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VASCO GIL MANTAS1

Epigrafia romana no concelho de Coruche Introdução O termo de Coruche cobre uma zona do Ribatejo onde se conhecem vestígios da presença romana desde há muitos anos,2 em particular no vale do rio Sorraia, alguns dos quais foram objecto de publicação por parte de eruditos investigadores, como Leite de Vasconcelos e Margarida Ribeiro.3 Quase sempre registados em consequência de trabalhos agrícolas ou de obras públicas ou privadas, o seu número era muito reduzido até data próxima,4 situação que se alterou significativamente desde que o Museu Municipal Universidade de Coimbra. Congratulamo-nos vivamente por esta homenagem municipal a Margarida Ribeiro, por quem nutrimos profunda admiração, homenagem que subscrevemos com o entusiasmo que nos merecem o trabalho e o exemplo de figuras como a desta grande senhora da historiografia regional portuguesa. Agradecemos cordialmente a preparação das figuras desta comunicação ao Dr. Luís Madeira, assim como toda a colaboração, fundamental, que nos foi prestada pela Dr.… Cristina Calais. Fontes abreviadas no texto: L´Année Épigraphique, Paris (= AE); O Arqueólogo Português, Lisboa (= AP); Hispania Antiqua Epigraphica, Madrid (= HAE); Hispania Epigraphica, Madrid (= HEp); E. Hübner, Corpus Inscriptionum Latinarum, II, Berlim, 1869; Supplementum, 1892 (= CIL); J. Vives, Inscripciones latinas de la España romana, I-II, Barcelona, 1971-1972 (= ILER); José d´Encarnação, Inscrições romanas do Conventus Pacensis, Coimbra, 1984 (= IRCP). 3 J. Leite de Vasconcelos, „Objectos romanos achados em Coruche‰, O Archeologo Português, III, 1987, pp. 65-66; „Objectos romanos achados em Coruche‰, O Archeologo Português, V, 1900, pp. 104-105; „Figuras de bronze antigas do Museu Etnográfico Português‰, O Archeologo Português, XXV, 1924, pp. 32-34; „Epigrafia do Museu de Etnologia. Inscrições romanas‰, O Archeologo Português, XXVIII, 1927-1929, pp. 214-215; Margarida Ribeiro, Estudo histórico de Coruche, Coruche, 1959, pp. 35-58 (= Margarida Ribeiro, Coruche); „Vestígios lusitano-romanos da Herdade de Escatelar‰, Revista de Guimarães, LXXIV, 1964, pp. 158-162; „Vasos lusitano-romanos de Coruche‰, Revista de Guimarães, LXXXV, 1975, pp. 171-184. 4 Jorge de Alarcão, Roman Portugal, II, 2, Warminster, 1988, pp. 119, 121, mapa 5b. 1

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de Coruche iniciou a sua actividade, no âmbito da qual diversas acções de prospecção efectuadas ao longo do curso do Sorraia permitiram identificar numerosos sítios inéditos e recuperar materiais diversos, fazendo ascender a perto de trinta as estações arqueológicas romanas agora conhecidas.5 Esta circunstância mostra com clareza que basta a presença regular de arqueólogos no campo para que áreas contando com poucos dados arqueológicos passem a dispor de uma carta de achados relevante. Recordamos, a este propósito, o que se passou há duas décadas na Vidigueira, exemplo do que é possível fazer, mesmo com meios limitados.6 O vale do Sorraia, dotado de excelentes condições agro-pecuárias, insere-se na zona de influência da colónia escalabitana e do município olisiponense, comunicando facilmente com estes dois importantes centros urbanos da época romana através da navegação fluvial e por estrada. Assim, a densidade de estabelecimentos romanos que começa a revelar-se ao longo do vale corresponde a uma situação normal, atendendo às características da região, reflectindo um padrão de ocupação do solo apropriado à exploração dos recursos locais e condicionado favoravelmente pelas comunicações disponíveis. As fontes literárias antigas com referências à região, se exceptuarmos o testemunho de Estrabão sobre o vale do Tejo,7 são quase inexistentes, como também sucede com outras áreas do actual território português, o que atribui uma importância especial às fontes arqueológicas, de qualquer tipo, último recurso para que possamos conhecer alguma coisa da vida neste rincão ribatejano na época roVasco Mantas, „Os Romanos na região de Coruche‰, O Homem e o Trabalho. A Magia da Mão, Coruche, 2003, pp. 55-57 (= Mantas, Coruche). 6 Vasco Mantas / Pierre Sillières, „La vie économique du domaine‰, Les Villas Romaines de São Cucufate. Portugal, Paris, 1990, pp. 147-183. A prospecção sistemática efectuada segundo o sistema de field walking numa área de cerca de 2800 hectares permitiu identificar 62 sítios com vestígios romanos, entre os quais algumas villae, onde então apenas se conhecia o grande estabelecimento de São Cucufate, nas cercanias de Vila de Frades. 7 Estrabão, III, 3, 1. 5


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mana. Como sempre, a epigrafia constitui um elemento fundamental deste processo de investigação, apesar do carácter aleatório dos achados e do facto incontroverso de representarem apenas uma amostra reduzida de um universo muito maior. Os testemunhos epigráficos provenientes do concelho de Coruche são, infelizmente, ainda muito escassos (fig. 1), facto que se deve em parte às características rurais da região,8 onde não se conhece nenhum aglomerado de tipo urbano durante o domínio romano, em parte devido aos limites da investigação. Neste estudo reunimos os vários monumentos conhecidos, revendo pontualmente o que sobre eles já foi escrito e procurando interpretá-los como um conjunto representativo da estrutura socioeconómica do vale do Sorraia Para uma ideia geral das condições ecológicas da zona na actualidade: António Pena, Um roteiro natural do concelho. Coruche, Coruche, 2002.

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Fig. 1 – Documentos epigráficos romanos no Concelho de Coruche


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e da sua população durante o Alto Império. Considerando a escassez dos testemunhos recolhidos, incluímos também neste singelo corpus um grafito num vaso de cerâmica comum e duas marcas de terra sigillata, não isentas de interesse. Este reduzido conjunto epigráfico concorda com o tipo de testemunhos usuais numa região rural onde se situavam villae importantes, facultando algumas indicações sobre os possíveis contactos destas com centros urbanos e grupos sociais representativos da romanização, assim como sobre a continuidade de práticas herdadas do mundo indígena da Idade do Ferro. Esperamos que esta publicação estimule o interesse pelo património arqueológico concelhio, constituindo uma fonte de informação acessível a todos os que por ele se interessem, contribuindo para uma maior colaboração dos munícipes com o Museu Municipal, nomeadamente através da comunicação de eventuais achados, cooperando civicamente na construção de uma instituição que tem laborado com entusiasmo no enriquecimento da imagem de Coruche. Não esqueçamos que hoje somos, para além de todas as vicissitudes históricas e convulsões sociais, o resultado do que fomos noutros tempos. Santa Justa, Couço a) Descrição ˘rula votiva, em mármore amarelado da região de Estremoz, em razoável estado de conservação, acusando uma fractura que destruiu, à esquerda, parte do capitel, que poderia ser coroado por um foculus. Para além deste prejuízo, existe uma acentuada erosão, mais saliente nas esquinas do fuste, com alguma influência na leitura da epígrafe. O fuste é moldurado na parte superior por um talão e separado da base por uma gola reversa sobre ranhura. O monumento, de aspecto elegante e muito clássico (fig. 2), encontra-se no Museu Lapidar do Seminário Maior de Évora, suscitando algumas dúvidas o seu local de origem. Considerado por


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MANUEL RIBEIRO

José d´ Encarnação como proveniente de Santa Justa, Arraiolos,9 o monumento, de acordo com informação publicada, terá sido realmente encontrado entre 1974 e 1977 na igreja de Santa Justa, na freguesia do Couço, perto da confluência das ribeiras de Sor e da Raia, no início do curso do Sorraia.10 Nestas circunstâncias, e de acordo com o que 9 O Padre Henrique Louro, que comunicou em 1977 o achado, na altura inédito, a José d´ Encarnação, parece tê-lo atribuído a Santa Justa do Couço. Numa obra que publicou em 1974 não refere a descoberta do monumento quando alude às capelas de Santa Justa do Couço e de Santa Justa de Arraiolos: Padre Henrique Louro, Freguesias e capelas curadas da Arquidiocese de Évora, Évora, 1974, p. 68. 10 Encarnação, IRCP, p. 491. Debatemos o problema da proveniência da árula com o nosso colega, a quem agradecemos cordialmente as informações que nos facultou a propósito do monumento. Apesar de, em determinado momento, o ter considerado oriundo de Santa Justa do Couço, retomou a atribuição a Santa Justa de Arraiolos, por falta de informações complementares do Padre Louro e pelo que sugeria a interpretação mais plausível para a divindade indicada pela sigla. De acordo com todos os dados disponíveis actualmente, e apesar das incertezas geradas, julgamos perfeitamente aceitável atribuir a árula a Santa Justa do Couço.

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Fig. 2 – ˘rula de Santa Justa


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uma visita ao local nos sugeriu, admitimos como origem da árula a igreja de Santa Justa, perto da aldeia do Couço. Dimensões: 43 x 14,5 x 10 cm. Campo epigráfico: 14,5 x 15,5 cm. C(arneo). C(alanticensi ). S(acrum ) / VOTO PA[PV?]/S. TALONT(i ) (filius) / A(nimo). L(ibens ). V(otum ). S(olvit ) Consagrado a Carneu Calanticense. Por voto, Papo (?), filho de Talonto, cumpriu de boa vontade a sua promessa. Altura das letras: l. 1: 2; l. 2: 2 (O = 1,8); l. 3: 2; l. 4: 2. Espaços: e. 1: 0,6; e. 2: 0,6; e. 3: 1; e. 4: 0,6; e. 5: 1,5. b) Bibliografia e variantes

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IRCP 412; Padre José Cordeiro, „Vigararia de Coruche‰, Revista da Igreja Eborense, 5-8, 1984, p. 264. Variantes: l. 1: C.S. (Cordeiro; IRCP ); l. 2: DIOPN (Cordeiro); [V]OTO PA[N] (IRCP ); l. 3: TAIONT (Cordeiro). c) Comentário A paginação é boa, com uma correcta ocupação do campo epigráfico, regularidade que sugere a existência de linhas auxiliares e de um eixo de simetria vertical. As letras, com excepção da l. 4, desenvolvem-se um tanto em altura, de nítida gravação em bisel e com ápices discretos, podendo considerar-se pertencentes ao tipo monumental quadrado. Pontuação sóbria, com sinais circulares onde necessários. Não se notam nexos; apenas na l. 2 os caracteres da letra O são ligeiramente menores, provavelmente para evitar a colisão com o travessão do T. Esta inscrição faculta o que é, por enquanto, o único testemunho directo de um culto praticado na época romana


Na l. 2, embora com grande dificuldade, vislumbram-se traços do V inicial da palavra voto e, considerando a qualidade da paginação, que deixa algum espaço à esquerda disponível para a gravação, quase admitimos a presença da fórmula normal ex voto, muito vulgar a sul do Tejo.13 Parece mais complicada a presença da fórmula final, na l. 4, pois nestas circunstâncias A(nimo) L(ibens) V(otum) S(olvit) resulta um tanto ou quanto redundante. Todavia, este tipo de repetições não é raro na epigrafia latina, sobretudo em ambientes culturais indígenas, podendo, neste caso, resul11 Encarnação, IRCP, pp. 489-490; T. Schattner, „A igreja de Sant´Ana do Campo. Observações num templo romano invulgar‰, O Arqueólogo Português, série IV, 13-15, 1995-1997, pp. 485-558. 12 Ihm, „Carneus‰ ?, Paulys Realencyclopädie der Altertumswissenschaft, III, 2, Estugarda, 1958, col. 1598; E. Thevenot, Divinités et sanctuaires de la Gaule, Paris, 1968, p. 149; Miranda Green, The Gods of Roman Britain, Princes Risborough, 2003, pp. 63-65. 13 Encarnação, IRCP, p. 879.

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na zona de Coruche, independentemente dos problemas de leitura que o obscurecem. Seguimos a proposta de José d´ Encarnação, considerando como C a letra inicial da l. 1, da qual resta um muito vago vestígio cujo traço se pode considerar idêntico ao que lhe corresponde na segunda letra da mesma linha, o C da sigla de Carneus. A atribuição do monumento a esta divindade indígena, cujo centro principal de culto seria o templo de Santana do Campo, perto de Arraiolos,11 parece aceitável, uma vez que nesta vasta área a sul do Tejo não se conhece outra cujo teónimo se inicie por C. Ainda que seja difícil definir exactamente a que entidade administrativa pertencia a zona leste do actual concelho de Coruche, a verdade é que se trata de um território onde não parece descabido admitir o culto de Carneus, tendo em conta a relativa proximidade de Santana do Campo. Como é possível relacionar esta divindade indígena com outras conhecidas, protectoras de rebanhos e da multiplicação dos seres vivos na natureza, caso do grego Karneius e do celta Cernunnos,12 a hipótese de identificação fortalece-se através das características fortemente rurais da região, ontem como hoje.


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tar ou do hábito ou da gravação prévia da fórmula final num monumento votivo. O nome do dedicante também é muito difícil de reconstituir. Se o P e o A iniciais são seguros, o mesmo já não se pode dizer do que resta do final da linha, sofrendo o antropónimo um corte motivado pela translineação, terminando na l. 3 pela letra S. O espaço utilizável para o nome do dedicante no limite da l. 2 é reduzido, não comportando mais de duas letras. Embora a pedra induza a considerar no seguimento do A uma letra inclinada sobre a direita, N ou M,14 a verdade é que tal facto pode resultar apenas do esboroamento que a epígrafe sofreu. Não conseguimos encontrar nada coerente com tais letras, pelo que sugerimos uma solução diferente, em parte inspirada pelos testemunhos onomásticos iniciados por Pa-, e com um máximo de cinco letras, conhecidos na Hispânia. Uma das leituras possíveis seria Paris, eventualmente com recurso ao nexo RI, a equacionar com o Menelaus de Coruche (IRCP 429) e com o Hermes, igualmente dedicante de uma inscrição a Carneus, em Santana do Campo (CIL II 125 = IRCP 411), mas a afastar, uma vez que estamos perante uma denominação de tipo peregrino na qual o patronímico, Talontus, dificilmente se coadunaria com um nome grego. Uma interpretação que nos parece aceitável, abstraindo da possibilidade de se tratar de algum antropónimo indígena desconhecido, é o nome Papus, que Kajanto situa entre os cognomina derivados de prenomes raros, talvez de origem céltica, longinquamente relacionado com a família Aemilia e predominante entre escravos e libertos.15 Embora raro, conta com alguns representantes na Península Ibérica, em Ampúrias e, sobretudo, na região de Sevilha.16 A estes testemunhos podemos ainda acrescentar o gentilício Papius, em Salvatierra de los Barros (CIL II 1006) e em Astorga (CIL II 2640), e o nome Papo, em Santanyi, nas Baleares (CIL II 6315). Encarnação, IRCP, pp. 835-836. I. Kajanto, The Latin Cognomina, Helsínquia, 1965, p. 176; W. Schulze, Zur Geschichte Lateinischer Eigennamen, Berlim, 1966, p. 516. 16 J. M. Abascal Palazón, Los nombres personales en las inscripciones latinas de Hispania, Múrcia, 1994, p. 448. 14 15


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CRISTINA CALAIS

O antropónimo indígena Talontus é raro, contando apenas com um segundo exemplo em Idanha-a-Velha (HAE 1102), pertencendo a um numeroso grupo da onomástica céltica ou celtizada ostentando o radical Tal-.17 A omissão da filiação é normal neste tipo de denominação, tanto como a aculturação onomástica, admitindo a reconstituição Papus, filho de Talontus. Teremos, assim, um nome romano pouco vulgar, relacionado frequentemente com as clientelas dos Aemilii, circunstância compreensível em zonas rurais fortemente aculturadas e de alguma importância económica, usado pelo filho de um indígena. Recordamos ainda que a gens Aemilia está representada em Lisboa e em Santarém (CIL II 200, 326), não sendo particularmente numerosos nesta região da Lusitânia os testemunhos daquele que é quantitativamente o quarto gentilício conhecido na Hispânia,18 o que lhes confere especial significado. Paleograficamente tudo sugere para o monumento uma datação a situar no século II. A actual igreja de Santa Justa sucedeu a uma mais antiga (fig. 3). Ainda que o orago não facilite uma relação com 17 M. Lurdes Albertos, „Nuevos antropónimos hispánicos‰, Emerita, XXXIII, 1965, p. 126; Abascal Palazón, pp. 520-521. 18 Abascal Palazón, p. 29.

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Fig. 3 – Igreja de Santa Justa


CRISTINA CALAIS

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Fig. 4 – Fragmento de mármore de Santa Justa

Carneus,19 a possibilidade de ter existido no local um santuário rural pagão é muito elevada. Não só a indicação da divindade através de siglas sugere francamente que se trata de um ex voto depositado num santuário, pelo que não era necessário indicar expressamente o teónimo, por ser de todos conhecido,20 como por existirem junto ao templo alguns vestígios de construções antigas. Tivemos oportunidade de recolher, numa visita que efectuámos a Santa Justa em companhia da Dr.… Cristina Calais, um fragmento de mármore, com restos de moldura, que pensamos ser o que ficou de uma placa. O referido fragmento tem uma forma vagamente triangular (fig. 4), medindo 30 x 26 x 9,5 cm, valores As irmãs mártires, Justa e Rufina, são padroeiras de várias cidades peninsulares, entre as quais Burgos e Sevilha, e dos oleiros. Esta última circunstância explica, por exemplo, a localização da primitiva igreja de Santa Justa, em Coimbra, junto às olarias da cidade. No caso de Arraiolos e do Couço podemos, talvez, relacionar o hagiotopónimo com as iniciativas de difusão do culto dos mártires cristãos, largamente incrementado depois do Concílio de Trento. Ainda assim, e apenas como apontamento de trabalho, lembramos a associação de serpentes a Cernunnos, realçando uma faceta ctónica deste culto, cuja influência poderia ter sobrevivido na relação estreita entre a terra, matéria-prima, e os oleiros. 20 José d´ Encarnação, „Omissão dos teónimos em inscrições votivas‰, Veleia, 2-3, 1985-1986, pp. 305-310; IRCP, pp. 804, 836. 19


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máximos. Em 1984, o Padre Cordeiro tinha já chamado a atenção para a presença de vestígios antigos, incluindo a árula, junto à igreja: No terreno onde actualmente se encontra a pequenina igreja, deve ter existido, em tempos muito recuados, algum templo pagão, a julgar pelo cipo votivo ali encontrado e por um resto de parede, pegado à fachada norte, que parece obra romana.21 Julgamos que algumas sondagens nos terrenos circundantes permitiriam recolher informação significativa e identificar o tipo de estabelecimento romano que existiu no sítio de Santa Justa. Herdade de Diogo Monteiro, Coruche a) Descrição

Fig. 5 – A inscrição da Herdade de Diogo Monteiro (Monte da Torre), in CIL

da por Frei Francisco de Oliveira a José António da Cunha (Acuña), encontrava-se, no século XVIII, na antiga casa dos Barretos, na Rua de Santarém, em Coruche (fig. 6), mas teria sido encontrada na Herdade de Diogo Monteiro, Diego Montero, na versão castelhana. A localização desta herdaPadre José Cordeiro, „Vigararia de Coruche‰, Revista da Igreja Eborense, 5-8, 1984, p. 264. 21

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A origem exacta desta importante inscrição (fig. 5), da qual não existe nenhuma descrição do suporte, talvez uma placa, continua por resolver. De acordo com a informação forneci-


CMC – DAU/SIGC

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Fig. 6 – Achados epigráficos romanos na vila de Coruche

de, em tempos propriedade da família Monteiro, que teve casa brasonada na Rua Direita, em Coruche, e que surge, por exemplo, em documentos do século XV, num dos quais se referem dois vereadores da vila com este apelido,22 não é segura. Sabemos, pela resposta à inquirição de 1758, existirem na freguesia de Coruche 77 herdades, apenas em parte conhecidas através de documentação diversa.23 Julgamos, todavia, que a herdade em questão pode corresponder à que hoje se designa como Torre de D. Diogo ou Monte da Torre, situada no limiar meridional do concelho, junto à ribeira do Lavre, cerca de quilómetro e meio a ocidente do apeadeiro de caminho de ferro do Lavre, e não na margem esquerda do Sorraia, a poente de Coruche, como este topónimo é indicado a propósito do Monte da Falcoa, na Carta Militar de Portugal.24 Estamos seguros que uma pesquisa metódica conduzirá à identificação de mais uma Margarida Ribeiro, Coruche, pp. 89, 270-272. Margarida Ribeiro, Coruche, pp. 95-98, 302-303. 24 CMP n.À 392. A Torre de D. Diogo ou Monte da Torre, na Matriz Predial Rústica de Coruche, 4, tem o n.À 2797, lindando a norte com a Sesmaria do Cinzeiro e a sul com a ribeira de Lavre (CMP n.À 420). 22 23


D(is ). M(anibus ). S(acrum ) / MAR(ius ). Q(uinti ). F(ilius ). QVINTILIAN(us ). VLI/SIPONENS(is ). ANN(orum ). XVIII. [IVL]IA. RV/FINA. MATER. ET. MARIVS / MAX(imus ). PATER. F(aciendum ). C(uraverunt ). H(ic ). S(itus ). S(it ). (Tibi ) T(erra ). L(evis )

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villa, ainda que numa zona onde, por enquanto, são parcos os vestígios romanos.

Consagrado aos Deuses Manes. Aqui jaz Mário Quintiliano, filho de Quinto, natural de Olisipo, de dezoito anos de idade. Júlia Rufina, a mãe, e Mário Máximo, o pai, mandaram fazer. Que a terra te seja leve!

b) Bibliografia e variantes

c) Comentário Esta inscrição funerária, infelizmente desaparecida, dá-nos a conhecer uma família olisiponense, ou pelo menos um ramo oriundo do município da foz do Tejo, estabelecida na zona de Coruche. A onomástica totalmente latina presente na epígrafe sugere uma profunda romanização de elementos de origem peregrina, como sublinha José d´ Encarnação,25 ainda que, cremos, relacionados com o círculo representativo dos colonizadores itálicos. O texto da inscrição aponta no mesmo sentido, concordando perfeitamente com o modelo de minuta usual neste tipo de memórias funerárias, muito provavelmente do século II. A falta de indicação da tribo não é rara, sobretudo em inscrições deste grupo social e com esta cronologia. Admitindo que a 25

Encarnação, IRCP, p. 494.

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Cunha, 3, 5; CIL II 124; Margarida Ribeiro, Coruche, p. 48; ILER 4064; IRCP 415; Mantas, Coruche, p. 54. Variantes: l. 3: [ IV]LIA (ILER ); l. 4: pontuação incompleta (IRCP ).


LUÍS MADEIRA

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Fig. 7 – O gentilício Marius, -a na Lusitânia

transcrição foi efectuada correctamente por Frei Francisco de Oliveira, em 1742, apenas há a considerar o corte das palavras Ulisiponens(is) e Rufina, bem como o lapso que se nota na fórmula final, que não é invulgar,26 salvaguardando a hipótese de se tratar de uma distracção de quem transcreveu inicialmente a epígrafe. O gentilício Marius conta com 91 testemunhos confirmados na Hispânia,27 cabendo à Lusitânia 25 deles (fig. 7), dos quais dois em Lisboa (CIL II 193, 5004), ambos pertencentes a um ambiente social elevado. Mais escassa é a presença na Península Ibérica do cognome Quintilianus, formado Verifica-se o mesmo lapso, entre outros testemunhos, na excelente ara funerária de Philon, proveniente do Monte da Pontinha, perto de Selmes, Vidigueira (IRCP 333a). 27 H. Solin / S. Solomies, Repertorium Nominum Gentilium et Cognomina Latinorum, Hildesheim, 1988, p. 113; Abascal Palazón, pp. 182-183. 26


Tudo indica que Marius Quintilianus pertenceu a uma família importante, com significativa presença em Olisipo e no Baixo Ribatejo. Esta circunstância é comprovada pela análise da denominação do pai de Marius Maximus, na qual se ignorou, por desnecessária, a menção do prenome, muito frequente entre os olisiponenses.32 Se uma das representantes da família Maria em Lisboa nada permite acrescentar acerca das grandes famílias da região (CIL II 5004), já o mesmo não se pode dizer de Vibia Maxima e Maria Procula A. Vieira da Silva, Epigrafia de Olisipo. Subsídios para a história da Lisboa romana, Lisboa, 1944, pp. 276-283. 29 Abascal Palazón, pp. 29-30, 151-166. 30 Kajanto, pp. 27-28, 229; H. Solin / S. Solomies, p. 393. 31 Abascal Palazón, pp. 485-487; R. Étienne / G. Fabre / P. e M. Lévêque, Fouilles de Conimbriga, II, Épigraphie et Sculpture, Paris, 1977, pp. 227, 271. 32 Vieira da Silva, pp. 276-282; J. Cardim Ribeiro, „Estudos histórico-epigráficos em torno da figura de L. Iulius Maelo Caudicus‰, Sintria, I-II, 1983-1984, pp. 449-451. 28

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a partir do prenome Quintus, muito vulgar em Olisipo, onde todavia não se conhece por ora nenhum Quintilianus.28 Na Lusitânia apenas se registaram, além do Quintilianus de Coruche, dois outros, em Faro e em Valdelacasa de Tajo (IRCP 35; HAE 783). O nome da mãe, Iulia Rufina, não sendo inusitado, faculta também indicações interessantes. O gentilício é o mais numeroso de todos os que se registam na Península Ibérica, ultrapassando 800 testemunhos, com uma notável concentração em Lisboa e no território olisiponense.29 O cognome Rufinus, -ina, que Kajanto situa no grupo relacionado com particularidades do corpo, é muito vulgar, mas com fraquíssima representação entre escravos e libertos.30 Ocupa o quinto lugar entre os mais frequentes na Hispânia, com um total de 163 casos, 50% dos quais se registaram na Lusitânia. É notável a sua presença em Conimbriga, Aeminium e Idanha-a-Velha, que reúnem não menos de 24 exemplos, sugerindo a sua utilização pela população indígena romanizada.31 No vale do Tejo é pouco frequente, contando com testemunhos em Lisboa (CIL II 214, 225), Póvoa de Santa Iria (ILER 4694) e Santarém (CIL II 330), todos da gens Iulia, um dos quais edil designado de Olisipo (CIL II 225).


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(CIL II 193), familiares do edil olisiponense L. Cantius Marinus.33 A antroponímia destas inscrições sugere, mais do que simples coincidências, relações no interior do grupo social hispano-romano que constituía, no Alto Império, a classe dominante na região. Finalmente, o cognome Maximus, -a, raro entre escravos e atribuído por Kajanto aos cognomina e virtute, propiciatórios,34 é o quarto da Hispânia, frequência que se identifica também noutras regiões europeias do Império, contando a Lusitânia com 103 testemunhos.35 Bem representado em Lisboa (CIL II 193, 219, 252, 354, 4995, 5222; AE 1985 515), ocorre igualmente na zona de Alenquer (CIL II 271, 316, 5520). O que fica dito ilustra a origem olisiponense de Marius Quintilianus, origem indicada na epígrafe e que recebe através da epigrafia uma clara comprovação, demonstrando o valor desta ciência na reconstituição das relações regionais e familiares. A este propósito lembramos ainda que o gentilício Vibius surge associado ao cognome Quintilianus na epígrafe do mosaico de Oceano, em Faro, onde se indicam, com toda a probabilidade, os magistri de uma corporação profissional ligada a actividades marítimas,36 e que o cognome de Maria Procula se encontra na onomástica de alguns notáveis de Utrera e de El Coronil, na região de Sevilha (CIL II 1282, 1283, 1371), os quais usam também o gentilício Aemilius e o cognome Papus, circunstância que permite, de alguma forma, considerar a influência deste grupo, através de Olisipo, na árula votiva de Santa Justa do Couço.37 Atendendo à raridade do cognome Quintilianus na Lusitânia, reflexo da sua fraca presença na Península 33 Vasco Mantas, „Os magistrados olisiponenses do período romano‰, Encontro de História das Figuras do Poder. Turres Veteras VII, Torres Vedras, 2005, pp. 37-38. 34 Kajanto, pp. 29-30, 71-72, 133, 275-276. 35 Abascal Palazón, pp. 31, 421-424. 36 Encarnação, IRCP, pp. 79-80; Vasco Mantas, „A cidade luso-romana de Ossonoba‰, Actas del I Coloquio de Historia Antigua de Andalucia, I, Córdova, 1993, pp. 521-523. 37 Por exemplo, em Utrera: M. Messius Rusticus Aemilius Papus Arrius Proculus Iulius Celsus (CIL II 1283 = HEp 580-581). Um Aemilius Papus foi cônsul sufecto em 136, no principado de Adriano.


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VASCO MANTAS

Ibérica, não queremos deixar de referir os Quintilii, proprietários de uma imponente villa nas cercanias de Roma (fig. 8), um dos quais desempenhou, no século II, o cargo de procurator na Hispânia e na Mauritânia Tingitana,38 o que talvez explique a ocorrência de alguns dos parcos testemunhos peninsulares.

As características do texto, consagração aos Deuses Manes através de siglas, formulário simples, aparente ausência de nexos e comedida expressão dos laços familiares, indica tratar-se de um monumento a situar no século II. Recinto do castelo, Coruche a) Descrição Ara funerária, truncada, em mármore branco da zona de Estremoz, encontrada por Rui de Azevedo, nos anos 20 do século passado, numa parede da casa da Irmandade de Nossa Senhora, situada no recinto do quase desaparecido castelo de Coruche, local onde se registaram outros 38

Rita Paris, Via Appia. La villa dei Quintili, Roma, 2002, pp. 22-23, 70.

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Fig. 8 – Ruínas da Villa dei Quintili, nos arredores de Roma


ARQUIVO CMC

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vestígios romanos. Foi oferecida pela Câmara Municipal de Coruche ao então Museu Etnológico (MNAE n.À 7033, fol. 106/v.) e publicada pela primeira vez por Leite de Vasconcelos, em 1929. Presentemente encontra-se exposta no Museu Municipal de Coruche, ao abrigo do protocolo estabelecido entre este e o Museu Nacional de Arqueologia. A existência de um estabelecimento romano no Monte do Castelo (fig. 9), pequeno povoado ou villa, é uma hipótese aceitável,39 sem excluirmos a possibilidade da ara ter sido trazida de outro local.

Fig. 9 – O Monte do Castelo e a Igreja de Nossa Senhora, Coruche

O monumento perdeu a base e o coroamento, o que lhe confere agora o aspecto de um cipo (fig. 10), ostentando decoração lateral, frequente no Sul da Lusitânia: à esquerda vestígios de um jarro; à direita uma pátera de grandes dimensões, em relevo, com umbos e pega para baixo (fig. 11). O texto não apresenta problemas de leitura, embora a Mantas, Coruche, pp. 64-65; F. Branco Correia, „Coruche medieval. Do final do Império Romano ao crepúsculo da Idade Média‰, O Homem e o Trabalho. A Magia da Mão, Coruche, 2003, pp. 72-74, 80. Prospecção geofísica e escavações recentes efectuadas na zona não permitiram resolver o problema, embora tenham facultado material de várias épocas.

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Vasco Gil Mantas Fig. 11 – Pormenor lateral da ara funerária de Nossa Senhora do Castelo (Museu Nacional de Arqueologia) [foto de José Pessoa/Divisão de Documentação Fotográfica/Instituto Português de Museus]

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Fig. 10 – Ara funerária de Nossa Senhora do Castelo (Museu Nacional de Arqueologia) [foto de José Pessoa/Divisão de Documentação Fotográfica/Instituto Português de Museus]


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pedra, rudemente reduzida à forma actual para facilitar a reutilização, acuse algumas agressões. O jarro, representado na face esquerda, foi deliberadamente obliterado. Dimensões: 60 x 50 x 24. Jarro: 37 x 18; Pátera: 36,5 x 19. Campo epigráfico: 58 x 50 cm. M(arius ) MENELA./VS. VIXIT. AN/NIS. L. VICTORI/NA. POSVIT. MA/RITO MERENTIS/ SIMO. H(oc ). T(umulo ). S(itus )./ E(st ). S(it ). T(ibi ). T(erra ). L(evis ). Mário Menelau viveu cinquenta anos. Vitorina colocou (este monumento) ao marido, modelo de merecimento. Jaz neste túmulo. Que a terra te seja leve!

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Altura das letras: l. 1: 5/5,7; l. 2: 5,5/7; l. 3: 5/7 (RI = 7,5); l. 4: 5,5/6,5; l. 5: 5,5/6 (RI = 7,5; TI = 6,5); l. 6: 5,3/6; l. 7: 5/5,5. Espaços: e. 1: 1,8/2,5; e. 2: 2/3,3; e. 3: 3/3,5; e. 4: 2,5/3,8; e. 5: 2,5/3,2; e. 6: 2,3/3; e. 7: 1,5/2; e. 8: 3. b) Bibliografia e variantes Leite de Vasconcelos, AP, XXVIII, 1927-1929, pp. 214-215; Margarida Ribeiro, Coruche, pp. 46-48; Lambrino, AP, 3.… série, III, 1967, p. 156; IRCP 429; Mantas, Coruche, pp. 65-66. c) Comentário Consideramos, como Encarnação e contra Lambrino,40 que a forma como o monumento foi mutilado para reutilização impede a existência de uma linha inicial, antes do texto conservado. Dado o pouco desgaste do campo epigráfico, esta reutilização deve ter limitado o tempo de exposição S. Lambrino, „Catalogue des inscriptions romaines du Musée Leite de Vasconcelos‰, O Arqueólogo Português, 3.… série, I, 1967, p. 156.

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A letra, de tipo monumental, é irregular, nas dimensões e no ductus, com os vértices mal conseguidos na maior parte dos caracteres; os nexos RI e TI foram traçados a partir do I. A gravação é nítida, assim como os ápices das letras. O campo epigráfico revela fraca organização, apesar da provável existência de linhas auxiliares, mal riscadas. Não há alinhamentos definidos e também não se identifica um eixo de simetria. A pontuação, a meia altura da linha, com sinais circulares, triangulares e, no final do texto, uma espécie de pequeno v, é particularmente curiosa, sem obedecer a nenhum critério epigráfico ou ortográfico, parecendo servir apenas um intuito decorativo, pois tanto separa palavras como separa sílabas, faltando entre as palavras marito e merentissimo, na linha 5. Verifica-se também o corte de palavras, inclusivamente dos antropónimos, sempre desagradável. A interpretação da letra M como sigla do prenome Marcus não merece a nossa eleição, por três razões: a utilização do prenome decresce a partir de meados do século II;42 a ausência do gentilício, sobretudo tratando-se, como parece, de um liberto, não é normal; a presença dos Marii está confirmada na zona de Coruche, onde deviam ser bem conhecidos. A indicação do gentilício através de uma sigla ou abreviatura não é rara, nomeadamente na Lusitânia meridional.43 Desta forma, não hesitamos em considerar a letra D. Strong, Roman Art, New Haven, 1995, pp. 264-274. Abascal Palazón, p. 28. 43 Encarnação, IRCP, p. 888; Vasco Mantas, „Inscrições romanas do Museu Municipal de Torres Vedras‰, Conimbriga, XXI, 1982, pp. 35-42. 41 42

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da ara aos agentes naturais, ainda que não seja possível determinar as condições em que tal aconteceu. Não obstante a qualidade do suporte, a paginação e a gravação do texto são de fraca qualidade, transmitindo uma sensação de rigidez, que a utilização arbitrária da pontuação não consegue disfarçar, situando o resultado final, pretensioso, muito longe da elegância das boas inscrições do Alto Império, preludiando de alguma forma a estética brutesca do Baixo Império.41


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M como sigla do gentilício latino Marius.44 Esta proposta, para além dos factores que nos levam a considerá-la positivamente, conta com o apoio de uma evidente relação, na Hispânia, entre o gentilício e cognomina gregos. Na verdade, dos 91 testemunhos peninsulares, femininos e masculinos, 20 surgem associados a cognomes de origem grega, mais ou menos latinizados, na maioria pertencentes a libertos, correspondendo ao seu antigo nome único enquanto escravos.45 Naturalmente, estes testemunhos conhecem a mesma distribuição litoral que caracteriza a presença do gentilício Marius, surgindo igualmente em áreas de desenvolvida economia rural. O cognome Menelaus corresponderá, pois, ao antigo nome de escravo do defunto. Raríssimo na Península Ibérica,46 onde o único paralelo conhecido, um tanto inseguro (Menelaus ou Menelavus?), se registou em Porcuna, na Bética (CIL II 2135 = ILER 1539), constitui, como antropónimo do marido de Helena, um índice cultural interessante, sugerindo um patrono dotado da formação literária clássica fundamental. Recordamos que o uso de cognomina gregos não significa, como muitas vezes se pretende, que os seus portadores possam ser automaticamente considerados como gregos, ainda que muitos fossem oriundos da área helenística do Império, considerando o hábito mais ou menos generalizado de atribuir nomes gregos aos escravos. No curso inferior do Tejo, a cidade de Olisipo, como é normal num grande centro portuário e administrativo, reúne um núcleo muito significativo de indivíduos com cognomes de origem grega.47 Victorina é um cognome romano abundantemente representado. Kajanto refere um total de 884 testemunhos, nove dos quais senadores, situando este antropónimo entre os nomes H. Solin / S. Solomies, p. 113. Abascal Palazón, pp. 182-183. 46 H. Solin, Die Griechischen Personnamen in Rom. Ein Namenbuch, Berlim, 1982, p. 501; Abascal Palazón, p. 427. 47 Vieira da Silva, pp. 273-282; Vasco Mantas, „Comércio marítimo e sociedade nos portos romanos do Tejo e do Sado‰, Ocupação Romana dos Estuários do Tejo e do Sado, Lisboa, 1996, pp. 357-358. 44 45


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laudatórios.48 Na Península Ibérica conta com discreta representação, somando 31 exemplos como cognome e nome único.49 Porém, se tivermos em conta a carta de distribuição, nota-se uma importante concentração na Lusitânia a sul do Tejo, em zonas de forte aptidão agrícola (fig. 12), onde se encontram 11 dos testemunhos registados.50 Uma inscrição de Lisboa (CIL II 211) refere um Cornelius Victorinus, irmão de uma Cornelia Gamica, cujo cognome aparentemente relacionado com Gamus, raríssimo, se encontra, com varianKajanto, p. 278. Abascal Palazón, pp. 545-546. 50 Na Quinta de Santa Margarida, Montemor-o-Novo, achou-se a ara funerária de Laberia Nigra, mandada fazer pelo sobrinho G. Aurelius Victorinus, monumento talvez dos inícios do século III e que mostra o mesmo tipo de pontuação incoerente que existe na ara de Nossa Senhora do Castelo, bem como uma pátera idêntica (IRCP 426). 48 49

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Fig. 12 – O antropónimo Victorinus, -ina na Lusitânia


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tes, na Bética e em Tarragona.51 Assim, embora o cognome Victorinus, -a, seja muito vulgar, a sua presença na região de Coruche coincide, mais uma vez, com as relações pressentidas com as ricas áreas meridionais e mediterrânicas da Hispânia, reflectindo a existência de uma rede social de grandes famílias e respectivas clientelas, como parece ser o caso da inscrição da Hacienda de Diego Montero. Esta relação ressalta igualmente na fórmula vixit annis, largamente representada no Sul lusitano, em particular no litoral algarvio, sobretudo em epígrafes dos séculos II e III e num ambiente de libertos.52 A mesma ligação ao Sul está patente na muito invulgar fórmula final hoc tumulus situs est, identificada sob forma ligeiramente diferente apenas numa inscrição de Mértola (IRCP 112). Tudo considerado, pensamos poder atribuir esta interessante inscrição ao século III e considerar Menelaus e Victorina um casal de libertos da família Maria, não faltando no texto da epígrafe a expressão dos laços familiares, transmitida com humana simplicidade, com a qual talvez se possa relacionar o apagamento do gentilício do marido. O amor é uma realidade de todos os tempos, não rareando os exemplos sublimes a todos os níveis da sociedade romana.53 Santa Luzia, Coruche a) Descrição Grafito executado antes da cozedura na parte superior do bordo, truncado, de um grande vaso de cerâmica comum (fig. 13), de pasta de cor alaranjada, encontrado à superfíKajanto, p. 147; Solin, pp. 959-960; Abascal Palazón, p. 378. Encarnação, IRCP, p. 884. Os testemunhos registados no Algarve representam 79% do total das ocorrências a sul do Tejo. 53 J. Carcopino, A vida quotidiana em Roma no apogeu do Império, Lisboa, s/d, pp. 105-129; Jorge de Alarcão, „Assim o amor na Antiguidade‰, A Mulher e a Sociedade. III Cursos Internacionais de Verão de Cascais, Cascais, 1997, pp. 63-77. Devemo-nos precaver de interpretações simplistas, tão em voga na literatura do século XIX e no cinema do século XX, de novo presentes, embora com intenções algo diferentes, no âmbito da vulgarização lúdica, escrita e visual, caso da rocambolesca série televisiva Roma. 51 52


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cie no sítio de Santa Luzia, nos arredores de Coruche, onde existem vestígios de um importante estabelecimento romano.54 Faz parte do acervo do Museu Municipal de Coruche (Inv. n.À 392.8.8.76). Não é possível determinar a forma do recipiente, que seria de razoáveis dimensões, atendendo à curvatura do que resta do bordo. Dimensões: 8 x 3,5. Campo epigráfico conservado: 6 x 3 cm. FOR[TIVS] Força! Altura das letras: 1,5/3. b) Bibliografia e variantes Mantas, Coruche, p. 62. Mantas, Coruche, pp. 56, 62, 64. É particularmente importante o espólio cerâmico da estação de Santa Luzia, só por si suficiente para justificar uma escavação no local. 54

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Fig. 13 – Grafito de Santa Luzia


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c) Comentário

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Se considerássemos a presença de um nome pessoal poderíamos admitir tratar-se de Fortis ou Fortius, ambos fracamente representados na Península Ibérica,57 ou, em alternativa, Fortunatus, que ocupa o 22.À lugar entre os cognomes

Este grafito levanta alguns problemas de interpretação, uma vez que se encontra incompleto. O ductus das letras, traçadas com um cálamo, é elegante, inclinado sobre a direita e demonstrando segurança na escrita. Os caracteres aproximam-se da forma actuária, arredondados: os travessões do F foram obtidos a partir de um traço semelhante a um pequeno C; o O quase poderia considerar-se um V, não fosse a ausência do vértice. Como interpretar o que ficou da inscrição: voto instigador ou antropónimo? Considerando tratar-se de um grafito anterior à cozedura da peça, com toda a probabilidade de manufactura local, e a inserção normal de formas aclamatórias, preferencialmente no bordo e não no bojo, preferimos interpretar o que resta da palavra como um incitamento de tipo popular, de que existem conhecidos exemplos no mundo romano,55 ainda presentes na nossa própria cultura. Simultaneamente, transmite um testemunho directo, eloquente na sua simplicidade, da difusão do Latim escrito entre as camadas populares da população luso-romana, difusão bem maior do que alguns admitem, reflexo de um grau de alfabetização muito superior ao que existiu em épocas posteriores.56

55 F. Mayet, Les céramiques sigillées hispaniques. Contribution à l´histoire économique

de la Péninsule Ibérique sous l´Empire Romain, Paris, 1984, pp. 108, 241. São muito numerosos os testemunhos do uso corrente do Latim como língua normal de comunicação entre os indígenas, particularmente significativos em ambientes humildes, caso dos operários cerâmicos de Conímbriga ou dos habitantes de algumas casas de Briteiros, que indicam a propriedade das mesmas em curtas inscrições latinas. Recordamos a existência em Vipasca (Aljustrel), um vicus fabril, de um mestre escola (ludi magistri), referido no regulamento das minas (IRCP 142). Um levantamento deste tipo de inscrições permitirá desenvolver o conhecimento do Latim falado e, eventualmente, detectar variantes e influências directamente relacionadas com a sua aprendizagem pelos indígenas. Sobre este último aspecto: S. Mariner Bigorra, „Hispanische Latinität und sprachliche kontacte im römischen Hispanien‰, Aufstieg und Niedergang der Römischen Welt, II, 2, Berlim, 1983, pp. 819-852. 57 Kajanto, pp.122, 257; Abascal Palazón, p. 142. 56


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registados na Hispânia, mas que é raro na Lusitânia.58 Preferimos, pois, manter a interpretação do grafito como voto de exortação. Inscrito num contentor cujo bocal sugere um pequeno dolium ou talha,59 podemos considerar com segurança que não seria um vaso de beber, mas sim um recipiente de onde se retiraria o vinho para o gasto corrente. O consumo de produtos vinícolas nesta região, onde o cultivo da vinha, segundo o claro testemunho de Políbio, já teria atingido um significativo desenvolvimento no período republicano,60 constituiria parte normal da dieta quotidiana, como as ânforas vinárias lusitanas achadas em Mata Lobinhos confirmam.61 Podemos, assim, considerar como um hábito popularizado nesta área da Lusitânia o consumo de vinho, produto particularmente importante numa época em que se desconheciam outros estimulantes,62 como o café, prática que insere a região, também sob este aspecto, no grande mundo de influência mediterrânica. Marcas de terra sigillata Fragmento de fundo de uma pequena taça de sigillata itálica tardia (fig. 14), de tipologia difícil de definir, achado no sítio de ˘guas Belas, local de uma villa da qual provêm outros materiais.63 Uma classificação anterior e a presença da marca truncada AT, levou-nos a considerá-la como Abascal Palazón, p. 126. O único testemunho no território português a sul do Tejo, a inscrição funerária de Fortunata, registou-se na Herdade da Fonte do Prior, Montemor-o-Novo (IRCP 412). 59 M. Beltrán Lloris / M. Ortiz Palomar / J. Paz Peralta, „La vajilla relacionada con el vino en Hispania‰, El Vino en la Antigüedad Romana, Madrid, 1999, pp. 137, 142-143. 60 Políbio, 34, 9 9; C. Fabião, „O vinho na Lusitânia: reflexões em torno de um problema arqueológico‰, Revista Portuguesa de Arqueologia, vol. 1, 1, 1998, pp. 169-198. 61 Mantas, Coruche, p. 62. 62 O. Murray / M. Tecusan (ed.), In Vino Veritas, Roma, 1995, pp. 167-317; J.-P. Brun, Le vin et l´huile dans la Mediterranée antique, Paris, 2003, pp. 7-121. 63 Mantas, Coruche, pp. 57, 64, 177-182. Agradecemos cordialmente as sugestões da nossa colega Conceição Lopes a propósito da classificação desta peça. 58

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a) Águas Belas, Coruche


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Fig. 14 – Marca de terra sigillata de ˘guas Belas

marca de um dos vários oleiros de Tritium Magallum com o nome Attius.64 Tratando-se de uma marca in planta pedis, extremamente rara no contexto da sigillata hispânica,65 preferimos, atendendo às características da pasta e do verniz, considerá-la como uma produção itálica de Arezzo, da oficina de Cneus Ateius, de época tiberiana.66 Há vestígios do que pode ser uma terceira letra, talvez um E ou O. AT [...] b) S. Pedro, Coruche Fragmento do fundo de um prato de sigillata itálica tardia, achado numa acção de emergência levada a efeito junto da igreja de S. Pedro, em Coruche, local que forneceu abundante espólio cerâmico.67 No interior do fundo ostenMantas, Coruche, p. 61; Mayet, pp. 120-122. Mayet, p. 111. Apenas se conhece um exemplo hispânico (n.À 496), talvez de Trittium. 66 B. Hofmann, „Catalogue des estampilles sur vaisselle sigillée‰, Notice Technique. Touring Club de France, 23, p. 24, pl. II. 67 J. Carlos Quaresma / Cristina Calais, „S. Pedro (Coruche): novos dados para o processo de romanização do vale do Sorraia na época augustana e júlio-cláudia‰, Revista Portuguesa de Arqueologia, 8, 2, 2005, pp. 429-447. 64 65


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ta decoração em roleta e uma marca radial, truncada, no interior de um caixilho, com dois registos (fig. 15). A interpretação desta marca não é fácil. Considerando as suas características e a possibilidade da existência de um nexo ANT, poderíamos classificar o fragmento como resto de uma peça produzida em Arezzo, no período tiberiano, por Anthus, um dos muitos escravos ao serviço do empresário Publius Cornelius, cujo nome, abreviado, se leria no registo superior da estampilha.68 Porém, parece mais aceitável atribuir a marca, como fizeram os arqueólogos responsáveis pela escavação em S. Pedro, ao oleiro Fonteius ou Fonteianus, este último activo no principado de Augusto, embora apenas se lhe conheçam marcas de uma única linha.69 [...] / [OF] FNT[...] Hofmann, p. 25, pl. VIII. A. Oxé / H. Confort / P. Kenrick, Corpus Vasorum Arretinorum. A catalogue of the signatures, shapes and chronology of Italian sigillata, Bona, 2000, p. 227.

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Fig. 15 – Marca de terra sigillata de Coruche


Epigrafia romana no concelho de Coruche Colóquio Margarida Ribeiro (Actas) - pág. 30

Conclusões Como dissemos inicialmente, são poucos, por enquanto, os monumentos epigráficos da época romana que se registaram no concelho de Coruche. Esta raridade não reflecte um vazio de ocupação do território, que a prospecção arqueológica vai contrariando, demonstrando ter havido uma densidade elevada de estabelecimentos romanos, sobretudo ao longo dos eixos fluviais que conduziam ao Tejo. Podemos atribuí-la, em parte, à falta de escavações sistemáticas, de momento ainda raras, em parte à reutilização de materiais numa zona onde nem sempre é fácil encontrar pedra para construção. Esta circunstância aparentemente negativa não deve, pois, ser sobrevalorizada, uma vez que se verifica mesmo em sítios urbanos com alguma importância, como Eburobrittium (Łbidos), onde as inscrições são igualmente raras.70 É certo que estamos numa região rural, o que determina de imediato características muito específicas para o material epigráfico, neste caso largamente proveniente de villae ou de santuários rurais. Esta realidade encontra-se claramente representada nas raras inscrições romanas registadas na área do concelho. A sobrevivência dos cultos indígenas, ainda que sob formas aculturadas, normal entre os pagani, está presente na inscrição de Santa Justa, exemplificando como se podia ser formalmente romano e intimamente lusitano, sem que tal facto constituísse razão de inultrapassável conflito, menos ainda símbolo de uma pretensa resistência, a ser interpretada no seu contexto próprio e nunca como um fenómeno generalizado no Império. Outras inscrições levam-nos directamente ao mundo dos grandes estabelecimentos rurais, as villae, seguramente copiosas na zona de Coruche, propriedade de importantes famílias ou das suas clientelas e testemunhando ligações estreitas com o mundo urbano, quer no vale do Tejo quer noutras das regiões mais romanizadas da Hispânia, reflectindo de forma muito clara José d´ Encarnação / J. Beleza Moreira, „Epigrafia de Eburobrittium‰, A Presença Romana na Região Oeste, Bombarral, 2005, pp. 131-134. Outro exemplo significativo é o de Talabriga, de que não se conhecem epígrafes e cuja localização continua incerta, embora tenha sido centro de uma civitas. 70


Numerosa informação em: Graça Filipe / Jorge Raposo (coord.), Ocupação romana dos estuários do Tejo e do Sado, Lisboa, 1996; A. Margarida Arruda / Catarina Viegas / M. José Almeida (coord.), De Scallabis a Santarém, Lisboa, 2002. Julgamos chegada a altura de se organizar uma reunião científica (mesa-redonda ou simpósio) sobre a romanização do vale do Tejo e dos seus afluentes. Aqui deixamos o desafio. 72 Encarnação, IRCP, mapa entre as páginas 852-853; J. Cardim Ribeiro, „Felicitas Iulia Olisipo. Algumas considerações em torno do catálogo Lisboa Subterrânea‰, Al-madan, 2.… série, 3, 1994, pp. 79-82. 73 Catão, De Agr., Prefácio. 71

Vasco Gil Mantas Colóquio Margarida Ribeiro (Actas) - pág. 31

a estrutura socioeconómica desenvolvida pela administração romana imperial e o lugar que naquela competia às elites locais, nitidamente relacionadas entre si. Ao mesmo tempo, num plano diferente, constituído por factos do quotidiano sobre os quais se elabora a história da civilização material, contamos com alguns cacos que, através do grafito e das marcas de terra sigillata, permitem saber alguma coisa sobre estilos de vida, correntes comerciais e cronologia do processo romanizador, que nesta região, como noutras do Ribatejo,71 parece ter conhecido forte impulso nos finais da República e primeiros tempos do Império, ao que não foi estranha a proximidade de Scallabis e de Olisipo. Em resumo, e para terminar, diremos que, apesar da margem esquerda do Tejo constituir uma zona pobre da epigrafia luso-romana, não era uma região deserta, desconhecedora de actividades económicas relevantes.72 Antes pelo contrário, são numerosos os indícios da existência de núcleos produtivos diversificados, ampliando o cenário que as fontes literárias antigas nos transmitiram, vestígios que nos começam a murmurar alguma pouca coisa desta história da nossa história, afinal tão próxima de nós em tantos aspectos. Fortemente marcada na sua vida económica e cultural por tradições agro-pecuárias, ainda bem vivas, a região de Coruche conheceu na época romana gente que Catão não hesitaria em considerar digna do seu elogio austero e pragmático, tão diferente dos que hoje se prodigalizam sem medida: Quando queriam louvar um bom cidadão, davam-lhe o título de bom agricultor, de bom lavrador. Estes termos para os nossos antepassados eram a mais elevada expressão de louvor.73


Separata da obra: Colóquio Margarida Ribeiro – 15 de Março de 2006 – Actas (pp. 67-97) Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor © 2008 Câmara Municipal de Coruche Museu Municipal 1.… edição, Maio de 2008 Coordenação: Domingos Francisco Design da capa, grafismo e paginação: Domingos Francisco Revisão: Ana Paiva Impressão: Litografia Amorim Depósito Legal: ISBN 978-972-99637-3-5


Epigrafia romana no concelho de Coruche  
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