajo do monóculo teve encontros secretos com Lèopold Senghor, lá no Senegal... imagina!, e é claro que o Sèkou Touré não quer encontro com esse gajo, quer é vingar-se da Operação Mar Verde que o gajo do monóculo comandou invadindo Conakry... Na verdade, há um estremecimento de relações entre Senghor e Touré por causa desse secretismo diplomático que não leva a lado algum! Neste aspecto, o apoio do Touré é um trunfo que temos contra o gajo do monóculo.

Capítulo 3 As incursões dos guerrilheiros pelas margens do Corubal e do Geba passam a ser tão rotineiras que a tropa portuguesa fica sitiada em Madina do Boé. E os guerrilheiros acompanham de perto a retirada sem intervir. – Vamos deixá-los ir. Vão pôr minas na retirada, mas saberemos onde. Precisamos desta área livre. Quem não vai voltar aqui são eles, com medo das próprias minas! – argumentou um dos chefes de guerrilha, em Conakry. As balsas fizeram o transbordo de muito material pesado e centenas de soldados armados, também eles muito pesados. Os oficiais estavam cientes da primeira parte de um despacho recente de Spínola: “É intenção do Comando-Chefe remodelar com maior brevidade o dispositivo das Nossas Tropas (NT) na região do Boé, transferindo o aquartelamento de Madina do Boé para local mais adequado, na região do Che-Che”. E sabiam que a palavra “brevidade” significava “agora”. Carregar tudo e depois destruir o que não poderia ser aproveitado era tarefa demorada para uma “brevidade” plenamente ligada a outra palavra: “segurança”. Composta de três embarcações puxadas por barco com motor de bordo, uma das balsas, a última, transporta, não a humilhação da retirada, mas o alívio no olhar de cada militar que por muito tempo aguardou a morte entre as colinas do Boé. Noites mal dormidas, assombradas, fazem os militares portugueses pisar na balsa como ponte para a libertação. Súbito, no meio do Corubal, a cem metros da

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margem, e na precisa lentidão da viagem derradeira, uma das embarcações inclina... Vários militares escorregam para o rio. – Cuidado, atenção! – grita um alferes miliciano, em pânico. Na tentativa de fazer voltar a embarcação à posição a tropa quase pula para o outro lado, e por momentos estabiliza. – Ei, tá a virar, merda! Ai, meu Deus!... – berra um sargento que não consegue se segurar e cai no rio. Com ele muitos outros. Do outro lado da margem o pânico não é menor. Oficiais tentam organizar de imediato o socorro. – É tanto peso preso no corpo que nenhum deles vai sair do rio... – comenta um alferes, visivelmente transtornado com a cena de afogamento. São momentos em que a tristeza e quase impossibilidade de socorro se misturam e quase tiram o ânimo de quem ainda pode fazer algo. Em alguns pontos do Corubal borbulhas tingidas de vermelho chamam a atenção. Na tropa já confinada na margem o horror age em campo aberto. Quem pensou já ter visto tudo por aqui, vê algo que nunca sonhou.

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– Crocodilos...! – Murmura o mesmo alferes. É a estação da seca, que vai de Novembro a Maio, e o rio é um caudal para um olhar turístico, prazeroso. Mas é também a época em que alguns crocodilos do Bijagós gostam de subir o rio. De botas, espingarda, capacete, bornal, ração, granadas, pistola e outras quinquilharias bélicas, cada militar atirado no rio afundou imediatamente junto com equipamentos e viaturas. Na pacífica estação de raros acontecimentos, os crocodilos foram chamados para algo inusitado. E logo bagunçaram o leito do Corubal. A tropa só se dá conta da imensidão da tragédia quando a balsa, finalmente, atraca na margem... sem algumas dezenas de militares. Se os guerrilheiros do PAIGC estão por perto, e isso é quase certo, apenas observam o desespero da tropa inimiga. As baixas são muitas e o restante da tropa está sem ânimo. Conseguem retirar do rio alguns corpos, mas os oficiais já pedem socorro aéreo imediato para se evitar qualquer ataque do inimigo a uma tropa em frangalhos nesta área do Che-Che. – A pressa deles em fugir para longe de nós fez com que esquecessem pormenores de segurança na quantidade de homens e equipamentos a carregar na balsa – observa um guineense de meia idade, habituado a conduzir balsas, numa tabanca próxima ao acidente. – E... Ele não continua, porque outro homem, armado com metralhadora russa, diz: – Deixemos essa gente tratar dos seus mortos. Atenção aos helicópteros que vão chegar, não podem nem desconfiar que esta tabanca é um quartel!... –E ordenou: – Tu e mais duas mulheres aproximem-se, ajudem em alguma coisa, mesmo com a vossa canoa, eles têm de continuar a ignorar que estamos aqui! A região do Che-Che, com algumas tabancas de poucas cubatas, a montante de Bissau, está praticamente tomada pelos guerrilheiros e, agora, minada... mas, sob o olhar de quem conhece as picadas. Alguns soldados estão deitados na margem, não têm ânimo nem para olhar o rio que levou os seus camaradas de armas. Alguns, ainda apontam a espingarda para o meio do rio na pretensão de atirar num dos crocodilos, mas um dos oficiais aconselha-os a não ampliarem a tragédia. Um furriel de comunicações solicita a imediata presença de unidades do Alouette, o helicóptero turbinado de grande ajuda em operações de resgate.

Capítulo 4 – Ei, Mansur! – exclama Benjamim. – Cara, que ocê faz aqui? Benjamim e Maria estão realmente admirados com a presença do velho jangadeiro do Che-Che, que manca um pouco. – Deveria estar na pesca, agora, meu irmão velho... – comenta Maria. – Sim, minha irmã – diz, abraçando Maria. E logo Benjamim. – Sim, mas a pesca, hoje, foi dos crocodilos.

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É um homem de idade avançada. Ganha a vida a fazer a travessia do Corubal com uma jangada feita por ele mesmo, mas é também ferreiro quando cata metal largado pela tropa portuguesa, e então, faz a fornalha artesanal produzir faca, panela, o que aquela borra incandescente permitir ele faz. Ai, meu irmão velho. Quanto eu te devo de vida e de prazer..., diz ela para si mesma. Foi ele quem a levou, menina a olhar a vida e cheia de esperanças, para os Bijagós e lá fez a conversação que tiraria a irmã mais nova da miséria e outros problemas africanos. – Um dia eu volto, meu irmão velho, e virei para ajudar! – prometeu. No dia em que a viu de novo, no braço de Benjamim, ele nem quis acreditar que a menina dos olhos grandes do oceano é mulher e é feliz. E toda a África era uma alegria só. Cantaram e bailaram durante dias numa celebração que só quem vive teluricamente tem direito. Mas aquela África não era só alegria, havia desconfianças pela sua ida ao Brasil antes das férias escolares... Assim, tão de repente e deixando o irmão velho do lado de cá do mar. Sim, mas Maria sabia agradecer, e o que o irmão velho fez não tinha paga, só tinha amor, bem querer. Agora, olha-o, e sabe que o vê feliz, por ter realizado o sonho de menina mais romântica do que ele. – O que ocê bebeu?! Ele encara a risada de Benjamim, triste. E o outro percebe que a coisa é séria. – Fala! – impacienta-se Maria. Ele suspira fundo e desenrola a língua: – Não gosto de ver morrer pessoas por um desastre natural, sabem. Olhem, os portugueses calcularam mal o peso a levar na jangada e a última virou para um lado e virou para outro, aí, cuspiu tropa nos dois lados. Foram ao fundo uns 50 soldados da tropa que estava em retirada daqui. E como crocodilo gosta de descansar no rio durante a seca, alguns soldados foram caçados lá no fundo. Ele leva a mão esquerda à batata da perna e Maria exclama: – Ai, nem me fales disso, irmão velho. Quase que um deles comeu tu inteirinho, não fosse o avô te puxar logo para terra...! Ele mostra a ferida a Benjamim. – Quase que um crocodilo me levou! – E a nossa tropa, viu? – Ah, sim, Benjamim. Viu mas não agiu. Tudo menos dar a entender que uma daquelas tabancas é quartel... Uma das cubatas tem até bandeirinha de Portugal, só para enganar! – Isso vai bater fundo na moral da tropa do Spínola, que ordenou a retirada às pressas... Mas, sabemos que não foi “às pressas”, mas um golpe para segurar o PAIGC lá em Conakry! Mas não contavam com um desastre tão grande assim... Hum, acho que os gina vão passar por aqui mais amiúde, agora! – diz Benjamim, em jeito de pensamento alto. – Ah!... – o irmão velho de Maria faz um gesto de desconsolo. – Ah, já ia esquecer: o Lec, que vocês conhecem como Idalécio, mandou dizer que está bem e comanda o núcleo de manutenção do PAIGC, lá em Conakry. Benjamim e Maria entreolham-se de tal maneira espantados com a notícia que assustam o homem. – Falei alguma coisa que não deveria? Só trouxe um recado! Recuperando-se do espanto, Maria diz: – Não, nada disso, irmão velho! É que esse Lec, quer dizer, Idalécio, esteve com a gente no Brasil e veio com a gente, mas quando desembarcamos em Bissau ele desapareceu e nunca mais tivemos notícia dele. – Eh, pensamos que a PIDE lhe tinha posto as algemas, assassinado, ou trancafiado o cara no Tarrafal! – comenta Benjamim. Mais aliviado, o outro fala quase a cantar: – Inda bem, inda bem. Olhem, o gajo tá vivinho e a fazer um bom trabalho para nós todos, conforme dizem outras pessoas. Ele é conhecido como brasuca. E outra informação: ele mandou dizer que o alemão Walter morreu de pneumonia lá no Brasil... Benjamim conhecia os problemas de respiração que incomodavam, e muito, o seu amigo alemão. – Até que ele aguentou muito tempo com aquele catarro imundo sempre a cortar a respiração!

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Parte Dois

Capítulo 5 O argelino Bem Bella e o tanzanês Julius Nyerere são dirigentes africanos que se envolvem também no apoio logístico e financeiro aos grupos que combatem a tropa portuguesa. Com eles mantém Cabral uma linha diplomática intensa, que se junta a partidos políticos e sindicatos de toda a Europa. A ação ideológica do cabo-verdeano transforma a Guerra Colonial numa questão de política de grande alcance e já há quem exija uma punição internacional e exemplar para Salazar e o Governo português. Os diplomatas salazaristas, já órfãos, pois Salazar é moribundo no hospital e Caetano apenas uma tênue luz naquela escuridão ideológica, percebem-se cada vez mais isolados no contexto da ONU. O cerco do turra agrônomo nos corredores diplomáticos tem um resultado altamente desfavorável a Portugal que parece não saber como trabalhar politicamente com a situação. Mas... Não é cómoda a situação de Amílcar Cabral. Também ele enfrenta tentativas de isolamento político e militar no seu meio operacional. – Parece que tenho de lutar em duas frentes ao mesmo tempo. Tenho sangue cabo-verdeano e guineense e posso defender os dois povos com a mesma integridade moral e política! – desabafou numa jornada de barco pelas ilhotas do Bijagós Alguns dirigentes não querem saber de unidade política entre povos, etnias distintas, preferem a resistência feita por cada povo em seu solo próprio. – Tu, camarada Amílcar Cabral, és filho de caboverdeano e nasceste em Cabo Verde, mas por teres mãe guineense achas que tens o direito de proclamar uma nação com bandeira única para os dois povos! Isso é estar cego diante das etnias que também se confrontam... Basta o sangue derramado contra os portugueses! Ou tu achas que existem poucos africanos do lado dos portugueses? Só continuam por aqui porque existe uma África que os ajuda, que bate picadas e os guia na nossa terra! É melhor parares com essa ilusão, porque me parece um suicídio o que estás a fazer... – comentara e alertara um velho companheiro das jornadas de Lisboa, outro amante do futebol que poderia ter ficado num grande clube e gozar plenamente a cidadania portuguesa. Mas, de braço dado com Cabral, preferiu a plena luta pela liberdade de ser africano na África. Mais intimamente, ele escuta outro comentário. – Vejo que há um cerco a ti e pode ter o gajo de Conakry como apoio. O que vejo, também, é que a PIDE já sabe deste caso e está na distância a aguardar o desfecho, pois, seja qual for esse desfecho, a nossa prisão ou a nossa morte, será favorável aos salazaristas... – diz, pela segunda vez, a sua companheira. Estão em Conakry e participam de várias reuniões, algumas delas enfadonhas pelos conteúdos repetitivos e longos discursos ideológicos entre fumaça de tabaco e cerveja. Amílcar Cabral gosta de conversar, mas não é do tipo intelectual masoquista. Sabemos que isto é assim, sabemos que temos de agir assim!, costuma rematar deste jeito as suas colocações.

Capítulo 5

1973. Enquanto o velho Salazar definha e, finalmente, em 1970, entrega o corpo à mortalha ideológica que o consagrou como um dos maiores tiranos da história ibérica e europeia, a guerrilha africanista prossegue a sua ação e encurrala de vez a tropa portuguesa em Cabo Verde e na Guiné. Em poucos anos, depois do que ficou conhecido como Desastre do Che-Che pelo histórico da tropa portuguesa, o PAIGC passou a dominar mais de três partes do território em disputa. No início de 1973, os guerrilheiros africanos dispõem de misseis terra-ar do tipo Strella, de fabrico soviético, e os pilotos do gina ficam de sobreaviso. Na messe do Comando da Zona Aérea de Cabo verde e Guiné, um encontro de especialistas prepara a defesa das aeronaves. – Senhores – pede a palavra um capitão de engenharia –, recebemos da PIDE material sobre o Strella, e o modelo que os turras têm podem operar com velocidade de até 500 metros por segundo para alvos até

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cerca de 4000 metros devido ao motor de propulsão que os russos introduziram e que não existia no modelo de 1968. Isto quer dizer que o FIAT gina está em desvantagem... – ... senhor – corta, com respeito, um alferes aviador –, podemos alterar a pintura da fuselagem e colocar material que dificulte a identificação térmica feita pelos misseis! – Muito bem, esse era um dos pormenores que queria conversar com todos. Muito bem, alferes. Vamos lá... – concorda o capitão que, pelo semblante, foi apanhado de surpresa ou não está habituado a parcerias.

Na roça, entre colinas, num terreno meio plano meio inclinado, uma casa térrea de quatro cómodos, que fora de um colono francês, Benjamim ouve o ronco dos gina e observa os voos de reconhecimento e os de ataque. Três dias antes, duas unidades de tropa comando entraram numa tabanca e arrasaram tudo o que fosse pessoa fora e dentro da cubatas. – Aqui não tem mais turra do PAIGC, tem comando e com comando manda Portugal! – vociferava um sargento após degolar um idoso e fazer daquela cabeça bola de futebol.

Do morro próximo, o brasuca preparava umas armadilhas de caça quando dois gina passaram rasando a tabanca e, ainda o ronco estava no ambiente, já a tropa comando cercava e assentava a destruição naquele lugar. Um erro de contrainformação levou os portugueses a pensarem que “Cabral e os seus turras terão encontro logístico na oitava tabanca”. Homens e mulheres foram trucidados pela máquina de guerra oleada por dados de uma inteligentzia em operação precária. Resultado? Um cenário macabro que servia de circo para psicopatas em delírio bélico. E perto, muito perto de Benjamim, uma base para lançamento de misseis acabara de ser instalada. – O riso criminoso dessa corja tem os dias contados! – murmurou, enquanto via guerrilheiros disfarçados de camponeses em suas tarefas de camuflagem. Ainda no meio do barulho de tiros e granadas observou uma coluna de fumo perto da casa. O corpo pareceu-lhe dilacerado por uma torrente d´agua gelada. O coração parou? Não sabia. Mas correu de tal maneira morro abaixo que chegou lá com a língua de fora. Perto da casa, Maria queimava material que não poderia mais utilizado. – Caaarraa!, pensei que tivesse sido bomba dos gina quando vi a fumaça! – disse, sem fôlego, diante do olhar assustado da sua fula. A seu lado está Maria, aterrorizada. Ao olhar a companheira lembrou: – Ah, a Mara, mulher do Tônio (hum... o casal se foi no horror daquele dia...), olha, bem, ela veio perguntar por que tu fugiste do Boé naquela idade. Eu não respondi, pois, não sabia o que responder. Nem sei. Algum segredo de família...?! – Eu recebi muito prazer em viver contigo, meu bem, mas também dei muito prazer a ti – diz ela, entre a gaiatice e a zombaria. – Ai, bem, nada de segredinhos agooorraa! Desembucha que agora quero saber. Ela senta sob uma árvore e ele faz o mesmo. – Durante as férias escolares o povo fula, e assim como outros povos da nossa África, e até o teu, meu n´gola, prepara meninos e meninas para vida... sem prazer! – Ai, o fanado... Ele fica indignado consigo mesmo. Mas, como é que eu esqueci?... – Então, cara, o teu irmão velho tirou a irmãzinha da cerimônia do fanado... – Sim, e tu gostou de viver a alegria que a tua fula tinha no corpo e na alma. Mas, e ainda hoje, ninguém pode saber que eu sou uma mulher fula que sente prazer. Aprendi tudo com as matriarcas do Bijagós... – ... as de Orango?! Ai, mas como é que às vezes eu não penso? Sim, claro, claríssimo, bem..., aquele peixe estava uma delícia, mas a sobremesa fula dura até hoje! Maria e Benjamim desatam uma risada que parecia retida há muito tempo, e ficam assim num abraço hilário por alguns segundos.

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Ainda na messe, o capitão e o alferes conversam após a reunião de comando. Refrescam a garganta com cerveja gelada. – Capitão, o senhor acha mesmo que teremos como fazer frente a essas armas russas do PAIGC? – Difícil dizer sim, mas vamos tentar – responde, e atira: – Mas, também sabemos que existe uma espécie de depuração dentro do PAIGC que pode eliminar alguns dos cabeças que queremos neutralizar. – Sim esse rumor circula entre os oficiais de Estado Maior, mas é só murmúrio... Ah, por falar em murmúrio: ouvi dizer que o gajo do pingalim está a escrever um livro só para contrariar a corja do Caetano e do Costa Gomes... – Meu caro alferes – o capitão fala baixo e olha de soslaio para a piscina do QG onde muitos oficiais se refrescam como se estivessem em Lisboa –, vamos devagar com esse andor que o santo é oco, hein!, e se você se dirige a mim para falar do nosso general Spínola com o termo gajo do pingalim é porque já sabe que ele está a par da movimentação dos oficiais em Lisboa e das cartas que já circulam em Bissau sobre o descontentamento da tropa... – Nem a PIDE sabe como parar as coisas. Do jeito que estão o Marcello Caetano vai ter que dançar conforme a nossa música, e está tão encurralado que o Thomaz já o avisou para nem pensar em demissão! E por aqui, nós também poderemos dançar a qualquer momento a última dança que o PAIGC irradiar, mesmo com o Amílcar Cabral em guerra com os seus generais da Guiné contrários à união com Cabo Verde! A poucos metros, oficiais do Estado Maior continuam a descansar os corpos e as mentes numa piscina que recebe os que estão de passagem, os que se juntam ao comando e os que, por acaso, têm algumas horas de gozo na alegria de estarem a um passo da peluda; e, outros ainda, que participam da tímida, mas importante ruptura hierárquica com o Poder centrado no Terreiro do Paço. – O vigoroso Portugal ultramarino e colonialista começa a perder o seu pilar que são as forças armadas e não a polícia secreta montada pelo Salazar. E tudo a partir daqui, desta Bissau que deveria ser a sua joia de estimação... – remata o capitão.

Capítulo 6 1973. Janeiro, madrugada do dia 20. Numa zona rural de Conakry, com sinal de cansaço no olhar, assim como a companheira, Amílcar Cabral manobra o carro Volkswagen e estaciona debaixo de um telheiro. Estão próximos à casa térrea naturalmente enfeitada com uma grande árvore, a mangueira que habitualmente dá sombra para algumas horas de leitura ou reflexão do grande dirigente. Cabral percebe que a sua vida está por um fio, mas precisa dar continuidade ao seu projeto de vida: ser e estar militante pela liberdade. – Podem matar-nos, mas não terão o gostinho de nos humilhar com a prisão e um julgamento interno. Podemos morrer, mas a batalha pela África livre é uma realidade que não pode ser desativada! – decidira ele horas antes. Alguns companheiros de primeira jornada revoltaram-se contra a ideia de uma África unida a partir de Cabo Verde e Guiné, têm-no agora como inimigo, quiçá, mais perigoso que os colonialistas que estupram, torturam e matam suas irmãs, suas mães, suas mulheres, suas filhas. Eles “pensam como os sobas sempre pensaram e agiram: viver em clãs e longe da civilização”, analisou numa das últimas reuniões. Um desaforo para os seus detratores que, então, o juraram de morte... Da escuridão alguns faróis de carro iluminaram a noite com foco no Volkswagen. – Amarrem o Amílcar! – alguém ordenou, atrás dos faróis. – São eles! – a companheira de Cabral logo reconhece a voz que ouvira tantas vezes discutir com Amílcar. O casal é cercado, mas Cabral resiste em ser amarrado como criminoso. – Não me amarrem! – grita, querendo se libertar da ofensa à sua dignidade. Na sua frente está o camarada guineense Inocêncio Kani. – Podes atirar, não vais levar-me amarrado! – grita Cabral de novo. Kani dispara e uma bala atinge o fígado. – Por que é que a liberdade não pode ser conversada? – quer saber, em meio à dor que sente. A sua companheira é arrastada para longe do local, mas vê o bárbaro operacional apontar a arma para a cabeça do companheiro. O seu grito é abafado pela metralhadora de Kani: uma rajada despeja algumas balas na cabeça do homem que se tornara bandeira da luta libertadora pela África. Guineenses ensandecidos cospem sangue na alma que os ensinou a respirar

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liberdade, e na inconsciência do mando de um poder temporário descem à profundeza do mal que só escuta o silêncio da destruição humana.

Ninguém é o que é na África sem saber de si, das raízes e da comunhão na fé de cada grupo. Não se está por aí pelo que parece que é, mas pela força do ser aqui! O guerreiro espiritual canta aqui a liberdade e a leva por aí...

J. C. Macedo – “Um Poema Para Amílcar Cabral”. Guimarães, 1973.

A mortalha do horror cobre a África em 20 de Janeiro de 1973 e um grito de angústia percorre uma humanidade perplexa.

Entre as colinas do Boé, dois dias depois. O irmão velho de Maria chega esbaforido na roça. – Ei, Maria. Ei! – grita. Ela e Benjamim estão do outro lado da casa. Dois helis Alouette sobrevoam um alvo a menos de mil metros de distância, ou prestam socorro. É o que o casal observa quando escutam aquela voz conhecida. – O que o cara faz aqui?! – assustou-se ele. Dão a volta na casa e encontram-no já sentado e à sombra de uma árvore. – Ai, meu irã..., vou buscar água fresca! – diz Maria e corre para o interior. Benjamim observa o rosto desconsolado de Mansur. Este cara não está assim por causa do cansaço da caminhada..., pensa. – Toma, beb´água! – escuta Maria, que passa ao irmão uma caneca de alumínio recolhida entre material largado na mata pela tropa portuguesa. Com o casal visivelmente perturbado na sua frente, Mansur desata a chorar e murmura a custo: – A nossa gente, guerrilheiros da Guiné!, mataram o camarada Amílcar Cabral, lá em Conakry... Maria e Benjamim não sabem se choram, se riem, ou se pegam naquele corpo desanimado e o sacodem para ver se aquela lenga-lenga é ou não alucinação de velho com os pés para a cova. – É, eu também fiquei assim quando soube! – diz, ainda balbuciando. – Ai, meu irã, meu irmão velho, mas quem fez isso, quem teve essa ousadia? – O nosso engenheiro da liberdade foi morto por uma rajada na cabeça. Quem puxou o gatilho? O camarada Kani. A perplexidade toma conta da irmã e de Benjamim. Sabiam que as dificuldades de entendimento entre comandantes da Praia e de Bissau eram graves, mas não se mata por diferenças ideológicas, conversa-se. – O grupo de Kani queria prender e julgar Cabral, mas ele recusou-se em ser humilhado e o Kani não teve nem piedade e desfez a cabeça do Cabral na frente da companheira. Sei que o presidente Touré, em Conakry, já prendeu o grupo do Kani e que vai ser julgado por essa barbaridade política. – Mas esse Kani não agiu a mando da PIDE e da tropa portuguesa para facilitar o caminho da resistência ao nosso combate? Mansur encara Maria e diz: – É o que pensamos, mas... E enquanto prensamos, a nossa batalha continua, pois, em uma semana as bases de misseis estarão operacionais e esses Aloette e esses FIAT gina vão ter a nossa resposta, mesmo que os portugueses não tenham a ver com a morte do nosso engenheiro da liberdade!

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Entre as tropas portuguesas, em Bissau, a notícia da morte de Amílcar Cabral não é uma bomba, o oficialato sabia das encrencas internas do PAIGC que podem neutralizar os esforços políticos de terrorismo contra as NT por parte de Amílcar Cabral, mas também sabia que a neutralização interna do turra engenheiro não vai parar o IN, pelo que todos, os da situação salazarista e os spinolistas descontentes, concluíram que iriam enfrentar combates mais intensos em Cabo Verde e na Guiné. Bissau, a capital e o QG da tropa portuguesa. – E agora? – Olá, capitão – cumprimenta o alferes. – E agora? Ah, pois... Tudo na mesma como no quartel d´Abrantes! – E a PIDE? – Quietinha, como se nem tivesse escutado a notícia de Conakry... – Ou seja, alferes: o problema fica sempre para a tropa! Ninguém gosta de sujar as mãos quando um acontecimento internacional se espalha como merda na ventoinha...

Nas colinas do Boé, o casal Maria e Benjamim observa Mansur entrar na mata e seguir o rumo que a batalha pela liberdade traça para as pessoas corajosas. Ele ergue os dois dedos de uma mão em forma de “V” e o casal responde com o mesmo sinal na esperança de uma vitória pela paz e a justiça. Os ginas já não passam pelas colinas tão rotineiramente como antes e até os helicópteros deixaram de aparecer. Os portugueses sabem que qualquer voo entre as colinas do Boé será um voo curto. Os nossos russos, como chamam os especialistas que foram na URSS aprender a operar com os misseis Strella, já estão a postos. Além do abraço do casal está uma África prenhe de si mesma e pronta para se mostrar ao mundo com todas as suas cores e falas. Não é uma nova tropicália, como querem os intelectuais brancos do Brasil racista e aliados do salazarismo católico, é uma África livre que já se insinua na saudade de Amílcar Cabral que paira e espraia pelo continente e pelo mundo pluralista e dialogante.

NOTAS ILUSTRAÇÕES – Fotos publicamente exibidas na Web e em diversos portais de informação, corporativos e pessoais. AHMED SÈKOU TOURÉ – Presidente da Guiné-Conakry, que ali implantou um governo ao estilo soviético, com dominação de partido político único e fuzilamento ou encarceramento de quaisquer tipos de opositores. Conakry serviu de base (e ligação com Dakar) para diversos grupos montarem suas ações contra as tropas portuguesas aquarteladas em Angola [MPLA], S. Tomé e Príncipe [MLSTP], Moçambique [FRELIMO], Guiné e Cabo Verde [PAIGC]. AMÍLCAR CABRAL – Obreiro intelectual do PAIGC e o mais conhecido dirigente africanista da época anti-colonial, morto em 20 de Janeiro de 1973 em Conakry, por diferenças geopolíticas em processo e ruptura no próprio PAIGC, e não pela polícia política de Salazar. ANTÓNIO SPÍNOLA – “Oficial general das Forças Armadas portugueses, nomeado comandante e governador-geral para a Guiné enquanto brigadeiro, onde percebeu que a denominada Guerra Colonial era já um caso perdido para Portugal. Além de ter respeitado as etnias africanas, fez diplomacia secreta com Léopold Senghor, presidente do Senegal, mas também comandou a Operação Mar Verde invadindo Conakry. Convidado por Marcello Caetano para um cargo ministerial, em 1973, rejeitou em nome das recusas salazaristas em rever a política colonial. Afastado do comando, publicou em 1974, antes de 25 de Abril, o livro ´Portugal e o Futuro´, considerado um ataque ao salazarismo-caetanismo. Foi um militar essencialmente anti-comunista e tentou, em 1975, um contra-golpe em Lisboa para minar a democracia que se instalava em Portugal, mas teve que se refugiar na Espanha. Como a memória é curta, veio a ser premiado com o posto de marechal anos depois... Alguns dos militares e políticos da ´sua´ intentona refugiaram-se no Brasil, como já tinham feito muitos agentes da PIDE” [J. C. Macedo. Coimbra, 1975]. CUBATA – Cabana de pau e colmo. FANADO – Cerimónia contra o prazer sexual, para meninos e meninas, que pode durar, dependendo das tribos, semanas ou vários meses, e envolve a transmissão de uma série de conhecimentos dos mais velhos para os mais novos. O ritual termina com a realização da excisão feminina e da circuncisão masculina. Normalmente, o fanado decorre em período de férias escolares, entre Julho e Setembro. GRUMETE – Elementos da elite cabo-verdeana que acenavam com apoio aos nacionalistas, mas não desdenhavam a possibilidade de ocupar cargos na administração colonial portuguesa. GUERRA COLONIAL – “Termo utilizado para designar o período de 1961 a 1974 no qual as tropas portuguesas tiveram que se confrontar com as tropas de guerrilheiros nacionalistas em todas as possessões coloniais, ou ultramarinas, sob seu controle político e administrativo desde a época das Descobertas Marítimas, iniciadas no Século XV pela costa africana. O golpe militar de oficiais descontentes com os rumos de Portugal, ação que começou em Bissau e que teve nos spinolistas Otelo e Eanes importantes apoios, derrubou o regime salazarista-caetanista [Salazar e seu substituto Marcello Caetano] e a PIDE, em 25 de Abril de 1974, pondo fim a esse período de confrontações e, logo, tiveram início os processos de independência sovietizada de Angola, S. Tomé e Príncipe, Guiné,

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Cabo Verde e Moçambique, dando origem a uma fuga de portugueses e africanos para Lisboa, movimento que ficou conhecido como os retornados da descolonização com marcar psicológicas tão graves quanto as causadas pela própria Guerra Colonial” [J. C. Macedo. Coimbra, 1975]. IGREJISTAS – Termo utilizado pelo poeta J. C. Macedo para se referir aos dirigentes das igrejas institucionalizadas como Poder político-administrativo e muitas vezes parte do Poder no esforço das guerras. IN – Abreviatura de Inimigo. NATO – ou OTAN, Organização do Tratado Atlântico Norte, constituída para defender militarmente os interesses ocidentais-cristãos diante do PACTO DE VARSÓVIA, o tratado afim constituído pela URSS para defender seus próprios interesses após a partilha internacional feita entre a potências vencedoras da II GG. N´GOLA – Antigo reino africano que originou Angola. Dessa região saíram os principais negros-ferreiros para operarem minas no Brasil, a partir da mina da Família Sardinha no Cerro Berassucaba, no final do Século XVI. ONU – Organização das Nações Unidas. PAIGC – Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde. PELUDA – Expressão utilizada pela tropa miliciana portuguesa para designar os últimos meses de serviço militar obrigatório, quando os soldados deixavam crescer a barba e o cabelo, e desleixavam mesmo o serviço nessa época. PICADAS – Estradas de terra no meio da floresta e entre rios. PIDE – Polícia Internacional de Defesa do Estado. Polícia secreta portuguesa que o Governo salazarista transformou numa máquina de torturar e matar contra opositores do seu regime católico-fascista. Foram agentes da PIDE que arquitetaram uma emboscada e assassinaram, em Espanha, o general Humberto Delgado e sua secretária brasileira. O mando político foi de Salazar. NT – Abreviatura de Nossas Tropas. RDA – República Democrática Alemã. “RDA foi parte do bloco da URSS onde muitos grupos e personalidades do mundo tiveram apoio para estruturarem a resistência contra ditaduras fascistas em seus países, sem contudo questionarem a ditadura soviética, de igual modo violenta e sanguinária, também vigente na pseudo democracia alemã na cortina de ferro” [J. C. Macedo. Guimarães, 1981]. SALAZAR – António de Oliveira Salazar, primeiro-ministro de Portugal, que fez do país a sua casa e o quintal da Igreja católica, da qual era um servo qualificado. TABANCA - Aldeia TARRAFAL – “A penitenciária de Tarrafal sempre identificou os serviços de acondicionamento político de opositores com a tortura, e com a chegada dos opositores africanos e metropolitanos, a partir de 1961, o estabelecimento transformou-se em campo de concentraçãopara morte lenta, no pior estilo nazista. Uma nódoa, entre outras, na história política portuguesa” [J. C. Macedo. Coimbra, 1975]. Neste estabelecimento situado na Ilha do Sal, em Cabo Verde, estiveram encarcerados, entre 1936 e 1954, 357 anti-fascistas, na sua maioria portugueses e, depois da sua reabertura entre 1961 e 1974, foram aprisionados 227 militantes e combatentes dos movimentos africanos anti-coloniais de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde, quando morreram 36 presos. O campo foi fechado após o golpe de Estado de 25 de Abril de 1974, em Lisboa. TJIA – Turma de Jovens Intelectuais Anarquitas, fundada no norte de Portugal, com ações de panfletagem anti-fascista e anti-colonial nas regiões do Minho e Douro. TURRA – Expressão que entre os militares e políticos portugueses ligados ao regime salazarista designava pessoa africana.

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ARRASA QUARTEIRÃO

e ela surgiu tão poderosa e brilhante que foi chamada carinhosamente de arrasa quarteirão

Em Jeito De Introdução

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A certeza que temos é que vivemos. E, como costuma argumentar o poeta J. C. Macedo, entre o nascer e o morrer somos o que a natureza nos permitiu ser, mas podemos ser melhores, mais humanos... A verdade é que nem sempre vivemos, pois, na maioria dos casos somos objetos utilizados e reutilizados por meia dúzia de ricaços que detém a indústria de consumo do capitalismo global. Então, quando alguém ousa ser além de estar provoca rupturas nessa linha de montagem que se confronta com a civilização. É o caso da enfermeira-paraquedista, referência de Arrasa Quarteirão, este notável trabalho de J. C. Macedo, que mais uma vez se apresenta como mestre da literatura que mescla realidade e ficção. Arrasa Quarteirão é uma crítica contundente às políticas globalizantes de guerra e de cultura sob o ponto de vista de um humanismo crítico que pinça no filósofo Manuel Reis o ideário da liberdade que desperta na pessoa quando esta se conscientiza de si mesma e age em defesa do mundo. O ideário vivido profundamente pelo poeta J. C. Macedo e que o fez se confrontar com situações históricas e nelas tomar posições extremadas para salvaguardar a independência de ser ele mesmo. Reflexão sociopolítica e cultural, a novela Arrasa Quarteirão é uma aula sobre o mundo de consumismo belicista e objetualista em que vivemos e que raramente nos permite respirar em liberdade. Maria C. Arruda Brasil, 2012.

Parte 1 Capítulo Um A jovem enfermeira, profundamente humanista e ligada ao encanto da pessoa que cresce por si mesma e se oferece ao mundo, quer sabe como a brutalidade bloqueia o pensamento e cria a necessidade bélica e social da confrontação estupidamente institucionalizada. Ela sente-se uma história a ser contada, mas precisa sentir-se livre o suficiente para iniciar esse diálogo com o mundo. – O mundo. É verdade: preciso conhecer o mundo e, nessa revelação, mostrar-me apta a estar com ele, ser parte dele! – decidiu no último dia de um acampamento de cinco dias na Serra do Gerês, no norte português. Agora, enquanto deixa a clínica de Hanne, sua mãe, respira o ar denso de uma Londres que teima em se dizer very british e nunca europeia. Filha de um português e de uma irlandesa, a jovem absorve o espírito sempre rebelde da pessoa celta, mas não se deixa prender a uma liberdade tão localizada, quer estar no mundo para aprender a ser mundo, mulher livre e universal, mas não mundana. São cinco da tarde e ela não quer ir com as amigas para uma boate, prefere um pub para saborear um irish coffee e respirar à distância a poesia da sua Dublin. No fim da manhã recebera o brevet de paraquedista pelo curso intensivo de verão que fizera para, como enfermeira, poder chegar aos núcleos duros da barbaridade bélica e ajudar civis inocentes. Não sei se o divino é o que dizem. Sei que eu vejo o mundo como ele é e que o mundo só mudará se eu ousar estar com ele e é isto que faz o meu eu ser humano e divino! Não fez discurso, mas recitou uns versinhos para dizer quem era aquela jovem mulher no meio de meia dúzia de homens. Após um momento de silêncio embaraçoso, escutou os aplausos de colegas e instrutores. Com o belo rosto na cor de tomate, a loura de olhos azuis sorriu, e foi apenas isso que precisou fazer para ser abraçada e beijada por todos. Entre o corpo de instrução, uma instrutora sorriu e pediu a palavra: – Esta informação deveria ser dada pessoalmente e não na vossa festa de graduação, mas aqui vai: a senhorita, que é enfermeira e estuda Medicina, está convidada a integrar um grupo internacional de enfermeirasparaquedistas voluntárias e participar de uma campanha no Afeganistão e no Iraque – disse. A jovem não

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conteve a emoção e nem teve tempo para se manifestar, porque os colegas lançaram-na no ar duas vezes para festejar a notícia. Sabiam que ela se tinha inscrito como voluntária, mas não era fácil receber um convite tão depressa. A notícia encheu todos de orgulho: – A nossa turma vai ter uma representante no mundo! – exclamou um dos novos paraquedistas. Ao entrar no pub e pedir a sua bebida preferida, a emoção de ser agora enfermeira-paraquedista e poder ir ao mundo para ajudar a humanidade está à flor da pele. Numa pequena área reservada do pub está instalada uma lan house só para clientes e é para lá que a jovem se dirige. – Já tenho o brevet e fui convidada para um grupo internacional. Parto em uma semana para o Afeganistão na minha primeira missão. Desejame sorte, meu pai! – digitou a mensagem. A sua emoção é maior agora. Sempre quis seguir a rota intelectual e humanista do pai, e poeta já o é, falta-lhe a tarimba das ações, mas o primeiro passo está dado.

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Capítulo Dois – Ei, que fazes aqui tão solitária! A jovem acaba de sinalizar o fim da sua participação no computador, que será paga com a nota de consumo no pub, e olha na direção daquela voz. – Mãe... As duas abraçam-se. Ela sabe que sempre pode encontrar a mãe por aqui uma hora depois de ela fechar o consultório. – Doutora Hanne, o de sempre? – indaga o garçon com a certeza do pedido. – Não, o mesmo que a minha filha, Jack! O garçon, um amigo dublinense, solta um Oh!, mas anota o pedido de mais um irish coffee. – Por um momento, a minha Jo merece que deixe o meu irish whiskey para festejar o seu brevet de paraquedista com a sua bebida... – Hum, mas não deixas de beber o teu whiskey! – sorri a jovem. Hanne afaga o rosto da filha com as duas mãos. Um gesto característico. Olha-a com profundidade e atira: – Foste hoje no meu trabalho. O que te preocupa, Jo? Ela engole em seco e fica corada. Disfarça o impossível enquanto afasta graciosamente os cabelos longos, e diz: – Vou dentro de uma semana para o teatro da guerra. Fui convidada por um grupo internacional que já faz serviços de apoio médico no Oriente Médio. Primeira jornada: Afeganistão. –Jo...! Hanne parece não acreditar. Tem conseguido mantê-la interessada no curso de Medicina a tal ponto que ela quis cursar Enfermagem, como auxiliar, para não ser apenas uma médica com diploma debaixo do braço. Fecha os olhos para as atividades em que ela é um espelho do pai: edição de jornais acadêmicos, poesia. – Jo, minha filha, essa coisa de catalogares e digitalizares os papéis do teu pai João deixou-te alucinada. Não podes olhar tudo de forma desesperada, como se fosses a única pessoa indicada para resolver os males que estão por aí... Uh!, tal pai e tal filha! Jo sorri e abraça a mãe, carinhosa. – É o caminho que escolhi. Tu deixaste tudo isso para trás para vivenciares um cristianismo quase fundamentalista aguardando por um deus salvador. Eu prefiro agir. Sim, agir como age o meu pai, mesmo quando parece que o mundo vai cair em nossas cabeças e nada mais há para fazer. Mãe querida, tu fizeste a opção de largar a liberdade e a aventura da tradição celta para te esconderes num altar de imagens. Eu prefiro ser a celta de sangue lusitano que vai a luta pelos seus ideais! Hanne acaricia o rosto da filha. Não adianta eu ficar zangada. Ela é filha da aventura que começou no Gerês, e tem o sangue de um pai que vive nos limites de tudo e pelos confins do mundo, pensa.

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Gerês, 1983. O parque de campismo está no meio da serra, perto das ruinas de edificações celtas tomadas pelos romanos vindos da Galícia. Por entre as ruinas até aos marcos miliares do império romano, João leva-a pela mão até perto de uma pequena cascata. – Shhiiuuuu..., Hanne – Ele pede silêncio. Ela vê vários cavalos que bebericam calmamente na lagoazinha formada por dois caudais d´água. São lindos e selvagens. Uma égua tem problemas na pata esquerda traseira. – Olha, foi mordida! – Ah, sim. Quando se distraem os lobos atacam na noite e podem até matar – diz João, em voz baixa. Ele tira uma máquina fotográfica da bolsa que carrega no ombro e registra o momento bucólico: oito animais saciam a sede entre a bruma que começa a levantar para se dissipar. Sete horas da manhã. A manhã está fria e Hanne abraça João por trás para se proteger. Ambos trajam vestes pesadas, luvas e botas forradas, além de gorros de lã grossa feitos artesanalmente pelas famílias serranas. A poucos metros está uma parte da bacia d´água que abastece a hidrelétrica e esconde a velha aldeia de Vilarinho das Furnas, um dos marcos comunitários da região serrana desta parte do norte de Portugal. – O dia está a nascer muito lindo, mas gelado! – diz ela. Ele escuta-a, mas vê uma cria de tenra idade que se aproxima da água e fotografa. – É difícil esta imagem. É a primeira vez que capto um potro por aqui... – revela. Está satisfeito. Recolhe a máquina, depois de tirar o zoom, e abraça Hanne. A noite foi longa na barraca, o fogo ardendo até se apagar no terreiro em frente. Perto, o Citroen 2 Cavalos que Hanne dirige. No verão há muitos jovens, casais e muita cantoria. Mas no inverno rigoroso, com o perigo da neve, só a aventura leva alguém a armar barraca no Gerês. Com o retorno de Hanne para a Irlanda agendado para antes do final do ano, João preferiu aceitar a aventura de uns dias no frio serrano. Quando vou ter a celta no meu abraço de novo?, questionou-se. Antes de chegarem ao local ainda tiveram que parar o 2C e aguentar perguntas de dois soldados da GNR que queriam, a todo o custo, saber o porquê daquela aventura. Como os jovens tinham toda a documentação em ordem não tiveram como detê-los. E tomem muito cuidado!, escutaram. Já na vila puderam verificar, também ali, as mudanças que dois fatores sociopolíticos da abrilada militar de 1974 introduziram em Portugal: a descolonização com a leva de retornados que se espalhou pela nação e o próprio comportamento daqueles soldados, então mais policiais urbanos do que paramilitares em busca de gente contrária ao salazarismo. Mas, naquele momento os jovens pensavam unicamente em beber as almas que os induzia à aventura. Depois de uma reunião havida na região na Lixa, onde o padre Mário de Oliveira fizera missas pela liberdade, e onde ela perguntara se o Gerês era mesmo uma serra mágica, ambos sabiam que o Gerês seria o leito em que se entregariam. Leram poesias escritas, dele para ela, e dela para ele. João conhecia muito bem a serra, mas Hanne só ouvira falar do verão de prazeres que o Gerês oferece a quem gosta de viver. O tempo encarregou-se, então, de criar as oportunidades para juntar uma juventude sedenta de aventura no meio de uma nação que recomeçava a se expressar livremente. Eu quero este gajo para mim, mas mais do que ele eu quero o sangue dele em mim!, decidira Hanne quando se conheceram nos encontros socioculturais direcionados a políticos na clandestinidade entre a regiões de Douro e Minho, ainda o salazarismo ditava a sorte portuguesa e africana. Uma produção independente?..., questionou ele quando soube dos propósitos dela. Sim, mas com uma condição: a criança ficará contigo em Dublin e aprenderá a língua portuguesa!, disse. O propósito ficou no ar por alguns anos. E, precisamente dez anos depois, num reencontro amoroso em Vigo e que se estendeu ao Porto pelos caminhos de ferro, decidiram subir ao Gerês para gerarem uma criança celtibérica perto do ninho d´águia. Numa tarde invernosa, exalando sexualidade à flor da pele e brilhando nos olhares, uma irlandesa de longos cabelos entre o ruivo e o loiro, quase espiga de milho, e grandes olhos azuis, e um português de barba longa com maresia nos olhos, subiram para o parque de campismo com uma certeza: trato feito. Com uma lentidão naturalíssima que os faz parte da paisagem os animais afastam-se e tomam as trilhas da serra. Um enlevo para os olhos da humanidade cada vez mais distante da natureza que lhe é chão. O potro é o último da fila que desaparece na mata. – O dia está mais lindo, agora! É o quarto dia de acampamento e o casal vivencia todos os lugares que pode. – Com esse teu olhar de mil maresias tudo é lindo, Hanne – quase canta ele. – Sinto que já tenho gente dentro de mim... – ...Hum! O abraço que os une não é o selo de uma parceria, é o amor que se funde em duas almas que se aventuraram pelo prazer de viverem a liberdade de decidirem por si mesmas. O início do inverno de 1983 é rigoroso, mas Hanne e João parecem estar na primavera de flores silvestres, como que a anunciarem um ano novo que lhes trará outro mundo.

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– Jo, meu amor – continua Hanne. O pub já está cheio e barulhento. – O problema é que vais para o meio da guerra e aqueles loucos matam-se até por palavras mal pronunciadas! Jo dá uma risada e emenda: – E aqui, entre nós, não é o mesmo? Ora, quase todas as guerras têm o Ocidente como motor de arranque. – Mais irish coffee? – pergunta o garçon. E escuta de Hanne: – Não. Eu quero é irish whiskey, já terminou a doce comemoração! Jack dá uma risada e vai buscar a garrafa assinada pela cliente e substituída a cada semana. Não é tão bom como o whiskey do meu avô, mas é irlandês!, escreveu certa vez num rótulo. Jo, mal se contendo de riso, adverte: – Mãe... – Ah, é melhores beberes um gole do meu. Filha, tu tens que ficar forte para aturar aquela gente! As duas olham-se e caem na gargalhada. Hanne sabe que para ter Jo por perto, ou sempre em comunicação, precisa tratá-la como melhor amiga, ou fica sem notícias.

Parte 2 Capítulo Três Uma organização não-governamental (ong) dirige o grupo de apoio médico em que Jo foi integrada. O quartel-general está em Cabul, capital afegã. Na ajuda humanitária existe de tudo. Embora não desleixe os cuidados pessoais, Jo veste macacão de enfermagem, botas e boina sobre o cabelo apanhado em rabo de cavalo. Para alguns dos veteranos e algumas veteranas a questão primeira é quem vai montar a irlandesa e não quem vai ajudá-la a entender este processo de trabalho. – Esta gente só pensa em sexo?! – desabafou, um pouco enfurecida, para uma médica, dois dias depois. – Aqui, vive-se a barbaridade: a prostituição corre solta e os ocidentais ajudam a acirrar os ânimos entres as tribos locais e as dissidências religiosas, porque cada uma quer é abocanhar o poder. Nós somos, às vezes... imprescindíveis! – ouviu dela o que já constatara. Cabul, foco de todas as tribos. Cabul, eixo de todas as rotas e de todos os interesses comerciais entre o Oriente e o Ocidente. Cabul, uma bomba relógio. Com os fundamentalistas do grupo Talibã apeados do poder e ben Laden refugiado nas montanhas, algumas tribos tentam controlar o poder com o apoio do Ocidente, particularmente com a garantia dos soldados norte-americanos e ingleses, mas o resultado é uma guerra civil diante da logística ocidental que só prevê o seu interesse: abrir caminho para uma nova colonização sob as vestes de uma democratização que o conceito de vida tribal não aceita. Para o povo afegão mergulhado na tradição nômade conta somente a hierarquia do esforço familiar através do homem forte da comunidade; para os militares ocidentais estar aqui é fazer girar a economia criada pela máquina de guerra. As ong´s de ajuda humanitária são um mal necessário e estão, por isso, debaixo de vigilância. – Humanitarismo franco no meio da guerra é uma desgraça pior! – escuta Jo por onde passa. – A não ser que a paraquedista irlandesa abra as asas e caia no meio colo! – habituou-se a escutar em tão pouco tempo no teatro da guerra. – Por aqui, o policiamento militar favorece todo o tipo de corrupção. Só não se metem com o Islam, e mesmo assim... – alerta a médica ao ver Jo aflita com um grupo de mulheres violentamente afastado dos corpos trucidados por uma mulher-bomba. – Vem por aqui, Jo. A irlandesa segue os passos da médica que se afasta do mercado a céu aberto onde a mulher se desintegrou. A médica é uma mulher feita, de cerca de quarenta anos, cinco deles vividos no meio de guerras, e mais do que uma vez teve que pegar em arma para se defender. – Jo, eu sou de Vigo, na Galícia, por isso sinto que temos algo em comum, uma vez que és irlandesa... ou devo dizer celta?

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– As duas: irlandesa e celta – diz. Pressentira que a médica lhe abrira sutilmente algumas passagens no acampamento médico e agora sabe por que isso aconteceu. – Só tenho que agradecer a compreensão, Isabel, percebi que em alguns momentos no acampamento havia a tua mão... – Bem, olhe..., tome muito cuidado com o seu laptop (e nem pensar em perder ou esquecer o fone celular...), nunca deixe coisas as suas no acampamento. Tudo o que é essencial coloque na sua mochila de trabalho – adverte Isabel, que retira da sua mochila um pequeno computador. – O meu laptop... – exclama Jo. – Só não levaram porque vi a cena. O conselho, Jo, é só um: toda a mulher, aqui, tem que ter o cuidado de não deixar pistas da sua intimidade, porque logo vão circular imagens entre os telefones celulares, uma espécie de rádio barraca que a soldadesca forma para encurralar mulheres, e até mulheres militares e policiais. – Ah, conversei com meu pai, ontem, queria colocá-lo a par desta barbaridade, e sabes o que ele respondeu? – Volta para casa, filhota! Jo dá uma risada. – Não. Ele respeita as minhas opções profissionais e as minhas aventuras. Citou o seguinte: “...ahi vão aniquilando tribus seculares, desmantelando villas, assolando searas e vinhas, apossam se, por fim, da santa cidade de Cabul...”. É das Cartas de Inglaterra, do Eça de Queiroz, que já naquele tempo retratava a destruição feita pelo colonialismo britânico, que continuou por aqui com os soviéticos, e agora, com os norte-americanos e seus aliados, ou seja, novamente os britânicos. Nada mudou. – Eh, Jo, nada mudou – concorda a médica. – Nem vai mudar enquanto os povos daqui não se entenderem e construírem a sua própria identidade nacional. As duas olham o ciclo de montanhas que cerca Cabul, eixo estratégico de rotas de comércio e escoamento de gás e petróleo. É fácil perceber o que os ocidentais querem de Cabul... – Por isso – remata Isabel –, o rio Cabul continua sendo um leito de morte e sangue a unir os pensamentos criminosos que chefiam as fábricas de armamento dos países que se dizem livres e democráticos!

Capítulo Quatro Nem só de horrores é feita uma guerra. Na volta de uma viagem a Teerã, capital iraniana, só possível pelos contatos diplomáticos de Isabel, e onde Jo queria ler alguns documentos interessantes acerca do Império Persa, a jovem percebe diferenças. – A alma dos povos asiáticos é essencialmente fraternal e apesar de dominada pelo patriarcalismo os muçulmanos xiitas conseguem dialogar com cristãos e árabes, embora não tolerem a soberba mística dos judeus. – Uh, diálogo! Diálogo, minha querida... O problema é que os americanos e os europeus só conhecem a guerra como meio de contato entre os outros povos, e depois, as igrejas dominam patriarcalmente... – responde a médica. – Ainda a questão do deus único. Isabel abana a cabeça a expressar negatividade. Algo que lhe dói. – Esse deus único não existia quando os povos asiáticos, africanos e europeus negociavam mercadorias nestas rotas milenares, as guerras eram contendas mercantis, tanto em Cabul como em Damasco, e agora, Jo, vendem-nos o consumismo em forma de guerra absoluta e em nome de um deus único... bem, de ambos os lados, é certo, mas o foco está em Washington e London, porque a URSS se foi e Moscou patina como potência militar numa Rússia quase obsoleta e dominada pela corrupção. – Ai, Isabel... – Olha, às vezes eu acho que o nosso trabalho só é útil para os marmanjos da Cruz Vermelha e da ONU ganharem dinheiro, ou ganharem postos governamentais, porque efetivamente o humanitarismo é uma palavra oca nos teatros da guerra! – Começo a concordar contigo, Isabel! – diz Jo com muito custo. Dói-lhe dizer que o humanitarismo é uma palavra oca quando tantos povos precisam de ajuda. Perto do acampamento que é o quartel-general da ong médica, alguns jovens soldados americanos praticam street dance num ritmo hip que os diferencia no cenário. – Olha, o Bronx mudou-se para Cabul – observa Isabel. Jo olha a cena e sorri. – Eh, são hip, mas nunca serão hop... A médica olha de soslaio para ela como eu a querer uma explicação mais aberta. – Eu, que não sou Freud, explico: eles são hip porque assim se diferenciam, mas apenas se diferenciam na quebrada do som e no exibicionismo de tecnologia e roupas. Querem aparecer, ser parte da cena urbana

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sem rupturas: filhinhos e filhinhas sem mesada... Só seriam hip e hop se na diferença estivessem num processo revolucionário em curso, estivessem contra as guerras, que aqui e ali, ajudam a fazer! Com uma expressão de notória incredulidade, Isabel parece querer saber mais. Com um sorriso maroto, Jo salta do Jeep, adianta-se e pratica alguns movimentos com o grupo que logo interage com ela. Isabel assiste e bate palmas no ritmo. Ouvem-se, longínquas, rajadas de metralhadora que não alteram a animação do grupo. Os movimentos rítmicos de Jo são graciosos mesmo quando executados com maior velocidade e exigindo disciplina mental e física. – Valeu, irmã, conta com estes manos enquanto estiveres por aqui! – disse um dos soldados. Após os cumprimentos, Jo seguiu para o Jeep de braço dado com Isabel, e esta, ainda perplexa com o seu achado. – A diferença, Isabel, é que eles são apenas hip porque estão a passar o tempo, mas se os mandarem matar alguém do outro lado do rio Cabul lá vão eles. Cumprem ordens. É a cultura urbana dos objetos direcionados. Já na cultura hip-hop existe uma reação positiva contra a negatividade da guerra, da hierarquia absolutista e do consumismo. O hip-hop é pacifismo e é criatividade com muito amor. – Menina, mas tu és uma joia valiosa! Vou ter que ouvir mais vezes hip-hop... Ah, o teu pai, que também anda lá pela América do Sul deve saber: além dos EUA e da China, os países que mais vendem armas são Israel e Brasil! – Eu sei – diz Jo – e, sabes?, fazem isso como se estivessem a vender latas de leite em pó enquanto vão na ONU discursar sobre liberdade e democracia... Mas o pior é que isso transformou os EUA num país que vive das guerras, que vive de esmagar outros povos... democraticamente! Criticam os islâmicos fundamentalistas, mas fazem exatamente o mesmo que eles em nome da tecnologia e da economia de mercado. No entanto, o paradoxo: os poderosos podem fabricar e ter bombas atômicas e os terceiromundistas apenas estilingues e armas de pressão! – Hasta la vista, baby! – é a máxima de todas as guerras ocidentais depois das bombas atômicas lançadas contra o Japão e a até agora intragável derrota dos EUA no Vietnam. E isso com uma cultura própria. Vê bem, Jo: fazem as guerras e dramatizam-nas para as venderem em latinhas culturais ao mundo que dominam... E é verdade: “os produtos de Hollywood são tão culturalmente letais quanto as bombas lançadas pelos militares a serviço da White House ou da 10 Downing Street”, como escreveu o teu pai João naquele livrinho de anotações cineclubistas que me deste. – Ah, ah, ah... – a irlandesa dá uma gargalhada e diz: – Li um texto do filósofo Manuel Reis em que ele ensina ser urgente a edificação de uma Nova Ordem Mundial a começar pelas decisões comunitárias e não pelas cúpulas políticas. E é verdade, porque não existe capitalismo global sem guerras globalmente estabelecidas para resguardar os interesses das superpotências! E o consumismo capitalista é o mesmo às margens do rio Cabul ou nas periferias do Rio de Janeiro e de Lisboa, Barcelona ou México, New York ou Moscou: a cultura enlatada produzida pelo Ocidente faz da cada pessoa uma escrava fora do pico da pirâmide capitalista. Umas servem inocentemente, outras deixam andar a coisa, e outras, poucas, atrevemse a questionar o sistema que amordaça e aniquila a humanidade. – Hum, quer dizer que nós somos hip-hop...?! – Ai... ah, ah, ah... – Jo dá risada da tirada de Isabel. – Sim, nós somos filhas de Sócrates, porque dialogamos para libertar! – Se os americanos nos escutam vão querer enviar-nos ao Tribunal Penal Internacional, que eles se recusam a aceitar! Antes do acampamento existe uma barreira e elas identificam-se à guarda de plantão para logo estacionarem o Jeep numa área livre próxima às barracas. – Ah, aqui estão elas! – ouvem. Elas param entre as barracas e observam colegas em franca animação. – Vocês vão animar a turma de lá e nós aqui só no radinho de pilha, hein! – escutam uma enfermeira. Que continua: – Puxa, caras, tudo bem que ganharam a confiança e a proteção daquela turma, mas nós também temos direito ao show da irlandesa... – remata ela a exibir imagens que já correm entre os fones celulares. – Bem que eu te avisei – diz Isabel –, olha só como todo o mundo já visualizou o teu show na outra banda do rio. Vês o perigo de esquecer esse tipo de aparelhinho na barraca?... Se apanham uma coisinha dessas vão fazer de ti gato e sapato. – Caramba, o meu pai também me avisou! – lembra Jo. – Não sei qual guerra é a pior, se a das bombas ou a do bullying! Jo encara a turma e brinca ao fazer uma proposta: – Tá bem, som na caixa aí que eu vou mostrar para vocês o que é street dance.

Capítulo Cinco 85

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– Com a neutralização da monarquia, as políticas dos clãs afegãos orientam-se localmente, e a etnia majoritária, que é a dos pashtus, conquistou até agora muito espaço através de milícias próprias. Jo escuta atentamente a palestra de um professor afegão sobre a história recente e se dá conta que os conflitos internos são tão melindrosos quanto os criados com a invasão ocidental para derrubar os talibãs e seu fundamentalismo isolacionista. A certa altura quere saber: – Que esforços são feitos para criar uma unidade nacional juntando esses clãs que, isolados, não têm poder? – Acredito, senhorita – responde o professor em bom inglês e com voz firme –, que só acontecerá quando o Afeganistão for somente afegão e sem intervenção externa! Pelo sorriso do professor ela percebe que ele não pode ir além do que foi dito. Ele esteve preso durante os últimos anos da invasão soviética e a experiência mostrou-lhe que as palavras têm um peso político, mesmo num monólogo. – Quando se está num cenário de guerras, tribais ou coloniais, ou ambas, a palavra é uma bomba sempre pronta a explodir... – sussurrou ele, minutos depois. E ela agradeceu o que entendeu como cuidado com as perguntas. Isso a fez lembrar de imediato um memorial do próprio pai: “Falar sobre hierarquias significa dizer sim ou não, e eu sempre digo não. Por isso, no Q-G de Coimbra, em 1976, apanhei 28 dias prisão, mas poderia ter saído a meio, quando o Ramalho Eanes, então chefe do Estado Maior do Exército em visita ao presídio militar passou pela minha cela..., mas optei por fingir que dormia. Tudo, menos esmola da hipocrisia hierárquica!” Um dos muitos escritos que ela guarda no Baú do pai João entre romances, cartas e poesias, crítica de cinema e teatro. Ninguém vai pôr a bota nos meus pensamentos!, repete ela mentalmente a decisão que tomara quando, enfim, o pai a colocou a par da sua vida de militante sociocultural e político-militar. Foi uma meia hora diferente no acampamento. O professor soube dizer o que precisava ser dito para uma plateia que não queria mais do que isso. E amanhã terminou com os preparativos para uma jornada nas montanhas de ajuda a caravanas perdidas no meio de tiroteio e bombardeamentos. O inicio da tarde de mais um dia na linha de montanhas mostra a região afegã das minúsculas comunidades que sobrevivem como nômades na periferia urbana. Um oásis humano que tenta ficar longe dos interesses que fazem a guerra e desperdiçam a vida. Camelos e cabras formam um comboio que serpenteia no ritmo do deserto de tribo em tribo, de negócio em negócio. Uma paisagem eternamente asiática. A deixar um rastro de estrondo sonoro, um avião militar acaba de cruzar o espaço a altitude média numa manobra que pode ser considerada criminosa com tantos civis e animais por perto. Cortando as montanhas a uma velocidade estonteante caças dos EUA miram o pequeno comboio e logo algumas bombas cruzam o espaço. O barulho é ensurdecedor. Pessoas e animais voam estraçalhados. De um cerro próximo, Jo olha horrorizada para o estrago feito pelas bombas. – Mas... era um comboio de mercadores! – grita Isabel, ainda deitada sobre arbustos ralos. – E tem crianças lá! Olhem... – observa Jo, que aponta para o local. Algumas pessoas sobreviveram ao ataque e correm para longe. Entre elas algumas crianças. Entre os destroços, humanos e animais, vários tipos de mercadoria, de alimentos sólidos a objetos domésticos. – Foi erro! – grita o operador de rádio da turma médica em comunicação com o Q-G. – Atingiram um comboio de mercadores com algumas crianças! – continua ele. Com as aeronaves ainda sobrevoando a região, a equipe corre para o local para tentar prestar os primeiros socorros. – Estes americanos continuam os atos criminosos feitos pelos soviéticos enlouquecidos, aqui mesmo! – desabafa um médico. – Que diabos estamos nós a fazer aqui?!... – remata. – Você achava alguma diferença entre uns e outros? – questiona Isabel. O médico olha-a e abana a cabeça: – Pior é que eu achava que havia diferença, sim! – Ora, ora, meu caro Karl – diz ela –, a sorte é que você não é Marx e não está aqui para debater ideologias! Há dois anos entre os médicos que desconhecem fronteiras físicas e políticas, Karl é oriundo de Berlin e considerado um cirurgião de primeira linha. O que faço eu numa cidade como Berlin quando o mundo precisa de mim?, questionara-se. Com outro médico alemão alistou-se como voluntário e foi para o Iraque, depois a Palestina, e agora, no Afeganistão, é um profissional atarefado e é um homem apaixonado por Isabel. – Trata bem dele – diz Jo para Isabel –, olha que ele só tem olhos para ti. Até parece que nunca viveu com mulher... – Será... As duas se olham com aquele será a pairar entre elas e continuam na azáfama dos primeiros socorros aos sobreviventes. A poucos metros, Karl coordena a remoção de duas crianças mutiladas pelas bombas. – Parecem os adolescentes palestinos que os judeus mutilam na Faixa de Gaza para nunca mais acionarem os

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estilingues contra os tanques de guerra...! – resmunga. O seu semblante mostra um homem cansado de tanta violência contra gente indefesa. Cabul, seis horas da manhã. Jo sente o aroma de café vindo dos lados da cozinha de campanha e é para lá que se dirige. Passa por uma barraca de onde sai Karl e ambos param para escutar um comunicado via rádio. – As forças da NATO e a ONU lamentam o erro que levou a bombardear um comboio de mercadores... – escutam, mas Karl desliga o aparelho. – Já não consigo ouvir tanta barbaridade – diz para uma Jo que encontra nele mais uma pessoa deslocada na guerra absurda que os rodeia. – Será que estamos no lugar certo? – Não sei, minha jovem, não sei. Mas sei que não vou ficar aqui para me entender! Jo percebe nele a determinação que pode dar fim à tarefa humanitária de que se incumbira. Observa que Karl é um cinquentão cheio de encantos para uma mulher madura como Isabel, e ela, toda direitinha e disciplinada. Ele é homem atlético e bonito, e ao mesmo tempo um profissional que não larga o serviço no meio para cair na farra, bem o tipo dela, pensa. – Você faz análise? Jo acorda do devaneio com o rosto dele quase colado no dela. – Ai, perdão... – Eu não preciso de psicólogos na minha vida, eu trato de mim! – diz ele, zombeteiro e num inglês carregado a puxar para o germânico. – Ai, perdão... Perdão! – ela quer um buraco para desaparecer. Mas, como é que ele descobriu?..., pensa. – Talvez não precise de análise, doutor Karl, mas talvez precise ganhar coragem para dizer a alguém o que sente... – atira, com o rosto em fogo pela ousadia. Karl olha para ela meio desassossegado. – O que você sabe da vida, minha jovem? – O suficiente para falar o que falei! – Minha jovem, vi que é muito amiga de Isabel e isso é muito bom para você. Olhe, poderia ficar zangado com a sua indiscrição, mas não, gostei até do seu puxão d´orelha, sabe. Entretanto, estou a pensar seriamente em voltar para Berlin e ser professor no campo da Medicina, e não sei, agora, se terei a felicidade de um sim de Isabel. – Só vai saber se perguntar, doutor Karl! Estão tão envolvidos na conversa que não notam a chegada de Isabel. – Eu ouvi, crianças... O que é que Karl tanto tem para me dizer? – Ih... – Jo percebe que já está a mais no espaço. – Ele explica para ti, minha querida. Vou beber aquele café turco que só se bebe aqui. – Põe um pouco de whiskey que não piora! – diz Karl para tirar a tensão do momento, e puxa Isabel por braço. – Karl... Ainda a caminho da cozinha de campanha Jo vê, de soslaio, que o casal se afasta para conversar. Será que virei cupido sem querer?...

Duas semanas depois, entre atentados com rajadas de metralhadora, granadas de mão, e homens e mulheres que se explodem por todo o lado, Jo é chamada ao comando. – Senhorita, precisamos reforçar a nossa unidade em Herat e temos muito trabalho a fazer no campo de refugiados – informa o médico responsável. – Vamos deslocá-la para lá, com mais duas enfermeiras... Ah! – exclama. – Aí estão elas... Jo é apresentada às duas, que já conhecia, e as três ouvem: – Partem em comboio militar da ONU dentro de uma hora! Karl e Isabel estão no deserto e voltam daqui a dois dias. Não vou poder falar com eles agora, só quando chegar a Herat..., está desanimada por não poder se despedir do casal amigo. Horas depois, Jo avista a imponente cidadela que Alexandre (o grande) chamou de Artacoana, quando era um centro vinícola de grande importância. Se a velha Cabul é a capital de todas as tribos, Herat é a capital de todas as comunidades religiosas afegãs e um centro econômico e cultural onde algumas mulheres revelam o rosto para se afirmarem islâmicas e universais. A devastação está um pouco por todo o lado, mas Herat surge aos olhos de Jo como a joia afegã que nenhum fanático destruirá. – Aqui estão as vinhas da ira de todos os deuses que se incomodam com a paz da alma humana – diz. – Foi por isso que os talibãs também quiseram acabar com esta cidade? – quer saber uma das enfermeiras. – Não sei – responde Jo. Os olhos na paisagem de uma cidade no meio do deserto. – Aqui é solo sagrado para muita gente da Ásia, não apenas para afegãos. O imperador Alexandre encantou-se com a cultura que encontrou em Herat, mas acho que gostou mais do vinho e das mulheres!

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O remate leva a uma risada geral no caminhão. As três estão entre boinas azuis e membros de outras ong´s médicas e paramédicas que seguem para locais diferentes. Embora a inglesa seja geral, outras línguas são faladas no caminhão, como a francesa, a portuguesa e a alemã. Herat é para Jo uma oportunidade de conhecer melhor a cultura regional. Todos os momentos livres que tem, mesmo que poucos, ela dedica-os a pesquisar a vida afegã. – Não sei por que não consigo falar com Isabel – diz quase um mês depois a uma das enfermeiras da sua equipe. Não obtém resposta, porque a colega também tentou o mesmo e não conseguiu. O que terá acontecido? Será que ela e Karl juntaram os trapinhos e foram viver em Berlin?, questiona-se agora. No campo de refugiados de Herat ela encontra uma médica indiana que também é pesquisadora de história, mas já envolvida com a questão política e religiosa de amigas afegãs dispostas a lutarem pela liberdade de expressão. – Ah, eu li sobre a RAWA... – Isso – confirma a indiana. – E essa Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão batalhou contra os soviéticos e contra os talibãs, por isso é que muitas das mulheres do grupo tiveram que buscar exílio político em países vizinhos, mas continuaram as ações que, agora, chegam com mais rapidez à sociedade afegã. – Eh, alguma coisa tem que mudar para que a mulher desta parte da Ásia tenha o direito de ser ela mesma, mas... – ... mas... – Olha, o que vejo é que a batalha delas depende da própria sociedade e só vão ter espaço quando os clãs patriarcais derem lugar a uma nação de diversidade cultural e social. A mulher europeia demorou tanto tempo para conquistar o seu lugar... – Eu sei Jo, eu sei – diz a indiana num quase desabafo. – Não penses que a Índia é diferente do Afeganistão quando se trata de liberdade feminina! As conversas entre as duas levam Jo a outras descobertas. A indiana parece uma enciclopédia ambulante. – Às vezes, amiga, parece que estou a ouvir o meu pai quando falas de tantos assuntos com essa sabedoria! – revelou no final de uma tarde em que se deliciaram com um café brasileiro preparado por uma família que viveu muitos anos em Foz de Iguaçu e cujos amigos ainda enviam aquela preciosidade. E soube, então, que a Questão OVNI é mais antiga do que imaginava. Nunca pensei que os textos antigos da Índia tivessem referências diretas a objetos voadores não identificados e que os escritos descrevem como vimanas, e ela ficou deveras encantada, de tal sorte que se lembrou de uma batalha de naves aéreas na Alemanha do século dezesseis registrada por artistas da época. A médica segue viagem para a Índia em breve e Jo pensou, então, aproveitar a oportunidade para conhecer os escritos em Delhi. Dois dias depois, e ainda sem conseguir contato com Isabel, ou com Karl, ela obtém licença de uma semana para realizar a viagem com a amiga indiana. Num comboio de caminhões com alimentos e produtos farmacêuticos, as duas deixam Herat em direção a Cabul onde, a correr, terão de embarcar imediatamente. Jo olha uma Herat que aos poucos desaparece de vista, mas que ela tem plenamente no seu imaginário poético.

* London. O potente Mercedes-Benz esportivo atravessa um cruzamento no centro londrino em alta velocidade. Quem dirige o veículo parece ter perdido o controle e ele bate violentamente numa boca d´água e capota para logo se espatifar contra o muro perto de um pub e um ponto de ônibus. Em pouco tempo, sob um cordão de isolamento policial, bombeiros retiram das ferragens do carro uma mulher de meia idade, desanimada e ensanguentada. – Estava só no carro! – diz o chefe da equipe de resgate para um policial. – Bebida...? – Só vamos saber depois, sargento, porque no carro não vimos vasilhame. – E ela? O bombeiro olha para o sargento e dispara: – Pensei que essa pergunta deveria ser a primeira! O sargento dá de ombros e retoma: – E ela? – Hum, uma blockbuster!

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Cai a noite na London primaveril, mas fria, quando o sargento chega perto da mulher e percebe o porquê daquela expressão do bombeiro. – Realmente, ela é blockbuster! E há quanto tempo eu não ouvia essa palavrinha dos aviadores americanos... – diz, enquanto dá uma palmada nas costas do bombeiro. *

Delhi, aquela que os mongóis quiseram como capital e onde Mughal Shah Jahan mandou erigir Masjid-i Jahan-Numa, a mesquita Jama Masjid, com a mesma fé no amor com que imaginou e mandou erigir o Taj Mahal. A amiga indiana leva Jo a conhecer Jama Masjid para ela entender o quanto de antiguidade têm algumas informações historiográficas. Mas é na casa de um colecionador de obras raras que Jo se encanta com manuscritos numa exibidos publicamente. – É inacreditável que o Ocidente não conheça toda esta cultura que se liga, até, aos velhos celtas da linhagem lam que tiveram de buscar no Oriente um refúgio pacífico e na Índia contribuíram para esta cultura fantástica! – Foi por isso que trouxe você aqui, Jo – revela a indiana. – Você vem da linhagem celta irlandesa e possui sangue celtibero. – Sim – diz ela, realmente encantada –, os seguidores do Lam (que é ´cordeiro´, logo, da linha de vida pacífica e pacificadora) abriram as portas para uma cultura de paz entre os povos, e dizia-se que os celtas ainda se comunicavam com outros povos de maneira inteligente, ou mental... – É verdade – concorda o colecionador. É um homem de bem com a vida, como mostram as suas vestes riquíssimas, o anel com uma preciosa safira e o relógio de ouro made in Suiss. – Ah, não se impressione com os meus trajes e o que uso, penduricalhos que nada valem diante de toda esta história que nos rodeia, mas penduricalhos que abrem portas políticas nesta Índia de muitos estágios sociais – diz. E, sem cerimônias continua: – A minha amiga avisou-me que traria uma jovem celta. Hum, e estou encantado. Você faz jus às deusas irlandesas! – Agradecida, em nome de todas elas! – Visitei a Irlanda alguns anos atrás e gostei do que vi, mas não gostei de saber que pouca coisa sobrou do espólio cultural celta... – É verdade. E acredito que o senhor tem mais material sobre os celtas que os museus e bibliotecas irlandesas, ou a minha amiga não me traria até esta casa! –Sim, sim. Entre documentos religiosos indianos sobre naves antiquíssimas e raros documentos sobre os celtas, Jo redescobre-se investigadora cultural. Em dois dias de visitas e conversas apaixona-se por Delhi e, num e-mail para o pai, escreve: O que li nos escritos sagrados indianos mostrou-me uma correlação de dados, primeiro, sobre a aventura celta no mundo, segundo, sobre o conhecimento dos antigos acerca de naves espaciais que agora chamamos ovni, mas que, aqui, dizem vimanas. É inacreditável como tudo se relaciona através de documentos e como é fácil verificar que o mundo está a ser enganado pelas igrejas e pelos poderes políticos numa eterna vontade de estar poder entre elites enquanto os povos criam as riquezas que sustentam essas elites. Do outro lado das ondas hertzianas, em espaço sul-americano, um pai, atarefado com a edição de mais um livro sobre os bastidores da Imagem Especializada na comunicação visual, e um pouco nervoso com uma notícia recente, lê e responde:

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É tudo como tinha explicado: querem que continuemos em sagrada ignorância, mesmo quando lemos que nos enganam nas suas próprias fontes. Bom, filhota, falaremos disso depois. Acabo de receber e-mail sobre a Hanne. Perdeu o controle do carro e foi contra o muro de um pub e, creio eu, depois de tomar a sua dose de irish whiskey no pub predileto. Teve alguns arranhões e está pronta para outra, a madame. Podes embarcar de Delhi para London, hoje? Os teus avós já estão por lá.

90 No seu laptop há um sinal de nova mensagem. Ora, ele nunca responde imediatamente..., recorda Jo. – Pai...?! – exclama, espantada. A notícia deixa-a zonza. Tem algumas dificuldades para entender os comportamentos da mãe, mas... mãe é mãe. Do celular informa o pai que vai tentar embarcar no primeiro avião para Inglaterra. Há uma loja de turismo no hotel e quando se aproxima do balcão de atendimento vê que também é possível fazer reserva de voos. Ali mesmo adquire a passagem para um voo que sai de Delhi em quatro horas. – E então?... – Ah, minha amiga... – Jo abraça a médica indiana. Havia ligado para ela antes de deixar o quarto do hotel. – O meu pai acredita que ela se espatifou depois de ter bebido no pub, como faz todos os fins de tarde! E deve ter sido isso... O Mercedes-Benz dela é automático, mas não conhece o caminho de casa! – Foi só um susto, então?! – Não será isso que a vai afastar do irish whiskey, eu sei, e o mundo também sabe! Ela é a dublinense que o Joyce deveria ter conhecido para completar as suas crônicas urbanas... – responde Jo, com elegante ironia.

Parte 3 Capítulo Seis A grande cidade que o músico-poeta Caetano chama de Sampa é o eixo de uma sociedade multirracial feita de imigração e de emigração ao longo de quinhentos anos. Como aves em busca de regiões para formarem os seus ninhais, pessoas de todas as culturas pousaram na Sam Paulo dos Campu de Piratin e aqui ajudaram a erguer um Brasil de todas as cores e falares. Habituado ao trato historiográfico desta Sampa, o pai de Jo é o que ela designa como luso-brasileiro perdido no tempo. Perdido, porque quando acredita que acabou uma pesquisa, ele tem de começar outra com os dados deixados de lado na anterior. E sente-se brasileiro. Quando viaja, gosta de respirar o espaço brasileiro entre o aeroporto e a residência nos confins (ainda verduscos, como diz carregando no português) da grande metrópole. Ainda respira a odisseia de Affonso Sardinha - o Velho, pesquisa que retomou no Rio de Janeiro, em 1989, depois de ter lido esse nome nos Papeis do Brasil num monte de coisas na Torre do Tombo, em 1975. É impossível perceber o Brasil de hoje sem conhecer o que levou colonizadores como o Sardinha a assentarem aquela precária economia liberal, entra a Piratininga e Buenos Aires com ida a Asunción, ao longo do Piabiyu guarani, depois que o Bacharel de Cananeia mandou construir o Porto das Naus nas bordas da Serra do Mar, lembra ele parte do conteúdo das palestras que faz sobre o assunto e no qual inclui o resgate historiográfico do engenheiro-militar José Custódio de Sá e Faria e da ação iluminista de Luiz António de Souza Botelho e Mourão, o quarto morgado de Matheus e capitão-general de São Paulo, que retomou a mineração de ferro no Cerro Berasucaba à qual dera início Affonso Sardinha e logo depois o fidalgo e governador-geral Francisco de Souza. E pouca gente sabe disto porque existe[m] muito[s]

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phd(euses) por aí e os manuais escolares desconhecem o Brasil histórico, remata com os olhos no último e-mail da filha... A mãe está bem e, como dizes, a madame está pronta para outra. Já encomendou outro Mercedes-Benz, mas prometeu nunca dirigir depois do pub das cinco (...???). PS: ela ouviu o bombeiro chamá-la de blockbuster. Ainda se acha...

Ele solta uma gargalhada gostosa diante do comentário da filha. Sabe que não é fácil lidar com essa Hanne católica e isolada, dedicada ao consumismo de bens de luxo, bem diferente daquela Hanne em batalha pela liberdade do todo humano e que com ele foi ao Gerês por puro amor e ali geraram algo com os mesmos sangues. Agora, a bela dondoca arrasa os olhares de muitos marmanjos embora continue só e entre a sua clínica e o pub da esquina. Hanne é uma mulher muito bonita e nem a meia idade a fez perder a pose. Mas, o irish whiskey não perdoa... A dublinense vai ter que moderar na dose. Fica de olho, filhota. A resposta de João mostra um relacionamento muito distanciado com Hanne e que só encontra ligação na existência de Jo. Para ele, a irlandesa, farta de promessas libertadoras e de reuniões e mais reuniões clandestinas, resolveu abrir uma toca no catolicismo e lá se enfiou para curtir uma vida solitária. Agora, ela é parte do cool urbano, como identificou Jo, porque todos sabem quem é e qual o ritmo em que faz a vida rotineira. Sim, a bela e espalhafatosa Hanne deu lugar a uma Hanne agendada em si mesma. Entretanto, João está no meio de uma discussão sobre a geopolítica de conteúdos e dá a sua interpretação via e-mail: Já sabemos que o capitalismo se desloca pela via do consumismo, mas age sempre com duas ao mesmo tempo para segurar as pontas operacionais, ou seja, a cultura enlatada para a ingenuidade popular e a intelectualidade engajada (e, aqui, também a comunicação social e o igrejismo) e o fomento de guerras regionais para acomodar o ciclo eternizado da produção de armamento. Então, falar de guerra cultural entre o Oriente e o Ocidente é um erro, porque o que há é um colonialismo político-militar que varre as sociedades invadidas e onde o Ocidente garante, também através da ONU, rotas específicas para gás e petróleo. E logo outra questão de Maria C. Arruda, já habituada a não perder pitada nas entrelinhas tão íntimas a João. É o político e o cineclubista falando de si, da filhota e do mundo? Ela mesma dera início à discussão sobre o tema. Maria é uma das mais atuantes colaboradoras do grupo de debates Noética. Entre o seu trabalho como microempresária têxtil, serigrafista, e as aulas que ministra sobre Filosofia no sul brasileiro, encontra tempo para uma dedicação plena ao grupo com análises profundas a conteúdos oriundos de Centro de Estudos do Humanismo Crítico, baseado em Guimarães, onde residem os fundadores, o filósofo Manuel Reis e a professora Lillian. No departamento latino-americano do CEHC ela é, com o professor Carlos Firmino, do interior paulista, o elo para as discussões e a edição de livros com circulação restrita com o apoio de Valentina Ljubstchenko.

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Si, chiquita, y otras cositas mas... Brinca ele na carta digital. Sabe que a vida de Maria é a de uma intelectual e empresária cinquentona muito ligada à cultura dos pampas, e que não despreza a aventura de fazer algo novo a cada instante, por si e com os outros. E lê: Muito bem, pá, a verdade é que hoje, mais do que gás e petróleo, as superpotências precisam de água potável, então, a água já passou a ser o produto mais cobiçado e, é claro, os terceiro-mundistas asiáticos, africanos e sul-americanos, sob a mira de caças teleguiados e micro bombas atômicas, material fartamente utilizado no Afeganistão e no Iraque... e ainda dizem que têm armas... pacíficas, e querem impedir outros países de se armarem para defesa própria! A tua filha Jo, que agora vê de perto essa conjuntura político-militar e financeira, já deve estar se fartando de tanta mentira e tanta hipocrisia em torno de ações humanitárias! Bah, até eu estou farta só de ouvir falar... E ele confirma: Sim, é verdade. E ela nos lê em cópia, pelo que logo vai responder a tudo isto com a sua experiência de ocidental no mundo asiático. Ah, gostei da tua coordenação no livro Pessoas & Humanidade, que o CEHC e a Edicon vão publicar. Maria parece estar certa de que o caminho trilhado pelos grupos sob a batuta de Manuel Reis é o mais correto, e vai direta ao assunto: Sim, foi de um fôlego só. A propósito, li a tua perspectiva sobre As Culturas Em Confronto Consumista: Ou Uma Política De Guerras Camufladas e, parece-me, é por aí o para novas avaliações acerca da geopolítica de conteúdos, como filósofo Reis já vem apontando há muito. Aliás, gostei de ler no editorial de uma revista setorial a tua expressão “o problema do Brasil é o próprio Brasil”. Nada mais claro e inequívoco. E aumento: o problema da Terra é a Humanidade que não a enxerga como estrada de paz e amor! Durante cerca de uma hora os dois debatem on-line o assunto, e enquanto ele o faz com cópia para Jo, ela o faz com cópia para diversos grupos de debate integrados ao projeto Noética.

Capítulo Sete Hanne está inteira. Em seu amplo apartamento no centro londrino e entre as 12 cruzes que sinalizam o último percurso da Rainha Leonor, perto de Stony Stratford, a médica ainda sente dores nas costas, mas recupera-se muito bem. Foi obrigada a cancelar a sua agenda profissional por 4 dias e, por incômoda sugestão de um médico amigo, abster-se também por 4 dias de qualquer bebida alcoólica. Tarefa difícil, ela mesma achou. Sentada numa cadeira de balanço e com um fofo gato siamês a seus pés, Hanne é a mulher que pressente os 60 e se irrita calada, prefere que o grito se expanda na fluidez de um líquido forte. Dois anos antes, aos 57, ouviu Jo alertar: – Mãe, eu já te vi cancelares consulta por causa da bebida. É hora de parar para pensares em ti. E eu sei que foste tu quem quis uma vida isolada de tudo e de todos,

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apesar do teu refúgio diário na abadia, pela manhã, e no pub, no fim da tarde. E acredito que teria sido melhor teres optado por ficar no rancho do avô e da avó, lá em Dublin, ora... lá terias o conforto dos teus irmãos, e também é para lá que vou mais vezes... tu sabes... Agora, o que não está certo é fazeres desta London cheia de sons e cores o teu refúgio diante da vida que já parece querer fugir também desses olhos tão lindos! – Cada pessoa na toca que escolheu... – respondeu. E nem foi bem uma resposta, mas um balbuciar necessário em forma de resposta, que Jo interpretou como o mais forte sinal de uma decadência que não é física, mas moral. E foi o que repetiu para João naquela mesma noite num e-mail cheio de pavor. Ela perdeu o amor pela vida quando percebeu que a liberdade, que já lhe custara a adolescência, não seria uma realidade tão fácil de concretizar. Trocou a vida pelo cajado católico fundamentalista e agora é uma sombra da Hanne que amei e com a qual gerei uma Jo que é (e ainda bem) tão diferente dela pelo amor que doa à própria vida. Poderia ter tocado uma vida andarilha, como eu faço, reconhecer o mundo em cada pessoa diferente que se conhece. Mas não, a sua opção foi cair na decadência lenta e fatal. Filha, quando perdemos o amor próprio perdemos a possibilidade de amar. Hanne é hoje uma morta-viva que transpira irish whiskey até na oração que faz na abadia!, leu ela a resposta do pai na manhã seguinte. E sabia o quanto João sentia aquela perda. Uma mulher inteligente e bonita que vive no poço da morte lenta. Os longos anos de apoio à guerrilha católico-nacionalista irlandesa fizeram-na mercenária ideológica, não a política consciente e católica celta, mas a mulher em liberdade que não soube aferir em si a liberdade de viver e, por isso, perdeu o controle. Também por isso, como cruz a carregar de joelhos, escolheu a City of London como refúgio, ouvira dele anos antes. Sabia que o pai tinha razão, que ele vivera um processo idêntico e que para se libertar teve que cortar dolorosamente amarras políticas, e só políticas, porque ideologicamente é o mesmo anarquista de sempre e com o amor à flor da pele. A sala de estar é tão ampla quanto o banheiro no apartamento de Hanne. Uma casa sem sala de estar ampla e banheiro onde se possa flutuar entre fragrâncias não é uma casa, é um buraco!, ouviu Hanne de um João habituado às velhas habitações do norte português, principalmente a casa de um bisavô onde gostava de ficar no verão e com quem aprendera a ler os jornais de comércio e a fazer palavras cruzadas. Se escolho a Old Albion para minha casa, o lugar terá sala e banheiros amplos..., decidira ela. As outras partes do apartamento são modestas, mas nem repara, gosta de se espraiar naqueles dois cómodos. É como estar no abraço de um amor que nunca se esquece!, revelou certa vez para uma Jo apanhada de surpresa e que só bem mais tarde conseguiu entender a escolha. Uma sala e um banheiro do tamanho da poesia que nos abraça!, leu entre versos soltos de João, escritos na Serra do Gerês. Sobre a lareira, pequena e elegante, pequenos vasos com flores campestres e uma grande foto emoldurada. A paisagem preferida de Hanne. Aquela foto fez Jo se perguntar inúmeras vezes por que um casal se separa quando a imagem do velho amor não se apaga... Naquele preto e branco, no contraste com um fundo serrano, Hanne e João são o amor. A única paisagem que ela decidiu guardar. My life was my youth!, está escrito numa minúscula placa de bronze na base da moldura. Uma frase que registrara em sua mente quando decidira cursar Medicina e esquecer a família, a Irlanda, e tudo o que havia feito antes. Às segundas e sábados, uma faxineira arruma a casa por inteiro, e nesses dias Hanne hospeda-se no centro de Dublin e vira uma saudosista joyciana pelas e ruas praças locais para acabar num pub junto ao River Liffey. Levanta-se, ainda sente um pouco de dor na coluna. Gotas grossa de chuva desfazem-se com força na vidraça. Dirige-se a uma escrivaninha perto da porta envidraçada da varanda e abre a segunda gaveta pequena, no meio de 6 maiores. Sobre panos de lã, uma Automatic Colt Pistol .380, mais conhecida por 9 mm Short, presente de João e comprada no contrabando minho-galaico na fronteira do Gerês, e uma Smith & Wesson que fora de seu pai. João gostava de fazer tiro ao alvo com a ACP, uma arma infalível, recorda. Enquanto observa as armas escuta a campainha e logo uma chave a girar na fechadura... – Mãe... Jo entra no apartamento, tira a capa e põe o guarda-chuva no vaso de bronze. – Mãe... – Estou na sala, entra! – avisa Hanne, enquanto fecha a gaveta e avança para a cozinha. Um cheiro de café exala pelo apartamento. – Vem para cá, Jo. – Uau, mãe... – Jo está feliz por ver a mãe calma e circulando. – Que cheiro bom! – Eh, um irish coffee cai muito bem neste tempinho de chuva e frio. E temos bolo de cenoura para acompanhar. – Ela faz a mistura que gostam, e mais a filha. Ambas cultivam uma mania: comer na cozinha. Foram educadas pelos pais e avós no rancho a sempre fazerem as refeições em família junto do fogo. Só em aniversários e fim d´ano é que preparamos a mesa da sala, ouviam o pai e avô revelar para amigos e visitas. A velha tradição celta de bem receber começa pelo fogo da cozinha, sabem e prestigiam.

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– Estás com bom aspecto! – elogia Jo, deveras impressionada com a rápida melhora da mãe. – Estou a seguir à risca o que um médico decente receitou para uma médica maluca. – Maluca mesmo! – exclama Jo. – Fora aquela palavrinha mágica... blockbuster, o que aconteceu mais naquele momento? – Ai... blockbuster...! Como eu gostei de ouvir aquele homem dizer isso com os olhos nas minhas pernas e querendo meter a mão no meu peito... – Mãe... – Tenho quase 60, mas gosto de ser elogiada! – Mãe... Poderias aproveitar essa energia para conquistares alguém. Viver com alguém nos 60... – e enfrenta o olhar de Hanne –, sim, viver com alguém nos 59 é ter um amparo, um abraço amigo, quem sabe... apaixonado! – Quem viveu o que eu vivi sabe que não se revive um amor apaixonado. E eu não sou puta social para querer um amparo de macho! – Mãe... – Mesmo que convivendo com frases fortes dela há muito tempo, Jo acha-as desnecessárias. E repreende Hanne quando pode. – Olhe aqui, filhota (como diz o outro, lá)... – ... o outro lá é meu pai! – Tá. Só eu sei o que fazer da minha vida. Amo-te de mais, Jo, para me prender a repreensões bobas numa sociedade que nos agride a todo o instante, e sei que não representas essa sociedade, de jeito nenhum! O que eu quero e o que eu vou fazer da minha vida nem tu saberás... Com o olhar fixo na mãe, Jo vê que aquela quietude no apartamento pode ser um sinal de tempestade. – Mãe, tu não vais abandonar o ritmo que o médico determinou para a tua recuperação... – Ora, ora, filha! Se eu quisesse fazer alguma coisa do tipo blockbuster, até para fugir ao social cool que nos rodeia, metia uma bala na ACP e pronto, adeus Hanne! – diz, quase resmungando. O que acende uma luzinha em Jo. Em várias situações, nos acampamentos afegãos e iraquianos, aprendeu a reconhecer a pessoa suicida pelo olhar vago, niilista, que se evidencia entre frases curtas e de efeito panfletário. O belo olhar de Hanne já não tem o brilho de antes, mas é belo, apesar das sombras íntimas que só quem a conhece detecta. Jo sabe que Hanne arquiteta algo na sua engenharia existencial, pensa num fim instantâneo, repensa-o, mas abandona a ideia. É ainda uma mulher forte e vai viver enquanto puder reviver na fotografia da lareira a sua adolescência de amor, diz para si. Ela lembra que desde que a mãe adquiriu o apartamento o mobiliário foi desenhado milímetro por milímetro. A cadeira de balanço é o vértice (e pode ser o vórtice) que me liga à fotografia e à escrivaninha, ouvira de mãe quando inauguraram o apartamento. As gavetinhas centrais da escrivaninha, pensa. A reflexão é acompanhada por uma Hanne curiosa, mas quieta. – Em que pensas tu? – quer saber. A constatação é nata, porque Jo não consegue esconder nada dela. – Ainda tens aquelas armas na escrivaninha, mãe? – o questionamento de Jo é direto. E vê que Hanne abana a cabeça positivamente. Que estupidez a minha! Se ela falou na arma é porque a tem..., repudia-se Jo. Saboreiam o irish coffee com pedaços de bolo de cenoura e continuam a conversa, que logo se prende com a retomada dos trabalhos de Jo na ong que presta serviços humanitários.

Capítulo Oito As frentes de assistência médica, na África, dão o que fazer para algumas ong´s especializadas neste tipo de serviço. – Temos escritório em Cartum, mas precisamos de uma equipe experimentada na região de Darfur, aquela mesma onde as janjawid (que são milícias governamentais) praticaram atos violentíssimos contra populações indefesas desde que a sharia (como sabem é a lei islâmica) foi implantada no Sudan... – ... e qual é o nível de segurança? – pergunta um médico jovem, num inglês cuja pronúncia denuncia a sua origem hispânica. – Bem, meu jovem, lá como em outros lugares em que atuamos o nível de segurança e zero é a mesma coisa! – responde a dirigente da ong, uma médica de meia idade e veterana de campanhas humanitárias. Ao lado do jovem médico, a enfermeira-paraquedista e estudante Jo. Estão em Trípoli, na Líbia, e partem para o Sudan duas semanas depois de ações consideradas calmas de reorganização hospitalar. Cartum.

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Jo deslumbra-se com a pujança cultural da região que abrigou os antigos reinados núbios. – Os reinados da Núbia foram considerados entrepostos comerciais de grande importância e, agora, que é o Sudan, o país é um manancial de matérias-primas cobiçadas pelos poderosos ocidentais. Mais ou menos como o Brasil, salvaguardando as proporções geográficas. Mas o Brasil teve uma colonização homogênea, uma colonização luso-católica de envergadura continental, como diz o meu pai, e o Sudan é um país africano em que predominam as etnias nômades que já foram submetidas à tirania britânica, cuja colonização deixou por aqui marcas políticas nas elites locais que detêm um poder entre divergências sociais e religiosas, o que determinou massacres como o de Darfur... – ... ei, Jo, mas tu és uma enciclopédia! – Ei, acorda Emanuel – responde ela, categórica, à exclamação do jovem médico. – Não se pode pretender dar apoio a um povo quando não se conhece a sua raiz sociocultural! – Sim – ele concorda, meio na defensiva –, sim, mas o mais importante é fazer chegar médicos e medicamentos! – Tá... Mas não esquece: a ação humanitária é incompatível com o ideal colonialista. Nós não somos a Cruz Vermelha a tapar buracos ideológicos depois que as superpotências lançam as suas blockbusters micro atômicas sobre países sem unidade política e administrativa e que querem dominar industrialmente...! – Tu és comunista? – Não, sou anarquista! Faço a minha vida com amor e não com ódio! A expressão do hispânico é de estupefação. E ela dá uma gargalhada. – Eu sei o que quero e estou aqui por decisão própria, não para fugir ao tédio urbano de Dublin ou London, Buenos Aires ou Madrid, ó Emanuel! – diz Jo a pôr um ponto final na questão, embora perceba que ele está engasgado com aquela sou anarquista, mas por não saber o que é a Anarquia filosoficamente. Após quatro dias em Cartum, o grupo de oito especialistas enfrenta o terceiro dia em Darfur. Reconhecer o genocídio a que os povos locais foram submetidos é uma tarefa a que Jo se impõe por conta própria. Quase sempre a seu lado, Emanuel teme pela segurança dela. – Jo, tu não podes sair por aí sem a segurança do grupo. É muito arriscado! – Eu sei, mas já que estou aqui quero saber o que foi que aconteceu e o que acontece, por que a ONU não agiu... – ... bem, como tu mesma dirias – o tom dele é de sarcasmo, mas de alerta contínuo –, aqui como em outros lugares afundados por bombas e guerras civis, a ONU é apenas uma mágica política de proteção às superpotências! – Uau, Emanuel, vejo que o menino mimado está a crescer! – diz ela num espanhol quase perfeito. – Jo, tu sabes que gosto de ti (ai, só um louco não gostaria), e mesmo que nada aconteça entre nós, não quero ver-te machucada por algum fundamentalista à solta por aí... – contrapõe ele. O seu espanhol, rápido e marcado, denuncia a origem portenha. – Jo...! Ao ver uma bolsa de pano com recortes de couro, Joe conhece a mulher. Na troca de cem dólares em notas de vinte terá o que quer saber, ouvira. Ela anda ligeira e Jo corre para não a perder de vista. Quando se recompõe do impacto da arrancada da irlandesa, Emanuel ainda a vê dobrando uma esquina. – Ai, maldita intelectualidade feminina...! – resmunga em voz alta, e deixa o local no centro de Darfur para tentar não perder Jo de vista.

Na longínqua e nebulosa London, uma mulher inquieta-se em sua cadeira de balanço. Eu sei que é ela, eu sei..., diz para si. Toda a alma de Hanne está em efervescência, mas não sabe o quê, não sabe o que se passa. – Ela está naquela África que não muda, que é selvagem e não se deixa evoluir – diz, num murmúrio e com os olhos na fotografia da lareira. Minutos antes tentou comunicação digital com ela, mas tanto o telemóvel quanto o iPad não lhe deram retorno. Mas, ela escuta o pai..., lembra-se. Do outro lado do mar João recebe a comunicação por e-mail e, pressente a gravidade de algo na intuição de Hanne. Vou tentar falar com Jo, responde. Hanne possui alta sensibilidade. Mesmo quando não joga as runas celtas, tem percepções agudas sobre acontecimentos, bons e maus, que acontecem em torno da família ou no circulo de amizades. Ela está em Darfur com um grupo médico e uma equipe de segurança, só vai ligar o fone quando terminar a operação em que está envolvida agora, raciocina João, que sabe muito qual é o modus operandi da filha.

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A árabe com a bolsa de pano e retalhos de couro entra numa loja de objetos domésticos. Jo aguarda cerca de um minuto antes entrar na loja para ter a certeza de que a mulher não foi seguida, o que dá tempo para Emanuel a ver do outro lado da rua. Ela arrisca a vida por informações culturais e históricas. Eu nunca vi coisa assim..., pensa Emanuel. – Ah, é você... – Sim, sou eu! – responde a árabe ao meio cumprimento de Jo. – Os dólares? Jo retira do bolso da jaqueta de couro dez notas de dólar e entrega à mulher. – Agora, naquela sala está quem vai dar a você as informações! – diz a mulher apontando para um cómodo atrás das quinquilharias em exibição. Enquanto a mulher conta as notas, guarda-as na bolsa, e deixa a loja, Jo entra na sala e vê um homem, ainda jovem, sentado atrás de uma mesa... Na rua, Emanuel vê a árabe que se esgueira rapidamente entre as pessoas e desaparece. – Mas..., mas onde é que está a Jo?! – Ah, então você é a maldita inglesa que está a meter o bico nas nossas coisas. Já não bastou a vossa passagem colonial por aqui, puta inglesa? Aturdida e a sentar o chão fugir-lhe, Jo vê que caiu numa armadilha. Tenta recuar, mas braços fortes seguram-na por trás. Havia mais um homem que ela não notara. Esbraceja, mas o outro levanta-se e diz: – Aqui, puta inglesa, quem manda somos nós! – E esbofeteia a jovem nas duas faces com violência. Passa as mãos pelos seios e depois deixa outra correr para sentir o sexo dela. Jo está aterrorizada, não sente nem força para se defender. – Ai, minha filha... Hanne pressente que Jo está em apuros. A agonia em seus olhos gera lágrimas de impotência. – Jo, filhota, tu és tudo o que me faz sentir viva! – quase grita, desesperada. Na grande São Paulo, um escritor percebe-se isolado e com um nó na alma... – O que... o que vocês querem de mim? Eu não sou inglesa!... Ai, não... Não! O árabe abre a fivela do cinto das calças dela. – Toda a inglesa é uma puta imperialista, e nós gostamos de comida importada... Emanuel não sabe o que fazer. Não consegue sinal no fone-rádio para falar com a equipe de segurança. O medo o faz transpirar em abundância. Tem coisa muito errada aqui..., pensa, e decide agir. Entra na loja como um vento forte e vê que não há ninguém no atendimento. – Caramba, onde está Jo?! – resmunga. Uma porta no fundo é a única opção. Entre as peças de uso doméstico há utensílios ornamentais, e ele pega uma adaga de lâmina curva. Ao abrir a porta vê um árabe a puxar as calças de Jo e outro que a segura por trás. Entre os gritos de Jo e a ânsia de dominarem sexualmente a jovem, os árabes só se dão conta do intruso quando ele desfere um golpe forte com o cabo metálico da adaga naquele que está de costas. Ele cai sem sentidos e outro, rápido, saca um revolver que portava escondido nas largas vestimentas tradicionais, mas é neutralizado com o choque de um bule de chã... Jo, ao sentir-se livre, pegou o bule que estava pousado ao lado e lançou-o com toda a força possível na cabeça do homem quando ele se já apontava o revólver para o corpo de Emanuel. Com os dois árabes inanimados, os jovens se abraçam fortemente. – Vamos Jo, vamos sair logo daqui e de fininho... – diz ele, e ajuda-a a recompor as calças. – Tu salvas-te a minha vida, Emanuel! – reconhece ela, emocionada. – Eh, e agora, menina mimada que só gosta de fazer o que quer... – brinca ele, a zombar de uma frase dela.

Na imensidão da sala do apartamento, Hanne percebe que sua alma se aquieta. – Algo ruim estava a acontecer, mas foi interrompido e minha filhota respira – murmura. Esfrega algumas peças que entre as mãos e deixa-as cair no colo. – Ela está bem, livre! – diz, examinando a posição das runas, as pedras celtas que ela lê desde adolescente. Do outro lado, João não conseguia respirar direito. Mas isto não é a minha bronquite asmática..., pensava. Até que minutos depois, aquele nó na alma o deixa livre. – Raios me partam! – vocifera no seu português castiço.

– Eu não vou nem mencionar a tentativa de sequestro...

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– Mas, comandante... – corta Emanuel. – Tentaram sequestrar a Jo e se eu não fosse rápido (mesmo a medo, confesso) ela poderia estar morta – continua ele, que escondeu do grupo a tentativa de estupro. O comandante olha-o e não se deixa perturbar. – Prefiro que você e ela saiam daqui pelo Mar Vermelho e atravessem a Arábia Saudita para se apresentarem, como já estava decidido, em Herat. É óbvio que quando os dois homens acordarem vão querer vingança. – Sim, o comandante tem razão! – concorda Jo. – Ficar aqui não é mais possível. Em poucos minutos iniciam os preparativos para deixarem o Sudan. Jo recupera-se lentamente do terror vivido e culpa-se pela falta de visão que teve. Meu pai não vai gostar de saber desta minha falha estratégica, pondera. Em seu iPad ela verifica várias chamadas da Inglaterra e do Brasil. – Ai, minha mãe e meu pai devem estar aflitos...! Eu não respondi... – murmura para Emanuel, que chega junto dela. Emanuel vê que ela se recupera do susto. – Ó menina mimada – goza. – Quero que tu saibas que não sou tão iletrado como tu pensas. Foi aqui, em Darfu, segundo uma anotação do meu querido poeta Borges, que o teu Camões inventou a tal escrava que aparece nos Lusíadas! – e fica a mirar a expressão dela. – Uau... – é o que escuta da boca da irlandesa. O relacionamento entre os dois é de franca amizade, mas ela vê, sim, uma possibilidade de namoro: – Lá em Herat tem a casa de uma amiga. Ela aluga só para estrangeiros médicos. Vou ligar para ela e fazer reserva... – anuncia. Emanuel quer pular, gritar. – Jo... – E beija-a sôfrego, apaixonado.

Capítulo Nove O jovem casal prova o vinho de Herat numa paixão de profundidade amorosa e deixa em cada paciente que cuida, nos campos de refugiados, a marca de uma solidariedade autêntica. A cada dia percebem nos problemas que vivenciam a complexidade política que movimenta a ação humanitária, mas isso não os faz desistir. – Para esta gente ocidental um bandido com informações estratégicas é mais importante do que a ação de um médico, deixam a proteção ao médico e fazem escoltas cinematográficas em torno do bandido! – constata Emanuel, que só agora entende o nojo que Jo nutre pela política de estratégias colonialistas acoplada a exercícios de libertação para a dominação imediata pela economia e a cultura enlatada. Mas, o pior, e ele diz isso em voz alta no acampamento, é que as gentes locais só querem saber do rebanho e da comida para o dia de hoje. E depois, dão tudo por uma coca-cola e um filme pornográfico. – No meio de tanta pobreza intelectual – continua Jo o raciocínio dele – é que se alimentam os clãs já habituados ao poder, e que americanos e ingleses, por sua vez, realimentam com promessas de muitos e muitos dólares. – É verdade, mas olha, a ONU e a Cruz Vermelha não teriam que exercer aqui outro tipo de ação?... – Não, não enquanto a Ordem Mundial (ah, o filósofo Manuel Reis explica isso da Ordem Mundial nos seus livros, depois empresto o último para tu leres) estiver atrelada às potências econômicas e militares, pois a ONU não é propriamente um grupo de nações unidas, mas aquilo que o senador Acheson definiu em suas como braço diplomático da política externa da China, dos EUA, da Rússia, da França, da Alemanha e da Inglaterra, e então, no meio disto, a Cruz Vermelha atua para tapar buracos, como meu pai sempre me disse, e bem! E se a Cruz Vermelha atuasse no campo que lhe diz respeito, por que teriam sido criadas tantas ong´s humanitaristas...? – Eh, a ONU e a Cruz Vermelha são pontes entre males necessários... – ... quase isso, quase! – Como a condenação do sérvio Dusko Tadic! – Isso, e olha, o Tribunal Penal Internacional até que conseguiu demonstrar neutralidade entre os desejos das superpotências, porque logo que esse criminoso foi transferido para a Alemanha, o que aconteceu?, os tão democráticos alemães deram-lhe liberdade... Nós vivemos entre pontes da comercialização política, e, por exemplo, a nossa ação humanitária só tem sentido pelo desejo individual de patrocinar a paz com amor... – ... sim, só amor constrói a paz! – conclui ele. – E é preciso ter paixão pelo que se faz. Olha essa Yoani Sánchez, que faz comentários políticos na internet sobre a sua Cuba aprisionada, sempre com a polícia stalinista do Castro em cima dela. Jo observa a guinada da conversação, do TPI para a falta de liberdade em Cuba. – Sim, Emanuel, tudo se relaciona. Os políticos dos EUA nem reconhecem a existência do TPI para não serem todos presos por crimes de guerra, tanto no Vietnam como (11 de Setembro) no Chile, e agora no Iraque e Afeganistão, mas

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todos condenam o stalinismo cubano sem darem oportunidade para o povo de Cuba exercitar uma ação contestatária. E os iraquianos e os afegãos querem mesmo ser libertados...? O que fazemos nós aqui?... Jo e Emanuel pressentem na alma aquilo que Manuel Reis divulga como Nova Ordem Mundial: a transformação das políticas públicas no altar da libertação de cada pessoa, para que cada uma possa, em sua comunidade, exercer a fraternidade que Sócrates ensinou para o mundo ser um mundo humano e não animal. Em uma semana, Jo termina a sua jornada no Oriente e voltará para o Ocidente. – Vou finalizar Medicina e depois quero voltar ao mundo para ser médica com amor solidário. Não vou ficar num consultório chic enquanto o mundo precisa de mim! Emanuel concorda com ela. Ele ainda tem dois meses de jornada na região, mas talvez prolongue a sua estadia médica. – Eu sinto-me muito bem ao fazer o que faço. O que tu achas de criarmos uma ong, logo que terminares o cursos, e irmos mundo fora?... Ela olha-o, carinhosa. O beijo que os une é o sinal de um trato feito que lhes faz presente o futuro. É um romance que tem a bela Herat como pano de fundo e uma guerra civil sem os dias contados a envolver toda a região.

NOTAS BLOCKBUSTER – Termo utilizado pilotos de guerra, na 2ª GG, para designar as potentes bombas que arrasavam quarteirões inteiros. “A primeira vez que ouvi falar de blockbuster foi em 1973, conversando com um aviador militar português, recém instruído para pilotar o “gina”, caça FIAT G9, que chegou a ser utilizado, além de elemento tático, como bombardeiro na Guerra Colonial e principalmente na Guiné” [MACEDO, J. C. – in “Memória de um Militar obrigado a matar”. Braga/Pt, 1973]. BREVET – Carteira temporária que permite pilotar aeronaves e operar com paraquedas, tanto no meio civil como no militar. BULLYING – Brincadeiras de mau gosto que acabam por machucar psicológica e até fisicamente as pessoas atingidas. Estes atos são praticados também por inveja ou simplesmente para desestabilizar emocionalmente outra pessoa. CEHC – Abreviatura do Centro de Estudos do Humanismo Crítico, com sede em Guimarães, Portugal, dirigido por Manuel e Lillian Reis, e departamento latino-americano no Brasil coordenado por João Barcellos. COOL – Termo que designa ritmo sem extravagância no campo musical. EDICON – Editora brasileira, de São Paulo, associada aos projetos literários do CEHC e do Noética. GNR – Abreviatura de Guarda Nacional Republicana. HIP – Termo que pode ser utilizado para dizer quebrar, ou ritmo de ginga com o corpo para expressar uma atitude. HOP – Termo q.s. salto, mas também indica a utilização de peças genuínas de uma linha de montagem para expressar, por ex., o uso de roupas com originalidade, e ainda a atitude de contestação sem violência. HIP-HOP – A junção dos termos indica o agrupamento de subculturas urbanas, nos finais do Séc. 20, particularmente na Jamaica e nos EUA. “Os grupos, com gingado criativo e utilizando apenas o corpo e o microfone, mostraram que era possível fazer cultura com aspectos da sociedade urbana industrializada, sem piratear o vizinho e sendo criativo quer no conteúdo quer na vestimenta. Na verdade, a Cultura Hip-Hop (individualidade e criatividade) faz a ruptura diante dos paradigmas atrelados à massificação (blockbuster) puramente mercantil, além de permitir que astros e estrelas da rua (por ex., street dance) brilhem pela sua própria criatividade” [BARCELLOS, João – in “As Novas Culturas Urbanas”. Cotia/Br., 2007]. IRISH COFFEE – Bebida que tem o café por base, mas leva mistura de whiskey irlandês, chantilly e açúcar. IRISH WHISKEY – Esta bebida, com tripla destilação, fermentação, é um produto irlandês, mas foram os escoceses que lhe deram etiqueta mercantil. NATO / OTAN – Organização do Tratado Atlântico Norte para defesa militar dos interesses do Ocidente, mas também utilizada como força de invasão no Oriente Médio e na África sob comando da Organização das Nações Unidas [ONU] e o interesse do eixo bélico-capitalista EUA-UK. NOÉTICA – Grupo de debates que integra vários pensamentos que confluem para o Humanismo Crítico defendido e estabelecido pelo CEHC. OVNI – Abreviatura de Objetos Voadores Não Identificados. Q-G – Abreviatura de Quartel-General. RAWA – Abreviatura de Revolutionary Association of the Women of Afghanistan. VIMANAS – Termo utilizado em textos históricos da Índia, como Ramayana e Mahabharata, para designar “máquinas voadoras do tamanho de cidades com grande poder de destruição”.

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UMA MORGADINHA DOS TRÓPICOS

Prefiro ofender com a verdade a agradar com a lisonja Séneca

Esta novela expõe realidades políticas e administrativas do 4º Morgado de Mateus, na Casa paulista, e traz especulações sociais popularmente conversadas o Autor

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APRESENTAÇÃO A odisseia ultramarina portuguesa na América avança por diversos territórios, mas é na Ilha do Brasil, ou de Brandão, assim batizada pelo rei Afonso IV em carta ao papa Clemente VI, em fevereiro de 1343, após receber a notícia do achado geossocial nas bandas da foz do ryo siará, pela boca do capitão Sancho Brandão, da sua marinha mercante, que esta odisseia ganha força de colonização. Sim, já sob a experiência das feitorias no Golfo da Guiné, aliás, de onde saiu o notável Bacharel que haveria de erguer, em Gohayó, a primeira aldeia de raça lusoamericana ao sul do marco da Linha de Tordesilhas. Mais do que conhecida, a ilha fica por quase 150 anos sob o segredo de estado entre critérios lusos e papais para que fosse preservada a exploração única e milionária do pau-brasil, produto processado na Liga Hanseática a partir da feitoria lusa de Brugges. Colocado o padrão da posse reinol, em 1500, na passagem de armada cabralina para a Índia, os portugueses de serr´acima chegam por Cubatão e por Paranapiacaba e dominam os sertões a norte e a oeste do planalto de Piratininga, mas é a oeste que o Brasil acontece mercê da ´fabrica´ empreendedora de pioneiros como o Bacharel de Cananeia, o político e banqueiro e minerador Afonso Sardinha (o Velho), o Vaz-Guaçu, Braz Cubas, Dias Paes, etc. e etc., e administradores como o governador das minas Francisco de Souza, entre os Séculos 16 e 17, e o capitão-general e governador Luiz António de Souza Botelho e Mourão (o 4º Morgado de Mateus), no meados do Século 18. Entre estes dois fidalgos vive a colônia, dita Brasil, a perda do trono luso (1580-1640) e o surgimento do iluminismo com a reforma da educação e da própria administração pública em prol de uma urbanidade mais atinente ao progresso industrial que já altera comportamentos com o emergir da burguesia mercantil, logo, também política, e não engajada aos ciclos reinóis já em declínio diante do ímpeto republicano. Em tal quadro situa-se o Morgado de Mateus que, no setecentos, recebe a missão de comandar e estabelecer a Capitania de São Paulo assegurando as políticas ultramarinas do Marquês de Pombal, então primeiro-ministro do rei José I e senhor absoluto do Estado português. Ele é um militar bem sucedido em ações na Guerra dos 7 Anos, quando é promovido a coronel de infantaria e assim inicia a sua escalada social e militar nos altos círculos políticos que cercam El-Rey, de tal maneira que só um iluminado de braço forte poderia ser sugerido para comandar a restauração da Capitania de São Paulo e a nova ordem pombalina para políticas ultramarinas sob os auspícios de José I. Na vastidão geossocial paulista vê o Morgado de Mateus a possibilidade da integração urbana a par do estabelecimento da indústria canavieira e algodoeira, pelo que faz surgir novas aldeias e cidades pelo corredor continental que os guaranis chamam de Piabiyu a ligar o planalto de Piratininga aos sertões do sudeste e centro-oeste, corredor este muito utilizado por pioneiros como o ´velho´ Sardinha no estabelecimento de uma economia liberal para cá e para lá do rio del plata. Se os guaranis foram importantes na formação da primeira aldeia lusoamericana, em Gohayó, também o são para a pujança econômica que fez da Capitania paulista o foco dinâmico do Brasil e da qual se serviram os governadores Souza e Luiz António, cada um a seu tempo, e ambos com a mesma intensidade, tanto que utilizaram de igual modo as minas de ferro do Cerro Ybiraçoiaba para novas políticas industriais a partir do arraial mineiro de ´velho´ Afonso Sardinha. Entretanto, é com o Morgado de Mateus que a Capitania alcança a profundidade política e administrativa para virar centro econômico ultramarino e fazer do Brasil uma projeção de nação além das fronteiras portuguesas. É verdade: o Brasil começa com a urbanização e a industrialização da Capitania paulista... Obviamente, o Morgado de Mateus é um fidalgo ciente da missão pombalina, tanto que a cumpre reestruturando a administração colonial e criando a ruptura com o conceito teocrático jesuítico de comandar a ocupação com fazendas sesmeiras: os religiosos têm poder e a sociedade morre de fome, sem terras e sem teto. Criada a ruptura, os sertões paulistas sediam novas aldeias e cidades no ímpeto iluminista do seu capitão-general.

Bando Do Capitão-General e Governador Para criação de Campinas “Porquanto tenho encarregado a Francisco Barreto Leme formar uma povoação na paragem chamada Campinas do Mato Grosso, distrito de Jundiaí, em sítio onde se achar melhor comodidade e é preciso dar norma para a formatura da referida povoação: Ordeno que esta seja formada em quadras de sessenta ou oitenta varas cada uma, e daí para cima, e que as ruas sejam de sessenta palmos de largura, mandando

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formar as primeiras casas nos ângulos das quadras, de modo que fiquem os quintais para dentro a entestar uns com os outros”.

Mas é ele um homem só, isolado na sua condição de comandante, por isso faz das tradições religiosas novos focos de aculturação e dá visibilidade ao poder político e militar. E ele? Com a esposa a chefiar a Casa de Mateus lá no outro lado do mar, como se situa ele no avanço social e urbano da (sua) Capitania?... Um relato nos diz que o Morgado de Mateus envolveu-se com uma escrava e com ela gerou uma filha... E, certo dia, já ele está novamente em seu morgadio trasmontano, eis que o povo fala de uma filha de escrava a viver como morgadinha em terras doadas pelo próprio Luiz António... Ninguém vive o poder solitariamente, vivencia-o com a apetência social e sexual que as circunstâncias oferecem, e se os padres que foram evangelizar a colônia fabricavam filhos e filhas para a roda-dosexcluídos, por que não um fidalgo?!

Parte UM Olhem lá, lá vem a morgadinha..., é o povo que o diz a sinalizar a presença inusitada. As pessoas do interior português estão acostumadas aos brasileiros e às brasileiras que fazem a torna-viagem, mas não a uma índia que se veste e fala como fidalga. É cria afilhada do senhor morgado da Casa de Mateus, ou mesmo, filha!, diz-se. À boca pequena, pois, como enfrentar o poderoso senhor morgado e amigo do rei?, o povo comenta a presença da jovem mulher que desembarcou em terras da velha Panóias e aqui já tem sítio e aqui circula como pessoa branca e cristã... Ela é uma jovem mulher, de estatura pequena, caminha com elegância e desenvoltura carregando a moda da corte. Vem da Praça Velha e na Rua Direita observa as novidades que os comerciantes lhe exibem. O seu rosto é quase oval, a pele morena é fustigada por cabelos negros que escapam do chapéu. Destacase nesta moldura humana um par de olhos negros amendoados e uma boca carnuda que deixam o universo masculino em polvorosa... Ah, que ele soube fazer, isso ele soube!, dizem, em referência ao bom gosto do progenitor. Assunto político, cultural e racial, a morgadinha ocupa o espaço da conversação social na urbana Vila Real, ponto maior da administração reinol em Trás-os-Montes. Fala-se de tudo, mas volta-se sempre a ela: a morgadinha. O universo feminino tem mais cautela, até porque desta velha Panóias saiu muito homem para fazer a tal de Sam Paolo dos Campi de Piratinin e os que voltaram deixaram lá famílias inteiras ao deus-dará. Ora, o senhor da Casa de Mateus, se é que se envolveu com uma índia teve a bondade de trazer a filha e de lhe dar educação e bens para viver a própria vida!, comentam algumas senhoras da nobreza local. Obviamente, existem vozes que as contestam: É mais uma brasileira que se deu bem, ora pois!, escuta-se. Para a maioria, a morgadinha deveria ser sacrificada lá no santuário das Fragas de Panóia, e algumas pessoas até recitam... Aos Deuses e Deusas deste recinto sagrado. As vítimas sacrificam-se, matam-se neste lugar. como reza uma das inscrições acerca do sacrifício de animais feitas pelos romanos lá pelo Século 3 na sua passagem e domnínio da Ibéria. A questão racial fomenta discórdia, ódio, e até religiosos têm dificuldade em abordar o assunto, apesar das mudanças sociais e filosóficas que se verificam neste final do Século 18. Ainda há um clamor inquisitorial de raça pura que trata quem não é do mesmo universo como infiel, logo, inimigo, ou bruxa a abater. É uma bruxa que tomou a alma do nosso senhor Morgado..., diz-se. Mas ela é intocável. E tem personalidade. Conversa com o pároco, faz a comunhão e está na missa de domingo. Além de que tem sítio, é dona de terras.

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Está ela a conversar com o vendedor de chapéus, na Rua Direita, quando um cavalariço lhe traz a charrete, e lá se vai a morgadinha para as bandas do Cabo da Vila.

Parte DOIS 1700 é o século dos déspotas iluminados. Uma era em que parecer é mais do que ser, e mesmo para quem o é convém deixar todos os sentidos em estado de atalaia. Faz quase 10 anos que o Morgado de Mateus, o fidalgo Luiz António, chefia a Capitania paulista. Esclarecido e com pulso de ferro tem nos juízes de direito e nos bispos os seus maiores opositores, e o diz em cartas a amigos mais chegados; uns e outros querem tudo como está, nada de mudanças, porque, como dizem, colônia é antro de escravos que devem trabalhar até morrer, e de funcionários públicos que aqui devem enriquecer ou fazer carreira. Isto e só isto. A visão do capitão-general é a mesma do amigo Marquês de Pombal: a política ultramarina deve gerar riquezas, mas a partir de uma sociedade adequadamente estabelecida. Se as primeiras mudanças atingem os padres, as seguintes mexem com a administração medieval e cavaleirosa imposta por funcionários reinóis que se acham a salvo de punições, além da corrupção que faz da magistratura um antro de corrupção. Quem sou eu? O que faço aqui, longe da minha casa?, pergunta-se amiúde o já não tão moço morgado da Casa de Mateus. A esposa, Leonor Josefa Ana Luísa de Portugal, rege o morgadio e se faz presente com cartas constantes e sempre respondidas por ele. Aqui faz-se outro Portugal no empenho das políticas de Pombal, diz ele, por mais de uma vez, pois sabe que ela se ocupa do trato fidalgo da Casa do morgadio, entre Vila Real e Lisboa. Entretanto, um dos assuntos mais tratados entre o casal é a filha bastarda Teresa de Jesus Maciel, que tenta obstruir a ação administradora de Leonor até com intrigas e roubos, como já registrou o arquivador contratado para a Casa. Ao escrever sobre o assunto, certa tarde nos jardins da Casa do morgadio, Leonor pensou: Isto não vai ter um fim feliz. Pensou, mas não registrou no papel. A sua preocupação, no entanto, era percebida pelo esposo e morgado. A cumplicidade do casal permite um olhar político e fidalgo atualizado a cada nova carta expondo os quês do reino em Lisboa e em São Paulo, embora a retórica nem sempre se encontre nem nas entrelinhas... As serviçais que atendem o dia-a-dia do capitão-general e seus oficiais mais próximos são todas nativas ou africanas. A rotina doméstica do palácio no centro da Vila de Sam Paolo dos Campi de Piratinin segue o padrão da disciplina rígida quanto a comportamentos e serviços: servir o fidalgo Governador é servir ElRey e servir a Deus.

Parte TRÊS No âmbito da instrução, os meninos têm a aula régia, mas as meninas são educadas em casa. É preciso que a juventude feminina faça serviços, mas para isso tem de ser educada!, e por isso o capitão-general determina, numa primeira etapa, que meninas nativas sejam educadas nas primeiras letras e no trato da alimentação e do corte e costura; o trabalho é dado a uma educadora chamada Esperança Machada, que vive na aldeia de Itapecerica, para as bandas do sertão guarani. Ele quer nas dependências palacianas serviçais educadas que atendam ao rigor protocolar e não meras escravas. A sua visão de sociedade não permite gente sem ofício, e até escravo tem de saber o que faz. Odeia gente a volante, ou seja, gente que perambula sem ofício. A par da instalação da Casa da Ópera, esse serviço educacional para juventude nativa gera uma evolução social e faz com que as filhas dos abastados colonos comecem a buscar educação nas casas religiosas. Esperança Machada é uma nativa que ganhou acesso a uma cultura geral no setecentos e tornou-se educadora de primeiras letras com ajuda de um colono sob graças sexuais. Também, ganha sustento a escrever cartas e a responder a outras que chegam de Portugal. A sua casa é a sua escola. Saindo do Ybitátá pela banda da casa-fazenda de Afonso Sardinha avança-se para entre M´Boy e Acutia sertão adentro até encontrar Itapecerica, um espigão de bons ares a dominar vasta região. O senhor Governador quer serviçais educadas e as melhores desta aula irão trabalhar no palácio, explica ela. Tem uma classe com cerca de vinte adolescentes que descendem de guaranis e tupis, mas a língua geral é uma mistura de tupi-guarani falada pelos colonos. Entretanto, é a língua portuguesa que vai prevalecer: Vamos aprender a falar e escrever em português..., avisa.

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A educadora orgulha-se da sua própria história e repassa-a para as jovens, estimula-as. Uma das jovens é Sebastianna. Ela não sabe dos pais, sabe que um senhor de terras, amigo do fidalgo governador, a chama de Sebastianna, e só. Minha mãe morreu ao me dar à luz, disse. Pelos dados que ela deu, entre uma conversa e outra, a educadora Esperança acha que nasceu na aldeia Koty na beira do Anhamby, ali perto do portinho de Carapocuyba, e os padres levaram-na para a catequese, mas não a juntaram às que tinham a missão de lavar roupas lá no Jeribatyba, tendo comida e casa com outras meninas. Sebastianna recebeu instrução infantil com freiras e padres ligados à Congregação de Nª Sª dos Prazeres, da qual é devoto também o fidalgo da Casa de Mateus. E então, por que o governador quer dar mais conhecimentos a uma filha de índia?, questionou-se Esperança. Sim, a menina índia veio estudar boas maneiras e música... Obviamente, a educadora Esperança prefere raciocinar sobre o assunto, mas não reproduzi-lo para não ser repreendida. Dentro de um ano deverá levar a menina diante do Senhor Governador para o mesmo ter conhecimento dos progressos sociais e culturais, escutou do jovem oficial palaciano que escoltou Sebastianna até ao espigão de Itapecerica. A ênfase no Senhor Governador deixou claro que a menina deveria ser tratada bem, mas não poupada nos estudos. Em poucos meses, Sebastianna deixa de ser a menina magra e recolhida que surgiu na casa-escola de Esperança Machada, e é agora uma menina de 6 anos, viva e bonita a encantar o mundo com o seu olhar negro amendoado. A educadora tem por ela um carinho especial, pois, Sebastianna estuda com afinco, começa a aprender a história de Portugal e arranha um francês que muitas moças de família nem sonham. Ah, quanto à música ela tem uma voz suave e é também a preferida do pároco de Itapecerica para os hinos religiosos no coro mirim. Mas, é Vila Real ou é Panóias?, quis saber ao ler pormenores acerca da Casa de Mateus no morgadio trasmontano. Esperança possui um livro com desenhos da Casa de Mateus e a história da nobreza brasonada que ela abriga. Recebera o livro como presente do fidalgo governador. Às vezes, descobria a menina com o livro nas mãos. Para sua surpresa, Sebastianna lia e relia o livro. Ficava com o dedo a indicar algo que não conseguia compreender, memorizava. O que liga esta menina a essa casa lá do outro lado do mar?, pensava. E mais: Este livro não me foi dado por acaso, o Senhor Governador sabia que um dia a menina iria folhear só por curiosidade...

* A questão sobre Vila Real e Panóias levou a educadora a viajar para São Paulo e buscar ajuda na bagagem cultural do iluminista Luiz António de Souza Botelho e Mourão. O fidalgo mostrou-se embevecido. Envergava ainda o seu uniforme grande, pois, haviam homenageado o aniversário d´El-Rey José I com vistoza cavalhada no terreiro do Colégio e, é claro, Sua Excelência achou por bem marcar com imponência cerimonial a sua presença no evento. Sentara-se depois atrás da escrivaninha na sala de despachos e logo decidiu escrever uma carta para a esposa expondo as agruras de governar gentes que só querem poder, poder e poder, ou, estar com o poder. Com a exposição de Esperança Machada acerca das perguntas de Sebastianna o seu humor melhorou muito. Debruçado no parapeito do janelão, com o planalto a perder de vista para os sertões guaranis a oeste, ele disse, com voz grave e a tirar cada frase lá do fundão da sua memória cultural: Cneu Gaio Calpurnio Rufino foi o idealizador da construção do Templo de Panóias, chefe militar na região, mas debaixo do comando da Legião VII Gemina Felix, lotada em Legio, que era Leão, na Hispania. Olhe, o que sei é que ele e os soldados que comandava haviam servido na frente reno-danubiana e depois transferidos para a Hispânia, pois, numa das inscrições do Templo de Panóias pode-se ler “numes dos Lapitas” [Tessália]. Então, e como sabemos, as legiões fizeram a difusão das religiões orientais pelo Império, logo, é de se creditar que impuseram o nome Panonian na região ibérica [e hoje, nós, os portugueses fazemos o mesmo na colonização em África e Brasil...], como também celebraram aqui os deuses e deusas que haviam conhecido na Tessália reconstruindo templos. A educadora atreveu-se e interrompeu o fidalgo: Isso quer dizer que Vila Real surgiu no território dos templos de Panonian, ou Panóias? Sorrindo, o morgado e governador apanhou uma garrafa de Vinho do Porto e encheu dois cálices. Tive eu muita sorte ao encontrar esta educadora para a menina, muita sorte!, disse para si mesmo. À saúde e ao progresso da menina Sebastianna!, brindou, logo secundado por Esperança.

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A educadora quis aproveitar o momento de alegria do fidalgo para esclarecer um pormenor... Excelência, espero não importunar, mas preciso saber o nome de família da menina, pois, também o pároco precisa de lavrar documento... Luiz António de Souza Botelho e Mourão franziu o semblante, olhou-a de alto a baixo e a fez tremer. Súbito, ele mirou uma imagem de Nª Sª dos Prazeres que estava numa mesinha ao lado da sua mesa de despachos. Olhe, minha cara, não sabemos da família de Sebastianna, apenas que é uma menina brasileira que desejei ajudar a crescer. Peça ao padre lá de Itapecerica que a trate como Sebastianna... dos Prazeres. É um nome lindo, excelência!, celebrou ela bebericando o último gole. E o nome Sebastianna veio de onde?, quis saber. Ah, minha cara, de Sebastião José, o nobre Marquês de Pombal, meu amigo e chefe do governo de Sua Majestade, escutou. Enquanto isso, leu numa folha avulsa sobre a escrivaninha a criação de uma Academia dos Felizes, o que a animou a mais uma pergunta: Vamos ter festa de eruditos, Excelência?... Ele deu uma espiada no papel e disse: Os nossos eruditos e até os das línguas nativas precisam de espaço, devem congregar civilidade, dar exemplos, e até eu preciso disso para reafirmar a autoridade!... Momentos depois, escutou Sua Excelência ordenar: Levem a senhora professora até Itapecerica, agora! *

O certo é que Sebastianna quer saber mais e mais, a sua sede de conhecimentos não tem fim. Mas uma questão está no ar: Gostei muito de ser dos Prazeres, Sebastianna dos Prazeres. E foi o padre que descobriu o meu nome? A educadora não sabe se tem permissão, mas decide dizer a verdade: Minha menina, o Senhor Governador é devoto de Nª Sª dos Prazeres, e como ele também não sabe nada da tua família resolveu chamar-te Sebastianna dos Prazeres. Eh, porque é um milagre estares aqui comigo e tendo a proteção de um fidalgo que é amigo d´el-rey... Sim, senhora, e eu vou rezar todos os dias para a Senhora dos Prazeres!, diz a menina com a determinação que lhe é peculiar e que tanto agrada à educadora. Mais dia menos dia, um ano depois eis que o jovem oficial do Senhor Governador ressurge na casa-escola ao romper da manhã: Venho buscar a senhora educadora e a menina Sebastianna, que vão passar uns dias com o Senhor Governador..., anuncia, e avisa: Não se preocupem, comprarão lá na capital o que precisarem! Ao saber que em um ano deveria de estar diante do fidalgo amigo d´El-Rey, a menina entusiasmou-se aplicando-se ainda mais nos estudos, principalmente na música. Nem mesmo durante a bagunça política provocada por nativos e nobres da terra, os colonos mais velhos, em ato contra a governança, bagunça itapecericana logo aquietada pelo alferes de plantão, louvado publicamente por Sua Excelência, a menina deixou de buscar mais saberes. Uma mente brilhante!, exclamava Esperança. A desordem no terreiro do bairro deixou medo no padre, senhora, e será que esta guerra vai continuar e deixar nós sem comida?, questionou. Um tanto apalermada, boca escancarada de espanto, os olhos a buscar uma invisível bengala para se segurar, a educadora parou na saleta de visitas, onde também tinha a sua biblioteca e que Sebastianna elegera como seu local predileto. Ela pensa como menina-mulher e é só uma menina que acaba de ser alfabetizada..., observou ela. O padre fizera a visita semanal para orar com meninas diante da imagem de Nª Sª dos Prazeres e pediu paz para a ordem pública ainda a bagunça ecoava nos terreiros próximos ao espigão de Itapecerica. E aquele paz e civilidade que trazem a comida e o bem-estar ficou na memória da menina como uma manifestação do medo que o religioso sentia no momento. Ai, fica em paz Sebastianna, tu tens é que estudar, estudar, estudar e rezar, e só!, retornou a educadora do seu espanto. E era o que ela fazia. Por isso, quando viu o oficial de Sua Excelência descer da charrete, sacudir a poeira, e se aproximar da porta, Sebastianna sentiu-se pronta para enfrentar o mundo maravilhoso da Capital dos paulistas.

Parte QUATRO A capital da Capitania restaurada pelo fidalgo da Casa de Mateus nada tem a ver com a velha villa de sam paolo dos campi de piratinin erguida pelos jesuítas no espigão do planalto. As choupanas deram lugar a

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edificações robustas; desde os tempos do governador e também fidalgo Francisco de Souza, a vila recebeu arruamentos e casario em meio a praças e chafarizes. Foi o que o fidalgo trasmontano encontrou, além de juízes e de religiosos empoados demais para o seu gosto. Mas, para sede de Capitania logo percebeu que algo haveria de acontecer e, logo, fez acontecer... Os primeiros anos foram de estudos e projetos, entre a navegabilidade dos rios e a retomada da mina de ferro do Cerro Ybiraçoiaba, enquanto o engenheiro-militar José Custódio de Sá e Faria levava para o papel um novo mapa paulistano, após navegar e palmilhar as entradas do sertão guarani pelos ramais e o tronco do Piabiyu.

* Excelência, o seu almoço está no escritório!, anunciou a serviçal, cedida por um dos nobres que resolveram ficar de vez na colônia. O capitão-general dava ordens a seus imediatos no toque d´alvorada e, logo, subia um lance de degraus para fazer o desjejum na sala de despachos a olhar o planalto pelo janelão. Das serviçais que atendiam o fidalgo uma fazia o serviço com delicadeza e prestava atenção em toda a arrumação: Nada pode estar fora do lugar para Sua Excelência poder trabalhar, dizia para si mesma enquanto o lugar. Algumas vezes o fidalgo, sem que ela percebesse, prestou atenção naquele jeitinho nada nativo de arrumação. E é um olhar de fera livre pronta para rebater algo errado, murmurou para um dos seus jovens oficiais. Ah sim, e ela põe as outras no devido lugar, Excelência, quando vê qualquer coisa mal arrumada!, escutou. Eh, parece que foi muito bem educada em casa do nosso amigo e fala um português gaiato, um falar brasileiro de sertão, mas bonito d´escutar..., deixou escapar. O oficial não quis comentar, mas percebeu um interesse pouco comum de Sua Excelência pelas qualidades da brasileira do sertão. É melhor avisar a corja fardada que anda d´olho na gaja!, pensa. O capitão-general ainda está na sala de despachos quando a serviçal pede licença para retirar a louça do almoço. Ah, minha menina (eu não sei o teu nome, então, vou chamar-te de menina), gostei do teu trato, por isso, de ora em diante tu passas a fazer os serviços que têm a ver comigo, e só!, determinou ele. Meia atordoada, a menina espeta no fidalgo um olhar negro e tão amendoado que ele se julga catapultado para um paraíso. Ela é uma escrava adolescente do sertão dos carijós, ou guaranis, adquirida por um nobre capitão que ora acompanha Sá e Faria na azáfama de desenhar os sertões e suas vilas: Meu senhor Governador eu tenho uma serviçal apta a organizar o serviço doméstico no palácio e a recomendo!, disse ele ao ver a aflição de Sua Excelência na falta de trato doméstico nos cômodos palacianos em que as divisórias do Colégio jesuítico foi transformado. E que olhar!, que mulher!..., acordou o fidalgo, para dizer: Minha menina, é isso que tu escutaste. Então, organiza as outras para que nada saia da arrumação que fazes. Podes ir, agora... Nos dias seguintes, até a menina já ajudava nos despachos do Governador para encanto dos militares de plantão. *

Depois das onze não farei despacho, pois, espero visitas importantes!, avisa Sua Excelência. Ele assim fica a olhar a imensidão telúrica do planalto acima da Serra do Mar. A sua expressão é deveras a de alguém a viver a sensação lúdica... sem espaço nem hora morros e trilhas é nest´agora que me faço teu cativo sou escrava minha e o sou

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por toda a vida A minha menina deu-lhe mais força para viver e contornar a maioria dos problemas de rotina oficial. Passou a ser o seu talismã, a luz da sorte. Com as iniciativas administrativas do fidalgo trasmontano é que a velha sam paolo dos campi de piratinin passou a ser tratada como Capital, pois, além da busca de pedras preciosas, a agricultura de sobrevivência das gentes de serr´acima deu lugar a uma agropecuária e a uma indústria algodoeira e coureira já a estabelecer metas de exportação, o que levou à edificação de cidades como Campinas e Iguape, entre outras. Precisão se faz de novas cidades para reunir as gentes que andam a volante, levá-las para ranchos com pelo menos cinqüenta vizinhos. Ora, é contra o serviço de Deus viverem em matos, longe do comércio, sem assistência religiosa e sem tempo para prestarem serviço à res publica, manifestou-se assim, e por várias vezes, o fidalgo. No oitavo ano da sua administração e já a braços com a militarização das fronteiras para cumprir Portugal num esforço extraordinário dos paulistas, a Capital ganhou fôlego social e econômico. Pode se dizer que o Brasil respira o ar paulista, como nos tempos de Braz Cubas e do ´velho´ Afonso Sardinha. E a Capital recebe, apesar do olhar franzido do Governador diante de gastos públicos e privados, cultura e moda europeias. E assim é que a educadora Esperança Machada e a jovem Sebastianna dos Prazeres conhecem a nova São Paulo em giro numa das charretes do Governador. Estão empoeiradas pelas horas a fio nos estradões que ligam o Ybitátá a Itapecerica. Ai, por favor, vamos ver o centro!, vamos ver o centro!, pediu a jovem. Este palácio não é tão bonito como o de Mateus, senhor Governador!, observa a jovem. Espanada a poeira, as duas foram obsequiadas com refresco de frutas nativas no escritório privado do governador, um cômodo contíguo à sala de despachos. Vejo que a minha menina – e ele dá ênfase no minha menina – estudou o livro da história da minha família, o que me deixa muito feliz. Sim, é verdade – ele anda de um lado para outro, fica uns instantes a olhar o pátio pela pequena janela para logo sentar frente à menina –, este palácio não respira poesia... Ah, isso mesmo, senhor Governador, isso mesmo, falta poesia neste lugar!, corta ela, exuberante, o olhar cheio de animação. A animação lúdica que atira o fidalgo para uma memória recente, um olhar negro e amendoado com a promessa e, logo, a certeza de muitos prazeres. Atenta, a educadora percebe que o fidalgo revê em Sebastianna alguém que o serviu, ou que conheceu. Sim, Sebastianna é filha de uma mulher que esteve muito próxima dele, pensa, E os traços da menina já não são os genuínos das gentes guaranis do sertão, pois, o seu rosto e até a maneira de caminhar têm o enlevo da escultura de várias raças, como a mameluca. Entre o fidalgo e a filha de escrava há uma ligação de bem-querer que salta aos olhos de quem os vê de perto. eu sei d´onde vens minha menina e sei desse olhar onde me tens O trato dele é de pai para filha e ela lhe corresponde com o olhar da inocência de menina-mulher em formação. Eu quero ver a sala de despachos, lá onde o senhor Governador manda fazer as coisas no meio dos mapas, um pedido-ordem prontamente atendido; e ela vai pela mão do fidalgo. Mãos que se apertam tão logo adentram o ambiente. Oh, parece que estive aqui antes..., diz ela. Logo perambula no cômodo apreciando cada detalhe até ficar subitamente diante de Nª Sª dos Prazeres. Ai, eu rezo para ela todos os dias desde que soube que o senhor Governador deixou-me ter o nome dos Prazeres, e abraça o fidalgo. Atrás deles, Esperança não sabe o que falar. Fica atenta aos pormenores. Vê que a menina age como se o ambiente tivesse sido o seu berço. Muito bem, acho que o melhor é as duas irem para o quarto e se arrumarem, pois, daqui a pouco vamos à Casa da Ópera, anuncia ele, em jeito de ruptura com a cena quase familiar.

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Esta pequerrucha corta-me o coração, murmura ele enquanto as vê caminharem para o quarto. Na escrivaninha puxa uma pequena gaveta que contem um único objeto: uma folha enrolada e segura por uma fita. De repente, ao abrir a folha, depara-se com aquele olhar da pequerrucha. É o olhar da minha menina que o engenheiro-militar soube desenhar com perfeição. O universo de prazeres vivido na sala de despachos com aquela mulher do sertão permitiu-lhe aguentar o que ele diz serem as agruras de governar para quem não quer governo. Ai pequerrucha, tal mãe tal filha..., desabafa. E nesta tenra idade é tão viva e organizada como a mãe, mas o olhar quer mais, quer o mundo. Ah, e a minha morgadinha vai ter o mundo, promete a si mesmo. Ele guarda o desenho como tesouro intransmissível, mas já percebeu que o segredo não vai ficar por muito tempo no seu coração, pois, Sebastianna é muito envolvente e vai querer saber mais e mais. Talvez o retrato da mãe venha a ser a sua grande herança num sítio de morgadinha lá acima da Serra do Marão, onde mandam os que lá estão..., diz, a meia voz, enquanto enrola e guarda o papel.

107 Parte CINCO Em meados dos Anos 70 deste setecentos, em meio a mil e tantas intrigas provocadas também pelo prestígio e por abuso de poder (o que aos olhos do absolutismo não o é), o fidalgo governador apronta-se para deixar a Casa paulista e tomar o rumo do Porto de Santos. Ah, onde está a minha menina?... Perto dele, ao lado de uma educadora que chora ao ver a pupila favorita tomar o mundo, Sebastianna dos Prazeres mais parece uma jovem europeia que veio tomar uma porção de sol nos trópicos portugueses. Vamos, vamos lá, minha morgadinha!, diz o fidalgo ajudando-a a entrar na carruagem, após se despedir de Esperança Machada.

* A morgadinha olha as pessoas que a miram entre o encantamento e a desconfiança, e todas sonhando em ser o que ela é, ou representa, agora na sociedade de Vila Real. A charrete deixa a Rua Direita e as pessoas espantam-se com a beleza da jovem mulher de rosto moreno e cabelos negros que lhe emolduram os fascinantes olhos negros; o seu sorriso é uma luz que extasia as almas sempre que por aqui ela passeia a sua graciosidade. Ai, São Paulo, terra boa e de triste memória, ainda me fazes doer o coração quando lembro os teus sabores entre as chuvas pesadas ou sob o sol escaldante, as manhãs de garoa poética entre os cerros que te cercam. Que sabem estas pessoas da dificuldade que é viver debaixo do chicote, sem terra nem casa? Têm o mundo, mas não sabem como lidar com ele, preferem a dor de cotovelo diante de quem conseguiu sobreviver e lhes dá, ainda, o conforto de um sorriso, murmura a sua alma ao perceber o cerco dos olhares. Senhorita Sebastianna! Ainda está na ponta da Rua Direita quando um cavaleiro, que logo reconhece como oficial da Casa de Mateus, entrega-lhe um documento. O que se passa, senhor alferes?, quer saber, com o olhar fixo nele. O alferes monta um dos cavalos mais bonitos que ela já conheceu, de um preto brilhante e muito elegante. Um par perfeito, suspira, sem tirar os olhos do jovem oficial. *

O fidalgo prefere montar o seu luso, um cavalo preto, e acompanha a comitiva que inicia a marcha para o litoral. Nos últimos 25 dias, o luso foi o fiel parceiro de Sebastianna. Perto da Casa paulista, como nomeia o governador o seu palácio, ela aprendeu a arte de bem montar a toda a sela e, algumas vezes, sob o olhar orgulhoso do fidalgo. Corria à boca pequena, não era já um segredo, mas ninguém tinha como provar: a pequerrucha Sebastianna, como gosta de dizer Sua Excelência, é filha dele com a escrava que se foi quando a pariu entre os cuidados das freiras. Para os cavalariços e os oficiais, e toda a população palaciana, ver a pequerrucha Sebastianna adentrar na arte equestre sob o mando de Sua Excelência é mais do que prova, é testemunho de que ele a tem mesmo como filha, e não podendo fazê-lo à luz do dia, trata-a como protegida.

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E não fosse assim, como uma filha d´india do sertão dos guaranis é agora uma menina-mulher ilustrada e a cavalgar no altivo e belo luso? Por que monta o luso, senhor alferes?, questiona ela ao reconhecer o animal. Ah, o senhor dom Luís Antônio achou que ele gostaria de rever a senhorita logo que pudesse cavalgar... E a verdade é que ela reconheceu o luso logo que ele lhe lançou o focinho no ombro. O lance terno em que ele e ela sempre iniciavam as atividades no terreiro. E então é verdade que o luso adoeceu no navio?, indaga. Sim, senhorita, e só agora ele está normal e a cavalgar como sempre cavalgou. O senhor dom Luís Antônio evitou matá-lo e deixá-lo no mar alto, pois, disse-me, a senhorita iria sofrer com a perda. Vieram especialistas do Porto que aqui ficaram por mais de um ano, e agora, tanto tempo depois, eis aqui o seu luso, senhorita... Agora, tenho o encargo, também, de fazer o luso lembrar o toque de música e, depois, entregá-lo à senhorita! O alferes é um jovem encantado sob o olhar e a elegância de Sebastiana dos Prazeres. E eu não sei como agradecer-lhe a atenção e o mimo que tem com o meu luso, senhor alferes!, escuta. Esta carta é um convite? Não, senhorita. Eu fui lá no sítio e disseram-me que estava a fazer compras na cidade, por isso resolvi vir encontrá-la. É o documento de doação e de entrega do luso, conforme desejo do senhor dom Luís Antônio. E então, devo acompanhá-la até o sítio... O que não parece um grande esforço para o alferes. Ora, senhor alferes, terei o prazer de convidá-lo para cear comigo... O jovem oficial fica paralisado em cima do cavalo. O animal pressente algo diferente e lança novamente o focinho no ombro da morgadinha. Oh, meu luso, vamos para casa!, diz ela, acariciando-o. E o alferes consegue falar: Será uma honra e um prazer, senhorita... Sob os olhares do povo da velha Panóias erguida pelos romanos, a morgadinha retorna para o sítio, lá no Cabo da Vila, escoltada por um alferes que não cavalga, navega entre nuvens.

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Acerca de bando: no setecentos, o edital governamental era publicitado como um pregão, ou seja, um oficial era anunciado na praça por um militar-músico e seu tambor e, logo, lia a notícia diante das pessoas que chegavam. Acerca de gente de serr´acima: colonos que ousaram deixar o litoral sul e norte (tendo aqui Gohayó como referência) subindo a Serra do Mar pelo lado de Paranapiacaba e pelo lado de Cubatão dando início ao estabelecimento da lusobrasilidade, que logo ganhou a africanidade com a chegada dos escravos do golfo guineense. Acerca da farda grande: traje militar de gala envergado em cerimoniais pelos oficiais de alta patente. Acerca de morgadio: “[...] Linhagem no senhorio feudal de terras, também dito de nobres da terra. É uma organização familiar com código a nomear quem é quem em tal domínio. Assim, no morgadio, o poder senhorial é inalienável e indivisível com a morte dos titulares, o que se estende ao varão primogénito. Esta nobreza da terra tem origem castelhana e vigora em Portugal a partir do reinado felipino (1580-1640)...” [MACEDO, J. C. – in “O poder da Nobreza da Terra e o Colonialismo”. Palestra. Guimarães, Portugal, 1991]. Acerca dos pioneiros paulistas: Com a chegada do Bacharel a Gohayó e a ´fábrica´ da primeira aldeia luso-americana com o mesmo nome, inicia-se a luso-brasilidade; depois, vêm Braz Cubas e Afonso Sardinha (o Velho), entre outros, que desbravam o sertão a oeste da Vila Jesuítica dita Sam Paolo dos Campi de Piratinin em busca de ouro e prata, sendo que o ´velho´ Sardinha estabelece no Cerro Ybiraçoiaba a primeira fundição de ferro da América e, em Ybituruna (Araçariguama), a primeira mina de ouro continuamente explorada.

Anotações 2 6-

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Luís António de Sousa Botelho e Mourão é o 4.º Morgado de Mateus [21.2.1722 – 5.10.1798]. Filho de Joana Maria de Sousa, Senhora de Moroleiros (Amarante) e de António José Botelho Mourão. Fidalgo d´El-Rey, Cavaleiro de Cristo, tenente-coronel da Cavalaria, é casado com Leonor Ana Luísa Josefa de Portugal (1722-1806), filha de Rodrigo de Sousa Coutinho Castelo-Branco e Menezes e Maria Antónia de São Boaventura de Meneses Monteiro Paim. Este fidalgo e militar é indicado para o cargo de Governador da recriada Capitania de São Paulo, que havia sido extinta em 1748, e torna-

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se logo figura histórica do período, mesmo tendo ficado apenas por 10 anos na região [1765 a 1775]. “É com a ação política. militar e administrativa do Morgado-General que o Brasil começa a acontecer nos sertões paulistas, mercê do arrojo inovador que leva as populações a se juntarem em novas vilas e cidades dando corpo à indúdtria da agropecuária, algodoeira e coureira” [BARCELLOS, João – in “Um Morgado Na Formação Do Brasil”, palestra. Campinas/SP, Brasil, 1997]. 7-

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Sebastianna dos Prazeres surge no acaso de pesquisas sobre as atividades e o perfil de Luís António de Sousa Botelho e Mourão, o morgado-general [Morgado de Matheus – o Grande Governador de S. Paulo; João Barcellos, 1993. 2ª Ediç 2000 /Prêmio Clio de História]. Ela é, talvez, a menina dos olhos do fidalgo por ser fruto das relações amorosas deste com uma escrava nativa da região do sertão carijó, ou guarani. O fidalgo, devoto de Nª Sª dos Prazeres, aliás, padroeira da Casa trasmontana, nomeava tudo e toda a gente que pudesse sobs auspícios dessa devoção nun jeito bem característico da nobreza da terra: ou, “[...] a perpetuação de uma era na pessoa que criava a circunstância e dela se beneficiava”, como diz o poeta J. C. Macedo [1991]. É bem possível que tenha dado o nome Sebastianna à menina para homenagear o amigo Sebastião José, o Marquês de Pombal, e o sobrenome dos Prazeres em honra da sua santa. Ele faz embarcar a menina quando deixa o cargo de governador e retorna a Portugal, e ela ressurge em anotações trasmontanas que a dão como filha de escrava do fidalgo ao tempo em que governou São Paulo. Tal anotação foi descoberta em pesquisas de Ana Antunes, descendente de Sebastianna dos Prazeres, documentação que liga à informação ocasional que recebi de Luís Oliveira, tradicional livreiro português em São Paulo, no ano 1992, com sebo magnífico no centro paulistano e, então, a ajudar na montagem da Biblioteca da Casa de Portugal com o ator de teatro Fernando Muralha.

A minha produção lítero-historiográfica tendo por base a fase paulista do Morgado de Mateus levou à busca de informes em documentação religiosa, militar e política (governamental), e quando me deparei com “a escrava índia que amante foi do gvernador” decidi não entrar no assunto por falta de mais dados; e mesmo na produção do livro UM MORGADO NO IMAGINÁRIO DE UM MARQUÊS / Uma novela acerca do Morgado de Matheus, do governador Francisco de Souza e do ´velho´ Affonso Sardinha [Edicon & CEHC, Noética, Brasil-Portugal, SP, 2013], não entrei no tema, mas, então, deixei anotações para um traço novelístico posterior... E, em 2015, mercê das pesquisas de Ana Antunes, reiniciei aquele traço guardado na gaveta.

sam paolo dos campi de piratinin no ano 2015 deste século 21

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João Barcellos 110

Cânticos d´Amor & Guerra o romance do Eu possível com Outros e Outras no foco da destruição do Cosmo que nos é berço e chão via Terra 1986 / 2016

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Abertura

Agosto de 1986. O que faço aqui? Quem sou eu para mensurar as pessoas e as coisas que me rodeiam e, quiçá, decidir por elas? Pesquiso, coleto dados, apetece-me enfiar tudo num tubo de laboratório, agitar... só para ver o que dá!, mas não posso, e então, imagino – e, nesta construção percebo que sou o que sou pelo que me fizeram num passado que me é presente, um presente sob circunstâncias que me pressionam a conceber o futuro, mas sem adivinhação, ato poético, sim, mas com os pés no chão. Fevereiro de 2016. É tempo de Carnaval. Na mudança de casa, treco para cá, treco para lá, entre caixas e pastas, dois envelopes quase se desfazendo pela ação do tempo mostram papeis antigos, uns datilografados, outros manuscritos: ensaios, poemas, artigos e crônicas, e um lote de folhas soltas que mostram anotações a lápis e caneta tinteiro. Agosto de 1986. O que faço aqui? Quem sou eu..., leio. Não me assusto, mas a perplexidade leva-me a ler outros papéis. Eu escrevi isto? Sim, pergunto-me. E quase fico indignado, como nas vezes em que, no bate-papo pós palestra me questionam “E foi você que escreveu?”... Faz muito tempo, quase uma vida. Quando, por força de alguma revisão, leio escritos meus do passado, nem sempre me reconheço. É verdade. A minha escrita é uma filosofia de rupturas pela busca do novo: ninguém cria com o velho, cria transformando o velho. Uma quase carnavalesca metamorfose a explicar a ação plural que embasa também o ato singular da pessoa que constrói conteúdos, circunstâncias. E agora? O sociocultural e político romântico de 1986, tão pessoano quanto socrático, é o mesmo indivíduo em ruptura com tudo, em 2016, ou não? Na sua utopia ainda cabe a transformação na base do humanismo crítico? Filosofar é construir, é buscar pontes para diálogos. E eis me aqui. O que faço aqui? Quem sou eu..., questiono-me outra vez, mas sem usar a língua dos Rolling Stones ou a do Einstein, é a minha, mesmo!., como fizeram os doutos alquimistas da Bologna acadêmica e como o Infante das 7 Partidas quis mostrar um mundo novo no meio medieval que logo o destruiu. Ora, este Eu que carreio quer mesmo é viver o que Sócrates demonstrou ser o essencial da vida: a Vida. Que é esta em que estou (e procuro ser) dialogando com todas as circunstâncias cotidianas. O mais?, o mais é tudo e é nada. O Autor

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A quietude que me toma não é aquela que a copa da árvore grande oferece ao pequeno jardim, aqui, no quintal de casa. A natureza cria espaços de bondade para serem compartilhados, e nós – sim, nós, a humanidade – construímos abismos psicológicos. Na maioria das vezes, fabricamos circunstâncias para destruir aqueles espaços de bondade cósmica, como se não dependêssemos deles. E é assim que me vejo, hoje, em plena ruptura com o todo humano sociopolítico e mercantil. Cânticos d´amor em meio a uma guerra gerada entre e por nós, humanidade. Talvez o amor vença, e tenho visto que em vários casos, sim, vence, mas não sempre, o que me inquieta, deixa-me guerreiro pela causa chamada humanidade. Diante da variedade de escravatura, política e tecnológica, é preciso clamar pela construção humaníssima da pessoa que, em inquietude utópica e sem especialismos políticos, faz civilização. A escravatura é igual para qualquer pessoa e seja qual for a circunstância, como se percebe no Coro dos Escravos Hebreus, de Verdi, porque a Pessoa escravizada, física e mentalmente, é o niilismo político da barbárie – barbárie que sobrevive nos atos de quem já viveu a escravidão e a pratica agora como parte da sua condição animalesca acobertada pela democracia sacra e plutocrática. É o que tenho assistido, e pior, o Todo humano parece-me receptivo ao mando da brutalidade e faz dos brutos símbolos culturais! Para mim, neste Eu telúrico e cósmico, não cabe essa violência, prefiro a sensação libertária de uma Ode à Alegria, de Beethoven, vivenciando-a em todos os sentidos. Lutar pela humanidade enquanto civilização é uma novela política e sociocultural que me anina e me inquieta.

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Parte Primeira

Parte 1 O horizonte tem um recorte ondulado que foge ao traçado geométrico da urbe, não a mesma ondulação que os aventureiros desembarcados das caravelas encontraram na sua labuta de serr´acima, mas ainda a linha bucólica que nos enche de ar puro, faz-nos desejar uma viagem sem fim, serena e verdejante. De um lado para outro, entre uma e outra palestra, ou pesquisa de campo, às vezes somente o ímpeto de estar sozinho ou de trocar algumas palavras com amigos estrada fora, eis me nas trilhas onde o Brasil nasceu com base de nação mercantil e industrial. Mergulho no traçado como que a abrir velhos documentos ou a especular vidas d´outrora por não os ter à mão, e neste mergulho algo não se altera: o recorte ondulado de um espaço de muitos tempos e ritos de vida. Quantas vezes me vi na pele do ´velho´ Afonso Sardinha, do Morgado de Mateus, do Bacharel de Cananeia, do Marquês das Minas..., só para lembrar alguns dos personagens que nestas bandas ousaram ser Portugal e aqui legaram oportunidades que foram, e são, pilares de um Brasil em moderna pujança. E, em vez de uma carga pesada, vivencio neste recorte ondulado e verdejante uma leveza que me atira para a continuidade no ensejo de me aprofundar mais ainda nessas odisseias de ´fazer´ o mundo novo.

não há palavras o perfume da floresta é o livro a alma não se contém e vivo este viver de muitas lavras sou o ser sem guardas a natureza é a vida que sirvo

Saindo do mar de morros que escondia as antigas trilhas de povos nativos e que agora são leitos de pistas para carros, motos, ônibus e caminhões – e um ou outro boi ou cavalo que atravessa o asfalto para dizer da animalidade que somos, sempre –, na direção do entroncamento para a serra sanroquense, corto e sigo por uma pista secundária na direção de um dos pontos no planalto paranapiacabano, onde uma aldeia nativa de guaranis deu lugar a uma vila campesina, de pesca ribeirinha e cerâmica. A descida é uma poesia de bons ares no meio de uma garoa que convida a um café com uma gota d´aguardente. A velha aldeia, num ponto de encontro de morros que ligam a outras velhas aldeias, bebe ainda um estilo de vida autônomo, como se o espírito dos antigos portugueses de serr´acima ditasse o ritmo da labuta. O espírito permanece, é verdade, mas é só. Isoladas e longe dos meios urbanos metropolitanos, as pessoas foram sendo encurraladas por uma política de poder regionalista ficando entre o voto de cabresto e um querer de liberdade que virou mero lamento social. Do planalto piratiningo que virou marco zero da metrópole São Paulo para o sertão a oeste, as povoações foram marcadas pelo chicote dos senhores coloniais, e mesmo as que de fazenda se tornaram vilas não fugiram à regra. Esquina até onde chegavam os portugueses na era do quinhentos, a região de Cotia ganhou, ao tornar-se paróquia, no setecentos, a anexação de um antigo território autônomo lá dos cafundós do sertão itapecericano – a Aldeia Caucaia. A mais paranapiacabana das regiões do sertão guarani. É nela que eu chego em meio a uma garoa gostosa, já o sol ameaça romper entre os morros.

Parte 2 O bar não está cheio, os fregueses são os mesmos de todos os dias. Os rostos, ah os rostos, quase os vejo como familiares. Enquanto me sento, observo. Ao redor de uma mesa três homens discutem alto. O moço do balcão servelhes mais uma rodada de cerveja. O bar toma uma esquina na região central do bairro e é o que se pode chamar de escritório para muitas pessoas: aqui marcam encontros e até reuniões importantes para decidirem do próprio bairro, porque nem sempre o salão paroquial está disponível. A vida política é o foco mais habitual na roda de amigos e a corrupção como vício maior é o tema mais puxado. O grupo de mesas e cadeiras fica entre o balcão e uma lateral onde vendem doces e pães; na parte da frente, um pequeno balcão para pagamentos no meio de duas portas; ao fundo do balcão, um wc imundo, como é habitual neste tipo

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de estabelecimento. É do wc que sai um homem ainda a apertar a braguilha e com jeito de nem ter lavado as mãos. – Ah, e então? Ocê que já foi manda-chuva aqui, o que nos diz desta corrupção que nos cerca?! Apanhado de surpresa, o homem, sessentão, limpa as mãos em alguns guardanapos de papel que retirou do balcão. – Ocês, eu não sei, mas eu tento fazer a minha vida, só isso! – responde e já saindo do bar. Aquele que o questionou, na certeza de estar interpretando o pensamento dos dois companheiros da mesa, fica olhando o tal antigo político se escafeder à la francesa e não resiste: – Olhem, é para isto que os elegemos! Não têm onde cair mortos, mas logo que ocupam o poder político compram carro novo, casa na praia, barco e puta... E o bar acolhe uma gargalhada geral. Pela vidraça do bar, vê se que o homem abranda o passo para escutar o barulho, mas dá de ombros e prossegue para as bandas da igreja. Estou de passagem. Sempre que por aqui paro para tomar uma branquinha e um cafezinho, eis me a escutar as odisseias políticas locais, quer queira ou não. A gargalhada mistura-se à música pop-funk de conteúdo niilista umas vezes, de apelo sexual, outras vezes, e sempre tão mercantil quanto as vozes e os corpos que lhes são veículo. Qual a diferença entre aquele mercantilismo artístico e a venda de voto no curral político que desconhece ideologias, que se pode constatar no comportamento dos três amigos no bar?

Parte 3 É de cortar o coração. Mas é assim mesmo. Ou melhor: pode se fazer algo para evitar a piora da situação, embora poucas sejam as pessoas com iniciativa cidadã. Muita fala, muita opinião, mas ação que é bom, nada. Luiza é uma dessas jovens mulheres que nasceram e foram criadas entre ovelhas e bodes, bordados e ceramistas. Ai, daqui a pouco os artistas não vão tirar mais argila do rio..., resmunga ela com os próprios botões. E continua a olhar o fio d´água que sempre foi um bom rio, mesmo que às vezes só riacho, antes da ação urdida pela ganância do lucro. – Precisamos tirar o que pudermos do Ipojuca, vamos cada vez mais a montante do rio! – diz um homem pequeno e magro, moreno, sessentão, de calça e jaqueta jeans. Entre os dedos amarelados da mão direita um toco de cigarro no qual acende outro. – Sim, já temos outra turma lá na Serra dos Cavalos – observa outro, jovem de uns vinte e poucos anos, em bermuda, camiseta e tênis de linha exclusiva, boné com a pala voltada para a nuca –, e a turma vai no breu da noite sacar argila, que é tão boa como a do Rio Ipojuca. Ao fundo do casario do Alto do Moura, aqui mesmo a sua casa e olaria, Luiza escuta e não quer acreditar. – Vocês vão matar o nosso ofício – diz, a voz exaltada –, vocês roubam argila para fazer tijolo. Não querem saber da gente, nós!, nós!, artistas que trazemos recursos para este agreste... – Cala essa boca, maldita. Tudo que é artista é comunista e ladrão! – vocifera o homem mais velho. – Ou tu cala a boca ou nóis cala tu, e nóis nã..na..nãoooo quer... Vai tratar dos teu vêios, vai – berra o jovem quase gaguejando e com o olhar negro espetado no semblante dela, a poucos metros. Durante a última Festa de São João, aqui mesmo no grande arraial do Moura, ela iniciou um abaixoassinado com poucos, mas decididos, artistas. Quando o assunto chegou ao conhecimento dos sacadores clandestinos d´argila... Ao chegar em casa, cansada mas alegre dentro da vestimenta junina a lembrar as alegres minhotas lá do norte português nas festas de verão na colheita e na vindima, Luiza foi rodeada por um quarteto de homens. – Se gritares, morres! –, escutou. Obedeceu na tentativa de se resguardar. – Nóis não queremos papeis nem assinaturas contra nóis, por isso, passa pra nóis o tal abaixo-assinado e fica quietinha! – continuou o homem jovem, a fuzilar o corpo dela com um feroz olhar negro. De boca aberta, tremendo da ponta dos pés às pontas dos cabelos castanhos, Luiza tirou os papéis da pequena mochila de renda e passou-os ao bando. Os seus olhos de amêndoa pareciam cristais feitos de medo. De repente, o quarteto desapareceu na noite como tinha aparecido, mas Luiza não era mais a mesma. E agora, meu Deus, agora vão acabar com a argila e nós vamos juntos!, gritou para si mesma, desesperada. Já conhece aquele olhar negro, furioso. – Um dia alguém vai parar vocês! – diz ela, atrevida. Os dois homens olham-na. Miram a jovem encolhida, esmagada no umbral da porta de casa, o olhar vidrado em algo que não sabe o que é. – Quando esse dia chegar avisa nóis...! – diz o mais velho. E deixam

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no ar uma sonora gargalhada. Para ela não poderia haver maior ameaça: Eles acham-se além da lei!, anota, e decide não provocar. Deixa o olhar vagando pelo semiárido. Desde aquela noite junina os dois homens fazem ponto a poucos metros da casa dela. Pelo menos uma vez por semana fazem baliza por aqui, bebem cerveja, fumam, e em poucos minutos levantam âncora em busca de outro cais. Para a jovem é uma tortura, pois ela sabe que o bando pode ir além da simples ameaça, do jogo de palavras. Ela já percebeu que eles são sempre os mesmos e querem ter a certeza de que ela continua de boca fechada. Por certo, pensa, são paus-mandados e fazem o giro depois das tarefas de contrabando que lhes cabem. Não pode simplesmente provocá-los. Ainda se arrepia ao lembrar o olhar do jovem, intenso e cortante. É um cara bonito, veste bem, e não passa de um bandido, pensa. Os pais estão no Canadá, ela é doméstica e ele corta madeira, a irmã mais velha casou com um alemão que, de visita à casa de mestre Vitalino, encantou-se e levou-a para o outro lado do mar; e ela, Luiza, vive a arte da olaria com os avós – ela, muito idosa, está acamada, e ele, antigo professor de primeiras letras e agricultor, ainda ajuda no trato da argila e na cozinha. Evitar que o bando chegue junto dos avós é o esforço maior de Luiza. O seu olhar recolhe a imagem semiárida do entardecer pernambucano que marca Caruaru, a velha terra do povo Cariri que aqui se achou entre fartura de alimentos, argilas e algodão rude e colorido. – Sim, é de cortar o coração... – Ai!, vô, que susto... – deixa-se enlaçar pelo abraço terno do avô. – O que é de cortar o coração? – O nosso quase-deserto, este semiárido e esse Ipojuca, que das suas margens já não vem quase mais argila para moldares na tua roda! – É, é verdade. Não se deixa trair, morde-se por dentro, esfarrapa a alma. Luiza não quer que os avós percebam sequer a ameaça em que vive. – Tu tem os vêios e uma casa...! – escutara daquele quarteto, e dos olhos do rapaz a certeza da ameaça. Passou para as amizades mais próximas a questão e foi aconselhada a ter cuidado, a andar em grupo. – Precisamos mexer os pauzinhos nos bastidores, assim como esses bandos fazem na calada da noite, nê, e os políticos também! – escutou de um dos guias de turismo e mentor do grupo. Capoeirista e sanfoneiro, Adalberto é um quarentão a quem Luiza recorre amiúde em momentos de incerteza. A sua esposa é a amiga que Luiza mais tem por perto e foi com ela que conversou logo depois do aperto feito pelo bando. – O bando não mexeu com você, amiga, ameaçou incomodar os velhos e destruir a casa. Então, não provoque... – dissera ela, aflita. Na casa rústica, simples, do casal, soube mais acerca do bando. – É gente que paga a políticos e policiais para nunca ser chateada enquanto rouba ou mata! – e a informação deixou Luiza ainda mais preocupada. – Mas, estão roubando a riqueza do rio Ipojuca, e já fazem o mesmo na Serra dos Cavalos, e o roubo dessa riqueza vai acabar com a olaria do Alto do Moura. Ai, mestre Vitalino deve estar berrando na tumba contra a nossa incompetência... - desabafou, desabando em choro no abraço do casal. Foi o consolo e o conselho das amizades com mais experiência que Luiza serenou e resolveu encarar o bando como turistas do acaso enquanto novo abaixo-assinado corria clandestino por Caruaru. – Vô, acho que vou comprar aquela câmera de vigiar bebê e colocar em baixo do telhado... – Qual é o problema, minha neta?! – a pretensão deixa o velho apreensivo. Dá meia volta na cintura dela e encara-a. – É que agora, vô – tenta ela explicar –, tem muito turista gringo e muita gente estranha todo o dia perto da nossa porta, e roubos já aconteceram perto de nós! Além de que nem sempre eu estou em casa... Luiza escutou a ideia da mulher de Adalberto. – É uma câmera muito pequena e barata e pode ficar escondida na beirada do telhado. Nós fizemos isso e agora sabemos quem está perto da nossa porta – escutou. Pegou os dados e, dando uma olhada no equipamento, viu que ela mesma poderia montar e, assim, não despertar a curiosidade do amigo do alheio. – Eh, não é má ideia. E mesmo quando estamos a trabalhar a argila ou ocê na roda a moldar podemos saber até quem bate na porta. Hum, é uma boa! Luiza sente que o peso de meio mundo sai de seus ombros. Aperta a cabeça no peito do avô. Assim, quando alguém do bando ficar por aqui não preciso vir guardar a porta, pensa. – A manga que deixei na geladeira já deve estar bem fresquinha. Que me diz de um suco de manga, vô? Ele ri, dá uma palmada no traseiro da neta e deixa-a correr na direção da cozinha. Ai, que seria de nós, vêios, sem uma neta amorosa e dedicada?, questiona-se babando na própria realidade. – Queijo de cabra e marmelada, também. Tua avó vai gostar! – e imita o som de uma cabra para gozar o momento

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Parte 4 A subir o morro, além da igreja, entro em área de floresta. Caucaia do Alto é uma região chacareira e busco o sítio do casal Bastos, portugueses do Alto Minho e há muitos e muitos anos no Brasil. O meu encontro é com ela, a professora Eleonora, mas habitualmente o marido Henrique, piloto aviador aposentado, faz companhia abrindo uma garrafa de vinho Alvarinho. Verdade, ninguém é de ferro. – Aqui eu só posso imaginar as asas – graceja. – E daqui a pouco nem isso, olha lá a derrubada d´árvores..., vão construir casas e secar mais olhos d´água, com certeza! – aproveita Eleonora o ensejo para me situar na realidade obscura da urbanidade que adentra a floresta por mãos institucionalmente criminosas. A nossa conversa tange esse pormenor, sim, mas a relevância está na filosofia a adotar para dizermos da vida com humanismo crítico. – Penso que evitar a retórica do mais-do-mesmo é o rito que temos de traçar – diz ele, a deixar o precioso líquido cair nos copos de barro –, olhem, se formos pela etiqueta formal, deveria eu servir este vinho fino em copos de cristal, mas eu nasci no meio de pipas e sempre bebi este mesmo vinho em copos de barro. Então, nós somos a circunstância, nós devemos construir as ações do agora! – Do agora com sabor a amanhã... – ... ora, ora – e continuo a dica dela –, têm razão, porque não existe amanhã sem a circunstância que promovemos no presente. – É a chave, é a chave – concorda ela. – Entretanto, tudo o que fazemos é experimentalismo (ou como você gosta de dizer: o jeito noético de ser). Em tudo isto está aquela ancestral magia natural que as velhas universidades ensinavam.. – Bologna e a primeira Universidade de Coimbra! – Oh, aquela Coimbra do Infante das 7 Partidas era o mundo novo dentro de Portugal e o resto de Portugal não soube aproveitar a universalidade da lição de quem aprendeu nos livros de Petrarca e logo quis ditar a lucerna iuris... – ...ah não!, não o deixaram pregar a luz do Direito... – corto, lembrando aqui os estudos pormenorizadíssimos do ilustre Alfredo Pinheiro Marques e as achegas do notável filósofo Manuel Reis. Com o casal mantenho permanente sarau filosófico. São momentos de profunda reflexão social e cultural, sem perder a noção política dos fatores econômicos que nos rodeiam e nos fazem viver alegrias ou perder as estribeiras, tanto é o escambo politiqueiro que acaba em corrupção. Ao escutar aquele grupo de amigos no bar o que percebi de imediato foi o lamento embasado no maisdo-mesmo, logo, sem efeito prático. Henrique toca num assunto que mexe conosco diariamente, a cada instante, e Eleonora situa-o como chave para a compreensão de um compromisso ético emergente: a fala que gera ação. – Olá, bom-dia professor Carlos, como vai? É o caseiro que entra na saleta de reuniões do casal. Transporta porções de queijo de leite de cabra (que ele mesmo produz na chácara) e fatias de pão que coloca numa pequena mesa entre os cadeirões forrados a couro. A saleta serve também de biblioteca: as paredes são forradas com estantes carregadas de livros e, numa delas, uma pequena lareira. Tudo sugere o sítio caipira, a ruralidade como ambiente ideal para o livre pensamento, a harmonia psicológica. – Oi, meu caro Possidônio – cumprimento-o. – Soube que foi passar uma semana lá no agreste pernambucano... – Ah sim, com a graça deste casal amigo. – E... – Ah professor, voltar à terra é sempre um momento único, mas..., tem sempre um mas nestas coisas da saudade, nê. Estava pensando em trazer para cá o meu filho caçula, que a minha menina já é mulher e mãe (eh, tenho dois netinhos), mas ele se meteu com os bandoleiros do contrabando de gado e nem quis me ver. Imagine o senhor, nem quis ver o pai! Desde que a mãe foi morta por uma bala perdida de policial, lá em Recife, o rapaz nunca foi o mesmo... – Um dia ele vai cair em si, Doni – diz Eleonora a suavizar o momento difícil do retirante. Ela trata-o carinhosamente por Doni. “Acho o nome Possidônio uma marca de posse, coisa de grego para dizer dono dos mares, por isso trato-o por Doni, com o seu consentimento”, explicou um dia. Henrique faz o mesmo, mas às vezes eu esqueço. – Vou ser aqui o advogado do diabo: esqueça o rapaz, Doni. A verdade é que ele bebeu a morte da mãe e vive agora como se fosse a mortalha viva, talvez a encomendar a morte de outras pessoas, e não por escolha, mas por opção para se sentir vivo... – analiso. – Credo, ó Carlos! – e vejo susto no olhar de Henrique.

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– Êta, lasqueira! Pior que tem razão – corta o caseiro deixando-nos com algum espanto e na expectativa. – Eu não sou intelectual, mas sempre gostei de ler os jornais velhos do Recife que apanhava ao acaso lá no agreste de Caruaru. Muitas crônicas políticas ajudaram-me a entender as coisas da sociedade, a separar a realidade do blá-blá dos políticos e dos padres. Ali, olhem..., ali só um homem prestou: o padre Cícero. Ele foi o povo, o povo com Deus, e até contra a Igreja! Quase uma Don´Ana de calças... – Essa aí, Don´Ana, é a Ana de Alencar, a presidente da República... – Muito bem, professor Carlos, vejo que o senhor é ilustrado... – brinca Doni, e todos soltamos as almas numa risada gostosa. – Olhem, aqui na Sampa ninguém sabe que tivemos uma República durante o império da Monarquia – continua ele. – Bem, eu acho que o senhor Carlos tem razão: o meu rapaz fez o que ele disse: bebeu a morte da mãe e vive na caatinga como alma penada. E se me dão licença (tenham uma boa reunião), eu vou para os meus afazeres no pomar. Entendemos a pressa em dar por findo o debate sobre a morte da esposa e o filho embriagado pelo trauma. Doni abandona o local com o seu jeito de velho cavaleiro, as pernas arcadas de tanto cavalgar em busca de gado solto na caatinga, o cabelo longo da cor de azeviche e preso em rabo-de-cavalo. É homem de estatura pequena, de uma magreza feita de músculos temperados na lida rural. A morte acidental da esposa tirou-o do agreste sem lei, juntou parcas economias, mochila nas costas, de carona em carona e bicos pelo caminho, chegou na imensidão urbana paulistana. Outro mundo. Outra maneira de viver a vida. Um dia, em busca de serviço rural nas bandas de Embu das Artes, na tarde de um sábado escaldante, o balconista de um restaurante chamou-o depois de consultar um bilhetinho com o nome dele: – Ei, amigo, aquele casal ali precisa de caseiro! – e olhou para a mesa. Um casal de meia idade bebia suco de uva e parecia descansar um pouco para retornar a casa. Estava rodeado de algumas sacolas com produtos de jardinagem. Foi simpatia à primeira vista. E lá foi se entender com aquelas pessoas de ar aristocrático. Logo percebeu que era só ´ar´, pois, apaixonou-se por elas e daquele momento em diante passou a ser o caseiro e o melhor amigo. Eleonora e Henrique não sabem explicar até hoje como a sorte lhes bateu à porta, ou à mesa. Simplesmente aproveitaram a sorte. – Carlos, a sociedade em que estamos (ei, por falar em sociedade: não vou preparar almoço, vamos ficar com estes queijinhos, as torradas e o pão de chouriço e alho que o Doni fez ontem, e está muito gostoso), bem, a sociedade que somos é um nó psicológico, porque cada pessoa é tantas outras no seu querer realizar o sonho sonhado, como diria o Fernando Pessoa, e a ganância de poder é maior ainda – retorna Eleonora ao assunto. – Ah, este pão d´alho e chouriço lembra-me as aldeias etruscas no verão de Bolonha... – Poder, poder, poder. Como seria bom se a anarquia pudesse ser uma das vias sociais da política?! – sugere Henrique, a fugir da citação gastronômica etrusca. Bem, intimidades... O certo é que ele anda farto dos abusos de poder que os políticos operam todos os dias a partir mesmo das pequenas administrações de bairro, acha até que nada mais tem jeito, embora nunca despeje a esperança na lata de lixo. A lata de lixo psicológica que todos temos à mão e nela somos capazes de arremessar uma vida inteira de realizações sociais e profissionais por um instante de poder político. Faz mais de um ano que este tema sai e retorna mercê da corrupção que mina as instituições, e como as instituições são feitas por nós – gente, as pessoas – percebe-se que a humanidade vive mais uma fase de busca de identidade, de uma ordem regional e mundial, que o filósofo luso Manuel Reis nos lembra em muitos dos seus ensaios e nos ensina a analisar num processo de revolução em curso que é mais filosófica do que política e religiosa. – Se o poder pudesse ser exercido filosoficamente, a política e a religião seriam partes de um todo em progresso harmonioso, mas a política é um espaço e a religião é outro, mas aqui falo de igreja-estado, não de religião, porque religião é a nossa poética cósmica de viver a vida diante da sensação de abismo que é a morte, enquanto que a igreja é um balcão de interesses mercantis. Sim, é verdade que a anarquia seria uma solução: cada coisa no seu lugar, cada pessoa no seu lugar, tudo em autogestão... – ...isso, no dia de são-nunca! – atalha Eleonora. – Nem os políticos nem os padres querem dividir poderes, e vamos continuar com essas guerras santas que nos rodeiam e matam... – ...e entanto, Henrique – intervenho depois de um gole de Alvarinho – é que nós ainda podemos analisar a situação comendo e bebendo do melhor, pois, a maioria das pessoas tem até o direito ao diálogo cerceado pelos poderes político e igrejista (sim, igrejista, como escrevia muitos anos atrás o poeta luso J. C. Macedo para demarcar igreja e religião), um autêntico curral ideológico que deixa a maioria das pessoas como peças dessa engrenagem mercantil e sofisticadamente consumista (ah, lembro o filme Temos Modernos, com o Chaplin, por um lado, e o The Shoes of the Fisherman, com o Anthony Queen, por outro). – Ainda a tua mania de ver tudo de maneira cinéfila... – ri rela. – Apesar do seu apelo comercial, a cinematografia tem produções culturais de altíssimo interesse antropológico – respondo. E lembro algo verdadeiramente cinéfilo: – O cineasta Alain Tanner fez uma obra

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intitulada Cidade Branca, ou Dans la Ville Blanche, na qual registrou aquela Lisboa de roupas brancas corando na manhã e no entardecer pela luz que do Tejo sobe às sete colinas, uma poética solidão no drama urbano que é existir além de ser e de todos os poderes. Uma lição sociocultural que me fez refletir sobre outras vertentes na coexistência crítica pela qual pude vislumbrar a anarquia como estrada social e política, a estrada que comunistas e nacional-socialistas preferiram destruir para poderem sobreviver em poder... – Hum, não vi esse filme Cidade Branca, mas sei do Tanner, sim, um comunicador de mão cheia. Mas é verdade que o cinema nos traz peças de alto valor e que servem como suportes para aprofundarmos a análise à situação social – concorda Henrique. Fica um pouco pensativo e remata: – Agora, imaginem passar um filme como esse do Tanner no avião numa viagem de longo curso... As pessoas iriam protestar até fazerem cair a aeronave! – Ah, ahh, ah, ai… é bem possível – dou uma risada. – Ai, como o poder é relativo e o conhecimento uma bosta! – atira ela. – Para a maioria das pessoas o conhecimento serve unicamente para sobreviver, e se vier na forma de entretenimento melhor ainda, por isso elegem o poder que lhes permite viverem com mais-do-mesmo, e pronto! Não são poucas as vezes em que o nosso bate-papo termina com este negócio a que chamamos mais-domesmo ou que, pelo meio, lá venha ele a situar um ambiente cinza de niilismo, de “porra d´algo a infestar as nossas vidas”, como dizia o cientista Aziz Ab´Sáber nas conversas comigo e o jornalista Paioli. – Vou ter que ir fazer compras na vila. Precisam de mais alguma coisa, agora? Doni está com a cabeça emoldurada na porta da saleta, um boné nas mãos. O seu olhar intenso parece iluminar mais o espaço. Lembro um olhar assim: o de uma namorada de verão que vivenciei em Sant´Iago de Compostela, na Galícia, na minha adolescência de mochileiro e poeta ao deus-dará. Eu mergulhava naquele olhar para minar a riqueza de uma estética humana rara. Que percurso maravilhoso. Que linda garota. Mas, na porta está o cabra macho do agreste, não a linda galega. E olhando-o, digo: – Doni, meu caro, antes de ir deixe-me celebrar o pão d´alho e chouriço que você faz: uma delícia. Parabéns, mais uma vez. – Olhe, aprendi com portugueses lá no agreste. Também foi com eles que aprendi a cozinhar o bode, a fazer a vinha d´alho para temperar a carne. Gente que sabe o que é fazer comida boa, saborosa. – Sim, corre em nossas veias o mesmo sangue árabe-ibérico que nos ensinou a viver a vida com a barriga e o olhar bucólico... – ...ai!, ó senhor Carlos, eu queria mesmo perguntar sobre isso – interrompe, sem sair da moldura da porta –, olhe, então é certo que eu e você somos farinha do mesmo saco?! O casal solta uma gargalhada e vamos todos na mesma onda, porque a maneira como ele colocou a questão foi engraçada. – É verdade, vera idade a nossa, meu caro Doni, porque, e veja bem..., toda a arte agropastoril e a culinária do norte e do nordeste teve assento com os portugueses da beira praia que se estenderam para o sertão interagindo com as culturas dos povos Cariri e Tupi-Guarani, e outras, mas mais a Cariri. E desde então somos, sim, farinha do mesmo saco histórico, uma raça luso-afro-americana começada, primeiro na foz do Rio Syará com o capitão Sancho Brandão, em 1342, e depois lá em Gohayó, a aldeia e Porto das Naus, que o Bacharel de Cananeia ergueu com uma tribo guarani ao lado do ponto sul da Linha de Tordesilhas. – Agradecido, senhor Carlos. Sempre o professor dando a lição por inteiro para não restarem dúvidas! E agora, se me dão licença, vou às compras... – Sim, ó Doni. Vá lá, vá – concorda Henrique. – Carlos, Carlos, meu amigo, o Doni adora você só de ouvir a história que as cartilhas dos acadêmicos empantufados não contam – anota Eleonora.

O moço do balcão puxa um copo e verte nele uma boa porção de branquinha São Francisco, ato contínuo, enche outro copo, também do tipo americano, com café bem brasileiro. – E então, Possidônio... O pernambucano tira do ombro uma grande sacola de pano contendo produtos domésticos e coloca junto do balcão. – Olha, aqui estou eu. – Tem visita na chácara. O professor passou por aqui... – Gente do bem, pessoa boa. Estão lá a discutir o mundo, a filosofar. – Êta cabra bom, vai virar intelectual. E isso de filosofar dá grana? – Filosofar é buscar ideias novas para a educação, para a vida, ó Pedrito. Sem essa gente não teríamos educação, escola. Ele bebe a branquinha de um gole só e começa bebericar lentamente o café. E escuta: – Eu não disse? Vais virar intelectual com essa falação toda lá na chácara!

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Dá de ombros e ri. Aquele dar de ombros faz cócegas na memória de Pedrito. – Ai, de manhã passou por aqui um cara que já foi político, cheio de poder, e uma turma tirou sarro dele. O bar quase veio abaixo só de gargalhada. O que ele fez? Deu de ombros, assim com tu fez agorinha... – Olha aqui, Pedrito – o pernambucano olha-o fixamente –, eles podem tirar sarro, mas é o político corrupto quem ri depois, porque eles vão votar nele ou nos dele, sempre, por não terem opções. Fora do poder, cara, o político dá de ombros, no retorno vai à forra!, é, uma forra que nós pagamos com impostos. Ou melhor: uma farra com prazo agendado. O moço do bar, jovem ainda, com pouca experiência de vida, põe o pano de limpeza no ombro e coça a cabeça sem tirar o boné com a logomarca do bar estampada. Farda é farda. – Tens razão, cabra – concorda ele a matutar no assunto. Talvez nem de todo convencido, mas com a pulga atrás da orelha. – Passa a régua, meu rapaz, no fim do mês eu pago! – anuncia. Os dois batem os punhos em sinal de amizade e o pernambucano deixa o bar.

119 O engraçado é que Henrique demorou a perceber que além dos encantos físicos Eleonora era uma jovem ainda mais atraente intelectualmente. Eu, com um copo de barro cheio de Alvarinho, decidi dar um giro no jardim e beber também mais um pouco de vida. Henrique observa a esposa. Conheceu-a num voo na ponte aérea São Paulo – Rio. Ela quis conhecer a cabine de pilotagem. – Comandante, a professora pediu para visitar o comando da aeronave! – disse a comissária, introduzindo-a no espaço. Durante a brevíssima explicação técnica, Henrique e Eleonora souberam que outra ponte estava estabelecida – a ponte do amor. Estudante de filosofia, mas já formada em história, a jovem estava então numa linha de valorização de conhecimentos no âmbito do professorado universitário federal. Buscou apoio pedagógico na linha de intervenção do professor Agostinho da Silva, o mestre português que ajudou a inovar a universidade brasileira com a utopia do possível. Apaixonados, o aviador e a professora juntaram os trapinhos em menos de um ano. – Eu e você, sem filhos – quis ele. O que ela aceitou prontamente. Filhos nunca estiveram nem nos seus sonhos. – Estar com você e ser feliz. É o que me importa – disse. As divergências em alguns assuntos nunca levaram a discussão histérica, como acontecia com a maioria dos casais amigos e vizinhos, por isso, Henrique nunca adentrou a área profissional dela e residia aí o fato de às vezes não se situar em alguma conversa mais intelectualizada. Contemporânea de mestres como Ab´Sáber, Silva e Schenberg, ela soube captar os saberes para se transformar numa mestra de altas qualificações acadêmicas, principalmente na sua passagem por Bologna. – Eu não sou a mestra de pantufas que só tem a academia como foco, eu sou a mestra que escuta a sociedade, interage – respondeu quase rispidamente a Henrique, quando ele a abordou por causa de uma saída noturna para um sarau cultural num bairro de Guarulhos, perto do aeroporto internacional. Foi a primeira e única cacetada. Ele entendeu que teria de aprender a conviver com a acadêmica e a cidadã, e passou a acompanhála, a ler outros mundos além do saguão do aeroporto ou da cabine do avião. – Quase perdi você, lembra? Apanhada de surpresa, ela fixa-o. Tem nas mãos um fax-simile de poemas românticos de Camões e outro da Carta de Brugges, do Infante das 7 Partidas, que quer mostrar a Carlos. E ele continua. – Olha, escutei naquela noite que você era uma acadêmica sem pantufas, uma cidadã... Ela ri, lembra. – É verdade. Mas nunca sonhei sequer em romper por causa disso. O meu amor por você iria superar a encrenca! – Eu não fiquei com tanta certeza, borrei-me de medo. Foi como quando encontramos o Doni, lá em Embu, que ainda não era Embu das Artes. Você ficou com receio do retirante nordestino e eu amei na hora. Depois de uma conversa com suco de uva você também se apaixonou pelo cabra pernambucano, e ele está conosco até hoje, quase um anjo da guarda. O pior foi quando me apresentou o Carlos... Um intelectual ferino, pesquisador, bem o seu estilo... Quis morrer. O ciúme mordeu-me, matou-me lentamente, até que na primeira conversa com ele conheci um amigo, não por acaso, também amigo da minha mulher! Eh, estava a olhar você, a beber toda essa beleza, e dei-me conta de algumas barbaridades que quase cometi... – Oh, meu aviador maluquinho... – Ela aproxima-se e senta no colo dele como aeronave em aterrisagem. Deixo o jardim e ao retornar à saleta presencio um quadro familiar, amorosamente familiar, e dou um passo atrás. Escuto que Doni acaba de chegar lá pelo lado da cozinha e vou ter com ele.

Parte 5 119


O meio da tarde chega com vento e chuvisco, um molha e não molha que irrita as pessoas, mas isso não ameniza o calor infernal, a umidade de mais um verão tropical que nos castiga impiedosamente. Numa das aberturas, o sol a querer romper algumas nuvens carregadas, a área entre a igreja e o terminal rodoviário recebe mais gente. A troca de turnos em fábricas e serviços faz abrir portas para trabalhadores correrem para os ônibus, porque a maioria trabalha longe da vila. Pelo bar passam alguns para um lanche rápido, outros que chegam conversam na entrada, põem a conversa em dia. – Quiseram uma vez, e não deu certo, queremos agora, e está tudo em banho-maria porque os políticos não se entendem em Brasília. Será que um dia teremos voz? – diz uma mulher, uma das raras mulheres a dar a cara na política local. Estão na entrada do escritório, e ela é uma comerciante de meia idade em conversa com um casal e um cara que também vive o samba nas veias. – Olhe, vizinha – fala o homem, alto e forte, chinelos, bermuda jeans, camiseta –, eu sei que temos de tentar, sempre. Tudo o que fizermos para sairmos da tutela da administração de Cotia vai ser bom para nós, e ainda vamos ganhar gente com novos empreendimentos, comércio e indústria que não polui. – Eu vejo tudo como ela: a gente tenta, tenta, tenta, mas a vila não sai do lugar, temos até que fazer do bar o nosso escritório para sabermos quem é quem na emancipação! – diz a mulher dele, mais vistosa em trajes de boutique urbana. Mais uma vez na ordem do dia, a emancipação de Caucaia do Alto, de distrito de Cotia para municipalidade, mexe com os brios de muita gente. Olhar esta região de mananciais é enxergar mais de 100 km2 de área e cerca de 50.000 habitantes, pelo que o distrito há muito que deveria ter sido emancipado, mas as manobras do ´coronéis´ locais e cotianos impediram. Agora, mais uma tentativa está esbarrando nas burocracias em que o Brasil chafurda desde sempre. – Oi, gente – saúda mais um homem do samba que chega ao grupo. Bermuda de surfista, camiseta e sapatos sociais, homem forte, de caminhar lento. Com ele está outro, idoso, homem de serviços de larga experiência e conhecimento quanto baste sobre Cotia e região. – E ocê – aproveita a comerciante –, ocê, que está na frente desta coisa: a emancipação sai ou não sai?! – Temos tudo pronto, mas temos que aguardar a tramitação da federação para o estado, porque é o legislativo estadual que vai estudar e decidir quais regiões serão emancipadas (e olhem, foi publicado até um livro com a nossa história para ajudar a entender o que somos...). Então, será feito um plebiscito aqui para o povo dizer sim ou não. O grupo sacode a cabeça, percebe que a falação é perda de tempo. O último a chegar, diz: – O que temos escutado das pessoas é que vindo a ordem para o plebiscito teremos cerca de 90% de sim. É que agora nós temos comércio, temos indústria, e se não emanciparmos, a administração política de Cotia não dará conta sequer das prioridades urbanas de Caucaia do Alto. – Também, é preciso que as pessoas daqui se esforcem mais, promovam debates nas famílias, nos bairros, porque é preciso mostrar que a população está ativa pela emancipação – opina o idoso. E continua: – Se os políticos lá de Cotia percebem que a gente daqui baixou a guarda, mandam os capangas (e todos eles são informantes pagos na folha, da Prefeitura ou da Câmara) para minar o ânimo, dizer que Caucaia não sobrevive sem Cotia, e por aí vai... Querem apostar que já sabem que estamos aqui a debater a emancipação? O bate-papo corre enquanto o centro da vila se anima com mais gente chegando e desembarcando dos ônibus e lotações. É gente de todo o Brasil. A região não abriga mais e só as famílias portuguesas d´antanho, é uma colcha de retalhos sociais e culturais desta nação continental unida pela língua dos colonizadores, e mesmo esta a sofrer as alterações afro-americanas que aquelas circunstâncias impõem. Na verdade, o velho greco-latino deu lugar a muito afro-tupi-guarani e neste campo novo da linguística fala-se, sim, brasileiro e não português, da mesma sorte que as línguas nativas de angolanos, moçambicanos, etc., voltam a circular apesar do português ´oficial´ das instituições de precária lusofonia. Tradições religiosas e sociais são até resguardadas familiarmente. Não é que a inquisição continue solta, é que as velhas famílias quiseram preservar a sua sorte, a sua fé. Em um dos barzinhos do centro, uma fachada reconhecida há mais de 40 anos, uma família utiliza o espaço para, uma vez por ano, dias antes da principal procissão do calendário cristão caucaiano, lavar o santo que santifica tanto a família quanto o negócio; judeus fazem o mesmo com as suas tradições, evangélicos também, islâmicos se viram para Meca e budistas incensam a região, enquanto adeptos de Confúcio mostram a fé com o trabalho humanizador, como aquele chamado pelo batuque do terreiro

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d´África. E há quem, por aqui, tenha apenas fé em si. É verdade, todas as pessoas procuram paz e não interessa como.

Parte 6 O grupo fala dele como o terrível, e tem motivos de sobra para temer as suas reações violentas. Ele pode ver tudo e ficar indiferente, mas ver policial deixa-o em estado de histeria, o corpo como que a implodir. Se algum policial interfere na ação em curso ele não quer saber do grupo, da segurança, manda bala até ver o sangue jorrar, o corpo na terra. Depois, destrói a arma, sempre um Revolver 38, e troca de munição. – Podem me apanhar na rua, mas não com a arma! – costume dizer. Aprendeu essa manha com uma dupla de baianos da mata, matadores habituados a serem apanhados para serem liberados por falta de provas e continuarem a saga bandoleira. Entretanto, tem preferência pela espingarda de 32, cano duplo, e pela faca-de-mola; gosta da luta corpo a corpo e dá uma cabritada para nunca ficar fora de briga. Apesar da juventude ele é bode velho nos meandros da sobrevivência fora da lei. Mas, o terrível não é mais o mesmo. Calma, tenham calma... É que desde a noite de São João em que foi com a turma abordar e dar medo à moça do Alto do Moura, ele passou a ficar mais só, e já o viram a falar para ele mesmo, alma perdida. – É que ele odeia mexer com mulheres e nem deixa que a gente toque nelas! Até parece veadinho assustado com a barba do bode...! – diz um dos comparsas, de meia idade. Estão nos cafundós do agreste, mas têm uma cabana rústica de pastor como ponto de encontro. – Nóis pode abordar, pode xingar, mas não atacar mulher. Olhem, quando nóis ataca mulher vem logo à cuca o retrato da nossa mãe, e isso num é bom, num é bom!, que num deixa nóis trabalhar direito... – costume ele advertir o bando. E até o mais velho concorda com ele, embora goste de se enfiar nas coxas de alguma mais acabritada e a querer tesão de bode, e assim o diz. E a moça é de tanta lindeza que machuca eu, e assim tão como minha mãe (ai, que padinho Ciço a tenha), que era como aquela nossa senhora dos retratos. A boniteza dela é como a dos meus sonhos. Quando a olho só vejo ela, e tremo, e quase nem falo o que tenho que falar..., matuta ele a poucos metros da pequena fogueira onde o bando bebe cachaça e mordisca espeto de carne de bode. Faz uns meses que ele, entre um roubo e outro, ou no contrabando, vive a angústia de ter a mulher dos sonhos tão perto e tão longe. Decidiu até alugar um quartinho de fundos no centro da cidade só para ficar com as suas coisas e pensamentos. O quartinho é tão rústico quanto a cabana que tomou de um sitiante a volante. Uma cama, um radinho de pilha, uma cómoda com dois gavetões, um banheiro minúsculo com chuveiro. Gosta de se esticar na cama a escutar os comentários radiofônicos sobre futebol e, sendo o horário, embala a sua fé escutando o terço. Na festança junina viu que alguns fotógrafos registravam os diversos eventos que sucediam no Alto do Moura. No dia seguinte, diante de um fotógrafo boquiaberto, exigiu: – Quero ver os retratos, quero ver uma moça...! – e fechou a porta do estúdio, o 38 no cinto a fazer obedecer a vítima. O homem sossegou ao verificar que não era assalto. E mostrou sequências de fotos na tela do computador. – Esta, e esta, e mais esta. Ah, ocê faz só o rosto dela, assim..., só o rosto, maior – ordenou, a enquadrar a imagem com as mãos. – Sim, pode vir apanhar amanhã... – disse o fotógrafo. Sob o olhar fatal do jovem bandoleiro logo percebeu a diferença de cliente. – Eu conheço tu, tu já andou a comprar coisa nossa. Nem tenta abrir o berro, que eu queimo tu! Tu vai fazer isso agorinha mesmo, cabra! – escutou. E fez. E assim, das suas coisas que vivificam o quartinho de fundos uma delas é o rosto lindo de uma jovem mulher, em foto grande protegida entre dois vidros, ali adorada como deusa. E adormece com o olhar nela, o seu sonho vivo. Não conta cabritinhos, percebe na imagem a sensação da deusa que se move para ele encantando o sono. Enquanto dormia ainda lá na cabana, olhava a lua e inventou até uma oração para ela, tornou-a deusa dos seus sonhos, e agora, no quartinho, passou um tempo a resmungar por não poder ver a lua e incensá-la, até ter a sua própria deusa... As circunstâncias constroem deuses e deusas para o amor e para a guerra, narrações tão oníricas a beirar o patético que até a realidade cotidiana parece um desfile carnavalesco em terreiro existencialista. O que importa é que ora mim está com ela, só ela..., pensa, o olhar babando sob aquela imagem de grande carga sensual. – Ei, cabra! – Hum... – Ele sai da sua viagem onírica com o grito do chefe. – Vamos dividir as tarefas! Nisso o chefe é o chefe. Conhece o agreste como a palma das mãos, cada vereda é um canal de fuga ou um álibi na aproximação de policiais. Mais de uma dezena de pequenos ranchos servem de doca para guardar e distribuir mercadoria. Mas, nenhum deles sabe onde reside o chefe, imaginam apenas que tem casa em Caruaru.

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A pobreza histórica dos povos da região tem a ver com a invenção da superioridade das elites e estas reinventam a sua territorialidade em cada era que chega, sejam elas a da sociedade assumida como lei, ou a da chefia dos fora da lei; neste caso, o território não é uma invenção, mas um dado concreto marcado a submissão e sangue. Nos fogos abertos pelo agreste adentro as famílias são meros pontos de resistência que se beneficiam, ora da caridade hipócrita dos políticos e religiosos ora da mão aberta dos bandoleiros, e mais destes. Quem não cumpre é expulso sem dó nem piedade. O chefe determina a tarefa e a composição dos grupos, sempre de três. Se a tarefa é de envergadura, juntam-se dois grupos e mais um para a segurança na proximidade e logística de fuga. – Temos carregamento de tabaco deixado em Aldeota pela turma do porto de Fortaleza. De lá vamos para o nosso cais no Recife. Duas camionetas com placa fria vão estar lá no armazém e como a viagem é longa quero dois batedores em moto com distância de dez minutos entre si e também das camionetas. Nada de fone celular, toda a comunicação deve ser feita via rádio e as paradas nas gasolineiras contratadas, e no principal posto policial alguém estará de aviso para evitar alguma blitz não mencionada no despacho do comando. Vamos sair de Caruaru às duas horas da manhã para podermos depois atravessar a rodovia com sossego. – E as armas? A maconha? – questiona um dos homens o chefe, estranhando a operação com tabaco. – Lasqueira... Eu tirei ocê da família retirante e sem porra na vida, menininho fudido e pra ser desmamado pela vida, lá nos canfundó de Orocó e criei ocê pra ser home, ser cabra macho, não pra ser coisa que vive de pó... Essa num é nossa praia, podemos inté ser mula, mas só às vezes e com grana boa à vista! Tabaco, quando taxado alto, é mais que ouro pra nóis. Toma jeito orocó, toma jeito! – responde o chefe. E escuta o mesmo homem, que aparenta uns trinta e poucos anos, alto e forte, branco, cabelo cortado rente e um ar de ingenuidade utilitária que confrange: – Eu queria ser só mula e carregar essa pasta d´oiro, ora, tô cheio de graninha que só paga a pinga e mal acende a nossa fogueira, nem paga a ida à puta... Estão ao redor da fogueira. Uns de pé e outros sentados no chão de terra batida. – Ah, quero todos bem penteados e barbas feitas, ou aparadas – remata o chefe olhando um por um e sem responder à questão colocada. – Ei, ouviram o que tinham de ouvir – diz o terrível – e como a viagem é longa, vamos nos encontrar na saída de Caruaru no horário agendado. Nóis num escolhe, nóis faz!... E outra coisa, ô xente: nada de enfrentamento com policiais – termina de olho no resto do bando. O terrível é o braço direito ideal do chefe. Antes dele, só trapalhões. Um dos dispositivos de segurança lançados por ele foi impedir a utilização de armas automáticas. – Temos que ter a certeza do que fazemos. Nóis tem bala, tem, mas é só para a precisão, num é festa! Uma faca e um 38, ou uma dois canos curtos, é tudo que precisamos. Que padinho Ciço nos proteja... – e assim se fez e é imprescindível. Apagam a fogueira e logo motos (“Aqui, no mato, só motos”, uma das ordens cumpridas à risca) cruzam o agreste. Quem discorda se cala, pois, dentro do grupo a lei é morrer de pé, abandonar morto.

Parte 7 Sampa é uma cidade e uma metrópole. Pulsa em vários ritmos sociais e econômicos. E nela está o quadro maior da migração, além de ter em si a representação do mundo. – Olha, um investigador policial de conchavo com uma ficante, jovem estudante a prostituir-se gratuitamente, agrediu e torturou um comerciante exigindo que ele devolvesse o dinheiro de um tapete adquirido por ela. O abuso de autoridade foi flagrado por câmeras que registraram tudo e as imagens foram parar nos noticiários de televisão. Paralelamente, os mesmos noticiários exibiram documentos que comprovariam o beneficiamento ilícito de um ex-presidente da república na aquisição de imóveis, embora ele se defenda dizendo nada ter a ver com o assunto. A corrupção institucionalizada lançou o Brasil num beco político sem saída... – ...saída tem, é só varrer essa gente que se diz democrática mas está aí só para levar a grana dos impostos e a dos grandes negócios feitos na estatais! – escuto. Estamos no velho bairro do Brás e nos deliciamos com suco de frutas amazônicas depois de uma pesquisa longa em documentos judaicos e portugueses acerca de personagens quinhentistas que fizeram acontecer a economia liberal por aqui. E continuo: – Confundem a res publica com o cofre aberto do erário público e nem se incomodam sequer em destruir pistas do roubo! O meu amigo, velho companheiro de andanças socioculturais, coça a cabeleira branca, solta um pum necessário para se aguentar nos trinques, e diz: – Parece-me que o povo não quer saber de tão corrompido que está!

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Estamos no meio de gente que o Brasil se habituou, por ignorância, a chamar de turco, gente mascate, mas também têxtil e gráfica –, gente que fez e faz o Brasil acontecer. Perto de nós, uma criança balança um boneco inflável do tal ex-presidente pintado de presidiário e que ora está sob a mira da justiça. Não é possível não rir da caricatura política e social, miniatura daquela que levantaram em frente ao congresso, em Brasília, nas últimas grandes manifestações públicas contra a corrupção. Mas, na Sampa o boneco está por toda a parte e sujeito à alfinetada dos amiguinhos do cara. – Olhar aquela figura fantasiada de presidiária é vislumbrar possibilidades de alterar o processo da cultura da corrupção, pois, o povo nas ruas já pede afastamento da presidente Dilma, a tal que pedala socialmente na direção dos humildes, ora, ora – digo e aponto –, e olha que estamos aqui num bairro de gente que trabalha duro! – E de muito trabalho escravo... Ele não perde a oportunidade para relacionar o que de ruim vem balançando a Sampa, e também na região carioca. – Sim, eu sei. Nos têxteis e nas confecções há nordestinos e chilenos e bolivianos, e outros, gente feita escrava enquanto empresários e estilistas ganham fortunas com a moda de vestuário e calçado, mas também temos empresariado que não admite isso! – Raro, raríssimo! Ele olha-me de alto e baixo, vê-me a coçar a barbicha, e atira novamente: – A maioria apoia a corrupção e a escravidão, porque não sabe viver em liberdade, nem quer aprender... E você acha que o narcotráfico e os políticos que vendem e trocam partidos não são tudo a mesma coisa? É nessa gente que a maioria vota e quanto mais bandida a gente mais voto leva. E isto tem jeito...?

* Sertão pernambucano. Incumbido pelo chefe de fazer a ligação com outros grupos aliados para a distribuição e venda do tabaco traficado, o terrível está em Orocó, a ponta entre Pernambuco e a Bahia com acesso ao Velho Chico. – O que vem de nóis é o que nóis conseguimos com a margem de lucro acertada desde sempre! Um casal de meia idade escuta-o. E ela diz: – Tudo bem, mas na próxima queremos mais, ou vamos negociar diretamente com os cabras de Fortaleza. Ora, somos nós, meu menino – ela enfatiza o meu menino e vê contrariedade no semblante dele –, quem enfrenta as dificuldades no Rio São Francisco e não vocês, somos nós que pagamos a propina dos policiais... – Lindo, simplesmente lindo – corta friamente. – E nóis faz tudo acontecer pra ocês ter o negócio limpo, incluindo a porcentagem. Nóis coloca a cabeça a prêmio e corta o agreste, e outras vezes vamos por mar ou por rio, e ocês estão aqui no bem bão só no aguardo. Olhem, depois de amanhã queremos tudo pronto no horário de sempre! O casal olha-o dar meia volta sem se despedir. – O rapaz parece que vai fazer a transposição do Velho Chico... – diz ela, enquanto o marido se mantém em silêncio. Sem o terrível na visão, ele diz: – É melhor não dar campo para o rapaz se irritar. Temos de falar com o chefe, e só com o chefe, quando se trata de acordos. Se ele veio só é porque o trato é o mesmo para este negócio... Há uma preocupação visível na fala e nos gestos dele. – Eu sei do que ele pode e sabe fazer e não quero esse tipo de problemas por aqui. Chamar a atenção da chefia policial é o pior negócio! Enquanto isso, saindo de Orocó, o terrível dirige um carro esportivo inglês de pequeno porte e veloz, o velho mini redesenhado e moderninho. Ai, quem pensa essa mulherzinha que é para falar assim comigo!?, matuta, vermelho de raiva, os dedos crispados no volante. *

– E estes turcos, como dizem, são gente de bem, mas aprenderam rapidamente com os nossos políticos a corromper... – dispara o meu amigo.

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Eu dou uma risada e emendo: – Na verdade, os turcos são parte da matriz árabe que está no sangue dos ibéricos, mais nos espanhóis do que nos portugueses, é certo, mas até a língua lusa sofre reflexos da cultura árabe. – Ora pois, e por isso este Brasil é o que é! – Bem, este Brasil também aprendeu muito com os outros povos que aqui vieram buscar abrigo – ah, e olha os japoneses..., se se analisar bem, temos um Brasil antes e um Brasil depois da Cooperativa Agrícola Cotia, pois, se o Morgado de Mateus capitaneou os paulistas para serem o foco da nação que já emergia, e o Barão de Mauá consolidou essa nervura psicológica, os japoneses criaram a indústria hortifrutigranjeira que fez a nação ir além de si mesma! E assim ficamos a saborear a paisagem multirracial e cultural que marca o Brás, o bairro que recebe o Brasil e, em artes de moderna operação de mascates sofisticados, o faz levar a moda popular de loja em loja, de feira em feira. De tantos recortes de helanca levados do sul para o agreste inventaram até a sulanca, a feira das bandas de Santa Cruz do Capibaribe, que vende vestuário feito de poliamida, um fio de boa elasticidade. E como a sulanca outras variantes mercantis. Um modo de economia liberal que vai ao quinhentos buscar a raiz cultural. A harmonia racial e sociocultural de migrantes e imigrantes marca não apenas o Brás, marca a nação e permite-lhe convocar o mundo para reflexões antropológicas que urgem em meio às guerras regionais de poder acaudilhado e místico; não que o racismo e xenofobia não existam, existem, sim, mas o espaço continental ajudou e ajuda a pacificar ânimos e extremismos pela certeza que todas as comunidades precisam coexistir. Da região de chácaras e parada entre a Sé e o bairro da Penha, o Brás ganhou desenvolvimento social e mercantil abrigando levas de italianos na neocolonização de São Paulo na época do apogeu cafeeiro e já envolvendo-se com a indústria confeccionista... – Oi, professor! Volto-me e dou com a esposa de um amigo carioca, fotógrafo e serigrafista. – Ah, Carolina... O que fazes aqui, tão longe da praia do Leblon?! Aproveito e apresento-a ao meu amigo. Ela aponta para um grupo de senhoras que entra num restaurante a poucos metros. – Vim aqui com elas para comprar material que vamos utilizar numa série de ensaios artísticos em várias escolas, lá no Rio. Ah, vou abusar da sua presença providencial... Elas perguntaram-me acerca da história deste bairro, o senhor poderia situá-las? Meu amigo dá uma gargalhada e ela faz eco. Ele paga o lanche no balcão do barzinho e dirigimo-nos para o restaurante. É um grupo de oito professoras de artes visuais e música, contando com ela, Carolina. Juntaram três mesas e logo... – Aqui viveu o ruralista português José Brás que mandou erigir a igreja em honra do Bom Jesus de Matosinhos (ah, Matosinhos, uma velha região piscatória a norte do Porto), e entre a chácara dele e a igreja nasceu o povoado que leva o seu nome. E aí começaram a acontecer procissões pela estrada da Penha até à Sé, o marco-zero paulistano. Se vocês acham que as inundações de hoje na região central paulista são coisa do asfaltamento da urbe, nada disso, já naquela época do oitocentos o rio Tamanduataí enchia as várzeas o que, aliás, os jesuítas noticiavam no quinhentos em suas crônicas. Também, do Brás se seguia para o Vale do Paraíba e o Rio. Bom, ainda no oitocentos o Brás modernizou-se e ganhou estação ferroviária da malha que ligava ao antigo sertão guarani – estação que recebeu, do porto de Santos, os italianos e, depois, os japoneses, e aqui foi construída a hospedaria que hoje nos conta a história dessa odisseia social. Em meados do novecentos eis que os retirantes nordestinos tomaram o pedaço como seu e se misturaram a italianos e japoneses, o que mostra como São Paulo deu continuidade à sua construção multicultural. E se vocês, minhas caras, estão aqui agora é porque o Brás transformou-se em polo de confecções no eixo têxtil da moda popular com muito tecido e estampa serigrafada e hoje digitalmente sublimada, ou termotransferida (bem, nisso o cara metade da Carolina é o entendido, perguntem para ele lá no Rio). Escuto alguns uau! e palmas. Percebo que ficaram satisfeitas com a explanação. E questiono: – Cadê o cafezinho a que fiz jus?! – Sem querer abusar, professor – uma delas levanta a mão e prossegue –, foi daqui que saiu o nome sulanca, aquela feira nordestina de roupas? – Sim, a helanca comprada no sul, daí sulanca. Eu e o amigo tomamos o café e deixamos o grupo se deliciando com o sempre gostoso virado à paulista e suco de laranja. Sinto-me bem. Hum, como é bom poder repassar conhecimentos que os manuais escolares não registram... Aliás, tirar as pessoas do comodismo que é o algo-dito e educacionalmente consumido como verdadeiro entre estórias de cunho nacionalista sem base pedagógica, é sempre um desafio e um bom combate!

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Parte 8 Que utopia é esta? Um ex ministro da Justiça tece considerações acerca dos métodos de pesquisa judicial de Carl Schmitt, um jurista que participou dos ideários nacional-socialistas na Alemanha, e o faz para atacar o juiz brasileiro que mandou agora um ex presidente depor na condição coercitiva, para evitar tumultos e ter a certeza de que liminares politizadas o impedissem disso, como já havia acontecido. Comparar as ações judiciárias do juiz Sérgio Moro aos métodos extorsionários do nazismo e esquecer, por exemplo, os mesmos métodos fascistas aplicados pelos soviéticos, isso sim, é ter uma ação parcial e partidária, porque o Brasil tem instituições de Direito funcionando e Moro encabeça uma operação de mãos limpas contra a corrupção em que o partido daquele ex ministro e daquele ex presidente enfiaram a dignidade do Povo brasileiro... – Combater a corrupção política numa sociedade democratizada, pelo menos institucionalmente, implica em ações que algumas pessoas julgam ferir a liberdade de defesa e de expressão – escuto um velho amigo e advogado do outro lado da linha do telefone. Na minha frente, e avisado por ele, aparece na telinha do computador a entrevista do ex ministro acerca da bomba política que foi a detenção temporária do ex presidente. E não resisto: – Até o populismo estalinizado que grassa hoje entre sul-americanos, que é o mesmo nacional-socialista que o getulismo utilizou no Estado Novo, e o mesmo fez Salazar na lusa terrinha, é um populismo de ciclo curto, pois, não é possível enganar com o consumismo político-mercantil todo um povo a toda a hora, sendo que a base dos apoios governamentais está no enfraquecimento das empresas estatais e destas ainda retiram benefícios que corrompem meia sociedade empresarial. O que esse ex ministro e os juristas acadêmicos de plantão (escutei ontem alguns na televisão), eh, o que eles querem? Que a corrupção à lá URSS passe em branco e a corrupção à la Capital seja demonizada? Na verdade, cada naco sociopolítico e ideológico se defende... – ...é a polarização ideológica. É verdade. – Sim, mas o que está em jogo é um governo nacional fragilizado por decisões estupidamente erradas e que, em paralelo, paga a conta da corrupção que minou a sociedade. Só que a conta maior é uma fatura que está em nossas mãos: o custo de vida está arrastando muita gente de novo para a miséria... – ...e precisamente muita daquela gente que, como dizes, e bem, muita daquela gente que se beneficiou com o consumismo político-mercantil (compraram carro, casa, bens de consumo em parcelas a perder de vista...) e que agora se vê no inferno de uma realidade quase fatal: pagar as contas como? E de repente, uma ideia. – É quase como a emancipação de Caucaia do Alto. A municipalidade de Cotia não tem como aguentar sequer a manutenção daquele distrito, mas impede que ele vire município só para afundar ainda mais a região e demonstrar que o caciquismo da ditadura eleitoral ainda é um fato a alimentar o ego de algumas famílias que se julgam tradicionais! Preferem a destruição a apoiar o progresso. E assim é que vejo essa gentalha que ataca o juiz Moro, ou seja, gentalha que prefere embrulhar a corrupção numa retórica ideológica para não ser desmascarada no seu populismo doentio e socialmente destruidor! Do outro lado escuto uma gargalhada. – Só você mesmo para uma análise dessas...! Mas está certo. É uma questão ideológica o que está em jogo, e a magistratura terá que continuar a comandar o processo contra a corrupção como vem fazendo até aqui, do mesmo jeito que terá de organizar o processo de emancipação de regiões que já deveriam ser município por capacidade própria demonstrada, e não contribuem para o progresso do país por estarem impedidas de o fazer. E essa Caucaia do Alto é um exemplo do que deveria ser uma cidade ecossocial e turística pela sua paisagem rural e a sua gente... – É, vejo que entendeu a questão. – Olhe, vou me aprofundar sobre essa questão da região autônoma caucaiana, como você diz, mas agora urge evitar que utopias falhas levem o Brasil para confrontos extremados, perigosos. – Sim, é o mais urgente! Já escuto tambores clamando turbas...

Duas horas depois, encontro Eleonora e Henrique que coordenam um grupo de advocacia e professorado, músicos e poetas. Estão na porta da empresa de um amigo comum. – Aquela gotinha de vinho do Porto já está por aqui?... – diz Henrique, gozando e cumprimentando ao mesmo tempo. Havíamos decidido por um encontro de fim de tarde no pequeno mas confortável auditório de uma empresa de assessoria jurídica. Aqui podemos fazer o sarau à vontade, dissera Guilherme, o advogado amigo. Jovem, filho de galegos e nascido em Tuy, é um apreciador dos debates filosóficos que promovemos.

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– Por que será que quando se fala de Justiça apenas se considera culpabilidade e castigo?, raramente se acha o caminho da Justiça Social para sociabilizar, integrar, ou, como vem fazendo o juiz Moro, reintegrar o roubado ao Erário Público e expor as políticas mascaradas de povo com o povo e para o povo... Guilherme abre os trabalhos em grande estilo enquanto Henrique tira a rolha de um Porto e verte uns goles generosos em pequenos copos de cristal. – É só para animar a malta, pá! – adverte com sotaque lusitano. Uma das paredes não suporta quadros nem estantes, está pintada de branco fosco para receber as imagens de um projetor, quando isso se faz necessário. Mesmo assim, nos cantos estão duas estátuas representando cavaleiros templários. Numa das paredes e entre as estantes uma colunata com um busto de Fernando Pessoa, o bruxo luso esotérico predileto do nosso anfitrião. Observo os cavaleiros aqui perfilados como que de atalaia e sugerindo a mensagem da batalha boa que é preciso batalhar pela vida. Para as pessoas presentes pela primeira vez neste espaço, Guilherme dá uma rápida explicação: – Temos um passado e não o podemos rejeitar, porque ele embasa as nossas decisões, quanto mais não seja no plano espiritual. Aqui reúno maçons e outros esotéricos, mas também anarquistas e outros políticos e místicos, porque é necessário beber de todas as fontes ideológicas. Para mim, ser maçon é estar na vida por um ideal de fraternidade e, de certa maneira, os cavaleiros templários (como poetou o nosso Pessoa) foram parte de um mundo global e mais fraterno... – ...globalmente mercantil, sim, fraternal uma ova... – interrompe Henrique. – Aliás, receberam uma lição de humildade de Saladino, quando ele recuperou Jerusalém. Deixo o meu olhar repousar nas expressões diversas e capto a essência da diversidade cultural. Com uma farta cabeleira branca, um bigode ao estilo Dali, o advogado com o qual havia conversado horas antes ao telefone, dá uma risada e atira: – Saladino impediu uma ditadura mundial ocidental-católica e o banho de sangue inquisitorial imediato, embora que, com menos força mas fatal, tenha chegado ao mundo pelas caravelas ibéricas... – ...e todas as igrejas têm esse ideal: dominar o mundo humano! – conclui Eleonora a indicar com o olhar a representação de Pessoa. – E esse cara aí soube como pouca gente demonstrar isso e de como os próprios templários foram dizimados por essa ditadura mística e monárquica. – Um ideal – digo, após um gole do virtuoso do Douro – que se visualiza na monumentalidade de poder temporal que é o Vaticano e na organização corporativa e transnacional da Maçonaria, sendo que esta incorpora, como fantasia ideológica, o escopo da nomenclatura templária, hoje, mais exotérica do que esotérica, mercê das variantes consumistas da sociedade que representa, tal qual o catolicismo. A fraternidade maçônica é um jogo interno pinçado aqui e ali para alguma comunidade ou pessoa, mas só. E nisso não difere de agremiações como Rotary e Lyons, por exemplo. Pela verdade pode se dizer o seguinte: esse tipo de agremiações é constituído por segmentos da Elite econômica, militar, policial, política, jurídica, empresarial, nelas não se encaixa o Povo... Entretanto, como na Europa, os maçons reinóis (azuis) e o maçons liberais (vermelhos) fizeram da América Latina, e mais a do sul, um campo político de interesses mútuos que só raramente se chocavam, pois... – ...o que estava em jogo era o poder político, econômico e militar! – interrompe Guilherme. – Em tempo: nesse campo já agonizava a monarquia estúpida e absolutista – diz Eleonora sob o parecer favorável do velho advogado, que acena com a cabeça. – Se tivessem tido decoro intelectual, os maçons de então poderiam ter acompanhado a ação de Ana de Alencar em prol da República lá no agreste nordestino, mas estavam mais interessados no umbigo e nas benesses possíveis de uma Monarquia que ainda respirava sob a bota de um imperador não menos estúpido e intolerante. E, meu caro Artur Queiroz – continua ela dirigindo-se ao advogado –, em tudo isto, ou por tudo isto, onde fica a utopia? Ele pousa o copo na mesa, senta-se cruzando as pernas, e responde: – A utopia somos nós, a gente que paga os impostos para os impostores ditarem a lei e a grei debaixo da benção dos místicos! Olhem, aqui ao lado temos uma realidade geopolítica chamada Caucaia do Alto, coisa emblemática da política brasileira: os caciques não se mexem e impedem que a região vire municipalidade, e não se mexem para não perderem espaço de poder. Pior: movimentam os peões e os olheiros pagos pelo Erário Público para manobrarem as massas na consolidação da plataforma eleitoral que os perpetua no poder. Eis o Brasil, Eleonora. – O que fazer? – desabafo eu. – Ah, Duda, fala aí... Musicóloga e pedagoga, Eduarda Coutinho, que carinhosamente temos como Duda, é uma das mais antigas no nosso grupo de debates. – Lembro o seguinte: Induzir por preço algum seja quem for a agir em detrimento dos interesses do Estado. Era a defesa que Platão fazia, seguindo o rito ideológico de Sócrates, contra a corrupção perfilada pelo funcionalismo público. A questão mais premente, historicamente, é que não se faz uma sociedade harmoniosa separando-se os sexos quanto ao Poder, e quando (e concordo com Jesus, o cristo que se fazia acompanhar por mulheres contrariando as leis religiosas da sua época e elevando-as à condição de sacerdotisas, como no caso de Madalena, sua companheira), dizia, e quando o homem e a mulher não constroem juntos o Estado igualitário nada funciona, tudo gira em torno da

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corrupção que criminaliza e faz a guerra contra todos os cânticos d´amor que os nossos poetas escrevam e cantem! – E vejam a situação: nem as igrejas nem os grêmios esotéricos têm a mulher nos seus rituais, e isso desde quase sempre, o que determinou um Estado patronal e não um Estado de políticas igualitárias para a Justiça Social – observa Guilherme, que tem precisamente nessa falha a sua crítica aos maçons.

Vós que lá do vosso império prometeis um mundo novo, calai-vos, que pode o povo qu'rer um mundo novo a sério. Cito o velho e sempre presente poema de Aleixo, o poeta popular português que engrandeceu as gerações do novecentos com o realismo sociopolítico. E digo: – Nenhum poeta foi tão longe na observação política feita mensagem em humanismo crítico como Aleixo. Parte da turma, ou já esqueceu que eu li a quadra pelo menos duas vezes publicamente, ou continua de queixo caído com a alethea que inunda cada verso. – Puxa, o povo sabe dizer as coisas quando quer! – exclama Duda. – A sensibilidade dos poetas marca a sociedade, porque – observa Henrique – sabem recriar a busca da verdade (essa alethea do filósofo Sócrates). Ah, engraçado... O juiz Moro (ou o Ministério Público, não sei), nomeou uma das operações contra a corrupção com a palavra alethea... – Nada mais autêntico, e por isso a cambada de congressistas que temos no Brasil começou a berrar alegando excessos do juiz e coisa e tal. Achavam que era só sacrificar a gente com impostos e mais impostos, inflação e o diabo a quatro, sem que a lei chegasse ao palanque legislativo e executivo, e mesmo aos ex poderosos como o Lula e vários dos seus ministros! De pança cheia, como diz o Carlos, pensaram que a corrupção institucional nunca seria desvendada... – ...desvendada, analisada e punida – considero eu. – E se o povo acordar para a realidade vai mesmo é querer um mundo novo a sério! Camiñante, no hay camiño, se hace camiño al andar. – Já que estamos na citação de verdadeiros poetas imortais, lembro estes dois versos de Antônio Machado para aguçar mais o nosso sarau – diz Eleonora, deixando Guilherme com um largo sorriso no rosto.

Parte 9 Habituamo-nos a construir um tempo para o espaço que ocupamos, espaço este onde exibimos o que somos. Com a arte figurativa alimentamos o desejo de ser o algo além do animal e preenchemos o vazio existencial que o desconhecido cósmico provoca em nossa mente de maneira surreal, mas na maioria das vezes ostentando a nossa impotência como grãos na poeira carbônica que nos rodeia. – A bisa dizia que o Ipojuca não era um rio, era o leito da vida que queríamos fazer e mostrar – lembra Luiza. Está com duas crianças e a mãe delas. O sol do meio da manhã queima, parece uma lâmina tirada da forja do ferreiro. – Está cada vez mais difícil apanhar o barro bom para fazer as figurações. Acho que a tua bisavó ia morrer só de ver o Ipojuca despojado d´argila... – Ai, a minha bisa respirava barro, ah..., não qualquer barro – emenda ela, rápida e rindo –, porque tinha que extrair o barro fraco e mais o barro que ela dizia ser o barro médio, e era amassando este com o outro que ela moldava as suas representações. Agora, diz se argila plástica as porções que tiramos do barro médio. É verdade: o Ipojuca é uma mina d´argila e d´areia, então, olhe..., daqui a pouco vamos fazer cerâmica com aquela goma de plástico que serve para moldar os bonequinhos dos desenhos animados do cinema! A outra mulher levanta a lembrar de algo e diz: – Isso. Isso mesmo. Como disse aquele (hum, era professor...) professor português, que andou fotografando o nosso Alto do Moura e fez palestra, nê... – Ele mesmo – concorda Luiza. – Foi ele que disse que se não agíssemos logo teríamos que comprar a goma de plástico... Escutamos ele lá no Polo da Moda quando falou da nossa história e comparou ela à

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cerâmica de Portugal. E eu ainda ganhei (pelas perguntas que fiz) um livro dele. E na internet ele tem um livro que fala do Mestre Vitalino e da Cora Coralina. Olha só, que chique, nê! – O problema é que aqui tiram também areia... – ... ah, muita areia! – É um contrabando que somado ao da argila vai minando a nossa vida. As crianças dão boas-vindas a alguém que se aproxima e que conhecem bem. – Oi, ti Cavalcanti – e abraçam o homem de meia idade, franzino e baixo, percebe-se quase careca apesar do boné, enfiado em bermudas coloridas, camiseta estampada com foto do portal do Alto do Moura, chinelos bem gastos. A indumentária habitual do nordestino da periferia urbana. Escutam um buzinaço e veem passar um jipe transformado em jipão para transporte de pessoas e tudo o mais, veículo tão habitual por aqui como o jegue, a bicicleta e a moto-táxi. Abraçado nas crianças é um homem feliz. – Ei, ti Cavalcanti, por que me olha assim...?! Luiza sente-se acuada. Algo lhe diz que ti Cavalcanti não é portador de mensagem boa. A outra mulher puxa as crianças para si e deixa o homem à vontade. Não chove há muito tempo e do rio sobe um cheiro pouco agradável. Não há saneamento básico, ou é precário, e o leito não recebe apenas o que da erosão das rochas resulta naturalmente, também os detritos domésticos. – Ô xente, que fedor o vento traz do rio! – quase grita a mulher. Cavalcanti senta-se num pedaço de tronco de árvore e diz: – Um desses cabras do contrabando, o tal o terrível, foi lá no meu estúdio e exigiu cópia de uma foto tua que tirei na festa junina, ó Luiza! – Só se for pra ele tocar punheta, desgraçado! – berra a mulher, tão surpresa quanto Luiza. – O que quer esse bandido, ti Cavalcanti? – a jovem está impressionada com a revelação. – De onde ele te conhece, garota? – quer saber ele. – Ele e um mais velho, que deve ser o chefe do bando, é que vêm aqui ameaçar depois que descobriram o abaixo-assinado sobre o contrabando d´argila – diz, o susto a ensombrar o seu belo olhar. – Ai, ti Cavalcanti. O que pode ser, me diga ocê que conhece tudo e tá sempre bem a par... – ...olha, garota – corta ele –, tu é linda, muito linda, e pode ser só uma paixão daquelas que o cabra nunca teve. Ou... – ...ou... Ou o quê?! – berra a mulher de novo, impaciente. – Ou, marcaram tu, garota – e logo acrescenta diante do espanto da Luiza –, mas não me parece que seja o caso. Pela fala mansa do cabra a olhar o teu retrato (e levou com moldura de vidro e tudo) é paixão braba. Ele arrasta um jegue por tu, linda! Ai, e quem num arrasta... Cavalcanti é o típico nordestino a arrepiar caminho para vencer na vida e a rejeitar sempre a debandada para os lados paulistas ou cariocas. Sou como o jegue e o bode, vim aqui pra ficar, diz. Homem da comunicação visual, faz da reportagem fotográfica o ganha-pão e de uns anos para cá meteu-se a fazer filmes digitais de batizados e casórios. Fez cursos técnicos profissionais e é um apaixonado pelo jornalismo de investigação, mas só na leitura. Conhece os meandros da malandragem do contrabando e aí consegue material de qualidade a baixo custo. O seu gosto maior está nos concursos de beleza, de fazer os books das mais lindas. – Tu sabes o carinho que todos temos por tu, garota – continua –, se alguém tentar fazer mal a tu não vai viver pra contar. O que eu vi naquela cabra (ei, ora lembro: é o filho do Possidônio. Aquele...) – ... o que que teve a mulher baleada pela polícia lá em Recife? – questiona a mulher em jeito já de acerto. – O mesmo! – concorda. – O que um cara bandido pode querer comigo? O que é isso de tocar punheta com o meu retrato?... – Tu é tão linda, bichinha, que ele não tendo tu vai esfregar o pau babando no retrato que ti Cavalcanti fez. Vai gozar só de ver tu – atira a mulher fazendo rir o fotógrafo. Educada na barra da saia da bisavó e dos avós, Luiza é uma adolescente que vive a juventude na plenitude do lar, e mesmo as turmas em que ingressa rodeiam-na de tal maneira que ela nem percebe as nuances sociais e sexuais que transformam, nem mesmo as gírias. Sem estar deslocada, é uma jovem muito protegida: perto dela, as turmas evitam até palavrões. Preferem tê-la junto, linda e alegre, a vê-la acuada. Solidária, de alma aberta, Luiza é o tipo de jovem mulher que encanta como a primavera trazendo as flores à vida. – A paixão é tanta que o cabra nunca vai se aproximar de ti só pelo medo de te fechares em casa! – diz Cavalcanti. – Faz um ano, ou dois, que recebi carta do Possidônio. Era dele que eu comprava leite. Quando foi embora, comprei dele oito cabras e dois bodes. Vou verificar onde guardei para saber o endereço e escrever. Pode ser que ele dê uma pista de como falar com o filho e assim evitar problemas. Como a vida é... Só agora percebi que aquele olhar duro (parece um raio laser a cortar coisas) é o mesmo do homem do leite! É o Valdeci, que foi aluno na escolinha de seu Etelvino...

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* – A polícia levou o orocó! – Merda! Merda e merda! – grita o terrível. Estão em Fortaleza. Tudo pronto. Quilos e quilos de tabaco estão embarcados em três barcos de pesca de alto mar. E um arsenal de pistolas e espingardas de cano curto, além de explosivo plástico para os bandos de assalto a caixa eletrônico – Têm a noite para descansar, mas não se embebedem nem puxem pó! A grana que ganhamos com este carregamento vai dar para ficarem de cu pra lua por uns meses, por isso, não estraguem a festa – disse o chefe em jeito de advertência. – Como foi, ó lajedo? – Chefe – responde o lajedo, as mãos gesticulando, todo ele suando da corrida para fugir do cerco policial –, fomos às putas e beber umas cervejinhas, mas o orocó meteu-se com uma mina que tinha maconha e ficou fumando na rua ao lado da boate (ocê sabe que ele num suporta som alto...), foi quando a polícia caiu em cima dele e fechou a rua. Eu vi tudo, chefe, e consegui fugir pelos fundos da casa com mais umas notinhas nos peitos da putinha. – Ainda bem que ninguém anda com armas fora das operações. Acho que vai dar para tirá-lo da delegacia. Vou ligar para o advogado. E tu – fala com o terrível, que assiste a tudo com as mãos cruzadas e a mostrar uma vontade louca de bater no comparsa –, tu vai com o lajedo e troca os barcos de doca, só por descarga de consciência... – Já devíamos ter feito cinza do orocó, chefe. Eu avisei que o cabra só quer saber de enricar com o pó que nem deixa ele pensar direito, se é que algum dia usou os miolos! – diz o terrível. E tem como resposta o olhar duro de um chefe que sabe que manda e comanda. – Bem..., ocê é que manda, chefe! – emenda. São sete horas de uma manhã que chega com algum nevoeiro na orla marítima quando o chefe, após horas de conversa e remanejamento de dinheiro vivo diante do advogado e de uma autoridade policial, retorna ao galpão que serve de base. – Prendam o orocó no porão do iate. Quero ele imobilizado – ordena, diante de o terrível e do lajedo. O cabra, largado pela miséria em Orocó e adotado pelo chefe, sente-se um vivomorto. Arrepia-se sob o olhar fuzilador de o terrível. – Gente minha não serve de alcaguete, não!, eu tiro da polícia custe o que custar, e depois mato – sentencia o chefe. E todos sabem que parte da grana obtida no negócio é investida para manter a venda nos olhos da justiça, a bonequinha de luxo que o chefe tanto gosta de adular. Para quê confusão com autoridades se elas gostam é de champanha e caviar?..., costuma dizer. Imobilizado entre caixas com armas e explosivos, orocó sente as horas passarem. O que vão fazer de mim?, pergunta-se, desorientado. Vê que o porão do iate em que o colocaram tem pouca coisa quando o terrível e o chefe lhe tiram as algemas e as tiras de couro que prendiam os braços e as pernas. – O teu castigo, idiota, é levar este barco para lá do Arrecife dos Navios e deixá-lo na nossa Base Cinco. O resto vai nos caminhões. Se tudo der certo, retornas ao grupo – escuta o chefe com perplexidade no olhar. – Eu só conheço Recife, num sei onde é isso que ocê falou aí, chefe! – resmunga. – Ora, é o nome antigo do Recife, idiota! Se sabes onde é a base cinco também sabes onde deves ir!, na entrada do ancoradouro tem uma placa que diz Arrecife dos Navios. Tu não sabes ler? Paguei escola pra tu pra quê!? – impacienta-se o chefe. – Ah, tá... – Nóis vamos para o outro lado do porto e encontramo-nos às dez da noite de amanhã no galpão de sempre – continua o chefe. – Ora, vê se está tudo em ordem no comando do barco... É o que faz orocó com o espírito enquadrado na missão. Salvar a pele e nunca mais falar sequer em maconha é a sua determinação. – Tu tens três minutos para seguir logo que o nosso bote estiver a cem metros – observa o terrível. O chefe e o terrível abandonam o iate e seguem num bote de borracha para outra embarcação. E logo orocó faz a sua embarcação singrar o mar sem perceber que as outras duas retornam para o mesmo cais privado de onde haviam saído. Conduz o pequeno e caro iate Azimut-Benetti mar adentro. “Eu nem sei como agradecer o chefe ter feito de mim um piloto”, disse certa vez num encontro do bando. Aquilo provocou uma longa e sonora gargalhada de todos. “Tirei tu, menininho fudido pela vida e fiz de tu o nosso marujo. Foi um investimento, ó orocó, um investimento!”, escutou do chefe. A viagem é longa, mas sabe que só poderá entrar na Base Cinco às 22h em ponto, oe seja, com paradas estratégicas. Arrecife dos Navios vive uma noite estrelada, limpa. É um piloto experiente, mas a experiência de orocó vale pouco debaixo de uma saraivada de balas de grosso calibre.

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– Merda, que é que é isto?!... – grita, desesperado. Ao entrar na base três homens abriram fogo, e, logo atrás da embarcação, ele viu outra... da polícia. – Me fizeram isca, os filhos da puta! – reconhece, mas não tem tempo nem para rezar: uma bala abre-lhe o cérebro e a embarcação vai de encontro ao paredão do cais. – Tudo certo, chefe. Vá tranquilo, tranquilo – diz o advogado transmitindo a notícia escutada de um oficial da polícia – que o único rastro será um cadáver queimado dentro do barco espatifado. Velho compincha de negociatas, o advogado é a ponte legal dos negócios de contrabando de tabaco e armas, além de fazedor de álibis. – Precisamos de uma isca para despistar o comando policial, chefe – tinha advertido na madrugada. A questão era dar às autoridades material para acabar com as investigações. – Sim, é claro. Uma isca... Eis a isca, doutor! – concordara ele com os olhos em orocó. A imbecilidade de orocó era tal no trato das coisas reais que o chefe viu na isca a oportunidade de se livrar dele de uma vez por todas. E, piloto por piloto, não falta quem faça tudo por um maço de dólares, decidiu-se. O resto foi tratado com o terrível, o seu braço direito. A fama do rapaz de Caruaru é tal que o advogado nem o quer ver por perto e exige que não vá ao seu escritório seja lá para o que for. De resto, este bando é como os outros, diz. *

Nova Jerusalém. A cidade cenográfica montada para representar todos os anos a Paixão de Cristo é um amplo espaço a céu aberto com nove estações-palcos nas quais atore e atrizes de teatro, cinema e televisão, a par de muitos figurantes de Caruaru e região, encenam a odisseia jesuana entre o sermão da Montanha e a Ressurreição. Luzes, efeitos especiais, Nova Jerusalém é um espetáculo, mas também um momento de fé. Uma das habituais participantes é Luiza. – Não sei se este ano vou fazer número lá na Paixão de Cristo... Quem a escutou abriu a boca, arregalou os olhos. Há dias que ela não dorme. Dormita e acorda. Aparece cansada. E não é paixonite, não, pensa o avô, apreensivo. Desde que o repórter fotográfico Cavalcanti noticiou que o rapaz do contrabando ficou de olho... Ai não, um bandido me amando...?!, vem pensando ela, quase no choro. E não dorme. Pior: quase não se alimenta. Pior ainda quando lhe disseram o nome: – Ele é o terrível... – Com a alma sobressaltada, Luiza parece não acreditar que o seu santo Antônio lhe virou as costas. Devota do religioso de Lisboa, ela vê nas lições dele a palavra de Jesus. Sempre que se maquila e veste trajes árabes para encenar a paixão nunca retira a imagem do santo fixa numa correntinha de ouro que lhe circula o pescoço. Em meio à epidemia de dengue, Caruaru recebe milhares de visitantes. Uma procissão de gente brasileira de todos os cantos e, já há alguns anos, também muita gente de outros países. E avançam sobre o Alto do Moura registrando o artesanato e enchendo a pança com carne de bode e boa pinga. Nesta época, Luiza consegue vender mais das suas peças cerâmicas. Deixa-se fotografar modelando ou pintando. A única peça sacra que modela é um pequeno Santo Antônio, o resto são representações de tradições nordestinas, mas não se admite a fazer imagens do cangaço bandido. Não faço publicidade artística de criminosos, diz. – Eu escutei direito?! – Escutou vô, escutou – confirma ela. Ainda incrédulo, questiona: – Minha neta, minha neta, para ti, sim, ir fazer a paixão é como aprofundar a fé cristã, viver em Jesus. Como assim, não sei se vou este ano? – Isso vô, isso! – corta, irritada. – Ando muito confusa e quero estar longe de tudo para poder pensar. – Ora, minha neta, eu sou teu avô, mas também o único ombro em que podes colocar a cabeça para perceber melhor a vida. Ela olha-o. Mais duas pessoas da comunidade e algumas crianças estão por perto. – Eu sei, vô, e te amo por isso. Acho que vou ficar sozinha com o meu santoninho, víu. Em súbito movimento, volta-se e vai para casa. Dois casais alemães e um jornalista argentino aguardam-na. Ela faz isso: entre uma e outra visita sai da olaria para respirar a própria alma. O avô abraça outro idoso que chega pitando em velho cachimbo, mas sem deixar de olhar a neta. Ela está assim desde que o Cavalcanti veio aqui há dias..., raciocina. Sabe agora com quem terá de conversar sobre ela. A alguns metros, as figurações da jovem ceramista encantam visitantes e ela enche-se de força para sobreviver ao terror d´alma que a apoquenta.

Parte 10

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O impacto das delações premiadas junto do ministério público sobre a corrupção corporativa nas empresas estatais brasileiras e partidos de envergadura governamental enche as capas de jornais e revistas, adensa o áudio nas rádios e deixa um ar de perplexidade vazando nas imagens da televisão. As redes sociais, vulgo mensagens livres via rede mundial de computadores, é uma grande manifestação de massas permanente, uma praça alquímica onde a poesia de revolta se incendeia a provocar ondas de política nova no contraponto do pensamento situacionista – e, de repente, tudo salta da telinha para as ruas e praças do Brasil: a máquina partidária-governamental, porém, não consegue nem chegar perto das milhões e milhões de pessoas que dizem não à corrupção. É a maior manifestação política de rua história da República brasileira. Um juiz jovem e destemido é o rosto que o povo elege e dele faz bandeira nacional contra a corrupção, enquanto bonecos infláveis de escárnio representam a presidente e o ex-presidente, seu padrinho, agora sob investigação daquele juiz.

Um dia somos poder no outro nada somos. Quem disse ser quando não está? Eis nos pelo que somos quando profundo saber. Nada somos se o nosso desejo é um vago estar poder!

O braço da lei chega ao palácio governamental e seus aliados, desnuda o poder da corrupção. Um dos coordenadores do executivo no parlamento é preso por ordem do supremo tribunal acusado de tentar obstruir as investigações e, pouco depois, decide contar o que sabe... uma bomba política a arrasar situação e oposição. Poucas vezes o Brasil vai ao mundo de cara limpa, e desta vez o mundo descobre a naçãocontinente enfiada na lama da corrupção. O impacto é grande entre os outros países e o ex-presidente Lula cai no roteiro daquele alguém que um dia foi tudo e nada é agora. Nem lhe adianta dizer-se jararaca e logo posicionar-se como dragão na possibilidade de mostrar que pode lançar fogo em tudo, o dito o imola para nem a história o registrar. A indignação que me assola é pela constatação da perda da utopia – essa profunda alquimia que me vinha pelo saber e que ora sinto perdida. E em verdade vos digo que a minha inquietude é a mesma, mas sei que a realidade sociopolítica não deixa espaços culturais para a manifestação poética. Por isso, o meu refúgio está nos saraus filosóficos enquanto mantenho diálogos com outros pensamentos, outras gentes. Não desisto enquanto a inquietude me for foco de humanismo crítico, construtivo. “o Brasil está em cacos, está. Conseguirá erguer-se, novo, de semelhante desastre? Quantas cabeças vão rolar? E as populações não rolarão junto? Ainda há racionalidade no Brasil? Nas ruas? Nos media? Se a bomba rebenta, que sobra da AL? Obama está e Cuba [...] É o regresso do Baptista que a Revolução Fidel afastou, mas não decapitou? Aliás, quem pode decapitar o grande Poder financeiro global?!” Leio a mensagem quase desesperada do amigo padre Mário de Oliveira, o famoso Mário da Lixa que enfrentou no púlpito a polícia política salazarista. É a sua resposta ao meu questionamento sobre o momento de incertezas que se vive no Brasil. Uma resposta-questionamento e nem poderia ser diferente, pois, na mesma hora a justiça portuguesa prende em Lisboa um foragido da Operação Lava-Jato envolvendo policiais brasileiros, e sabe-se das ligações temerárias entre um ex primeiro-ministro luso e o ex-presidente brasileiro a envolver corrupção corporativa, o que a prisão confirma e dilata em publicidade. A corrupção em Portugal é uma migalha comparada à continental fuga de capitais do Brasil em direção a paraísos fiscais. Passo a mensagem para as turmas e logo recebo uma enxurrada de quês, mas reservo-me para a continuidade do sarau no escritório de Guilherme com bom vinho e à luz de velas. – E então, Carlos, por que esta situação de dúbia identidade brasileira em meio a tanta especulação política?

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Escuto a professora Cristina Jordão, jovem que fez duas teses acadêmicas com base e conteúdos tecnológicos de minha lavra. Ela é convidada dos grupos de debates e vai paparicada pela turma por causa da sua jovialidade e graciosa contadora de piadas. – Desde que a velha sociedade celta construiu as suas vilas (ditas castro e citânia) como centro populacional amurado, como se verifica pelas amostras arqueológicas, principalmente em Portugal e Espanha, as comunidades passaram a ser dirigidas colegialmente pela tríade justiça-defesa-religião, para a época, o que hoje temos como três poderes na democracia. E é daí que vem a Sociedade Castrense – homens e mulheres em defesa de uma Identidade Tribal, ou Nacional. De tal conceito nasceram Portugal e Espanha, e do mesmo se fizeram os Cavaleiros Templários ordem de monges-guerreiros e banqueiros transformada no reino português em Ordem dos Cavaleiros de Cristo. Por isso, a colonização da Ilha do Brasil, ou de Brandão, iniciada em 1342 com o capitão Sancho Brandão, da marinha mercante lusa (documentos no Archivio Segreto Vaticano), e reiniciada em 1500, foi uma ação luso-católica e aqui incorporou aquele estilo político-militar. A formação do Brasil, a partir dos sertões guaranis a oeste da Sam Paolo dos Campi de Piratinin, com importância urbana na administração do Morgado de Mateus, ele mesmo cavaleiro da Ordem de Cristo, só foi possível com o espírito de corpo da Sociedade Castrense e o apoio dos monges milicianos da Ordem de Jesus (jesuítas). Esta é a raiz sociopolítica e militar do Brasil. Quando, em 1964, os militares brasileiros fizeram a quartelada para impor a Ordem na Sociedade estavam certos pela defesa da Nação, mas praticaram posteriormente equívocos sociais e judiciais, que não devem ser provocados novamente. Defendo que as FA´s devem ter, sim, voz ativa nos destinos políticos da Nação para impedir o assalto ideológico às instituições que as próprias FA´s ajudaram a estabelecer em regime democrático. Hoje, que é 2016, a situação não é muito diferente daquela de 1964, mas temos um dado novo: as instituições funcionam, por enquanto. E a Sociedade Castrense sabe disso e fica atenta, analisa, embora não possa ficar omissa: a voz das FA´s neste momento em que o golpismo contra as instituições judiciais está em curso tem de ser escutada pelo Povo. A questão que se coloca não é gritar “militares fora dos quartéis” (já temos uma pseudo Polícia Militar por aí: a PM não é militar, é metropolitana, porque a verdadeira PM está nos e entre quartéis das FA´s...), a questão que se coloca é ter na Sociedade Castrense a barricada necessária para barrar quaisquer tentativas de golpe contra o Brasil e impedir que o bolivarismo soviético se alastre pelo maior celeiro do mundo em meio à corrupção corporativa e política. Diante deste quadro é preciso que o Povo, sim, o Povo, não se distraia com bandeiras de acomodação e diga na rua que é Nação. Precisamos ter presente a mensagem jesuana: Jesus combateu a corrupção das sinagogas e do império romano. Um combate justo e honrado. É isto que o Povo Brasileiro deve ter em mente... – Caramba, carambola – exclama Duda –, nunca tinha pensado nessa questão da PM. E é verdade. É metropolitana mas utiliza o nome “militar”. Guilherme, após dispor copos para a turma, vai vertendo o Philosophia, um vinho da linha Tempos, da vinícola sanroquense Goes, um cabernet franc bem encorpado. – A nós que aqui estamos a bem da humanidade... – brinda. A turma faz tilintar os cristais. – Estamos aqui – continua ele – e ainda temos que escutar o ex-presidente Lula dizer para sindicalistas que a crise econômica do Brasil é culpa da ação judicial contra a corrupção política e empresarial... – ...um político casca grossa, ignorante – corta Eleonora, visivelmente indignada –, que eleito pelo voto popular se achou acima de tudo e das instituições! – O mesmo povo vai colocá-lo no lugar certo – emenda Henrique. – Essa gente, vinda dos confins do sovietismo ditatorial, confunde o Estado com o partido e transforma os gabinetes governamentais em células partidárias. Por isso, quando é criticada logo vem com a frase “isso é golpe”. É a retórica soviética repetida mil vezes em várias circunstâncias e continentes. A banda Rolling Stones acaba de fazer apresentação histórica em Cuba amenizando o processo de abertura do pseudo comunismo para o mercado aberto... Os roqueiros já não são o demônio musical, viraram santo e senha na abertura dos diálogos entre estadunidenses e cubanos com benção papal. Quem diria? E o Lula por aqui a incitar sindicalistas contra as instituições judiciais, como que perdido no tempo das greves contra o regime militar... – Confusão e anacronismo ideológico – diz Queiroz. – Mas, acredito que esta situação começa a gerar a possibilidade até de uma reforma política, coisa que os parlamentares e Lula e Dilma não quiseram sequer abordar! A questão lembra-me uma discussão aberta lá na estrada do Vinho sanroquense entre uma bacalhoada e uma jarra de Niágara Quinta do Olivardo, um vinho de uva niágara branca, de ótimo aroma e sabor frutado, quando um juiz-ministro da suprema corte decidiu dar fôlego para Lula tirando a investigação sobre ele da primeira instância e carreando-a para aquela corte. Na minha frente estava um editor de publicação militar. O zum-zum nas casernas está elevado e é preciso que o povo entenda que não faremos

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golpe, só não vamos permitir que destruam as nossas instituições!, escutei. Décadas atrás, a fala de um político como Lula poderia ser a senha para uma quartelada sangrenta, mas hoje, disse eu, a circunstância é outra e as FA´s sabem muito bem do seu papel de segurança nacional, e isso é o que é preciso assegurar.

* – Ora, ora, há quanto tempo não via ocê nesta minha casa! – Cavalcanti, meu amigo, que notícia vocemessê levou para a minha neta Luiza que a deixou quase sem vida! O velho professor adentrou o estúdio sem cumprimentar, carrancudo, espanando contrariedade. Diante da atitude quase ofensiva do velho, coisa que nunca tinha presenciado, o fotógrafo recua, coloca a lente que estava limpando sobre um pano e diz: – Ah, sim... – volta-se e pega um envelope com selo de São Paulo. – Olhe aqui, seu Etelvino, a carta de Possidônio, o pai do rapaz que anda de olho na Luiza! Agora vou poder ligar para ele e saber sobre o rapaz... O velho estremece. Cavalcanti é rápido e puxa uma cadeira de vime para ele. – Ei, caucaia, pacote pra ocê! Vem assinar... – Num repente, uma moça dos correios entra no estúdio e deixa no balcão de atendimento um pequeno embrulho. – Ahhhh...,sim, bom dia mocinha! – diz o fotógrafo de maneira desconfortável, que assina o papel, e logo pega um copo e enche d´água mineral. Acerca-se de Etelvino e estende o copo. O velho bebe de uma vez a água. Nem notou a interferência da moça tal é o seu estado de nervosismo. Cavalcanti puxa uma cadeira para si e bebe da pequena garrafa de plástico o que restou d´água. – Um dia, seu Etelvino, o filho do Possidônio veio aqui e me fez reproduzir uma foto daquelas que eu fiz da Luiza na festa junina. Eu só quero ter a moça sempre perto de mim, foi o que ele me disse – reiniciou ele a conversa. – Mas, ó Cavalcanti, esse rapaz não é um bandido? – Bandido, não, é contrabandista. É como vereador que é eleito para ficar lá na câmara mas logo vira secretário do prefeito para ganhar aquela propinazinha. Contrabando político e partidário com a nossa grana. Contrabando é coisa do nosso cotidiano. – Mas, ai, ai, ai... não chamam ele de o terrível, por aí?! Que raio quer um band..., um contrabandista, ai, não entendo, que ele quer com a minha neta?... – É mais paixonite de cabra que nunca chegou perto de mulher bonita e prendada. Coisa que passa. Aliás – ele pega no envelope e busca algo na carta –, vamos ligar agorinha mesmo para o pai dele. Em poucos segundos ele conversa com Possidônio, quer saber do filho dele e suas andanças. – Meu velho cabra, espero que tu estejas bem. Li que estás em Caucaia do Alto, na montanha paulista... Ao lado, escutando Caucaia do Alto, seu Etelvino acha que escutou algo como “caucaia” na voz de uma moça e, virando um pouco a cabeça, dá com o pacote que ela deixou no balcão. – Olá, Cavalcanti. Estou numa chácara, trabalho duro e sou bem pago. Me dei muito bem por aqui e por aqui vou ficando. E o meu Valdeci, esse danado, tem aparecido? – Vai fazendo a vida no contrabando. O que ocê sabe dele? – Isso, que está no contrabando. – Estava mexendo nos meus trecos e vi a carta. Conversando aqui com seu Etelvino, resolvi ligar. – Lembranças minhas para ele... – Tá bão, cabra. Desligando o telefone Cavalcanti volta-se para o velho. – Como vê, é isso mesmo: o Valdeci, ou melhor, o terrível, está metido só no contrabando. *

Eleonora está com o olhar fixo no vinho escuro com tons avermelhados sob a luz das velas. A fluidez do Philosophia encaminhou o pensamento dela para la grassa. A velha Bologna da civilização etrusca, cuja gastronomia farta e saborosa deixou a região sob o apelido de a gorda. Para a bela brasileira que sentava sozinha no café da sessantesette da via Indipendenzia e que um dia apareceu no abraço de um napolitano, professor assistente da Università di Bologna, a vida revelou-se entre os tons vermelhos dos telhados do casario monumental e o sangue que lhe escorreu pela dádiva de prazer em sentir-se mulher,

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enfim. Era tão la rossa quanto a cidade maravilhosa que lhe foi leito de amor. Aquele etrusco era tão gostoso como este philosophia e eu fui com ele ao encontro d´amor..., lembra. Ali, entre o Reno e o Savena, ela singrou numa paixão de verão como que a visitar cada imagem d´erotismo esculpida pelos velhos oleiros etruscos nos vasos de adorno. – Uma gota d´alquimia dourada por esses pensamentos... Ela vira a cabeça na direção de Queiroz, e diz: – Ai, meu amigo, meu amigo. – Apanhada com a boca na botija! – insinua Cristina com um sorriso maroto e erguendo o seu copo. – É que este philosophia me lembra um vinho etrusco... – ...e o vinho etrusco lembra aventuras! – digo eu. – Que viva a aventura, evoé! – celebro erguendo o copo, logo seguido pela turma. – Evoé! Eleonora sai da sua êxtase, tira um papel da bolsa de mão, chega-se um pouco mais para o lado da vela maior, e lê:

134 O experimentalismo noético das pessoas que pensam e agem por si mesmas deixou um legado acadêmico formidável em duas frentes: a Ciência e o Direito. No campus cientifico, e desde os primórdios da Università de Bologna, sabemos dos profundos estudos acerca da magia natural, que os gregos e os persas já haviam tratado como análise e prevenção de doença e de fase iniciática para novos desafios alquímicos; no campus judiciário, a sempre componente social da lucerna iuris [fonte/luz do Direito] a dizer-nos que o todo é feito de partes e que todas as partes respondem igualmente diante do todo. Por este princípio da Justiça é que se desenvolveu a democracia embasada na res publica de essência greco-romana com aquela pitada socrática que a palavra jesuana endossou como universalidade fundamental para o diálogo dos povos. Na edição luso-brasileira de Sob o Signo do Humanismo Crítico, livro do filósofo Manuel Reis, aquela palavra jesuana, profundamente alinhavada com os ensinamentos socráticos, nos é apresentada em toda a plenitude, e o autor repete de outros livros, porque deve ser assim, como mote contínuo. E ainda recentemente, Sérgio A. Schmitz, empresário e advogado brasileiro, referendou em tese [in “res publica”, Col. Palavras Essenciais, Vol.8, Ed Edicon + CEHC, 2012] o republicanismo embasado no diálogo da jurisprudência que faz a Justiça Social prevalecer. Eis nos, então, diante do campus nous, esse espaço sem tempo determinado de ação no qual somosalém-de-estarmos, como milênios depois de Sócrates o notável Heidegger realimentou pela busca de uma nova hermenêutica. Tudo isto para falar de um hoje que é sempre com perspectiva de mais-do-mesmo em outras circunstâncias no amanhã..., ora, vivenciamos um Brasil que é parte da história greco-romano portuguesa entre árabes e celtas. O que Portugal provou na sua primeva organização de Estado (o primeiro de fronteiras estabelecidas na Europa) também o Brasil-colônia provou na mimesis da jurisprudência civil e católica, como Heródoto ensina, mas em que raros historiadores atentam por causa de umbigadas acadêmicas e brigas nacionalistas. Feita à semelhança da terrinha d´El-Rey, a colônia, que já em Fevereiro de 1343 o rei Afonso IV anunciara ao papa Clemente VI [ver doc´s em Archivio Segreto Vaticano, Reg. Vat. 138, ff. 148r-149r.) com o nome de Terra de Brasil, ou de Brandão (em homenagem ao capitão da marinha mercante que a descobrira, esse sim, por acaso), dizia eu..., a colônia tornou-se marco da expansão luso-católica, de tal sorte que ao tempo do rei José I e do ´seu´ marquês de Pombal, quiseram transformá-la em Portugal com capital em Belém do Pará. Por isso, historicamente, a Justiça brasileira seguiu a norma portuguesa e, no âmbito da sua circunstância republicana, adotou a essência romana para se definir judicialmente. Eis uma História e uma Língua que se complementam por causa da mimesis colonial que, entretanto, confrontando o extremismo espanhol, se concedeu a um universalismo racial e místico hoje encampado no que se diz lusofonia. No âmbito desta oportunidade única na história recente dos povos é que percebo na Justiça Brasileira o esforço para fomentar os pilares institucionais do Estado e não permitir que aqueles sejam destruídos pelo partidarismo desideologizado ou pelo partidarismo fulanizado na ideologia populista que gera a ditadura. É a luz noética do Direito que os velhos professores da Università de Bologna (1080) e a Universidade de Coimbra (do Infante das 7 Partidas, em 1443, e leiam-se os estudos do professor Alfredo Pinheiro Marques) fizeram prevalecer em nome da universalidade e do humanismo crítico. “Como o Princípio Republicano é o princípio reitor de todo o ordenamento jurídico que o adota, dele derivam e devem estar de acordo todos os outros princípios constitucionais”, como nos lembra Schmitz na sua tese, em que acompanha Paulo Cruz. Os pilares fundamentais da res publica não podem ser fulanizados ou sequer partidarizados, pois, só se mantêm/funcionam como um Todo harmonizando as Partes; a ruptura, e Reis tem toda a razão em clamar por humanismo crítico no âmbito político-judicial, porque se o que levou às 1ª e 2º Guerras Mundiais, no Séc. 20, foi o esvaziamento da Justiça como balança social, agora, quando assistimos à realimentação de guerras pseudo ´santas´ no Oriente, e no

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Brasil vivenciamos um ataque partidarizado e feroz contra a instituição judicial que age tecnicamente e atinge figuras da elite republicana em estado de insulto ao sufrágio universal, vivenciamos essa mesma circunstância. Eis o estado do Estado brasileiro, que ainda não afundou porque quem o quer afundar se deu conta de que existem Forças Armadas prontas para assegurar a constitucionalidade judicial. Senhoras e senhores, esta lucerna iuris que vos trago hoje em meio a pitadas de historiografia é nada em relação aos desafios filosóficos que enfrentamos na nossa idade republicana, desafios que se repetirão em circunstâncias diversas, mas posso dizer, e vos digo, que o importante é mantermos a mente aberta ao diálogo sociocultural que gera políticas públicas responsáveis no âmbito constitucional. Esta é a nossa batalha republicana. Um bom e saudável combate com pessoas de vida limpa. Terminada a leitura, complementa: – Esta foi a palestra feita pelo Carlos, ontem, para advogadosescritores, médicos-escritores e militares-escritores, e a li aqui pela importância da reflexão que solicita a todas as pessoas. Ao lembrar-me da citação sobre a lucerna iuris é que me deixei levar aos estudos que fiz na academia bolonhesa. – Ele está de parabéns – diz Henrique –, o texto é uma lição sobre a lusofonia que nos fez e nos situa historicamente. – Lição raramente dada nas escolas deste nosso país sem educação nem trato político pela coisa pública! – remata Cristina, que parece já bem enturmada.

Parte Segunda

Parte 11 Curitiba. A velha base aérea de São José dos Pinhais, agora um moderno aeroporto, recebe a pesada mas elegante aeronave vinda de Lisboa com escala em São Paulo. Nas amplas instalações, que são na verdade, um centro de compras multimarcas entre restaurantes e bares, um idoso segura um cartaz. Está de frente para a porta de saída no desembarque internacional. – Vai um pastel de Belém?... O idoso é apanhado de surpresa pela voz arrastada que mistura português com espanhol, volta-se e responde: – Sim, com cafezinho brasileiro! O homem, alto e magro, atlético, ainda na área de desembarque, observara a plaquinha com os dizeres “Sertão, Ltd” e resolveu aguardar uma distração do idoso: com passos rápidos, puxando uma pequena mala com seu trilho de rodinhas, postou-se por instantes atrás dele e observou o ambiente, só então se decidiu pela abordagem. – Nada como uma bela e jovem mulher para nos distrair, hein! – Pois é. E de que vale senha e santo quando uma bela passa e nos rouba a alma? Ó, ó, ó, meu caro moscou, me flagrou direitinho! – Como foi a operação lá em Fortaleza, chefe? – Dá um tapa nas costas dele e começam a caminhar para a saída enquanto conversam. Ele tira do bolso uma boina basca e cobre a cabeça protegendo-se da garoa quando atravessam a rua para o estacionamento.

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Quarentão, de calças de denim e jaqueta de couro, bota de cano curto brilhando, cabelo loiro ralo, o recém-chegado é o típico russo que aproveitou a glasnot para sair do anonimato soviético e pensar com os próprios botões fazendo vida nova. O chefe percebe que trabalho é trabalho. – Correu tudo bem, mas desta vez tivemos que alimentar o tubarão com uma isca, e também para distrair quem já andava de olho grande em nós. De resto, tudo foi feito a contento. – Se foi isca é porque fez coisa errada. Nós não fazemos isca de gente que erra: gente que erra é morta. Por que não fizeram isso? Acomodando-se num Mercedes-Benz esportivo olham-se duramente, e o chefe retruca: – Isto aqui é o Brasil, e aqui fazemos do nosso jeito, não me venha agora com lições da velha polícia comunista, porque nem conseguiram segurar a perestroika e se afundaram no Afeganistão, e agora, ah, veja só, querem mostrar a imperial esperteza no apoio à ditadura na Síria... Uuhhuuu... Não termina o discurso. A mão direita de moscou agarra-lhe o pescoço de tal maneira que se engasga e já mal respira. – Vocês, no Brasil, e outros em Portugal, na Argentina e no Paraguai, são canais do nosso grupo e fazem o que o grupo manda. Só isso. Com o rosto vermelho, o chefe gesticula freneticamente. E escuta a voz forte e rouca do outro novamente: – Tudo tem que ser feito com a nossa regra. Ou você entende isso ou eu mesmo elimino você e ponho o rapaz, o..., o terrível, na chefia das operações por aqui! Ao escutar a possibilidade de troca de chefia, ele entende que terá de ser mais duro nas decisões. Não quer dar oportunidade para que o antigo subtenente da polícia política soviética o faça mais um risco na lista de eliminações. – Vamos para o apartamento que temos novidades a discutir! – escuta ele. Lentamente, o potente veículo deixa o estacionamento e toma a direção do centro da capital paranaense. – É ele, o Vladimir. Um agente federal viu como o russo discutiu e dominou a situação com o chefe. – E continua a informação via rádio: – O outro cara, o da placa no saguão é o nordestino do tabaco. Ele anda comprando autoridades com grana viva lá em Recife através do advogado. Mas, o que ele faz aqui, longe de casa? Será um novo canal para a máfia russa? O quartel-general dessa gente russa por aqui é em Curitiba. Sigam o mercedão... As polícias de Portugal e do Brasil investigam o esquema de tráfico de carne branca: escravidão de mulheres para prostíbulos ibéricos e árabes. Dezenas de brasileiras são assassinadas e outras desaparecem nas cidades europeias, e também nas israelitas. A par da prostituição, a máfia russa trata do sequestro de bebês para famílias ricas de várias partes do mundo e o Brasil tem sido uma das fontes. As jovens que já fazem programas sexuais são as mais assediadas com promessas de trabalho em clubes noturnos e bons ganhos, mas a maioria é de garotas ingênuas do interior norte-nordeste que sonham ser modelos e bailarinas. Elas entregam-se ao sonho que acaba em submissão sexual e escravidão. A rebelião é paga com a morte ou a venda para outros prostíbulos. Vladimir é um dos antigos torturadores soviéticos que virou mercador de carne branca em meio ao contrabando de armas e tabaco. Rastreado a partir de Lisboa há cerca de um ano, tem passagens por Salamanca e Tel Aviv em espaços de tempo elásticos desde que se tornou o elo com o Brasil. É a segunda vez que pisa solo brasileiro: a primeira foi também por Curitiba, onde alugou amplo apartamento deslocando-se logo para Recife. Com a ciência dada pelo chefe acerca dos bastidores do contrabando no agreste, conheceu a dinâmica operacional de o terrível, e aí, sim, gostou. Muito bom o menino, muito bom, disse. Encontrando outro agente na entrada do aeroporto, aquele que esteve na cola de Vladimir adianta: – Este cabra não é o canal habitual do russo. É alguém no agreste, mas não o do contrabando! Ao contrário da alta temperatura que assola o Brasil, a região curitibana sofre há alguns dias com uma frente fria vinda dos lados do Rio da Prata. Muitos passageiros que aqui desembarcam com vestuário leve, ou simples camisetas, obrigam-se a abrir a mala e procurar um agasalho. Por isso, o outro policial ergue a gola do paletó, leva a chama do isqueiro à ponta de um cigarro sem filtro, e responde: – O que imagino é que o Vladimir abriu escritório aqui, e não será para contrabando de tabaco! Ah, “Sertão, Ltd”..., mas é muito cara de pau esse nordestino! O carro esportivo entra na garagem de um luxuoso prédio de apartamentos no centro curitibano sem que o chefe e o russo percebam que estão sob rastreio policial. – O mercedão não é chapa fria, está alocado pela agência Mundos SA e, no mesmo contrato de serviços, o apartamento. Tudo assinado e pago por Jivaldo, o cabra de Caruaru, via web – escutam os agentes federais que estão de olho na portaria. Sabem que agora tudo depende de escuta telefônica e de investigação direta, porque a ligação entre os contrabandistas nordestinos e o grupo russo está escancarada. O apartamento é ricamente adornado, com mobília e acessórios de estilo pós-moderno. Da varanda ampla pode se olhar parte do centro de Curitiba.

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– Que novidades são essas... O chefe vê Vladimir abrir uma caixa de charutos cubanos, preparar um deles aristocraticamente, e escuta: – Carne branca. Ou, como vocês dizem, precisamos de quengas e viados! – e diante da cara de espanto do nordestino, acrescenta: – E mais viados que quengas. O viado brazuca é muito apreciado na Itália e Israel, e é um escravo dócil. Ainda com o espanto no olhar, o chefe diz: – Uma coisa é comprar sexo para diversão depois de uma operação, outra é fazer disso contrabando! Não tenho organização para um negócio desses! – Ah, tem! – retruca o russo. – Ano passado (lembra?...), quando fui visitar a vossa festa de danças lá no Aaal... – ... Alto do Moura. – Sim, Alto do Moura – ele agradece a correção –, conversei com uma pessoa enquanto comíamos a carne de bode (lembra?...), e então fiquei a saber como iniciar o trabalho nas vossas estepes... – ...estepes?! – ... eh, sertões. O nordestino tenta lembrar. Quem estava à mesa além das putas e da sua gente?, quem?, mas não consegue identificar quem possa ter dado informações tão relevantes para o russo. – E então, traveco vale mais do que puta nova e bonitona?... O russo solta uma gargalhada, puxa mais fumo do charuto e diz: – Sim, traveco, como vocês dizem, está na moda como foi moda sexual nos velhos impérios, e era até sinal de riqueza e poder ter viado como braço direito (e às vezes mandava mais que imperador). Muito bem, chefe (ah, onde estão as duas universitárias de tirar o fôlego que você prometeu para o almoço?...), muito bem, temos um canal que já selecionou algumas moças e viados lá no agreste... – No agreste?! – A placa do aeroporto deveria dizer Agreste Ltd, e não Sertão Ltd, porque é no agreste que estamos a apostar o nosso investimento... – ...como o de Goiás? Lá sequestram e depois matam se a garota não serve, ou se rebela em algum clube europeu. – Ora, ó chefe – o russo parece perder a paciência com o brasileiro –, você está no negócio ilícito, se quer fazer isto de modo lícito passa para a outra banda e negocia bucetas para políticos. Ora... não quer chamar um padreco para abençoar as putas e os putos que levamos para os bordeis lá de fora?! Ele coça a cabeça e aponta para o russo: – Para mim, matar mulher é perder oportunidade de prazer e dinheiro! – Nisso estamos de acordo! – E adianta em tom jocoso: – Ai, o terrível... Você enviou as instruções para o terrível... Ah, ah, ah.. o terrível, bem, ele sabe o que fazer lá em Recife? É bom que faça a coisa certa para não ter surpresas. A conversa é cortada pelo som do interfone. O velho atende e manda subir alguém que chegou. – Custou uma fortuna, mas eis que chegam as duas universitárias para o seu almoço, meu amigo. Na geladeira tem champanha e frios. Eu ficarei aqui na sala pensando no novo negócio. Certo?... O russo levanta-se do sofá, charuto no canto da boca, e dirige-se para a porta ao som da campainha que se escuta como sineta. E fica estático, aturdido. Tanta é a beleza de duas adolescentes, uma negra e outra morena (loira eu tenho na Rússia, teria advertido), que estão na sua frente. – Aaiii... Venham, venham por aqui – diz, e leva-as para a suíte. O amplo quarto, atapetado e com varanda, tem banheiro espaçoso com hidromassagem; nas paredes, quadros com pinturas e desenhos eróticos. Numa das paredes, entre vasos com flores naturais, uma pequena estátua de Vênus e outra de Dionísio. – Tirem as roupas e se gozem, que eu vou buscar champagne... – ...que é isso de se gozem? – questiona a morena. – Vocês receberam, como dizem aqui, uma grana federal, e por isso façam o que eu mando. Quando voltar com a garrafa de champagne quero ver as duas prontinhas para mim! – Não é vodka? – questiona a morena. – Dá para deixar o charuto lá fora? – protesta a negra. Ele gargalha e diz: – Adoro coisa borbulhante e defumar buceta! As duas percebem que a grana federal adiantada não lhes dá direito a protestos ou encenações tipo putinha social para acompanhante de executivo.

A muitos quilómetros de Curitiba, o terrível dirige o seu mini na estrada que liga Caruaru a Jaboatão dos Guararapes. – Alô... – atende o telefone móvel que tirou do bolso da jaqueta de couro.

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– Oi, meu cabra. – Fala meu chefe. Tá com frio aí no sul? – Tá frio, sim, e tem até garoa! Tu lembra de quem esteve com a gente naquele almoço com o gringo russo, ano passado? O jovem decide encostar e parar o carro junto de um posto policial. E escuta: – Ei cabra, tá aí? – Tou, tou parando o carro. E de estranho só o gringo, mesmo! – Mas foi aí que ele teve fala com alguém que agora é o contato para outro negócio. Na verdade, é o que fazem em Brasília e Goiás, negócio que querem fazer também no agreste. – Ué, negociar buceta?! – Buceta, viado e armas... – ...vixe, padinho Ciço! – Tenta lembrar de quem possa ser, porque o gringo não vai falar para mim. – Ai, negociar buceta, não. Armas e drogas, tudo bem, buceta não! – reage o jovem negativamente ao plano. – Negócio é negócio, cabra! Depois a xente fala, cabra! Ele agora tá almoçando duas universitárias com champanha, que custaram vinte mil reais, dez para cada. Na verdade, trinta, que eu fiquei com dez, e destes dez, cinco pra tu, cabra! Já vou colocar na tua conta... – diz o chefe a desligar o telefone e deixando o suborno no ar. O jovem sai do carro, encosta-se na lateral. No seu cérebro passa o filme de uma mãe morta por bala perdida no confronto entre policiais e gangues no centro de Recife. Não se pode tocar em mulher, pensa. Lembra a dificuldade que teve em dizer palavras duras para Luiza, e ainda gaguejou. A pouco metros, um grupo de jornalistas da área têxtil protesta por estar parado há mais de quatro horas porque, supostamente, a papelada da Kombi que o transporta não está em dia. Os policiais rodoviários não se fazem entender, ou querem algum presente, porque, enfim, decidem liberar a Kombi e terminar com o tumulto que pode chegar em manchetes nos jornais do dia seguinte, pois, notaram que o caso já circula nas redes sociais e com amplo acesso. Com jeitinho, com jeitinho vai!, é como o chefe diz..., pensa o jovem rindo do cenário estúpido montado na beira da estrada.

– Quantas garrafas foram, mesmo?... quer lembrar a morena. – Só me interessa a grana viva que está lá em casa! As duas, de braço dado, atravessam a rua e buscam um ponto de táxi. Dobram a esquina e se deparam com dois homens. – Queiram entrar no carro, meninas! – escutam, e um deles exibe para elas o distintivo policial. – Vamos para a delegacia? Temos aula na faculdade... – pergunta a negra quase alterada pelo medo, assustada. – Bem, ao que parece, aula vocês já deram – diz um dos policiais. – Mas se disserem agora tudo o que viram e ouviram do russo e como o nordestino contratou vocês, deixamos vocês perto da universidade. Papai e mamãe não vão saber das alegres e acadêmicas bucetas que criaram... – E terão que apagar da memória (exceto a grana, claro) o dia de hoje. Certo, meninas? – diz o outro tomando o volante do velho Monza. Ele vê que a morena tem dificuldade em sentar. – Huuumm, parada dura...

De roupão e chinelos, o russo dá para o chefe as diretrizes da operação a montar no agreste. A sua maior preocupação é com a conexão policial: a brasileira conversa com a russa e a portuguesa e as três num todo projetado via Interpol. Isso levou ao cerco a vários bordéis chiques na Península Ibérica e à interceptação de canais em Cabul, Israel e Paris. No meio russo é possível, segundo ele, abafar a conexão... com dinheiro ou sangue; no Brasil, apesar dos escândalos em Goiás, o dinheiro vai abafando algumas investigações. O advogado do chefe tem sido a chave nesse assunto. Uma chave muito cara, mas eficiente. Entretanto, “os escândalos políticos e empresariais de corrupção no Brasil vêm depurando setores policiais antes mais abertos à conversa com os grupos ilícitos”, havia insinuado em telefonema para o chefe, dias antes. Apesar dos momentos de êxtase sexual com as duas belas jovens, o russo apresenta-se diante do chefe com certa apreensão no semblante. – Que é?, não gostou do programa de extensão universitária... O campus não foi do agrado do senhor doutor?! – goza o chefe. Sentado numa cadeira estofada com couro, ele parece não estar acreditando que o russo não almoçou as meninas. E tudo se altera.

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O russo puxa o chefe por um braço e, com violência e agilidade adequada, deixa-o estatelado no tapete depois uma meia volta com o corpo. – A minha vida é coisa minha, e só minha! – diz. O nordestino tem dificuldade para se levantar e aceita a mão poderosa do outro que o puxa. – Aaiii... E precisa falar desse jeito, cabra? – ele sente dores agudas nas costelas. O outro senta-se, tira um charuto da caixa Perdomo Habano e inicia os procedimentos que levam até à chama que o acenderá. Após a primeira nuvem de fumo, diz: – Este é o meu jeito de falar com quem entra nas minhas coisas! E pronto. O nosso contato no agreste vai agendar um encontro consigo..., ah, o meu português de Portugal, com você. Ele tem as instruções e ele sabe como agir licitamente sem chamar a atenção. Tudo será feito com eventos e as pessoas desses eventos nem sonham que serão a cortina da nossa segurança. – Tudo no esquema. – Concordo. E olhe: esse cabra é tão bom que me deu a dica de como fazer a cobertura e parecer tudo lícito. Copiou dos partidos políticos daqui.. – Como é que é?! – Escute – o russo puxa mais um pouco de fumaça, enche o ambiente com graciosos anéis –, ó chefe: já estamos a usar publicidade como cobertura para os investimentos. E você? Nunca pensou em fazer como os políticos e os grandes empresários...? O chefe faz cara de espanto, e está mesmo espantado. Mas, quem será esse cabra do agreste?, questionase. E atira: – Muito bem, mas também temos aí a Operação Lava-Jato, que descobriu tudo isso... – ... descobriu e ensinou-nos a não fazer igual, ou seja, nesse aspecto somos como você, ó chefe (e é por isso que está aqui), não permitimos delação premiada, como vocês dizem. Nós, eliminamos o perigo.

Parte 12 Além do Morro dos Guararapes. No litoral, a jusante dos morros onde os holandeses se confrontaram com os portugueses no Século 17, está a estratégica entrada de arrecifes. Neste ponto, e entre as duas guerras mundiais, no Século 20, construíram a base aérea que logo se transformou em aeroporto acessado pelas aerovias entre o Atlântico Sul e a Europa. Calmamente, com a jaqueta de couro no ombro direito e segura pelo dedo indicador, o terrível entra no saguão do aeroporto. Da área do desembarque internacional uma mulher de aspecto oriental murmura: – Jovem com casaco de couro no ombro e revista Veja na mão esquerda. E logo acena para alguém que se aproxima. – É a senhora Andreia? – E tu és José? – Muito bem – diz o terrível –, venha comigo, Aurora. Ditas a senha e a contra senha, o jovem pega a mala dela e cortam o saguão na direção do estacionamento em passo rápido. Aurora é uma portuguesa de Macau, vistosa e toda etiqueta chique no vestuário. Nos seus trinta e poucos anos, caminha com a altivez da fêmea que sabe o que é e marca o seu espaço decididamente. Pequena e em saltos de corte transalpino, é uma gazela de pele branca cujo rosto angular e olhos puxados chamam a atenção; pulseiras, cordão no pescoço e brincos de ouro foram recolocados depois do reembarque em Lisboa. Os brincos enormes destacam-se na moldura do cabelo curto e negro, graciosamente despenteado e com um curto e sensual rabicho caindo na nuca. Exageros à parte, Aurora não passa sem escutar um assobio ou um suspiro. Mas, agora, está em desassossego. Este rapaz ou é paneleiro ou faz da indiferença a mim um cartão de visitas, pensa. E ele acomoda a mala no bagageiro do mini para logo abrir a porta do carona. – Vamos lá, dona Aurora – diz. O que a desconcerta ainda mais. O pior foi ouvir aquele dona tão enfático. Que inferno... Fora da área urbana de Recife e perto de Guararapes, ele faz o mini entrar para uma garagem. A porta se abre verticalmente ao toque de um controle eletrônico acionado do carro. – Sei que tu és o terrível. Por que esse nome? – quer saber ela. Logo que o carro estaciona acende-se uma luz automaticamente e o portão desce. Ele abre o cinto de segurança, aperta o botão do cinto da passageira e leva uma mão à face direita dela. Aurora sente-se puxada, e logo dedos fortes quase lhe arrancam os cabelos. O beijo violento e longo que recebe na boca parece ser a resposta para a pergunta feita momentos antes. – Temos uma hora antes de seguimos para o sertão, Aurora! – diz ele, decidido. – São as boas-vindas...

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Antes de chegar no aeroporto, ele matutara profundamente sobre a mulher oriental que teria de recolher na área internacional. A instrução do chefe foi clara: Já sabes como tens de estar para ela te identificar no saguão. Ela é um dos canais do russo e já tem conexão em Caruaru com a tal pessoa que não querem revelar para nós, ainda... Bem, antes de Caruaru dá uma foda nela na nossa casa de apoio, aí mesmo na saída de Recife. Negócio de buceta deve ser tratado na buceta, cabra. Logo que a viu percebeu nela a fêmea que faz a vida pelo sexo. – É, terrível... – diz ela ao sair de um demorado banho de chuveiro. Único luxo da casa. Tudo parece um daqueles aparelhos de apoio de guerrilha urbana: colchões abandonados em dois quartos, sacos de dormir, quatro redes estendidas, uma geladeira e um rádio na vez do galo-do-tempo. – Se isto aqui é um apoio eu vou ali e volta já... – critica Aurora. – Ainda bem que não vai viajar de jegue! – Ah, jegue. Aquele burrinho... Ele olha-a de alto a baixo. Com gestos calculados, Aurora retira da mala e veste uma minissaia de couro e blusa de seda. Sem calcinha nem sutiã. E gozando sob aquele olhar guloso, diz: – Nunca viajo sem estudar pormenores culturais da região que é o meu destino. E um alerta para si, meu rapaz: gostei das boas-vindas, mas se não tivesse gostado já seria você mais um presunto na minha galeria. Puta tem que ser tratada como puta, e esta eu quero debaixo do meu cabresto, ora..., decide-se. – Olhe aqui, o seu negócio é mulher e é traveco, por isso, comigo tu é puta e assim vai ser. Se não for, tu vai agora mesmo para o aeroporto! Ajustando a blusa de seda, Aurora dá um passo atrás, não de susto, pois encara o olhar furioso de o terrível. – Olhe aqui, seu puto estúpido e malcriado – o dedo indicador na direção dele, qual ponta de lança –, em anos de organização nunca alguém me tratou dessa maneira deselegante! Pois então, podes deixarme no aeroporto que eu mesma encontro o meu contato. Esta pocilga – ela abre os braços e roda sobre si mesma –, esta pocilga não é digna nem de puta de esquina! – Eh, mas tu gostou de dar pra eu nesta pocilga! - retruca ele, mas já pressentindo que talvez tenha ido muito longe. – Tu vai mais eu, e pronto! Acerca-se da pequena e exuberante oriental, tenta arrancar-lhe a blusa de seda. Ela tropeça e cai no colchão. Um golpe rápido de pernas e ela faz cair o terrível a seu lado e o vê engolir em seco a humilhação. E logo está em cima dele. – Olhe aqui, palerma!, aqui quem manda sou eu! – Ele tenta sair do cerco, mas não consegue. Aurora demonstra que é perita em artes marciais e sabe como neutralizar o inimigo. E escuta dela em português bem castiço: – A partir de agora, meu rapaz, tu vais fazer tudo o que eu disser que deves fazer, e nada mais. Uma hesitação e não darei tempo nem de piscares os olhos! Se o teu chefe não informou, eu sou a chefe desta operação... E como estás dentro, só sairás morto caso não cumpras as ordens como bom soldado! Ele parece descontrolado, não entende como uma mulher pode dominá-lo, chefiar as suas ações. O chefe deveria ter dito tudo sobre ela, raciocina. Quanta diferença da doçura de Luiza... O paralelo surge-lhe na mente quase no mesmo instante. Aquela imagem não o larga, mas é uma benção que lhe dá força e, por incrível que possa parecer, ajudou-o a raciocinar. – Bem, diaba de saias – diz, e tenta pacificar a situação –, quando o chefe chegar vamos colocar os pingos nos is... – Se assim é bom para si, que seja!, mas está agora sob o meu comando. Por pura sorte, a blusa de seda não rasgou e Aurora recompõe a montagem estética que havia imaginado para a viagem. Uma boneca de porcelana sobre saltos de fino desenho industrial. – Deixemos logo esta pocilga. Depois, e pela posição privilegiada na região, vou mobiliar e decorar esta coisa. Terá de ser uma casa de verdade, não um covil. Aliás, isto aqui vai ser o meu escritório! Para aliciar mulher precisamos de uma decoração sofisticada, ela terá de se sentir em mundo maravilhoso. Hum, estou com fome... E cai a ficha. Ele entende agora que Aurora é uma das mandonas da organização que trafica sexo brasileiro para o mundo. O chefe deveria ter dito tudo sobre ela, volta a reclamar com os botões.

Parte 13 [...] resume magnificamente a gramática do ‘Humanismo Crítico’, é mesmo o cerne de todo o Discurso sobre esta matéria. A Lucerna juris e a Boa Jurisprudência (baseada na sabedoria socrática e jesuânica) resume magnificamente toda

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a tua Lectio. E sabemos que as Forças Armadas estão já situadas no que nós chamamos a Pós-modernidade positiva e crítica [...]

Henrique lê a opinião do filósofo Manuel Reis acerca da palestra Sob a Luz Noética do Direito e abre uma garrafa de pinga das Minas Gerais. – Isto merece umas gotinhas da alquimia telúrica – insinua, celebrando. – Pô... – Ah não, não resmunga, Carlos – atalha Eleonora cortando uma conversa com Doni –, foi com você que esse cara aprendeu a apreciar as águas que queimam! – E intê já bebe daquela caninha braba lá do agreste, num sabe... – lembra o caseiro. Escuta-se o sino da porteira e Doni corre para ver quem chegou. O casal não trocou a velha porteira de madeira por um portão de acionamento elétrico para dificultar a ação dos amigos do alheio. Quanto mais fácil acharem, mais dificuldade terão, argumenta Henrique sempre que questionado. E é verdade, em toda a área que rodeia a casa está um circuito embutido na terra que sinaliza a presença de estranhos e logo emite um sinal de alerta, primeiro no quarto do casal e na casa do caseiro, e depois um berreiro para acordar a comunidade. – Ora, doutor Queiroz... – saúda Doni. Aberta a porteira ele avança com o seu velho boca-de-sapo, um Citroen em perfeito estado de conservação. – Olá, Possidônio. Você está bem? – cumprimenta o advogado ao sair do carro. O abraço dos dois mostra como o nordestino entrou nas vidas dos intelectuais que fazem do ninho do casal anfitrião um ponto universal. É a terceira vez que Queiroz deixa o bairro cosmopolita de Granja Vianna e desce à bucólica Caucaia, que só conhece em razão dos encontros agendados pelo grupo. Está tão encantado pela região que já cogita uma mudança de endereço... – Ó Possidônio, eu gostaria de morar por aqui, mas isso iria exigir um cabra bão como ocê, viu! O caseiro dá uma risada. – Ai, ai, ai – é Eleonora, que responde na vez dele –, nem pensar. Venha para cá que nós arranjamos alguém para ajudar você! Ela abre os braços e recebe o velho jurista. E diz: – Verdade. Vem para cá! Sempre rindo, Doni afasta-se. É quando eu e Henrique o recebemos na porta da casa e ele lhe entrega um pequeno copo de barro cru. – Quero que entres energizado, meu velho! Queiroz cheira e bebe de um trago. – Aahhhh... Parece bem melhor, agora. Não é propriamente um adepto da pinga, é um apreciador confesso de bons vinhos, mas não resiste a um trago forte de boas-vindas. Ao entrarmos na sala eis que Doni termina de colocar os seus quitutes na mesinha central. – Um aperitivo para o almoço – anuncia. E não termina de falar e escutamos todos o seu telefone móvel, que logo busca no bolsão frontal do avental de couro. – Perdão. Bom apetite – e retira-se para atendar a chamada. Na copa, em meio a um cheiro que convida a tirar todas as tampas das panelas e ainda a abrir o forno, Doni põe o aparelho na orelha: – Sim. – Meu cabra amigo, é Etelvino. – Ah, seu Etelvino. Que surpresa boa. O que manda, meu amigo? – Olhe, sei que o teu Valdeci, que os do contrabando chamam o terrível, anda de olho na minha neta Luiza, e ela está apavorada. Tem jeito de ocê dar fala com o rapaz? Surpresa e susto no semblante de Doni. Suspira e diz: – Olhe, meu bom amigo, ele virou cabra de mato e cortou ligação comigo, o próprio pai. É difícil dizer isto pra ocê, meu velho bão, mas não tenho o que fazer, não! Lasqueira, e não é que o meu rapaz quer virar cabra-macho e logo com Luiza, aquela belezura!, pensa ele de um jeito que mais o alivia do que pressiona. – Deixe intão o negócio com minha pessoa. Eu resolvo, viu! Vou procurar o rapaz e dar fala com ele e em nome de ocê, tá. Depois volto a chamar ocê. Fique em paz e na fé de padinho Ciço. – Lhe agradeço de coração, seu Etelvino. O senhor o conhece tão bem como eu e sei que o rapaz vai escutar ocê. Apesar da preocupação, Doni sente-se aliviado por saber que o próprio mestre das primeiras letras de Valdeci vai à fala com ele.

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Deliciamo-nos com a abertura gastronômica. Para início de conversa Henrique vai lembrando que a polícia federal encontrou indícios que ligam o mensalão e o petrolão ao assassinato de famoso prefeito paulista. O publicitário que coordenou os pagamentos de propina a parlamentares no governo de Lula citou o próprio presidente e mais gente ligada ao petismo, além de um conhecido dono de jornal diário, também ligado a transportes públicos na região do ABC. Embora o assassinato de Celso Daniel não esteja na investigação, o juiz Moro assinala a proximidade no cruzamento de dados que dão veracidade às declarações do publicitário, anos atrás. E por isso a operação foi chamada de Carbono 14. Na identificação das suas operações, os policiais e procuradores também não perdem a oportunidade de colorir politicamente a situação. – Olhem, em pleno gozo da democracia (boa ou má, é o que temos) – sinaliza Eleonora – a família do Celso Daniel está exilada politicamente em Paris... – Sim, essa gente do lula-petismo elegeu-se por sufrágio universal, mas fez do poder governamental uma célula autônoma do próprio partido! Governam para o partido, para a causa (causa que não conheço, porque nem ideologia apresentam além do populismo), ou seja, não governam para o Brasil – afirma Queiroz, decidido. – E a Dilma, apadrinhada de Lula, continuou o ciclo atirando o Brasil no pântano financeiro e social entre exercícios fiscais sem autorização prévia do parlamento... Hum, e agora, diante da possibilidade de impeachment, temos a volta do mensalão para comprar parlamentares e dando até ministérios num descarado abuso diante da sociedade, sociedade que já condenou nas ruas esse escambo político – complemento, mas a desejar não ter tido oportunidade para dizer o que disse. As últimas notícias sobre a situação política e econômica do Brasil são desastrosas e a presente Dilma faz-se escutar em mil e um eventos vociferando “impeachment é golpe”, o mote repetido exaustivamente pelos parlamentares petistas e simpatizantes que, nas ruas, mostram o tamanho do aparelho de Estado transformado em célula partidária. – O pior de tudo isto, gente – pondera Queiroz –, é que a sociedade vive desconfiada ao descobrir tanta e repugnante corrupção política e empresarial. Ora, uma nação desconfiada é uma comunidade fragmentada, frágil. Aquela palestra Sob a Luz Noética do Direito iluminou mais a nossa mente ao pôr o dedo nessa ferida. Olhem, parece-me até que os valores ocidentais, ou cristãos, estão também fragilizados ou atirados no baú dos trecos desnecessários à vida... – ... estamos numa retranca identitária – remato –, porque é o corporativismo social e religioso que vive crise própria. Eleonora levanta-se e no computador faz imprimir algo; a impressora vai vomitando algumas páginas que ela agrupa. – Esta manhã recebi uma crônica do padre Mário, lá de Portugal. Escutem... [...] sou plenamente consciente de que o cristianismo é a negação do Humano, em nós, porque é a máxima afirmação do poder e do farisaísmo que todas as fés religiosas sem excepção produzem nos que se deixam apanhar por elas, em lugar de lhes resistirem com todas as suas forças, como faz paradigmaticamente Jesus Nazaré, que lhes resiste até ao sangue. Não porque Jesus goste de sangue e de sofrimento, sim porque vê que as fés religiosas são vias porta larga que levam à perdição-descriação do Humano, precisamente, esta Fragilidade-consciência que somos e nos faz ser-viver ontologicamente com Deus, mas historicamente sem Deus, por isso, maieuticamente religados uns aos outros, ao modo dos vasos comunicantes. Em lugar da demente sobranceria-superioridade que caracteriza quantas, quantos, reféns de alguma das múltiplas fés religiosas ou ateias, se têm na conta de auto-suficientes e de superiores aos demais, para os quais olham como estranhos, inimigos a evitar. Quando, afinal – é do Evangelho de Jesus – fora do Humano não há salvação para ninguém, nem sequer para o planeta Terra, nossa casa comum [...] E continua ela: – Achei deveras desconcertante esta mensagem que para estes dias que vivemos é um alerta filosófico. – É verdade. Desconcertante, vinda de quem vem – observa Henrique...

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– ... por isso é que padinho Cíço nunca foi escutado pelos padres do Vaticano, né! – diz Doni, que havia escutado a leitura na porta da sala. Vejo-me arremessado para os confins da história com a interpretação simples e direta do retirante nordestino. – É isso, Doni – digo –, você pegou a questão por inteiro dando um único exemplo do corporativismo que nos cerca e mata lentamente, até a partir das igrejas, como diz e bem o padre Mário. – Vamos encher a pança?... – corta ele, rindo. E remata: – Quando o povão quer, o povão manda e muda tudo! – Será...? – provoco. E continuo – Os engodos que atiram ao povo trazem-no alienado. Olha só:

Libertino e de língua solta, Joaquim José da Silva Xavier (o alferes e tiradentes) aceitou ser diante do tribunal o ´chefe´ da inconfidência com a certeza de que os confrades o livrariam da sentença de morte... E em 21 de Abril de 1792, os maçons ´vermelhos´ colocaram o ladrão e carpinteiro Isidro Gouveia na túnica do confrade alferes. O ladrão havia sido condenado à morte em 1790 e assumiu aquela identidade em troca de apoio à família: conduzido à forca, testemunhas que presenciaram a execução ficaram surpresas, pois, aquele ´alferes´ não parecia ter sequer 45 anos. E [...] a execução seguiu a praxe judicial da época: a pessoa enforcada é esquartejada e partes do corpo salgadas e expostas na região do crime. Mas, no Caso Tiradentes uma ressalva: a cabeça é a primeira parte exposta, mas a cabeça do alferes-tiradentes desapareceu sem ter sido exibida em Vila Rica. Ali, ele seria imediatamente reconhecido Leio um texto de uma folha avulsa que tinha no bolso do paletó e, vendo que todos se voltam para mim, resolvo ler mais um pouco: Joaquina, sua única família, é levada (por amigo do Pai) para Lisboa e retorna anos depois ao Rio de Janeiro, segundo informações sem confirmação documentada, o que sugere, de facto, se assim foi, que a farsa da forca pode ter sido executada vivendo ele clandestinamente na capital portuguesa sob o apoio dos maçons lusos. Nesta óptica, não pretendo desconstruir o mito, porque o alferes existiu, batalhou à sua maneira pela liberdade na facção maçónica ´vermelha´, o que não se pode é esquecer o homem-mito e o homem no seu esforço de sobreviver a uma pena de morte..., pois, o ato da revolta o foi num tempo-espaço idealizado, mas sem construção. E então, o que se espera? Que se faça luz sobre o assunto. Da mesma maneira que se reescreve a história caraveleira portuguesa e a “descoberta” do Brasil (1342, Foz do Ryo Siará, e não 1500, Bahia), e como se fez acerca do “cavalo” do imperador e do “grito” às margens do rio Ipiranga, e outras trapaças de nacionalismo duvidoso que criam a estória oficial. Ora, o Brasil é maior do que a estória que tenta encobrir a historiografia...! Por isso, e só por isso, fazer de Joaquina, a filha de Tiradentes, uma nova inconfidente a partir de uma ficção é, no mínimo, esquecer Ana de Alencar, a primeira presidente republicana em pleno Império de monarquia absolutista, e outras, que deram a vida por um Brasil-nação de brasileiras e brasileiros. Agora, no ano 2016, e muito depois das trapalhadas políticas acerca dos “500 anos de Brasil”, a rede de televisão Globo adapta para novela a ficção Joaquina, Filha de Tiradentes, romance escrito por Maria José de Queiroz, e o faz com o

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título Liberdade, Liberdade... O que isto significa? Mais um engodo dos meios de comunicação a serviço da estória. A autora da ficção criou um espaço literário entre dados da realidade setecentista pelas vivências do alferes-tiradentes e a livre exposição de uma estória cuja meandros levam a supor que Joaquina transformou-se em neo-inconfidente no retorno de uma possível passagem por Portugal. Se por um lado a Maçonaria e a República precisavam ilustrar a Nação com um herói, obviamente o alferes-tiradentes foi a figura ideal até pelo esforço de livrar da morte os mentores da revolta mineira, por outro lado, esqueceram de dar a tal trajetória uma historiografia mais autêntica com heroicidade. E repito: o alferes-tiradentes existiu, foi parte da Inconfidência Mineira, e ponto, mas a pressa com que alavancaram a sua figura ao panteão de uma nacionalidade em formação criou o mito..., logo, uma herança para a narrativa popular – e, esta, não é escrita pelos estoriadores oficiais, por isso, tentar empurrar a filha Joaquina para o mesmo panteão é uma retórica ficcional descompromissada até com aquele imaginário popular esculpido na mística maçônica brasileira. Com os olhos arregalados, Doni olha em redor. Está perplexo. – Mas, professor, o senhor diz que o Tiradentes, mártir do Brasil, fugiu e foi enforcado na vez dele outro cabra preso, um ladrão de galinhas?! – Até há pouco tempo você acreditava que o Brasil havia sido descoberto em 1500. Certo? Mas você foi enganado pelas estorietas oficiais, estorietas que continuam nos manuais escolares! – Ai, meu caro Doni – interrompe Henrique –, como você percebe, agora, quem manda é quem detém o poder e manda escrever a estória que quer para colorir esse poder. Doni, num gesto automático, limpa as mãos na toalhinha que emerge do bolsão do avental de couro, e diz: – Sempre soube que não fizeram retrato do mártir, e naquela época (eu sei disso...) era até costume ter desenhos das pessoas importantes. Será que, então, o cabra fez a farsa com a tal da maçonaria?! Ah, e a filha, que agora aparece com guerreira contra a colonização... – ...na verdade – diz Eleonora –, nem se sabe se a filha Joaquina sobreviveu por muito tempo à miséria e ao isolamento imposto pela Coroa lusa à família de Tiradentes, mas essa estória de uma escritora brasileira quer simplesmente mostrar que existiram mulheres guerreiras. Mas, concordo com Carlos: se querem mostrar uma mulher-guerreira que mostrem a história (que é verdadeira) da republicana Ana de Alencar. Puxa, por que ficcionar e logo com a filha do Tiradentes?! E também, olhem..., na época do alferestiradentes nem a Maçonaria estava organizada por aqui, eram só escassos iluminados às voltas com as novidades americanas e francesas trazidas de Lisboa via Universidade de Coimbra. Então, não se pode falar concretamente em maçons embora os houvesse enquanto aficionados não doutrinados.

* Jaboatão dos Guararapes, minutos depois de o terrível pegar o chefe no aeroporto de Recife. – Ora, ó terrível – saúda o chefe alegremente. – E a nossa chinoca? Está bem instalada no hotel? O jovem não responde logo. Puxa para baixo a armação dos óculos com o dedo indicador sobre o nariz e olha direto para o chefe. – Deveria ter dito a eu que a mina é sargenta... E ela é portuguesa de olho puxado, nê?! O outro solta uma risada. – Tu comeu a chinoca e ela deu porrada em tu, cabra. É bem o estilo dela, pelo que me contou o russo. A chinoca foi escolhida a dedo para estar aqui e organizar o negócio. Filha de português com chinesa de Macau, Aurora foi educada em Xangai e em Lisboa; especializada em acupuntura e em línguas, virou editora de moda, mas abraçou paralelamente uma outra paixão – o kung fu. No hotel perto do centro de Caruaru, ela nada calmamente na piscina e logo se senta na escada de acesso, os pés delicados na água. Onde eu vim parar, meu pai, minha mãe. Olhem só, sob o sol do Equador..., pensa. Embora muito ligada ao pai, foi através da mãe que se ligou â máfia do contrabando oriente-ocidente. Nós, mulheres, temos o mundo a nossos pés utilizando o sexo em doses certas. O mundo é deles, dos homens, mas a estrutura social é nossa e um dia vamos também executar a área política, escutou dela várias vezes.

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Entendida com o terrível, viu que o rapaz poderá ser de grande utilidade. Mas terei de educar esse brutinho ou poderá estragar o nosso trabalho com algum rompante tolo, decidiu-se. Um funcionário do hotel chega perto e traz visitante. – Senhora, este senhor veio visitá-la. É um homem fora do padrão nordestino, alto, forte, cabelos escuros e compridos apanhados em rabo-decavalo, cavanhaque. Camisa estampada e aberta deixando ver uma camiseta branca, calças de linho e botas de cano curto que se fazem ouvir no piso que rodeia a piscina. O visitante olha-a de alto a baixo, aturdido com tanta beleza, e escuta: – Vamos para debaixo do toldo. O meu computador está ali...

– Ela quer fazer desta casa um hotel de luxo, viu! – Sei – concorda o chefe. – Isso faz parte do negócio e a grana já está disponível na tua conta, meu rapaz. Ele quase engasga. – Como é que é?! – Tens uma posição de chefia, vida boa, roupa de marca, ora, tens que dar pra organização um pouco mais, e esse um pouco mais é cederes o teu nome para transações financeiras. – Mas é uma fortuna na minha conta... – Não trabalhamos com migalhas. E para de reclamar. Vê com a chinoca tudo o que ela precisa para montar o cenário e paga à vista..., como sempre, tudo à vista! Nada de rastros. O jovem abana a cabeça. O negócio é atrativo, mas algo lhe diz que o grupo do agreste não tem capacidade para operações tão complicadas, a começar pela dinheirama disponível. E parece que o chefe leu o pensamento: – Não fica preocupado com o tamanho do negócio, cabra, que tanto o russo como a chinoca sabem o que fazem e, antes de virem, estudaram tudo. Sabem até mais do que nós... E olha, o russo estava a ler um livro do Tuma Jr em que se diz (bem, não sei se apresentaram provas) que o Lula era um tal de barba, o informante da polícia paulista, ora, por isso o cabra de Garanhuns foi tão bem tratado quando da prisão na época das greves do ABC. Pois é, como vês, essa gente estuda e sabe mais que a gente... – Isso mim já viu! Ah, e ela comprou várias revistas pra mim de moda e de artes, é pra mim conhecer esse mundão chique. Ah, e..., e quem é o tal canal do agreste...?! – Ela nos dirá no momento oportuno. *

Já no café, questionei Doni acerca de um dado que me fugia na memória: – Meu caro, você que veio lá das bandas do agreste, lembra como foram ocupadas aquelas terras que viraram o Alto do Moura? O caseiro, apanhado desprevenido, olha para fora da janela e assim fica uns instantes, para logo dizer: – Olhe, um dos primeiros a erguer casa ali foi o professor Etelvino, que está por ali até hoje (é, falei com ele a semana passada ao telefone por causa do meu filho que anda arrastando a asinha da neta dele...), mas tudo começou com o nordestino de nome Moura na margem do Ipojuca... Sabe, ali tinha uma lagoa fedorenta e foi no alto que ele cercou a região e chamou a família para se fazer lavrador, por isso o nome Alto do Moura. – E o Mestre Vitalino veio depois... – diz Eleonora em jeito de questionamento. Ela, que tantas vezes citou o ceramista em cursos fora do Brasil, mantem-se informada sobre o caso das cerâmicas industriais que adquiriram lotes d´argila nas margens e fazem da vida dos artesãos uma roleta russa, a par dos contrabandistas. – Sim, as figurações em barro começam muito depois. Ah, essa neta do Etelvino é uma garota de mão cheia, uma artista, mas sabendo com quem anda o meu filho (os do contrabando chamam ele de o terrível... vejam bem onde ele chegou com a morte da mãe...), ai, a garota está apavorada. – O amor, Doni, não escolhe classe social nem profissão: é o amor! – digo. – Mas... – deixa Queiroz um quê no ar. – Sim, doutor, tem esse mas aí no meio – concorda Doni. – E ele virou um rapaz muito violento. – Mesmo assim, o seu o terrível pode estar apaixonado por essa menina, artista de mão cheia, o que pode ajudar numa mudança de vida, ó Doni! – insinua Eleonora. Ele leva as mãos à cabeça. – Pudera mim acreditar nisso, dona, pudera! Ao deixar a saleta, o nordestino sente a alma aliviada, por saber da hipótese remota de uma paixão a levar o seu Valdeci para um caminho menos doloroso que o da contravenção. Por outro lado, entende como será difícil a uma garota do agreste, educada com os avós e sob a benção do padre, vir sequer a gostar de um

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cabra cujo negócio é o crime. Ai, mas foi aquele cabra desgraçado, o Jivaldo, que levou o meu Valdeci para o crime, murmura, já na cozinha. Dois dias depois do enterro da senhora de minh´alma e mãe do meu filho, que padinho Ciço a tenha em sua paz, Possidônio soube que o rapaz procurou o velho contrabandista Jivaldo, tido na praça como o chefe. Entre dois copos de pinga, Possidônio e Jivaldo se estranharam num boteco no centro de Caruaru, mas o guardador de rebanhos colheu em si mesmo o bom senso ao ver que o contraventor apenas acolhera Valdeci.

Parte 14 A suprema corte dos EUA diz que o dinheiro é uma “fala” no contexto político, então, não se pode limitar doações milionárias para políticos, pois, seria contra a regra da livre expressão...

O terrorismo grupal de seitas pseudo religiosas e o terrorismo d´Estado confrontam-se cada vez mais enquanto as potências mundiais trocam acusações de apoios e traições. Para agravar a situação, descobrese que muitos políticos influentes e empresários têm contas secretas em casas de câmbio que lavam dinheiro da corrupção, e as tensões fazem com que uns se desliguem dos respectivos governos, e outros, do tipo cara de pau, façam de conta que não é com eles. É o mundo em plataformas de comunicação e informação: a aldeia global. Políticos, esportistas, empresários e artistas do Brasil engrossam a lista de personalidade com contas secretas e, como já é hábito, desconversam ou tentam negar os dinheiros da sonegação ou da corrupção. O dinheiro “fala” mais alto que as ideologias e o bom senso. Aurora lia uma revista inglesa quando o visitante foi anunciado. Coloca-a ao lado de uma garrafinha de água mineral e, por sua vez, olha-o de alto a baixo. Chamou-lhe a atenção o som forte das botas no ladrilho e nem havia levantado os olhos para ele. Habituada a nunca descer do salto, lição recolhida da mãe, ela enfia os pés em chinelos com salto médio e cruza as pernas graciosamente, com as mãos indica a cadeira à sua frente para o visitante. – Então, você é a china que opera para os russos... Ao escutar china, Aurora levou o seu olhar fixamente para o dele. – Errado meu caro – há rancor na voz dela –, eu sou portuguesa de Macau. Ah, e não opero para os russos, trabalho por minha conta! Percebe que o homenzarrão quase se encolhe, e escuta: – Era a indicação que eu tinha. Desculpe se falei algo errado. Mas, vamos ao trabalho, senhorita... – ...Aurora. – Muito bem, senhorita Aurora. Ela gostou do tom pacificador e educado. Sempre escutou que os nordestinos eram rudes por natureza. A amostra que tivera com o terrível confirmou o dito, mas o seu canal parecia ser diferente. Existe uma certa aristocracia do crime que Aurora gosta de frequentar. Gente que se fez gente roubando e matando e que se confunde com as elites sociais. – Sabe, mesmo entre a contravenção – diz ela, algo desafiadora – deve existir uma civilidade, porque todos nós na sociedade roubamos ou matamos todos os dias de alguma maneira. Não, não falo de etiqueta, mas tão somente de boas maneiras. – E a melhor cobertura em nossas andanças, senhorita, é mostrarmos que somos iguais aos outros, pois, político rouba e mata como nós, empresário faz o mesmo, mas nos dois casos representam a classe alta, nós somos a ralé, mas tão somente, como a senhorita diz, quando não sabermos utilizar a nossa força financeira para mover as peças sociais a nosso favor. Aurora está deslumbrada. Levanta a mão e pede que o atendente do hotel se aproxime. – Traga dois uísques J&B doze anos... Observa atentamente o nordestino que tem na frente. O calor é intenso, mas aprendeu na densa umidade oriental que uma bebida destilada ajuda a aliviar o desconforto na temperatura inadequada. E vai teclando no laptop puxando arquivos que pretende mostrar. O atendente chega, abre a garrafa e verte o uísque por um filtro nos dois copos com cubos de gelo. – É muito raro eu fazer isto. Gostei da sua pessoa, meu caro. Saúde... – Saúde – sorri ele. – Sinto-me lisonjeado, senhorita. E logo Aurora exibe três arquivos com mapas e estatísticas referentes à movimentação social nordestina, e mais no que tange ao setor de passarelas. – Vejo que a senhorita está pesadamente municiada! Ela deixa um sorriso encantar o visitante e logo deixa-o de boca aberta. – Esta é a análise ao seu trabalho nos dois últimos anos – diz.

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Intrigado, olha e lê dados que nem ele possui. – Meu caro, posso pedir que vista um calção e me acompanhe na piscina? Têm tudo na recepção... Vamos conversar calmamente... – Muito bem, muito bem – concorda, e deixa o local.

Parte 15 O terrorismo não é uma palavra vã no século da nanotecnologia. A privacidade das pessoas é ameaçada a todo o instante, seja pelo Estado seja pelo uso indiscriminado de aplicativos tecnológicos, por exemplo, em plataformas de telefonia e pequenos aparelhos de voo controlados por essa mesma tecnologia. Obviamente, a tecnologia serve o progresso, mas também é aplicada criminosamente. A facilidade com que bandidos utilizam pequenos objetos não tripulados, os drones, para verificar condições de vigilância em mansões e bancos fez com que a justiça determinasse estudos para impedir a venda indiscriminada dessa tecnologia. – E agora, olhem só!, nem precisam comprar informações da criadagem..., fazem voar câmeras de filmagem e verificam tudo na telinha do computador. – É uma bandidagem chic, moderna! É o que escuto de dois camponeses que leem um jornal diário paulista no balcão do bar, no centro de Caucaia do Alto. Tomo café e uns goles de branquinha Velho Barreiro enquanto aguardo a turma ligada à emancipação administrativa e política da região. Puxo do bolso interno da jaqueta uma folha dobrada em quatro e leio:

Populismo & Custo Socioeconômico Sabemos que o projeto de Poder dos marxistas-leninistas de raiz estalinista é uma ditadura política e econômica, ditadura cujo custo militarista e socioeconômico derrubou a União Soviética, paralisou Cuba e fez da China um estupro ideológico expandido para a Coreia do Norte e, dentro da incredulidade possível, também para o campo bolivariano (Venezuela, Bolívia, etc.) ao qual se juntou o lula-petismo (Brasil). A apetência pelo Poder absoluto vem da Monarquia, mas, em muitos casos, a República copia-lhe o aspecto ditatorial desde os tempos da Roma imperial. Embora um caso pouco estudado, o Brasil tornou-se República no âmbito de uma Monarquia que se esgotou em si mesma, mas, continuou a política absolutista com um presidencialismo feudal-coronelístico, i.e., a Presidência da República é um feudo que, tomado eleitoralmente, passa a ser uma célula de partido político mais votado, e foi isso que o Partido dos Trabalhadores (PT) aproveitou até ser abortado pelo esgotamento de tal proposta diante do custo socioeconômico gerador de instabilidade política e institucional. Fala-se de marxismo e fala-se de Povo, mas não se fala de filosofia política nem de políticas públicas adequadas à sociedade cada vez mais industrializada e economicamente globalizada, como sempre nos lembra o filósofo Manuel Reis (v. noetica.com.br), daí o fosso entre público e privado, entre economia e cidadania comunitária. O populismo que derrubou a URSS, que fez e faz de Cuba uma ilha dentro da ilha, ou da Venezuela uma nação rica minada pela miséria política, está na base da ação governamental que o PT fez implodir em 13 anos de “tomada do Poder” nos palacetes republicanos de Brasília. Para endossar e publicitar esse populismo, o petismo bolivariano ampliou e modernizou projetos sociais de grande envergadura, é verdade, mas um projeto social deve ter uma porta de entrada (a cidadania resgatada) e uma porta de saída (a cidadania estabilizada com integração trabalhista), ora, no caso do petismo serviu apenas de porta de entrada e de plataforma eleitoral eternizada. Ou seja, estupra-se eleitoralmente o Povo que depois é embalado ao sabor das necessidades políticas, porque o Poder assim gerenciado é uma célula do partido que representa a causa ideológica, ideologia que não comporta o Povo, mas o projeto de Poder partidário. O custo socioeconômico da nefasta ação petista no Poder da federação republicana brasileira provoca, obviamente, a ascensão dos interesses mais elitizados. Com o afastamento da presidente Dilma, em

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julgamento por irresponsabilidade fiscal (gastou mais do que podia e sem autorização parlamentar), o petismo bolivariano deixa o Poder e o liberalismo retorna com uma força sustentada pelo erro crasso da própria petista Dilma: o abuso de Poder em nome de políticas populistas legitima até golpe d´Estado. “Entre o caso Mensalão e o caso Petrolão o petismo bolivariano esqueceu de perguntar ao Povo se podia ou não continuar a alimentar a (sua) máquina com dinheiros da corrupção em empresas estatais e extorquindo empresários da área privada; na verdade, receberam um aviso judicial e social no mensalão, mas não quiseram escutar, no auge do Petrolão o juiz Moro demonstrou que o projeto do PT era na verdade um golpe d´Estado em curso de livre leviandade estalinista”, como descreveu o escritor João Barcellos em palestra sobre o assunto. Agora, com o vice Michel Temer no cargo de presidente interino (e com mais tempo do que teve Itamar Franco ao tempo do afastamento de Collor) o Brasil vai tentar sair do fosso político e econômico em que a irresponsabilidade fiscal do petismo o enfiou. Pior não pode ficar, mas espera-se que o professor de Direito e poeta Temer ajude a Nação que é um dos celeiros da humanidade. É o último panflo do grupo de debates Noética, resumo de um painel acerca do afastamento da presidente Dilma Rousseff, agora sob julgamento pelo senado. Vive-se um Brasil dividido entre a minoria estalinistabolivariana do petismo e a maioria que quer a Nação da realidade socioeconômica, não a do populismo partidário. Faltou, penso eu, ao governo petista fazer levantar um drone para verificar do alto as condições reais do Brasil e evitar aprofundar o golpe d´Estado que o seu terrorismo ideológico patrocinou durante anos emperrando o maior celeiro de riquezas da Terra.

A muitos e muitos quilômetros da região caucaiana, Aurora está na varandinha do seu quarto e observa jornalistas especializados em comunicação visual que fazem hora na piscina trocando ideias sobre moda e publicidade. – O que temos de fazer é um trabalho de bastidor para termos nas mãos as garotas (eh, e os garotos!) que precisamos para os programas políticos e empresariais, porque a demanda lá na Europa é grande e rios de dinheiro podem correr para nós – diz ela, em fala mansa voltando a cabeça para dentro. Ele escuta atentamente, nu sobre a cama. Olha atentamente o corpo de boneca envolto numa peça de seda transparente. – E temos que evitar expor os nossos contatos locais, como o tal caucaia, o cara de Caruaru, um cearense há muito tempo residente aqui. Já recebi dele as fotos com as bonecas mais interessantes e os viadinhos que russos e judeus mais buscam. Eles e elas terão de ser muito bem instruídos e as bagagens preparadas e personalizadas... – Ai, sim, já verifiquei a fábrica lá do Rio que fará as mochilas e as malas. Uma indicação muito boa a tua. As raparigas e os rapazes.... Ele assusta-se, quase pula da cama. E ela exaspera-se. – O que foi, Artur? – Ora, ora, Aurora, meu bem – diz ele, desassossegado –, já falei para não usar essa expressão. Rapariga, por aqui não é o mesmo que em Portugal ou lá em Macau, rapariga aqui é puta. Você deve dizer garota, só garota, para não criar problemas! Aurora abre os braços. Todo o seu corpo se recorta na luz que entra pela porta da varandinha. Ele puxa-a num rompante e rolam na cama.

Observo duas garotas que compram pão. É quando chegam as pessoas que aguardava. – E aí, pronto para ocupar o cargo de assessor de porra nenhuma lá em Brasília? – escuto a gozação de um deles, de olho puxado para o corpão das duas garotas que agora pagam a compra no guichê. – Depende do tapete que me for estendido... – aproveito a gozação. – Huummm, tudo é possível nesta tropical essência – diz outro. E continua: – Acabamos de saber que parte das famílias da região recebem um salário mínimo mensal de vereadores de Cotia, e assim eles fazem a manutenção do voto. Ou seja, se eles disserem para essas famílias não votarem a favor da emancipação vamos ter muita dificuldade. É difícil acreditar que ainda se vive esse tempo de coronelismo financeiro. – É por isso que sempre digo ser necessária uma ampla campanha de esclarecimento político sobre o voto consciente. Essa gente compra voto como compra buceta para êxtase de poder político entre uma sessão legislativa e outra. Quando não incluem o prefeito que lhes paga uma fortuna por cada projeto do executivo aprovado... – ... bem, se lá em Brasília temos o barco do amor só para parlamentares, por aqui temos a festa das bucetas em picadeiro substituindo a boiada! – remata o primeiro. O ânimo dos dois acerca do processo de emancipação não é positivo. A questão do voto comprado com gorjeta permanente deixou-os apreensivos. Nem seria para menos. A região não tem aparelhamento

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recreativo e cultural para jovens. A praça central é um ponto de encontro de moças e moços que se iniciam no consumo de drogas, logo, o assédio para o sexo em programas de acompanhamento acaba por aniquilar a esperança de uma vida com realização própria. O que tenho visto aqui na região é uma juventude corrompida, viciada na autodestruição, já me havia dito Eleonora. – Isso reforça – continuo – aquilo que venho dizendo: é preciso conscientizar as pessoas quanto ao voto em pessoas de vida limpa, pessoas com capacidade de gerarem políticas públicas para a cidadania. E assim continuamos a conversa com pinçadas no impeachment da presidente, a raiva petista e o governo de salvação nacional de Temer. Apesar de uma presidente afastada e no rescaldo um novo governo federal, as pessoas no bar conversam mais sobre futebol, a política é secundária, o que me deixa mais certo sobre a importância de valorizar o voto, mostrar a sua importância como instrumento de mudança.

Aurora e Artur estão no Alto do Moura. Depois de boas porções de carne assada de bode regadas a caipirinha, espiam rostos e corpos de jovens mulheres que sonham com o sucesso na passarela. A maioria é bonita no parecer de Aurora, que também gosta do perfil dos rapazes. – Este tipo de rapaz é o preferido de italianos e judeus, mas os russos preferem brancos de cabelos claros: a elite gosta de mostrar o seu poder em cima da própria raça – assinala ela. Bebe um trago de caipirinha, abana a cabeça, percebe-se alta e afasta o copo para perto dele. – Acredito que vai ser fácil instruir esta gente moça cheia de sonhos. Vão embarcar sonhos e aportar em braços que lhes vão dar vida com a grana boa que receberão. Ele ri. – A casa de Jaboatão estará pronta quando? – Dentro de dois dias. Amanhã precisamos que esse caucaia nos passe os e-mails deles e delas, porque quero começar a entrevistar e fotografar lá na casa dentro de uma semana. Vamos pagar a passagem e o almoço, e até um bônus de cem reais, mesmo de quem não nos interessar. A aparência é tudo neste jogo. Preciso que tu verifiques as mídias que podemos utilizar por três meses, o tempo necessário para embarcar as conas e as piças para os oráculos das elites. – Conas e piças?... – Bucetas e paus, ai... – ela faz uma careta. Sempre esquece que o português do Brasil não é o mesmo de Portugal. E ele ri. E logo abre os braços. – Ah... Eis o nosso caucaia. É o fotógrafo Cavalcanti, agora apresentado a Aurora enquanto pedem café a uma atendente. Ele estende um papel com uma lista de telefones e e-mails. Ao adentrar o restaurante, onde é bem conhecido, Cavalcanti disse estar “à procura de um casal que quer fotos da região” e a atendente apontou para o par de estrangeiros numa mesa do centro. Aurora vai debruçar-se sobre a lista, mas a sua atenção é puxada para uma jovem que entra no recinto levando uma peça de cerâmica nas mãos. Artur e Cavalcanti seguem olhar dela. Artur não se contém: – Que graça! – diz. Extasiada, Aurora sussurra: – Essa menina é um sonho! – e olha para Cavalcanti a pedir informações. – Ah, é Luiza, uma artesã muito querida da nossa gente – escuta. Aurora faz um trejeito com a boca a sinalizar que a informação não lhe agradou. Não, não será presa fácil essa gracinha, pensa. Ao ver ti Cavalcanti, e já entregue a encomenda a um grupo de turistas, Luiza aproxima-se, cumprimenta, e oferece o seu cartão de visitas. – Fui convidado para fazer umas fotos para este casal. Se der tempo, passamos lá no estúdio – diz ele, beijando-a na face. Aurora faz uma precificação da sensualidade do caminhar de Luiza. Uma fortuna ambulante, essa gracinha, registra. Levanta o cartão e fala alto, parando a moça: – Sim, sim, iremos visitá-la mais logo... Luiza! Artur dirige-se ao fotógrafo enquanto lhe estende um envelope: – Meu caro, aqui tem o pagamento. O mundo viu que contratamos você, agora é melhor ir embora. Ah, onde fica o estúdio dessa artesã? A nossa amiga aqui vai querer conhecer o trabalho dela... Ele explica como achar o estúdio, toma o café e deixa o restaurante. Mas vai com uma pulga atrás da orelha. Nem tentem mexer com a nossa menina, nem tentem, fica ele em alerta. – O trabalho dela ou a cona dela? – questiona Artur de olho em Aurora. – Ora, meu caro, essa gracinha vai ser minha. Ou eu não me chame Aurora! Mas não fiques com ciúmes, tu tens um lugar no meu coração. - Ela pensa, olha-o, e pergunta: – E caucaia é lá nome de gente?! Artur solta uma gargalhada. – Por aqui (e olhe, não acredito que seja diferente lá na sua terrinha) temos o hábito de taxar a pessoa com o nome da terra de origem, e ele é de Caucaia, uma cidade cearense além Fortaleza. – É... – e ela se dá por satisfeita.

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A poucos metros do restaurante, Cavalcanti percebe que Luiza conversa com um grupo de jovens e aproxima-se. – Ei, ti Cavalcanti, este ano temos menos turistas, mas está dando para o gasto, nê?! – escuta. – Mas não podemos viver só para o gasto... – É verdade. – ela esboça um movimento com a cabeça na direção do restaurante. – Muito linda a sua cliente. É chinesa? – Não, e sim. É portuguesa de Macau e é editora de moda e concursos de beleza. Hum... – ele mira-a de alto e baixo –, e ocê, belezura, nem pense em se meter nessas coisas! Luiza ri, jovial. – Nunca gostei de ver a mulher com o corpo exposto para deliciar os olhos e os desejos de homem, por isso, também nunca representei o nu feminino e masculino em minhas peças cerâmicas, sequer nos desenhos a carvão, prefiro desvendar a alma retratando o olhar da pessoa. Aurora e Artur saem do restaurante e dão com Ti Cavalcanti e Luiza naquele papo, enquanto jovens irlandeses se dirigem agora para a casa que foi de Mestre Vitalino. A pretexto de fotografar o alegre grupo europeu, Aurora capta com a teleobjetiva o corpo e o rosto de Luiza. – Que gracinha... – murmura. E logo busca os registros digitais, que observa extasiada.

Parte 16 – E ocê, ó terrível, ocê vai ficar encarregado da segurança total desta casa enquanto ela for o estúdio da chinoca. Estamos entendidos? – Ocê é que manda, chefe. O arquiteto que fez as alterações estruturais e decorativas na casa acabara de entregar a chave ao chefe e recebe o último pagamento em dinheiro. A recusa de o terrível em tratar de contrabando de mulheres mexeu com os miolos do chefe, que teve de intervir para o russo não mandar matar o jovem. – Quem pensa esse rapaz que é para negar ordens nossas?! – berrou ele, quase incontrolável. – Eu vou colocar o rapaz na segurança, até porque precisamos de alguém de alta confiança no setor. Por outro lado, ele é bem conhecido e não quero que as belezuras se mijem de medo ao vê-lo por perto. E ocê sabe que muitas mães vão estar junto das belezuras – argumentou o chefe a pacificar a situação. Entretanto, o russo gostou da reforma da casa e achou que Aurora tinha um estúdio à altura dos alugados na Europa e na Ásia. – E ela sempre gosta de fotografar (como é que tu dizes...) as belezuras a dançar, prova-as com o olhar... – comentou, a deixar o chefe com água na boca até ao saguão do aeroporto de Recife, onde logo embarcou o russo com destino à Bahia. – Espero que tudo corra bem pra nóis, lá em Salvador! – despediu-se do russo. E escutou: – Seria muito bom que aumentassem o preço do tabaco e do uísque. Vamos ver o que os nossos parlamentares vão conseguir nessa bancada que abastecemos com tantos dólares! – Por causa dessa casmurrice quase mandei ocê para comandar o trato do tabaco e do uísque. E anda ocê com sorte, que convenci o russo Vladimir a não cortar a essa cabecinha romântica. Não quero mexer com mulheres... Que é que é isso, cabra?! O jovem parece nem ligar. “Essa é mais uma puta camponesa que se meteu no caminho de uma bala perdida, e pronto”. A frase de um sargento sobre a morte da mãe ecoa na sua mente. O policial apareceu morto dois dias depois e ninguém conseguiu achar pista de quem fez o serviço. – E é?, queria ver esse russo a dizer isso pra eu, na fuça! O chefe dá de ombros (cabritinho metido..., rosna para si mesmo), dá mais uma olhada na casa, imagina as garotas e os garotos dançando na pequena pista que serve também de passarela. Está ansioso pelo espetáculo que pode mudar os rumos da sua vida. É muita grana, muita buceta, muita champanha. Por isso os políticos se vendem e lavam a grana até na sacristia, que igreja também é comércio..., pensa. No seu olhar ilumina-se uma expectativa grandiosa. – Ai, bucetas e mais bucetas. Isto é que é um cantar d´amor e guerra por tudo o que fazemos! O que é a vida sem guerra e o amor sem batalha pelo prazer? – murmura, e abana a cabeça. O jovem olha-o, mas não responde. Prefere o silêncio ao que escutou. “O que é a vida sem guerra e o amor sem batalha pelo prazer?”, é a questão que ecoa no seu cérebro. E como é que mim pode batalhar o amor e o prazer de Luiza?, como?, questiona-se enquanto prepara um cigarro de mortalha. Longe dali, Possidônio faz o mesmo. Lascou o tabaco com a lâmina do canivete da poda d´árvores, espalha-o na mortalha, enrola-a até levar aos lábios a borda que úmida segura tudo e dá corpo ao cigarro. – Doni – digo eu, observando aquele artesanato campesino que muitas vezes vi o meu avô materno fazer –, se o teu rapaz aprendeu com você a amortalhar o tabaco de corda ele vai saber batalhar por aquela Luiza e talvez tomar outro rumo na vida. – Só mesmo o poeta filosofando...

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– Ora, patroinha – anima-se ele com a dica de Eleonora –, quem sabe, quem sabe! E talvez eu peça uma semaninha para ir lá dar uma palavrinha com ele... E dou uma gargalhada. – Ora, Doni, aí está uma boa decisão. Olhe, nós faremos uma vaquinha para você ir e vir de avião. Ele olha-nos, surpreso. E escuta Eleonora: – Acordo feito!

Parte 17 – Ai, maltado, o que é isso? Algum tipo de cerveja?, ó Artur? – Não. É leite, sorvete cremado e malte. Uma delícia recifense servida desde 1928. Não quero que você comece os seus trabalhos lá em Jaboatão dos Guararapes sem ir nesse bar antigo e sempre presente. Para se você se sentir em casa, tem de ir lá no Recife Antigo e provar essa iguaria nordestina. Artur e Aurora terminaram de rascunhar toda a atividade, da pré análise e aprovação da grande leva de candidatas e candidatos à gincana de fotos no estúdio passando pelas entrevistas individuais no crivo da própria Aurora, e ele quer que ela “se sinta à vontade para observar e babar nos corpos nordestinos, e nada melhor que um banho com maltado, a iguaria nativa criada por Fidelis, o mais brasileiro dos cubanos”. E na verdade, depois de dois dias perambulando pelo velho Recife ela percebia nas pessoas nativas a doce mistura afro-americana que também conhecia dos trejeitos e canções de Carmen Miranda, pois, foi nela que se espelhou para capturar o ritmo e o estilo geral do povo brasileiro – aliás, como a própria Carmen Miranda havia feito, porque ela era uma portuguesa e cresceu no caldeirão sociocultural afro-americano entre os terreiros e salões do samba carioca. Aurora sabe, agora, como tirar toda a essência rítmica dos corpos que se lhe apresentarão no estúdio. Sim, aquele olhar de Luiza é a alma brasileira..., lembra, e sabe agora, também por que é que desistiu de a procurar no Alto do Moura. Com ela só é possível uma entrevista a duas para uma imagem única. Chegará o dia..., e sente-se feliz. O estúdio está pronto. Na sala que é o escritório de Aurora e o divã para as entrevistas a solo, o terrível olha as fotos delas e deles. – Ah, carne humana! – resmunga. Embaralha as dezenas de fotos na mesa de trabalho de Aurora jogando-as para o alto, todas com um bilhetinho de identificação clipado. – Que é isto...?! – ele não quer acreditar. Sem identificação, duas fotos de uma jovem mulher, uma de corpo inteiro e outra de rosto. – Uuuhhh, minha mãe... Luiza, minha Luiza... – ele sente-se chocado, perdido. Vê na foto de corpo inteiro que ela está ao lado do fotógrafo de Caruaru. – Mas, tiraram a foto da minha Luiza pra quê, se ela não é deste jogo? O que querem com ela? – murmura, a raiva a implodir-lhe as entranhas. – Muito bonita – é Aurora. Ela que entrou sem que ele a notasse. Ela pega a foto do rosto e diz: – Olha bem o olhar desta mulher. É paradisíaco, um encanto. Mas, quem és tu, ó diabinho, para reconhecer numa mulher a vida que raras pessoas são capazes de viver?! Um cabra nascido para viver como escravo. Essa mulher terá o mundo a seus pés, como e quando quiser. Ei, e quem te autorizou a entrar aqui, mexer e bagunçar tudo na minha mesa? Ele está perplexo. Não sabe o que dizer. – Mas, o que Luiza faz aqui? – atira. Aurora percebe que algo mexe com ele. Aponta o dedo indicador para ele e dispara: – O que tu tens a ver com essa artesã? – Nós estamos de olho nela, vigiamos ela e a família dela. Andaram a fazer comícios contra nós por causa do contrabando de argila – diz, e sente-se melhor, recupera o espaço próprio ao falar da sua atividade. – Agora, ela é minha protegida... – Ai, ah, ah, ah... Tua protegida?! Tu estás numa organização, meu rapaz, e aqui só tens de proteger quem é do nosso meio. O resto é nada. – Eu, eu – ele quase engasga com a bronca de Aurora –, bem, eu quis dizer que ela está na minha alça de mira, eu vigio ela. – Hum, cuidado, ó diabinho, não avances com decisões próprias ou podes experimentar o ódio da organização. Ah, enquanto eu envio mensagens pelo computador, faz o favor de recolher e reorganizar essas fotos por alfabeto. E passa-me as de Luiza. Um dia vou lá fazer uma entrevista com a artesã, vou fazêla famosa. E tira o cavalinho da chuva, essa gracinha não é para o teu relincho. Só avisamos uma vez, como sabes! O jovem está perplexo. Odeia quando ela o chama de diabinho. Com calma, mas com aquele desejo de quebrar a cara da chinoca, ele arruma as fotos. – Na próxima peço licença, chefe – diz ao se retirar e a enfatizar chefe. Recebe dela um olhar frio, calculista: – Licença que não terás, como sabes! – O que se passa, aqui?

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Artur entra no escritório e percebe os ânimos exaltados. – Como é que você está nesta área restrita a mim, o chefe e Aurora? Diante do homenzarrão o jovem sente-se pequeno e escuta ainda: – Ocê, ó Valdeci, é responsável por toda a segurança externa e sem se fazer notar. – Agora todo o mundo chega aqui e acha que manda na minha pessoa?! – irrita-se. – Errado – interrompe Aurora –, tu estás aqui para receber ordens e cumprindo-as de acordo não terás que escutar as outras pessoas. E agora, ó diabinho, vaza! Espumando de raiva ele questiona: – Eh, que segurança é esta que ocê trata mim pelo nome de batismo aqui dentro? – Valdeci, eu só conheço você por esse nome, e mais de metade da polícia também. Quer um conselho? Trate de mudar o figurino e também de carro o quanto antes, hoje mesmo. Já falei isso para o Jivaldo, o seu chefe. E ele já falou para você que a segurança externa não é ostensiva, é preventiva. Aliás, na minha opinião você nem deveria estar aqui, basta uma das jovens, ou uma mãe, perceber a sua presença, e logo teremos problemas... – ... Ih, não sabia que minha pessoa é tão famosa. E se mim é fammmosooo, imagem o chefe – corta o jovem. – Não é famosa, ó diabinho, cheira a encrenca. Tens razão quanto ao chefe. E agora vaza de uma vez! – ordena Aurora. Ele sai espumando raiva. – Ainda vamos ter encrenca com esse diabinho... – opina ela, enquanto Artur senta-se na beira da mesa do computador. Artur tivera uma conversa de pé de orelha com Jivaldo durante um almoço em Jaboatão dos Guararapes. – Sou eu mesmo! – esclareceu a sua posição. De fato, não estivera com o Vladimir em Caruaru. – Fui procurado pelo caucaia, o fotógrafo que você conhece, e que conheci quando me comprou muamba roubada de fotógrafo em Santa Cruz do Capibaribe, e logo fizemos amizade. Eu sou de Fortaleza e abasteço o nordeste com muamba eletrônica, bem melhor que ser professor de Física em escolinha de segundo grau. Lá em Caruaru o russo quis saber com quem falar sobre as questões da moda e das moças e moços com sonhos visando além mar, e... – rematou o currículo. Não precisava dizer mais, para bom entendedor meia palavra basta. E foi de Artur que o chefe recebeu as ordens relativas ao negócio em andamento. – Ah, os chefes lá da Europa estão querendo saber o que foi aquela história com o tal de orocó, no velho arrecife... É bom você ter uma boa resposta, porque policiais encontraram nas roupas dele alguma informação que deveriam desconhecer. O cabra não incinerou o suficiente naquele barco! – alertou. E o chefe sentiu os pelos do cu congelarem. – Ora, nada que não se possa esclarecer em defesa da organização! – disse titubeando, com mais uma pulga atrás da orelha. – Essa do diabinho deixa o cabra com ódio de você – diz Artur. Mas, por que ele veio até aqui? – Estava a dar uma espiada nas fotos e descobriu as de Luiza... – .. .Luiza?! – espanta-se ele. – É ele que faz a vigilância à raparig..., hum, à moça, porque ela fez movimentos contra o contrabando de argila, e parece-me que nisso o rapaz adquiriu uma paixonite! – Só nos faltava agora um amor bandido... – Isso vai passar, isso vai passar, ó Artur. Agora, vamos ao trabalho.

Parte 18 O terrível faz escolta do micro-ônibus que leva as garotas de várias regiões do semiárido. Dirige agora um WW que se parece com um protótipo desenhado para ser um carro Ferrari destinado à classe média. E ele mesmo mudou o visual: uma barba rala aparada, dia sim dia não, roupa social e sempre um paletó de tecido leve. Os primeiros testes e entrevistas são com as garotas. Fascinadas com o estúdio, o café da manhã e o almoço, elas estão deslumbradas e sonham com lágrima no canto do olho. Nas entrevistas, Aurora logo elimina a maioria por sentir falta de garra e muito mimo familiar; as que ficam juram dar tudo pelo sonho e seguem para uma visita a Recife com direito a jantar. Os garotos seguem o mesmo figurino. Em quatro dias, Aurora tem oito moças e oito moços embrulhados em promessas e roupa e calçado de marca conquistados por isso mesmo – um mimo da organização que seduz para ganhar, ganhar muito. A última parte da programação é um almoço no velho Recife, uma confraternização familiar para recebimento de um book individual com capa de couro, assinatura dos papeis relativos a contratos e

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passaportes. Uma festa. Aurora formou casais para embarque em aeroportos e destinos diferentes, embora o grupo vá se reunir em Tel Aviv para visita a Jerusalém e de lá, enfim, peregrinar pela vida. – Oi, Valdeci. O terrível quase congela. Volta-se e aos poucos recupera a serenidade. – A benção, meu pai. Rever o pai tão cedo nunca esteve em seus planos, e menos procurá-lo. Possidônio não disfarça o nervosismo. – Podemos tomar um café e ter uma fala? – Sim – concorda e aponta um barzinho perto da casa que foi de Mestre Vitalino. – Soube que ocê, meu pai, foi pro sul. – Verdade, estou na periferia de São Paulo e trato de uma pequena chácara de gente boa, que paga bem e me respeita. E ocê, meu filho, seu Etelvino disse-me que anda ocê de olho na netinha dele... Ele não esperava uma conversa deste tipo. – Bem, meu pai, gosto dela, mas mim saber que ela não é pro meu bico, num sabe. Ela é um sonho que mim sonha, só isso. – E ocê já pensou em mudar de vida para se aproximar dela? Valdeci fica desconcertado. Nunca havia sequer pensado nessa hipótese. – Olhe, meu pai, ocê sabe o que mim faz, e o que mim faz não deixa sair, saindo sai morto por morte matada! – Meu filho, ocê está assim tão dentro dessa bandidagem?! – indaga Possidônio, já com o medo da resposta. – É, tou dentro, mim ter ficha suja na polícia e o povo sabe que mim é bandido mesmo. Meu pai, ter Luiza só em sonho! Mas, eu digo a ocê, meu pai: logo que mim ter a grana suficiente, mim vai comprar uma chacrinha para tratar da terra, porque mim é da terra e da terra é que mim sabe como ocê ensinou. Possidônio levanta-se, estende um pequeno papel para o filho e diz: – Valdeci, meu filho, aqui ocê tem o meu endereço e o meu telefone. Se ocê quiser sair daqui e viver a terra em outro lugar sabe onde encontrar o seu pai. – Agradecido, meu pai – o jovem mostra-se nervoso, emocionado. – Se for o que mim desejar assim será feito. E não se preocupe com Luiza, que nunca procurei nem vou procurar! Pode dizer isso a seu Etelvino, que mim sabe que ele procurou ocê para noís ter esta fala. Já vi muita morte a meus pés e muita vida estragada por aquilo que mim é, meu pai, mas nunca buli com mulhê, num sabe, toda mulhê lembra minha mãe, e mais a belezura que é Luiza! Deixa mim sonhar, deixa... O abraço dos dois parece selar uma paz que ambos não viviam, não procuraram e nem tinham sequer perspectivado. – Que padinho Ciço te proteja, meu filho! – Sua benção, meu pai. Possidônio afasta-se na direção de um jipão prestes a partir na direção de Caruaru. Uma cena que o seu filho Valdeci não vê... O seu olhar está em Luiza que, súbito, deixa uma loja e ocupa o espaço descendo lenta e graciosamente a rua principal. Um instante na eternidade que o sonho permite. O doce balanço dos cabelos da moça dá moldura onírica e deixa o moço em êxtase. – Ocê sempre vai estar em mim, Luiza... – murmura ele.

Jivaldo, o chefe, é um cabra cauteloso. Deixar rastros é permitir que o passado alcance o presente e, às vezes, impedir o futuro, costuma dizer para os seus subordinados. Por isso, nem eles sabem onde ele mora. Demorou para ter o que queria e só depois de expulsar uma família de retirantes baianos mandou construir a casa e fazer do sítio maltratado uma propriedade rural com bom nível hortigranjeiro. – Meu amigo, quanto tempo para eu chegar em Riacho das Almas? – pergunta o homem de fartos cabelos aloirados e uma barbas tão farta quanto; um gorro de lá está enfiado sobre o cabelo. Falou da janela de um velho Jeep de muitas guerras. O homem veste um macacão surrado do tipo mecânico. Na berma da estrada, esfarrapado, um mendigo mira o sol quase a pique e dá a informação– Mais uns cinco minutos, coisa pouca. E o patrão tem um cigarrinho aí pra este cabra? – Do porta-luvas ele tira um pequeno isqueiro Bic e três maços de cigarros que o mendigo apanha como benção das divindades. A menos de dois quilómetros do centro de Riacho das Almas está um sítio que fornece leite de cabra, legumes e grãos para as cooperativas e queijeiros. Sobre a porteira de madeira uma pequena carroça feita ornamento identifica a propriedade rural. Logo abaixo, presa por uma corrente feita com ferraduras soldadas, uma placa de madeira avisa em letras artísticas: Propriedade Privada. É o que ele lê por um binóculo. Faz entrar o Jeep numa vereda, que fica escondido para quem olhar da estrada. Coloca nas costas uma pequena mochila e pela traseira retira uma bicicleta do tipo todo terreno e retorna à estrada.

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– Ai, por que Artur deixou-me sozinha hoje? Aurora, sempre meticulosa naquilo que faz ou pretende fazer, aprendeu a gostar de ter Artur por perto. Ele conhece tudo por aqui e tem ideias muito boas, pensa ela. O seu smartphone pisca e ela verifica a mensagem. É algo que a assombra. “72h para embarcar presentes. Vla”. Sabe que algo imprevisto aconteceu para o russo lhe enviar mensagem. – E agora? Onde estás tu, ó Artur?... Ela inspeciona mais uma vez a papelada, vistos e passaportes. – Tudo em ordem. Tudo, menos Artur... – resmunga.

Antes de esconder o Jeep na vereda, o homem entrou em dois barzinhos de berma de estrada. Comprou queijo de cabra, comeu uns pedaços com pão. – Sabem, procuro alguém da família Antunes, sim, o Antunes, o baiano queijeiro. Sabem de alguém? – questionou nas duas paradas. – Mas, ora, ora, faz muito tempo que se foi daqui, cabra, muito tempo. Dizem que levou porrada de ficar quase em cadeira de rodas e viu as suas duas meninas-moças serem estupradas, tudo por causa de uma dívida de quase nada! Saíram daqui na caçamba de um caminhão pras bandas do Velho Chico e nunca mais se escutou o que fosse dos Antunes – e foi o que escutou em ambas enquanto mordiscava os quitutes, a que juntou goiabada. Pedala agora com a informação a corroer os miolos. Perto da porteira vê que o sítio tem também uma pequena criação de cavalos manga-larga, negócio impossível de ser sustentado pela atividade hortigranjeira, como logo raciocina. – Soube dar cobertura à vidinha de bandido, o cabra! – exclama, de olho na placa artística. Cachorros fazem-se ouvir, mas estão acorrentados: dois perto da entrada da casa e dois numa pequena cabana logo após a porteira. Ficam presos durante o dia, como é costume, e soltos à noite para defesa da propriedade. Percebe uma trilha de gado que ladeia a cerca até perto da casa e pedala por ela em ritmo forte para vencer o leito acidentado. Encosta a bicicleta na cerca e faz um estudo do terreno. A varanda frontal tem duas portas e uma delas aberta, como verificara ao subir a trilha, e na lateral, há uma janela aberta que parece ser de um quarto: uma cortina rendada balança no vento fraco. Tira a mochila das costas e logo enfia as mãos numa espécie de luvas cirúrgicas de cor da pele; retira uma faca de combate, que coloca no bolso externo da mochila, e um revólver ao qual enrosca um silenciador. Puxa duas tiras de chiclete da embalagem e começa a mastigar. Deixa a bicicleta no mato ao lado da cerca e pula... Na casa, no salão que dá para a varanda, Jivaldo é o agricultor na azáfama de separar os empregados por tarefas antes de irem buscar as marmitas e se arrancharem numa cobertura ao lado dos estábulos, mas também é dia de pagar a jornada daqueles que fizeram serviço avulso pela manhã, e é o que ele faz, nota por nota, moeda por moeda. Dar dinheiro a mais é criar cobra pra ser picado!, costuma apregoar. Com ele tudo é contado e pago segundo o trato oral. Terminado o pagamento ele fica só. Na televisão gigante de tela plana políticos discutem sobre a presidente afastada e os berros de dirigentes bolivarianos contrários ao acontecimento, mas, mais pela perda da mamada nas tetas brasileiras do que por idealismo, conforme dizem alguns analistas. – Porra, política, política e mais política... – grita ele, logo a desligar a televisão com um toque no controle remoto. Pega uma garrafa de pinga e enche um pequeno copo. Súbito, percebese sob observação. – Mas, mas, que é que ocê... – ... Senta aí, cabra! – escuta. Uma voz rouca, pausada entre chiclete mastigado. Na entrada de um corredor para a sala ampla, o homem do gorro ordena que ele assente a bunda no sofá de couro de boi bem no centro. – Que é que ocê faz aqui, armado?! Tu tá roubando uma organização, cabra... O homem solta uma gargalhada. A frieza dele mata Jivaldo. De medo. – Onde está o cofre? – pergunta. Vê que Jivaldo aponta em outra direção com a cabeça. – Vamos lá e nada de artimanhas! – ordena e adverte. Ele levanta-se e caminha para o corredor onde entra na segunda porta, a do quarto qye serviu de entrada para o intruso. A poucos metros, na cozinha, duas mulheres trabalham sem perceberem o movimento dos dois homens. Todos os gestos de Jivaldo estão sob vigilância. Acima de uma mesa de trabalho, paralela à cama, está um quadro erótico que Jivaldo tira e põe na cama. À primeira vista a parede continua a mesma, mas ele retira uma parte aparente e deixa à mostra um pequeno cofre com comando eletrônico. – Abre! – escuta. Maços de notas de dólar e de real surgem diante dos dois, mas o homem pega em duas pastas logo que empurra o chefe para cima da cama. A perplexidade de Jivaldo é tanta que não tem sequer instinto de reação. – Hum, e não é que esta propriedade não é sua..., é de, hum, Antunes... – Que é que ocê quer? Ganhei de uma gentinha retirante! – diz Jivaldo, e nada mais. A bota de montanha do homem chuta-lhe o rosto com tanta violência que quase perde os sentidos. – Oooccêees querem o que, que, que é meu, é isso?, fiquem com o sítio, mas deixem eu viver – suplica, gaguejando.

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O homem fixa o seu olhar no dele. Jivaldo assusta-se. Ai, meu deus, que mim ver Antunes nos olhos do cabra!, diz para si. – Na minha frente e de meu pai, há muitos anos, você pegou e estuprou as minhas irmãs, aqui, neste sítio, depois, abandonou a gente no sertão da Bahia na margem do Velho Chico e ainda levou meu irmão para fazer dele um bandido. Eu sou o outro filho de seu Antunes, o homem de quem ocê tomou a vida! O pavor brilha nos olhos do chefe, o corpo treme. – O outro irmão do orocó? O outro ri. – Eu mesmo, que fiquei escondido no sítio. Ele era o meu mano mais novo, que você fez viciado em pó, mas um cara bom, um cara bom que você fez isca para se livrar dos olhos da organização e da polícia! Jivaldo mal compara, mas tirando a farta cabeleira do homem e o estilo velho ferreiro de vestir e calçar, ele é o orocó até no olhar. E é, mas onde eu vi esse olhar nestes dias?..., questiona-se. – Eu não sabia como chegar ao chefe que mandou ele para os quintos do inferno, só sabia, por Cavalcanti, o caucaia, que ele fazia o trecho Caruaru-Recife, até que surgiu o convite para gerenciar o novo negócio do russo por aqui, e você veio cair na minha mão! – diz ele, que abre outra pasta e verifica que os impostos rurais estão em dia. – Aaiiii... Jivaldo berra. É um som tão desentranhado que se abafa na dor. O intruso faz girar o tambor do revolver e despeja pólvora ardente sobre a braguilha dele. No corpo sem sentidos, ele faz passar o fio da faca na garganta. – Pelas minhas irmãs, cabra! Pelo meu mano menino! Fecha o cofre, ao qual dá outro código de acesso, recoloca a parte aparente da parede e o quadro. Em poucos minutos já pedala descendo a trilha.

Caruaru, início da tarde. – Como...?! – O terrível não acredita no que acaba de escutar. Estava rumando para Jaboatão, faz o WW parar no acostamento. – Este é telefone de emergência que está aqui para a gente ligar. Não sabemos como aconteceu, não vimos ninguém... – escuta ele. Custa-lhe reagir. Nem sabia que o chefe tinha sítio em Riacho das Almas. – Tá, num mexam em nada nem chamem a polícia. Mim estar indo agora pro sítio. Quem viu ele morto? – Só nois, da cozinha. Hoje foi dia de pagamento e só estamos nóis e o caseiro. – Tá, num falem seja com quem for, nem com o caseiro. Façam tudo normal até mim chegar! – Ai, Artur, Artur, onde tu foste? – Almoçar com uma gatinha e viver um pouco a minha vida, Aurora, meu bem – responde ele. Ela coloca-o a par da emergência que é fazer embarcar todo o mundo em 72 horas e não deixar falhas pelo caminho. Estão a pôr tudo em ordem e enviar mensagens para as garotas e os garotos quando ela escuta o telefone e atende. – O que aconteceu, meu rapaz?! Chocada, ela explica que o chefe foi encontrado morto no sítio. – O diabinho está a tratar de tudo. Vamos dar um fim no corpo, o resto é com a polícia. Furaram os colhões dele à bala e cortaram a garganta. Obviamente, foi vingança de mulher, pois, a organização não age assim. Só nos faltava isto, raios... O grupo dele vai continuar a agir como se nada tivesse acontecido, e acho que o diabinho pode tomar conta disso por uns tempos. Se aparecer alguma notícia do chefe, com foto, antes de embarcarmos os presentes, vai tudo por água abaixo! – Eu sei como isolar o sítio da morte dele – diz Artur –, mas preciso tratar disso até de manhã. Fala para o (teu) diabinho incinerar o corpo para não termos pistas futuras. Conheço um dono de cartório aqui de Recife que, bem pago, pode fazer esquecer esse sítio, já que ninguém sabia que era do Jivaldo. – Ai, melhor assim, melhor assim – desabafa Aurora. Ela abre os braços, como que a desenhar uma solução, e diz: – Não. Se tens essa opção, o melhor é pegares um helicóptero e ires para esse sítio, agora. Esse diabinho não tem miolos para agir sozinho, Artur! Eu trato do resto aqui e informo o moscou do acontecido. Vou pedir o endereço do sítio ao diabinho e tu embarcas logo.

Parte 19

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Luiza estranha que os dois homens tenham desaparecido. Faz dias que não os vê a rondar a casa. Será que a polícia apanhou os dois no contrabando?, questiona-se. – Oi, minha neta. – Vô, pensei que estava com ti Cavalcanti... – Sim, conversei com ele. Hum, está muito calor! Ela percebe que o avô quer falar de algo e não é sobre o clima. – Vô, o que o senhor quer falar de ruim para mim que está aí surfando no tempo? Ele puxa-a e sentam-se no tronco de árvore perto da casa. Solta alguma tosse e diz: – Eu tive fala com o Possidônio... – ...e?! – corta ela. – Deixei passar um tempo só para verificar se estava tudo certo, num sabe. Pois bem, ele esteve com o Valdeci, o filho dele, e soube que o moço realmente se engraçou por ocê, minha neta, mas que ele mesmo sabe que não pode ter uma moça como ocê. E então, disse que não vai se aproximar mais da nossa casa. – Aahhhh! – suspira ela a encostar a cabeça no peito do avô.

Guilherme ergue uma taça e entrega-a a Duda. Serve um champagne Terranova, brasileiríssimo, e a turma gosta. Estamos de novo no escritório de Guilherme e escutamos a Duda: – Olhem, nem o Ministério Público nem o juiz Moro têm o Zé Dirceu como chefe da corrupção, do mensalão ao petrolão, logo, não é difícil adivinhar quem vão anunciar como chefe dessa estrutura criminosa. E você sabe, Gui, certo? – Gui...?! – impressiona-se Eleonora. – Uau, corações trepidantes. Já tinha percebido que Eduarda Coutinho havia sido finalmente fisgada por um sentimento mais profundo que os namoricos de inverno lá por Campos de Jordão entre sessões de música sinfônica. Guilherme é um solteirão em busca da mulher ideal e logo que Duda apareceu no primeiro encontro no seu escritório o grupo viu que ambos trocaram mais olhares que falas. – É, não vou esconder – diz Duda, de rompante, talvez para esconder algum embaraço –, sim, estamos juntos e misturados. Pronto, disse! – E eu estou gostando, gente! Um momento de felicidade. Erguemos as taças e brindamos ao novo casal. Ele e ela entregam-se num abraço e selam o instante com um beijo carinhoso. Como é bom ver a humanidade em paz e feliz em tempos de guerrilhas política, judiciais e militares, que destroem não apenas corações apaixonados, também famílias inteiras e sonhos, muitos sonhos. E nos sonhos políticos, a realidade própria do lula-petismo acaba de ser desmascarada por atos de governança populista e imoral que tinha como meta um poder de muitos e muitos anos, talvez para várias gerações, e só o sovietismo e o nazismo haviam sonhado tal ´coisa´. De heroína bem-sucedida na trilha de Lula, a presidente afastada Dilma faz-se agora de vítima enrolada nas próprias ´pedaladas´ fiscais que atiraram o Brasil para a lama econômica. E a velha esquerda festiva sai às ruas para falar de ´golpe´, quando o golpe é a inabilidade gerencial que minou o Estado em 13 anos de lula-petismo. – Pois é – avança Guilherme –, a jararaca que quis virar dragão é um tigre de papel que o juiz Moro soube neutralizar com paciência incrível. – Verdade, esse Lula é a imagem da derrota – completa Queiroz. – Ah, e os militares no meio disto tudo, hein? Eu respondi nas redes sociais de internautas a vários questionamentos sobre as FA´s e o seu papel político em momento de crise aguda. Sei que existe uma certa paralisia no meio castrense e que não se coaduna com o Brasil continental. E digo: – Ei, vou ler uma mensagem que postei hoje acerca das FA´s. Escutem... [...] desideologização das FA´s feita por FHC e Lula, agora uma instituição sucateada fisica e politicamente. Transformaram as FA´s em picadeiro de ´games of war´ enquanto a realidade mostrava, e mostra, uma Nação sem defesa no rumo das suas tradições. Ora, Povo somos todos nós e as FA´s deveriam ter uma missão de destaque, o que não acontece porque (ao que parece) a classe militar desconhece a sua própria essência histórica no âmbito social. Seria bom, muito bom, que as FA´s mostrassem à sociedade a sua triste realidade cotidiana...a partir mesmo da precária defesa da linha fronteiriça amazônica! É o mesmo que defender um Ministério da Cultura que só serve interesses

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de intelectuais e artistas de pança cheia... Ora, Cultura só existe a partir de uma Educação embasada na Família e na Tradição. E este é também o problema atual das FA´s do Brasil chefiadas por políticos que lhe desconhecem a origem castrense [...]. Duda levanta a sua taça num gesto de saudação ao texto. A simpática e sempre sensual eduarda Coutinho não perde pitada mesmo em clima de paixão ardente. – Carlos, eis um texto que vai fazer muita gente refletir – afirma ela. – Muita gente sim, no geral, mas pouca no campo militar – analisa Henrique, solene, sentado entre os dois cavaleiros templários –, porque (olhem, e concordo com o Carlos) enquanto as FA´s não acabarem com essa palhaçada corporativa chamada Polícia Militar, cujo M é de metropolitana e não de militar, elas não serão respeitadas na sua base castrense. – Sim, eis uma verdade pouco dita e raramente defendida! – concorda Queiroz. Observo a figura de Henrique entre os templários e não deixo de pensar nos dois mundos, o de ontem e o de hoje, globalizados economicamente e sempre com a ponta da espada pronta para a briga na defesa de uma ordem que nem sempre é o querer da sociedade. – Que se dê à sociedade castrense o que dela é! – exclama Eleonora. – E que sant´antoninho não lhes falte... – remata Queiroz.

Luiza pousa o sant´antinho em barro cru. Etelvino e a neta olham o homenzarrão, que ela logo reconhece de ter cumprimentado no restaurante tempos atrás. – Oi, professor Etelvino?.. – Sim, em que posso servir? – pergunta Etelvino. – Meu nome é Artur, sou amigo de ti Cavalcanti e já conheço a sua neta. Mas, eu vim aqui porque soube que o senhor foi o único que tentou fazer alguma coisa pela minha família... – ... e quem é você? – Eu sou Artur Antunes, ao seu dispor! Etelvino levanta-se e quase pula. – Luiza, minha neta, lembra que contei a história de uma família que foi expulsa e esmagada pelos bandos da contravenção? – fala ele, a voz arranhada pela emoção. E vê que ela recorda no aceno com a cabeça. – Então, este senhor é o filho que sobreviveu ao massacre dos Antunes... – Não – corrige Artur –, não, sobrevivemos todos. As minhas manas foram estupradas, o meu mano mais novo ficou à força com o bandido e foi morto há pouco tempo, mas a família conseguiu sobreviver no sertão da Bahia, e eu me fiz à vida em Fortaleza como professor embora trabalhe também com muamba eletrônica. – É, salário de professor... – ironiza Etelvino. – E fico muito feliz em saber que seu Antunes e a esposa estão bem, pois, sempre pensei que tivessem sido mortos e jogados aos abutres. E as meninas, como elas estão hoje? – Acomodadas, professor, razoavelmente acomodadas, que esse trauma do estupro não passa nunca. E sabe, acabei de recuperar o sítio. A família toda vai para lá. Acho que é um modo de exorcizar a história ruim plantando vida nova. – Muito bonito da sua parte esse respeito pela família – opina Luiza. – Ah, também vim aqui buscar um sant´antoninho de barro para o oratório do sítio! – Que eu faço questão de ser uma oferenda nossa à família Antunes – diz Etelvino. – Venha, venha escolher – convida Luiza.

Parte

20

O terrível cumpriu as ordens de Artur e só as duas cozinheiras, mãe e filha, tiveram acesso à realidade do sítio. O corpo de Jivaldo foi retirado pela madrugada e tragado por litros e litros de gasolina em chamas ao alvorecer numa margem do Rio São Francisco.

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Tomando providências ainda no sítio, uma das cozinheiras encarou Artur chamando-o de lado: – Eu não me chame Maria Zeferina ou o moço é a reencarnação de seu Antunes... – disse. Ele olhou-a de alto a baixo. – Sou o filho Artur, e embora não me lembre da senhora, saiba que ele virá para tomar o que é da família. Aliás, aqui, tudo está em nome de meu pai... E, claro, a senhora e o caseiro tomarão conta de tudo até lá – explicou. De boca aberta, ela fez o sinal da cruz e abraçou-o. Em certo momento, o terrível e dois comparsas apanharam uma marreta. O que restou do corpo incinerado, como parte da ossatura, foi triturado e jogado na correnteza. Jivaldo deixou de existir fisicamente. Mas, por que o cabra foi baleado nas partes baixas? Aqui tem mão de mulhê. Ah, mas tem mesmo!, pensou o jovem com a imagem de Aurora no meio de tudo. – Oh, lasqueira, quanto mais longe dessa mulhê melhor! – murmurou sob os olhares inquietos dos outros. – Verdade. É isso que ocês escutaram de mim: nunca se metam com mulhê, podem acabar com os colhões furados... – disse, enfurecido.

Centro da cidade de Salvador, capital baiana. O hotel de luxo está com meia lotação, ocupação fraca causada pelas incertezas econômicas internacionais. Vladimir despede-se alegremente de três pessoas e um casal com quem almoçou delícias da gastronomia brasileira. – Senhor, queira continuar até o seu quarto – escuta ao sair do elevador, no quinto piso. E continua. Passa o cartão magnético na fechadura e todos entram. No estacionamento subterrâneo do hotel um grupo de policiais dá ordem de prisão às pessoas que haviam reunido com o russo. – Tenho direito a falar com a minha embaixada... – ...claro que sim Vla, claro que sim – concorda outro policial que acaba de entrar e cuja voz com sotaque russo faz ele se voltar. – Você, de novo! Será que a Interpol não tem mais o que fazer? O homem da Interpol vai até ele, pega no smartphone e verifica uma mensagem: “Presentes enviados em tempo”. – Apesar de Aurora, ó Vla, os presentes foram enviados, mas não embarcados. E ela mesma vai agora embelezar por um tempo um calabouço por aqui – diz o policial. “Saca tudo o que você puder da grana que está em teu nome, divide por essa turma que vais comandar no contrabando, mas desapareçam desta região. Façam a linha de Recife a Salvador com apoio do advogado que era do Jivaldo. Aqui, foi o fim da linha... Ou então, vão fazer outra coisa, abram algum boteco em outro estado, longe daqui”, determinou Artur a um Valdeci estupefato, os outros dois de olhos esbugalhados. “A polícia já pegou Aurora e o russo. Vocês são muito conhecidos, aqui”, rematou, quando o último pedaço do corpo incinerado foi jogado nas águas do rio. Artur havia pago ida e volta na viagem do helicóptero, mas dispensou a volta e a aeronave retornou a Recife como se ele estivesse “a bordo”, conforme o relatório do piloto. “Tudo certo. Dados positivos”, lera numa mensagem enviada para o seu celular e que não lera ainda. E então é hora de eu limpar a área, determinou-se. Para não restarem dúvidas, acompanhou tudo. Já em Caruaru, resolve ter uma conversa com Valdeci. – Dispensa essa turma de idiotas, divide parte da grana com eles e vai viver a tua vida. Tens dinheiro suficiente para começar um negócio em qualquer lugar fora do nordeste. Pega a grana, limpa o buraco onde tens as coisas e sai ainda hoje daqui, pega a estrada para o sul. Outra coisa, cabra: nem penses numa aproximação a Luiza! O jovem olha-o. Parece não acreditar. – Ah, foi ocê, num foi?! Ah, ocê furou os colhões do chefe a mando da chinoca que ele queria foder! Artur levanta, deixa uma nota de cinquenta reais na mesa para pagar a despesa no barzinho, e diz em jeito de despedida: – Que te sirva de lição, diabinho!

Caucaia do Alto, 18h. Doni acaba de preparar os ingredientes para um caldo verde, sopa portuguesa para forrar a alma em tempos de frio. – Uh, e como faz frio neste outono na terra da garoa... – comenta em voz baixa. E escuta o som do seu celular, que logo tira do bolsinho da camisa de flanela. – Meu pai... Ao escutar a voz, surpreende-se. – Meu filho...?! – Benção, painho... – Que padinho Ciço tenha ocê em seu terço, meu filho.

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– Arrume um quartinho aí numa hospedaria que mim vai pr´aí por uns tempos, e depois, bem, depois mim vê o que fazer pra montar negócio no Paraguai, porque mim ter conhecimento com gente de lá. Já estou na estrada. Vou parando para descansar que isto é estrada longa, e quando chegar por aí mim liga pra ocê, painho. – Tá certo, tá certo... Doni não consegue esconder a sua alegria. E canta e assobia. – Doni, viu passarinho azul, foi?! – pergunta Eleonora, que adentrou a cozinha para saber o porquê do arraial montado por ele. – Ai, o meu rapaz largou a bandidagem lá do agreste e está indo para o Paraguai, mas vai passar por aqui na viagem! – Hum, deu resultado a conversa... – Ah, ah, ai se deu, dona, ai se deu! Lá fora, um vento leve e frio agita as copas das árvores. Eleonora deixa a cozinha e observa o fim da tarde outonal no mar de morros caucaiano. Um fio de vento mais forte a faz arrepiar e se abraça quase desaparecendo na longa túnica de lã grossa, qual amazona de atalaia sob a natureza que reina em meio às aventuras e cânticos d´amor e guerra da vida humana.

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ANEXOS

IDENTIDADE & CULTURA POPULAR A Reinvenção Dos Ismos Na Mamada Política Marx à Luz de Sócrates e Reis

SEXUALIDADE Questões Míticas & Místicas Uma Pessoa Na Demanda Da Humanidade Joana d´Almeida y Piñon e Ruy Hernández entrevistam João Barcellos

ACASO & TRANSITÓRIO Sarau Noético

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Identidade & Cultura Popular Em Torno De MESTRE VITALINO & ROSA RAMALHO, PADRE GIULIO & MESTRE ALEIXO Com Ponta Em CORA CORALINA.

[“O Homem De Barro”, de Diogo Protti]

1 Para onde quer que se olhe em busca de objetos definidores de uma cultura popular lá está a cerâmica. “Trabalhar o barro para dizer da pessoa ela-mesma e das suas origens geo-sociais é um acto tão velho quanto a humanidade nos seus alvores civilizatórios” [Macedo, 1972]. A verdade é que “o ciclo artístico que leva a humanidade a falar da sua caminhada, entre pinturas, desenhos e figurações d´olaria, é um ciclo que exibe a criação do todo humano na progressão que vai diferenciá-lo da animalidade que o cerca” [idem]. Eis nos diante da pessoa que sabe de si e dos seus medos e alegrias, vivências múltiplas nos arraiais populares entre tradições orais pagãs e dogmas ortodoxos – e aqui, o bem e o mal assumem o pico das sensações que levam essa pessoa a figurá-los em peça d´arte. Verifico isto em Mestre Vitalino e em Rosa Ramalho, pessoas de povos diferentes sob a mesma língua, o que me faz lembrar o mesmo simbolismo vivido na poesia de Cora Coralina e de Aleixo, ela brasileira e ele português. O ceramista barcelense João Macedo Correia, meu avô, falou-me de Mestre Vitalino quando lhe pedi anotações para uma palestra acerca da importância história da olaria figurativa, nos Anos 70, e comparou o ceramista brasileiro com a modelagem feita pela também barcelense Rosa Ramalho: “A mestria figurativa de Vitalino é a mesma que está nas mãos de Rosa. E troco por miúdos: ambos têm o traço popular idealizado nas memórias e nas vivências, por isso, cada peça é uma representação das suas raízes”. Quando, mais de 40 anos depois, visitei o Alto do Moura, na região pernambucana de Caruaru, percebi de vez o que meu avô descrevera: um povo na arte da modelagem artesã. A mesma sensação que tive quando ele, o meu avô, levou-me para conhecer Rosa Ramalho, em 1972.

[Rosa Ramalho]

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Convivo com a Arte pura desde a infância, mas já na adolescência aprendi por mim mesmo a associar a retórica visual ao ensaio literário e historiográfico buscando nesses campos cruzados a identidade popular da arte que faz uma Nação.

Um exemplo: a dinâmica literária de Cora Coralina e de Mestre Aleixo encontra respaldo sociocultural na modelagem figurativa de Rosa Ramalho e de Mestre Vitalino, pois, eles e elas falam a língua de povos oprimidos que anseiam pela liberdade batalhando vivências diversas, mas unas no contexto simbólico e poético da identidade popular.

[Cora Coralina & Aleixo]

2 Identificar um povo é mergulhar em suas profundezas socioculturais, perceber como se levantou para ser o que é, genuíno ou aculturado pelas colonizações políticas e religiosas. No caso luso-brasileiro existe uma sequência histórica: “Portugal surge de uma disputa familiar entre linhagens ibéricas e, depois, na sua odisseia ultramarina, transforma o Brasil no seu mais notável espelho: no ato mameluco retorna à sua origem e se reproduz. E vai mais longe: incorpora ao ato colonial a evangelização cristã pela certeza de criar ´outro´ Portugal além-mar.

Em tal odisseia, os paradigmas pagãos tupi-guaranis são dizimados e o que vem a ser a gente brasileira assume o bem e o mal carreado no ser-estar português no âmbito luso-afro-brasileiro” [Barcellos, 2006]. Perceber em Vitalino e Rosa as essências da cultura popular do Brasil e de Portugal é perceber a originalidade da colonização feita pela cristandade e que artistas traçam em modelagens cerâmicas com a autenticidade cultural que só a gente do povo pode traduzir. 2.1 O olhar do povo também está no olhar místico, pagão ou não, e “um exemplo flagrante da cultura europeia que pega a cultura latino-americana pelo lado místico é o trabalho artístico do padre cristão Giulio Liverani” [Barcellos, 2013]. Ele decorou a igreja matriz de Vargem Grande Paulista, municipalidade situada na metrópole brasileira São Paulo, traçando um vasto painel em “azulejaria com imagens da via sacra no mais puro estilo surrealista – uma obra de arte que lembra também a primeira ecclesia em torno do próprio Jesus” [idem].

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O padre Giulio alicerçou a sua vida entre atos humanitários na América Latina, a sua obra maior, e traduziu-a como artesão fiel aos encantos artísticos do barro que gera identidade e memória.

3 As oficinas de olaria encontram-se na história de todos os povos da Terra, seja para modelar peças de utilidade doméstica, seja para ornamentar altares religiosos, além de instrumentos musicais e registros da própria história. Na sua chegada ao Brasil – primeiro com o capitão Sanches Brandão, em 1343, depois, cerca de 1498, com Cosme Fernandes no ponto sul da Linha de Tordesilhas, e por fim, com a armada de Cabral, em 1500, a caminho da Índia – os portugueses encontram e reencontram tecelagem e cerâmica com os povos nativos a norte e sul, sendo a cerâmica a atividade mais artisticamente produtiva apesar da precariedade de utensílios. Se os portugueses carreiam tradições de olaria artística, as gentes do Brasil oferecem figurações e métodos que já haviam visto também na África e no Oriente, e percebem eles [os portugueses] que o barro é essencialmente uma arte comum a todos os povos. A aculturação luso-brasileira gera, então, uma Nação que fala a mesma Língua, mas constrói uma Cultura própria... Eis porque é fácil associar a figuração cerâmica do Brasil à de Portugal quando se trata de perceber e de mostrar a estética popular destes povos [Vitalino e Rosa], do mesmo jeito que se associa a poética literária [Cora e Aleixo], pois, a epopeia libertária é a mesma com sotaques d´aquém e d´além-mar. Ceramistas do norte modelam com idealizações diferentes das gentes que vivem no sul de Portugal, e o mesmo se passa no Brasil, do mesmo jeito que a cerâmica guarani não é igual à karajá – pois, a diversidade social e cultural faz a Comunidade e faz a Nação. Portanto, a figuração d´olaria é uma identificação sociocultural da realidade nacional, e nos casos de Mestre Vitalino e de Rosa Ramalho emerge das modelagens a profundidade social e religiosa do Brasil e de Portugal.

Notas & Bibliografia Notas Da Velha Goiás Ao Mundo Português 1) Ao visitar a Velha Goiás dos diamantes o fiz para conhecer mais de perto a ´alma´ de Cora Coralina, a poeta do sertão. Deparei-me com o velho mundo colonial português e com uma poesia que me remeteu a Mestre Aleixo, o poeta popular que mexeu (e mexe) com a alma portuguesa alquebrada entre sintomas libertários e dogmas inquisitoriais, sim, tal e qual a vida de Cora. Por isso, a cada passo pelas velhas ruas de Goiás ecoava em mim a história em toda a sua essência humana e desumana, os quereres de paz e trabalho dos povos cortados a chicote e lâmina d´espada – a totalidade social luso-brasileira na sua épica ressonância nos tempos que vivo. Gente forte como Cora Coralina e Mestre Aleixo não vivem por acaso: constroem a poesia que nos permite a cada nova época revisitar os esteios que nos suportam historicamente, como que a direcionar os nossos olhares para as superfícies de barro moldadas por Vitalino ou por Rosa e que, afinal..., espelham o que somos na diversidade que nos une. 2) Às vezes, ao ler a poesia de Cora o meu pensamento volta-se para a memória dos painéis surrealistas do padre Giulio e para o ´cristo´ de Rosa, pois, as entranhas populares moldam quereres que as ortodoxias dogmáticas desconhecem e esquecem, habitualmente, que sobrevivem de ancestrais culturas pagãs, das quais se retira a essência artística de muitos povos.

Mestre Vitalino [Vitalino Pereira dos Santos / Caruaru-Brasil, 1909-1963] Filho de lavradores, tornou-se artesão do barro retratando em bonecos a cultura do povo nordestino do Brasil, em particular as vivências sertanejas. As suas criações figurativas espelham a ingenuidade e a força de povos obrigados à árdua sobrevivência social sob o chicote da política coronelística. Entre os Anos 40 e 50 do Séc. 20 as obras de Mestre Vitalino alcançaram sucesso regional, nacional e internacional.

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Rosa Ramalho [Rosa Barbosa Lopes / Barcelos-Portugal, 1888-1977]. Nasceu na região de São Martinho de Galegos, uma freguesia de Barcelos, no norte de Portugal, onde a tradição da olaria popular e utilitária criou mestres. Filha de sapateiro e de tecedeira, casou com um moleiro e, entre o nascimento dos seus 7 filhos, aperfeiçoou uma arte que aprendera na juventude: moldar o barro. Entretanto, enquanto o marido viveu não mexeu com figurações cerâmicas, mas já viúva, Rosa Ramalho, aos 68 anos, decidiu transformar a inspiração em trabalhos de olaria que logo a fizeram centro de atração da cultura popular.

Cora e Aleixo // Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, ou Cora Coralina [Brasil, 1889-1985] e António Fernandes Aleixo [Portugal, 1889-1949], foram poetas populares cuja odisseia literária se confunde com as próprias vidas: resistir, sempre! Padre Giulio // Giulio Liverani nasceu em Modigliana (Itália), em 1944, ordenado padre viveu muitos anos entre povos da América Latina e morreu em Aquidaba (Sergipe), no Brasil, 1997, onde foi sepultado. As suas ações espirituais e artísticas passaram também pela região paulista (Vargem Grande Paulista) onde deixou um testemunho artístico agora reconhecido internacionalmente: a Via Sacra em estilo surrealista pintada em painéis de azulejo.

Bibliografia A CIVILIZAÇÃO DE CADA POVO – João Barcellos. Palestra em Caruaru/Brasil, 2014, “observando a importância de Mestre Vitalino na identidade nordestina”. A CULTURA QUE HERDAMOS – Joaquim Santos Simões. Palestra na Citânia de Briteiros no âmbito dos Encontros MinhoGalaicos. Guimarães/Portugal, 1978. Anotações de J. C. Macedo, que participou também da palestra proferida pelo mesmo professor no Museu Martins Sarmento, em Guimarães, sob a égide do Cine-Clube de Guimarães. A NOSSA CIVILIZAÇÃO ATRAVÉS DA CERÂMICA – João Carlos Macedo. Trabalho escolar [premiado pelo Rotary Club] com base em entrevista concedida pelo ceramista João Macedo Correia. Guimarães/Portugal, 1968. AS LOUÇAS DE BARCELOS – João Macedo Correia. Museu Regional da Cerâmica. Portugal, 1965. ACHEGAS PARA O ESTUDO DAS LOUÇAS DE BARCELOS – João Macedo Correia, in Boletim informativo do Museu Regional da Cerâmica, pp. 45-55. Barcelos/Portugal, 1968-1969. BARRO E CIVILIZAÇÃO – João Carlos Macedo, palestra. Braga, 1972. CERÂMICA & CULTURA – João Carlos Macedo, in artigos p/ jornais O Povo de Guimarães e Barcelos Popular, 1981. Obs.: Adelino Macedo montou a base tecnológica, com o irmão Toni Macedo, da empresa de decoração em azulejo, dirigida pela mãe Maria Helena, em Guimarães. FIGURAÇÃO & SIMBOLISMO – João Barcellos. Palestra para professorado de artes visuais e artistas. Embu/Brasil, 2006. MATÉRIA PRIMA – Fernanda Marques. Artigo, Revista Impressão & Cores; Cotia/SP, Abril de 3014. O SALAZARISMO E A FARRA DO GALO – J. C. Macedo. Artigo in ´site´ noetica.com.br, 2011. PADRE GIULIO: DO BARRO AO GRITO HUMANITÁRIO DE JESUS – João Barcellos. Artigo, Jornal Corpus, 1992. PORTUGAL, O GALO E EU – J. C. Macedo. [Ensaio sobre a essência de uma Nação profunda em cada Alma portuguesa.] Opúsculo mimeografado no Q-G do Exército, três dias depois do golpe de 25 de Novembro e distribuído a partir da ´República dos Cágados´ entre militares, estudantes e professores. Coimbra/Portugal, 1975. IGREJA MATRIZ DE VARGEM GRANDE PAULISTA RESGATA A HISTÓRIA LOCAL– João Barcellos. Artigo, Gazeta de Cotia [Junho de 2014].

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A REINVENÇÃO DOS ISMOS NA MAMADA POLÍTICA Marx à Luz de Sócrates e Reis

165 Dou início a este encontro com uma pergunta: O que fere mais a humanidade na sua realidade comunitária? Senhoras e senhores, entre os Séculos 20 e 21 vivenciamos o assentamento de um olhar filosófico carreando características a representar ações embasadas em pensamentos na maioria das vezes presos a si mesmos e desdenhando da diversidade social... Digo diversidade social, porque quando se trata de Poder não existe diversidade, existe a ótica fascista do exercício do mando por células políticas sem amparo no querer do Povo. Chegado ao Poder, não raro..., o Partido (com participação ou não de seus aliados) faz do Estado a sua célula de expansão e nela reinventa a elitização da Política proclamando “nós e os outros” como bandeira. Que filosofia é esta do “nós e os outros”? É a perspectiva que personaliza o mais nefasto dos “ismos”: o integralismo, que se encontra à Esquerda e à Direita. Sim, à Esquerda, quando o projeto é unicamente a tomada do Poder para uma Política de mando absoluto; e à Direita, quando o projeto é perpetuar a Elite do mando tradicional entre senhores e escravos. Este fascismo integralista é executado com uma hipocrisia política: com e para o Povo...! Também, e não raro, é a personalização do Poder na figura do político maior do Partido, e então, o Estado torna-se refém de políticas privadas que obstruem as políticas públicas que deveriam atender as demandas comunitárias. Isto é: Tudo é feito para eternizar a elite que tomou o Poder. Eis aqui o quadro que denomino “mamada política”, porque à Esquerda e à Direita são as elites que sobrevivem com qualidade de vida enquanto o Povo, que vive miseravelmente, forja as riquezas por elas esbanjadas. Karl Marx percebeu isso nos seus estudos sobre a Política e a Divisão de Classes, já Sócrates, foi mais fundo ao estabelecer as premissas para o diálogo necessário às políticas públicas republicanas, e, Manuel Reis, ensina como as classes sociais devem proceder para vivenciarem tal diálogo no campus da Política para não permitirem o abuso no e do Poder, porque a “mamada política” só acontece quando o abuso no e do Poder é permitido pela maioria que constitui o Povo-Nação. E então, devemos observar que a Pessoa é responsável, sim, pelo Poder e pelas Políticas Públicas, porque o Voto em sufrágio universal republicano permite-lhe exercer a vigilância, individual ou coletiva. Se a Pessoa não exerce o seu direito fundamental à Cidadania é porque lhe foi roubado ditatorialmente, ou comprado..., a mesma situação que é raiz da corrução corporativa acobertada com os ´ismos´ políticos. Diante disto, senhoras e senhores, não existe retórica que consiga defender o fascismo integralista que fomenta o “nós e os outros”, hipocrisia que embasa a mamada que tantos políticos gostam de vivenciar em nome do Povo. Ou o Povo, na sua diversidade social, se faz representar dignamente no Poder, ou a Pessoa adepta do mando-de-poder o tomará para si personalizando-o ou não via Partido Político. Na obra “Cultura Ocidental & Humanismo Crítico” [CEHC, gd Noética & Ed Edicon, 2015], o filósofo luso Manuel Reis lembra-nos que “o poder é sempre um só, em primeira ou última instância, para além das grelhas epistémicas dos Dualismos decorrentes das doutrinas politico-religiosas tradicionais” [p.212], mas antes ele esclarece que “numa Sociedade que se pretenda moderna e democrática, os processos de Decisão continuam a ser (e com mais forte razão) do domínio da Práxis” (p.124), ou, interpretando o ideal da Ordem Hospitalar de Malta, “a fraude e a corrupção podem ser vencidas e desaparecer mediante a prática da virtude” [“fraus virtude perit”], que é, lembro, a base dos pensamentos de Sócrates e também de Marx, ambos demasiadamente desvirtuados por interesses político-partidários de Poder absolutista, à Esquerda e à Direita. O que temos hoje é uma reinvenção de ismos que ferem a filosofia de cada um para embasar exoterismos políticos de cunho mercantil na banca divinizada em que transformaram o Poder, por isso, quase sempre (e infelizmente) a Pessoa se acha no direito de aceitar vender o Voto porque é da tradição o senhor mandar no escravo – e isto, senhoras e senhores, em plena vigência do Estado republicano! Logo, a Pessoa que não se mostra digna de o Ser e Estar em plena Cidadania, entrega-se ao Poder elitizado e não tem como alterar

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esse curso. Um curso que só se altera quando a Pessoa percebe a mamada política e faz do Voto um instrumento de conscientização sociocultural: o Voto elege representantes do Povo e não donos do Poder. E torno à questão inicial: O que fere mais a humanidade na sua realidade comunitária? Aquela Pessoa que se vende ao interesse senhorial e absolutista do Poder, ou a Pessoa/Partido-que-é-Poder e não permite que o Povo o seja, embora governe em seu nome sob a benção do Igrejismo (a Igreja-Estado)? E vos digo: a Pessoa à venda é mais danosa à Cidadania do que a Pessoa senhorialmente embasada no mercantilismo consumista da Política, porque esta pode ser combatida até pelo Voto, enquanto a outra personaliza a Humanidade em estágio pré civilizacional de interesses imediatistas (“ó patrão, me dá um cigarro aí...”, e etc). A terminar. Às vezes pareço um ser de outro mundo pregando uma ética que só é conhecida por aqui em saraus filosóficos. Verdade. E, por isso, tenho que ousar mais e mais. O que me anima, senhoras e senhores, é que estou a atuar como intelectual fora das pantufas e expandindo ideais consignados nos fundamentos do Centro de Estudos do Humanismo Crítico (CEHC) e do Grupo de Debates Noética, junto com outros grupos de estudo de vários países. E enquanto este ideal persistir em mim terão que me ´engolir´. Ora, recebam um abraço deste intelectual sem pantufas!

JOÃO BARCELLOS _ CEHC / NOÉTICA Maio de 2016

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SEXUALIDADE Questões Míticas & Místicas Falar de/sobre Sexualidade é hoje, e depois da institucionalização da mística judaico-cristã, logo seguida da islâmica, algo como acionar uma bomba sociocultural... Será que o erotismo e a sexualidade grecoromana era ´coisa´ que hoje não deve ser sequer considerada? Lembro que, anos atrás, preparando colegiais para prestarem vestibular para cursos universitários, elas e eles ficavam perplexos quando, ao expor a História greco-romana, eu falava da Poesia erótica e dos ritos eróticos publicamente apreciados e incentivados. Será que a Humanidade perdeu a Fé em si mesma e prefere, mesmo?!, uma Fé apocalíptica sob pregações místicas, em vez de se alegrar com o prazer sexual amorosamente relacionado?

1 A Comunidade Mulher e homem formam o núcleo da Humanidade, como fêmea e macho o são na fauna e na flora. Existe fauna e flora sem sexualidade? Existe alguma Humanidade sem o cruzamento bio-sentimental entre Mulher e Homem? Nós, humanos [a Mulher e o Homem no seu todo social e sentimental], crescemos entre a fauna e a flora geradas por etapas telúrico-cósmicas ao longo de muitas e muitas eras, e tivemos um progresso físico e intelectual diferenciado até se estabelecer a noção de solidariedade, o que também é visível em outras espécies, particularmente as mamíferas. O envolvimento de pessoas em deslocamento e o desejo de formar núcleos próprios, entre a posse sexual propriamente dita e o relacionamento amoroso, leva ao assentamento da Família, e desta ao Clã – o primeiro tipo de Poder conhecido na nossa história. E todo o ideal de Política, enquanto organização das atividades de interesse do Todo comunitário, e de Economia, toma forma entre o relacionamento familiar e a produção agrícola, de pesca e de caça, para sobrevivência local. Cada núcleo desenvolve formas de Comunicação, orais e pictóricas, sinalizando Cultura própria em estágio primário. No mesmo estágio já existe uma preocupação esotérica com o Destino da própria Comunidade por não perceber que o Futuro está no desenrolar do Hoje – e, aí mesmo, outro estágio: o aprimoramento da Sexualidade, do estado brutoanimalesco ao desejo amoroso.

2 Sexualidade e Poder Enquanto o Homem ainda se preocupa em dar espaço ao seu instinto de posse sexual e por aí logo percebe a possibilidade de chefiar o processo, a Mulher aprende a se resguardar ao tomar conhecimento dos ciclos menstruais e do longo período de gestação, no qual se reconhece como espelho/essência da Vida. E quando muitos núcleos/clãs originam povos diferenciados e em cada um deles uma Cultura, eis que a Sexualidade assume identidade socialmente posicionada sob o conceito mítico [o aprendizado que ocorre de geração em geração por narrativas circunstanciais] e o místico [a percepção da interferência do Algo não interpretável na condição feminina]... Para algumas comunidades a Mulher é o Todo humano e dever ser encarada até como Deusa, sacerdotiza daquele Algo não interpretável no sagrado antigo, que ainda não concebe fisicamente o Altar/Templo, embora reconheça o Algo-além da Humanidade; e para outras comunidades, o ciclo menstrual põe a Mulher como parte do Algo obscuro e de difícil entendimento na vida cotidiana, é quando a Mulher é representada como Alguém que não deve ser tocada nesse período – um período ´desconhecido´, que mais tarde, por força de interesse místicos patriarcais, vem a ser denominado como ´pecado´. É caso para dizer que “a organização societária soube abrir os seus espaços de funcionamento e existência às vontades e decisões dos Indivíduos/Cidadãos” [Reis], na sua práxis comunitária primeira, mas também soube, e como soube..., fazer “a oclusão” de si mesma ao distribuir-se por classes sociais, e pior: levando a Mulher à condição de escrava do Homem. O que se considera Justiça é um Direito praticado para favorecer o conceito do Pensamento Único e do macho-Homem.

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Na mítica que nos trouxe a História humana, em geral, é a Mulher a potência-geratriz da Humanidade, e particularmente na greco-romana e céltica, na qual ela assume a condição de Deusa-mãe, até por que o Ocidente se esculpe culturalmente com características jônicas; o domínio patriarcal [o do macho-Homem] sobre a Mulher acontece na fase mística da Humanidade em seu processo de Ignorância pura estabelecida entre templos e grupos de arautos apocalípticos – arautos que desconhecem a Filosofia da vivência e buscam uma Teologia ocupacional, i.e., uma vivência exotérica que lhes permite a condição humana sobrevivendo à custa da pregação dessa mesma Ignorância transformada em Fé: aquela Fé que a Pessoa humana tinha em si mesma e que a Teologia vai arrebatar para fazer sua e colocá-la em um Altar que já é Templo. E é no Templo, enquanto Poder temporal, portanto exotérico e político, que o Homem se diz macho-Poder e recusa a Mulher na mesma plataforma mística, por ser ´impura´, em ´razão´ dos seus ciclos menstruais, e só.

3 Terrorismo Patriarcal contra a Sexualidade

168 É a Vida que temos que ter como Altar e Templo e não qualquer manifestação mística exotérica e politicamente assumida no Poder circunstancial e mercantil.

No contexto místico ultramontano, terrorista, meramente mercantil, a Mulher passa a ser uma ferramenta do Homem-máquina. Já não é a parceira amorosa das narrativas históricas greco-romanas, ou a deusa-mãe da sociedade indo-europeia dos celtas e outros povos. O patriarcalismo exotérico cria o Pensamento Único e derruba a pluralidade que deve presidir a Sociedade humana no seu todo; com o Pensamento Único surge o Deus-homem cuja retórica torna-se a mortalha pétrea sobre a Mulher feita sua escrava, geradora do filhoherdeiro, prostituta social e familiar. Aqui, “[...] a Sexualidade deixa de ser o acontecimento amoroso de livre expressão para ser o ato de posse do Homem sobre o destino social da Mulher, e ela é sexualmente amputada, humilhada, e, em algumas comunidades, castrada para ser ´animal de estimação´” [Liffey]. Expulsa da Vida pública, eis que “a Mulher torna-se ela mesma o Altar e o Templo em que, necessariamente, o Homem tem de buscar a alegria para ser Humanidade, pois que ele apenas está Poder, temporal e transitório” [Macedo]... E, um dia, “a Mulher sem destino será reconhecida como o único porto seguro no qual o Homem pode baixar a ancora do seu barco velho e quase a naufragar” [Barcellos].

4 Mulher Paradigma da Pluralidade [O ´caso´ Madalena] Paradigmas da pluralidade sociocultural, “[...] as mulheres filósofas e as sacerdotizas da antiguidade, e ainda no tempo do pré-catolicismo, mas já na cristandade assumida como Templo exotérico políticomercantil, são ideologicamente sacrificadas na fogueira inquisitorial, na forca ou apedrejadas publicamente” [Macedo]. Um tempo de terrorismo puro das autodenominadas igrejas do ´deus único´, patriarca e desumano, que não aceitam nem mesmo dissidência pastoral quanto à ´questão mulher´, e o mesmo acontece no quadro judaico, enquanto “no quadro islâmico, pelo menos o Amor é assumido na sua pluralidade, apesar de a Mulher ser aí, e também, um instrumento/ferramenta do Homem” [Novaes].

´Caso´ Madalena No instante em que a cristandade, através do mando direto dos seus bispos-doutores, ordena a queima de arquivo da Mulher que pensa e ensina, já a mulher que lhe deu origem está humilhada: Madalena, a companheira de Jesus.

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Na leitura dos documentos encontrados no Mar Morto e no Egito, ditos agora Biblioteca Gnóstica, ou seja, os livros que tiveram de ser escondidos da perseguição inquisitorial dos bispos-doutores, e entre eles os que foram recusados para integrar a Bíblia cristã, encontra-se a Mulher que levou a ´boa nova´ aos apóstolos de Jesus: Madalena. Também ela, e as análises apontam para ela, autora de um [cada vez mais] importante ´evangelho´, ditado ainda quando dirigia algumas comunidades. Com o patriarcalismo assente no novo evangelho do Templo católico, a Mulher foi escorraçada de vez da atividade mística e intelectual. Mas, por que Madalena, a companheira de Jesus, é silenciada? Por que é ela que acompanha o político [na luta pelo Trono de David] e místico Jesus na odisséia palestina. E se ela dá continuidade às tarefas que havia tido com Jesus é porque tem poderes para o fazer, queira ou não o ´machista´/terrorista Pedro, que se lhe opõe ainda na presença do próprio Jesus. Retirar toda a informação referente a Madalena para compor um Jesus divinizado, sem amor nem sexo, é o que leva a corja eclesiástica a difundir a idéia de que Madalena não é uma sacerdotiza e sim uma ´prostituta´ que recebeu apoio espiritual do político/profeta que o era na Comunidade e não no Templo...! Profanada a essência da Mulher-deusa que Madalena impunha nas comunidades, o Templo dos bisposdoutores radicaliza: a Sexualidade é uma idéia-práxis proibida para todo o clero cristão, e a Mulher desalojada das funções sacerdotais que tanto Jesus encorajava. A documentação encontrada em Nag Hammadi e no Qunram, e a que virá a ser encontrada, pois, a História sempre dá um jeito de nos trazer a Verdade, mostra que a cristandade-do-Templo é uma farsa mística que se sustenta política e mercantilmente. Infelizmente, uma Mulher humilhada no seu Amor e na sua Sexualidade é, mais uma vez, o símbolo da atrocidade exotérica que se diz Igreja e Estado-Império. Mulher, mãe e deusa do prazer, é em si o paradigma da pluralidade da Vida. Negar esta essência é pensar que o Mundo é masculino e que toda a criança nasce de alguma ´virgem´ oniricamente empalhada na esquina da Imagem e à espera de um sinal dos tais bispos-doutores que escrevem cânticos bíblicos para ´dourar´ a Ignorância que querem ´para sempre, porque é a vontade do [seu] deus´.

5 Viver a Vida, e só! Quando a Vida é vivida na liberdade que lhe é peculiar ela é como um “...canto,/ que sai da boca,/ de todas as raças/ [...] faz dançar,/ todos os corpos” [Trindade]. Entretanto, só a Pessoa que se sabe Humanidade pode escutar este cântico alquímico.

Referências ARABI, Ibn´ – “Traité de L´Amour”. Paris, 1986. BARCELLOS, João – “Parceria Sexual & Amor”. Artigo. Cotia, Br., 1998. – “A Sensação Do Amor”. Poemas. Paraty, Br., 2006. BROWN, Raymond E – “The Gospel According To John”, USA, 1966. CAMARGO-MORO, Fernanda de – “Arqueologia de Madalena”. Ed Record, Br., 2004. LIFFEY, Johanne – “Mulher: Destino Sem Rumo”. Artigo. Rio de Janeiro, Br., 2009. – “Chastity Belt: No More Torture!”. Dublin/Ie, 2009. MACEDO, J. C. – “O cântico feminino que percorre a essência masculina”. Ensaio e poesia. Guimarães, Pt., 1983. – “Sexo & Liberdade”. Artigo. Buenos Aires, Arg., 1987. MATOS, M. Branco de – “O celibato Eclesiástico na Literatura Portuguesa”. Portugal e Brasil, Ed Edicon, CEHC e TNComunic, 2009. NOVAES, Marta – “O Amor Amoroso”. Artigo. Buenos Aires, Arg., 2008. RAMON, Jusino – “Maria Madalena: Autora Del Cuarto Evangelho” [ensaio], 1970. REIS, Manuel – “Manifesto para uma Nova Idade do Ocidente e da Humanidade”, Portugal e Brasil, 2004. – & outros, in “Q Jesuânica”. Col Debates Paralelos. Edicon, CEHC & TNC, Portugal e Brasil, 2009. – “A Traição de São Paulo”, Ed Edicon, CEHC e GG. Brasil e Portugal, 2007 ROMERO, Silvio – “Ensaio de Filosofia do Direito”. Landy Ed, São Paulo, Br., 2001. TRINDADE, Solano – in “O Canto Da Liberdade”, Poesias. Brasil [1908-1974]. VERMES, Geza – “The Dead Sea Scrolls in English”, 1995.

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Uma Pessoa Na Demanda Da Humanidade entrevista com o intelectual português

JOÃO BARCELLOS

Joana d´Almeida y Piñon [Cult Journal, USA]

Ruy Hernández [En Vivo y Arte, País Basco]

O fascínio literário e estético de João Barcellos pela história latino-americana, e mais pela luso-brasileira, iniciou-se em 1975, nos arquivos dispersos da Torre do Tombo, em Lisboa, e, em 1977, pelos arquivos de Sevilha, mas foi no período de 1989 a 2009 que ele vivenciou, em pleno ´campus´, essa história que ajuda a revelar através de livros e palestras que são amostragens de documentação raramente pública. RUY HERNÁNDEZ Conheço-te há décadas e sei que os estudos que fazes são também um ajuste de contas com a história de Portugal no mundo, assim como os teus livros tecnológicos são um ajuste de contas com a tua atividade industrial... JOÃO BARCELLOS Ah, sim. Consegui unir as duas acções. Eu pertenci, com 7 e 8 e 9 anos de idade, a um grupo social chamado ´Os Façanhudos´, dirigido por um seminarista e cuja sede era a sacristia e a torre dos sinos da matriz de Barcelos, cidade onde nasci, e foi desse religioso que escutei pela primeira vez que “a política é um poder feito ora com pombas ora com aves de rapina, então, e ouçam-me bem..., a história nem sempre é o que está nos livros da escola”... JOANA D´ALMEIDA Y PIÑON ...e esse tem sido, desde então, o teu fio de prumo social e político... JB É verdade. E quando, em 1972, vi e apoiei algumas acções de panfletagem clandestina da professora Maria do Carmo de Castro e Souza, que assinava os panflos com MACS, eu percebi que após a licção do

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seminarista eu teria que ir além da escola e da estória oficial registada pelas ditaduras da Monarquia e da República, então, e eu já tinha o incentivo da leitura vindo da família e muito do meu pai, passei a agir mais intensamente no campo do jornalismo escolar e cultural, mas também a produzir conteúdos políticos, pois, já tinha iniciado isso em 1969 com uma breve passagem no meio das acções universitárias de Coimbra. RH Daí surgiu a Turma de Jovens Intelectuais Anarquistas com aquela professora? JAP Ah, a sigla TJIA? JB E então, adoptei os nomes João Barcellos e Alex, pseudónimos literários, com os quais assinei panflos, poemas e artigos. RH Qual é a importância da MACS na tua vida?

171 JB É uma referência de humanismo crítico, assim como é o filósofo Manuel Reis e é (era, porque se foi para outro patamar cósmico) o professor Ab´Sáber, pessoas de envergadura sociocultural e política cujos actos contribuem para as comunidades em que estão e para a humanidade. Tanto o Ab´Sáber como a Maria do Carmo e o ´Manel´ são balizas lítero-filosóficas que permitem a minha liberdade de acção pela bagagem de vivências que consegui e continuo a viver, pois, com ela e eles (e depois a Hanne Liffey, minha companheira), aprendi que só a liberdade da pessoa leva à liberdade comunitária e que a liberdade é uma consequência da vivência sociocultural: ninguém está livre quando não é livre! RH Também, ninguém é livre quando desconhece a sua história comunitária e nacional. JAP Até que ponto o teu diálogo com o geógrafo brasileiro Aziz Ab´Sáber influenciou o teu trabalho de pesquisa historiográfica? JB Foi um diálogo científico e político, porque o levantamento de uma história é documentalmente geossocial e política, levantamento que pode ter um tempo de acções longo. Aprendi com Ab´Sáber que o saber apreende-se na lentidão do olhar fascinado por uma lasca de terra, uma carta rasgada e empoeirada, uma rota redescoberta, documentos politicamente esquecidos na conveniência dos poderes de mando, e por aí vai. E se o pesquisador interpreta um determinado dado, a comunidade tem dificuldades para o entender, e então, “o pesquisador vira-se para encontrar meios de explicar a história pela verdade”, como ensinava o Ab´Sáber, foi quando os noemas surgiram na minha vida e passei a viver uma noética mais intensa esquecendo o tempo-espaço que nos marca mercantilmente o quotidiano. RH Ah, o grupo Noética. Ele substituiu o Grupo Granja... JAP É verdade, eu também pertenci ao GG e foi nele que me debrucei mais sobre o mundo... sim, sem deixar de ser a cientista e a jornalista. JB Com a morte do Figuera de Novaes, no Chile, e da Tereza de Oliveira, no Brasil, o GG perdeu na sua identidade original, pelo que passamos a integrar o Centro de Estudos do Humanismo Crítico, o CEHC, criado pelo Manuel Reis, o Fernando Fernandes e a Lillian Reis, entre outras pessoas, em Guimarães, Portugal, e lançamos o Grupo de Debates Noética com revista eletrônica na web; entretanto, continuamos com a edição das colectáneas Debates Paralelos e Palavras Essenciais, que já vão em 9 e 10 volumes respectivamente, com apoio do CEHC e da Valentina Lyubtschenko (Edicon), o que é um sucesso literário em meio a tantas dificuldades financeiras que enfrentamos e até processos judiciais. RH Processos judiciais? JB A justiça (ou a magistratura) não entende que o posicionamento de intelectuais em relação à castração do ir e vir urbano é um posicionamento crítico de quem pensa e tem que levar isso às comunidades: a justiça age em favor de quem agride a mobilidade urbana e destroi bairros tradicionais em nome do falso progresso, e acusa a intelectualidade de actos individuais não cabíveis... Pior: a justiça nem escuta as partes! JAP Isso mostra que a humanidade ainda é uma ciclo vicioso em torno das políticas de mando e das elites. Manda quem manda e pronto.

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JB E isto é mais sensível para intelectuais que se prestam a acções socioculturais nas comunidades e interagem para decifrar identidades históricas, etc., ou seja, uma intelectualidade sem pantufas académicas. Eu sinto isso em todos os actos em que me envolvo, pois, são muitas as dificuldades e raras as contribuições de apoio... RH ...tu sempre estás do outro lado das elites, do lado das comunidades... JAP ...é uma atitude nem sempre bem entendida até pelas pessoas favoravelmente atingidas... JB Ah, ah, ah, ai… É verdade, sim. Olhem, eu já escutei reações do tipo “O que ele quer, ele é candidato?”, “Não é preciso mexer na história, deixem estar como está porque remexer não vai dar mais nada para nós!”, “Quem é essa gente? Devem ser de alguma ong que recebe muito dinheiro do governo e têm que apresentar algum relatório...”. Até esclarecer estes e outros pontinhos perde-se muito tempo, pois, as pessoas são educadas para serem submissas diante de uma estória oficial que as retém em currais políticos. É a mentalidade colonial, a herança maldita ibero-católica que privilegia elites e chicoteia os povos. RH Tu és uma pessoa que demanda humanidade em tudo o que fazes, mas és agora uma referência literária e historiográfica. Em que isto te ajuda? JB É importante o reconhecimento das pessoas em torno dos meus actos literários, jornalísticos e tecnológicos, mas as pessoas – e as academias têm muita culpa pela prostituição intelectual que comportam – ainda não entendem bem o valor excepcional que é o trabalho de campo do intelectual e do cientista, que são estranhos no ninho até que eles mesmos ajudem a decifrar a incógnita e, então, recebem o abraço comunitário... RH E agora, quem és tu? JB Continuo a minha caminhada sendo o que sou e compartilhando o que aprendo com as outras pessoas. Eu não estou, eu vivo o que sou e tenho como espelho somente o meu trabalho.

Entrevista realizada via web. Brasil, USA e País Basco, 2013.

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Acaso & Transitório

www.noetica.com.br noetica@uol.com.br

Marta Novaes [Argentina] João Barcellos [Brasil] Johanne Liffey [Ireland] Maria Augusta de Castro e Souza [Deutschland] Carlota M. Moreyra [France] Ruy Hernández [Euskal Herria] J. C. Macedo [Portugal] Joana d´Almeida y Piñon [USA] Celine Abdullah [Moçambique]

Coordenação: Profª. Maria Augusta de Castro e Souza [MACS] Tradução e Adequação: Profª Fê Marques & Prof. Carlos Firmino

Poemas Escritos Por Noéticas Pessoas & Recolhidos Em Painel Sem Titulagem Nem Categoria Literária Para Leitura De Acaso & Transitoriedade

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Eis o Sarau boa viagem

174 Claras e úmidas, estas tardes. Lúdicas paisagens. E eu, subitamente Sem alardes, A cantar, A falar. Eu mesma e sem vontades Nestas eternas e primaveris tardes. jLiffey, 2011

pensar o mundo observar e construir linguagens dar ao instante a suprema poética de um eu em reinvenção eis me em evolução o todo o é no ato de cada eu forja ilimitada d´inúmeras linguagens eu sou o mundo jcMacedo, 2015

Paixão: Ápice de alma em maresia, Lua cheia na emoção De estar sem perceber o ser. Arte de estar somente no querer. A alma em borrão Na busca de um cais em franquia... Doce ilusão! MACS, 2014

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Tento saber o que dizem os livros, Mas percebo a zoeira intelectual de quem Se diz longe da multidão. Sou prosa e poesia Barulho cultural Bagulho social Livre para amar a vida Cântico natural Não existe o eu-só... Existe a vida, a multidão. E existem momentos que nos fazem alguém Em viagem nas páginas dos livros. Nós somos parte dos livros, Somos a alma que é fonte de quem Escreve e pinta e desenha e filma a nossa ação! jBarcellos, 2013

Ai, como dói o coração! Estou agora num eterno vazio. Quero asas para viver e não um ninho Para o cio!

Quem sois vós, ó gente? Deixai-me na quietude que sou. Não quero rezas, quero flores nas conversas Em que estou! cmMoreyra, 2014

Eternidade. Na poesia que escrevo te quero Como nota de música, sim, nota de música, Porque em cada verso Eu sei que minha alma é única E tudo o que quero É esta breve eternidade. Posso? Será que posso dizer da minha Identidade? É só o que eu quero. Escutem: vive em mim uma única Coisa que não domino – o medo. Rodeio o medo com a poesia da minha música E é só o que eu quero Por mim e pela verdade. mNovaes, 2015

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Recebi flores, Cantaram para mim canções alegres. Mais vidas saíram dos escombros da guerra, Estilhaços de bombas retirados de corpos Quase mutilados, Que ora cantam, vivem. Bisturi e luvas com o sangue da guerra, Balada violenta da vida incerta. Cantam as gentes que sobrevivem E me dão flores de guerra com sonhos de paz Entre mortos-vivos. É a guerra, Vida incerta, Pessoas que ainda assim amam E dão flores... jLiffey, 2014

Vastos campos entre montanhas, Tudo branco de neve ou verdejante. É a terra que tenho, É a terra que é o chão cósmico, Meu berço, minha vida. Inquieto Nestes vastos campos, Entre montanhas, Sou lobo e sou cordeiro a viver A vida precária de quem sabe que tem Terra, mas não pode dizer Esta terra é o meu berço, A minha vida. Um dia, na neve ou no verde desta terra, Vou erguer a bandeira d´humanidade e gritar Meu berço, Minha vida! rHernández, 2009

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Louvo cada olhar Que se encanta na paisagem Do sentimento. Jeito de amar Em sofrimento. “Gotas filosóficas são as ações De cada pessoa a criaram humanidade”, Canta o J. C. Macedo. Revoluções. Cântico prenhe d´enredo! Amar é viver o ensinamento, Criar enredo! MACS, 1973

caminhos há que escolho gotas filosóficas são as pedras calçam os caminhos cada passo é uma ação entre as pedras nestes caminhos o grão d´areia é ente que amo de cada um deles surge arte em pedras calçam caminhos

caminhos há que não percorro prefiro as gotas filosóficas da ação no passo qu´escolho jcMacedo, 1973

Olhei E tornei a olhar. O tubo d´ensaio mostrava uma luz. O que é isto?, perguntei. Talvez um átomo de paz!, observou Schenberg. O tubo d´ensaio mostrava mais que Uma luz... Nova linguagem Em liquida energia. Embriões de outra humanidade Incubada nesta mesma idade! Sem alergia E com a mesma linguagem.

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Uma luz É eterna enquanto dura, como o amor, Como diz o poeta. O que é isto?, continuei. O tubo d´ensaio enviou-me uma luz Para olhar E olhei. Assim vejo a vida todos os dias. Assim amo cada instante dos meus dias. Enquanto for luz serei tubo d´ensaio Para novos dias! (a Mario Schenberg e João Barcellos, pelas lições recebidas) JAyP, 1986

Estepes perdidas no tempo Ecoam amores Corpos de nudez feliz Que lanças e fuzis Não silenciaram Em oásis e cavernas ficaram Os ais da paixão feliz Amores Medos Esperanças perdidas no tempo cAbdullah, 1976

O encanto do poeta A palavra é lição Diz-me d´esperança Profecia de revolução Política herança O encanto do poeta M ´alcança Minh´alma é emoção A palavra a lança Trabalho os dias em Evolução (ao poeta e mestre J. C. Macedo o aplauso pela solidariedade com a África) c.Abdullah, 1976

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Além de mim Um mundo diverso Recria-se em história própria. Além de mim Gente faz de si outro universo Adultera a história própria. Gente que pensa, mas vive a animalidade: Cria o ódio e a guerra – universo Nada de história Destruição perto de mim! (contra todos os dogmas e seitas e fundamentalismos exotéricos) mNovaes, 2014

na fumaça que s´eleva do café xícara pousada em mesa na varanda que mostra o mar perfume filosófico de barca a singrar outro amar pensamento na banda da paixão da vida que assim o é canto digo de mim espelho do mundo anarca vagabundo jardim encanto sou a história que assim o é filosófico ser em varanda virada para o mar outro amar noético navegar da xícara na paisagem da varanda a vida tem aroma de café jBarcellos, 2014

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Poesia, Filosofia, Novelas & Sarau D´Amor  

João Barcellos

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