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Agradecimento: Quero agradecer a boa vontade e o empenho do meu amigo André Abílio, do nosso querido diagramador Luiz Carlos Lopes Gomes ( Ratinho) e da minha mãe Neusinha Siqueira que me ajudaram a organizar este livro em homenagem a meu avô Walter Siqueira. Lara Martini Siqueira Rodrigues Almeida

Livro “Pedaços de Mim” Crônicas e versos preferidos Obras do Autor •Caderno de Versos – Walter Siqueira •Teto Doce com pseudônimo de Flávio Augusto •Médicos Pacientes e Pacientes Impacientes em parceria com Sebastião Siqueira •Nossos Amores -em parceria com Sebastião Siqueira •A arte de ser médico –-em parceria com Wellington Paes •Os quatro da ACL na ABL - em parceria com Wilson Paes


Expediente:

Criação de: Lara Martini S. R. Almeida

Colaboração: André Abílio Neusa Siqueira

Edição- Ilustração e fotos Neusa Siqueira

Projeto Gráfico: Luiz Carlos Lopes

Revisão: Neusa Siqueira

Capa: Neusa Siqueira e Lclopes Campos dos Goytacazes/RJ Outubro de 2009

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Índice Prefácio = José Gurgel dos Santos Bate-bola com Dr. Walter Siqueira PARTICIPAÇÕES Premiações: Perfil De Janota a Flávio Augusto Sobre ser Leão: O livro de uma vida Leonismo: Um emblema no coração A montanha de Esmeralda Leonismo em Safira Leonismo a Gosto de Todos Meu avô fundou o Lions (Diana) Vovô (Luiza) Meu avô lindo (Lara) Sobre a sua Medicina: Um médico Os médicos sem máscara no pódio Dia se São Lucas e dos Médicos Como irritar um médico Paciência, Doutor! O jeito de cada um... Suas crônicas e artigos: De ser criança O mundo é da criança A emoção é sua... A primavera chegando! O céu não tem hora... Aproveitar o dia Branco Pega na mentira!!! Luma na minha cama! Quando velhice chegar Deus não envelhece.... Ao talento dos jovens! Otimizar e ser feliz! A inveja matou Caim...

Praia mulher... Nós, os lunáticos.... Conversando com a lua O gago é um normal Andar a pé... O segredo de página 51... Prosa poética... Quando o dia é triste! As Notas Musicais Faça uma prece pela paz! Reserva Suas Poesias e Trovas: A paz Coração Devagar... Pronome Pessoal Só você Canção do Cotidiano Meu Canto Cântico Rotina O homem-século! Selenita Herança Quero ser Trovinhas: Vida Saudade Fraternidade Anjo Jesus Das netas: Neta Princesa Vem cá Luiza... Lara

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Menina-estrofe Sobre a Maçonaria: Meu Irmão Maçom Sobre ser “imortal”: O templo da imortalidade “Imortal” só de Academias Os Quatro Imortais Campistas na Academia Brasileira de Letras O céu dos imortais “Teto Doce” vitrinado Expressa...mente Eu, Flávio Augusto e Dona Arlete Pai Meu Pai, Meu Mestre! A bênção, mamãe! As Mães de Maio e de sempre... Para Walter (Tião Siqueira) Apresentação de um artista: Falando em Grego... Prefácios de livro de amigos: O ritmo da rima: “da voz que não quer calar” Figuras Inesquecíveis O Brummel dos meus tempos! O alumbrado Vilmar Readaptação Profissional: Mito ou Realidade como Direito do Trabalhador? Crônicas e Artigos Interessantes: “Estou com pouca pose...” Em defesa do “Reo” O salva-vidas A espingardinha O vestido azul

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O canto de Poli... Sobre o Tempo... (Sophia Mello Andresen) Seja (Douglas Malloch) Os Cisnes... Coríntios 13 (Paulo de Tarso) Passar (Olegário Mariano) In Memorian: A memória do coração “As árvores de Afrânio” Raul “elegeu” D. Diva Goulart... Guerra Ganhou a Paz Dr. Philippe Uebe “O Walter Eterno” ... Cordeiro com Deus... Barreto “virou” estrela Jamil Abdu era assim... Até logo, companheiro! Prefácio do Livro de Wilson Paes As Preces do Adeus Começar de novo...vai valer a pena... A vida aos 80! Meu Pai (Neusinha Siqueira) Recordar é viver...


Prefácio O livro “Pedaços de Mim” do Dr. Walter Siqueira pode ser visto de diversas formas: Como um antigo circo que visitava a cidade e que nós ansiávamos pela estréia, em busca de luzes, das novidades, das cores que pudéssemos amanhã ou depois imprimir em nossas vidas... Também pode ser visto como um supermercado que se instala cheio de novidades, de departamentos, aonde vamos e voltamos em busca de produtos novos que possam nos saciar nossos desejos de consumidor. E, em cada prateleira, em cada gôndola, nos deparamos com a surpresa, o inusitado, o diferente da embalagem, o sofisticado, o intrincado que perdemos tempo em decifrar, e quando deciframos nos alegramos com temperos e sabores nele encontrados. Pode ainda, o livro do Dr. Walter Siqueira, ser comparado àquela faculdade onde buscamos aprimorar conhecimentos sobre a matéria que ansiamos cultivar de maneira firme e abrangente. E, cada página, cada aula, é um novo aprendizado com um mestre vivido e hábil na sua comunicação. A erudição, a cultura, marcas que o mestre acalentou durante sua rica vida, e que transmite com a vivacidade nas suas crônicas ou poesia são fontes cristalinas e saciadoras da nossa busca incessante do conhecimento, da leitura por prazer... É saboroso descobrir no espetáculo do seu livro, piadas divinas de grandiosos ou reles picadeiros. Nas gôndolas de produtos mis, as tocantes homenagens que o autor presta a inúmeras figuras da sociedade campista. Poucas, mas tocantes lembranças da infância, da mãe, da adolescência dos sonhos... e notáveis crônicas sobre a vida, a medicina, os clubes e academias selecionadas pelo autor que nos brinda ainda com páginas marcantes de autores 7


que selecionou para, de tão belos não serem esquecidas por aí... E finalmente, nos corredores e nas salas de universidades, o texto filosófico arduamente estudado, que redundou em verdadeiras lições de vida para todos aqueles capazes de se desprender do egoísmo e descobrir filosoficamente, do Dr. Walter Siqueira, uma vida de altruísmo, de fraternidade, de lirismo, de amor, enfim...

Walter Siqueira Pedaços de Mim

José Gurgel dos Santos

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Bate-bola com Walter Siqueira Médico Otorrino, poeta e escritor. Casado com a Assistente Social Maria Diva Martini Siqueira com quem tem 3 filhos e 3 netas. É sempre solicitado para os principais eventos médico-culturais.

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1- O campista-capixaba: É verdade! No Espírito Santo nasci, Sou campista cidadão Foi aqui que eu cresci, Onde está meu coração... 2- O médico... Sou formado em medicina, E nela, está meu prazer. A vida com ela me ensina O meu modo de viver. O meu fascínio pela “arte de ser médico” resultou até em livro-parceria com Dr. Wellington Paes. O que sei leio e aprendo diariamente, são suficientes para entender e orientar os que me procuram. É o meu sacerdócio há 50 anos completos de profissão. 3- Os hábitos Muitos hábitos eu tenho Eu uma ou outra mania... 9


Em cada qual me empenho Pra não ter a vida vazia.

Walter Siqueira Pedaços de Mim

4- “O diálogo é o caminho da paz”. Esta sua frase está enquadrada em todas as associações médicas, hospitais, clubes de serviço, etc. em que momento teve essa inspiração? O momento foi o de sempre... E até hoje é verdade, pões não é só o “caminho”, também a verdade, e a vida! E ainda digo: Há muita fraternidade E muitos pontos de luz No caminho, vida, verdade, Do amado mestre Jesus. 5- O pai-avô Tenho três filhos muito queridos e... São três netas preciosas Cada uma jóia rara! Elas são maravilhosas Diana, Luiza e Lara... 6- E as Associações e clubes de serviço? Sou fundado do leonismo em Campos (1957), com alguns companheiros felizmente ainda vivos. Outros já pertencem ao Lions do céu, a serviço de Deus, do amor celestial. Um dos mais antigos associados da Sociedade de Medicina sou também maçom e trago comigo perpetuada a “Liberdade”, igualdade e Fraternidade...” Pertenço também às Academias de Letras Campista, Pe10


dralva e União Brasileira de Escritores (UBE). Sócio admirador de muitas e agraciado em outras. Digo sempre que sou “imortal”, mas só de academias... 7- Quantos livros editados? Alguns... O “Teto Doce” foi o primeiro, mas já faz tempo. Depois, outros em parceria com os Drs. Wellington Paes e Sebastião Siqueira, como “Médicos Pacientes e Pacientes Impacientes”, “Os Quatros Campistas na Academia Brasileira de Letras”, “A arte de ser Médico”, “Nossos Amores”, e mais... os que estão por vir...

9- E a sua Diva? É a minha dádiva, o meu troféu, a minha esposa-amiga, a minha companheira fiel, meu porto seguro em todos os momentos da minha vida. 10- Sua mensagem aos leitores... Coloquem o amor em primeiro plano! Ele convoca a esperança e a fé para o triunfo da caminhada seja ela de que tamanho for...

Walter Siqueira/ Médico otorrinolaringologista Diplomado pela Faculdade Fluminense de Medicina (U.F.F) 11

Walter Siqueira Pedaços de Mim

8- Os amigos? Amo a convivência com os meus amigos e companheiros. A fidelidade, o carinho, a cordialidade e as descobertas do dia-a-dia nos unem e fortalecem a beleza da amizade.


Participações • Sócio fundador do Lions Clube de Campos (1957) • Membro e Venerável da Loja Maçônica Progresso • Membro da Sociedade Brasileira de Médicos e Escritores

Walter Siqueira Pedaços de Mim

• Membro da UBT (União Brasileira de Trovadores). –Capítulo Regional. • Membros da Academia Predalva Letras e Artes. • Membro da Academia Campista de Letras. • Membro da I.W.A (Internacional Writers Association). • Autor de crônicas e artigos médicos publicados nos jornais: “Banana Society” e “Monitor Campista”. • Autor de artigos médicos publicados nas revista: “Impacto Health”, “Saúde Press” e Medicina e Saúde”. • Sócio Benemérito da Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia-SFMC/2005.

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Livros Publicados e Participações Especiais

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Walter Siqueira Pedaços de Mim

•“Teto Doce”, sob pseudônimo de Flávio Augusto. •“Médicos Pacientes & Pacientes Impacientes”, com Dr. Sebastião Siqueira. •“Nossos Amores, com Dr. Sebastião Siqueira. •“A Arte de ser Médico” (diga 33), com Dr. Wellington Paes. •“Os 40 Imortais campista na Academia Brasileira de Letras”, com Dr. Wellington Paes. • Partícipe da Monografia de Dr. Lourival Martins Beda: “Atos de Um Homem”, pelo Dr. Jorge Renato Pereira Pinto. • Contra-capa (Depoimento) sobre Dr. Fhilipe Uébe, de autoria do Dr. Jorge Renato Pereira Pinto. • Apresentação para o livro do Dr. César Ronald. • Do “Principado das Letras” (Academia Pedralva/2005) • Colaboração “Prosa e poesia para uma homenagem” – sobre o Liceu de Humanidade de Campos/2005 • “A voz que não quer calar” (de Heloísa Crespo) Prefácio. • Prefácio do livro da prof. Layse Cardoso: “Sem Asas para voar”.


Walter Siqueira Pedaços de Mim

• Apresentação do livro do prof. Hélvio Santafé: “Brommel, o Societe que Eu Vivi”. • Apresentação do prof. Wadir Henriques de Souza: “As Drogas Matam Nossos Filhos”. • Prefácio do livro “Figuras Inesquecíveis”, do Dr. José César Caldas. • Apresentação do livreto do artista plástico Silvio Grego. • Apresentação da Mostra do artista plástico João de Oliveira, sobre o “Índio Goitacá”. • Participante do grupo editorial do livro “Os 80 anos da SFMC (Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia)”.

Premiações: • Vencedor do XXX Concurso de Trovas na casa do Poeta Niteroiense: “A vida pra ser vivida/ Infelizmente é assim/ Quanto mais quer a vida,/ Mas a vida chega ao fim!” • Prêmio “Maria Sabina” (Niterói-RJ) com o poema “Cântico”. • Frase: “O diálogo é o caminho da paz”, adotado para a sala de reuniões e estudo “Dr. Beda”, da SFMC (Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia) • Frase: “Faça todos os dias uma prece pela paz”, adotada pelo Lions Club de Campos para confecção de adesivos. • Seleção do poema “Reserva”, no III Festival de Poesia (Campos-RJ). • Publicação do poema “Meu Irmão Maçom”, na revista dos 30 anos da Loja Maçônica Progresso. • Homenagem ao poema “Velho Liceu”, pela direção e alunos do estabelecimento. • Participação e seleção em “Talentos da Maturidade, nos anos 1999, 2000 e 2001, em Literatura. 14


Perfil- Jornal Banana Society

1990-

O Médico “Tenho verdadeiro fascínio pela Medicina. Sei pouco, mas leio muito. E o que eu sei e leio dão pra entender e orientar os que me procuram... Faço isso, há mais de trinta anos e dou até motivos a que alguns amigos, colegas e companheiros censurem a minha religiosa pontualidade no consultório”.

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Walter Siqueira é otorrino, cronista, poeta, capixaba, nascido nos anos trinta, marido de Maria Diva Martini Siqueira, a esposa amiga. Produziram três filhos: Neusinha, Publicitária e RP de Mídia, Sérgio, engenheiro que estudou nos States, Neide, formada em Ciências Contábeis, era fazendeira hoje é empresária, mãe do xodó da família: Diana, a única neta super amada. Criatura queria em todas as alas, Siqueira sabe lidar com agudeza de espírito de “a” a “z” saindo-se bem em todas as questões, em qualquer nível. Homem viajado que nos anos 60 pousou de colunista social no Monitor Campista, talvez daí tenha tirado o grande traquejo que tem na vida. Versátil, gosta de música clássica e popular, do samba ao jazz. Grussaí é sua paixão, seja inverno ou verão. Publica brevemente: “Médicos Pacientes e Pacientes Impacientes, estórias que se passam em ambulatórios e salas de espera.


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Viagens “Ainda não dei a volta ao mundo (embora ele já tenha dado muitas voltas), mas conhecendo os continentes, dá pra avaliar alguns pecados cometidos contra o Criador do Universo e aquilatar o seu amor pelo Brasil “coração do mundo”, Pátria do Evangelho” (Humberto de Campos). Coloco sempre na pauta de viagens, a participação em congressos, colóquios científico-culturais e cursos de especialidade. Além disso, sempre acontecem inesperados e acompanhado um outro companheiro que passa mal em viagem, a uma clínica ou hospital. E isso aconteceu agora mesmo em Israel e na Grécia, mas, eu não perco a esportiva ainda peço pra visitar as instalações como fiz na cidadezinha de Dubrovnik, na Yugoslávia ano passado. E adorei ver os colegas e enfermeiros de tamançoes brancos e um sentido muito respeitoso pelo estrangeiro que os visitam.” “minha fama de gozador já foi interpretada. É que muitas pessoas não entendem algumas coisas que digo, ou porque são inopinadas e rápidas, ou porque são de jeu-de-mots (jogo de palavras) e também porque são de um dicionário próprio de algibeira e aí me denominam “gozador” e como gosto de sê-lo, embora não seja filatelista.”

Religião “O princípio filosófico de liberdade, igualdade e fraternidade, e a instituição filantrópica, educativa e progressista que é, fez a maçonaria entrar em mim e eu nela. O seu secretismo, que abalou dogmas e conquistou adeptos mundo afora entre as populações 16


esclarecidas e que pensam, formou o espírito fraternal que nos une. Fui vulnerável (assim como um presidente) por duas vezes e no centenário da Loja Maçônica Progresso. Tenho uma boa graduação na ordem. Também fui presidente do clube dos 50 (congrega maçons de todas as lojas) por três gestões. O amor em plano primeiro. O espiritualismo kardecista me convence, e também porque tenho revelações e testemunhos que me sensibilizaram”.

Seu anjo da guarda: Mehiel

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Os nascidos em 15/10 são guardados por Mehiel, (Merríel) anjo guardião - no. 64 e tem o salmo guia 32. Este anjo pertence à qualidade dos Arcanjos, e é subordinado ao arcanjo (príncipe) Miguel. Esse anjo pertence ao Coro dos Arcanjos. 15 de Outubro: LibraDia da semana- 6ª feira Incensos: Verbena Guinomos - Prithivi. Atributo: Deus vivificador. Algumas das funções deste anjo é proteger contra a raiva, inimizades e acidentes causados por pessoas inescrupulosas e desastradas no trânsito. Favorece aqueles que buscam a sabedoria, os professores, os autores e oradores. Influencia aqueles que amam a leitura, as livrarias e todos que comercializam nesta área. Deve ser invocado para proteger as adversidades, acolher as preces e promessas dos que esperam a misericórdia. Protege contra a raiva e os animais ferozes;


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domina sobre os mares, rios, fontes, expedições marítimas, construções navais; favorece os marinheiros e pescadores. Gênio contrário: domina o convencimento exagerado, as disputas literárias ou o desperdício de generosidade com pessoas que não merecem. O gênio contrário influi sobre as más qualidades físicas e morais. Horário de Invocação e Salmos dedicados ao seu Anjo Cabalístico: 21h00 às 21h20Pingar gotas de seu perfume preferido ao redor da vela. Pedido: com suas próprias palavras. Salmo 32, Versículo 18 em voz alta: “O Senhor cuida daqueles que o temem e daqueles que esperam por seu amor.” Agradecimento: ensinar palavras a uma criança. Prece: Mehiel, espero que utilize meus talentos na instrução dos homens sobre as verdades eternas. Tudo que adquiri na vida coloco à sua disposição para despertar aqueles que se encontram com a fé adormecida. Minha única ambição é transmitir aos meus irmãos a beleza do universo da fé. Não é uma tarefa fácil e eu só posso desempenhá-la bem com seu apoio. Abro meu coração e minha mente para receber sua semente divina.

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Sobre o Teto Doce De Janota a Flávio Augusto

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Quando eu escrevi a primeira crônica para o Monitor Campista, o Agnaldo ainda trabalhava na linotipia. E eu, já médico formado pela Fluminense de Medicina em 55, fui “dedurado” por um espertinho, ao diretor Oswaldo Lima, de que lá pras bandas de Niterói, eu escrevera algures, umas mal-traças linha, para o “Diário do Povo” do Zé Mattos. Aí já viu né? Oswaldo Lima, experiente, macio e doce, pediu-me que escrevesse também o já centenário jornal ali na rua Direita. Pedido feito e aceito! Apenas ou fortemente uma exigência: “Walter escreve umas coisas de sociedade sebe como é né? Você é diretor do Saldanha... capricha tá??” A cada saída do consultório, lá ia eu com a crônica de “amanha” debaixo do braço deixando-a no balcão com quem estivesse a fim... No papel, o que se publicaria na manhã seguinte: Uma imaginária bossa nova na leitura social do dia-a-dia. Uma simples crônica de abertura, um quarto de lauda mais ou menos com assuntos ligeiros do cotidiano, de clima e acontecimentos locais ou estaduais, uma charge, uma apologia, um saudar, uma data simbólica, festiva ou até de tristeza que fosse. Menções anedotárias, algo pra dizer “bom dia” numa saudação às vezes hilária, contundente, mas evidencialista com eu pensava e até causando “frisson” na platéia leitora. Codinome – Janota! Isso porque o “Brummell” já pontificava no jornal “A Notícia” nas hábeis mãos do professor Hélvio Santafé. Achei o máximo inovar uma personalidade demasiada-


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mente apura ao trajar um peralta, garrido e até pensei que aquela janotice pretensa passasse a ser intérprete do que diríamos por escrito a seguir na crônica cabeça. Ledo engano! Na manhã seguinte, abro o jornal com certa ansiedade e me deparo com um outro pseudônimo ,ou seja, de “Janota” passei a ser “Flávio Augusto”. Pensa bem e comigo: Os Flavius da velha inolvidável Roma antiga e poética, dinastizada em começar por Vespasiano, agora neste século, escrevendo crônicas na cidadezinha dos goytacazes??? Céus!!!!!!!!!! Reflita bem... E ainda Augusto, venerado, majestoso, o imperador romano sobrinho de Júlio César, generoso nas letras, nas artes, ilustre demais para ser eu... Oh! My God!!! Fiquei estupefato... mesmo porque, “Alea Jacta est” – e ousei continuar, mesmo porque eu não iria cruzar o Rubicão, senão mais que o nosso Paraíba, a mágica torrente de Azevedo Cruz, para ir ali em Guarulhos (nome antigo de Guarus) para visitar alguns amigos ou companheiros de lá... Continuei livre, leve e solto, escrevendo uma croniquinha em cima e um abecedário a seguir com observação e/ou apreciações sobre pessoas ou temas do momento. Assim, mais ou menos: A – Antesmente o nosso diretor era Oswaldo Lima, agora é Jairo Coutinho Maia. B – Boa nova pata todo o nosso Monitor que é conhecido como “o velho órgão”, e agora está mais poente e mais novo do que nunca. C – Colunista daqui, são os dois batutas Paula Virgínia e Wilson de Oliveira, colhendo notas em flores para perfumar o dia... D – Dedico esta modesta crônica aos diretores venerizados de outrora e aos abnegados renovadores de hoje. 20


Sobre ser Leão: O Livro de uma vida ( Walter Siqueira)

Prefácio do Livro do Lions ainda a ser editado

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Se eu fosse discursar, mesmo sem possuir os dotes da oratória, por certo usaria o “chavão” daqueles que são mestres na arte de dizer: - “Meus amigos! Neste momento a minha voz está embargada de tanta emoção!”. Obviamente que estou mesmo super emocionado ao prefaciar o livro de uma vida grupal, toda ela pautada de sentimentos cristãos, passo a passo, dia-a-dia, em cinqüenta anos, descobrindo o futuro e vivendo o presente, descortinando idéias e propostas para humanizar os desconsolados, numa convocação de parceiros para ombrear como irmãos numa família de companheirismo. Isso é realmente honroso e por demais sentimental! Foi o que aconteceu: no fortalecimento da conquista, em cada ação comunitária, no improvisar todo instante – viver, vivenciar, acreditando sempre que a vontade gera entusiasmo e prazer. E assim foram os qüinqüênios, os cinco primeiros anos harmonizados e sustentados como o tronco tabuado


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que os representa. E seguindo, nas bodas de cristal, de porcelana, da preciosidade da prata, das pérolas, dos corais, rubis e esmeraldas, até a riqueza do ouro: o cinqüentenário! As Bodas de ouro com a vida! Uma devoção anelada à filosofia do leonismo! Um desejo de socorrer o “que sofre e que é doente...” (tão expressivamente fixado no hino do saudoso Companheiro Faria Júnior), e na consolação, no amor, na justa esperança de alegrar almas e corações. Assim, este livro reporta uma constância de afirmações no significado do leonismo em nós e não em nossa posição dentro dele. Por isso, emociona-me sempre a tarefa de servir. Por isso, me encanta me inspira e me envaidece pertencer a esse grupo de companheiros, que entende e evoca sempre na sua confissão de sentimentos a comunhão santificada de amar ao próximo, no exemplo de servir desinteressadamente. Foi o que fizeram! Foi o que fizemos nestes cinqüenta anos aqui revelados, folha a folha, página a página, no Livro de Uma Vida.

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Leonismo: um emblema no coração Cl Walter Siqueira

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Quando, o espírito leonístico se incorporou à nossa expectativa de servir à comunidade, éramos todos jovens. Na idade do desejo, do fulgor, da vibração, dos grandes anseios. Idade de esperança! Da vontade de ser útil e desempenhar a utilidade dos préstimos na participação do bem desinteressado, com dedicado amor, para também, instintivamente “falar a língua dos homens”, e, se pudesse a expressão dos anjos e interpretá-las no bem-comum. Éramos todos assim: os que fundamos esse extraordinário movimento de agregação universal de servir, os que intermediaram a sua criação, aqueles que partiram para o Oriente eterno. Lacunas inolvidáveis! Criaturas que deixaram sua marca indelével no serviço comum, nos ideais e nas idéias, na força e na coragem, na amizade e no carinho, no afeto e no companheirismo. É no companheirismo! Que saudades! E que lições deixaram, de compreensão e de vida. E ainda os que permanecem vivos em nossos corações, hoje os “Leões” de Deus, a serviço do amor celestial. E, que bem nos fazem os “Leões” de hoje, do Leonismo moderno, que assimilaram e absorveram com entusiasmo o sentido leonístico, integrando-se com as ações e idealizações para a melhor cristalização do nosso lema. Entregaram o seu coração, e mais que isso, doando-o


a serviço da maior corrente clubística de amor fraternal. São também fundadores! Porque conclamam todos os dias pelo que trazem de abnegação e fé, entusiasmo e dedicação, o orgulho que sentem do emblema que ostentam no fundo do coração, fundando a cada dia, cada um deles um Lionsexemplo para nos dignificar eternamente.

A Montanha de Esmeralda Walter Siqueira Pedaços de Mim

Cl Walter Siqueira

A epopéia das bandeiras, traz a história de um rugente “Leão” indomado (Fernão Dias Paes) que palmilha com seus companheiros o garimpo de todos os dias, por um caminho íngreme, difícil, mas esperançoso o encontro da serra das esmeraldas. Tempo que se perde na imensidão do calendário, e, aqui, vanguardeiros campistas, peroleiros do servir desinteressado se formam, aglutinam-se e envolvem-se em elos de correntes fraternais e amigas para criar em companheirismo o Lions Clube de Campos. E, em alvorecer de sóis e céus e grandezas de luzes, testemunham um dar e receber interminável sob a égide da Onipotência divina... Amalgamam-se as realizações, os objetivos se fundamentam, os métodos e afazeres se concretizam nos deveres com a cidadania e no amor ao próximo... Os passos seguros vão fazendo idade, vão contando tempo, vão criando raízes e espaços, vida e sensibilidade, coração e afetos triunfos e virtudes na credibilidade da caderneta dos anjos de proteção. É o Leonismo marchando com orgulho impetuoso sem se deter... 24


Leonismo em Safira Cl Walter Siqueira

Neste agosto já iniciado do Santíssimo Salvador, nós do Lions Clube de Campos contemplamos Bodas de Safira com a vida do leonismo, ou melhor, com o leonismo que dá vida: uma associação internacional, que adotou o lema de servir desinteressadamente num movimento extraordinário agregado universalmente pelo bem comunitário. Homens e mulheres apenas diferenciados nas profissões, mas integrados na vontade de oferecer a qualidade de vida ideal, melhorando aqui, pedindo ali, voluntariando outros Companheiros, conhecidos, amigos, parentes, vizinhos, colegas e todos, numa envolvência só: a de querer o bem. Hoje, como sempre digo, os nossos passos fizeram idade! Contaram tempo e, por isso mesmo, criaram fortes raízes e espaços em realizações amalgamadas nos deveres com 25

Walter Siqueira Pedaços de Mim

As esmeraldas esperam! É verde a sua esperança modelada na virtude teologal. Vamos chegar ao topo da montanha desejada... 40 anos de sonhos, quimeras, fascínio e abnegação Bodas de Esmeralda com vida! Mas, oh. Meu Deus! E onde estão as esmeraldas que reservastes para nós? Saiba Senhor de todos os céus: Estamos aqui! Sobreviventes de uma faina de bem comum aliados na fé e coniventes na caridade. Dá-nos a montanha do amor, para que continuemos amanhã servindo à vida pelo bem dessa esperança.


Walter Siqueira Pedaços de Mim

a cidadania e no amor ao próximo. Como diria, hoje, se estivesse entre nós o nosso mentor e fundador o saudoso companheiro médico Barbosa Guerra sobre o nosso “Leonismo em Safira”, uma preciosa pedra azul que nos presenteia como referência e símbolo nesses quarenta e cinco anos. “Azul, Azul, espacidão de estratosféricas matizes unicamente azul, toda a visão, abrange um quadro de azul vernizes, o céu. A terra, o mar todo azulece! Num policromatismo azul color, que, em mil matizamentos transparece. E esta saturação de azul sem par fundindo tradições da mesma cor confunde azuis, o céu, a terra e o mar”. “A terra é azul” – O mundo é azul safira como o leonismo que Barbosa Guerra criou conosco no seu quadro azul de vida vivida pelo bem da vida.

Leonismo a Gosto de Todos... Éramos, na época, todos muito jovens: em torno dos vinte e seis a vinte e oito anos, era o Barbosa Guerra, empolgado e decidido, que como Sadi Bogado conhecia as coisas do Leonismo mesmo antes de ele chegar por aqui. De reunião em reunião chegamos o dia da criação do nosso Clube (6 de agosto de 1957), dia do Padroeiro, ou seja, da transfiguração do Senhor. O Clube de Regatas Saldanha da Gama, ainda na beira-rio (iluminada naquela noite), iluminou-se também para receber aqueles jovens, homens e mulheres de boa vontade e vigor, altruísmo e esperanças, que, após uma cerimônia significativamente importante, tocante e bela, seriam denominados: “Leões e Domadoras”. 26


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Walter Siqueira Pedaços de Mim

Daí o compromisso e a responsabilidade foi um piscar d’olhos. Cada um reservou-se ao direito de cumprir com regularidade exemplar as tarefas cotidianas do “servir” desinteressadamente,e, com justas razões e motivos, interessando-se pelo bem-estar dos menos favorecidos, conforme os básicos ensinamentos emanados daqueles que já professavam essas missões: os nossos padrinhos petropolitanos. Nós fomos tantos e muitos que a gente quase perde as contas, porque também os fomos perdendo... e a saudade e o desejo de tê-los conosco nesses dias de festejos, só se compensam por sabê-los, uns, Leões da eternidade, atuantes do Leonismo do universo sob a presidência onisciente, onipresente, onipotente do Criador de todas as coisas. E tantos outros, ainda que ausentes de nós, privilegiados, amigos e Lions, ou sêniors, usam o que costumamos chamar “o emblema do coração”. Agora são ações em desenvolvimento aqui e ali e até acolá, nos Distritos, fazendo, querendo, ajudando, aprendendo, ensinando, orientando, reunindo, vivendo e crescendo com entusiasmo, e concentrados nos conceitos de vida e o seu maior e importante significado: o amor ao próximo. Por isso chegamos aos 50 anos: ainda com novas idéias e ideais, com projetos e estímulos, hoje incentivados por uma mulher experimentada na vaidade abnegada e firme de propósitos, líder e vanguardeira, a presidente Iraci Eneida. Aquele 6 de agosto marcou época e ainda está marcando, como um agosto de esperanças, como tantos que hão de vir. Estamos aqui, nem envelhecidos nem cansados, mas de certo modo orgulhosos e experientes, cada um no seu jeito de ser e realizar a gosto de tantos, na vontade de que tenha sido e seja sempre assim: a gosto de todos!


Meu avô fundou o Lions

Walter Siqueira Pedaços de Mim

Diana Martini Siqueira Glória Quando meu avô fundou o Lions, nem minha mãe era nascida. Depois que ela aprendeu o que o Lions representa, assim meu ensinou: o Lions reúne pessoas dispostas a servir e melhorar a vida da comunidade em quem vivem, sem ou tros interesses. E, a partir daí melhora a qualidade de vida de muitas outras pessoas e comunidades também. Eu aprendi isso, e vejo que quando o meu avô sai para ir às reuniões nas 2ªs feiras, ele sai disposto a fazer o bem e assim o manter digno perante Deus e aos seus semelhantes.

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Vovô Luiza Azevedo Siqueira

Te amo muito! Luiza (2008)

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Walter Siqueira Pedaços de Mim

Quero te agradecer por mais um ano convivendo e aprendendo com você diariamente. Por mais um ano marcado na minha vida e nas minhas lembranças com tanto carinho, afeto e amor. E lembrar, que a sua presença na minha vida é única! Tenho um orgulho enorme de ser sua neta, devido a grande pessoa que você é!


Walter Siqueira Pedaços de Mim

Meu avô lindo: Lara Martini S.R. Almeida Eu sei muito bem, que sou suspeita para falar sobre alguma coisa que envolva o meu avô. Não só por ser o escritor, médico, pai, avô que eu mais admiro e respeito no mundo, mas também por acreditar em tudo que está escrito aqui. “Pedaços de Mim” são pedaços reunidos do coração e sentimento de vovô Walter, muitas coisas já lidas, e outras novas, mas tudo que continua me tocando e cativando cada vez mais, e a cada vez que leio ...(e saiba que li muito para organizar esse livro). Sinceramente, eu não achava que minha admiração por ele aumentaria ainda mais do que já tive a vida toda, mas a cada nova manhã, eu agradeço a Deus por me deixar conhecer cada vez mais, um pouquinho, um pedacinho desse homem maravilhoso, Walter Siqueira. Amo, admiro, saúdo, respeito, com todas as minhas forças. Lara- outubro 2009

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Um médico

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Walter Siqueira Pedaços de Mim

Ele acorda, sem ter dormido. Afugenta o cansaço na xícara de café bem quente – e vai fazer sua missa do cotidiano no hospital; lá na ala dos crônicos que resistem à convenção do tempo de viver, nas dores agudas e nos subjetivos ais que os analgésicos não debelaram. É uma prece isolada numa comunhão de aflitos. É um confessionário paciente de inúmeras impaciências. Mas, entrega-se com seu hábito de virtude à procura heróica de repelir a dor e desviar a morte, conquistando o expressivo silêncio da compensação. É uma prece constante na rotina que fatiga. Na premência dos seus compromissos, esquece de tudo. Não vê a flor desabrochar-se no milagre da fecundação. Não vê a seiva misturar-se em néctar. Nem pássaros, nem cantos no alvorecer da primavera, nem espera o sol fulgir na janela do seu


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aconchego. Põe-se de pé e sai, ao encontro dos que o procuram e a procura dos que não o encontram. É um médico. Tem alma de artista no seu afago. Tem talento de mestre na hora indecisa de cada um. É o decisor na angústia interrogante dos que lhe confiam. É um moderador de aflições e não vê o tempo passar. Reza o seu terço de responsabilidade ante as ladainhas de informçaões. Fez um juramento: “Sedare dolorem divinum opus est”... Tem a presença de Deus em cada gesto – nos seus preceitos – na sua filosofia de princípios – e, no entardecer dos tempos, descoloriu-se em constâncias e apegos para cingir-se nos apelos dos que em dores fazem sua passagem.

Os médicos sem máscaras, no pódio Tenho conversado com os meus colegas sobre o nosso desempenho e as nossas atribuições na vida médica. Somos competidores? Ou melhor, é uma competição? Acho que não! Cada um tem o seu zelo, a sua contribuição ao trabalho, e ao exercício do dever da sua vocação, do seu empenho, dedicação e amor em afastar a dor, o sofrimento dos que procuram para tanto, 32


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(“sedar a dor é divino”) e até adiar a morte, quando essa virtude nos é concedida. Nos constantes encontros, apressados nas salas, nas alas, nas entradas e saídas de consultórios, clínicas e hospitais, sempre se passa alguma mensagem por menor que seja o calor de um incentivo, um desejo de “boa sorte”. Tenho fascínio pelo que os nossos colegas fazem! Nunca me canso de apreciá-los e manifestar a minha admiração por todos e cada um. São magos, são estrelas, são mágicos, são modestos, são simples, mas fazem, executam, trabalham por um bem comum, por uma promessa, um juramento, uma vontade. Não se massageiam antes (nem o ego, tenho certeza disso!), não entram nas piscinas térmicas e nas duchas, muito menos nas de hidromassagem como senhores absolutos na batalha vida e morte do cotidiano. Não ficam nos hotéis cinco ou de não sei quanta estrelas e quase não dão entrevistas. São recatados? Não, é que não lhes sobra tempo para isso. Não têm os seus passes à venda nem são valorizados em moeda forte. Viajam pouco de aviões supersônicos, e quando vão ali, num ou outro congresso, espicham a verba, porque precisam atualizar os seus conhecimentos. Não têm técnico! Têm técnica. E é ela que os conduzem ao pódio, pela excelência do seu trabalho de amor de “feeling” à Medicina, porque não esperam recompensas, senão as do Grande Arquiteto do Universo que os abençoa a cada dia nas enfermarias do SUS, nos hospitais conveniados, nas salas cirúrgicas, nas urgências e emergências, nas ambulâncias, nos plantões e na vida eterna. Amém...


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Dia de São Lucas e dos Médicos Hoje, dia de São Lucas! É o dia de quem acorda sem ter dormido, e afugenta o cansaço na xícara de café bem quente e vai rezar sua missa do cotidiano no hospital, lá na ala dos crônicos que resistem à convenção do tempo de viver nas dores agudas e nos subjetivos “ais” que os analgésicos não debelaram. É uma prece isolada numa comunhão de aflitos. É um confessionário paciente de inúmeras impaciências. Mas entrega-se com seu hábito de virtudes, à procura heróica de repelir a dor e adiar a morte, conquistando o expressivo silêncio da compensação. É uma prece constante na rotina que fadiga. Na premência dos seus compromissos, se esquece de tudo. Não vê a flor desabrochar-se no milagre da fecundação. Não vê a seiva misturar-se em néctar. Nem pássaros, nem cantos no alvorecer de primavera – nem espera o sol fulgir na janela do seu aconchego. Põe-se de pé e sai, ao encontro dos que procuram e à procura dos que não o encontram. É um médico! Tem alma de artista no seu afago. Tem 34


talento na hora indecisa de cada um. É um decisor na angústia interrogante dos que lhe confiam. É um moderador de aflições e não vê o tempo passar. Reza o seu terço de responsabilidades ante as ladainhas de inconformações. Fez um juramento: “Sedare dolorem divinum opus est”... Tem a presença de Deus em cada gesto – nos seus preceitos – na sua filosofia de princípios – e, no entardecer dos tempos, descobriu-se em constâncias e apegos para cingir-se nos apelos inquietos dos que em dores fazem a sua passagem. (Lido na missa, no dia do Médico).

Quando escrevemos a quatro mãos, eu e o Dr. Sebastião Siqueira, o nosso “Médicos Pacientes e Pacientes Impacientes”, não tivemos oportunidade de publicar estas pérolas cultivadíssimas, que oferecemos hoje aos nossos leitores, conforme recebemos da Internet: 1) Comece a consulta reclamando da demora, mesmo que tenha sido atendido rapidamente. Depois, diga-lhe que ele é o terceiro que você procura pelo mesmo motivo, e que você só quer mais uma opinião, pois não confia muito em médico. Diga também aquela frase clássica: “Cada médico fala uma coisa!” 2) Nunca responda diretamente às perguntas. Se ele pergunta se você teve febre, diga que teve tosse. 3) Leve sempre 3 crianças como você (nem precisam ser seus filhos), especialmente aquelas que mexem em tudo, sobem nos móveis e ficam fazendo perguntas no meio da consulta ou quebram o termômetro dele. 4) Peça receita de um medicamento controlado. Diga que 35

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Como irritar um médico


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não é para você, mas para uma vizinha muito amiga sua. Não esqueça de dizer que ela toma esses remédios há anos e que não fica sem ele, e que você quer retribuir um favor dela. 5) Quando o médico estiver se despedindo de você, na sala de espera, diga bem alto, para os outros ouvirem também: “Vamos ver se agora o senhor acerta!” 6) No retorno da consulta, inicie com “Estou pior que antes”. Aproveite para incluir, no relato, novas queixas. Diga que você passou por um farmacêutico homeopata, muito antigo e muito conceituado no bairro que a sua tia mora, e ele resolveu trocar os remédios. 7) Insista para que o médico tente descobrir a causa daquela cólica que você teve há seis meses, e que desapareceu misteriosamente. Insista em contar os sintomas com riqueza de detalhes. 8) Traga os exames solicitados por médicos de outras especialistas. Se ele for clínico-geral, consiga um eletroencefalograma para ele dar o laudo. Pergunte se ele faria o favor de ver a mamografia da sua vizinha. 9) Descubra onde dá plantão à noite, e só passe a ir lá. De preferências a hospitais públicos onde ele não ganha por ficha de cliente. 10) No final da consulta, pergunte se ele não faria o favor de dar um atestado pois você não “teve condições de trabalho hoje”, ou então, diga que você tinha que resolver uns probleminhas pessoais e não deu para ir ao emprego.

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Paciência, Doutor!

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Ainda da série “como irritar um médico”, tem a daquele cliente que pede todos os exames por conta dos convênios (lógico ou óbvio sei lá) e que ainda por cima, diz coisas assim: “Mas rinite é uma inflamação do rim? O senhor não está enganado não?” Quer uma receita de remédio a flor de zinco (afrodisíaco) e pede ao médico paciente pra não marcar a consulta para terça-feira, porque pode cair num sábado – e sábado o Sr. não está, né doutor? O próximo diz: Na verdade, doutor, eu venho me consultar porque eu tenho um “relâmpago” forte na cabeça, “as minhas fezes são quentes, e a garganta é cansada”, já tomei até “emoção discote” (Emulsão de Scott) que a minha cunhada receitou – e ela é cobra criada e sabe as coisas! E dizem até que ela trabalha com um “medalhão” – não sei se é no pescoço ou no peito – não vi direito... No duro no duro, pra falar pro senhor, eu uso Corega pra colar chapa na boca, e tusso tanto que pareço um bezerro desma-


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mado balançando a cabeça no meio do campo... Minha filha fica falando que eu estou “arterosquerosa”. O Sr. acha isso, doutor? Até não queria tomar o tempo do senhor, sabe doutor? Mas, meu filho chegou em casa muito quietinho, e o boletim dele estava perfeito. Dez em tudo: disciplina ordem, comportamento, higiene... aí, a gente “colocou” o termômetro nele – estava com quarenta e um de febre. E aí? Pergunta o médico. Nada não! Mediquei ele com um cataflanzinho e pronto! Mas a mãe dele, minha esposa, sofre duas coisas opostas: “Catarata no olho” e “gota do reumatismo”, e não quer operar. Mas eu venho aqui, porque eu estou com 38 anos e essa minha sinusite acho que já fez “Bodas de Prata” comigo. Eu vou ficar bom?

O jeito de cada um... Temos doentes de todos os jeitos. Uns são regionalistas. Chegam e dizem: “Estou com o ouvido mouco”. Outros são cautelosos, como aquela mocinha que vai ser mãe solteira: “Estou um pouquinho grávida”, querendo dizer que tem um mês de gravidez. Há os que querem tudo Governo e então pedem todos os exames, mesmo sem necessidade. Outros são econômicos, tomam uma colher de café do remédio ou, se pudessem, pingavam “meia gota” de colírio nos olhos. Há o cliente prolixo que discursa: “O prezado Dr. Não ignora que, tempos dantes, eu objetivaram como o munícipe consultar-me com Vossa Senhoria. Entrementes...” Dele, ao seu paradoxo, o paciente sintético: “Doutor, tenho sinusite!!” – Isso sem falar naquela mulher onomatopaica, que dá som a cada palavra: “Eu tusso assim (e exemplifica) e chio assim, e a garganta me 38


Sua crônicas e artigos De ser criança Ah! Meus tempinhos de criança! Bola de gude, muro pra subir, quintal da vizinha, caixa de papelão imitando o bonde, patinetes, bolas de meia e de gude, correria, “falta de assunto” (dizia-se falta de modos), picolé de uva...- Ah! Os picolezinhos de uva tinham gosto de cuspe, mas eram saborosos mesmo! Quedas (nunca tive muita “queda” pra queda não, mas sempre caía pro gasto), joelhos sujos e arranhados, gulodice, boca suja (de nomes feios, os que me ensinavam e os que sabia de cor e de ouvido, e dos caramelos comprados do barzinho da esquina). Lín39

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arranha assim”. Às vezes fico envergonhado com o cliente mentiroso. É aquele que diz: “Fulano me mandou aqui”. Ou então, o saudosista: “conheci imensamente o seu pai e seu tio de Vila Nova”. Mas não deixa de falar certas bobagens, como: “eu li na ‘bússola’, ou então perguntar se o modo de usar está na ‘pule’”. Gente muito engraçada! Mas, de uma tão grande leiguice, que para levar as fezes com “brevidade” ao laboratório, prefere levalas com “mãe-benta”. Ou aquela homossexual que se irritou porque a drogaria não vendia remédio aviado, ou, em outras palavras: não aviava receitas. Gente que é invocada pra falar difícil e diz: “Tenho anomalia de bifurcação arterial e endoflética”. Eles são pacientes! E nós, médicos, também!


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gua atrapalhada, causando risos e expressões generosas dos amigos lá de casa. E gaguejamentos por medo do cinteiro. Tempinho bom aquele! Fruta roubada, verdes campos corridos pelos pés imaturos, cãezinhos de estimação, vontade de ser forte, de ser gente, de vestir calça comprida. Mania de independência, ou então vontade de ser Pedro Primeiro (como muita gente tem vontade de ser primeiro Pedro, igual a nós que aqui somos primeiro Walter). Lembrança da primeira vez que comemos tapioca, e do dia em que vimos um montão de garças empoleiradas em árvores à beira da lagoa, pensávamos que era um “pé de tapioca”. Santa inocência do menino! Tempo de garoto das recordações tão fartas. Recortes que hoje estão colados no álbum encantador das nossas reminiscências. Vontade de ser médico de pobre e marido de moça rica. Ansiedade compreensível de chegar ao tempo de rapaz, à fase de transição de menino a homem. Rapazes que fomos agarrados aos livros, dependurados aos flertes de muitas namoradas na idade dos versos “água com açúcar”. Rapaz certinho e de comportamento emancipado e virando gente grande. Tempo correndo célere no relógio da vida. Esplendor da juventude. Reflorir da vida! Homens que somos, “pai e avô que estamos abraçados à importância e ao costume de viver”, nem vamos nos ligar à morte, porque ela só nos atormenta o medo de sentir (falta do ar ou do viver). Nem mesmo nos desilude não entrar no céu. Ele é azul da cor dele mesmo, e deve abrigar pessoas assim como a gente que gosta de espiá-lo nas noites enluaradas. “Quando eu morrer, você rasga um pedaço desse céu, e faça dele a minha mortalha”... Vou para ele todinho, de corpo inteiro, encorajado pelo bem que fizemos na terra ou pelo mal que deixamos de fazer. Vamos para ele condicionados pela vontade imensa de conhecer a Deus de perto, e cobrar dele a minha “reserva” no Seu céu de puríssimo azul. 40


O mundo é da criança Walter Siqueira

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“Quando me deparo com uma criança, dois sentimentos me assaltam: Um, de ternura pela sua fragilidade atual; outro, de respeito, pelo que ela possa a vir a ser no futuro”. (Pasteur) E... outros mestres pensaram com mesma emoção: “Saúda aquela criança que passa! Será, talvez, um homem. Saúda-a duas vezes! Será, talvez, um grande homem”. Mas hoje, quantos mais vão pensar como nós? Quantos como nós, almejamos mais que tudo, ser a alegria de um raio de sol a iluminar o mundo, a infundir a esperança onde o seu verde esmaece... Ah! O mundo encantado e encantador das crianças... Mundo de modelações e de sonhos, de participações e afetos, de cuidados e bênçãos, de folguedos, anseios, consolações e risos. E as transparências... os azuis em todo em nada... Quem dera que vivêssemos eternamente crianças... A refletir ao mundo a nossa ternura interminável. Oscular a face plangente dos que nunca puderam ser verdadeiramente crianças! E tocar com os lábios e maciez das palpitações dos irrefletidos. Se pudesse seriamos viçosas flores a eternizar os caminhos


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sofridos da humanidade. Teríamos o dom insinuante de atenuar o porvir atraindo-o para a participação presente dos nossos dias. Dias gloriosos de infância gostosa... Como se fôssemos cores emblemas o amanhecer, como se fôssemos matizes envolvendo o dia, e como anjos vestindo suavidade para contemplar a beleza encantadora da vida sem jamais pensarmos que vai escurecer... E mostrar, que havendo Deus, e havendo um mundo, há, nesse mundo de Deus, crianças participando intensamente da alegria de existir. Crianças buscando afetos... Crianças abrindo os braços para a aurora da vida. Elas que sustentam o lar dos incompreendidos ou dos que não compreendem. Elas que são a surpresa e devotadora ventura dessa complexa estrutura humana que é a família. É por elas que nos detemos por um instante. Hoje! Para pensar. Para vivê-las, para senti-las. Nelas e veladamente e agradecidos aos céus pela sua existência. Para isso nos detemos agora. Um minuto que seja. Uma hora que precisasse. Um dia. Um ano. Uma vida inteira dedicada ao pequenino infante que de criança vai crescer para que tenhamos por ela a admiração e o respeito de Pasteur. – “Pelo que ela possa vir a ser no futuro”.

A emoção é sua... Paulo tinha loucura para conhecer Paris. Ver de perto a “Cidade Luz”, a Torre Eiffel, transitar no Champ’s Elisées, posar para uma foto no Arco do Triunfo, navegar levemente no Bateau Mouche de La Sena (é assim que eles, os franceses, chamam o Rio 42


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Sena...). A emoção era sua... ver a Terra de Napoleão e de De Gaulle. Era o seu sonho histórico, além de ser chique passear no L’Opera, ir ao Folies Bergére. E foi... Quando voltou e desceu cedinho no Aeroporto Internacional do Rio, desembaraçou as bagagens e logo quis vir para cá. Não via hora de encontrar os companheiros e amigos no boulevard. Dito e feito. Por volta do meio-dia e meia já estava no centro para contar suas emoções. Seus passeios e o que seus olhos jamais irão esquecer. Na roda de sempre, começou a contar a primeira impressão empolgado. Foi quando, e de imediato, um colega do grupo o interrompeu e disse: “Eu tenho uma tia que esteve lá em 34 e achou a comida muito insossa...” Foi uma ducha fria! Em 34, cara? Eu estou chegando hoje, em novembro de 2006, fresquinho da silva com tudo na ponta da língua e gravado na retina, pô! E não falou mais nada, nem do vôo maravilhoso, nem do show do Moulin Rouge e a mágica do palco. Disfarçou e foi tomar um cafezinho. Lição geral: não conte os seus sucessos, nem emoções. Eles são só seus. Se você disser que sabe de cor o poema “Amantia verba” de Azevedo Cruz, algum companheiro vai dizer que sabe uma trovinha de Apolinário Barbosa... um trovador lá de Grugumilho. Se você mostra empolgado certidões de nascimento em que os nomes dos seus filhos são todos iguais aos dos irmãos de Jesus, é capaz do seu interlocutor dizer que a vizinha namora um cara que o irmão tem um nome parecido, só que é com dois “erres”. Não se afobe! Não corra, nem se apresse e não atropele na vontade louca de mostrar a alguém algumas coisas que você considera supremamente interessante.Não e não! Ele pode lhe desmontar, e ter uma tia que foi a Paris em 34 e achou a comida insossa.


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A primavera chegando! Ela ficou de chegar logo. Está demorando! Vai desembarcar na terceira estação do ano. Toda risonha, vestindo a vaporosidade do seu próprio nome. Toda florescente, jovem esbelta, encantadora. Cantante e contente da vida, porque a vida vai estar cantante e contente como ela. É, de todas as primas, a mais delgada das que militam e vivem a guitarra imaginária que a gente dedilha nas primeiras vertigens românticas de plena primaverabilidade. E por isso mesmo, a que mais se encanta conosco no caminho esperto da juventude e na reflexão oblíqua do envelhecer. No momento em que a primavera vem chegando, vai também florindo a sensibilidade poética que todos temos e uma frescura nova, fragrante que nos anima a sorrir. Três meses ela ficará conosco, hóspede de nossos instantes, em que vamos olhá-la como quem olha uma prima qualquer... despretencia, mas amorosamente. O “debut” primaveril pode trazer chuva miúda e que vai trazer colheita graúda no ânimo geral da gente, no soluço das primas. Mesmo porque, o momento é aquele pedido, chorado, rezado e cabalado às portas das urnas, querendo borrar as ruas de “santinhos” não bentos nem abençoados, no contraste com os ipês 44


floridos antes da hora, ali no valão e em toda parte para quem tiver olhos e sensibilidade para ver e sentir. Está chegando! Vai chegar! Bem-vinda. Seja aromática, poética, feliz e alvissareira Primavera. Para a emoção de todos.

O céu não tem hora... Walter Siqueira Pedaços de Mim

Hoje, estou recostado numa rapidez voativa. E só daqui, posso aerizar minha dúvida, na divisional idéia daquele camarada que retalhara o céu em quatro partes: Eis-me daqui, dividindo-o agora nas quatro zonas tal e qual o imaginativo andarilho planiciano. Lá está – azul natural de um lado; azul fosco do outro. Cinza entardecente pelo boreste e idem plúmbeo, carregadíssimo, chuvoso; atemorizante, amedrontador, lá pelas olhadas à direita da nossa dúvida flutuante e vacuolar. O céu terá apenas 4 partes? Sei lá, sei apenas que a meninazinha do lado pergunta no meio de uma chuvarada assustante: 45


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- “Titio, que hora ‘a gente chegamos’, no céu”? – Esfriou a generalidade acompanhante nossa. Pudera! O céu não tem limites... Pelo menos que a gente conheça. Apenas, naquele instante, estávamos dividindo-o disfarçadamente para esmorecer o medo a título de curiosidade, em quatro partes, de acordo com o grau chuvístico climatológico. Nada mais! O céu é misterioso, e não tem hora pra receber a gente. Por isso mesmo, evoco sempre ao Grande Arquiteto do Universo: não sei se posso, se devo, mas peço; como filho, como irmão, como amigo reserva um pedaço deste Teu céu de infinito azul, tão majestoso e divinal abrigo, para, quando, Tu não me quiseres mais aqui eu possa ir, ungido e abençoado por amor - morar Contigo.

Aproveitar o dia “De repente, não mais que de repente”, somos um corpo que se move com os seus mais de 500 músculos. Se reveste, se impulsiona, se alimenta, se regula e elimina seus resíduos. Mas, nem sempre o dono do corpo toma as necessárias providências para que todas as coisas sejam perfeitamente equilibradas. Abusa do sal e do açúcar, dois malvados “venenos” da saúde! Come em excesso, mesmo sabendo que os excessos são prejudiciais. É que eles devem ficar para ocasiões muito especiais, trocando-os por uma alimentação normal sadia o quanto for possível, ingerindo boa quantidade de água, fonte da vida e, por conseqüência extremamente necessária ao organismo. 46


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Por isso mesmo, temos os cinco sentidos (a visão, o tato, o olfato, a audição e o paladar) e quem sabe temos até seis ou sete, exatamente, para avaliar e equilatar onde estamos fugindo das regras básicas do viver, levando todas as nossas dúvidas e possíveis certezas ao sensor sensitivo do sexto ou do sétimo sentido para filtrar e tirar, com imparcialidade, nossos errinhos cotidianos. Sejam eles ligados à higiene comum, com a falta dela. No abuso da saúde, na alimentação incorreta, ou nos hábitos sexuais em desavença ou até no uso do fumo e de bebidas alcoólicas (muitas vezes, formas errôneas de disfarçar ou escapar de um ou outro nervosismo produzido por cansaço, imaginação, sugestão ou fraqueza). A vida é para ser vivida. De preferência, e evidentemente, com muita saúde, muita paz e tranqüilidade. Quando nos afastamos dessa hipótese todas as teorias, encantos e alquimias estão invalidados. Mas, por perto e por certo, sempre haverá alguém, um médico, uma palavra, um amigo - CL., para orientar e reequilibrar todas as coisas. Lembrando sempre que apesar de tudo e de algumas (muitas) coisas, “a vida é bela, e só nos resta viver”... Na verdade, não foi em vão o conselho deixado por Horácio: “Carpe diem” (aproveitar o dia) - A expressão “CARPE DIEM” (aproveitar o dia) é do poeta latino Quintus Horatius Flaccus – Horácio, para os íntimos... - Só por hoje você deve livrar-se de duas pragas: a pressa e a indecisão. Também, ensina o professor LOTHAR SEIWED: “Se tiver pressa, ande devagar”...


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Branco Pensei compor um poema branco com um véu de noiva. E adoçá-lo no insípido da vida com açúcar e depois... Refiná-lo sobre o branco sal da terra sob a luz em bênçãos lá dos céus. Exibir meu poema como um branco colar de pérolas musicado em teclas de branco marfim. O meu branco talismã é estrela da manhã. É lírio, é leite, é dia. É luz indecomposta. É vazio e simplicidade. É clara de ovo, é domingo na semana colorida de gente. É dom. É graça. É graça! Branco é paz e serenidade! É neve esquiada pelos trenós da vida. É ponto parágrafo! É o momento oco que nada se observa. É pluma descansada que repousa no espírito a consolação dos momentos sem cor. Branco é muito mais, porque branco é espera... É hiato da pausa e pausa no hiato. É conforto, é trégua, é pena voando no espaço interminável. É pomba pousando no pombal branco de arrulhos. É tez suave da mulher amada. É pureza e carinho, é candura. É inocência, anseio, e silêncio... Branco é falta, ausência e sinceridade. É extrato puro, é néctar! É com lenço branco que se diz adeus... É a transparência da lágrima. Branco é virgindade, é pérola sorrindo no caminho da vida e na expressão da volta. É límpida manhã no desejo dos deuses. É toalha que enxuga o rosto no alvor da carícia mais branda. Branco, é naturalidade, é cal no ocaso da vida. É a estrofe sem versos do nosso poema descolorido.

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Pega na mentira!!!

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Desde que era garotinho, mesmo sem nada governar, sabia por saber que quem fala a verdade não merece castigo! Sabia também, que os poetas, estrelas, músicos, trovadores, compositores, autores e repentista e até nossos avós, falavam que antes uma verdade amarga que uma doce ilusão. E ainda, aquele “pega na mentira” tão usado e abusado por aí em cantilenas, programas de rádios e afins. Rui Barbosa que não era bobo nem não, dizia que onde começa a mentira principia a infidelidade, e se abre o caminho da tradição. Será que foi isso que aconteceu com a niteroiense Luma de Oliveira? É a pergunta que não quer calar. E é também, um disfarçar de coisas e revelar de outras. Tudo próprio de quem mente e alimenta mentiras para o que, é preciso ter boa memória para não esquecer o que disse antes, o que diz agora e o que dizer depois – aconselha o nosso compartimento cerebral nas cissuras preciosas que tem com cofre sagrado de lembranças e recordações – tanto que nos faz lembrar o Lord Byron que possuía o mais pesado cérebro do mundo e que cantou em estrofes, que a mentira era e pode ser uma verdade disfarçada – talvez uma “bombeirada”, diria eu. É, pode ser! Pode até se acreditar que, por exemplo, uma mulher seja sincera quando não profere mentiras inúteis – e isso não é de nossa autoria, está inserido contextualmente no “Le Lys Rouge” lá pelo vigésimo capitulo em Anatole France. É desonesto mentir, diriam vocês meus pouquíssimos leitores, mas apreciadores e queridos por mim que não minto e não deixo mentir.


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Mas Luma mentiu. Mas, e daí? Eu não tenho nem vocês nada com ela... Mas, que mentiu, mentiu! Traiu, traiu! “Bombeirou”? “Bombeirou”! E é manchete. Não era isso, que ela queria? Desviar as atenções a qualquer preço? A verdade mesmo é que mentirosa (o) não tem crédito nem dignidade, até quando fala a verdade... e tantas e muitas vezes nem é escutada (o). Meu amigo, companheiro, mentor, e tão saudoso Dr. Afrânio Maciel, dizia em trova que tenho guardada no cofre das recordações: “Detesto aquele que mente, Mentira, nem se tiver, Falando meigo pra gente “A doce voz de mulher...”

“Luma na minha cama!” Os meus amigos lá de Niterói, mas que sempre foram daqui, Conceição e Nilo Siqueira, tem uma gata lindíssima, angorá de um marrom acinzentado de fazer inveja e de causa paixão a qualquer gato, Ainda mais que se chama “Luma”. Um dia, seu vizinho do nono andar, enfartou. Hospitalizado, levou por lá entre monitorizado e entubado no limiar desta outra vida, respirando por aparelhos uns 10 dias. Voltou pra casa ainda em restabelecimento e com todas as recomendações médicas e os 50


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cuidados de uma enfermeira pelo sistema home care. “Seu” Roberto era amiguinho da gata, que tantas e muitas vezes deslizavam as patinhas num equilíbrio fantástico e gutural para ir ao apartamento dele, vê-lo e bisbilhotar. Miar, fuxicar e quem sabe até mexericar. No tempo da UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do vizinho, ela se entristeceu um pouco, não tanto para que se descobrisse a causa, mas largou de lado o leitinho da tarde. Agora que ele voltou, ela (A gata) sentiu no ar, o retorno do seu confidente. E, ficou paquerando os movimentos de abrir e fechar das janelas: a dela e de “Seu Roberto”. Até que um dia tomou coragem e foi. Devagarzinho como que engatinhando, mas foi. E lá desceu pelo sofá encostado à parede da janela e alcançou o leite de recuperação do doente, ainda com o soro instalado na veia e o nariz entubado para as necessidades do oxigênio. Ele, quieto, só recebia as ordens da enfermeira e o carinho da dedicada esposa que no momento tinha ido até à cozinha ver qualquer coisa. O paciente resmungava pouquíssimas vezes, mesmo porque estava sedado como convém, para evitar os estresses e aqueles delírios pósisquemia (Isquemia?) De repente ele balbucia e daí, com a voz embargada, molenga, confusa, grunhida e meio enrolada tenta gritar aflito: “Luma está na minha cama!” e repetia isso insistentemente. A atendente que estava lendo o prontuário da medicação dobra-se e pensa: “Ele deve estar delirando!” Não estava não! Era Luma, a gata vizinha, que estava coladinha com ele ali na cama. Claro que não era Luma, a “toda boa” ex-do Eike Batista.


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Quando a velhice chegar Estou ficando velho na cor dos meus cabelos... Hei menino! Aonde vai de tanto correr? Procurar a velhice? Deixe que ela venha a seu encontro.Deixe que lhe venham encontrar todas as coisas boas da vida. A tolice dos dias verdes e novos que eram fulgurantes como astros a iluminar o extenso e esplêndido céu da vida... Agora, a quietude rósea das tardes serenas e tranqüilas; piedosas como se fossem dias genuflexos em prece de gratidão a meia idade. Tão abençoada é a carícia das noites em silêncio e reflexão: amenidades recordadas em lembranças moderadas. Em saudades... Que foi feito dos meus dias de cabelos viçosos? Devo tê-los gasto na precipitada corrida ao encontro do meio ou à procura do fim. Perdi-os ou os conquistei a cada hora? Doce e amarga interrogação! Devo tê-los consumido escrevendo cartas, plantando árvores, recebendo ofensas, distribuindo sorrisos, maldizendo alguém, beijando a hóstia, repudiando a guerra ou desejando a paz... Da primavera, talvez eu tenha recolhido as flores que me foram ofertadas. Esbanjei-me nos anseios da juventude e me perdi no amor da mulher amada ou nos olhos da criança querida. E quem sabe? No ritmo constante do cotidiano – de pernas e cérebro 52


Deus não envelhece... As pessoas não gostam muito de falar em velhice. Alguns louvam aos céus o existir, respirando fundo e dizendo: “A vida é curta, curta a vida”! O que não deixa de ser um slogan dos mais inteligentes e apropriados. Falar de idade avançada, do ocaso, do outono, da noite longa insone, do inverno da vida, são místicas escondidas no âmago de cada um, reagindo como quase se denominou de vergonhoso segredo, para uma sociedade que insiste que é indecente falar do tema. Até os governos têm vergonha dele, tanto que desamparam 53

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a correr pela estrada ganhando bênçãos e nada ofertando. Tão depressa que nem vi a vida passar... Tão célere que nem vi o outono chegar... E de todas essas coisas e todos esses fatos que me fizeram envelhecer, fizeram-me também sozinho. Estou ficando velho na cor dos cabelos... Está restando em mim (de jovem), esse espírito com que me deleito nas íntimas recordações – a simplicidade dos dias que me acompanham na última peregrinação de amor ao próximo esse coração sorrindo de não envelhecer, para compensar a perspectiva de não ter os olhos cansados de ver a vida e de não esperar a morte, de ainda ver estrelas brilhando na noite do meu caminho quando a velhice chegar... E quando for assim, vou repetir Guilherme de Almeida: “Parte e se olhando, da extrema curva da estrada Vires esbatida e turva, tremer a alvura dos cabelos meus, irás pensando, pelo teu caminho, que essa pobre cabeça de velhinho é um lenço branco que te diz adeus!”


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os velhos aposentados, negligenciam suas carências e realidades, só faltando mesmo incriminá-los por serem idosos. Hoje, a realidade precisa ser outra. E a desmistificação dos fatos envolvendo idosos, está por dias. A própria ciência médica, tecnológica e de pesquisa, já está dando largos passos em direção de uma correta geriatria de conceitos, envolvendo a sociologia e a psicologia nas reações mais favoráveis. E os caminhos estão se abrindo para maior expectativa de vida com os horizontes das especializações em transplantes e correções de órgão gastos e cansados, com um leque de terapêuticas abrangendo a gerontologia com descobertas magníficas no campo neurótico e de oxigenação da córtex, isso sem falar dos avanços no emprego das células tronco, para regenerar e aumentar o fluxo da vida. Eu ainda quero ouvir muitos novos conselhos lúcidos de velhos! E dá-los se me for permitido, pelo velho mais velho do mundo que é Deus, e que sempre nos espia a cada dia, com o olhar mais novo...

Ao talento dos jovens! Os brasileiros somos muito jovens... Jovens, e ocupados na tarefa de crescer, e entendendo que a mocidade é o dia que passa e, que nele, se previne a velhice. E nela, quando chegar, ainda se ouve o eco da juventude... O mundo inteiro firma a sua confiança, a sua fé na aptidão dos moços, no talento dos jovens. E confiou nos tempos idos, tanto, que ainda hoje, venera-se com expressiva admiração, aqueles que jovens, fulguraram-se no passado. Beethoven teve seu fulgor na fase juvenil (a patética, sonata ao luar, hino à alegria). Liszt, húngaro, foi menino prodígio com 54


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suas rapsódias. Schubert, austríaco, foi talentoso na mocidade. Suas missas e a imorredoura “Ave Maria” nasceram-lhe em idade muito jovem. Mozart, seu compatriota, aos 5 anos extasiou a todos com um concerto público. Strauss aos 17 anos regia uma das maiores orquestras da Europa e Verdi aos 12 anos substituiu mestres de renome. E, o que dizer de Paganini extraordinário genovês que aos 11 anos deu concertos e compôs sonatas para violinos, que aqueles que ouviam ficavam maravilhados e perturbados diante de tamanha magia extraída dos sons de seu violino. Quanto talento e que magnífica mensagem os jovens de outrora nos legaram! Não é apenas dos adultos que se esperam as conquistas – não é, absolutamente de nós, um pouco maiores, mais velhos, ou mais experimentados, que se exigem as vitórias... De nós, muitos anseiam, esperam ponderações, reservas, discrições, sensatez. Dos jovens, quando pretendemos? Coragem, resoluções, vigor, entusiasmo, respeito, trabalho, estudo, produção, amor, alegria, esperança, e, sobretudo: im-pe-tu-o-si-da-de. É no coração jovem, no rosto jovem, no desempenho e desembaraço do jovem que tudo isso está contido. Nele, é que encontramos os melhores e maiores sinais de paz e felicidade. Que exemplos deram ao mundo Leonardo da Vinci, um sábio aos 16 anos: o maior pintor da sua época. Nunca parou de estudar e foi escultor, arquiteto, cientista e músico. Mas, foi no esplendor da sua juventude que pintou a Mona lisa e a Última Ceia. E Rafael? Pintor e arquiteto romano, que no vigor da sua mocidade deleitou o mundo com a “Santa Família” e tantas incomparáveis? Vamos queridos jovens, compor hinos de alegria e contentamento, com abnegação e trabalho, porque é de vocês o futuro desse país.


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“Otimizar e “ser feliz” Deste que foi criado o termo “otimismo” para dar seguimento à doutrina sistemática de referência ao triunfo do bem sobre o mal, quase meio mundo devia ser otimista. As teorias viventes e fluídicas de vida aceita e digna de ser vivida têm retemperado energia para a sobrepujança vantajosa sobre pessimismo como forma de conquistar o êxito. Em tudo, é verdade, abrindo em clima beatificadamente divino para as grandes realizações. Os criadores foram e são otimistas convictos por isso mesmo. E o Grande Arquiteto do Universo criou o melhor mundo e nos ofertou para que nele infundíssemos paz e esperança, esteios do otimismo. Faço do otimismo um ponto de encontro entre as perspectivas de indecisão e tormento e a bendita certeza da pacificação. E na trajetória de alcançar o alvo está a verdadeira esperança. Esperança de paz que procuramos e desejamos na infinita da desconflagração universal. Schindler, médico e escritor, arregaça as mangas e aconselha ao mundo substituir toda emoção tensora por emoção sadia, aplicando a serenidade, a coragem a determinação, a resignação e alegria como baluartes na necessária cooperação com o inevitável. O dom virtuoso de ser otimista está em nós mesmo. E só a nós, cabe despertá-lo. Transformando todos os pequeninos instantes de nossa vida sadia e útil em grandes momentos de alegria e felicidade. Deixando à margem as mazelas e o inconformismo; as ambições e hipocondríase; os aborrecidos momentos em que o fausto e a riqueza fazem cócegas. Lembremo-nos dos que perdem dos que têm fome e sede, 56


Outubro meu, libra!... Eu sou de ontem! Digo, sou de quinze deste mês, e de um ano antes da revolução de trinta. É só fazer as contas que se chega a um denominador comum. Estou ficando velho, não bem na cor dos meus cabelos, que apenas apresentam uma ou outra faixa etária, digo encanecida pelos sete ponto quatro, e pela repetição dos “digo”, mas, sou feliz assim e de vem com a vida... e por certo, a vida também comigo. E foi o meu saudoso compadre poeta e escritor Edward Rodrigues, que sentenciou: “Nos caos da minha esperança liberto o sol, e descubro que o céu nas tardes de outubro tem a cor da 57

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dos sem teto, dos humildes e dos doentes. Eles encontram sempre no seu sofrimento e na sua angústia um momento de paz e resignação, porque no minuto em que a dor cede, ou a sede lhe passa e um raio de luz penetra o seu canto de dor, é o momento tão chorado que liberdade lhe é o dom mais rico. E aquele instante fugaz é a recompensa do otimismo. O otimismo, pois, está em nós, em nossa bondade intrínseca, como a criança que nasce e que chora, que ri e adoece... que corre e adormece. Com homem que anda, vive, sofre e ama. Ma a vida que é boa e que lhe foi dotada dessa ponderabilidade fortificante, florescente e frutificante que é amar a Deus acima de todas as coisas. Das coisas que nasceram para ser amadas com o extremado amor de um otimismo sadio.


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minha infância...” É um mês que começa primaveril, porque já perdeu a predestinação de ser das urnas, das eleições, e extremamente eleitoreiro - ficou mais livre meu outubro, que como sabem os librianos, já foi o oitavo do ano... Agora, quem o elege sou eu. Eleito por mim para não seu eleitoral, mas vive a sua imparcialidade envolvendo uma porção de abraços certinhos como uma árvore de ipês recheadas de flores, engalanada para enfeitar a vida... O homem comum de outubro atravessa o sol comprido e claro que esquenta o chão das calcadas, das ruas, das avenidas e das praças e aquece os corações em muitas graças e na contentabilidade dos afetos e no calor das afeições mais amigas. Vem assim no meio de tudo e de tantos meses passados. Orgulhoso e melódico, esperto e afinado para emoldurar um final feliz no ano em aplausos e bênçãos... O meu outubro, meu libra é assim: tem sabor de fruto novo colhido de véspera, tem gosto de promessa, tem estilo, tem graça. A graça primaveril das flores perfumadas nos jardins. Por isso, por estar contado e contido aqui, eu lhe rendo graças: é outubro. E, como dizia Raul de Leoni – o meu sereno ser já não se engana com coisas alguma dentro desse mundo. É assim, eu lhe rendo também homenagens, porque conteta-me contentar aos outros, alegra-me ver as pessoas alegres e felizes. E, colho o fruto do poeta friburguense em sua “Gaia Ciência”, como norma de viver: “Cada manhã que nasce cheia de virgindade e adolescência, eu saio para a vida levando uma alma nova e um sorriso na face. Sentido vagamente que esse dia PE o meu primeiro dia de existência...”

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A inveja matou Caim...

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“Inveja é prestar homenagem à superioridade” – (Ingenieros). É que todos se sentem incapazes de competir são invejosos! O rico e o pobre, o magro e o gordo, o casado, o solteiro, o alto, o baixo, de qualquer cor ou religião. Mas ela (a inveja) é sempre injusta sem dúvida alguma... Até porque, os que têm mérito, foram, são e serão sempre invejados! Dizem, que ser invejado é que ser feliz, e “se não me trai a memória” (como DIA o amigão escritor Waldir Carvalho), a frase é de Gonçalves Dias, e por conseqüência, quem não for invejado, por certo, não será feliz. - E será que a inveja mata de verdade e lentamente o invejoso? Sendo um dos sete pecados capitais, um misto desgosto e ódio – em razoes de obviedade pela felicidade, competência, cultura, e inteligência alheia e até mesmo contrariando a caridade uma das três belas virtudes teológicas, que aplaude o bem do próximo, cristã que é o bem que os outros têm aos invejosos convém (uma rima pobre e fraquinha, mas é minha!) me faz até lembrar a trovinha tosca e também do escrevinhador que lhes toma este tempo, que diz assim: Ei amigo não te iludas/ Muita gente é assim: - Faz a traição de Judas/ E tem a inveja de Caim. Caim, digo eu, e está da Bíblia, era o primogênito de Adão e Eva. Agricultou, ofereceu a Deus os frutos da terra, mas não foi tão agradável


como seu irmão Abel. E, num acesso de inveja matou-o. e por isso, Deus o teria amaldiçoado e lhe impôs um sinal: virou nômade. E se diz por aí: “A inveja é a arma dos covardes”, “A inveja é uma... reticências...”Mas o fato é que: “A inveja matou Caim e Caim matou Abel”. E ponto final!

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Praia mulher... Estou me referindo à praia capixaba de Guarapari, ou como diria o saudoso Jacyntho Maia: “um país calmoso e hereditário...” A praia é bem balzaquiana, mas tem já os seus adeptos. O seu feito os contornos, as suas linhas, a sua doçura dão-lhe um conjunto enamorador. Guarapari bota as pernas de fora sem vedetismo das praias cosmopolitas. Respira, brinca, convive e namora a gente nua paquera descomplicada e sadia e no mesmo bom tom das suas garotas esbeltas e sem vaidades. Dela se dizem coisas do outro mundo. Propriedades curativas, milagres da areia preta no corpo da mulher bonita que se empeça todinha no esconderijo do seu pretume beneficente. Cada um conta e canta seus encantos de formosura nas partes iguais do seu corpo bem distribuídos. Há um canto de praia para cada gosto, num pedaço de mar beijando a areia pata tendência e prazer. Praia dos namorados, sossego e poesia para as trocas de juras nas manhãs e nas tardes sem mormaço. Praia das castanheiras no burburinho de gente passando e tomando lugar à sombra das amendoeiras. Ninguém liga ao equívoco porque a tradição é mestra, e ensinou assim. Praia conterrânea, amiga saudável e aperitiva que abraça o mar com os seus braços em semicírculo, como quem num milhão de ânsias e contentamento recebe em troca o beijo da esperança no verde embriagado das suas águas de tranqüilidade gradual. 60


Nós, os lunáticos... Walter Siqueira (médico – escritor)

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Nós nos reunimos lá na casa aconchegante do Dr. Wilson Paes. Eu e toda a minha turma: A de onze, o de nove e a menor de sete. Na tela, os homens esquisitamente vestidos pareciam escafandristas, mas pousavam no seco, dizia Diva trêmula a meu lado. Eram os astronautas Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins, que chegavam a Apolo 11 ao solo lunar num julho, mas em 69, dia 20. Uns, diziam que era mentira, um truque de TV! Que arranjaram uma praia deserta, e fizeram aquela filmagem, etecetera e etecetera. Eu, bobo, peguei o papel de lasquei meio “selenita”: - Lua mirando a face inculta, oculta da Terra. Oculta de quem, será que exulta? Será que exalta, se falta saber, se a lua é do homem que vai, ou dos seres que vêm. Ou de quem – não vai nem vem. Que fica te olhando, lua espremida em quarto minguante... fingindo que tem mais nova ou mais cheia, um quarto de ouro pra teu viajante. Lua espremida tão longe, não ouve... fiquei sem guarida de repente, que houve? Lua crescente quadrante no céu distante da gente, respondendo por quê? Lua mudada mais nova – pedante. Lua que encheu de amor, de gente, de vida, no bem querer – responde que houve? Lua espremida, crescente, tão nova, tão cheia de amor. Lua sem ser. Sem ser a lua que seria de ser...


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Conversando com a lua A lua costuma nos mandar recadinhos cifrados. São bilhetes de luz escritos nas trevas que iluminam os caminhos muito mais que as fluorescentes, em constantes desavenças com os seus inadaptáveis aparelhos irreparáveis. O luar é “cisne branco” (no dizer de Orestes), e é ele que consome todo o tempo disponível das nossas ponderações mais miúdas e acentuadas! É que recolhe das nossas coisas de algibeira os extratos para o segredo do riso constante. É que retira os minutos do pulso de nosso relógio ou vice-versa. É que retira os minutos do pulso de nosso relógio ou vice-versa. É que namora conosco um namorar inconseqüente e terreno-lunar; é o que dispõe dos nossos minutos noturnos numa participação de festa para os olhos, num flerte desinteressado e são, que vale uma eternidade. Os bilhetes da lua são escritos assim, sem gravidade, sem presunção, sem autoridade, sem subterfúgios. Os bilhetes da lua são recados à vida, são palavras do céu que o vento não interfere, porque há um convênio entre nós, há uma condição, um trato, uma espécie de compromisso do qual somos os próprios avalistas... A luz da lua é fluorescente ilimitada, e que a mão do homem quer escravizar em monopólio, mas, ela não aceita porque não quer perder o doce encanto das sãs noites de vigília em contato conosco, no mesmo flerte que nos prende horas a fio, na troca de recados que nos fez tão amigos e tão reciprocamente admiradores. 62


O gago é um normal

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Não vejo problema algum em relacionar-me com gagos. Eles são alegres e felizes. Eu tenho inúmeros amigos gagos. Costumo brincar com eles, dizendo-os espamofênicos. Eles adoram essa brincadeira de nomes difíceis. No duro mesmo, o gago é um disfêmico, com perturbações mais ou menos graves da palavra. Moisés, (aquele que Michelangelo esculpiu em mármore Carrara, e bateu-lhe no joelho diante da perfeição e disse-lhe orgulhoso e com expectativa esperançosa: “PARLA”!)... era gago. Erasmo Darwin, Virgílio e Demóstenes, eram gagos e foram brilhantes. Apenas sabemos que pode haver um desajustamento nervoso. E isso implica às vezes em desorganizar o pensamento, por querer falar e não saber o que dizer ou o que tem a dizer. George VI e Churchill também eram gagos e foram estadistas, sem problemas de preconceito. Muitas vezes, as mães me perguntam sobre os outros tiques corretivos, como os de roer unhas ou usar a mão esquerda. Sempre respondo tudo àquilo que está nos compêndios, revistas, e as coisas que são ditas em aulas e palestras de congressos: criança medrosa deve ser ouvida com atenção e carinho, e mais ainda, não ser recriminada nem dar-lhe a antigo e ultrapassado “castigo do silêncio”. É evidente que estamos conversando sobre gagueira, e não falando daquelas crianças que fisiologicamente “ficam” gagas quando exercitam a fala no período escolar primário ou até mesmo na adolescência. O propósito é o de considerar que uma criança feliz não gagueja... e que ao travarmos com ela a mais estreita amizade, não a exigiremos demasiado e a trataremos com a consideração de uma visita.


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É certo também que sempre que pudermos, vamos colocar a culpa em nossa percepção fracassada, a ponto de repetirmos pausada e desculpadamente: “Fale devagar! Não estou ouvindo direito...!”. O gago gosta de música (temos o exemplo do cantor Nelson Gonçalves) que era um gago taquifêmico, isto é, gago rápido para falar... coisa que é congênita , constitucional, hereditária... Einstien, por exemplo, era gago e gostava de matemática: “Só sei que nada sei...”, disse e não gaguejou ao dizê-lo... Preciso lembrar sempre aos pais dos clientinhos, que as línguas presas representam retardamento e não levam á gagueira.

Andar a pé Da maravilha e do conforto de se aboletar no bojo de um confortabilíssimo carro do ultimo tipo e deixar rodar, é pronto no que se refere à falta de originalidade e ao desejo de alguns. Das virtudes e excelência dessas coisas, já cantaram em verso e prosa, centenas de entendidos deste Tolstoi, já que nunca teve carro, até Zélia e Gorbachev, que tinham choferes particulares. Das excelências do aerodinamismo todo mundo conhece: os falcons e thunderbirds à gasolina azul, as vespas barulhentas, as lambretas (a motor, é claro!) e até as ex-bicicletas à pedal de Sadi Bogado que as elogiou tanto no exercício diuturno de fazer amigos e conquistar platéia até quando se desplebeunizou para a aquisição dos quatro rodas à explosão e acelerador... Mas... Quantos poucos redescobriram o a pé? A flor escondida no canto do jardim... O canto do pássaro no canto da gaiola! 64


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Azáleas encanteiradas e gerânios bicolores nos jardins arrumados, antúrios e begônias repousando sob admirado olhar da senhora segurando a faquinha despretensiosa e com as mãos sujas de terra interjeitando ou comandando o jardineiro que rega suavemente os matizes do seu encanto. E o continuado a pé de ver gente passando, prédio caindo, prédio se erguendo a gente passada por gente que passa e pergunta: “Como passa” “Como vai”... mas continua indo. Andar a pé é nada mais que uma inteira desincompatibilização com as funções mecânicas e freqüentes dos marcha à rés. Dos processos buzinativos, das freadas bruscas, das aceleragens demonstrativas e dos estacionamentos proibidos. Da falta de vagas e dos sinais defeituosos de todos os dias que irritam e despejam adrenalina em excesso no humor cansado que temos. O andar a pé exercita os músculos e refresca a alma. É capaz de desintoxicar as fibras e oxigenar os pulmões, e por que não dizer: Faz-nos descobrir a vida, concedendo a cada encontro uma preciosidade e a cada instante um prazer ressurgido. O a pé tem poesia Poesia incipiente. Especialmente quando se lhe descobrimos os sadios momentos na profilaxia do aborrecimento.


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O segredo de página 51... O segredo de viver feliz está na página 51 do livro “Nossos Amores”, do qual tive a honra de participar com o primo-irmão, colega, amigo, companheiro versátil e acadêmico “imortal” da Academia Campista de Letras: Dr. Sebastião Siqueira. Quem não leu vai ler... O texto trata a simplicidade alegre com que um grupo familiar campista que trabalha em diversificados setores com afinco e denodo zelo e obstinação e numa incrível regularidade, dispondo-se a afastar o mau humor na impressionante tarefa bem humorada de viver... Eles brincam com a vida, no sentido de felicitá-la pela sua exuberância e magnificência. Aplaudem a vida, de palmas cheias, de aplauso intenso... caloroso e incessante! Como o intermezzo da ópera fascinante. Fazem o tudo, de um nada e esbanjam alegria como numa festa iluminada. De gozo... num jogo de olhares em olhos que riem. De sorrisos abertos em lábios que enfeitam o prazer... Em todo momento Na alegria e no contentamento... Brincam com a vida no que ela tem de mais rico e sedutor: O prazer de querer amar o amor. Brincam felizes, porque os que amam são felizes!... Brincam de ser, de ter e de querer viver. Brincam de viver a vida! E o de brincar com ela tem de bom. O ensinar que a vida, precisa ser vivida, Brincando no sério-alegre de viver.

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Prosa poética...

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O poeta emudece na confluência do tempo morto. Há vestígios, apenas, de impregnações coloridas nos seus hoje versos brancos, há mais candura nas resistências que faz na razão inversa dos poemas que fazia. O ritmo, a rima, o compasso, a métrica. Ah! a metrificação... os poemas devem ter liberdade como pássaros! E os poetas também. Sem gaiolas. E tão essencialmente livres como um perfume que se volatiliza num corpo de mulher bonita. Mas os versos são madrugados na ternura da sua envolvência e no anseio suave da sua tessitura. São respingos de chuva miúda maculando suavemente o seio da terra. E os versos mudos do poeta calado são expressões da vida chamando o tempo e rompendo o mundo. São aragens do vento que sopra inconstante, são sopros de brisa vazia no encanto da vida. São restos da seiva que ocorrem no caminho das incertezas. Os versos fazem os poetas em palpitante conjugação de realeza. Eles apenas fazem dos versos suas valvulares omissões, mas a sua poesia se esboça em pequeno sorriso descuidado como os pedaços de sol riscando o céu no caminho da chuva. É descentralização poética, esvoaçante com os cabelos de uma criança vadia. Ah! Os poetas também fazem versos em agonia, em dor, em saudades, em apreensões, no estímulo do cordão que os fez nascer poetas. - e dizem do sofrimento, nos retalhos da sua inconfidência inspirativa, suspeitando na nuvem a iminência da tempestade. Os fiéis da sua balança poética lhes são imensuravelmente infiéis. E os seus versos e perdem como espuma no mar na imensidão das areias.


Quando o dia é triste!

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“Se há remédio para o problema que sobre vocês se abate Que motivo há para o desânimo? Mas, se não há remédio para seu problema, De que adianta vocês se entristecer?” Shantideva Se amanhã acorda no desconforto das incertezas e preocupações vividas na véspera, da madrugada, resta uma fímbria ensolarada e inconstante que cumprimenta “bom dia” e se perde na colméia de nuvens que apagam a instabilidade do despertar em sono de um dia assim. Amanhecer sorrindo um sorriso perolar; despertar cantante em bemóis e sustenidos; acordar com o sol no largo painel matinal; é, ainda, uma das boas e mais belas coisas da vida. Mas, a matinalidade descolora-se nesta inútil manhã de ausências e suspeitas, em que agente pensa e que ficou vazio de vida, desfalcando de ilusões e puro de sentimentos na pauperrimidade amanhecente e virgula que se interrompe na circunvolução de um dia assim. Manhã mal dormida de acordar indisposto que nos envolve num temário de cismas e interrogações, que suprima nosso espirituosismo na envolvente história de seu mau despertar. Manhã acorda comigo em suspeição temerosa de continuar o dia encabulada na caricia infreqüente do sol fugitivo. Manhã de esmorecimento indisfarçável acorda em humor e não espanta o sono das nossas 68


pobres mortalidades físicas. E faz, sem querer, vontade para sorrir necessita corda antecedente. Manhã triste que nos dá uma vontade louca de rifá-la para exetrir seu premio à vontade de ninguém. Manhã desalinhavada de improvisos e contornada de rabiscos inseguros e mal traçados para um dia assim zero à esquerda. Esqueça-o e aproveite a vida...!

As Notas Musicais Walter Siqueira Pedaços de Mim

Que sonhos de valsa são esses...? Ou “Aves Marias” que sonhei sejam de Shubert ou de Gounod, ou até mesmo em forma de Prelúdio como o de Bach, que sem dó nem piedade invadem e me enchem de lágrimas os olhos sentimentalizados pela emoção? Acho que são sustenidos e bemóis de todas as histórias de amor em canções ritmadas que soletramos e cantarolamos sem saber ao certo os graves e agudos, nem as pautas musicais. Ah! Os violões, cavaquinhos, teclados e violas, dedilhados com maestria por musicistas a nos causar inveja! 69


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O fá, lá, dó, mi, que eram ouvidos, e pronunciados e que nos diziam tudo, sentidos e absorvidos que eram, pela candura dos tons da sua musicalidade. Ré que é notável, e não prisioneira... O sol, que suaviza e brilha até pelos dedos inocentes de uma criança... As inúmeras e maravilhosas rapsódias executadas em mi, seja maior ou menor, como se não valesse o seu tamanho nas claves de fá ou de sol. E o sol, brilhante em todas as suas traduções. As de astro rei, divino e encantante, quando expresso nos salões em forma de orquestras e poesias... E a nunca esquecida e última da escala musical, a nota si, que tantas e quantas vezes, deslumbrou a vida dos mais importantes solistas e maestros que o mundo concebeu! Notáveis, essas sete teclas da minha memória musical, tão evocada em anseios e delírios que fulguram numa escala benfazeja dentro do teatro do meu coração, na platéia atenta da minh’alma, também inquieta para saber quem vai ensaiar ou reger senão DEUS, o destino desse apaixonado vocalista e solfejador, que só conhece sem dedilhar os ébanos e marfins das teclas maviosas.

Faça uma prece pela paz! Os horrores da guerra para quem viu de perto o espanto dos que assistiram de longe, está guardado no íntimo de cada um. Mas quem não viu, nem soube interpretar os relatos dessa história triste da humanidade, nem de longe imaginava o que pode representar a intervenção bélica nos quatro cantos do mundo. Mesmo diante do “Se vis pacem parabellum (se quer 70


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a paz, prepara-te para a guerra), regra militar, devemos torcer pela primeira, por óbvio e porque “Jamais houve uma guerra boa ou uma paz má” (Benjamin Franklin), e é conhecido de todos nós de que a conceituação do embate, da luta armada, do ódio, do terror, implantado a muitos e tantos inocentes, parece mesmo ser diabólica a ação de povos corrompidos como único remédio. E, se voltamos da beligerância atual aos tempos que elas começaram, vamos encontrar em Sêneca: “Pior que a guerra, só mesmo a guerra”... Mas hoje, ontem e amanhã como sempre, só quero falar de paz. Ontem, adotamos um slogan simplório em nossos clubes de Lions, que só pregam a paz e o serviço desinteressado de amor ao próximo: “Faça todos os dias uma prece pela paz!”. Na verdade, é mais um pedido do que um enfeite visual, nenhuma mensagem vazia. Vou mais longe: Eu lhe peço! Pare um pouco, dobre o jornal entre os dedos, invoque a Deus e peça muito, mas muito mesmo. Faça silêncio (o silencio também é uma prece...), use a força do seu pensamento, leve-o ao espaço sem fim numa oração pela paz. Assim!!! Agora, pode voltar a ler com estímulo o meu pedido pela vida de todos. A vida precisa de nós, de nós todos! Amém!


Walter Siqueira Pedaรงos de Mim

Reserva

Quando eu te peรงo uma ponta da estrela, Um pedacinho, Tu me dรกs uma estrela inteira de faiscar cintilante, de rara beleza em sua primeira e celestial grandeza para guiar e iluminar meu caminho... Se te peรงo apenas uma face da lua... ela me vem formosa e plena bela e serena cheia de fulgor e tรฃo crescente como o Teu amor por toda a gente! Se quero o sol Astro-rei na sua realeza Eu o tenho coroado intenso e imenso de calor e brilho para aquecer minha fraqueza 72


como se eu fosse Teu único filho!

Reserva Amigo Walter Você cantou a grandeza de Deus como ninguém. Soube tirar da parte visível da criação divina, que ornamenta a Terra, flagelada pelos homens, a essência que encanta os poetas!!! As estrelas, o sol, a lua e, sobretudo, o amor de Deus. “Quando tu não me quiseres mais aqui, eu possa ir ungido e abençoado por amor, morar contigo”. Estes versos me comoveram. Na realidade, tempo de nossa permanência na terra não é nosso. O tempo é Dele. O nascer e morrer estão inseridos em Suas leis justas e sábias. Amigo Dr. Walter Siqueira, você está vivendo um tempo de rara inspiração. Aproveite-o. Abraços do amigo, Dr. Rubinho Fernandes. 73

Walter Siqueira Pedaços de Mim

Oh! Meu Deus de bondade de amor e perfeição! Oh! Grande Arquiteto do Universo... Não sei se posso, se devo, mas peço: Como filho, como irmão e como amigo Reserva um pedaço deste seu céu de infinito azul Tão majestoso e divinal abrigo Para quando, Tu não me quiseres mais aqui Eu possa ir, ungido e abençoado por amor, morar contigo...


Sua Poesias e Trovas A paz Walter Siqueira Pedaços de Mim

A paz está Na oração dos céus nos pingos da chuva que escorre sozinha nos cantos do mundo!

A paz está luzindo nas estrelas, na seiva que orvalha as flores se abrindo...

A paz está em mim em você, no homem que passa, que sorri. E na criança que canta a canção do viver.

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Coração Devagar ( Walter Siqueira )

Walter Siqueira Pedaços de Mim

Meu coração não tem pressa... Deixe-o bater assim compassado, um compasso de espera por estar cansado. Meu coração quer a paz de ficar quieto! Não quer se afligir numa ilusão fugaz numa quimera... Meu coração não tem pressa Nem pra morrer, confesso... De tão cansado; espera! Mas, quando tiver que acontecer e no instante for preciso; a Deus, nem peço, aviso: Deixe-o levitar em paz; em sossego;mudo!... Sem prantos e sem apego. Em serena calma; para restar, somente em tudo, A displicente sombra da minh’alma. 75


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Pronome Pessoal

Meu destino Tua vida... Meu rosário Tua crença Teu perfume Minha essência... Minha luta Tua paz. Meu poema Tua estrofe Meu cansaço Teu fulgor, Minha estrela Tua sorte Meu silêncio Tua voz... Tua ausência Minha morte! 76


Só Você Ninguém vai me encontrar Em ventos e arredores, Em esquinas e cantos Em becos e bordéis: Nem na profanação dos santos Nem na rota dos coronéis... Walter Siqueira Pedaços de Mim

Ninguém vai me encontrar Nas cristais dos mares Ou no tanger dos sinos De vela acesa na noite escura Implorando amor em triste apelo Ao meio-copo de bebida pura. Não vão me encontrar No escurecer da nuvem que anuncia A chuva do degelo Mas onde quer que eu esteja, (pode ter certeza) Na penumbra triste na janela, Genuflexo no altar da igreja... Ninguém vai me encontrar: Nos braços de outra Que você não seja!

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Canção do Cotidiano

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O salto matino Tão cedo, cruel Desperta a manhã e tira o seu véu O sol ainda é frio. Levanta menino! Acorda mamãe! Seu pai tem trabalho. O dia vem cedo Pra gente ganhar... no abraço do sol seu morno incentivo Pra tirar nossos medos Da tarde que vem com tantos segredos... A noite que chega, estrelas não têm O céu não tem lua a luz é da gente... do homem que sonha Que dorme cansado Feliz, mas carente, da luta do dia, da rua... do corpo estressado, do tanto que faz. Agora só quer Momentos de paz...


Meu canto

Quisera ter tido: A sabedoria dos magos e estrelas Dos cancioneiros e poetas As mãos ditosas dos que plantam A alegria dos pássaros que cantam Os passos livres que caminham E a previsão presuntiva dos profetas: Para somente em mágicas de afetos Encantar de amor as minhas netas.

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Meu canto é de saudades Das trovas e versos Que não fiz, De trevos de folhas Que não contei, Das trevas de luz Que não clareei, De músicas em serestas Que não cantei, Dos trechos de ruas Que não andei, De sementes e flores Que não plantei, De alegrias que não dei Nesta minha caminhada... E da paz que, um dia, eu sonhei Para o fim da minha estrada.


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Cântico Ser saudade e ser presença. Águia ao sol De um mundo estanque. Ser poesia e canto Ou flor em néctar de pássaros em volta. Ser oferta E ser procura. Da vida, só viver! Dar mais do que ter, E sem querer, mudar o curso do amor... achar o rumo na certeza de mais que um instante apenas: um eterno despertar em verdade-mística que faz do amor feito poesia a amor de paz.

Rotina É cansaço fatigante na rotina. Cansaço na retina e nos meus olhos. Das mesmas faces e gestos


dos mesmos olhos que tiques das mesmas caras e manhas, de todas expressões iguais inibidas, exibidas, estranha! Das dores dos mesmos “ais” no amargo cotidiano.

São gestos marcados, sentidos, contatos, contidos, de amores sofridos... de paixões por engano em sorriso furtivos no amargo cotidiano. Mãos postas em preces em dramas vividos que o pranto revela na fatigante rotina do amargo cotidiano.

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De rostos e mãos de toques e faces em tristezas expressas dia a dia, hora a hora ano a ano, em trêmulas mímicas em passos cadentes em caras sofridas em dilúvio de prantos de magoas presentes no amargo cotidiano.


O homem-século!...

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Não sei se o homem-século é penas um missionário. Um bêbado-desertor Incrédulo, maníaco-iconoclasta. Se vem Do seu tempo Espiar o amanhã Faiscante-duvidoso.

Se foge se vence se volta Não sei Nos passos, na busca, pressuroso, envolvente no esteio que finca marca seus pés na transparência. O critério não muda. Nem muda sua tenaz esperança no que virá depois. Os olhos de importâncias, 82


Discutem e enchem

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O clarão do encontro. E, vislumbra notícias, amarradas e circunstâncias. Não sei! Se o homem-século Tem credos ou leis Pesquisas ou sonhos Intangíveis de viajor, Induzidos alados No monumental espaço... Acredito nele. Bêbado-incrédulo. ídolo indestrutível imagem precipitada purista-visionário acredito nele! E acredito, porque transfigura-se em imagens, em formas heróicas ao bater montanhas de amor tangendo o limite do nunca. Ah! Se eu soubesse escrever tão bem assim! Alfredo Nobel renasceria para me dar um prêmio de cortesia ou com certeza o da grandeza de tudo que vai ser aqui. Obrigado!

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Selenita

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Lua mirando a face inculta oculta da terra. Oculta de que? Será que exulta? Será que exala o culto de quem?

Se falta saber se a lua é do homem que vai, ou dos seres que vêm. Ou de quem, Não vai- nem vem, que fica te olhando, lua espremida em quarto minguante... fingindo que tem mais nova ou mais cheia, um quarto de ouro pra teu viajante. Lua espremida tão longe, não ouve... Fiquei sem guarida de repente, que houve? Lua crescente quadrante do céu 84


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distante da gente, responde por quê? Lua mudada – mais nova – pedante. Lua que encheu de amor, de gente, de vida no bem de querer – responde, que houve? Lua espremida, crescente, tão nova, tão cheia de amor. Lua sem ser. Sem ser a lua, que seria de ser...

Herança Deixo para vocês como herança Um lastro de honestidade Que ficou sempre comigo do meu tempo de criança E da minha mocidade. Fica um prece de amor e pureza Que o tempo não apaga com certeza! Sei que não deixo tanto assim, é bem verdade! Seja o que for, fica guardado Em qualquer canto, Em qualquer lado, Como um mimo, uma lembrança Um objeto isolado Que só de amor a vocês, pode ser dado. 85


Quero ser Quero ser feliz!... Ser feliz o tempo inteiro. Feliz eu sempre quis! Ser honrado cidadão Sempre alerta brasileiro

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Feliz de ver minha gente Comer, sem passar fome E não ver menor carente Se passar por delinqüente. Não quero ver a pobreza A tristeza que ela tem. Nem quero mostra pro mundo, Numa lágrima sentida, Meu sentimento profundo Desta miséria consentida No país que eu sempre quis Que com Deus, fosse feliz... Esse apelo vem de dentro Faz parte de mim Do povo inteiro. Que mesmo sendo utopia, É um grito de dor sem fim Da própria cidadania, E de cada brasileiro.

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Só “ir e vir”: não quero não! Quero viver e não ter fome, Alçar a vida, ter um nome, Uma conquista, uma opção. Ser criança, ser pessoa! Um ser vivente. Só “ir e vir”: não quero não! Quero ser mais, Quero ser gente Ser honrado, ser mais forte, Ser decente, Sem defeito... Ser na vida cidadão! Cidadão que sempre quis Ter ao menos o direito De viver neste país.

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Trovinhas Vida

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A vida pra ser vivida, Infelizmente é assim: - Quanto mais se quer a vida, Mais a vida chega ao fim.

Saudade Sinto a dor desta saudade... Na falta dos olhos teus: Mas ela está na verdade, No pranto dos olhos meus.

Fraternidade “Há muita fraternidade E muitos pontos de luz No caminho e na verdade Do amado mestre Jesus.”

Anjo No meu caminhar sem fim, Pelas ruas onde ando, Vejo um anjo atrás de mim: É Jesus me acompanhando. 88


Das netas São três netas preciosas. Cada uma, jóia rara, Elas são maravilhosas: Diana, Luiza e Lara.

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Jesus “No meu caminhar sem fim Pelas ruas onde ando Vejo um anjo atrás de mim È Jesus me acompanhando.”

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Sobre as netas:

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Neta Princesa

Já está crescida e bonita Diana minha primeira neta. Sabe de cor e até recita Os meus versos de poeta... Com seu jeito de princesa Que tem no porte, nome e perfil É toda só delicadeza Naquele modo tão gentil De não ser mais criancinha. Já deixou de ser menina Para ser quase mocinha... Sua bondade esmerada E encanto que seduz, É qual jóia lapidada, Em presença só de luz! 90


Vem cá Luiza ...

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Luiza, minha neta morena, Uma boneca feito menina É assim, desde pequena! Com seu olhar que fascina, Olha tudo e quer saber, Revira a sala inteira Procurando ao seu redor, onde está a brincadeira. Buscando aqui, colhendo ali... Uma astúcia que não cansa, No seu jeito feito grande, nem parece uma criança. Dando voz aos seus brinquedos Ela esconde em mil cantos Os seus sonhos, seus encantos. De repente pára, e enfim, se cansa... E como pétala perfumada Vai deixando em seu jardim Seu aroma de esperança. 91


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Lara

Bem-vinda seja Lara! De corpo, alma e coração. Pequenina jóia rara, Em camafeu de perfeição. Bendita seja Lara! Do universo inteiro, um tema. Bonita seja Lara Verso inteiro em meu poema. Bem-vinda seja Lara! Que ensolara nossa vida De brilho, cor e luz. Querida seja Lara! Sob as bênçãos de Jesus. 92


Menina-estrofe

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Semente de mim Somente agora Emerge, em loura espiga E se aflora Em nuvem de azul, Tocante e bela. Semente de nós Somente pura Efígie em tela, Em deusa-menina Do nosso anelo. Anelo de mim Semente em flor Somente verso Primeira estima Criança-menina Primeiro tema Fazendo rima Em meu poema.. 93


Sobre a Maçonaria Meu Irmão Maçom

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Ele vem chegando... É hora do cumprimento: Do dever e do momento. É momento do encontro, O encanto de um momento! - o de ingressar no templo. De perfilar, e dar passos Medidos, pequenos, escassos... De reverenciar! E de cada um reverencia O altar da sabedoria Qual o segredo que traz, Que mistério oculta Que magia o conduz ao templo da luz? No mesmo aprendizado, na ordem, no mestrado, Nos toques, nos gestos, Palavras e sinais? No instante despojado, no caminho da perfeição e nas virtudes, são iguais. A bíblia é sagrada Lei de que rege Dia a dia, ano a ano... Quem fica lá dentro é irmão Quem nunca entrou é profano. No templo, o justo dever: 94


Dos atos, o ritual; A Liberdade que redime A Igualdade que simplifica A Fraternidade que une A Dignidade que respeita. Que é esse, que tem esse dom, Essa sublime missão? É na vida um maçom É na ordem nosso irmão.

Walter Siqueira

A maior dificuldade, na literatura, é compor uma síntese sobre qualquer assunto. A tendência dos grandes escritores, principalmente do passado, era a prolixidade, tendo Alexandre Dumas e Victor Hugo como os expoentes máximos desse método. Conhecemos três grandes sínteses na tentativa exaustiva de explicar a Deus e ao Universo, o Homem e o espírito: 1º - A Súmula Teológica de São Tomás de Aquino 2º - A Grande Síntese de Pietro Ubaldi 3º - O Livro dos Espíritos codificado por Allan Kardec Cada qual em seu contexto teológico trouxe muitas luzes ao entendimento humano. O meu irmão Maçom é uma síntese da atividade maçônica, no Templo. O Templo do nosso Pai é o altar da sabedoria. “Haverá altar mais valioso que o altar da nossa consciência?” Nesta frase se assenta toda simbologia filosófica do maçom. Parabéns, amigo, Dr. Walter Siqueira. Você conseguiu este feito até hoje.

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Meu Irmão Maçom-


Sobre ser “imortal”

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O templo da imortalidade A Academia Campista de Letras, que eu costumo chamar de “O Templo da Imortalidade”, é uma sociedade civil, que em junho (21) de 1939, abriu suas portas comemorando o centenário de Machado de Assis. Na verdade, destina-se à cultura do idioma nacional e da literatura da nossa língua, às criações literárias, à memória cultural do município e sobretudo, valorizar obras de escritores campistas e regionais. Somos quarenta sócios efetivos com uma parcela de licenciados, honorários, benfeitores e correspondentes. Os intelectuais assumem cadeiras sob o patrocínio de sócios falecidos ou quer renunciaram, que passam a ser seus patronos. E, só as ocupam, aqueles que maiores de idade, residem há mais de 2 anos na sede do município, ou em município do norte-noroeste fluminense e com trabalhos literários de reconhecido mérito, publicado. Muitos trabalhos já foram prensados e editados pelos confrades da nossa Academia, e recentemente os livros do acadêmico José Florentino Salles, sob o título: “Era isso que eu queria dizer”; do ex-presidente Waldir Carvalho, denominado “Se não me trai a 96


“Imortal” só de Academias Nesse meu giro pela vida e pelo mundo, os olhos da mente e do coração viram e sentiram tantas coisas e emoções que seriam incontáveis, não fosse à graça de poder escrevê-las e descrevê-las. Fiz o badalado curso da vida como mero aprendiz que ainda e sempre sou – e, paralelamente formei-me e me informei do que necessário fosse para caminhar. Na trilha do Liceu e com a vida. Na medicina e no amor ao próximo. Vi pela TV o homem descer na Lua. Fumei até a primeira isquemia. E, depois, nunca mais! Fui assaltado quatro vezes, levaram-me um pouco da tranqüilidade, mas deixaram-me ainda muita paz. 97

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memória...”, e da cordelista e confreira Heloísa Crespo “Brincando com o cordel...” no seu “A voz que não quer calar”, que tive o prazer de prefaciar. O templo da imortalidade abriga almas fluentes, corações plasmados em singelezas e corpos influentes, que recebem ali o aval da cultura com letras maiúsculas, em que sou suspeito porque faço a parcela simplória na respeitabilidade do meu patrono o conselheiro José Fernandes. De Waldir Carvalho ao presidente intelectual e arquiteto. Saudoso Dr. Raul Linhares Correa, que passou em ato cerimonial a direção à professora, ensaísta e pesquisadora Arlete Parrilha Sendra, dedicada e zelosa com o seu slogan “avançar é preciso!” É a primeira mulher na presidência, e que tênue como uma nuvem que se aconchega suavemente, desmancha-se em orvalho aromatizado para no jeito firme e determinado de ser e de saber que quer, e de fazer o que sabe, gostou de fazê-los, e o fez ao passar o cargo ao nosso Herbson Freitas para o comando literário.


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Caminhei pela Champs Elizées e fotografei o Arco do Triunfo, ouvi a música dos gondoleiros, e, dei milho aos pombos na praça de São Marcos em Veneza. Conheci Trade Center ainda vivo e inteiro, passei voando o lago Titicaca, e andei pelas avenidas Corrientes e Florida sem ao menos dançar o tango argentino. Conheci a Zona Franca Manaus, atravessei a Pedro Juan Caballero em Ponta Porã, vi o Paraíba desaguar na sua foz de São João da Barra beijando o mar de Atafona – sentei à beira do riacho em Murundu como sentei tranqüilo no nevado Lake Taho, no Nahuel Hauapi na Patagônia e no sagrado Jordão batismal, em Jerusalém. Coloquei as mãos no chão de Beverly Hills, em Hollywood. Vacinei com o Lions as crianças, no cinema de Cardoso Moreira em operação saúde e bem estar. Não fui orador da turma hora alguma, vez nenhuma. Freqüentei a Federação dos Estudantes de Campos. Votei certo todas as vezes, mas, deu tudo errado: ninguém nunca quis na com trabalho, governadores, presidentes, senadores, deputados e isso deu até samba. Entrei pra Maçonaria e nela me graduei. E, ainda de prêmio conheci o poder sempre maior do Grande Arquiteto do Universo. Vi o túmulo de Napoleão no concerto de Paris, e o de John Kennedy do Arlington, em Washington até o de Tutakamon, as Pirâmides do Egito e as outras seis maravilhas do mundo. Ainda sobre um camelo de duas corcovas na Arábia, e olhei o dromedário de três corcovas passeando na areia tépida do deserto de Sakara e Nifude, mas saquei o de Saara na imensidão barbaresca do Sudão. Vi morrer tantos colegas, amigos e companheiros novos, desgastados alguns, sofridos outros, repentinos uma porção. Amigos que não voltam! Amigos de saudades... Anjos do meu céu! Vi o Tâmisa dividindo o Big Bang com o parlamento em Londres, e os soldados embonecados da Rainha. O muro de 98


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Berlim, grafitado a cores, e o Danúbio que não estava azul, mas dividia Buda de um lado e Peste do outro (do jeito que Chico viu). A capela sistina com o demônio pintado de cabeça pra baixo, e contrastando, o Papa na sacada do Vaticano derramando bênçãos. E, na praça austríaca as famosas valsas vienenses...Vi as pracinhas chegando da Itália na praça do Salvador em Campos e o circo de Niterói pegando fogo, a farmácia Arlindo, a Lira de Apolo, e o Park-Royal no Rio em chamas também. Assisti às touradas em Madri e Barcelona onde o touro não morre na lona. Não descobri as magias de Roy ao vivo nem as de Mandrake no gibi. Li todas as poesias de Drummond, Bilac e Leoni e tenho as minhas prediletas. Vejo com orgulho os meus filhos formados e o crescer das minhas netas. Duas vezes fui a Muquy nesses meus já passados setenta anos, quando lá eu nasci. Sou pela esperança de vida porque ainda creio na paz sonhando e no homem que passa, sorri e diz: “Jesus te ama, meu irmão!” O tempo não passa eu sei! Nós é que nascemos... A esperança só ficou de fora na porta do inferno de Dante. Nós, estamos às portas do céu – e, há uma “reserva” pra cada um no firmamento que Deus guarda para nós. Nunca tive voz para cantar “La Traviata” nem de Maísa. “Meu Mundo Caiu”, mas o orfeão Santa Cecília cantou completo nas minhas janelas em meu aniversario, assim como também cantaram os meninos do Liceu e as suas mestras que fizeram embargar a minha voz já nenhuma, de tanta emoção. Fui coroinha da catedral, no tempo de seu Barretinho e de Don Otaviano Pereira de Albuquerque. Plantei árvores, escrevi livros, tive os filhos sonhados; cumpri a lenda, fiz minha oferenda. Minha vida a Deus pertence! Sou “imortal” somente de Academias.


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Os Quatros Imortais Campistas na Academia brasileira de Letras Tanto tempo de demora e juros creditados ou debitados à conta das dificuldades inerentes a involuntários acontecimentos: doença familiar, trabalho aliado ao exercício diário da nossa medicina e, mais que isso ainda, a parcela de nossa cooperação nos trinta anos de criação da Faculdade Médica entre nós, forjando profissionais com honradez e orgulho da Escola em que fomos também, com discreta participação, instrutores de ensino. Tempos de demora! Pesquisa é assim mesmo! Às vezes demora mais que o necessário, e tantas vezes, o necessário é que demora! As consultas, as referências, os dados e datas, os pequenos detalhes tão grandes em interesse muitas vezes. Por isso, o centenário da ABL (1997) teve prolongado o seu festejar, o que vale dizer: ficou mais um ano em cartaz... Reparadas as pequenas perdas que influenciaram o não publicar desta edição ano passado, olhemos agora os ganhos que vamos conquistar com a inédita idéia do colecionador delas e de tantos outros relicários da cultura, como: biografias, livros, apostilas, apontamentos, bibliografias, ensaios, revistas, recortes e inúmeros arquivos indicadores e fontes de consultas do historiador-arquivista o médico Wellington Paes. A sua biblioteca é uma colméia de onde “abelhamos” o mel das suas preciosidades para nosso aprendizado, ilustração e 100


conhecimento. É como se também retirássemos das flores o néctar puro e singelo que adoça e dá vida à cultura campista. Tenho orgulho de estar outra vez, nós dois (eu e o xará Prof. Walter Siqueira, imortalizando os quatros “imortais” campistas (Alberto de Faria, Teixeira de Mello, José do Patrocínio e José Cândido de Carvalho) estudamos, pesquisados e compendiados com simplicidade para o aguçado gosto literário campista, pelo nosso “colecionador” de raridades, o colega Wellington Paes. Walter Siqueira Pedaços de Mim

O céu dos imortais

A Academia Campista de Letras, que eu costumo chamar de “O Templo da Imortalidade”, é uma sociedade civil, que em junho (21) de 1939, abriu suas portas comemorando o centenário de Machado de Assis. Na verdade, destina-se à cultura do idioma nacional e da literatura da nossa língua, às criações literárias, à memória cultural do município e sobretudo, valorizar obras de escritores campistas e regionais. 101


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Somos quarenta sócios efetivos com uma parcela de licenciados, honorários, benfeitores e correspondentes. Os intelectuais assumem cadeiras sob o patrocínio de sócios falecidos ou quer renunciaram, que passam a ser seus patronos. E, só as ocupam, aqueles que maiores de idade, residem há mais de 2 anos na sede do município, ou em município do norte-noroeste fluminense e com trabalhos literários de reconhecido mérito, publicado. Muitos trabalhos já foram prensados e editados pelos confrades da nossa Academia, e recentemente os livros do acadêmico José Florentino Salles, sob o título: “Era isso que eu queria dizer”; do ex-presidente Waldir Carvalho, denominado “Se não me trai a memória...”, e da cordelista e confreira Heloísa Crespo “Brincando com o cordel...” no seu “A voz que não quer calar”, que tive o prazer de prefaciar. O templo da imortalidade abriga almas fluentes, corações plasmados em singelezas e corpos influentes, que recebem ali o aval da cultura com letras maiúsculas, em que sou suspeito porque faço a parcela simplória na respeitabilidade do meu patrono o conselheiro José Fernandes. De Waldir Carvalho ao presidente intelectual e arquiteto. Saudoso Dr. Raul Linhares Correa, que passou em ato cerimonial a direção à professora, ensaísta e pesquisadora Arlete Parrilha Sendra, dedicada e zelosa com o seu slogan “avançar é preciso!” É a primeira mulher na presidência, e que tênue como uma nuvem que se aconchega suavemente, desmancha-se em orvalho aromatizado para no jeito firme e determinado de ser e de saber que quer, e de fazer o que sabe, gostou de fazê-los, e o fez ao passar o cargo ao nosso Herbson Freitas para o comando literário.

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“Teto doce” vitrinado

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Uma noite dessas, na Academia Campista de Letras, fui ser “vitrine” dela, e nela, sei lá... Era assim como ser “celebridade” por alguns momentos – duas horas, digamos, para recapitular, argumentar, e ser argüido, enfim: sabatinado! Eu mesmo escolhi minhas “algozes”. De um lado, a presidenta professora Arlete Sendra, doutora, mestrada, graduada, e etc... no meio, a poeta Ivanise Balbi Gonçalves Rodrigues, vencedora de quase todos os concursos de crônicas e poesia, minha comadre e, ao mesmo tempo, confreira nas letras. Do outro lado, Neide Martini Siqueira Glória, empresária, minha filha, devoradora de livros (na média dois por quinzena) e mãe de uma das minhas três netas preciosas, a universitária Diana. Tímido, como um rouxinol na muda, mas atento como um guerreiro vigil, pousei minha quietude mansa e esperei o que viesse. E veio! Tudo! Digo quase tudo sobre o “Teto Doce”, e meu livro sob o codinome de Flávio Augusto... Não fui brilhante, mas deixe que elas garimpassem e lapidassem de uma vez o pobre cronista que quando deixou de existir, o fez mais ou menos assim: “Hoje é o ponto final. É stop sem reticências. Deixou o diletantismo parafraseado de substantivações e adjetivos, medita-


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tivamente, pensativo e dizimado pelo cansaço da freqüência tantas vezes inoportuno; e porque não dizer medianamente satisfatório, embora reconhecendo sem validade que fora capacitativamente de utilidade. Hoje, é o ponto final. E sob este aceno plantei meu sonho e colhi as minhas doces recordações, fica o meu aceno despeditivo e descomplexado na minha gratidão reconhecida aos que aceitaram prazerosamente do abecedário diuturno, até os instantes de sabedoria dedicada ao interesse comum. Começamos “de calças curtas num jornal de calças compridas”. Terminamos hoje, enfiados no prazer domestico do pijama curto a que aderimos positivamente, para escrever um good-bye nostálgico num cantinho reservado à maioridade das nossas observações do cotidiano. Quando as nossas frias conceituações estiverem se aquecendo ao calor do entendimento geral, então estaremos compensados. Hoje, damos a missão por cumprida, mas quem sabe se ainda não realizamos o bastante ou o suficientemente necessário? Pode ser! Julgo que é tempo de fazer stop como quem encontra um sinaleiro em “vermelho”, retendo nosso avanço propulsionado. De dizer tchau em francês ou num idioma qualquer como quem arrumou as malas e perdeu a chave de abri-las, mas sabe fechá-las de um modo comum. Julgo que dizer adeus é tão pouco incomum, que o digo assim mesmo cesto... Melancolicamente. Ah! O meu último poema em prosa é de Guiaroni “as palavras não dão para escrevê-lo”. E o instante poético é de Vinicius: “vontade de ficar, mas tendo de ir embora...” Vontade, porém, é dor dá e passa. Passa como nós passamos: em caravana, seguindo os versos de Olegário: “o destino das caravanas é passar”... 104


Por isso mesmo, era uma vez... um cronista que acabou com a história”.

Expressa... mente

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Recebi de Arlete Sendra, presidenta da Academia Campista de Letras, esta correspondência e a transcrevo, cedendo-lhe o espaço pedido. Prezado Walter Preciso de carona em seu espaço. Você poderá ceder-me? Afinal, meus limites literários e intelectuais não me garantiram colunas em jornais, privilégios e direitos dos melhores. Mas dizem que amigo é para essas coisas. E ainda que eu não aprove esta filosofia de amigo “quebrar galho”, o que pode até comprometernos em tempos de ecologia – que Soffiati não leia – uso do pensar sócio-popular e creia-me pedinte. Seu texto é sempre instigante para mim. Você consegue brincar com as palavras enquanto, paralelamente, as faz leves como se estivessem em passos de dança, de um samba-canção, talvez que mora em minha saudade, ou como se fossem sons musicais tirados de um singelo violãozinho anunciando partidas sem adeuses. - Gosto da sutileza com que você, comprometidamente heraclitiano, tece críticas ao mesmo, ainda com que este mesmo viva e conviva num exercício de ética e estética, senha dos que sabem viver. Não conheci Flávio Augusto, personagem que me parece ter sido singular em seu tempo. Mas ele me é simpático. E se sei ler a vida, era, tão somente, seu Walter, assim como um heterônimo, que entrava sempre onde a timidez (!) barrava o Walter. Ou estou delirando? Flávio Augusto chegou/ chegaram. Fez sucesso/ fizeram. Mostrou à Campos quem era Walter e saiu. Deixou a você a com-


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petência de duelar com a vida, reconhecendo nela, o falso, muitas vezes, camuflado em verdadeiro. Deixou a você a competência de distinguir entre o “ser e o não ser” que shakesperianamente falando, desafia o homem. Deixou a você, que o fez com sensibilidade e lógica, preservar no desgastante dia-a-dia a admiração e o encantamento com que debutaram e fizeram escola no social. E o que realmente me encanta nesta dupla, paradoxalmente constituída por um só, é viverem em caviar, mas dividirem sempre conosco o sabor do caldo-de-cana e a suavidade do chazinho de erva-doce. E que sempre deles sejamos servidos. Delicio-me com ambos que me chegam através dos seus poemas e crônicas. Obrigada, Walter, pelo convívio e por poder compartilhar de sua amizade. Afetuosamente Arlete Sendra

Eu, Flavio Augusto e Dona Arlete Nosso conhecimento, meu e do Flávio Augusto, datava de pouco mais três anos. Travamos um com o outro o mais íntimo entendimento, assim, de repente. “Na realidade, afirmava Dr. Barbosa Guerra, esse Flávio Augusto nunca escreveu coisa nenhuma. Quem escrevia para ele, era um colega meu, o Walter Siqueira”... Respeitávamo-nos mutuamente e por isso mesmo, jamais discordamos em atitudes, opiniões e pensamentos. Éramos uma só virtude. Flávio Augusto, longe de ser místico ou utópico, era um visionário com dez anos de lambuja sobre uma cidadezinha descrente de si mesma, vivendo no tropeço de uma gente retrógrada dez anos às costas. Dele, herdei o direito conversação com gregos e troianos na mais perfeita harmonia de sentimentos. Da alegria contida no 106


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Walter Siqueira Pedaços de Mim

sorriso de uma criança à emoção lacrimosa de um instante perdido na gratidão dos homens. Por ele, passei uma quadra de invernos e primaveras desfrutando o prazer constante do seu prestígio feito de amizades e reconhecimento no seio de uma sociedade equilibradamente sutil. Com ele, escrevi sem querer, as mais saborosas sátiras no seu pecaminoso linguajar invejado e sob tutela do seu binômio romano. Sem ele, sou o que sou um homem a caminho da vida! Entusiasta e perdidamente interessado na contenção do irremediável. Crédulo e insaciável na conquista de novas e importantes amizades para juntá-las ao acervo orgulhosamente ostentado de velhos amigos aos quais dedico a importância de viver. Quando perdemos um refém, não estamos perdendo a vida. Nem as energias para a continuidade de um ideal, porque não ficamos no todo, desguarnecidos. Flavio Augusto foi apenas uma sombra num caminho sem sol, sem amargo e sem rancor, sem invejas e reticências. O mundo é livre para nós dois na pose única que vou adotar para viver na reminiscência da sua vida “morta” para a minha vida viva. Mas, agora, a ousada mestra e presidenta reeleita da Academia Campista de Letras, Arlete Sendra, numa pronunciativa pesquisa em busca do que mais sabe fazer melhor que muitos no aperfeiçoamento e moderno atualização, cita-me “aliasmente”, cita-nos a mim e ao Flávio Augusto (pseudônimo usadas em priscas eras) apagados pela memória do tempo, num “revival” à sua moda para num toque meio-que-mágico “dar vida” na ressuscitação mais incrível. E, no “Vivência Literária”, do Jornal Terraplana, diz que encontrou em nós, uma terminologia que lembra-nos a José Cândido de Carvalho. - Meu Deus, quanta bondade e sutileza! E faz menção a um possível “sabor de caldo de cana e chá de erva doce” em nós. Obrigado, Professora!


PAI (Walter Siqueira)

Walter Siqueira Pedaços de Mim

Pai, nessa hora em que o mundo inteirinho está se desinteirando todo, e, desprotegido já não crê: Pedimos o Teu carinho e Tua energética sabedoria para abençoar-nos ensinando-nos o bom e verdadeiro caminho. Pai: - Um instante de paz será bastante para acomodar o desassossego da vida. Para acalmar as atribuições do todo, num momento de prece em Teu louvor. Não seremos nós, os últimos dos imploradores, porque também não somos os primeiros a Te dedicar tanto amor. Na hora em que os pais do mundo, recebem os braços e abraços de seus filhos, Tu, que és Pai do Universo, protege com Teu manto sagrado as impurezas dos pais e dos filhos que são pais. Pai: - Hoje não tenho senão esta prece em súplica que é mais pedir do que dar... Hoje nada Te posso ofertar. No Dia dos Pais, nós que Te somos agradecidos pelos ensinamentos que nos fizeram bons filhos e verdadeiros pais. Que Tua bênção nos seja concedida no momento em que somos abençoados e abençoamos. Protege-nos aqui e na eternidade...

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Meu Pai, Meu Mestre

Walter Siqueira Pedaços de Mim

(Acróstico- Francisco Siqueira Netto) Figura demais admirada. Retrato fiel do homem honrado! Amizade sincera a todos dedicada. Nada fazia mal intencionado Cada filho era o seu predileto. Ídolo de todos amigos,esposa e netos Sem esquecer genros e noras. Com todos era, enfim...um O amigo de todas as horas.

Sentimos todos sua partida , Inesquecível presença que ficou. Quantas saudades deixadas nesta vida Uma dor em cada amigo Em cada pessoa querida Imenso vazio no meio de tudo, Razão de nosso pranto em dor sentida Agora, nosso emblema, nosso escudo. Nas virtudes e bondades que deixou, Encontramos nosso abrigo Templo da nossa lida. Tema de nosso orgulho Ouro da nossa vida! 109


A benção, mamãe!

Walter Siqueira Pedaços de Mim

Não sei se cavo um buraco do fundo e das costas do mundo para reencontrar minha mãe, ou se escravizo à idéia de só vê-la na balbúrdia poliglota do juízo final. Hoje sou mais um enciumado, frustrado e neurótico nesse “Dia das Mães”. É porque talvez, em meio a anseios e angústias, quis enfiar as mãos na terra e buscar minha mãe a qualquer custo em vez de simplesmente depositar um ou dois ramos de agapantos roxos e brancos ou talvez algumas sempre vivas na morta e fria visão do granito. É por isso, eu sei! E pensar que é provável que eu esteja enlouquecendo de palpitações e esperanças e na incerteza do se quero, se vou, se penso, se estou com vontade, se preciso, se choro, se espero, se ajoelho, se me ergo, se me iludo, se rio, se tomo o melhor remédio, se coloco uma begônia na lapela... Tão bom se minha mãe fosse velha! Tão bom se minha mãe fosse viva! É sim. Tão bom se as mães estivessem com a gente em cada hora. Se ela fosse a vizinha da frente ou do lado, ou a mesma mãe dos amigos da gente ou a nossa própria mulher, irmã, a colega, de trabalho, a amiga de todas as horas, a empregada, mesmo derramando a água do copo sem bandeja. Ah! Minha mãe risonha e feliz no vestido surrado do diaa-dia, ou mesmo tristonha do vestido novo de organdi. Mas viva...

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As Mães de Maio e de sempre... Você nem poderia se lembrar, por que era um bebê. Depois do banho, o creminho contra assaduras, a fralda, o embalo no colo e o peito sugado onde você dormiu acariciado e beijado. E agora crescido, você beijou sua mãe hoje? Ela quis beija-lo, mas você saiu correndo como uma flecha atrás de outra flecha, da rabiola e da cafifa dos meninos do campinho... E você, por que não beijou? Porque saiu às pressas para escola, pro trabalho, para o banco, o serviço, o escritório, para vida, pras noites... 111

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Viva e encantada com o que fazem os filhos de todas as mães: a dos médicos, dos poetas, dos músicos, dos loucos, sei lá, a mãe de toda gente, a que ama, sofre, sente, vibra, vive e respira. Ah! É verdade! As mães vivas respiram e você não respira mais, não é? Por isso, impaciento-me, angustio-me e emociono-me na inveja de toda gente que hoje pode comemorar com cada uma o “Dia das Mães”. Acho que cedinho vou vê-la. Orar, conversar um pouco naquela linguagem cifrada de sempre. Um código só nosso! Uma coisa assim como palavras espirituais. Eu não pergunto nada e você também não precisa falar, aliás, as mães nunca precisam falar pra gente entender. Eu sei que sou impertinente, que deveria deixar você em paz para o seu desenvolvimento em luz no campo da espiritualidade, mas puxa! É mais uma vez só hoje, quando todo mundo está com sua mãe, dizendo coisas que, é claro, eu também tenho vontade e sei dizer ao menos a respeitosa mensagem dos filhos: “a bênção, mamãe!”


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Mas as mães lhe mandaram beijos de longe... Porque... Mãe é aquela, Do dar sem receber... Que não vê, mas percebe O amor que conhece No seu ventre mimado Seu filho esperado, Um dia nascer... É aquela que grita, aflita! Insiste, resiste E permite. Que ama, e não reclama Mas proclama Cuidados dobrados Aos filhos amados... Que não escuta, nem sente, Na luta diária Seu jeito de ser. Não sente o futuro, Mas vive o presente; Em todos os sentidos Vividos, sofridos, Contidos, perdidos... Nos sonhos bisonhos, risonhos De mães e avós Felizes e sempre lembradas Queridas-amadas Por mim, você Por todos nós. 112


Para Walter

Apresentação de um artista Falando em Grego... Coube-me a parte mais fácil desta amostra de FORMAS E CORES: a de apresentar o artista plástico Sílvio Greco, que todos já conhecem e vêem hoje, com a sua técnica de desenhos e figuras abstratas em linhas voltadas para o corpo humano na irreverência própria de quem sempre busca o novo.Os gregos eram e são assim também... no zelo pelas artes e na arte caprichada. E esse GREGO não ia ser diferente: até porque, a essencialidade da arte plástica está no sentimento que, sendo invisível, necessita dar toques e formas na sutilidade de traços para se revelar, seja na ponta dos crayons, dos lápis ou dos pastéis. É o que o artista nos oferece agora no abstracionismo da sua arte imensa. 113

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Sonhei com um mundo de paz,onde as pessoas se amavam... Sonhei com um lugar onde só havia solidariedade ...Só pontes, muro não existia. Reinava tranqüilidade... Ódio em nenhum lugar.Só perdão, compreensão e tolerância.No meu sonho, você era o “rei desse lugar”... Nomeado por Deus! Que você tenha tudo que deseja! Um beijo do primo... Tião


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Prefácios de livro de amigos O ritmo da rima: “da voz que não quer calar” Hoje, seria um dia de festas no meu auditório, se eu fosse um radialista exemplar, um apresentador famoso... Para pedir aplausos. E também um dia de justas grandezas na minha comarca, se juiz eu pudesse ser para julgar com imparcialidade a minha constituinte: Heloísa Helena Crespo Henriques. Um farmacêutico quem sabe? Para dar o remédio adequado na hora certa. Um professor, engenheiro, arquiteto, artista plástico, ou músico para ensinar arquitetando, pintando, dando sonos melódicos a tudo que leu, viu e releu. Mas, nada disso! Sou um simples médico do interior em que o “interior” é só de paz e gratidões. E por isso, é também um dia de contentamento no meu consultório de tantas queixas, sofrimentos ou sentimentalismos, ao receber uma cliente especial que me honra, me envaidece e surpreende em não querer simplesmente uma consulta para queixar-se de seus ais. Quer apenas uma declaração do seu modo de ser e de faze-lo bonito, como quem pede um atestado para os devidos fins, revelando que está apta à continuidade do seu cotidiano de bem-querer cantando para a nossa apreciação a eternidade de suas canções em versos cordelizando-os para que saibamos todos que as rimas soltas e esvoaçantes bailam no espaço da sua realidade emocional deixando-as zen. E ainda mais, que as condicionalidades da sua perspicácia são o centro de nossas atenções de leitores vorazes que vamos ser no encontro de suas propostas de paz tantas vezes energizadas, ou de trazer o longo para mais perto como quem puxa o cordão de 114


Figuras Inesquecíveis (Prefácio) O Doutor José César Caldas está arriscando o seu nome! Pediu-me um aval. E mais que isso, o título que ele quer que eu seja avalista é de valor inestimável. E ainda mais, de grande importância. Pensei em dar uma desculpa, por exemplo: que a minha caneta está sem tinta ou que a minha máquina datilográfica está sem fita. Mas, não adianta isso; hoje não se escreve mais com caneta tinteiro e nem se escreve à máquina. Tudo é digitado no computador! Entreguei os pontos. Peguei os títulos valiosos: são dez: “Figuras Inesquecíveis”. E, antes de computar cada um em disquete, 115

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linha torcido. Em todos os momentos de leitura a citação de pessoas, que são de nossas vidas no todo sempre, retratadas na ágil digitalidade do seu talento. De Pessoa no “escrever é preciso” o quanto navegas... A inteligência flutua também sem medo no seu prazer de contar o que houve e o que ouviu e até o que viu no seu jeito de cantigas tão ao agrado de Julietas pelos seus Romeus. Ela invade o coração da minúcias dedilhando com sutileza os cordéis, ora dedicando a verdade do seu amor às pessoas, aos fatos e às coisas do passado fazendo-os presentes ou presenteando-as talvez em mágicas versificadas na ternura da verdade. Revela os movimentos vividos em closes ritmadas retrospetivando-os, oferecendo suas suaves verdades filmadas no através dos tempos vividos. Tudo sempre com pontos de imaginação no bem-estar de viver. Perde-se e encontra-se no tempo e na avidez das horas, reduzindo-as para a concentração visível do céu estelar.


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clicar e escanear, fiz o que era necessário: debrucei sobre cada um deles e fiquei cativo... Esse doutor advogado conhecedor de inúmeras histórias da planura composina, ressalta o “savoir faire” dos franceses, promete mais. E faz Francisco Portela um orgulhoso campista-piauiense das cinco vogais juntas, mostrar a sua medicina por vocação de atender à pobreza. Mas não endurece o texto, tem perspicácia e maestria. Não avança o sinal, nem sai da sua mão de direção. Aliás, minto, saem das suas mãos e inteligência os assuntos que todos nós queremos saber: o humor e “savoir vivre” de cada um, as peripécias e feitos de cada qual. Não acrescenta uma vírgula nem um ponto como “quem conta um conto aumenta um ponto”... Conta as coisas “taliquál”, e como os acontecimentos se sucederam, do bom bom e do bumbum de Chico Balbi aos assuntos polêmicos mais sérios que foram tratados com a finura de historiador que é; como os da Santa Casa; patrimônio-médico histórico da cidade da qual também fora provedor por um bom tempo. A sua admiração pelo Dr. Manoel Ferreira Paes é patenteada e nos emociona, visto que o saudoso vereador, prefeito interventor com mandato de deputado federal e com todos os eteceteras, é um ponto alto das “Figuras Inesquecíveis”. O admirável e envolvente batalhador de sagacidade avançada Deputado Alair Ferreira é retratado com a preciosidade daquelas máquinas lambe-lambe e revelado com os recursos modernos das digitais nas 16 páginas que ele dedica ao “eterno Deputado”, até mesmo no capítulo do incêndio na fábrica de bebidas e na metamorfose do morcego a rato, mostrando sua grandeza em ensinar sem esnobar. E sobre a ternura e bondade de Waldemar Prata, que chegava ao pódio nas gentilezas do coração? Caldas faz as saudades nas fontes das nossas lembranças... 116


Quando você começar a ler este livro não pretenda acaba-lo numa só leitura no mesmo dia. Leia cada pessoa, digo, assimile-a. Fique ao lado dele lembrando suas coisas, seus trejeitos, sua obstinação, sua proposta de vida, seu aspecto de ambulatório; como andava, como vivia e se realizava no cotidiano. E agora, conhecendo-os cada vez mais na pena deste manhoso advogado de cultura invejável, faça como eu: aplauda!

O Brummell dos meus tempos!

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O Brummell dos tempos dourados de “A Notícia” do Dr. Hervé Salgado Rodrigues não era, evidentemente, o dândi inglês (George Bryan) que tinha amizade com o Príncipe de Gales, com acesso à sociedade britânica. O nosso Brummell, era codinome do cestobolista, liceísta apaixonado pela Inez e pelo educandário: Hélvio Santafé. Ele mantinha acesa uma coluna naquele jornal informando tudo sobre as atividades esportivas e sociais da planície num espaço pequeno e, mesmo com a escassez, dava conta do recado aos príncipes, princesas e rainhas da sociedade campista. Ali, naquele órgão tipado a mão, de essencial procura, distribuído na agência Santana e no arauto diário dos jornaleiros, estava Santafé, digo, Brummell escrevendo o que sabia e o que pesquisava em dados precisos. Dificilmente colocava uma inverdade, um fato suspeito ou uma incerteza. Era polêmico e brigão, às vezes, mas amigo sempre! Sou um depoente suspeito, porque privo da amizade com “Santa” há quinhentos anos; tanto que já em 65 confiei-lhe o meu filho Sérgio (hoje com 41 anos) para aprender com ele a natação


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e o fez com sucesso. Aliás, Hélvio é sempre sucesso. Habilidoso e perfeccionista, ultimamente tem se dedicado com religiosidade às comemorações dos aniversários do Liceu. E também o faz com brilhantismo. O cronista Brummell viu e registrou todas as emoções do Saldanha, AABB, Jockey, Rio Branco, Campista e Automóvel Clube, e até, algumas retretas das bandas de música. Sabia dividir o espaço que dispunha sob a tutela dos linotipistas minuciosos de Dr. Hervé. Eu dizia que ele era pujante. Uma dama da sociedade perguntou-me porque e o que era isso... Dei “zero na caderneta” dela. Ele fez um pacto com Maria Inez: “Vou ficar seu noivo quando eu parar de escrever a coluna do Brummell.” Dito e feito! Noivaram, casaram, foram, são e serão felizes para sempre...

O alumbrado Vilmar Li em dois fôlegos, mas preciso reler tantas vezes de tão bom que é, o “Alumbramento” do meu confrade Vilmar Rangel. Ele sabe, e costumo lhe dizer, que gostaria de ser o autor de pelo menos uma de suas obras ou assina-la no escuro. Assim quando diz: “...compondo a manhã da infância, adiando o adulto em mim.” Mas o poeta, cuja ampulheta no fogo perdeu sua areia, recorda e em muito o conterrâneo Azevedo Cruz, querendo no Paraíba descansar na sua foz. E é por isso que já o estou plagiando, melhor dizendo, clonando, aspeando sua filosofia, seu pensar, seu dizer, sua inspiração no todo sentimento do belo que descansa nossos olhos e mente, na fonte do alumbramento. E vejam se não estou certo: “Se em todo amargo sofrimento existe/ um pouco de uma aurora pressentida/ importa preservar 118


“Readaptação Profissional: Mito ou Realidade como Direito do Trabalhador?” ( Vanda Terezinha) Ficamos os dois entre boquiabertos e sem destreza. Prefaciar é objetivar uma síntese! Ela já o fez em 50 significativas páginas. Começa propriamente num relato histórico (e como o conhece!). Vem dos ensinamentos de Aristóteles sobre a justiça equalitária e invade o âmbito das deficiências dos deuses olímpicos e relaciona-os com os dias de hoje. Relata todos os que foram deficientes, mas, que foram famosos também, pelo seu brilho intelectual e envolvente. Cada um no seu triunfar. O seu momento de severidade em observação e questionamento, está na pressão ao médico pelo empregador (patrão), em relação ao empregado e talvez vice-versa. 119

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o que nos lega/ a vida de mais sábio, seja agora/ ou na hora de nossa morte: amor”. Porque ele diz também que “restarão as coisas”, e reclina na reflexão: “...estou morrendo na morte/ por não saber como vivo”. E concluindo: melhor que tudo é saber que, na passageira vida, tu és o meu toque de eternidade. É assim magnífico o jornalista de 1951, o RP de ontem e de hoje, o chefe, o líder, o assessor, o advogado, o bacharel, o editorialista, o colunista, discotecário, o intelectual de toda hora, acadêmico, o poeta de sempre, o inspirado (alumbrado) de hoje, meu querido Vilmar Rangel.


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Cada vez mais astuta e especializada, recorre às previsões legais de amparo ao exercício do profissional deficiente físico. Aborda não só a fiscalização constante quanto ao auxílio doença, numa tese que sempre é uma incógnita como o desenvolvimento do trabalho remunerado dissipado. Quanto à readaptação, imprime um ponto de vista do julgamento sobre as clássicas necessidades da perfeita saúde-capacidade mental, física e até intelectual em nível de escolaridade! Tudo muito bem esclarecido e elaborado de quem sabe o que diz. Vanda, a escritora, foi longe quando buscou em termos o ajustar de condutas e para isso usou o manuseio da consistência de observação no caso até da informalidade e da intuitividade na concepção das evidências para o êxito. A preocupação sobre o sistema indenizatório, pode ser vista na clareza das suas explanações envolvendo: “quem manda e quem obedece”, isto porque ela analisa com perspicácia a falta de seguimento paralelo entre as classes até na recusa empregatícia em determinadas patologias. A nossa escritora e colega conhece fundo o que está dizendo, vocês vão ver isso no decorrer dessa leitura e quem sabe ficarão também boquiabertos como ficamos. Parabéns doutora! Walter Siqueira e Welligton Paes

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Crônicas e artigos interessantes Estou com pouca pose...”

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O rapazinho era um “clack” para fazer poses. Volta e meia ele interrompe as caminhadas, parava, encenava, refletia (será que refletia?) e ativa para cima dos circunstantes uma pose daquelas: - Olhar semifuso; ombro empescoçado: cigarro apagado à boca (na expectativa de riscar o fósforo ou acender o isqueiro). Sim, pois o galante posista definia momentos psicológicos para a manobra tão rápido e inenotável de acender o cigarro. Ele acendia com uma imponência pensada, calculada e, sobretudo antes olhado, pois a chegada de mocinhas sempre facilitava mais a espera do cigarro cansado: doido para a tragada inicial a as tantas consecutivas. Era um “talento” em matéria de exibições posísticas. Quem nos deu conta dá conta de que o pretendo elegante dentro de toda a sua insignificância marcante, perdia horas a fio no seu jeito criador de se enfeitar. Treinou de frente e de todos perfis com garbosidade pretensiosa de endinheirado que é. Pra falar a verdade, tem até aquele vislumbre meio aviadado, mas tem! Carro trimestral, porque os troca de 3 em (TRÊS) meses – no mesmo ano, claro! É um figuraço! Faz as poses que quer, e na hora que lhe apetece (o nosso Billy Blanco diria melodiosamente: “não fala com pobre, não dá a mão a preto, ano carrega embrulho”...) Mulheres não lhe faltam... Mas ontem, ele acordou, estufou o peito, corrigiu os bíceps, andou pra lá e preá cá, ensaiou, deu


aquela paquerada com o espelho da sala, passou a mão nos cabelos, assanhou-os com a moda, fez uma última tentativa positiva e acabou me confessando: - Cara! Hoje estou com pouca pose!!!

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Em defesa do “Reo” Dividindo ao meio uma nuvem de poeira que não tinha mais tamanho e numa estrada comprida e repleta de chassis montados sobre rodas, aparece um fumacê pleonasticamente pesado, guiado por uma mulher paradoxalmente leve e incidentemente bonita. O fenemê mesmo não era lá essas coisas, ostentava as suas iniciais oblíquos, mas verdadeiramente era tico diante taco mulheral dirigitivo – Pensei: Aqui também elas lutam pelo seu direito direcional. Poeira pra ela é pó de arroz e a estrada, com certeza, à semelhança de uma passarela mal-arrumada e pouco florida, uma chance para seu desfile diário pelo ganho da vida. Ela podia muito bem chamar-se Mercedes. É também de caminhão e assentava bem para o momento. Amiudei-me diante daquela significação de espírito auxiliar: “Ela ajuda ao marido entra noite sai dia” – diz-me um homenzinho de Alpercata (um lugarejo mineiro) calçando um tamanco grosso de sujeira. Vou conferir o assunto e a comprovação é imediata e logo se desenha. Lá do outro lado, estaciona um brutelo de nem sei quantas rodas e dele apeia (é assim que eles falam) de seu bojo semi-sobrado, o marido. Ele é dono de um “Reo” de boa aceitação e aprovado para o transporte de cargas altas. Vem de lá tirando óleo das mãos com um pedaço de estopa todinho besuntado, nunca sem antes espiar 122


“ O salva-vidas

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a mulher que, minutos antes, chegaram ao vilarejo onde “recondicionávamos” o estômago e metíamos uma coca-cola no nosso “radiador” cheio de sede e vazio de líquido. Deu uma voltinha, franziu e testa, semicerrou os olhos com ares espiativos e enciumados, apertou o cinturão, sacudiu a poeira solta no seu blusão de couro esgarçado: arrumou-se de uma flanela enorme e partiu direto aos pára-choques. Afastou a cabeça e deu uma esfregadela e tanto na testa do seu caminhão ofegante de quilômetros percorridos. Foi então que se delineou uma frase inteligente, pitoresca e, sobretudo cuidadosa: “Não sou advogado, mas defendo esse “Reo”.

Alexander Fleming, que não inventou, mas descobriu a penicilina, e tudo por causa de certo bolor que apareceu em sua lâmina de pesquisa, nasceu em 6 de agosto de 1881, há 121 anos, portanto, em Locfield, Campina do Lago, melhor dizendo. Isso lá na Escócia. O seu pai, Hugh Fleming, era um humilde fazendeiro que trabalhava o suficiente para o sustento da família de sete irmãos de primeiras e segundas núpcias. Certo dia, ele ouviu um pedido de socorro ecoando no pântano logo depois de sua propriedade. Correu, foi lá, e salvou 123


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um menino que se afundava, preso à lama. No dia seguinte, o pai do menino, um nobre janota em luxuosa carruagem, chega à choupana para recompensar ao modesto fazendeiro pelo ato de salvar a seu filho. O fazendeiro não quis aceitar... O ricaço fazendeiro olhou para um dos filhos do nobre fazendeiro, e disse-lhe: “Gostaria de lhe fazer uma proposta: - Deixe-me levar seu filho para uma boa educação em Londres. E se ele puxar ao pai, será um grande cidadão”. Aceita a proposta, o seu filho seguiu com o nobre. E tempos depois, graduou-se no St. Mary Hospital Medical School de Londres. Era Sir Alexander Fleming. E a sua surpresa maior, o filho do nobre tem uma pneumonia e é salvo pela penicilina. Sabem o nome do filho do nobre Sir Randolph Churchill? Isso mesmo! Acertou quem disse – Sir Winston Churchill.

A espingardinha

Quando caiu ficou na miséria a já mortinho de saudades do seu alazão mestiços vendidos nos bons tempos ao “coroné”, teve um lampejo meio velhaco, mas teve... Roubar o produto da transação. Afinal de contas, o nosso mocorongo e humilde homem do campo dedicava grande estima ao seu eqüino. Era por ele criado, ração todos os dias: capim cidade, caninha miúda, picada e caiana, milho moído e um carinho desveladamente incomum. Decidiu roubar o cavalo e pronto! Colocou mãos à obra. Pulou a cerca vizinha, atravessou o campo, rédea na mão, divisou de longe o mestiço e, imediatamente, pôs-se a chamá-lo de modo familiar 124


O Vestido Azul Esta historinha deveria ter uns títulos. Entre eles, “O vestido azul que mudou a vida” tantos outros mais que vocês vão ajudar a titular. O autor é desconhecido como às vezes convém às coisas belas. Vamos apreciá-la e fazer mesmo 125

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prontamente atendido. No dorso do alazão galopou pra casa... Ordem de Prisão! Delegacia!... Vexame. Sumario de culpa. Paralelamente, no banco da sala de espera, há um homem também preso por roubo. Furtada uma espingarda. Canos longos, calibre recomendável, cartucho redobrado, pontaria certa e que não dava tiro em vão, mas acertava em cheio num vão qualquer. É hora do inquérito. - Como então o senhor roubou um cavalo... Não teve vergonha?... –“Compreenda senhor Delegado. – E chorando: Esse animal era mais que a minha vida. Vendi-o para não passar fome e roubei-o para não morrer de saudades. Por pena, o comissário não lhe aplicou pena alguma. Imediatamente volta-se para ouvir o ladrão da espingarda. E este, sem pestanejar e cinicamente, apodera-se do mote anterior e sapeca pra cima do Delegado: - Não vê o senhor, que eu, quando conheci essa espingarda, ela não passava de uma simples espingarda... e... - E... aí, valendo-se da autoridade, do Delegado mandou trancafiá-lo no xilindró.


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sem ganhar o vestidinho que deu sorte. “Num bairro pobre de uma cidade distante, morava uma garotinha muito bonita, ela freqüentava a escola loca. Sua mãe não tinha muito cuidado e a criança quase sempre se apresentava suja. Suas roupas eram muito velhas e maltratadas. O professor ficou penalizado com a situação da menina...” - Como é que uma menina tão bonita pode vir par a escola tão mal arrumada? Separou dinheiro do seu salário e, embora com dificuldade, resolveu comprar-lhe um vestido novo. Ela ficou linda no vestido azul. Quando a mãe viu a filha naquele lindo azul, sentiu que era lamentável que sua filha vestindo aquele traje novo, fosse tão suja para a escola. Por isso, passou a dar-lhe banho todos os dias, pentear seus cabelos, cortar suas unhas... Quando acabou a semana, o pai falou: - Mulher, você não acha uma vergonha que nossa filha, sendo tão bonita e bem arrumada, mora em um lugar como este, caindo os pedaços? Que tal você ajeita a casa? E, nas horas vagas, eu vou dar uma pintura nas paredes, consertar a cerca a plantar um jardim. Logo mais a casa se destaca na pequena vila pela beleza das flores que enchiam o jardim, e o cuidado em todos os detalhes. Os vizinhos ficaram envergonhados por morarem em casas feitas e descuidadas e resolveu também arrumar suas casas, plantar flores, usar pintura e criatividade. Em pouco tempo, o bairro está transformado. Um homem que acompanhava os esforços e a luta daquela gente pensou que eles bem mereciam um auxílio das autoridades. Foi ao prefeito expor suas idéias e melhoramentos que seriam necessários para o bairro. A rua, de barro e lama, foi substituída por asfalto e calcadas 126


O canto de Poli... Qualquer noite dessas, de uma segunda-feira plena, eu levo esse menino Luis Phellipe Polini (Poli) lá pela nossa Academia Campista de Letras para que todos os “imortais” conheçam um mortal assim com tanta verve e tamanho senso poético como os destes versos vitoriosos no Festival de Poesias do Censa (Centro Educacional N. S. Auxiliadora) que emolduram o convite dos formandos de 2003. Minha irmã Suraya deve estar ainda exaltando o aroma das rosas em corpo e alma e no âmago de sua intelectualidade em aplausos tantos quanto aos nossos aqui deste “canto” modesto. 127

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de pedra. Os esgotos a céu aberto foram canalizados e o bairro ganhou ares de cidadania. E tudo começou com um vestido azul... Não era intenção de aquele professor consertar toda a rua, nem criar um organismo que socorresse o bairro. Ele fez a sua parte no lugar em que vive. Por acaso somos daqueles que somente apontamos os buracos da rua, as crianças à solta sem escola e a violência do trânsito? Lembremos que é difícil mudar o estado total das coisas, que é difícil limpar toda a rua, mas é fácil varrer nosso calçada. É difícil reconstruir um planeta, mas é possível dar um vestido azul. Há moedas de amor que valem ais do que tesouros bancários, quando endereçados no momento próprio e com bondade. Você acaba de receber um vestido azul. Faca a sua parte.


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“Durante estes muitos anos, Me preparei para esta hora, Pra isso fiz muitos planos, Para hora de ir-me embora. E, quando chega a partida, Me pega desprevenido. Parece que a mina vida Nunca mais vai ter sentido. Se eu chorar, não façam caso; É que está vencendo o prazo. Adeus, colegas da escola, Que aqueceram minha alma. Adeus, meu time de bola, Daquelas tardes de calma. Meus amigos, meus parceiros, Meus queridos companheiros, Parto pra novas jornadas. Mas, vou dizendo verdades, Eu vou morre de saudades. Adeus colegas queridos, Minhas linhas, meus amores, Que encantavam nossas vidas Com a mesma graça das flores. Que nos fizeram, acordados, Sonhar sonhos delicados. De cada um vou guardar Aquele olhar ou sorriso Pois lembrar, vai ser precioso Quando a saudade aperta. 128


Eu adeus aos professores, Meus mestres e meus mentores, Que me tiraram a cegueira Com o seu saber profundo. Que me ensinaram a maneira, Com suas devoluções, De caminhar neste mundo Em todas as direções. Os seus nomes hei de honrar Pelas terras em que eu andar. Walter Siqueira Pedaços de Mim

A quem me favoreceu Sem que eu tenha percebido; A quem apoio me deu, E eu talvez tenha esquecido; A quem a Mao me estendeu E atendeu um meu pedido; Que me deu qualquer carinho, Sorriso, afago, atenção Pra abrandar o meu carinho; Minha eterna gratidão. Ao meu colégio, adeus Minha pátria, meu quartel, Onde aprendi, entre os meus A julgar os sal e o mel, Onde, por trás deste muro, Achei meu porto seguro, Minha casa, canto, lar, Meu quintal e meu lugar. Guardo aqui à quintessência 129


Walter Siqueira Pedaços de Mim

Desta minha adolescência. Foi numa bela manhã Onde eu nasci único e só. Mas Deus me deu uma Irmã Que por mim tem amor. Foi um presente divino Que só me dar alegrias, Me acompanhou de menino Até estes nossos dias. Irmã Suraya, querida, “Vou te amar por toda vida...”

Sobre o tempo... Este é um fragmento de um canto a Chronus, Deus do Tempo: “Cada dia te é dado uma só vez. E no redondo círculo da noite, não há piedade para aquele que hesita. Mais tarde será tarde, e já é tarde. O tempo tudo apaga, menos este longo e indelével rastro que o não vivido deixa.” Sophia Mello Andresen

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Seja ( Douglas Malloch) Se você não pode ser um pinheiro no topo da colina, Seja um arbusto no vale, mas seja... O melhor arbusto do regato.

Walter Siqueira Pedaços de Mim

Se você não pode ser um ramo, Seja um pouco de relva, Mas dê alegria a algum caminho. Se não pode ser almíscar Seja apenas uma tília, Mas a tília mais viva do lago. Nós não podemos ser todos capitães... Temos que ser tripulação! Há muita tarefa para todos nós aqui, Umas grandes e outras menores E a próxima, é a que teremos que empreender. Se não pode ser o sol, Seja uma estrela! Se não pode ser uma estrada, Seja uma senda!. Mas, seja, o melhor que você pode ser... Não é pelo tamanho que você vai ter êxito ou fracasso.

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Walter Siqueira Pedaรงos de Mim

A vida manso lago azul, Algumas vezes mar fremente, Tem sido par nรณs constantemente, Um lago azul, sem ondas, sem espumas. Sobre ele, quando desfazendo as brumas Matinais, rompe um sol vermelho e quente, Nรณs dois vagamos indolentemente, Como dois cisnes de alvacentas plumas!... Um dia um cisne morrerรก por certo; Quando chegar esse momento incerto, No lago onde talvez a รกgua se tisne... Que o cisne vivo cheio de saudade, Nunca mais cante, nem sozinho nade, nem nade nunca ao lado de outro cisne!... 132


Corintios 13 ( Paulo de Tarso)

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Walter Siqueira Pedaços de Mim

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios, e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres , e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria. O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos; Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.


Walter Siqueira Pedaços de Mim

Passar (Olegário Mariano)

Retive em minhas mãos a volúpia das tuas. E na boca, o sabor do teu beijo invulgar... No céu, passaram sóis e declinaram luas A fiandeira do tempo envelheceu a fiar. Senti na minha pele a tua caricia abrasada O ultimo sol da paz crepuscular. Tudo passou como os viandantes pela estrada Só o amor não passa e nunca há de passar. PASSAM as andorinhas, passa o vento Esfrolando num beijo a alva espuma do mar PASSAM as horas a avidez dos movimentos Tudo nasce, cresceu, viveu para passar

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Só o amor penetrando as mais fundas entranhas Do ser humano continua a germinar O amor não PASSA tem a vida das montanhas O amor é eterno como as montanhas do amor. Eu sim, eu PASSAREI... E dos meus dias sombrios Não ficará sequer um risco de asa no ar. PASSAR é a sorte efêmera dos rios O destino das caravanas é Passar Walter Siqueira Pedaços de Mim

EU PASSAREI... Como a onda, como o vento Para ser na emoção dos instantes finais Um pensamento em teu pensamento Um corpo no teu corpo e nada mais...

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Walter Siqueira Pedaços de Mim

In Memorian A memória do coração Quem de nós, que vivemos e sentimos, de poetas inatos ou pretensos que querem ser, nunca sentiu saudades... essa indefinível dor particular, esse vazio penetrante por vezes constante e infinitas vezes repentino: uma terrível dor de ausência! A saudade, sinônima da lágrima, permite mais reflexões em torno dela, que definições incorretas e intermináveis... Há na sua força totalitária uma impregnação de sutilezas ou instilação de sublime e poderoso néctar que a embriaguez de sua presença íntima e insistente, enfraquece e não permite defesa. Estando na razão direita do amor, está na razão inversa da esperança. Quantas riquezas de expressões o mundo já cantou na prova da saudade... inúmeras, incontáveis. Talvez possa ser um estado d’alma, ou uma preocupação permanente a desafiar conceitos e inspirações poéticas e mobilizar diária e ininterruptamente a intuição do cantor nas suas expressões mais sutis. É, pois, a saudade para cada um de nós, a própria “memória do coração” na eternidade do amor como queria dizer o poeta no seu canto de saudade, e ainda tanto assim a humanidade enternecida sentiu e conheceu num soluço dela... A ressurreição de tudo que se viu, sentiu e gostou... a presença da ausência, do quanto ouvimos, amamos e ainda queremos tanto. A morte é, às vezes, menos cruel que a saudade que fica que fere e que amarga que sentimentaliza em dores com a sua presença torturante. E, muitas vezes, o adeus não consiste apenas no momento da despedida nem no aceno triste de quem vai, nem na lágrima 136


“As árvores de Afrânio” Afrânio Maciel resulta de uma radiosa divina em meu caminho. Encontrei-o e afeiçoei-me a ele como quem sorvendo cristalícia água da fonte, não se contenta com os engarrafados da era massificada. Afrânio era uma pureza de gente num sem limites de coisas boas e sãs. E se Graham Bell não houvesse inventado o telefone eu não sei o que seria de mim, porque na teria ouvido por ele as antecedências dessas coisas, tantas vezes vitais e muitas vezes pacificadoras. Não fosse ele o leigo pregador padre sem batina, o mestre sem pince-nez, o pastor sem púlpito, o juiz sem toga, o coração de criança num pericárdio adulto. Aconselhou-me certa vez: “Dá tudo ao teu pai em vida”... e eu o fiz, tenho certeza. Agora, que ele faltou não me faltou entre os dedicados amigos, 137

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sentida de quem fica. O momento do adeus é um prenúncio. Prenúncio duro da dor da ausência que virá. É o signo do coração que vai exaltar a sua influente memória no acelerar dos seus batimentos na ânsia de oxigenar todos os filamentos e delicadas nuances de nós mesmos para atenuar a força indestrutível da saudade. Partir, não é simplesmente dizer adeus... Ir significa muito mais – partir deixando saudades – forma redundante, mas eternamente certa – “quem parte leva e deixa saudades...”. E, vai chorando quem deixou saudades... e chora triste quem fica para ir depois... Saudade, eterna reflexão, meus amigos! Nenhuma definição. Nota do autor: Em memória da minha mãe que partiu deste para o oriente eterno há mais de meio século, mas é eternamente saudade.


as palavras de Afrânio: o conforto, a consolação, a esperança. E o seu livro de fé. “À sombra das arvores que plantei”, de que só não gosto dessa crase inicial, mas que fica bonita demais na formação do título vida-vivência. As crônicas, eu diria que são agudas de sensibilidade, poesia e amor. Na suavidade expressiva da sua linguagem, a envolvência simples de que quer amigos pra toda vida. Afrânio não esconde segundas intenções no seu ritmo de dizer, induzir, contrariar e expressar riqueza na voluntária doutrinação de sua luminosa inteligência. Ele converte transubstancialmente em tudo, porque a razão dos esteios fincados ao longo dos caminhos e mais especificamente sob as copas de tantas e frutificantes árvores plantadas, está acima das coisas pequeninas – ele é o visionário que encontra Deus em seu caminho, que faz das ausências uma presença constante. Que vive e ensina a vida. Aprendi muitas lições de vida com Afrânio, e todos sabem que não fui um privilegiado ou um preferido. Quantos tiverem (e estão tendo) oportunidades iguais no seu convívio de esperanças, na irradiação da sua fé inflexível! O veleiro; A cruz; O tic-tac; O coração; (bivelot chinês de nossa vida); A compreensão; O futuro; O ciúme; - As homenagens, as poesias no estilo prosaico, As trovas; As quadras; Os versos – diversos (fazem) de Afrânio o polimorfo do amor e da sensibilidade. Por isso, e mesmo que assim não fosse: das árvores que plantou quero ter sido um modesto abeiro que frutifica para uns poucos gostos, mas que sente a ausência da chuva e se vivifica em presença do sol. Quero até não ser nada e nesse ocultismo ter pelo menos o direito e o orgulho de dizer que (sou) seu amigo (e bendigo) aos céus o seu amparo (o seu existir).

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Raul “elegeu” D. Diva Goulart... Quando o mar de Atafona resolveu mostrar suas mágoas em águas revoltas sobre as plácidas areias monazíticas de lá, esqueceu-se de que ali habitavam reminiscência, recordações, romances, emoções, e saudades, nos avarandados lares e salas onde os guerreiros moradores agora sem pouso e sem ponto pra rede de repouso, contavam histórias do até quando... Foi inclemente o mar, com as casas e barracos, com as paredes e muros. E no muro que restou, o Dr. Raul Linhares, arquitetou e escreveu este esplêndido poema de adeus à casa dos Goulart. E, ainda, na sensibilidade da sua arte de saber, de fazer e de ofertar, o fez a D. Diva, na gentileza pródiga de sempre, do exímio artista, de ex-prefeito, de presidente da Academia Campista de Letras e também imortal nos seus versos que transcrevo:

A Casa de D. Diva Goulart... Por dias e noites a maré enche e vaza Ameaçava este local de triste solidão Até que mais forte, ela sobe, derruba a casa E nesse instante nos dilacera o coração. Os segredos de outrora, seus dias de glórias, As alegrias, tranqüilidade, o descanso nas redes Não de desfarão jamais das nossas memórias Embora fiquem soterrados, sob suas paredes. 139


E ali, permaneceram, até que o mar os eive, Cobrindo-os qualquer noite com seu manto escuro A casa já se desfez, que pena! Teve vida breve Assim como o poema que escrevo neste muro Infelizmente é assim, minha amiga DIVA, As coisa que construímos não duram toda a vida Mas o que resta aqui será uma lembrança viva Da sua doce presença nesta praia querida.

Guerra Ganhou A Paz Quando Dr. Barbosa adoeceu para morrer, eu pensei com os meus botões: - Não foi esse o fim que combinamos!... Ele escreveu muitas vezes sobre mim. E eu, também, o mesmo tanto sobre ele, Éramos freqüências numa conversa de todos os dias em nosso gabinete de otorrino, na Beneficência Portuguesa. Lá, suas opiniões, seus conselhos (quando foram úteis!), suas mazelas, os seus e os nossos defeitos, as virtudes dos outros, os encantos da vida, as expressões do viver e de participar na atividade, no bem querer; e na amizade. Nos intermináveis relatos da História campista, a medida da sua invejável cultura. Tínhamos consideração e apreciação mútuas. E ele me dedicava um carinho especial. Juntos, preparávamos as aulas e os plantões da escala que trocávamos muitas vezes por intuição. Se não houvesse tempo de avisar o impedimento, a dedução era uma constante e conseqüência. Habituamos-nos a juntar os exercícios da inteligência 140


(modéstia à parte) e da cultura – e grafei, gravei e ganhei os meus poemas em versos de uma, duas três sílabas e os seus sonetos de perfeita métrica – “Azul, azulesco, azulidão... num policromatismo azul de azulescência”. Suas crônicas ficaram na lembrança de toda gente. E ainda o seu espirituoso relicário de coisas inéditas, imprevistas, estranhas e imprevisíveis no campo técnico, literário ou histórico. Certa vez, numa urgência cirúrgica, esquecemos o nome de uma pinça que pertencia ao seu material. E, diante da necessidade de tê-la, a apelidamos rapidamente de “Guerrinha”. O nome ficou e hoje toda a nossa enfermagem sabe qual é. Agora, vai ficar para sempre com o seu nome. Era incansável e muito trabalhador. Meticuloso e sincero. Extremado esposo e extremoso filho, teve duas heroínas em sua vida e em sua morte: Zaira e Dona Conceição. Pena ter partido, e ainda as desse jeito. Não foi esse o fim que combinamos em tentas conjecturas. Imaginamos um caminhar para o ocaso da vida no seu ritmo de ensinamentos: de oferta e de contribuição aos que, com sede de saber e conhecer, o procurassem no recurso e na paz da sua velhice realizada, na sua imensa e valiosa biblioteca, na fluência do sue verbo e sua imensa e valiosa biblioteca, na fluência do seu verbo e sua memória, e na alegria gratificante de transmitir. - Não! Não foi assim que combinamos! Mas Deus o tenha na Sua Santa paz. Lamento que eu não vá encontra-lo nunca mais, porque, pelo que dedicou, no que soube realizar, afirmar, preservar, criar e amar, ele foi pro céu. E eu não tenho bondade significante pata chegar até lá.

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Dr. Philippe Uebe Quando o juramento de Hipócrates tinha um pouco mais de expressão e respeito, o Dr. Philippe Uébe o professava “fiel” aos preceitos da honestidade, da caridade e da ciência”. Fazia uma clínica cirúrgica geral e oftalmotorrinalaringológica com uma simplicidade tão grande como a de quem está só lavando as mãos. E que mãos! Caridosas, leves, suaves, benevolentes, acariciadoras e sensíveis como as suas palavras dadas a cada um dos que atendia com presteza e bondade de um semideus. Philippe era assim: um apóstolo de jaleco branco no sacrário do seu consultório ali nos altos da Brasileira, que hoje quase ninguém se lembra mais. Quando éramos garotos, eu e meu irmão Waldir fomos lá nos consultar. Entramos, operamos as amídalas e saímos sem sentir dor alguma. E com um copo cheio de picolés... Ele era um mago. Um deus, aqui pra nós!...

“O Walter eterno”... Escrevi certa vez um louvor ao mestre da poesia, por indicação da nossa Academia Campista de Letras. Era ele, um seu ex-presidente, incentivador das letras, dos intercâmbios culturais e das academias. Fundador que foi da Pedralva Letras e Artes que leva o seu nome juntamente com os dos vates Pedros Manhães, Almir Soares e ele: Walter Gomes Siqueira. (não é uma citação 142


repetida?) E daí, a sigla. Era do Instituto Campista de Litertura, da Itaocarense de Letras, dos sete livros de sonetos, do “Evangelho de Mágoas”, da maranhense Leila, Ângela Maria e Mario Jorge. Da cultura universal, um intercambialista que detinha uma invejável e infatigável rubrica no que ele chamava de penitente circunstancialidade da existência. Por isso, a Academia Campista de Letras formalizou uma homenagem ao seu astroconfrade, cujo fulgor e brilho não se perdem em sua ausência sentida. E, no momento de louvação pelos atributos reverenciados nos faz feliz pelo que foi, e o será que foi: um mestre sempre! Da nossa convivência em sutileza, é de se revelar o seu modo humilde formal, ético e cuidadoso. Nunca o soube vaidoso, maçom que era e poeta que se foi... Penso que sou muito mais vaidoso pelo nome que ostento orgulhoso na homonímia. E, que hoje, recito o que ele ontem me dizia: “Eu sou Walter, tu és Walter, Tu és rico, e eu sou pobre. Tu és o Walter de ouro E eu sou o Walter de cobre...” E o que eu lhe respondia, constantemente: “Às vezes, o brilho do ouro É passageiro, é fugaz! Mas, o cobre, é duradouro... Não acaba nunca mais...” E por ter se acabado aqui, indo, morar com o grande Arquiteto do Universo, hoje lhe digo em reverência: “Tu é agora, o Walter Eterno!...” 143


Cordeiro com Deus... Conhecia Cordeiro há mil anos. Ele era um iniciado maçom de inusitada discrição. Uma reserva especial para silenciar-se sobre os toques, os sinais e as palavras. Era de todas as Lojas com uma perfeição digna somente de quem o é. O seu afilhado Nilo Ribeiro do Rosário o chamado de “Adão”, e muita gente nunca sabia a razão desse codinome. É, que nos tempos da boêmia, ele cantarolava na roda de amigos e célebre marchinha carnavalesca: “Adão, meu querido Adão, todo mundo sabe que perdeste o juízo...” E quem sabe, por ilação que também seria, porque era o primeiro a louvar a vida por tudo instante, não colocando pedras nos caminhos e a descalçar as botas de uma vaidade que nunca teve, a ser humilde sensato e raro? Meu Deus, quanta bondade! Adão, digo José Francisco Cordeiro, ou “Cordeirinho”, era assim. E nós, pobres mortais e até mesmo os que somos chamados “imortais” cometíamos uma heresia, uma blasfêmia com o Filho de Deus, porque sempre que o encontrávamos ou procurávamos por ele, proferíamos a sentença de João Batista (em Matheus capítulo 1, versículo 36) repito, com irreverência: “E aí, Cordeiro de Deus?”... Ele contribuiu demais para a cultura campista, como trovador, encadernador, contador das histórias lembradas de pessoas famosas com quem conviveu. E foi com tantos que também já se foram: Oswaldo Lima, Hervé, Elcy Amorim, Prata Tavares, Pedro Manhães, Evaristo Pena e Adilson Rangel, que lhe deu a tanto a mão na nobreza, digo na Noblesse, e que agora deve estar abraçado com ele lá em cima. Deus queira! Eu disse no começo que conhecia Adão (em hebraico: o homem da terra vermelha) José Francisco Cordeiro há dez séculos. E agora, nem sei quando vou levar para vê-lo. “Cordeiro” está com Deus, e pra eu chegar lá, “não é brinquedo não”! 144


Barreto “virou” estrela In memorian –

Nós fomos amigos de infância. Mais que isso: amigos de infância, juventude e boemia. E não foi só isso, amigos de todos os tempos. Desde o sue namoro, noivado e casamento com Terezinha. E nos tornamos compadres com o meu apadrinhamento da bela Cássia. E aí vem a minha afeição por Luciano “meu faixa” (agora arquiteto) e a querida Neiva, fonoaudióloga que me ensina todas as sutilezas da sua especialidade. Nós o chamávamos de “Zezé”, esse notável Zezé Barreto, filho de D. Lola e “seu” Barretinho, com quem fizemos o nosso primeiro corte de cabelo. Tenho inenarráveis histórias dele pra contar, e, quase todas verdadeiras. E a foto guardada de seu salto no trampolim do Saldanha? Perfeito no espaço como um pássaro em pleno vôo. Os colegas, os conhecidos e até os amigos ultimamente o chamavam de “Figueiredo”, alusão muito bem colocada pelo seu encontro inesquecível com o então presidente da República João Batista Figueiredo que, sentindo-se “sósia” do novo compadre, espanto-se duas vezes. Na primeira, perguntou: - Você sou eu, ou eu, sou você? E na segunda, no aeroporto no embarque do Presidente 145


que iria operar as pálpebras e lhe perguntou, fingindo-se medroso da cirurgia: “quer ir no meu lugar?” Zezé era docinho. Leve como uma pluma. Amoroso, discreto, bom demais! Agora foi chamado às pressas lã no céu. E o Pai, preparou-lhe uma surpresa. Tirou-lhe da casa de mansinho, sem ninguém ver nem ouvir. Num rapto fascinante, sem trauma e sem dor, tal qual que merecia. E Deus, que de tudo vê, portanto, do alto da Sua Onipresença, Onipotência e Onisciência o fez estrela. Deixou-o livre e soltou numa constelação de abençoados filhos Seus. E é por isso, que a sua netinha Bárbara bata palmas quando vê a primeira estrela brilhar no firmamento. E abre os braços e manda beijos para o avo, dizendo: “Estou te vendo vovô”.

“Jamil Abdu era assim...” O meu relacionamento com Jamil data-se do não sei quando. Mas começou entre as afeições mútuas familiares, e sobre tudo como a de médico evidenciando-se e um pretendente ao anel de esmeralda. Seu consultório era ali no edifício Lyzandro nos altos de “A Brasileira” no segundo andar, no qual, diziam que o falecido famoso e místico doutor Phelipe Uébe se instalavam outrova, mas na verdade, não era no mesmo andar... Da sacada da minha casa, nos altos do restaurante Rex, onde hoje é uma clínica dentária, eu “sacava” as janelas do Jamil quando se abriam. E, corria pra lá (antes com Mário – enfermeiro – ajudante. Depois com Celso Albuquerque idem) quando eu chegava, ele (Jamil) não parava o que estava fazendo. Cumprimentos eufóricos, simpáticos e joviais e mãos na obra: curativos nos 146


ouvidos, espéculos nas narinas e abridores de boca trabalhando em suas hábeis e rápidas mãos. Operava ali mesmo as amídalas e com destreza, na época com sluder (aquela guilhotina com dissecção manual) e vapt e vupt. O seu material cirúrgico e o instrumental de atendimento eram rigorosamente flambados ali mesmo nas bandejas apropriadas. Jamil era dissemos: um policlínico e oftalmotorrinolaringologista. Fui testemunha de inúmeras operações de catarata (facectomia) em que ele num pisca os olhos tirava o velho cristalino já opaco e colocava outro novinho em folha. Na convivência médica, o aprendizado e o jeito humanitário de ser não tinha preço de consulta – os atendidos davam o que podiam ou o que tinham e colocavam nos bolsos do seu avental que no final da tarde ficavam recheados de notas emboladas, amassadas, velhas, novas de todas as quantidades que iam para cima da mesa para a contagem, e colocados na gaveta e /ou no banco dias depois. A família de Jamil tinha um xodó comigo que fazia gosto! Eu almoçava na sua casa invariavelmente duas vezes por semana. “Seu” Amaro, dona Sinhana, Nenzinha, Zarif, Zaquia, Zezé e Paulinho ( João Paulo que até se tornou meu irmão na maçonaria). Zaquia tem uma voz lindíssima, e Jamil não ficava atrás! Cantava sempre e muito! Até mesmo no trabalho. Os carros de Jamil eram diferentes. Cores alegres e até conversíveis, quando naquela época ainda nem bem existiam os de fabricação nacional. Ele me apadrinhou no casamento, em 1956 – 13 de Outubro. Eu, já médico formado, e devendo-lhe o impulso na vocação existente. Depois, Jamil foi Deputado Estadual e como tal, em 1970 apresentou na Assembléia uma moção de aplausos e ainda destinou verba para minha Loja Maçônica Progresso, quando eu era o seu Venerável (presidente). Ele era assim... 147


Até logo, companheiro! Infausto momento de dor, tristeza e amargura no leonismo e na sociedade campista, a perda do nosso companheiro Edison Fernandes Alvarenga, um mês depois de ter completado os seus 75 anos bem vividos na convivência fraterna dos amigos e dos companheiros que o queriam tanto e o chamavam de “Lelé”. Na companhia apaixonada da esposa Arlete, lado a lado, corpo a corpo, mente e coração num só amor vivido esses anos todos, chamando-o de “Esinho”. E dos filhos e netos, seus amores de todos os instantes, na constância do desprendimento. Na verdade, “ele não nos deixou”. ‘Deixou sim, um pedaço dele em cada um dos que os tiveram...”. Quando a fundação do nosso Lions, pioneiro em nossa terra, ele desenvolvia o gerenciamento da Companhia de Seguros de Vida Sul América e a Internacional de Seguros, e de Leão seguro, firme e batalhador posicionado e franco na acessoria da Coopercredi junto á presidência. E no Clube de Regatas Saldanha da Gama, no seu cargo maior, até a grande benemerência, no Goytacaz Futebol Clube, presidindo-o como esportista que era no que relembrava os áureos tempos do bom futebol, quando também arriscava sue bom toque de bola. Brincalhão, quando ria tinha uma característica: colocava os antebraços acotovelados á cintura para demonstrar a expansão da alegria. Gostava de falar sobre a história universal, e falava discreto e com modéstia, mas com acurada cultura. Tinha uma extrema afinidade com todos, numa completa relação de companheirismo, tônica do leonismo. Na reunião festiva dos nossos 39 anos de fundação, chegou, brincou, e sorveu a taça comemorativa. Vestia-se de azul completo, 148


como se vestem os que estão felizes. Parecia que ia encontrar-se com Deus. E foi...No Lions era um “privilegiado”. E o era também com o nosso Pai Celestial que o levou para o seu convívio.

Prefácio do livro de Wilson Paes ( Walter Siqueira) Quando Wilson estava conversando com Deus, Ele lhe disse: “Doutor! Os seus irmãos e amigos estão escrevendo um livro sobre o que você fez, quis e desejou lá na terra. Mande-lhes uma mensagem e diga-lhes que tudo foi feito porque você era um ser abençoado e que Sou testemunha de todas essas coisas que fez e vi o quanto contribuiu com sua parcela de bondade para o bem da humanidade!” Pode ser, que esta conversa seja hipotética da minha parte , mas eu creio que também pode ser verídica, dadas as virtudes excelsas do saudoso amigo e companheiro. E essas benesses necessitam ser ditas e reveladas para que o mundo as aprecie, pela sua grandeza e pureza, e também possam ser seguidas por todos nós, no caminho da fraternidade, como exemplos inestimáveis. Estão todas aí, como espelhos, refletindo para cada um de nós a magnitude de sua vida terrena. Por isso, é que agradecemos ao supremo árbitro do universo, o empréstimo de bondade que Ele nos proporcionou (embora por tão pouco tempo). Mas, compreendemos que também Ele o chamou, porque precisava dele ao Seu lado para compor como sempre a sua equipe de amor ao próximo! Assim seja! 149


As Preces do Adeus Walter Siqueira

Sua voz era suave e mansa no tom da sabedoria dos deuses habitantes no Olympo! Estou falando de Wilson Paes. Meu compadre, meu colega, companheiro, amigo e irmão. Sim! Irmão de Cristandade e na vontade que sempre tive de ostentar essa qualidade correligionária que os outros três (Washington, Welligton e Ana Maria) tinham. Convivíamos no dia-a-dia, no cotidiano das tendências, das apreciações, das causas e efeitos, do ser ou estar, do ficar ou seguir, fazendo valer os questionamentos procurando o caminho ideal para servir! E eu assimilando cada gesto, cada ponderação. Ele era mesmo assim, o jeito triunfal de quem vence antes de jogar, e até por isso: o passo lento e medido de que não o dava além 150


do previsto ou preceituado. O pensamento pausado, ponderado, na metrificação prosaica da poesia de viver: acentuado, medindo, acomodando, parceirizando, uniformizando e regendo como um maestro que era, sem usar a batuta, para melhor usar as mãos, preciosas que foram, nos cumprimentos aos aprendizes de uma plateia benquista e iluminada pelo pecado da irreverência, aceita tantas vezes com amor e perdão, pelo supremo árbitro dos mundos. Era assim, repito: um acalanto e um ofertório constante, um relicário de bem querer quase sacerdotal, “ministro” que era da Eucaristia!!! Evocava a paz distribuindo amor! Assim foi... Humanizando a dor para sedá-la com o toque sublime de submissão e humildade. É certo, que a poucos, é concedida a transição daqui para o além de modo honrado. Mas na hora das “preces do adeus”, ele talvez tivesse transmitido um pouco da sua honradez, da qual modesto e submisso, quis ser tomado por me sentir também seu irmão.

Começar de novo... vai valer apena...” Amanhã ele desemboca novinho em folha, ou melhor, novo na folhinha e em nossos calendários e agendas, e é um horóscopo giratório das gentes em conversas de prenúncios, esperanças e ilusões. 151


O menino que nasce amanhã e já nasceu tantas vezes exemplifica a reencarnação, nascendo menino e responsável, tal qual um adulto e que verdadeiramente se adultera no tanger das pelejas e no mastigar das sensações que se continuam como se o menino não fosse um espelho virginal de compreensão, para exclamar os primeiros “ais” pela integridade dos setes e à pacificação do mundo. Ano novo menino bom! Vem comigo, vem me dando às mãos, e vamos brincar de alegria... Vamos ser felizes juntinhos. Eu, você, nós dois, nós todos. Vamos? O mundo e a vida esperam muito de nós, esperam tanto quanto esperamos pra tirar uma carteira, uma folha corrida – e a sua folha será tão vagarosa quanto forem os dias desafortunados em dores e sofrimentos, nas angústias e anseios. Mas, será rápida e vertiginosa se nos forem recheados de contentamento os melhores dias das nossas vidas. Que seja assim mesmo um relembrar de poetas: “não seja imortal, mas infinito, enquanto dure...” ou um “começar de novo, vai valer a pena...” porque você, por certo, não vai ser igual a este que passou...” Vem menino bom. Vem comigo... vamos dar um passeio grandão por esse trezentos e sessenta e cinco dias venturosos que Deus nos há de dar. Vamos? Eu vou com você e você vai comigo. Vamos de parceria e completamente felizes de mãos dadas pedindo paz ao mundo para deixar o mundo em paz. 152


“A vida aos 80!” Poucos são os homens que sabem envelhecer. Na sociedade, é tão comum a existência de criaturas que vivem se queixando de peso dos anos. Muitos envelhecem, é perder a confiança. Pensando. A vida continua depois dos antes da idade devida. Isto é um desperdício, de talento e de energia. Um dos maiores males da pessoa idosa. O mundo não demasiadamente na velhice, abandonam os ideais e arrefecem o entusiasmo acaba com a velhice. Há exemplos de homens que após cruzarem a oitava década da vida, não perderam suas esperanças, e ao natural, prosseguiram produzindo obras notáveis, que orgulham a humanidade. Goethe, aos 80 anos, escreveu Fausto, sua obra prima. Lamark aos 78, concluiu sua zoológica, intitulada “A História Natural dos Invertebrados”. Kant, aos 74, pintou Paraíso. E Giuseppe Verdi aos 80, produziu Ópera Cômica, e com 85, Ave Maria, A Mãe Estava de Pé e Te Deum. Encontramos Marcus Cato aos 80 anos, iniciando seus estudos de grego. Oliver Holmes aos 79 anos escreveu a famosa obra Over The Teacups. Poderíamos seguir esta escalada demonstrando capacidade criativa dos homens idosos que preferem nunca “amainar as velas e enrolar as cordas”. Quanto se teria perdido se estes homens, depois dos setenta anos ambicionassem apenas o descanso. Felizmente não pensaram assim e legaram à humanidade verdadeiras obras primas. 153


Esses homens que tanto produziram depois dos setenta anos, fazem parte do grande patrimônio de todos os povos. Levando em conta esses exemplos, não há homem tão decrépito que não pense ter ainda 10 ou 20 anos de vida produtiva pela frente. Anos em que, aplicando toda a experiência conquistada, muito poderão fazer neste mundo.“Todo fraco é velho, todo forte é moço”. A meta do homem deve ser orientada no sentido de utilizar todos os anos que desfruta do dom da vida, no trabalho que engrandece. Tudo de acordo com suas energias, sem temer a velhice. Sem perder as esperanças. Olavo Bilac, o príncipe dos nossos poetas, num instante de inspiração, aconselhou:

“Não chores amigo, a mocidade! Envelheçamos rindo! Envelheçamos Como as árvores fortes envelhecem! Na glória da alegria e da bondade, Agasalhando os pássaros nos ramos Dando a sombra e consolo aos que padecem” 154


Meu Pai

Hoje é dia de festejar este homem que tanto me orgulho e admiro! Este homem que tem o olhar da sabedoria, sempre pronto e atento a mostrar a melhor direção e o que ainda está por vir. Este mestre, contador de histórias, que traz em seu coração tantas memórias e sai espalhando no seu dia-a-dia, esperança, alegria e confiança a todos que encontra em seu caminho. Este homem alegre e brincalhão, mas, muitas vezes, silencioso e pensativo, é um homem sensível, generoso e de grande fé. Meu pai, com quem aprendo a viver... Este médico sensível, generoso e de grande fé, é também um homem cheio de bom-humor e amor pela vida! 155


Estou falando do, meu pai, com quem aprendo todos os dias a viver... Que você receba as benção de amor e paz que tanto merece... Obrigada, por orientar o meu caminho, feito de lutas e incertezas, mas, também de tantas esperanças e sonhos!

Parabéns Pai! Feliz Aniversário! Sua filha Neusa- 15-10-09

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Recordar ĂŠ viver...

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Livro Pedaços de Mim- 2009  
Livro Pedaços de Mim- 2009  

Coletânea de textos, poesias e artigos do médico Walter Siqueira, coordenado por sua neta Lara Martini em comemoração aos seus 80 anos

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