O nascimento de Vênus que se descobriu Marte Thiá Sguoti/Créditos: Acervo Transespécie do Museu Transgênero de História e Arte/Ian Guimarães Habib
METAMORFOSES QUEER
25-26 de abril de 2024
Ancestralidades anárquicas que nos ensinam sobre a arte de corpar outras vidas
Pensar a gênese da cultura queer, propondo a metamorfose dos corpos como um aspecto comum entre o queer ancestral e o queer contemporâneo. Com a colaboração de convidados que partem de princípios bem distintos entre si, indagaremos como um corpo se metamorfoseia em outro(s) desafiando a lógica um ou outro (por exemplo homem ou mulher) para afirmar a potência da multiplicidade e dos atravessamentos que marcam os movimentos trans.
Programa
10h30 às 12h30
Abertura: Christine Greiner
25 de abril
As Histórias Originárias dos Antigos caminhos queer
Zairong Xiang
Nesta palestra, assim como no livro que a inspirou (Antigos Caminhos Queer), Zairong Xiang defende um profundo desaprendizado das categorias coloniais/modernas como um caminho para a descoberta de novas formas e teorias queer, a partir das suas fontes mais antigas. É um exercício para aprender a partir de cosmologias nãoocidentais e não-modernas, traçando várias “histórias de origem” e examinando criticamente o interesse renovado nos mitos da criação na arte contemporânea e na teoria crítica.
14h00 às 15h00
Fabulações travestis sobre o fim
Dodi Leal
A apresentação aborda desde a cosmopercepção travesti, as interjeições especulativas altamente publicizadas durante a pandemia do novo coronavírus de “fim do teatro”, “fim do gênero”, “fim da espécie humana” e “fim do mundo”, procurando apreender a operatividade econômico-filosófica curatorial do apocalipse e a curabilidade do fim. Compreender os limites do corpo, da raça, do gênero e da cena para além do dilema da escassez de capital, tendo em vista o alargamento das dimensões cronológicas lineares da branquitude e da cisgeneridade.
15h00 às 16h00
Tudo que a boca come e o corpo dá (incorporações e mandingas)
Luiz RufinoO filósofo afro-brasileiro e mestre da capoeiragem Vicente Ferreira Pastinha ao ser questionado sobre a natureza e os sentidos do jogo de corpo a atou ao seguinte aforismo: seu princípio não tem método, seu fim é inconcebível ao mais sábio dos capoeiristas. Capoeira é tudo que a boca come e tudo que o corpo dá. Pastinha ao pensar a capoeira avança em questionamentos feitos em outros contextos e convoca ao diálogo um princípio explicativo vernacular das tradições negro-africanas recodificadas na diáspora, Exu. O orixá Exu nos possibilita avançar em um debate político e poético sobre o conhecimento, principalmente sobre as inscrições que contrariam o modelo dominante imposto pela Modernidade. Exu radicaliza com a questão epistemológica na medida em que lança a noção de que todo conhecimento só se manifesta na medida em que é incorporado. A incorporação, historicamente marcada pelas produções de temor, impossibilidade, desvio e subalternização advindas do colonialismo e de sua teologia política crista, é aqui reinscrita. A incorporação, aqui lida, toma o corpo como núcleo da memória ancestral, comunitária e do saber. Dessa forma, o corpo se inscreve como uma narrativa mandingueira que dribla as tentativas de fixação dele em uma condição subalterna.
16h30 às 18h00
Tecnoxamanismo: Clínica Social para o Futuro
Fabiana BorgesO Tecnoxamanismo se configura como uma rede que articula vários campos de conhecimentos, entre eles, cultura digital, agrofloresta, arte e ciência, indigenismo e saúde coletiva. Desde 2011, Fabiane organiza uma série de eventos desta rede, tanto no Brasil como no exterior. Nesta palestra, a convidada fala das práticas clínicas produzidas em torno do tecnoxamanismo, e conceitos que orbitam essas práticas como ancestrofuturismo, comunidade dos espectros, rede de inconscientes, onirocracia, entre outros.
Mediação: Christine Greiner
26 de abril
10h30 à 13h00
Onira > Onírica > Diaspórica: sonhos, rumos, transes, poesia tatiana nascimento
Nesta palestra, assim como no livro que a inspirou (Antigos Caminhos Queer), Zairong Xiang defende um profundo desaprendizado das categorias coloniais/modernas como um caminho para a descoberta de novas formas e teorias queer, a partir das suas fontes mais antigas. É um exercício para aprender a partir de cosmologias nãoocidentais e não-modernas, traçando várias “histórias de origem” e examinando criticamente o interesse renovado nos mitos da criação na arte contemporânea e na teoria crítica.
14h00 às 15h00
A performance como “estudo queer”: uma sociopoética do movimento
Pablo Assumpção
Experiências artísticas recentes em dança e performance ajudamnos a expandir o conceito de “estudo negro” (Fred Moten & Stefano Harney) para a esfera da sexualidade e da desordem de gênero. Como compreender a experimentação com a sociabilidade-emfuga que é o “queer” e identificar a força sociopoética da dissidência sexual e de gênero na medida em que esta funda mundos alternativos na forma fugitiva do movimento corporal? Como falar de um “estudo queer” que emerge coreograficamente, a implicar o corpo em um jogo de forças que ao mesmo tempo materializa e é materializado pela performance que prospera justo naquilo que a artista e pesquisadora Isadora Ravena tem chamado de “desordem” e “desorganização” não só do gênero, mas da própria linguagem?
Para além do dilema da escassez de capital, tendo em vista o alargamento das dimensões cronológicas lineares da branquitude e da cisgeneridade.
ediação da atriz, pesquisadora e slammer Roberta Estrela D’Alva.
14h00 às 16h15
Amazônia Queer
Pedro Tukano e Thiago Cavalli
Pedro Tukano conta sobre a Ballroom Indígena, organizada pelo Coletivo Miriã Mahsã em parceria com a Casa Jabutt (do cenário Ballroom de Manaus e que possui apenas integrantes negros e indígenas),que foi realizada em 2023, em um galpão na Praça do Largo de São Sebastião, em Manaus. A ideia do evento surgiu após a Ball Indígena realizada em Brasília durante o Acampamento Terra Livre (ATL). A proposta foi adaptar o “evento gringo” para as vivências indígenas, apresentando essa experiência para os parentes e amigos. Thiago Cavalli pensa corpos indígenas e corpos queer como corpos que referenciam a resistência. O que há em comum é o fato de serem corpos sempre capturados por conceitos dicotômicos e relações de poder que devastam a floresta. O transbordamento deste conceito pode ser uma ferramenta importante para alterar os rumos da sobrevivência da Amazônia através da arte.
16h30 às 18h00
Potência das balls e da experiência de convivialidade na Casa Líquida.
Julia Feldens e Yná Kabe Rodríguez
Yná Kabe Rodriguez conta sobre a sua atuação como produtora da cultura Ballroom com o projeto Grand Prize e a sua ação como mother na Kiki House of Cyclone. Yná Kabe também discutira sua pesquisa sobre a historia da cultura ballroom e, principalmente, a cultura das Houses a partir da sua experiência coma cena Ballroom dentro das Universidades Publicas, onde o movimento cultura se afirma como um ativismo. Julia Feldens vai refletir sobre os desafios de viver o encontro como princípio da metamorfose, a coragem de produzir coligações, atenuar fronteiras e investigar limites, como prática de resistência na Casa Líquida - um espaço doméstico e familiar que se abre para tensionar noções como identidade, família e propriedade, ensaiando um viver coletivo e construindo uma certa imaginação política.
Mediação e fechamento do seminário com Christine Greiner.
Zairong Xiang engaja sua pesquisa e suas práticas de ensino e curadoria com cosmologia e cosmopolitanismo em diversidade cultural, especificidades históricas e manifestações conceitualmente promíscuas em Inglês, Espanhol, Francês, Chinês e Nahuatl. Ensina literatura e arte na Universidade Duke Kunshan e foi cocurador da Guangzhou Image Triennial, Ceremony (Burial of an Undead World) na Haus der Kulturen der Welt (Berlin), e a 14 a Shanghai Biennial Cosmos Cinema (2023-2024), entre outros projetos. É autor de Queer Ancient Way: A Decolonial Exploration (punctum books) e atualmente escreve o seu segundo livro, “Transdualism,” que se engaja com teorias de yinyang e o corpo no Daoismo e na Medicina Chinesa como intervenções conceituais em debates contemporâneos sobre gênero/sexualidade, as artes, e conhecimento sobre decolonização. Todos os seus escritos e palestras podem ser acessados aqui: www.xiangzairong.com
Luiz Rufino é professor da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e autor de diversos livros, entre eles “Pedagogia das Encruzilhadas” (Mórula, 2019) e “Fogo no Mato: a ciência encantada das macumbas” (Mórula, 2018) e “Flecha no Tempo” (Mórula, 2019), ambos em parceria com o historiador Luiz Antonio Simas.
Dodi Leal é curadora, crítica, performer e iluminadora. Professora de Artes Cênicas da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), em Porto Seguro e do PPGAC/UDESC, em Florianópolis. Líder do Grupo de Pesquisa “Pedagogia da Performance: visualidades da cena e tecnologias críticas do corpo” (CNPq/UFSB).
Fabiane M. Borges é psicóloga clínica, pesquisadora acadêmica e curadora de arte, ciência e tecnologia. Mestrado e doutorado em Psicologia Clínica (PUC/São Paulo), Atualmente é pesquisadora e colaboradora do Núcleo Diversitas/FFLCH/USP. Articuladora das redes Tecnoxamanismo e Comuna Intergaláctica. Dedica-se também ao estudo da Cultura Oceânica.
tatiana nascimento é poeta, cantora, compositora, pesquisadora, mãe da Irê. Brasiliense. Finalista do prêmio Jabuti de poesia (2022), é autora de 20 livros, entre poesia, conto, ensaio e traduções. Palavra preta (Organismo), três tigres tortas (Record), Cuírlombismo literário: poesia negra lgbtqi desorbitando o paradigma da dor (n-1), Leve sua culpa branca pra terapia (n-1), entre outros.
Pablo Assumpção é coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes da Universidade Federal do Ceará e professor associado do Bacharelado em Dança na mesma instituição. Tem produção artística, técnica e científica na área expandida da performance e dos estudos do corpo, com ênfase em gênero, sexualidade e raça, cultura popular e etnografia experimental. Vive e trabalha em Fortaleza.
Roberta Estrela D’Alva é atriz-MC, diretora, pesquisadora e slammer. Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP é membro-fundadora do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos- Teatro Hip-Hop e do coletivo transdisciplinar Frente 3 de Fevereiro. É idealizadora e slammaster do ZAP! Zona autônoma da Palavra, primeiro poetry slam brasileiro.
Pedro Tukano - indígena do povo Yepá-Mahsã (Tukano) da região de São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, é jornalista, fotógrafo, gerente de comunicação da Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (APIAM) e faz parte da coordenação do Coletivo Miriã Mahsã de Indígenas LGBTQIA+ do Amazonas.
Thiago Cavalli - vive na Amazônia, é artista e ativista sócio ambiental na Amazônia. Fundou a ong Casa do Rio, e atualmente está reconstruindo a residência artística no rio Tupana, estado do Amazonas
Yná Kabe Rodríguez é do Recanto das Emas (DF) e atualmente reside em São Paulo capital. Bacharela em Artes Visuais pela Universidade de Brasília onde também concluiu o mestrado no programa de Pós-Graduação em Arte Visuais na linha de pesquisa Métodos e Processos em Arte Contemporânea. Trabalha como artista-curadora-pesquisadora, ocupando o cargo de secretária na SEC-EIB (Secretaria para o Desenvolvimento da Primeira Escola de Indisciplina do Brasil) e atua também como produtora na Cultura Ballroom com o projeto Grand Prize e é mother na Kiki House of Cyclone.
Julia Feldens é artista e pesquisadora, mestre e doutoranda em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Há 9 anos performa a Casa Líquida, ação que consiste em abrir sua casa para um uso coletivo, transformando-a em território movediço e objeto de pesquisa.
Curadoria e produção:
Christine Greiner e Ricardo Muniz Fernandes