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MANUEL REIS

CONTRA A CARTILHA (IDEOLÓGICA) TRADICIONAL DO OBJECTIVO-OBJECTUALISMO

Guimarães | Portugal, 2018

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O C.E.H.C.

CONTRA A CARTILHA (IDEOLÓGICA) TRADICIONAL DO OBJECTIVO-OBJECTUALISMO *

N.B.: O Ser//o Ente//o Nada. ‒ Contra o horizonte ptolemaico e bíblico (polarizado em Ex.3,14), onde todo o Universo é suposto criado, a partir de néant (‘to hou-baboou’), a partir do Nada absoluto, objectiva-objectualmente. ‒ Em demanda do novo Horizonte, configurado a partir de Galileus-Galilei, Albert Einstein, Stephen Hawking: Universo e Natureza em Evolução com os Sujeitos Pensantes plenamente integrados no Processo criador. É nessa brecha que aflora, com toda a razão, a diferença entre o Ser e o ente: este é efémero; o Ser tem consistência e perdura! Essa Diferença foi posta em evidência por Martin Heidegger. E acha-se, semanticamente, em acordo pleno com a concepção evolucionária de Charles Darwin.

N.B.: A cartilha do Objectivo-Objectualismo foi configurada, nas bases da Cultura Ocidental, por força das operações habituais e frequentes do pensar, dos objectos do Conhecimento, que, enquanto tal, é forçado a ‘criá-los’. Ora, tanto as Divindades do Mundo uraniano (criadas, por humanos, desde há ca. de 5 milénios e meio), pelas elites ideológico-culturais das tribos/Sociedades) são obra dos Humanos, como todos os outros entes/artefactos foram, por eles igualmente criados/configurados.

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N.B.: A tendência perversa e dominadora do Objectivo-Objectualismo emergiu do próprio modo de operar do pensamento humano: carecemos de um purpose, um propôs, un but, um alvo, um virsaglio!... Logo, a seguir, a nossa 1ª tendência é meter tudo no mesmo rol… a 2ª tendência é obra das elites e dos mandantes. Por isso, eles ensinam aos povos que as Divindades foram e são incriadas: extrínsecas e transcendentes ao Universo, com a finalidade de se poder assegurar a Ordem societária e o Ordenamento dos indivíduos e das organizações. Enquanto não aprendermos a essência/existência do NADA, não seremos capazes de ouvir e compreender os Outros Humanos, nossos próximos e semelhantes, como nos compreendemos a nós mesmos. A 1ª Pulsão instintual é sempre a do nosso Ego/ /Egoísmo/Solipsismo!... *

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● Os três Filões (ou Fontes) da Cultura ideológica) do Ocidente (Cultura/ /Civilização): A) Cultura clássica hebraica; B) Cultura clássica helénica; C) Cultura clássica romana. Estas três constituem-se como tradições estruturadoras do OCIDENTE; e designamo-las como ideológicas, porque elas procedem directamente da Potestas d’abord, que está na base e no vértice de toda a união/associação ou regime societárias. O Iahwehísmo é a fonte hebraica da Divindade e das funções teológicas. O Helenismo é a fonte da pesquisa e da sabedoria e do processo científico do Conhecimento: com duas matrizes: a do Discurso e da Linguagem; e a da Technè/Ciência (Pitágoras, Euclides, etc.). Curiosamente, nenhuma dessas fontes ensinou, expressamente, a Humanidade a recusar e a abolir a escravatura. Se isso veio a ocorrer no séc. XIX, foi graças às revoltas dos escravos e à experiência evolutiva adquirida. Que vem a ser o catecismo do Objectivo-Objectualismo?! É a doutrina ou atmosfera corrente/habitual, a bússola da desorientada e contraditória Cultura do Ocidente, de matriz imperial/imperialista, cuja missão é a de reduzir os sujeitos (responsavelmente) cognoscentes à condição de servos e escravos (animais de rebanho!...); e essa servidão ‒ não esquecer ‒ é de índole idolátrica, perante os Objectos (de adoração…) do mesmo Processo do Conhecimento. Se Deus existe, eu não posso ser Livre (o Deus extrínseco e transcendente ao universo!... Dizia o filósofo francês Jean-Paul Sartre, com sensatez e tino personalizado. Eis por que não podemos misturar e confundir as chamadas (tradicionais) ‘democracias liberais’ do Sistema Capitalista, em confronto com a vera e autêntica Democracia, que funda o regime político do Povo, pelo Povo e para o Povo.

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Os Gnósticos judeo-cristãos primevos tinham a sabedoria de articular, com peso e medida, os Sujeitos e os Objectos do Conhecimento, de tal sorte que, entre os dois, não havia possibilidade de mistura ou confusão. Numa palavra, eles souberam, astutamente, eliminar, à partida, o fosso ou abismo entre a vera Liberdade e o Poder Estabelecido. É por tudo isso que nós, ainda hoje, não sabemos o que é a Liberdade, nas nossas Sociedades. Ao falarmos de ‘livre arbítrio’, pensamos estar a falar de Libertas. É falso e falacioso… e nessa falácia engrenaram quase todos os grandes pensadores da Cristandade e do Ocidente (Paulo, Agostinho, Lutero, Erasmo, Rousseau, Stuart Mill, etc.). Por sua definição e natureza, o Poder (tradicional ou moderno) é objectivo-objectualizado, extrinsecista e mecanicista. A Liberdade, por seu turno, é dynamis criativa, individual e autónoma, autonomizante, quando é respaldada ‒ como deve ‒ pela consciência reflexiva e crítica. O Processo do Conhecimento objectivo funciona como apontando para le but ou cible. Por isso, o conhecimento tradicional, separado dos Sujeitos, tornou-se ipso facto objectivo-objectualista. É esse o processo científico-tradicional. Mas há também o horizonte dos Sujeitos: aí, a mola é o propósito (propos), projecto, o oposto ao but ou cible. Exs.: Nelson Mandela, Anne Frank. Para compreender bem tudo isto, preste-se atenção ao modo como funcionam as democracias liberais e tenha-se em conta a crítica de Edward Snowden (Nobel Prize de 2015, em Oslo). Opostos que não se entendem: A) Indivíduos com a reivindicação da Liberdade de Expressão (Free Speech); B) Poder societário: actua na base da má-fé, da desconfiança e da violência: repressão, opressão, uniformização do múltiplo e da natureza plural dos indivíduos e das coisas. As democracias liberais (só contam com o ‘livre arbítrio) de hoje, habituadas à condição de ‘animais domésticos’, deixam-se cair nas teias do populismo, a tal ponto, que alguns Estados estão em vias de colapso. Ora, o populismo é filho bastardo das formas abastardadas da democracia liberal. E tudo isso é assumido na suposição de que não há outro tipo de regime compatível com o Sistema Capitalista (neoliberalismo capitalista global de hoje, ou ‘Ordoliberalismus’, como os alemães gostam de chamar-lhe). Pois, se não há, que se altere, de vez, o Sistema económico capitalista! Marx e o Marxismo nunca tiveram tantas queixas e protestos para actuarem!... O quadro actual, à escala mundial, é relativamente simples de configurar: Desde há 3 décadas (com a Queda do Muro de Berlim e o Colapso da URSS), a Geringonça Societária pode balizar-se como segue: ‒ Neoliberalismo capitalista global (Capital. Planetário); ‒ presumida distinção entre a Economia política e as políticas públicas dos Estados: o que já é falso, visto que não corresponde à realidade; ‒ suposta e presumida doutrina da democracia liberal representativa, o que está a funcionar em muito mau estado. ‒ O primado absoluto das Finanças, em função das Multinacionais, em franco e aberto detrimento da Economia real dos países. Tudo isto justificado em nome das 4


agências de rating e da ‘dimensão dos movimentos de capitais’. Sempre Finanças d’abord!... O Processo da globalização não pode ser sustentado de outro modo… A não ser que, em nome da Econ. Real se escolha e adopte, em cada Estado, a via da Altermundialização, como já se argumentava há duas décadas!... ‒ Deixou de haver organismos e funcionários suficientes, no Estado Democrático, desde logo na esfera política, porque na esfera económica isso nunca funcionou (a não ser no pleno emprego keinesiano). Os Socialismos que procuraram ser alternativa ao Capitalismo, não constituíram outra variante senão a do ‘Capitalismo monopolista de Estado’!... O que pretende a via do Neoliberalismo capital. global?! Reduzir e assegurar a continuação da organização e do funcionamento das Sociedades humanas à condição incontornável das cabeças de gado de um Grande Rebanho, com uma suposta Liberdade que não passa da lei do pêndulo do ‘livre arbítrio’ de Foucault. E os pastores, pontífices e sacerdotes das Igrejas e das religiões institucionalizadas aprovam tudo isso, porque, de facto as suas prédicas e doutrinas pastorais não são chamadas a proceder a revoluções falhadas!... De resto, não é verdade que, a toda essa gente, só interessa mesmo o paradigma específico do ‘Homo Sapiens tout court’ (onde Liberdade e Poder se configuram em espaços separados e opostos…)?!

● ‘Dinheiro santo’ ‒ terá dito, em conclusão o Papa Francisco, num filme/documentário de investigação sobre as riquezas e o Dinheiro do Vaticano (numa emissão televisiva: na TV2, dia 22 à noite e 23 de tarde, em agosto de 2015. As circunstâncias conhecidas do Público não eram para menos: o Papa Francisco abriu as portas do Vaticano ao escrutínio público!... Mas ninguém vai saber, exactamente, se ele vai ou não ser bem sucedido e se irá ter êxito o processo de inquisição que ele, em boa hora, pôs em marcha!... Ninguém saberá, ao certo, se o processo de ‘lavagem do dinheiro sujo’, que Bergoglio pôs em marcha irá mesmo ser bem sucedido… As máfias da droga e das contas bancárias ocultas do Vaticano são abusées em tais processos… e quem irá saber se, agora e para o futuro, elas irão ser mesmo impedidas de prosseguir nos seus negocios sujos?!... Em boa verdade, o slogan do Papa emerge como um pau de dois bicos: ‘Pecadores, sim’; ‘Corruptos, não’!... Caso singular, para lançar a ‘quaestio’: Será que a Igreja (dita Católica) virou mesmo Protestante à Lutero?!... Não era este mesmo luminar crítico das antigas teologias, que proclamava, bem alto, do seu púlpito: ‘Pecca fortiter, sed crede fortius’!... ‘Se tiveres fé, serás absolvido do teu pecado’!... Como é sabido, a reacção/protesto inicial de Martinho Lutero (e dos protestantismos em geral) começou com a àspera Diatribe da famosa crítica à Venda das ‘Indulgências’, patrocinada (no tempo de Leão X) pelo Vaticano, com o fito de angariar e amontoar bom Dinheiro para a construção, em Roma, da Basílica de S. Pedro. 5


Como são tão diferentes as duas faces dos Humanos: a Interior e a Exterior!... V.g., o Marquês de Pombal (Sebastião José de Carvalho e Melo, ministro plenipotenciário do rei D. José) era detentor de um ‘iluminismo bárbaro’ fulgurante. O seu avanço intelectual era desse teor. A propósito desse tema, escreveu, com sagacidade e astúcia Pedro Mexia (in ‘Exp.’/Rev. 5.9.2015, p.106): “O que em Pombal causa ódio não é o progressismo, mas a barbárie, o cadafalso de Belém, os ‘autos-de-fé’ do Rossio, as pernas e braços partidos à marretada, o desmembramento com a roda, o esquartejamento com cavalos, os condenados em chamas na Trafaria, os Távoras mortos a maços de ferro no peito, o garrote de Malagrida. Uma ideia de progresso à força, de humanismo contra os homens”. Nunca será demais recordar o padrão integral da composição do Psico-Sócio-Ânthropos, a propósito de situações, historicamente ocorridas, semelhantes ou parecidas com o presente: no concernente à Sensibilidade (o que T. Hobbes chamava o ‘Sensorium’), os Seres Humanos bem formados contam com 3/10; no atinente à Racionalidade/Inteligência, a dosagem é a mesma: 3/10; no que tange à Imaginação e ao Imaginário humano, a percentagem eleva-se para 4/10. Bem constituído e integrado, é, segundo estas proporções que funciona, adequadamente, o Aparelho Psico-Gnóseo-Epistemológico humano. Tudo isto, a bem dizer, não tem nada de ideologia propriamente dita. Sabemos que há certas Esquerdas (ou Direitas) ideológicas, que logo afilam os dentes para roer algumas fatias restritas do Imaginário humano (cf. ‘JL’, 19.8 – 1.9.2015, pp.18-20). Normalmente, isso acontece, por falta da boa e adequada metodologia de trabalho. Mas, entretanto, é bom saber que, aqui, como em tudo, há regras a cumprir: banir o diapasão do neutro, nos discursos de palavras e imagens; juntar o documental e o funcional crítico, o real e o imaginário (cf. ibi, p.19). Neste caso concreto, proceder à apreciação do filme com Man. Halpern, por forma a concluir que a realidade é, de facto, tão real como a fantasia, ‒ isso mesmo é ainda recuar para a velha concepção dualista (platónica/paulina) do Psico-Sócio-Ânthropos.

● Por que nos acirramos e combatemos, sem tréguas, essa estúpida ‘heresia’ psico-sócio-antropológica do Objectivo-Objectualismo, que acarreta danos e prejuízos graves, tanto na área das ciências físico-naturais, como, acima de tudo, no hemisfério das ciências psico-sociais e/ou humanas?! Em primeiro lugar, porque essa heresia leva-nos a perder a bússola das proporções/funções das três partes que integram os Seres humanos, qua tais. Em segundo lugar, porque atraiçoam e decompõem a integridade de funcionamento do Psico-Sócio-Ânthropos, reduzindo-o à condição de ‘cabeças de rebanho’… até primatas eles deixaram de ser!... É tudo muito pior que o antigo mito de Narciso!... Numa palavra, ‘desnaturam a Natureza’.

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A obra mais recente de Umberto Eco, ‘Número Zero’ (edição da Gradiva, Lisboa, 2015) entrou, felizmente, na procissão da clara denúncia crítica do que o C.E.H.C. chama o Objectivo-Objectualismo. O Jornalismo corrente (a sua maior parte, afectada com as bactérias do populismo) é, enquanto se assume como a ‘voz do Dono’, muitas vezes, uma trágica ‘machina del fango’ (a máquina da lama…). Muito raramente se pratica a boa e adequada informação, acompanhada de uma crítica objectiva; e muito menos vezes, é o próprio jornalista que até sabe distinguir, epistemicamente, o objectivo e o subjectivo. A jornalista italiana Luciana Leiderfarb entrevistou Umberto Eco, e escreveu uma parte do texto sobre o novo romance do semiólogo e romancista italiano: ‘Número Zero’, justamente em torno das práticas habituais do jornalismo contemporâneo. A estrutura do Livro resumiu-a, ela, como segue (em Janeiro, com o Autor numa Biblioteca abrindo o livro): “Um jornal que não chega às bancas, uma redacção fantasma, uma conspiração em curso. A perda da inocência do jornalismo a bandeiras despregadas. É a U.E. a mostrar que ultrapassar os limites é mais fácil do que se pensa” (vd. ‘Exp.’-Rev., 23.5.2015, pp.63-64). Uma boa e sugestiva trama para um Romance histórico digno do nome!... Ora, o que aí se verbera e combate, globalmente, é essa cultura tão frequente e bastarda do Objectivo-Objectualismo (ainda vigente e imperante, no Mundo de hoje, no seio de uma cultura que se diz e quer criticista, a qual, na sua hybris, torna os limites sócio-culturais fáceis de transpor!... Se, afinal, há sempre o Nada, tudo tem os seus limites. ‘O jornalismo é o que é e o seu oposto. É tudo menos inocente’ (L. Leiderfarb). Sobre o Livro, refere Umberto Eco (ibi, p.64): “Não é por acaso que o Livro se situa em 1992. Foi um ano trespassado pela sensação de que as Coisas estavam a mudar…”. O Autor prova que ‘não são as notícias que fazem o jornal, mas o jornal que faz as notícias’. A Tese central do Livro de U.E. é clara e categórica: ‘É uma utopia dizer que num jornal se podem distinguir completamente os factos das opiniões. O jornalismo faz as pessoas acreditarem que ele próprio diz a verdade [é sua missão…]; mas essa verdade é uma interpretação’. Até quando há-de a Sociedade actuar continuamente subjugada pelas tentações do Apocalipse?!... O ‘rebanho humano’, sempre conduzido e orientado por pastores constitui uma massa amorfa de zombies aculturados ideologicamente segundo a cartilha dos ‘mortos-vivos’ dos Poderes Estabelecidos (cf. ibi, p.68).

● Geopolítica//Análises globais (e em profundidade): Que Futuro para a Europa no Mundo?! (Cf. George Friedman: ‘A paz não explodiu, mas está a caminho’. Entrevista por Cristina Peres in ‘Exp.’/Rev., de 6.6.2015, pp.55-60). Haverá verdade na His7


tória?!... ‒ Se Indivíduos-Pessoas pensarem e agirem, segundo a gramática da Honestidade. Entretanto, há sempre algo pressuposto ou implicado na extensiva Arte do Romance, uma vez que a Imaginação humana também se exerce e actua nos vastos campos da História (cf. ‘Le M.D.’, Julho de 2015, pp.14-15).

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‘GOD ON TRIAL’ (DVD)

● [Boston Video//Nov. 2013. Masterpiece. As seen on Public Television. Versão original de 2008: ‘… a gripping exploration of faith and reason… Remarkable’. Op. de Time Out (London)]. O Humano Problema de Deus é o reverso da medalha que ostenta, na fronte, o problema do Outro, assumido como o incontornável cume da Montanha!... Mas falta, ainda, fazer toda a necessária e adequada legitimação filosófica do Processo teológico. Os depoimentos são considerados e formulados, num Processo de condenação à morte, à boa semelhança do que se passa num Tribunal. Entre prisioneiros num campo de concentração nazi, aguardando a chamada ‒ identificados por números ‒ para seguirem para os ‘campos da morte’ nazis. Há, aí, desde crentes judeus, que seguem a Tôrah, até descrentes e agnósticos. As perguntas/questões ad hominem são enunciadas comummente, por todos, independentemente do grau de educação e de estudo. Há também ciganos e cristãos e de outras fés monoteístas… Pratica-se o Princípio (inabalável…) do Contraditório, como convém em qualquer Processo ocorrido em Tribunal, com vista a poder obter a sua conclusão, num procedimento sério e rigoroso. Há os testemunhos em defesa, e os depoimentos de acusação. Conduzidos, embora, de modo informal, as formulações e os testemunhos são sérios e rigorosos. ‒ Atmosfera do Discurso, na Situação concreta: verismo/realismo: surrealismo. Tudo a rondar o grau do sublime patético/trágico!...

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De quem se trata?!... De Iahwéh/Deus de Israel: do Deus (assim chamado e pressuposto) transcendente e extrínseco ao Universo (criado) das religiões monoteístas. Como tudo se passa no universo da Linguagem e do Discurso (humanos), Deus é tratado, no Julgamento, como acontece aos indivíduos-pessoas humanos. De resto, a suposta ‘outra’ Divindade fora do Discurso linguístico humano, não existe, visto que não oferece intenção para o Discurso, na Linguagem própria dos Humanos. ‒ Molde do Julgamento: Foi arquitectado um Tribunal para levar a efeito o Julgamento de Deus, com um colectivo de Juízes e explorando as duas partes opostas do Contraditório: Acusação e Defesa!... O Chefe do Tribunal é um Rabino jurisconsulto, plenamente conhecedor da Tôrah. Foi alegado que o sofrimento e a tribulação fazem parte do plano de Deus… Foi dito, igualmente, que, assim, Deus não passava de um reles sacana. Foi argumentado que, nesta situação presente, tal como no Tribunal do rei David, Deus não havia cumprido o seu Pacto com o (seu) Povo. Em suma, a Divindade, ora é inventada e invocada pelos súbditos da Ordem Estabelecida, que se encontram em graves problemas, ora é inventado e invocado pelos mandantes e pelos detentores dos Poderes Estabelecidos. ‒ Ambiente: à espera do Holocausto (Shôah). É estruturalmente alegado que o sacrifício da própria vida individual faz parte do ‘plano de Deus’. Os prisioneiros, uma vez chacinados, seriam mártires. ‒ Avaliação metodológica/epistémica: ● Deus é Agente/Actor, que estabeleceu Pacto com o (seu) Povo: um Pacto com Alguém. Por isso, a Notio Dei importa na Política!... Invocou-se o Ps.81,6. ● Fala-se do ‘free will’ com frequência… e assume-se isso como escolha. Ora, o ‘free will’ não passa da lei do pêndulo de Foucault… é pura ficção no quadro de um ‘Rebanho’!... Um ‘scarecrow’ para afugentar os pássaros das searas. ● O ‘Bode expiatório’ também tem lugar no Discurso da humana Linguagem. Como, igualmente, a inversão possível do súbdito em Juiz!... ● Deus faz o bem a partir dos males humanos e cósmicos… Entretanto, na Ética, vigora ainda o imperativo categórico: ‘Non facienda mala ut eveniant bona’! ● É melhor morrer do que viver escravizado. ● Também é aí aflorada a antiga noção de ‘Deus mit uns’, que tanto corresponde ao ‘Deus sive Natura’ de Baruch de Espinosa como ao ‘intimior intimo meo’ de Aurélio Agostinho. ● Deus faz o bem a partir dos males humanos e cósmicos. Entretanto, na Ética, vigora ainda o imperativo categórico: ‘Non facienda mala ut eveniant bona’! ● É melhor morrer do que viver escravizado. ● Também é aí aflorada a antiga noção de ‘Deus mit uns’, que tanto corresponde ao ‘Deus sive Natura’ de Baruch de Espinosa como ao ‘intimior intimo meo’ de Aurélio Agostinho. A Humanidade que se erga… e escolha, com sensatez, e dignidade, a sua Divindade! 9


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PÓS-MODERNIDADE: Expressões e Resistências

N.B.: O filósofo Miguel Baptista Pereira (no seu livro ‘Modernidade e Tempo’, ed. Livraria Minerva, Coimbra, 1990, p.6) estabeleceu, oficialmente, a data da aurora do Moderno e da Modernidade, tendo necessariamente em conta as características essenciais, que balizaram e definiram a Modernidade, ‒ um modo de ser e estar e transformar o Mundo, que fez da Cultura Ocidental a protagonista das sucessivas civilizações, que se foram impondo, historicamente, à escala do Mundo. Escreveu ele aí: “A irrupção da consciência deste salto histórico de Trezentos anos, mas de consequências então imprevisíveis, foi já assinalada no séc. XVII, na conhecida polémica ‘Querelle des Anciens et des Modernes’, acendida em 1687, numa sessão da Academia Francesa e que se prolongou por mais de vinte anos”. Aos modos e escolas dos Antigos (e medievais…) estava a desenhar-se e a configurar um Tempo Novo: ‒ a emancipação das consciências humanas; ‒ a acção/actuação sobre a Natureza; ‒ a ideia primacial de Progresso, que acarretava consigo um novo modo de ser e estar no Mundo. Os ‘Tempos Modernos’ (a expressão é de Romano Guardini) caracterizaram-se como tais (em ruptura com o Passado), em vários patamares: ‒ advento da secularização da vida; ‒ desenvolvimento da crítica; ‒ a ideia forte de Progresso; ‒ o fenómeno da Revolução; a noção de Emancipação dos humanos, acompanhada das noções de Evolução e de Desenvolvimento. Mas, a todo este patamar, presumidamente positivo, emergiu, simultaneamente no horizonte cultural, a ideia e o ambiente de um Pensamento Fragmentado, não obstante, sempre em busca do Holístico: conflitos entre a Metafísica e a Razão Moderna; ou autonomia ou nada…; o Trágico que voltou com mais violência; a Relação d’abord na existência dos Indivíduos; a freudiana (psicanalítica) descentração do Sujeito na Evolução cósmica e nos campos da Psicanálise. 10


Podem, assim, lobrigar-se três eixos principais: a) a emergência de uma consciência humana dotada de capacidade crítica; b) postergamento e esquecimento da finitude; c) o sentido holístico da totalidade, que trouxe consigo a noção (cultivada pelas ciências) de um Mundo fragmentado. Na contracapa do livro, o A. deixou a sua marca: “A intenção deste novo livro é tornar compreensível a ruptura inaugural da Modernidade, através da meditação daqueles textos, que, à maneira de grandes pedras, nos permitiu construir o edifício da interpretação dos Tempos Novos. Por outro lado, da Modernidade, como experiência típica do tempo, desprendem-se grandes categorias, que são as nervuras da escrita, em que os Tempos Modernos vasaram a compreensão de si mesmos, e cuja leitura possibilita uma consciência mais nítida da génese do homem contemporâneo. Finalmente, a novidade e a ruptura modernas, agora mais nítidas dentro desse magno quadro categorial, sofrem de fragmentações latentes, sob a hipérbole da totalização e do olvido da finitude, onde, contudo, se pressente a urgência de uma atitude diferente perante o mundo, nascida da crise da Modernidade ‒ o pensamento holístico. A convergência destas três partes do livro joga-se na interrogação crítica da Modernidade e na consciência serena e reflectida dos seus limites”. (O sublinhado é meu). ‒ Quando começa a chamada Pós-Modernidade?! (Hoje, é expressão ou categoria tão vulgar que, não só entrou na gíria linguística, como se está perdendo o seu vero e próprio conteúdo semântico.). Para os seus inícios, em termos temporais, podemos fixar-nos, historicamente, nas duas datas coligadas: ‒ 9.XI. 1989: Queda do Muro de Berlin; ‒ inícios de Agosto de 1991: Colapso da U.R.S.S.. O fracasso absoluto e redondo do chamado ‘Socialismo convencional’ constituiu a pedra tumular dos enganos e mentiras de todas as Revoluções ditas modernas (que de Marx e Engels muito pouco haviam recebido!...). Já em 1962, John Kenneth Galbraith, no seu Livro ‘O Novo Estado Industrial’, chamava a atenção crítica para essa medonha falsidade: O Socialismo Soviético não passa do reverso da medalha do Sistema Capitalista; o seu vero nome é ‘Capitalismo monopolista de Estado’. Em termos psico-sociológicos/societários, dir-se-ia que estamos a pagar, na chamada Pós-Modernidade, os erros e os enganos cometidos na Idade Moderna. Como nunca se pusera, fundamentalmente, em causa a Questão do Poder-Dominação d’abord, ‒ tudo, em política, foi engendrado e construído sob a cartilha suprema do ideológico e das Ideologias. As ciências políticas foram sempre vesgas e zarolhas a esta problemática, com a excepção feliz de Max Weber (o da obra póstuma). É inquestionável que a órbita da Modernidade Ocidental está pejada de contradições flagrantes: realidades e soluções positivas e realidades e soluções negativas. Por isso mesmo, o C.E.H.C., ao referenciar o tema, procura, de algum modo, dar solução às realidades negativas do Moderno e da Modernidade, utilizando, no caso em apreço, a expressão adequada: Pós-Modernidade positiva e crítica!... Por que falamos assim? A) Porque as promessas e as esperanças da Modernidade foram larga e profundamente atraiçoadas; B) Porque a terminologia da Pós-Modernidade não é, via de regra, usada para corrigir os erros e as degenerescências do 11


Moderno, mas, pior ainda, para os aumentar e inflacionar. Por isso, são tristes e soturnos os dias que vão passando!... O que, por aí, vemos como expressões ou resistências da Pós-Modernidade, não conhece o B.I. da Pós-Modernidade, em contraste e ruptura com a pior Modernidade. É a via do facilitismo, são as quadrículas políticas dos populismos, ‒ é tudo isso que impera. Os veros problemas da Sociedade e dos Humanos são completamente escamoteados!... São hoje aos milhares, procedentes da corrente conduta das pessoas, as variações mais estúpidas e insensatas nos modos de pensar, que já, desde há muito, perderam o sentido da Norma e do próprio funcionamento (correcto e adequado) das Instituições sociais. Criou-se, assim, uma sorte de atmosfera ideológica, onde a perfeição já não é exigível e cada um procede como muito bem lhe apraz!... Apenas três exemplos dessa ‘ordem’ de tendências ‘fora de eixo’ ou malsinadas: ‒ Elena Ferrante: ‘A Amiga Genial (ed. da Relógio d’Água, Porto, 2015). Uma Autora italiana, ainda jovem, pouco conhecida, e que hoje está conhecendo uma aceitação e notoriedade internacionais, semelhantes ao Norueguês Knausgaard. Conhecia-se dela pouco mais que um volume de ensaios, ‘Frantumaglia’ (2003). Deu-se a conhecer na Revista ‘Paris Review’ (na sua última edição: informação de Pedro Mexia, in Rev. do ‘Expresso’, 13.6.2015, p.106). Na sua obra, tudo se pode centrar e resumir nesta Ideia/Projecto: o Autor real não importa para nada… a sua ‘autenticidade’ não interessa para nada. O que deve importar, deveras, é o efeito que a ‘personagem’ central do Livro destila e impõe aos seus leitores… Que lectio a extrair? opção/submissão completa à cartilha do Objectivo-Objectualismo, imperante nas Sociedades actuais. ‒ 2º exemplo: Nas suas costumadas meditações (escritas para a Rev. do ‘Expresso’: vd. ibi, p.90), o Pe e Prof. José Tolentino de Mendonça chega à conclusão de que somos analfabetos do silêncio. E argumenta como segue: ‘Além da palavra, precisamos do auxílio de outra ciência, à qual recorremos pouco: o Silêncio’. Em resumo, o seu enquadramento não passa disto. Na Sociedade da Comunicação, há um Défice de Escuta …). Ora, a Arte da Escuta pode ser também um Exercício de Resistência!... Se a operação não é assumida como um simples acto de cinismo ‒ acrescentamos nós!... 3º exemplo. Duas obras portuguesas (um desenho e uma pintura de S. Francisco), emprestadas a uma Exposição em Madrid (no museu do Prado), em torno da obra quinhentista de Rogier van der Weyden (escultor da Pintura flamenga). (O curador da Exposição: Lorne Campbell, historiador de Arte e investigador na National Gallery de Londres, desde 1996): (cf. ibi, pp.63-65). Aí se fala e acentuam as semelhanças de concepção e traço pictórico entre o santo franciscano da Oficina de Nuno Gonçalves, o qual (santo) segura um crucifixo, cujo crucificado é muito semelhante ao Cristo da Grande Crucifixão do pintor flamengo Rogier van der Weyden (que é o pólo central da Exposição do Prado). Ora, são sobejamente conhecidos os parâmetros inovadores e reformistas (na ideologia oficial ocidental do Medievo, em demanda da Transição para um Mundo humanizado). O próprio ideário do Franciscanismo (enquanto corrente doutrinal e mís12


tica), no séc. XII, nasceu mesmo desse Impulso Reformista, contra uma Igreja estruturalmente anquilosada, hierárquico-monárquica, elitizada e sobranceira face ao Povo!... Uma Revolução em dois actos: o 1º acto ocorrido, a partir do séc. IX, com a Reforma de Carlos Magno (o fundador da Europa); o 2º acto, a partir do séc. XI, com a reforma gregoriana, no concernente ao Canto litúrgico (onde pontificou Guido d’Arezzo) encabeçada pelo papa Gregório VII (Hildebrando).

● Parcialismo… ‘Dividir o todo nas suas partes integrantes’!... Foi, em resumo, toda esta perversa e daninha Metodologia ideológico-científica que a Cultura Ocidental aprendeu e recuperou a partir das Lições de René Descartes (1596-1650); muito especialmente a partir da sua obra mais célebre e conhecida: ‘O Discurso do Método’. Em contraste, v.g., com o outro fundador da Modernidade, Francis Bacon (1561-1626), tudo bem sopesado e medido, Descartes é, sem dúvida, o rufião astuto e perverso… ele e o seu umbigo!... Francis Bacon, em toda a obra que produziu, não só teve em conta a Colectividade humana, como também porfiou em remoçá-la e renová-la sempre in melius! A Filosofia cartesiana ‒ é bom sabê-lo ‒, com o seu mecanicismo essencial e operativo e o seu Dualismo platónico (dum lado: a ‘res cogitans’; do outro, a ‘res extensa’), não só refundou a legitimidade incontornável das religiões institucionalizadas, como, igualmente, desprezou e desnaturou a vera e autêntica natureza humana. Foram as suas balizas metodológicas e as suas orientações hermenêuticas, que mais ruínas fizeram em toda a Modernidade Ocidental. Desafiamos, aqui mesmo, quem tiver a ousadia de nos contrariar!...

● Todos os exemplos carreados, bem como as reflexões críticas esboçadas sobre os pródromos da Modernidade Ocidental, ‒ tudo nos está indiciando que, apesar de tudo, todo um Universo humano está a emergir, nos tempos que o C.E.H.C. tem designado, legitimamente, como Pós-Modernidade positiva e crítica. O que agora precisamos é de coerência mental e de coesão sócio-vital. O que, de facto, está emergindo (sem que a maior parte dos intelectuais e dos nossos políticos se dêem conta) é todo um Movimento em busca do ‘Homo Sapiens// //Sapiens’, duplamente sabedor (como é o seu padrão: o ‘Homem de Cro-Magnon’). O paradigma do ‘Homo Sapiens tout court’ (que precedeu o anterior) desapareceu completamente, com a Evolução darwiniana a fazer o seu trabalho!... Como é sabido, o ‘Sapiens//Sapiens’ está centrado numa Individualidade/Identidade irrepetível e autónoma, de cada Indivíduo-Pessoa e sua Consciência reflexiva e crítica. O ‘Sapiens tout court’ está polarizado no axioma da ‘Law & Order’, na Cultura do Poder-Dominação d’a-

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bord. Para este, não há Liberdade, há só a lei do pêndulo do ‘livre arbítrio’. Aqui, o Poder/ /Autoridade está dum lado; a Liberdade está do outro lado. Ora, para nos podermos entender bem, o que o C.E.H.C. pretende é recuperar (justamente na órbita do ‘Homo Sapiens//Sapiens’) o Movimento dos Gnósticos judeo-cristãos primevos, aos quais pertenceram, entre outros, Sócrates e Jesus, Madalena e Maria, Tiago (‘the brother of Jesus’; que foi bispo de Jerusalém e aí sofreu o seu martírio), João Baptista. E todos os veros autores dos Evangelhos Gnósticos (descobertos na estação arqueológica de Nag Hammadí (1945). É claro que incluímos nesse Grupo João, o evangelista, um dos 3 autores do 4º evangelho canónico (que só no séc. IV foi admitido no rol dos canónicos, visto que até então esteve na lista dos ‘evangelhos gnósticos ou apócrifos’). Tanto o Grupo dos Essénios, cujas obras foram descobertas em Qumran (1947), como o Grupo de Nag Hammadí fizeram, ambos, certamente, estudos na ‘Universidade’ de Alexandria (fundada por Alexandre Magno, no séc. IV a.e.c., como local privilegiado, onde os 72 sábios procederam à tradução da Bíblia do Hebraico para o Grego). O princípio original da Axiomática dos Gnósticos judeo-cristãos primevos (de ordem filosófico-teológica) consistia, substantivamente, no seguinte: ‘O que está em baixo (na Terra dos Humanos) é igual (simetricamente falando) ao que está em cima (céu), para que se cumpra o princípio da Unidade triádica’. Como é óbvio, o que aflora, aqui, é o sacrossanto princípio fontal da Consciência, ínsita em cada Humano qua Indivíduo-Pessoa! O adágio, atribuído ao Apóstolo Tomé: ‘Ver para crer’, que se difundiu, nas Cristandades, dapertutto, é bem o eco/reflexo sintomático de toda esta filosofia teológica. Essa tríade, a que se referem os Gnósticos, constitui a trempe da Concepção psico-sócio-antropológica, que eles aprenderam com Jesus (‘o nazareu’) e, depois, ensinaram a quem estivesse disposto a ouvi-los: Efectivamente, os Seres humanos acham-se constituídos por três patamares de Realidade distintos: Sensibilidade (3/10); Racionalidade/Inteligência (3/10); Imaginário/Imaginação (4/10). Três patamares ou categorias da Realidade, ordenados e organizados numa espécie de Mónada viva, que é o Indivíduo-Pessoa, enquanto auto- e hétero-reconhecido como Pessoa (dotada de Liberdade Responsável e de capacidade crítica para agir/actuar). Saulo/Paulo (o Chefe d’Orquestra de ca. de ¾ do N.T.) e todos os Cristianismos ou Cristandades tradicionais subverteram e abastardaram toda esta insólita gramática (de funcionamento antropológico) socrática e jesuânica e aristotélica (não-platónica e, muito menos, farisaica/rabínica). Ao contrário dessa Via ou Caminho (como disse Lucas, nos ‘Actos dos Apóstolos’), eles instauraram os Cristianismos segundo os catecismos (conhecidos) do Objectivo-Objectualismo, do Dualismo metafísico-ontológico de Platão e de Paulo. E é dividida/esquizofrenada por esse Dualismo, que a triste e patológica Humanidade tem sobrevivido, ao longo de mais de dois milénios!... ‘À tout on s’habitue’!... Como diz o Poeta, nas suas Lamentações, encostado ao ‘Muro (hebraico) das Lamentações. 14


Em tal horizonte, a Mitologia (paulina e cristã) pôs-se a jogar no trapézio: os produtos da Mens Humana foram tomados e assumidos como Objectos, segundo categorias bem hierarquizados. O próprio ‘Sacrifício Redentor’ do Jesus histórico (de Paulo e do N.T.) foi absolutamente divinizado; e, de acordo com a tríade humana (Sensorium, Racionalidade e Imaginação) foram cozinhadas e plasmadas as três Pessoas divinas (Hipóstases, como dirá o Grego), numa só substância: Deus Uno e Trino! Para não se perder, perante o Povo, a noção da Unidade da Divindade. Por tudo isso, se tem encarniçado os teólogos cristãos (não os hebreus nem os islâmicos…) com a destrinça entre as duas noções: unidade (de Deus) e unicidade (de Deus). ‒ Não esquecer que tudo isto é pensado e magicado, ideologicamente, dentro da cartilha oficial societária, incontornável, da ‘Law & Order’!... Que lhe serve de pressuposto e trampolim. E é por essa mesma estrada, que não leva a nenhures, que se leva o Processo histórico ao entupimento, num ciclo perpétuo do Eterno Retorno nietzscheano!... Sonhando, apenas, com apocalipses… quando as coisas vão de mal a pior. Votou-se ao ostracismo a corajosa e iniciática Mensagem do Sócrates ateniense: a formação dos conceitos e a actividade do pensar, na comunidade livre, onde todos se podem sentir em-pé-de-igualdade; e a Vida em Diálogo, enquanto Regra clássica de organização, tanto no plano dos Conhecimentos como no plano das Sociedades humanas, segundo a gramática do ‘Sapiens//Sapiens’. Nem, por outro lado, se deu conta da vera e autêntica Mensagem de Jesus, polarizada nas exigências do Justo e da Justiça e na Praxis do Amor. Estes dois homens, que se deixaram coroar com as auréolas do Suicídio (passivo e virtuoso) ‒ para quem ainda não saiba ‒ constituem o ‘non plus ultra’ da crítica e do ataque à sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord. De nosso conhecimento, o primeiro Autor a tomar e a assumir a morte crucificada de Jesus como um suicídio foi o poeta e estudioso de leis (em Cambridge), John Donne (1572?-1631); que não tomou ‘ordens maiores’ nem precisou de renegar a sua fé católica ao longo da vida. A surpresa, aqui, não existe… foi suplantada pela coerência mental. Nesta perspectiva, o caso de Jesus é análogo ao de Sócrates. De resto, não é outro o caminho hermenêutico, se quisermos e entendermos destroçar, de vez, as doutrinas teológicas embarcadas no tesário paulino das cristandades, reunidas no pólo central do Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo; tesário que se fundamenta no estatuto bio-psico-sócio-antropológico do ‘Homo Sapiens tout court’ e rejeita, liminarmente, o paradigma da Espécie Humana do ‘Homo Sapiens//Sapiens’. O problema central reside em recusar e esconjurar a tradicional ‘teoria do Rebanho humano’, ou, então, admiti-lo e subscrevê-lo!... Assim, os suicídios de Sócrates e de Jesus são chamados de virtuosos, uma vez que foram realizados como justificação ou sanção de uma Mensagem justa. Na 1ª saga dos filmes do ‘Jurassic Park’, em 1993, haviam passado dois anos após o colapso da U.R.S.S. e quatro sobre a Queda do ‘Muro de Berlin’, com a suposta (imaginada!...) consequência de podermos assistir à feliz unificação do anterior ‘Mundo da Guerra Fria’. Não se deu tal coincidência, contrariando as nossas esperanças. Na 2ª 15


saga, em 2015, as motivações e as bandeiras das artes cinematográficas norte-americanas e do Imperialismo universal não procederam a grandes alterações: os temas do Medo e do Terror prosseguem a toda a brida, a começar pelas justificações das guerras, supostamente defensivas, oriundas de outros mundos… mas sempre na base arqueológica de elementos colhidos e recompostos em outras eras geológicas anteriores. Até as Liturgias religiosas (católicas, em especial) já ganharam o gosto de nos falarem dos ‘santos do Mundo’, com o intuito de se referirem aos pobres e carenciados de tudo, aos ‘sem tecto’, v.g.. Sinais dos Tempos?!... E, actualmente, esse tristíssimo ‘espectáculo’ dos refugiados/migrantes!... Não será altura de mudar mesmo esse crapuloso e perverso Sistema Capitalista?!... De que estamos à espera?!... ‒ Como, entretanto, a rotina produz mais inércia do que a Inteligência dos Humanos e sentimo-nos enclausurados na sempiterna Cultura da Potestas-Dominação d’abord, o que vemos prosseguindo é a Dogmática incontornável da Divisão (metodológica) dos Poderes à Montesquieu, ‒ o que, sendo aparentemente um bom achado em dadas circunstâncias, não se pode esquecer que tudo isso tem a sua base na Potestas d’abord e no Dualismo metafísico-antológico de Platão e Paulo. Porque é que as próprias reivindicações litúrgicas redundaram num mostrengo, numa falácia monumental?!... A sua hipocrisia é estigmatizada pela Praxis habitual do Objectivo-Objectualismo (que temos vindo a combater). Não bastam as ‘boas intenções’… Delas está o Inferno cheio, ‒ como diz o Povo. Até a simples contagem do tempo (físico-universal), segundo o calendário gregoriano produz efeitos negativos, contra o universo mental do C.E.H.C.:

---------- Xtus --------│ o a dividir a História e o Tempo!... N.B.: Esta mundividência ideológica conduziu e confirmou (sem apelo nem agravo) à conhecida Weltanschauung da História e do Mundo: o esquema cíclico do ‘eterno retorno’ nietzscheano. Tudo aí está consagrado e selado: o Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo; a sempiterna cultura do Poder-Dominação d’abord!... ● Eis por que “Os que não conseguem lembrar o Passado estão condenados a ter de o repetir” (George Santayana/1905). ● “Que os homens não aprendem muito com as lições da História é a mais importante de todas as lições que a História tem para ensinar”. (Aldous Huxley/1959).

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FORMAÇÃO INICIAL DOS IMPÉRIOS

N.B.: Nações e Impérios constituem-se como realidades societárias diferentes: quer à escala geográfica, quer à escala psico-sócio-humana. Nas primeiras é a qualidade cívica e humana que imper. Nos segundos, é a quantidade multitudinária e o tamanho geográfico que detêm o primado. Em termos históricos e políticos, foram os Impérios que assomaram antes; as nações (Estados/Nações) vieram depois. Se quisermos estabelecer datas, o Projecto e o Estatuto dos Estados/Nações só vieram a emergir e a tomar forma e estatuto, na Modernidade Ocidental, mediante o bem conhecido Tratado de Westefália (1648), que pôs termo à tristemente famosa ‘guerra dos 30 anos’ (também conhecida por ‘guerra das religiões do Ocidente’) (que envolveu as principais Nações da Europa). ‒ Impérios na Antiguidade: N.B.: Uma advertência prolegoménica: A forma geo-humana dos Impérios faz a sua aurora, a partir de 3 milénios e meio a.e.c., com as simultâneas emergências dos regimes do Patriarcado e da ‘criação dos Deuses uraneanos’. A História nada regista sobre Impérios na era da GILANIA: 7.500-3.500 a.e.c.. O que é, igualmente, sintomatico, do ponto de vista psico-sócio-antropológico. Egipto (com as 4 dinastias dos Faraós). Assíria. Babilónia. Império de Alexandre Magno. Império Romano. ‒ Impérios na Idade Média: Império de Carlos Magno. Império Otomano. Império dos Habsburgos. Sacro Romano Império. ‒ Impérios na Idade Moderna: são aqui de salientar os diferentes Impérios, resultantes do Processo sócio-histórico dos Descobrimentos transoceânicos, ‒ o maior dos 17


quais a assinalar é, sem dúvida, o Inglês, que deu origem ao Commonwealth (16491953) (o mais extenso e duradouro, entre todos os modernos impérios coloniais: teve o seu início, com o objectivo de substituir a monarquia britânica, após a execução de Carlos I). Outros países, colonialistas, tiveram, igualmente, na Idade Moderna ocidental, os seus Impérios. Designadamente, Portugal e Espanha, a Holanda, a França, a Alemanha, a Itália. Auscultando criticamente a problemática contrastiva entre a Nação e o Império, seria normal e fácil concluir que, durante o funcionamento dos Impérios, vigorava, por definição, o paradigma do ‘Homo Sapiens tout court’; ao passo que, na vigência dessa realidade societária nova, que são as Nações (autónomas independentes), o que deveria funcionar era o outro paradigma conhecido da Espécie humana: o ‘Homo Sapiens//Sapiens’!... Houve, sem dúvida, algumas alterações psico-societárias e antropológicas, na Modernidade ocidental. Mas não foram o suficiente para mudar a latente Cultura substantiva da Potestas d’abord, ao ponto de estabelecerem a destrinça clara entre a Autoridade/Poder e a Liberdade (não misturada e confundida com o ‘livre arbítrio’. A prova especial do que estamos afirmando pode consistir, muito simplesmente, na Idade Moderna, mediante as sucessivas tentações do Colonialismo, em que vieram a cair a maior parte das Nações (grandes ou pequenas, mais velhas ou mais novas)). Desta sorte, o núcleo normativo das situações sócio-políticas manteve-se, quase inalterável. Não falamos já do chamado ‘Quinto Império’ de A. Vieira (que teve outra ressonância significativa). Mas levantemos os olhos (mesmo depois das Revoluções políticas…), para o Império Britânico, o Império Francês; e o Império comunista soviético (que se enganou como C. Colombo na América/Caraíbas, a pensar que tinha aportado na Índia!... O que os soviéticos puseram de pé não foi o Projecto do Socialismo desejado, mas tão só o capitalismo monopolista de Estado, a outra face do Sistema Capitalista). Que restou, então, dos moldes imperiais? Um único Império, que são os USA!... + as Multi-transnacionais, que funcionam como ‘impérios de substituição’!... Com a agravante: o vero Poder das Multinacionais consiste no Dinheiro (do qual dizia, muito bem, K. Marx) que é um puro valor de troca e nisso mesmo se esgota, mesmo quando é transfigurado em Poder financeiro. Mas há implicações em todo este Processus evolutivo: Os Seres humanos, qua tais, e as próprias classes sociais (tão bem diagnosticadas nos escritos de Marx e dos veros marxistas) sumiram-se, perante as novas modas do Neoliberalismo capitalista global. (Cf. ‘Manière de Voir’, Junho/Julho de 2017, p.415). … E o velho Projecto das Nações, classicamente caracterizado, no termo da ‘Guerra dos Trinta Anos’ com a Paz resultante do Tratado de Westfália (1648), dissipou-se como flocos de neve!... Nem a O.N.U. lhe valeu!... Até hoje. Afinal, nada se aprende com a História. As esperadas alterações psico-societárias não emergiram, como cumpria. Por isso, a cartilha da suserania dos Estados, do 18


Poder supremo dos Estados/Nações, ficaram a funcionar segundo a gramática habitual: Entre Paz e Guerra, o que persiste é a ‘paz de armistício’!... A geometria clássica, no exercício do Poder soberano, é bem conhecida, tanto dos cidadãos como das multidões: Todo o Poder exerce as suas funções de cima para baixo: do topo para as bases. Não foi Saulo/Paulo que ensinou dogmaticamente essa doutrina/teorema: ‘Omnis Potestas a Deo’ (Rom.13,1)? Quem não conhece o esquema geométrico da Pirâmide societária, não está neste Mundo em que sobrevivemos!... Em bom rigor, teremos de fixar e estabelecer o veredicto: Todas as Nações (ditas) democráticas constituem uma pura ficção, enquanto a Economia política continuar a (dis)funcionar segundo a grelha do Sistema Capitalista. Mesmo que elas aleguem e argumentem, nos Areopagos internacionais que estão a funcionar segundo o Regime Democrático!... ‒ A Ideologia do Império produziu, nos Tempos Modernos, o que se chamou Colonialismo, que logo, desde os seus inícios (séc. XVI) trouxe consigo, em termos sistémicos, a escravatura negra africana (com o aval e o beneplácito dos sobas dos escravos nativos). Por seu turno, o chamado Socialismo soviético, que, nos seus primórdios, tentou erguer e pôr de pé um Esquema de Política económica alternativo ao Capitalismo, não fez, afinal, outra coisa senão realizar o que já se identificava no reverso da mesma medalha: Capitalismo monopolista de Estado! (John Kenneth Galbraith ‒ um dos dois maiores economistas do séc. XX ‒ dixit, no Livro de 1962: ‘O Novo Estado Industrial’). O colonialismo moderno e o próprio famigerado ‘Quinto Império’ de Vieira são filhos directos do Sistema imperialista. Mas, entretanto, tudo se comprova ou reprova no Processo histórico… O próprio Imperialismo britânico: as tensões agudas, que estrangularam o Reino Unido procedem já desde 1969 (cf. ibi, p.9). Advirte-se bem no Esquema geográfico britânico: as penas e as poeiras que eles deixaram em toda a parte onde estiveram… (cf. ibi, pp.14-15). E as fortes ambições do nacionalismo escocês serão, assim, tão diferentes do mais recente nacionalismo da Catalunha?! (Olhando bem para a História dos sécs. passados, o nacionalismo e a autonomia da Catalunha não constituem protestos assim tão recentes: porquanto, se em 1640, Portugal obteve a Restauração e a sua Autonomia Nacional, com o bragantino rei D. João IV, isso ocorreu porque os exércitos espanhóis de Castela não tiveram ‘bombeiros’ suficientes para apagar os dois fogos ao mesmo tempo… mesmo assim, Portugal e Espanha, logo a seguir à restauração, ainda andaram envolvidos em guerras de escaramuças durante 28 anos!...).

‒ Como nasceram e cresceram, historicamente, os Impérios?... Seja, aqui, relembrado, que na era histórica dos 4 milénios, que decorrem de 7.500 a 3.500 a.e.c., as relações humanas entre Homem e Mulher, muito embora em Sociedades tribais, eram realizadas e cumpridas em perfeito pé-de-igualdade, ainda que as tarefas domésticas e civis fossem diferentes. A essa era deu Riane Eisler o nome ade19


quado de Gilania, no seu Livro célebre ‘O Cálice e a Espada’ (1982). O que, com tal termo (composto a partir de dois elementos helénicos: guné + anér: mulher/homem) a Autora austríaca pretendia significar era justamente a Igualdade psico-societária entre os dois: uma Sociedade constituída por pessoas consideradas com igual Dignidade. Nos Tempos posteriores, veio a chamada Civilização patriarcalista, cujo início é fixado ca. de 5 milénios e meio da Era comum (3 milénios e meio a.e.c.). O molde/bigorna, que então começou, foi o do Macho (superior) contra a Fêmea (inferior). Está completamente destroçada a ideia matricial da GILANIA. Os princípios e a gramática da Igualdade social entre H. e M. haviam desaparecido. Que houve de especial para fundar o patriarcado?! A ‘criação’ dos Deuses uranianos, que a tudo deram movimento e consistência. Assim, contra o que ensinam as religiões institucionalizadas, foram os humanos que ‘criaram’ as Divindades, com o intuito e o pressuposto de conquistarem a sua protecção!... De facto, sem o patriarcado histórico, não teriam existido os Impérios. Tudo assentou, afinal, no advento do primado absoluto da Força física. E, efectivamente, o paradigma do ‘homem/multidão’ é balizado pelo primado da Força física: é o padrão do ‘Homo Sapiens tout court’, que aí funciona!... Foi, assim, por esse caminho, que emergiu toda a ladainha histórica dos Impérios: Egípcio, Assírio, Caldaico, Persa, Babilónico, de Alex. Magno, Celta, Romano, da Cristandade, de Carlos Magno, dos Habsburgos, Otomano, o Sacro Império Romano-Germânico, Império Bizantino, Império Europeu (protagonizado, durante a Idade Moderna, pela velha Albion, que aprendera o imperialismo na Civilização Celta, durante o 1º milénio a.e.c.). Deve, aqui, advertir-se, com todo o cuidado, que essa sementinha das Nações/ /Estados começa, tão só, a germinar e a crescer, depois de ocorrida e resolvida essa demencial ‘guerra dos trinta anos’ (= guerras de religiões, para cúmulo, endógenas…). A semente e o seu estatuto ficaram solenemente estabelecidos no bem conhecido Tratado de Westefália (1648). Depois desta história bem contada e reflectida, tinha-se o direito de alimentar esperanças em direcção à chamada ‘Paz perpétua’ kantiana: Convivência pacífica e fecunda entre os diferentes Estados/Nações!... Mas como decorreu e se desenvolveu, de facto, a Modernidade Ocidental, que até se arrogava pergaminhos de protagonista de civilizações?!... 1º Em termos de Relações sociais e Ergonomia, continuou a funcionar na base da Cultura do Poder-Dominação d’abord. 2º Implicou isso que o paradigma prosseguido era o do ‘Homo Sapiens tout court’: Há o Poder, de um lado, e do outro, o ‘livre arbítrio’ submisso (o pêndulo de Foucault). 3º A Paz não é querida e praticada deliberada e estruturalmente. ‘Guerra e Paz ‒ tanto faz…’ Por isso, só se conhece, como mandato, a ‘paz de armistício’. 20


4º O Capitalismo moderno foi pensado e proposto como factor de paz e progresso (assim pensou Adam Smith!...); mas esqueceu-se dos ‘naturais’ egoísmos humanos. 5º Em geral, todos (ou quase…) desejavam Regimes Democráticos. Mas consentiam, ignorante ou omissamente, em toda a sorte de despotismos e ditaduras. 6º Mesmo entre os mais estudiosos e os eruditos, quem se deu conta das contradições estruturais entre Regimes democráticos e Sistema Capitalista?!... Nas Universidades, o que se tem ensinado é a compatibilidade e a harmonia entre os dois!... 7º A Guerra detém, efectivamente, o primado sobre a vida pacífica: os objectos e os produtos (encontrados ou engenhosamente realizados) valem mais que os Sujeitos civis (indivíduos-pessoas). O adágio que sempre é brandido nos compêndios: ‘Si vis pacem para bellum’!... O general alemão (prussiano), Clausewitz, que derrotou a Comuna de Paris, em 1871, nunca se esquecia do seu refrão predilecto: ‘A Guerra é a continuação da Economia (política) por outros meios’!...

‒ Joeirada no crisol da crítica ético-política, que interesse pode ter a Teoria do Sebastianismo, em demanda da edificação do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ como paradigma da Espécie humana?! Pois essa é a loucura insensata que Miguel Real parece pretender defender num livro seu, recentemente publicado, sob o título ‘Nova Teoria do Sebastianismo’ (Dom Quixote, Ed. do Grupo Leya, Rua Cidade de Córdoba, nº2. Portugal). Vd., em especial, e de algum modo como apex de todo o livro, pp.252-255, onde ele explora, particularmente, as posições ideológicas do seu delfim: Paulo Borges. Não lhe faz mócega a ideologia do Império; e aproveita ou aplaude alguns elementos dispersos da concepção gnóstica da vida e da Sociedade. Não é obra que o CEHC possa recomendar!...

● Depois do moderno Reino imperialista por antonomásia (U.K.), a Humanidade e a Civilização humana carecem de pensar filosoficamente e repensar criticamente a nossa reinserção num Mundo igual e global (balizado e orientado pela O.N.U., à escala do Planeta: porquanto já não estamos nos tempos históricos dos Impérios, mas nos Tempos das Nações/Estados segundo a Gramática de Westfália (1648). Este é um imperativo indispensável, sine quo non, se quisermos assegurar o Projecto e o Estatuto do Regime Democrático (cf. ‘M.V.’ cit., pp.33…), e não fazer da Globalização (em marcha) o arremedo diabólico de um supostamente Novo Imperialismo!... Por causa da teimosia e da contumácia selvagem do Sistema Capitalista, surgiram três vias possíveis: A) execração do ‘Labour’ do Neoliberalismo ocidental, levada a cabo pela 1ª Ministra britânica M. Thatcher, em 1979, sob o código TINA: ‘There is no Alternative’!... Falta de inteligência e uma Vontade política despótica. B) A inauguração, por contraste, da chamada ‘3ª via’ (congeminada por Tony Blair e Anthony Giddens), em 1997. C) Aprofundar e alargar o horizonte com a refundação da Esquerda, por parte do ‘Labour’ e, muito especialmente, por parte do grupo político-partidário que 21


tinha o seu Chefe em Jeremy Corbyn, em 2015 (cf. ibi, pp.63…). Como era, então, já sabido, o Labour fazia a pontaria certeira para as classes sociais médias como sua grande base de apoio. Mas o modus operandi, pessoal e institucional, da Srª Margaret Thatcher, estigmatizou, com a chancela do Despotismo, a vida política na velha Albion, nas últimas três décadas, que, não só as várias soluções positivas ficaram entupidas e paradas, como a própria Globalização continuou, impante, o seu curso, sem obstáculos. Foi o assalto às próprias consciências dos britânicos, que nem deram conta disso. Com a TINA e o THATHERISMO!...

● Sobre o estado actual catastrofista do Mundo. Não se pode deixar de lembrar a proximidade e confusão entre o Terrorismo da luta armada dos anos ’70, por parte, v.g., dos Zapatistas mexicanos, e as agora mais frequentes e constantes lutas islâmicas jihadistas. (Cf. ‘M.V.’, Fevereiro-Março de 1997, pp.6…). A seu modo, todos lutam por Justiça!... (cf. ibi, p.14). Ora, uma Esquerda radical, não pode esquecer as três fracções da Luta comum: camponeses, operários e classes médias (ibi, p.27…). No Loire-Atlântico da França, o slogan era conhecido: ‘Agir como primitivo e prever com estratégia’ (ibi, p.45…). Nos velhos Tempos da era da GILANIA (7.500-3.500 a.e.c.), vigorava em pleno e simultaneamente a diversidade de género e a Igualdade societária entre os Indivíduos-Pessoas, Homens e Mulheres. Logo que começa a era do Patriarcado venceu a diversidade (dos mais fortes: os machos!...) contra a igualdade social de tratamento pessoal (cf. ibi, p.80). Assim, dir-se-á que a mais longa e duradoira Guerra, que a História tem registado, é, precisamente, a dos Homens contra as Mulheres, dos Machos contra as Fêmeas, ‒ estas sempre e incontornavelmente feitas vítimas de repressão e maus tratos, vítimas da opressão/repressão machista/paternalista. A tal ponto que a cartilha das heranças era, regra geral, declinada na gramática Machista, salvo raríssimas excepções (como ainda ocorre nas práticas e costumes judaicos). (Cf. ‘M.V.’, Dez. de 1916-Jan. de 1917, p.18). Precisamos, ainda hoje, de um forte Manifesto pela Igualdade pessoal de género (ibi, p. 55…). Como fez, em 1980, o Grupo Jucista de rapazes e raparigas, com quem nós trabalhámos. (Ao 3ª dia de exposição na vitrine da Liv. Almedina, em Coimbra, 900 exemplares foram-nos roubados/apreendidos pela P.I.D.E./D.G.S.). Chamava-se o Livro: ‘Igualdade Radical para a Mulher’! Na verdade, ainda hoje, a Dominação machista, própria da Cultura/Civilização em que vamos sobrevivendo, prossegue sem advertências nem correcção que se vejam (cf. ibi, p.74). Para além dos justos (mas inócuos…) queixumes em torno de ‘Le Deuxième Sexe’ da escritora francesa (mulher de J.P. Sartre), Simone de Beauvoir (vd. ibi, p.91), ‒ ‘só metendo bem no centro do Debate a Questão da Identidade sexuada, só por essa 22


via poderemos edificar um Regime Democrático digno do nome’ (ibi, p.57). Como, de resto, nos foi ensinado pela nobilíssima Era da GILANIA. Sobre ‘a ilusão de uma América pós-racial’, vd. in ‘M.V.’, Out.-Nov. 1917 (p.34). Sobre a influência das umlheres nas origens do messianismo americano (vd. ibi, p.76). ----------

● O BÉBÉ DE MÂCON ‒ (Produção da PanaVision-France/Benelux): ) transmitido pela TVP/Canal 2) (22H. de 16.5.2015). Em que categoria arrolar e inserir esta Peça de cerca de 2 H. de duração: Ópera Buffa/Satírica? Ela é, de facto, uma espécie de Bouffonnerie satirique de grande dimensão colectiva e individual em palco… e actuando, também, discretamente, com a plateia. → Com o intuito de lançar a Discussão com o Público da Great Society!...

O Itinerário é percorrido em três Actos: ‒ I. Representação empírica/plástica das crenças actuantes, no Cristianismo católico tradicional na Cultura do Ocidente, segundo os seus parâmetros principais: nascimento de uma Criança de uma Mãe Virgem. Tudo foi constituído ‘naturalmente’, ao ponto de afastar (pôr de parte) as superstições, sob a santa égide dos Romanos Pontífices; articulando a ciência com a crença, e admitindo a possibilidade a comprovar, em palco, a virgindade da mãe. Obviamente, procedeu-se à elisão do todo o espaço dito Sobrenatural (decorrente da doutrina do Dualismo platónico-paulino). Tudo, aí, é avaliado em termos de valores comerciais/mercantis, … ab initio!... ‒ II. Crítica frontal… mas sempre dentro do que o C.E.H.C. chama, com propriedade, a Cultura do Poder-Dominação d’abord (que já advém do Max Weber póstumo) e a sua axiomática específica (fala-se, assim, para ajudar a percepcionar o que se vê e ouve…): Virgindade de Maria, questionada cientificamente e admitida, sem reversão (…); a castração do Macho segundo a cartilha de Eros//Thânatos, no acto sexual e na cópula inter-sexual; presença do ‘bode expiatório’ na ‘vaca sagrada’. ‒ III. É preciso continuar a viver com toda essa ‘Weltanschauung’ (Tralha!...)… O que transparece: o intercâmbio entre a Realidade e a Representação, a tal ponto que a Vida tem de continuar regida pela cartilha económica-materialista. Sem 23


apelo nem agravo. Trata-se de dois planos incontornavelmente Separados da Realidade, que marca e envolve os Humanos. Nunca se faz a mínima ilusão a uma Mundividência crítica global, capaz de explicar e interpretar os acontecimentos e as situações! Que interessa que o filósofo espanhol Ortega y Gasset diga à puridade: ‘Yo soy yo y mi circunstancia!’. Dir-se-ia que se apagou a distinção entre a representação cénica e a vida real. O esquema estrutural é o da História sócio-económica e política do Ocidente: subordinação do rei-imperador ao Pontífice Romano: submissão do Poder temporal ao Poder espiritual!... → Leitoraotineu: Leitmotiv/Leitura/semântica: A cópula resultou coisa séria!... Homem e Mulher deixaram de se divertir no acto sexual!... A Paridade sexual/pessoal dissolveu-se. A doutrina dos conflitos estruturais entre Eros e Thánatos, com a envolvência da castração do Macho e a reafirmação da virgindade da Mulher, com intuitos mítico-litúrgicos, e considerada como o valor (ético) primacial e primordial da Mulher, por forma a transformá-lo no contraponto da prostituição universal das fêmeas (dir-se-á, no quadro da Cultura do Poder-Dominação d’abord), é, aí, reafirmada, sem ambiguidades!... Tout se tient dentro do mesmo universo ideológico-mental… Assim, os pecados das filhas procedem da Mãe!... Assim, os pecados dos filhos procedem do Pai!... Desta sorte, é reatada a arqui-arcaica Doutrina do Pecado Original, na interpretação da Sexualidade Humana e no processus da recriação da Espécie, tal como foi sistematizada e estabelecida nos primeiros três capítulos do Génesis (1º Livro da Bíblia, da Tôrah hebraica). Por fim, duas nótulas: a) a Criança ficou criança… disputada, supersticiosamente, por muitos. b) Depois de morta (pela Mãe, de modo supostamente inadvertido…), a Criança foi retalhada… e os diferentes pedaços foram levados como amuletos/talismãs, pelos comparsas (machos e fêmeas) do sacrifício. N.B.: As Escrituras e os Poderes Estabelecidos nem sequer se dignaram perceber e aceitar as doutrinas revolucionárias, que a Criança, ao atingir a idade adulta, viria sabiamente trazer ao Mundo!... N.B.: (em conclusão): Proh dolor! Ainda não se deu conta (mais de três milénios passados): a) de que toda essa Weltanschauung só pode encontrar nexo e ser explicada no quadro e dentro das garras da Cultura do Poder-Dominação d’abord (Poder-Condomínio, como gostam de nomeá-lo os nossos militantes brasileiros); b) em tal horizonte, não se distingue nem discerne o mundo dos objectos e o mundo dos sujeitos, em ordem a redescobrir, mediante a emergência da Consciência, própria do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ (reduplicada), a gramática (indivisa) da Igualdade e da Liberdade dos Seres Humanos.

……….

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● Um Apontamento sobre os ‘Media’ Instrumentos de Informação-Comunicação e de Ilustração e Balizamento do meio-ambiente cultural, no sentido domesticador ou, pelo contrário, no sentido libertador!... Os ‘Media’ são, contemporaneamente, as duas coisas… dependendo das intenções e das respostas dos televidentes ou teleouvintes. Tem, pois, toda a razão primacial e primordial o título de capa do nº 146 (Avril-Mai 2016) da Revista do ‘Le M.D.’, chamada apropriadamente ‘Manière de Voir’: ‘FAIRE SAUTER LE VERROU MÉDIATIQE’ A nossa intenção, aqui, é, tão-só, a de destacar alguns títulos, nomeando-os apenas. ‒ Será que está a empalidecer (ou não…) a estrela de Al-Jazira, ao alinhar a sua estratégia internacional com o Qatar?!... (pp.16 e ss.). ‒ A Imprensa popular continua a ignorar o povo!... (pp.30 e ss.). ‒ O Jornalismo continua a ser balizado e controlado pelo mercado. (p.4; pp.30-33; p.37). ‒ Como actua o Islão? Mística religiosa e lojas/magazines. Uma mistura de sectarismo reaccionário a toda a prova e uma tonalidade de ironia e exegese corânica. (pp. 56…). ‒ Em busca de sociedades sem fins lucrativos. (pp.88…). ‒ O Jornalismo e a História que são feitos pelos ‘chiens de garde’ (pp.67…). ‒ A opção que os jornalistas são forçados a fazer (pp.73…). ‒ O princípio da imparcialidade. (pp.80…). ‒ Nesta Sociedade e nesta Cultura do Poder-Dominação d’abord, não há senão duas saídas em alternativa, para os artistas e os homens de cultura: ou protestam, ou são domesticados. (Cf. ‘M.V.’, nº148, Ag.-Set. de 2016). Achamos, pois, que está com uma razão adequada o arquitecto luso Ed. Souto de Moura, quando o vemos perorar da seguinte forma (in ‘Exp.’-Rev., 30.6.2018, p.28): “Como é que alguém [Céline] tão deplorável moral e eticamente chega a uma estética tão elevada? Interessa-me perceber se ser bom em estética implica ser bom em ética”. ‒ Se vemos, de modo evolutivo e holisticamente, as coisas e os seres, era assim mesmo que deveria acontecer. Como pensa S.M. e não como actua C.. ‒ É imperioso e urgente descontaminar o nosso imaginário (cf. ‘M.V.’, nº148, Ag.-Set. de 2016, pp.14-15). ‒ Tem muito mais utilidade práxica e, até, valor científico escrever Literatura de protesto e antecipação, como fizeram Aldous Huxley e George Orwell (cf. ibi, p.77…).

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‒ Conspirar diplomaticamente, sabotando os consensos políticos vigentes (cf. ibi, p.90…). Intuito: ir descobrindo novos horizontes. O Mundo está ainda em Evolução! ‒ A situação nos países árabes e muçulmanos é precária e plena de complexidades. A ‘primavera islâmica’ acentuou o conflito entre Doha (Qatar) e Ryad (Arábia Saudita) (cf. ibi, p.48). Além da divisão entre sunitas e xiitas, emergiram 5 conflitos em 6 países árabes: Afeganistão, Iraque, Síria, Paquistão, Yemen e Bahrein (cf. ibi, p.52).

* N.B.: As convicções (mesmo as decorrentes de uma ‘fé religiosa’) é mister que se rejam pelas evidências (possíveis). Vamos respigar, a partir do citado Livro de Miguel Real, alguns excerptos, que é necessário passar ao cadinho da crítica. Até porque persiste sempre a quaestio: Que significado válido pode ter, hoje em dia, exumar e recuperar, em termos históricos, o que resta do famoso Sebastianismo, na História e na Geografia lusas?!... O próprio Filósofo luso (que apreciamos), Fernando Gil, ao tratar do tema, fala-nos de alucinação mental, um erro palmar que todos reconhecem. Ver sobre esta matéria, livro cit., pp.72-78. (Temos em nossa posse um livro of., de Autor norte-americano, desde há ca. de 40 anos, que nos fala dos desequilíbrios/distúrbios psicanalíticos do rapaz/rei e da sua esquizofrenia/paranóia fora de série. A sua entourage régia, em vez de o ajudar só o prejudicou.). Imagine-se o esforço hercúleo que M.R. teve de reunir, para escrever o texto/síntese, que figura na contracapa do Livro: “Ser sebastianista hoje […] significa, não a esperança no indefinido regresso de D. Sebastião, nem acreditar neste como o Messias regenerador da sociedade portuguesa, […] mas ter plena consciência de que em Portugal só se atinge um patamar próspero de vida, se algo (uma instituição) ou alguém dotado de elemento carismático nos prestar um auxílio que nos retire, por meios extraordinários, do embrutecimento e empobrecimento da vida quotidiana: a subserviência rastejante ao Partido, a cunha do ‘Senhor Doutor’, a crença no resultado do totoloto ou do euromilhões, a promessa a Nossa Senhora de Fátima ou santo congénere… Esse algo ou alguém, quando negado em Portugal, impele à emigração, forçando o português a buscar no estrangeiro o que, devido às políticas de autofavorecimento das elites, lhe é negado na sua terra natal”. ‘O Código Da Vinci’ do escritor norte-americano, Dan Brown, ainda tinha chamas de verosimilhança, capazes de atear o fogo a uma Floresta!... Mas, agora, isto, depois de Vieira e de F. Pessoa!... ‒ Definitivamente, o Sebastianismo luso morreu e já está, há muito, bem enterrado, para nossa pouca Vergonha!... Quando a Filosofia válida 26


e fecunda de hoje luta pelo advento do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ (o único paradigma científico, capaz de contrariar o Apocalipse e de libertar a sério a Humanidade), M.R. continua a porfiar na recuperação do padrão passado ‘Homo Sapiens tout court’, que separou, estruturalmente, a Potestas da Libertas; reduzindo a segunda à condição de puro e simples ‘livre arbítrio’, o famoso pêndulo de Foucault. Como é ainda possível explorar e defender, nestes termos, a velha e pútrida chaga do Sebastianismo, nos dias de hoje, cedendo, a todo o pano, às exigências religiosas estúpidas do Império, da Ideologia do Império, como é tão do agrado de Paulo Borges (cf. ibi, pp.252 e ss.). Escreveu, conspicuamente, M.R. (ibi, pp.259-260): “Segundo Lúcio de Azevedo e António Sérgio, sim, o republicanismo, o positivismo e o racionalismo tinham esgotado e matado o sebastianismo. Porém, Joel Serrão, continuador de António Sérgio, considera que o sebastianismo nunca morrerá enquanto perdurar o bloqueio histórico e social, pelo qual as classes possidentes e os grupos político-administrativos do Estado impedem as camadas populares de acederem a níveis superiores de prosperidade económica, cultural e científica, de justiça social e de realização pessoal e profissional, transformando-se de súbditos em cidadãos”. Curiosamente, M.R. até sabe que o Sebastianismo não passa de um mito e, enquanto tal, uma falsidade. Ele não sai do padrão societário do ‘Homo Sapiens tout court’, onde os humanos não ultrapassam o estatuto de ‘cabeças de rebanho’. M.R. sabe que, por tal caminho, nunca se poderá chegar ao paradigma próprio da Espécie humana. Mesmo assim, ele continua a valorizar a faceta lidimamente religiosa de Fernando Pessoa, ao falar do tema: “Segundo Fernando Pessoa, não: o sebastianismo constitui-se como a verdadeira religião nacional, substituta do cristianismo como religião importada de Roma e D. Sebastião assume-se como o verdadeiro ‘Cristo de Portugal’, cuja imagética simbolizada n’O Encoberto, se revelará um dia, operando o advento do Quinto Império. Para Pessoa, mais, muito mais do que cristãos, somos sebastianistas por cultura” (ibi, pp.260-261). São conhecidos os cinco Impérios de F.P.: Grécia, Roma, Cristandade, Europa, ‘Quinto Império’ (de Vieira e Pessoa). E todos hão-de passar, porque não conhecem nem conhecerão o vero e autêntico Regime Democrático (iniciado por Sócrates e Jeoshua). Além do mais, M.R. sabe do infundado que é atribuir, (aplicando-as) as Trovas do Bandarra (o sapateiro de Trancoso) a D. Sebastião. (Cf. ibi, p.109). O parágrafo feliz e certeiro que o Autor arrolou até pode ser o atribuído ao nosso Amigo B.S.S.: “Segundo Boaventura de Sousa Santos, sim: o sebastianismo só permaneceu vivo, enquanto um discurso mítico, elitista e conservador, dominou as estruturas mentais dos portugueses e as categorias sociais de Portugal. Logo que esse discurso foi substituído pelos resultados de uma razão científica e filosófica crítica após o 25 de Abril de 1974, o sebastianismo tornou-se oco e insignificante, sem préstimo e valor sociais” (op. cit., p.200). 27


Quanto à noção de Império, no melhor dos sentidos, tem de falar-se de hibridismo, ou, então, de um império espiritual comandado pela filosofia/teologia ideológica do Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo. Ora, o Projecto do C.E.H.C. é o da edificação de uma Nova Civilização humana, não dilemática, mas bem unificada, segundo a gramática do ‘Homo Sapiens//Sapiens’, onde a guerra tenha sido erradicada pela Paz e os objectos estejam realmente submetidos e ao serviço dos Humanos qua Sujeitos livres e responsáveis.

● As Bases Psico-Sócio-Antropológicas do Regime Democrático

● O Tema em epígrafe é fundamentalíssimo. Antes (e até hoje) funcionava, superiormente o axioma indeclinável: ‘Omnis Potestas a Deo’ (Rom.13,1). Quem supremamente estava na origem do Poder e da Dominação eram os Deuses, era a Divindade, que, afinal, haviam sido concebidas e criadas por Humanos. Nesse universo, (que é ainda o de hoje… para grandes Regiões do Mundo e para a maior parte da Espécie humana), os Indivíduos-Pessoas humanos estavam submetidos aos Deuses, como Seres superiores: não detinham Liberdade vera e autêntica; possuám tão só o ‘livre arbítrio’, de que dissertou Saulo/Paulo, Aurélio Agostinho, Martin Lutherus, Erasmo de Roterdão, e, nos modernos, o próprio Stuart Mill. Isto mesmo só começou a acontecer a partir dos inícios da era do Patriarcado, quando os ‘donos’ dos Humanos se lembraram de instituir os chamados ‘Deuses uranianos’. A Cultura humana, que então começou a emergir tem um nome: a Cultura do Poder-Dominação d’abord. E o padrão da Espécie, que fora acolhido e praticado pelas Organizações societárias não poderia ter outro nome senão o padrão do ‘Homo Sapiens tout court’. O ‘livre arbítrio’ não passa da lei do pêndulo de Foucault. Aí, em tal horizonte, não poderia haver Democracia propriamente dita. Pela simples e elementar razão de que os Humanos (homens e mulheres) não eram considerados e havidos pelos outros em perfeito pé de Igualdade. Querem Vocês saber que a 1ª forma de democracia, registada na História ‒ a D. ateniense de Sólon, Péricles, Clístenes e Sócrates estava baseada em ca. de um terço da sua população, que vivia uma vida de escravos, como os metecos e os periecos?!... Eis por que a vera e autêntica Democracia tem de ser balizada e orientada pelo outro paradigma da Espécie Humana, que ainda não foi estruturalmente instaurado: o ‘Homo Sapiens//Sapiens’ (que é dotado de consciência crítica e sabe que é seu detentor). Assim, a Democracia é uma forma política de organização societária, ainda por vir… para além das monarquias, oligarquias e ditaduras. 28


Desta sorte, a Ordem (Ordnung, no léxico alemão) e a Organização societária, ao dizer-se, funcionalmente, que elas têm de proceder do Vértice da pirâmide societária, é imperioso dar-se conta de que uma tal pirâmide tem de considerar-se e pressupor-se completamente invertida. Deve saber-se, por conseguinte, que a gente vulgar, os populares que se acham na base da Society, deverão ocupar, por direito originário próprio, os lugares cimeiros de uma Organização decente e honesta, assim considerada pelos Humanos. Os saberes, práticos e teóricos, adquirem-se, como acontece a toda a gente. Ninguém nasce ensinado – Vox populi… ‘Se houvera quem me ensinara, quem aprendia era eu’!... As antigas elites ‒ clero, nobreza, aristocracia, etc. ‒ todos devem ocupar os lugares, que outrora eram reservados ao povo. Em nome e em louvor do sacrossanto Princípio da Liberdade//Igualdade social, todos eles deverão ser capazes de ocupar os chamados lugares da base societária! Deveria ser uma Tradição solenemente consagrada: ouvimos os Governantes dizerem aos povos: nós, que ocupamos os lugares de comando, é que somos os serviçais dos Povos! Etimologicamente, a palavra ‘ministro’ (do Latim) é isso mesmo que significa e deveria sempre significar. Em todas as situações, essa semântica latina deveria permanecer sempre inalterável!... Desgraçadamente, como o Povo continua a ser corrompido pelas religiões institucionalizadas, as populações têm dificuldade em perceber e aceitar esta doutrina e continuam a repetir, antes, o axioma de Paulo: ‘Omnis Potestas a Deo’!... Não deixem que a vossa ignorância larvar impeça a troca adequada, que é imperioso e urgente ser feita. O Poder vem do Povo! Não de Deus… Já o próprio jesuíta Francisco Suárez (1548-1617), na Univ. de Coimbra, ensinava outro postulado (filosófico-teológico), que é do seguinte teor: ‘Omnis potestas a Deo per populum’: é através do Povo que se pode dizer que o Poder procede de Deus. Porque Deus não é essa entidade extrínseca e transcendente ao Universo. Ele está na tua Consciência, como testis da tua actuação! Ora, o paradigma societário sobre as origens do Poder, acima descrito, não se pode pôr em marcha a não ser mediante a Cultura do ‘Homo Sapiens//Sapiens’, Educação sistémica, um Bom Sistema Educativo e uma Boa Escola. Isto mesmo pressupõe, numa Boa Agenda (pedagógica e política) que o dinheiro e a propriedade individual/o capital, em termos axiológicos, i.e., ético-morais, nunca poderão assumir o 1º plano, para constituir o seu detentor como rei e dominador dos outros. Depois… as questões das capacidades e das potencialidades de cada indivíduo serão resolvidas segundo as suas vontades livres, adequadamente enquadradas. Uma realidade é certa e segura: Enquanto o Sistema capitalista (sobremaneira na sua forma selvagem adoptada pelo neoliberalismo capitalista global) e os chamados regimes imperiais prevalecerem, não haverá Regimes democráticos dignos do nome… porque os próprios indivíduos/cidadãos foram sequestrados, enquanto tais, e reduzidos a uma teoria de cabeças de rebanho!... As veras e autênticas Nações/Estados não podem, societariamente, ser construídas de cima para baixo, mas sempre de baixo para cima (pirâmide invertida). A dissen29


são e a separação (com ou sem conflitos…) estão sempre na ordem do dia, em sociedades vivas e dinâmicas. A cidadania é do Povo, não do Estado. O Governo do Estado só tem legitimidade para limitar ou condicionar a cidadania dos cidadãos, em casos de criminalidade ou delitos graves contra os seus cidadãos; … não por simples dissensão colectiva de uma parte da Nação/Estado. Por que não deixou o Governo madrileno de Rajoy a Catalunha livre, para prosseguir a sua odisseia de autonomia e independência?... Porque o próprio governo de Madrid estava refém do art. 155, ‒ um artigo que procedia ainda da Constituição espanhola de F. Franco!... A isto dá-se o nome de estupidez e atraso mental. A Cataluña foi, desde tempos remotos (1640-1) fonte e foco de um forte Movimento de autonomia e independência, como Gr. Região (a mais rica e desenvolvida de toda a Espanha), em todo o mapa das Hispânias. Os casos de Portugal (Restauração da independência nacional, em 1640, depois de 60 anos de submissão) e da Catalunha, são de algum modo, simétricos e contemporâneos. Na mesma altura em que a Lusa Gente, pegou em armas, na guerra da Restauração e luta pela independência nacional face à dominação castelhana, em virtude de não ter rei legítimo na sucessão ao trono, por morte de D. Sebastião em Alcácer-Quibir, (neto de D. João III e filho de Joana de Castela e de João, filho de D. João III), ‒ Nessa mesma altura, já a Catalunha se movimentava em função da sua autonomia e independência nacional. Só que os exércitos de Castela e Madrid não podiam chegar a todos os sítios. Mesmo assim, Portugal esteve em guerra com Madrid durante 28 anos a seguir. ……….

● A FILOSOFIA COMO A PRINCESA DOS SABERES E DAS CIÊNCIAS

● ‘Alterius non sit qui sui esse potest’ (Que nenhum homem pertença a outro que não possa pertencer a si próprio.) ‒ Paracelso

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N.B.: Preciso de Filosofar. Precisamos todos de Filosofar, com sinceridade e honestidade. Como fizeram e ensinaram SÓCRATES E JESUS. Há dois Argumentos estruturais ou Razões fundamentais, que nos movem e incitam a lançar ombros a um tal Projecto. A) O paradigma próprio da Espécie Humana, adequadamente evoluída, é o ‘Homo Sapiens//Sapiens’ (duplicativamente sabedor); não o paradigma habitual/tradicional do ‘Homo Sapiens tout court’ (como já foi assinalado e demonstrado anteriormente). Se os Humanos não cumprem verdadeiramente o estatuto psico-biológico da sua espécie biológica… é sinal certo e seguro que abandonaram a praxis filosófica. B) A Filosofia constitui aquela Grande Região dos Saberes, que, por natureza e definição, não comporta especialidades ou especializações científicas: Ela trata, pois, de todos os Saberes, sem acantonamentos nem parcialismos… de todos os Saberes, concernentes aos Humanos e ao Universo inteiro. Por isso mesmo, ela é, a justo título, a Princesa dos Saberes e das Ciências.

N.B.: Recordam-se da pintura da Bela Escola de Atenas. O ‘Expresso’ de 30.6.2018, na parte da Revista, traz uma foto/painel dessa Escola, mas muito ampliada e engrinaldada, que abre e constitui o frontispício de um Artigo/Estudo extraordinário da filósofa e jornalista italiana Luciana Leiderfarb, justamente sobre a temática hodierna da importância e necessidade urgente da Filosofia (cf. ibi, pp.57-61). É precisamente a partir desse trabalho esplêndido e laborioso, que vamos, aqui, fazer alguns respigos e tecer algumas considerações. A Quaestio central é conhecida: Para que serve a Filosofia?! Quais são a sua missão e a sua função a cumprir? Na História da Filosofia, é costume reparti-la em dois grandes Campos, ao longo dos seus dois milénios e meio de história: A) Idade Antiga e Medieval; B) Idade Moderna e Contemporânea. As duas primeiras decorreram num discurso ou diapasão muito chegados às três religiões institucionalizadas (as 3 Religiões monoteístas de ‘O Livro’). As outras duas (a moderna e a contemporânea) fizeram um caminho muito mais variado, acompanhando e glosando os novos Saberes e as novas Ciências das Idades Moderna e Contemporânea. É corrente considerar os grandes arautos da Idade Moderna René Descarte e Francis Bacon. O 1º, mais dedicado às ciências da Natureza, empenhou-se na elaboração do chamado ‘Discurso do Método’; o 2º, para além da ‘Nova Atlântida’, dedicou-se, com mais acribia e entusiasmo às ciências sociais e antropológicas. O pior erro, cometido pelo primeiro, ‒ o filósofo do ‘Cogito, ergo sum’! ‒ foi sem dúvida, o ter embarcado, sem rumo nem critério, no chamado Dualismo Metafísico-ontológico de Platão e Paulo. As consequências desta concepção do Mundo da Humanidade e das Religiões foram ex31


tremamente negativas e deletérias: acabaram por consertar-se com a mundividência das Religiões dualistas/monoteístas de ‘O Livro’; e contribuiram para impedir as práticas críticas do seu livre exercício. A Idade Contemporânea da Filosofia foi inaugurada pela grandiosa Obra de Immanuel Kant ‒ o filósofo mais completo e lúcido, que, na Ética/Moral, chegou a estabelecer o princípio da Paz Perpétua, como objectivo político-praxeológico das Sociedades Humanas. Com as críticas e as proliferações das religiões, e os atrasos enormes na evolução certa e segura dos humanos, por ineficiência ou ausência total de Sistemas escolares/educativos, a Idade contemporânea foi, por excelência, a era das Revoltas e das Revoluções, das disrupções e dos desconcertos. As diferentes Ideologias impuseram-se draconeanamente, sempre de mãos dadas com os Poderes Estabelecidos e os Contra-Poderes. Paul Ricoeur ‒ o filósofo francês protestante ‒ a Marx, Freud e Nietzsche chamava, sardonicamente, ‘les phylosophes du soupçon’. Os filósofos da suspeita!... O curioso é que os três carrearam, para o Pensamento Contemporâneo, questões e verdades insuspeitáveis, e que nos faziam falta, na arca da Sabedoria da História da Humanidade. Se fizessem ao C.E.H.C. a pergunta, estranha e curiosa: Quais os dois filósofos mais importantes e decisivos, na História Contemporânea?! A Resposta seria tão simples como isto: A) Immanuel Kant, (não tanto em virtude das suas grandes Obras: as três Críticas: da Razão pura, da Razão prática e do Juízo), mas, outro sim, por ter erguido, para todo o sempre, o Projecto/Plano da ‘Paz Perpétua’, para todas as Sociedades humanas. B) Jacques Derrida, por ter tido a coragem e a sabedoria de pôr termo à ‘Metafísica’ tradicional!... Karl Marx e Frederico Engels construíram uma obra admirável, na vertente da concretização mais rigorosa e exigente do espírito comunitário dos Humanos: deram-lhe o nome de Socialismo científico, justamente com esse intuito. Mas como era a própria ciência (os padrões científicos) que estava cega e surda, e os seus adversários não estavam preparados para uma tal Viragem, o Processo e o próprio Projecto do Socialismo resultaram malogrados. Além do mais, e, em termos globais (de epistéme e de método), Marx e o grupo dos marxistas em geral caíram, (como quase todos os cientistas de todos os sectores das ciências…) no que poderíamos designar por grande ‘Heresia’ das Ciências: o ‘Objectivo-Objectualismo’!... A Psicanálise freudiana cometeu, igualmente, muitos erros de percepção e análise: a) por ter visto e apreciado os Sujeitos humanos como Objectos; b) o que foi, para a nobel Disciplina criada por Sigmund Freud e pelo 1º Grupo dos psicanalistas, a coisa mais natural deste mundo, pela simples razão, de que, havendo visto a luz do dia no último quartel do séc. XIX, os seus apetrechos e instrumentos de trabalho acabam por ser, sensivelmente, os mesmos da anterior Disciplina chamada Fisiologia, onde a Psicologia se havia instalado, à falta de espaço/lugar novo e apropriado. Mas houve, na História da Filosofia, uma viragem de tomo, assinalada por K. Marx e que estava, biologicamente, em plena correspondência com os trabalhos de C. Darwin e o Evolucionismo: Não basta compreender as coisas e os processos, os seres e 32


a Natureza. É preciso, sobretudo, transformar as Sociedades humanas, onde a maior parte dos seres vive e vegeta, apenas. Os Seres humanos têm-se limitado a viver/sobreviver uma vida, marcadamente individualista/egotista!... Por exemplo, na bioética… os problemas imensos que se nos põem!... Que são células estaminais?... E a pessoa humana, o que é?!... E o agir mecânico e o agir reflexivo são a mesma coisa?!... O Saber e o agir reflexivos, próprios do ‘Homo Sapiens//Sapiens’, não só encerram um número muito maior de matérias ou assuntos, como evita o saber especializado, repartido em parcelas independentes, ‘en miettes’. E quando é dito que Nietzsche matou Deus, o que se pretende significar: que, num ápice, foi varrida da Filosofia toda a sorte de verdade?!... Como a Humanidade tem tanta necessidade de MUDAR DE DEUS, ‒ que é, precisamente, o título de um Livro do C.E.H.C., publicado/editado (electronicamente e em papel), pela Edicon de São Paulo (Br.)!... Escreve Leiderfarb (ibi, p.58): “ ‘O mundo experimenta a sua maior necessidade de Filosofia de sempre’, constata Marta Mendonça, coordenadora da licenciatura nesta disciplina da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Univ. Nova de Lisboa. Porque se a Filosofia continua a ser uma procura do sentido, ‘nunca como hoje corremos tanto para lado nenhum’. Nunca como hoje o sentido do mundo esteve tão sujeito à aceleração, à distracção e à dispersão das narrativas, em que uma coisa pode ‘ser e deixar de ser’ consoante o momento, o contexto e o ponto de vista. Não só temos actualmente a percepção de que as mudanças perdem validade num ápice, como nos falta recuo ‘para equacionar de que forma as alterações do mundo contemporâneo nos estão a mudar também a nós’ ”. Incontestavelmente, nas origens da Filosofia na Hélade antiga, o maior pensador/filósofo ateniense foi, sem dúvida, SÓCRATES. Mais do que Platão e o próprio Aristóteles que, por tanto Saber e Escrever, foi, durante ca. de dois milénios, chamado, por antonomásia ‘O FILÓSOFO’. A nossa preferência vai para ele, por duas ordens de razões: a) ele selou, com o seu homicídio virtuoso (imposto pelo Tribunal da Polis) a sua própria Mensagem. b) E essa Mensagem era dupla: 1. Ensinava-nos a Língua/línguagem materna; 2. Praticava e ensinava-nos o Diálogo: porquanto é através da Discussão dialógica que chegamos a poder formular os conceitos ou noções das coisas, dos seres e dos processos. Escreve, de novo a nossa Autora (ibi, p.59): “A ética tem sido considerada uma das áreas da Filosofia em expansão. Justamente porque perdemos hoje, muito mais do que noutras épocas, a noção de ‘dever agir’; por isso mesmo tal noção emerge para um contrapeso demasiadas vezes desigual. ‘A Ética é uma enorme conquista da civilização humana, um sinal de sofisticação intelectual. A sua existência como domínio do pensamento terá uns 2.400 anos. É mais recente que o Estado’, ‒ enquadra Viriato Soromenho Marques. [Estamos em desacordo, e connosco o C.E.H.C., que sabemos que havia Boa Ética na era da GILANIA: 7.500-3.500 a.e.c.]. Significa uma espécie de universalismo ecuménico, laico e racional. E durante séculos foi estudada no quadro de uma concepção de humanitas, que parecia estabelecida, como se o software do humano estivesse no essencial definido e a relação deste com a natureza fechada e não sujeita a 33


alterações. A relação entre a cultura humana e a natureza, diz este professor catedrático, na área da Filosofia Política da Faculdade de Letras da Univ. de Lisboa, dava-se apenas por meio do trabalho”. [Isso não explica tudo: havia comunicação e linguagem na era do Matriarcado.]. Continua a nossa A., citando V.S.M.: “ ‘O nosso problema não é a utopia. É termos realizado a utopia, é vivermos em sociedades utópicas’, reflecte. Sociedades onde ‘a ideia de futuro é cada vez mais trabalhada pelo homem, através da transformação da natureza’. Violamos as suas leis, pescamos além dos limites, extinguimos espécies da bio-diversidade, alteramos a estrutura química da atmosfera. A primeira fase da crise ambiental saldou-se na tomada de consciência de que estamos a fazê-lo de uma forma veloz e desenfreada. No séc. XXI, a situação radicalizou-se, com o esbatimento das fronteiras entre cultura e natureza. ‘Espinosa usava um duplo conceito: a natura naturata, a natureza criada por Deus; e a natura naturans, a natureza em transformação. Agora tudo se alterou, o homem assumiu o papel de Deus. Não somos apenas criados, somos criadores. E criamos creaturas ‒ uma neo-natureza’ ” (ibidem). ‒ Dir-se-ia que somos assitentes da criação/evolução darwiniana da Natureza!... Prossegue a A., fazendo glosas a V.S.M. (ibidem): “Sobre isto não estamos a reflectir ‒ simplesmente porque ‘não podemos fazê-lo’. Do mesmo modo que não poderíamos travar um comboio em andamento sem maquinista e sem travões, apenas colocando-nos à frente dele. Se uma imagem se adequa como nenhuma outra ao mundo de hoje, essa imagem é para Soromenho Marques a deste comboio em alta velocidade, entregue à inércia avassaladora de apenas avançar. ‘Temos de ter o realismo de perceber que há duas dinâmicas com ritmos diferentes, e a do conhecimento científico é incomensuravelmente mais veloz do que as da regulação destes processos’, alerta. ‘Precisamos da ética mais do que nunca, porque o comboio não pára. E, se não queremos ser esmagados, temos de ser capazes de perceber onde está a raiz da inércia, encontrar o sítio onde está o travão, e travar o movimento a partir de dentro’. Para este filósofo, não vale a pena iludir-se. A evolução tecnológica é um dos aspectos centrais da nossa economia, e os milhões ‘estão à espera de se reproduzirem’. O grande mercado somos nós ‒ a biologia, a bioengenharia, as tecnologias do controlo, a manipulação de dados e dos processos de pensamento, a moldagem da opinião”. Esta preocupação dos filósofos, que entram em cena, ‒ diz a A. ‒ “é, para Marta Mendonça […] mais um nicho de mercado, onde os filósofos são chamados a ‘detectar as ideias dominantes e antecipar as tendências’, como exímios marketeers. ‘O mercado serve-se da ética para dar lucro, não para se autorregular. E nesta linha estão, por exemplo, as empresas ‘verdes’, que vão produzir para África e deixam tudo arrasado’ ” (ibidem). Continuando a citar Marta Mendonça, diz-nos a A. (ibi, p.61): “ ‘O mercado serve-se da ética para dar lucro, não para se auto-regular’. Não é por acaso que gigantes como a Google estão a contratar filósofos”. Prossegue a A. referenciando a mesma docente (ibidem): “ ‘O regresso ao passado da Filosofia não é mera erudição, ela dialoga vital34


mente com o seu passado, porque os grandes filósofos são interlocutores de todas as épocas’. A clássica interrogação pelo sentido ‒ ‘qual o sentido disto?’ ‒ está mais vigente do que nunca, concorda José Pedro Serra. Embora a aceleração do ritmo histórico faça com que a pergunta venha tarde e nos encontremos já na fase de ‘minimizar os danos’, frisa Soromenho Marques. Vale a pena, afinal, voltar às origens e ouvir o que disse o primeiro dos filósofos, Tales de Mileto, antes de cair no poço: ‘O maior é o espaço porque dentro dele cabe tudo. O mais veloz é o intelecto porque passa através de tudo. O mais forte é a necessidade porque domina tudo. O mais sábio é o tempo porque tudo revela’ ”. ‒ Hoje, em que ‘a vida passa a ser objecto de poder e da política’, a Filosofia ‘deveria desejar romper esse silêncio, encontrando as palavras que permitam dizer estas experiências-limite’ ‒ as margens da narrativa histórica ocidental. A Filosofia ‒ diz Eugénia Vilela ‒ não deveria ficar refém de uma história que é apenas a rememoração do pensamento, fechada em si mesma e a reiterar-se sem cessar. Porque, ‘o que hoje parece um facto menor e um elemento marginal para a Filosofia, é na verdade central no que toca a configuração do que somos enquanto humanos’. A questão dos deslocados, a chamada crise migratória europeia interpela-nos e define-nos, e ‘surge no imaginário pós-colonial europeu como o fantasma da invasão dos territórios, da contaminação, da imunização e da segurança’. ‘Este é o ruído surdo da história a que a reflexão filosófica não tem dado atenção’. Um ruído surdo que ouvimos, como se não ouvíssimos, em que a deslocação humana passou a ser um gesto criminalizado. ‘Hoje, criamos uma forma singular de dar a morte pela paragem, pela interdição, pela espera e pela imobilização de milhares de pessoas’, tratadas simplesmente como um ‘fluxo’, que é necessário gerir ‒ e o duplo obscurantismo desta expressão, denota, segundo a docente, a ‘crispação identitária e a cegueira tecnocrática do exercício do poder’, além da ‘desidentificação da história singular dos que se movimentam’. O nosso tempo converte-se ‘num estado de urgência, de excepção recorrente’, em que o contraste entre a dimensão mortífera das políticas europeias e a ‘vitalidade política dos corpos que atravessam o Mediterrâneo’ não podia ser mais chocante e evidente”. (Eadem, ibidem). ‒ Em Maio de 1968, já muitos de nós sabíamos o que era a era geológica do Antropoceno ‒ resultado evidente dos malefícios e depredações, causados pelo Sistema Capitalista Selvagem!... Como é possível presumir que um Regime democrático é compatível com todos estes estragos e monturos de lixo e, por outro lado, o enriquecimento de 1% e o empobrecimento crescente dos 99% dos Humanos!... Agora, é nos revelado, tardiamente, que o cientista holandês Paul Crutzen é que veio a cunhar tal designação, em 1995. O filósofo José Gil ‒ que é aduzido também no art. de Leiderfarb (p.60) ‒ tem toda a razão ao asseverar: “Se os filósofos têm lugar neste mundo, das duas uma: ‘ou o objectivo é desculpabilizar as empresas ‒ tecnológicas, farmacêuticas ‒ de tudo o que possa ser antiético, ou é acautelar erros económicos e financeiros’ (ibi, p.60). 35


Diz, aí, com acerto, o Prof. José Gil: ‘Como não estamos numa era propícia à valorização do pensamento filosófico, a nossa é a era da caotização do mundo e da cancerigenação das sociedades’ (ibidem). Enveredar, nas várias interpretações da situação actual por essa espécie de ‘pós-humanismo’ que o inglês Nick Bostrom foi buscar às especulações das singularidades da astrofísica, acerca desta hipótese diz-nos, com justeza, V.S. Marques, que é simplesmente assustador. É a morte total da ética… uns poucos salvam-se; o resto da Espécie morre, sem saber por quê!... Mas as distopias, as disrupções, os desastres e a progressão dos malefícios e destruições das Alterações Climáticas deixam-nos atordoados, todos os dias. Já não há estações anuais devidamente identificadas ‒ cada uma na sua época. A Agricultura é a 1ª das actividades humanas a ser gravemente atingida!... Entretanto, há duas vertentes em que é preciso reforçar todos os cuidados e preocupações: A) Os populismos (que destróiem cinicamente os regimes democráticos). B) As catástrofes naturais, procedentes das Alterações Climáticas crescentes. Se os icebergues da Antártida continuarem a desfazer-se, dentro de duas ou três décadas teremos as águas marinhas a extravasarem os litorais e a subirem ca. de 50 ou 60 metros, em linha obliquada!... A partir de um novo Livro do filósofo José Gil (edit. pela Relógio d’Água), (um volumaço de ca. de 500 pp.), o Autor elaborou um artigo deslumbrante, titulado ‘Europa: Utopia ou Distopia?’, que foi publicado no ‘JL’ de 4-17 de Julho de 2018, p. 27 (não pp.18 e 19, como é anunciado na capa da Revista). Vamos transcrever e assinalar, aqui, tão só dois temas importantes: A) A U.E. indefinida: “A edificação do espaço europeu, sem ter chegado a uma definição jurídica da ‘nação’ e do ‘Estado’ europeus, favorecendo a hegemonia económica da Alemanha, desenvolveu desigualdades e criou uma tensão permanente entre os 27. A Europa ideal justa, solidária e igualitária, defensora intransigente dos direitos humanos ‒ que circula nas diversas narrativas utópicas ‒ não existe” (ibi). B) Populismos: “No entanto, é também possível aceitar que, face ao crescimento exponencial dos movimentos populistas na Europa, e ao descalabro político, em que se encontra a União Europeia, seja provável que as narrativas utópicas conhecidas não passem de sonhos irrealistas e inúteis, quando não nefastos” (ibidem).

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ÍNDICE

‒ N.B.: O Ser//o Ente// o Nada (néant) ……………………………………………p. 1 ● AS TRÊS FONTES DA CULTURA OCIDENTAL …………………………..p. 2 ‒ Dinheiro e Corrupção ……………………………………………………………p. 4 ‒ O Objectivo-Objectualismo na Escrita …………………………………………p. 5 ‒ Que Futuro para a Europa no Mundo? ………………………………………...p. 6 ● ‘GOD ON TRIAL’ (DVD) ……………………………………………………….p. 7 ● PÓS-MODERNIDADE: Expressões e Resistências ……………………………p. 9 ● Os vícios do Parcialismo …………………………………………………………p.11 ● Pós-Modernidade positiva e crítica ……………………………………………..p.12 ● FORMAÇÃO INICIAL DOS IMPÉRIOS ……………………………………..p.16 ‒ Como nasceram e cresceram, historicamente, os Impérios? …………………. p.18 ‒ A TINA como a única solução …………………………………………………...p.20 ‒ Sobre o estado actual catastrofista do Mundo ………………………………….p.20 ● O BÉBÉ DE MÂCON ……………………………………………………………p.21 ‒ O Itinerário é percorrido em três actos …………………………………………p.22 ‒ Um Apontamento sobre os ‘Media’ ……………………………………………. p.23 ‒ Ainda o Sebastianismo?!... ……………………………………………………….p.24 ‒ As Bases Psico-Sócio-Antropológicas do Regime Democrático ………………..p.26 ● A FILOSOFIA COMO PRINCESA DOS SABERES E DAS CIÊNCIAS …...p.29 Manuel Reis (Presidente do C.E.H.C.). Lillian Reis (Secretária do C.E.H.C.). Guimarães, 10 de Julho de 2018.

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Contra a Cartilha Tradicional  

Contra a Cartilha (Ideológica) Tradicional do Objecto-Objectualismo - Manuel Reis

Contra a Cartilha Tradicional  

Contra a Cartilha (Ideológica) Tradicional do Objecto-Objectualismo - Manuel Reis

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