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Museu Municipal de Tavira Palรกcio da Galeria


Museu Municipal de Tavira Palรกcio da Galeria 2011


Ficha Técnica Museu Municipal de Tavira Palácio da Galeria Director Jorge Queiroz Coordenação e Produção Ana Sofia Miguens Museologia, Investigação do Território Célia Teixeira, Marta Santos Daniel Santana, Rita Manteigas Marco Lopes

Exposição Comissariado Científico Jorge Queiroz, Rita Manteigas Coordenação e Produção Expositiva Ana Sofia Miguens Serviço Educativo Luísa Ricardo, Patrícia Gonçalves Fotografias Família Andrade

Arqueologia Jaquelina Covaneiro, Sandra Cavaco

Pesquisa Documental Rita Manteigas, Luís Andrade

Técnicos de Arqueologia Ana Sofia Vieira, Celso Candeias, Susana Gonçalves

Textos Museu Municipal de Tavira

Conservação, Restauro e Colecções Leonor Esteban

Revisão Centro de Documentação do Museu Municipal de Tavira

Serviço Educativo Luísa Ricardo, Patrícia Gonçalves

Traduções José Gabriel Flores

Inventário e Colecções Cristina Bernardo, Leonor Esteban

Museografia Nerve Atelier de Design / Montra Cultural

Centro de Documentação Cristina Bernardo

Conservação, restauro e preparação das peças Ana Sofia Vieira, Celso Candeias, Leonor Esteban, Susana Gonçalves

Técnicos Auxiliares de Museografia Carlos Pires, José Fernandes, José Gregório, José Neves, José Tolentino Ribeiro

Auxiliares de Museografia Carlos Pires, José Fernandes, José Gregório, José Neves, José Tolentino Ribeiro Montagem CMT/ Nerve Atelier de Design Transportes CMT Seguros Companhia de Seguros Allianz Portugal S.A


Catálogo Coordenação Jorge Queiroz, Rita Manteigas Artigos Rita Manteigas, Tereza Siza Catálogo Rita Manteigas [RM] Revisão e assistência documental Centro de Documentação do Museu Municipal de Tavira Traduções José Gabriel Flores Digitalizações Alcide Andrade, Arquivo Municipal de Lisboa, Caminhos de Ferro. Secretaria Geral, Catarina Isabel Canelas Almeida, Centro de Documentação do Museu Municipal de Tavira, Direcção-Geral de Arquivos. Centro Português de Fotografia, Direcção-Geral de Arquivos. Torre do Tombo, Nerve Atelier de Design, Vítor Manuel Rosa Silva Design Gráfico Nerve Atelier de Design / Montra Cultural Impressão Textype Depósito Legal xxx xxx / 11 ISBN 978-972-8705-43-5 Tiragem 500 Exemplares Edição Câmara Municipal de Tavira, 2011

Agradecimentos Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca Municipal de Faro - António Ramos Rosa, Biblioteca Municipal Vicente Campinas - Vila Real de Santo António, Caminhos de Ferro. Secretaria Geral, Direcção-Geral de Arquivos. Centro Português de Fotografia, Direcção-Geral de Arquivos. Torre do Tombo, Ginásio Clube de Tavira, Nerve Atelier de Design Agradece-se ainda a Aida Ferreira, Alcide Andrade, Anabela Ribeiro, Armando Manuel de Mello e Horta, Beatriz Prazeres, Carina Vieira, Carlos Andrade, Catarina Isabel Canelas Almeida, Cláudia Matos, Damião Andrade, Fernando Santos, Joana Gomes, João Andrade, Jorge Justo Pereira, Liberto Castanho Soares, Luís Andrade, Luís Gameiro, Luís Maria de Mello e Horta, Manuel Luís Costa Batista, Margarida Santos, Maria Adelaide Palmilha, Maria Andrade, Maria de Lurdes Sales Baptista, Maria do Rosário Palermo Mendonça, Maria Lindo Santos Justo Pereira, Mariana Ornelas do Rego, Miguel Andrade, Ricardo Cordeiro, Rita Andrade, Rui Cansado Guedes, Rui Gonçalves, Rui Jorge Chagas Junqueira dos Reis, Stelmo Barbosa, Vítor Manuel Rosa Silva A todos os colaboradores e amigos do Museu, que contribuíram com informações e cedência de peças. À Família Andrade.


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Índice Índice Presidente da Câmara Municipal de Tavira

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Jorge Botelho

Apresentação

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“Fotografar”: Memória de um século Jorge Queiroz

Artigos Uma casa fotográfica da primeira metade do século XX: a representatividade da Casa de Apolinário de Andrade em Tavira

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Tereza Siza

A Família Andrade: de photographos excursionistas à fixação dos ateliers na cidade

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Rita Manteigas

Catálogo Parte 1 – De fotografo “escursionista” a “Moderno Atelier de Fotografia”

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Parte 2 – Os anos 50/60: entre a reportagem fotográfica e as encenações da realidade

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Parte 3 – Até à actualidade: entre o aparecimento da cor e a democratização da fotografia

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Créditos

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Os Andrades são fotógrafos profissionais em Tavira há cem anos, uma actividade iniciada em 1912 por Apolinário Andrade. Pelas máquinas e objectivas dos Andrades passaram muitas gerações de tavirenses, homens, mulheres e crianças, gentes de diferentes épocas e condições sociais. Na sua actividade de fotógrafos registaram também importantes momentos de uma história social que aos poucos desaparece para ficar guardada para sempre nas imagens. Os Andrades por diversas ocasiões e formas têm colaborado com a Câmara Municipal de Tavira, mas desta vez será uma relação diferente. Tratou-se de construir conjuntamente uma exposição que o Município e os cidadãos há muito desejavam e para a qual no Museu Municipal de Tavira há muitos meses se trabalha. O resultado final poderá vê-lo a partir de 9 de Julho no Palácio da Galeria. Até ao final do ano todos terão a oportunidade de conhecer uma selecção criteriosa do extenso espólio constituído por milhares de imagens captadas nas casas de fotografia dos Andrades e no exterior, veremos ainda a evolução tecnológica que se operou no mundo da fotografia dos primeiros equipamentos à era digital.

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The Andrades have been professional photographers in Tavira for about a hundred years, ever since Apolinário Andrade had his business start in 1912. Many generations of Tavirans, men, women and children from different times and all walks of life, have passed through the Andrades’ cameras and lenses. While going about their business as photographers, they also recorded and preserved important moments from a slowly disappearing social history in their pictures. The Andrades have often and in a variety of ways collaborated with the Tavira City Council, but this time the collaboration has focused on the joint preparation of an exhibition that has long been desired by the Municipality and its citizens, and which the Tavira Municipal Museum has spent many months preparing. The final outcome of all this work will be made public from 9 July on, at Palácio da Galeria. Until the end of the present year, everyone will have the opportunity to enjoy a careful selection from a large collection of thousands


Esta exposição surge já na segunda década do séc. XXI mas fala-nos sobretudo do século anterior e através dela recordaremos o que de mais significativo se passou em Tavira. A Câmara Municipal de Tavira manifesta particular gratidão à família Andrade pela rara oportunidade proporcionada aos tavirenses, muito especialmente aos fotógrafos Damião, João, Luís, Alcide e Miguel Andrade, que colaboraram nos trabalhos preparatórios. Agradecemos ainda a todos quantos se empenharam na concretização desta exposição, aos autores dos textos Jorge Queiroz, Tereza Siza e Rita Manteigas, historiadora que investigou o espólio disponível, ao designer Rui Gonçalves e a toda a equipa do Museu Municipal de Tavira.

O Presidente da Câmara Municipal de Tavira, Jorge Botelho

of photographs taken in the Andrades’ studios and in outside locations, and also to accompany the technological evolution in the realm of photography, from early cameras to the digital era. Though opening already in the 21st century’s second decade, this exhibition refers mostly to the previous century: through it, we will remember the most important events in Tavira. The Tavira City Council wishes to thank the Andrade family for giving the Tavirans this rare opportunity, particularly the photographers Damião, João, Luís, Alcide and Miguel Andrade, who have all helped prepare the exhibition. We also thank all those who worked to make this event possible, including the authors of the texts in this catalogue: Jorge Queiroz, Tereza Siza and historian Rita Manteigas, who researched the available materials, graphic designer Rui Gonçalves and the whole Tavira Municipal Museum team.

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“Fotografar” Memória de um século O problema é que o tempo desaparece a cada instante… A fotografia foi, nos seus primórdios, uma revolução tecnológica, comercial e no plano artístico uma actividade tendencialmente substitutiva da paisagem ou do retrato, até se impôr como disciplina artística autónoma com relevância idêntica à de outras. Mas a fotografia contém dimensões que a diferenciam e que resultam da possibilidade de captar em fracções de segundo o momento único e irrepetível, criando uma memória de acontecimentos, dos afectos, sublinhando presenças e evitando esquecimentos. A fotografia permite ainda a alquimia do laboratório e a viagem fantástica para a reconstrução de universos singulares e ficcionais. “Escrevemos livros e criamos obras de arte porque sabemos que vamos morrer e não queremos ser esquecidos” confidenciava alguém relevante na literatura portuguesa sobre as subjectividades do processo criativo. Diria que também fotografamos ou somos fotografados porque queremos, ou outros querem, que o tempo perdure para além de nós, nas paisagens e lugares, nos acontecimentos e nas pessoas. As nossas casas estão cheias de memórias nas imagens que guardamos e emolduramos, das fotos que colocamos nas paredes, nas mesas de sala, nos álbuns e computadores que agora nos acompanham. Cada um possui diferenciadas visualidades e interpretações, a “realidade” é sempre individual e colectivamente construída, somatório das razões que iluminam versões parcelares e permitem uma hipotética história comum. As cidades, como as pessoas, guardam registos e as transformações, lutam pela sua memória e buscam nela elementos identificadores, porque sem estes estarão perdidas no oceano de imagens que chegam a cada instante. Há cidades que foram definitivamente destroçadas por desejos de territórios e poderes invasores, que impuseram o radicalismo da afirmação de valores e novas religiões, mas também existem as que perduraram em fragmentos da história, descritas nos seus monumentos e símbolos, pelos conjuntos históricos e rituais colectivos, nos espólios materiais e imateriais resgatados pela investigação.

The problem is, time disappears continually… In its beginning, photography was a technological and commercial revolution; in the field of art, it came close to replace painting as the means to create landscapes and portraits, until it eventually imposed itself as an autonomous artistic form, just as relevant as any other. However, photography has a number of distinguishing features, the result of its ability to capture in a fraction of a second a unique, unrepeatable moment, creating a memory of events and affections, highlighting presences and avoiding oblivion. Photography also encompasses the alchemy of the laboratory and the fantastic journey towards the reconstruction of singular fictional universes. “We write books and create works of art because we know we are going to die and we do not want to be forgotten”, an important Portuguese writer once said about subjectivity in the creative process. I would also say that we photograph or are photographed because we want, or others want, time to outlive us, in landscapes and places, in events and people. Our houses are full of memories in the pictures we keep and frame, in the photos we display on the walls, on living-room tables, in the albums and computers that now share our space. Each one of us has a different outlook on things, a different way to interpret them; ‘reality’ is always individual and collectively constructed, a summation of reasons that illuminate partial versions and allow for a hypothetical common history.

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As cidades e regiões que sobreviveram preservando o rosto e a alma, as que souberam inserir a modernidade sem descaracterizar o passado, são hoje lugares que se afirmam. Portugal tem felizmente cidades especiais, entre as quais se inclui Tavira. Esta cidade especial permite uma viagem que questiona a história com muitas interrogações e hipóteses abertas para as próximas gerações. Os poços votivos da colina e a comunidade fenícia, a cidadela islâmica e as minorias filosófico-religiosas, os navegadores como os Corte Reais que daqui partiram à descoberta do mundo e os que patrulharam o Estreito, o bairro da ribeira e as origens dos telhados de tesouro, as vinte e uma igrejas em 66 hectares do Centro Histórico, a engenharia militar de Sande Vasconcelos e a “aula de desenho”, as linhas programáticas da arquitectura portuguesa de André Pilarte a Souto Moura, os últimos séculos e a contemporaneidade. E a fotografia dos últimos cem anos. Compreender a cidade contemporânea, o eclodir dos modelos e as identidades que se renovam são alguns dos grandes reptos do nosso tempo, um tempo inquietante que nos desafia e tudo põe em causa.

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Cities, like people, hold records of their transformations, strive for their memory and search it for distinctive elements, for without them they will find themselves adrift in the ocean of ever-arriving images. Some cities were thoroughly torn apart by territorial ambitions and invading powers, which have imposed on them a radical change in values and religion, but there are also others that have managed to survive in fragments from history, described in their monuments and symbols, in collective historic and ritual complexes, in material and immaterial legacies revealed by research. Those cities and regions that have managed to survive while preserving their faces and souls, that knew how to bring in modernity without losing their past, are places that stand out today. Fortunately, Portugal has its share of special cities, and Tavira is among them. This special city invites us to a journey across history, full of questions and opportunities for the coming generations. The votive wells on the hill and the Phoenician community, the Islamic citadel and its philosophical and religious minorities, navigators like those of the Corte-Real family, who set sail from here to discover the world, or those who patrolled the Strait, the Ribeira neighbourhood and the origins of scissor roofs, the twenty-one churches in the sixty-six hectares of the Historic Centre, Sande Vasconcelos’ military engineering and ‘drawing school’, the development lines of Portuguese architecture from André Pilarte to Souto Moura, the latest centuries and contemporaneity. And photographs from the last hundred years.


Precisamos dos registos antigos, da memória fotográfica que explica a cidade e o movimento permanente das gerações, o apoio das casas fotográficas e ateliers profissionais, dos ambulantes, os álbuns de família, os retratos de amadores da arte e dos viajantes, os mundos de alfarrabistas e antiquários, fontes inesgotáveis.

Understanding the contemporary city, the emergence of new models and the renovation of identities are some of the great challenges of our time, a troubling time that confronts us and puts everything into question. We need old records, the photographic memory that explains the city and the constant movement of generations, the help from professional photography studios and street photographers, family albums, portraits of art lovers and travellers, and the worlds of old book and antique sellers, those inexhaustible sources of material. Over time, the Tavira Municipal Museum has featured Portuguese and international photographic art in its programming. Over the last few years, the Palácio da Galeria has displayed important trends in photography, from the Bressonian approach of Gérard Castello-Lopes to the photographic journalism of Eduardo Gageiro, from the alchemical luminosity of José Manuel Rodrigues (Prémio Pessoa - 1999) to the fictional stagings of Noé Sendas…. There was also “A preto e branco” (Palácio da Galeria – 2004), by Centro Português de Fotografia, an exhibition curated by Teresa Siza and including an instructive journal, that brought us many instances of the Portuguese photographic heritage.

Pela importância da fotografia, o Museu Municipal no seu programa vem apresentando perspectivas da arte fotográfica portuguesa e internacional. O Palácio da Galeria mostrou, nos últimos anos, obras e significativas tendências da fotografia, do bressonismo de Gérard Castello-Lopes ao fotojornalismo de Eduardo Gageiro, da luminosidade alquímica de José Manuel Rodrigues (Prémio Pessoa - 1999) às encenações ficcionadas de Noé Sendas…. Também “A preto e branco” (Palácio da Galeria – 2004) do Centro Português de Fotografia, comissariada por Tereza Siza e acompanhada de um didáctico jornal, nos trouxe muitos registos do património fotográfico nacional.

The present exhibition has its source in a mutual interest: the Andrade family’s willingness to tell us their story, and the willingness of the Tavira Municipal Museum/ Palácio da Galeria to reveal it and share it with the public. If, on the one hand, it is our desire to create a solid museological exhibit, based on knowledge, learning, classification and desire to offer it back to the community at large, on the other we are also aware of the urgency to protect and preserve valuable and fragile materials, normally kept in less than ideal conditions.

A exposição “Fotografar” tem na sua origem um interesse recíproco, a disponibilidade da família Andrade para nos contar a sua história e do Museu Municipal de Tavira/Palácio da Galeria para a revelar e partilhar. Se por um lado emerge a necessidade de construção de discurso museal fundamentado, suportado pelo conhecimento, estudo, classificação e a vontade de o devolver à comunidade, por outro também a consciência da urgência em proteger e preservar materiais de grande valor e sensibilidade, perecíveis, normalmente guardados em lugares pouco apropriados sujeitos às mais diversas vicissitudes.

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The existence of a collection of the work carried out by a family of photographers, the Andrades, who have spent about a century documenting the city and its inhabitants, was excellent news for Tavira, a city that has a relevant history of searching for lost centuries, for documents and objects that went missing in the rush of time. The collection confirms the existence of a sequence of images that open manifold possibilities in terms of solving doubts and, most of all, furnishing elements for the analytical and comparative study of local history.

A existência do espólio de uma família de fotógrafos, os Andrades, que há cerca de um século regista a cidade e os seus habitantes, foi para Tavira uma excelente notícia, uma cidade com uma história relevante em busca dos séculos perdidos, dos registos e objectos desaparecidos na voragem do tempo. O espólio confirma a existência de um registo sequencial de imagens que abrem possibilidades múltiplas ao esclarecimento de interrogações e sobretudo elementos para o estudo analítico e comparativo da história local. Sendo os Andrades uma família de fotógrafos, há muitas décadas com lojas abertas na cidade, os milhares de registos fotográficos são normalmente respostas a encomendas de diverso tipo, cobertura de acontecimentos sociais, fotos de grupos ou para documentos oficiais, imagens com finalidades múltiplas, histórias de ciclos da vida, gerações que como as marés chegam e partem.

Since the Andrade family is the holder of a decades-long photography business in Tavira, these thousands of photographs are normally meant to fulfil several kinds of commissions: the coverage of social events, group photos or pictures taken for official documents, images with many purposes, detailing life cycles, generations that come and go like the tides. After the exhibition, this legacy will remain available in its accompanying catalogue, offering all those who are interested in a history that is created with care and objectivity, scientifically conceived, documented and contextualised, a new opportunity to meet them. Later, using these and other image collections, we will manage to create a dynamic photographic archive, an essential element for the preservation and understanding of our heritage.

De forma mais abrangente serão estes espólios que após esta exposição ficarão disponíveis, em primeiro lugar no catálogo que a acompanha, depois serão uma nova oportunidade para todos quantos se interessam por uma história construída com rigor e objectividade, cientificamente elaborada, documentada e contextualizada. Assim, com este e outros espólios de imagens, se construirá um arquivo fotográfico dinâmico, elemento essencial para a conservação e compreensão do património.

Jorge Queiroz Director do Departamento de Cultura, Património e Turismo e do Museu Municipal de Tavira

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Uma casa fotográfica da primeira metade do século XX: A representatividade da Casa de Apolinário de Andrade em Tavira

Uma casa fotográfica como a de Apolinário Cândido de Andrade é um objecto social que se fez memória da cidade. Para haver memória tem de haver esquecimento, mas quando a memória se partilha é porque chegou o momento de recuperar uma identidade comum. Quando uma casa fotográfica se mantém longos anos a reproduzir o lugar e as gentes, não apenas acumula fontes de investigação que se tornarão documentos, como pode ser o ponto de encontro de muitos significados esquecidos que esclarecem sobre a dinâmica social. Conservar um espólio fotográfico serve para recuperar uma história das técnicas e para reconstituir quotidianos que fazem histórias de vida e dão sentido ao presente. O Algarve, desde há muito que fazia parte das expedições fotográficas estrangeiras; há álbuns que o atestam, como por exemplo um álbum de fotógrafo não identificado, de provas em albumina dos anos 70 do século XIX, com títulos em francês manuscritos a tinta1. Deve ter sido inevitável a presença flutuante de fotógrafos - ou dentistas-fotógrafos - espanhóis, que instalavam estúdios improvisados (por vezes mesmo num hotel) anunciando-se em alguma imprensa e permanecendo em cidades e vilas enquanto eram procurados. Esta é, aliás, uma tradição que vem das primeiras décadas da fotografia, quando o sucesso do meio, sobretudo no retrato, determina já uma grande procura mas a população dos lugares não justifica ainda a existência de um estúdio permanente.

Fotógrafo não identificado, Algarves - Entrée du Fort de Sagres, 1870’s, prova de albumina. PT/CPF/CNF 006, Centro Português de Fotografia/DGARQ/MC

E no início do século, pelo menos por ocasião do grande acontecimento que é a chegada do comboio a Tavira, em 1905,2 há muitas imagens da cidade, de vários fotógrafos, nomeadamente da Photographia Artística Este álbum, que faz parte da Colecção Nacional de Fotografia, inclui várias imagens do Algarve: Algarves - Le Fort de Sagres; Algarves-Entrée du Fort de Sagres; Algarves - La Maison de l’Infant D. Henrique à Sagres; Algarves - Ruines du Convent des Hieronymites au Cap de St. Vincent; Vue des Algarves; Portugal - Les Algarves

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O troço ferroviário entre Luz e Tavira abriu em Março de 1905. O comboio tinha chegado a Faro em 1889 e a Olhão em 1904.

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Samorrinha3, a mais reputada casa fotográfica de Faro, activa de 1889 a 1950. E também Emílio Biel, quando fotografou a construção da Linha do Algarve para a Société Anonyme Internacional de Construction et d’Entreprise de Travaux Publics, Braine le Comte (Belgique).

Emílio Biel & Cª, Ponte da Quarteira ao Km 313.130 da Linha do Algarve. Arquivo CP.

De acordo com a investigação recente4, Apolinário C. Andrade teria iniciado a sua carreira de fotógrafo muito jovem, por volta de 1905 ou mesmo antes, em Vila Real de Santo António, onde tinha o seu atelier. O ofício não era novo na família: o seu irmão mais velho, Damasceno, também o praticava. O jornal de Tavira “Província do Algarve”, de 22 de Junho de 1912, menciona-o como “fotografo escurcionista” e noticia que “Apolinário C. Andrade, há pouco chegado a esta cidade, onde espera demorar-se alguns dias, oferece os seus serviços ao público que o queira encarregar de todos os trabalhos”; entronca pois nessa tradição de fotógrafos “ambulantes”5 . Quer se tenha fixado em Tavira a partir de 1912 (já na Rua D. Paio Peres Correia), ou não, Apolinário de Andrade começaria cedo a instalar-se, já no período republicano, quando Tavira, mantendo ainda a pesca do atum e dos frutos secos ou azeite, podia já dispor de caminho de ferro com estação própria, velhas estradas de macadame em breve alcatroadas; e encontrou pouca concorrência na sua actividade. Esta casa fotográfica (mais tarde designada Foto Samorrinha – Faro, Samorrinha – Faro ou Foto Artística Samorrinha – Faro, tinha sede na R. De Alportel, 67, em Faro. Em 1981, por doação de Sebastião Cristóvão Correia, foi o Fundo da Samorrinha integrado no Arquivo Nacional de Fotografia, já que a Câmara de Faro não tinha possibilidades de o tratar. Está hoje integrado na Direcção Geral de Arquivos e é constituído por cerca de 35.000 documentos fotográficos (negativos e positivos, vidro, acetato, papel, preto e branco e cor em vários formatos, bem como equipamento fotográfico. Inclui uma documentação riquíssima da vida social (rural e urbana) do Algarve, onde domina o retrato, mas também interiores de casas, lojas, fábricas, cortejos, touradas, acontecimentos desportivos e outros.

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A investigação sobre Apolinário C. Andrade e a sua casa fotográfica foi levada a acabo pela Drª Rita Manteigas, que contou também com a colaboração dos seus descendentes.

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O termo veio a identificar, mais tarde apenas, os fotógrafos que percorrem as feiras, dando-lhes uma conotação de menor qualidade que nem sempre merecem.

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Em todo o caso acabou por permanecer e fundar uma Fotografia que se iria conservar na família até aos nossos dias. Conhecemos o seu retrato junto de uma câmara com tripé, suficientemente elegante e sofisticado para o avaliarmos antes a deslocar-se a acontecimentos locais e festas do que a percorrer romarias, como parece ter acontecido pelo alvitre de Júlio Worm. Esta casa fotográfica de Lisboa é aliás o seu fornecedor habitual de produtos fotográficos, de acordo com correspondência de 1926, que nos elucida também sobre a sua preocupação de adquirir material de boa qualidade, como a conhecida câmara francesa Cartophote, de 1925, conjunto compacto sem fole nem cremalheira, concebido para trabalho exclusivamente de exterior e que permitia obter, à luz do dia, sem recurso a laboratório, provas com bom acabamento.

Folheto Appareil “Cartophote”: modèle perfectionné 1925, Troyes, Imp. Martelet. Arquivo particular da Família Andrade Estúdio Apolinário Candido de Andrade, Retrato de Apolinário Cândido de Andrade, s/d. Arquivo particular da Família Andrade

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Produzia um negativo em papel de brometo ou em chapa de vidro, que era revelado no interior da câmara-laboratório e depois refotografado num dispositivo especial de reprodução colocado na parte da frente da câmara, produzindo então a prova final em papel. Apolinário Andrade reserva a primeira destas câmaras a chegar a Portugal e Júlio Worm termina a sua carta de Maio de 1926 opinando que “não só uma mas mais devia VSª adquirir para fazer percorrer as feiras e romarias com ellas e onde se faz immenso negocio”. É pois muito provável que a sua casa fotográfica tivesse uma larga reputação na região6; e embora a publicidade que distribui peça aos clientes que visitem o seu “modesto estabelecimento”, anuncia a perfeição dos “modernos retratos eléctricos a meio corpo, corpo inteiro (desde 5$00 meia dúzia) e grupos”, operando todos os dias, mesmo os dias de chuva. Pelas imagens conservadas ao longo do tempo, pode pensar-se que era, de facto, uma casa modesta; fotografias da década de 30 mostram a publicidade caseira e um estendal de placards emoldurados com amostras das suas produções fotográficas de levante, para recolocar diariamente. Mas tinha duas entradas e espaço suficiente para albergar o estúdio com diversos telões. O espólio antigo é o típico dos estúdios do início do século: o equipamento habitual da época, câmaras, uma impressora, retocadora7, ampliador. Os retratos ostentam alguns dos elementos decorativos do código dos estúdios, mesinhas, cadeiras, um falso pilar neo-clássico e provavelmente adereços como a bengala que vemos um menino segurar para manter a imobilidade. Há um telão mais frouxo, talvez dos primeiros tempos da casa, uma paisagem vazia com um mal desenhado moinho sobre um cabeço; numa fotografia do espólio mais antigo uma jovem bonita da pequena burguesia simula ela mesmo o ambiente com um raminho de flores negligentemente seguro numa mão, enquanto adereços prolongam o telão pelo soalho do estúdio. Outros telões são mais aprimorados, correspondendo à maioria dos que se produziam na transição do século, mas que se prolongam pelo menos até meados do século: uma marinha, um interior gótico de um templo, por vezes estreito demais para albergar os actores principais de um casamento, como vemos numa foto, mas suficiente para servir de fundo a fotos de comunhão. Não está feito o levantamento completo dos estúdios fotográficos existentes no Algarve em finais do século XIX e inícios do século XX. Uma vez mais, a pesquisa efectuada nos almanaques do Algarve, pela Drª Rita Manteigas encontrou, em 1947, e 1949 a Fotografia Correia em Faro, casa activa entre 1920 e 1950, cujo espólio, de que fazem parte 92.741 documentos fotográficos, positivos e negativos de formatos até 50x60 cm, se encontra também na Direcção Geral de Arquivos, em Lisboa), em 1948 a Fotografia Campina em Olhão, em 1968 e 1970-71 oito casas fotográficas em Faro (Arnaldo dos Santos Galego, Correia e Bárbara Lda., Helder de Sousa Azevedo, J. Grão, João da Silva Rodrigues, José Prado Loução, Matos Cartucho Miguel & Soares Lda, Salustiano Cristóvão Correia). Sabe-se ainda, por outras fontes, que nesta cidade operavam vários fotógrafos retratistas na primeira metade do século XX. Em 1908 há anúncios do Atelier Photographico de Augusto Eduardo de Moura Veiga, oferecendo Photographia em todos os géneros, Retratos em tamanho natural, a “crayon”. Nas décadas de 40 e 50, para além da Foto Correia, existiam outros estúdios, como por exemplo a Photo-Cinema.

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A “pupître” ou utensílio de retoque, espécie de estante com vidro a 45º, continuou a ser usada para aperfeiçoar, pelo retoque, não só os retratos formais de estúdio como até as fotografias de passe, por muitos estúdios, até aos anos 50 e mesmo 60 do século XX.

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Estúdio Apolinário Candido de Andrade, Fachada do estúdio na Rua D. Paio Peres Correia, n.ºs 2 e 4, s/d. Arquivo particular da Família Andrade Estúdio Apolinário Candido de Andrade, S/título, s/d. Reprodução digital a partir do negativo de vidro original. Arquivo particular da Família Andrade

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Vemos ainda, em fotografia de meados dos anos 50, a estante que alberga inúmeras molduras com imagens e ampliações e produtos de trabalho fotográfico empilhados por sectores. Exceptuando as grandes casas fotográficas do início do século, mais concentradas em Lisboa e Porto, (Bobone, Camacho, Novaes, Emílio Biel, Alvão – ou a sofisticada Fotografia Beleza no Porto, que possuía uma sala de espera muito reputada), o estúdio da família Andrade tem a funcionalidade média então requerida. E, como era de regra para um estabelecimento do género, comercial, vivia essencialmente do retrato e, em breve do retrato tipo passe.

No início do século XX a fotografia em Portugal tinha-se desenvolvido muitíssimo e imagens portuguesas continuavam a ganhar medalhas em feiras internacionais, estavam presentes em diversas revistas ilustradas, mesmo estrangeiras, (caso de Joshua Benoliel) e Domingos Alvão começava a ganhar prémios com as suas fotografias naturalistas de grande efeito cénico. A moda dos postais substituíra as imagens estereoscópicas com visor, muito características do final do século XIX e na primeira década do século XX (Aurélio da Paz dos Reis, no Porto, foi um notável cultor do género, que vendia na sua casa hortícola A Flora Portuense) e reproduziam agora, em séries, os monumentos nacionais e internacionais mais reconhecidos, as ruas famosas, paisagens, os artistas da época, (artistas de Ópera e teatro, cantores do Lírico, toureiros e, durante a implantação da República, os líderes republicanos). Produzir postais a partir de clichés, torna-se a alternativa mais comum e mais barata do que os álbuns da “Arte e da Natureza” que Emílio Biel começa a publicar em 19028.

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Estúdio Apolinário Candido de Andrade, Três retratos tipo passe, s/d. Reprodução digital a partir dos negativos de vidro originais. Arquivo particular da Família Andrade


A casa fotográfica da família Andrade produziu imagens do património, - como as imagens do túmulo de D. Paio Peres Correia, mas também representações do quotidiano da cidade e das suas gentes: ruas, edifícios de referência - como aquela imagem do Teatro Popular, - o comércio tradicional, grupos de estudantes, bailes... Passa ainda a produzir imagens para postais9, já em período de nacionalismo quando o Secretariado da Propaganda Nacional praticamente absorve a produção fotográfica nacional, seleccionando imagens para as suas revistas de turismo e propaganda. Naturalmente os políticos locais favorecem a tradução em imagem do simbolismo da terra e do seu progresso; o modelo da Fotografia Andrade é, caracteristicamente, a mulher algarvia integrada nos símbolos da região, as amendoeiras em flor e a chaminé algarvia. Domingos Alvão (1869-1946), Sem título, ca. 1910, gelatina, prata. PT/CPF/CNF 1865, Centro Português de Fotografia/DGARQ/MC

Entre 1902 e 1908 a casa editora de Emílio Biel, no Porto, publicou 8 volumes desta monumental obra, dirigida por Fernando Brütt e Cunha Moraes (aliás autor de muitas das imagens) e com textos de vários autores, como por exemplo Ramalho Ortigão. As imagens eram publicadas em fototipia e, enquanto decorreu a sua publicação, em fascículos, a Casa Biel foi lançando “Brindes” de algumas das imagens, em fotogravura.

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Referenciados como “Edição Foto Andrade”

Emílio Biel & Cª, Praia da Rocha, Villa Nova de Portimão, in “A Arte e a Natureza em Portugal”, Volume Quinto, 1902-1908, Fototipia. PT/CPF/CNF-CALVB2577-20, Centro Português de Fotografia/DGARQ/MC

Bilhete postal, ed. Foto Andrade. Arquivo particular da Família Andrade

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As reportagens do exterior e a fotografia artística Desde meados do século XIX, quando a fotografia começa a ser usada como informação, a sociedade burguesa dominante, que nela encontra o seu melhor aliado, está ainda a construir os seus paradigmas sócio-políticos. A fotografia documental tenta identificar a pátria, esse espaço semeado de História, com os valores da burguesia que, já não se duvida, subira ao poder político. O património monumental aparelha com os novos equipamentos, (hospitais, hospícios, escolas, fábricas ou instalações para as novas energias, os novos transportes, as estações do caminho de ferro…) que representam um novo olhar sobre o bem público e a evocação da virtude da burguesia que as paga ou faz implantar. No final do século XIX a mentalidade burguesa está assegurada, caminha-se para a uniformização de uma classe média e então o levantamento do património é secundarizado e, com a influência da imagem móvel do cinema, a modernidade concentra-se no indivíduo comum, o que determina a passagem dos governos liberais para governos republicanos e o aparecimento da reportagem e do fotojornalismo. Também no país a Fotografia desenvolve muito a reportagem e o fotojornalismo, bem representados por autores como Arnaldo da Fonseca, Aurélio da Paz dos Reis, Anselmo Franco, Bobone, Garcez e, mais célebre e influente do que qualquer outro, Joshua Benoliel. É o tempo do grande desenvolvimento das revistas ilustradas10 que publicam imagens do seu próprio corpo de fotógrafos mas também contributos de outros fotógrafos, profissionais ou amadores, que enviam os seus clichés sobretudo para dar cobertura a acontecimentos ocorridos em locais mais afastados das grandes cidades.

Joshua Benoliel (1873-1932), Greve das varinas, início do séc. XX. Arquivo Municipal de Lisboa/Arquivo Fotográfico (AML/AF), JBN001797

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É o tempo ainda em que a Fotografia começa a dividir-se claramente em dois campos e dois objectivos: a fotografia de informação, (que se pretende clara, legível e objectiva) e a fotografia artística, de autor, com motivos subjectivos, composição artística e, eventualmente com adequação da imagem à realidade da visão humana, (naturalismo). A manipulação consentida da imagem cria-lhe já uma realidade da imagem e não uma realidade dupla do real fotografado. Às diversas versões da fotografia artística, de acordo com as diversas concepções das artes plásticas, então contemporâneas, (romantismo, naturalismo, impressionismo e mesmo expressionismo), usou-se dar a designação pictorialismo. O pictorialismo fomenta naturalmente espaços especiais de desfrute, como as exposições em galerias e o aparecimento de um forte grupo de fotógrafos amadores eruditos (reclamam para si mesmo um estatuto especial e superior ao dos “outros” amadores, que eles designam “estraga-chapas”11); mantêm a fotografia como um processo criativo pessoal, que exige muito de uma nova noção de perfeição, passando pela escolha do tema, a criação de cenários com actores, a eleição do contraste da luz e sombra como definidora de emoções no observador. Apesar do pictorialismo ter proporcionado um conjunto notável de fotógrafos e fotógrafas amadores, que mostram as suas imagens artísticas em revistas ilustradas como a Illustração Portugueza, a sua influência na imagens dos profissionais vai-se sentindo, até porque o nome mais marcante da fotografia artística é de um profissional, Domingos Alvão, do Porto. A Fotografia Andrade também passou da documentação do património para a fotografia de reportagem, o que se pode observar pelas fotografias de rua sobre as festas da cidade de Tavira, a bem conseguida imagem do alcatroamento da cidade, acompanhamento de novas construções ou, mais tarde, das inevitáveis procissões que recuperam da imposta laicidade republicana. Reportagem que ainda se encontra na imagem do 1º de Maio de 1974, que mostra aquele tipo de aglomeração impensável e que, pela leitura dos cartazes nos ajuda a compreender o universo de libertação que Tavira então viveu. Salientem-se: a Brasil-Portugal – revista quinzenal, publicada entre 1.2.1899 e 16.8.1914, que tem uma média de 20 páginas, com 20 a 30 imagens por número. A Serões, publicada de 1901 a 1911, 50 páginas, apresentava uma média de 15 a 30 imagens por número. A Echo Photographico, jornal mensal de sport photographico, entre 1906 e 1913. O Occidente, Revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, com início em 1878, que deixa de publicar-se em 1914. A mais influente das revistas ilustradas foi sem sombra de dúvida A Illustração Portugueza, lançada pela Empresa do jornal O Século em Novembro de 1903, que a manteve até 1993 (a partir de 1931 verifica-se apenas a edição de um ou dois números por ano, com poucas páginas). A 1ª série da Illustração Portugueza ainda não é particularmente interessante. A 2ª série inicia-se em 1906 e terá como editor fotográfico o próprio Benoliel, que a abandona em 1919.

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A primeira Kodak “grande público”, que faz apelo à simplicidade de manejo com o seu célebre slogan publicitário “Você carrega no botão, nós fazemos o resto!” foi comercializada em 1888.

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Uma imagem que reproduz as cheias em Tavira tem já as características que o Salonismo português iria desenvolver a partir do Pictorialismo: contrastes, reflexos, perspectiva de alongamento do olhar.

Luís Andrade, Manifestação em Tavira, dias depois do 25 de Abril de 1974. Arquivo particular da Família Andrade

Distinta na concepção, horizontal e reforçando o significado do fraccionamento do espaço, distinguindo com rigor os diversos planos, a imagem da cidade, enquadrada pelos mastros de uma embarcação, passaria por uma concepção actual do olhar, onde o fraccionamento da imagem acentua que uma fotografia, mesmo permanecendo como documento de análise e de impressão imediata, é uma realidade nova, que tendo tudo a ver com o que representa, é um objecto alheio, uma concepção do fotógrafo.

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Estúdio Fotografia Andrade, Cheias em Tavira, [1949]. Arquivo particular da Família Andrade


Estúdio Apolinário Candido de Andrade, Tavira, s/d. Reprodução digital a partir do negativo de vidro original. Arquivo particular da Família Andrade

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A Família Andrade: de photographos excursionistas à fixação dos ateliers na cidade

Museu Municipal de Tavira

A fotografia em Tavira nos últimos anos da monarquia Reter a imagem de uma cidade e dos seus habitantes ao longo de 100 anos constitui um património com características únicas: significa fixar um documento histórico/ uma fonte relativa à evolução urbana e aos acontecimentos locais; o testemunho da evolução política, social, económica e cultural de uma cidade de província e de como recebe os modelos; e, por fim, a evolução técnica e artística das várias gerações de fotógrafos neste contexto. Antes dos primeiros irmãos Andrade se fixarem em Tavira, os habitantes da cidade foram sendo retratados por fotógrafos itinerantes que por ela passavam alguns dias, semanas ou poucos meses. De outro modo seria necessária a deslocação a Vila Real de Santo António, a Faro ou aproveitar as viagens à capital ou o tempo de estudos em Coimbra. Observando alguns jornais locais da época, em particular os anúncios que os fotógrafos itinerantes acima referidos faziam publicar para divulgar a sua presença na cidade, surge-nos um guião para o período entre os finais do século XIX e início do século XX.

Estúdio Apolinário Candido de Andrade, Vista de Tavira com ponte ferroviária, s/d. Reprodução digital a partir do negativo de vidro original. Arquivo particular da Família Andrade

Desde 1883 que o Jornal de Annuncios, impresso pela Typographia Burocrática de Tavira, com uma tiragem de 2 000 exemplares e distribuição gratuita, publica nas suas quatro páginas as mais variadas ofertas de comerciantes e particulares, para além de uma breve selecção de notícias consideradas relevantes e/ou de entretenimento. Propriedade de José Maria dos Santos e por ele administrado, este semanário, dá-nos uma das primeiras notícias sobre fotografia na cidade no dia 25 de Abril de 1889. Refere-se a G. M. Mourão, fotógrafo que “participa ao illustrado público tavirense, que mudou o seu atelier para a rua Nova Pequena (casas do sr. Felisberto). Tencionando, porém, demorar se poucos dias, convida todas as pessoas que carecerem dos seus trabalhos a aproveitar a occasião”.1 Jornal de Annuncios, Quinta-feira 25 de Abril de 1889. Agradeço a D. Margarida Santos, descendente do editor José Maria dos Santos, a gentileza em disponibilizar a consulta das publicações periódicas: Jornal de Annuncios e Heraldo, do seu arquivo familiar.

1

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Dois aspectos relacionados com as pequenas cidades de província chamam a atenção: a itinerância já referida (demora-se poucos dias), assim como a familiaridade com que identifica o local do estúdio (casas do Senhor Felisberto), própria de uma cidade onde a escala permite que todos se conheçam. O fotógrafo permanecerá na cidade até 10 de Junho (cerca de 1 mês e meio) altura em que anuncia que se retirará.2 Há que referir que a itinerância não era exclusiva dos fotógrafos mas de todas as profissões especializadas que faltavam em determinadas cidades como, por exemplo, a de encadernador, entre outras. Posteriormente Francisco Martins Ximenes, instala o seu atelier no outro lado do Gilão no final de 1890, permanecendo quase um ano em Tavira. Tira retratos todos os dias, “das 9 às 3 da tarde, com toda a perfeição e em todos os tamanhos, sendo os preços módicos”.3 Com efeito, mais acessível do que a pintura, o retrato fotográfico é o produto comummente oferecido e requerido por uma cada vez maior percentagem da população que o pode pagar. No final de 1891 instala-se em Tavira, por alguns meses, a Photographia Aurora, na Rua das Olarias, especificando no anúncio o tipo de retratos que faz: “Bilhete de visita, Victoria ou Carta-Album”.4 Um retrato de Luís Corvo, pertencente a um antigo álbum de uma família de Tavira, identifica nas costas o atelier acima referido sob a responsabilidade do “photographo de Lisboa em excursão artística pelas provincias Manoel S. Mendes Vaz”. Os retratos ditos cartão de visita/ carte de visite, pequenas imagens de 6x9 cm coladas sobre cartões identificados no verso, tinham nascido em 1853, sendo a patente registada por Adolphe Disdéri. Podiam ser vendidas por preço módico devido ao facto de se poderem realizar várias fotografias semelhantes na mesma chapa através de um aparelho com quatro objectivas. “Esta técnica de utilização muito fácil vai expandir-se por todo o lado, tanto nos estúdios luxuosos – como os que Disdéri abrirá em Paris, na província e também no estrangeiro – como nos fotógrafos ambulantes e nos recintos de feira.”5 Em 27 de Abril de 1893 surge no periódico que temos vindo a analisar o anúncio de um fotógrafo que será visita recorrente por longos anos no Algarve, incluindo a cidade de Tavira: M. A. Silva Nogueira. Originário de Santarém, abre uma sucursal do seu atelier denominado Sociedade Photographica no Quintal do Theatro, ou seja, no quintal do antigo Teatro Tavirense. Anuncia que se executam “todos os trabalhos por mais difficeis que sejam e em todos os formatos desde miniatura a natural, por preços relativamente baratos”.6 É interessante percorrer os seus anúncios ao longo dos anos, percebendo a verdadeira ascensão da sua casa fotográfica. Em 1895 Silva Nogueira, já se denominando Conhecido photographo de Santarém, anuncia mais uma excursão artística pelo Algarve, iniciando-se por Vila Real de Santo António. “Apresentará as maiores novidades e difficuldades dest´ arte com as quaes grande parte dos seus collegas não

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Photographia Aurora de Manoel S. Mendes Vaz, Verso de retrato de Luís Corvo, s/d, sobre cartão, 9,6x6 cm. Prop. Rui Jorge Chagas Junqueira dos Reis


Ateliers Silva Nogueira, Retrato de Mª Adélia Palermo Mendonça (1887-1911), s/d, fotografia sobre cartão, 10,5x6,5 cm. Prop. Maria do Rosário Palermo Mendonça Ateliers Silva Nogueira, Retrato, s/d, fotografia sobre cartão, 10,3x6,5 cm. Prop. Luís Gameiro Verso do retrato

poderão competir”.7 No ano seguinte, já com ateliers também nas Caldas da Rainha e em Faro (no Largo da Conceição), refere que a sua excursão de apenas um mês se iniciará em Lagos devido ao facto de estar a projectar fazer uma excursão também ao norte do país.8 Os seus trabalhos eram enviados posteriormente: “Os trabalhos com que for honrado irá concluí-los ao seu atelier de Santarém enviando-os pelo correio”.9 Dará destaque em 1899 aos Retratos a Crayon, dizendo ser o artista que mais se tem salientado no género e garantindo a mais completa semelhança.10 No início de 1900 previne, em anúncio, que “irá brevemente a Tavira, satisfazendo assim a diversos pedidos enviados d´esta cidade”.11 Em Abril deste mesmo ano, José Maria dos Santos, o editor do Jornal de Anúncios, publica uma notícia na qual nos elucida sobre o seu auxílio a este fotógrafo, tornado entretanto seu amigo, no modo de proceder itinerante: 2

Jornal de Annuncios, 6 de Junho de 1889.

Idem, entre 23 de Dezembro de 1890 e 24 de Setembro de 1891. O anúncio surge com bastante regularidade neste período.

3

Idem, entre 19 de Novembro de 1891 e 4 de Fevereiro de 1892. Publicado de forma regular entre este período.

4

5

Pierre-Jean Amar, História da Fotografia, p. 46.

6

Jornal de Annuncios, 27 de Abril de 1893.

7

Idem, 11 de Abril, 1895.

8

Idem, 1 de Outubro de 1896.

9

Idem, 31 de Dezembro de 1896.

10

Idem, 4 de Março de 1899.

11

Idem, 11 de Janeiro de 1900.

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“As famílias que desejarem utilizar-se dos seus trabalhos photographicos, podem fazer a competente indicação no nosso estabelecimento, na Praça Nº 10, afim de lhe fazer-mos o competente aviso da chegada e local que nos encarregamos de lhe arranjar”.12 Na semana seguinte, uma segunda notícia refere a grande afluência registada: “Apraz nos saber isto, porque assim a nossa elite lhe provará, que não tem tido razão, em ter operado em todas as principais terras do Algarve, menos em Tavira”.13 As notícias sobre Silva Nogueira continuam na primeira semana de Maio, desta vez sobre fotografias sobre vistas da cidade: “(…) Em consequência do mau tempo, não operou n´umas vistas que desejava tirar de diferentes pontos da cidade, e por isso volta domingo a ver se consegue os seus desejos (…)”.14 Serão os postais com vistas de Tavira vendidos posteriormente na Tabacaria Santos, da sua autoria? Com efeito, no final deste mesmo ano, José Maria dos Santos, anuncia a venda de Bilhetes Postaes com photographias de Tavira.15 Refere o anúncio de Silva Nogueira, agora no semanário Heraldo, sucessor do antigo Jornal de Anúncios, em Fevereiro de 1901 que o seu atelier em Faro estará aberto todos os dias até ao fim de Março e que tanto ele próprio como o seu irmão Joaquim Nogueira, “irão, alternadamente, servir os seus estimáveis clientes a Olhão e Loulé, como voltarão a Tavira, Portimão, Lagoa e Silves, com curtas demoras”.16

Pho(to) Joaquim Nogueira, Retrato [de Mª Adélia Palermo Mendonça (1887-1911)], s/d, fotografia sobre cartão, 12,7x8,2 cm. Prop. Maria do Rosário Palermo Mendonça

Em 1902 constata-se pelo anúncio que Silva Nogueira já abriu atelier em Lisboa, na Rua D. Pedro V, sendo que os seus familiares se distribuem por Faro, Caldas da Rainha e Nazareth.17 No ano seguinte, Silva Nogueira faz publicar um anúncio no semanário de Tavira publicitando o seu atelier em Lisboa. Neste, o seu nome é precedido pela maior publicidade que uma casa poderia ter na altura: “Photographo de Suas Magestades”. Refere ainda que opera com as “melhores machinas de Carlos Relvas. Estabelecimento frequentado especialmente pela sociedade elegante da capital e províncias”.18 Com efeito, analisando alguns dos álbuns pertencentes a algumas famílias mais antigas de Tavira, podemo-nos aperceber que estas se faziam fotografar com alguma frequência neste atelier lisboeta. Contudo, no seio das famílias tavirenses surge, em Janeiro de 1894, um fotógrafo, sempre autodenominado de amador, de seu nome João Rodrigues Pinheiro Centeno, que executa “todos os trabalhos photographicos (…) máxima perfeição (…) preços convidativos.”19 O trabalho deste atelier terá continuado por alguns anos – aparecem alguns retratos seus nos álbuns das famílias da cidade, surgindo nos cartões que enquadram os retratos as designações “Atelier Centeno. Tavira” ou simplesmente “Centeno. Tavira”, primeiro testemunho visual da relação de Tavira à Fotografia. Em 1898 uma notícia dá conta aos tavirenses de que o novo atelier deste amador está a sofrer grande modernização nas suas condições e da nova maquinaria acabada de chegar para tal.20 O novo espaço abre as portas a 22 de Setembro operando todos os dias das 9 às 3 da tarde.21 Em Novembro

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Anúncio do fotógrafo Silva Nogueira publicado no Heraldo: Antigo “Jornal de Annuncios”, 24 de Novembro de 1904


uma notícia no Jornal de Anuncios faz uma pequena reportagem da visita a este atelier localizado na Rua das Portas de S. Braz, sendo caracterizado como um dos mais bem providos do Algarve. Os aparelhos haviam sido todos requisitados a “uma das mais importantes casas de Paris”, as suas produções recomendam-se pela perfeição e nitidez, apelando ao público tavirense que recorra a este amador para que o seu estabelecimento não venha a encerrar.22 O atelier amador vai anunciando os seus préstimos ao longo dos anos que se sucedem, até que em 29 de Maio de 1902 surge o anúncio com o título “Machina Photographica” no qual se pode ler “João R. P. Centeno, vende todo o material de photographia e ensina a arte a quem pretender”23 terminando assim, por razões que desconhecemos, o percurso deste fotógrafo tavirense, um dos primeiros residentes na cidade.

Atelier Centeno, Retrato de Maria Candida Chagas, s/d, fotografia sobre cartão, 12,5x8,3 cm. Prop. Rui Jorge Chagas Junqueira dos Reis

Amadores ou profissionais, excursionistas ou instalados de forma mais ou menos efémera na cidade, verifica-se nos anúncios que a concorrência entre fotógrafos que iam surgindo era uma realidade. Ainda no ano em que o amador Centeno se instala (1894) surge no Jornal de Anúncios a publicação de uma Declaração cujo teor se prende com o mundo da fotografia na cidade. É um desmentido assinado por F. Cruz, onde declara que algumas pessoas diziam na cidade, com má fé, que já não fotografava pois tinha ensinado a sua arte e vendido todo o equipamento a um indivíduo que era agora o fotógrafo com casa aberta. [Seria o amador Centeno?] Refere então que tal não corresponde à verdade, pois a sua casa encontrava-se fechada só temporariamente, devido à aquisição de uma nova máquina e que muito brevemente abriria seu novo atelier onde o público poderia tirar os seus retratos com máxima perfeição e mais baratos do que qualquer outra casa.24 O seu atelier chamar-se-ia Photographia do Povo, no entanto os respectivos anúncios deixariam de aparecer em breve no jornal.25 12

Idem, 19 de Abril de 1900.

13

Idem, 26 de Abril de 1900.

14

Idem, 3 de Maio de 1900.

15

Idem, 13 de Dezembro de 1900.

16

Heraldo, 28 de Fevereiro de 1901.

17

Idem, 19 de Junho de 1902.

18

Idem, 16 de Abril de 1903.

19

Jornal de Anúncios, 18 de Janeiro de 1894.

20

Idem, 28 de Abril de 1898.

21

Idem, 22 de Setembro de 1898.

22

Idem, 17 de Novembro de 1898.

23

Heraldo, 29 de Maio de 1902.

24

Jornal de Anúncios, 14 de Junho de 1894.

25

Idem, 4 de Outubro de 1894.

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Ainda assim, ao longo dos últimos anos da monarquia, muitos ateliers excursionistas foram passando na cidade: António Bandini (1896), Fotografia Serra Ribeiro (1906), F. Molarinho (1909) entre outros, o que prova a apetência de Tavira por esta “Arte”.

Apolinário Cândido d’Andrade: de Photographo Excursionista a Fotógrafo estabelecido A primeira geração dos Andrades fotógrafos, é natural de Castro Marim e constituída pelos irmãos Damasceno Cândido d’Andrade nascido em 187726 e Apolinário Cândido d’Andrade nascido em 1888.27

Apolinário Candido d’Andrade, Retratos. Vila Real de Santo António. Arquivo particular da Família Andrade Apolinário Candido d’Andrade enquanto criança, 1894. Arquivo particular da Família Andrade

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Sabemos através de um documento datado de 191528, que o irmão mais novo, Apolinário, tinha casa aberta em Vila Real de Santo António desde pelo menos 1905. O documento em questão denomina-se “Protesto”, é reconhecido pelo notário de Vila Real de Santo António e assinado por seis testemunhas, que declara os bons préstimos de Apolinário enquanto fotógrafo, tanto antes como depois de ter mudado o seu atelier para Tavira. Existem também algumas fotografias sobre cartão com identificação: “A. C. Andrade-Phot. /Villa Real de S. António”, “Apolinário Candido d´Andrade/ Vila Real”. A Caderneta Militar de Apolinário, datada de 1908, ano em que é recrutado por 15 anos a cargo do distrito de Faro, indica com efeito como occupação o ser photographo.29 Com 1,58 m de altura, olhos e cabelos castanhos, rosto comprido, é ainda solteiro e habita em Vila Real de Santo António. Durante o serviço militar as suas notas biográficas dão-nos a indicação de que muda o seu domicílio para a freguesia de S. Tiago de Tavira em 2 de Maio de 1912. Analisando A Provincia do Algarve, semanário republicano editado em Tavira desde 17 de Outubro de 1908,30 constatamos que o primeiro anúncio de fotografia associado ao apelido Andrade é precisamente o de Apolinário Cândido d´Andrade apresentando-se como Photographo Escursionista, sendo datado de 15 de Junho de 1912.31 Refere o modesto anúncio que tinha “ha pouco chegado a esta cidade, onde espera demorar-se alguns dias”. O atelier localizava-se na “Rua Paio Peres Corrêa, vulgo S. Tiago”. Na altura existia já um fotógrafo estabelecido em Tavira, o seu nome era Custódio Pedro Cabrita e anunciava no mesmo jornal desde 18 de Junho de 1910.32 Custódio Cabrita era também negociante/importador de máquinas de costura de fabrico alemão e inglês, com loja aberta no mesmo local onde fotografava.33 Segundo L.H., “Andrades – Um século a fotografar Tavira”, Jornal do Sotavento, 10 de Fevereiro de 2006, p. 6.

26

Conforme Caderneta Militar de Appolinario Candido d´Andrade, Secretaria da Guerra, Direcção Geral, 1ª Repartição, Typ. da Coop. Militar -1908. Verifica-se também neste documento a sua filiação: José Estevão d´Andrade Junior e Ana do Carmo. Arquivo particular da Família Andrade.

27

“Protesto”, documento assinado e datado. Feito a 22 de Outubro de 1915, em Vila Real de Santo António. Arquivo particular da Família Andrade.

28

Conforme Caderneta Militar de Appolinario Candido d´Andrade. Arquivo particular da Família Andrade.

29

30

Com direcção de Silvestre Falcão e redacção de José d´Arriaga.

31

Provincia do Algarve, 15 de Junho de 1912.

32

Idem, 18 de Junho de 1910.

33

Idem, 25 de Outubro de 1910.

Primeiro anúncio de Apolinário Candido de Andrade publicado no Jornal Provincia do Algarve

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Partindo do pressuposto teórico de que não anunciando não existiria outro fotógrafo a laborar em Tavira, poderíamos falar da exclusividade de Pedro Custódio Cabrita (como fotógrafo residente) durante praticamente dois anos. Em 27 de Maio de 1911, o seu anúncio modifica-se ganhando maior destaque na página do jornal.34 Este será o anúncio que figura no periódico quando Apolinário Andrade começa a fotografar em Tavira. Com efeito, nota-se que Pedro C. Cabrita publicita com muito maior regularidade na Provincia do Algarve, podendo-se afirmar (prevendo talvez a futura concorrência) que a partir de 4 de Maio de 1912 o anúncio surge semanalmente, fazendo par, no mês seguinte, com o do novo atelier de Apolinário localizado na Rua D. Paio Peres Correia.35 Contudo, o negócio estar-se-ia a ressentir da concorrência, pois a partir de 22 de Junho de 1913 o fotógrafo Cabrita sente necessidade de acrescentar ao seu anúncio como título o vocábulo ATENÇÃO!.36 Em 1915 modifica novamente o anúncio, agora de menor dimensão mas com novas moradas, mais concorrenciais para os seus dois ateliers, sendo um deles na Rua da Liberdade, a principal de Tavira.37 Os seus anúncios começam a rarear, desaparecendo neste mesmo ano. Mas Apolinário Andrade não tinha somente a concorrência de Custódio Cabrita. Pelo documento de 1915 citado anteriormente, o seu irmão mais velho Damasceno Andrade já se teria instalado em Tavira em data anterior, embora não exista qualquer vestígio de anúncios seus em jornais.38 O “Protesto” é, na verdade, consequência de um acto segundo o qual Damasceno Andrade terá feito distribuir panfletos a desresponsabilizar-se pelos trabalhos de fraca qualidade do irmão em Tavira. Qual teria sido a origem da desavença? A concorrência? Algum desentendimento face ao negócio em comum? Com efeito, depois do primeiro anúncio de Apolinário Andrade enquanto fotógrafo itinerante, publicado semanalmente até 12 de Outubro de 1912, surge novo anúncio em que adia a sua retirada devido à boa afluência de clientes que se verificou.39 O anúncio apresenta agora destaque gráfico e o nome do fotógrafo (já não como excursionista) Apolinário C. D´Andrade surge com realce. A morada é agora mais precisa, Rua D. Paio Peres Correia, nº33 e a sua presença verificar-se-á até ao fim desse ano.

Segundo anúncio de Apolinário Candido de Andrade publicado no Jornal Provincia do Algarve

Contudo, esta é precisamente a morada que surge no carimbo no verso das fotografias de Damasceno Andrade, o que sugere que ainda poderiam partilhar o atelier. Para além deste facto, algumas das fotografias de Apolinário em que ainda se autodenomina excursionista, apresentam o mesmo cenário de fundo que caracterizará durante anos os retratos de estúdio de José Damasceno d´Andrade.

Terceiro anúncio de Apolinário Candido de Andrade publicado no Jornal Provincia do Algarve

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Um novo anúncio de Apolinário surgirá em Maio de 1913, com investimento notório na publicidade, estimulando a adesão do público. Para além disso o mesmo dá a entender que o fotógrafo terá adquirido o seu próprio equipamento: “(…) tendo adquirido directamente do estrangeiro uma completa colecção de artigos próprios para a sua arte, previne os seus estimáveis clientes que resolveu fazer grandes reduções nos preços dos retratos (…)”. Para além disso ainda oferta um brinde: “Uma ampliação em platina a todas as pessoas que fizerem encomenda de 12 retratos busto”.40

Carimbos dos irmãos Andrade, no caderno de apontamentos de Apolinário Cândido de Andrade, iniciado em Agosto 1914. Arquivo particular da Família Andrade

No pequeno bloco de apontamentos de Apolinário Andrade, adquirido em 26 de Agosto de 1914 e usado como diário de actividade, podemos constatar que a relação profissional com Damasceno era ainda de partilha. Na primeira página, vemos os carimbos individuais dos dois irmãos, com uma iconografia semelhante, assumindo-se Damasceno como retocador de clichés e ampliações e Apolinário como fotógrafo, cenógrafo e retocador; verificam-se os lucros e despesas do ano de 1914; moradas de fornecedores de material fotográfico e bibliografia sobre fotografia; relação das pessoas às quais distribuiu cadernos de rifas para uma máquina fotográfica; dimensões e marcas das objectivas do irmão, etc.41 Com efeito, é no ano de 1915, que o novo anúncio de Apolinário Andrade nos induz a uma mudança efectiva de atelier, embora na mesma rua do anterior. Em Fevereiro desse ano ficamos a saber que surge em Tavira um “Moderno Atelier de Fotografia/Instalação Completa/Máquinas último Modelo/Objectivas dos melhores autores”.42 O anúncio é ainda ilustrado por uma pequena imagem de um fotógrafo com a sua máquina.43 No arquivo particular da família ainda se encontram os esboços deste anúncio, onde se pode perceber a hesitação de Apolinário em assumir o novo n.º de polícia do seu atelier. Um dos esboços, que não foi publicado no jornal, apresenta uma nota que refere “Não confundir este atelier, está situado ao cimo da ladeira que segue da cadeia, portanto antes da Igreja”44.

Quarto anúncio de Apolinário Candido de Andrade publicado no Jornal Provincia do Algarve

34

Idem, 27 de Maio de 1911.

35

Idem, entre 4 de Maio de 1912 e 12 de Janeiro de 1913.

36

Idem, 22 de Junho de 1913.

37

Idem, 20 de Junho de 1915.

O documento é consequência de um acto segundo o qual Damasceno Andrade terá feito distribuir panfletos a desresponsabilizar-se pelos trabalhos de má qualidade do irmão em Tavira.

38

39

Provincia do Algarve, 19 de Outubro de 1912.

40

Idem, 4 de Maio de 1913.

41

Arquivo particular da Família Andrade.

42

Provincia do Algarve, 7 de Fevereiro de 1915.

43

Idem, 7 de Março de 1915.

44

S/d. Arquivo particular da Família Andrade.

41


Com efeito, o n.º de policia 33, onde se localizava o atelier de seu irmão, encontrava-se situado em frente à Igreja de Santiago. Com efeito, a Rua D. Paio Peres Correia era, em 1915, uma rua dedicada à fotografia. A autonomia de Apolinário Candido d´Andrade foi conseguida devido a um empréstimo de 200 escudos, conforme pode observar-se numa escritura elaborada em 28 de Dezembro de 1914, no Cartório de Henrique A. Leote Cavaco, sendo seu fiador o proprietário José Viegas Mansinho.45 Apolinário permanecerá neste atelier durante os anos de 1916 e 1917, como se pode verificar nos anúncios de Boas Festas aos seus clientes publicados na Província do Algarve em Dezembro dos referidos anos.46 Em 24 de Dezembro de 1918 o anúncio de Boas Festas já faz referência a um novo espaço, na mesma rua, desta vez com os n.ºs 2 e 4. Aqui ficará largos anos, até à década de 40. Embora durante estes anos não tenha publicitado no semanário Província do Algarve senão os desejos de boas festas, no arquivo familiar podemos observar alguns esboços de anúncios aos clientes acerca da referida mudança, talvez para publicar em folhetos e distribuir. Refere que havia acabado de montar o seu “novo atelier e galeria nas melhores condições, (…) um dos melhores do Algarve, (…) executa com a máxima rapidez todos os trabalhos da sua especialidade”, com materiais dos melhores autores e fabricantes. Solicita mais uma vez aos seus clientes que não confundam este atelier.47 Um destes esboços manuscritos oferece um bónus de 5% aos sócios da Liga de Educação Física do Sul de Portugal. Esta associação estava ligada uma escola que fora fundada em Tavira no ano de 1915, conforme se pode ver anunciado na Revista de Propaganda do Algarve, Alma Nova48 com fotografia da responsabilidade de Apolinário Cândido Andrade, que também era o seu sócio nº10.

Bilhete de Identidade de sócio da Liga de Educação Física do Sul de Portugal, do ano de 1915-16, de Apolinário Candido de Andrade. Arquivo particular da Família Andrade

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Fotografia de Apolinário Candido de Andrade publicada na Revista Alma Nova, 1915


Durante os anos que se seguem as novidades fotográficas vão sendo divulgadas através de folhetos distribuídos pela população. É o caso dos Retratos Electricos, Última creação fotográfica. Direcciona um dos folhetos (Inauguração dos retratos eléctricos a corpo inteiro) especialmente aos soldados recrutas, um dos alvos principais do seu trabalho ao longo do século XX, adaptando-se aos diferentes regimentos que iam ocupando o Quartel da cidade e suas necessidades. Estamos na década de 20, como se pode verificar no apontamento efectuado por detrás de um dos folhetos onde o Informador fiscal da Repartição de Finanças do Concelho de Tavira assenta que o fotógrafo pagou o respectivo imposto de selo para distribuir o anúncio e não para o afixar.49 Escritura elaborada em 28 de Dezembro de 1914/oficializada em 15 de Janeiro de 1915; Dívida que irá liquidar a 28 de Janeiro de 1920, conforme Declaração de José Joaquim Rodrigues. Arquivo particular da Família Andrade.

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Provincia do Algarve, 31 de Dezembro de 1916 e 30 de Dezembro de 1917.

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Conforme esboços de anúncios pertencentes ao Arquivo particular da Família Andrade.

Alma Nova, Revista de Propaganda do Algarve, órgão da Sociedade de Amigos do Algarve, Ano 1, Set. 1915- nº 11, 12 e 1 do ano 2, pág. 15.

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Panfletos provenientes do Arquivo particular da Família Andrade.

Apolinário Candido de Andrade, Esboço manuscrito do folheto: “Grande novidade: Retratos Eléctricos”, s/d. Arquivo particular da Família Andrade Apolinário Candido de Andrade, Folheto: “Grande novidade: Retratos Eléctricos”, s/d. Arquivo particular da Família Andrade Apolinário Candido de Andrade, Folheto: “Aos Soldados Recrutas”, s/d. Arquivo particular da Família Andrade

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Com os anos, os irmãos Andrade ter-se-ão enraizado na cidade, não só profissionalmente, como no seio da vida social local. Casado desde 1910 com Luisa da Encarnação Chanoca, natural de Vila Real de Santo António, quando se muda para Tavira, Apolinário Cândido d´Andrade já traz uma filha, Maria Eulália d´Andrade, nascida na mesma cidade da sua mulher.50 Os restantes seis filhos já nascerão na freguesia de Santiago de Tavira, local onde residia. Entre 1915 e 1927 nasceram-lhe mais duas filhas (Ana Pires e Rita da Encarnação) e quatro filhos (Apolinário, Luís, Damião e João).51 Em 1913, alistou-se no centro republicano de Tavira (Centro Democrático Tavirense), com o n.º de sócio 39452. Sabemos ter aderido à Fraternal Tavirense (Associação de Socorros Mútuos) fundada em Maio de 1913.53 Já referimos a sua associação às tarefas físicas da Liga de Educação Física do Sul. Foi também regedor efectivo da Freguesia de Santiago de Tavira entre 1923 e 192454 e presidente da Assembleia Geral do Club Recreativo Tavirense até Dezembro de 1929.55 Em relação à sua veia republicana, uma prova conjunta com o seu irmão Damasceno, foi a oferta do retrato do Dr. António Padinha ao centro republicano aquando da visita ao mesmo centro do Dr. Brito Camacho (1913).56 Pode ver-se no retrato retocado, de que existem ainda as chapas em vidro, a dedicatória “Off.ta de Andrade & Irmão”.

Apolinário Candido de Andrade e José Damasceno de Andrade, Retrato de António Padinha, de 1913 (Colecção Maria e Jorge Justo Pereira) e respectiva reprodução digital a partir do negativo original (Arquivo particular da Família Andrade)

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Não admira, assim que, com o passar dos anos, a casa dirigisse os seus anúncios aos seus estimados amigos e clientes. Pela correspondência pertencente ao arquivo da família, constatamos que Apolinário se correspondia com clientes tavirenses (ou com interesses em Tavira) em várias zonas do país e do estrangeiro onde trabalhavam ou residiam. Surgem cartas a solicitar fotografias de senhoritas ou ampliações de imagens de monumentos inaugurados, como é o caso do pedido que recebe de Silves sobre as imagens tiradas aquando da inauguração do Monumento aos Mortos da Grande Guerra, em 1933 com a presença do Ministro da Guerra na qual o cliente indica “Quero bem feito para rivalisar com umas ampliações iguais que foram feitas em Lisboa”.57 Para a concretização deste monumento foram organizadas pelo município, colectividades e instituições da cidade grandiosas festas em 1928. No programa oficial das festas da cidade do ano seguinte (1929) podemos ver, nos anúncios dos comerciantes, os dois irmãos Andrade em plena actividade: “J. D. d´Andrade, Fotografo, Em frente da Igreja de S. Tiago e Apolinário Candido d´Andrade, Fotografo, Rua D. Paio Peres Correia, 2 e 4”.58 Com efeito, o citado monumento, foi inaugurado a 9 de Abril de 1933 pelo General Daniel Rodrigues de Sousa. A fotografia da inauguração, possivelmente uma das que foram pedidas as ampliações acima referidas, mostra-nos o momento do discurso de Jaime Cansado, tavirense “mobilizado para o 1º Corpo Expedicionário Português pertencendo ao Regimento de Infantaria nº4, 3º Batalhão, sendo capitão de Infantaria 4 (…)”.59 Estúdio Apolinário Candido de Andrade, Inauguração do Monumento aos Mortos da Grande Guerra, 1933. Reprodução digital a partir do negativo de vidro original. Arquivo particular da Família Andrade

Conforme Cédula Pessoal de Luisa da Encarnação Chanoca, Arquivo particular da Família Andrade.

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Conforme Cédula Pessoal de Luisa da Encarnação Chanoca e pequeno livro de apontamentos de Apolinário d’Andrade, iniciado em 1914. Arquivo particular da Família Andrade.

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Conforme se pode observar no livro de Inscrição de Sócios do “Centro Democrático” Tavirense, 1910-1913, Arquivo Municipal de Tavira, SC:ASR:001, p. 99.

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Conforme apontamento no seu caderno diário de 1914: “Tenho que pagar a Fraternal”. Arquivo particular da Família Andrade.

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Conforme os respectivos documentos de nomeação e exoneração do Governo Civil de Faro. Arquivo particular da Família Andrade.

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Conforme documento do Club Recreativo Tavirense, aceitando a demissão do cargo, datado de 10 de Dezembro de 1929. Arquivo particular da Família Andrade.

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Conforme Marco Lopes e Rita Manteigas, “Uma cidade republicana: transformações e continuidades”, in A 1ª República em Tavira: transformações e continuidades, Tavira, C.M., 2010, p.101.

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Carta s/d. Arquivo particular da Família Andrade.

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Arquivo particular da Família Andrade.

Rita Manteigas, “O contexto bélico: repercussões na cidade”, in A 1ª República em Tavira: transformações e continuidades, Tavira, C.M., 2010, p.113.

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A segunda geração dos Andrades fotógrafos acabou na generalidade, com maior ou menor exclusividade, por trabalhar em fotografia. Passando a sua arte de pai para filhos, na década de 20 e 30, os fotógrafos da família em actividade eram já em maior número, adequando-se às diferentes tarefas consoante as suas personalidades. No Fundo do Jornal O Século à guarda da Torre do Tombo, encontramos algumas fotografias sobre Tavira, provenientes do seu arquivo de imagens para notícias, nas quais encontramos a “assinatura” de Arménio Andrade, filho de Damasceno Andrade. Tal acontece com a fotografia da Banda Municipal de Tavira sobre a qual está manuscrito “Foto de Arménio Andrade”, apresentando-se colada sobre a ficha correspondente do jornal onde aparece datada de 20/01/1933. Já a fotografia da Estação do Caminho de Ferro de Tavira em obras encontra-se igualmente assinada na frente pelo mesmo fotógrafo mas desta vez associada à designação “Corresp.te”, provando a relação da família como intermediária das notícias locais (a nível da imagem) nos periódicos nacionais.

Os contactos com os fornecedores de material fotográfico vão estabelecendo proximidade com as várias cidades do Algarve e com casas de Lisboa, a maioria das vezes importadoras de objectos da especialidade. Na década de 20 surge no arquivo familiar multifacetada correspondência e catálogos, entre os quais destaco pelas novidades das máquinas, serviços disponíveis e amostras de material, os seguintes: – o catálogo da casa Bastos & Carvalho Lta comunicando o “Fornecimento de artigos para fotografia das principais casas estrangeiras”; “Em armazém grande variedade em cartões para todos os formatos”; “Execução rápida de todas as encomendas para a província”; e a disponibilidade de “Laboratórios especialmente montados para todos os trabalhos de amadores” assim como um “Quarto escuro” à sua disposição, o que ilustra o crescimento dos amadores e a consonância das ofertas comerciais nas grandes cidades com este facto.60

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Arménio Andrade, Fotografia da Banda Municipal de Tavira, sobre cartão, 1933, proveniente do Fundo [Jornal] O Século, Série “Ficheiro Central”. Imagem cedida pelo ANTT Arménio Andrade (assinando como Corresp.te), Estação dos Caminhos de Ferro de Tavira, data ilegível, proveniente do Fundo [Jornal] O Século, Série “Ficheiro Central”. Imagem cedida pelo ANTT


– A correspondência com o fornecedor Julio Worm (Lisboa e Porto) durante o ano de 1926, acerca da aquisição de um aparelho “Cartophote”, “o último modelo e o mais perfeito dos aparelhos para tirar retratos em postal ou meio postal fazendo negativo e positivo á luz do dia”.61 Máquina que foi encomendada e que tardou em chegar dado o sucesso que estava a fazer em todo o mundo. Ao contrário de outras máquinas desta altura ainda na posse da família, este aparelho não chegou aos nossos dias. – O catálogo da AT. ART. de Julio Amorim, Revendedor da Casa Kodak, Lta. (casa lisboeta fundada em 1895). É o n.º 2 dos folhetos de propaganda desta casa, folhetos muito ilustrados, com amostras de cartões variados onde o revendedor traduz do francês os produtos que oferece.62 Durante as décadas de 20 e 30 do século XX, a casa de Apolinário D´Andrade vai consolidando o trabalho e prestígio dos anos anteriores. Num esboço de um anúncio correspondendo a este anos a casa surge já com outro estatuto na cidade: Fotografia Andrade de Apolinário Candido d´Andrade, iniciando-se o mesmo com a expressão “O proprietário d´esta antiga e acreditada fotografia…”.63 Com efeito, podemos constatar que em 1931 o atelier concorre e ganha o trabalho de retratar todos os recrutas do Grupo do Regimento de Infantaria n.º 15 em Tavira, sendo o número provisional de fotografias nunca menos do que 625, número de recrutas.64 O caderno de encargos refere que por cada recruta deveriam ser fornecidas duas provas de 3x4 cm; que as provas que não ficariam nítidas seriam repetidas; que seria escolhido o fotógrafo que indicasse menor preço. Este concurso estava destinado aos fotógrafos da cidade assim como aos de fora dela. Um recibo da casa do fotógrafo Apolinário, datado da década de 40, mostra-nos o tipo de trabalhos mais comuns na altura: “ampliações”, “reproduções”, “passes”, “revelações”, “provas”, “postaes”, “cartões” e “retrátos elétricos”.65 O registo dos trabalhos era, muitas vezes, feito em folhas onde à esquerda se colocavam os nomes dos clientes, sendo vulgar o aparecimento de designações próprias de uma cidade com a escala de Tavira onde todos se conheciam ou eram facilmente referenciados, tais como “filho do capitão de Tavira”, “ampliação do Capitão de Olhão”, “Filha do João da Costa”, “Criada Maria”, entre outras.66 Pequeno calendário para o ano de 1923 com publicidade aos trabalhos ofertados pela casa. Arquivo particular da Família Andrade.

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Carta de Julio Worm, datada de 28 de Maio de 1926. Arquivo particular da Família Andrade.

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Folheto datado de Junho de 1926. Arquivo particular da Família Andrade.

Sabemos que o esboço deste anúncio é destes anos, pois referencia a loja como estando ao lado do futuro Banco do Algarve ainda em construção. Arquivo particular da Família Andrade.

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Caderno de encargos manuscrito s/d; Carta apresentada a concurso em papel azul de 25 linhas datada de 12 de Março de 1931. Arquivo particular da Família Andrade.

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Factura de 31 de Julho de 1943. Arquivo particular da Família Andrade.

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Manuscrito, s/d. Arquivo particular da Família Andrade.

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Estúdio Apolinário Cândido de Andrade, Retrato, s/d. Reprodução digital a partir de vidro original. Arquivo particular da Família Andrade Estúdio Apolinário Candido de Andrade, Passes de militares do Grupo do Regimento de Infantaria n.º 15, s/d. Reprodução digital a partir do negativo de vidro original. Arquivo particular da Família Andrade

O governo de uma casa de fotografia na primeira metade do século XX, incluía entre outras coisas, despesas com a renda mensal do espaço, com a licença camarária para exercer a indústria de fotógrafo assim como a Contribuição Industrial de “Fotografia- oficina de”. A gestão do material fotográfico próprio e, com o passar dos anos, cada vez maior quantidade para vender aos fotógrafos amadores; do pessoal e do tempo para gerir o calendário anual, como acontecia com a concentração das solicitações em épocas do ano como o Carnaval, a Páscoa, a Feira de Outubro, etc. A administração da clientela continuou a ser feita, para além das consequências positivas de uma casa tradicional da cidade, através dos anúncios que pontualmente, apareciam em jornais como o Povo Algarvio ou outros fora do concelho (Folha de Alte)67 quer através da distribuição de folhetos. A atenção às novidades fotográficas e à evolução da estética pode perceber-se através dos contactos com os fornecedores e à troca de ideias com outras casas fotográficas no Algarve e fora dele. Após alguns anos no Largo das Portas do Postigo, a Fotografia Andrade, mudou-se para a Rua José Pires Padinha, para uma loja virada para o Jardim público. Aqui iniciarão outra fase da sua história: o fotógrafo profissional sai cada vez mais do estúdio para fazer reportagem fotográfica no exterior e à loja acorrerão cada vez mais fotógrafos amadores para que os profissionais procedam à revelação dos seus negativos. 67

Ambos os periódicos s/d. Arquivo particular da Família Andrade.

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Brochura desdobrável de produtos Laer-Etroc: “Ultimas Novidades Fotográficas”, Abril de 1945. Arquivo particular da Família Andrade

Retrato de Apolinário Candido de Andrade, s/d, negativo de metal sobre suporte de madeira, 9,3x6,9x2,2 cm. Arquivo particular da Família Andrade Retrato de Apolinário Candido de Andrade, s/d, prova sobre suporte de seda, 8,8x5,6 cm. Arquivo particular da Família Andrade

Bibliografia Alma Nova, Revista de Propaganda do Algarve, órgão da Sociedade de Amigos do Algarve, Ano 1, Set. 1915- nº 11, 12 e 1 do ano 2. Amar, Pierre-Jean, História da Fotografia, trad. Vitor Silva, Lisboa, Edições 70, D.L. 2001, (Arte e Comunicação; 76). Jornal de Annuncios: semanario gratis, dir. e propr. José Maria dos Santos, Tavira, Typographia Burocrática, [1883]- 27 dez 1900. Heraldo, dir. e propr. José Maria dos Santos, Tavira, Typographia Burocrática. Consultado de 3 Jan. 1901 até 25 de Fevereiro de 1912. Provincia do Algarve : semanário republicano, dir. Silvestre Falcão, A. 1, n. 1 (3 Out. 1908)-a. 12, n. 587 (1 Ag. 1920), Tavira : [s. n.], 1908-1920. Documentação do Arquivo particular da Família Andrade.

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Catรกlogo Parte 1

Rua da Liberdade, Tavira

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De fotografo “escursionista” a “Moderno Atelier de Fotografia” Desde pelo menos 1889 que se verifica em Tavira a presença sazonal de fotógrafos excursionistas. Alugavam pequenos espaços comerciais por alguns dias, semanas ou poucos meses. Durante o resto do ano ir ao fotógrafo era fazer uma viagem a cidades maiores, como Faro, Lisboa ou Coimbra, caso aí estivesse alguém da família a estudar. O primeiro anúncio de jornal sobre a presença do fotógrafo Apolinário Cândido d’Andrade em Tavira surge a 15 de Junho de 1912 no jornal republicano Provincia do Algarve. Designa-se ainda fotógrafo excursionista e prevê ficar na cidade somente alguns dias. No entanto, verificando-se grande afluência de clientes, o fotógrafo instala-se definitivamente na cidade onde já exercia a mesma profissão o seu irmão mais velho, José Damasceno. Instalados no mesmo local, Rua D. Paio Peres Correia, pode afirmar-se que, a partir da década de 10 do século XX, esta era, na cidade, uma rua dedicada à Fotografia. Nos anos 30 e 40, já a segunda geração de ambos, praticava, noutras portas da mesma rua, a arte de fotografar que tinham aprendido com seus pais. Parte do equipamento fotográfico do estúdio de Apolinário d’Andrade (Sénior) chegou aos nossos dias. Máquinas fotográficas, ampliadoras, impressoras, entre outros equipamentos e material para revelação, foram importados de França (Paris), da Alemanha (Dresden), ou de outros lugares que achavam mais adequados conforme os catálogos que iam recebendo ou conhecendo através dos importadores da capital. Assim, ao longo do ano e das ocasiões, os tavirenses faziam da sua ida ao fotógrafo, numa primeira fase exclusivamente para fazer o seu retrato, um momento de prazer. Com efeito, tal pode constatar-se na exposição através de uma série de retratos que acompanham a evolução da vida de um cada vez maior número de tavirenses: do bebé no carrinho ou acompanhado

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pela ama, aos meninos e meninas, muitas vezes na época carnavalesca. Vão crescendo, tornando-se jovens adultos, não sem no tempo certo fazerem a “Primeira comunhão”. Surge então o casamento e os retratos de família. Por vezes gostam de exibir os seus gostos explicitamente: escrever ou tocar violino. Os sinais menos elegantes podem ser disfarçados através da retocagem das imagens: a pele fica mais clara e homogénea, o que o que condiz com a moda em voga. Por fim, também a morte é por vezes registada, normalmente quando se parte cedo demais. Com o aparecimento da fotografia “tipo passe”, um carácter pragmático e menos elitista associa-se à prática fotográfica, necessária para complementar os documentos obrigatórios do quotidiano. A exposição ilustra este facto com as pequenas fotografias (4,5 x 6,0 cm) onde se podem observar camponeses e camponesas que formalizam a sua partida para trabalhar noutros locais… ou as centenas de recrutas do Regimento de Infantaria n.º 15, que se instalam em Tavira. Com o passar dos anos, a fotografia de reportagem vai, aos poucos, aumentando o seu espaço na gestão de uma casa de fotógrafos profissionais. Arménio d’Andrade, era correspondente do Jornal O século, pelo menos desde 1933. As imagens da cidade nas décadas de 20 e 30 mostram-nos o dia-a-dia de Tavira, mas também de algumas das suas festividades e recepções de estado. Permitem-nos ainda observar a evolução urbanística da cidade. Grupos profissionais, festas familiares ou mesmo o pretender um retrato individual no exterior, “retiram” o fotógrafo de dentro do studio cada vez com maior frequência. [RM]


EstĂşdio na Rua D. Paio Peres Correia, 2 e 4

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Os estĂşdios

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ArmĂŠnio Andrade, filho de Damasceno Andrade, depois de muitos anos a fotografar em Tavira, mudou-se para Aljustrel onde montou um estĂşdio

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Vista de Castro Marim: terra natal de Apolinรกrio e Damasceno Andrade

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Montagens fotogrรกficas em negativos de vidro

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Filhos de Apolinário Cândido de Andrade (Sénior)

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de Andrade Em 1944, os descendentes de Apolinårio Cândido o Postig do Portas das Largo fundam a Foto Andrade no

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Apolinário de Andrade (Júnior)

Luís Andrade

Damião Andrade

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As Máquinas Fotográficas

Diâmetro de objectivas desenhado em caderno de apontamentos de Apolinário Cândido de Andrade

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Os cenários Catálogo de cenários onde Apolinário Cândido de Andrade se inspirava para elaborar os seus

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O retrato: do nascimento Ă morte

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O retoque de imagens

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O retrato do Bispo do Algarve D. Marcelino Franco foi minuciosamente retocado a lápis na superfície fotossensível do negativo

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O retoque de uma fotografia constituía uma prática constante da casa fotográfica de Apolinário de Andrade. O designado retoque com “carmim” era colocado sobre as zonas da fotografia que se queriam aclarar. Normalmente, no retrato, o rosto, os membros superiores e inferiores eram as zonas seleccionadas.

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Quando o produto era aplicado com maior densidade poderia anular a imagem registada no negativo. Esta última aplicação era utilizada, por exemplo, para isolar uma determinada figura que tinha sido retratada em grupo, para que se procedesse à execução de um retrato individual.


O retoque de um negativo também poderia ser executado a lápis, normalmente para homogeneizar o rosto, retirando por exemplo, manchas, sinais ou atenuando o barbeado nos homens.

O retoque também se executava sobre a fotografia já revelada, como se pode observar neste exemplar, retocado e assinado a carvão.

Fotografia sem retoque

Retoque a carvão em positivo

Fotografia com retoque a

sobre papel.

lápis

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O retrato “tipo passe� Passes de civis

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Passes de militares

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Impressora O processo de “imprimir” o papel fotográfico era elaborado numa câmara escura. O negativo, com o papel fotossensível por cima, era colocado no compartimento sobre a caixa de luz. A luz era acesa durante uma determinada fracção de tempo, permitindo que a imagem

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do negativo se projectasse sobre o papel fotográfico, que se encontrava com a superfície fotossensível virada para baixo. De seguida, o papel fotográfico, ainda sem a imagem visível, iria sofrer o processo de revelação.


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Reportagem: o quotidiano

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Rua da Liberdade,Tavira

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Fรกbrica V. Campos

Banda Municipal de Tavira

Prisioneiro no

talaia

Quartel da A

Quartel da Atalaia (?)

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to Escola Primária

Palácio da Galeria enquan Arraial (do M

edo das Casca

s?)

Igreja da Luz de Tavira

Antiga Central Eléctrica de Tavira

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Reportagem: acontecimentos

Tavira, Inauguração do Monumento aos Mortos da Grande Guerra, 9 de Abril de 1933

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Festas na cidade...

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Outras festividades, visitas oficiais, cheias...

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Ampliador O processo de ampliar uma fotografia ocorria numa câmara escura. O negativo era introduzido no chassis do ampliador; o papel fotossensível, com a dimensão da ampliação pretendida, é fixado na parede em frente do aparelho. Através do fole é ajustada a projecção do

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negativo face à dimensão do papel; a luz é acesa durante uma determinada fracção de tempo, até a projecção do negativo se fixar no referido papel; este irá de seguida ser revelado.


Retrato ampliado do Dr. António Padinha e respectiva reprodução digital do negativo. Apolinário e Damasceno de Andrade, 1913

Base em madeira para a secagem de negativos em vidro

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Vista de Tavira, fotografia de dia 2 (data do nev達o) ou dia 3 (dia seguinte) de Fevereiro de 1954

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Catรกlogo Parte 2

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Os anos 50/60: entre a reportagem fotográfica e as encenações da realidade Em 1954 os descendentes de Apolinário d’Andrade (Sénior) instalam o seu novo atelier numa zona de grande movimento da cidade: a Rua José Pires Padinha, em frente ao jardim da cidade, virada para o rio Gilão. No interior do novo espaço, podemos agora visualizar os aparelhos de fotografar em voga, cada vez mais portáteis e vendidos a muitos fotógrafos não profissionais. A Foto Andrade conferirá importância crescente à “Secção de Amadores”, revelando centenas de pequenas fotografias a preto e branco tiradas pelos seus clientes. A meio do século, a concorrência entre as marcas associadas ao mundo da fotografia é grande: decoram vistosamente os estúdios com a linguagem gráfica e colorida própria da publicidade. Paisagens idílicas, muitas vezes exóticas, mulheres, homens e crianças, actores de um mundo perfeito, povoam as paredes da loja e as embalagens que os compradores levam para casa com as fotografias encomendadas. A fotografia de estúdio continua a constituir amplo sustento na gestão da casa. Podemos observar milhares de fotografias tipo passe registadas nas agendas anuais – imagens simplificadas dos Retratos de maior dimensão. Vemos cavalheiros e senhoras, agora fotografados principalmente de busto, muitas vezes em pose diagonal ou de perfil face ao “espectador”. Os cenários são lisos ou com um ligeiro dégradé. Os cabelos da moda iluminados por aparelhos comprados para o efeito. É re(criada) a imagem do cinema na vida real. Muitos dos retratos são agora também captados no exterior: os cenários favoritos são o jardim “do coreto”, o Rio Gilão ou o Castelo. O fotógrafo desloca-se à igreja para registar as Primeiras comunhões, os baptizados e os casamentos. Frequentemente o cliente solicita um acabamento semelhante à ainda inexistente fotografia a cores: meticulosamente pinta-se o positivo com cores mais ou menos vivas.

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A reportagem fotográfica continua a incidir nos acontecimentos de âmbito local: visitas de Estado do Presidente da República e de vários ministros; inaugurações e homenagens a figuras da terra; procissões várias que vão percorrendo a cidade e as freguesias durante o calendário religioso; as festas da cidade, muitas cheias e… um dia de neve. Mas o quotidiano da cidade é agora também captado sistematicamente: a reconstrução do edifício dos Paços do Concelho ou a urbanização da medieval Horta del Rei. Interiores de mercearias antigas ou das lojas mais sofisticadas que vendem os mais recentes electrodomésticos são motivo de registo; os ofícios ligados ao mar e à terra que povoavam a paisagem urbana; o funcionamento do hospital, das escolas e das fábricas. A árdua construção da estrada para a distante aldeia de Cachopo, em 1957, também é motivo de reportagem. A inacessibilidade superada permite aos habitantes rurais o contacto mais frequente com a cidade. No entanto, na mesma altura, uma imagem idílica da vida campestre é vendida na cidade através de postais que isolam o pitoresco de um segundo da dureza da realidade – lavar a roupa na ribeira ou agricultar com meios ancestrais. Os protagonistas, por vezes “actores” por vezes reais, posam para a fotografia, entre amendoeiras ou ao lado das denominadas chaminés algarvias. É a construção do Portugal típico, dos motivos e dos tipos Algarvios, imagem veiculada pelo Estado Novo desde os anos 40. [RM]


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A loja

Interior da loja Foto Andrade na Rua JosĂŠ Pires Padinha, com montagem (a cores) de anĂşncio original.

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Andrade An煤ncios comerciais presentes na Foto s rafia fotog para ucros inv贸l e ) cima (em ) entregues aos clientes da loja (em baixo

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Agendas comerciais da dĂŠcada de 50 onde se pode observar o fluxo de trabalho correspondente aos dias da Feira de Outubro de Tavira.

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Reportagem: o quotidiano

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Máquinas fotográficas de reportagem (décadas de 40/50): Máquina Rolleicord, Franke & Heidecke, Braunschweig, Alemanha Máquina Voigtlander Color-Heliar (Bessa II) Máquina Telka III, Demaria Lapierre, França (1949)

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Transformações na paisagem urbana

Demolição de edifício na Rua da Liberdade

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Demolição do antigo edifício da Câmara

Municipal de Tavira

Urbanização da Horta d´el Rei

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Celeiro da cidade (F.N.P.T/Federação

Nacional dos Produtores de Trigo)

FĂĄbrica de Moagens e Massas a Vapor de J. A. Pacheco, no antigo Convento das Bernardas

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Comércio

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Profissões e ofícios

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Ensino

Escolas Primárias

Colégio Feminino

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Escola de Pesca

Escolas de costura

Escola TĂŠcnica

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Desporto

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Transportes

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Tavira militar

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Retratos de exterior

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Bilhetes Postais

Edição da Foto Andrade -Tavira

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“Secção de Amadores”

Mata de Tavira, 1953 (identificado no

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verso)


Praia de Tavira, 1954/7(?) (identificado no verso)

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Reportagem: acontecimentos

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Visita do Presidente da República Américo Tomás a Tavira, 1965

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Visitas de Estado

Ministro do Exército, 1959

Ministro das Finanças, 1960 s, 1965

Presidente da República Américo Tomá

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Ministro das Corporações, 1965

Ministro das Obras Públicas, 1962

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Inaugurações, sessões solenes e manifestações

Inauguração da pista de ciclismo do Ginásio Clube

de Tavira, 1960

a, 1961

Inauguração da Escola Técnica de Tavir

.P.T/Federação Nacional Inauguração do celeiro da cidade (F.N dos Produtores de Trigo), 1957

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Inauguração do Monumento ao Bispo

Marcelino Franco, 1971

Sessão Solene da Mocidade Portuguesa (1958)

6)

Manifestação de apoio à Hungria (195

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Festividades “Festas da Cidade”, 1960/61

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Outras festas...

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Religiosidades

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Cheias...

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...e um dia de neve

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Retratos de estúdio

Estúdio de fotografia na década de 60, onde o cenário apresenta grande sobriedade

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Máquina fotográfica de estúdio, “Costruzioni Fototecniche Dott. Corrado Marin”, Trieste (Itália), década de 60 Holofotes da mesma época, que permitem uma iluminação direccionada, conforme a fotografia pretendida. Por exemplo, para os retratos de busto, era utilizado o foco de cima, já para retratos de corpo inteiro, existia a coordenação dos 3 focos.

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Retratos tirados em estúdio, onde observamos a simplicidade dos cenários, a preferência pelo retrato de busto, em posição diagonal face ao observador. Os modelos cinematográficos imperam, tanto para os homens como para as mulheres. O trabalho de luz realça principalmente a volumetria do cabelo, conferindo uma aura de irrealidade aos retratados.

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“Spotlight” holofote para efeitos especiais Nos anos 50/60, verifica-se a utilização de aparelhos apropriados para que os cabelos surgissem esculpidos/ modelados pela luz. Na tradição oral, histórias da família Andrade referem a resistência de algumas senhoras a esta nova estética, pois afirmavam parecerem mais velhas, reconhecendo nas imagens, em lugar do brilho, cabelos brancos.

Há que referir ainda o gosto pela fotografia de perfil, na qual os efeitos de luz/sombra conferem ao retratado um ar abstratizante. O mesmo aparelho referido, projectava sobre a parede formas ovaladas, ou outras, que permitiam realçar todo o contorno do cabelo, este bastante volumetrizado nos anos 50/60.

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Colorir os retratos

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O desejo de maior realismo nas imagens fotográficas dá origem ao aparecimento da coloração da fotografia a preto e branco. Após a revelação em papel fotográfico, o retrato ganhava um acabamento minucioso à base do uso de aguarela, numas partes mais densa, noutras mais diluída, adquirindo as imagens um acabamento aproximado das obras artísticas de carácter mais naturalista.


Conjunto de utensílios para coloração de fotografias a preto e branco

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Fotografia “tipo passe” Anos 50/60/70


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Revelar O processo de revelação da fotografia é efectuado numa sala escura. A luz vermelha é a única que não altera o processo que se irá seguir. O positivo está imbuído da imagem, mas esta é ainda invisível. Numa primeira tina coloca-se o positivo imerso num produto químico, o revelador. A imagem vai começando a aparecer, tornando-se nítida, ou seja revelada. Numa segunda tina, coloca-se o positivo no “banho de paragem” (água misturada com ácido), movimentando-o. O objectivo é retirar o excesso de produtos químicos do produto revelador.

Numa terceira tina, imerge-se o positivo desta vez no fixador, também este um produto químico, que tem como objectivo estabilizar a imagem. Na última tina, procede-se à lavagem com água corrente, para retirar o excesso dos resíduos químicos. Uma fotografia que não tenha tido uma boa lavagem, com o tempo, deteriora-se com muito mais facilidade. Por fim, num ambiente em que já poderá existir luz natural, procede-se à secagem em ambiente natural ou em estufas eléctricas.

O laboratório

Ampliador / Revelador e papéis fotográficos

Recipientes para revelação de negativos

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Lâmpada de laboratório

Prateleira com vários produtos químicos para revelação

Várias tinas ou cuvetes (em cerâmica, alumínio, plástico e esmaltadas) para revelação

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Esmaltadeira Servia para secar o positivo, mas principalmente para esmaltar, ou seja, dar brilho Ă fotografia

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LuĂ­s Andrade, Vista de Tavira, 1990

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Catรกlogo Parte 3

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Até à actualidade: entre o aparecimento da cor e a democratização da fotografia Nas últimas décadas do século XX, os descendentes de Apolinário Cândido d´Andrade abriram na cidade três lojas. Uma delas, sob a responsabilidade de Apolinário Júnior, adopta o nome Fotografia Algarve, trabalhando aí com o seu filho Luís, loja que ainda hoje conhecemos. Como aconteceu com muitas famílias em Portugal, a década de 60 encaminhou os jovens rapazes para a Guerra Colonial, fazendo Luís Andrade, desta vez, reportagem fotográfica em Angola – algumas das imagens de sua autoria foram publicadas em vários periódicos militares. Chegada a Revolução de Abril, são captadas em Tavira imagens de grande euforia, como podemos ver na manifestação do Primeiro de Maio de 1974. Na verdade, o novo regime coincide, simbolicamente, com o aparecimento da película a cores e com a verdadeira democratização da fotografia. São poucas as famílias que não possuem um aparelho para fotografar a sua vida privada ou acontecimentos nacionais a que assistem. O fotógrafo profissional é contactado quando se requer uma imagem “oficial” ou de maior qualidade técnica. A massificação da captura de imagens leva a que as casas fotográficas adquiram verdadeiras “fábricas” de revelação concentradas em máquinas de grandes dimensões. No interior de uma primeira máquina, procede-se, automaticamente, à revelação do negativo; numa segunda máquina faz-se o controle da cor e imprimem-se os milhares de fotografias em papel, saindo já cortados com medida uniforme. A reportagem fotográfica de exterior continua, registando agora, os acontecimentos da 3.ª República: campanhas eleitorais, tomadas de posse de novos

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executivos, a descentralização da cultura através do lançamento de livros ou inaugurações de exposições, novos edifícios ligados às comunicações, barragens, o restauro do património… a modernização das cidades no contexto da Comunidade Europeia. Localmente, a grande cheia de 1989 ficará na memória de todos. A cor invade os muitos casamentos, os retratos agora com cenários em dégradé colorido e as fotografias tipo passe. As poses e as expressões faciais ganham espontaneidade. Os profissionais de fotografia iniciam também a reportagem em vídeo destas festividades – a imagem em movimento torna o registo para futura memória mais completo. Na década das comunicações móveis, a máquina fotográfica existe em cada telemóvel. Todos fazemos o registo directo a qualquer momento. A tecnologia digital permite visualizar e seleccionar, tratar no computador pessoal milhares e milhares de imagens. O final do século XX, dominado pela imagem, assume claramente a fotografia enquanto arte, uma velha questão desde o seu aparecimento. A fotografia, com formatos e técnicas diversas, com uma linguagem artística autónoma, ocupa hoje o seu espaço nas galerias e museus. Existe formação especializada, já não se aprende em exclusivo de pai para filho. A geração mais recente da Família Andrade, com Miguel Andrade, personifica esta situação. O papel do fotógrafo, de que temos vindo a contar a história, encontra-se em mutação. [RM]


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Moldura promocional dos anos 80, onde se podem visualizar diversos tipos de trabalhos disponibilizados pela Foto Andrade e pela Fotografia Algarve

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afias para fotogr Invólucros ve fia Algar da Fotogra

ressas ficas imp s fotográ a ci n s iê ra er Exp e textu tes cores em diferen

Publicidade da Kodak relativa a fotografias a cores

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Máquina fotográfica Hasselblad, usada pela Fotografia Algarve durante as décadas de 70/80. Esta máquina tinha a dupla valência de poder ser utilizada tanto para a reportagem de exterior como em estúdio

Kodak Noritsu QSF-V30SM, máquina que efectua todo o processo de revelação internamente

Kodak Noritsu QSS-1201V, máquina que, de forma automática, imprime as fotografias em papel fotográfico

Usadas desde os anos 80 do século XX até ao início do século XXI, pela Fotografia Algarve, estas duas máquinas concentravam em cerca de 2 m2 cada uma, as tarefas ocorridas nas ancestrais divisões do laboratório fotográfico, onde se procedia manualmente à revelação e impressão das imagens uma por uma

Digital Photo Print Kiosque, DIGI CUBE, máquina de reprodução digital utilizada na actualidade pela Fotografia Algarve

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… ainda no Estúdio

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Retratos

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Retratos “tipo passe”

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Reportagem

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Luís Andrade, Angola, Reportagem de guerra no âmbito do Destacamento de Fotografia e Cinema, 1965-67

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Guerra Colonial

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Luís Andrade, Angola, Reportagem de guerra no âmbito do Destacamento de Fotografia e Cinema, 1965-67

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Entre o 25 de Abril… Luís Andrade, Tavira, 1974

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…e o 1º de Maio de 1974 Luís Andrade, Tavira, 1974

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Cheias de 1989

LuĂ­s Andrade, Cheias na cidade, 1989

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Transformaçþes recentes na paisagem urbana

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A quarta geração dos Fotógrafos Andrade Miguel Andrade

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Miguel Andrade, Sem título, impressão fotográfica digital sobre tela, 2010

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Miguel Andrade, 4gf, montagem fotovideogrรกfica, 2011

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Retrato dĂŠcadas 20/30 (?)

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Retrato dĂŠcada de 80

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Créditos Imagens nos Artigos Artigo de Tereza Siza Arquivo Municipal de Lisboa Arquivo Municipal de Lisboa, Benoliel (JBN001797) Pág. 28, 29 (pormenor)

Caminhos de Ferro. Secretaria Geral Ponte da Quarteira. Foto de Emílio Biel. Arquivo CP. Pág. 22

Centro Português de Fotografia/DGARQ/MC Anónimo, Algarves – Entrée du Fort de Sagres, 1870 Positivo de papel, preto e branco, 43,7x 32,0, albumina PT/CPF/CNF 006, Centro Português de Fotografia/DGARQ/MC Pág. 21

Domingos Alvão, impressor, Sem título, [19--] Positivo de papel, preto e branco, gelatina e sais de prata, 24,7x 32,4 PT/CPF/CNF 1865, Centro Português de Fotografia/DGARQ/MC Pág. 27

Praia da Rocha, Villa Nova de Portimão: A arte e natureza em Portugal – Vol. V, [1908], Positivo de papel, preto e branco, gelatina e sais de prata PT/CPF/CNF-CALVB2577-20, Centro Português de Fotografia/DGARQ/MC Pág. 27

Arquivo particular da Família Andrade Págs. 23, 25, 26, 27, 30, 31, 32

Artigo de Rita Manteigas Arquivo Nacional da Torre do Tombo/DGARQ Imagens cedidas pelo ANTT Empresa Pública Jornal O Século PT/TT/EPJS/SF/005/T/004 Pág. 46

Empresa Pública Jornal O Século PT/TT/EPJS/SF/005/T/006 Pág. 46

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Arquivo particular da Família Andrade Págs. 33, 38, 41, 42, 43, 44 (dir.), 45, 48, 49

Colecção Maria e Jorge Justo Pereira Pág. 44 (esq.)

Colecção Luís Gameiro Pág. 35 (centro e dir.)

Colecção Maria do Rosário Palermo Mendonça Págs. 35 (esq.), 36 (cima)

Colecção Rui Jorge Chagas Junqueira dos Reis Págs. 34, 37

Catálogo Todas as fotografias são de autoria da Família Andrade, sendo a propriedade da mesma, exceptuando os seguintes casos: Colecção Maria e Jorge Justo Pereira Pág. 101 (dir., fotografia emoldurada)

Colecção Luís Gameiro Págs. 142 (cima), 143 (cima)

Colecção Ginásio Clube de Tavira Pág. 140 (Inauguração da Pista de Ciclismo do GCT, 1960, pequena imagem à dir.)

Colecção Maria do Rosário Palermo Mendonça Págs. 76 (esq.), 78 (baixa dir.), 134, 135

Colecção Rui Cansado Guedes Págs. 59 (exceptuando a fotografia em cima esq.), 78 (cima dir.), 79 (dir.), 85 (dir.), 142 (baixa dir.)

Colecção Rui Jorge Chagas Junqueira dos Reis Págs. 55, 56, 57, 59 (cima esq.), 75 (esq.), 77 (esq.), 138 (Ministro do Exército, 1959, pequena imagem à dir.), 142 (baixa esq.)

Todas as restantes peças são da propriedade da Família Andrade.

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Profile for Museu Municipal de Tavira

Fotografar. A Família Andrade, olhares sobre Tavira  

Catálogo da exposição “Fotografar. A Família Andrade, olhares sobre Tavira ”, patente no Museu Municipal de Tavira, entre 09 de Junho de 201...

Fotografar. A Família Andrade, olhares sobre Tavira  

Catálogo da exposição “Fotografar. A Família Andrade, olhares sobre Tavira ”, patente no Museu Municipal de Tavira, entre 09 de Junho de 201...

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