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Nยบ 10 | ANO 10 | 2016


[ FICHA TÉCNICA ]

TERRAS DE ANTUÃ REVISTA DE PUBLICAÇÃO ANUAL Nº10 | ANO 10 | NOVEMBRO DE 2016

DIRETORA Rosa Maria Rodrigues EDITOR Câmara Municipal de Estarreja IMPRESSÃO E ACABAMENTO GRECA - Artes Gráficas TIRAGEM 500 Exemplares IMAGEM DE CAPA Edifício dos Paços do Concelho de Estarreja (fotografia do Arquivo Municipal de Estarreja) PROJETO GRÁFICO Câmara Municipal de Estarreja | GCRPT ISBN 1646-8562 DEPÓSITO LEGAL 267394/07 Os artigos publicados neste número são da responsabilidade científica e ética dos seus autores bem com o respeito pelo acordo ortográfico em vigor.


[ SUMÁRIO ]

A NOSSA CASA BRANCA Diamantino Sabina

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EDITORIAL Rosa Maria Rodrigues

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ROTA LAGUNARES Ana Maria Lopes

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CARNAVAL DE ESTARREJA: 1930 A 1974 Andreia Tavares

20

RANCHO FOLCLÓRICO DE VEIROS AS PRIMEIRAS DANÇAS: 1939-1947 António Augusto Silva

34

TRABALHOS ARQUEOLÓGICOS EM 2016 NO CRASTO DE SALREU, ESTARREJA BREVE NOTÍCIA António Manuel Silva, Gabriel R. Pereira, Paulo P. Lemos e Sara Almeida e Silva

39

A PEDRA DE ARMAS DA CASA DA FONTINHA, EM BEDUÍDO, ESTARREJA Delfim Bismarck Ferreira

58

CASAS COM TORRE Domingos Tavares

66

MEMÓRIAS DO QUOTIDIANO OS PAINÉIS DOS BARCOS MOLICEIROS José Gurgo e Cirne

82

A BIBLIOTECA PRIVADA DE EGAS MONIZ CASA DO MARINHEIRO EM AVANCA Juliana Cunha

89

O VÍNCULO DA CAPELA DE S.SIMÃO DO BUNHEIRO NO CONCELHO DE ESTARREJA, DISTRITO DE AVEIRO Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso Menezes

102

PESOS E MEDIDAS NA HISTÓRIA DE ESTARREJA E MURTOSA Marco Pereira

126

PINTURAS DE MILAGRES, HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DE ESPERANÇA E FÉ… Maria Clara de Paiva Vide Marques e António Cruz Leandro

135

EDIFÍCIO DOS PAÇOS DO CONCELHO DE ESTARREJA UM PERCURSO PELAS FONTES DE 120 ANOS DE HISTÓRIA Norvinda Leite

150


UM OUTRO OLHAR SOBRE O PATRIMÓNIO EDIFICADO DA ANTIGA FREGUESIA DE BEDUÍDO: A TERRA COMO FORMA DE CONSTRUÇÃO Susana Temudo e Diana Cunha Santos

173

EMIGRAÇÃO ESTARREJENSE NO ANO DE 1899 Teresa Cruz Tubby e Valter Santos

188

SAUDADES NOS 20 ANOS DO FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DE AVANCA António Costa Valente e Rita Capucho

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REVISTAS TERRAS DE ANTUÃ

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TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

A NOSSA CASA BRANCA Diamantino Sabina*

A revista “Terras de Antuã” completa 10 anos de vida! Comemoramos a efeméride ostentando na capa o belo edifício dos Paços do Concelho de Estarreja. Creio tratar-se de uma maneira sublime de presentear esta década de trabalho editorial! Os Paços do Concelho perfazem também a linda e redonda conta de 120 anos! 120 anos de história estarrejense bem enraizada nas paredes e tetos deste monumento à memória.Testemunhou já várias revoluções… entre outras, a industrial, a republicana e o 25 de Abril.Viu o Concelho crescer, vendo também o seu espaço tornar-se exíguo face às crescentes exigências da modernidade. No tempo em que as exigências técnicas e administrativas eram bem menores, este edifício albergou tudo que era serviço. De todos os Serviços Camarários ao Tribunal Judicial de Comarca, do Serviço de Finanças às Conservatórias, tudo se concentrava aqui. Hoje, porque os tempos são efetivamente outros, estão por cá apenas alguns órgãos e serviços da Câmara Municipal. São eles a Divisão Administrativa e Jurídica, a Divisão Económica e Financeira, os Vereadores, o Presidente da Câmara Municipal e o seu Gabinete de Apoio. Também, com o passar desta importante data, quisemos engalanar o edifício de branco. Branco, como um edifício importante e central deve ser! As janelas são novas e as portas recuperadas. Merece-nos essa atenção, e os estarrejenses merecem uma “Casa Grande” que represente orgulhosamente a nossa bandeira municipal! Arrepio-me de orgulho quando recebo quem nos visita e gaba o edifício. E não são poucas as vezes que recebo elogios! “Sr. Presidente, tem aqui uma Câmara fantástica!”, “Que lindo o edifício, Sr. Presidente”. É isto que me dizem e eu, humildemente, agradeço e vou dando conta duma ou doutra curiosidade das amplas salas e longos corredores. Mas como nem só da capa é feita a nossa “Terras de Antuã”, esta décima edição também nos oferece um conjunto de artigos de grande mestria literária e histórica! Artigos da riqueza de qual se compõe e compôs este nosso nobre Município de Estarreja. A Ria volta a estar presente nas “Rotas Lagunares” e nos “Painéis dos Barcos Moliceiros”. As danças de Veiros no folclore mais antigo, bem como o Crasto de Salreu e o Carnaval de todos nós. As “Casas com Torre” e as Pedras de Armas! Pintam-se os Milagres na Capela do Senhor da Ribeira, sob o olhar da emigração… e o Egas Moniz? Esse está-nos na alma! Celebrou agora 67 anos de Nobel da Medicina. Até a Murtosa com o seu Bunheiro e a capela de S. Simão, conhecida pela Capela do Forno por ter formato peculiar. Olhámos o Património da Antiga Freguesia de Beduído, que também disse presente nesta edição novembrina. Mais uma vez não defraudámos. A “Terras de Antuã” volta a encher-nos os corações e memórias com a rica história estarrejense. Venham os próximos 10! Pois verve não nos falta, queira quem colabora continuar a dar préstimo de tão ricas peças de história, que vão construindo esta coletânea de grande qualidade e de reconhecido louvor popular.

* Presidente da Câmara Municipal de Estarreja

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TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

EDITORIAL

Rosa Maria Rodrigues Decorridos dez anos desde a primeira publicação de Terras de Antuã, sabemos que contribuímos de forma inequívoca, para o conhecimento da nossa memória coletiva e consequentemente prestamos a nossa homenagem a um passado, que fundamentado em investigação tantas vezes esparsa, nos impele a um olhar mais atento, sensível, curioso e defensor da história e património do Concelho de Estarreja ou com ele relacionado. Nesta décima edição de Terras de Antuã, o conteúdo é diversificado e de grande amplitude cronológica, sendo alguns temas de continuidade em relação a anteriores estudos, o que permite a leitura mais abrangente de certas temáticas e onde, desde a arqueologia aos símbolos religiosos, da arquitetura à genealogia, da ria ao carnaval, da emigração ao associativismo, da historiografia medieval à redescoberta de recantos intimistas, vamos fazendo o nosso caminho na “ construção” da nossa história e consequentemente da nossa identidade. O capítulo Saudades de Terras de Antuã evoca os 34 anos do Cineclube de Avanca, da tenacidade e espirito construtivo daqueles que paulatinamente, com adversidades e regozijos, corporizaram ideias, materializaram projetos e na cadência numérica do tempo completaram no corrente ano o vigésimo aniversário de um “... festival que leva Avanca ao mundo e traz o mundo a Avanca”. A imagem de capa de Terras de Antuã apresenta o edifício dos Paços de Concelho de Estarreja, que este ano comemora 120 anos da sua inauguração. Sonho concretizado de Francisco Barbosa da Cunha Sotto Maior, com projeto de João Maia Romã e a construção foi adjudicada a Manuel Joaquim da Silva Valente, de Pardilhó. Podemos, quase adivinhar, que na perenidade e monumentalidade deste edifício, se corporizaram projetos, se verbalizaram ideias e ideais políticos, se fez e fará a história do Municipalismo em Estarreja. A todos os que contribuíram para materializar esta edição de Terras de Antuã, o nosso muito Obrigado.

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ROTAS LAGUNARES Ana Maria Lopes* Este tema implica regredirmos no tempo, o suficiente, e não é assim tanto, em que a laguna era a grande auto-estrada líquida, pois não havia rotas terrestres, na zona, que pudessem transportar mercadorias e passageiros. As rotas lagunares estão forçosamente ligadas às embarcações – mercantel (saleiro), moliceiro, bateira moliceira, bateira do junco e bateira berbigoeira, que mais tarde passou a ser mercantela. Rotas lagunares A questão das rotas lagunares é transversal a toda a ria e daí o ter proposto o tema para a revista nº 10 de Terras de Antuã. Senos da Fonseca, em anterior colóquio, ocupou-se das principais embarcações lagunares, as maiores, situando o seu aparecimento, de acordo com as necessidades dos utilizadores e a evolução geográfica da laguna, que considerou formada, a partir do século IX. Referido o principal por Senos da Fonseca sobre as embarcações, fiquei com o caminho aberto para me deter sobre as principais rotas lagunares, já que o tempo concedido para tal, era fugaz. Talvez possamos considerar, sem cometer nenhuma infidelidade histórica, o mercantel como uma das primeiras embarcações de fundo chato, nascida nos tempos modernos (depois dos séculos XV, XVI) construída para sulcar a laguna, servindo vários projectos. De facto, teria sido o mercantel, a embarcação (comummente designada por barca) que terá servido, tão eficazmente, de vários modos, a economia lagunar. Houve necessidade de fazer evoluir, uma nova embarcação de fundo chato, que calasse pouca água e que albergasse cerca de 15 toneladas, que se adaptasse à condição geográfica lagunar, que aproveitasse para sua propulsão, os ventos mais dominantes desta região, o norte e o noroeste, para navegar de popa (fazer popas) ou para bolinar (navegar à bolina), avançando contra o vento, aproveitando-o, na sua vela latina quadrangular, mais tarde. Assim nasceu o mercantel. É bastante conhecida uma gravura de mercantéis no Rossio, em Aveiro, datada de 1877. Tiveram o seu auge até meados, (sétimo decénio) do século XX.

* Licenciada em Filologia Românica pela Universidade de Coimbra (1965). Diversos cursos e formações posteriores. Desde muito jovem, revelou grande interesse pelos assuntos marítimos e lagunares. Na década de 90, foi Directora do Museu Marítimo e Regional de Ílhavo. Ex-membro da CTC do Museu de Marinha e Vice-presidente dos Amigos do MMI, até à actualidade. Dentre os diversos livros publicados, destacam-se o Vocabulário Marítimo Português e o Problema dos Mediterraneísmos, edição da UC, 1975, Faina Maior – A Pesca do Bacalhau nos Mares da Terra Nova, Quetzal, Lisboa, 1996, Moliceiros – A Memória da Ria, 2ª edição revista e aumentada, da Editora Âncora, 2012, Regresso ao Litoral – Embarcações Tradicionais Portuguesas, Edições Culturais de Marinha, 2008 e Uma Janela para o Sal (em co-autoria), 2015, Alêtheia Editores, Lisboa. Blog – http://marintimidades.blogspot.com

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ANA MARIA LOPES

Anteriormente, teria havido umas barcas de rio acima, idênticas, quantas vezes abicadas à proa e a ré, de vela tosca de pendão que aproveitavam a brisa matinal do rio e a corrente, para subirem e a brisa da tarde para descerem, trazendo outras mercancias de lá para cá, necessárias, como madeirame, vinhos, e produtos diversos artesanais para feiras.

Figura 1. Barcas de rio acima de vela de pendão

Nos rios Vouga, Águeda e Cértima, são referidas nas Memórias Paroquiais escritas pelo prior de Águeda, em1758, umas barcas semelhantes, que transportavam rios acima, mercadorias, sobretudo sal e peixe, também para o cais de Águeda e para os portos secos, locais para onde era distribuído o sal por outros pontos do país.

Figura 2. Barcas em Águeda, em 1920

A estrada norte/sul mais próxima passava por Águeda, Mealhada e Albergaria. Rota do Sal Tendo sido, certamente, o sal, a primeira das mercadorias a ser carregada no mercantel, foi conhecido, neste transporte, sobretudo, por saleiro. O sal era retirado das marinhas e era levado para os armazéns do canal de S. Roque.

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Figura 3.Tirada de sal junto a marinha

Figura 4. Descarga do sal no Canal de S. Roque

Daí, primeiro para Águeda, depois para o Cais de Ovar (Ribeira de Ovar), onde o movimento era intenso e activo, não podia também de deixar de passar pelo esteiro de Estarreja.

Figura 5. Descarga do sal no esteiro de Estarreja

A rota do sal não podia praticamente separar-se da rota do peixe, porque a seguir ao sal, era o peixe o produto mais transportado. Vindo desde a Costa Nova, onde era lavado, salgado e vendido em palheirões à beira-ria, de S. Jacinto e da Torreira para Aveiro, daí seguia os destinos já designados.

Figura 6. Armazéns de venda de peixe, na Costa Nova

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ANA MARIA LOPES

Rota de passageiros O mercantel foi a barca, por excelência, de transporte de passageiros, a partir do século XV, entre os diversos centros urbanos, entre os quais não havia ligações terrestres. Inês Amorim, in Aveiro e sua Provedoria no século XVIII, refere um extenso número de locais onde havia barca da passagem – Serém, S. João de Loure, Lamas do Vouga, Pessegueiro do Vouga, Almiar, Óis, e Aguada, isto no interior dos rios. No litoral, para lá da carreira Ovar-Aveiro, refere Soza e Pedricosa. O último mercantel construído pelo Mestre Lavoura, em Pardilhó, para serviço, foi em 1973. Em 2001, o Mestre Esteves, também de Pardilhó, construiu o último mercantel tradicional, para exibição na Sala da Ria do Museu Marítimo de Ílhavo. De Aveiro para Ovar e vice-versa, havia carreiras diárias de mercantel, durante a noite, que eram das mais importantes, custando o preço da viagem Ovar-Aveiro, a quantia de 100 réis. Como a viagem era longa e pouco confortável, mesmo à chuva e ao frio, de Inverno, havia quem alugasse a proa, por um preço mais elevado, se ainda não estivesse reservada. Com irregularidades no cumprimento de horários e preços tão elevados, o Governador Civil de Aveiro (em 1854) chegou mesmo a intervir no assunto.

Figura 7. Algures, na ria, com passageiros

Com saída de Ovar, em 1843, havia diversos fretes de mercantel, com destino à Torreira, a S. Jacinto, a Aveiro, a Águeda e à Costa Nova, sendo este de ida e volta, com preços diversos, em estação alta e baixa, bem mais elevados que a barca da carreira.

Figura 8. Transporte lagunar, em Aveiro, século XIX

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Claro que a curta travessia, que nos meus tempos de rapariga me era mais familiar era a passage da Costa Nova para a Gafanha da Encarnação e respectivo regresso. Tendo frequentado a escola primária, à época (em 1951), na, então, 3ª classe, na Costa Nova, até o exame me obrigou a ir prestar provas à Gafanha da Maluca, de barca. Que satisfação! E com que saudade o recordo!

Figura 9. Costa Nova. A nova MOTA. 1941

Não quero concluir sem referir que os mercantéis chegaram a transportar passageiros reais: A rainha D. Maria II, aquando em visita ao norte do país, deslocou-se do Carregado (Ovar) a Aveiro, com o seu séquito, em cinco mercantéis, primorosamente decorados, em 23 de Maio de 1852. Foi também em mercantel feito bergantim real, que D. Manuel II, em 1908, em visita a Aveiro, se passeou, em visita à barra, conforme documentam as fotografias da época, in D. Manuel II e Aveiro, de Armando Tavares da Silva, publicado em 2007. O mercantel no carreto Se bem que ao falar do mercantel ao serviço do transporte de sal (saleiro), do peixe e de passageiros, sempre cargas, vamos acabar a missão do mercantel como «o burro de carga da ria», no carreto de tudo e de mais alguma coisa. Já desde 1693 – data em que por alvará régio concedido por D. Pedro II, começou a ter lugar todos os dias 13 de cada mês, a Feira da Vista-Alegre – vinha dos mais variados pontos da ria, mensalmente, uma imensidão de barcos alimentando com produtos transportados no seu bojo a intensa actividade das trocas que se faziam na referida feira, uma das mais importantes da região. Visitavam aquele sítio do canal do rio Boco, não só gentes das regiões vizinhas, como também, estranhos interessados na quantidade de produtos. Além do sal e do peixe, na «Feira dos Treze» havia uma grande diversidade de produtos: lenha, animais, tecidos, artigos de artesãos locais, tamancos, gabões, arados, que justificavam grande procura. A maioria destes produtos, usava os mercantéis, pelo canal do rio Boco, para seu transporte. Desde 1824, no mesmo local onde se realizava a feira, nasceu e foi implementada a Fábrica da Vista-Alegre.1 1 - Sobretudo, relativamente a este assunto foi consultado o livro de Senos da Fonseca, Ílhavo - Ensaio Monográfico Séc. X ao Séc. XX, pp. 215-216., Papiro Editora, Porto, 2007.

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ANA MARIA LOPES

Para os seus fornos eram trazidos toros com muita frequência, mas o caulino utilizado na produção da porcelana, vinha de Ovar, pela ria, sempre que a necessidade obrigasse. Os objectos de barro ovarense também se vendiam muito pela região, quer na feira dos 13, quer em outras situações.

Figura 10. Após 1824, descarga nas traseiras da Fábrica da VA

Vinhos, trigo, cereais, ervagens, gado, materiais artesanais, tudo, os mercantéis transportavam, em rotas lagunares. Na Gafanha da Nazaré, o carregador lagunar servia para tudo. Além de transportar madeiras e operários para os estaleiros, transportava bacalhau de navios mais afastados para o cais, junto às secas, junco, lamas para as marinhas, sacos de lona com as roupas dos tripulantes de navios de bacalhau. Vi, realmente visto, à chegada do n/ motor Novos Mares, depois de o ter ido receber e filmar à boca da barra, na campanha de 1964, atracarem a bombordo e a estibordo, dois mercantéis, para os quais eram descidos os tais sacos de lona que seriam distribuídos, muito mais rapidamente, pela Torreira, Bico da Murtosa, Bestida, Pardilhó, Válega, Ovar.

Figura 11. Gafanha da Nazaré – transportes diversos

Pedra para a construção do conhecido «triângulo» na entrada da barra, pelos anos 30 de século XX, de costado bem no fundo, lá a suportavam.

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Figura 12. Barra – Transporte de pedra para o triângulo

De Ançã e, sobretudo, de Eirol – pedra de Eirol, presente nas obras da barra, monumentos, muralha de Aveiro, Farol e quejandos, foi transportada por mercantel. A rota do moliço Para mim, falar do moliço, é falar do muito que já falei, limitando-me, por limitação de espaço, ao essencial.2 O primeiro moliço de que há notícia de ser apanhado, tão velho quanto a ria, é o arrolado, para enriquecimento das terras arenosas e para lhes ajudar a suster a água.

Figura 13. Apanha do arrolado

Entre os séculos XV e XVIII, já havia notícias de embarcações a apanhar moliço e altercações diversas entre lavradores. Um decreto de 2 de Julho de 1802, lançou um imposto de 40 réis destinado à fazenda real, aos barcos maiores carregados com moliço, e de 20 aos barcos menores.3 Nos meados/finais do século XVIII, teriam surgido os primeiros moliceiros, os moliceiros com forcada e tamanca. 2 - Lopes, Ana Maria, Moliceiros - A Memória da Ria, 2ª edição, Editora Âncora, Lisboa, 2012. 3 - Rezende, Pe João Vieira, Monografia da Gafanha, 2ª edição, Coimbra. 1944.

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ANA MARIA LOPES

A verdadeira rota do moliço ter-se-á definido de norte para o sul e sul para o norte, entre a zona da ponte da Varela e o Areão e, pela rota do rio Boco, até às ditas folsas do Boco. Evidenciaram-se os moliceiros do sul, mais toscos e apenas breados a negro, os matolas, mas que tinham boa convivência com os do norte, mais tarde de grande pujança ornamental e de elegantes formas.

Figura 14. Moliceiros do norte e do sul

A apanha do moliço salientou-se sobretudo na formação, a partir dos fins do século XVIII, princípios do XIX, das Gafanhas, com a transformação dos terrenos arenosos, em terrenos produtivos, de grande cultivo. Situação idêntica, mais tarde aconteceu, com a fertilização dos terrenos das Quintas do Norte.

Figura 15. Moliço para adubo dos terrenos

A rota do junco A questão do junco não era propriamente uma rota, pois era apanhado para uso local, pelos lavradores-proprietários. Deveria ter sido tanto, tanto, mas tanto, gasto, que nem fazemos ideia. Um mar de junco – para as casas, cozinhas exteriores, currais, camas de gado, para as ruas (procissões), etc. Na entrada de Ílhavo, do lado poente, a ponte Juncalancho (1894) faz-nos lembrar a existência de um grande juncal.

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Figura 16. Na zona lagunar norte

17. Duas barcadas de junco, junto à EPA, na Gafanha da Nazaré. 1960

A rota do crico Desde sempre, desde que a barra é barra (1808) se apanhou berbigão, vulgo crico em bateirões pelos lados da Torreira e, especialmente em bateira própria para tal nas cales mais fundas da ria, frente à zona da casa-abrigo, da pousada da Ria e, da Costa Nova, ali por alturas onde é a ponte da Barra. Usavam-se as ditas bateiras berbigoeiras, dotadas de cabritas (ou dragas) e tábuas de varear, que, mais tarde, com borda, com cinta e draga, passaram a chamar-se de mercantelas.

Figura 18. Ao crico, em bateira berbigoeira

Créditos Fotográficos: Ana Maria Lopes - 14, 15, 16, 17 Arquivo João Telles - 6, 9, 10 Foto Guedes - 18 Google - 1, 2, 7, 8, 12 Postais - 3, 4, 5, 11, 13

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ANDREIA TAVARES

CARNAVAL DE ESTARREJA: 1930 A 1974 Andreia Tavares*

Introdução Após pujança alcançada nas primeiras décadas do século XX, com o culminar nos grandes desfiles das Batalhas das Flores de 1928 e 1929, o Carnaval de Estarreja esmorece nas décadas seguintes. Este texto pretende retomar a história do entrudo estarrejense versada na Revista Terras do Antuã de 2015, e ir seguindo paulatinamente até à atualidade. Como a ausência de história, também é uma história em si mesma, vamos centrar a análise das décadas de 30, 40, 50 até à ressurreição do Carnaval na década de 60. O Estado Novo, a II Grande Guerra Mundial e a Primavera Marcelista1, influenciaram grandemente a história do entrudo no concelho, com o recato e a decência a ofuscarem a crítica social permitida nos primeiros anos da República. A viagem deste texto termina no rescaldo da Revolução de Abril, que em 1975 fez cancelar os festejos carnavalescos, veio a ser retomado em 1977, para nunca mais sofrer qualquer interrupção até à atualidade. 1.1 - O finar do Carnaval Os finais dos anos 20 são também os finais das grandes festas das Batalhas das Flores. Logo em 1931 o “Concelho de Estarreja” dá nota que “passa insipido e sem manifestações ruidosas o Carnaval de 1931. A situação penosa porque passam todas as classes não é de molde a imprimir ao folião de antigas eras aquele entusiasmo que o caracterizava”. A crise económica que assolava o país, e o mundo que vivia no rescaldo da grande depressão, *Jornalista e Solicitadora. Autora do livro “Bombeiros Voluntários de Estarreja – 90 Anos” 1 - Estado Novo - 1937 a 1945, II Guerra Mundial - 1939 a 1945 e Primavera Marcelista - 1968 a 1974

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a entrada de António de Oliveira Salazar à frente dos destinos da nação, levaram ao refreamento das manifestações carnavalescas um pouco por todo o país. Em 1935 os jornais publicavam mesmo que o entrudo estava “esmorecido” e estávamos perante um carnaval “sem piadas”, recordando com saudades dos grandes anos de 1928 e 1929. O jornal O Concelho de Estarreja de 2 de Março de 1935 reflete isso mesmo: “Vai a caminho do seu desaparecimento o folião de outras eras. Quiseram civilizá-lo, e nessa civilização conferir-lhe direitos a todos os excessos e a todas as sensaborias, e por isso o Carnaval, vazio de interesse e de aproveitamento, vai ficando velho e até a sua lembrança se vai apagando sem deixar vestígios, onde os vindouros lhe possam encontrar ao menos o nome. (…)Vai a ficar-se o Carnaval que passa! Que a terra lhe seja leve”.

In “O Concelho de Estarreja” de 6 de Fevereiro de 1932

In “O Concelho de Estarreja” de 18 de Fevereiro de 1932

Mas nem toda a folia carnavalesca se desvaneceu na década de trinta. Embora sem registo oficial, o povo continuava a “gozar” o carnaval. Até nós chegou um acidente envolvendo bombas de carnaval, que obrigou um habitante de Salreu a ser internado nos Hospitais de Coimbra. A tradição estava esmorecida, mas não totalmente desenraizada.

In “O Concelho de Estarreja” de 22 de Fevereiro de 1936

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ANDREIA TAVARES

Em plena II Guerra Mundial a comemoração do Carnaval não fazia parte da rotina dos estarrejenses, considerado mesmo uma época de “tragédia, de luto, de terror”. O texto publicado no Concelho de Estarreja de 6 de Março de 1943 é o espelho de uma sociedade que apesar de não se ter envolvido diretamente no conflito armado, não fica indiferente à tragédia bélica que se vivia pelo mundo: “Temos no Carnaval de 1943 esta representação impressionante: os homens disfarçados de feras, a aniquilaremse tão raivosamente, que perguntamos a nós mesmos se não serão antes as feras disfarçadas de homens, cevando em quadro continentes a sua ferocidade inaudita. (…) E o sangue corre sem fim, como parece não ter fim esta chacina medonha. Carnaval de tragédia, de luto e de terror, este de 1943”. Embora as manifestações populares continuassem a ser diminutas, nos finais dos anos 40 e início da década de 50 retomam-se os bailes de carnaval, com grande expressão em Pardilhó onde as melhores fantasias eram premiadas.

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In “O Concelho de Estarreja” de 10 de Fevereiro de 1951


TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

Bailes de Carnaval em Pardilhó - década de 60

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ANDREIA TAVARES

1.2 - A viragem dos anos 60 A década de 60 foi sinónimo de ressurreição do Carnaval de Estarreja como forma de dinamismo social e de encontro de massas. A 10 de Agosto de 1960, Manuel Lopes Rodrigues incentivava a mocidade do concelho a unir-se e a fazer renascer a tradição perdida nos anos 20: “(…) é de lembrar que já em tempos idos Estarreja sabia divertir-se por esta quadra, sendo famosos, em todo o distrito, os seus bailes, que primavam pela alegria e pela distinção, como foram de enorme sucesso as batalhas das flores aqui efetuadas e que ainda hoje por muito são recordadas com saudades. O ano passado, de maneira leve e fortuita e, este ano, com mais entusiasmo e maior convicção, se pensou e foi-se dizendo de conversa em conversa, da possibilidade de se organizarem e efetuarem na nossa vila, os folguedos carnavalescos. (…) A assistência do povo às folias carnavalescas é sempre certa, pois a todos, mesmos os rebeldemente sorumbáticos, sabe bem uma dose de bom humor e a todos agrada divertirem-se um pouco, ou contentarem-se a ver divertirem-se os outros (…). Como iniciação, mais que cortejos de luxo e feérie, um Carnaval de Estarreja – que como poucas terras possui local magnífico para um bom corso – deve primar-se para que seja um desfile de alegria, vibrante de mocidade, de exteriorização, de contentamento, em que o prazer se satisfaça a si próprio e o riso se faça rir a si mesmo”. O repto só seria concretizado em 1968. Estarreja volta a ter nas ruas um cortejo de grandes dimensões, promovido por gentes da terra, ligadas à família Figueira e à família Baião. A 16 de Fevereiro de 1968 o Concelho de Estarreja fazia o apelo para que toda a população abraçasse a ideia do desfile do entrudo e que todos marcassem presença. E a população aceitou o repto. Milhares de foliões estiveram nas ruas do centro da então vila para ver e participar no corso carnavalesco. O Concelho de Estarreja diz que “houve multidão na praça, música, alegria; entusiasmo por dentro e por fora das máscaras. Houve sol e cor e um desfile com graças e atrasos bastantes. E, nalguns aspetos, adiantando-se ao trivial”. O cartaz foi da autoria do artista local Jorge Bandeira, que promoveu a iniciativa, sendo que contas feitas os custos de 1968 rondaram os 17 contos (cerca de 85 euros), que em apoios a organização apenas conseguiu arrecadar 12 contos (cerca de 60 euros). O restante valor foi conseguido com a organização de festas e bailes populares. Certo é que a ideia vingou, e foram rasgados os elogios alcançados, como se podem ler nos jornais concelhios.

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TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

In “O Concelho de Estarreja de Fevereiro” de 1968

Em 1969 o sucesso veio a repetir-se. A autarquia estarrejense, apesar de ter aprovado por unanimidade não atribuir subsídio de apoio à iniciativa, autorizou o corte do trânsito automóvel, bem como a instalação de uma aparelhagem sonora para a promoção do evento.

Ata da reunião de camara de 7 de Janeiro de 1969

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ANDREIA TAVARES

O programa de 1969 conjuga o desfile diurno com marchas luminosas e com bailes populares. Programa de 1969 Dia 9 de Fev. à tarde – Cortejo a assinalar a chegada do Rei Carnaval Dia 13 às 21h – Marcha Luminosa Dia 16 às 15h – Grande Corso Carnavalesco Dia 16 às 22h – Grande Baile Popular no armazém do Grémio da Lavoura, animado por duas maravilhosas Orquestras Pop Dia 18 às 15h – Repetição do Corso Carnavalesco Dia 18 às 22h – Segundo Grande Baile Popular Os ecos da festa fizeram sentir por toda a região, com o sentimento de que se lançavam sementes o enraizar de uma tradição na região. O Concelho de Estarreja de 1 de Março de 1969 relatava assim o dia: “Muita gente em todo o concelho e forasteiros acudiram a Estarreja para viver ou apreciar o seu carnaval que este ano se realizou em molde de fazer esperar uma renovação prometedora e progressiva, até que possa, definitivamente, fazer dele um pregão da nossa terra. (…) Nos desfiles do Corso houve sempre muita animação, alegria esfusiante e entusiasmos em grande, tudo envolvido em serpentinas e papelinhos, em iluminação e em música. Mas houve igualmente graça, houve chiste, doses de sal e pimenta, algumas piadas bem achadas. Enfim, houve espirito de folia”. O mesmo espirito de alegria aconteceu até 1974. Os grupos passaram a ter um apoio monetário por elemento, que rondava os 750 escudos (pouco mais de 3,5 euros), e um apoio de mil escudos para o carro alegórico (cerca de 5 euros), sendo, no entanto, obrigatória inscrição prévia. A chegada do rei, que então subia a Avenida Visconde de Salreu, da estação em direção ao centro da vila, era um acontecimento marcante e repleto de animação. “Bonacheirão veio proclamar ao povo o estado de sítio nos domínios da risota. Desembarcou (quem haveria de dizer!) dentro do horário num cambalhotas especial. Era acompanhado de alegre e numerosa comitiva, ruidosa e foliona, trajando a rigor segundo a praxe, usos e costumes da corte e do corte. Abria o soberano cortejo um velho abre-latas ferrugento, de apito na boca para evitar invasões fora do tempo e do lugar. Em segundo lugar ia o rei destronado a sete passo do comandante do real exército da tropa fundanga. (…) No cortejo folgazão luziam as fanfarronas, as bandas, os pendões e coisas de mais grã luzimento. Os dísticos escritos em vernáculo apontavam acertadamente coisas e loisas, larachando com seriedade. A real proclamação foi transmitida em bilingue para que ninguém possa alegar ignorância de que o Carnaval chegou efetivamente e aqui foi implantado, com mor solenidade, impondo que não acha ninguém sério… durante o seu curto reinado”. Em 1970 a comissão organizadora do entrudo era composto por: Álvaro Valente da Silva, António Vítor Costa Oliveira, Fernando Almeida Bastos, João Marques da Costa, José Martins da Silva e Manuel Marques Figueira. Coube a Martins da Silva, saudoso diretor do jornal O

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Concelho de Estarreja, e um acérrimo defensor do Carnaval de Estarreja, a elaboração dos cartazes que trouxeram o brilho ao entrudo. Em 1974 os carros alegóricos integravam o curso de forma autónoma, representando grupos de amigos, casas comerciais ou coletividades. Nesse ano desfilaram participaram no desfile: Corpo Ativo (Bombeiros) – que nos primeiros anos da década de 70 tiveram um papel relevante na organização do entrudo estarrejense – Corsários do Corso (Agro), Vem aí o Circo (Veiros), Mariposas (Murtosa), Circo (Outeiro da Marinha), Campesinos (Barreiro de Cima), Desporto (CD Estarreja), Trabalho (Serração Ideal), Recordando o passado (Póvoa), Antiga Comissão e Carro Real. Desfilaram ainda os grupos: Os Terríveis (Riamar), As Serpentinas (Barreiro de Cima), Gato e Rato (D.ª Albertina Valente), Os Penachos (M.ª Teresa Gaspar), Os Saloios (D.ª Vera Marques), Os Tangas (Pardilhó), a designar (Outeiro da Marinha). Nos meses quentes de 1975, em pleno PREC, o Carnaval de Estarreja não saiu para a rua, a organização cancelou os desfiles. In “O Concelho de Estarreja” de 1 de Fevereiro de 1975

Galeria de imagens dos desfiles entre 1968 e 19742

2 - Imagens cedidas pela família Baião, Marques e Figueira, bem como de outras pessoas anónimas, para a exposição realizada pela Associação do Carnaval de Estarreja em 2008

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RANCHO FOLCLÓRICO DE VEIROS AS PRIMEIRAS DANÇAS: 1939 – 1947 António Augusto Silva* Admitimos que a existência deste Grupo Folclórico está inteiramente ligado à Exposição do Mundo Português de 1940, que celebrava o duplo centenário da Fundação e da Restauração de Portugal (1140 e 1640), que foi uma clara manifestação afirmação do Estado Novo e que serviu, além disso, para reformar e revitalizar uma faixa ribeirinha de Lisboa. Em Março de 1938 é apresentada a ideia e o programa do que iria acontecer entre Junho e Dezembro de 1940 – com algumas actividades em todo o País mas com especial ênfase na Capital, onde tudo se concentrava. E como podemos ligar esta Exposição à fundação do Rancho? Ora, na Câmara Municipal de Estarreja, o Sr. João Carlos Assis Pereira de Melo – filho ilustre de Veiros – era chefe da Secretaria desde 1925, mas tendo entrado nesses serviços em 1910, pelo que tudo passaria pelas suas mãos. E por isso as circulares/orientações do Governo sobre o interesse da Exposição não lhe seriam alheias e daí a ideia de criar um Rancho que, tendo o nome de Estarreja, poderia representar todo o Concelho nas comemorações. E assim tornava-se mais fácil convencer o Executivo da Câmara Municipal a custear as despesas. Escolheu na sua terra os elementos que achava necessários para esse objectivo; de Estarreja trouxe o músico Luis Calado, filho do distinto maestro Pedro Calado, para a direcção musical. A sua casa de Veiros era o local de ensaio. Por algumas notícias lidas na Imprensa somos levados a admitir que o nome oficial seria Grupo Folclórico de Estarreja, ou até Rancho Regional de Estarreja, mas era de Veiros a sua essência – humana e musical … e daí o nome Rancho Folclórico de Veiros.

Imagem 1 - Diário de Notícias 23/04/1939 * Investigador e Autodidata sobre a história de Estarreja e Murtosa

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Não conhecemos a verdadeira data de constituição do agrupamento mas a primeira notícia a que temos acesso é da sua participação no Cortejo Folclórico, Etnográfico e do Trabalho de Aveiro, que teve lugar a 23 de Abril de 1939, no decurso da Feira de Março. Todos os jornais regionais, e até alguns Nacionais de nomeada, fizeram boas referências a este desfile e em particular ao Grupo de Estarreja, que tendo perto de 100 componentes, assentava em parte no Grupo de Veiros. A própria Câmara Municipal, em reunião de 17/4/1939 encarregou o seu Chefe de Secretaria (João Carlos Assis Pereira de Melo) a organizar a ida a Aveiro … O tema que este grupo apresentou e desenvolveu foi “Estarreja Terra de Pão”, e para além dos integrantes do Rancho havia ainda um carro alegórico à lavoura, vindo de Salreu em que se recriava uma casa de lavrador à antiga Portuguesa e as actividades agrícolas inerentes; nesta coreografia colaborou activamente Júlio Marques Figueira Vidal, de Salreu, também funcionário da CME. Ora esta apresentação poderá ter sido um ensaio para o que viria a acontecer no ano seguinte. Outro momento importante do Rancho foi a gravação de músicas suas feitas pelo ilustre musicólogo Armando Leça que, no âmbito das diversas vertentes da Exposição, foi incumbido de um levantamento musical nacional, intitulado “Recolha Folclórica”, que o levou a gravar em todo o País mais de 400 registos sonoros que felizmente não se perderam. A gravação do nosso grupo teve lugar no dia 3 de Março de 1940, nos jardins do Hospital Visconde de Salreu, e foi noticiada pelo “Jornal de Estarreja” na sua edição de 7 de Março, e onde para a posteridade ficaram registados os 4 temas escolhidos: Moda Nova, Real das Canas, Vira Marcado e Vilôa, que a Emissora Nacional preservou e graças a um recente trabalho académico poderá estar brevemente à disposição de todos os amantes do Folclore1. Neste dia (e pela leitura do mesmo Jornal) ficamos a saber o nome dos 34 integrantes, que podemos considerar “fundadores” do Rancho:

Imagem 2 - alguns elementos do grupo (acervo do autor do texto) 1 - Armando Leça e a Música Portuguesa 1910-1940, Dr.ª Maria do Rosário Pestana, 2012

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ANTÓNIO AUGUSTO SILVA

Tocadores: Henrique Fernandes da Fonseca Alípio Henriques Lauro Fernandes da Fonseca João Valentim dos Santos Alfredo Nunes Lino da Silva Homem Júlio Correia António Augusto Ruela Pares dançantes: Celeste Ferreira Pinto da Fonseca Ilda da Fonseca Vaz Pereira Silvina Marques Ana Ferreira Emília Ferreira Leopoldina Garganta Ermelinda Henriques Rosa Teixeira Albina Traqueia Albina Marques Amélia Santeira Maria Emília de Oliveira Manuel Vaz António Germano da Silva Homem José Carvalho Júlio Fernandes da Fonseca Manuel Teixeira Joaquim Lázaro José Carlos Ferreira Pinto Raúl Ferreira Pinto Reinaldo Pereira Salvador Soares da Silva António Pinho Manuel Marques Traqueia Maria Emília de Oliveira – cantadeira Joaquim Carvalho – cantador O referido musicólogo Armando Leça, numa publicação posterior sobre a nossa Música Popular refere que as 3 primeiras melodias/danças são comuns às zonas ribeirinhas compreendidas entre a Barrinha de Esmoriz e Buarcos, enquanto que define a “Vilôa” como sendo de Veiros2. Logo a seguir a esta gravação, no dia 31 de Março, o Grupo desfila novamente na Feira de Março e no mês de Junho desloca-se a Coimbra para participar num Cortejo Regional, também no âmbito das Comemorações. 2 - Musica Popular Portuguesa, Armando Leça

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A ida à Exposição de Lisboa estava marcada para Outubro; foi para o efeito organizada uma “excursão” em comboio especial (regional?), para a qual a Câmara ofereceu bilhetes pelas Paróquias para que os distribuíssem entre os interessados. A viagem teve lugar no dia 19 desse mês, e o desfile aconteceu na tarde desse mesmo dia na Praça do Império; entretanto nessa noite e no dia seguinte (domingo) novas actuações dentro do espaço, como se vê pela publicidade colocada na Imprensa.

Imagem 3 - num desfile em Lisboa (acervo do autor do texto)

Este foi, sem dúvida, o momento mais mediático da vida do Rancho, e porque não destes humildes participantes Veirenses; no entanto sou da opinião que o mais importante será o da gravação das melodias, porque delas temos hoje registo e por isso fazem parte da história do Folclore Nacional.

Imagem 4 - Diário de Lisboa 19/10/1940

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Da leitura dos jornais locais, por vezes importante (ou até única) fonte de estudo e investigação, pouco ou quase nada sabemos dos anos seguintes. A última notícia que conhecemos é da participação do Rancho no Cortejo dos Municípios do Império, integrado nas Festas da Cidade de Lisboa que comemoravam o VIII centenário da tomada de Lisboa aos Mouros. O desfile aconteceu no dia 1 de Junho de 1947, e nele participaram 28 grupos folclóricos que tiveram de percorrer o extenso percurso que vai do Campo Pequeno à Praça do Comércio... e sempre a dançar!! O “Jornal de Estarreja” de 10 de Junho seguinte dá-nos nota do agrado geral e alta classificação que teve o “Rancho Folclórico de Veiros” nesse desfile. Terá acabado aqui a vida do Rancho? É provável. Hoje Veiros tem um sucessor desse agrupamento; felizmente por todo o Concelho existem grupos que vão lutando por preservar e divulgar as nossas músicas, as danças, os trajes e mais costumes que se integram no Folclore. A este Rancho de Veiros reconhecemos o papel pioneiro que teve. BEM HAJAM!

Imagem 5 - Acervo Familiar de D. Maria Vaz de Oliveira (do Germano)

Imagem 6 - Postal editado pela Câmara Municipal de Estarreja (acervo do autor do texto)

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TRABALHOS ARQUEOLÓGICOS DE 2016 NO CRASTO DE SALREU, ESTARREJA. BREVE NOTÍCIA António Manuel S. P. Silva*, Gabriel R. Pereira** Paulo A. P. Lemos*** e Sara Almeida e Silva****

[Fig. 1] Localização do sítio arqueológico. Base cartográfica: Excerto da Carta Militar de Portugal, folhas nº 163 e 164. Escala 1.25 000 (reduzida).

O interesse arqueológico do Crasto de Salreu (Fig. 1) foi apontado por diversos estudiosos ao longo do século passado, mas só a partir da década de 1990 se reuniram elementos mais seguros para definitivamente situar ali o assento de um povoado indígena da Idade do Ferro, quer pela identificação de restos cerâmicos típicos dessa época, quer por uma mais cuidada observação de alguns indícios topográficos próprios dos castros pré-romanos, como é o caso dos fossos ou dos taludes e plataformas (Figs. 2 e 3) correspondentes às estruturas de delimitação e defesa desses aglomerados (Silva 1994; 2002)1.

* Centro de Arqueologia de Arouca. CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória (Universidade do Porto) amspsilva@hotmail.com ** Centro de Arqueologia de Arouca. CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória (Universidade do Porto). pereira.gr@gmail.com *** Centro de Arqueologia de Arouca. paplemos@gmail.com **** Centro de Arqueologia de Arouca. saralmeidasilva@gmail.com 1 - Em trabalho publicado no número 6 desta mesma revista (Silva; Pereira; Lemos 2012) elencámos já a historiografia do sítio arqueológico, pelo que nos dispensámos de repetir as respetivas referências.

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[Fig. 2 e 3] Esquema e perfis topográficos da organização da área ocupada do castro de Salreu.

Desta forma, aquele sítio arqueológico assumiu-se como um dos elementos nucleares da rede de povoamento regional no primeiro milénio antes de Cristo, muito embora haja indícios de outros povoados congéneres bem próximos (como é o caso de Santiais, em Beduído), sendo ainda provável a existência de outros castros no território do município de Estarreja, cujo reconhecimento aguarda por prospeções e estudos devidamente orientados. No ano de 2011 o Centro de Arqueologia de Arouca – associação de investigação e defesa do património que desenvolve atividade na região do Entre Douro e Vouga – lançou um projeto de investigação arqueológica designado pela sigla PROBA – Proto-história da Bacia do Antuã, devidamente aprovado pela entidade oficial de tutela, no âmbito do qual foi possível levar a cabo a primeira campanha de trabalhos no Castro de Salreu, cujos resultados foram tornados públicos em número anterior da Terras de Antuã (Silva; Pereira; Lemos 2012) e comentados também em sínteses ou perspetivas diversas (Silva; Pereira 2011; Silva et. al. 2016), pelo que as breves alusões que lhes faremos nesta notícia servirão apenas para enquadramento ou comparação com os dados da intervenção de 2016, uma vez que, por circunstâncias diversas, só no corrente ano foi possível retomar a intervenção arqueológica naquela estação. Salreu, Ovil e o povoamento proto-histórico no Entre-Douro e Vouga litoral Ultrapassa as quatro dezenas o número de povoados proto-históricos registados na plataforma litoral situada Entre-Os-Rios Douro e Vouga (Fig. 4), mas são poucos os devidamente estudados e publicados. Alguns, reconhecidos por achados ou trabalhos antigos, como os castros da Madalena (V. N. Gaia) ou Sandiães (Vale de Cambra) suscitaram apenas breves apontamentos informativos; outros, apesar de trabalhos mais extensivos, nunca chegaram a ser integralmente publicados, como por exemplo os povoados de Fiães (Feira), Monte Murado e Baiza (Gaia), Ul (Oliveira de Azeméis) ou o Cabeço do Vouga (Águeda). Por fim, alguns povoados escavados nas últimas décadas encontram-se ainda em processo de estudo e publicação, como é o caso dos castros de

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Ovil (Espinho), Valinhas e Cividade (Arouca) Castelo de Gaia ou Romariz, na Feira (cfr. Silva 1993; 1994; 2005; Silva; Pereira 2010 e Silva et al. 2016 para referências).

[Fig. 4] Povoados proto-históricos do Entre Douro e Vouga, identificando-se os mais litorais (reproduzido de Silva; Pereira 2010).

Assim, apesar de sínteses como estas últimas terem já esboçado a panorâmica possível da proto-história regional, esta área carece de novas intervenções, com metodologia científica atualizada, que relancem os estudos sobre a Idade do Ferro e nomeadamente sobre a génese e desenvolvimento das sociedades castrejas e as dinâmicas sociais, económicas e simbólicas que configuraram o território que os invasores romanos viriam a encontrar nos últimos séculos do milénio antes da nossa era. Nesta linha se inserem os trabalhos iniciados em 2011 e retomados em 2016 no Castro de Salreu, a par de intervenções que no âmbito do mesmo projeto de investigação têm tido lugar no povoado de São Julião, Albergaria-a-Velha, desde 2014 (Silva 2014; Silva et al. 2015) e bem assim no Castro de Ul (Silva et al. 2016). As duas campanhas efetuadas em Salreu não permitiram ainda, pela duração e meios envolvidos e também pelo estado de conservação do sítio, formar uma imagem muito nítida da área de ocupação do povoado ou da distribuição ou tipologia das suas construções domésticas, mas julgamos encontrar um paralelo bastante similar no castro de Ovil, em Espinho, este com uma área escavada bastante significativa e uma melhor preservação das estruturas arqueológicas. O castro de Ovil (Fig. 5) foi identificado em 1981, na esteira de algumas referências documentais antigas, e objeto de sondagens arqueológicas desde esse ano até 1983 (Ferreira; Silva, 1981a, 1981b;

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1982; 1983-83). Os trabalhos viriam a ser retomados em 1992, decorrendo em campanhas anuais até 2001 (Salvador; Silva 2000; 2004; 2010; Silva; Salvador 2008), o que permitiu pôr a descoberto e estudar uma superfície bastante representativa (1 800 m2) da mancha ocupada do povoado. Importa observar que para estes resultados muito contribuíram a aquisição dos terrenos da estação arqueológica pela C. M. Espinho (1986), a classificação do sítio como Imóvel de Valor Concelhio (1990) e a criação de um gabinete municipal de arqueologia (1992), o que proporcionou condições para o desenvolvimento de um projeto de investigação estável e sustentado, aguardando-se ainda outras ações de valorização previstas (Salvador; Silva; Sárria 2005a; 2005b).

[Fig. 5] Vista aérea do Castro do Ovil, Paramos, Espinho (foto: C. M. Espinho).

Constituem similitudes entre os castros de Ovil e Salreu a situação litoral e o aproveitamento de uma curva ou meandro de linha de água para a implantação do povoado. Ovil dista apenas 2,4 km da linha costeira e Salreu, na atualidade cerca de 14 km, que provavelmente se reduziriam talvez a menos de três quilómetros se considerarmos a antiga foz do Antuã de há mais de dois mil anos, hoje interior ao cordão dunar litoral e à laguna formada muito posteriormente. Uma curva da ribeira de Rio Maior foi em Espinho utilizada para delimitação e defesa da aldeia castreja; enquanto em Salreu também um meandro do Antuã cumpriu estrategicamente a mesma função. Desta implantação em plataformas encaixadas em cursos fluviais, aliás comum em povoados desta época e aqui curiosamente com a mesma cota altimétrica (54 metros s.n.m.) resulta, em ambos os casos, a principal estrutura defensiva ou de delimitação, constituída pela escavação de profundos fossos a Nascente e a Poente, aparentemente prolongados até ao rio. Mais profundo e até duplo num dos troços em Ovil, o fosso é também ainda visível, se bem que mais assoreado, no Castro de Salreu, em ambos os casos fazendo daqueles aldeamentos uma espécie de península que apenas uma passagem mais estreita ligava aos terrenos planos que ainda hoje constituem o único acesso por terra àqueles sítios. E neste ponto, tratando-se das estruturas de delimitação e defesa, há que destacar uma dissemelhança topográfica fundamental entre os dois castros. Enquanto que em Ovil as construções se estendem desde o topo da colina pelas encostas em pendente relativamente suave, quebrado apenas por ligeiras plataformas assentes em muretes baixos; no castro de Salreu

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a mancha de ocupação distribuía-se por três plataformas altimétricas, a superior hoje em dia praticamente anulada pelo terrapleno da florestação, mas as restantes ainda bem marcadas por taludes que ultrapassam por vezes a dezena de metros de desnível. Assim, enquanto que em Salreu os fossos eram complementados pela função defensiva ou delimitadora dos taludes e estruturas pétreas que os mantinham; já no castro de Ovil não se encontrou nunca, mesmo no setor mais “aberto”, qualquer evidência de muralha ou muro defensivo2. No que respeita à arquitetura doméstica de ambos os povoados proto-históricos não podemos fazer qualquer análise comparativa pela óbvia diferença de progresso nos trabalhos realizados e estado de conservação das ruínas, pois se no castro de Ovil podem reconhecer-se as plantas de mais de duas dezenas de construções circulares (Fig. 6), em Salreu foi identificado pela primeira vez nesta campanha de 2016 um pequeno tramo de uma edificação curvilínea. Não obstante, por todas as semelhanças que registámos entre os dois sítios arqueológicos, a que poderemos acrescentar a aparente similaridade da maior parte da cerâmica e o paralelismo da cronologia da sua ocupação (em ambos os castros já atestada por datações de Carbono 14), estamos em crer que o aspeto original do povoado que podemos intuir numa visita às ruínas de Ovil servirá razoavelmente de ilustração do que seria a aldeia castreja de Salreu há mais de dois mil anos atrás.

[Fig. 6] Algumas das construções do Castro de Ovil (foto: C. M. Espinho).

O castro de Salreu: dúvidas e primeiras aproximações Como já tivemos ocasião de recordar (Silva; Pereira 2011; Silva; Pereira; Lemos 2012) a plena identificação deste sítio arqueológico e a avaliação estimada do seu estado de conservação não foi isenta de dificuldades, considerando a apreciável degradação dos solos em resultado da florestação, a raridade dos materiais de superfície e o caráter algo vago das referências até então publicadas, gerando-se até alguma tensão social quando o traçado de um projeto rodoviário ameaçou seriamente o povoado castrejo (Silva 2002).

2 - Na verdade, não pôde ainda ser averiguado se os fossos deste castro se ligavam a Norte, o que a confirmar-se suporia a existência de um pontão suspenso ou amovível como acesso principal ao povoado.

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Deste modo, a oportunidade de realizar as primeiras sondagens arqueológicas no local, em 2011, constituiu essencialmente uma avaliação do estado de conservação e potencial daquele arqueossítio, podendo essa primeira aproximação mais aprofundada produzir conclusões mais ou menos fiáveis ou levantar questões que reorientassem a agenda da investigação. Tendo sido os resultados dessa breve intervenção já detalhadamente divulgados (Silva; Pereira; Lemos 2012), limitar-nos-emos agora a sintetizar os principais dados e questões que a escavação suscitou, acrescentando um ou outro elemento decorrente de trabalhos posteriores. Na plataforma superior da colina, as sondagens de 2011 evidenciaram profunda destruição dos depósitos, decorrente da florestação e da erosão ligada à escassa possança estratigráfica. Não obstante a ausência de estruturas preservadas, o espólio cerâmico recolhido comprovou plenamente a ocupação desta “acrópole” na Idade do Ferro. Já na área de talude (setor A) as escavações permitiram a identificação de estruturas antigas, constituídas por restos de alinhamentos pétreos correspondentes a pelo menos duas fases distintas de construção, que deverão ter servido como muretes de delimitação e contenção da própria plataforma. No limite Sul da sondagem, situado no rebordo superior do talude e a quase três metros de profundidade, detetaram-se ainda restos de um pavimento de circulação em argila pisada, aparentemente coberto por um derrube de lascas de xisto, o que sugeriu a existência de ruínas de construções nas proximidades, como depois viria a confirmar-se. Muito embora fosse possível, a partir da observação do abundante espólio cerâmico, e algum lítico, recolhido estimar com relativa confiança o intervalo cronológico de utilização do povoado, sendo também evidente a ausência de objetos que atestassem o contacto com a cultura material romana, não deixamos de realizar uma datação por métodos radiométricos. Assim, após crivagem por flutuação das amostras de sedimento recolhidas e identificação das espécies antracológicas e carpológicas3, foi enviada ao Laboratório AMS-Direct (Seattle, EUA) uma amostra de sementes de leguminosas procedente de um depósito [UE 51] imediatamente sobre a rocha de base e que parece estar associado com a construção de duas das estruturas tipo murete na sondagem do setor A (Talude 2), que forneceu o seguinte resultado. Quadro I

3 - Trabalho realizado por Joana Leite e João Tereso no Laboratório do CIBIOS (Faculdade de Ciências da Universidade do Porto), a quem se agradece a boa colaboração.

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Obtida com base em sementes (o que encurta significativamente o erro resultante da vida útil da amostra, por comparação com um carvão de uma espécie arbórea, por exemplo) e feita com recurso ao processo de espectrometria de massa por acelerador (AMS) a análise produziu uma datação que após calibração podemos interpretar, com o mais fiável desvio-padrão de 2 sigma, como apontando para a 2ª metade do século IV-1ª metade do século III a.C., podendo porventura ser um pouco mais baixa (Quadro I), em qualquer dos casos perfeitamente consistente com a cronologia sugerida para o castro a partir da análise do espólio exumado, ou seja, uma ocupação entre os séculos IV e II a.C., não se observando qualquer evidência da romanização do local (Silva; Pereira; Lemos 2012; Silva et al 2016). A 2ª Campanha de Trabalhos Arqueológicos (2016) Os trabalhos arqueológicos realizados em 2016 decorreram entre 11 e 29 de julho, o que justifica a brevidade desta nota, atendendo a que não houve ainda tempo para processar e analisar devidamente os resultados obtidos. Desenvolvidos, à semelhança dos de 2011, com o apoio financeiro e logístico maioritário do Município de Estarreja, agora complementados com a colaboração da Junta de Freguesia de Salreu4, os trabalhos envolveram uma equipa superior a duas dezenas de pessoas, entre arqueólogos e voluntários, na sua maioria estudantes, metade dos quais naturais do concelho e outros tantos provenientes de outros pontos do País e até do Brasil5. A estratégia de abordagem privilegiou o rebordo da 2ª plataforma (setor A), junto ao talude onde em 2011 os restos de um piso e um derrube pétreo pareciam evidenciar a proximidade de construções; e a plataforma inferior (3ª e última), também aparentemente adequada à presença de habitações (Fig. 7).

[Fig. 7] Planta do Castro de Salreu com implantação das sondagens de 2011 e 2016 (levantamento: C. M. Estarreja/Multimapa).

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Na plataforma superior (setor A) o conhecimento da estratigrafia obtido na sondagem de 2011 permitiu a escavação mecânica, devidamente acompanhada pela equipa, até uma profundidade de cerca de um metro, uma vez que esses depósitos correspondem naquele ponto a um espesso aterro resultante do plantio de eucaliptal com máquinas. Após a remoção destes níveis deu-se início à escavação manual dos vários estratos até se atingir o substrato basal, verificando-se que a rocha natural, ali situada a uma profundidade aproximada entre os 1,20 e os 2,50 metros (Fig. 8), se achava intencionalmente cortada e nivelada no quadrante Nordeste da quadrícula escavada (Fig. 9), observando-se aí os restos de uma estrutura que podemos interpretar como pertencente a uma das construções do castro.

[Fig. 8] Campanha de 2016. Trabalhos de registo no setor A – Quadrados CD6-7, observando-se a profundidade do aterro e a estrutura castreja na parte inferior (foto: CAA).

Trata-se do alicerce de um murete de duas faces com uma espessura na ordem dos 0,40m, composto por blocos de xisto de pequeno e médio calibre. Apresenta uma extensão máxima de 1,03m, encontrando-se destruído a Sudeste, percebendo-se aí apenas três ou quatro blocos bastante desmantelados. De configuração levemente curvilínea, com orientação N-NO/S-SE, este alinhamento pétreo compreende três blocos adossados, tendo como único ligante um sedimento

4 - Impõe-se naturalmente agradecer o empenho do Município de Estarreja para que estes trabalhos fossem possíveis, gratidão que expressamos na pessoa do respetivo presidente, Dr. Diamantino Sabina, e do Vereador da Cultura, Dr. João Alegria e através deles aos diversos responsáveis dos serviços técnicos do Município que colaboraram em aspetos logísticos da campanha. Também à Junta de Freguesia de Salreu, através do seu presidente, Sr. Manuel Almeida, muito agradecemos o interesse e apoio prestado aos trabalhos. 5 - Cumpre-nos também registar uma nota de agradecimento aos proprietários dos terrenos onde decorreram as escavações, D. Angelina Oliveira, D. Maria de Fátima Figueiredo Saramago e Sr. Alberto Marques da Silva, todos de Salreu, pela paciência e colaboração com que amavelmente autorizaram os trabalhos nas suas propriedades.

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argiloso local, possuindo ainda duas ou três pedras da segunda fiada. A face interna é definida pelo diâmetro menor e pela aparente evidência de um nível de piso, feito sobre um paleosolo fossilizado do qual se recolheram amostras para posterior datação (Figs. 10 e 11). Na envolvente imediata desta estrutura, a S/SO, verificou-se que a rocha natural estava também intencionalmente cortada, tendo sido rematada por três lajes de xisto dispostas em cutelo, formando um pequeno canal de largura entre 23 e 30 cm, que poderia funcionar como canal de escoamento de águas (Fig. 9).

[Fig. 9] Setor A – Quadrados CD6-7. Corte Norte, vendo-se o piso [89] associado à construção castreja [76].

[Fig. 10] Setor A – Quadrados CD6-7.Vista superior do tramo de muro da construção proto-histórica (foto: CAA).

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[Fig.11] Setor A – Quadrados CD6-7. Plano final.

Confrontando os vestígios identificados em 2011, localizados a cerca de um metro para Norte, com as estruturas agora identificadas, poderemos estar perante a primeira evidência no castro de Salreu de uma cabana de planta curvilínea, típica dos aglomerados populacionais da Idade do Ferro no Norte de Portugal (Fig. 12). Sendo estes elementos ainda parcos para qualquer ensaio comparativo, naturalmente que as casas castrejas do castro de Ovil servem também de ilustração próxima e imediata para este género de habitações.

[Fig.12] Plano geral do Setor A, vendo-se a sondagem escavada em 2011 (encosta) e as duas abertas em 2016 na plataforma. A reconstituição da planta da construção, a tracejado, é meramente conjetural.

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A poucos metros a Oeste da área anterior, a escavação da sondagem 1 proporcionou resultados igualmente interessantes, embora de difícil interpretação. A escavação arqueológica revelou nesse ponto não só o aplanamento aparentemente intencional da rocha natural, mas também a existência de alguns entalhes e concavidades de configuração ortogonal que poderão ser entendidos como negativos para a implantação de estruturas em madeira. Alguns destes entalhes destinar-se-iam talvez a preparar a superfície da rocha para a implantação dessas construções, cujos alicerces encaixariam noutros dos entalhes identificados (Figs. 13 e 14). Não obstante, estes indícios carecem não só de confirmação pelo futuro alargamento da área escavada como também de uma análise cuidada no plano da geologia local6.

[Fig.13] Setor A. Uma fase dos trabalhos na Sondagem 1, [Fig.14] Setor A, sondagem 1. Grande plano dos entalhes (?) eventualmente relacionados com a implantação de vendo-se a rocha natural aplanada (foto: CAA). estruturas em madeira (foto: CAA).

Na última plataforma do castro (setor G), uma zona localizada entre os taludes 2 e 3, com vista privilegiada para o Antuã e onde parece não ter sido feito plantio mecânico de eucaliptos, foram escavadas quatro sondagens de quatro metros quadrados cada, na perspetiva de poder detetar-se vestígios da zona habitacional do povoado (Fig. 15). Essa hipótese não se confirmou, mas ainda assim a escavação forneceu informações de muito interesse. Com efeito, nas duas sondagens mais interiores (quadrículas O7 e O9), a rocha natural apareceu a uma profundidade máxima de cerca de um metro, não se revelando aparentemente qualquer elemento artificial para além de significativo número de fragmentos de louça castreja e outros objetos coevos. Já os quadrados Q6 e Q3, situados mais próximos do rebordo do talude, apresentaram uma possança estratigráfica superior, comparável à registada mais acima no setor A, tendo a quadrícula Q3 atingido uma profundidade de 2,40m, dos quais 1,20m correspondentes a níveis de acumulação natural e de aterro resultantes do plantio de espécies arbóreas. A partir dessa cota identificaram-se depósitos antigos, cujos materiais sugerem a efetiva ocupação da plataforma durante a Idade do Ferro. Desses depósitos, alguns deles com presença evidente de carvões, foram feitas recolhas de terra para futuras datações. 6 - Aproveitamos para agradecer ao Doutor Pedro Pimenta Simões (Universidade do Minho) a colaboração que vem dando ao projeto PROBA nos domínios da sua especialidade.

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[Fig. 15] Setor G. Um aspeto dos trabalhos na Plataforma 3, vendo-se ao fundo o Talude 3, já sobre o rio Antuã (foto: CAA).

Mais importante talvez, verificou-se aqui não só que, contrariamente às duas quadrículas próximas, o substrato rochoso se apresentava ligeiramente aplanado, como também a orientação dos depósitos inferiores não acompanha a orientação natural da encosta. Com efeito, as últimas camadas de terra apresentam-se horizontalizadas, sugerindo a possibilidade da existência de uma estrutura de delimitação, talvez um muro, no rebordo do talude. Esta hipótese deverá ser confirmada no próximo ano através do alargamento para Norte da área escavada.

[Fig. 16] Setor K. Vista das estruturas identificadas no talude aberto por um caminho (foto: CAA).

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Dado o estado de profunda perturbação dos sedimentos na parte superior do castro, em resultado das ações de florestação já referidas, não há grande utilidade em realizar aí novas escavações. Todavia, importa averiguar se a Sudeste, onde hoje se faz o acesso ao povoado e que deveria já corresponder, como dissemos, à entrada original, existia qualquer estrutura de delimitação, fosse muralha, talude ou mesmo a continuação do fosso. Com esse propósito foi implantada uma pequena sondagem nessa área (setor H), que todavia revelou pequena profundidade do solo e nenhuma evidência de ocupação antiga, devendo por isso ser realizados novos estudos para solucionar esta questão. Por fim, no âmbito dos trabalhos de reconhecimento e prospeção regularmente realizados no castro foi identificada uma estrutura antiga, associada a restos cerâmicos proto-históricos no talude de um caminho atual na vertente Oeste do povoado. Procedendo-se a uma ação de limpeza e registo desse corte estratigráfico observou-se uma concentração de elementos pétreos, maioritariamente em xisto, ao longo de uma extensão de aproximadamente quatro metros, sugerindo a presença de um muro construído em alvenaria seca de xisto, com orientação O-E, e faces voltadas para S-N (Fig. 16). Considerando que a construção está situada no rebordo do talude 2, coincidindo aliás no alinhamento com outros pequenos tramos de aparentes faces de muros identificados noutros pontos deste talude, tudo indica estarmos perante um troço da muralha ou estrutura de delimitação do povoado, o que augura bons resultados em próxima intervenção naquele ponto (Fig. 17).

[Fig.17] Setor K. Desenho do corte estratigráfico e reconstituição hipotética da estrutura murária original.

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Espólio recolhido O que habitualmente se designa por “espólio” de uma escavação, jargão arqueológico para referir o conjunto de restos de artefactos recolhidos durante a intervenção, nestes contextos maioritariamente constituído por fragmentos cerâmicos, foi na campanha de 2016 bastante diversificado e interessante, ultrapassando as duas mil unidades. A cerâmica continua a ser o elemento mais abundante, não obstante a recolha de alguns objetos líticos e metálicos. Embora o estudo dos materiais esteja ainda numa fase preliminar, podemos avançar para já com uma caracterização muito geral do espólio exumado. Os fragmentos cerâmicos inventariados correspondem na sua larga maioria (80%) a peças de cronologia proto-histórica, muito embora se identifiquem restos de louças modernas e contemporâneas, como louças vermelhas de Aveiro/Ovar, faianças ou materiais de construção, nos níveis superiores do terreno, correspondentes a aterros e trabalhos recentes. A cerâmica da Idade do Ferro não diverge muito da identificada em 2011, no que respeita às formas das vasilhas. Foram recolhidos 90 fragmentos de bordos, que correspondem sobretudo a formas comuns de potes e panelas (Fig. 18). Pela sua espessura é possível identificar ainda um conjunto de cerâmicas que seriam usadas como vasos de armazenamento. Alguns bordos de menores dimensões, incluindo um bordo decorado na sua superfície interna com círculos concêntricos, evidenciam também a presença de formas como taças ou pequenos copos. A presença de asas (16) entre o espólio recolhido revela também a existência de formas asadas, como por exemplo cântaros. Foram ainda recolhidos alguns fragmentos de fundos (23), sobretudo planos, que pelo seu estado de fragmentação não nos permitem outro tipo de conclusões.

[Fig. 18] Cerâmica proto-histórica. Conjunto de bordos de potes de pequena dimensão, com superfícies brunidas (em cima) ou com pastas mais depuradas, porventura provenientes de importações regionais ou de maior distância (foto: CAA).

A cerâmica do Castro de Salreu é sobretudo quartzo-micácea, tipicamente castreja, não obstante a presença de algumas cerâmicas cinzentas finas, de produção mais cuidada. Surgem também fragmentos com pastas algo distintas, de tonalidades mais claras ou cinzentas que sugerem a presença de produções oláricas de outras proveniências, faltando averiguar se essa circulação de louças se faria num quadro regional ou envolvendo origens mais distantes. Neste contexto, parecem ocorrer

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escassos fragmentos com pastas similares às das ânforas, o que a confirmar-se virá atestar de forma mais segura a articulação do castro de Salreu com rotas de distribuição de longa distância.

[Fig. 19] Cerâmica proto-histórica. Fragmentos decorados com matrizes circulares e outros motivos (foto: CAA).

As técnicas e motivos decorativos não diferem muito dos materiais identificados em 2011, se bem que agora apareçam em maior quantidade. Destacam-se as decorações através das técnicas de incisão, impressão, puncionamento e estampilhagem. São frequentes os padrões geométricos, os círculos concêntricos, os sulcos e caneluras, surgindo também decoração em relevo, com motivos em espinha (Figs. 19 e 20). Foi ainda recolhido um fragmento de cossoiro, comprovando mais uma vez a prática de fiação no povoado. Merece ainda menção a recolha de uma peça de jogo e de um conjunto de fragmentos de barro de construção, que seriam usados como pisos, rebocos, ou como ligantes de estruturas construídas em materiais perecíveis, não se tendo, contudo, identificado qualquer negativo desses materiais.

[Fig. 20] Cerâmica proto-histórica. Fragmentos decorados com motivos diversos (foto: CAA).

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Foram também reunidas algumas dezenas de objetos feitos em pedra, contando-se entre os mais significativos um pequeno “peso de rede” em quartzito com entalhes laterais paralelos e um outro peso, talvez de tear, talhado em xisto e com uma perfuração para suspensão (Fig. 21). A grande maioria dos líticos corresponde todavia a fragmentos de xisto com entalhes ou orifícios, cuja cronologia, finalidade ou mesmo caráter intencional não são, por agora, claros ou inteligíveis. Os restos metálicos identificados são raros e correspondem a pequenos fragmentos de escória de fundição e dois fragmentos em ferro, cujo estado de fragmentação não permite por ora avançar com mais interpretações. À semelhança do que sucedeu na campanha anterior, foram ainda recolhidas amostras de sedimentos nos depósitos considerados mais interessantes e melhor preservados, tendo em vista a sua flutuação e recolha de carvões e sementes para estudos antracológicos e carpológicos, mas também para datações radiocarbónicas.

[Fig. 21] Pequeno “peso de rede” com entalhes laterais, em quartzito, e um outro peso em xisto, com orifício para suspensão (foto: CAA).

Notas finais A campanha de sondagens arqueológicas de 2016 no Castro de Salreu foi extremamente proveitosa e permitiu ampliar significativamente o conhecimento do povoado obtido na primeira campanha (2011). Foi escavada uma superfície total de 54m², distribuídos pelo rebordo e plataforma do 2.º talude (setor A), plataforma inferior (setor G) e plataforma superior do povoado (Setor H), reconhecendo-se ainda importantes vestígios da muralha, registados e conservados para intervenção posterior (setor K). Na sequência dos resultados da campanha anterior, as observações agora efetuadas sugerem fortemente a presença de uma estrutura de delimitação petrificada coincidindo com o 2º e 3º taludes do povoado, porventura de uma espessura muito considerável em alguns pontos, a confirmarse a interpretação provisória do corte estratigráfico do setor K. Por outro lado, detetou-se pela primeira vez o alicerce de uma construção circular, provavelmente de caráter habitacional, podendo certamente existir outras nas proximidades, considerando que a grande profundidade dos depósitos na 2ª plataforma permite melhores condições de preservação das estruturas arqueológicas.

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No que respeita ao espólio arqueológico, e observando em conjunto as recolhas de 2011 e 2016, possuímos já um conjunto de artefactos que iluminam um pouco do que seria a vida e a economia do povoado castrejo. Esses materiais colocam em evidência a prática da atividade piscatória (três pesos de rede), algo que se justifica dada a proximidade ao rio Antuã; as atividades de fiação e tecelagem (com a presença do peso e cossoiros), a moagem (em 2011 havia sido recolhido o fragmento de um dormente de uma mó manual) e ainda o trabalho dos metais (com a presença de diversa escória de ferro e outros elementos já referidos). Os fragmentos cerâmicos ascendem a cerca de 5500 recolhas, no somatório das duas campanhas, volume bastante considerável. A presença de uma peça de jogo em cerâmica coloca em evidência uma atividade de lazer; mas, mais importante, deve sublinhar-se a presença, em ambas as campanhas, de materiais cerâmicos com características de importação meridional – a par das duas contas em pasta vítrea exumadas em 2011 – revelando os contactos exógenos já mantidos pelos habitantes da região. Desta forma a investigação arqueológica que vem sendo desenvolvida no Castro de Salreu, desde 2011 enquadrada no estudo de outros povoados da região no âmbito do Projeto PROBA (Silva et al. 2016), tem trazido à luz do dia informações de muito interesse para a compreensão do habitat e do povoamento proto-histórico do Entre Douro e Vouga, nomeadamente na sua face mais atlântica, sublinhando o desenvolvimento endógeno das comunidades num quadro de longa duração de relações continentais, meridionais e sobretudo atlânticas, aqui atestadas por cerâmicas, vidros de adorno e outros itens de exceção (Silva; Pereira 2010). Assim, a prossecução da investigação arqueológica sobre este arqueossítio do concelho de Estarreja certamente virá enriquecer cada vez mais o conhecimento do passado regional e das raízes mais remotas das gentes de Salreu, sublinhando assim o papel da arqueologia no reforço dos laços identitários e na promoção de valores culturais e patrimoniais, nomeadamente pela integração e formação de jovens locais e de outras proveniências (Fig. 22).

[Fig.22] Um aspeto de parte do grupo de jovens voluntários que participaram na campanha arqueológica (foto: CAA).

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DELFIM BISMARCK FERREIRA

A PEDRA DE ARMAS DA CASA DA FONTINHA, EM BEDUÍDO, ESTARREJA Delfim Bismarck Ferreira* Não fora um problema informático e, por volta de 2010, teríamos publicado o inventário das pedras de armas existentes no concelho de Estarreja. Esse trabalho, que estava já em fase de conclusão, apresentava um estudo pormenorizado sobre cada uma das mais de duas dezenas de pedras de armas que ainda se encontram espalhadas pela quase totalidade das freguesias que compõem este concelho. De entre elas, uma pertencia à extinta “Casa da Fontinha”, sita no lugar do Paço, em Beduído, Estarreja, outrora residência de uma importante e nobre família, que depois foi Escola Industrial de Estarreja e até 2015 sede da Cerciesta.

Alçado principal da “Casa da Fontinha”, em Beduído, Estarreja

* Historiador.

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Tímpano do frontão da fachada principal da “Casa da Fontinha”, onde se encontrava a pedra a de armas, encimada por uma escultura cerâmica da “Esperança”

Com a demolição da velha “Casa da Fontinha”, foi a pedra de armas apeada e colocada no logradouro da Casa da Cultura (antiga “Casa dos Morgados de Santo António da Praça”), sita na Praça Francisco Barbosa. Ai se manteve por longos anos, encostada, junto ao chão, à fachada principal da casa até que, por volta de 2010, foi devidamente limpa e restaurada por uma equipa do Centro de Conservação e Restauro da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa (Porto), e de novo exposta, agora em suporte de aço corten, no referido logradouro mas com a devida dignidade. Esta pedra de armas foi executada em calcário e remonta ao século XIX. A sua descrição heráldica é a seguinte: Escudo de fantasia, esquartelado: 1.º - Barbosa, de prata, com banda de azul carregada de três crescentes de ouro e ladeada de dois leões afrontados e trepantes de púrpura, armados e lampassados de vermelho; 2.º - Melo, de vermelho, com uma dobre-cruz de ouro, acompanhada de seis besantes de prata; bordadura de ouro; 3.º - Cunha, de ouro, com nove cunhas de azul, postas 3, 3 e 3; bordadura de prata, carregada de nove escudetes de azul, cada qual carregado de cinco besantes do campo postos em aspa; 4.º - Couto, de vermelho, com um castelo de prata, lavrado de negro, aberto e iluminado sobre um contrachefe ondado de prata e de azul; Elmo de prata aberto. Timbre: o dos Barbosas, que é um do leão do escudo, sainte. Escudo assente numa cartela decorativa.

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Pedra de armas. Antes e depois do restauro

As armas que constam nesta pedra de armas, foram assumidas pelos irmãos: Dr. Pedro e Ten.-Cor. Joaquim Calisto Barbosa do Couto Cunha e Melo, já que o mais velho, Cónego Dr. Francisco utilizou um brasão ligeiramente diferente como veremos. Dos restantes irmãos, Dr. Manuel Bernardo e José Luís, não se conhecem utilizações destas armas. Eram filhos do Dr. Agostinho Luís Marques do Couto (Fontinha e Silva), advogado, natural de Pardilhó, bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, e de sua mulher D. Maria Clara Benedita Barbosa da Cunha e Melo, proprietária, natural de Ovar, Senhora do Morgadio de São Paio, em Vila Real. Netos paternos do Dr. Manuel Marques Fontinha e Silva e de sua mulher D. Maria Marques do Couto, de Pardilhó, e netos maternos do Cap. Francisco Barbosa da Cunha e Melo, capitão-mor de Ovar e cavaleiro da Ordem de Cristo, e de sua mulher D. Arcângela Josefa Michaela do Amaral, de Ovar.

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OS IRMÃOS DA FONTINHA I - Dr. Manuel Bernardo do Couto Cunha e Melo, nasceu a 26 de Setembro de 1793 em Beduído, Estarreja, onde foi baptizado pelo tio Padre Luís Manuel Marques do Couto, de Pardilhó, com licença do Reitor Domingos Barbosa Ferreira e Albuquerque, tendo por padrinhos: o tio paterno Salvador Marques do Couto, cónego da Sé de Braga, tocando por procuração ser irmão o Padre Bernardo Jose Marques do Couto, e o Dr. Pedro José Marques do Couto, desembargador da Relação de Braga, em nome de Nossa Senhora da Graça, de Ovar.1 Foi bacharel em direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, fidalgo da Casa Real e capitão da 1.ª Companhia de Voluntários de Vila Nova, liberal. Faleceu a 1 de Outubro de 1832 no Porto. II - Cónego Dr. Francisco Barbosa do Couto Cunha e Melo, nasceu a 4 de Fevereiro de 1795 em Beduído, Estarreja, onde foi baptizado pelo Reitor Domingos Barbosa Ferreira e Albuquerque, tendo por padrinhos: o tio paterno Padre Bernardo José Marques do Couto, cónego na Sé de Braga, tocando por procuração o Padre Joaquim José Marques do Couto, de Pardilhó, e D. Ana Maria Marques do Couto, de Pardilhó, em nome da qual tocou o Padre Luís Manuel Marques do Couto.2 Foi licenciado em Cânones, cónego na Sé e presidente do Tribunal Pontifício de Braga, cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, miguelista. Faleceu a 12 de Maio de 1871 na casa n.º 10, da Rua de Santo António das Travessas, na freguesia da Cividade, em Braga.3 III - Dr. Pedro Barbosa do Couto Cunha e Melo, nasceu em 1 de Abril de 1796 no lugar do Paço, em Beduído, Estarreja, onde foi baptizado pelo Padre Domingos Barbosa Ferreira e Albuquerque, tendo por padrinhos: o tio paterno Dr. Joaquim José Marques do Couto, tocando por procuração ser irmão o Padre Jose Marques do Couto, desembargador da Relação de Braga, e o Padre Luís Manuel Marques do Couto, de Pardilhó, em nome de Nossa Senhora das Dores.4 Casou com D. Mariana Cândida de Sá Sottomayor, nascida em 12 de Outubro de 1805 em Braga, da “Casa do Lugar da Parada”, em Tibães, e falecida em 27 de Fevereiro de 1895 em Braga. Formado em cânones pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi juíz desembargador da da Relação Eclesiástica de Braga, cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e fidalgo da Casa Real. Era miguelista. Faleceu em 1 de Dezembro de 1885 na Rua de Santo António das Travessas, na Cividade, Braga.5 Tiveram sete filhos: Francisco6, José Augusto7, D. Rita de Casia8, Agostinho Luís9, D. Maria Benedita10, D. Maria Filomena e D. Maria Henriqueta.11

1 - ADAVR, Livro Paroquial de Beduído, n.º 11, Baptismos, fls. 76-76v. 2 - ADAVR, Livro Paroquial de Beduído, n.º 11, Baptismos, fl. 100. 3 - ADB, Livro Paroquial da Cividade, n.º 53, Misto, fls. 31-31v., reg. n.º 6. 4 - ADAVR, Livro Paroquial de Beduído, n.º 11, Baptismos, fl. 124v. 5 - ADB, Livro Paroquial da Cividade, n.º 58, Óbitos, fls. 44v.-45, reg. n.º 29.

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DELFIM BISMARCK FERREIRA

IV - Ten.-Cor. Joaquim Calisto do Couto Cunha e Melo, nasceu em 14 de Outubro de 1797 na “Casa da Fontinha, em Beduído, Estarreja, onde foi baptizado pelo Reitor Domingos Barbosa Ferreira e Albuquerque, tendo por padrinhos: o tio paterno Rev. Dr. Joaquim José Marques do Couto, de Pardilhó, e pela invocação de Nossa Senhora do Rosário, tocou o Dr. Bernardo José Marques do Couto, cónego da Sé de Braga.12 Frequentou matemática na Universidade de Coimbra, foi juiz ordinário dos Órfãos e de Paz, presidente da Câmara e administrador do Concelho de Estarreja, membro da Junta Geral do Distrito de Aveiro, tenente-coronel comandante do Batalhão Nacional de Estarreja e Fidalgo da Casa Real. Proprietário e liberal, faleceu solteiro e sem geração a 8 de Junho de 1870 na mesma casa onde nasceu.13 V - José Luís Barbosa do Couto Cunha e Melo, nasceu a 2 de Abril de 1800 na Casa da Fontinha, em Beduído, Estarreja, onde foi baptizado pelo Reitor Domingos Barbosa Ferreira e Albuquerque, tendo por padrinhos: o tio paterno Padre Luís Manuel Marques do Couto, de Pardilhó, e pela invocação de Nossa Senhora da Soledade, o Dr. Joaquim José Marques do Couto, também de Pardilhó.14 Casou a 2 de Fevereiro de 1843 em Arcos de Valdevez15, com D. Maria do Patrocínio de Azevedo Araújo Cardoso, natural de São Paio, de Arcos de Valdevez, filha do Dr. Luís António de Araújo Amorim e Azevedo, Senhor da Casa da Ponte naquela vila, bacharel em Direito, desembargador e corregedor da Relação do Porto, e de sua mulher D. Catarina Carolina Cardoso de Mendonça Lacerda. José Luís foi proprietário e fidalgo da Casa Real, e faleceu em 25 de Maio de 1872, com geração, em São Paio, Arcos de Valdevez.16

6 - Francisco Barbosa do Couto Cunha e Sotomayor, nascido em 20 de Dezembro de 1827, em Braga, que foi: fidalgo da Casa Real, deputado, e em Estarreja notável presidente da Câmara Municipal, chefe do Partido Progressista e Capitão de Voluntários do Batalhão Nacional de Estarreja. Casou com D. Maria Cândida Falcão de Azevedo Pinheiro de Bourbon e Menezes, herdeira das Casas de Azevedo e Mazarefes. 7 - José Augusto Barbosa do Couto Cunha Sotomayor, Senhor da fazenda “Gratidão” e cultivador de café. Casou com D. Ana Victória da Fonseca. 8 - D. Rita de Casia Barbosa do Couto Cunha Sotomayor, fundadora do Colégio da Regeneração de Braga e Senhora da “Casa do Lugar”, em Parada de Tibães, Braga. 9 - Agostinho Luís Barbosa do Couto Cunha Sotomayor, casou com D. Belmira de Matos Sequeira. 10 - D. Maria Benedita Barbosa do Couto Cunha Sotomayor, Senhora da “Casa do Lugar”, em Parada de Tibães, Braga. 11 - D. Maria Henriqueta Barbosa do Couto Cunha Sotomayor, Senhora da “Casa do Lugar”, em Parada de Tibães, Braga. 12 - ADAVR, Livro Paroquial de Beduído, n.º 12, Baptismos, fls. 11v.-12. 13 - ADAVR, Livro Paroquial de Beduído, n.º 47, Óbitos, fl. 130, reg. n.º 21. 14 - ADAVR, Livro Paroquial de Beduído, n.º 12, Baptismos, fl. 55v. 15 - ADVC, Livro Paroquial de São Paio - Arcos de Valdevez, n.º 7, Casamentos, fl. 45. 16 - ADVC, Livro Paroquial de São Paio - Arcos de Valdevez, n.º 9, Óbitos, fl. 66, reg. n.º 6.

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Retrato a óleo do Cónego Dr. Francisco Barbosa do Couto Cunha e Melo, existente no Santuário do Sameiro, em Braga17

Pormenor do quadro acima referido, onde é visível o brasão de armas do Cónego Dr. Francisco Barbosa do Couto Cunha e Melo. Nestas, o 3.º quartel diverse, pois apesar de manter as armas da família Cunha, representa-as de outra forma: de ouro, com nove cunhas de azul, postas 3, 3 e 3, ou seja, sem a bordadura, os escudetes e os besantes

17 - Fotografia da autoria de Bruno Azevedo.

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Também numa pequena travessa armoreada que terá pertencido àquele Cónego se encontram as mesmas armas. Col. particular18

18 - Fotografia do autor.

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BIBLIOGRAFIA MANUSCRITA ADAVR. - Arquivo Distrital de Aveiro: - Livros Paroquiais de Beduído ADB - Arquivo Distrital de Braga: - Livros Parquiais da Cividade ADVC - Arquivo Distrital de Viana do Castelo: - Livros Paroquiais de São Paio - Arcos de Valdevez IMPRESSA FERREIRA, Delfim Bismarck, Casa e Capela de Santo António em Albergaria-a-Velha, Porto, Centro de Estudos de Genealogia e História da Família da Universidade Moderna do Porto, 1999. FERREIRA, Delfim Bismarck, GOMES, Maria Palmira da Silva, “Casa do Outeiro de Paredes, em Avanca (século XVIII)”, Terras de Antuã – Histórias e Memórias do Concelho de Estarreja, Estarreja, Câmara Municipal de Estarreja, n.º 5, Ano 5, 2011. SILVA, Armando Barreiros Malheiro da, DAMÁSIO, Luís Pimenta de Castro, SILVA, Guilherme Rego da, Casas Armoriadas do Concelho dos Arcos deValdevez, Câmara Municipal dos Arcos de Valdevez, Volume II, 1992. SOTTOMAYOR, António Pedro, Lembranças da Fontinha, ed. autor, 1994. __________, “Divagações a propósito de um velho retrato. A Casa da Fontinha”, Terras de Antuã – Histórias e Memórias do Concelho de Estarreja, Estarreja, Câmara Municipal de Estarreja, n.º 1, Ano 1, 2007. __________, “O Cónego Barbosa e o dogma da Imaculada Conceição”, Terras de Antuã – Histórias e Memórias do Concelho de Estarreja, Estarreja, Câmara Municipal de Estarreja, n.º 7, Ano 7, 2013. TAVARES, José, Recordando Francisco Barbosa do Couto Cunha Sotto-Maior, Estarreja, Rotary Club de Estarreja, 1987. TÁVORA, D. Luiz de Lancastre e, Dicionário das Famílias Portuguesas, Lisboa, Quetzal Editores, 1989. ZUQUETE, Eduardo Afonso Martins (Dir.), Armorial Lusitano – Genealogia e Heráldica, 3.ª Edição, Lisboa, Edições Zairol, 1987.

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CASAS COM TORRE Domingos Tavares* António da Silva foi um personagem escondido no quadro da cultura burguesa portuense, com alguma intervenção nos domínios da arquitectura em circunstâncias ainda muito mal esclarecidas. Natural de Estarreja nasceu em Salreu, mas foi na cidade do Porto que organizou a sua vida, com duas vertentes profissionais: projectista ligado a trabalhos de construção civil e professor universitário ensinando na Academia Politécnica no tempo em que se começavam a estruturar os cursos de engenharia, com relevância para a formação de engenheiros de Obras Públicas. Este artigo procura sintetizar os dados já recolhidos do que terá sido o seu labor, nomeadamente no que se refere às transformações da linguagem da arquitectura residencial de famílias burguesas de elevado poder económico, numa perspectiva de mudança dos velhos padrões clássicos. Integra-se no âmbito de um projecto de investigação dedicado ao estudo das rupturas arquitectónicas introduzidas em Portugal à época das grandes transformações sociais geradas com o avanço da revolução liberal e depois com o advento da república. Este movimento da arquitectura acompanhou a formação da modernidade nas letras e nas artes, acentuando um ritmo próprio, algo mais lento, fruto da condição de uma arte colectiva onde predominam os factores de necessidade e os compromissos entre todos os actores de cada intervenção. Na transição do século XIX para o século XX chegou a Portugal o gosto pelo chalé suíço, versão urbana das exóticas casas de madeira tradicionais originárias das vertentes dos Alpes. Mas entrou na interpretação francesa rica de alvenarias de pedra, construídas preferencialmente em novas aglomerações urbanas instaladas nas margens do Golfo da Biscaia ou na costa Mediterrânica. Para que não se perdesse a memória das requintadas estâncias médico-balneares de montanha, conservavam os beirais largos trabalhados em madeira e inusitadas inclinações das coberturas. Se na origem, estes telhados respondiam à necessidade de verter rapidamente as águas e resistir ao peso dos mantos espessos de neve, nas margens amenas das praias serviam apenas para lembrar a memória dos tísicos que iam tratar da saúde a banhos de um sol mais puro, em hotéis de luxo nas montanhas da Suíça ou da Europa central. Fazendo-o na beira do mar não deixavam de dar sinal de riqueza em lugares mais expostos à visibilidade das vizinhanças. Assim os vemos em Sintra ou na linha Cascais, na Foz do Douro ou nas ruas paralelas ao caminho-de-ferro em direcção à praia da Granja. Práticas burguesas ensaiadas por famílias enriquecidas no comércio e na indústria, os inventores das férias na estação quente. Porque ganharam torres estas casas de veraneio? As versões mais frequentes apontam a simpatia romântica por um revivalismo gótico que varreu as arquitecturas nacionalistas após a Revolução Industrial. Inventaram-se, então, umas torrinhas pequenas dependuradas das esquinas mais altas do corpo dos edifícios, como se pode ver nos cantos dos torreões ameados

* Arquitecto, Professor emérito e coordenador de Investigação (Grupo Atlas da Casa – Erudito e popular na arquitectura portuguesa) no Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.

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do Palácio da Pena, em Sintra, a par de outras fantasias mais ou menos exóticas.1 O rei alemão importava para Portugal o gosto europeu da nostalgia, lembrando os castelos do Reno. As casas de veraneio começaram a surgir à beira-mar em Cascais, mas foi em Sintra que José Luís Monteiro (1848-1942), acabadinho de chegar de Paris em 1880, iniciou com o Chalet Biester a aplicação do ecletismo medievalista à arquitectura doméstica burguesa.2 Nesta casa, a torre cilíndrica com janelas góticas surge plena e bem assente no terreno, coroada por cobertura cónica de acentuada pendente, terminando em agulha metálica. Com presunção afirmativa dominando a paisagem, as torres tinham a vantagem de oferecer pontos de vista muito largos e, simultaneamente, oferecerem-se como marca de qualidade na envolvente, contribuindo para uma arquitectura distinta, afirmativa, poderosa.

Postal ilustrado do palacete Andreson, na Avenida de Montevideu, Porto, datado de 1904.

A torre miradouro passou a tema recorrente na composição dos palacetes de iniciativa de banqueiros e outros capitalistas bem sucedidos na vida, na cidade ou no campo, frequentemente localizados em lugares de destaque. Servia, em cada projecto, de articulação entre volumes de diferentes alturas, extraindo da diversidade formal das partes a unidade de imagem e o carácter da construção. Tratando-se de um modelo erudito extraído das correntes historicistas ou ecléticas da arte europeia do último quarto de oitocentos, não deixou de entusiasmar

1 - CARNEIRO, José Manuel e GAMA, Luís Filipe, Palácio Nacional da Pena – Roteiro, Lisboa, Elo, 1994 2 - FERREIRA, Fátima Cordeiro (Coord.), José Luís Monteiro na arquitectura da transição do século, Lisboa, Associação dos Arquitectos Portugueses, 1990

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alguns “torna-viagem” enriquecidos por terras do Brasil ou de outras Américas. Conferiam aos seus arquitectos um nível de liberdade de concepção para adoptar as linhas de modernidade disponível a cada momento, acreditando poder assim valorizar a imagem das próprias famílias. Gostavam de colocar em evidência o requinte de suas mansões como processo de impressionar os demais e ganhar o respeito dos concidadãos. Por isso, casa de brasileiro sem torre pode captar a simpatia dos circunstantes, mas não cumpre o desígnio comum à maioria dos emigrantes que regressam vitoriosos, o de construir nos seus lugares de origem, evidenciando perante vizinhos e conterrâneos um poderoso estatuto de ascensão social.3 António da Silva (1853-1909), foi um desses projectistas que dedicou uma boa parte da actividade enquanto profissional liberal, à realização de moradias individuais para importantes figuras da comunidade mercantil da cidade do Porto. Mas também respondendo a encomendas de portugueses emigrados no Brasil que fizeram fortuna em Belém do Pará durante o segundo ciclo de exploração da borracha nas terras do Amazonas. Activo nos últimos anos do século XIX e na primeira década do século seguinte, criou uma relação próxima com exportadores, transitários e gestores de tráfego marítimo em conexão com comerciantes do outro lado do Atlântico. Situação que lhe permitiu organizar uma carteira de clientes que justifica ser ele o autor responsável por numerosos palacetes que ainda se podem identificar na zona da Foz do Douro e num espaço regional que passa, pelo menos, por Estarreja, Oliveira de Azeméis e Fafe. Difícil é reconstituir o seu percurso de vida, tal como o de alguns destes discretos profissionais das artes do construir, de modo a identificar o seu lugar no quadro da história da arquitectura portuguesa. Arquitectar as formas para a organização dos espaços públicos ou privados implica possuir uma cultura adequada à capacidade de compreensão das sociedades, do lugar e do tempo onde se vai intervir. Este é o caso de António da Silva. Foi capaz de interpretar os desejos e ambições dos clientes que lhe confiaram os projectos da casa de família, integrando-os com elegância e clareza no contexto urbano onde actuava. Ficaram algumas obras, mas o artista acabou por se transformar numa figura quase enigmática, porque se perdeu a notícia do seu espólio e da maioria dos sucessos da sua vida, cujo percurso se foi escondendo nos meandros do tempo. Era o terceiro filho de Joaquim da Silva e de Maria do Rosário, do lugar de Laceiras em Salreu, nascido a 24 de Abril de 1853, portanto irmão um ano mais velho de Domingos Joaquim Silva, o conhecido Visconde de Salreu. Está registado que estudou no Porto, na Academia Politécnica, seguramente entre 1877 e 1883, onde adquiriu a formação genérica de engenheiro civil. E que em 1894, onze anos depois da formatura, foi contratado como professor da Academia, sendo ainda nesse ano promovido a lente da 18ª cadeira, ensinando Desenho. Residia na área de expansão urbana da Foz, na Rua de Gondarém (antiga estrada de Carreiros), freguesia de Nevogilde. Durante quinze anos, a partir dessa morada, indicava exercer actividade liberal como projectista. Era casado com Elisa Rosa Cunha da Silva e tinha três filhos, quando faleceu a 16 de Março de 1909. Foi exumado no cemitério da Irmandade da Lapa sem receber sacramentos.

3 - TAVARES, Domingos, Casas de Brasileiro, Porto, Dafne, 2015

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A Casa António da Silva, na Rua de Gondarém, Foz do Douro, projectada pelo próprio cerca de 1902, demolida nos anos sessenta.

É surpreendente observar como se diluem os valores que foram a razão do tempo de vida de pessoas que deram magníficos contributos para a construção do habitat social das comunidades a que pertenceram. Faz pensar nos retratos de antepassados pendurados nas paredes da casa dos avós que perderam identidade e significado, não se sabendo depois quem são, o que fizeram, como importam para a nossa própria experiência ou sabedoria. Que se esfumam na memória difusa de gerações, perdidos nas inevitáveis práticas do demolir que caracteriza o progresso material das cidades. Aprendemos a conhecer a história do país pela sucessão de majestáticas figuras, ignorando os humildes. Assim, também na história da arquitectura, os estudos de referência dãonos alguns arquitectos tomados como exemplo em função das ideologias que conduzem os textos, para dissertar sobre o fio dos factos relevantes no caminho escolhido para explicar as realidades do passado. Tantos episódios, parcelas da realidade associadas ao poder inventivo de outras sensibilidades, vão ficando esquecidos por força da subjectividade dos critérios adoptados e, nessa medida, desaparecem com os seus autores. António da Silva desapareceu realmente da narrativa da arquitectura portuguesa, se alguma vez lhe pertenceu, ficando por aí algumas das suas obras feitas ruína, por vezes à venda, transformadas em mitos do lugar sobre as quais quase nada se sabe. No caso particular deste projectista, releva a questão das relações entre arquitectos e engenheiros ou, numa perspectiva cultural mais aberta, com que entendimento estes profissionais da construção eram requisitados para a realização de obras importantes, tanto no domínio dos edifícios públicos como na concretização de sonhos privados de homens ricos decididos a erigir as suas mansões em elegantes jardins privados. Os engenheiros ditos “civis”, por oposição aos engenheiros militares ao serviço do Estado, ganharam preponderância em Portugal na segunda metade do século XIX, numa fase de desenvolvimento intenso da sociedade industrial.

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Acompanhando o progresso da indústria, nomeadamente com a introdução da máquina a vapor ou o impulso gerado pelo caminho-de-ferro e modernização dos sistemas de estradas, começou a ganhar posição uma ética de edificação utilitária, não simbólica, privilegiando o “fazer”, em busca da racionalidade construtiva.4 A sociedade passou a contar com os engenheiros para a satisfação prática das suas necessidades edificatórias, deixando aos arquitectos o exercício da invenção no formalismo do simbólico em monumentos especiais, como ainda eram as igrejas ou os palácios destinados a funções especiais, em geral destinados à representação do Estado. No exercício da arquitectura é necessário possuir-se um gosto apaixonado pelo desenho. Nas correntes teóricas presentes na mudança do século permanecia, também, o conhecimento dos estilos históricos e a agilidade na utilização dos normativos da época clássica, manipulados com alguma liberdade combinatória graças à capacidade de artista para o exercício da proporção e simetria. Mas os arquitectos compreendiam a vantagem da colaboração técnica dos engenheiros, mesmo quando se tratava de produzir o simbólico. No caso particular de António da Silva, prevalecem algumas dificuldades para o conhecimento sobre qual terá sido a sua relação efectiva com a arquitectura. Da informação já disponível podemos inferir ter ele desempenhado algum papel enquanto participante na corrente de consolidação de um estilo arquitectónico associado a uma versão optimista e transformadora dos ecletismos, surgida em meados dos anos noventa do século XIX. Claramente marcada pela influência francesa, este movimento decorria do debate que se instalou na Academia de Paris por acção dos movimentos dissidentes ansiosos pela ruptura moderna.5 O critério dos conservadores foi o de defender a compatibilidade de estilos num processo de abertura à renovação dos instrumentos de projecto como resposta a novos programas. Falta, no entanto, conhecer em que circunstâncias concretas esta personalidade de Salreu desenvolveu actividade profissional enquanto projectista de atelier, já que como professor de desenho de futuros engenheiros se lhe impunha uma orientação pedagógica multifacetada, aberta às múltiplas necessidades formativas dos jovens estudantes. A indicação do local da sua própria residência como sede da actividade liberal, pode significar uma organização do trabalho fora do contexto empresarial da época, condicionada por uma carteira restrita de clientes, mas com elevada capacidade financeira tendo em vista as características das obras em que é apresentado como autor. Em todos os casos da sua produção já identificada encontramos soluções de uma linguagem cuidada, culta, bastante inovadora, mesmo se considerarmos que os padrões de referência procurados pela burguesia comercial da época passaram a constituir uma moda bastante presente nos lugares de vilegiatura. Apesar dos sinais de acção personalizada na condução das tarefas de execução de projectos não é de excluir a colaboração, pontual ou permanente, de outras personalidades actuando na área da arquitectura. No plano técnico conhece-se a colaboração do engenheiro Casimiro Jerónimo de Faria, também professor na Academia, que assumiu em vários casos o projecto estrutural dos prédios. Isto parece reforçar a ideia de que cabia ao mestre do “desenho” a composição arquitectónica. António da Silva concluiu os seus estudos na Academia Politécnica com trinta anos, sem perdas de frequência, o que indica ter iniciado a formação superior numa idade mais avançada do que era comum entre os estudantes do seu tempo. A ausência de dados mais concretos sobre o seu percurso escolar nas fases iniciais da formação como artista, complica sobremaneira a compreensão

4 - RODRIGUES, Maria de Lurdes, Os engenheiros em Portugal, profissionalização e protagonismo, Oeiras, Celta Editora, 1999 5 - DREXLER, Arthur (ed.), The Architecture of the École des Beaux-Arts, New York, The Museam of Modern Art, 1977

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do modo de atingir os resultados de uma arquitectura singular. Não há registo de ter frequentado a Universidade de Coimbra, como chegou a ser admitido, nem foi aluno nas Belas Artes do Porto. Terá passado por Paris como jovem à procura de uma formação mais universalista? Numa outra dimensão, fica também por esclarecer o enquadramento social da personalidade actuando na área de influência económica da cidade do Porto. As duas classes de clientes a quem prestou serviços situam-se no mundo dos negócios marítimos: agentes exportadores e transitários actuando nos portos do Douro e Leixões, gente culta da mais rica burguesia portuense; emigrantes enriquecidos ligados ao comércio exportador em Belém do Pará, com ligações seguras aos transitários do Porto. O certo é que a qualidade do desenho e as características de uma arquitectura espectacular de forte inspiração Beaux-Arts faz supor uma qualquer ligação à cultura francesa, do próprio António da Silva ou de algum colaborador próximo e permanente que o tenha acompanhado. Os palacetes foram-se sucedendo ao longo de, pelo menos, nove anos, oferecendo uma formalização análoga, sem prejuízo de ser perceptível algum progresso de obra para obra, mas conservando um conjunto de sinais ao nível da resolução dos detalhes tomados como elementos constantes de uma linguagem muito própria. Extrai-se a ideia de um método de estudo e aperfeiçoamento sucessivo de um modelo de intervenção relativamente seguro e constante, prática pouco comum entre os profissionais engenheiros que nessa época se orientaram para o projecto arquitectónico. Estes engenheiros de primeira geração saídos da Academia Politécnica do Porto revelavamse, numa larga proporção, mais humanistas que técnicos, poetas, por vezes artistas inquietos à procura da novidade, quase sempre cidadãos de forte personalidade com intervenção social muito activa. Neste quadro é interessante avaliar quanto a discrição e constância de António da Silva contribuiu para a qualidade do seu trabalho.

Casa Individual em banda, na Avenida da Boavista, Porto, projecto assinado por António Silva, de 1896.

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De entre os projectos mais antigos que foi possível identificar, destaca-se uma pequena moradia de dois andares integrada na fileira contínua de prédios baixos na parte mais antiga da Avenida da Boavista, no Porto, datada de 1895.6 Na tradição portuense de lote estreito, ainda muito presente nas secções iniciais do novo “boulevard”, apresenta uma frente de seis metros e uma organização interior convencional justificando porta de entrada ao meio da fachada da rua, com o rés-do-chão sobre elevado para aproveitamento de cave, mostrando postigos de iluminação abertos no soco.7 Solução simétrica respeitando integralmente o rigor clássico como entendido no contexto da modernidade da época. As cornijas separam a legibilidade dos dois andares e a platibanda superior esconde o telhado, oferecendo uma visão geométrica coerente de um sistema de três vãos por andar, enquadrados pelas pilastras. Adopta um tratamento especial para o portal do rés-do-chão, onde as pilastras ganham desenho rusticado e as meias colunas de capitel suportam arco de volta inteira com pedra de fecho. Há um destaque ligeiro do módulo central, acompanhando a varanda do andar e reforçando o sector integralmente realizado em pedra.

O palacete Andreson, projecto de António da Silva de 1897.

No ano seguinte aparece o que poderíamos considerar a obra chave que associamos à autoria de António da Silva, o projecto do belo Chalet que na marginal da Foz do Douro, então estrada de Carreiros ou Rua do Castelo do Queijo, abria o ciclo de uma arquitectura eclética modernizada, sob inspiração francesa. Conhecido como Palacete dos Andreson, foi construído em 1897, quando

6 - AHMP (Arquivo Histórico Municipal do Porto), Licença de Obra 291/1896 7 - MOTA, Nelson, A Arquitectura do Quotidiano, Coimbra, Edarq, 2010 (p. 109-110).

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as arquitecturas de vilegiatura davam os primeiros passos nas praias do norte.8 Surgiu como referencial na linha da frente de mar, anunciando uma lógica urbana aberta, variada, entremeando o verde dos jardins com as torres miradouro e as varandas de estar, local do desfrute dos poentes cálidos de verão, mal protegidas do vento norte, vendo e sendo vistas. Poderiamos interpretar que toma como modelo genérico alguma casa seleccionada entre as habitações modernas recolhidas por Viollet-Le-Duc em 1875,9 ou de outras sugestões correndo nas revistas recebidas pelo correio de Paris. Representa um efectivo ponto de ruptura com o passado e a procura de uma outra plasticidade para responder ao desejo de expressar na habitação de uma família burguesa de sucesso, o sentido de modernidade que as novas condições da sociedade iam gerando. Colocado ao meio de um amplo jardim privado no alinhamento da marginal atlântica, o palacete destaca-se de vários outros que se lhe seguiram no recorte desenhado da frente marítima afecta à aglomeração de casario estendida desde a Foz do Douro. Principalmente pela imponência da torre miradouro, elemento chave do corpo principal da construção integrado na estrutura do conjunto e pela frontalidade altaneira da fachada poente, assumiu-se como primeiro referencial urbano. A torre principal, de base quadrada e ângulos chanfrados, desfaz a simetria do plano frontal acrescentando em ligeiro destaque uma ideia de massa articuladora de todos os volumes que compõem a casa. Acresce a força do beiral de grande balanço montado sobre cachorros de madeira, onde caem as águas de um telhado facetado de grande inclinação, cujas faces quase lisas foram realizadas em soletes cerâmicos. No topo, lembrando velhas práticas, um remate sinalizador em formato de agulha. Depressa se percebe a existência de uma torre complementar, mais espessa e menos alta mas ainda mais poderosa pela identificação com o alçado sul da casa, ocupando o ângulo oposto por detrás das massas dos outros telhados em telha Marselha, gerando contraponto do lado interior do jardim.

Planta geral da casa e jardim do palacete Andreson.

8 - AHMP (Arquivo Histórico Municipal do Porto), Licença de Obra 228/1897 9 - VIOLLET-LE-DUC, E, Habitations Modernes, Paris, Morel Libraires-Éditeurs, 1875.

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Vários são os elementos que garantem a homogeneidade da forma global, absorvendo o peso destes dois tópicos da composição. Um deles é a cornija superior, antecedendo a platibanda de contenção das coberturas. Contornando o perímetro quase integral do edifício, com excepção da viragem noroeste e da varanda nascente, esta cornija evidencia uma presença unificadora pela sugestiva marca dos modilhões regulares que apresenta. Com valor semelhante aparece o reboco de riscas largas, alternadas, cintando o andar principal e as partes visíveis das paredes da cave, síntese simbólica do antigo aparelho romano transformado em instrumento puramente decorativo para transmitir a ideia de maior solidez na base da construção. Também o avanço das lucarnas de iluminação das mansardas, interrompendo a platibanda e tornadas janelas de frontão no plano das fachadas, à maneira do renascimento francês, configuram uma imagem envolvente e um forte contributo para a monumentalização do palacete. Resulta um tratamento plástico homogéneo, onde a presença das janelas emolduradas e das componentes de granito nas guardas das varandas introduziam um toque de variabilidade, que o actual critério de pintura geral acaba por desvalorizar.

Alçados poente e sul do projecto do palacete Andreson.

No plano específico do funcionamento da casa, as quatro fachadas apresentam sinais diferenciadores dentro da unidade física do edifício, que têm a ver com aspectos funcionais e critérios de relação com o exterior, seja com o jardim privado envolvente, seja com a aproximação a partir da rua. A frente para a marginal marítima não se afasta muito do muro de vedação, num critério de respeito pelo alinhamento programado para os outros palacetes que viessem a integrar a renovada zona urbana. Logo aqui se destaca o gosto pela quebra da simetria, quando coloca a escadaria exterior ligeiramente deslocada para a direita, servindo o largo patamar frontal, a portaria destacada como bay-window e a varanda que se lhe sobrepõe. Oferece dimensão diferente para as janelas no sentido de reforçar planos vazios laterais em contraponto ao volume dominante da torre do lado contrário. Depois observa-se a invenção de

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uma segunda fachada principal, quando instala outra escadaria e outro portal granítico virados a sul, servidos por segundo portão exterior e outro caminho atravessando o jardim. É um sistema de dupla entrada, para além da habitual entrada de serviço a norte e um outro acesso secundário para nascente. Pela presença de um patamar protegido com arcada, ganham especial relevo o escadório e porta na fachada sul.

Plantas do andar principal e do andar dos quartos, do projecto do palacete Andreson.

O esquema organizacional parte da planta em quadrado, com os indispensáveis recortes em correspondência com os valores da função interna, bem como para a concretização das diferenças pretendidas na formação da imagem exterior. O núcleo central, como um átrio, serve como primeiro espaço de recepção e distribuição, a que se chega directamente do pórtico sul. Reconverte a ideia barroca da teatralização da escada, colocando-a em posição mais discreta, porque nobre é o próprio nível da entrada. Na metade não distinta que corresponde à subida ao andar é que dispõe de pé direito duplo e grande lanternim de iluminação zenital. Como é natural, são os compartimentos virados a poente, para o lado do mar, que absorvem as funções de representação familiar, ligados à larga varanda exterior e com o salão axial em alinhamento com a escadaria. Recolhidos na faixa nascente, sombreados pelo jardim e pelas pendentes mais elevadas de quintal nas traseiras, aparecem os espaços complementares do serviço, cuja parte mais significativa, como cozinha, roupas, costuras e arrecadações, se distribuem pela cave. No plano puramente construtivo não são de assinalar progressos relevantes em relação às práticas correntes na cidade, a não ser a introdução de reforços estruturais em perfilados de ferro entre os vigamentos de madeira na montagem dos pavimentos e nos lintéis de padieiras mais sensíveis. Sendo geral a utilização das alvenarias de paredes em pedra, só pontualmente são utilizados tabiques de taipa de madeira argamassada em compartimentações secundárias

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e nos andares superiores. Paredes ortogonais cruzadas e o contorno recortado das paredes exteriores, com os volumes destacados dos torreões em ângulos opostos, contribuem para a estabilidade do sistema estrutural. Só em situações de particular evidência se utiliza o granito aparente aparelhado a pico fino, como é o caso das escadarias exteriores e guardas, ou as colunas da entrada envidraçada na parte saliente do salão. Curiosa é a solução das lages nas varandas, montadas em pedras de lousa preta com razoável espessura para vencer os respectivos vãos e devidamente impermeabilizadas com asfalto, preparadas depois para receber acabamento em mosaico hidráulico de padrão desenhado. Esta foi uma lógica construtiva comum a todas as obras desta equipa projectista, nomeadamente quando se tratava de residências isoladas com particulares cuidados de representação pública.10 Ao contrário do que seria espectável em palacetes com este significado, a quase totalidade da carga decorativa das fachadas, mesmo que expressando elementos tradicionais do granito, é trabalhada em argamassas de reboco pintado, com fingimento dos mais variados recortes clássicos.

Ampliação do palacete de Constantino Batalha no Passeio Alegre, Foz do Douro, projecto de António da Silva de 1897.

No mesmo ano de 1897 e três meses antes da entrada do pedido de licença para o Palacete Andreson, a mesma equipa projectista constituída por António da Silva, que assinou a requerimento e a memória descritiva, e Casimiro de Faria que assumiu a responsabilidade estrutural, tinha solicitado a reconstrução parcial de uma outra moradia na Foz, propriedade de Constantino Batalha.11 Localizada mesmo à entrada do então recente jardim público do Passeio Alegre, de frente para a amplidão da enseada do Douro, a dois passos do histórico Farol do Anjo,

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constituiu uma solução belíssima para um terreno muito difícil. A antiga Rua da Bela Vista, hoje Raul de Brandão, corria paralela à nova marginal a uma cota elevada, cerca de seis metros acima dos níveis do jardim, libertando uma faixa de terreno no plano inferior com cerca trinta metros de largura onde se vinham construindo novas residências. Neste caso tratou-se de libertar um pátio e qualificar uma nova entrada da casa grande sem contacto directo com o passeio público, filtrando o acesso à porta principal. O projecto aproveitou a ampliação programada para qualificar o fundo do novo espaço com o brilhantismo de uma casa romântica, matando assim o pesado muro de suporte no contacto com a rua das traseiras.

Desenho do alçado nascente, com varanda, do palacete de Constantino Batalha no Passeio Alegre.

Observa-se que o projecto repete o desenho para a Avenida de Montevideu, com as cornijas ligadas à platibanda de encobrimento dos telhados, os contornos das janelas de mansarda encaixadas, sob a forma de lucarnas, na parede do fundo e a presença de uma torre semelhante, levantada na articulação dos corpos desiguais que estabelecem a ligação à casa antiga. Aparecem os modilhões regulares no contorno dos beirais da torre e na sustentação da cornija, presença que se tornaria uma marca identificadora nos vários palacetes que António da Silva viria a realizar, não só na cidade, mas também em várias Casas de Brasileiro que lhe coube executar num mais vasto espaço regional. Distinta, quase irrepetível, é a expressão das varandas em ferro fundido que toma por completo a empena nascente da casa mãe, ligando em terraço superior duas unidades de estar e desfrute da paisagem. Exemplar na linha das arquitecturas do ferro, com forte tradição no Porto

10 - TAVARES, Domingos, Palacete Marques Gomes, Porto, Dafne, 2015 (p. 97-98). 11 - AHMP (Arquivo Histórico Municipal do Porto), Licença de Obra 79/1897

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oitocentista, expressa-se numa linguagem de grande simplicidade mas que, pelo somatório de diferentes desenhos das guardas transparentes e pela contribuição das colunas de fuste trabalhado com motivos florais, confere ao conjunto uma forte vibração de luz e sombra. Em ambos os trabalhos de 1897, a arquitectura mantinha-se como protagonista na qualificação dos novos espaços públicos associados à frente de mar ou da enseada do rio, na sequência marginal desde o Passeio Alegre até ao Castelo do Queijo. Adoptando uma linha inserível na estética romântica de influência francesa, procura a sua própria individualidade entre tantas mansões de presunção nobre, escolhendo a racionalidade moderna como atitude projectual, expressa em princípios compositivos claros. No palacete Andreson percebe-se obediência a uma geometria de matriz quadrada na formação da planta base. Na ampliação da casa de Constantino Batalha recorre a uma configuração em “L”, bem encaixada no terreno disponível. Em ambos os casos a possibilidade de tratar qualquer das frentes produzidas com análoga importância, podendo mobilizar escadórios, varandas, arcarias ou transparências em qualquer dos alçados. A mobilização de alguma fachada como principal resulta dos movimentos de acesso, mesmo que não seja a de contacto directo com a rua. Atente-se na presença constante de sacadas em janelas, portais e outros elementos que introduzem variedade e assimetria na ordem axial de base que suporta as composições. Abre-se uma corrente nesta arquitectura de transição que não procura a ajuda de novos materiais ou a expressão visível de novas tecnologias construtivas para encontrar os sinais da sua própria individualidade. São outras situações pontuais como a varanda miradouro em ferro fundido e o recurso à diferenciação das partes pelo desenho, como é o caso dos beirais e consolas nas torres, que distingue cada casa como marca no território. Materiais como madeiras, granitos, rebocos e até a expressividade obtida pelas cores escolhidas para as pinturas acompanhando sugestivos efeitos de sombra, constituem a matéria base para o exercício da decoração do prédio. As paredes exteriores apresentam mais superfícies opacas do que vazios e transparências, consolidando a ideia de caixa de contenção da vida privada, onde os vãos se diversificam para não sugerir rupturas dos planos de composição dos volumes. A utilização de aparelhos de granito aparente, ou sua imitação, criando a noção de reforço dos pisos inferiores ou a marcação subtil dos ângulos, permite levantar sobre bases sólidas as componentes mais nobres da edificação.

Alçados nascentes e norte do projecto para Charles Tait, na Rua da Índia, Foz do Douro, projecto de António da Silva de 1899.

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Um outro projecto datado de 1899 está identificado como residência para o senhor Charles Tait. Localizava-se na Rua da Índia, num ponto de cota alta onde se abriram nessa época novos arruamentos, num processo de expansão para norte do aglomerado original da Foz. A casa olha para o mar por cima dos casarios que então se implantavam ao longo das ruas Marechal Saldanha e Gondarém, densificando os antigos caminhos para o Castelo do Queijo e Matosinhos. Colocada na margem direita da rua ascendente, virava a fachada principal para o lado da sombra e, por isso, apresentava menor brilho nos elementos exteriores identificados com as componentes funcionais da habitação. É certo que a orgânica interior da casa privilegia a parte nascente quanto à localização dos principais salões e recorre à iluminação neutra de envidraçados mais largos neste sector, refugiando-se da inclemência do sol sul e poente. Mas os principais elementos de animação formal situam-se ao nível da cobertura, onde beirais e variedade de coberturas sugerem alguma atenção a modelos oriundos dos muito divulgados chalets franceses. Isso é particularmente notório no remate emadeirado do grande beiral triangulado, apoiado em arco redondo com peças muito trabalhadas.

Pormenor da fachada da casa Charles Tait.

Esta casa Tait não é muito grande, apesar dos seus quatro andares, recorrendo ao aumento de um só piso nas traseiras, fora do quadrado base, para organizar a expansão das funções do salão principal. É uma componente mais pobre, que desequilibra o conjunto, onde não se vê a incidência de novos temas decorativos como seja o emprego de cerâmicas na formação das padieiras e quadros inseridos nos panos de peito das janelas estreitas acentuando a verticalidade dos vãos. Algumas destas características surgirão com frequência nas obras seguintes mas, com forte possibilidade de ser da mesma data, aparecem também na casa própria de António da Silva levantada na Rua de

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Gondarém. Foi uma moradia construída à face da rua, demolida em 1966 para dar lugar aos novos prédios de apartamentos. Apresentava as mesmas características com torreão quadrado ao nível das mansardas, remates triangulados das secções de cobertura com duas águas, padieiras mistas de cerâmica e granito nos alinhamentos verticais das janelas. De composição assimétrica e entrada lateral pelo jardim, herdou este tipo de funcionamento do par de casas geminadas em simetria que integrava a propriedade ali existente anteriormente. Particularidade que, na transição para o século XX, entrou no entendimento generalizado da arquitectura residencial em meio urbano, quando destinada a moradias de três frentes em alinhamentos de rua.

Pormenor da fachada da casa Charles Tait

Com a entrada no século XX, outros projectos para residências ricas repetem um conjunto de características presentes nas obras realizadas por António da Silva na zona da Foz do Douro. Se em matéria de, pelo menos, três “casas de brasileiros” já identificadas, várias das características enumeradas aparecem resolvidas em sínteses coerentes e seguras, falta encontrar os trabalhos de natureza mais convencional onde possa ser mais evidente o sentido praticista das respostas convencionais para construções correntes. À data do falecimento, os jornais referiam ser “autor de grande número de projectos de edifícios construídos na cidade do Porto e noutros pontos do país”.12 No curso desta história curta de pouco mais de dez anos percebida desde a casa na Avenida da

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Boavista de 1896, até à casa do irmão em Salreu, encontramos uma linha arquitectónica coerente, a caminho do moderno. Atitude fiel ao enunciado francês das Beaux-Arts, de compatibilidade de estilos num processo de abertura à renovação dos instrumentos de projecto como resposta a programas emergentes, tanto no plano de novos enquadramentos sociais como no campo da evolução técnica. Em Setembro de 1907 realizava-se em Salreu a inauguração solene da Escola de Laceiras, projecto do jovem arquitecto Manuel Norte Júnor. Foi embandeirado o edifício e a rua até ao Palacete do filantropo senhor Domingos Joaquim da Silva, que acabara de ser agraciado com o título de Visconde de Salreu, na sequência da doação daquela escola ao Estado. Também o palacete acabara de se construir, na sequência do casamento do Visconde em 1906. Projectado pelo irmão, o engenheiro António da Silva, a residência que recebia autoridades e bispo em dia de festa afirmava-se no alto da colina de Salreu acima do perfil das torres da igreja matriz. Levanta um imponente mirante bem acima da altura dos três andares que compõem o corpo da residência, defronte à amplidão do extenso delta do rio Vouga.13 Obra testemunho de maturidade do seu autor, sintetiza os valores que caracterizaram a arquitectura de vilegiatura desenvolvida na Foz do Douro, depurando-a de quaisquer superficialidades redundantes. Sinal de abertura aos caminhos da modernidade que o próprio Norte Júnior e outros arquitectos da escola de Paris ainda, naquela época, tinham sido incapazes de superar.

A casa do Visconde de Salreu no lugar de Laceiras, Salreu, projecto de António da Silva cerca de 1904.

12 - Jornal de Notícias, 17 de Março de 1909. 13 - TAVARES, Domingos, Casas de Brasileiro, Porto, Dafne, 2015 (p.183).

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MEMÓRIAS DO QUOTIDIANO1 OS PAINÉIS DOS BARCOS MOLICEIROS José Gurgo e Cirne*

EM BUSCA DO TEMPO ESQUECIDO A Memória Obliterada Realmente estranho é que viajantes que passaram pela região – e alguns deles ilustres – não tenham feito qualquer referência às pinturas dos moliceiros. É o caso de Hans Christian Andersen, que por ela passou em 1866 e que, a despeito da magia dos seus contos, dela nos deixou apenas o seguinte e prosaico testemunho: “… em Aveiro está-se perfeitamente numa Holanda portuguesa, alagada e plana, com canais abertos, mas falta-lhe o viço e a frescura deste país.

* Licenciado em Antropologia e Serviço Social, pós-graduado em Família e Sistemas Sociais, mestre em Antropologia Social e Cultural, DEA em Antropologia, doutorando em Antropologia. 1 - O presente trabalho corresponde à transcrição, ligeiramente aumentada e actualizada, de um subcapítulo extraído da dissertação de mestrado em Antropologia Social e Cultural, concluído no Departamento de Ciências da Vida da F.C.T. da Universidade de Coimbra em 2012.

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Noutros tempos a região fora frutuosa e boa, mas depois que a areia fechou a foz do rio Vouga, em breve se transformou a planície, numa extensão de algumas milhas, em pântanos e lameiros e, deste modo, na parte mais insalubre do país. No ano de 1801 começou a abrir-se um canal que foi terminado em 1808. A água voltou a ter escoamento e a região tornou-se de novo salubre e habitável. O canal foi prolongado completamente até a cidade, que pelo rioVouga é dividida em duas partes.2 A terra plana, os muitos barcos à vara, a própria cidade de Aveiro e a próxima extensão de praia arenosa recordam-nos as cidades nórdicas da costa ocidental. O céu cinzento e os nevoeiros carregados de humidade que pairam sobre toda a região levam-nos a crer que estamos lá em cima, no Norte, e não no belo e quente Portugal” (Anderson, 2001: 76). Acrescenta ainda: “É esta cidade denominada Veneza portuguesa, mas nada há aí, a não ser os barcos à vara semelhantes às gôndolas, que lembram a cidade do Adriático” (idem: 77). E conclui, lacónico: “A cidade em si nada nos ofereceu de notável” (idem: 77). Mas, anterior a este, há o testemunho do príncipe Felix Lichnowsky, que visitou a região em 1842 e dela deixou também as suas impressões, no relato da viagem que intitulou Portugal Erinnerungen aus dem Jahre (“Portugal - Recordações do Ano de 1842”). Insiste igualmente na sua semelhança com a Holanda: “Sobre este caminho marítimo, que conduz desde o canal de Ovar até ao cais de Aveiro, há sempre um trânsito muito frequente, que faz lembrar os barcos de carreira dos canais da Holanda” (Lichnowski, 1844: 154). Descrevendo a sua viagem nocturna pela ria (o que lhe poderá servir de desculpa para a falta de atenção a alguns pormenores, como o próprio admite), com destino ao Porto, na companhia do conde Teleky, diz o seguinte: “Depois do pôr-do-sol entrámos em um dos barcos, que se achavam amarrados ao cais de Aveiro; estava cheio de camponeses em grande parte mulheres, que se dirigiam para Ovar e para o Porto; a noite estava fresca, e nós deitámo-nos do melhor modo que nos foi possível dentro da pequena câmara que tínhamos alugado; o nosso alojamento era situado na proa do barco, e estava cheio de comestíveis, que não exalavam de si o melhor cheiro. (…) O leve rugido das águas serenas, os golpes compassados dos remeiros, e a espécie de cantochão que entoavam, fizeram-nos mergulhar em tão profundo sono, que não pôde perturbá-lo o estrondoso roncar da numerosa sociedade de ambos os sexos, que ia em nossa companhia. Assim chegámos na manhã seguinte a Ovar, sem termos sabido muito da nossa viagem nocturna” (Lichnowsky, 1844: 154). Mas talvez o mesmo alheamento não fosse de esperar em viajantes nacionais, como o pouco conhecido Guilherme Centazzi, pese embora o seu apelido italiano. Naquele que é considerado o primeiro romance moderno português, originalmente publicado em três tomos, entre em 1840-41, o autor, nascido em Faro, filho de um negociante veneziano naturalizado português, reportando-se a episódios da conturbada vida social e política da primeira metade do século XIX, descreve a dado passo da sua obra:

2 - É obviamente lapso do escritor, pois o rio Vouga nunca atravessou a cidade de Aveiro.

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“Saímos de Coimbra ao romper do dia; marchámos sem interrupção até alta noite, e fomos descansar algumas horas num lugar onde só havia três casas, uma das quais arvorámos em prisão: ao amanhecer nos pusemos novamente a caminho e chegámos a Aveiro às três da tarde. Os presos foram para a cadeia, e nós aboletados: tratei logo de procurar o meu quartel, com o qual facilmente dei; o patrão era padeiro, muito rico, e muito constitucional, segundo se dizia. (…) No dia seguinte, recebendo novamente os presos, nos embarcámos para atravessar a língua de mar, vulgarmente denominada Ria de Aveiro; a viagem foi demorada por falta de vento, e só às onze horas da noite chegámos a Ovar, aonde nos entregaram mais três presos, sendo um deles certo piedoso eclesiástico, que por caridade se dera à espionagem” (Centazzi, 2012:101-102). Retenha-se porém, ainda que indirectamente para aquilo que nos importa, uma referência que o autor faz, alguns capítulos antes, quando descreve o dia da sua partida para Coimbra: “ (…) De repente começámos a ouvir altos gritos pedindo socorro, corremos, e achámos um dos malaventurados caloiros, que, pouco afeito a cavalarias, e aterrado do temporal, se deixara levar do quadrúpede para a beira da estrada, aonde a chuva recente produzira um lameiro tão profundo que o triste se tinha atolado quase até ao pescoço, com macho e tudo!” (id:53). Ao que enfatiza: “Aqui foi uma cena digna do pincel enérgico de algum pintor de aldeia, dos que, nas horas vagas de sarapintar frontispícios de boticas, fazem românticos painéis de almas para as ermidas de fora da terra” (id:53). Sinal de que a prática da pintura de painéis já existia…3 Mas negligência contudo desculpável em Eça de Queirós, que, à excepção de algumas obras, fez de Lisboa o palco cosmopolita dos seus romances. No entanto, em carta escrita em 1884, dirigida a Oliveira Martins, diz o seguinte: “Querido Joaquim Pedro, Apesar de ter retardado ontem o meu jantar até às nove da noite, não pude desbastar a minha montanha de prosa. Levar as provas para os areais da Costa Nova, não é prático – ó homem prático! Há decerto lá a brisa, a vaga, a duna, o infinito e a sardinha – coisas essenciais para a inspiração – mas falta-me essa outra condição suprema: um quarto isolado com uma mesa de pinho. Vocês, com tipóia na estação, barco no rio, foguetes à espera e talvez literatos locais – não podeis faltar hoje. Eu é que, com todas estas folhas de provas, inumeráveis como as dos bosques, não sei mesmo se poderei ir amanhã, quinta-feira, a tempo. Não o anuncieis, pois, positivamente, ao nosso querido Luís Bandarra.4 Eu para lá me dirijo por toda esta semana. Filho de Aveiro, educado na Costa Nova, quase peixe da ria, eu não preciso que mandem ao meu encontro caleches e barcaças. Eu sei ir por meu próprio pé ao velho e conhecido palheiro do José Estêvão” (Queirós, 2001: 46).

3 - O mesmo se pode comprovar em “A Brasileira de Prazins”, de Camilo Castelo Branco, novela de 1882 mas cuja acção se desenrola em igual período e onde, a dado passo, descrevendo o aparato de um palco improvisado, o autor diz: “Parte dos mastros tinha uma lista em ziguezague pintada a zarcão que se ia espiralando pelo pau acima, com cercadura de cruzinhas: – era obra de Cheta, um trolha inspirado que já tinha pintado um painel das Alminhas, onde havia almas do sexo fraco com grandes tetas lambidas por lavaredas, e um rei coroado com a boca aberta no acto de berrar queimado, e tamanha boca que só cedia à de um bispo mitrado, muito empertigado, com o seu báculo” (Branco, s/d:131-132). 4 - Luís Cipriano Coelho de Magalhães (N.E.).

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Apenas por curiosidade e para contextualizar o assunto, diremos que é ao mesmo José Estêvão que Augusto Filipe Simões também se refere em carta já transcrita no número anterior desta revista: “O ilustre aveirense José Estêvão tinha aforado à Câmara de Ílhavo uma porção de areal ao sul da barra até à Costa Nova, e mandara aí semear pinheiros com a ideia de fazer naquele sítio (modesta ambição de um grande homem!) uma mata e uma quinta. Mas o primeiro dos modernos oradores estava muito aquém do último dos lavradores. A sementeira, feita em más condições, pouco produziu, e José Estêvão chegou ainda a ver desfeito mais este sonho da sua imaginosa fantasia” (Simões, 1975: 29). Já o amigo Joaquim Pedro do escritor Eça de Queirós é, como vimos, o historiador Oliveira Martins, que também se referiu à região e ao moliço nos termos seguintes: “Descendo ao litoral, o beirão é anfíbio: pescador e lavrador. A lavoura nasce do mar: os carros são barcos, adubos o moliço de algas e mariscos. Ao lado de um talhão de milho está uma marinha de sal. O mar insinua-se pelos canais retalhando a planície, em cujo centro, como uma artéria, corre placidamente oVouga. A três léguas da costa vê-se fundeado um barco: as mulheres cosem as redes, ao lado, sobre a terra húmida e negra, que os bois lavram, ou o cavador abre à enxada” (Martins, 1991: 39). Também Miguel de Unamuno, que pela região andou em peregrinação filosófica, deixou sobre ela algumas palavras impressas que é comum ver extraviadas e postas na boca de outros a quem, talvez por serem portugueses, acham que melhor lhes assentam em razão da sua nacionalidade. De Espinho, em Agosto de 1908, escrevia ele: “… a ria tem aqui algo de campestre; parece que se ruraliza. Os seus limites confundem-se em muitas partes; penetra pela terra em línguas de água. Para os lados de Estarreja, é habitual verem-se velas de embarcações cruzando um milheiral, e neste, à sombra das árvores, junto dos bois, as mulheres arranjando e remendando as redes de pesca. O campo e o mar, ambos verdes, como que se abraçam e misturam debaixo de um céu azul, oferecendo-nos a mais fiel imagem deste Portugal camponês e marinheiro, que, com os lenhos dos seus bosques, arou os mais remotos oceanos” (Unamuno, 2009: 44). Um pouco mais à frente, o mesmo escritor refere-se aos jugos do norte de Portugal. Porque o assunto se entrelaça com o nosso, transcreve-se de seguida o que sobre eles também diz: “E lá vão os bois lavrando o mar – é assim que se diz: lavrar o mar – jungidos com os curiosos jugos do norte de Portugal. (…) Estes jugos são das coisas mais curiosas que por aqui se podem ver. Os motivos ornamentais, quase sempre de traçado geométrico, variam, e neles pretende o senhor Joaquim deVasconcelos5 ver um reflexo da decoração romântica das portas das igrejas. (…)

5 - Joaquim de Vasconcelos (1849-1936), uma das figuras centrais no panorama da arte portuguesa da segunda metade do século XIX e das primeiras décadas do século XX, foi, no dizer de José-Augusto França, o “verdadeiro fundador da História da Arte em Portugal” (França in Leal, 2002:251-280).

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E entretanto, os boizinhos ruivos,6 cabisbaixos ao peso dos seus ornamentados jugos, suportando as armas de Portugal, seguem praia acima, pisando a areia e puxando as cordas da rede” (idem: 46). Voltando depois ao tema e fazendo uma reflexão sobre a arte popular em Portugal, embora sem aludir aos painéis dos moliceiros, conclui: “Da arte popular decorativa de Portugal o que ainda resta é a ornamentação dos jugos; e se alguém vir nesta observação intenções de simbolismo, dir-lhe-ei que tudo é simbólico” (idem: 53). Em 27 de Novembro de 1908, poucos meses depois de Miguel de Unamuno ter escrito estas palavras, o rei D. Manuel II visitou a cidade de Aveiro. Armando Tavares da Silva (2007) publicou, em edição de autor, um livro comemorativo da efeméride, no qual inclui diversas fotografias, algumas inéditas de Joshua Benoliel e Aurélio da Paz dos Reis, nas quais surgem barcos moliceiros onde são visíveis (obviamente a preto e branco) os seus característicos painéis. Fazendo-se eco das notícias publicadas, na ocasião, por diversos jornais locais e regionais, nada é porém referido quanto às pinturas destes painéis, até porque o barco escolhido para o passeio fluvial com que El-Rei foi presenteado era um barco saleiro: “Tripulavam o barco, que era rebocado pelo vapor Boa-Nova, barqueiros da nossa ria com o seu traje característico: ‘manaias’ brancas, curtas pelo joelho, blusa de cores e barrete vermelho com debrum creme. Acompanhavam-no, formando vistosa flotilha, dezenas de outros barcos, cheios de gente, que […] soltava vivas e outras demonstrações de entusiasmo e animação indescritíveis. Entre eles, muitos tinham vindo da Murtosa, com pessoas de todas as classes e de todos os pontos do concelho e que incorporando-se no cortejo real, proporcionaram a el-rei uma grandiosa manifestação, a que as nossas tricanas se associaram, atirando uma enorme profusão de flores sobre a majestade e entoando o orfeão [escolar] o hino D. Manuel”7 (Silva, 2007: 51-58). E nem mesmo Raul Brandão, que pela região estanciou, deixando impressivas páginas sobre a ria, faz qualquer menção aos painéis. Não se esquece porém do barco moliceiro e, na entrada do seu diário relativa ao dia 24 de Julho de 1920, refere-se-lhe do seguinte modo: “Este lindo barco serve para tudo.Vai à pesca e carrega o sal8 e o moliço pelas terras dentro. É o meio ideal de transporte entre estas terras ribeirinhas. Substitui os animais de carga, as diligências nas feiras e é o encanto da ria.Tem não sei quê de ave e de composição de teatro. Anima a paisagem. Às vezes usa uma vela latina,9 às vezes duas, a segunda colocada à proa e mais pequena. Navega à vela pelo interior das terras, e estou em dizer que é capaz de escorregar por cima das ervas. Não conheço outro mais artístico, mais leve, mais adequado às funções que exerce e à paisagem que o circunda. Esta manhã a ria está cheia deles que a cruzam em todos os sentidos, rapando-lhe infatigavelmente o fundo tapetado de cabelos verdes.

6 - Estes boizinhos ruivos são exemplares da raça marinhoa, que antes de se usarem na alagem das redes (cf. Cunha, 1994: 69) já se usavam e continuaram a usar, até ao advento da lavoura mecanizada, nos trabalhos agrícolas da região. Eram a tal ponto estimados que, lavrador que se prezasse olhava com desdém os exemplares de raça turina… 7 - O Povo da Murtosa, nº 175, 5 de Dezembro de 1908 (N. A.). 8 - Ir à pesca e carregar o sal é certamente exagero, para não dizer incorrecção. 9 - Também latinas não são as velas, mas trapezoidais.

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Amontoam-nos, metem-nos na terra ou secam-nos no areal para o Inverno.Todo o horizonte está cheio de velas. Saem da cinza e da noite, do lodo e das nuvens” (Brandão, 1973: 75). Um pouco mais tarde, em Os povos do Baixo Vouga, estudo inicialmente publicado em 1926 na revista Trabalhos da sociedade portuguesa de antropologia e etnologia, Jaime de Magalhães Lima, referindo-se à diferença de carácter entre ílhavos e murtoseiros, diz o seguinte: “Se em matéria de adaptação à vida rural o mareante de Ílhavo a negou absolutamente, de facto fechando a vila e não saindo a trabalhar nos campos fora de muros, para o mareante da Murtosa não será violência guiar a charrua em qualquer das freguesias da planura, mas nunca irá tão longe que suba as colinas e vá confundir a sua voz com a voz da serra. Mais lavrador que o seu parceiro do sul, nunca o será tão francamente que dispense a vizinhança das águas. Irá lavrar onde o barco lhe levar o jugo e a alfaia, e só até aí (idem, 1968: 66). Egas Moniz (1874-1955), no seu livro de memórias, lembrando os seus tempos de infância passados em Avanca e uma viagem que fez num barco mercantel, à Torreira, acrescenta porém o seguinte: “Os barcos moliceiros são os mais airosos e bem lançados que atravessam as águas da Ria. De proa muito arqueada, com as suas pinturas a cores vivas, de um primitivismo ingénuo, ora religiosas ora profanas, têm conservado o mesmo tipo, desde que me conheço. Repetem-se os motivos: «A Loba do Mar», Os dois Namorados», «Nossa Senhora do Mar», «A Coroa real» …10 Um nunca acabar de folclore pinturesco e de frases encorajantes! Cor e forma, alma de marinheiro a florir em crenças e a arrebatar-se em esperanças! (…) À popa do barco há outras ilustrações menos floridas, por serem os quadros mais pequenos,11 com os mesmos motivos que os artistas apresentam em policromias garridas, de bizarras e inéditas combinações de ornatos. (…) Na festa de S. Paio, a grande romaria da gente ribeirinha, a Ria coalha-se de barcos que provêm de todas as freguesias marginais. Abundam os moliceiros lindamente embandeirados, com sinais distintivos para que os tripulantes os reconheçam quando, encostados uns aos outros, formam, na Torreira, a frota da alegria” (Moniz, 1950: 128-129). Contudo, nada nos diz que os barcos moliceiros, anteriormente ao passo registado por Teófilo Braga, transcrito no último número desta mesma revista, não apresentassem já os painéis pintados. A obstar ao seu registo documental estará, antes de mais, a inexistência da

10 - Cf. Lopes (1997: 146): “Dísticos há, bastante antigos, como Bamos lá com Deus, Andar ce paça a bida, As mulheres querce gordas, A fama o longe toa, Aqui á respeito, Biba Portugal, etc. que têm sido repetidos ao longo dos anos”. Cf. Fabian (1986: 195): “During field research it soon became clear that a limited number of sujets were reproduced, often in great numbers”. Cf. Burke (2010: 188): “… las canciones y los cuentos, las obras de teatro y las pinturas populares, deben ser vistos como combinaciones de formas elementales, como permutaciones de elementos creados – más o menos – con anterioridade.” 11 - Cf. Sarmento (2008: 228), já anteriormente referida em nota-de-rodapé a propósito da mesma questão, que assevera o contrário.

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JOSÉ GURGO E CIRNE

fotografia ou a sua técnica incipiente. Por outro lado, convém notar o carácter circunscrito, em termos geográficos, da própria ria a uma área que, apesar da sua relativa extensão, era de difícil acesso,12 além de, como vimos, pouco atraente aos olhos do casual viajante. E, por último, não será também alheia a tal fenómeno a banalidade com que tais pinturas seriam encaradas pelos habitantes locais, assim como a previsível insignificância que as mesmas representariam aos olhos do visitante estrangeiro ou do nacional que, como Egas Moniz, de pronto as arrumaria sob o mesmo rótulo de primitivismo ingénuo.

BIBLIOGRAFIA Andersen, Hans Christian. 2003. Uma visita em Portugal em 1866. 4ª Edição. Vila Nova de Gaia, Edições Gailivro, Lda. Branco, Camilo Castelo. S/d. A brasileira de Prazins – cenas do Minho, Porto, Lello & Irmão, Editores. Brandão, Raul. 1973. Os pescadores. Lisboa, Estúdios Cor. Burke, Peter. 2010. La cultura popular en la Europa Moderna. 4ª Reimpressão. Madrid, Alianza Editorial. Centazzi, Guilherme. 2012. O estudante de Coimbra: ou relâmpago da história portuguesa desde 1826 até 1838. Lisboa, Planeta. Cunha, José Tavares Afonso e. 1994. Notas marinhoas (Vol. IV). S/l, Edição do Autor. Fabian, Johannes. 1986. Remembering the present: painting and popular history in Zaire. Berkley / Los Angeles / London, University of California Press. Leal, João.2002. “Metamorfoses da cultura popular: Joaquim de Vasconcelos,Vergílio Correia e Ernesto de Sousa”, in Etnográfica, Vol. VI (2), Lisboa, ISCTE, pp: 251-280. Lichnowsky, Príncipe. 1844. Portugal: recordações do ano de 1842. Lisboa, Imprensa Nacional. Lima, Jaime de Magalhães. 1968. Os povos do BaixoVouga. S/l, Câmaras Municipais de Ílhavo e Murtosa e Comissão de Turismo da Torreira. Lamy, Alberto Sousa. 2011. Monografia de Ovar (Vol. 1). 2ª Edição. Ovar, Câmara Municipal de Ovar. Lopes, Ana Maria. 1997. Moliceiros: a memória da Ria. Lisboa, Quetzal Editores. Martins, Oliveira. 1991. História de Portugal. 20ª Edição. Lisboa, Guimarães Editores. Moniz, Egas. 1950. A nossa casa. Lisboa, Paulino Ferreira, Filhos, Lda. Queirós, Eça. 2001. Correspondência. Lisboa, Livros do Brasil. Ramos, António Mora. s/d. Pequena história dos transportes. S/l, Direcção-Geral do Ensino Primário. Sarmento, Clara. 2008. Cultura popular portuguesa: práticas, discursos e representações. Porto, Edições Afrontamento. Silva, Armando Tavares. 2007. D. Manuel II e Aveiro: uma visita histórica (27 de Novembro de 1908). Edição do Autor, s/l. Simões, Augusto Filipe. 1975. “Cartas relativas a Aveiro”, in Arquivo do distrito de Aveiro, nº 161, pp: 23-34. Unamuno, Miguel de. 2009. Por terras de Portugal e de Espanha. Lisboa, Nova Vega, Lda.

12 - Em 28 de Outubro de 1856 procedeu-se à inauguração do primeiro troço do caminho-de-ferro, construído entre Lisboa e o Carregado (Ramos, s/d: 116), mas a ligação ao Porto (Gaia) só ficou concluída em 7 de Junho de 1864 (id: 130). Anteriormente “era tudo caminhos de carro e de pé; mesmo no Distrito não havia outra estrada além da de Lisboa ao Porto, passando por Mealhada, Águeda e Albergaria, etc. (…) Para se ir de Aveiro ao Porto entrava-se num barco de Ovar, assim chamado, que fazia carreira diária entre os dois pontos; quem podia, tomava a proa, se não já estava tomada; aliás, ia no convés e ao relento, e no inverno ao vento e à chuva. A partida era sempre às nove ou dez horas da noite, chegando-se a Ovar de manhã, às horas que o barqueiro queria. Ali justava a cavalgadura, havendo-a…” (Sousa in Lamy, 2001: 237).

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A BIBLIOTECA PRIVADA DE EGAS MONIZ CASA DO MARINHEIRO EM AVANCA Juliana Cunha* Nesta casa, onde estou escrevendo estas memórias, passámos dias alegres e ruidosos, agora igualmente felizes na calma outoniça da idade em convívio com alguns amigos, com os livros e passeios.

Egas Moniz1

Os livros e as bibliotecas estiveram sempre presentes na vida de Egas Moniz2. A casa do Marinheiro em Avanca3, transformada em Casa Museu Egas Moniz4 preserva e conserva um ambiente de extremo bom gosto, e recorda com clareza a ilustre individualidade que nela passava longas temporadas e onde em cada detalhe deixou impressos o seu estilo de vida e as suas predileções. Todos os recantos da Casa do Marinheiro em Avanca são ímpares, singulares e recheados de estórias da História, mas será sobre a ilustre biblioteca privada de Egas Moniz que dedicaremos este texto. A biblioteca privada de Egas Moniz fica situada na Casa do Marinheiro em Avanca e foi considerada uma das 21 mais belas bibliotecas histórias de Portugal5, distinto património cultural do Concelho de Estarreja e um relevante tesouro nacional com valor material e imaterial inigualável. Privada, museológica e única, pode ser vislumbrada numa visita à Casa do Marinheiro. Este “recanto de glória dos livros do nosso país”6 mantém-se intato desde a sua criação e quem o visita, percebe que o encanto da biblioteca privada de Egas Moniz em Avanca vai mais além das lombadas dos livros que o compõem. Local de lazer, mas também de reflexão, sente-se e percebe-se a importância do recanto onde muito aconteceu. As referências à biblioteca da Casa do Marinheiro levam-nos precisamente a constatar e a enaltecer a importância daquele espaço. Conforme escreveu Egas Moniz “Numa manhã de começos de Outono...sentei-me na cadeira de espaldar da minha biblioteca, recordando o que escrevera”7. Na mesma obra poderá ler-se “As sombras desapareceram, mas ainda sinto na retina o sorriso de bondade de minha irmã que ficou na atmosfera desta biblioteca e se espalhou por toda a Casa...”8. Recordando vivências na intimidade de Egas Moniz, o seu tio-avô, António Macieira Coelho escreveu “Em Avanca, chamava-nos à sua biblioteca... para ouvirmos as suas opiniões e recordações: ora políticas, ora científicas, ora entremeadas de referências literárias ou outras”9. * Licenciada em Ciência da Informação Arquivística e Biblioteconómica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. 1 MONIZ, Egas/A Nossa casa. Estarreja: Câmara Municipal, 2008. Pág. 371. 2 - António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz nasceu na freguesia de Avanca, em 29 de Novembro de 1874 e faleceu em Lisboa a 13 de Dezembro de 1955. Prémio Nobel da Medicina em 1949 pela Leucotomia pré-frontal. 3 - Reconstruída em 1915 sob os alicerces da modesta casa rural de família, com arquitetura de Ernesto Korrodi (1870-1944) e direção do Padre António Maria de Pinho(1964-1943), de Avanca. 4 - Inaugurada a 14 de Julho de 1968 e classificada como imóvel de interesse público pelo Decreto n.º 67/97 de 31-12-1997 5 - SILVA, Libório Manuel/Bibliotecas Maravilhas de Portugal. Lisboa: Centro Atlântico, 2013. 6 - Idem. 7 - MONIZ, Egas/A Nossa casa. Estarreja: Câmara Municipal, 2008. Pág. 401. 8 - Idem. 9 - COLEHO, António Macieira/Vivências na intimidade de Egas Moniz, in Pereira, Ana Leonor e Pita, João Rui (Org.)/Egas Moniz em livre exame. Coimbra: Minerva, 2000. Pág. 58.

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Personagem multifacetada e de grande envergadura inteletual, Egas Moniz notabilizou-se em vários campos, inclusive na escrita. Escritor de estilo aliciante e simples, publicou uma extensa e notável bibliografia. “Estudou apaixonadamente grandes vultos das letras e das artes portuguesas…donde resultaram algumas publicações.”10 “Ocupo as minhas horas de ócio, mais do que noutra coisa, em coisas literárias”11, confidenciava Egas Moniz numa entrevista aos 75 anos de idade. Na mesma entrevista, à pergunta “E também, acima de tudo, que é que V. Ex.ª desejava fazer?”, respondeu “Fazer um livro em que ando entretido”12. Mantendo o discurso coerente, e ocupando-se das mesmas paixões literárias, em entrevista aos 81 anos de idade, à pergunta “Qual a coisa que mais o distrai?”, Egas Moniz respondeu prontamente “Ler e escrever13. Egas Moniz iniciou cedo as suas publicações literárias, tendo publicado o seu primeiro trabalho aos 24 anos, sobre a “Anatomia Patológica da Difteria”.14 Aos 81 anos, na mesma entrevista, e respondendo à pergunta “Quantos artigos, opúsculos e livros publicou até hoje”?, Egas Moniz retorquiu “Perto de meio milhar”.15 Além de escrever, Egas Moniz era um bom leitor e apreciava a leitura, “passando pelos prazeres da literatura, especialmente do acto de ler boas obras e de escrever sobre elas e sobre os seus criadores”16.

1- Biblioteca privada de Egas Moniz, década de 20.17

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2 - Biblioteca privada de Egas Moniz, 2016.18

A biblioteca privada de Egas Moniz em Avanca ocupa um lugar de destaque na Casa do Marinheiro e uma sala com 64,75 metros quadrados, estrategicamente escolhido pela luz natural que trespassa as janelas e invade a atmosfera do recanto, onde o bow-window nos convida à reflexão e cria um espaço de quietude. Da decoração de porcelanas, esculturas e candeeiros percebe-se o bom gosto do proprietário. Do mobiliário da biblioteca da Casa do Marinheiro, conservado e preservado, destaca-se a mesa de trabalho em madeira trabalhada, que terá sido o palco de inúmeros trabalhos literários, o cadeirão de leitura confortável e ergonómico, o canapé, e o escadote que dá acesso às dezasseis estantes compostas por mais de cem prateleiras. Outro elemento curioso é a existência de uma lareira dentro da biblioteca. A leitura, a escrita e o extremo bom gosto de Egas Moniz andavam sempre de mãos dadas. Data de 1914 um tinteiro existente na Casa Museu Egas Moniz, produzido na fábrica da Torrinha,19 peça de beleza e raridade, era utilizada por Egas Moniz nas suas deambulações literárias.

10 - PEREIRA, Ana Leonor; PITA, João Rui/Egas Noniz em livre exame. Coimbra: Minerva, 2000. Pág. 33. 11 - Egas Moniz entrevistado aos 75 anos. Entrevista concedida à Revista Internacional, n.º 15, Dezembro de 1949. 12 - Idem. 13 - Egas Moniz entrevistado aos 81 anos. Entrevista publicada no Jornal do Médico, 27 (651) 1955, pág. 539 e inserta num ciclo de entrevistas intituladas “O que pensam e o que fazem os grandes nomes da Medicina Portuguesa”. 14 - Idem. 15 - Idem. 16 - PEREIRA, Ana Leonor; PITA, João Rui/Egas Noniz em livre exame. Coimbra: Minerva, 2000. Pág. 33. 17 - Postal da Biblioteca privada de Egas Moniz, década de 20 – Fundo Casa Museu Egas Moniz. 18 - Foto Juliana Cunha. 19 - Extinta fábrica localizada em Vila Nova de Gaia.

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3 - Mesa de trabalho da biblioteca privada de Egas Moniz, 2016.20

4 - CadeirĂŁo de leitura da Biblioteca privada de Egas Moniz, 2016.21

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5 - Réplica de tinteiro de 1914 utilizado por Egas Moniz.22

O vasto e rico património bibliográfico e documental desta biblioteca é de valor incalculável. O fundo bibliográfico é constituído por cerca de 2500 documentos, maioritariamente monografias, da literatura à poesia, da história à arte e da medicina ao teatro. Teófilo Braga, Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, Almeida Garret, Alexandre Herculano ou Eça de Queirós fazem parte dos autores clássicos portugueses que figuram nas estantes. Os autores estrangueiros William Shakespeare e Voltaire também ocupam lugar de destaque na biblioteca privada de Egas Moniz. O maior e mais antigo tesouro bibliográfico que esta biblioteca alberga é um exemplar da obra Os Lusíadas, de Luís de Camões, editado por Manoel de Lyra em 1597, com encadernação em pele e com cerca de 20 cm de altura. Local de reflexão, de conhecimento e de eleição, a biblioteca privada de Egas Moniz também ocultava alguns segredos. Estrategicamente colocado ao lado de outras obras, existe um livro cofre, que serviria para guardar e ocultar pequenos objetos de valor material ou sentimental.

20 - Foto Juliana Cunha. 21 - Idem. 22 - Foto Juliana Cunha. Uma das quinhentas réplicas da peça, produzidas e apresentada pelo Círculo de Leitores por ocasião das comemorações dos 50 anos da atribuição do Prémio Nobel. Encontra-se no átrio do salão nobre da Câmara Municipal de Estarreja.

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6 - “Os Lusíadas” de Luís de Camões, edição de 1597.23

7- Livro cofre.24

Egas Moniz era detentor de duas bibliotecas25, e o seu gosto por livros fê-lo adotar a tradição de usar um ex-libris 26. O ex-libris consiste numa estampa que geralmente é colada no verso da capa de um livro para indicar o seu proprietário. “O seu ex-libris obedece à tradição bibliófila, remetendo-nos para as suas referências culturais”27. 23 - Foto Juliana Cunha. 24 - Idem. 25 - Para além da biblioteca da Casa do Marinheiro, em Avanca, Egas Moniz também possuía uma biblioteca na sua Casa em Lisboa. 26 - Ex libris (do latim ex libris meis) é uma expressão que significa “dos livros de” ou “faz parte dos meus livros”, usada por bibliófilos para associar um livro a uma pessoa ou a uma biblioteca. 27 - PINA, Madelena Esperança; CORREIA, Manuel/Egas Moniz (1874-1955): cultura e ciência. Rio de Janeiro: História, Ciência, Saúde, 2012. Pág.431-449.

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Marca de posse e de sinal designativo, o ex libris de Egas Moniz contém uma imagem28, o nome do proprietário, seguido da legenda “Quando da etherea gavea hum marinheiro”, inspirada nos versos quinto e sexto da estância XXIV do canto V de Os Lusíadas de Luís de Camões. Metáfora original, o ex-libris de Egas Moniz encaixa na perfeição com a sua personalidade de homem culto e avançado no tempo.

8 - Ex-libris de Egas Moniz.29

A biblioteca da Casa do Marinheiro obedece a uma metodologia de organização bibliotecária30, composta por fichas bibliográficas de todo o fundo documental, catálogo de autores (onomástico), e catálogo de títulos. Estes instrumentos de pesquisa, organizados por ordem alfabética, permitem uma organização eficaz e uma consulta mais célere do fundo bibliográfico. As fichas bibliográficas contêm a informação do título, autor, editor, data da edição, número de ordem, volume (caso se adeque), estante e prateleira. Os catálogos bibliográficos de autores e títulos, encadernados a pele e datados de 1950, estão organizados com um número sequencial e por ordem alfabética, com a informação essencial de cada documento. Com estes catálogos impressos e acessíveis, os documentos exitentes na biblioteca privada de Egas Moniz são de rápida recuperação e consulta, aspetos essenciais em qualquer biblioteca.

28 - O ex-libris de Egas Moniz baseou-se num painel de azulejos produzido em 1915 da autoria de Jorge Colaço (1868-1942). 29 - Ex-libris – Fundo da Casa Museu Egas Moniz. 30 - Devido à organização biblioteconómica e à metodologia e ténicas usadas na biblioteca da Casa do Marinheiro, presumese que tenha sido contratado um/uma bibliotecário(a), à semelhança do que aconteceu na biblioteca da Casa de Lisboa, para a qual foi contratada a bibliotecária Maria Adelaide Corrêa Arouca, para realizar a catalogação, organização e arrumação do fundo bibliográfico daquela biblioteca.

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9 - Ficha bibliográfica da biblioteca privada de Egas Moniz.31

10 - Ficha bibliográfica preenchida da Biblioteca privada de Egas Moniz.32

Além das habituais ofertas, o fundo documental da biblioteca da Casa do Marinheiro foi maioritariamente adquirido. No arquivo pessoal de Egas Moniz encontra-se documentação alusiva à compra de livros para a biblioteca da Casa do Marinheiro. Nos referidos documentos verificase que em 1915 foram adquiridos à Livraria Ventura Abrantes localizada em Lisboa, inúmeros

31 - Modelo de uma ficha bibliográfica da Biblioteca privada de Egas Moniz. 32 - Exemplo de uma ficha bibliográfica da Biblioteca privada de Egas Moniz.

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exemplares, entre eles uma coleção de 80 volumes do autor Camilo Castelo Branco, escritor que Egas Moniz muito apreciava. Uma biblioteca desta envergadura exige cuidados redobrados, de modo a que os documentos sejam preservados e conservados. O acervo bibliográfico é maioritariamente constituído por livros antigos, o que implica uma redobrada atenção. A Casa Museu Egas Moniz tem adotado medidas de conservação para que os documentos se mantenham em bom estado de conservação, nomeadamente: higienização mecânica33; tratamento com pulverização contra o peixinho prata34; verificação sistemática da temperatura e humidade, de forma a não existirem oscilações acentuadas que podem danificar o acervo bibliográfico e uso de desumidificadores e termohigrómetro35. Os museus e as bibliotecas essas fontes de água pura, jorrando ensinamentos, são, na verdade, a maior herança, aquela herança que perdura.

Egas Moniz

11- Documento relativo à compra de livros para a biblioteca de Avanca, 1915.36

33 - Método de limpeza superficial que elimina sujidade e pó. 34 - Inseto bibliófago bastante comum em bibliotecas. 35 - Medidor de humidade e temperatura. 36 - Fundo pessoal de Egas Moniz – Casa Museu Egas Moniz.

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12– Compra de livros para a biblioteca de Avanca, 1915.37

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13- Compra de livros para a biblioteca de Avanca, 191538

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14- Compra de livros para a biblioteca de Avanca, 1915 39

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Personagem ilustre e um homem de grandes capacidades intelectuais, Egas Moniz deixou-nos um enorme património material e imaterial que nos devemos orgulhar. “Nos últimos anos da sua recheada existência recolhia-se mais demoradamente na aldeia, na contemplação da natureza, enchendo laudas de escrita, apreciando as pequenas histórias e os acontecimentos ocorrentes que o deliciavam”40. Rodeou-se sempre de belas coisas, e no que à biblioteca diz respeito, sentem-se em cada pormenor daquele recanto as recordações, as vivências e as histórias que por lá aconteceram. Consegue-se imaginar nitidamente na atmosfera da biblioteca o quotidiano do homem que lá passava longas temporadas. “Vezes sem conta vejo Egas Moniz, na sua biblioteca, rodeado de estantes de livros até ao tecto de bonitos apainelados em madeira a ler, ou a escrever, a receber amigos ou simplesmente a vaguear no tempo…”41

25 – Egas Moniz na biblioteca da Casa do Marinheiro, década de 20. 42 Referências Bibliográficas ANTUNES, João Lobo/Egas Moniz: uma biografia. Lisboa: Gradiva, 2011. COELHO, Eduardo/O sentido da cultura e da invenstigação científica em Egas Moniz. Lisboa: Edições cultura e ciência, 1957. MONIZ, Egas/A Nossa casa. Estarreja: Câmara Municipal, 2008. PEREIRA, Ana Leonor; PITA, João Rui/Egas Noniz em livre exame. Coimbra: Minerva, 2000. PEREIRA, Ana Leonor; PITA, João Rui; RODRIGUES, Rosa Maria/Retrato de Egas Moniz. Lisboa: Círculo de Leitores, 1999. PINA, Madalena Esperança; CORREIA, Manuel/Egas Moniz (1874-1955): cultura e ciência. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.19, n.2, abr.-jun. 2012, p.431-449. RODRIGUES, Rosa Maria/Casa Museu Egas Moniz – Recantos do Marinheiro in Terras de Antuã. N.º 9, Ano 9, 2015, p. 237-249. RODRIGUES, Rosa Maria/Egas Moniz – O Prémio Nobel in Terras de Antuã. N.º 3, Ano 3, 2009, p. 159-171. SILVA, Libório Manuel/Bibliotecas Maravilhas de Portugal. Lisboa: Centro Atlântico, 2013.

37 - Fundo pessoal de Egas Moniz – Casa Museu Egas Moniz. 38 - Fundo pessoal de Egas Moniz – Casa Museu Egas Moniz. 39 - Fundo pessoal de Egas Moniz – Casa Museu Egas Moniz. 40 - COELHO, António Macieira/Vivências na intimidade de Egas Moniz, in Pereira, Ana Leonor e Pita, João Rui (Org.)/Egas Moniz em livre exame. Coimbra: Minerva, 2000. Pág. 58. 41 - RODRIGUES, Rosa Maria/Egas Moniz. O encontro espiritual com o belo, in Pereira, Ana Leonor e Pita, João Rui (Org.)/ Egas Moniz em livre exame. Pág. 324. 42 - Fotografia – Casa Museu Egas Moniz.

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LUÍS MIGUEL PULIDO GARCIA CARDOSO DE MENEZES

O VÍNCULO DA CAPELA DE S. SIMÃO DO BUNHEIRO NO CONCELHO DE ESTARREJA, DISTRITO DE AVEIRO Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso de Menezes* Introdução O presente artigo procura realizar um estudo sobre a capela de S. Simão do Bunheiro, no então concelho de Estarreja (até 1926), distrito de Aveiro, fundada na era de 1600 pelo padre Simão Fernandes Ruela, procurando salientar: a sua localização; as principais características estruturais e arquitectónicas; a sua fundação e história ao longo dos tempos; e por último termina com alguns apontamentos / quadros genealógicos da família Ruela. Com as fontes que se encontram disponíveis para este estudo, procura-se mencionar os bens que compunham esta capela; os administradores que possuíram este monumento religioso; as vicissitudes judiciais, que surgiram ao longo dos tempos; e as sucessivas mudanças regulamentares legais em relação aos bens eclesiásticos.1

Capela de S. Simão do Bunheiro, Murtosa, Aveiro

* Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa em 2005, Licenciatura em História pela Universidade Autónoma de Lisboa “Luís de Camões”, em 1990, Curso de Especialização em Ciências Documentais, na opção de Documentação e Biblioteca pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entre 1998-2000, Sócio do Instituto Português de Heráldica e da Associação Portuguesa de Genealogia; documentalista e bibliotecário do sector audiovisual. 1 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e - Notas Marinhoas: Notícias Históricas do concelho da Murtosa e das duas freguesias marinhoas do concelho de Estarreja, vol. 1, Murtosa: Livraria Ramos, 1965, pp. 11-52 e MENEZES, Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso de - «O vínculo da capela de São Simão do Bunheiro e a família Ruela do concelho da Murtosa», in Raízes & Memórias n.º 31, Dezembro de 2014, Lisboa: Produção Gráfica - Tipografia Lobão, 2015, pp. 335-382.

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TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

Localização As freguesias de S. Mateus do Bunheiro2 e S.ta Maria da Natividade (no concelho de Estarreja até 1926)3, juntamente com as de Pardilhó e Veiros, têm grandes afinidades entre si, e formam uma região com individualidade própria desde remota idade, reconhecida geralmente com a designação topográfica de Marinha.4 A meio da estrada (E.N. 224-2), que liga o lugar da igreja ao do Esteiro, na freguesia do Bunheiro e na confluência com um caminho municipal, encontrase uma pequena ermida conhecida pelo nome de capela de S. Simão, situada no antigo lugar de Romariz. Este templo religioso, localizado na freguesia de S. Mateus do Bunheiro, esteve desde a sua fundação entre 1600 até 1926, inserido no concelho de Estarreja, passando a partir daquela última data a estar englobado no concelho da Murtosa, tudo no distrito de Aveiro. Características estruturais e arquitectónicas Em termos estruturais e arquitectónicos, este monumento é de proporções modestas e de forma circular, sendo constituído por dois volumes distintos: 1º um corpo de parede em forma cilíndrica completamente lisa e coberta por uma cúpula semiesférica de tijolo de arco inteiro, sem revestimento de telhas; e 2º por uma capela-mor rectangular. Existe apenas um ligeiro cordão a limitar a linha das paredes.

Planta da capela de S. Simão do Bunheiro

2 - cf. A freguesia e orato de S. Mateus do Bunheiro, era curato anexo à freguesia de Avanca no termo e antiga comarca da Feira, passando mais tarde a reitoria independente. Pertencia ao concelho de Estarreja e passou ao concelho da Murtosa por decreto de 29-10-1926, que criou este concelho. No âmbito das Constituições Sinodais do bispado do Porto, publicadas em 1690, referia que por esta altura esta freguesia de S. Mateus do Bunheiro, seria constituída por 477 fogos, no total de 1800 habitantes, dos quais 1278 maiores e 513 menores. 3 - cf. A freguesia e orago de S.ta Maria da Natividade em Murtosa, Aveiro, era curato, anexo à reitoria de S. Tiago de Beduído, no termo da vila de Estarreja. Passou depois a freguesia independente com o título de reitoria. No decorrer das Constituições Sinodais do bispado do Porto, publicadas em 1690, referia que por esta altura esta freguesia de S.ta Maria da Natividade, seria constituída por 418 fogos, no total de 1515 habitantes, dos quais 1290 maiores e 225 menores. Os lugares principais desta freguesia eram Agra, Pardelhas, Ribeiro, Murtosa e Monte. 4 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., nota introdutória.

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LUÍS MIGUEL PULIDO GARCIA CARDOSO DE MENEZES

A porta principal da capela é de moldura rectangular, sendo precedida por um conjunto de degraus e ladeada de dois pequenos postigos ou janelas gradeadas. No lintel do portal foi gravada a inscrição: «ESTA CAPELA FES O PADRE SIMÃO FRZ RVELA NA ERA DE 1600».

Inscrição frontal da capela

Na parte oposta, à única porta que se encontra ladeada por dois postigos rectangulares protegidos por grades, temos a existência de um pequeno corpo de planta rectangular, coberto por um telhado com duas águas. Do lado direito da porta, destaca-se um campanário coroado por uma pequena cruz, sem sineta, que foi retirada. O conjunto é coberto por uma cúpula, que foi rematada por uma cruz à muito destruída pelos temporais. O seu sino, bem como o da igreja, segundo uma ementa testamentária, deveria ser tangido de dia e de noite, desde a hora do falecimento até ao seu enterro. O interior, de espaço único é coberto por uma abóbada em meia laranja. Um arco abatido, sem qualquer decoração, separa os dois espaços do templo. No chão, foi edificada uma campa rasa de calcário do fundador Simão Fernandes Ruela, que não apresenta qualquer inscrição, apesar de o instituidor ter ordenado em testamento a obrigatoriedade de ser gravada uma inscrição naquela «Deixo que meu corpo seja enterrado na capela e ermida do Apóstolo São Simão, aonde me porão uma campa com o título do meu nome, instituidor da mesma capela». A capela-mor, actualmente pintada de azul, possui um altar que ocupa todo o espaço, encimado por um nicho que alberga nos dias de hoje, a imagem ao centro do padroeiro - S. Simão, sendo ladeada à esquerda com a imagem de N. S.ra de Fátima e à direita com a imagem do Sagrado Coração de Jesus. As poucas cantarias antigas são de calcário, mas há degraus de xisto.

Imagem do padroeiro S. Simão na capela-mor de S. Simão do Bunheiro

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Imagem do padroeiro S. Simão ao centro, sendo ladeada à esquerda com a imagem de N. S.ra de Fátima e à direita com a imagem do Sagrado Coração de Jesus na capela-mor de S. Simão do Bunheiro

Este monumento, foi classificado de valor concelhio / interesse municipal por decreto-lei n.º 45/93, DR, Iª Série-B, n.º 280, de 30-11-1993.5 Esta capela é vulgarmente conhecida como “capela do Forno”, pela sua configuração circular, coberta por uma cúpula semiesférica, lembrando o aspecto de uma mesquita árabe, sem ter apesar disso, qualquer relação com esse tipo de edifícios. Este templo, é um dos exemplares de arquitectura religiosa de planta circular da região de Aveiro, construídos desde a segunda metade do século XVI até ao século XVIII, apresentando muitas semelhanças com a capela de S. Bartolomeu de Aveiro (1568), tanto ao nível estrutural, arquitectónica (cúpula arredondada), dimensões, como na depuração decorativa, muito ao gosto da arquitectura chã. Maria Augusta Almeida Pinto, refere que as capelas de forma circular são «curiosamente as de maior antiguidade e de arquitectura mais simples, por vezes lembrando uma arquitectura popular (…)».6

5 - cf. Decreto-lei n.º 45/93, in Diário da República, Iª Série-B, n.º 280, de 30-11-1993, Anexo III, Valores Concelhios - Distrito de Aveiro, Município da Murtosa, referindo: Capela de São Simão, a nascente da estrada nacional n.º 224-2 e a poente da estrada nacional n.º 1394, freguesia do Bunheiro, p. 6702. Consideram-se imóveis de interesse municipal ou de valor concelhio, os bens cuja protecção e valorização, no todo ou em parte, representem um valor cultural de significado predominante para um determinado município, in Título IV, artigo 15º, ponto 6 do decreto-lei n.º 107/2001 de 8-92001, in Diário da República, Iª Série-A, n.º 209 de 8-9-2001, p. 5808. 6 - cf. PINTO, Maria Augusta Almeida - Edifícios religiosos de planta centrada entre Vagos e V. N. de Gaia (faixa litoral), in revista Espaço e Memória n.º 1, Porto, 1996 e GONÇALVES, António Nogueira - Inventário Artístico de Portugal - Distrito de Aveiro, 1959, pp. 120-121.

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A fundação e história da capela de São Simão do Bunheiro A capela de S. Simão, conforme já foi referido, foi mandada construir pelo padre Simão Fernandes Ruela (* cerca de 1570 - † antes de -10-1634) na era de 1600. A 15-2-1632, o referido sacerdote fazia testamento, instituindo um morgadio-capela em honra de S. Simão e com o propósito de sufragar a sua alma, nomeando seu primeiro administrador, o sobrinho Mateus André. Nesse documento, lavrado a 15-2-1632, no lugar de Sedouros, termo do concelho de Antuã, deixava minuciosamente descritas as condições e os bens que vinculava à dita capela. No testamento de 1632, deixava determinado que o seu corpo fosse depositado numa campa rasa na dita capela de S. Simão do Bunheiro com epitáfio de seu nome: «Deixo que o meu corpo seja enterrado na Capela e Ermida do Apóstolo São Simão, que para isso acharão encostada a este testamento uma licença do Senhor Bispo do Porto, aonde me porão uma campa com o título do meu nome, instituidor da mesma Capela; e sendo caso que Nosso Senhor seja servido levar-me em alguma parte deste Reino, quero meu corpo seja trazido à dita Capela à custa da minha fazenda, ou pelo menos, a ossada, que assim é a minha última vontade (…)».7

Campa rasa de calcário do fundador Simão Fernandes Ruela (sem inscrição)

Nesse documento, referia as obrigações que estariam vinculadas à dita capela «declaro que tenho obrigada a minha fazenda à capela do Apóstolo São Simão, como instituidor dela (…)», determinando que se realizem «uma missa cantada e duas rezadas, todos os anos, enquanto o mundo durar (…)» e de «(…) um oficio de três lições, com quatro padres, que todos digam missa todos os anos por mim e por meu

7 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., pp. 13, 15-16 e Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso de Menezes, op. cit., pp. 337-339.

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Pai e Mãe e mais obrigações (…)». Nomeava como sucessor na capela, seu sobrinho Mateus André (* cerca de 1600- ) ou seu irmão João André (* cerca de 1600- ) «na dita capela nomeio a meu sobrinho Mateus, filho de Mateus André, da Murtosa, fazendo-se clérigo e não o sendo ou metendo-se em alguma Religião ou que Deus o leve, em tal caso nomeio a João seu irmão (…)».8 No caso de nenhum destes se fizesse clérigo, regulava a forma de sucessão na capela que seria, no parente mais próximo até ao 4º grau deste ou do administrador da capela que se fizesse eclesiástico «E sendo o caso que nenhum deles se faça clérigo, em tal caso nomeio a dita capela em um sobrinho meu, filho de meus irmãos, o primeiro que se fizer clérigo, e assim quero e é minha última vontade; e o primeiro que suceder na dita capela nomeará em parente mais chegado, meu ou seu, até ao quarto grau; e sendo caso que os sobreditos não nomeiem, por algum impedimento, em tal caso hei por nomeado na maneira sobredita, e quero que sempre suceda em clérigo parente mais chegado, para que com mais devoção e diligência corra com as obrigações neste testamento nomeadas (…)». Depois referia os legados vinculados à dita capela, para manter as despesas inerentes à conservação do edifício e missas sufragadas: o Chão de Romariz, que partia do norte com caminho que ia para a marinha do Colmeno, que levaria de semeadura 10 alqueires de pão; o Chão dos Aleixos, que partia do norte com caminho que ia para a Lamegada, que levaria de semeadura 3 alqueires; o assento de casa onde morava, com todas as benfeitorias que nelas havia e chão em redor, que levaria 3 alqueires; e o pinhal que estava em redor da capela, que partia do nascente e do mar com caminhos públicos.9 Deixava a seus herdeiros, irmãos e sobrinhos três propriedades: a terra de Cabo Romariz, que partia do nascente com Pero Vaz Jorge e do norte com a praia, que levaria de semeadura 4 alqueires, deixando-a, a todos os herdeiros, com a obrigação de três missas anuais a si e a seus pais; a vessada de Cabo do Covelo, que partia do norte com a praia e do nascente com a marinha do sal, que levaria de semeadura 5 alqueires, deixando também a seus herdeiros na forma acima declarada; o Chão da Carmaneira, que partia do nascente com João Fernandes dos Sedouros, e do norte com caminho público, que levaria de semeadura 4 alqueires aos ditos herdeiros, com outras 3 missas perpétuas, na forma acima declarada; deixava as suas casas na Rua Nova em Aveiro, a Luísa Fernandes, mulher de Afonso Fernandes, com a obrigação de 5 missas anuais. Assim pode-se afirmar que os bens vinculados à capela, estavam indicados com clareza no testamento: uns tornavam os bens inaliáveis e indivisíveis, constituindo capela propriamente dita ou vinculada; os outros, não interferiam na disponibilidade dos bens e só por semelhança recebiam o nome de capela.10 Caso estas determinações, obrigações e cláusulas não fossem observadas, nomeava e instituía como administrador, o cura ou vigário que residisse então na igreja paroquial de S. Mateus do Bunheiro, não podendo estes bens imóveis ser vendidos, alienados ou partilhados por qualquer herdeiro. O auto de aprovação deste documento foi realizado pelo tabelião António da Cunha e assinado pelo padre Simão Fernandes Ruela e pelas testemunhas presentes: Jerónimo Mateus, de Pardilhó, Juiz e Francisco Nunes, João Rodrigues, António de Figueiredo, António Nunes, António Fernandes, Sebastião Domingues e Domingos Fernandes, todos do lugar de Sedouros e concelho de Antuã a 16-2-1632.11

8 - cf. MENEZES, Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso de, op. cit., p. 337. 9 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., pp. 16-19, 23-24. 10 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., p. 22. 11 - cf. MENEZES, Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso de, op. cit., pp. 337-339 e 374-375.

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Segundo José Tavares Afonso e Cunha, esta capela de S. Simão era uma «construção dos finais do século XVI e constitui uma relíquia do tempo em que dominava Portugal o rei Filipe III de Espanha e em que a freguesia do Bunheiro ainda se identificava como pertencendo ao concelho de Antuã». A origem da capela de S. Simão, está ligada a uma relevante instituição do passado jurídico e social do País - a dos morgados: este monumento foi o centro ou núcleo dum acervo de bens vinculados. Segundo afirma José Tavares Afonso e Cunha, na sua monografia “Notas Marinhoas”: «diziam-se vinculados os bens que alguém sujeitava a uma especial e perpétua forma de sucessão, sem nunca poderem ser divididos nem alienados. A pessoa que os sujeitava a essa forma de transmissão chama-se instituidor e o encarregado de cumprir a vontade do instituidor, a pessoa que detinha e fruía os bens em sua vida, era o administrador. Se a instituição, se destinava a conservar o lustre e a nobreza da família, tinha o nome de morgado; se realizava a piedade do instituidor e tinha por fim sufrágios de alma, titulava-se de capela».12 Só que nem sempre esta distinção se apresentou nitidamente vincada, pois por via de regra, o morgado era acompanhado de encargos pios, missas e ofícios pelas almas do instituidor e dos seus familiares mais próximos e às capelas, andavam agregados rendimentos e benesses para os administradores mais vultuosos, que os directamente aplicados aos fins de piedade. Com o decorrer do tempo, as capelas passaram a confundir-se com os morgados e a ser também designadas por este nome.13 Os morgadios, poderiam ser de livre nomeação, quando ao administrador se deixava a escolha de quem lhe havia de suceder, e familiar ou de geração, quando devia verificar-se em membros de determinada família ou por laços de parentesco, normalmente com o instituidor. Dizia-se regular, quando seguia as normas estabelecidas para a sucessão legítima, e irregular, quando se operava em oposição ou divergência da ordem legal. O padre Simão Fernandes Ruela, elegeu um sistema misto: a capela ficou de nomeação, porque se deixava ao administrador a indicação do seu sucessor; mas, pôs-se-lhe a condição familiar, ao limitar-se o campo de nomeação aos clérigos mais chegados ao instituidor ou administrador em quarto grau. Refira-se ainda duas características importantes na sucessão deste vínculo: era irregular, por depender de nomeação subordinada à geração, e era eclesiástico, por ter de andar sempre em clérigo.14 A família Ruela, descendia de Francisco Fernandes Ruela, possivelmente natural do concelho da Murtosa ou Estarreja, distrito de Aveiro, nascido cerca de 1550, pai além do citado padre Simão Fernandes Ruela, de seus irmãos, João Fernandes Ruela (* no concelho da Murtosa, Aveiro (?) cerca de 1570- ), casado com [?]; […] Fernandes (* no concelho da Murtosa, Aveiro (?) cerca de 1570- ), casada com Mateus André, da Murtosa; Maria Fernandes (* no concelho da Murtosa, Aveiro (?) cerca de 1570- ), casada com Pedro Anes; e provavelmente Luzia Fernandes (* no concelho da Murtosa, Aveiro (?) cerca de 1585- ), a quem o Padre Simão Fernandes Ruela, deixava umas casas na Rua Nova em Aveiro e a obrigação de cinco missas perpétuas todos os anos (1 cantada, 2 rezadas e 2 pelos pais) no testamento de 15-2-1632: «Deixo as minhas casas de Aveiro, que tenho na Rua Nova, a Luzia Fernandes, mulher de Afonso Fernandes, sendo viva a esse tempo, com obrigação de cinco missas todos os anos perpetuamente, ditas na ermida do Apóstolo São Simão, na forma atrás declarada, e, sendo morta, em tal caso as deixo a meu sobrinho Mateus

12 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., pp. 11-12. 13 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., pp. 11-12. 14 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., p. 25 e Correio do Vouga, n.º 2516 de 14-11-1980, pp. 5-6.

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e aos mais que sucederem, com as ditas cinco missas ditas por minhas obrigações. Declarado que, se a esse tempo ainda estudar e nelas morar meu sobrinho Mateus ou seu irmão João, nesse meio tempo as não goze a dita Luzia Fernandes, mas as missas se digam na forma acima e atrás declarada», que casou com Afonso Fernandes.15

Armas Ruela

Da descendência dos irmãos do prelado, provém diversos ramos, ora em S. Mateus do Bunheiro, ora em S.ta Maria da Natividade. A esta família pertenceram três ilustres prelados, D. Francisco Maria da Silva (1910-1977), Arcebispo de Braga (1963-1977), D. Frei Francisco Rendeiro (1915-1971), Bispo de Coimbra (1967-1971) e D. Júlio Tavares Rebimbas (19222010), Bispo do Porto (1982-1997). As suas armas são: de vermelho, com seis besantes de prata. Timbre: um leão de prata, com uma arruela de vermelho na espádua.16 Não se sabe a data certa da morte do Padre Simão Fernandes Ruela, que deverá ter ocorrido antes de Outubro de 1634, pois foi realizada a superintendência (ou tombamento) nos bens e almas no lugar de S. Tiago de Beduído, do concelho de Antuã por Manuel Manso da Fonseca, provedor da comarca de Esgueira a 6 e 7-10-1634, dando cumprimento às suas determinações de piedade, dos bens encapelados, confrontação e à demarcação dos prédios pelos herdeiros. Pela administração da capela figuraram Mateus e seu pai Mateus André e, como proprietários dos demais bens, apareceram João Fernandes, André Rodrigues e António Francisco e os filhos de André Mateus. Para louvados, na diligência de medir, confrontar e demarcar os imóveis, nomeou Mateus André a João Fernandes, e os restantes legatários nomearam Mateus André. Como o 15 - cf. Parece-me bastante provável que a Luzia Fernandes, seja irmã do Padre Simão Fernandes Ruela, visto receber do irmão, não só as casas que este possuía na Rua Nova em Aveiro, e ficar encarregue de celebrar 5 missas perpétuas, das quais duas a seus Pais. Além disso, é uma das principais contempladas de bens imóveis na família Ruela. Acresce a tudo isto, os seus netos receberem os mesmos nomes dos sobrinhos do padre Simão Fernandes Ruela; Mateus, João e Domingos, que são padrinhos nos seus baptismos. 16 - cf. MATOS, Armando de - Brasonário de Portugal, Porto: Livraria Fernando Machado, 1943, p. 110, Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura, vol. XVI, Lisboa: Editorial Verbo, 1974, p. 950 e MENEZES, Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso de, op. cit., pp. 336-337.

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provedor da comarca, concordou com os interessados, na avaliação das propriedades, interveio apenas um perito. No final deste processo, os louvados assinaram as suas louvações e Mateus André de cruz e o provedor, julgou-as por sentença judicial de 13-10-1634.17 Até aos finais de seiscentos, não terá havido dificuldades de maior ao acesso à capelania, pois o parentesco com o padre Simão Fernandes Ruela, contava-se remontando aos pais, tronco comum de toda a posteridade sucessível e à proximidade dos graus que condicionava a escolha.18 No ano de 1686, era administrador da capela, o padre António da Silva, que ao ser nomeado, teve como concorrente o padre André Nunes Correia. Nesse ano (1686), Diogo Tavares, pároco de Avanca (pelo menos desde 1662), habilitou-se a administrador da capela, mediante petição escrita a Manuel Teixeira de S. Payo, Provisor e Vigário Geral do bispado do Porto, o qual julgou favoravelmente a 26-10-1686 «Visto este autos, e como deles se mostra que o padre Diogo Tavares, da freguesia do Bunheiro, é clérigo parente mais chegado do padre António da Silva, último e imediato administrador que foi da capela de São Simão, feita na dita freguesia do Bunheiro, e considerado o favor do testamento do instituidor, deve suceder na administração dela, julgo ao dito padre justificante por administrador da dita capela e mando se lhe dê posse dos bens vinculados a elas, e pague as custas (…)».19 Em 1724 era administrador da capela de S. Simão, o Padre Mateus Afonso Ruela (baptizado em S. Mateus do Bunheiro, Murtosa, Aveiro a 10-12-1656, e que morreu aí entre 11-1724 e 1725), pároco da igreja de S. Mateus do Bunheiro, Murtosa, Aveiro (desde 1695 até 1724) e irmão da confraria de N. S.ra Senhora da Alumieira. Era este clérigo, neto materno de Domingos Fernandes, do Bunheiro, sobrinho do padre Simão Fernandes Ruela, que no testamento o mandou embora com 10 cruzados de legado. Em 24-11-1724, já doente e sem poder escrever, pediu ao licenciado António da Silva, do lugar de Sedouros, que lhe escrevesse o testamento. Nesse documento, destinava os bens de raiz aos sobrinhos filhos de seus irmãos Domingos (bapt. a 9-1-1667 - ) e Mariana (bapt. a 25-6-1673 - ), particularizando que certos desses bens seriam para património de João, filho do primeiro e de Manuel Afonso, filho da segunda, ordenando-se este de missa. A sobrinha Maria, irmã do citado Manuel Afonso, ficou com o encargo vitalício duma amenta por alma de Catarina André (sua avó paterna), a onerar legado duma terra do Porto Pequeno. Quanto à capela de S. Simão, instituiu como sucessor o sobrinho Manuel Afonso (* 26-5-1705 - ), clérigo in minoribus, deixando-lhe os rendimentos da terra do Covelo, para o custo das obras de manutenção da dita igreja. Caso esta nomeação não surtisse efeito e o seu sobrinho não sucedesse na administração da capela, os rendimentos dessa terra reverteriam para os seus herdeiros com a obrigação de «dez missas por uma vez». A aprovação do testamento, foi lavrada a 25-11-1724, pelo tabelião público do judicial e notas da vila de Estarreja, João de Azevedo Varela e Cunha, que para tal fim se deslocou ao lugar do Bunheiro e casas de morada do testador, sendo testemunhas além de outros, os padres António João de Burgo [ou Gurgo] e Manuel Lopes, ambos da freguesia do Bunheiro.20

17 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., pp. 23-24 e Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso de Menezes, op. cit., p. 339. 18 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., p. 25 19 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., p. 26. 20 - cf. Centro de História da Família, S. Mateus do Bunheiro, Murtosa, Aveiro, Baptismos, Casamentos e Óbitos (16351705), 1656, TIF. 319, fl. 21 v.º ?; e José Tavares Afonso e Cunha, op. cit., pp. 22-23, 26-30 e MENEZES, Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso de, op. cit., pp. 340-343. Até quase ao fim do século XVII, não houve qualquer contrariedade de maior no acesso à administração da capelania de S. Mateus do Bunheiro, pois o parentesco com o padre Simão, contava-se remontando aos pais, tronco comum de toda a prole sucessível. Apenas começam as querelas familiares em 1686 e cerca de 1724-1726, após a morte do padre Mateus Afonso Ruela, que vão ser recorrentes ao longo dos tempos.

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Baptismo de Mateus Afonso Ruela em 1656

Assinatura padre Mateus Afonso Ruela (1656-1724/5)

Vivia nesse tempo, o Padre Francisco da Silva Ruela (baptizado no lugar de Pardelhas em S.ta Maria da Natividade, Murtosa, Aveiro a 10-6-1689- )21, presbítero do hábito de S. Pedro, residente em S. João da Madeira na sub-região de Entre Douro e Vouga, integrando a região Norte e o distrito de Aveiro, que não se conformando com a nomeação feita, resolveu apresentar um libelo na diocese do Porto (em -8-1725), a discutir a legalidade da sucessão da administração da capela de S. Simão do Bunheiro contra seu primo Manuel Afonso, clérigo in minoribus, vencendo todas as causas judiciais que colocou contra o seu parente, nomeadamente: no tribunal eclesiástico do Porto a 1-6-1726, na Relação e Tribunal Primaz de Braga a 19-8-1726 e no Tribunal Apostólico de Roma, Vaticano no final de 1726. Nessas causas, advogava a qualidade de presbítero e de ser o mais próximo parente do instituidor da capela. Da árvore genealógica que apresentou, mostrava ser «filho de Manuel André Guedes, já defunto e deVitória Fernandes Ruela, da freguesia da Murtosa, filha de Francisco Fernandes Ruela e neta paterna de João Fernandes Ruela, este último irmão inteiro do padre Simão Fernandes Ruela, por ambos serem filhos dum mesmo matrimónio de seu pai, que se chamava Francisco Fernandes Ruela».22

Baptismo do Padre Francisco da Silva Ruela em 1689

21 - cf. Centro de História da Família, S.ta Maria da Natividade, Murtosa, Aveiro, Baptismos, Casamentos e Óbitos (16671693), 1689, TIF. 307, fl. 29. 22 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., pp. 30-33 e MENEZES, Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso de, op. cit., pp. 361-362.

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Por sua vez, Manuel Afonso (* em S. Mateus do Bunheiro, Murtosa, Aveiro a 26-5-1705- )23, clérigo in minoribus, que usava o hábito clerical de S. Pedro, sustentou nas causas judiciais que teve com seu primo o padre Francisco da Silva Ruela, pela administração da capela de S. Simão do Bunheiro e que perdeu, que não era necessária ordenação de missa quando se abria a sucessão, visto que o instituidor nomeara seu sobrinho Mateus, em segundo João seu irmão, e em terceiro de seus sobrinhos, o primeiro que se fizesse clérigo; todos leigos e só o primeiro “escassamente estudado”; argumentava que bastava aptidão de ordens, o que nele se verificava, pois era clérigo in minoribus, andava tonsurado e usava o hábito de S. Pedro e esperava receber ordens sacras de presbítero. Além disso, entendia quando ao parentesco com o instituidor ou administrador, estava ele em 2º grau, ao passo que o padre Francisco em 4º grau; acrescia ser também parente do instituidor por outro ramo, pois era filho de João Rodrigues e de Mariana Fernandes; neto paterno de João Rodrigues e de Margarida Manuel; por esta sua avó paterna é bisneto de João Fernandes e de Madalena Manuel; trineto de João Fernandes Ruela, também ascendente do padre Francisco da Silva Ruela e irmão do padre Simão Fernandes Ruela.24

Baptismo de Manuel Afonso em 1705

Ainda nesse tempo vivia um segundo sobrinho do padre Simão, que era o padre Mateus André da Silva, da Murtosa, que perante esta causa absteve-se dos seus direitos, que deveriam prevalecer sobre os de qualquer dos outros contentores. Assim ficava por enquanto claro quem deveria administrar o vínculo e durante 90 anos, transmitiu-se este em paz, segundo o parentesco e vontade dos administradores. Ao padre Francisco da Silva Ruela (1689- ), sucedeu seu sobrinho o Padre Francisco José Guedes Ruela (* em 1727 - † 14-4-1792), de Pardelhas, que faleceu com 65 anos de idade, depois de ter testado a administração ao sobrinho Francisco Félix Guedes Ruela Valente, filho de seu irmão

23 - cf. Centro de História da Família, S. Mateus do Bunheiro, Murtosa, Aveiro, Baptismos, Casamentos e Óbitos (17041769), 1705, TIF. 16, fl. 11 v.º. José Tavares Afonso e Cunha, na sua obra “Notas Marinhoas” refere que o seu pai, João Rodrigues, era filho de Margarida Manuel; neto materno de Madalena Manuel; bisneto materno de João Fernandes e trineto de João Fernandes Ruela, também ascendente do padre Francisco da Silva Ruela e irmão do padre Simão Fernandes Ruela. Contudo, não é esta a ascendência mas sim, a acima citada, pois coloca duas gerações entre a dita Margarida e o João Fernandes Ruela, o Novo, o que perfazia apenas 13 a 14 anos entre as mesmas gerações, consulte-se José Tavares Afonso e Cunha, op. cit., pp. 31-32. 24 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., pp. 31-33 e MENEZES, Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso de, op. cit., pp. 340-343.

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o Capitão João Guedes Ruela Valente (1736- ), e na sua falta ao Padre Francisco José Guedes Ruela Valente ( - ), outro sobrinho, filho de sua irmã Teodósia Maria Guedes Ruela Valente (17??- ). Foi este último, o Padre Francisco José Guedes Ruela Valente ( - ), que sucedeu na administração da capela de S. Mateus de 1792 a 1802, por modo irregular e contra a lei de 3-8-1770.25 Foi durante a administração do Padre Francisco José Guedes Ruela (1727-1792), de Pardelhas, filho de João Guedes Ruela (1694- ) e de Leocádia Valente de Oliveira, que foi abolida e interditas as sucessões de administrador eclesiástico pela lei de 9-9-1769 e reduzidos os morgados irregulares, à natureza de regulares nas pessoas que os administravam pela lei de 3-8-1770. A partir daqui, a sucessão deverá verificar-se na linha dos descendentes, quando transmitidos por ascendentes, e entre irmãos e filhos de irmãos, quando transmitidos por linha transversal. Assim, a sucessão do vínculo de S. Simão do Bunheiro, passou a nunca mais poder andar em clérigo, e retirou-se aos seus administradores, a faculdade de nomearem os respectivos sucessores por modo oposto às regras legais estabelecidas. Contudo, este pároco no testamento com que faleceu e os seus imediatos sucessores, não atenderam a estas regras legais; por isso veio a ser travada entre os seus descendentes, uma disputa legal sobre o representante legal deste vínculo.26 Após a morte do Padre Francisco José Guedes Ruela (1727-1792), administrador da capela de S. Simão, ocorrida a 14-4-1792, era irmão mais velho, Manuel Guedes Ruela Valente (* a 16-9-1730 - † 27-4-1806), que só veio a falecer a 27-4-1806. Ficou representado nos direitos do vínculo de S. Simão, por seu filho Francisco José Guedes Ruela Valente (* 22-2-1761 - † 25-111844), Administrador da Capela de S. Simão (de 23-7-1835 a 25-11-1844), casado com Maria Fernandes Valente e morador no lugar da Lavegada dos Sedouros. Foi este quem intentou a acção judicial de reivindicação da capela de S. Simão do Bunheiro.27 O Padre Francisco José Guedes Ruela Valente (1727-1792), tinha morrido sem ver despachado um requerimento em que declinava a competência de jurisdição civil para conhecer da capelania. Assim sendo, foi nos irmãos que radicou por isso a herança da capela de S. Simão. O Capitão João Guedes Ruela Valente (* 8-2-1736 - ), administrava a Capela de S. Simão desde 1802, após a morte de seu irmão padre, ainda que tenha precedido sem direito. Seu filho primogénito, Possidónio José Guedes Ruela Valente ( - † 1830), tomou posse judicial dos bens encapelados da capela de S. Simão do Bunheiro, Murtosa, Aveiro em 1818. A sentença final, datada de 23-7-1835, foi desfavorável aos réus, Possidónio José Guedes Ruela Valente e a seu filho João José Guedes Ruela Valente. Ficaram então frente a frente, Francisco José Guedes Ruela Valente (1761-1844) e João José Guedes Ruela Valente.28 Com base na sentença judicial de 23-7-1835, Francisco José Guedes Ruela Valente (17611844) e os seus filhos, tomam posse judicial dos bens encapelados a 18-9-1835. Valendo-se

25 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., pp. 34-35 e MENEZES, Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso de, op. cit., pp. 363-364. 26 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., pp. 35-37 e MENEZES, Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso de, op. cit., pp. 362-363. 27 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., p. 38 e MENEZES, Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso de, op. cit., p. 364. 28 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., pp. 38-40 e MENEZES, Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso de, op. cit., pp. 362-365.

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também da sentença de partilha, João José Guedes Ruela Valente, filho de Possidónio José Guedes Ruela Valente ( - † 1830), obteve posse judicial dos mesmos bens em 17-11-1836. Assim reacende-se de novo a velha discórdia transferida então para a criada comarca de Estarreja, de onde transita em recurso à Relação do Porto e daí ao Supremo Tribunal de Justiça, para só terminar nos inícios de 1842, sendo a decisão final favorável a Francisco José Guedes Ruela Valente e seus filhos.29 A 17-11-1841, Francisco José Guedes Ruela Valente (* 22-2-1761 - † 25-11-1844), fez testamento, sendo este redigido pelo bacharel António Lourenço Tavares Pereira de Sousa, de Veiros e aprovado no dia posterior pelo tabelião Mateus de Oliveira e Silva. Após determinar os legados pios que a devoção lhe ditou, nomeou administrador do património e capela de S. Simão a seu filho, João Pedro Guedes Ruela Valente ( - † 8-10-1869), com a condição de outro seu filho, o Padre Francisco Guedes Ruela Valente ( - ), tomar conta do que chama pé do altar. Os restantes bens, foram deixados a estes dois filhos e às três filhas: Inácia, Rosa e Maria Luísa.30 O último administrador da capela, foi assim o citado João Pedro Guedes Ruela Valente ( - † 8-10-1869), após a morte de seu pai ocorrida a 25-11-1844. Foi durante a sua vida, que foi abolido o regime vincular pela lei de 19-5-1863, e assim os bens que compunham os morgados e as capelas, passaram a ser propriedade livre e alodial, dos que nessa data eram seus administradores. A 12-9-1869, João Pedro Guedes Ruela Valente ( -1869), deixou por testamento únicos herdeiros seus três sobrinhos, Manuel José Tavares ( - ), Maria Luísa Guedes ( - ) e Domingas [Antónia] Guedes Ruela Valente (1833- ), filhos da irmã Rosa Guedes Ruela Valente ( - ).31 S. Simão, é o orago do lugar onde se situa a capela na freguesia do Bunheiro e onde, desde sempre se realizava uma festa anual no dia litúrgico do Santo - a 28 de Outubro - da qual se destacava, como acto principal, a missa solene com sermão de circunstância.32 Durante a festa, realizava-se uma feira que se misturava com o arraial e onde se podia adquirir variada produção artesanal: carros de vacas, carros de mão, grades, arados de madeira, masseiras, escudeiras, gigos de vime, salgadeiras e outros equipamentos de lavoura. Saliente-se ainda, que foi grande a propagação do nome do Santo, a partir da fundação da sua capela, que subsistem ditados populares, como por exemplo: “Pelo S. Simão faca na mão” (referindo-se à época da matança do porco) e “Pelo Simão fava no chão”.

29 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., p. 40. 30 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., p. 47 e MENEZES, Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso de, op. cit., pp. 363-365. 31 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., pp. 49-51 e MENEZES, Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso de, op. cit., pp. 364-365. 32 - cf. S. Simão ou Simão Apóstolo, dito Simão, o Zelote ou Simão, o Cananeu, era natural da Galileia, sendo um dos 12 discípulos de Jesus. É referido como o Cananeu no Livro de Mateus e como o Zelote no Livro de Lucas e no Acto dos Apóstolos: Estas palavras Cananeu e Zelote, significavam a mesma coisa: zeloso. Não se sabe ao certo o ministério de S. Simão, mas segundo as tradições terá estabelecido o Cristianismo no Egipto com S. Marcos e Filipe na Síria, supondo-se que tenha evangelizado também o Norte de África e Espanha. Daí pode ter partido com S. Judas Tadeu para a Mesopotâmia e a Síria, onde se encontrou com outros Apóstolos, que por ali evangelizaram, partindo de seguida para a Pérsia. Encontrou o martírio na cruz ou segundo outras tradições menos fidedignas pela fogueira. A tradição católica, refere que S. Simão, foi martirizado, sendo cortado ao meio por um serrote.

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S. Simão na praça da Basílica de Aparecida, Caná, Palestina

S. Simão, de Michelangelo Merisi da Caravaggio

O martírio de S. Simão Apóstolo na catedral de S. Paulo, Brasil

Actualmente aos herdeiros de Maria Luísa Tavares de Oliveira ( - ), filha de Manuel José Tavares ( - ) e de Maria Rosália, pertence 1/6 parte da ermida e adro; aos herdeiros de Domingas Antónia Tavares Clara ( - ), da Lavegada dos Sedouros, irmã da precedente, pertence ½, composta por 1/6 que ela herdou do pai e por 1/3, que lhe deixou a tia paterna Maria Luísa Guedes ( - ); aos herdeiros de João Guedes Ruela Valente (1868- ), lavrador, do qual foi filho o Padre Manuel Ruela Pombo (1888-1960), pertence o restante 1/3.33

Capela de S. Simão do Bunheiro, Murtosa, Aveiro 33 - cf. CUNHA, José Tavares Afonso e, op. cit., p. 52.

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LUÍS MIGUEL PULIDO GARCIA CARDOSO DE MENEZES

ADMINISTRADORES E PROPRIETÁRIOS DO VÍNCULO DA CAPELA DE S. SIMÃO DO BUNHEIRO N.º

NOME

DE

A

1600

1632 / 1634

1632 / 1634

16??

16??

1686

1686

1725

1

Padre Simão Fernandes Ruela (* c. 1570 - † a. -10-1634)

2

Mateus André (* c. 1600 - ),

3

João André (* c. 1600 - )

4

Padre António da Silva

5

Padre Diogo Tavares, pároco de Avanca (antes de 1662)

6

Mateus Afonso Ruela (b. 10-12-1656 - † entre 11-1724 e 1725), pároco da igreja de S. Mateus do Bunheiro (1695-1724)

a. 1724

7

Padre Francisco da Silva Ruela (b. a 10-6-1689 - ), Presbítero do hábito de S. Pedro, residente em S. João da Madeira

1726

8

Francisco José Guedes Ruela (* em 1727 - † 14-4-1792)

1792

9

Padre Francisco José Guedes Ruela Valente ( - )

1792

1802

10

João Guedes Ruela Valente (* 8-2-1736 - ), Capitão

1802

11

Possidónio José Guedes Ruela Valente ( - † 1830)

1818

1830

12

Francisco José Guedes Ruela Valente (* 22-2-1761 - † 25-11-1844)

1835

1844

13

João José Guedes Ruela Valente

1836

14

João Pedro Guedes Ruela Valente ( - † 8-10-1869)

1844

1869

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BIBLIOGRAFIA Fontes Primárias Manuscritas e não publicadas. 1.1 - Centro de História da Família: -S. Mateus do Bunheiro, Murtosa, Aveiro: Baptismos, Casamentos e Óbitos (1635-1705), 1656, TIF. 319, fl. 21 v.º ?; Baptismos, Casamentos e Óbitos (1704-1769), 1705, TIF. 16, fl. 11 v.º -S.ta Maria da Natividade, Murtosa, Aveiro: Baptismos, Casamentos e Óbitos (1667-1693), 1689, TIF. 307, fl. 29 Fontes Secundárias Monografias -CUNHA, José Tavares Afonso e - Notas Marinhoas: Notícias Históricas do concelho da Murtosa e das duas freguesias marinhoas do concelho de Estarreja, vol. 1, Murtosa: Livraria Ramos, 1965 -DECRETO-LEI n.º 45/93, Diário da República, Iª Série-B, n.º 280, de 30-11-1993, Anexo III, Valores Concelhios Distrito de Aveiro, Município da Murtosa -DECRETO-LEI n.º 107/2001 de 8-9-2001, Diário da República, Iª Série-A, n.º 209 de 8-9-2001 -GONÇALVES, António Nogueira - Inventário Artístico de Portugal - Distrito de Aveiro, 1959 -MENEZES, Luís Miguel Pulido Garcia Cardoso de - «O vínculo da capela de São Simão do Bunheiro e a família Ruela do concelho da Murtosa», in Raízes & Memórias n.º 31, Dezembro de 2014, Lisboa: Produção Gráfica - Tipografia Lobão, 2015 -PINTO, Maria Augusta Almeida - Edifícios religiosos de planta centrada entreVagos eV. N. de Gaia (faixa litoral), in revista Espaço e Memória n.º 1, Porto, 1996 -MATOS, Armando de - Brasonário de Portugal, Porto: Livraria Fernando Machado, 1943 -ENCICLOPÉDIA Luso Brasileira de Cultura, vol. XVI, Lisboa: Editorial Verbo, 1974

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LUÍS MIGUEL PULIDO GARCIA CARDOSO DE MENEZES

Testamento do Padre Simão Fernandes Ruela no lugar de Sedouros, no concelho de Antuã a 15-2-1632 «Em nome de Jesus e da Virgem Maria e de todos os Santos e Santas da Corte dos Céus, ámen. Saibam quantos esta manda e testamentos de cédula de última vontade virem que no ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil e seiscentos e trinta e dois anos, aos quinze dias do mês de Fevereiro da dita era, em este lugar de Sedouros, em as casas moradas de mim testador abaixo nomeado, logo aí por não saber o dia nem a hora que Nosso Senhor será servido levar-me para Sí, estando em meu perfeito juízo e entendimento que Nosso Senhor me deu, ordenei fazer meu testamento e desencargo de minha alma, que é o seguinte: Primeiramente ofereço minha alma a Nosso Senhor e à Virgem Maria Sua Madre, e a todos os Santos da Corte dos Céus, e em especial tomo por meu advogado e defensor ao Apóstolo São Simão quando Nosso Senhor seja servido chamar-me para Si. Deixo que meu corpo seja enterrado na capela e ermida do Apóstolo São Simão, que para isso acharão acostada a este testamento uma licença do Senhor Bispo do Porto, aonde me porão uma campa com o título do meu nome, instituidor da mesma capela; e, sendo caso que Nosso Senhor seja servido levar-me em alguma parte deste Reino, quero meu corpo seja trazido à dita capela à custa da minha fazenda ou pelo menos, a ossada, que assim é minha última vontade. O meu corpo será enterrado solenemente, com todo o acompanhamento de clérigos que boamente se puderem achar, cantando e rogando a Deus Nosso Senhor por minha alma, e para esse efeito deixo de esmola a todo o padre que se achar presente e me acompanhar, dizendo missa, fazendo-me logo um ofício, dois tostões, e a todas as pessoas pobres que me acompanharem, levando um círio ou vela na mão, acesa, rezando por minha alma, um vintém. Quero que para esse efeito se pese toda a cera da Confraria do Glorioso Santo António, cujo irmão e devoto sou, pagando-lhe toda a que faltar com o feitio, que por isso lhe deixo a esmola abaixo declarada. Deixo a quem me tanger o sino da Igreja e de São Simão e me fizer a cova quinhentos reis ou uma peça que os valha, com tal declaração que se tanjam de noite e de dia, desde a hora que Deus me levar até ser enterrado. Deixo por minha alma três ofícios de nove lições, com todos os padres que boamente se puderem achar sendo, pelo menos, de cada ofício dez, daí para cima, dizendo em cada um dos três ofícios uma missa por meu Pai e Mãe, e não quero que nos tais ofícios se dê esmolas aos padres que no mesmo dia não vierem dizer missa por minha alma; levar-me-ão por oferta, no dia do meu enterramento, fazendo-se logo o ofício de presente, nove alqueires de trigo, se for tempo em que os haja na casa, e um carneiro com um alqueire de vinho, os quais nove alqueires de trigo irão à conta dos que se costumam pagar, porque entendo serão mal levados. E não obrigo o meu testamenteiro a me levar cousa alguma, nem mais pouco o obrigo a obradar pelo miúdo, pouco nem muito, senão o que boamente quizer e puder. Levarão três alqueires de trigo cozido e dois almudes de vinho com peixe ou carne, o que boamente puderem, para que todos os que me acompanharem, ricos e pobres, comam e roguem a Deus Nosso Senhor por minha alma. A esmola dos padres acima declarada se entenderá também tão-somente em o dia do enterramento; e aos mais ofícios será a costumada. As ofertas dos ofícios e pelo ano serão, como dito tinha, o que boamente meu testamenteiro puder, que o não obrigo a pouco nem a muito. Peço aos Reverendos Padres meus irmãos da Confraria da Alumieira que me queiram fazer o meu ofício de presente na ermida do Apóstolo São Simão, e os outros dois que me hão-de fazer na cabeça, me apliquem um pela alma de meu Pai e Mãe e mais obrigações a que esteja obrigado.

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Esmolas das Confrarias: -Primeiramente deixo à Confraria do Santíssimo Sacramento, em todos os anos enquanto o mundo durar, um alqueire de azeite ou a valia dele. Deixo à Virgem Nossa Senhora do Rosário, da mesma igreja, outro alqueire de azeite ou a validade dele, isto perpétuo. Deixo à Confraria dos Fieis de Deus quatrocentos e cinquenta reis. Deixo ao Espirito Santo duzentos reis, e a São Pedro cem reis, e a São Gonçalo e a São Silvestre trezentos reis, e à Nossa Santa Confraria do Glorioso Santo António mil reis, que me empreste a sua cera que tiver no dia do meu enterramento, pagando-lhe toda a que faltar. Em meus ofícios me darão as Confrarias do Senhor e da Senhora, cada duas tochas, que por isso lhes deixo a esmola assinada. Declaro que tenho obrigada a minha fazenda à fábrica da capela do Apóstolo São Simão, como instituidor dela, como consta das escrituras que disso há, e nela instituo e ordeno pela maneira seguinte: Primeiramente quero e é minha última vontade que na dita capela, em dia do Apóstolo São Simão, se me diga uma missa cantada e duas rezadas, todos os anos, enquanto o mundo durar; outrossim que enquanto o mundo durar me façam na dita capela um ofício de três lições, com quatro padres, que todos digam missa todos os anos por meu Pai e Mãe e mais obrigações. Na dita capela nomeio a meu sobrinho Mateus, filho de Mateus André, da Murtosa, fazendose clérigo: e não o sendo ou metendo-se em alguma Religião, ou que Deus o leve, em tal caso nomeio a João, seu irmão, filho do dito Mateus André; e sendo caso que nenhum deles se faça clérigo, em tal caso nomeio a dita capela em um sobrinho meu, filho de meus irmãos, o que primeiro se fizer clérigo, e assim quero e é minha última vontade; e o primeiro que suceder na dita capela nomeará em parente mais chegado, meu ou seu, até o quarto grau; e sendo caso que os sobreditos não nomeiem, por algum impedimento, em tal caso hei por nomeado na maneira sobredita, e quero que sempre suceda em clérigo parente mais chegado, para que com mais devoção e diligência corra as obrigações neste testamento nomeadas. E o sucessor que suceder na dita capela deixará sempre, por sua morte, à dita capela uma esmola em bens de raiz, o que boamente puder, para que assim vá crescendo de bem a melhor, que com esta condição obrigo suas consciências. Para isso deixo de esmola à dita capela do Apóstolo São Simão todo o meu chão de Romariz, como está tapado, e todo o meu chão dos Adeixos, assim como está circuitado, todo o meu assento em que moro, com todas as benfeitorias que nele há, casas e tudo o mais de paredes a dentro, e assim mais o pinhal que está ao redor da dita capela, para que o dito sucessor possa comer o uso e frutos das peças e fazendas aqui nomeadas e correr com as obrigações nomeadas neste testamento, porque assim é minha última vontade, e quero que toda esta fazenda aqui nomeada esteja obrigada a todas as esmolas e obrigações perpétuas que deixo. E sendo caso que faltem com alguma delas e não cumprindo, em tal caso nomeio e hei por instituído ao Cura ou Vigário que residir na Igreja do Bunheiro, na maneira sobredita. As ditas propriedades aqui nomeadas não poderão nunca ser vendidas nem repartidas por herdeiros alguns, porque esta é a minha última vontade. O capelão da dita capela será obrigado a fabricá-la conforme a obrigação que disso tenho feito. Deixo mais, de esmola, a meu sobrinho Mateus, tudo o que se achar das portas adentro, assim peças de ouro, prata, dinheiro e mais peças, de qualquer sorte que sejam, tiradas as que estiverem nomeadas neste testamento ou verbalmente nomeadas antes que Deus me leve, e tudo lhe deixo com a obrigação que ele me corra com os legados de minha alma na forma declarada; e sendo caso que ele ainda não seja clérigo ou que Deus o leve, deixo por meu testamenteiro a meu sobrinho João, seu irmão, com tal declaração que se faça ele clérigo e me corra com os ditos legados, comendo por entretanto os usos e frutos das ditas propriedades e fazendas,

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guardando-se em tudo as cláusulas e condições atrás, porque quero que sempre suceda parente mais chegado, clérigo. A minha terra do Cabo de Romariz deixo a todos os meus herdeiros por linha direita, com obrigação de três missas na capela do Bem-aventurado São Simão Apóstolo, por mim e meu Pai e Mãe e mais obrigações, perpetuamente todos os anos, e é minha última vontade que as diga o padre que nela suceder, o qual pretenderá a esmola delas por quem gozar a dita terra, dando-lhe a esmola costumada. Deixo mais a minha vessada do Cabo do Covelo a meus herdeiros, com obrigação de outras três missas, na forma acima declarada. Deixo o meu Chão da Camarneira aos ditos meus herdeiros, que todos partam irmãmente, com outras três missas perpétuas, na mesma forma e maneira acima declarada. E declaro que sendo caso que o Cura ou Vigário do Bunheiro queira intender nas ditas missas, em tal caso as não deixo, porque é minha última vontade dar-se sempre esmola delas só ao capelão que suceder na dita capela. Declaro e quero que, nestas três propriedades, se entendam tão-somente por herdeiros meus irmãos ou seus filhos e os filhos de minha irmã, mulher que foi de Mateus André. E a meu sobrinho Domingos Fernandes, do Bunheiro, deixo 10 cruzados de esmola, os quais lhe darão os herdeiros que herdarem as três propriedades acima, e com eles se vá embora, e sendo vivo, que não se entenderá isso a seus filhos. Deixo mais a minha sobrinha, mulher de Domingos Barbosa, dez cruzados de esmola, que se lembre de minha alma, que bem o fiz com ela, e com eles se vá embora, sem mais herdar com os outros. Deixo a João, meu sobrinho, filho de Mateus André, se a esse tempo estiver comigo ou estudar, dez mil reis em dinheiro ou em peças que os valham, para ajudar do seu estado; não estudando nem estando, não lhe deixo nada, pois é herdeiro como os outros. Deixo a Maria Fernandes, mulher de Manuel Afonso, mil reis de esmola ou a sua filha, se a esse tempo for morta. Deixo a sua irmã, mulher de António Rodrigues, mil reis de esmola, ou a sua filha. Deixo vinte alqueires de pão aos mais necessitados pobres mais chegados meus parentes, que lhes repartam conforme a sua necessidade, se for em tempo que os haja na casa. Deixo doze camisas, as melhores que tiver, a doze pobres, a honra dos doze Apóstolos, e, sendo caso que as não haja, lhas comprem novas, de linho. Deixo as minhas casas de Aveiro, que tenho na Rua Nova, a Luzia Fernandes, mulher de Afonso Fernandes, sendo viva a esse tempo, com obrigação de cinco missas todos os anos perpetuamente, ditas na ermida do Apóstolo São Simão, na forma atrás declarada, e, sendo morta, em tal caso as deixo a meu sobrinho Mateus e aos mais que sucederem, com as ditas cinco missas ditas por minhas obrigações. Declarado que, se a esse tempo ainda estudar e nelas morar meu sobrinho Mateus ou seu irmão João, nesse meio tempo as não goze a dita Luzia Fernandes, mas as missas se digam na forma acima e atrás declarada. Todos os mais bens moveis, assim criação como roupas, dinheiro, dívidas que me deverem, de qualquer modo que se entenda o que ser móvel, deixo a meu sobrinho, com todas as obrigações neste testamento nomeadas, e não quero que meus herdeiros herdem em móvel algum, portanto deixo grande carga ao mesmo testamenteiro. Declaro que a fazenda que nomeio à capela do Apóstolo São Simão, com as obrigações atrás declaradas, não é minha tenção nomeá-la à capela, senão a quem nela suceder, na forma atrás declarada, nem nesta capela e fazenda poderá nunca suceder o Cura ou Vigário do Bunheiro, salvo não se cumprindo as condições e cláusulas atrás declaradas. Ainda que em meus papéis achem uma manda que minha irmã, mulher de Mateus André,

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me deixou o seu terço, não usem dela, porque não foi seu intento deixar-mo senão por certo respeito e, assim, é de seus filhos; eu lho deixo de esmola. Sendo caso que alguém mostre algum assinado meu, de dívida, lho pagarão, informando-se da verdade, e se alguma pessoa digna de fé e crédito disser que lhe devo alguma cousa, sendo de pouca valia, lha darão, jurando que lha devo. A todos os papéis que acharem, de dívidas que eu deva ou que me deverem, darão crédito, que tudo escrevo na verdade; e se alguma pessoa negar alguma cousa que me deva, será crida pelo seu juramento, sem embargo de algum assinado. Missas que acharem por dizer as darão a dizer a um padre mais pobre que acharem, com a esmola que se costuma dar por elas, salvo se meu testamenteiro, sendo já clérigo, as quiser dizer. Declaro que, sem embargo das leis e constituições que se acharem, quero que meu testamenteiro cumpra com meus legados por espaço de dois anos, por serem muitos e grandes. Não quero que nos ditos dois anos o constranjam; e quem o contrário obrigar não lhe deixo cousa alguma, porque minha tenção é deixar carga leve e não pesada. E por este modo hei minha manda e testamento por acabado e faço e instituo ao dito meu sobrinho Mateus por meu herdeiro e testamenteiro e sucessor na minha capela do Bemaventurado São Simão, na forma atrás declarada, com todas as cláusulas e condições neste testamento declaradas, e peço e rogo às justiças eclesiásticas que de tudo tomem conhecimento verdadeiro, e inteiramente mo façam cumprir como nele se contém. E declaro que, sem embargo das ordenações e leis, não quero que nenhuma justiça secular intenda com o meu testamenteiro nem lhe tome conta alguma, porque em tal caso o não obrigo a cousa alguma para efeito de lho fazerem cumprir; só é minha última vontade que as justiças eclesiásticas lhe tomem estas contas, como de bens eclesiásticos que são. Com tudo dou graças a Nosso Senhor por me deixar chegar a este estado, e Ele me dê ajuda que for servido, para seu serviço, ámen Jesus. Sendo caso que, daqui por diante, me ocorra mais alguma cousa, tudo o que acharem de minha letra neste testamento, antes ou depois de aprovado, ou qualquer outro codicilo, sendo por mim assinado, lhe darão crédito; e quero que tudo se cumpra e guarde na forma sodredita. Eu, o padre Simão Fernandes Ruela, testador, o fiz e assinei de meu sinal, hoje, quinze dias de Fevereiro de mil e seiscentos e trinta e dois anos. Louvado seja o Santíssimo Sacramento e a Imaculada Conceição da Virgem Maria Nossa Senhora. Simão Fernandes Ruela». Segue-se o auto de aprovação: «Saibam quantos este público instrumento de aprovação de manda e testamento de manda e codicilo, qual mais em direito válido seja, virem, que no ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil e seiscentos e trinta e dois anos, aos dezasseis dias do mês de Fevereiro do dito ano, no lugar de Sedouros, que é termo deste concelho de Antuã, aí, perante mim Tabelião e testemunhas ao deante nomeadas, pareceu presente o padre Simão Fernandes Ruela, morador no dito lugar, estando em seu perfeito juízo e entendimento, me apresentou o seu testamento atrás escrito, feito em quatro meias folhas, por ele feito e assinado, sem ter entrelinha nem borradura nem cousa que dúvida faça, requerendo-me lho aprovasse, porquanto era sua última e derradeira vontade, e que por este revogava os mais que tenha feito, o qual lhe aprovei com testemunhas que foram presentes Jerónimo Mateus, de Pardilhó, Juiz e Francisco Nunes, e João Rodrigues, e António de Figueiredo, e António Nunes, e António Fernandes, todos deste lugar e concelho, que todos assinaram com o dito padre Simão Fernandes Ruela, e Bastião Domingues, deste lugar, que todos aqui assinaram. Eu, escrivão, em fé de verdade, assinei de meu público sinal, que tal é. Eu, António da Cunha, que o escrevi. Simão Fernandes Ruela, testado. Jerónimo Mateus, Juiz. António Nunes. Francisco Nunes, António de Figueiredo. Bastião Domingues. Domingos Fernandes. João Rodrigues».

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MARCO PEREIRA

PESOS E MEDIDAS NA HISTÓRIA DE ESTARREJA E MURTOSA Marco Pereira* No estudo dos pesos e medidas do passado, para além do importante enquadramento geral do caso português, que pode ser colhido com vantagem no Dicionário de História de Portugal1, importa notar que não existiu homogeneidade em todo o território nacional. Como escreveu Viterbo a propósito do Alqueire, no seu Elucidário2, a medida de sólidos e líquidos (aliás similar à rasa e à medida) variava consoante as localidades, e sofreu tentativas régias de reforma em diferentes momentos históricos. Contudo as diversidades locais, com mais ou menos alterações, tenderam a persistir até às reformas uniformizadoras de meados do século XIX, que impuseram o actual sistema decimal. Sendo que, na prática, continuou a haver quem se regulasse pelas medidas antigas, conforme notava um jornal local no início do século XX3 e ainda o lembram muitas pessoas mais idosas. Baseando-se nas Inquirições do século XIII e no Censual do Cabido da Sé do Porto, Miguel de Oliveira estabeleceu a relação de diversas medidas com o alqueire4. Assim, chegou às seguintes conclusões: moio = 12 búzeos ou 60 alqueires; quarteiro = 3 búzeos ou 15 alqueires; sexteiro = 10 alqueires; búzeo = 5 alqueires; quaira = alqueire e meio (ou talvez 1 alqueire e 2 terças); correspondendo o alqueire a cerca de 10 a 12 litros. No que a vinho diz respeito: moio = 4 puçais; puçal = 8 almudes; almude = 12 canadas; e enfim a canada corresponderia talvez a 15 decilitros. O cálculo de Miguel de Oliveira coincide, pois, apenas parcialmente com o de Oliveira Marques, no que diz respeito às proporções entre as medidas antigas e a sua conversão para o sistema decimal. Usava-se como medida de manteiga a caona. E localmente o sal regulava-se pelo alqueire de Sangalhos. A medida de Sangalhos usava-se aliás para outros bens em Figueiredo, nas inquirições de 1284. Outras unidades de medida se encontram em diplomas medievos, caso da eirádega e eiradiga5 (que era uma direitura, ou prestação acessória, sendo a eirádega destinada aos sólidos, e a eiradiga aos líquidos), do sesteiro6 (é possível que corresponda à oitava parte do moio7), ou do MBRO (que em 1210/1250 se aplica a Veiros, e talvez seja a abreviatura de Membro, o mesmo que Maravidil8, que é uma unidade monetária).

*Advogado com escritório em Estarreja 1 - OLIVEIRA MARQUES, A. H. de – “Pesos e Medidas”, Dicionário de História de Portugal, dirig. por Joel Serrão, V, pp. 67-72. 2 - Além de Alquerire, v. Almude, Modio, Teiga e Raso, entre outros. 3 - Em notícia de 1915 (O Concelho de Estarreja, n.º 739, 11.12.1915, p. 2) referia-se ainda se encontrar quem usasse as medidas antigas, apesar de extintas havia 60 anos por lei. 4 - OLIVEIRA, Miguel de – “Inquirições de D. Afonso III na Terra de Santa Maria”, Lusitânia Sacra, tomo VII, 1964/66, pp. 100-101; OLIVEIRA, Miguel de – Ovar na Idade Média, Câmara Municipal de Ovar, 1967, p. 109. 5 - VITERBO – Elucidário…, II, p. 209, s. v. Eiradéga e Eiradiga; LEITE DE VASCONCELOS, José Leite de – “Observações ao Elucidário do P.e Santa Rosa de Viterbo”, Revista Lusitana, vol. 26, p. 144. 6 - VITERBO – Elucidário…, s. v. Sesteiro e Sexteiro; GAMA BARROS – História da Administração Pública em Portugal…, 1.ª ed., vol. IV, p. 326: sestario ou sesteiro (talvez a sexta parte do moio); LEITE DE VASCONCELOS, José, “Observações…”, cit. , p. 135. 7 - Segundo nos informou em e-mail de 23.11.2005 o Doutor Luís Seabra Lopes, a quem devemos outras informações sobre unidades de medida. Nesta matéria é, aliás, especialista, tendo diversos trabalhos de grande valia publicados. 8 - VITERBO – Elucidário…, s. v. Membro e Maravidil.

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TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

Na falta de informação positiva coeva é necessário buscar em tempos mais próximos dos nossos elementos que, subsidiariamente, nos ajudem a conhecer por que antigas medidas se regiam os homens da Idade Média. É por testemunhos recentes que vamos concluir a medida do cambo de peixe, atendendo a que o cambo corresponde, na região de Estarreja e Murtosa, a 40 ou talvez 75 enguias9. Mas já em finais do século XIII havia na Feira dúvida sobre o valor de um cambo, se 12 peixes ou menos. Número certo de peixes, mas que variava consoante a localidade, era há décadas atrás de 30 enguias em Ovar10. Bastante bibliografia se pode encontrar, estabelecendo correspondência entre os pesos e medidas em uso em meados do século XIX e o novo sistema decimal, que então os veio substituir11. É justamente de três publicações desse período que nos servimos para as tabelas infra. As duas primeiras são mais desenvolvidas, havendo correspondência entre os dados apresentados por uma e outra12. A terceira13, menos desenvolvida, diverge ligeiramente das duas primeiras, mas mereceu-nos à mesma alguma atenção. Registámos os pesos e medidas que vigoraram em diversos concelhos, com jurisdição sobre parcelas dos actuais concelhos de Estarreja e Murtosa, no intuito de conhecer a realidade que se aplicou a todo o território actual destes. SÓLIDOS Tabela comparativa das medidas antigas de seccos com as do novo systema legal Nomenclatura antiga

Moio………….. Fanga………… Alqueire………. Meio alqueire… Quarta……...… Oitava……….. Maquia………. Selamin………. Meio selamin..

15 fangas ou 60 alqueires 4 alqueires 4 quartas ou 2 meios alqueires 2 quartas 2 oitavas 2 maquias 2 selamins 2 meios selamins

Litros Estarreja

Feira

Bemposta

Ovar

855,000

1048,800

888,000

1137,240

Ovar (antiquíssima medida) 1200,000

57,000 14,250

69,920 17,480

59,200 14,800

75,816 18,954

80,000 20,000

7,125 3,562 1,781 0,891 0,445 0,223

8,740 4,370 2,185 1,092 0,546 0,273

7,400 3,700 1,850 0,925 0,462 0,231

9,477 4,738 2,369 1,185 0,592 0,296

10,000 5,000 2,500 1,250 ww0,625 0,312

FONTE: GRAÇA, Joaquim José da, Tabellas das Medidas de capacidade antigas reduzidas ao systema metrico-decimal…, Lisboa, Typographia Universal, 1963 9 - SILVA, Cecília Rezende Nunes da – Relatório do Inquérito Linguístico, realizado em Pardilhó, (Inquérito Boléo n.º 118, Pardilhó - relatório), Coimbra, 1959, p. 66; SILVA, Cecília Rezende Nunes da – Resposta ao Inquérito Linguístico – Pardilhó, (Inquérito Boléo n.º 118, Pardilhó), 1959, pp. 44b e 100b. 10 - OLIVEIRA, Miguel de – Ovar na Idade Média, cit., p. 111. 11 - Veja-se, por exemplo, em AMORIM, Inês de – Aveiro e sua provedoria no século XVIII (1690-1814). Estudo económico de um espaço histórico, FLUP, 1996, pp. 673, 674, 675, 677 (bibliografia), 787 (tabela). Ocorre a curiosidade de ter também escrito sobre o assunto Amaral Cirne, pedagogo salreense do final do século XIX. Mais recentemente, são de referir os estudos do Doutor Luís Seabra Lopes sobre metrologia histórica. 12 - GRAÇA, Joaquim José da – Tabellas das Medidas de capacidade antigas reduzidas ao systema metrico-decimal…, Lisboa, Typographia Universal, 1963; Mappas das medidas do novo systema legal comparadas com as antigas nos diversos concelhos do reino e ilhas, Lisboa, Imprensa Nacional, 1968. 13 - LOPES, João Baptista da Silva – Memoria sobre a reforma dos pezos e medidas em Portugal segundo o systema metrico-decimal, Lisboa, Imprensa Nacional, 1849 (menos fiável).

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MARCO PEREIRA

Reducção, conforme as bases officiaes Alqueires

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100

Litros Estarreja

Feira

Bemposta

Ovar

14,25 28,50 42,75 57,00 71,25 85,50 99,75 114.00 128,25 142,50 285,00 427,50 570,00 712,50 855,00 997,50 1140,00 1282,50 1425,00

17,48 34,96 52,44 69,92 87,40 104,88 122,36 139,84 157,32 174,80 349,60 524,40 699,20 874,00 1048,80 1223,60 1398,40 1573,20 1748,09

14,8 29,6 44,4 59,2 74.0 88,8 103,6 118,4 133,2 148,0 296,0 444,0 592,0 740,0 888,0 1036,0 1184,0 1332,0 1480,0

18,954 37,908 56,862 75,816 94,770 113,724 132,678 151,632 170,586 189,540 379,080 568,620 758,160 947,700 1137,240 1326,780 1516,320 1705,860 1895,400

Ovar (antiquíssima medida) 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 2000

FONTE: GRAÇA, Joaquim José da, Tabellas das Medidas de capacidade antigas reduzidas ao systema metrico-decimal…, Lisboa, Typographia Universal, 1963

Reducção, conforme as bases officiaes Moios

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 20 30 40 50 60 70 80

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Hectolitros Estarreja

Feira

Bemposta

Ovar

8,55 17,10 25,65 34,20 42,75 51,30 59,85 68,40 76,95 85,50 171,00 256,50 342,00 427,50 513,00 598,50 684,00

10,488 20,976 31,464 41,952 52,440 62,928 73,416 83,904 94,392 104,880 209,760 314,640 419,520 524,400 629,280 734,160 839,040

8,88 17,76 26,64 35,52 44,40 53,28 62,16 71,04 79,92 88,80 177,60 266,40 355,20 444,00 532,80 621,60 710,40

11,3724 22,7448 34,1172 45,4896 56,8620 68,2344 79,6068 90,9792 102,3516 113,7240 227,4480 341,1720 454,8960 568,6200 682,3440 796,0680 909,7920

Ovar (antiquíssima medida) 12 24 36 48 60 72 84 96 108 120 240 360 480 600 720 840 960


TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

90 100

769,50 855,00

943,920 1048,800

799,20 888,00

1023,5160 1137,2400

1080 1200

FONTE: GRAÇA, Joaquim José da, Tabellas das Medidas de capacidade antigas reduzidas ao systema metricodecimal…, Lisboa, Typographia Universal, 1963

Medida para seccos

Moio Fanga Alqueire14 Quarta Oitava Maquia Selamim Meio selamim

Litros Estarreja

Feira

Bemposta

Ovar

855,000 57,000 14,250 3,563 1,781 0,891 0,445 0,223

1048,800 69,920 17,480 4,370 2,185 1,093 0,546 0,273

888,000 59,200 14,800 3,700 8,850 0,925 0,463 0,231

1137,240 75,816 18,954 4,739 2,369 1,185 0,592 0,296

Ovar (medias antigas) 1200,000 80,000 20,000 5,000 2,500 1,250 0,625 0,313

FONTE: Mappas das medidas do novo systema legal comparadas com as antigas nos diversos concelhos do reino e ilhas, Lisboa, Imprensa Nacional, 1968

LÍQUIDOS Tabela comparativa das medidas antigas de liquidos com as do novo systema legal Nomenclatura antiga Tonel….. Pipa….. Almude….. Meio almude.. Canada….. Meia canada….. Quartilho….. Meio quartilho….. Quarto de quartilho.. Oitavo de quartilho…..

2 pipas ou 50 almudes 25 almudes 2 meios almudes ou 12 canadas 6 canadas 4 quartilhos ou duas meias canadas 2 quartilhos 2 meios quartilhos 2 quartos de quartilhos 2 oitavos de quartilho

Litros Estarreja 1272,000

Feira 1272,000

Bemposta -

Ovar -

636,000 25,440

636,000 25,440

-

-

12,720 2,120

12,720 2,120

-

-

1,060 0,530 0,265

1,060 0,530 0,265

-

-

0,132

0,132

-

-

0,066

0,066

-

-

FONTE: GRAÇA, Joaquim José da, Tabellas das Medidas de capacidade antigas reduzidas ao systema metrico-decimal…, Lisboa, Typographia Universal, 1963

14 - Também designado rasa na medida antiga de Ovar.

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MARCO PEREIRA

Reducção, conforme as bases officiaes Canadas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100

Litros Estarreja 2,12 4,24 6,36 8,48 10,60 12,72 14,84 16,96 19,08 21,20 42,40 63,60 84,80 106,00 127,20 148,40 169,60 190,80 212,00

Feira 2,12 4,24 6,36 8,48 10,60 12,72 14,84 16,96 19,08 21,20 42,40 63,60 84,80 106,00 127,20 148,40 169,60 190,80 212,00

Bemposta -

Ovar -

FONTE: GRAÇA, Joaquim José da, Tabellas das Medidas de capacidade antigas reduzidas ao systema metrico-decimal…, Lisboa, Typographia Universal, 1963

Reducção, conforme as bases officiaes Almudes 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100

Decalitros Estarreja 2,544 5,088 7,632 10,176 12,720 15,264 17,808 20,352 22,896 25,440 50,880 76,320 101,760 127,200 152,640 178,080 203,520 228,960 254,400

Feira 2,544 5,088 7,632 10,176 12,720 15,264 17,808 20,352 22,896 25,440 50,880 76,320 101,760 127,200 152,640 178,080 203,520 228,960 254,400

Bemposta -

Ovar -

FONTE: GRAÇA, Joaquim José da, Tabellas das Medidas de capacidade antigas reduzidas ao systema metrico-decimal…, Lisboa, Typographia Universal, 1963

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TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

Reducção, conforme as bases officiaes Pipas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100

Hectolitros Estarreja 6,36 12,72 19,08 25,44 31,80 38,16 44,52 50,88 57,24 63,60 127,20 190,80 254,40 318,00 381,60 445,20 508,80 572,40 636,00

Feira 6,36 12,72 19,08 25,44 31,80 38,16 44,52 50,88 57,24 63,60 127,20 190,80 254,40 318,00 381,60 445,20 508,80 572,40 636,00

Bemposta -

Ovar -

FONTE: GRAÇA, Joaquim José da, Tabellas das Medidas de capacidade antigas reduzidas ao systema metrico-decimal…, Lisboa, Typographia Universal, 1963

Medidas para líquidos

Tonel

Litros Estarreja

Feira

Bemposta

Ovar

1272,000

1272,000

1230,000

1308,000

Ovar (medias antigas) -

Pipa

636,000

636,000

615,000

654,000

-

Almude

25,440

25,440

24,600

26,160

-

Pote

12,720

12,720

12,300

13,080

-

Canada

2,120

2,120

2,050

2,180

-

Quartilho

0,530

0,530

0,513

0,545

-

Meio quartilho

0,265

0,265

0,256

0,273

-

Quarto de quartilho

0,133

0,133

0,128

0,136

-

FONTE: Mappas das medidas do novo systema legal comparadas com as antigas nos diversos concelhos do reino e ilhas, Lisboa, Imprensa Nacional, 1968

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MARCO PEREIRA

MEDIDAS VÁRIAS Conversão das unidades antigas para litros15

Azeite16 Vinho – Canada Vinho – Almude Alqueire – sólidos

Estarreja

Feira

Bemposta

Salreu (Bemposta)

2,00 25,98 13,98

2,12 24,42 17,95

2,20 26,40 14,46

2,20 26,44 14,46

Fermelã e Canelas (Bemposta) 2,20 26,44 14,46

Ovar

2,09 27,73 20,23

FONTE: LOPES, João Baptista da Silva, Memoria sobre a reforma dos pezos e medidas em Portugal segundo o systema metrico-decimal, Lisboa, Imprensa Nacional, 1849, pp. 88, 91, 103, 105-106, 122

Medida para sal (Ovar) Moio 60 rasas ……………………………………. 46,20 hectolitros Rasa ……………………………………………….. 7,70 decalitros Reducção, conforme as bases officiaes Rasas Decalitros Moios 1 7,7 1 2 15,4 2 3 23,1 3 4 30,8 4 5 38,5 5 6 46,2 6 7 53,9 7 8 61,6 8 9 69,3 9 10 77,0 10 20 154,0 20 30 231,0 30 40 308,0 40 50 385,0 50 60 462,0 60 70 539,0 70 80 616,0 80 90 693,0 90 100 770,0 100

Hectolitros 46,20 92,40 138,60 184,80 231,00 277,20 323,40 369,60 415,80 462,00 924,00 1386,00 1848,00 2310,00 2772,00 3234,00 3696,00 4158,00 4620,00

FONTE: GRAÇA, Joaquim José da, Tabellas das Medidas de capacidade antigas reduzidas ao systema metrico-decimal…, Lisboa, Typographia Universal, 1963

15 - Reputamos esta fonte como menos fiável que as restantes, por ter pequenas desconformidades com as duas outras apresentadas sob a forma de tabelas. De resto, as duas outras são conformes entre si, e apresentam valores mais elaborados que esta. 16 - Não consta medida para azeite, em nenhum dos concelhos analisados, provavelmente por não haver produção em nenhum destes.

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TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

Medida para cal (Ovar) Moio 60 rasas ……………………………………. 32,40 hectolitros Rasa ……………………………………………….. 5,40 decalitros Reducção, conforme as bases officiaes Rasas Decalitros Moios 1 5,4 1 2 10,8 2 3 16,2 3 4 21,6 4 5 27,0 5 6 32,4 6 7 37,8 7 8 43,2 8 9 48,6 9 10 54,0 10 20 108,0 20 30 162,0 30 40 216,0 40 50 270,0 50 60 324,0 60 70 378,0 70 80 432,0 80 90 486,0 90 100 540,0 100

Hectolitros 32,40 64,80 97,20 129,60 162,00 194,40 226,80 259,20 291,60 32,00 648,00 972,00 1296,00 1620.00 1944,00 2268,00 2592,00 2916,00 3240,00

FONTE: GRAÇA, Joaquim José da, Tabellas das Medidas de capacidade antigas reduzidas ao systema metrico-decimal…, Lisboa, Typographia Universal, 1963

Medidas várias Rasa de sal (Ovar) Rasa de cal (Ovar)

77,000 litros 54,000 litros

FONTE: Mappas das medidas do novo systema legal comparadas com as antigas nos diversos concelhos do reino e ilhas, Lisboa, Imprensa Nacional, 1968

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MARCO PEREIRA

Medidas utilizadas na Idade Média Pesos

Correspondência em Alqueires

Sistema decimal (Kg)

Medidas de Capacidade

Correspondência em Moios

Sistema decimal (Litros)

Moio (grande)

56 a 64

780 a 1000

Moio

1

360

Quarteiro / Quarto (1/4 moio)

11,11

200

Quarta / Puçal

¼

90

Cesteiro/ Sesteiro / Sexteiro (1/6 moio)

7,78

140

Cesteiro/ Sesteiro / Sexteiro

1/6

60

Fogaça

2

30

Almude / Alqueire

1/20

18

Teiga / Taleiga

1,5 a 4

20 a 60

Canada

1/240

1,5

Alqueire / Almude

1

18

Quarta

¼

3,5 a 4,5

FONTES: OLIVEIRA MARQUES, A. H. de, “Pesos e Medidas”, in SERRÃO, Joel, Dicionário de História de Portugal, V, pp. 67-72; seguimos com menos atenção, porque algo confuso, Viterbo, Elucidário…, vol. II, pp. 90-91 (Cesteiro), 504 (Quarta de Pam, e Quarta de Vinho), 563 (Sesteiro, Sexteiro), 580-581 (Teiga). NOTAS: Os valores apresentados em Kg e Litros correspondem à média nacional, proposta por Oliveira Marques.

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TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

PINTURAS DE MILAGRES, HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DE ESPERANÇA E FÉ …

António Cruz Leandro* Maria Clara de PaivaVide Marques**

Introdução No concelho de Estarreja, na paróquia de Veiros conserva-se, proveniente da Capela do Senhor da Ribeira, um conjunto de ex-votos pictóricos, certamente parte de um grupo mais numerosos que o desgaste causado pelo tempo e pelo descuido dos homens fez desaparecer, como o demostra o relato de José Tavares Afonso e Cunha: Haverá pouco mais de cem anos que este santuário era muito frequentado não só pelos povos destes sítios como ainda por outros de muitos quilómetros de distância. As paredes interiores ainda não há muito que se achavam cobertas, desde o tecto, de excelentes retábulos ou painéis de madeira, curiosíssimos não só pelo desenho das figuras, as roupagens e trajes usados em passadas eras, como também pelas legendas comemorativas do milagre ou graça obtida, do nome, estado e longínqua naturalidade do piedoso oferente (…). A título de proceder a reparos necessários, apearam todos os retábulos e não mais os repuseram (…), situação mencionada nos apontamentos deixados porVitorino José Marques1. Com efeito, se muitos destes ex-votos desapareceram, outros perdurando através dos tempos chegaram até nós, testemunhando dor, sofrimento e aflição, mas também fé, gratidão e vida, oferecendo-nos múltiplas informações para o estudo da história do quotidiano das gerações passadas, documentando mentalidades – religiosidade, sentimentos, relações familiares – e aspectos da vida – paisagens, interiores das casas, mobiliário, vestuário das personagens … Quanto à capela que os acolhia, localizado num local afastado da periferia do povoado, na zona terminal do esteiro de Veiros – o principal ponto de ligação fluvial da sede –, data do século XVIII e, deve a denominação, Senhor da Ribeira, à sua situação geográfica, posto que junto dos seus muros termina “um esteiro que comunica com o Laranjo e a notável Ria de Aveiro», através do qual “são conduzidos, anualmente, muitos centenares de barcadas de moliço (…), excelente adubo para as terras da beira-mar”2. Quanto à origem do culto e à edificação da capela, entroncam em “acontecimentos invulgares que trouxeram á freguesia de Veiros um momento de grande celebridade e chegaram a transformá-la em lugar de peregrinação”3.

*Licenciado em História e Professor de História **Licenciada em Ciências Históricas, Museóloga 1 - CUNHA, José Tavares Afonso e – Notas Marinhoas. Estarreja: Edição do Autor, 1972, vol. II, pp. 21-22. 2 - CUNHA, José Tavares Afonso e – Notas Marinhoas, vol. II, p. 10. 3 - CUNHA, José Tavares Afonso e – Notas Marinhoas, vol. II, p. 10.

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ANTÓNIO CRUZ LEANDRO | MARIA CLARA DE PAIVA VIDE MARQUES

Esta designação abrangia uma zona mais extensa, a qual integrava também outros lugares tais como: Bunheiro, Pardelhas e Veiros. Para uma melhor explicitação consultar: Pereira, Marco – A Terra Marinhoa na Idade Média. Estarreja: Junta de Freguesia de Veiros; 2010, p. 28 ou http://historiaestarreja-murtosa.blogspot.pt/2012/06/terra-marinhoa-na-idade-media-primeiras.html. A informação do documento ao qual nos reportamos está citado e devidamente explorado em Pereira, Marco – A Terra Marinhoa na Idade Média. Estarreja: Junta de Freguesia de Veiros; 2010, pp. 48-50, tendo já anteriormente referenciado por Miguel de Oliveira, quer n’ O Povo de Pardilhó, em 1939, quer em Ovar na Idade Média. Retirado de http://historia-estarrejamurtosa.blogspot.pt/2013/09/a-terra-marinhoa-na-idade-media-actual.html da autoria de Marco Pereira. Estes acontecimentos encontram-se documentados nos capítulos, a eles relativos, elaborados em 1752, pelo visitador Reverendo Simão de Castro Passos, onde narra que o Reverendo Domingos Barbosa de Albuquerque, então reitor da freguesia de São Tiago de Beduído, da qual era filial e anexa a de São Bartolomeu de Veiros, lhe apresentou um livro de receita, que por sua ordem havia feito, o Reverendo Padre Manuel João, paroquiano da freguesia de Veiros, com a notícia de que, há cerca de dez anos, com pouca diferença, andando Isabel, solteira, sachando em um campo de milho, no sítio da Ribeira, não mui distante da igreja desta freguesia, aí acaso, achara e levantara com um sacho, debaixo da terra, uma imagem perfeita de Nosso Senhor Jesus Cristo, sem cruz mas vazada em pés e mãos em forma que mostrou tê-la em algum tempo, e é de bronze ou metal amarelo, que tem de comprimento quase um palmo, e mostrava ser à proporção e feitio das que costumam usar, pendentes ao peito, os missionários apostólicos quando andam em missão, e que levando-a para sua casa a dita Isabel, solteira, a pusera em uma cruz tosca de pau e assim a conservara por tempo de sete anos, pouco mais ou menos, e que, haveria três anos, se começara a publicar nesta freguesia que Deus Nosso Senhor, como admirável em Seus santos e imagens de Seu Unigénito Filho, Cristo Bem Nosso, entrara a obrar alguns prodígios e milagres, restituindo sa´de a alguns enfermos; e havendo, por este respeito, algum concurso de povo fiel *aquela imagem, no sítio profano em que se achava, do que resultava alguma indecência ao culto que às imagens se deve, em tal caso, recorrera o dito Reverendo Pároco ao Excelentíssimo e Reverendíssimo Prelado deste bispado [Porto] para que determinasse se fizesse uma capela no lugar da invenção e dito sitio da Ribeira, onde se colocasse a imagem com a veneração devida, fora servido assim o determinar por despacho que tinha em seu poder, por bem do qual se fizera logo uma capela de madeira, com seu altar da mesma, que interinamente se acha bento e decente e nele, no alto, colocada a mesma imagem, em um nicho com sua vidraça, a cuja capela concorria muita gente de várias partes, com a viva fé de seus milagres, com louvável devoção e frequência, e tinham oferecido e iam quotidianamente oferecendo muitas ofertas de vários géneros, que se acham pendentes nos lados e altar da mesma capela, e outros em dinheiro (…)4.

4 - Todos estes acontecimentos se encontram descritos por José Tavares Afonso e Cunha no seu já citado trabalho, Notas Marinhoas, das páginas 41 à 89.

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Assim, lembrando situações semelhantes, também aqui é Nosso Senhor Jesus Cristo que escolheu este lugar para se acolher, sob a forma de uma imagem revelada a uma camponesa, Isabel solteira, que em 1743, quando sachava milho num campo seu perto da Ribeira, encontrou uma imagem de Cristo, em bronze, de cerca de um palmo de alto, que colocou numa pequena cruz e guardou. Cerca de sete anos depois, o povo atribuiu-lhe obtenção de graças, crescendo a aluência de devotos. Face a estes acontecimentos, a autoridade diocesana intervêm, ordenando a edificação de uma capela, havendo-se levantado uma de madeira, ficando a mesma Isabel por ermitoa. Em 1752 foi mandada construir uma nova em alvenaria. Arquitectonicamente é um edifício de planta longitudinal, com sacristia e anexa do lado norte uma casa de habitação, na qual de acordo com a tradição, moravam os fundadores da capela. No interior destacam-se os retábulos de talha dourada, o altar-mor e os dois colaterais5. A capela serviu entre 1855 e 1860 de igreja matriz da freguesia de São Bartolomeu de Veiros, período correspondente à reedificação da igreja paroquial, destruída por um incêndio que lavrou no seu interior na noite 25 para 26 de Novembro de 1855. Num testemunho coevo, uns apontamentos deixados pelo padre Joaquim José Pereira de Sousa, do Bunheiro, nesse tempo diácono a estudar no Porto, pode ler-se: “Na noite de 25 para 26 de Novembro de 1855, incendiou-se a igreja de Veiros (…). Foi reedificada de madeiras e telhados e acrescentada a capela-mor no ano de 1857. Findou-se este trabalho em 27 de Julho do dito ano”6. O padre António José Marques, contemporâneo de todos estes acontecimentos, relata na memória que iria enviar a Pinho Leal7: (…) Em 26 de Agosto de 1860, celebrou-se a primeira missa, trasladando-se para aqui, da capela do Senhor da Ribeira, que serviu de matriz por estes cinco anos, o SS. Sacramento. Houve um «Te-Deum» e uma tão grande solenidade religiosa como não há memória por estes sítios8.

OS EX-VOTOS PICTÓRICOS A fé, e as várias formas de religiosidade, ocupam espaços e tempos do quotidiano das gentes. Resulta de um processo continuado e constantemente renegociado, cuja evolução vamos entendendo através das materialidades sobreviventes, dos oratórios, ícones e rituais. O santo, enquanto merecedor de devoção, assume-se como entidade protectora de algo ou de alguma função. Este é um princípio fundamental à relação da devoção; não se é devoto de um santo sem com ele se estabelecer um diálogo quotidiano de solicitações, de preces e de laudatórios, estes últimos tão públicos quanto possível. A devoção assenta, portanto, numa

5 - CUNHA, José Tavares Afonso e – Notas Marinhoas, vol. II, pp. 20-21. 6 - CUNHA, José Tavares Afonso e – Notas Marinhoas, vol. II, pp. 15-16. 7 - Quando Pinho Leal empreendeu a publicação do seu Portugal Antigo e Moderno, pediu aos párocos das freguesias notícias dos factos históricos e notáveis das terras que paroquiavam. Em Veiros o padre António José Marques redigiu uma interessante memória, que a morte, em 27 de Julho de 1879, lhe impediu de enviar; completou-a Vitorino José Marques, seu sobrinho, e remeteu-a, depois a Pinho Leal, muito embora já não tenha ido a tempo de ser publicada. Cf. CUNHA, José Tavares Afonso e – Notas Marinhoas, vol. II, p. 10 e p. 35. 8 - CUNHA, José Tavares Afonso e – Notas Marinhoas, vol. II, p. 16.

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relação de interesses específicos, segundo a qual se elegem os santos cujos poderes mais convergem com as necessidades quotidianas9. Oferecido em cumprimento de uma promessa, o ex-voto é um sinal de reconhecimento por uma graça recebida, traduzindo um compromisso assumido nos momentos de maior aflição, mas também de esperança, em relação a um problema grave, para o qual se invocou e pediu a intervenção miraculosa do divino. Referenciado popularmente por: oferta, promessa, milagre... o ex-voto surge no quadro das diversas estratégias de negociação com as forças protectoras que cada um adota para defender e propiciar a sua vida, enquanto elemento ilustrador de uma promessa e sua remissão, que pode ser concretizada pelo devoto das mais diversas formas – da realização de uma simples novena ou peregrinação, à edificação de um templo, passando pela oferta de objectos de cera ou de singelos quadros pictóricos. O ex-voto salda a dívida contraída para com um protector celeste – Cristo, a Virgem ou um Santo – ao mesmo tempo que dá público anúncio da graça que lhe foi concedida e reconhecimento do poder daquele que advogado em momento de angústia, destacando-se entre as tipologias de dádivas a Deus, à Virgem ou a um Santo em cumprimento de um voto (do latim exvoto “segundo promessa”), o ex-voto pictórico, que surge como uma forma privilegiada de anúncio desta relação. Em primeiro, é uma representação iconográfica, tanto quanto possível historiografada, pedagógica para todos os que saibam ou não ler, que mais facilmente fixam a cena na memória. O cenário ilustrado é igualmente descritivo. Apresenta, em posição sobranceira, espacialmente destacada, a entidade tutelar, representada segundo a imagética a ela associada. Em posição inferior, e ocupando o restante campo cénico, distribuem-se os elementos descritivos da graça concedida pelo santo. O ex-voto destina-se também a ser exibido nos locais de culto, perpetuando a gratidão do devoto através do anúncio e, concomitantemente, também glorificando os poderes do santo protector10. Mas para além da imagem, estes pequenos quadros votivos exibem uma inscrição que acompanha e prolonga a narrativa pictórica, geralmente iniciada pela formúla: «M. Q. F. (Milagre que fez…)», razão pela qual estes ex-votos são conhecidos também pela designação de milagres. Em relação aos ex-votos em análise, executados entre os séculos XVIII e XIX, são maioritariamente de pequenas dimensões e de formato rectangular, numa tipologia comum à larga maioria dos quadros votivos. Pintados a óleo sobre madeira, em consonância com o que é habitual, foram executados numa arte ingénua e de limitados recursos técnicos, por artistas anónimos, de parcos recursos plásticis, visiveis na forma simples de composição das cenas, do tratamento das personagens e da paisagem, bem como na repetição de modelos iconográficos e no recurso a uma técnica limitada percetível no tratamento da perspectiva, esboçada sem qualquer método. Também seguindo, na sua esmagadora maioria, a composição clássica da cena narrada, apresentam-se divididos em duas partes: a pictórica e o texto narrativo. em a esta regra o ex-voto em tela, onde só existe a cena narrativa e o ex-voto ao Senhor dos Aflitos e às Almas, cuja inscrição não se inicia pela característica frase. Nas personagens celestes evocadas figura o Senhor da Ribeira, como peculiar intercessor. Orago da capela, Cristo, Filho de Deus, é protector divino por excelência, fazendo-se acompanhar em alguns casos de Sua Mãe, a Virgem Maria, aqui também invocada como Senhora das Dores, e de 9 - QUEIROGA, Francisco M. V. Reimão; MARQUES, Maria Clara de Paiva Vide – Entre o Azul e o Verde.Vale de Cambra – os percursos de um povo. Vale de Cambra: Câmara Municipal de Vale de Cambra, 2015, p. 123. 10 - QUEIROGA, Francisco M. V. Reimão; MARQUES, Maria Clara de Paiva Vide – Entre o Azul e oVerde.Vale de Cambra – os percursos de um povo, pp. 114-115.

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Seu pai adotivo, São José. Noutros, entre as figuras de recurso, surge acompanhado do Arcanjo São Miguel, o «Princípe das Milícias Celestes, vencedor de Lúcifer e dos anjos rebeldes, mas também «Senhor das Almas», detentor de um poder que lhe valeu a veneração tão alargada junto dos crentes católicos nas suas funções de pesador e condutor de almas, e também de Santo António de Lisboa, o santo franciscano tido como um dos maiores taumagurgos, com forte poder de intercessão. Na sua maioria os motivos que estão na base destas narrativas pictóricas são testemunhos relativos a enfermidades, pois a doença é o maior dos males que aflige o homem. E pese embora muitos poucos refiram a doença concreta, constata-se nalgumas das inscrições que a situação é grave: «… aflito com uma enfermidade …». Mas neste corpus de ex-votos, as maleitas dos animais e os perigos da guerra, suscitaram, igualmente, o recurso à intervenção divina. Numa época em que os animais viviam junto dos homens, quase como se fossem da família, também para eles, quando atacados por maleitas e tudo parecia perdido, se invocavam os Santos, preferencialmente Santo António, Santo Atão, Santo Amaro…. E os Santos ouviam quase sempre o apelo dos homens. Santo António pelas características de intercessor e defensor Por sua vez, as invasões francesas foram um episódio perturbador no contexto da História Moderna de Portugal. Os seus efeitos político-administrativos e económicos, as convulsões que trouxeram na ordem estabelecida, bem como as perturbações locais causadas directamente às populações pela passagem dos exércitos e pelos cenários de confrontos, colocam esta ocorrência histórica entre as mais marcantes para a população provincial. A 2.ª invasão comandada por Soult culminou com a tomada do Porto a 29 de Março de 1809, e terminou com a sua reconquista a 12 de Maio seguinte, tendo o litoral do rio Vouga como linha da frente, sob comando luso-britânico. Do impacto destes confrontos ficou também eco nas devoções, como podemos constatar num dos ex-voto ao Senhor da Ribeira. Curiosamente, neste conjunto de tábuas votivas ressalta o aparecimento de pinturas cuja composição que faz lembrar os pequenos paíneis das Alminhas. A Contra Reforma, promovida pelo Concílio de Trento, introduziu uma séria de alterações nas práticas cristãs, promovendo o fervor da fé através de uma série de conceitos e práticas, entre os quais o culto das almas do Purgatório. Como reacção às ideias disseminadas pelo movimento protestante de Martinho Lutero, a Igreja convoca o Concílio de Trento, em 1545, um longo conclave do qual saiu um conjunto de princípios e de iniciativas que vieram reconfigurar algumas percepções e práticas cristãs. As ideias que emanou foram rapidamente disseminadas pela Europa, e assimiladas pelas comunidades rurais em diferentes ritmos e formas. Entre os aspectos que mais impacto tiveram no quotidiano religioso das populações conta-se o complexo ideológico relacionado com a morte, retomando a imagem já delineada em época medieval do Purgatório como lugar transitório de redenção, de purificação da alma, e endossando aos vivos o poder, mas também o ónus, de interceder pelos seus mortos, agilizando a transição das almas para a morada celeste definitiva. Este poder individual de interceder pelas almas dos entes queridos falecidos podia ser exercido através da boa acção e da oração. Enquanto que para a primeira bastaria a prática da esmola, mormente quando acompanhada do formulário votivo “seja pelas almas”, já a oração se revestia de configuração mais complexa. Com efeito, a oração individual, apesar de eficaz, diluía-se ante o poder da oração colectiva, motivando assim o aparecimento de estratégias no sentido de envolver o máximo de intervenientes na prece. Uma das formas de induzir a esta prece específica foi a de disseminar oratórios ao longo dos caminhos. Estes oratórios eram compostos por um nicho com um painel coreografado, representando o Purgatório com as almas penando e uma figura tutelar sobrelevada, presidindo11.

11 - QUEIROGA, Francisco M. V. Reimão; MARQUES, Maria Clara de Paiva Vide – Entre o Azul e oVerde.Vale de Cambra – os percursos de um povo, p. 125.

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INVENTÁRIO 1.Ex-voto ao Senhor da Ribeira Portugal – 1777 Pintura s/madeira A. 28,8 cm x L. 29 cm Inscrição: VENDOSE ORD.O D. OR DIONÍZIO ALZ. EDOLVGAR DAFVER / FREG. A / FREG. A DES. TO V.TE DE SANG. OS AFLITO COM HUÃ IN / FERMID. E INVOCOV DEVOTAM. TE ODEVINO SNR. / DE BEIROS ELOGO SEVIO ALIVIADO NA / DE 1770. Transcrição: Vendo-se o Reverendo Doutor Dionísio Alz do lugar da freguesia de De Sangalhos aflito com uma enfermidade invocou devotamente o Divino Senhor de Veiros e logo se viu aliviado Ano de 1770. Fotografia: Victor Bandeira

De formato rectangular, com moldura marmoreada, o ex-voto oferecido pelo reverendo Dionísio da freguesia de Sangalhos pelo milagre do seu restabelecimento atesta a ampla devoção ao Senhor da Ribeira no contexto regional onde se insere. Seguindo a habitual estrutura compositiva dividida em dois planos: o terrestre e o celestial, a pintura apresenta o interior de um quarto, no qual se vê o «agraciado» deitado, sobre almofada branca e entre lençóis da mesma cor, numa cama de ferro com cabeceira alta rematada por cruz e coberta com colcha vermelha, cor usual à época, a par do verde. O outro lado da composição é ocupado pelo entidade da sua devoção, que surge em plano superior, envolta numa cercadura de nuvens, modelo recorrente usado pelos pintores de ex-votos

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para representar o espaço terreno, separando-o do celeste, aqui evidenciado também pela cor azul do céu. O Senhor da Ribeira, representado conforme a sua iconografia usual, figura crucificado, preso à cruz por grossos pregos, envergando um cendal, vendo-se no topo da cruz a tradicional legenda: INRI (Jesus Nazareno Rei dos Judeus). Inserida numa faixa horizontal, disposta junto à base, uma inscrição com o texto narrativo onde se explicita e anuncia o desfecho favorável do episódio. 2.Ex-voto ao Senhor da Ribeira Portugal – 1.ª metade do século XIX Pintura s/madeira A. 29,5 cm x L. 37,5 cm Inscrição: MILAGRE QUE FEZ OSENHOR DA / REBEIRA Transcrição: Milagre que fez o Senhor da Ribeira Fotografia: Victor Bandeira

O pequeno painel gratulatório, dado em agradecimento por uma graça alcançada em tempo de guerra - as invasões francesas –, apresenta do lado esquerdo um cenário de exterior, onde se destaca um pequeno e radioso sol, sobre o vovente, que surge a cavalo, envergando a farda militar e a lança ornada com um estandarte. No centro marcando o eixo da composição, encontra-se o Senhor da Ribeira. Do Seu lado esquerdo, figuram a Virgem Maria, invocada como Nossa Senhora das Dores e São José, ambos colocados sobre nuvens, recurso habitualmente usado pelos pintores de ex-votos para indiciar o espaço celeste, indicando também a Sua condição de protectores celestes. A Virgem, com resplendor na cabeça e vestida com túnica rosada e manto azul sobre as costas, tem uma seta espetada no peito, símbolo da Sua iconografia de Mater Dolorosa. São José, sustentando na mão esquerda um ramo de açucenas, um dos seus atributos mais comuns, segura com a direita um cajado, atributo que também lhe é peculiar. Com a cabeça salientada por aureola, o Santo enverga túnica de tona avermelhados e, passado a tiracolo sob o ombro esquerdo, rodeando-lhe o corpo num movimento de volteio, um manto azul com bordadura vermelha. Junto à base inferior, uma singela inscrição identifica de forma sumária o «milagre».

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3.Ex-voto ao Senhor da Ribeira Portugal – Século XIX (?) Pintura s/madeira A. 45,5 cm x L. 53,5 cm Fotografia: Victor Bandeira

Neste ex-voto oferecido ao Senhor da Ribeira figura, na parte esquerda e num típico cenário de quarto de dormir, um moribundo deitado numa cama de ferro com cabeceira encimada por cruz e enquadrada por um dossel com reposteiro, de tons azuis e rosados. Com a cabeça envolvida por panejamento branco, entre lençóis brancos e colcha vermelha, usual na época, encontra-se acompanhado à cabeceira por um eclesiástico que exibe o gesto de extrema-unção. No lado oposto, sentado em cadeira de madeira com espaldar, está uma figura masculina trajada com camisa, casaca de botões e calção, calçada com meia branca e sapatos de fivela, que nos permitem alvitrar tratar-se de pessoa de certa condição, provavelmente um médico. Aos pés da cama, ajoelhado e em atitude orante, um homem ainda jovem, com traje que indica também ser de certa condição, pede a intercessão do Senhor da Ribeira. Do lado direito da composição, vê-se uma mulher igualmente ainda jovem, ajoelhada próximo de um berço onde está deitada uma criança. Por detrás do berço são visíveis duas figuras. A imagem do Senhor da Ribeira, a entidade invocada no momento de aflição, surge em destaque, pousada sobre um novelo de nuvens, numa representação usual do espaço celeste. Envolvido por um halo de luz, acentuando o carácter sagrado, Cristo figura crucificado, de rosto jovem, preso ao madeiro por grossos cravos, envolvido num cendal branco. Disposta num retângulo junto à base, a inscrição, na qual estaria relatado o episódio, é actualmente impercetível.

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4.Ex-voto ao Senhor da Ribeira Portugal – Século XIX (?) Pintura s/madeira A. 35,5 cm x L. 33 cm Inscrição: […]S O SNRDA RIBEIRA A MANUN[…] / […] ESTANDO / […] ME […] Transcrição: Milagre que fez o Senhor da Ribeira a Man/ estando / me Fotografia: Victor Bandeira

O painel gratulatório, dado em agradecimento ao Senhor da Ribeira por uma graça alcançada, segue o esquema habitual dos quadros narrativos apresentando dois espaços definidos: o terreno e o celeste. No lado esquerdo, como é recorrente na cena representativa de doença, vemos no interior de um quarto de dormir, prostrado num leito ricamente ornamentado por dossel de tecido lavrado com flores e rematado por franja, um enfermo, entre lençóis brancos e colcha de tecido ricamente lavrado, o que indicia a sua condição social de pessoa com posses. O «miraculado» é assistido à cabeceira por um médico e um sacerdote (?), e junto aos pés do leito por familiares, neste caso duas figuras femininas, ajoelhadas e de mãos postas, rogando ao Santo invocado. Ocupando o outro lado da composição, em posição destacada, encontra-se a figura divina intercessora - o Senhor da Ribeira –, da qual emanam raios de luz, sinal do Seu carácter sagrado, que figura crucificado, preso ao à cruz por cravos. Cristo, tem na cabeça a coroa de espinho e enverga cendal branco. Numa possível alusão ao Monte Gólgota, a cruz é rodeada de vegetação. Inscrita numa faixa horizontal, disposta junto à base uma legenda, pouco perceptível actualmente, dava conta do sucedido, dá conta do episódio e do seu final feliz.

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5.Ex-voto ao Senhor da Ribeira Portugal – Século XIX (?) Pintura s/madeira A. 26,3 cm x L. 26 cm Inscrição: M. Q. FES OS. DARIB.ra A ESTE SEV DEVOTO / EMHVMA NESESIDADE Transcrição: Milagre que fez o Senhor da Ribeira a este seu devoto / em uma necessidade Fotografia: Victor Bandeira

Neste ex-voto ao Senhor da Ribeira, bastante danificado, é ainda percetível a imagem do Senhor da Ribeira e ajoelhado a imagem do «vovente». A cena mostra naquele que parece ser um cenário de exterior, de tons castanhos, o ofertante de rosto erguido, ajoelhado em oração, rogando a protecção do Senhor da Ribeira. No centro, no espaço celeste, mais elevado aparece a divindade invocada, Jesus crucificado, envolto numa teoria de nuvens, que demarca os planos do sagrado e do profano. Junto à base, um listel branco contém a inscrição que relata o «milagre».

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6.Ex-voto ao Senhor da Ribeira Portugal – Século XIX (?) Pintura s/madeira A. 40,3 cm x L. 28,5 cm Inscrição: [Milagr]E QUE FIZ O SENHOR / RIVEIRA Transcrição: Milagre que fez o Senhor da Ribeira Fotografia: Victor Bandeira

Quando as pestes atacam o gado, quando a ovelha, o boi, o porco ficam doentes, o homem também invoca a intercessão divina para a sua cura, como acontece nesta pequena tábua votiva de formato rectangular com recorte superior polilobado, onde surge sobre grinaldas de flores, a encimar a cena, numa figuração muito semelhante à dos painéis das Alminhas, Nossa Senhora e São Miguel Arcanjo, a ladear a cruz com a imagem do Senhor da Ribeira, colocada no âmago da composição. A cruz encontra-se assente em dois pequenos degraus, flanqueados por pequenos arbustos, sob os quais se vêem três querubins, que indiciam o plano do sagrado. Junto à base, no lado esquerdo, encontram-se a imagem de Santo António de Lisboa, protetor dos animais e advogado requisitado nas suas maleitas, que figura na sua iconografia mais comum, envergando o hábito franciscano e sustento ao colo, sobre o Livro fechado, o Menino Jesus, e o miraculado, ajoelhado e de mãos postas em atitude orante, de olhar dirigido para o Santo. O lado contrário, por trás do vovente, é ocupado um grupo de animais – ovinos e suínos (?) – entre vegetação. Na parte inferior, uma inscrição pintada a negro, anuncia o «milagre». .

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7.Ex-voto ao Senhor da Ribeira Portugal – Século XIX (?) Pintura s/madeira A. 35,5 cm x L. 26,7 cm Inscrição: Milagre que Fiz o Senhor da Riveira (a Manuel Joaquim Reis e sua mulher Anna e seus [filhos]) Transcrição: Milagre que fez o Senhor da Ribeira (a Manuel Joaquim Reis e sua mulher Ana e seus filhos) Fotografia: Victor Bandeira

No quadro de milagres aqui apresentado, cuja configuração rectangular e topo polilobado, o assemelha aos painéis das almas do Purgatório, encontra-se uma composição que segue também a tradição das composições das “alminhas”. Ao centro, em plano elevado, a imagem do Senhor da Ribeira, Cristo crucificado, flanqueada do lado esquerdo pela imagem de Nossa Senhora e no lado oposto pela imagem do Arcanjo São Miguel, ambos colocados sobre peanhas. No remate, sob o topo da cruz, figuram as almas do Purgatório, retratadas num tipo de composição usual, de corpos desnudos no suplicio entre chamas. Na zona inferior, ocupando o lado direito da superfície pictórica, figura o ofertante, certamente o pai, que ajoelhado, de rosto erguido e mãos erguidas roga ao Senhor da Ribeira de Veiros. Envergando fato completo, o seu chapéu, em sinal de respeito, encontra-se pousado no chão. Do lado oposto, encontram-se os restantes elementos da sua família: a esposa e filhos sentados, vendo-se um deles em atitude orante. Por baixo, uma singela legenda a negro dá conta do «milagre». O ex-voto contém, ainda, a lápis, escrita sobre a pintura da intervenção que sofreu, uma outra inscrição onde se lê “a Manuel Joaquim Reis e sua mulher Ana e seus filhos”, que identifica o vovente e a família.

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8.Ex-voto ao Senhor da Ribeira Portugal – 1848 Pintura s/madeira A. 42,8 cm x L. 32,2 cm Inscrição: M[I]LAG[RE] QFez O S. DA RIBEIRA 1848 Transcrição: Milagre que fez o Senhor da Ribeira 1848 Fotografia: Victor Bandeira

Este ex-voto, datado de 1848, apresenta mais uma pintura que se assemelha aos pequenos quadros das Alminhas. Num cenário de interior, criado por um elemento decorativo que lembra um reposteiro, ornado com berloques e flores-de-lis, a composição é encimada pela figura invocada, o Senhor da Ribeira, que se encontra ladeado, num plano intermédio, por Nossa Senhora das Dores e por Santo António, colocados sobre peanhas, e realçados com auréolas, sinal da sua santidade e condição de entidades divinas, intercessores privilegiados entre Deus e os homens. O Senhor da Ribeira, numa figuração habitual surge preso por cravos a uma cruz, rematada pela inscrição INRI, envergando cendal preso por corda à cintura. A Senhora das Dores, que surge no lado esquerdo, apresenta-se vestida com túnica comprida e manto sobre a cabeça, com o peito trespassado por sete setas que simbolizam as Suas dores, baseadas na profecia de São Simeão na Apresentação no Templo: a fuga para o Egipto; a perda do Menino Jesus no Templo; o encontro no caminho do Calvário; a crucifixão; o golpe da lança e a descida da cruz, e o sepultamento de Cristo. Santo António, que ocupa o lado oposto, enverga hábito franciscano e sustenta, na mão direita, uma cruz e, na esquerda, o Menino Jesus. Próxima da base da cruz há uma figura feminina, ajoelhada,

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braços erguidos e mãos postas em atitude orante, se voltada para o Senhor da Ribeira, pedindo a sua intercessão. Muito próximo, vê-se uma figura masculina, de pé, envergando calça comprida e casaca, de braços estendidos e mãos abertos em gesto de quem pede clemência. Entre as duas figuras, jaz por terra uma figura moribunda, apenas envolta num panejamento colocado à cintura. Por baixo, as almas visíveis da cinta para cima, no meio do fogo do Purgatório, umas erguendo os braços a pedir clemência, outras pondo as mãos em gesto de humildade e oração. Disposta junto à base serve de complemento uma singela que dá conta do «milagre» sucedido. 9.Ex-voto ao Senhor da Ribeira Portugal – Século XIX (?) Pintura s/madeira A. 26 cm x L. 35,5 cm Inscrição: Milagre que Fez o / Senhor da Ribeira / a um deboto Seu / 1879 Transcrição: Milagre que fez o Senhor da Ribeira a um devoto seu 1879 Fotografia: Victor Bandeira

A Capela do Senhor da Ribeira é um local de profunda devoção, como este ex-voto aqui presente, mais uma vez, nos dá testemunho. De formato rectangular com recorte superior polilobado, a pequena tábua votiva segue no essencial a tipologia clássica deste tipo de quadros de milagres. A cena, emoldurada por duplo filete em preto e vermelho, retrata num cenário de exterior marcado por duas singelas árvores, no canto inferior direito o «miraculado», uma criança, acompanhada da ofertante por certo a sua mãe, que por ele implorou proteção. Marcando o eixo central da composição, numa posição destacada, encontra-se o Senhor da Ribeira, aposto numa cruz de grandes dimensões flanqueada no topo pela inscrição: IN/RI. Cristo é ladeado por Nossa Senhora

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da Ajuda e pelo Arcanjo São Miguel – aqui colocados sobre uma tiara de pequenos anjos que marcam o espaço celeste –, numa disposição muito semelhante às dos pequenos painéis das Alminhas, que vemos disseminadas pelas nossas localidades. Também de forma análoga, deparamos, no lado esquerdo da composição e colocadas aos pés da Virgem, com cinco corpos despidos, envolvidos por chamas que representam as almas do Purgatório que, no meio do seu tormento, de acordo com a mentalidade coeva, pedem auxílio, sendo sinal inequívoco dessa súplica a figura feminina de mãos estendidas. Junto aos agraciados uma singela inscrição, iniciada pela habitual frase «Milagre que fez…», apenas dá conta do «milagre» obtido pelo favor divino.

BIBLIOGRAFIA ARAÚJO, Agostinho – Gratulação e Proselitismo na pintura de «Milagres». Separata da revista Beira-Alta, Viseu: Assembleia Distrital de Viseu, 1979. CARNEIRO, Deolinda – Aspectos do traje em Portugal no século XVIII, tendo por fonte a pintura votiva. In PORTUGAL. Comissão Nacional da Comemoração dos Descobrimentos Portugueses – Estórias de Dor, Esperança e Festa. O Brasil em Ex-votos Portugueses (Séculos XVII-XVIII). Lisboa: C.N.C.D.P., 1998, pp. 31-32. CORREIA, Alberto – Ex-votos: as «promessas» a um Deus solidário. In RESENDE, Nuno (coord.) – O compasso da Terra. A arte enquanto caminho para Deus. Tarouca, Lamego: Diocese de Lamego, 2006, Vol. II. pp. 77-84. COSTA, Manuela Pinto da – Ermidas e Capelas. In AZEVEDO, Carlos Moreira (dir.) – Dicionário de História Religiosa de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores-Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, 2000, Vol. C-I, pp. 154-158. CUNHA, José Tavares Afonso e – Notas Marinhoas. Estarreja: Edição do Autor, 1972, vol. II. GONÇALVES, A. Nogueira – Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Aveiro – Zona Norte. Lisboa: Academia Nacional de Belas – Artes, 1981, pp. 35-36. LIMA, José da Silva – Religiosidade Popular. In AZEVEDO, Carlos Moreira (dir.) – Dicionário de História Religiosa de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores-Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, 2001, Vol. P-V – Apêndices, pp. 107-120. MARQUES, João Francisco – A renovação das práticas devocionais. In AZEVEDO, Carlos Moreira (dir.) – História Religiosa de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores-Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, 2000, Vol. II, pp. 577-581. MARQUES, Maria Clara de Paiva Vide – O vigor da Fé: “Pinturas de Milgares” em Vale de Cambra. In PATRIMÓNIOS. Aveiro: ADERAV, 2013, n.º 10, pp. 143-167. PENTEADO, Pedro – Peregrinações e Santuários. In AZEVEDO, Carlos Moreira (dir.) – História Religiosa de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores-Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, 2000, Vol. 2, pp. 346-359. PORTUGAL. Instituto Português de Museus – Do Gesto à Memória. Ex-Votos (Catálogo de exposição – Museu da Guarda-Museu Grã Vasco-Museu de Lamego 1998-1999). Lisboa: I.P.M., 1998. PORTUGAL. Instituto dos Museus e da Conservação – Normas de Inventário. Pintura. Lisboa: I.M.C., 2007. PORTUGAL. Museu Antropológico da Universidade de Coimbra – Milagre q~ fez… Coimbra: Museu Antropológico da Universidade de Coimbra, 1997. QUEIROGA, Francisco M.V. Reimão; MARQUES, Maria Clara de Paiva Vide – Entre o Azul e oVerde.Vale de Cambra – os percursos de um povo. Vale de Cambra, Câmara Municipal de Vale de Cambra, 2015. SOALHEIRO, João – Ex-Voto. In AZEVEDO, Carlos Moreira (dir.) – Dicionário de História Religiosa de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores-Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, 2000, Vol. C-I, pp. 236-238. TAVARES, Jorge Campos – Dicionário de Santos, 2ª ed. Porto: Lello e Irmãos Editores, 1990. VORAGINE, Tiago – Legenda Áurea. Porto: Editora Civilização, 2004.

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NORVINDA LEITE

EDIFÍCIO DOS PAÇOS DO CONCELHO DE ESTARREJA UM PERCURSO PELAS FONTES DE 120 ANOS DE HISTÓRIA Norvinda Leite* Deixara de viver Francisco Barbosa, do concelho se afastou toda a sua descendência, o solar que ergueu consumiu-o o fogo e destruíram-nos os homens, a memória de quanto fez durante mais de meio século de vida pública vai-a devorando o tempo. Imponentes e bem evidentes na sua grandeza, só os Paços do Concelho teimam em lembrar um dos mais honestos, activos e competentes gestores administrativos do nosso país.1 Há 120 anos atrás, no dia 05 de janeiro de 1896, Estarreja inaugurou o seu mais emblemático e simbólico edifício. Obra de construção grandiosa e imponente foi inaugurada na maior pompa e circunstância, com cerimónias dignas das mais ilustres obras da nação. Símbolo da autonomia administrativa e do poder local, constituía o espaço onde as relações entre o estado e os munícipes, se cruzavam, no extremo da sua maior proximidade. É deste edifício, a que vulgarmente chamam Edifício dos Paços do Concelho, que pretendemos divulgar um pouco da sua história, manifestada nas mais variadas fontes documentais e ao longo destes 120 anos. Não é nosso propósito fazer uma análise técnica ou histórica da construção do edifício dos Paços do Concelho, mas antes divulgar as fontes que fixaram a sua história e que nos transmitem, em direto, os factos e os acontecimentos, que motivaram a sua existência, e que, pelos tempos fora, permitiram que se conserve ainda hoje como a real, a verdadeira casa da democracia, nas suas funções, na sua história e na sua magnitude.

* Arquivista do Arquivo Municipal de Estarreja. Atualmente em mobilidade no Arquivo Municipal de Arouca. 1 - Excerto do texto proferido no Rotary Club de Estarreja, por José Tavares Afonso e Cunha, na cerimónia de homenagem a Francisco Barbosa, pelo centenário do seu acesso à Presidência da Câmara Municipal de Estarreja. Publicação Câmara Municipal de Estarreja. 1986.

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A necessidade da Construção do Edifício dos Paços do Concelho, no Município de Estarreja, vinha sendo sentida desde meados do Séc. XIX, já que a chamada Casa da Câmara, situada na Rua do Peixe, era demasiado pequena e encontrava-se bastante degradada2. As outras “Repartições Públicas” encontravam-se dispersas por várias casas de renda e em más condições, tornando-se dispendiosas para os cofres da Câmara. Com a autonomia de Estarreja relativamente à obediência económica e administrativa para com o Mosteiro de Arouca, derivado da extinção das ordens religiosas, e a criação da Comarca de Estarreja, esta começa a ser um polo de serviços e em crescente desenvolvimento. O alargamento do Largo da Praça terá sido o primeiro prenúncio dessa sede de modernização. Urgia que se criasse um espaço aglutinador de todos os serviços, tal como acontecia um pouco por todo o país, mas que fosse à altura da importância que Estarreja tinha no meio local. Era um assunto que a todos os membros da câmara preocupava. Mas as poucas receitas dos cofres municipais eram o principal obstáculo a esse anseio. Só quando Francisco Barbosa da Cunha Sotto Maior3, pessoa culta, de origens abastadas e politicamente influente, assume o cargo de Presidente de Câmara em 1886, o sonho da construção do novo edifício passou a ser possível. Com esse propósito no ano de 1891, já com um longo estudo de caso previamente feito, Francisco Barbosa apresentou a toda a Câmara um projeto para construção de um Novo Edifício dos Paços do Concelho, da autoria de João da Maia Romão, arquiteto conceituado e professor de desenho no Liceu de Aveiro, bem como apresenta também a forma de se obter o seu total financiamento, como podemos constatar pela transcrição: “Sessão de Audiências da Câmara Municipal de Estarreja, de 22 de Julho de 1891. … Nesta disse o Exmo. Presidente que era de todos bem conhecida a necessidade da construção de novos Paços do Concelho, não só para aformoseamento da Villa, cabeça d’uma importantíssima Comarca de primeira classe, como para acomodação de todas as repartições públicas, que muito mal acomodadas, se acham dispersas por diversas casas, não obstante as avultadas rendas que se pagam por ellas, por isso mandou elaborar o projeto e confecionar o orçamento que apresenta ao exame e consideração da câmara, do qual consta que a despesa a fazer com tão importante e necessária obra que orça por vinte e quatro contos de reis, quantia aliás importantíssima que não se pode obter se não por meio de um empréstimo, para o qual apresentava à câmara a seguinte proposta na esperança de ser resolvida como entender mais justa e conveniente aos interesses do município, visto a impossibilidade de obter de outro modo os meios necessários para tão grandiosa e indispensável obra. Proponho que a Câmara Municipal deste concelho de Estarreja contrarie um empréstimo de vinte e quatro contos de reis, com aplicação exclusiva à aquisição do terreno necessário e construção da casa para os novos Paços do Concelho e mais repartições, representado por duzentas e quarenta obrigações de cem mil reis cada uma, nominativos, ou ao portador, amortizáveis pelos seu valor por meio de sorteio anual, na razão

2 - Após ter dela saído a Câmara e o Tribunal continuou a albergar a cadeia de Estarreja até que, em 1946, foi oferecida aos Bombeiros Voluntários de Estarreja para ali instalar o quartel. Estava em estado degradado quando foi demolida, cerca de 1952, possibilitando o alargamento da Praça do Peixe. 3 - Nasceu a 20/12/1827 e faleceu em 30/05/1821. Filho do Dr. Pedro Barbosa do Couto e Melo e de Mariana de Sá Sotto Maior. Foi Senhor da Casa da Fontinha, da Travessa de Braga e ainda Administrador do Morgado de Sampaio, Vila Real. Vivia no solar da Fontinha, freguesia de Beduído, concelho de Estarreja. De chefe do partido progressista em Estarreja, passou a deputado e foi eleito deputado da nação em vários círculos eleitorais. Foi vereador da Câmara Municipal de Estarreja e em 1886 tomou posse como Presidente.

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de oito por ano, pelo menos, e sempre em progressivo aumento conforme a verba consignada anualmente em orçamento para essa amortização e pagamento dos juros, que não excederão a 5%, ao anno. O juro será pago ao 31 de Outubro de cada anno, juntamente com as obrigações sorteadas, cujo sorteio terá lugar no dia 20 do mesmo mês. A Câmara garante o pagamento do capital e juros por todos os rendimentos do município, mas especialmente, pela percentagem de 10%, sobres as contribuições do estado predial, industrial, importância das rendas de casas, que poderão render termo médio 1:700$000 reis por anno, e por 300$000 reis dos rendimentos em conta do município, que tudo faz a quantia de 2:000$000 reis, sendo 1:200$000 reis para juros e 800$000 reis para amortização, e cuja percentagem subsistirá só até que seja amortizada a dívida toda. A subscrição para este empréstimo será feita por propostas em carta fechada, apresentando os subscritores, no acto da subscrição, no cofre municipal, um depósito de 10% do capital que pretenderem subscrever, sujeitando-se às condições do empréstimo e ao rateio das obrigações, quando a subscrição exceda a 240 obrigações na proporção da proposta. A importância da subscrição será satisfeita por prestações nunca superiores a 20% do capital subscripto na época anunciada, com antecipação de sessenta dias, pelo menos. As prestações que não forem pagas nos prazos determinados ficam sujeitas ao encargo de 5% de juro ao anno pela mora até trinta dias, findos os quaes, os títulos, serão vendidos e liquidados por conta dos subscriptores. Estes receberão da Câmara, pelo depósito effectuado antes da subscipção, cautelas, das quaes uma acompanhará a proposta, e serão trocadas por títulos provisórios no acto do pagamento da 1ª prestação. Quando todas as prestações estejam pagas, os títulos serão trocados por obrigações definitivas. Este empréstimo será somente levantado à medida que for necessário para pagamento de despesas a fazer com a obra a que é destinada. Em seguida a esta proposta, que a câmara adoptou e aprovou por unanimidade, fundada nas judiciosas considerações do seu presidente, deliberou a mesma Câmara que na sessão de 29 do corrente se discutisse este assumpto com assistência dos 40 maiores contribuintes, para emitirem o seu parecer, para o que serão convocados na forma do artigo 119º do código administrativo para os efeitos do nº 12 do artigo 118º, do mesmo código.”4 Apresentada a proposta aos 40 maiores contribuintes do concelho, em reunião de 29 de Julho, a mesma foi aprovada por unanimidade.5

Planta do piso 0 do edifício dos Paços do Concelho - 1889

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Planta dos cortes laterias do edifício dos Paços do Concelho - 1889.

Planta das Frontarias - 1889

Dos procedimentos necessários para levar a obra a concurso destacamos aqui algumas das condições específicas para a arrematação da obra, reflexo da exigência de qualidade na sua construção, nomeadamente “toda a pedra de cantaria será minuciosamente examinada pelo fiscal da obra que deverá ser da melhor qualidade” … “todas as pedras terão as dimensões exigidas, não sendo admitidas as que tiverem falhas.”6.

4 - Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja Lv. nº 12, fls. 82 v e sgts. 5 - Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja, Liv. 12. Fls. 84. Do projeto inicial da obra apenas resistiram até aos dias de hoje 5 plantas, cujo originais se encontram emoldurados e expostos na sala de Sessões de Câmara de Estarreja e o documento com as Condições de Arrematação para a sua construção, documentos preciosos para o estudo técnico do edifício. 6 - In: “Condições de Arrematação da Construção do Edifício dos Paços do Concelho e Demais Repartições”, Clausulas 5ª a 8ª.

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Condições relativas à qualidade da pedra

Relativamente ao revestimento também foi garantido o seu aprimoramento “todos os rebocos serão branqueados a cal fina, com três demãos, pelo menos, e de modo que não apareçam asperezas nem se apresentem manchas”.7

Condições relativas à pintura do Edifício

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Na disposição das divisões do edifício note-se uma alteração que ficou registada nas condições de arrematação, relativamente ao projeto apresentado pelo João da Maia Romão, e que refere: “as divisões marcadas na ala direita passam para a ala esquerda do Piso Nobre do Edifício, abrindo-se ainda duas portas, no salão do tribunal, uma para a salla de espera e outra para a salla do Juíz”. 8 Não nos é possível observar como seria o projeto original do Piso Nobre do edifício, por a planta haver desaparecido. No entanto, esta referência nas condições de arrematação indica essa troca de disposição do projeto original. A base de licitação será de 20.000$000 reis (vinte contos de reis). (...) em 13 de janeiro de 18929. Com estas e outras condições, a obra de construção foi adjudicada a Manuel Joaquim da Silva Valente, de Pardilhó, por 17:799$000 Reis10.

Condições de arrematação - disposição das salas do Piso Nobre.

Quanto ao financiamento da construção, tal como proposto por Francisco Barbosa e aprovado em Sessão de Câmara de 29 de julho de 1891, foi feito através do empréstimo de Obrigações no valor de 100$000 Reis cada, a conceder a particulares, perfazendo a quantia de 24.000$000 Reis, que cobriria todas as despesas para a construção do Edifício. O financiamento foi feito por 31 Investidores, cada um com quantidades diferentes de investimento, conforme nos indica a lista abaixo11:

7 - Idem, clausula 11ª. 8 - Idem clausula 48ª 9 - Idem clausula 49ª 10 - Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja, liv. nº 12, fls. 119. 11 - Júlio Maria de Quadros Corte Real, de Vila Nova de Gaia, compra obrigações em dois momentos diferentes, daí a existência de 32 acionistas na lista.

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Acionistas do Empréstimo de 24:000$000 Reis para a Construção do Edifício dos Paços do Concelho**

Nº ordem

Nome do Acionista

1

Francisco Barbosa do Couto Cunha Sotto Maior

2

Nº de Obrigações de 100$000 Reis

Morada

Nº das Obrigações

Paço

Beduido

10

001 - 10

Dr. Caetano Pereira do Couto Brandão

S. Tiago

Beduido

5

11-15

3

Helena Correia Telles D’Albuquerque

Outeiro da Marinha

Beduido

10

16-25

4

José Domingues de Sá

Canelas

1

26

5

Joaquim Álvarto de Oliveira Affonso Cirne

Pardilhó

3

27-29

6

Rosa de Oliveira

Pardilhó

2

30-31

7

Vasco Marques Valente

Praça de Estarreja

Beduido

5

32-36

8

José Agostinho Alves Valente

Igreja

Bunheiro

10

37-46

9

Reverendo Joaquim Domingues da Silva

Canelas

2

47-48

10

Cândida das Dores Gomes da Fonseca

Braga

10

49-58

11

António Marques Rodrigues

Outeiro da Marinha

Beduido

30

59-88

12

Marianna Rosa Correia Telles

Vila de Estarreja

Beduido

10

89-98

13

José d’Almeida Salgado

14

Maria José Barbosa Falcão de Azevedo

15

Júlio Maria de Quadros Corte Real

16

Joaquina Saraiva de S. paio pereira e Mello

17

José Maria de Abreu Freire (Visconde de Baçar)

Fermelã

6

99-104

Paço

Beduido

8

105-112

Vila Nova de Gaia

3

113-115

Lugar de Estarreja

Beduido

2

116-117

Avanca

10

118-127

Vila Nova de Gaia

2

128-129

Sobreiro

Albergaria

6

130-135

Aveiro

4

136-139

18

Júlio Maria de Quadros Corte Real

19

Manuel Joaquim freire

20

Manuel Marinho Ribeiro do Carmo

21

Dr. José Tavares da Silva Rebello

Salreu

10

140-149

22

Manuel Caetano Afonso Tavares de Sousa

Murtosa

5

150-154

23

Francisco Ferreira Baptista

Pardelhas

Murtosa

3

155-157

24

António D’Azevedo Maia, Reytor

Beduido

3

158-160

25

Reverendo João Marques da Silva

Santo Amaro

Beduido

4

161-164

Ponte da Rata

Eirol

25

165-189

26

Ana Vitória Amador

** In: “Livro de Registos dos Acionistas do Empréstimo de 24:000$000 Reis para a Construção do Edifício dos Paços do Concelho”.

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27

João Maria Amador

Pardilhó

10

190-199

28

Manuel Tavares Ruella

Bunheiro

1

200

29

Dr. Manuel Pedro Tavares Ruella

Bunheiro

10

201-210

30

Manuel De Almeida Ramos

Pardilhó

10

211-220

31

Luisa de Oliveira Maio (Mayo)

Aveiro

10

221-230

32

Luis Simões Maio (Mayo)

Aveiro

10

231-240

Exemplar de um Título de Obrigação de 100$000 reis.

Como contributo da família de Francisco Barbosa as suas filhas, Mariana e Amélia Barbosa, generosa e gratuitamente bordaram a Ouro a Bandeira da Câmara12. Bandeira essa, orgulhosamente exibida na cerimónia de inauguração do edifício. Atualmente, e após sofrer uma delicada intervenção de restauro, a bandeira encontra-se dignamente exposta no corredor do Piso Nobre dos Paços do Concelho13. 12 - Voto de louvor e agradecimento feito em sessão de 07/01/1896. Copiador de Correspondência Expedida da Câmara de Estarreja. Registo nº 62 de 1896. 13 - Restauradora, Eva Armindo, em 2010.

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Bandeira Bordada a ouro pelas filhas de Francisco Barbosa após restauro.

Voto de louvor às filhas de Francisco Barbosa.

Concluídas as obras, houve ainda lugar à aquisição do mobiliário destinado a equipar todos os serviços instalados nos Novos Paços do Concelho, orçado em 2:870$000 reis14. Para relembrar, a assinatura do contrato de adjudicação da obra foi realizada a 13/01/1892, com a condição de que teria de ser iniciada no prazo de 5 meses e concluída passados 3 anos do seu início15. E assim foi. Precisamente 4 anos depois, e após o tempo necessário ao seu mobilamento e à organização dos festejos, em 05 de janeiro de 1896, era inaugurado o imponente edifício.

Teor do convite para a cerimónia de inauguração dos novos Paços do Concelho16

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Os pormenores e formalismos do evento não poderiam ser melhor descritos, senão pelo documento que abaixo se transcreve: “Acta da sessão solene da inauguração do edifício dos novos Paço do Concelho e demais repartições. Presidência do Exmo. Dr. José Maria de Abreu Freire, Presidente da Câmara, com a assistência dos Srs. Vereadores. Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oito centos noventa e seis, aos cinco dias do mês de Janeiro, nesta Vila de Estarreja e sala destinada às sessões camarárias, no novo edifício dos Paços do Concelho e mais repartições públicas, onde se acha reunida a câmara municipal deste Concelho, em maioria, debaixo da presidência do Exmo. Presidente Dr. José Maria de Abreu Freire, que veio incorporada em grande cortejo com todas as autoridades administrativas e judiciais e mais funcionários públicos com os seus empregados, cujo cortejo saiu dos antigos Paços do Concelho, pela ordem que consta do respectivo programa, que foi publicado, para o final de se inaugurar a posse do mesmo edifício e fazer entrega às mesmas autoridades e funcionários das suas respectivas repartições; Ele, Presidente, deu por aberta esta sessão solene, digo sessão solene. E na presença dos Ex.mos. Juiz de Direito Dr. Joaquim Pereira de Magalhães; subdelegado Dr. António Tavares Afonso e Cunha; Administrador do Concelho Jorge de Barros Lima do Rego Barreto; conservador Dr. Manuel Barbosa de Quadros; Recebedor José de Moura Coutinho Almeida d’Eça; Escrivão da Fazenda Lino Augusto de Faria e respectivos empregados; antigos vereadores, Párocos, Juízes de Paz, maiores contribuintes prediais e industriais; professores e mais entidades convidadas para este acto, que todas representam Clero, Nobreza e Povo, declarou ele Presidente e a Câmara deliberou em seguida digo o que, em seguida ao encerramento da sessão, se fizesse entrega das diferentes repartições e suas dependências às competentes autoridades e funcionários, para de hoje e para o futuro desempenharam as suas funções neste edifício, e que em sinal de regozijo por tão fausto acontecimento, seja iluminada a frontaria do edifício á noite e na sua frente toquem duas músicas. Mais deliberou a Câmara que, para memória perpétua se transcreva por cópia esta acta em papel próprio, para ser assinada por todas as pessoas presentes e outras que queiram associar a esta tão grande demonstração de regozijo, por ser hoje o dia em que este Concelho soleniza a posse do seu mais grandioso monumento. A Câmara, atendendo aos relevantes serviços prestados pelo Exmo. Sr. Francisco Barbosa do Couto Cunha Sotto Maior, para se levar a efeito este grande melhoramento, que o Concelho vai gozar, não só como iniciador dele, como pelo seu Zelo e inexcedível actividade, empregados com maior abnegação e desinteresse, tanto na construção do edifício como na sua mobilização, deliberou, em nome dos munícipes que representa, lançar nesta acta um voto de profundo louvor e agradecimento a este benemérito Cidadão, a quem o Concelho deve, alem deste, outros mais melhoramentos, como por todo o Concelho se patenteiam e se gozam. Findo este acto da sessão solene vai ser assinado pela câmara depois de lida por mim António Ferreira da Cunha, secretário da câmara que a escrevi”17. Quanto ao impacto social que causou e descrição pormenorizada da construção, o noticiado na imprensa de então fê-lo com uma perfeição exímia: “O Populoso e rico concelho de Estarreja faz parte do distrito de Aveiro. A Villa fica numa elevação sobranceira aos feracíssimos campos do rio Vouga e comunica com a formosa ria de Aveiro por um canal de cerca de 3 quilómetros de extensão. No dia 5 de janeiro inaugurou-se o bello e majestoso edifício representado 14 - Orçamento aprovado em Sessão de 17/07/1895, Lv. 14, fls7. 15 - Condições de Arrematação da Construção do Edifício dos Paços do Concelho e Demais Repartições, clausula 4ª. 16 - Copiador de Correspondência da Câmara de Estarreja, 1895. Pág. 10v., Reg.56. Relativamente ao programa da inauguração que terá sido enviado juntamente com o convite, não foi localizado em Arquivo. 17 - In: Ata da Sessão da Câmara Municipal de Estarreja, de 05/01/1896, Lv.14, folha 32 e 32 v.

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na nossa gravura destinado a servir de paços de concelho, abrangendo também as outras repartições públicas, com excepção apenas da estação telegrapho-postal. Pode dizer-se que por sua vastidão, perfeito acabamento, disposição interir e achitectura a um tempo simples e elegante, é um dos mais notáveis edifícios públicos do paíz. Mede em extensão 50 metros, em altura da base à cornija 10 metros e em largura 20 metros. O pavimento interior, do lado esquerdo frente contém a administração do concelho, com o gabinete do administrador e archivo, e a recebedoria, do lado direito frente: a repartição de fazenda, em duas salas, o archivo, o gabinete do escrivão e o do contador da comarca. Do lado esquerdo fundo: a Conservatória e gabinete do conservador, a sala de audiências do juízo de paz, a repartição do aferimento de pesos e medidas. Do lado direito fundo: os quatro cartórios dos escrivães do juízo de direito. O pavimento nobre do lado direito frente contém: a sala do tribunal judicial e gabinetes do juiz e delegado. Do lado esquerdo frente: as salas de sessões de câmara Municipal com dois gabinetes. Do lado direito fundo quatro salas para testemunhas e jurados. Do lado esquerdo fundo: a tesouraria do concelho, o archivo, e secretaria da câmara municipal. As Salas do Tribunal e das Sessões de Câmara têm cada uma, 16 m. 40, de comprimento por 9 m. 20, de largura.Todas as outras salas e gabinetes são vastos, arejados e de grande pé direito. A entrada faz-se por um amplo átrio quadrado de 9 m. 20, de largura por outro tanto de comprido; e a elle corresponde no pavimento superior um magnífico salão muito bem ornamentado. A escada é elegante e lançada com todas as condições da arte. No frontão veem-se em granito as armas reaes portugezas.

A mais antiga foto do edifício dos Paços do Concelho - 1899.

A construção do edifício, cuja planta foi elaborada pelo distinto professor do Lyceu de Aveiro, João da Maia Romão e começada em 1892, deve-se aos incansáveis esforços do Sr. Francisco Barbosa da Cunha Sotto Maior, ilustre deputado pelo círculo de Estarreja e Ovar, um benemérito d’áquella localidade, que a tem dotado com muitos e importantes melhoramentos.

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Dr. Francisco Barbosa - responsável pela construção dos Paços do Concelho

Este cavalheiro, que a um sangue distinto allia as mais apreciadas qualidades como homem público e particular, conseguiu levar a cabo em menos de quatro anos, sem solicitar auxílios do governo, e somente com as forças do município de que era presidente, com o seu trabalho aturado e com uma vigilância tão enérgica como inteligente, este soberbo edifício, que não envergonharia qualquer das nossas principais cidades, e cujo custo foi relativamente económico, porque não excedeu a soma de 30.000$000 reis, incluindo a expropriação do terreno e mobília completa para todas as repartições”18. No ano seguinte à inauguração do edifício ainda todas as repartições comemoraram o primeiro aniversário do edifício. Quanto aos anos seguintes não temos registo que tal tenha acontecido. Ao longo da sua existência o edifício dos Paços do Concelho, como centro de serviços públicos locais, foi várias vezes palco de manifestações e instabilidades populares e políticas, sofrendo graves consequências por isso, tanto nos saques aos arquivos da Secretaria, como na própria destruição do edifício. Na 2ª década do Séc. XX, com a revolta política que decorreu um pouco por todo o norte do país entre monárquicos e republicanos, o edifício dos paços do concelho foi palco de um desses combates, ficando a sua ala direita completamente danificada: Melhor informados sabemos que nos Paços Concelhios em Estarreja, cujas salas serviram até de retrete á soldadesca desenfriada, foi onde cairam mais granadas, e onde os prejuizos mais se fizeram sentir, tanto pela ação dessas granadas e balas que partiram uma clarabóia, esburacando todas as vidraças, especialmente as das janelas do lado do sul, como pelo vandalismo ali exercido por toda essa soldadesca, nas diversas repartições publicas, onde tudo está num càos.19 Devido ao estado em que ficou e à carestia económica do Município, só passados 4 anos foi sujeita às obras de recuperação20.

18 - In: “O Occidente”, Revista illustrada de Portugal e do estrangeiro, vol 22, ano XXII, n.º 739, 10/7/1899, pág. 153. http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/. 19 - In: Ecos da Revolta - Jornal “O Concelho de Estarreja” nº 899, de 29/02/1919, pág. 2. Notícia relativa aos estragos causados aquando da invasão do edifício, na Revolta da Traulitânia. 20 - Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja, Lv.24, fls.228.

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Pelos tempos fora, acolheu outros serviços e foi alvo de alterações na sua disposição, sempre no propósito de conciliar o conforto dos seus utilizadores, com as necessidades funcionais dos serviços de cada tempo. No entanto, a sua essência, a sua estrutura arquitetural e decorativa, foram tendo o respeito e consideração daqueles que tiveram o poder de a gerir e de a conservar. No início dos anos 50, foram feitas as Grandes Obras de Remodelação do Edifício dos Paços do Concelho, que incluíam: Reparações e substituição de carpintarias, embocos, rebocos, guarnecimentos, estuques e caiações, forro de azulejos em lambris na escada, levando um painel de ajulejos artísticos, lavagem de cantaria, pintura geral de todo o edifício, tanto no interior como no exterior, limpeza dos telhados, etc, etc.21

Edifício dos Paços do Concelho - [1960].

Painel de azulejo artístico na parede lateral da escadaria de acesso ao Piso Nobre - 1953. 21- Memória Descritiva e Justificativa do projeto “Grandes Obras de Reparação do Edifício dos Paços do Concelho”. Da responsabilidade de José António Pedroso Júnior, nº 27. Fevereiro de 1951.Câmara Municipal de Estarreja.

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Planta do rés-do-chão - 1952

Planta do 1º andar - 1952

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Com o passar dos anos e o aumento das responsabilidades e competências dos serviços ali instalados, o espaço tornou-se exíguo para todos, e houve necessidade de recorrer a espaços próprios para alguns serviços. Foram-se criando espaços próprios e alargados para os serviços públicos que não a Câmara, ficando o edifício dos Paços do Concelho exclusivamente destinado para a atividade do Município (Câmara Municipal e Assembleia Municipal). Após a saída dos serviços judiciais (tribunal e registos) para edifício próprio, em 1990, a Câmara ficou com uma dimensão espacial mais confortável e ajustou o espaço às suas necessidades. A antiga sala de audiências transformou-a em Salão Nobre da Câmara, destinada à realização das Sessões da Assembleia Municipal e para os atos mais solenes da Câmara22. Em 2010 o Salão Nobre foi alvo de obras de recuperação, com projeto da autoria dos arquitetos Ricardo e Nuno Matos, que tiveram o cuidado de utilizar também peças existentes e que fazem parte do mobiliário original do salão. “Após a análise aos elementos que tivemos que contextualizar e perceber, o objetivo foi encontrar a solução que mais se adequava, respeitando sempre a história e a identidade do espaço, valorizando o que existe”, explicou o arquiteto23. O espaço continuou a conservar a dignidade e sobriedade própria de um espaço desta natureza, passando a ter o aspeto visível na foto abaixo.

Salão Nobre da Câmara e antiga Sala de Audiências do Tribunal.

22 - Atualmente, o espaço ocupado pelos serviços da Câmara Municipal ultrapassa em muito os limites do edifício, alargando-se também a outros espaços, o que reflete o crescente aumento das suas competências. 23 - Entrevista dada aquando da apresentação pública do espaço remodelado à comunicação social. http://www.cm-estarreja. pt/noticias/4088 Sexta, 07 de Janeiro 2011

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E dado que os nossos limites de tempo e de espaço são reduzidos, atento à grandiosidade desta história, registamos, de uma forma tabelar e diacrónica, alguns daqueles que foram os acontecimentos mais consideráveis na vida do edifício dos Paços do Concelho de Estarreja e em que nos pudemos fundamentar documentalmente. Para que, se porventura, interessados houver nesta temática, a possam explorar com mais pormenor.24. Data

Tipo Intervenção

Referência Documental

12/11/1871

Escritura de expropriação amigável que faz a Câmara Municipal ao Reverendo António José de Sousa Ribeiro Figueiredo, da Vila de Águeda, de uma parte das casas térreas e do terreno da quinta junto à Praça desta Vila para alargamento do largo da Praça.

-Escrituras da Câmara Municipal de Estarreja – Lv. Nº 1,fls16; 16V; 17; 17V; 18. (1859 a 1873). (presidente: Dr. João Carlos D’Assis Pereira de Mello).

17/02/1875

Expropriação de terreno para o alargamento da Praça Municipal a António Maximino Branco e Mulher D. Rita Vieira Soares, de Albergaria.

-Escrituras da Câmara Municipal de Estarreja, Lv. Nº 2, fls 2. 1875. (Mau estado de conservação); -Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja, Livro nº 7, fls. 12 v.

22/07/1891

Francisco Barbosa apresenta a necessidade da construção do novo edifício dos Paços do Concelho, orçado em 24.000$000 reis, propondo o empréstimo desse dinheiro por meio de títulos de ações.

-Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja - Lv. Nº 12, fls. 82 v.

29/07/1891

A Câmara, em reunião com os 40 maiores contribuintes do concelho, aprovam a proposta do Dr. Francisco Barbosa para a construção dos novos Paços do Concelho.

-Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja, Lv. 12. fls. 84.

(…) No dia 12 do corrente, por escritura pública, foi realizado o contrato de expropriação do terreno para o edifício dos novos Paços do Concelho, com José Ribeiro de Souza de Figueiredo, da Vila de Águeda, pela quantia de 3 contos de Reis.

-Ata das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja, Lv. Nº 12 fls. 102. 18/11/1891;

13/01/1892

Adjudicação da obra de construção do edifício dos paços do concelho a Manuel Joaquim da Silva Valente, de Pardilhó, por 17:799$000 reis.

-Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja, Lv. Nº 12, fls. 119. -Câmara Municipal de Estarreja - Processos Obras Municipais Antigos. “Condições de Arrematação da Construção do Edifício dos Paços do Concelho e Demais Repartições” Câmara Municipal de Estarreja, 13/01/1892.

17/02/1892

(…) a Câmara vai marcar o dia 16 do próximo mês de março para ser arrematado a demolição das casas que expropriou a José Ribeiro de Sousa de Figueiredo, de Águeda, para os novos Paços do Concelho.

-Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja Lv. 12, fls. 119.

12/11/1891

24 - Não conseguimos realizar as recolhas documentais que fundamentam todas as intervenções feitas ao edifício. Mas o mesmo é possível, com tempo e perseverança, para um estudo tecnicamente mais completo.

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Data

Tipo Intervenção

Referência Documental

06/07/1892

O Autor do projeto do edifício dos Paços do Concelho é João da Maia Romão, professor de desenho no Lyceu de Aveiro.

-Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja Lv. Nº12, fls 142 v.

17/07/1895

Aprovação do orçamento para aquisição do -Atas das Sessões da Câmara Municipal de mobiliário necessário para o funcionamento dos Estarreja Lv. Nº 14, fls. 7. novos Paços do Concelho, orçado em 2:870$000 reis.

05/01/1896

Inauguração do Edifício dos Paços do Concelho de Estarreja.

-Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja Lv. Nº 14, fls. 32.

07/01/1896

Agradecimento formal às filhas do Dr. Francisco Barbosa, senhoras donas Mariana e Amália Barbosa, pela confeção e oferta da Bandeira da Câmara, bordada a ouro.

-Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja Lv. Nº 14, fls. 33; - Copiador de Correspondência Expedida da Câmara Municipal de Estarreja – 1896. Reg. 62, de 18/01/1896.

1896

Aquisição de uns portões de ferro para a vedação das duas entradas laterais do edifício orçado em 150$000 reis.

-Ata da Sessão da Câmara Municipal de Estarreja de 23/09/1896. Lv. 14.

18/04/1906

A Câmara por proposta do seu Presidente (…) deliberou renovar por mais 10 anos o seguro contra incêndios do edifício dos Paços do Concelho e mobília existente nas várias dependências daquela casa (…) na Companhia de Seguros - Launion Y el Fénix Espagnol

-Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja Lv. Nº 20, Fls. 96.

16-02-1911

Proposta dos presidentes das Comissões Administrativas Propondo o cidadão bacharel Caetano Tavares Afonso e Cunha para exercer o cargo e lugar de oficial do registo civil que vai ser criado neste concelho.

-Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja Lv. 23, fl 159 v.

16-03-1911

Ofício do Registo Civil a solicitar espaço no edifício da Câmara.

-Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja Lv. 23, fls 172.

22/04/1921

Reconstrução do Edifício dos Paços do Concelho, em virtude dos estragos da Revolta da Traulitânia de 1919.

-Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja, Lv.24, fls.228.

Comissão executiva propõe e Câmara reúne para discutir a iluminação e abastecimento de água da vila e para contrair empréstimo para estas grandes obras.

-Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja Lv. Nº 25, fls. 97 v.

26-11-1925

Câmara autoriza a comissão executiva a fazer os trabalhos de eletrificação e abastecimento de água à vila e contrair um empréstimo de 350,000$00.

-Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja, Lv. 25 fls. 102.

02-03-1927

Direção Geral de Serviços Elétricos dá prazo de 30 dias para apresentação de projeto de eletrificação da vila1.

-Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja, Lv. 92 fls. 93.

22-10-1925

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Data

Tipo Intervenção

Referência Documental

14-01-1953

Empreitada para as obras de Grande Reparação do Edifício dos Paços do Concelho de Estarreja.

-Livro de Escrituras da Câmara Municipal de Estarreja, 1953. Lv. Nº 2, fls. 22v a 24v.

Grande obras de remodelação do edifico dos paços do concelho; colocação de um painel de azulejo artístico e simbólico.

-Câmara Municipal de Estarreja - Processos de Obras Municipais – “Grande Empreitada de Remodelação do edifício dos Paços do Concelho de Estarreja” - Memória Descritiva do Processo. 1952.

1953

06-03-1968

16 /12/1969 05-03-1971

Escritura de contrato de empreitada das Obras de Reparação dos Paços do Concelho de Estarreja substituição e modificação das caixilharias exteriores. Edifícios dos Paços do Concelho: adaptação do respetivo sótão ao arquivo do Tribunal Judicial da Câmara. Escritura de contrato para a elaboração de projeto da obra de remodelação de edifício dos Paços de Concelho.

-Escrituras da Câmara Municipal de Estarreja, 1968. Lv. Nº 5, fls. 5v a 7.

-Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja, Lv. 60, fls. 184. -Escrituras da Câmara Municipal de Estarreja, 1971, Lv. Nº5, fls. 92 a 93v. -Escrituras da Câmara Municipal de Estarreja, 1981, Lv. Nº 9, fls. 2 a 3v.

11-11-1981

Escritura de contrato de empreitada de reparação exterior do edifício dos Paços do Concelho.

1990

Inauguração do Tribunal Judicial de Estarreja, que passou a acomodar os Serviços Judiciais e os Registos, libertando o espaço para os Serviços da Municipalidade.

-Câmara Municipal de Estarreja - Processos de Obras Municipais – “Construção do Palácio da Justiça de Estarreja”. 1983 – 1989.

Contrato de empreitada para a recuperação do edifício dos Paços do Concelho de Estarreja. Remodelação do edifício, Remoção de divisórias, de alumínios; aumento de fundações da cave e criação de escadaria de acesso direto, e criação de um espaço para armazém e arquivo. Projeto de climatização do edifício, (não concretizado).

-Escrituras da Câmara Municipal de Estarreja, 27-09-1989. Lv. 17, fls. 21 a 22v. -Câmara Municipal de Estarreja - Processos de Obras Municipais – “Empreitada da Remodelação do Edifício dos Paços do Concelho”.1988 - 1993.

Construção do Parque de Estacionamento Subterrâneo; Elevador Panorâmico de ligação entre os vários pisos do edifício, no sentido de melhorar mobilidade e acesso dos colaboradores e dos utentes entre os vários pisos do edifício. Criação da Praça do Município na fachada do edifício voltada para o Mercado Municipal e para a zona judicial.

-Câmara Municipal de EstarrejaProcessos de Obras Municipais - Proc. nº 41/2000. “Conceção e Construção da Praça do Município e Arruamentos Envolventes”. 2000.

Remodelação dos Serviços Internos e criação do Balcão Único de Atendimento - GAM

Câmara Municipal de Estarreja -Processos de Obras Municipais - Proc. 08/2004. “Beneficiação do Edifício dos Paços do Concelho – Gabinete de Atendimento ao Munícipe”. 2004

1988 – 1992

2001 - 2005

2005

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Data

Tipo Intervenção

Referência Documental

2010

Paços do Concelho com obras de beneficiação. Remodelação do Salão Nobre e exposição dos quadros com os Presidentes de Câmara do Séc. XX. (115 anos do edifício).

URL:http://www.cm-estarreja.pt/ noticias/4088: Quarta, 15 de Dezembro 2010. URL:http://www.cm-estarreja.pt/ noticias/4088: Sexta, 07 de Janeiro 2011.“Paços do Concelho com obras de beneficiação”.

2014

Substituição da Caixilharia das Janelas.

Câmara Municipal de Estarreja -Processos de Obras Municipais - Proc. ADEOP N. 07/2014. “Beneficiação do edifício dos Paços do Concelho de Estarreja”.

2015 - 2016

Restauro de Portas da Frontaria e Pintura do edifício, de cor branca.

Câmara Municipal de Estarreja -Processos de Obras Municipais - Proc. ADEOP N. 11/2015. “Beneficiação do edifício dos Paços do Concelho de Estarreja”.

A rematar esta nossa abordagem pelas fontes documentais que nos relatam a história do mais emblemático edifício do município de Estarreja, não poderíamos partir sem deixar um apontamento relativo aos cenários deslumbrantes que podemos apreciar, ainda hoje, em perfeita harmonia com a arquitetura do edifício e as atividades diárias, que depois de mais de um século, continuam a ser exercidas, embora de uma forma humana e tecnicamente mais evoluída, nas suas funções de serviço de proximidade entre o estado e os munícipes. Pormenores das Iluminarias:

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Pormenores dos Corredores:

Bandeira da monarquia bordada a ouro exposta no piso superior.

Vista parcial dos gradeamentos e da escadaria de acesso ao Piso Nobre

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Aspeto de um dos tetos trabalhados em estuque.

Átrio do piso 0 do edifício

Sala de Sessões de Câmara

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Referências Documentais:

Fontes Primárias: -Livros de Atas das Sessões da Câmara Municipal de Estarreja, Arquivo Municipal de Estarreja; Câmara Municipal de Estarreja. -Livros de Escrituras Diversas da Câmara Municipal de Estarreja; Arquivo Municipal de Estarreja; Câmara Municipal de Estarreja. -Livro de Registo dos Acionistas do Empréstimo de 24.000$000 Reis para a Construção do Edifício dos Paços do Concelho - 1892; Arquivo Municipal de Estarreja; Câmara Municipal de Estarreja. -Livro Copiador de Correspondência Espedida da Câmara Municipal de Estarreja. 1895-1896. Arquivo Municipal de Estarreja; Câmara Municipal de Estarreja. -Condições de Arrematação do Edifício dos Paços do Concelho de Estarreja e Demais Repartições. 1891. Arquivo Municipal de Estarreja; Câmara Municipal de Estarreja. -Grandes Obras de Recuperação do Edifício dos Paços do Concelho - Memória Descritiva. 1952. Arquivo Municipal de Estarreja; Câmara Municipal de Estarreja. Monografias: -Francisco Barbosa do Couto Cunha Sotto Maior - No centenário do seu acesso à presidência da Câmara de Estarreja. Discurso proferido por José Tavares Afonso e Cunha, no Rotary Clube de Estarreja. Edição: Câmara Municipal de Estarreja. 1986. Publicações Periódicas: -Revista “O Occidente” - Revista Ilustrada de Portugal e do Estrangeiro. Hemeroteca Nacional. URL: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/. - Jornal “O Concelho de Estarreja”, Domingas Cândida Mota, (Herd.) Pardilhó, Estarreja. Iconografia: -Plantas do Edifício dos Paços do Concelho de Estarreja, 1889. Arquivo Municipal de Estarreja. Câmara Municipal de Estarreja. -Plantas do Edifício dos Paços do Concelho de Estarreja, 1952. Arquivo Municipal de Estarreja. Câmara Municipal de Estarreja. -Fundo Fotográfico do Arquivo Municipal de Estarreja. Documentos Eletrónicos: -URL:http://www.cm-estarreja.pt/notícias/ -URL:http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/

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UM OUTRO OLHAR SOBRE O PATRIMÓNIO EDIFICADO DA ANTIGA FREGUESIA DE BEDUÍDO: A TERRA COMO FORMA DE CONSTRUÇÃO Susana Temudo* Diana Cunha Santos** RESUMO O património histórico edificado pode e deve ser visto como um artefacto, na medida em que corresponde a uma construção humana feita e/ou transformada pelo Homem. Tal como define Leroi-Gourhan (1985), o artefacto percebe-se como o produto que é inscrito dentro dos seus usos e das suas utilizações, ou seja, um meio para atender as necessidades que são determinadas pela pessoa que o utiliza, não importando a sua função primeira. Deste modo, a arquitectura em terra surge como uma dessas evidências. Conhecida e utilizada desde a origem do homem e da sua consciência enquanto construtor, arquitectos e antropólogos assinalaram-na, desde meados do séc. XX, como um marco na história da construção. Contudo, as vicissitudes do desenvolvimento e as suas consequências têm vindo a desencadear o seu desaparecimento e destruição, o que suscita uma lacuna na sua compreensão e estudo, sendo por isso a sua documentação e registo importante. Todavia, ela tem vindo, nos últimos anos, a ser reintroduzida no âmbito das novas políticas de reabilitação urbana, permitindo assim, de certo modo, recuperar e salvaguardar parte desse saber. A prática da construção em terra em Portugal foi comum até relativamente pouco tempo, localizandose sobretudo no sul do país e nas zonas litorais onde a pedra escasseava, pelo que as reminiscências destas construções na antiga freguesia de Beduído, concelho de Estarreja, se assumem como um dos exemplares ainda preservados, apesar de alguns já se encontrarem em estado de conservação debilitado, em muito provocado pelo abandono que se verifica. Pelo que, alertar, sensibilizar, conservar, preservar e salvaguardar os exemplares que restam, deve ser uma medida a adoptar de modo em que percebendo o passado podemos e conseguimos melhorar o futuro.

Edificando espaços «A Arquitetura só ganha existência concreta quando dá forma apropriada aos materiais de construção (…)» 1

* Licenciada em arqueologia e pós - graduada em arqueologia e território ** Licenciada em arqueologia e pós -graduada em Museologia 1 - DETHIER, 1992:7.

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Desde cedo que as matérias-primas disponíveis no meio ambiente sempre foram um elemento condicionador na forma como o Homem materializou a sua maneira de estar e de pensar. Logo, o recurso a elas e o seu constante manuseamento, no estado natural ou transformadas, permitiram a apropriação/concretização dos espaços disponibilizados e nos quais se pode observar o produto dessa humanização da paisagem. Uma ação fruto da criação de novas dimensões, sejam elas de carácter funcional, social, económico ou cultural, mas que no conjunto não são mais do que a materialização do pensamento resultante da apreensão do seu meio e da qual provêm toda a nossa herança cultural latente no nosso passado histórico. Pelo que esta paisagem “balizada” (atendendo que nela se encontram elementos caracterizantes e identificativos daquele ambiente e através dos quais ela se distingue das existentes na sua envolvência), fruto de uma capacidade de adaptabilidade humana, permitiu que a terra, enquanto elemento materializador do espaço, obtivesse a importância que lhe é hoje reconhecida histórica e culturalmente. E por isso, o uso da terra é o elemento de construção que se impôs como uma das múltiplas possibilidades existentes, sobretudo nos locais onde a pedra não era recurso frequente. Pelo que desde cedo, a terra foi uma opção viável na medida em que permitia uma rápida e eficaz edificação dos espaços. O que possibilitou a realização de diversas estruturas, pelo que logo, também ela foi e pode ser considerada como um elemento arquitetónico construtivo. E assim, tal como as “outras” arquiteturas de pedra, considera-se Arquitetura em Terra toda e qualquer construção edificada em terra crua. Todas as construções que a utilizam como matéria-prima sem alteração das suas características mineralógicas. Diz-nos a história que desde que o Homem constrói, a terra é o material mais utilizado em todas as civilizações, ocorram elas em meio rural ou urbano. Sejam elas erguidas para fins militares ou civis. O importante é a criação de espaços que satisfaçam as necessidades funcionais impostas e que essas estruturas sejam detentoras de todos os requisitos arquitetónicos que permitam a habitabilidade e usufruto de forma confortável, estável e acima de tudo, funcional. Até ao séc. XIX, este tipo de arquitetura incorporava matérias-primas no seu estado natural e disponíveis na região. No entanto com a Revolução Francesa, no âmbito dos novos ideais modernistas, os sistemas tradicionais de construção são revistos e este tipo de construção sofre um novo impulso. Um novo olhar, cujo responsável e mentor foi o arquiteto François Cointereaux, um erudito e pensador francês que se dedicou aos estudos e problemáticas da arquitetura rural, e o qual publicou em 1787, o tratado sobre este tipo de construção. Uma publicação através da qual pretendia explicar e expor as técnicas construtivas da arquitetura em terra, tipologias e vantagens. No entanto, apesar deste novo olhar, este tipo de arquitetura nunca foi objeto de uma ação comercial ou de um grupo de pressão económica, restringindo-se apenas a construções locais. Com o alvorecer do séc. XX e todas as transformações e inovações tecnológicas, nomeadamente na área da construção, com a introdução do aço, do betão e do tijolo, a utilização da terra como matéria-prima caiu em desuso, tendo sido completamente abandonada, sobretudo no nosso país, salvo em alguns pontos geográficos onde se manteve até ao momento da introdução do gosto pelas linhas arquitetónicas do movimento modernista, sobretudo na arquitetura civil. No entanto, nos anos 80, com o desenvolvimento de novos conhecimentos e práticas assistiu-se a uma nova fase, atestada não só pela economicidade da construção em terra crua, como também pela fiabilidade e interesse, por parte de alguns estudiosos, nas arquiteturas delas resultantes.

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Fig. 1 - Maqueta de uma casa em Lião, segundo Fig. 2 - Tratado sobre a construção em terra publicado em os esquissos realizados por Cointeraux nos inícios 1787 por François Cointeraux (ALEGRIA, 1990.125). do séc, XIX (ALEGRIA, 1990.125).

Arquitetura em Terra – caso nacional O uso da Terra na construção em Portugal documentase até datas recentes, praticando-se ainda hoje, embora pontualmente, uma vez que, por norma, sucede de programas de reabilitação urbana e/ou inseridos em projetos de investigação desencadeados por associações articuladas com centros de investigação ou por universidades, como é o caso das universidades de Aveiro e Évora. Historicamente, a arquitetura em terra, é um tipo de construção que se consegue documentar desde a pré-história até aos nossos dias, embora não de forma generalizada. Cremos com isto dizer, que os modelos arquitetónicos nem sempre foram semelhantes dentro do mesmo período cronológico. A diversidade de estilos e formas de construir apesar de terem por base a mesma matéria, não foi fator condicionante nem homogéneo. Ou seja, desde sempre, ao longo do nosso território, foi possível diferenciar as construções erguidas no Norte, Centro e Sul, através não só das suas tipologias construtivas, mas também pela técnica e método. Diferenças que, de certo modo marcaram e através das quais hoje conseguimos distinguir dois tipos de construção. A Norte do país com uma forte presença da técnica de construção em adobe, em contraste com a

Fig. 3 - Distribuição da Arquitetura em Portugal (TAVARES 1992: 58).

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utilização da taipa no Sul, sendo a zona do Centro uma área onde se poderá encontrar ambas as construções. Como se fosse uma espécie de fronteira. Uma clara e distinta divisão dentro do mesmo tipo arquitetónico e que historicamente nos leva quase a acreditar que esta diferença possa estar relacionada com a presença árabe no nosso território. Sobretudo a construção em taipa, pois perdeu-se no tempo a introdução do adobe em Portugal. Existem teorias que colocam a sua introdução durante a ocupação muçulmana (séc. XI) (TORRES,2005). No entanto, há quem acredite que o adobe foi introduzido pelos romanos, sendo só posteriormente aprofundado pelos muçulmanos. No enanto, nos relatos de Plínio-oVelho, aquando as suas viagens na Península Ibérica durante o séc. I, menciona que: “viam-se torres e atalaias de terra de remotíssima antiguidade”, o que reforça a teoria e os vestígios arqueológicos que demonstram a introdução ou a prática da arquitectura em terra na Península Ibérica seja anterior, não se conseguindo porém baliza-la cronologicamente. A arquitetura de terra pode expressar-se nas mais variadas formas, estando por isso presente na arquitetura industrial, pública, viária e ainda em outros elementos como muros de propriedade, fornos de cal e revestimentos de poço, etc. No entanto é na arquitetura civil, que hoje ela adquire maior expressividade no nosso país. Pois é ela quem melhor representa os valores paisagísticos, arquitectónicos, históricos, construtivos e sociais da sociedade em que se insere, tal como também foi através dela que nos chegaram alguns exemplares bem preservados. Mas por outro lado, foi também nela que ocorreram mais alterações, fazendo com que edifícios que hoje se encontram nas nossas cidades nos dificultem a sua leitura efetiva em termos históricos-cronológicos. Ainda assim, no caso aqui em discussão, se conjugarmos todas as gramáticas da linguística arquitetónica, podemos nos aventurar e assinalar que alguns dos exemplares aqui apresentados poderão se balizar entre as centúrias de setecentos, admitindo a possibilidade de alguns serem anteriores, e a primeira metade do séc. XX.

Fig. 4 - Moradia rua do Aceiro, Beduído. 2 - O revestimento mais comum é feito pelo sistema de reboco obtido através da aplicação de múltiplas camadas de argamassa. Por norma seriam três camadas de modo a que as fendas que ocorressem por retração fossem descentradas, dificultando assim a entrada de água. 3 - No concelho da Murtosa existem adobes de cor castanho muito escuro, os quais se sabe que foram moldados com os lodos oriundos da ria de Aveiro e nos quais se podem visualizar a presença não só de fauna marinha como também de flora.

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Edificando em Terra: a antiga Freguesia de Beduído Tendo consciência das potencialidades patrimoniais existentes nos limites que outrora correspondeu a freguesia de Beduído – zona centro – no que confere ao seu património edificado, são vários os exemplares que documentam a presença da técnica construtiva em terra. Ela apresentase, maioritariamente sob duas formas: monolítica ou em alvenaria miúda. Adaptando-se às múltiplas funcionalidades para as quais foram edificadas, sejam elas de foro geográfico, social ou económico; e com uma multiplicidade de formas e dimensões arquitetónicas presentes desde as casas rurais às constantes no centro da cidade. Ela é igualmente utilizada como material de acabamento (associada a outros materiais e/ou processos de construção), sobretudo no revestimento de estruturas ou paredes (reboco2). O acabamento da parede de terra apresenta-se caiada, podendo nalguns casos verificar-se a policromia que esteve dependente do gosto artístico do proprietário, arquitecto ou construtor. São vários os exemplares onde podemos constatar a presença da construção em adobe, elaborado com terras argilosas, de coloração amarela e/ou castanha clara.3 Surge tanto nas casas de feição mais modesta como nas mais palacianas. Para além do adobe, a edificação em alvenaria apresentou-se igualmente como solução construtiva. Sempre que se verificou a ocorrência desta metodologia, os métodos implicaram a conjugação da terra com a pedra, por norma xisto, sendo que nestes casos a terra serviu sempre como ligante, bem como material de revestimento. A aplicação desta técnica não se relacionou com nenhum tipo específico de construção, sendo por isso possível encontra-la nas mais variadas formas arquitetónicas, sendo inclusive um método de construção comum na edificação da arquitetura civil, industrial e funcional como por exemplo, na construção de poços e muros de delimitação de propriedades.

Fig. 5 - Moradia rua Dr. Manuel Barbosa, Estarreja.

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Fig. 6 - Conjunto habitacional, rua Dr. Abreu Freire, Estarreja.

Apesar da grande diversidade funcional que este tipo de construções erigiu, no presente artigo apenas expomos as de carácter civil. Um universo com graves problemas do ponto de vista da conservação e preservação desta tipologia construtiva e que hoje se destacam pelo facto de serem os últimos testemunhos dessa forma de construir. São imóveis que em tempos se inseriram dentro de um modelo arquitetónico que durante décadas serviu de base à construção de grande parte da Beira Litoral e com grande expressividade no distrito de Aveiro. Sendo este estilo o mais presente na paisagem do concelho de Estarreja e neste caso em concreto, na antiga freguesia de Beduído. Falamos de casas essencialmente edificadas em banda, junto do caminho/rua ou “à face da estrada”, marcando os vários arruamentos que perfazem o núcleo urbano da cidade. Podemos mesmo afirmar que é através delas que conseguimos depreender uma parte da evolução urbanística de Estarreja, sobretudo no que concerne à tentativa de delimitação do espaço urbano mais antigo, pois não podemos esquecer que o que hoje define o perímetro urbano da cidade Estarreja não corresponde ao seu espaço no passado. Apesar de ser um tipo construtivo, do ponto de vista estilístico, comum nesta região, a utilização da terra como matéria-prima é uma particularidade que marca esta zona ribeirinha da Ria de Aveiro, onde sabemos que a ausência da pedra levou a que se recorresse ao uso do adobe ou da alvenaria miúda em xisto montado em terra, tornando-a numa realidade construtiva. Deste modo, surgem os exemplos aqui expostos, os quais apresentaram várias características comuns e que nos permitem estabelecer uma “tipologia” identificativa (quando comparada com as construções mais recentes e principalmente, quando comparadas com as construções contemporâneas inseridas no movimento de “arquitectura moderna”4). Contudo a ela não estava subjacente qualquer tipo de carácter funcional - apesar de sabermos que nesta parte da freguesia, as habitações apresentadas inseriam-se dentro de um grupo de moradias citadinas, não tendo um carácter rural visível à priori, conforme acontece com algumas das habitações existentes noutras partes da freguesia5. 4 - Vid. TAVARES, Domingos - Francisco Farinhas: realismo moderno. [S.l.] : Dafne Editora, 2008. 5 - A grande parte das casas rurais existentes no concelho contém na sua fachada alguns elementos característicos deste tipo de habitações. Como é o caso da porta de carro, um dos principais elementos caracterizantes das fachadas principais da casa. Rasgadas num dos lados e que permitia a entrada do carro-de-bois e, posteriormente, já nos dias de hoje, do tractor. Para além desta característica, estas habitações seriam com um único andar – casa térrea, embora também encontremos alguns exemplares com dois pisos – casa-bloco, mas neste caso o espaço habitacional situava-se no piso superior, sendo o andar térreo destinado à arrumação das alfaias agrícolas ou até de armazém (onde se encontravam guardados os bens alimentícios para o gado ou outros bens relacionados com a actividade agrícola, ou por último, como zona de celeiro).

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Das principais características identificadas e que fazem com que estes exemplares se distingam dos restantes edifícios, destaca-se, inicialmente, a utilização da terra como principal recurso, tanto no que diz respeito ao método e técnica construtiva como no que confere aos revestimentos e elementos decorativos. Uma utilização que se acredita ser a mesma matéria-prima face às características perceptíveis através de uma avaliação superficial e visual. Acredita-se ser terra oriunda do mesmo centro de exploração, atendendo que a coloração das terras ser sempre a mesma e dominada pelo tom amarelado. Uma cor que se mantém também nas argamassas de revestimento das fachadas dos edifícios, embora se encontre igualmente os tons rosados e a cor branca. A primeira (amarela) e a última (branca) são as cores dominantes. Uma justificação plausível se pensar na rentabilidade económica que poderá estar inerente. Estas duas cores estão associadas às matérias-primas utilizadas na construção. Refira-se que em alguns casos a cor branca da fachada não era mais do que o resultado de uma caiação do reboco de forma a dar um melhor aspecto à superfície, uma vez que permitia ocultar a porosidade da argamassa assim como possibilitava uma melhor consolidação e protecção do reboco da alvenaria e/ou adobe, assim como também se tornava mais resistente com as constantes caiações de restauro a que era sujeita. Outra particularidade é a presença de casas cobertas por telhados de duas ou quatro águas, compostos pela designada telha portuguesa de meia-cana. Telhados por vezes encimados por chaminés de formato rectangular e de expressividade modesta, com os remates pronunciados das suas extremidades, sendo o seus cantos rematados à moda desta região (Fig. 7). Uma parte importante na casa uma vez que são estes telhados de inclinação proeminente que ocultavam um segundo ou terceiro andar destinada à arrumação da casa (sótão), e cujo acesso seria muitas das vezes feito pelo interior da habitação.

Fig. 7 - Exemplo de remate do telhado, Estarreja

Outra característica dentro deste modelo é a forma geométrica dos vãos, com a presença de janelas e portadas com cantarias rectangulares, sendo que as janelas alternam entre a tipologia de duas folhas ou em guilhotina, enquanto as portas são quase sempre em duas folhas lisas ou de moldura simples. Quando isto não acontece ostentam um postigo protegido por uma pequena grade em ferro forjado, também podendo acontecer em algumas habitações com portadas de duas

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folhas. Um gosto de tradição oitocentista e que permanece até aos dias de hoje, uma vez que é uma forma de permitir a entrada de luz natural na habitação, assim como forma de ventilação (Fig. 8). Ainda relativamente a estes elementos, será de mencionar a questão das cantarias. Um pormenor que nem sempre foi coincidente no que diz respeito ao tipo de material utilizado. Ou seja, se em alguns casos temos cantarias em granito, noutros esses elementos estão igualmente representados mas são feitos com argamassa – designada cantaria fingida (Fig. 9). Tal como os seus beirais, cunhais e socos, onde a alternância entre estes dois tipos de materiais também foi uma opção. Obviamente não se encontram as duas matérias-primas no mesmo edifício. Ou se tem granito ou não. Assim como no caso dos socos. Sempre que estamos na presença de socos argamassados, é sinal que os mesmos foram erguidos em alvenaria de xisto montada em terra. Uma funcionalidade evidente, uma vez que este ainda faz parte do alicerce da casa. Aliás, refirase que a maior parte dos alicerces deste tipo de construções, são em xisto e nunca em adobe (Fig. 15). Não nós podemos esquecer que os terrenos onde se localizam a maior parte dos edifícios encontram-se em depósitos geológicos correspondentes a níveis de praias antigas, ou seja, sobre terrenos arenosos, e portanto, bastante permeáveis. Um outro aspeto relevante quanto às suas fachadas é a presença das pilastras a assinalar os cunhais das casas. Um elemento arquitetónico denunciador do seu estilo construtivo. Quanto à coloração das fachadas e cantarias destes edifícios, predominam as cores de tom pastel, sendo o amarelo-torrado e a cor branca, as colorações dominantes. A primeira muito próxima da cor das argamassas e a segunda relacionada com a caiação a que estas paredes eram sujeitas. Em alguns exemplares, a cor branca patente nos alçados é fruto desse trabalho, não correspondendo por isso à pintura a que eram sujeitas. O pormenor reside no facto de esta denunciar vários momentos de caiação. Talvez fruto de constantes restauros a que estas paredes eram alvo. É comum o gosto pela pintura do beiral, cunhais e socos sempre que estes elementos são de argamassa. A cor é a mesma para todos eles, excepto as molduras dos vãos que em alguns casos podem surgir pintadas de branco, embora não seja a regra comum. Quando se encontram pintados, a cor destes é sempre diferente da cor apresentada na fachada, de forma a fazer sobressair estes elementos. A cor mais vezes registada foi a cor cinza escuro quando a cor da fachada é branca ou amarelo-torrado. Quando a fachada apresenta uma cor rosada, os restantes elementos, caso estejam evidenciados, são pintados de cor branca. Ou seja, sempre que o beiral, os cunhais/pilastras, socos e molduras dos vãos se encontram pintados, a coloração será sempre diferente da cor existente no paramento da fachada. Uma forma de evidenciar os mesmos, tal como acontece nas casas onde estes são em granito. Por último, do ponto de vista ornamental das fachadas, os edifícios destacam-se pela simplicidade das formas, onde o aspecto geométrico se assume como a Fig. 8 - Exemplo de porta em duas folhas principal gramática de construção. Um tipo de linguagem com postigo guarnecido de grades em arquitetónica que marca este estilo e onde o formato ferro forjado, Estarreja.

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rectangular é a forma de excelência. No entanto, também se encontraram outros exemplares distintos deste grupo. Foi o caso dos imóveis assinalados na rua Dr. Manuel Barbosa, os quais denunciam elementos decorativos de gosto neoclássico. No primeiro a presença de uma balaustrada de cor branca a encimar o beiral da casa, ocultando por isso o telhado, e ladeada por duas grandes jarras, aparentemente de faiança branca; e o segundo pela tipologia dos seus vãos e jardim (Fig. 13 e 14). Um estilo que parece transparecer um patamar intermédio de construção entre as designadas casas de estilo brasileiro e o grupo acima apresentado. Casas com estilo modesto, longe do fausto que as casas apalaçadas brasileiras contêm, mas que de certo modo se destacam das restantes pela introdução de elementos de tradição vintista. Em termos de conclusão, do grupo apresentado temos um conjunto de edifícios com características arquitectónicas semelhantes, mas que ao mesmo tempo apresenta pequenas singularidades, as quais somos obrigados a distinguir e dividir em dois conjuntos. Assim, do geral para o particular, num primeiro grupo temos um tipo de habitação composto por edifícios com dois andares, ou seja prédios em bloco – as casa-bloco e num segundo grupo, de aparência mais modesta e com apenas um piso – a casa térrea. Duas observações legítimas que nos permitiram perceber que não é por estas habitações serem compostas por um ou mais andares que nos deixam perceber quem eram os seus moradores. Pois tanto podemos ter uma habitação de um andar com cantarias em granito, como poderemos ter igualmente esses elementos feitos com argamassa e pintados.

Fig. 9 - Diferentes tipos de cantarias.

Apenas deixa que caracterizemos somente quanto ao tipo de habitação, assim como também nos poderá lançar para outras questões relacionadas com o porquê da opção por este tipo de espaço doméstico, ou se não estaremos na presença de uma reminiscência das construções citadinas de tradição medieval, onde o espaço térreo era destinado ao armazém/espaço comercial, e o piso superior a habitação. Será que estas são o que resta dessa tradição? Ou será simplesmente uma opção funcional? Certo é que apenas por uma observação ao seu exterior não podemos visualizar na plenitude as suas propriedades, pelo que esta nossa observação é apenas especulativa.

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A presença de alguns materiais, como o granito, levanta algumas questões uma vez que sabemos que esse material provém de fora. Assim como também é de realçar que os edifícios de características mais modestas se localizam numa área da cidade próxima do antigo Esteiro6 e que permitem colocar a hipótese destas habitações terem pertencido a uma comunidade laboral relacionada com a actividade que se desenvolvia no Esteiro. Obviamente que questões como esta só através da pesquisa histórica e do estudo de fontes documentais nos poderão elucidar melhor acerca disto, pelo que se impõe a necessidade de aprofundar informações e pesquisas de modo a conseguir-se um melhor enquadramento histórico, social, cultural e económico para estes vestígios. Para que assim possamos reafirmar e dignificar a sua importância enquanto elemento portador de informação patrimonial. Para além destas modestas habitações, fica também a possibilidade dos edifícios, onde o investimento em termos materiais foi mais elevado, pertencerem a um outro estrato social, com algum poder económico, quiçá, uma pequena burguesia endinheirada, geradora de riqueza local, com negócios locais ou até com influências sobre a actividade comercial na região, ou então recém-chegada de outras paragens7.

CONCLUSÃO De uma primeira análise, ainda que superficial, uma vez que os estudos ainda se encontram numa fase muito embrionária, pode-se dizer que esta parte da freguesia apresenta um forte potencial patrimonial, sendo as construções em terra um desses principais elementos. A volta destes edifícios existem outros com igual valor ou mais, embora exemplares representativos de uma outra época construtiva e que, de certo modo, baliza-nos cronologicamente as construções em terra. Para conservarmos este património é necessário que exista uma consciencialização da sua existência e reconhecimento deste enquanto elemento portador de valor patrimonial, dos seus atributos arquitectónicos e construtivos. Sendo então necessário que estes edifícios sejam tratados com documentos históricos possuidores de informação, na medida em que este tipo de património pode e deve ser entendido como um artefacto arqueológico, porque é fruto de uma vivência e de um conhecimento passado. Portadores de valores artísticos representados de diferentes formas e por conseguinte com importâncias igualmente distintas, estas estruturas arquitectónicas representam um testemunho de uma forma de construir que marca uma região onde sabemos existir uma tradição construtiva.

6 - O Esteiro de Beduído ou Esteiro de Estarreja foi aberto artificialmente no século XIX e corresponde a um canal de ligação à ria de Aveiro e que noutros tempos teve uma forte importância na economia local relacionada com o comércio do sal, moliço (recolhido na região e usado como fertilizante nos terrenos agrícolas e cuja apanha mantinha os canais limpos e navegáveis), o peixe proveniente da Ria com destaque para as enguias, os adobes e a areia utilizados na construção civil, o junco (Juncus sp.) colhido nas praias de junco da Ria e utilizado nas camas do gado ou para fazer as típicas esteiras, ou ainda para atar os ramos das árvores ou videiras depois de efectuar a poda, entre outros bens produzidos na região. 7 - Tal como aconteceu em outros sítios do país, também Estarreja foi desde muito cedo uma terra de emigrantes. Sabemos por várias fontes que desde os inícios do século XX que a cidade recebia e deixava partir as gentes da sua terra. Quando voltavam, ainda que periodicamente, mandavam construir as suas residências na sua terra natal.

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O recurso aos materiais existentes na região, conciliados com outros provenientes de outras paragens, permitiu a criação de um tipo arquitectónico marcado pela diversidade dos materiais construtivos e que no conjunto assumem uma arquitectura regional do ponto de vista construtivo. Para além disso, não podemos esquecer que a esta estaria subjacente todo um conhecimento técnico empírico, que face à evolução dos tempos e das tecnologias se tem vindo a desvanecer, visto que há muito que se deixou de construir desta maneira. A região de Aveiro e em particular, os concelhos de Estarreja-Murtosa, têm um vasto património habitacional edificado em terra. Um património que carece de atenção uma vez que se encontra ameaçado, na medida em que o desconhecimento aliado ao desinvestimento, entre outros motivos sociais e económicos, tem contribuído para alguns estados de degradação. As povoações erguidas em Terra, consolidadas durante centenas de anos, deveriam ser consideradas como um investimento, na medida em que as mesmas acarretam várias vantagens não só do ponto de vista técnico ou económico, mas igualmente energéticas, ecológicas, políticas, sociais e culturais. Para além destas, com a sua reabilitação não só promovemos a sua conservação e preservação, como também promovemos a continuidade habitacional dos nossos centros cívicos. Uma medida que poderá ser uma das formas de revertermos a tendência promocional que visa a expansão dos aglomerados urbanos, acarretando a desertificação dos nossos núcleos históricos. Uma realidade que já conseguimos constatar no nosso pequeno centro da cidade de Estarreja e o qual ainda é possível travar. Porque com a inovação técnica associada ao conhecimento popular, “ajudaremos a preservar o passado e lançaremos a base para o futuro, que se quer mais equilibrado” (PINTO, 1992:38).

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Fig. 10 - Edifício rua Dr. Manuel Barbosa, Estarreja.

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Fig. 11 - Edifício rua Dr. Manuel Barbosa, Estarreja. Fig. 12 - Conjunto habitacional rua Dr. António de Abreu Freire, Estarreja.

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Fig. 13 - Edifício rua Dr. Manuel Barbosa, Estarreja.

Fig. 14 - Edifício neoclássico, rua Dr. Manuel Barbosa, Estarreja.

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Fig. 15 - Edifício com as cantarias em granito e soco em xisto, rua Dr. Manuel Barbosa, Estarreja.

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EMIGRAÇÃO ESTARREJENSE NO ANO DE 1899 Teresa Cruz Tubby* Valter Santos** Eis o que os nossos emigrantes encontraram quando, neste ano de 1899, chegaram às Terras de Vera Cruz.

Pará, Doca do Reduto em 1899 - Acervo da Biblioteca Pública Arthur Vianna 1

Construção da Estação da Luz, em S. Paulo, em 18992 * Investigadora, autora das obras Quinta e Casa da Botica, Banda de Música de S. João da Madeira 1860/2005; co-autora da obra A Misericórdia da Vila de Cucujães, 1937 – 2012. ** Investigador e jornalista, autor da obra Cucujães Antigo e Moderno; co-autor da obra A Misericórdia da Vila de Cucujães, 1937-2012 1 - http://olimpiareisresque.blogspot.pt/2016/01/a-formacao-de-belem.html 2 - https://br.pinterest.com/pin/64809682115565305/

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Estação Central da Antiga Estrada de Ferro D. Pedro II, Rio de Janeiro, 18993

Praça da República, Santos, em 18994

3 - http://www.brasil.gov.br/old/copy_of_imagens/sobre/cultura/fotografia/marc-ferrez/estacao-central-da-antiga-estrada-de-ferro-dom-pedro-ii-rio-de-janeiro-1899/view 4 - http://www.blogcaicara.com/2012/03/cafe-de-santos-foto-antiga-praca-da.html

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TERESA CRUZ TUBBY | VALTER SANTOS

AVANCA Nome e estado civil

Idade

Escolaridade e profissão

Albino de Pinho Resende

22

Lavrador

Albino Pereira de Almeida

18

António

6

António Augusto da Rocha

22

Trabalhador

António da Silva Godinho

36

Sabia escrever, jornaleiro

António de Oliveira Bastos

25

Sabia escrever, lavrador

António Maria dos Santos Guizo

25

Sabia escrever, lavrador

António Pereira Tunes

30

Sabia escrever, lavrador

Bernardino Marques

22

Sabia escrever, lavrador

Caetano Marques da Rocha

20

Lavrador

Dionísio Lopes dos Santos, cº

30

Jornaleiro

Domingos Pereira de Almeida

20

Sabia escrever, lavrador

Francisco dos Reis, cº

22

Trabalhador

Francisco Valente

49

Jornaleiro

Joana

38

Criada

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Data, destino e nº de passaporte 04-02-1899, nº 1213, Pará 18-03-1899, nº 1497, Pará 05-05-1899, nº 1731, Rio de Janeiro 18-03-1899, nº 1498, Pará 10-02-1899, nº 1244, Pará 09-10-1899, nº 2310, Rio de Janeiro 01-04-1899, nº 1573, Pará 24-02-1899, nº 1336, Pará 18-03-1899, nº 1496, Pará 21-01-1899, nº 1161, Pará 04-09-1899, nº 2211, Pará 18-03-1899, nº 1497, Pará 12-01-1899, nº 1085, Rio de Janeiro 19-01-1899, nº 1142, Pará 05-05-1899, nº 1731, Rio de Janeiro

Filiação

Notas

Manuel Joaquim de Pinho Resende Maria de Jesus Domingos Pereira Foi com seu irmão de Almeida e Maria Domingos Pereira de Marques Almeida José Maria da Silva e Foi com seus pais e Margarida de Matos irmã Maria Manuel Baptista da Rocha e Ana da Silva José da Silva Godinho e de Joana de Resende José António Bastos e Ana Maria Manuel dos Santos Guizo e Maria Custódia Manuel Pereira Viviam em Loureiro, Tunes e Maria Clara Oliveira de Azeméis Manuel Marques e Maria de Jesus António de Matos da Rocha Manuel da Silva Lopes dos Santos e Ana Maria Domingos Pereira de Almeida e Maria Marques

Levou seu irmão Albino Pereira de Almeida

António José dos Levou seu sobrinho Reis e Maria Valente Manuel Valente José Valente e de Leonor da Silva Foi com seus patrões José e Margarida e levou seu fº


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João da Silva Monteiro de Bastos, cº

62

12-10-1899, nº 2343, Rio de Janeiro 05-05-1899, nº 1731, Rio de Janeiro

José

7

José Maria da Silva, cº

31

Sabia escrever, alfaiate

Manuel de Azevedo

34

Sabia escrever, lavrador

Manuel de Pinho

25

Manuel Jorge do Marco, cº

38

Manuel Marques, cº

39

Manuel Valente

13

Margarida de Matos, cª

27

Maria

5

Maria Pereira Valente, cª

52

Trabalhador

05-05-1899, nº 1731, Rio de Janeiro

Francisco Nunes Levou sua mer Maria de Bastos e Rosa da Pereira Valente Silva Monteiro Foi com sua mãe e Joana da Silva patrões dela, José e Tavares Margarida Levou sua mer António da Silva Margarida e fos e Marcelina Rosa António, Maria e a Ferreira criada Joana e fº desta Paulo José de Azevedo e Joana Maria da Silva Manuel de Pinho e de Maria Rosa de Jesus

12-10-1899, nº 2342, Rio de Janeiro 27-09-1899, Sabia escrever, nº 2269, negociante Rio de Janeiro 27-04-1899, Sabia escrever, lavrador nº 1689, Joaquina, sª Pará 05-06-1899, José Marques e Sabia escrever, lavrador nº 1847, Maria Caetana Rio Grande do Sul Soares de Resende 12-01-1899, Foi com seu tio Sabia escrever nº 1085, Francisco dos Reis Rio de Janeiro 05-05-1899, Foi com seu mdo José, nº 1731, fos António, Maria, Rio de Janeiro criada Joana e fº desta 05-05-1899, José Maria da Silva e Foi com seus pais e nº 1731, Margarida de Matos irmão António Rio de Janeiro 12-10-1899, Foi com seu mdo João nº 2343, S. M. de Bastos Rio de Janeiro

BEDUÍDO Nome e estado civil

Idade

Escolaridade e profissão

Agostinho Marques Valente

24

Lavrador

António de Almeida, cº

24

Jornaleiro

Francisco António Nunes Pereira, vº

24

Pescador

Data, destino e nº de passaporte

Filiação

Notas

08-05-1899, Manuel Marques nº 1743, Valente e Maria de Pará Jesus Gomes 12-09-1899, João de Almeida e nº 2220, Maria Marques Rio Grande do Sul 28-04-1899, Francisco Nunes nº 1697, Pereira e Maria Pará Josefa da Silva

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TERESA CRUZ TUBBY | VALTER SANTOS

Francisco Marques Valente

39

José da Silva Salvador, 25 cº

Sabia escrever, lavrador Sabia escrever, jornaleiro

Manuel da Costa Irijó

13

Estudante

Manuel Gomes, cº

32

Serrador

Maria da Silva Moutela, vª

61

Lavradeira

Mariana de Matos, cª

25

Sabia escrever, governanta

Mário Augusto

2

Serafim Dias Valente

26

Teresa da Silva Mota

59

Sabia escrever, padeiro

08-05-1899, nº 1744, Pará 17-03-1899, nº 1489, Rio de Janeiro 07-10-1899, nº 2303, Rio de Janeiro 05-06-1899, nº 1841, Pará 24-08-1899, nº 2197, Rio de Janeiro 14-03-1899, nº 1402, Rio de Janeiro 14-03-1899, nº 1402, Rio de Janeiro 28-10-1899, nº 1194, Rio de Janeiro 14-03-1899, nº 1402, Rio de Janeiro

António Marques Valente e Maria Marques Manuel José da Silva e Maria da Cunha João da Costa Irijó e Maria de Jesus Irijó Clara Gomes, sª António da Silva Moutela e Maria Teixeira José de Matos e Brízida Maria

Levou seu fº Mário e sua criada Teresa

Mariana de Matos, cª Foi com sua mãe José Dias Valente e Josefa Marques Foi com sua patroa Mariana de Matos, cª

BUNHEIRO Nome e estado civil

Idade

Escolaridade e profissão

Agostinho Lopes dos Santos, cº

33

Sabia escrever, comerciante

António Joaquim da Silva, cº

35

Pescador

António Joaquim Nunes de Bastos, cº

46

Catraeiro

António Lopes de Pinho, cº

46

Marítimo

António Maria da Silva Pereira

[ 192 ]

12

Sabia escrever

Data, destino e nº de passaporte 09-11-1899, nº 2424, Pará 04-05-1899, nº 1724, Pará 09-11-1899, nº 2423, Pará 17-02-1899, nº 1292, Pará 05-12-1899, nº 2516, Pará

Filiação

Notas

Manuel Lopes dos Prorrogado por 40 Santos Queiroz e dias em Leonor Rodrigues 26-12-1899 José António da Silva e Maria José de Pinho Lázaro Nunes de Prorrogado por 40 Bastos e Sabina da dias em 20-12-1899 Silva Maria de Jesus, sª Foi com seus tios Manuel J. F. Rendeiro e Maria Rosália Amador


TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

Artur Rilho

25

Moliceiro

Carlos da Silva Arrojado, cº

27

Jornaleiro

Domingos José Pereira, cº

46

Mercantel

Gonçalo António, cº

24

Sabia escrever, sapateiro

João Rodrigues Nunes

21

Sabia escrever, lavrador

José Agostinho da Silva Monteiro, cº

45

Padeiro

José da Silva Sousa

20

Sabia escrever, lavrador

José Maria da Costa

12

Sabia escrever

José Maria da Costa, cº

38

Marítimo

José Maria da Cunha, cº

47

Mercantel

José Maria dos Santos

44

Sabia escrever, alfaiate

José Maria Marques da Silva, cº

28

Jornaleiro

José Maria Rodrigues Pardal, cº

34

Marítimo

Manuel António Rilho da Silva, cº

36

Moliceiro

Manuel João Fernandes Rendeiro, cº

38

Sabia escrever, negociante

Manuel Joaquim dos Santos, cº

44

Jornaleiro

30-06-1899, nº 1949, Pará 22-07-1899, nº 2068, Pará 27-02-1899, nº 1348, Pará 07-04-1899, nº 1600, Pará 30-06-1899, nº 1953, Manaus 30-06-1899, nº 1950, Manaus 28-10-1899, nº 1192, Pará 24-03-1899, nº 1535, Pará 24-03-1899, nº 1535, Pará

Mariana Rilha, sª André da Silva Arrojado e Mariana da Silva Manuel José Pereira e Maria Joana dos Santos Francisco Tavares de Matos e Apolónia Antónia Valente João Rodrigues Veiros e Domingas Joaquina da Silva Manuel da Silva Monteiro e Joana Gonçalves José da Silva Sousa e Maria Luísa Rodrigues José Maria da Costa, cº

Foi com seu pai

José da Costa e Cristina Joaquina Lopes de Pinho

Levou seu fº José Maria da Costa

22-07-1899, nº 2067, Pará

José António da Cunha e Domingas Luísa Tavares

27-02-1899, nº 1349, Pará 27-02-1899, nº 1346, Pará

Agostinho dos Santos e Maria Rosália da Silva Albino José Gonçalves e Isabel Antónia da Silva Manuel Maria Rodrigues Pardal e Maria Rosália Tavares

24-03-1899, nº 1533, Pará 17-07-1899, nº 2025, Pará 05-12-1899, nº 2516, Pará 07-04-1899, nº 1598, Pará

Vivia em Ovar

Maria Luísa Rilha, sª Domingos José Vivia na Murtosa. Fernandes Rendeiro Levou sua mer Maria e Ana Tavares e sobº António Maria Luísa

[ 193 ]


TERESA CRUZ TUBBY | VALTER SANTOS

Manuel Joaquim Nunes de Azevedo, cº

31

Pescador

Manuel José da Silva

26

Sabia escrever, lavrador

Manuel José dos Santos, cº

26

Sapateiro

Manuel Maria da Costa, cº

35

Marítimo

Manuel Maria da Silva

10

Estudante

Manuel Maria da Silva Arrojado

30

Sabia escrever, carpinteiro

Manuel Maria de Matos, cº

25

Sabia escrever, sapateiro

Manuel Maria Rodrigues Cirne

28

Estudante

Manuel Rodrigues Valente, cº

26

Sabia escrever, jornaleiro

Manuel Tavares

23

Lavrador

Manuel Valente Ferrer

18

Sabia escrever, padeiro

55

Trabalhador

Maria Rosália Amador Mateus António de Oliveira, cº

[ 194 ]

11-02-1899, nº 1270, Pará 04-11-1899, nº 2401, Rio de Janeiro 27-02-1899, nº 1358, Pará 10-11-1899, nº 2430, Pará 27-02-1899, nº 1347, Pará 22-07-1899, nº 2066, Pará 11-01-1899, nº 1074, Pará 30-01-1899, nº 1197, Pará 29-09-1899, nº 2271, Pará 03-07-1899, nº 1958, Pará 30-01-1899, nº 1302, Rio de Janeiro 05-12-1899, nº 2516, Pará 07-04-1899, nº 1599, Pará

Manuel Mateus Nunes de Azevedo e Maria Rosa de Oliveira António Joaquim da Silva e Mariana da Silva Manuel Mateus dos Santos e Mariana Rodrigues Cirne Manuel José da Prorrogado por 30 Costa e Cristina dias em Lopes 29-12-1899 José Maria da Silva e Maria Joana Tavares André da Silva e Mariana da Silva Anastácio José de Matos e Maria Rosa Pereira Amâncio José Rodrigues Cirne e Domingas Joaquina Amador José Rodrigues Outras vias em Valente e Maria 18-11-1899 e Teresa Valente 18-12-1899 Agostinho Tavares da Vivia em Esgueira, Silva e Maria Joana Aveiro Valente António Joaquim Ferrer e Margarida Rosa Pereira Foi com seu mdo Manuel e sobº António Manuel José de Oliveira e Maria Luísa


TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

CANELAS Nome e estado civil

Idade

Escolaridade e profissão

Data, destino e nº de passaporte

António Maria Soares, cº

48

Sabia escrever, lavrador

23-02-1899, nº 1351, Pará

José Domingues Vicente

29

Trabalhador

17-02-1899, nº 1293, Pará

Olímpio da Silva Cascais

12

Sabia escrever

27-02-1899, nº 1352, Pará

Filiação

Notas

João Bernardo da Costa Anjos e Ana Soares Serafim da Silva de Carvalho e Teresa Domingues da Conceição António da Silva, «o Cascais» e Rosa Augusta da Conceição

FERMELÃ Nome e estado civil António Dias Laranjeira António Mateus de Morais, cº

Idade

Escolaridade e profissão

21

Sabia escrever, padeiro

44

Sabia escrever, lavrador

Data, destino e nº de passaporte 05-05-1899, nº 1730, Pará 03-05-1899, nº 1716, Pará 30-12-1899, nº 2585, Pelotas

António Nunes de Bastos, cº

47

Francisco Rodrigues de Assumpção, cº

53

Sabia escrever, lavrador

20-06-1899, nº 1909, Rio de Janeiro

João David Nunes Beirão

29

Sabia escrever, lavrador

03-05-1899, nº 1717, Pará

Joaquim Dias Laranjeira

18

Sabia escrever, lavrador

04-11-1899, nº 2400, Luanda, Angola

José de Almeida Navalhas

21

Sabia escrever, lavrador

José Rodrigues da Silva, cº

37

Sabia escrever, negociante

04-11-1899, nº 2399, Luanda, Angola 03-05-1899, nº 1714, Pará

Filiação José Dias Laranjeira e Rosália Dias Chapeleira Joaquim Mateus de Morais e Maria de Sá Baptista Domingos de Bastos e Ana Henriques Couceira António Rodrigues da Assumpção e Joana Dias Chapeleira Manuel Joaquim Nunes Beirão e Teresa de Jesus Almeida José António Dias Laranjeira e Maria Rosa de Almeida de Resende José de Almeida Navalhas e Joana Ribeiro Baptista

Notas

Proprietário

Joana Soares de Almeida, sª

[ 195 ]


TERESA CRUZ TUBBY | VALTER SANTOS

Manuel Marques Aleixo, cº

37

Manuel Tomás de Oliveira, cº

28

Sabia escrever, moleiro

30-12-1899, nº 2596, Pelotas

Manuel Marques Aleixo e Maria Rodrigues Tramoceira

Jornaleiro

30-12-1899, nº 2587, Pelotas

Joana Rosa, sª

MURTOSA Nome e estado civil

Idade

Escolaridade e profissão

Adelino José Nunes Calcado

18

Sabia escrever

Agostinho António Nunes Calcado, cº

54

Sabia escrever, carpinteiro

Agostinho José da Cruz, cº

33

Pescador

Albino António Rebelo Sebolão

11

Aniceto Bernardo Vaz, cº

34

António

3m

António

10

António Joaquim da Cruz Vaz, cº

Pescador

16-12-1899, nº 2547, Manaus 16-12-1899, nº 2547, Manaus 12-08-1899, nº 2132, Pará 22-11-1899, nº 2460, Pará 17-08-1899, nº 2154, Pará 13-07-1899, nº 2004, Pará 25-02-1899, nº 1342, Pará

33 Sabia escrever, marítimo

António Joaquim de Oliveira, cº

53

Pescador

António Joaquim Fernandes Chipelo

23

Carpinteiro

António Joaquim Fernandes de Figueiredo, cº

26

Marítimo

[ 196 ]

Data, destino e nº de passaporte

22-11-1899, nº 2458, Pará 13-07-1899, nº 2003, Pará 08-02-1899, nº 1229, Pará 03-07-1899, nº 1957, Pará

Filiação

Notas

Agostinho António Foi com seu pai e seu Nunes Calcado, cº irmão José Manuel Nunes Calcado e Maria Rosália da Silva

Levou seus fos Adelino e José

Manuel António da Prorrogado por 30 Cruz e Isabel Maria dias em 02-10-1899 Foi com seu patrão José Manuel Soares Carinha Prorrogado por 30 dias Francisco Vaz Silva em 03-10-1899; por e 40 em 04-11-1899 e Maria José 13-12-1899; por 10 da Silva em 22-01-1900 Mateus António de Oliveira e Maria de Foi com seus pais Jesus Tavares João Maria da Silva Rangel, cº Manuel da Cruz Vaz ou Manuel José da Cruz e Maria Luísa Lopes Joaquim Manuel da Silva e Ana Joaquina de Oliveira António Fernandes Chipelo e Maria Rosália José Joaquim Fernandes de Figueiredo e Maria Rosa da Silva

Foi com seu pai e irmão Manuel


TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

06-02-1899, nº 1222, Pará 24-07-1899, nº 1811, Pará

António José Rebelo

23

Moliceiro

António José Soares dos Santos, cº

25

Sabia escrever, negociante

António José Valente

37

Sabia escrever

António Maria

23

Pescador

António Maria da Cunha, cº

35

Lavrador

António Maria da Silva

45

Catraeiro

António Maria da Silva Cascais

27

Sabia escrever, pescador

António Maria da Silva Pereira

12

Sabia escrever

António Maria de Matos, cº

24

Moliceiro

António Maria de Oliveira, cº

53

Pescador

24-04-1899, nº 1673, Pará

António Maria Gonçalves da Fonseca

25

Pescador

22-07-1899, nº 2064, Pará

Pescador

18-08-1899, nº 2164, Pará

António Maria Lopes Telhão, cº

22

07-11-1899, nº 2414, Pará 16-03-1899, nº 1483, Pará 11-02-1899, nº 1271, Pará 18-01-1899, nº 1136, Pará 07-08-1899, nº 2103, Pará 05-12-1899, nº 2516, Pará 05-08-1899, nº 2100, Pará

Francisco Tomé Rebelo dos Santos e Ana Antónia Tavares Pedro José Soares dos Santos e Ana Joaquina Francisco Maria Tavares da Silva e Maria Luísa de Oliveira Filipe José da Silva e Ana Maria de Oliveira António José da Cunha e Ana Joaquina Francisco José da Silva e Maria Antónia Bernardo da Silva Cascais e Maria Josefa de Jesus

Levou seu sobº Manuel Mª da Silva

Prorrogado por 30 dias em 27-09-1899 e em 26-10-1899 Foi com seus tios Manuel e Maria Rosália

Manuel José de Matos e Brízida Maria da Silva Joaquim Maria de Oliveira e Ana Maria da Silva Joaquim Manuel Gonçalves da Fonseca e Ana Rosa de Oliveira Prorrogado por 30 Manuel José Lopes dias em 07-10-1899; Telhão e Domingas por 40 em 03-11 e de Jesus em 11-12-1899

44 Sabia escrever, marítimo

22-12-1899, nº 2564, Pará

António José Marques e Ana Joaquina

António Maria Valente

28

Sabia escrever, cocheiro

24-07-1899, nº 2073, Pará

João António da Silva e Maria Luísa da Silva

António Rebelo, cº

23

Pescador

03-01-1899, nº 1032, Pará

André José Rebelo e Mariana da Silva

António Maria Marques, cº

Proprietário. Prorrogado por 40 dias em 26-12-1899

Levou seu fº Júlio Marques

[ 197 ]


TERESA CRUZ TUBBY | VALTER SANTOS

César António Caravela

18

Negociante

David José de Campos, cº

28

Pescador

David José de Pinho, cº

29

Pescador

Domingos Adão, cº

25

Moliceiro

Domingos António de Miranda, cº Domingos António Fernandes da Silva Domingos José Dias Rendeiro Evangelista Augusto Francisco António de Matos, cº Francisco António Rebelo, cº

04-11-1899, nº 2402, Pará 05-01-1899, nº 1040, Pará 01-08-1899, nº 2089, Pará 04-12-1899, nº 2506, Pará 19-12-1899, nº 2551, Pará

Gonçalo António e Maria Francisca

39

Lavrador

05-08-1899, nº 2099, Pará

23

Sabia escrever, pescador

27-05-1899, nº 1824, Pará

Manuel Joaquim Campos e Mariana Soares Ventura José de Pinho e Maria Rosa da Silva Manuel Joaquim de Campos e Mariana Valente António Maria de Miranda e Maria Proprietário Rosália Soares Manuel José Prorrogado por 30 Fernandes da Silva dias em e Maria Emília de 22-09-1899 Jesus Umbelina Gonçalo Dias Rendeiro e Maria Rosália de Jesus

25

Sapateiro

07-07-1899, nº 1977, Pará

António Pereira de Resende e Maria Inocência

28 Sabia escrever, marítimo

13-07-1899, nº 1999, Pará

João Pedro de Matos e Maria Rosália Martinha

24

Trabalhador

18-07-1899, nº 2043, Pará

Matias António Rebelo e Rosa da Fonseca Manuel Luís Rebelo dos Santos e Apolónia Rosa de Oliveira

31

Francisco António Rebelo dos Santos, cº

24

Marítimo

11-02-1899, nº 1269, Pará

Francisco António Soares

23

Sabia escrever, mercantel

03-01-1899, nº 1028, Pará

25

Mercantel

05-08-1899, nº 2099, Pará

23

Pescador

22-08-1899, nº 2189, Pará

José Maria Rebelo e Maria Luísa da Silva

37

Moliceiro

11-02-1899, nº 1262, Pará

Gonçalo António Caneira e Maria Rosália da Cunha

Francisco Augusto Afonso Lopes, cº Francisco da Ascenção Rebelo, cº Francisco Joaquim Caneira, cº

[ 198 ]

Prorrogado por 40 dias em 18-12-1899

Domingos José Soares e Ana Luísa de Matos João Agostinho Afonso Lopes e Maria Teresa de Pinho


TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

Francisco Joaquim da Silva Ruela, cº Francisco Manuel Vaz Francisco Maria Afonso da Silva Francisco Maria de Pinho Francisco Maria Nunes Calcado

19-07-1899, nº 2049, Pará

Lourenço José da Silva Ruela e Ana Maria da Silva

Levou seu fº José Manuel Cardoso

28-11-1899, nº 2480, Pará 07-12-1899, nº 2523, Pará 29-11-1899, nº 2481, Pará

Aniceto Bernardo Vaz Pisco e Teresa Maria da Silva Manuel Joaquim Afonso da Silva e Maria Rosália João Eusébio de Pinho e Apolónia Maria

Prorrogado por 40 dias em 22-01-1900

Sabia escrever, carpinteiro

14-03-1899, nº 1463, Manaus

Agostinho António Calcado e Rosália Antónia da Silva

11-02-1899, nº 1269, Pará

46

Sabia escrever, pescador

36

Sabia escrever, comerciante

24

Pescador

25 Sabia escrever, marítimo

21

Francisco Maria Rebelo dos Santos, cº

24

Marítimo

Gonçalo António da Cunha, cº

45

Lavrador

Gonçalo António da Silva Venturinha, cº

33

Marítimo

Gonçalo António de Pinho, cº

25

Moliceiro

44

Marítimo

36

Sabia escrever, mercantel

Gonçalo António Pereira, cº Gonçalo Francisco Fernandes Rendeiro, cº

José António da Silva e Apolónia Maria

13-06-1899, nº 1874, Pará

João Tomé de Pinho e Maria Luísa da Silva

17-07-1899, nº 2034, Pará 10-11-1899, nº 2429, Pará 26-08-1899, nº 2200, Pará

Francisco António Pereira e Maria Rosária de Miranda Francisco Fernandes Prorrogado por 40 da Cunha e Maria dias em Teresa 20-12-1899 Manuel José Tavares Rebelo, cº

Foi com seu pai

23-11-1899, nº 2464, Pará

João Bernardo Soares e Ana Joaquina da Silva

Prorrogado por 40 dias em 13.01.1900

Sabia escrever, pescador

05-07-1899, nº 1967, Pará

Maria Jacinta da Silva, vª

Era filho natural

Sabia escrever, comerciante

05-12-1899, nº 2517, Pará

Manuel Joaquim de Matos e Rosa Bernarda

Levou sua mer Perpétua Maria da Silva

Gonçalo José

9

Gonçalo José Soares, cº

27

Sabia escrever, pescador

Gonçalo Maria da Silva, cº

24

31

Gonçalo Maria de Matos, cº

22-11-1899, nº 2459, Pará 11-02-1899, nº 1273, Pará

Manuel Luís Rebelo dos Santos e Apolónia Rosa de Oliveira António Joaquim Levou seu fº Manuel da Cunha e Ana António da Cunha Joaquina de Oliveira

[ 199 ]


TERESA CRUZ TUBBY | VALTER SANTOS

João António da Silva, cº

Trabalhador

18-08-1899, nº 2162, Manaus

Pescador

23.02-1899, nº 1320, Pará

24

Sabia escrever, mercantel

03-01-1899, nº 1027, Pará

37

Marítimo

32

Sabia escrever, carpinteiro

36

Pescador

24

João Bernardo Afonso 26 da Silva João Domingos da Silva Gonçalves, cº João José Amador João José da Silva Lopes, cº João Maria da Silva Rangel, cº João Pedro Garganta, cº

04-02-1899, nº 1214, Pará 07-11-1899, nº 2413, Pará 25-02-1899, nº 1342, Pará

Prorrogado por 20 Pantaleão José da dias em 02-10-1899; Silva por 30 em 28-10e 1899; por 40 em Rosa Joana 29-11-1899 Manuel Joaquim Afonso da Silva e Rosália Maria Manuel José da Silva Gonçalves Sardo e Joana Rosa Gonçalves Veiros Francisco António Amador e Mariana de Lemos Maria Prorrogado por 40 Lopes dias em da Silva, sª 26-12-1899 Manuel da Silva e Levou seus fos Maria Antónia da António e Manuel Silva João Garganta da Prorrogado por 20 Cunha dias em 22-11-1899 e e por 40 em 22-12Ana Luísa 1899 da Silva Manuel João Fernandes Rebelo e Maria Joaquina dos Santos

28

Vendedor de Jornais

30-09-1899, nº 2274, Pará

26

Sabia escrever, pescador

11-07-1899, nº 1986, Pará

33

Mercantel

24-11-1899, nº 2466, Pará

Manuel Joaquim Nunes da Silva e de Maria Delfina Vieira

31

Pescador

14-09-1899, nº 2236, Pará

Mateus António Belo e Rosa Joana da Silva

Joaquim Maria Rodrigues Valente

21

Lavrador

10-02-1899, nº 1256, Pará

António Rodrigues Valente e Maria Antónia Nunes

Joaquim Maria Soares

32

Sabia escrever, comerciante

09-11-1899, nº 2425, Pará

Manuel Joaquim Prorrogado por 40 da Silva e Ana dias em Fernandes Rendeiro 26-12-1899

José António Fernandes Rendeiro

26

Pescador

08-07-1899, nº 1980, Pará

Manuel José Fernandes Rendeiro e Mariana Gonçalves

Joaquim Manuel Fernandes Rebelo Joaquim Manuel Nunes da Silva Joaquim Manuel Soares Belo, cº

[ 200 ]


TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

José Emílio

20

Sabia escrever, pescador

18-12-1899, nº 2550, Pará

José Joaquim Afonso, cº

21

Moliceiro

05-08-1899, nº 2098, Pará

José Joaquim Rebelo, cº

30

Pescador

16-11-1899, nº 2444, Pará

José António Rebelo e Ana Teresa

José Joaquim Valente da Silva, cº

36

Sabia escrever, pescador

02-07-1899, nº 1972, Pará

Manuel Joaquim da Silva e Maria Luísa Valente de Almeida

José Manuel Cardoso

12

Sabia escrever

José Manuel da Silva, cº

37

Sabia escrever, pescador

José Manuel da Silva Pita, cº

27

Pescador

José Manuel Nunes Calcado, cº

33

Moliceiro

José Manuel Soares Carinha

20

Mercantel

José Manuel Soares Carinha

28 Sabia escrever, marítimo

19-07-1899, nº 2049, Pará 13-07-1899, nº 2000, Pará 28-08-1899, nº 2201, Pará 16-11-1899, nº 2445, Pará 03-01-1899, nº 1026, Pará 22-11-1899, nº 2460, Pará 24-04-1899, nº 1674, Pará 16-12-1899, nº 2547, Manaus

Venâncio António Tavares e Apolónia Maria Rebela Joaquim Manuel Afonso, «o Freguês» e Mariana Barbosa de Oliveira

Francisco Joaquim da Silva Ruela, cº

20

Pescador

José Maria Nunes Calcado

16

Sabia escrever

José Maria de Pinho Sapata, cº

41

Marítimo

17-07-1899, nº 2032, Pará

Pedro José Sapata e Maria Rosária Seitil João José Fernandes Rendeiro e Apolónia Maria Fernandes Cavada Mariana Pereira, sª

30

Pescador

13-01-1899, nº 1093, Pará

José Maria Pereira, cº

35

Pescador

10-03-1899, nº 1427, Pará

Foi com seu pai

Domingos Joaquim da Silva e Maria Nunes David José da Silva Prorrogado em Pita 18-10-1899 e por 40 e dias em 08-12-1899 Maria Ana Valentim José Nunes Prorrogado por 30 Calcado e Rosa dias em 30-12-1899 Maria de Campo Manuel João Soares Carinha e Maria José Valente de Almeida Agostinho Soares Levou seu criado Carinha e Maria Albino António Luísa Lopes Rebelo Sebolão Francisco José da Silva e Mariana Tavares da Silva Agostinho António Foi com seu pai e Nunes irmão Adelino J. N. Calcado Calcado

José Maria da Silva, cº

José Maria Fernandes Rendeiro, cº

Prorrogado por 30 dias em 29-12-1899

[ 201 ]


TERESA CRUZ TUBBY | VALTER SANTOS

José Maria Saldida, cº

25 Sabia escrever, marítimo

José Maria Soares dos Santos

29

Sabia escrever, pescador

Júlio Marques

13

Sabia escrever

Lázaro José Corteira, cº

41 Sabia escrever, marítimo

Lázaro Pereira

21

Moliceiro

Lourenço José da Silva, cº

24

Marítimo

Manuel António da Cunha

15

Sabia escrever

Manuel Bernardo Fernandes Ruela, cº

57

Marítimo

Manuel de Jesus da Silva, cº

28

Sabia escrever, pescador

19-01-1899, nº 1143, Pará 16-02-1899, nº 1281, Pará 22-12-1899, nº 2564, Pará 22-07-1899, nº 2063, Pará 19-06-1899, nº 1901, Pará 11-02-1899, nº 1272, Pará 22-11-1899, nº 2459, Pará 24-03-1899, nº 1531, Pará 18-07-1899, nº 2044, Pará 17-07-1899, nº 2031, Pará 30-11-1899, nº 2492, Pará 05-12-1899, nº 2516, Pará 22-07-1899, nº 2069, Pará 04-12-1899, nº 2508, Pará

Manuel Francisco Caetano Marques Manuel Francisco Nunes de Azevedo, cº Manuel João Fernandes Rendeiro, cº

26

Vendilhão

38

Sabia escrever, comerciante

Manuel Joaquim da Cruz, cº

38

Pescador

Manuel Joaquim da Silva Campos, cº

24

Pescador

Manuel Joaquim Fernandes Rendeiro

10

Estudante

13-04-1899, nº 1624, Pará

Manuel Joaquim Nunes de Azevedo, cº

42

Cordoeiro

02-12-1899, nº 2505, Pará

[ 202 ]

22

Domingos José da Silva e Mariana Guedes José Joaquim Soares dos Santos e Maria das Neves António Maria Marques, cº

Foi com seu pai

Domingos Corteira Prorrogado por 30 e Ana Maria de dias em Matos 07-09-1899 José Maria Pereira e Maria Custódia António da Silva e Apolónia Maria

Prorrogado por 40 dias em 26-12-1899

Gonçalo António da Cunha, cº

Foi com seu pai

Gaspar José Ruela e Mariana da Silva Mateus António da Silva e Rosa Joana da Silva João Caetano Marques e Angélica Ludovina João Bernardo Nunes de Azevedo e Joaquina Rosa Domingos José Lesou sua mer Maria e Fernandes Rendeiro seu sobº António e Ana Tavares Manuel José da Cruz e Maria Luísa Manuel Joaquim da Silva Campos e Mariana Soares António Joaquim Fernandes Rendeiro e Joana Rosa de Oliveira José António Nunes de Azevedo e Luísa Maria da Silva


TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

Manuel Joaquim Rebelo Manuel Jorge Regateiro, cº Manuel José Amador, cº

31

Pescador

42

Sabia escrever, pescador

44 Sabia escrever, marítimo

Manuel José da Cruz, cº

23

Sabia escrever, pescador

Manuel José da Silva

19

Sabia escrever, lavrador

Manuel José da Silva Caixeiro, cº

47

Pescador

Manuel José de Matos, cº

32

Moliceiro

Manuel José de Pinho, cº

37

Sabia escrever, mercantel

Manuel José Pereira, cº

25

Manuel José Pereira, cº

36

22-11-1899, nº 2461, Pará 07-08-1899, nº 2105, Pará 13-07-1899, nº 2001, Pará 12-08-1899, nº 2133, Pará 17-07-1899, nº 2037, Pará

04-12-1899, nº 2507, Pará 29-11-1899, nº 2483, Pará

Gaspar José de Matos e Maria José da Silva João Eusébio de Pinho e Apolónia Maria

Pescador

30-11-1899, nº 2490, Pará

José Maria Pereira e Maria Custódia de Sousa

Sabia escrever, negociante

11-02-1899, nº 1275, Pará

Manuel José Pereira e Maria Rosa Valente de Almeida

24

Pescador

Manuel José Soares dos Santos

18

Sabia escrever, pescador

25-07-1899, nº 2075, Pará

Pescador

26-08-1899, nº 2200, Pará

Manuel José Vieira

21 Sabia escrever, marítimo

26-06-1899, nº 1931, Pará

Prorrogado por 30 dias em 02-10-1899

Francisco Maria da Silva e Ana Rosa Henriques António José da Silva e Maria Luísa Lopes

19-12-1899, nº 2553, Pará

36

Manuel Luís da Cruz e Mariana Rosa

07-08-1899, nº 2104, Pará

Manuel José Soares da Silva

Manuel José Tavares Rebelo, cº

Agostinho José Rebelo e Maria Rosália da Silva José Joaquim Jorge Regateiro e Ana Rosa da Silva Francisco António Amador e Mariana da Fonseca

Prorrogado por 50 dias em 26-09-1899 e por 40 em 13-11-1899

António Joaquim Soares da Silva e Apolónia Maria da Silva Mateus Antero Barqueiro e Joana Esteves da Cruz Levou seu fº Gonçalo. Venâncio António Prorrogado em 18Tavares e Apolónia 10 e 08-12-1899 e por 40 dias em Rebela 15-01-1900 Manuel José Rodrigues Vieira e Ana de Jesus Marques

[ 203 ]


TERESA CRUZ TUBBY | VALTER SANTOS

Manuel Luís Alves Valente, cº

44

Sabia escrever, lavrador

Manuel Luís Barbosa, cº

29

Moliceiro

Manuel Luís Pereira

13

Sabia escrever

Manuel Luís Pereira, cº

33

Negociante

Manuel Luís Soares, cº

21

Sabia escrever, pescador

Manuel Maria

9

Manuel Maria da Silva

16

Manuel Maria da Silva

21

17-07-1899, nº 2033, Pará 14-07-1899, nº 2009, Pará 17-07-1899, nº 2027, Pará 17-07-1899, nº 2035, Pará 25-07-1899, nº 2076, Pará 25-02-1899, nº 1342, Pará

Sabia escrever

11-02-1899, nº 1271, Pará

Moliceiro

18-08-1899, nº 2163, Manaus

Manuel Maria Dias Cascais, vº

35

Sabia escrever, pescador

22-11-1899, nº 2457, Pará

Manuel Maria Fernandes Tavares, cº

24

Sabia escrever, mercantel

09-09-1899, nº 2215, Rio de Janeiro

Manuel Maria Luxo, cº

36

Pescador

Manuel Maria Magalhães, cº

35

Moliceiro

22-07-1899, nº 2071, Pará 04-11-1899, nº 2398, Pará

Manuel Maria Rodrigues Pardal, cº

24

Sabia escrever, pescador

01-08-1899, nº 2090, Pará

Manuel Maria Soares dos Santos, vº

38

Pescador

28-02-1899, nº 1368, Pará

[ 204 ]

Domingos António Alves Valente e Mariana Rosa Fidalga Manuel José Tavares da Cunha e Maria Rosália Barbosa Miguel José Pereira, cº

Foi com seu pai

Francisco António Pereira e Maria Rosária de Miranda Manuel José Soares, «o David» e Mariana da Silva João Maria da Silva Rangel, cº

Foi com seu pai e irmão António Foi com seu tio António Maria da Cunha

Prorrogado por 20 dias em 02-10-1899; Pantaleão José da por 30 em 28-10Silva e Rosa Joana 1899; por 40 em 29-11-1899 Manuel Joaquim Dias Cascais e Ana Ermelinda Fernandes da Cruz José Maria Fernandes Tavares e Perpétua Rosa Afonso Possidónio Branco e Maria Jacinta Manuel José Magalhães e Rosa Maria Venâncio António Rodrigues Pardal e Maria Delfina Rodrigues José Pedro Soares dos Santos e Maria Caetana

Prorrogado por 40 dias em 18-12-1899 Prorrogado por 30 dias em 18-10-1899 e por 40 em 18-111899


TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

Manuel Rebelo

22

Maria de Jesus Tavares

19

Pescador

Maria Rosália Amador, cª Mateus António de Oliveira, cº

23

Sabia escrever

Miguel José Pereira, cº

37

Pescador

Miguel Augusto da Silva Neno, cº

41

Sabia escrever, negociante

Miguel José da Cruz

41

Pescador

Miguel José Rebelo Sebolão

32

Sabia escrever, lavrador

Palmira

2

Perpétua Maria da Silva

32

Rodrigo Maria Marques Caseiro Sebastião João Fernandes de Oliveira, cº

17

Sabia escrever, moliceiro

52

Sabia escrever

Sebastião José Rebelo, cº

27

Vendilhão

Teresa Maria, cª

35

Costureira

Tibúrcio Soares Belo

35

Sabia escrever, pescador

Tomás Maria Belo, cº

21

Sabia escrever, pescador

13-07-1899, nº 2004, Pará 13-07-1899, nº 2004, Pará 05-12-1899, nº 2516, Pará 10-08-1899, nº 2120, Pará 17-07-1899, nº 2027, Pará 03-10-1899, nº 2290, Pará 22-11-1899, nº 2462, Pará 22-07-1899, nº 2065, Pará 17-07-1899, nº 2028, Pará 05-12-1899, nº 2517, Pará 17-07-1899, nº 2036, Pará 17-07-1899, nº 2026, Pará 04-12-1899, nº 2511, Pará

Agostinho José Rebelo e Maria Rosália da Silva Foi com seu mdo Domingos e fº António Foi com seu mdo Manuel Rendeiro e sobº António Levou sua mer Maria de Jesus Tavares e fº António

Domingos de Oliveira e Maria Joana de Pinho Francisco António Levou seu fº Manuel Pereira e Maria Luís Pereira Rosária de Miranda Gonçalo António da Silva Neno e Maria Luísa da Silva Reverendo Manuel José da Cruz e de Maria Luísa da Silva José António Rebelo Sebolão e Rosa Joana da Silva Teresa Maria, cª

Foi com sua mãe e irmã Virgínia Foi com seu mdo Gonçalo Mª de Matos

Manuel José Marques Caseiro e Maria José Pita António Joaquim Fernandes Rendeiro e Agostinha Maria

Proprietário

João Serafim Rebelo e Mariana de Campos

17-07-1899, nº 2028, Pará 16-11-1899, nº 2443, Pará

Manuel José Soares Belo e Rosa Valente de Almeida

11-02-1899, nº 1274, Pará

Miguel José Belo e Apolónia Maria Rebelo

João Amador Vieira Levou suas fas Palmira e Ana Margarida e Virgínia

[ 205 ]


TERESA CRUZ TUBBY | VALTER SANTOS

Tomé José Tavares

21

Sabia escrever, vendilhão

12-06-1899, nº 1872, Pará

Manuel Maria Tavares e Mariana da Silva

Venâncio António Fernandes Ruela

35

Sabia escrever, carpinteiro

08-04-1899, nº 1615, Pará

Manuel Fernandes Ruela e Maria Joana de Oliveira

Virgínia

4

17-07-1899, nº 2028, Pará

Teresa Maria, cª

Foi com sua mãe e irmã Palmira

Filiação

Notas

PARDILHÓ Nome e estado civil

Idade

Escolaridade e profissão

Abílio Luís Pereira Valente, cº

26

Moliceiro

Adelino

8

Agostinho Luís Costa, cº

32

Sabia escrever, ferreiro

Agostinho Luís Valente de Almeida, cº

40

Lavrador

André da Silva de Matos, cº

27

Jornaleiro

António da Fonseca, cº

34

Sabia escrever, carpinteiro

António Joaquim da Silva, cº

43

Moliceiro

14-03-1899, nº 1461, Rio de Janeiro

Agostinho Luís da Silva e Joana Maria Valente

36

Carpinteiro

17-01-1899, nº 1125, Pará

Salvador Ferreira e Ana da Silva

Sabia escrever, caixeiro

20-10-1899, nº 2357, Pará

Sabia escrever, caixeiro

13-02-1899, nº 1277, Pará

António Joaquim Ferreira Condesso, cº António Joaquim Valente de Almeida António Maria da Silva Pinho

[ 206 ]

17

13

Data, destino e nº de passaporte 02-01-1899, nº 1018, Rio de Janeiro 07-07-1899, nº 1974, Pará 18-02-1899, nº 1290, Pará 14-03-1899, nº 1460, Rio de Janeiro 17-07-1899, nº 2030, Pará 11-02-1899, nº 1266, Pará

Fernando Luís Pereira Valente e Mariana de Jesus Victorino Ferreira da Silva, cº

Foi com seu pai

António Ferreira da Costa e Josefa Esteves José Valente de Almeida e Maria Joana Valente José da Silva Matos e Maria Esteves dos Santos Francisco da Fonseca e Ana da Fonseca

António Joaquim Prorrogado por 40 Valente de Almeida e dias em Joana de Assumpção 09-12-1899 Matos Joaquim Maria da Silva de Pinho e Maria Albina Valente


TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

Artur Valente de Almeida Baptista, cº

22

Hermínia da Silva

20

João Lopes de Pinho

19

Joaquim António Lopes da Silva Joaquim Augusto Lopes Ramos

12 13

Joaquim Maria da Silva, cº

49

Joaquim Maria dos Santos Teixeira

35

Sabia escrever, comerciante

21-09-1899, nº 2250, Benguela, Angola

07-07-1899, nº 1973, Pará 14-09-1899, Sabia escrever, nº 2235, comerciante Pará 17-05-1899, Estudante nº 1777, Benguela, Angola 05-04-1899, Sabia escrever, caixeiro nº 1588, Pará 11-03-1899, Lavrador nº 1430, Rio de Janeiro 05-04-1899, Sabia escrever, nº 1586, carpinteiro Pará

João Lopes de Pinho

19

Comerciante

João Maria Dias Pereira, cº

26

Carpinteiro

José da Silva Godinho, cº

58

Lavrador

José Júlio Lopes

10

Sabia escrever

José Manuel Ferreira Lopes, cº

32

Lavrador

José Maria da Silva Ramos, cº

38

Sabia escrever, trolha

Luís Valente Estrela, cº

25

Sabia escrever, moliceiro

Manuel Dias de Matos, cº

28

Jornaleiro

14-09-1899, nº 2235, Pará 08-05-1899, nº 1741, Pará 07-07-1899, nº 1973, Pará 14-09-1899, nº 2235, Pará 01-04-1889, nº 1561, Pará 11-01-1899, nº 1070, Manaus 24-03-1899, nº 1532, Pará 07-07-1899, nº 1976, Pará

Bernardo Maria Valente de Almeida e Maria José Lopes Baptista José da Silva Godinho, cº

Foi com seu pai

António de Pinho Levou seu criado José Russo e Maria Joana Júlio Lopes Lopes António Joaquim Lopes da Silva e Ana Valente de Almeida José Maria Lopes Ramos e Ana Maria Marques Agostinho da Silva e Joana Maria da Silva Manuel António Teixeira e Maria da Silva de Pinho Levou seu criado José Júlio Lopes. António de Pinho Russo e Maria Joana Prorrogado por 30 dias em 02-11-1899 Lopes e em 01-12-1899 Joaquim Esteves e Maria Caetana Dias Pereira Manuel da Silva Levou sua fª Godinho e Caetana Hermínia da Silva Esteves Foi com seu patrão João Lopes de Pinho. Prorrogado por 30 dias em 02-11 e 01-12-1899 José Ferreira Lopes e Maria Joaquina de Jesus António José Vaz e Maria Joana da Silva Joaquim Maria Valente e Maria Rosa Marques Augusto Dias de Matos, e de Maria Nunes

[ 207 ]


TERESA CRUZ TUBBY | VALTER SANTOS

Manuel Joaquim da Fonseca Manuel António, cº Manuel António Nunes de Matos, cº Manuel António Valente da Silva, cº Manuel Dias de Matos, cº

22

Sabia escrever

18-05-1899, nº 1782, Rio de Janeiro

29

Sabia escrever, carpinteiro

24-10-1899, nº 2365, Pará

37

Sabia escrever, carpinteiro

36

Sabia escrever, lavrador

28

Jornaleiro

Manuel Lourenço da Fonseca, 46 cº

Sabia escrever, serrador

Manuel Marques da Fonseca, cº

30

Calafate

Manuel Nunes de Matos, cº

24

Sabia escrever, carpinteiro

Maximino

10

Sabia escrever

Paulino Henriques Lestre, cº

35

Sabia escrever, caixeiro

Rodrigo António Valente de Almeida, cº

26

Sabia escrever, lavrador

Ventura da Silva Vigário, cº

23

Sabia escrever, moliceiro

Victorino Ferreira da Silva, cº

35

Sabia escrever, negociante

11-02-1899, nº 1267, Manaus 30-03-1899, nº 1560, Pará 07-07-1899, nº 1976, Pará 18-05-1899, nº 1782, Rio de Janeiro 07-07-1899, nº 1975, Pará 24-10-1899, nº 2364, Pará 18-05-1899, nº 1782, Rio de Janeiro 27-06-1899, nº 1934, Pará 31-07-1899, nº 2086, Pará 11-03-1899, nº 1429, Pará 07-07-1899, nº 1974, Pará

Manuel Lourenço da Foi com seu pai e Fonseca, cº irmão Maximino Manuel António da Silva Tavares e Ludovina Pereira da Silva Manuel Nunes de Matos e Ana Joaquina de Oliveira Manuel Valente da Silva e Rosa Valente Augusto Dias de Matos e Maria Nunes Manuel Joaquim Levou seus fos Manuel da Fonseca e Maria e Maximino Valente de Almeida Ana da Silva, sª Miguel Nunes de Prorrogado por 40 Matos e Rosa Valente dias em de Almeida 12-12-1899 Manuel Lourenço da Foi com seu pai e Fonseca, cº irmão Manuel Manuel Henriques e Ana Ferreira José António Valente de Almeida e Maria Joaquina de Oliveira Domingos da Silva Vigário e Ana Valente de Almeida António Joaquim da Silva e Maria Levou seu fº Adelino Ferreira

SALREU Nome e estado civil

Idade

Escolaridade e profissão

Data, destino e nº de passaporte

Filiação

Notas

António Maria Soares, cº

48

Sabia escrever, lavrador

27-02-1899, nº 1351, Pará

João Bernardo da Costa Anjos e Ana Soares

Vivia em Canelas

[ 208 ]


TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

António Marques, cº

59

Trabalhador

António Marques das Neves, cº

30

Sabia escrever, barqueiro

Caetano Ferreira Vidal, cº

33

Sabia escrever

Filipe da Silva Rebelo, cº

32

Sabia escrever, lavrador

Francisco Maria Simões, cº

43

Joaquim António da Silva Rebelo

13

José de Oliveira Neves, cº

35

José Domingues Ferreira

16

Rufino Marques Sardoeiro, cº

29

03-05-1899, nº 1722, Rio de Janeiro 18-08-1899, nº 2156, Pará 16-12-1899, nº 2548, África Oriental 03-07-1899, nº 1961, Pará

Manuel Marques e Maria de Jesus Maria Victória João Ferreira Vidal e Maria José Afonso da Silveira

Proprietário

José da Silva Rebelo e Maria Marques

Capitalista. António José Simões Prorrogado por 30 Sabia escrever e Maria Joaquina de dias em Almeida 25-01-1900 23-08-1899, António Rebelo da Estudante nº 2192, Silva e Maria José Rio Grande do Sul Bandeira 05-12-1899, José de Oliveira e Sabia escrever, lavrador nº 2515, Josefa da Silva Rio de Janeiro 24-08-1899, António Joaquim Sabia escrever, nº 2195, Ferreira e Maria de jornaleiro Rio de Janeiro Almeida 03-05-1899, Jº Marques Jornaleiro nº 1722, Sardoeiro e Maria Pará Rosa 09-12-1899, nº 2533, Pará

VEIROS Nome e estado civil

Idade

Escolaridade e profissão

Data, destino e nº de passaporte

Agostinho Maria Vaz Pereira

21

Sabia escrever, trabalhador

26-01-1899, nº 1182, Rio de Janeiro

António Joaquim Rodrigues de Oliveira

26

Sabia escrever, lavrador

18-12-1899, nº 2549, Manaus

António Maria Rodrigues de Oliveira

19

Moliceiro

28-02-1899, nº 1370, Rio de Janeiro

Gonçalo Maria da Silva, cº

37

Sabia escrever, maquinista

01-12-1899, nº 2498, Pará

Filiação

Notas

Manuel Vaz Pereira e Ana Joaquina da Silva José Maria Rodrigues de Oliveira e Ana Augusta Henriques de Oliveira José Agostinho Rodrigues de Oliveira e Maria Joaquina da Silva Mateus José Ramos e Maria Caetana da Silva Garganta

[ 209 ]


TERESA CRUZ TUBBY | VALTER SANTOS

Manuel José 17-07-1899, Fernandes Barbosa nº 2029, e Domingas Maria Rio Grande do Sul de Jesus 07-04-1899, Domingos José da Lavrador nº 1601, Silva e Maria Joana Pará da Silva 28-02-1899, António Joaquim Sabia escrever, nº 1367, Nunes e Maria Joana carpinteiro Rio de Janeiro Antão Constantino José de 04-12-1899, Sabia escrever, alfaiate nº 2395, Pinho e Inocência Rio de Janeiro Maria da Fonseca 31-01-1899, Gonçalo Marques Sabia escrever, nº 1203, e Maria Antónia da carpinteiro Pará Silva Agostinho Maria Levou seu fº 28-02-1899, Pereira de Sousa e Victorino José Sabia escrever, lavrador nº 1366, Antónia Maria de Pereira de Sousa Rio de Janeiro Oliveira 16-02-1899, Manuel Maria Barqueiro nº 1291, Rebelo e Maria Vivia na Murtosa Pará Antónia Antão 03-01-1899, Manuel José Soares Pescador nº 1031, Vivia no Bunheiro e Inocência Maria Pará 29-12-1899, Agostinho Fernandes Jornaleira nº 2584, Romão e Ana Maria Pará da Silva 28-02-1899, José Maria Pereira Sabia escrever nº 1366, Foi com seu pai de Sousa, cº Rio de Janeiro

Gonçalo Maria 33 Sabia escrever, marítimo Fernandes Barbosa, cº João José da Silva, cº

36

João Maria Nunes

22

José Maria da Cunha, cº

37

José Maria Marques, cº

26

José Maria Pereira de Sousa, cº

31

Manuel Maria Rebelo, cº

28

Manuel Maria Soares, 24 cº Maria José da Silva, cª 58 Victorino José Pereira de Sousa

9

DO CONCELHO DE ESTARREJA Nome e estado civil

Idade

Escolaridade e profissão

António Maria Marques de Pinho, cº

21

Sabia escrever, alfaiate

Josefa Margarida da Graça, cª

28

Sabia escrever, doméstica

Abreviaturas

cª = casada cº = Casado fª = filha; fas = filhas

[ 210 ]

fº = filho; fos = filhos mdo = marido mer = mulher

Data, destino e nº de passaporte

Filiação

11-02-1899, Tomé Marques nº 1265, de Pinho e Ana S. Tomé e Príncipe Rodrigues Loureiro 03-05-1899, Manuel José da nº 1725, Graça e Margarida Rio de Janeiro da Silva

sª = solteira sobº = sobrinho vº = viúvo

Notas Do Concelho de Estarreja Do Concelho de Estarreja


TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

NOS 20 ANOS DO FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DE AVANCA António CostaValente* Rita Capucho** Um homem, dois homens, três homens, um grupo de homens, um clube. Uma vila, uma cidade, uma região, um país, o mundo (os quatro cantos do mundo). Um filme, dois filmes, três filmes, um festival. Um livro, dois livros, uma coleção, várias coleções. Uma máquina, duas máquinas, um museu cinematográfico. Um desenho, dois desenhos, centenas de desenhos, um filme de animação. Um workshop, dois workshops, um realizador, uma equipa. Uma ideia, um sonho, um projeto e chegamos a 20º edições do Festival de Avanca. Número redondo simpático nas formas, com afirmação pela continuidade e crescimento que tem tido ao longo dos anos. 1977, três anos após a revolução, um grupo de jovens avancanenses decidiu criar um cineclube com sede em Avanca. Nesse tempo o cinema era na tela grande e sim... ainda era cinema, só cinema..., sem 2, 3 ou 4D. Na sala de projeção ouvia-se o som da película a passar na máquina, nesse tempo ainda se tocava cada fotograma do filme, sentia-se o cinema nas mãos. E é com o cinema no coração que em 18 de Novembro de 1982, ocorre a formalização com a escritura pública do Cineclube de Avanca. Falamos de 39 anos de atividade, 34 como entidade formal. Não faltam números para apresentar nesta existência. Um Cineclube que produz cinema, organiza um festival, edita livros, organiza uma conferência, oferece formação, faz programação de cinema, uma entidade polivalente diversa nas atividades e nas temáticas. 20 edições de um festival que leva Avanca ao mundo e traz o mundo a Avanca. O primeiro catálogo de 1997 anunciava o tempo das imagens em Avanca. 20 anos depois das primeiras projeções o Cineclube abria a porta da garagem e convidava todos para participar nesta festa.

* Tendo sido um dos fundadores do Cine-Clube de Avanca, dirige o festival de cinema AVANCA desde os seus começos. Doutorado em cinema é docente universitário, produtor de cinema e sobretudo é de Avanca. ** Doutoranda em Estudos Artísticos, especialização em Estudos Fílmicos e da Imagem na Universidade de Coimbra. Licenciada e mestre em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Investigadora do CEIS20 - Centro de Estudos Interdisciplinares do Séc. XX da Universidade de Coimbra.Um dos membros fundadores da AVANCA | CINEMA - Conferência Internacional Cinema – Arte,Tecnologia, Comunicação. Membro da direção da Debatevolution – Associação e produtora editorial do International Journal of Cinema. Atualmente desempenha funções como produtora e programadora no Cineclube de Avanca.

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No IPACA (o instituto para o cinema do Ministério da Cultura) presidia Ana Costa Almeida e no Município de Estarreja presidia Vladimiro Silva e Fernando Mendonça era o Vereador da Cultura. Todos apoiaram a iniciativa - novos ventos, novos rumos. 1997 - edição 1 O AVANCA nasce prestando tributo a um cineasta da terra. Padre António Oliveira é o primeiro homenageado. Os fotogramas dos seus filmes concretizam a primeira exposição do festival e fica a urgência de recuperar todo o seu vasto trabalho de documentarista e cineasta improvável, mas maior num tempo e na região. Um arranque no espaço de workshops com nomes maiores do cinema mundial. Um destaque especial para Jos Stelling um dos grandes realizadores do cinema europeu. Um ano de começo onde a ligação ao país vizinho permitiu, entre outras presenças, reunir o realizador português Francisco Lança com a produtora galega de multimédia Beatriz Legerén.

1998 - edição 2 Na segunda edição anunciava-se um campo repleto de imagens e destacava-se o projeto “ No rasto das imagens – Comemorar Ciência/ Reviver Tecnologias, que englobava um debate, um workhop, um encontro e duas exposições. Um projeto quase único de ligação cinema e ciência. Neste ano chegaram ao AVANCA realizadores como Co Hoedeman de origem holandesa e radicado no Canadá e vencedor de um Óscar da animação. Orientando workshops, também outros especialistas – como Pancho Casal da Continental (Espanha), e experimentadores da imagem fotográfica numa colaboração entre a Alemanha e Portugal: Jochen Dietrich e Aníbal Lemos. 1999 - edição 3 No catálogo em 1999 a máquina pareceria estar a funcionar em pleno “Motor…Câmara... Ação” eram estas o mote das palavras iniciais para mais uma edição. “Uma frincha sobre o Museu” foi a exposição de Mariana Macedo que fotografou a população com as máquinas que pertencem ao futuro museu de cinematografia do CCA. Um encontro feliz das gentes, das máquinas e de Avanca. Nos workshops, recebemos os americanos radicados na Europa, Bob Balser (Presidente da Cartoon /Media) e Joe Davidow (que da Finlândia filmou Pessoa). Mas neste ano também a

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força dos documentários políticos de Malek Bensmail (Argélia, França), ou da natureza com Jan Arnold (Alemanha). Entre outros, um encontro com a produção de Maria Antónia Seabra e o casal de atores incontornáveis Dominique Abel e Fiona Gordon (Bélgica, EUA). 2000 - edição 4 A vaca parece cada vez ser a figura principal deste festival que anuncia no ano 2000 um grande ecrã, 12 impressionantes metros. O grande destaque vai para a criação da competição Avanca. A produção na região começa a justificar a existência de uma competição que se torne a grande tela para os jovens realizadores. Vítor Lopes é o primeiro distinguido com a animação “Histórias desencantadas”. Até aos dias de hoje a Competição Avanca transformou-se numa janela anual de promoção das obras que se realizam na região ou com pessoas de cá. Assumpta Serna, uma das mais marcantes atrizes do cinema espanhol, protagonista de Almodovar, mas também de Fonseca e Costa, edita em Avanca um livro que inicia uma coleção de publicações sobre cinema. Participa nos workshops, por onde chegam convidados dos EUA (Dave Master, John Mass), Bélgica (Jean-Jacques Adrien), Espanha (Xavier Villaverde), Noruega (Margaretha Andreassen, Eric Wood), Alemanha (Christian Hossner) e obviamente Portugal (Mário Jorge). 2001 - edição 5 Na quinta edição a sede ganha destaque nas primeiras linhas do texto da comissão organizadora, o desejo de um grande empreendimento assume forma de testemunho. Sério Fernandes recebe uma homenagem e a edição de livros ganha cada vez mais relevância, um corpo que até hoje é invejável. Uma exposição “Pintar com Luz – Holografia” de Rosa Maria Oliveira, professora da Universidade de Aveiro, marca o espaço das exposições e o programa de filmes mais uma vez destaca-se pela variedade de propostas. Oito workshops trazem-nos personalidades como os realizadores e atores belgas Jaco Van Dormael e Harry Cleven, o diretor de fotografia inglês David Johnson, o realizador de animação alemão Andreas Hykade, o coreografo e videasta austríaco David Haneke. Francisco Vidinha e Sério Fernandes são os portugueses que integram a vasta lista de 12 orientadores de espaços de experimentação/formação em cinema.

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2002 - edição 6 Em 2002 afirmava-se como espaço europeu único e o Cinema nas Escolas teve um espaço especial. Mas este é um ano marcado pela presença de Dusan Makavejev, provavelmente o mais controverso, subversivo e inesperado realizador jugoslavo e europeu. Um ano em que o cinema e a ciência descobre novos caminhos pela manipulação cinematográfica do autor finlandês Mika Taanila. 2002 é ainda o ano de descobrir o britânico Colin H. Arthur, que em “2001, Odisseia no Espaço” de Stanley Kubrick, criou máscaras utilizando pela primeira vez materiais compositos. Um mestre dos efeitos especiais presente no ano em que o AVANCA recebe um dos grandes produtores do cinema português: Henrique Espírito Santo.

2003 - edição 7 Na sétima edição gritava-se liberdade, sete anos de liberdade e a liberdade vale tudo. O júri contava com grandes nomes do cinema e homenageava-se postumamente o jovem cineasta Armando Condesso. Entre os premiados surge a primeira longa-metragem de Miguel Marques “Ruptura”. As edições continuam com liberdade e fulgor. Apostava-se no “Animatrope”, um software para aprendizagem de animação que Sérgio Nogueira havia desenvolvido com o apoio do Cine-Clube de Avanca. Os workshops tinham como orientadores a atriz Tamar van den Dop (Holanda), o mestre da animação europeia Jannik Hastrup (Dinamarca), o vencedor da “Palme d’Or” em Cannes 1984, Gérald Frydman (Bélgica) e, entre outros, Ebrahim Forouresh um consagrado realizador do Irão que nos trouxe uma outra visão para o cinema dos e com os mais novos.

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2004 - edição 8 Na competição local 5 filmes estreavam e Vítor Lopes volta a vencer (desta feita com “Timor Loro Sae”) e os workshops reuniam um campeão do mundo em improvisação (o ator italiano Alfredo Cavazzoni), o mais famoso dos cenógrafo de Espanha (Feliz Murcia), uma realizadora emergente de algures entre a França, Suíça, Bélgica (a hoje consagrada Ursula Meyer), ou o cineasta português Lauro António. Da Austrália e Rússia vieram os irmãos Lycette e o documentarista Pavel Medledev e de todo o lado, todos os que com eles fizeram do AVANCA 2004 um forte ponto de encontro do cinema. Nos prémios surgem realizadores como o sérvio Milos Radovic e vários que nos viriam visitar no ano seguinte.

2005 - edição 9 Em 2005 a aposta era o mote e queria-se a descentralização. 3 Longas-metragens desenhavam o programa, “Ellektra”, “Borboleta ao vento” e “Tamara”. Bélgica, Irão e Hungria subiam ao palco do Avanca. Mas seria a figura de Jimmy Murakami (um criador errante entre o Japão, EUA, Irlanda), que mais iria marcar os encontros. Um dos nomes maiores da animação contemporânea, entretanto falecido em 2014. Mas seria com o realizador americano Jeff Burr que surgiriam os primeiros filmes de terror e a história de “Conto do Vento”, com que Cláudio Jordão e Nelson Martins viriam a realizar um dos mais premiados filmes portugueses de sempre. Por este AVANCA passaram ainda as mais recentes preocupações tecnológicas como a pós-produção digital pelo argentino Juan Solanas que havia ganho Cannes com um filme também premiado pelo AVANCA, a legendagem para surdos permitiu à equipa de Josélia Neves trabalhar na produção do Cine-Clube de Avanca “Zé e o Pinguim” de Francisco Lança tornando-o num dos primeiros filmes portugueses de animação disponíveis para o mundo dos surdos. As ruas de Avanca foram ainda palco de “Boom”, um filme protagonizado por uma jovem atriz avancanense que o premiado realizador alemão Veit Helmer realizou. Da Estónia e Camarões vieram dois marcantes realizadores (Rao Heidmets e Osvalde Lewat) que nos aproximaram da animação de bonecos animados e do documentário e África.

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2006 - edição 10 Um ano de todos os workshops – 10 propostas que decorreram, como sempre, ao mesmo tempo e ocupando por completo a Escola Egas Moniz de Avanca. É o ano de encontro com dois dos maiores ícons do cinema erótico europeu: a atriz Sylvia Kristel e o realizador de animação Picha (Bélgica). Ambos ensinam animação, enquanto Urmas Jõemees (Estónia) procura o controlo da luz no também cinema animado. Os realizadores húngaro Szabolcs Hajdu, marroquino Ahmed Boulane, os produtores Enrique Nicanor (Espanha) e Rudolf Mestdagh (Bélgica), juntam-se a um grupo alargado que dinamiza formação. De Portugal esteve Joaquim Pinto, abordando o som no cinema. Dominique Abel e Fiona Gordon voltam a ser premiados no AVANCA. Desta vez com a comédia de longa metragem “L’Iceberg”, co-realizada com o também belga Bruno Romy.

2007 - edição 11 Em 2007 edição número o ano de um grande nome do cinema europeu. Hanna Schygulla chega ao AVANCA para fazer o que nunca antes tentara... orientar um workshop. Fá-lo com a cubana Alicia Bustamante e ao lado, outros workshops reúnem personalidades como Goran Radovanovic (Sérvia), Vuk Jevremovic (Alemanha), Svetozar Ristovski (Macedónia / Canadá), Marie-Jeanne Wyckmans (Bélgica), Pascal Lievre (França), Benny Nemerofsky Ramsay (Canadá) e Vítor Lopes. Hanna Schygulla viria aqui a realizar o seu primeiro filme, um primeiro passo para os documentários que se lhe seguiram. “Iron Island”, do iraniano Mohammad Rasoulof ganhou o Prémio Longa-Metragem e pela primeira vez na multimédia é distinguido um Vlog.

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2008 - edição 12 Em 2008 edição número 12, a inovação chegou no formato WEB, um novo espaço de competição para filmes em exibição nos canais de televisão na Web. Nos workshops, a incontornável referência a Linda Seger, a mais conhecida consultora de escrita de argumentos do cinema americano, como uma das personalidades a orientar um workshop. A esta se juntaram outros nomes fundamentais do cinema, o documentarista lituano Romas Lileikis e Presidente da República Independente do Uzupis, o realizador russo de animação Konstantin Bronzit, distinguido com mais de 100 prémios incluindo todos os grandes prémios dos principais festivais de animação, Toke Constantin Hebbein, realizador alemão vencedor do Óscar para o Melhor Filme Estrangeiro na modalidade de escolas de cinema, Mikhail Segal, a grande revelação do cinema russo e autor da superprodução “Franz+Polina”, o artista multimédia e académico inglês Dane Watkins. De Portugal estiveram Fernando Augusto Rocha, Miguel Marques e Carlos Silva. Esta edição destacou-se pela qualidade dos nomes na área da formação, mas também pelos filmes, neste ano “Óscar. Una pasión surrealista”, do realizador espanhol Lucas Fernández, arrebatou o Prémio Cinema para a Melhor Longa-metragem, tendo o Prémio para o Melhor Ator sido atribuído a Joaquim de Almeida que protagoniza este filme. O ator esteve presente na edição e encantou o público.

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2009 - edição 13 Na 13 edição o Avanca recebeu o jovem realizador português João Salaviza que tinha conquistado recentemente no Festival de Cannes, uma Palma de Ouro com a sua curtametragem “Arena”. O realizador participou no workshop “História prática do cinema”, a convite dos orientadores João Antunes e Manuel Mozos. Peter Brosens (Bélgica), Jessica Woodworth (EUA), Rimvydas Leipus (Lituânia), Floriane Devigne (Suíça/Bélgica) e a atriz portuguesa Maria d’Aires, foram alguns dos convidados que vieram orientar diferentes workshops. Outro dos destaques foi a mostra de Videoarte com o tema “MERETRIZES DO PORVIR”. Quatro realizadoras, Diana Tavares, Raquel Carrilho, Teresa Magalhães e Teresa Melo, que frequentavam o Mestrado em Criação Artística Contemporânea, aceitaram o desafio de explorar criativamente o tema “Meretrizes do porvir”. A mostra foi comissionada pelo Prof. Dr. Paulo Bernardino da Universidade de Aveiro. O Prémio Longa-Metragem foi atribuído a “Li Tong” de Nian Liu (China) e pela primeira vez atribuiu-se o Prémio estreia Mundial para distinguir obras que fazem a sua primeira exibição no Festival AVANCA.

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2010 - edição 14 Em 2010 a grande inovação/ aposta foi a organização de uma conferência científica que veio se juntar ao festival. AVANCA | CINEMA – Conferência Internacional de Cinema – Arte, Tecnologia, Comunicação criou-se com o objetivo de promover Portugal como pólo aglutinador e dinamizador de novos conhecimentos, proporcionando aos investigadores nacionais e estrangeiros a troca de experiências e informação, como propósito de dinamizar e projetar o estudo nas áreas do cinema, arte, tecnologia e comunicação. Com este novo evento marcou um novo espaço de debate no âmbito dos festivais de cinema em Portugal. Após sete edições afirmouse como a maior conferência em estudo de cinema em Portugal. Nas agendas dos investigadores não falta a marcação desta conferência, assim como nas suas bibliotecas está presente o livro de atas que reúne numa grande publicação o melhor da investigação na área do cinema. 1239 investigadores estiveram em Avanca para participar neste evento. 948 apresentações públicas com a mais recente investigação que ficam guardadas para memória futura nas 8870 páginas de que os livros de atas fazem memória Mas além dos números o mais importante é que a conjugação destes dois eventos completa de uma forma plena o momento rico e intenso de franca fruição por parte dos participantes. Peter Brosens e Jessica Woodworth da Bélgica voltam a ser premiados, desta vez com o Prémio Longa-metragem para o filme “Altiplano”. Nos workshops estiveram o jovem Tanel Toom (o primeiro realizador da Estónia a receber um Oscar), Beatriz Flores Silva (Uruguai), Silvia Defrance (Bélgica) e entre outros, também Riho Unt, um dos mais conhecidos autores da forte animação estoniana. Os trailers dos filmes ganham o seu espaço com o “Trailer in Motion”.

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2011 - edição 15 Em 2011 a grande questão era “Why do you make films?” o festival parecia querer ouvir as razões como se quisesse explicar a si mesmo a razão de já existir há 15 edições. O destaque da formação foi para Luís Filipe Rocha que orientou “A direção de atores em cinema”, um espaço de trabalho destinado a realizadores e atores bem como aos futuros profissionais destas áreas do cinema. Mas pelos workshops do AVANCA passaram também os realizadores do Irão Mohamadreza Vatandoust e Mehdi Rahmani, a realizadora de animação Natalia Mirzoyan, Ciro Altabás de Espanha, entre outros. Goran Radovanovic volta a ser premiado no AVANCA, desta vez com o Prémio LongaMetragem atribuído ao seu filme “The Ambulance”. 2011 é um ano de reinvenção e acontece uma competição de fotografias de cinema “CLICK CLACK ACTION” e a competição “À PROCURA DE MIM NO MEIO DOS OUTROS” com os filmes de animação produzidos nas escolas. 2012 - edição 16 Mais um ano e desta vez não ouve questões, apenas uma única afirmação “Just Make Movies!”. É para isso que o festival existe, quase não precisamos de questionar, simplesmente fazer. O festival lança o repto aos cineastas portugueses e organiza uma “Fábrica de Filmes” que contribuiu fortemente para a promoção do Cinema Português. No ano de formação da Academia Portuguesa de Cinema, foi no AVANCA que um workshop desenvolveu os materiais para a primeira Gala dos Prémios Sophia. Neste ano o cinema português teve a todos os níveis especial destaque. Paulo Trancoso, Presidente da Academia Portuguesa de Cinema, foi o Presidente do Júri Internacional, tendo igualmente dirigido a equipa constituída pela atriz Anabela Teixeira, o realizador José Farinha e o compositor Frederico Pereira, que em conjunto orientaram o workshop que marcou e juntou o AVANCA 2012 ao nascimento da Academia nacional. Este é também o ano em que inicia um espaço de workshops para os mais novos. Chama-se “Cinentertainment” e tem na Pantopeia a sua equipa de animadores.

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2013 - edição 17 Um grupo de 12 cineastas, que incluiu os autores da longa-metragem “Macau Stories, Love in the City”, estiveram presentes nesse ano, o que constitui um acontecimento inédito nas trocas culturais entre Portugal e Macau. Do Canadá, Pierre Hébert vem receber um prémio e trás com ele o sentido da “cine performance” que origina o workshop que dirige, apoiado pelo compositor Joaquim Pavão. Nos outros espaços de oficina surgem nomes como Michel Khleifi (Palestina | Bélgica), David Jakubovic (EUA), Àlex Lora (Espanha | EUA) e os portugueses Vasco Pimentel, João Antunes que se preocupam com o som. Na competição cinematográfica regressa Veit Helmer com o seu novo filme “Baikonur” e chega sobretudo o grande cinema independente da Europa do leste. A17ª edição do AVANCA, teve ainda e pela primeira vez uma competição onde se exibiram vídeo clips. Integrando a secção “Trailer in Motion”, iniciada em 2010, os vídeo clips juntaram-se à já habitual competição de trailers de filmes. 2014 - edição 18 Em 2014 o festival tornou-se um ringue e o Combate de Cineastas foi o desafio, durante quatro dias, os participantes filmaram e desenvolveram obras de ficção, animação, documentário, em filmes produzidos por equipas onde se misturaram todas as nacionalidades. Na ficção os participantes filmam e têm como apoio os realizadores alemães Veit Helmer e David M. Lorenz, os ingleses Michael Denton e Anna McCrickard, o egipcio Adolf El Assal e a portuguesa Patrícia Vidal Delgado. No documentário surgem os criadores Anne Schiltz do Luxemburgo e o português Joaquim Pavão. Por último e na animação participa o realizador polaco Marcin Wasilewski e o avancanense Paulo d’Alva (Portugal). Um ano de filmes cujos prémios do cinema voaram entre o leste europeu (Ucrânia, Rússia), a Ásia (Irão, Iraque), a América Latina (México, Brasil, Venezuela), mas também o Chipre. Neste ano a Competição Avanca voltou a reunir um significativo número de filmes. Entre eles a longa-metragem de ficção de Luís Diogo “Pecado fatal” que viria a ser a obra portuguesa mais premiada no estrangeiro de entre todos os filmes de ficção de longa duração.

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2015 - edição 19 Em 2015 os números mais uma vez surpreendam na seleção oficial do festival. O festival contou com 142 obras selecionadas de países dos 5 continentes. 19 desses filmes foram exibidos em estreia mundial e 55 filmes em estreia portuguesa, o que parece afirma o festival como espaço preferencial para descobrir filmografias e novos autores. O Combate de Cineastas teve a sua segunda edição e juntou na ficção os realizadores Salem Salavati (Irão) e Marco Miranda, Igor Parfenov e Olena Sliusarchchik (Ucrânia) com Luís Diogo. No documentário Boris Gerrets (Holanda) e Rufo Pajares (Espanha). Na animação Alexandra Averyanova (Rússia) e Romina Quiroz (México). Na competição internacional o Prémio longa metragem foi pela primeira vez para o Bangladesh, para o filme de Abu Shahed Emon “Jalaler Golpo”. Também foram distinguidas longas-metragens dos EUA, Rússia e Espanha. 2016 - edição 20 Em 2016 mais uma vez o CCA decidiu trazer algo novo, a celebração da vigésima edição pedia uma festa. Assim, o CCA levou o cinema a casa das pessoas. Criar uma relação de proximidade com a comunidade, foi o mote impulsionador das ações levadas a cabo. A população foi desafiada a abrir as portas de sua casa, para realizar sessões intimistas de cinema. “A sua casa a nova sala de cinema” proporcionou momentos de encontro e partilha que fazem parte das memórias mais recentes do festival. Uma exposição fotográfica guarda para memória futura: mais um momento de encontro com a comunidade. Novas memórias, novos encontros e novos amigos, a cada nova edição. O programa de filmes era uma mostra de alguns dos melhores filmes que foram exibidos ao longo das últimas 19 edições. Mas este Avanca em Movimento ainda quis ir mais longe e realizou pela primeira vez uma sessão de cinema no comboio. Um ação única e original em parceira com a CP. Sexta-feira dia 8 de julho, um comboio urbano entre o Porto e Aveiro transformou-se numa sala de cinema. Entre filmes, voltaram as oficinas, agora com o nome CREATIVE FILM WORKSHOPS. Prefigurou-se um desafio e uma oportunidade para trabalhar com personalidades como Evangelos Giovanis (EUA), François Verster (África do Sul), Igor Korablev (Rússia), Thierry Michel (Bélgica), Mahmoud Hindawi (Jordânia), Raquel Felgueiras (Portugal).

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Paralelamente Luís Diogo e Joaquim Pavão filmavam em Avanca os seus novos filmes. Mais uma vez a competição internacional premiou um realizador habitual do AVANCA. O Prémio longa-metragem foi para “Enklava” (Enclave), do realizador sérvio Goran Radovanovic. Três exposições também marcaram esta última edição, duas delas foi o olhar para o passado recente. “Uma frincha sob um Museu” de Mariana Macedo que em 1999 percorreu Avanca retratando pessoas que, tendo participado e apoiado de alguma maneira a realização das primeiras edições do “AVANCA – Encontros Internacionais de Cinema, Televisão, Vídeo e Multimédia”, ficaram neste projeto ainda mais presentes. Retratos onde os avancanenses se deixaram fotografar com algumas das máquinas de cinema que pertencem ao espólio do Museu Técnico de Cinema de Avanca. A reposição da exposição permitiu uma viagem pelo passado. A exposição Cartazes das Edições do Festival de Cinema, presente no Cine-Teatro de Estarreja, foi outra viagem. O público pôde ver os cartazes desde a sua primeira edição em 1997. Por fim e já no âmbito do festival a exposição “Plano Aproximado” que guarda para memória futura o “Avanca em Movimento”, da autoria de Luís Oliveira Santos e Mário Xavier. Em julho passado a apresentadora da cerimónia subiu ao palco, e como num flashback fomos levados para a primeira edição. Memória desse tempo inicial impulsionador. Ouvia-se: “Continua bonita” “ Está na mesma!” os 20 anos passados não passaram pela sempre jovem apresentadora. Mas nas contas do festival não há espaço para engano, são mesmo 20 edições! Um festival e uma janela para comemorar 20 anos em 2017, tempo para retemperar e fortificar um projeto que se quer sempre único e a furar um céu novo num voo com os filmes a cada instante. O cinema parece sempre voar e Avanca partilha o mesmo trilho.

Bibliografia Valente, António. 2012 “O Património Cinéfilo do Concelho de Estarreja” in Terras de Antuã- Histórias e Memórias do Concelho de Estarreja. Nº 6, 33-46; Valente, António et all. 1997-2016 “AVANCA 1997 - 2016”, 20 tomos, Avanca, Cine-Clube de Avanca; Valente, António e Capucho, Rita. 2010-2016 “AVANCA | CINEMA 2010 - 2016”, 8 tomos, Avanca, Cine-Clube de Avanca; http://ccavanca.blogspot.pt/ (acedido 24/09/2016); http://www.avanca.com/pt/arquivo (acedido 24/09/2016); http://avanca.org/pt/historico.php (acedido 24/09/2016).

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[ N.º1 | Ano I | 2007 ] SUMÁRIO: HOJE, POR ONTEM, PARA AMANHÃ, José Eduardo de Matos; EDITORIAL, Delfim Bismarck Ferreira; ARTIGOS: EM SALREU, A “CASA DO SANTO” OU “A CASA DO FERRAZ”, Amaro Neves; O PATRIMÓNIO NAVAL NA FREGUESIA DE PARDILHÓ, Andreia Vidal Leite; CARTOFILIA ESTARREJENSE – A 1.ª metade do século XX, António Augusto Silva; DIVAGAÇÕES A PROPÓSITO DE UM VELHO RETRATO – Rostos da Fontinha, António Pedro de Sottomayor; MOINHOS E MOLEIROS DO CONCELHO DE ESTARREJA, Armando Carvalho Ferreira; A INTERVENÇÃO ARQUEOLÓGICA NA CAPELA DE SANTO AMARO, Beduído – Estarreja, Carlos A. Brochado de Almeida e Pedro Brochado de Almeida; OS REGEDORES DAS FREGUESIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA, Delfim Bismarck Ferreira; UMA FAMÍLIA DE ESTARREJA – Notas genealógicas sobre o ramo materno da família de D. Frei Caetano Brandão, Bispo do Pará e Arcebispo Primaz de Braga, Francisco M. Ponces de Serpa Brandão; HISTÓRIA DO ENSINO PRIMÁRIO NO CONCELHO DE ESTARREJA, Marco Pereira; O COUTO DE ANTUÃ E AVANCA NO FINAL DA IDADE MÉDIA – O impacto da crise dos séculos XIV e XV segundo três cartas de sentença, Rafael Marques Vigário; A IMPORTÂNCIA DA REDE VIÁRIA NA ESTRUTURAÇÃO DA DIOCESE VISIGÓTICA DE COIMBRA: Antuane como uma das suas paróquias, Sónia Filipe; SAUDADES. [ N.º2 | Ano II | 2008 ] SUMÁRIO: COMO É RICA A NOSSA HISTÓRIA, José Eduardo de Matos; EDITORIAL, Delfim Bismarck Ferreira; ARTIGOS: O BISPO DE COCHIM – Alguns apontamentos para o seu conhecimento, António Augusto Silva; LEITURA DE FEIRA E NÃO SÓ, António de Pinho Nunes; ESTARREJA NA IDADE MÉDIA – Documentação dos séculos X a XIII, Delfim Bismarck Ferreira; O LIVRO DE EXCOMUNGADOS E LEMBRANÇAS DA IGREJA DE SÃO MIGUEL DE FERMELÃ, Hugo Calão; OS MEUS ANTEPASSADOS DE ESTARREJA, José Manuel Nunes Liberato; O ASSOCIATIVISMO AGRÁRIO NA SUB-REGIÃO DE AVEIRO (1854-1923) – Contributo para o seu estudo, Manuel Ferreira Rodrigues; MONARQUIA DO NORTE [ou Traulitânia] – Ocupação monárquica de Estarreja (24.1.1919-11.21919), Marco Pereira; O ESTÁBULO DA IGREJA PAROQUIAL DE BEDUÍDO, Maria Clara Paiva Vide Marques; LIVROS PAROQUIAIS DE AVANCA – Uma fonte por explorar, Maria Palmira da Silva Gomes; BANDA BINGRE CANELENSE: PELA MÚSICA HÁ 140 ANOS, Teresa Bagão; O CONCELHO DE ESTARREJA E OS SEUS EMIGRANTES ENTRE OS ANOS DE 1900 E 1905, Valter Santos; SAUDADES, ADENDAS E CORRECÇÕES: Novos Subsídios para a História da Capela de Santo António, Marco Pereira. [ N.º3 | Ano III | 2009 ] SUMÁRIO: A AVANTURA CONINUA, José Eduardo de Matos; EDITORIAL, Delfim Bismarck Ferreira; ARTIGOS: JORNAIS E JORNALISTAS NA TERRA DA MADEIRA ATÉ 1925, António Augusto Silva; A CONSTRUÇÃO NAVAL NO NORTE DA RIA DE AVEIRO: DA ÁREA DE INFLUÊNCIA DO CONCELHO DE ESTARREJA AO BICO DA MURTOSA, António Vítor N. de Carvalho; CASA DOS MORGADOS DE SANTO ANTÓNIO DA PRAÇA, EM ESTARREJA, Delfim Bismarck Ferreira; A CHEGADA DA ENERGIA ELÉCTRICA AO CONCELHO DE ESTARREJA: 1925-1930 – BREVES APONTAMENTOS HISTÓRICOS, Diana Cunha & Susana Temudo Silva; EPISÓDIO DA VIDA PLOÍTICA DE HÁ CEM ANOS, José Augusto Tavares Gurgo e Cirne; INVASÕES FRANCESAS NOS CONCELHOS DE ESTARREJA E MURTOSA, Marco Pereira; AS CONVERSAS COM A TIA ROSA, Margarida Castro; RETÁBULO DA CAPELA DE SANTA BÁRBARA EM BEDUÍDO, Maria Clara PaivaVide Marques; MANUEL FIRMINO D’ALMEIDA MAIA (1824-1897), Maria Manuel de Vilhena Barbosa; EGAS MONIZ – O PRÉMIO NOBEL, Rosa Maria Rodrigues; FAMILIARES DO SANTO OFÍCIO RELACIONADOS COM ESTARREJA, Teresa Cruz Tubby; O CONCELHO DE ESTARREJA E OS SEUS EMIGRANTES ENTRE OS ANOS DE 1882 E 1887, Valter Santos; SAUDADES. [ N.º4 | Ano IV | 2010 ] SUMÁRIO: CEM ANOS DA REPÚBLICA E MAIS DE MONARQUIA, José Eduardo de Matos; EDITORIAL, Delfim Bismarck Ferreira; ARTIGOS: ALBERTO FERREIRA VIDAL – Notável Estarrejense, António Augusto Silva; EGAS MONIZ, das origens telúricas à celebração internacional, António Macieira Coelho; “MULTIPLICAR OS PEIXES E POUPÁ-LOS QUANDO SE REPRODUZEM…” – O debute parlamentar de um filho de Estarreja, António Pedro de Sottomayor; O “RESTAURO” DA BANDEIRA DA MONARQUIA – Tratamento de Conservação e Restauro da bandeira da Câmara Municipal de Estarreja, Eva Armindo; OS INVENTÁRIOS DAS IGREJAS E CAPELAS DAS PARÓQUIAS DOS CONCELHOS DE ESTARREJA E MURTOSA, Hugo Calão; OS ÚLTIMOS TEMPOS DA MONARQUIA E A IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA, com as suas consequências em Estarreja, de acordo com as memórias de Francisco de Moura Coutinho de Almeida d’Eça, Luís Augusto Eça de Matos; NOTAS PARA A HISTÓRIA DA PRIMEIRA REPÚBLICA NO DISTRITO DE AVEIRO: Alberto Souto administrador do concelho de Estarreja, Luís Souto de Miranda; DA COBERTURA DE COLMO À TELHA DE FONTELA, Marco Pereira; SÃO MIGUEL ARCANJO – PADROEIRO DE FERMELÃ, Maria Clara Paiva Vide Marques; OS CAMINHOS DA CIRES – o seu 50.º aniversário, Maria Elvira Callapez; DOMINGOS JOAQUIM DA SILVA, Visconde de Salreu (1854-1936) – Parte I, Maria de Jesus Sousa de Oliveira e Silva; INTERVENÇÃO DE CONSERVAÇÃO E RESTAURO DA PEDRA DE ARMAS DO BISPO

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MUNICÍPIO DE ESTARREJA

DE COCHIM, Patrícia Mestre Marques de Carvalho; RECUPERAÇÃO DOS MOINHOS DE MEIAS – Quinta do Marinheiro, Casa-Museu Egas Moniz, Ricardo Matos, Luís Loureiro e Nuno Matos; AVANCA – DOS ÚLTIMOS ANOS DA MONARQUIA ATÉ À IMPLEMENTAÇÃO DA REPÚBLICA, Telma Marília Assunção Correia; O CONCELHO DE ESTARREJA E OS SEUS EMIGRANTES (18881892), Valter Santos; SAUDADES, ADENDAS E RECTIFICAÇÕES. [ N.º5 | Ano V | 2011 ] SUMÁRIO: NÃO REFORMAMOS A HISTÓRIA!, José Eduardo de Matos; EDITORIAL, Delfim Bismarck Ferreira; ARTIGOS: A SAGA DO NAVIO MARIA DAS FLORES, O Lugre Maria das Flores – o bota-abaixo, Ana Maria Lopes; CAETANO FERREIRA – Notável Estarrejense, jornalista errante e viajante, António Augusto Silva; PASSADO PATRIMÓNIO E FUTURO – Primeiros elementos para uma carta arqueológica do concelho de Estarreja, António Manuel S. P. Silva & Gabriel Rocha Pereira; CASA DO OUTEIRO DE PAREDES EM AVANCA, Delfim Bismarck Ferreira e Maria Palmira da Silva Gomes; A ARQUEOLOGIA NA REDE PRIMÁRIA DE TRANSPORTE DE GÁS: A passagem pelo distrito de Aveiro, João Muralha; O FUNDADOR DE ESTARREJA, Joaquim Lagoeiro; ORIGEM DA CASA DO COUTO, SALREU, ESTARREJA, Jorge Barbosa Montenegro; CONSELHEIRO FRANCISCO LOURENÇO DE ALMEIDA – Participante na transição da Monarquia Absoluta para a Monarquia Liberal, na primeira metade do século XIX, Marco Pereira; OS VALENTES DE ALMEIDA DE PARDILHÓ, Maria Helena Valente Pinto; AS ELITES LOCAIS E SUA INFLUÊNCIA NOS FINS DO SÉCULO XIX E PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX – UM EXEMPLO: Domingos Joaquim da Silva, Visconde de Salreu (1854-1936) – Parte II, Maria de Jesus Sousa de Oliveira e Silva; AFORAMENTOS DE SANTO AMARO, TORREIRA E OUTROS (1780 a 1950) – PROCESSOS EM ARQUIVO, Norvinda Leite; O PAPEL DAS MULHERES NA VIDA DE EGAS MONIZ, Rosa Maria Rodrigues; OS CINETRATOS NO DISTRITO DE AVEIRO – Materialização de um programa em Rodrigues Lima, Susana Constantino; O CONCELHO DE ESTARREJA E OS SEUS EMIGRANTES (1893-1894), Valter Santos e Teresa Cruz; SAUDADES; NOTAS SOLTAS: ORDENANÇAS E MILÍCIAS NO CONCELHO DE ESTARREJA (1866); ARQUITECTURA NA FEIRA DE SANTO AMARO; ADENDAS E RECTIFICAÇÕES [N.º6 | Ano VI | 2012 ] SUMÁRIO: A IMPORTÂNCIA DO RITUAL, José Eduardo de Matos; EDITORIAL, Delfim Bismarck Ferreira; ARTIGOS: EMBARCAÇÕES TRADICIONAIS DE CANELAS, Ana Maria Lopes; Dr. TAVARES DA SILVA – Figura incontornável do Desporto Nacional do séc. XX, António Augusto Silva; O PATRIMÓNIO CINÉFILO DO CONCELHO DE ESTARREJA, António Costa Valente; O CASTRO DE SALREU (ESTARREJA): RESULTADOS DA PRIMEIRA CAMPANHA DE ESCAVAÇÕES ARQUEOLÓGICAS, António Manuel S. P. Silva, Gabriel R. Pereira & Paulo A. P. Lemos; ANTÓNIO MOTA GODINHO MADUREIRA – Um esboço biográfico, Delfim Bismarck Ferreira; MIGRAÇÕES ARQUITECTÓNICAS – O popular e o histórico na hora de Francisco Farinhas, Domingos Tavares; O PATRIMÓNIO E O SEU PAPEL CULTURAL NO CONTEXTO LOCAL E REGIONAL, José Mattoso; FÁBRICAS DE LACTICÍNIOS NOS CONCELHOS DE ESTARREJA E MURTOSA, Marco Pereira; SACRÁRIOS DAS IGREJAS PAROQUIAIS DO CONCELHO DE ESTARREJA, Maria Clara Vide Marques; ESTARREJA – Sua origem como topónimo, Maurício António Fernandes; O CONCELHO DE ESTARREJA E OS SEUS EMIGRANTES (1895), Teresa Cruz Tubby e Valter Santos; SAUDADES; NOTAS SOLTAS: ESTARREJA E AS SUAS ACTUAIS FREGUESIAS (1853); CONCELHO DE ESTARREJA (1875); ESTADO ACTUAL DA INDÚSTRIA CERÂMICA (1905); ESTARREJA (1912); ANTUÃ: Paróquia Sueva; 8 DIAS DE “LIBERDADE” … CONDICIONADA; REVISTAS TERRAS DE ANTUÃ. [ N.º7 | Ano VII | 2013 ] SUMÁRIO: EU SOU QUE SEI, José Eduardo de Matos, A HISTÓRIA VAISE FAZENDO, Diamantino Sabina, EDITORIAL, Delfim Bismarck Ferreira, ARTIGOS: HENRIQUE LAVOURA – construtor naval de nomeada, Ana Maria Lucas, CÓNEGO REBELO DOS ANJOS – Capelão de militares e Civis, António Augusto Silva, O CÓNEGO BARBOSA E O DOGMA DA IMACULADA CONCEIÇÃO, António Pedro Sotto Mayor, O VINCULO DA CASA DO COUTO EM SALREU (1755), Delfim Bismarck Ferreira, MEMÓRIAS DO QUOTIDIANO – os Painéis dos Barcos Moliceiros, José Gurgo e Cirne, INVENTÁRIO DO ESPÓLIO DE CONSTRUÇÃO NAVAL DO MESTRE HENRIQUE LAVOURA – PARDILHÓ, Juliana Cunha, REVOLTAS POPULARES EM ESTARREJA E MURTOSA, Marco Pereira, FRANCISCO MARQUES RODRIGUES, Maria Almira de Oliveira Rodrigues Barata e Manuel Oliveira Rodrigues, RETÁBULOS DA IGREJA DE SÃO BARTOLOMEU DE VEIROS, Maria Clara Vide Marques e António Cruz Leandro, OS ELEITOS DA CÂMARA DE ESTARREJA REFERÊNCIAS NAS ATAS DE 1860-1910,Norvinda Leite, NOTA SOBRE A IDENTIFICAÇÃO DE UMA PEÇA ARQUEOLÓGICA DE VALE CASTANHEIRO, SALREU, Paulo Morgado, MEMÓRIAS DA CONSTRUÇÃO NAVAL, Sérgio Paulo Silva, A EMIGRAÇÃO NO CONCELHO DE ESTARREJA (1896), Teresa Cruz e Valter Ramos, SAUDADES, REVISTAS “ TERRAS DE ANTUÔ

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TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

[ N.º8 | Ano VIII | 2014 ] SUMÁRIO. VIAJE COMIGO POR TERRAS DE ANTUÃ, Diamantino Sabina, EDITORIAL, Rosa Maria Rodrigues, ARTIGOS: AS DESCOBERTAS DE EGAS MONIZ E O SEU CONTEXTO HISTÓRICO, Álvaro Macieira Coelho, A CONSTRUÇÃO NAVAL LAGUNAR E A MUSEOLOGIA – Mestre Esteves – Pardilhó Ana Maria Lopes, OS 90 ANOS DOS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE ESTARREJA, Andreia Tavares, PATRIMÓNIO MUSICAL DE ESTARREJA – Um contributo, António Augusto Silva, A FAMÍLIA BANDEIRA EM ESTARREJA E SALREU DESDE O SÉCULO XVIII, Delfim Bismarck Ferreira, MEMÓRIAS DO QUOTIDIANO – Os Painéis dos Barcos Moliceiros, José Gurgo e Cirne, CRÓNICAS DE UM PASSADO PRESENTE – Alguns apontamentos para o estudo geral deste Concelho de Estarreja, José Teixeira Valente, OS ACTUAIS CONCELHOS DE ESTARREJA E MURTOSA NO SÉCULO XIII, Marco Pereira, PINTURAS DEVOCIONAIS DOS ALTARES- MORES DO CONCELHO DE ESTARREJA, Maria Clara Paiva Vide Marques e Sylvie Ferreira, FRANCISCO AUGUSTO DA SILVA ROCHA E A CASA DE FRANCISCO MARIA SIMÕES - Um novo padrão de Beleza, Maria João Fernandes, OS ELEITOS DA CÃMARA MUNICIPAL DE ESTARREJA – REFERÊNCIAS NAS ATAS (CONT) – 1910-2013, Norvinda Leite, DEAMBULANDO PELAS RUAS, Sérgio Paulo Silva, O CONCELHO DE ESTARREJA E OS SEUS EMIGRANTES – ANO DE 1897 TRILHOS DOS AMAZONAS, Teresa Cruz e Valter Santos, SAUDADES - OS 50 ANOS DO MERCADO MUNICIPAL DE ESTARREJA João Alegria REVISTAS “TERRAS DE ANTUÔ [ N.º9 | Ano IX | 2015 ] SUMÁRIO, E VÃO NOVE, Diamantino Sabina, EDITORIAL, Rosa Maria Rodrigues, PINTORES DE EMBARCAÇÕES LAGUNARES, Ana Maria Lopes, 150 ANOS DEDICADOS À MÚSICA, OS EXECUTANTES DA BANDA BINGRE CANELENSE DESDE A SUA FUNDAÇÃO, Ana Paula Almeida, CARNAVAL DE ESTARREJA: DAS COMEMORAÇÕIES POPULARES ÀS BATALHAS DAS FLORES, Andreia Tavares, DR. MANUEL FIGUEIREDO. MÉDICO DE LARGO SENTIDO HUMANO, António Augusto Silva, A OBRARETABULAR DA IGREJA DE SÃO PEDRO DE PARDILHÓ, António Cruz Leandro e Maria Clara de Paiva Vide Marques, PATRIMÓNIO – LUGAR DE MEMÓRIA E DE IDENTIDADE, Carla Ferreira, O DESEMBRAGADOR DR. JOSÉ HOMEM CORRÊA TELES, Delfim Bismarck Ferreira, CONTRIBUTO PARA UM INVENTÁRIO HISTÓRICO DA COLETIVIDADE CONCELHIA” O CENTRO” – CENTRO RECREATIVO DE ESTARREJA CRE NA CELEBERAÇÃO DOS 105ºANIVERSÁRIO, José Fernando Correia, MEMÓRIAS DO QUOTIDIANO. OS PAINÉIS DOS BARCOS MOLICEIROS, José Gurgo e Cirne, A LEITURA PÚBLICA EM ESTARREJA, Juliana Cunha, PRIMEIRA REFERÊNCIA ESCRITA A SALREU (1076/1106), Marco Pereira, FRENTE LAGUNAR DE ESTARREJA E OS SEUS TESOUROS, Norberto Monteiro, JORNAL “ O CONCELHO DE ESTARREJA” 1901-2014 DO SOTÃO PARA O MUNDO DIGITAL, Norvinda Leite, BANDA VISCONDE DE SALREU, 1 DE OUTUBRO DE 1925-1 DE OUTUBRO DE 2015 DO PASSADO AO PRESENTE UM SÓ CAMINHO, A MESMA ENTREGA À MÚSICA E À ARTE DE BEM FAZER, Raquel Maria Rodrigues de Jesus, SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE ESTARREJA 80 ANOS AO SERVIÇO DO CONCELHO DE ESTARREJA, Rosa de Fátima Figueiredo, CASA MUSEU EGAS MONIZ – RECANTOS DO MARINHEIRO, Rosa Maria Rodrigues, ESCOLA SECUNDÁRIA DE ESTARREJA: UM PERCURSO COM MEIO SÉCULO, Teresa Bagão, EMIGRAÇÃO ESTARREJENSE NO ANO DE 1898, Teresa Cruz Tubby e Valter Santos, SAUDADES – CINE TEATRO DE ESTARREJA 65 ANOS DE HISTÓRIAS E MEMÓRIAS, João Carlos Alegria

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MUNICÍPIO DE ESTARREJA

AUTORES

TA 1

TA 2

TA 3

TA 4

TA 5

TA 6

TA 7

Alvaro Macieira Coelho Amaro Neves

TA 8 X

X

Ana Maria Lopes

X

X

X

X

Ana Paula Almeida Andreia Vidal Leite

X

António Augusto Silva

X

X

X

X

X

António Costa Valente

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X

X

X

X

X X

X

António Macieira Coelho

X

X

António de Pinho Nunes

X

X

X X

X

António Vítor N. Carvalho

X

X X

Carla Ferreira

X

Carlos A. Brochado de Almeida

X

Delfim Bismarck Ferreira

X

X

Diana Cunha

X

X

X

X

X

Eva Armindo

X

X

X

X

X X X X

X

João Alegria

X

João Muralha

X

Joaquim Lagoeiro

X

José Fernando Correia X

José Augusto Tavares Gurgo e Cirne

X

X

X

X

X

X

X

X

José Mattoso

X

José Teixeira Valente

X

Juliana Cunha

X

Luís Augusto Eça de Matos

X

Luís Loureiro

X

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X

X

Jorge Barbosa Montenegro

Luís Cardoso Menezes

X X

Gabriel Rocha Pereira

José Manuel Nunes Liberato

X

X

Domingos Tavares

Hugo Cálão

X

X

António Manuel S. P. Silva

Francisco M. Pontes de Serpa Brandão

X

X

X

António Cruz Leandro

Armando Carvalho Ferreira

X X

Andreia Tavares

António Pedro de Sottomayor

TA 9 TA 10

X


TERRAS DE ANTUÃ | HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DO CONCELHO DE ESTARREJA

AUTORES

TA 1

TA 2

TA 3

Luís Souto de Miranda

TA 4

TA 5

TA 6

TA 7

X

X

TA 9 TA 10

X

Manuel Ferreira Rodrigues

X

Manuel de Oliveira Rodrigues Marco Pereira

TA 8

X X

X

Margarida Castro

X

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X

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X

X

X

Maria Almira de Oliveira Rodrigues Barata

X

Maria Clara Paiva Vide Marques

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X

Maria Elvira Callpez

X

X

X

X

Maria Helena Valente Pinho

X

Maria de Jesus Sousa de Oliveira e Silva

X

X

Maria João Fernandes

X

Maria Manuel de Vilhena Barbosa

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Maria Palmira da Silva Gomes

X

X

Maurício Antonino Fernandes

X

Norberto Monteiro

X

Norvinda Leite

X

Nuno Matos

X

X

X

X

Paula A. P. Lemos

X

Paulo Morgado

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Patrícia Mestre Marques de Carvalho

X

Pedro Brochado de Almeida

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Rafael Marques Vigário

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Raquel Rodrigues de Jesus

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Ricardo Montes

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Rita Capucho

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Rosa Figueiredo

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Rosa Maria Rodrigues

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X

Sara Almeida e Silva

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Sérgio Paulo Silva

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Sylvie Ferreira Sónia Filipe

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Susana Temudo Silva

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Telma Marília Assunção Correia

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Teresa Cruz Tubby Valter Santos

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Susana Constantino

Teresa Bagão

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Terras de Antuã - Histórias e Memórias do Concelho de Estarreja  
Terras de Antuã - Histórias e Memórias do Concelho de Estarreja  

Revista nº 10

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