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Centro de Estudos do Humanismo Crítico Portugal & América Latina Noética /

Grupo de Debates

PESSOAS &

HUMANIDADE organização

MARIA C. ARRUDA

EDICON & TERRANOVA


Índice Abertura João Carlos Macedo // Manuel Reis

Sidónio Muralha / da Humanidade à Ganância Mariana d´Almeida y Piñon

Zeca Afonso / Paradigma da Batalha Sócio-Cultural e Ecológica João Carlos Macedo Aziz N. Ab´Sáber

João Barcellos

Poesia Historiográfica / A redescoberta da epopéia e da ecologia no acto poético de João Barcellos Maria Augusta de Castro e Souza

Reis, Oliveira e Matos: o mundo em renovação. João Carlos Macedo

As Lições Da Crise Na Práxis Filosófica De Manuel Reis Maria C. Arruda

Adolfo Frioli

João Barcellos

O Historiador e o Editor no Percurso Ético de João Barcellos Rosemary O´Connor Quando o despotismo Iluminado Confronta a Notável Aristocracia da Res Publica Carlos Firmino

Obs.: Alguns textos conservam a ortografia portuguesa anterior ao Acordo Ortográfico.


Abertura

A sociedade precisa do olhar crítico que questiona para [re]construir a Idade na qual vive a geração à qual a história, local e mundial, legou instrumentos de sobrevivência. Sem este olhar abrangente e ao mesmo tempo focado no pormenor das demandas sociais não é possível idealizar e estabelecer a Sociedade Sustentável criadora de um bem-estar de Paz e Amor. Nesta ótica do Humanismo Crítico é que esses instrumentos vindos do passado devem ser analisados e adequados à Idade da geração atual para que o estar-ser contemporâneo saiba de si e das raízes que lhe deram origem. E só assim será possível equacionar e construir a Justiça Social à luz dos primados da República assente na Consciência de cada Pessoa e não em dogmas fúteis. João Carlos Macedo [in “A Nossa Idade”, 2009]

“[...] poucos, infelizmente, se dão ao trabalho crítico de considerar, discutir e identificar, e que abrem, forçosamente, o horizonte humano ao mundo dos possíveis e dos futuríveis do Processo histórico, à luz de uma Inteligência e de uma Racionalidade humanas verdadeiramente holísticas (e não maquiadas...)”. Manuel Reis [in “Linhas Sócio-Históricas e Culturais De Orientação Crítica”, 2011]


Sidónio Muralha da Humanidade à Ganância Por

MAyP O simples fato de vivermos o nosso momento – “um momento vivenciável entre o nascer e o morrer para o qual nem todas as pessoas ousam ser elas próprias no meio do burburinho animal e racional que transportamos”, como diz o poeta J. C. Macedo – faz-nos já objeto de troca utilitária (“Ah, nasceu? Que bom. Vamos comprar o enxoval e encomendar o batizado na igreja, que costuma ser mais caro que o enxoval... E se o padre disser algumas palavras, pronto, ele quer a taxa da pregação!”), porque tudo é visto sob o ponto de vista do conceito custo-benefício, e até a criança, se nasceu num berço que é somente o regaço da mãe, já está destinada a uma “bolsa família” ou outro subsídio governamental. Da mesma maneira, e o Brasil é um exemplo, se a criança nasceu com problemas físicos e/ou mentais clinicamente comprovados, logo a família recebe uma pensão do Estado, e se essa criança tem algum tipo de melhora nos anos seguintes, a família corre a buscar um jeito de provar que ela continua na mesma... para não perder o subsídio! E assim vai. Outra questão que se relaciona com a possibilidade de perpetuação do lucro a qualquer custo é o modo como capitalistas encaram as comunidades: se um pedaço de terra está numa zona sempre esquecida, mas, de repente, é um ponto de referência urbano, eles vão lá e, com a ajuda ou omissão do poder público, tomam o pedaço de terra para construírem centros comerciais ou colégios. Qual é a verdade, aqui? Um cubículo de “shopping center” vale tanto como sala de aula em colégio particular: paga-se por peça (objeto) e por cabeça (estudante). Isto é ou não é viver no e pelo custobenefício?! Um dos intelectuais que mais vivenciou literariamente a questão mercantil que marca a humanidade, do berço à tumba (as pessoas mais conscientemente ´verdes´ preferem virar cinzas), foi o português Sidónio Muralha, que não conheci pessoalmente, mas tive acesso à sua vasta obra através do irmão, o dramaturgo e ator Fernando Muralha, que conheci em palestras de João Barcellos acerca de Antero de Quental e Almada Negreiros, na biblioteca da Casa de Portugal em São Paulo, palestras inesquecíveis e até hoje comentadas. Aliás, ao falar sobre Almada Negreiros, o Mestre JB mencionou uma das várias e famosas ´tiradas´ poético-filosóficas daquele intelectual português: “se caráter custa caro, pago o preço”. Óbvio, e apesar de então ser uma jovenzinha de dezessete anos, questionei tanto Fernando como Barcellos sobre essa ´tirada´ e, ali mesmo, na biblioteca, após um trago de legítimo Porto, li o poema por inteiro. Escutem... Parar, não paro. Esquecer, esquecer não esqueço. Se caráter custa caro, pago o preço. Pago, embora seja raro. Mas homem não tem avesso e o peso da pedra eu comparo à força do arremesso. Um rio, só se for claro. Correr sim, mas sem tropeço. Mas se tropeçar não paro,


não paro, nem mereço. E que ninguém me dê amparo, nem me pergunte se padeço. Não sou, nem serei avaro. Se caráter custa caro, pago o preço. Na sociedade que somos (já nem falo “em que vivemos”, porque, afinal, temos contas a ajustar conosco por não sermos tão fortes para virarmos a mesa da ganância) a oferta e a procura do lucro são a fonte da ganância pela qual se perpetua tanto o capitalismo caseiro como o global.

Venho a esta questão porque o Mestre JB fez, então, ao falar sobre Almada, uma provocação: “...aqueles intelectuais republicanos eram, sim, burgueses, mas souberam perceber no povo português uma voz com dificuldades de ser ouvida e amplificaram-na pela via artística”. Confesso que de início tive dificuldade para entender, mas logo comparei o português com o brasileiro na sua rua d´amargura social. É verdade. Apesar de não terem os bolsos vazios, os intelectuais portugueses tiveram o caráter necessário para impor na ´terrinha´ um canal cultural por onde fluiu um povo há séculos dominado pela ganância feudal e burguesa. E custou-lhes caro, muito caro. As elites políticas e religiosas (não se sabe onde começa uma e acaba a outra) sempre souberam amordaçar as vozes que se chocam com o status quo governamental e acadêmico, e se Fernando Pessoa foi impedido de dirigir uma biblioteca pública, em Sintra, o historiador e cartógrafo Alfredo Pinheiro Marques foi vilmente copiado, traído, e depois convidado a deixar a Universidade de Coimbra. E agora, no Brasil, o capitalismo escolar brasileiro, através da (sua) Justiça, intimou João Barcellos a provar que o capitalismo existe e que se move pela ganância que faz da sala de aula uma mera caixa registradora de mercado chic. Nos três casos, senhoras e senhores, o ponto da questão chama-se caráter. Por um lado, Pessoa sabia-se capacitado para dirigir fosse qual fosse a repartição cultural que desejasse; por outro, Pinheiro Marques é referência internacional quando se trata de Descobrimentos Marítimos e sabia, como sabe, estar “diante de verdades historiográficas que incomodam todos os ´cavalos brancos´ inventados pelos mangas d´alpaca a serviço de monarcas e republicanos hipocritamente pançudos” (como escreveu a propósito J. C. Macedo), e, por último, tornou-se diversão judicial aceitar denúncias contra o intelectual português João Barcellos, talvez porque a sua obra incomoda as academias locais incapazes de produzirem um trabalho tão brilhante, Bem, e nos três casos, percebe-se que o caráter das pessoas é o mesmo: ousar a Verdade custe o que custar, porque a Vida vale por isso.


É por isso que “[...] a poesia de Sidónio Muralha ainda tem eco e permeia todas as camadas sociais, mais as brasileiras do que as portuguesas: o seu neo-realismo é um escudo cultural contra a prepotência e a ganância dos pequenos e grandes ditadores mercantis que esculpem a miséria em painéis que publicitam ideais de consumismo e fazem dessa imagem o pano de fundo social da hipocrisia [...]”, como escreveu João Barcellos. Um cântico de Muralha diz tudo sobre a: – Só nós sabemos por que vivemos num buraco encurralados como bichos. É este “buraco” social que Barcellos denuncia em seus escritos jornalísticos e literários. É este ato de rebeldia plena e contínua que incomoda a tal “burguesia pançuda”, do dono de colégio novo-rico ao banqueiro que nos insulta coma sua serena covardia sob a capa de poderes públicos omissos. Este “buraco” social que foi o tema para quase tudo o que Sidónio Muralha escreveu, para adultos e crianças. E deste “buraco” social que sai o grito permanente da vera Humanidade contra a ganância que faz da gente objetos de consumo – tema, aliás, fonte de toda a obra do magnífico e mestre Manuel Reis, que também paga muito caro pelo caráter que defende, caráter que foi a linha-mestra do conto “A Vida Em Construção”, livro em que J. C. Macedo espelhou para o mundo a batalha sociocultural desse filósofo. Eu conheci tardiamente a obra social e literária de Sidónio Muralha, é verdade, mas agora ela é referência na minha vida junto com as obras de Barcellos, Reis, Pessoa, Marques, Macedo, Quintana, e por aí vai.

Mariana d´Almeida y Piñon

– Paris/Fr., 2012.


Zeca Afonso Paradigma da Batalha Sócio-Cultural e Ecológica

Por

João Carlos Macedo

A audição e o estudo das particularidades políticas e sociais da canção Menino do Bairro Negro, em 1973, levaram-me para uma análise profunda acerca da Ecologia. E questionei-me, então: Que raio é isto de Ecologia? Uma unidade móvel da Biblioteca Gulbenkian, em Guimarães, deu-me a resposta: A palavra Ecologia tem origem no grego ´oikos´, q.s. ´casa´, e ´logos´, q.s. ´estudo´, e foi na conjugação dos termos que Ernst Haeckel, já em 1869, veio a designar o estudo da relação entre seres vivos e os meios espaciais em que vivem como ´ecologia´ – o ´estudo da casa´. Escrita em 1963, a canção Menino do Bairro Negro transformou-se num dos principais instrumentos culturais de luta contra a opressão e inaugurou, pode-se dizer assim, e o digo, um ciclo cultural para discussões à luz da Ecologia, pois, a Ecologia trata do Todo Humano no seu berço chamado Terra.


Olha o sol que vai nascendo Anda ver o mar Os meninos vão correndo Ver o sol chegar Menino sem condição Irmão de todos os nus Tira os olhos do chão Vem ver a luz Menino do mal trajar Um novo dia lá vem Só quem souber cantar Vira também Negro bairro negro Bairro negro Onde não há pão Não há sossego Menino pobre o teu lar Queira ou não queira o papão Há-de um dia cantar Esta canção Olha o sol que vai nascendo Anda ver o mar Os meninos vão correndo Ver o sol chegar Se até da gosto cantar Se toda a terra sorri Quem te não há-de amar Menino a ti Se não é fúria a razão Se toda a gente quiser Um dia hás-de aprender Haja o que houver Negro bairro negro Bairro negro Onde não há pão Não há sossego Menino pobre o teu lar Queira ou não queira o papão Há-de um dia cantar Esta canção

Do sentimento de Zeca Afonso sob o impacto da humilhação que é um povo encurralado num fosso negro hipocritamente chamado de bairro pela elite social e os igrejistas, resultou um cântico que é, ao mesmo tempo, de repulsa ao facto anti-humano e de solidariedade ao povo através da criança que busca a luz do sol.


É um cantar de humana sabedoria o que Zeca Afonso (nos) oferece em Menino do Bairro Negro. Ele solta a criança que carreia em si e com ela abraça aquela outra que não conhece a luz, então, é um abraço de energia tão forte quanto a luz do sol que não chega ao bairro negro. Com a canção Menino do Bairro Negro o mundo português conhece a luz da solidariedade e, em Zeca Afonso, uma fonte de inspiração para a resistência. Entre as cordas vocais de um poeta e as de uma viola sobrevive a humanidade se encanta consigo mesma: assim é Menino do Bairro Negro, assim é Zeca Afonso. Guimarães, 1973.

NOTAS OBSERVAÇÃO DO AUTOR – O texto “Zeca Afonso, paradigma da batalha socio-cultural e ecológica” foi enviado, manuscrito, para a sede da revista Mundo da Canção (MC), no Porto, mas não chegou a ser publicado, pois, na época, a revista estava sob regime de censura directa. A cópia do texto ficou guardada na caixa que a então minha companheira, Hanne Liffey, levou para Dublin e hoje está com a minha filha Johanne (que ´digitalizou´quase todos os textos). Muita da minha produção literária e jornalística está nesse ´baú de papelão´ e agora socorro-me dele quando preciso de material relativo àquela época, particularmente no que se refere aos ´panflos´ da Turma de Jovens Intelectuais Anarquistas / tjia. ERNST HAECKEL [Ernst Heinrich Phhilipp August Haeckel, 1834-1919] – Médico e Naturalista germânico, especializado em anatomia comparada, difundiu cientificamente os estudos de Charles Darwin. Escr eveu, entre outros, o livro Kunstformen der Natur e propôs o termo Ecologia para nomear os estudos sobre seres vivos e meio físico. MUNDO DA CANÇÃO – Revista sediada no Porto e propriedade de uma gráfica local, na qual foram publicados vários poemas meus, na secção ´Poesia 70´. A revista MC teve problemas com a censura fascista do salazarismo e, depois, com a do marcelismo, mas conseguiu resistir aos cercos e dar voz a cantores, instrumentistas e poetas da Cultura lusa e mundial. ZECA AFONSO [José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, 1929-1987] – Professor, poeta, compositor e cantor, transformou-se num dos principais símbolos da resistência ao fascismo na Península Ibérica. E, em Portugal, ninguém até hoje criou condições éticas e culturais para sequer chegar perto dessa referência chamada Zeca Afonso no campo da música.


Aziz Nacib Ab´Sáber 50 Anos De Luta Pelo Brasil

Por

João Barcellos

Hoje é 2011, mas saboreio uma interessante conversa com o professor Aziz Nacib Ab´Sáber com um recuo a 1956, quando ele defendeu a sua tese “Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo” na Universidade de São Paulo [USP], trabalho acadêmico que viria a se tornar uma ferramenta para as novas gerações de geógrafos, cartógrafos e ecólogos, e que hoje, é ainda referência... “Agora, tiram fotos de morros com alguns arbustos e dizem que são topos de morros para defenderem um código falsamente florestal porque desconhece a biodiversidade”, comentava ele com a sábia ironia do mestre que o é pelo conhecimento adquirido em campo e não em


gabinetes de politiqueira gritaria e baixaria ideológica. Por outro lado, “o professorado já nem se obriga a uma cultura geral para poder observar melhor o seu sítio, que é a sua Nação, e os outros sítios, que são o Mundo, por isso existe falta de comunicação acadêmica e profissional”, e este é o ponto em que, concluímos, abre-se a porteira para os espertos ´agroboys´ devastarem o Brasil florestal através de atos sustentados por políticos corruptos, das vereanças ao senado. Conversar com o professor Ab´Sáber é sempre um prazer intelectual pelas lições que saltam entre os temas que ele aborda holística e categoricamente, mas todos convergindo para o humanismo crítico pela ética profissional e cultural. O seu combate ao Código Florestal que os políticos revisaram e que teve Aldo Rabelo como relator e que é “um neófito em matéria de questões ecológicas, espaciais e em futurologia...”, como lembra, focaliza aquilo que qualquer ecólogo logo percebe: “...se houvesse um movimento para aprimorar o atual Código Florestal, teria que envolver o sentido mais amplo de um Código de Biodiversidades, levando em conta o complexo mosaico vegetacional de nosso território”, Porque tal complexo florestal não é um topo-de-morro meio careca com alguma vegetação enxertada... O recado do professor Ab´Sáber está no seu texto “Do Código Florestal para o Código da Biodiversidade” [20.6.2011]. Os atuais políticos ´ambientalistas´ são generalistas defasados da realidade que �� o Brasil florestal, e pior, são acompanhados e assessorados por geólogos que, pelo que parece, e ouvindo-se Aldo Rabelo falar já dá uma idéia da gravidade do assunto..., geólogos, dizia eu, que não perceberam ainda a diferença entre formação e deformação! Assim, se o Governo Lula foi um desastre ´ambiental[ista]´, o Governo Dilma segue a mesma trilha da ignorância e da prepotência financeira e dá, nisso, exemplo para os desmandos urbanos que os políticos municipais autorizam e que criam rupturas socioambientais cuja fatura já pagamos muito caro em nossos dias. Por isso, mais uma vez está certo o professor Ab´Sáber ao dizer-nos: “É triste saber que algumas pessoas que possuem algum poder político desconheçam os impactos negativos de alguns de seus projetos eleitoreiros, ao revisar códigos importantes a favor de gente que não tem nenhum pensamento sobre o futuro de seu país. O mais lamentável é que se trata de pessoas que pretendem revisar o Código Florestal sem entenderem nada do assunto mais amplo que é o Código da Biodioversidade, que inclui apropriados (?) conhecimentos sobre os diferentes domínios de natureza do Brasil inter e subtropical” [in “Do topo de morros para as cimeiras das serranias florestadas e suas aguadas” [21.7.2011]. O que mudou de 1956 para 2011? Nada. Governo vai, governo vem, e o Brasil cada vez mais à mercê da bandidagem eleitoreira que transforma o Parlamento em banca de corrupção e a Nação no penico d´oiro pago pelos contribuintes. Saiba-se, e se não sabem eu vos digo: o sítio urbano é a nossa Comunidade, a nossa Nação, e em cada ação nele projetada alcançamos o Mundo, pelo bem e pelo mal... Evoé!, professor Aziz Nacib Ab´Sáber, as gerações atentas de hoje te saúdam.

Nota: O Prof. Ab´Sáber faleceu duas semanas depois da conversa que tivemos em sua casa, no bairro Granja Viana, em Cotia (Grande São Paulo), completamente desiludido pelo caos urbano com que a politicagem corrupta permitiu que a indústria imobiliária cercasse a sua pequena e notável floresta de espécies brasileiras e, consequentemente, o Brasil e o Mundo.


Poesia Historiográfica

A redescoberta da epopéia e da ecologia no acto poético de João Barcellos MACS

Ao deslumbrar-se com as novas camadas de conhecimento histórico que ele mesmo removeu no plano luso-brasileiro das eras quinhentista e seiscentista, João Barcellos retorna à circunstância que o levou, entre 1969 e 1974, a ler o mundo local e mundial com o olhar poético. No livro “Do Fabuloso Araçoiaba Ao Brasil Industrial” [1], ele reservou uma parte [2] para dar à luz alguns poemas escritos no fervor das pesquisas feitas nas velhas regiões do Piabiyu [3] entre a Piratininga jesuítica [4] e o sertão que logo ali se abria até o Berasucaba [5] e já depois de observações em Santos e Cananéia, no litoral da então Capitania paulista. Sobre tais poemas, a jornalista portenha Marta Novaes lembra-nos que “Uma das características do trabalho lítero-histórico de João Barcellos é o traçado poético com que ele desenvolve as suas linhas de raciocínio para, assim, levantar com suavidade as poeiras que escondem gentes e eventos do passado ibérico e luso-judaico que fez e faz a América”. São poemas que tratam dos perfis psicológicos da colonização lusa na ´ilha´ Brasil a começar pelas acções do Bacharel de Cananéia, quase uma ópera de encantamento entre a bravura e a sobrevivência sanguinária, que se encontra também no ´velho´ Affonso Sardinha e, no geral, nos colonos que abriram os sertões americanos para Portugal encontrar outros povos e riquezas; entretanto, ao redescobrir a odisséia do governador Francisco de Souza, o poeta também redescobre a onírica presença da acção romântica, e, além da poesia, dedica-lhe a novela “Morro d´Apoteose” no mesmo livro. Nestes poemas pode-se ouvir o grito das gentes desterradas e que se esforçam para construírem outro Eu, quiçá, outro Portugal: gentes a


desbravar o sonho da ´terra prometida´ entre gentes e terras de uma América perdida no tempo humano. No percurso social e poético, ele desenvolve teses acerca dos aspectos comunitários e científicos que se prendem intimamente aos factores ecológicos, agora mais conhecidos como ambientais, mas que ele continua a nomear como socioecológicos, uma vez que “a reacção das pessoas à descomunal paisagem natural e animal mostra um despreparo filosófico que as deixa absolutamente impotentes e, logo, partem para os actos d´ignorância, i.e., preferem destruir a Natureza a fazerem conviver a Humanidade com ela”. Por isso a sua leitura atenta sobre as obras de Haeckel e Darwin, Ab´Sáber (de quem era vizinho, amigo e colaborador), Lutzemberger e Figuera de Novaes, além do amigo e mestre Manuel Reis, entre outros. Esta é a estrutura mental que o torna um intelectual eclético, aberto ao mundo das possibilidades para melhorar o que somos enquanto Humanidade e, obviamente, a História é aqui uma carga preciosa para a percepção da Pessoa que é e está, fazendo ou não fazendo. A jornalista Marta Novaes conseguiu na sua observação reter o essencial da óptica de João Barcellos, mas, ele mais do que isso, ele é o português que além de Portugal se percebe Portugal por inteiro e gera em si mesmo a possibilidade de desterrar e exibir a história que lhe deu origem. O seu contacto com o espaço-tempo da lusa americanidade perspectiva a essência poética que emerge em cada um dos seus actos. Na verdade, o Mestre João penetra a alma daquela gente e olha esse espaço-tempo no relógio real, o das sombras do sol a pino, o das chuvas diluvianas, o da morte sob a flecha atirada de um arco, e mesmo o da morte que leva o corpo para a mesa de uma tribo de canibais em festa, porque ´manjar´ o inimigo é reter a sua força... A médica Johanne Liffey [6] diz que “o Barcellos de hoje é o J. C. Macedo do tempo da batalha pela liberdade no Portugal perdido na escuridão ditatorial, porque existe uma ditadura ´escolástica´ que não permite tratar a história como ela é, só pelo que a política (des)manda”, e concordo com ela. E até o filósofo Manuel Reis [7] buscou esta questão para aprofundar a sua análise ao trabalho do Mestre João [8], uma análise que é, ao mesmo tempo, uma homenagem de português para português. Esta poesia historiográfica é apresentada seccionada, por fragmentos, com se por cada documento achado, ou por cada incógnita iluminada, um verso seja escrito e cantado. A riqueza do conteúdo documental e psicológico é tão profunda que o poeta leva-nos para a intimidade das gentes e suas causas. É o caso da novela “Morro d´Apoteose”: não é um poema, é isso e um filme, ou melhor, é isso e uma ópera. Revejo em “Do Fabuloso Araçoiaba Ao Brasil Industrial” de 2011 o jovem poeta de 1973 a esbravejar contra a pinochetada yankee que derrubou Allende, ou, logo depois, quando escreveu o panflo distribuído em Peniche contra a construção de uma central de energia nuclear na aldeia de Ferrel, porque a História é um acto contínuo de sobreviver às circunstâncias que nos surgem como obstáculos, e ao conhecermos a (nossa) História sabemos como reagir em prol da Humanidade e da realidade de cada Povo. Nas suas andanças socioculturais e ecológicas pela América do Sul, e principalmente Chile, Brasil e Argentina, ele continuou a desbravar a Humanidade com ênfase numa lusoamericanidade genuinamente verdadeira, o que se observa e sente no livro “João Barcellos / Contos, Poesia & Novelas” [9], uma colectânea publicada pelos amigos em justa celebração intelectual. Maria Augusta de Castro e Souza – Berlin/De, 2012 NOTAS 123456789-

“Do Fabuloso Araçoiaba Ao Brasil Industrial”, edição Edicon (São Paulo, Brasil – 2011) c/ Centro de Estudos do Humanismo Crítico (CEHC, Guimarães – Portugal). “Poesia Sob A Brisa Da História Luso-Brasileira”, pp 168-177, c/ apresentação da jornalista Marta Novaes. Piabiyu [do guarani, q.s. ´caminho feito a pé´]. Aldeia nativa renomeada São Paulo dos Campos de Piratininga pelo seu fundador, o jesuíta Manoel da Nóbrega, em 1554, após ter perdido em 1553 a aldeia Maniçoba no sertão próximo a Jundiaí. Berasucaba, Byraçoiaba ou Araçoiaba – morro perto de Sorocaba onde Affonso Sardinha (o Velho) e o filho (o Moço) do mesmo nome instalaram a primeira fundição de ferro da América, cerca de 1597. Conversa telefônica [London e Berlin, fevereiro de 2012]. Análise publicada na colectânea “Debates Paralelos”, Volume 8, 2012, pp.106-158. Edição Edicon e CEHC. Assim é ele tratado carinhosamente entre as turmas latinoamericanas ligadas ao CEHC. “João Barcelllos / Contos, Poesia && Novelas”, edição Edicon (São Paulo, Brasil – 2011).


Reis, Oliveira e Matos: o mundo em renovação. Três intelectuais portugueses formadores de opinião para a renovação da lusa identidade e de uma humanidade em paz consigo mesma.

João Carlos Macedo

Sob a luz de The Religious Face Of William Blake, um ´paper´ da professora Joanne Paisano com ilustre observação literária do filósofo Manuel Reis, revemos a obra O Celibato Eclesiástico Na Literatura Portuguesa, do professor M. Branco de Matos – uma obra que me fez escrever: Este trabalho [...] é de uma precisão tal no campo da abordagem psicohistórica à sexualidade e à sociedade eclesiástica que mereceu diversas análises de intelectuais

sul-americanos, principalmente da Argentina, e um epílogo já considerado obra-prima assinado pelo citado filósofo “O celibato eclesiástico, ao contrário do que vulgarmente se pensará e se promove, não se situa no plano da sexualidade, mas no quadro do poder e da subjugação de um humano por outro ser humano”, ensina Matos. E é esta Verdade que se reconhece ao longo da leitura do seu livro, na verdade, um ensaio contra a cegueira ideológica que impede a pessoa humana de ser ela-mesma no mundo igrejista. Recentemente, li O Evangelho de Jesus, segundo Maria, mãe de João Marcos, e Maria Madalena, de Mário de Oliveira (o famoso Pe. Mário da Lixa), em forma de provérbios; e neste campo literário, posso afirmar que é uma obra de excelência cultural e teológica na avaliação crítica do mito e da fé – do


mito, o poder identitário que escraviza e corrompe; da fé, a identidade religiosa das pessoas que comungam a liberdade. Não por acaso, este livro de Mário vem sugerido por Reis como um traço do humanismo crítico que eleva a consciência para o acto libertador na óptica da Sociedade que se exprime por vontade própria.

O livro do padre Mário levou-me imediatamente para O Celibato, de Matos, com parada naquele que considero a obra-prima de Reis nestes conteúdos teológicos e sóciohistoriográficos: Caminho Novo, obra com e sobre Spinoza, na qual transformou-se numa rara, precisa e preciosa, referência do Humanismo Crítico. Por isso, tal como Mário e Matos, passou a incomodar as autoridades católicas lusas enquanto os seus livros eram apreendidos pelo regime vaticano-fascista chefiado por Salazar. Por isso, decidiu abandonar o sacerdócio em 1969... uma atitude feliz para o mundo sociocultural, pois, a Vida ganhou um Filósofo em batalha aberta e permanente pela Liberdade e pela Paz. Existe, em Reis, algo que lembra o italiano Abbagnano e o luso-judeu Spinoza, a par do alemão Adorno: é a ´filosofia do possível´, porque existe Vida além dos dogmas forjados e cruelmente estabelecidos para alimento da Ignorância. E, interessante: entre os três intelectuais (Reis, Oliveira e Matos) sobressai um traço filosófico e poético que tem a Palavra socrático-jesuana como base para a Justiça Social que gera a Paz conscientemente projectada na comunidade que deve ser a Humanidade.

Enquanto o incansável Reis faz do ´paper´ de Joanne, e com ela, uma ponte para desfazer equívocos históricos e dogmáticos em torno do artista inglês cuja marca não era o niilismo nem o ´deixa passar o tempo´, mas uma


religiosidade telúrica-cósmica expressa em traços e tintas onde a divindade se deixava ver nele e nos outros, mas oculta ao olhar ignorante do papado romano e seus bispos catadores de dízimos, outros livros do mesmo filósofo incendiavam a mente livre de intelectuais, sendo aquele Caminho Novo uma referência irrefutável do seu labor literário. É interessante verificar como O Celibato, de Matos, e O Evangelho, de Oliveira, cruzam-se neste universo de mentes: Matos fala-nos da propriedade castradora (física e mental) de um poder igrejista cuja acção inquisitorial não deve nada aos regimes fascistas que deixaram e deixam a humanidade horrorizada – propriedade essa que impede, ainda, a utilização da Palavra como meio e mensagem da própria Humanidade, ou seja, como sabemos por vários livros de Reis sobre o assunto, é um mundo tão fadado ao niilismo quanto qualquer um dos impérios que surgiu e se foi. O ´diabólico´ Blake é, aqui, o mais santo dos santos, e personaliza em sua face religiosa aquilo que a maioria dos religiosos não quer: a prática do Saber que faz a Paz. Ora, mais um socrático personagem que, cerceado no uso da Palavra, fez da escrita e do desenho um caminho novo para se dizer e demonstrar diante da Humanidade. E, mais interessante: assim o fazem, também, Reis, Oliveira e Matos. O igrejismo mundializado (catolicismo) surgiu das cartas de Paulo/Saulo induzindo Pedro e outros a traírem a Palavra Jesuana (Jesus é homem histórico, Cristo é o mito paulino que o matou para construir uma igreja imperial), já o sabemos, mas este Conhecimento/Saber tem de ecoar na Humanidade da maneira a demonstrar que existe Vida além das igrejas (Reis e Matos), para que se perceba o mal judeo-cristão da personificação masculina como eixo da divindade e fazer renascer socialmente a essência feminina (Oliveira e Blake), essa ´marginalidade´ que Joanne contempla também em seu ´paper´ ao mostrar como Blake resistiu a tudo e todos tendo a poética consciência do humanismo como suporte vital em cada arte gravada. Intelectuais de uma geração que teve de resistir a tudo e todos, Reis, Oliveira e Matos são parte de um todo social e académico (na maioria das vezes, diga-se, anti-académico), que ora são referência literária para a renovação da lusa identidade e de Humanidade em paz consigo mesma. O preciosismo lítero-cultural nos seus escritos teológicos e sociais é marca registada de uma visão holística que não esquece o pormenor que sublima o instante criador. É preciso dizer mais?... MACEDO, J. C. – poeta e jornalista. Hoje que é 2012.


Referências p/ Contato padremario@sapo.pt noetica@uol.com.br lillian.reis40@gmail.com m.brancomatos@gmail.com jpaisana@ilch.uminho.pt

Obras Citadas Caminho Novo – REIS, Manuel. Editora Edicon c/ Centro de Estudos do Humanismo Crítico / Portugal e Brasil, 2009. O Celibato Eclesiástico Na Literatura Portuguesa – MATOS, M. Branco de. Editora Edicon c/ Centro de Estudos do Humanismo Crítico / Portugal e Brasil, 2009. O Evangelho de Jesus, segundo Maria, mãe de João Marcos, e Maria Madalena – OLIVEIRA, Pe. Mário de. Edium Editores, Portugal, 2012. The Religious Face Of William Blake – PAISANO, Joane (c/ análise de Manuel Reis). Editora Edicon c/ Centro de Estudos do Humanismo Crítico / Portugal e Brasil, 2012.


AS LIÇÕES ESSENCIAIS DA CRISE NA PRAXIS FILOSÓFICA DE MANUEL REIS Por

Maria C. Arruda O formalismo acadêmico do professor e filósofo Manuel Reis esconde um vanguardismo literário comum a raras pessoas da comunidade intelectual. Aqui, vanguardismo não é elitismo, é ação em prol de uma academia que faça jus à sua vocação primeva, ou seja, estabelecer e divulgar Sabedoria. “Para quem só conhece a sua obra literária, fica difícil perceber a batalha exemplar de Manuel Reis pela Cidadania plena (e, como dizem alguns e algumas, ´a sua escrita não é acessível a ignorantes nem a analfabetos funcionais´), uma batalha que tem em cada observação sociocultural e em cada ensaio filosófico armas pacificamente eficazes contra as políticas que ferem o bem-estar público”, lembrou-nos o poeta J. C. Macedo, quando dissertou acerca do livro “Caminho Novo”, um dos mais lidos do fundador do Centro de Estudos do Humanismo Crítico, sediado em Guimarães, histórica cidade do norte português. Quando eu falo de Academia em relação a Manuel Reis, falo da Sabedoria no seu todo social, religioso e político, não das “quatro paredes de uma Escola onde o Ensino raramente tem por base a própria Sociedade”, como ensina a artista gráfica Carlota Maria Moreyra. O ato de estar e de ser, em Manuel Reis, vai além do espaço físico acadêmico e dos dogmas socioreligiosos: ele vive aprendendo a sobreviver na Sociedade que o devora, como fizeram (cada um a seu modo) Sócrates e Jesus. Por isso, cada livro deste filósofo é uma Aula de muitas Lições em torno da Sabedoria que ele mesmo ajuda a estabelecer como princípios de Vivência em Paz e Amor. Incorpora a Sociedade, não como ela é, mas como ferramenta para melhorar a Humanidade no âmbito de uma Consciência Cívica plenamente assimilada. Em seu ensaio “As Lições Essenciais Da Crise”, publicado eletronicamente pelo grupo de debates Noética, inserido no CEHC, ele ensina: “[...] O Poder (societário) é, portanto, limitado por sua própria natureza (como, aliás, tem preconizado, ideologicamente, a vetusta Tradição política anglossaxónica). A mesma sorte deve ter todo o Poder de Estado (soberano) constituído societariamente. Toda a soberania política deve ser uma realidade societária limitada. — Na democrática Forja operatória do Poder constituído (ou a constituir), o que, aí, se passou, em termos filosóficos (dir-se-ia, até, metafísicos), foi a necessária e imprescindível articulação do mundo dos Sujeitos com o mundo dos Objectos, do mundo das Vontades livres e responsáveis com o mundo dos Objectos, definidos e determinados à escala de toda uma Colectividade societária. • Corolários desta Axiomática: A) O Poder (societário) encontra-se, ipso facto, identificado e constituído no universo dos Objectos (Objectivo-Objectuais...). B) A Liberdade (individual-pessoal) acha-se configurada, por definição, no universo dos Sujeitos livres e responsáveis, que são a sua casa própria de origem. Estes dois perfis/noções (do Poder e da Liberdade) constituem o que há de mais original e originário, no universo humano.


C) Em tal horizonte, o detentor (ou detentores) do Poder, mesmo e, sobremaneira, em Regime democrático, tem a sua legitimidade sempre exposta e à prova, in actu exercito... O que significa e implica que ele está continuamente exposto ao julgamento e avaliação dos seus concidadãos/eleitores, — exposto, por conseguinte, à objectual ‘vida nua’ (G. Agamben), ou à condição do ‘homo sacer’, atribuída às vítimas exemplarmente expiatórias para toda uma Sociedade. (O criminoso de sangue, que foi julgado e condenado à pena de morte, é uma ‘res sacra’, cuja pena só pode ser executada pelo carrasco legal... ninguém mais pode tocar no criminoso!...). Desta sorte, e em conclusão, no universo omnienvolvente dos Objectos objectivoobjectuais, há, pois, sempre e por toda a parte, uma estrutural sintonia semântica entre o rei, o imperador, o presidente, ou o chefe eleito, dum lado, e do outro, o criminoso condenado, ou o próprio ‘bode expiatório’, enquanto vítima pura, que são considerados como ‘res sacrae’. A fenda ou ruptura, para a constituição dos espaços profanos, com a dignidade própria da condição humana, só pode ser estabelecida pelos próprios Sujeitos humanos, livres e responsáveis, justamente enquanto Sujeitos, nunca enquanto objectualizados”. Aqui está a base do pensamento onde Manuel Reis estabelece a didática estrutura que origina uma Filosofia, como já o disse, própria a raras pessoas da comunidade intelectual. E vamos ler mais um pouco: “[...] No nosso horizonte crítico, próprio e específico do ‘Homo Sapiens-Sapiens’ (e não do ‘Homo Sapiens tout court’, que é aquele em cuja charneira tem operado a Civilização capitalista em que sobrevivemos...), demandar e encontrar as soluções certas e justas para a ‘Great Depression’ em que vivemos, requerem, absolutamente, uma vera Alavanca de Arquimedes, de que é imperioso partir, a saber: uma base cultural, apoiada numa concepção holística, de natureza Psico-Sócio-Antropológica, adequada e verdadeira, uma concepção dos Seres humanos qua tais e do seu reto e adequado modo de operar e comportar-se”. É neste horizonte de análise para a reconstrução da Humanidade que o filósofo português forma a partir de si mesmo uma vanguarda acadêmica e sociocultural cuja estrutura intelectual abala o sistema mercantil das políticas que ferem o bom senso e cercam a Liberdade de cada Pessoa. Ele é “...o profano teologicamente antenado com a religiosidade popular cujos altares são exercícios mentais para a liberdade e não para a escravatura, i.e., Manuel Reis professa uma batalha justa pela Cidade das pessoas livres e contra as ´ovelhas´ domesticadas pelos igrejistas acampados em torno dos tapetes vermelhos do Poder, que divinizam para sustento próprio tendo aquelas ´ovelhas´ como moeda de troca”, na análise atenta do poeta J. C. Macedo em torno do livro “Sócrates e Jesus: Esses Desconhecidos...!” – um livro que despertou e desperta amores e ódios por causa do olhar historiográfico radical (e necessário) em torno dos dogmas fundamentalistas da Cristandade paulina e do Islamismo dela recorrente e ambas embasadas no principio do ´deus´ egípcio-judaico. [Confesso que li trechos do livro várias vezes e ouvi outras opiniões dos diversos grupos de leitura até entender a mensagem genuinamente socrática ali vertida.) Entretanto, o poeta J. C. Macedo, autor de um livro sobre o filósofo, é conhecedor do percurso de Manuel Reis e foi nele que mais busquei informações que me levaram a escrever estas linhas de cidadã inquieta com a situação de uma Humanidade escrava na própria Cidade. A praxis filosófica de Manuel Reis leva-me não apenas para a leitura dos seus conteúdos publicamente assumidos, mas, e essencialmente, para a leitura do horizonte holístico que nele é um traçado sociocultural configurado na concepção política da Liberdade individual e coletiva. A “crise” que a Humanidade vive agora não é ´coisa´ de agora, ela é a autópsia permanente da Sociedade consumista; o problema está na dificuldade que a Humanidade tem em se resolver no aspecto político e econômico tendo a Igualdade como foco. Acerca disto, vamos ler Manuel Reis mais uma vez: “[...] O moderno Sistema Capitalista (configurado segundo a cartilha bífida de Adam Smith, que estabeleceu a troca das virtudes pelos vícios e do positivo pelo negativo e vice-versa...), tal como o temos conhecido, através da Crise actual (despoletada diluvianamente a partir de meados de 2007), está a demonstrar e a tornar manifesto que chegou ao seu fim histórico (em termos psico-sócio-antropológicos); — pelo menos os modelos que adoptaram a forma/formato das ‘Corporations’ (que se tornaram, depois, sinónimo das Multinacionais). Como é sabido, o Sistema Capitalista (à escala mundial) tem o seu Centro e as suas Periferias: o lugar do Centro tem vindo a ser ocupado, ininterruptamente, pela Administração política e económica dos USA, desde a IIª Guerra Mundial, até ao presente. Mas as próprias atmosferas, a nível global, estão a mudar!...”. Certo.


A “crise” humana é social e é mercantil: social, porque o Egoísmo faz das pessoas objetos promovendo o consumismo, e é econômica, porque a pessoa-objeto deixa de batalhar pela sua liberdade e se estabelece como parte da engrenagem capitalista que a quer (e possui) como massa escrava de manobra política junto do Poder (falsamente) Público. O que está a mudar, agora, e Manuel Reis demonstra-o cabalmente, é o comportamento da Pessoa diante da Sociedade – a saber: a Pessoa passou a analisar a Sociedade a partir das Comunidades e se convenceu de que é “ave sem ninho próprio”, pois, nem a Sociedade é gerenciada para e com um Todo humano, nem as Comunidades estão livres da insaciedade de rapina das elites politicas e econômicas. Quem adota o Materialismo como caminho crê que as circunstâncias determinam o modelo consumista, por isso não perde tempo com análises, só com a possibilidade de realizar algum Sonho de Consumo ditado por tal sistema; enquanto isso, quem se realiza com o Idealismo presta-se a favorecer uma Sociedade mais humana e a projetar nela a cultura da Igualdade. Esta é a grande lição de Manuel Reis em prol de um humanismo crítico que tem na Sabedoria o seu alicerce maior.

Observação importante: Os meus agradecimentos ao poeta e jornalista J. C. Macedo pelas ´dicas´ dadas e que me ajudaram muito a escrever este texto de homenagem a Manuel Reis.

Maria do Carmo Arruda Professora / Microempresária Brasil, Julho de 2012

BIBLIOGRAFIA AS LIÇÕES ESSENCIAIS DA CRISE – Manuel Reis. Guimarães/Portugal, 2009. A VIDA EM CONSTRUÇÃO (Sobre Lillian & Manuel Reis) – Um conto de J. C. Macedo. Ed Edicon + CEHC + TerraNova Comunic. Brasil e Portugal, 2010. CAMINHO NOVO /Em Torno De Espinoza – Manuel Reis. Ed Edicon + CEHC + TerraNova Comunic. Brasil e Portugal, 2009. COLETÂNEAS – Palavras Essenciais e Debates Paralelos, ambas c/ 7 volumes, publicadas pela Ed Edicon + CEHC + TerraNova Comunic, c/ coordenação de João Barcellos. SÓCRATES E JESUS: ESSES DESCONHECIDOS...! – Manuel Reis. Ed Edicon + CEHC + TerraNova Comunic. Brasil e Portugal, 2001.


ADOLFO FRIOLI Por

João Barcellos

[Mestre Frioli em pesquisa de campo no Morro Araçoiaba, 2011. Foto: João Barcellos]

Aprendi desde muito jovem que uma Comunidade o é na e pela essência da transformação geossocial que desencadeia. Tal afimativa acarreta desafios, individuais e grupais. O amigo e mestre Prof. Dr. Manuel Reis, que dirige o Centro de Estudos do Humanismo Crítico, em Portugal, costuma dizer e escrever: “A liberdade de cada pessoa está nas ações que as tiram de cima do muro e as fazem olhar a Comunidade e o Mundo como um todo humano, sabendo cada uma delas dos desafios que é viver a vida, e não estar apenas na vida”. Em recente homenagem a Adolfo Frioli, o biólogo Luciano Regalado expôs a vida dele também no âmbito desta visão, e é do Mestre Frioli que ora me ocupo... Não gosto de homenagear mortos, prefiro carrear as dificuldades sociais e políticas de celebrar uma vida e uma obra quando a pessoa é [ainda] parte das minhas vivências líteroculturais e historigráficas. Conheço o Mestre Frioli há pouco tempo, tão pouco que em outras circunstâncias nem me atreveria a esboçar este ato cívico. E é por ser um ato cívico – “devemos todos saber qual é o lugar de cada e trabalhar pela sociedade, pelo bem comum”, disse-me o Prof. Dr. Aziz Ab´Sáber, poucas horas antes de levar o seu abraço às pessoas que se reuniram no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, na Sampa, em homenagem a Luis Saia –, um ato pelo bem comum, e assim é que vos ofereço um esboço lítero-social chamado Adolfo Frioli. “Temos que saber teimar, teimar e teimar, para que as coisas sejam feitas para assegurarem o futuro, por isso, precisamos conhecer e reconhecer no passado as raízes do que somos”, disse-me ele quando lhe fui apresentado por Ronaldo Messias e Luciano Regalado, na Fazenda Ipanema. A afirmação, diante de novas evidências da importânca do ´velho´ Affonso


Sardinha na indústria brasileira através do Morro Berasucaba, mostrou-me que na minha frente estava alguém com a mesma dinâmica de vida: vivenciar cada instante. Os trabalhos de pesquisa de Adolfo Frioli, alguns publicados, têm tudo a ver com a grandeza histórica da região sorocabana. O seu olhar perscruta detalhes, fotografa, e não descansa enquanto não achar a identificação correta para o seu ´objeto´ de estudo. A sua vivência sociocultural é um campus que se traduz numa memória sempre pronta para revitalizar o presente com a conexão a um passado que, quase sempre, se faz amanhã. A história sorocabana, logo, brasileira, deve a Frioli momentos de grandeza foto-literária, momentos esses que eu conhecia de alfarrábios da Sampa, mas agora enriquecidos pela presença do Mestre. A inquietação dele diante de projetos e da aferição resultante de novas evidências torna-o repórter sem hora, e mais quando encontra parcerias... as quais honra com ética profissional, para armar ou para chutar o pau da barraca! Os causos sociais e históricos que Adolfo Frioli põe na mesa da investigação fazem brotar outros espaços, como que sorocas a invadir-nos o pensamento, e logo nascem aí outras trilhas, outros olhares. É que a [nossa] história não pode ser um livro fechado, ou um campus de interesses mesquinhos, malandros, mas uma janela aberta para outras odisseias e mais para as novas gerações. Assim entendo e assim celebro Adolfo Frioli.


O Historiador e o Editor no Percurso Ético de

JOÃO BARCELLOS Por

Rosemary O´Connor

Ele é poeta, romancista, conferencista, jornalista-repórter. Ele é o ´cara´ que trata das particularidades das lembranças flutuante e simbólica (a Memória) e da evolução humana entre as vivências das circunstâncias telúrica e cósmica (a História), e assim, ele não poderia deixar de enxergar o conceito mercantil e as tendências do Poder (privado e público) daí resultante. Conheceu, menino e adolescente, o artesanato e a indústria dos ramos têxtil, electroelectrónico e cerâmico; mais tarde, com experiência historiográfica e jornalística entrou os segmentos artesanais e industriais do que ele chama de “imagem foto/gráfica especializada” com ênfase no trabalho de serigrafistas e de impressores da área da sublimação, tanto a convencional têxtil como a digital (a popular ´plotagem´). E não se especializou. Como isso foi, ou é, possível? É que ele detesta ser de uma particularidade, pois, “devermos, sempre, assumir o todo para aí respirar plenamente o exercício profissional em causa própria”, diz. E sempre o conheci assim, sem cerimônias académicas ou institucionais, adepto de todas as utopias que surgem até no meio de exercícios meramente dogmáticos (e, aqui, é tão subtil quanto o seu amigo e mestre Manuel Reis). “O mundo humano e telúrico-cósmico tem que ser observado nos seus meios próprios para se poder correlacioná-los: é um olhar ecológico o que a humanidade precisa exercitar para conquistar bem-estar e entender-se com o Todo existencial pacificamente”, escreveu ele em 1976, em torno das questões levantadas pelas centrais de energia nuclear e os gravíssimos actos bélicos gerados pelas potências politico-militares, e quando Portugal saía da ditadura fascista e o Brasil, também, preparava-se para um percurso democrático. Foi na experiência de menino e adolescente, acompanhando o pai, técnico de alta qualidade industrial, que ele apreendeu a ler o mundo pela soma das circunstâncias e, por elas, chegar às particularidades. Ao escrever sobre diversos assuntos ele vai fundo em cada um deles depois de conhecer os conteúdos gerais correlacionados. A minha falecida sobrinha, Ellen, que com ele trabalhou em vários artigos técnicos sobre objectos serigrafados na área de brindes, registou o seguinte numa carta/e-mail após uma palestra dele na Bienal do Livro, no Rio de Janeiro: “[...] uma bagagem de Cultura geral é tão importante quanto a especialização em determinada disciplina, e a especialização não acompanhada do Conhecimento holístico transforma a Pessoa em objecto descartável no meio consumista, e, às vezes, escrava de si mesma por se entregar conscientemente a tal sistema social, o que costuma acontecer com muita (e preocupante) frequência no meio empresarial, particularmente entre os novos-ricos” [Barcellos, 2007]. Ela, que o conhecia bem, sentia-se sempre fascinada porque em cada nova palestra o ´cara´ superava as expectativas.


Portanto, e antes de mais, ele é especialista em si-mesmo e na humanidade que o cerca. Tudo o resto são possibilidades. Foi assim que agiu para “registar reportagens de conteúdo local, nacional e internacional, a partir de 1972, e escrever palestras que levaram muitas pessoas a confundi-lo com algum professor velhinho e cheio de experiências”, como me confidenciou Johanne Liffey, a sua filha irlandesa. Sempre teve problemas de identificação com académicos, que ele nomeia como “mangas d´alpaca pançudamente empantufados que riem do povo que lhes paga a festa”. Por isso, quando foi convidado, no Brasil, para dirigir repartições públicas de Cultura e de Comunicação Social [de 1992 a 1995], fez questão de utilizar o próprio salário para gerar condições objectivas de trabalho com as comunidades sociais e artísticas. “O seu diferencial no meio intelectual é o de traduzir em ética profissional pensamentos e acções”, como escreveu Ellen. Ao assumir, no Brasil, a editoria técnica do jornal O Serigráfico [1996-2007] e, depois, a da revista Impressão & Cores [2008 em diante], enquanto continuava a assinar artigos afins na revista En Vivo y Arte, do amigo Ruy Hernández, na Espanha, e na Jeroglífo [obs.: o título foi grafado errado para fugir à censura da ditadura militar, na época], da amiga Marta Novaes, na Argentina, ele deu continuidade à sua visão globalmente localizada. Quero dizer: a cada particular (assunto, técnico ou não) que o faz agir, a sua reacção é enquadrar a questão no âmbito geral da acções humanas e, logo, aplicar o seu bisturi filosófico para lhe determinar a causa e dimensionar os efeitos.

As palestras historiográficas, socioculturais e técnicas, mostram o seu labor editorial, e no meio de tanta ´coisa´ ele ainda consegue administrar as colecções Palavras Essenciais e Debates Paralelos, com várias edições cada uma, enquanto resiste às dificuldades financeiras


que tal tipo de acção produz, digo, um intelectual como ele não funciona pelo custo-benefício, mas pela acção em si que gera bem-estar e conhecimentos. A publicação dos livros Comunicação Visual [2008], Estamparia [2010] e Os Bastidores Da Imagem Especializada [2012], exemplificam como a sua atenção humana é global: mesmo ao trabalhar conteúdos particularizados da chamada indústria de imagem foto/gráfica, ele mostra a humanidade no seu todo social e mercantil, e nem deixa aí deixa de ser o poeta, o filósofo, como o conhecemos do livro João Barcellos / Poesia, Ensaio e Novelas [2011], reunião de obras publicada por amigos e amigas na Edicon, no Brasil, para homenageá-lo. No caso dos livros de conteúdo técnico-informativo, ele prova a sua capacidade de realização editorial ao puxar para si a responsabilidade ao incentivo cultural em prol de uma identidade própria à Comunicação Visual. Assim é que ele é o poeta e é o repórter (do hoje do ontem) em tudo o que faz e em tudo o que gera como Pessoa no meio próprio. Rosemary O´Connor

– The Science and Education publisher. Dublin/Ie; Houston/USA, 2012.


Quando o despotismo Iluminado Confronta a Notável Aristocracia da Res Publica Carlos Firmino

Eu sou o ser que pensa e sonha, vivo em mim e com o todo humano. Não esperem de mim um ser que de si se lamenta! Este trecho do poema “Penso e Vivo” [Valparaíso / Chile, 1988], do português J. C. Macedo, é a síntese de tudo o que se relaciona com crise de identidade sociocultural que abala o mundo humano até hoje... E hoje releio num texto do filósofo Manuel Reis, também português, que “A especialização modernaça e a especulação intelectual preciosista, sem a visão holística do Conjunto, levam sempre à hecatombe” [in “Na Rota De Uma Vera Nova Ordem Mundial”, p.29. CEHC & Lar S. Vicente de Paula; Braga, 2012]. Obviamente, comparo aquele poema com a sentença, pois, ambos fermentam o humanismo crítico necessário à interpretação do que somos na circunstância que geramos. O jornalista e escritor João Barcellos disse-me que “quando o despotismo iluminado confronta a notável aristocracia da res publica (a aristocracia verdadeira na ótica dos filósofos gregos, que a defendiam como princípio de solidariedade), são as pessoas boas e capazes que devem sair a campo e defender a natureza humana, nunca calar, nunca omitir” [em telefonema no dia 03.9.2012, após conversa também telefônica com Manuel Reis). O mesmo Barcellos diz publicamente que “o bastão familiar que passa de geração em geração é a mátria essência da humanidade consciente de si, mas parte da humanidade esqueceu a lição dos filósofos gregos e dos celtas e preferiu patriarcalizar a sociedade transformando a aristocracia numa plataforma de elite todo-poderosa, e ainda com a adesão das igrejas judeo-cristãs que beberam esse princípio no culto egípcio do deus-único; esta parte da sociedade prefere o domínio bélico e o poder pelo poder ao conceito de felicidade humana e pluralismo cultural” [in “Família, Empresa Familiar & Sucessão”, palestra, 2012]. Li o opúsculo Na Rota De Uma Vera Nova Ordem Mundial e isso me remeteu, na verdade, para várias visões de mundo, mas principalmente para aquela em que a Justiça, enquanto instrumento da verdade e do saber, deve pautar sua atuação com discernimento social para tocar fundo na alma das pessoas, como queriam aqueles bons gregos ao fundamentar a aristocracia. A análise de Manuel Reis à tese 101 Nights on the Discouse of self-legitimization: The Case of Dusko Tadic, defendida por Miguel Ferreira da Silva, em 2011, na Universidade de Nottingham, prima pela “[...] absoluta continuidade do seu próprio legado filosófico: nunca calar diante das atrocidades que amordaçam a humanidade, e, celebrar sempre a boa ação de


pessoas que ousam discutir o mundo, apesar dos todo-poderosos”, conforme sabemos pela celebração que dele fez o poeta J. C. Macedo. Para o filósofo português, a cartilha das oligarquias político-econômicas e religiosas, do Ocidente, assenta na infalibilidade da voz de mando de quem ocupa/usurpa o trono-poder (o que, convenhamos, também acontece na banda do Oriente e sob a mesma bandeira do antihumanismo). E, mais uma vez, a sua palavra-escrita busca uma fonte idônea para conversar socraticamente sobre a Justiça. Ora, a tese de Miguel Ferreira da Silva trata, pelos tópicos elencados pelo filósofo, do esboço de renovação do Direito Internacional tendo um notório assassino como réu pela gravíssima e aberrante ofensa desferida contra a Humanidade em nome de conceitos meramente belicistas. Era óbvio que as nações poderosas iriam tentar fazer esquecer o caso, até para que aspectos sublimados da política do terror não se revelassem contra elas, pois, “os ditadores sanguinários nunca atuam sozinhos, sempre existem nações que os sustentam logística e militarmente de maneira ´democrática´...”, como costuma dizer o poeta J. C. Macedo. E tentaram interferir, como já haviam feito nos tribunais do pós 2ª GG, para ´blindar´ vozes e documentos, daí as oscilações político-burocráticas que cercaram os juristas no Caso Dusko Tadic carregando apelos no sentido de tirar o réu do ´estatuto´ de terrorista e dar-lhe o ´estatuto´ de criminoso de guerra. Mesmo face aos obstáculos, a turma de magistrados do Tribunal Penal Internacional [TPI] conseguiu demonstrar que os sérvios, em abril de 1992, fizeram ataques em diversas regiões da Bósnia-Hezergovina sob estratégia do Partido Social Democrata Sérvio (SDS) e comando de Dusko Tadic para uma ´limpeza étnica´ completa, ou seja, o massacre de todas as pessoas que não fossem sérvias, incluindo estupro e execuções indiscriminadas. Assim como os EUA o fazem para salvaguardar interesses dos seus terroristas de Estado, também os terroristas sérvios, e Tadic em particular, tentaram negar a legalidade do TPI, mas os seus crimes foram contra a Humanidade e o TPI sentenciou-o a vinte anos de prisão; transferido para a Alemanha em 2000 aquele país achou ´por bem´ conceder-lhe liberdade provisória... Ou seja: as nações-poder conseguiram mais uma vez passar por cima da Justiça e premiar um terrorista que é símbolo do pior que a espécie humana já produziu. Ora, é por isto que a tese de Miguel Ferreira da Silva é lida e analisada pelo filósofo Manuel Reis... O professor buscou no fundo da torpeza de Tadic os elementos essenciais que os magistrados do TPI haviam conseguido interpretar à luz da apelação para mudar de ´estatuto´, e aquelas 101 Nights serviram para mostrar à Humanidade que é possível – ainda é possível – pensar e fazer Justiça para libertar a Humanidade dos perigos que ela mesma gera. E existem dois exemplos recentes de hipocrisia sociopolítica no Brasil: o Caso Collor e o Caso Mensalão. No primeiro, o Partido dos Trabalhadores [PT], liderado por Lula, moveu-se e moveu a opinião pública para isolar e derrotar o Presidente Collor de Mello por desvio de conduta; no segundo, os dirigentes do PT instalados na Presidência pelo ex-sindicalista Lula, eleito Presidente, orquestraram e executaram o maior golpe de corrupção da história da República brasileira, e o PT, secundado por Lula, vieram a público dizer que “tudo é falso, uma invenção”, mas logo nos primeiros dias do julgamento (iniciado em Agosto de 2012) os juízes provaram os atos de corrupção e desvio de dinheiro público para as campanhas eleitorais do PT e a compra dos votos de parlamentares na base da aliança do Governo Lula... e entanto, o então Presidente Lula não foi nem indiciado no processo. O oportunismo e cartilha do Poder pseudo instituído possibilitaram, mais uma vez, que o terrorismo de Estado não fosse investigado a partir da voz de mando! Pode parecer que o caso brasileiro não tem a ver com o caso europeu, mas tem. E muito. Pois, “o Poder instituído sustenta um Estado socialmente terrorista sob as vestes de uma falsa democracia que, na maioria das vezes, faz a Justiça acompanhar a sua vontade política e ainda leva a benção das igrejas economicamente poderosas que circulam com passaportes diplomáticos desses governos”, como descreve, e bem, o jornalista João Barcellos. Tem razão Manuel Reis quando afirma que “[...] ainda não se procedeu à crítica e desconstrução, oficial, da doutrina do Despotismo Iluminado” [p.11], e por isso levantou a questão através da tese de Miguel Ferreira da Silva, até para ter como fonte de inspiração outro português. O poeta J. C. Macedo costuma dizer [os textos originais estão com a filha, a médica Johanne Liffey, em Dublin] que “no Poder está o condomínio das elites socioeconômicas e igrejistas, e na periferia estão os Povos que, mantidos fora de uma Educação construtivamente natural e humanista, sustentam a vida boa dessa malandragem”. O que resta dizer, então? Que


precisamos lutar por uma Nova Ordem Mundial sob os auspícios do Humanismo Crítico contra o Consenso de Washington (a harmonia dos ricos contra os pobres, dos poderosos contra os escravos), precisamos de uma Ordem Mundial com e pela Razão e a Justiça Social. Desde que o despotismo iluminado (de políticos, militares e religiosos) traiu o conceito de solidariedade embasado pelo ideal socrático na aristocracia, da mesma maneira que Saulo/Paulo criou a igreja paulina contra a palavra de Jesus, o mundo do Ocidente vive uma guerra permanente contra si mesmo e contra a Humanidade; e quando a vera aristocracia (a gente boa e capacitada para governar) levanta a voz contra esse despotismo do Poder pseudo instituído, como o fez a Justiça internacional no Caso Dusko Tadic, verifica-se que “É imperioso evitar ilusões e embustes/armadilhas (activa e passivamente)”, como lembra Manuel Reis [ibidem, p.22]. Conclusões sobre tudo isto? Uma: “Preciso viver a vida, não a morte” [do poema citado de J. C. Macedo].

FIRMINO, Carlos Professor e Empresário. Campinas/SP-Brasil, Setembro de 2012 Membro do Centro de Estudos do Humanismo Crítico / CEHC, diretório América Latina, e do grupo de debates Noética. Observações: a) Os poemas e textos antigos (artigos e palestras) do poeta J. C. Macedo foram cedidos por Johanne Liffey a Maria C. Arruda, que deles selecionou alguns (e também de Reis e meus) para o livro PESSOAS & HUMANIDADE [do CEHC-AL e chancela da Edicon, Brasil-2012], e agradeço ao próprio poeta a paciência que teve comigo no esclarecimento de alguns pontos (como o ´igrejismo´ e a ´aristocracia grega´, por ex.); b) A leitura do texto do filósofo Manuel Reis transportou-me para uma investigação que fiz sobre o Caso Dusko Tadic para ajudar num trabalho acadêmico do meu filho Pedro Firmino, hoje juiz.


Centro de Estudos do Humanismo Crítico Portugal & América Latina

Coleções Literárias [Coordenação / João Barcellos] DEBATES DEBATES DEBATES DEBATES DEBATES DEBATES DEBATES DEBATES

PARALELOS PARALELOS PARALELOS PARALELOS PARALELOS PARALELOS PARALELOS PARALELOS

PALAVRAS PALAVRAS PALAVRAS PALAVRAS PALAVRAS PALAVRAS PALAVRAS PALAVRAS

Vol 1 [Temas Gerais], 2002 Vol 2 [Temas Gerais], 2004 Vol 3 [Igreja-Estado ou Religião], 2004 Vol 4 [A Palavra Jesuana, Textos Gnósticos & Outras Opiniões], 2007 Vol 5 [´Q´ Jesuânica / Opiniões], 2009 Vol 6 [Educar Para Viver], 2010 / eBook – noetica.com.br Vol 7 [Oh, Liberdade!], 2011-12 / eBook – noetica.com.br Vol 8 [Viver História], 2012

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Vol 1 [Políticas Educacionais + Cultura de Raiz = Projeto Nacional], 2003 Vol 2 [´Os Lusíadas´ Em Debate], 2004 Vol 3 [Revolução de 32: Coronel Herculano], 2008 Vol 4 [Manuel Reis: O Filósofo / A Crise], 2009 / eBook – noetica.com.br Vol 5 [O Sentido Da Vida], 2010 Vol 6 [Humanismo, Educação & Justiça Histórica], 2011 Vol 7 [Escritos Luso-Afro-Brasileiros], 2011-12 / eBook - noetica.com.br Vol 8 [Res Publica], 2012

Livros A VIDA EM CONSTRUÇÃO (Sobre Lillian & Manuel Reis) – Um conto de J. C. Macedo. 2010 AS NOVAS TECNOLOGIAS E A NOVA ECONOMIA – Manuel Reis. 2001 CAMINHO NOVO (Em Torno De Espinoza) – Manuel Reis. 2009 COMUNICAÇÃO VISUAL – João Barcellos. 2008 COTIA / UMA HISTÓRIA BRASILEIRA – João Barcellos. 2011 DESPAULINIZAR O NOVO TESTAMENTO – Manuel Reis. 2008 DO FABULOSO ARAÇOIABA AO BRASIL INDUSTRIAL – João Barcellos. 2011 EM TORNO DE IVAN ILLICH – Manuel Reis. Impresso e eBook. 2010 ESTAMPARIA – João Barcellos, 2010 FÁBULAS DE FEDRO – M. Branco de Matos. 2009 GENTE DA TERRA – Romance historiográfico luso-brasileiro de João Barcellos. 2008 HONEST TO GODS – JÁ NÃO... HONEST TO HUMANS – AINDA SIM!’ – Manuel Reis. C/ Edições Alpharrabio. 2002 JOÃO BARCELLOS / Contos, Poesia, Novelas – Coletânea. Homenagem de intelectuais. 2010 MITO-HISTÓRIA & ÉPICA – Alfredo Pinheiro Marques e Outros. 2005 NA CRISE ECONÔMICO-FINANCEIRA CONTEMPORÂNEA – Manuel Reis. 2009 NO LIMIAR DA UTOPIA – Romance de J. C. Macedo. 2008 O CELIBATO ECLESIÁSTICO NA LITERATURA PORTUGUESA – M. Branco de Matos, 2009 PARA UMA NOVA IDADE DO OCIDENTE E DA HUMANIDADE – Manuel Reis. 2005 PIABIYU / O caminho ancestral guarani – João Barcellos. 2006 SOB O SIGNO DE EINSTEIN – Licínio Chainho Braga. 2009 SÓCRATES E JESUS: ESSES DESCONHECIDOS...! – Manuel Reis. 2001 TEATRO, ARMA PACÍFICA DA REVOLUÇÃO SOCIAL – Manuel Reis. 2010 TEATRO (c/ Ensaio sobre Gil Vicente) – João Barcellos. 2006 THE RELIGIOUS FACE OF WILLIAM BLAKE – Joane Paisano e Manuel Reis. 2012

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