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REVISTA MUCURY TEÓFILO OTONI - MG - NÚMERO 10 - ANO 07 http://www.mucurycultural.org


Exped Chicotada psicológica política Empreendedorismo e corruptodorismo Miguel da Silva

Diretor Geral: Bruno Dias Bento Editora e Jornalista Responsável: Clarice Palles 013349/MG Projeto Gráfico:

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Viviane Silva Adélia Braga

Licenciado em Ensino da Língua e Literatura Portuguesa, Malanje-Angola.

A Poesia de Luiz Otávio Oliani Luiz Otávio Oliani

Nasceu 12/04/1977 no Rio de Janeiro. É graduado em Letras e Direito. Como poeta, tem presença marcante no movimento poético carioca a partir da década de 90. Em maio de 2000, foi homenageado com a medalha “Só para Lembrar” no recital “Versos Noturnos” organizado pela SPOC. É detentor de mais de 50 prêmios literários. Consta em mais de 53 antologias de literatura e em mais 300 publicações entre jornais, revistas e alternativos (Jornal Rascunho, Revista Poesia Sempre, Jornal de Letras, Revista do Escritor Brasileiro, Letras em destaque, Poesia Viva, Panorama, Literatura & Arte, Correio de Poesia, Jornal Rio e Letras, Sulfato Ferroso, Literarte, Revista Poesia para Todos, Jornal O Capital, Revista O Grito, Leiamigos, Jornal Maringaense,


diente Radar, Jornal O Nheçuano, O Literário, Jornal Calçadão Ideal, Notas Literárias, Liriconcreto, Revista Papangu, A Tribuna do Escritor, Jornal Tipo Carioca, Papo & Poesia, Momento de Pausa, Jornal O Sábio, Boca Suja, Contagia Poesia, O Mundo não me Entende, Jornal A Cidade, Diário da Manhã, Jornal O Sábio, O Boêmio, Revista do Grande Meyer, Jornal A Voz, Nozarte, Poetizando, Jornal do Enéas, Correio do Sul, APPERJ, Revista Ponto Doc, Jornal Cultural Mensageiro, Escritos, SPN, Jornal Alto Madeira, Revista Renovarte, Revista Literária Plural, Revista Agulha, Letras Santiaguenses, Nikkei Bungaku do Brasil, O Bembém, ArtPoesia, etc.) Foi publicado em castelhano na Revista Provincia, Argentina, 2004. Consta, ainda, em diversas páginas virtuais como: Blocos on Line; Poesia dos Brasis; Alma de Poeta; Diversos Afins; Meio Tom; João do Rio, Revista internética; Fanzine Escritos; Jornal Aldrava, Blog Leituras Favre, A Cigarra, Conexão Maringá, Vidráguas, Aliás, Germina Literatura, Revista Mambembe, Plástico Bolha, Suíte das Letras, Varal de Poesia, Revista Cerrado Cultural, Nova Poesia Brasileira, Diário do Morro, etc. Participa de congressos, festivais e eventos literários pelo

Brasil afora. Publicou dois livros pela Editora da Palavra: "Fora de órbita", 2007; recomendado pelo Jornal de Letras, em outubro de 2007 e citado com destaque no texto “O ano literário de 2007”, por André Seffrin, na Revista Literária da Academia Brasileira de Letras nº 56; "Espiral", 2009; citado como destaque em “O ano literário de 2009, o segundo semestre” publicado Revista Literária da Academia Brasileira de Letras nº 62 e na Revista dEsEnrEdoS e "A Eternidade dos Dias", Editora Multifoco, 2012. Participou do CD Poemas musicados por Maury Sant´Ana, música em poesia, volume 1.Tem poemas traduzidos para o inglês, francês, italiano e espanhol na Revista Ponto Doc número 7, edição de 2009, além de vasta fortuna crítica sobre sua obra. Em 2011, foi citado como poeta contemporâneo por Carlos Nejar no livro “História da Literatura Brasileira, da Carta de Caminha aos contemporâneos”, SP, Leya, p.1003, e em “33 motivos para um crítico amar a poesia hoje”, obra de Igor Fagundes, Editora Multifoco, RJ. Recebeu Moção de Louvor e Reconhecimento da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, em novembro de 2011.


Poesia de Mario García Alvarez Mario García Alvarez

(Chaitén, Chile - 1964) É membro da Oficina Literária “Aumen” de Castro, Chiloé, cidade onde reside. Seus textos foram publicados em revistas nacionais e internacionais de poesia: “Aumen”, “La Gota Pura” Nº 9 (Stgo.), “Simpson 7” Vol XI y Volumen XIV (Stgo.), “Pewma”(Temuco), “Rayentru” Nº 15, (Stgo.) “La Servilleta de Papel”(La Serena), “Hispanorama” Nº 87 (revista da Associação Alemã de Professores de Espanhol, Alemanha), “Tela de Rayón” (Argentina), Textos (EUA); e em antologias como: “15 Poetas desde el Agua/lluvia” (Seleção José Teiguel. Edit. El Kultrun, Valdivia, 1993), “Zonas de Emergencia - Poesía - Crítica. Poetas Jóvenes de la X Región” (compilação e edição de J. Velásquez y B. Colipán, Paginadura Eds. Valdivia, 1994). Abrazo Austral: Poesía del Sur de Argentina y Chile (Seleção e Prólogos: María Eugenia Correas / Sergio Mansilla. Eds. del Instituto Movilizador de Fondos Cooperativos, Buenos Aires, 2000). Anaconda (antologia de Poetas Americanos, em italiano) publicada na Italia pela editorial Poetas. Aumen, Antología Poética, seleção e prólogo Carlos Trujillo (Valdivia, Chile). “Carne Fresca, poesía chilena reciente”, compilação de Yanko González e Pedro Araya, editorial Desierto, 2002 (México). Poesía Chilena Desclasificada (1973-1990) Vol. 1. Seleção de Gonzalo Contreras. Editorial Étnika, Santiago 2006.

grãO Cristiane Grando

Poetisa brasileira. Doutora em Literatura (USP, São Paulo) com pós-doutorado em Tradução (UNICAMP, Campinas), Brasil. Professora convidada de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira na Universidad Autónoma de Santo Domingo (UASD), República Dominicana.

Fronteiras e cinemas que não se batem Ruy Jobim Neto

Cartunista e cineasta, formado em Cinema pela ECA-USP, participou de vários curtas nos anos 80 em várias funções. Como ator, trabalhou no PAC (Projeto Artes Cênicas) em "O Enigma dos Turins" (infantil de Edson Martins) e "Escola de Mulheres" (de Molière, dir.: Ubirajara Mohana). Professor de Histórias-em-Quadrinhos (Senac, Oficinas Regionais Culturais da Secretaria de Estado da Cultura/SP e da Secretaria Municipal de Cultura/SP, tem livros publicados pela Editora Bentivegna ("Na Tigela com Jarbas", de 2002, e a coleção "Heróis do Brasil", de 2005). Foi professor de Interpretação para Locução de Rádio (Senac, Santos – SP) e Crítico de Cinema de vários jornais e da revista Cinemin (EBAL, RJ), nos anos 90. Como autor teatral, tem vários textos escritos e estreou nos palcos paulistanos com a comédia "Virgens à Deriva" em 2007 e com o drama "Do Claustro", com Débora Aoni e Carolina Mesquita no elenco, dir.: Eduardo Sofiati, em janeiro de 2008. O


espetáculo percorreu São Paulo, o Festival de Curitiba e Rio de Janeiro. Ainda em 2008, participa como autor no Dramamix das Satyrianas 2008 ("Andares Acima", dir.: Carol Guedes, "Sobre o Teu Corpo e Duvidei", dir.: Ricardo Corrêa e também como diretor em "De Eterno Flerte, Adoro Ver-te"). No final de 2008, ganha o edital Novos Textos de Dramaturgia para Teatro com o projeto do drama de época “Lourenço”, peça que discute a condução da História pelas mãos do Homem. Dirigiu os curtas “Horário de Meu Verão” (2010) e "Hyppólita" (2011) para o Coletivo Mestremundo de Cinema. "Bem Longe da Traçalândia", peça infantil dirigida por Claudio Cabrera, estreou originalmente em 2009, no Teatro Coletivo (São Paulo, SP), participou do Festival de Curitiba no mesmo ano e fez apresentação nas Oficinas Oswald de Andrade (São Paulo), e reestreou, desta vez no Teatro Commune, em São Paulo, em 16/10/2011, tendo no elenco Aline Carcellé, Luana Nunes e Raisa Rocha. Outro texto seu, "Ao Primeiro que Viu a Maré", é traduzido para o inglês ("The Boy who Caught the Tide") e encenado em Londres, no CASA Latin American Theatre Festival, peça dirigida por Gäel Le Cornec, no Teatro Ovalhouse, em 22 e 23 de outubro de 2011. Em 2012, os diretores Fernando Couto e Caio Cezar montaram "Do Claustro", tendo no elenco as atrizes Lorena Jamarino e Mariana Lobato, com produção de Roberto Freitas, estreando no Teatro do SESI-Holcim em Belo Horizonte, MG, em 3 de maio. Trabalhou também em 2012

como assistente de direção para o episódio "Entramospelocano.com", roteiro e direção de Tony Ciambra, para o longa "Memórias da Boca", produção de Diomédio Piskator. Está em fase de pós-produção o curta "O Dia D E.J. Carvalho", roteiro e direção, tendo no elenco Ana Carina, Ruber Gonçalves e Mariana Hippertt, com direção de fotografia de Tony Ciambra e trilha sonora de Jairo Cechin. Escreveu o roteiro do longa metragem "G.A.D.O.", a ser dirigido por Tony Ciambra, com produção de Diomédio Piskator para a Filmikka Produções, de São Paulo, em 2013. Links: > www.textoscurtosparateatro.blogspot.com > http://www.autorteatral.blogspot.com/ > http://pt.wikipedia.org/wiki/Ruy_Jobim_Neto > http://www.ovalhouse.com/whatson/detail/theboy-who-caught-the-tide

Entrevista com Pablo y Lola Bruno Bento

Os músicos e ativistas Pablo & Lola estão correndo a América do Sul com um Fiat 147 levando música e cultura popular argentinas, recebendo alguns trocados e muitas histórias como ordenado. Num destes momentos passaram pelo Mucuri.


A farra do pão O pão nosso de cada dia Poder de amor Infinito amor Miguel Canguçu

Poeta e prosador. Nascido em Felisburgo, no Vale do Jequitinhonha, é graduado em Letras pela PUC Minas, em Betim. Já escreveu peças de teatro e, atualmente, trabalha em dois projetos: seu primeiro romance e um livro de contos que retratam a vida no Vale do Mucuri (Façanhas).

Mito ou verdade Somos poucos Criança Desamparada Maria João Quixico Domingos

Natural de Cazenga-Luanda –Angola. Poeta e mestre em Ensino da Língua e Literatura Portuguesa.

Na Trilha Guerreira dos Borun: os Mocuriñ Bruno Dias Bento

Teófilo Otoni. Sociólogo, poeta e fotógrafo. Diretor Geral e gestor da Associação Mucury Cultural. Edita o despoesias.blogspot.com.br. Fotografia: Leonardo Cambuí e Bruno Dias Bento

Leonardo Cambuí

Teófilo Otoni. Fotógrafo. Editor do site leonardocambui.com.br/

Relatórios do Engenheiro Fiscal da Estrada de Ferro Bahia e Minas – 1894 Fernando da Matta Machado

Nasceu em 1943 na cidade do Rio de Janeiro (RJ). O pai natural de Diamantina (MG) e a mãe de Teófilo Otoni (MG). Bacharel em Ciências Econômicas pela UFRJ. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais - IHGMG, do Instituto Histórico e Geográfico de Sabará - IHGSa, do Instituto Histórico e Geográfico do Alto Rio das Velhas – IHGARV e da Academia de Letras Ciências e Artes do São Francisco – ACLECIA. Autor do livro “Navegação do Rio São Francisco”, do texto “Dados biográficos de Pedro Versiani” e da monografia "Contratação e liquidação de câmbio de exportação". fernandodamattamachado.com.br/

Sobre coletivos, cultura e cidadania José Oliveira Junior

Escritor, Comunicador, especialista em novas tecnologias em comunicação; diretor não remunerado de apoio ao trabalhador associado do SATED Minas; Supervisor de pesquisa do Observatório da Diversidade Cultural; Consultor UNESCO para a implantação do Sistema Nacional de Cultura em Minas Gerais.


A força do nosso lado Negro Marina Mara

É brasiliense, nasceu em 30 de março de 1979 e hoje mora no Rio de Janeiro. É graduada em Comunicação Social e trabalha como produtora cultural independente. A poeta venceu alguns concursos de poesia, conto e redação, dos quais destacam-se o Prêmio Criatividade 2005, realizado pelo Governo do Distrito Federal e, em 2006, teve sua redação escolhida entre mais de 37 mil textos de todo o país para compor um livro em homenagem ao centenário do voo do 14 Bis. Esse concurso foi realizado pelo Ministério da Educação, Ministério da Ciência e Tecnologia e pelo Jornal Folha Dirigida. Em 2009, Marina foi selecionada para o Concurso Nacional de Poesia Cassiano Nunes, realizado pela Universidade de Brasília, no qual prestou uma homenagem ao centenário de Burle Marx. Em agosto de 2010, a poeta teve seus poemas traduzidos em espanhol por alunos de Letras da Universidade de Brasília – UnB, por meio do curso de extensão Palavra Viva. Em maio de 2010, Marina Mara lançou seu primeiro livro solo, o Sarau Sanitário.com, que é parte de um projeto homônimo que distribuiu poesia por banheiros públicos e pelo mundo virtual. Em outubro de 2010, Marina produziu o Declame para Drummond, intervenção que levou mil poemas enviados de todo o país à Copacabana – RJ, para homenagear os 108 anos de Carlos

Drummond de Andrade. Em setembro de 2011, Marina foi convidada a participar do projeto Orchestra of Sample, do Addictive TV, importante duo audiovisual londrino. No dia vinte e quatro de março de 2012, Marina produziu a Parada Poética, reunindo cerca de cinquenta artistas (e amigos) no palco-caminhão do Teatro Mapati para celebrar o Dia Mundial da Poesia. O local escolhido foi a Praça do Índio, na qual – há quinze anos – o Pataxó Gaudino dos Santos foi queimado enquanto dormia na parada de ônibus. A parada foi envelopada com páginas do livro Sarau Sanitário. Em junho de 2012, Marina foi convidada a se apresentar na Cúpula dos Povos na Rio +20 (Museu da República, Tenda Ágora Ambiental, Museu de Arte Moderna) e também realizou intervenções poéticas Rio a fora, distribuindo cerca de 500 poemas em troca de sorrisos. Em outubro do mesmo ano, Marina realizou a segunda edição do projeto Declame para Drummond, um intercâmbio de poesia autoral em homenagem ao poeta que completaria 110 anos no dia 31 de outubro. O coletivo, formado – coincidentemente – por 110 poetas de todo o Brasil, distribuiu milhares de poemas em suas cidades para que fossem encontrados “no meio do caminho” de algum ilustre desconhecido. Poemas foram distribuídos em todos os estados do Brasil, em algumas cidades de Portugal, Espanha, Itália, Noruega, Suíça, Timor Leste, para os brasileiros que lá residem, principalmente. Site Oficial: www.marinamara.com.br


ndice

12 20

A poesia de Luiz Otávio Oliani

Cristiane Grando > grãO - p20 > descontração - p30 > meus (uni)versos - p34 > meus olhos - p38

42 52

Façanhas de Miguel

Fronteiras e cinemas que não se batem


60 62 76

94 98 142

90

150

A força do nosso lado negro

A poesia de Mario García Alvarez

Relatórios do Engenheiro Fiscal da Estrada de Ferro Bahia e Minas

Chicotada psicológica política

Empreendedorismo e corruptodorismo

Na trilha guerreira dos borun: os mucuriñ

Entrevista com Pablo y Lola

Sobre coletivos, cultura e cidadania


ditorial

De novo. Escrevendo num inverno caloroso deste Mucuri, de molho por uma baita sinusite provocada por circunstâncias nada sustentáveis (não de minha responsabilidade, claro), aporrinho todos vocês com este editorial. Na verdade, fico aqui testando a sua paciência, caro leitor. E lhe asseguro que este é o único texto ruim desta revista de nº 10! Muitos de nossos projetos vão e vêm, a maioria não dá muito certo, mas a Revista Mucury está aí firme e forte, e cada vez mais plural e diversa, é mesmo uma babel. Temos línguas, lugares, linguagens e coisas bastante diferentes entre si, mas que se amarram nesta teia de nossa realidade, de mesma forma babélica.


Cada vez mais poética, com este exemplar trazemos cinco poetas, algumas prosas e crônicas, fotografia, cultura e da famigerada BAHIAMINAS. E a transnacionalidade anda aqui também, Chile, Angola, República Dominicana. Coisas destes grotões e da capitania de São Vicente, da Corte e doutras bandas. É mesmo mais sortida que a feirinha do Veneta. Então ficamos até 2014, se Krenhouh Jissá Kiju não acabar com nossa festa antes da Copa do Mundo:

trago relógios certos adiantados e atrasados o tempo serve para duas coisas: nos matar e fazer amadurecer uma casa no boiadeiro que vejo de minha cozinha Bruno Bento


HERAN ÇA

RES GATE

como posso resgatar o que não existe em mim? ao beijar a solidão eu me dispo por inteiro da escória que é o homem na inútil tentativa de ser Deus por um minuto

não deixo bens aos que ficam de mim restará a palavra (antes cinzel) agora verso a burilar os homens

“O que não sei fazer desmancho em frases” Manoel de Barros

TERRI TÓRIO

brota em mim o verbo com suas pessoas desconjugá-las não posso em mim a palavra se faz morada

REVISTA MUCURY 14

DESCO BERTA

nada detém a vida esvai-se o tempo o tempo em mim caramujo do imo guardo porta-retratos aqueço a memória: a infância me foi roubada


A João de Abreu Borges

à procura do ponto ágeis dedos manipulam a massa do mundo

hoje a lua é verso prazer bêbado regaço

atravessa árvores mata fungos

LABU TA

mas a vida só faz sentido quando se reparte o pão

hoje a lua é verso de loucos, de putas e de poetas

BOE MIA

em sua própria vida o homem cria raízes

COTIDI ANO

PARTI LHA

a mão estendida abençoa o trigo

sem olhar para trás sem perceber: os frutos não mera consequência

há vísceras em todos os lugares quem se indigna diante de quem sangra?

Luiz Otávio Oliani Poemas retirados do livro “Fora de Órbita”, 2007.

POEMAS DE LUIZ OTÁVIO OLIANI 15


faço do silêncio a morada do ser

canto o presente que Drummond não vê

não lhe digo palavras duras nem amorteço quedas

nada de serafins cartas de suicida - os homens aterraram a palavra amor num canteiro de obras

CASA

MÃOS DESU NIDAS

não serei o poeta do passado embora dele me alimente

apenas guardo a concha em que abrigo a solidão dos homens

as mãos desunidas traduzem: os espinhos inda sufocam as flores

A Antonio Carlos Secchin

ao roçar a boca da solidão entre auroras e estrelas mastigo minha dor em que língua nos falamos?

REVISTA MUCURY 16

TRANS FORMA ÇÃO

FOME

toda linguagem é selva a ser devastada toda linguagem é terra a ser adubada toda linguagem é pedra a ser limada


a menina varre os dias tenta limpar a própria escória

A Lêdo Ivo

como tesouro às escondidas qual pirata faze das águas a cidade de teus versos

FAXI NA

REINA DO

enterra palavras em alto-mar

como espanar o pó, livrar-se do fardo? longe daquela casa passa o amor

teias de solidão no oceano

ALTOMAR

LIÇÃO DE PORTU GUÊS

o navio não mais atraca de nada servem a âncora enferrujada o mastro sem bandeira a quilha o radar todos se foram só o mar permanece cúmplice dos desamores do mundo

A Patrícia Blower

amar, verbo transitivo? amar é verbo de ligação entre dois sujeitos

Luiz Otávio Oliani Poemas retirados do livro “Espiral”, 2009.

POEMAS DE LUIZ OTÁVIO OLIANI 17


no terreno seco procura o vento encontra Deus disfarçado de sabiá

dentro de mim uma caixa de sapatos meia dúzia de pipas um gibi

DESA TINO

EN CANTA MENTO

no balde de juçaras o homem busca a água de que precisa

meu pai virou rio deixou inventário o que ficou além da herança? A Maiakóvski

A Lara de Lemos

o que difere o poeta do operário?

a palavra é adaga a cortar os pulsos

na maquinaria o trabalho braçal dá lugar à escolha de substantivos verbos metáforas

contra ela milícias bombas são inúteis

REVISTA MUCURY 18

a palavra não se cala grita ejacula goza a palavra é adaga fere, mata mas também é espera: seu tempo é todo o tempo

O POETA EO OPE RÁRIO

CONS TRU ÇÃO

canhões não têm vez sequer mordaças

se um carrega cimento terra areia o outro esculpe o ser talha a essência se um usa espaçador de piso espátula roldana o outro opera em silêncio na construção do poema


“Já a poesia não se dá, como flor. Escrever se faz difícil passagem em caverna estreita.” Lucia Fonseca

“Os fantasmas têm que existir” Adalberto Marques

fantasmas habitam pessoas cegas surdas mancas

o vazio dá espaço à escuridão

não ouvem a fome alheia não tateiam a dor dos miseráveis não enxergam o coração dos desvalidos

o resultado? o poeta escreve

a sociedade se compadece de ter e não de ser

o que há em nós é a espera que não finda o que há em nós é o desejo de ver no outro o que nos falta

ESBO ÇO SO CIAL

no signo de metáforas as mãos ouvem as flores Deus se cansa de acariciar o vento

defeca arrogância ri de si mesma se julga superior esquece que os espelhos ainda existem

o que há em nós é a espera do porvir que nunca chega

EM NÓS

SEMEA DURA

olhos percorrem o silêncio da caverna em busca de letras

o que há em nós é a fome que não sacia

Luiz Otávio Oliani Poemas retirados do livro “A eternidade dos dias”.

POEMAS DE LUIZ OTÁVIO OLIANI 19


grãO1 o ¿cuánta información cabe en el mundo? el pequeño que soñaba ya es un gran viajero

A Sené Jean-Marcel

en rojo vivo y rutilante trabajan los pensamientos -rápidos o lentosson automóviles, nubes olas o estrellas granitos de arena al viento las cosas simplemente suceden hay un inmenso vacío donde sonidos emanan del silencio en el orden asimétrico del bambú o en el caos ordenado de una ciudad soy lo que sólo yo sé que soy y que nadie puede definir respeto el flujo en sus exquisitas formas: delicada danza de los cuerpos en el agua de un río en mi estado puro sin saber lo que es ser prisionera vivo la espontaneidad y el silencio el dormir y despertar en paz suavemente me muevo hasta dejar de hacer preguntas

1 - Grano

REVISTA MUCURY 22


porque todo fluye: lo que soy y lo que creo que no el universo y todos nosotros en el aire donde somos un eterno árbol mutante pedir una sola vez con sabiduría y saber esperar sin forzar la respuesta sin apegos ni control confiar en el cosmos y en mi cerebro que a partir de ahora se conectará sólo con lo bello besar mis propios labios al desdoblarme en sueños para conocerme porque lo que más importa es saber amar

saber amar el espacio que separa y une y cruzar las fronteras con una mirada de amor: sustancia común a todos los seres la materia indecible del mundo dejar de actuar para desarrollarme en amor como ser anónimo y en diversos ritmos en medio de la multitud de una hacienda o de una selva

Cristiane Grando Retirados do GrãO, poemas en español y portugués: Cristiane Grando. Tradução para o francês: Espérance Aniesa y Cristiane Grando. Tradução para o inglês: María Luisa Santoni y Cristiane Grando. San Francisco de Macorís-República Dominicana: Ángeles de Fierro, 2011.

a sí mismo y lo novedoso que trae el viajero consigo

CRISTIANE GRANDO 23


grãO ou quanta informação cabe no mundo? o pequeno que sonhava já é um grande viajante em vermelho vivo e rutilante trabalham os pensamentos - rápidos ou lentos são automóveis, nuvens ondas ou estrelas grãos de areia ao vento as coisas simplesmente sucedem há um imenso vazio onde sons emanam do silêncio na ordem assimétrica do bambu ou no caos ordenado de uma cidade sou o que só eu sei que sou e que ninguém pode definir respeito o fluxo e suas belas formas: delicada dança dos corpos na água de um rio em meu estado puro sem saber o que é ser prisioneira vivo a espontaneidade e o silêncio o dormir e despertar em paz suavemente me movo até deixar de fazer perguntas

REVISTA MUCURY 24


porque tudo flui: o que sou e o que penso que não o universo e todos nós no ar onde somos uma eterna árvore mutante pedir uma só vez com sabedoria e saber esperar sem forçar a resposta sem apegos nem controle confiar no cosmos e em meu cérebro que a partir de agora só se conectará com o belo beijar meus próprios lábios ao desdobrar-me em sonhos para conhecer-me porque o que mais importa é saber amar

saber amar o espaço que separa e une e cruzar as fronteiras com um olhar de amor: substância comum a todos os seres a matéria indizível do mundo deixar de atuar para desenvolver-me em amor como ser anônimo e em diversos ritmos no meio da multidão de uma fazenda ou de uma selva

Cristiane Grando Retirados do GrãO, poemas en español y portugués: Cristiane Grando. Tradução para o francês: Espérance Aniesa y Cristiane Grando. Tradução para o inglês: María Luisa Santoni y Cristiane Grando. San Francisco de Macorís-República Dominicana: Ángeles de Fierro, 2011.

a si e ao novo que traz o viajante consigo

CRISTIANE GRANDO 25


grãO2 ou combien d’informations contient le monde? le petit qui rêvait est désormais un grand voyageur en rouge vif et rutilant travaillent les pensées - rapides ou lentes ce sont des automobiles, des nuages des ondes ou des étoiles grains de sable au vent les choses simplement se produisent il y a un inmense vide où des sons émanent du silence dans l’ordre assimétrique du bambou ou dans le chaos ordonné d’une ville je suis seulement ce que je sais que je suis et que personne ne peut définir je respecte les formes exquises du flux délicate danse des corps dans l’eau d’un fleuve dans mon état pur sans savoir ce que signifie être prisonnière je vis la spontaneité et le silence le coucher et le réveil en paix

2 - Graine

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je bouge doucement jusqu’à cesser de poser des questions


parce que tout est fluide : ce que je suis et ce que je pense que je ne suis pas l’univers et nous tous dans l’air où nous sommes un éternel arbre mutant demander une seule fois sagement et savoir attendre sans forcer la réponse sans attachements ni contrôle faire confiance au cosmos et à mon cerveau qui à partir de maintenant ne se connectera qu’à la beauté baiser mes propres lèvres quand je me dédouble en rêve pour me connaître parce que ce qui importe le plus c’est de savoir aimer

savoir aimer l’espace qui sépare et unit et traverser les frontières avec un régard d’amour : substance commune à tous les êtres la matière indicible du monde cesser de jouer un rôle pour grandir dans l’amour comme un être anonyme et à des différents rythmes au milieu de la multitude dans une ferme ou dans une forêt

Cristiane Grando Retirados do GrãO, poemas en español y portugués: Cristiane Grando. Tradução para o francês: Espérance Aniesa y Cristiane Grando. Tradução para o inglês: María Luisa Santoni y Cristiane Grando. San Francisco de Macorís-República Dominicana: Ángeles de Fierro, 2011.

soi même et la nouveauté que porte le voyageur avec soi

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gr達O3 or how much information fits in the word? the little dreamer became a great traveler in blushing and bright red working on thoughts - quick or slow they are cars, clouds waves or stars sand grains in the wind things just happen an enormous emptiness where sounds pour out of silence in the asymmetric order of bamboo or in the orderly chaos of a city I am only what I know I am and no body can define I respect the flow in these exquisite forms: delicate dance of bodies in stream waters in my pure state unknowing what it is to be a prisoner I live spontaneity and silence to sleep and wake in peace

3 - Grain

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softly I move until I stop asking questions


because all flows: what I am and what I think I’m not the universe and all of us in the air where we are an eternal mutant tree asking wisely just once and knowing how to wait not to force the answers no attachments or control trust the cosmos and my mind from now on connecting only with beauty to kiss my lips when I unfold my dreams to know myself because what matters most to love

the space that separates and joins to cross the borders with the look of love: common substance to all beings the unspeakable matter of the word stop the acting and unfold myself in love as an anonymous being and in various beats in the middle of the crowd a farm or a jungle

Cristiane Grando Retirados do GrãO, poemas en español y portugués: Cristiane Grando. Tradução para o francês: Espérance Aniesa y Cristiane Grando. Tradução para o inglês: María Luisa Santoni y Cristiane Grando. San Francisco de Macorís-República Dominicana: Ángeles de Fierro, 2011.

to love yourself and novelty the traveler brings along

CRISTIANE GRANDO 29


desconstrução

desconstrucción

te amei como um príncipe os lábios feito música como se fosse único nobre, divino e mágico

te amei como um príncipe os lábios feito música como se fosse único nobre, divino e mágico

me amaste como um bêbado numa noite de sábado me deixaste uma lágrima partiste como um pássaro

me amaste como um bêbado numa noite de sábado me deixaste uma lágrima partiste como um pássaro

REVISTA MUCURY 32


déconstruction

deconstruction

je t’ai aimé comme un prince mes lèvres devenues musique comme si tu étais le premier noble, divin et mágique

I loved you like a prince your lips become music as if you were the only one noble, divine and magical

tu m’as aimée comme un ivrogne un samedi soir tu es parti comme un oiseau et tu m’as laissé une larme

you loved me like a drunkard the night of Saturday leaving me a tear and parting like a bird

Cristiane Grando Retirados do GrãO, poemas en español y portugués: Cristiane Grando. Tradução para o francês: Espérance Aniesa y Cristiane Grando. Tradução para o inglês: María Luisa Santoni y Cristiane Grando. San Francisco de Macorís-República Dominicana: Ángeles de Fierro, 2011.

CRISTINANE GRANDO 33


mis (uni)versos

meus (uni)versos

a Jorge Bercht

meus versos são as ruas de uma cidade perpétua muda e transparente mutante em seus verdes ramos

mis versos son las calles de una ciudad perpetua muda y transparente mutante en sus verdes ramos mis poemas son el universo poderoso y penetrante como las aguas vertidas por la tierra mis libros suelen ser el cosmos en su aura infinita la luna en su mágica y eterna luz

meus poemas são o universo poderoso e penetrante como as águas vertendo da terra meus livros costumam ser o cosmo em sua aura infinita a lua em sua mágica e eterna luz em suas incontáveis formas

en sus incontables formas 6 de enero de 2011, a la cero hora (0:00), entrando en el día 7

REVISTA MUCURY 36

6 de janeiro de 2011, à zero hora (0:00), entrando no dia 7


mes (uni)vers

my (uni)verses

mes vers sont les rues d’une ville éternelle muette et transparente mutante dans ses vertes ramifications

my verses are the streets of a perpetual city mute and transparent mutant in its green branches

mes poèmes sont l’univers puissant et pénétrant comme les eaux jaillissant de la terre

my poems are the universe powerful and penetrating like waters flowing from the ground

mes livres sont le cosmos dans leur aura infinie la lune dans sa magique et éternelle lumière

my books are the cosmos in your endless aura the moon in a magic and eternal light

dans ses innombrables formes

in its countless forms

le 6 janvier 2011, à zero heure (0:00), entrant dans le jour 7

January 6th 2011, (0:00), entering in the 7th day

Cristiane Grando Retirados do GrãO, poemas en español y portugués: Cristiane Grando. Tradução para o francês: Espérance Aniesa y Cristiane Grando. Tradução para o inglês: María Luisa Santoni y Cristiane Grando. San Francisco de Macorís-República Dominicana: Ángeles de Fierro, 2011.

CRISTIANE GRANDO 37


mis ojos

meus olhos

te entrego mis ojos:

te entrego meus olhos:

misterio y sorpresa creando colores en sutiles vibraciones

mistério e surpresa criando cores em sutis vibrações

al ser lo soleado y sombreado de una montaña a ti me entrego

ao ser o soleado e o sombreado de uma montanha a ti me entrego

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mes yeux

my eyes

tje te donne mes yeux :

I give you my eyes:

mystère et surprise en créant des couleurs aux subtiles vibrations

mystery and surprise creating colors in subtle vibrations

en étant le soleil et l’ombre d’une montagne à toi je me donne

when I am the sun and the shade of a mountain I abandon myself to you

Cristiane Grando Retirados do GrãO, poemas en español y portugués: Cristiane Grando. Tradução para o francês: Espérance Aniesa y Cristiane Grando. Tradução para o inglês: María Luisa Santoni y Cristiane Grando. San Francisco de Macorís-República Dominicana: Ángeles de Fierro, 2011.

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Era sempre a mesma coisa. Às três da tarde toda a vizinhança fechava portas e janelas para amenizar o barulho ensurdecedor que vinha daquela casinha onde morava um casal com uma penca de meninos. Embora todos se sentissem perturbados com aquela barulheira, nunca alguém ousara procurar os moradores para fazer qualquer reclamação. O tititi entre os vizinhos apontava alguns motivos para explicar tão estranho comportamento. Alguns diziam que um dos meninos era médium e que o espírito baixava sempre à mesma hora, por isso os outros tentavam expulsá-lo batendo no pobre coitado do irmão, enquanto uns gritavam e outros choravam de medo.

A farra do pão

Diziam ainda, que o pai pretendia formar um conjunto musical para aproveitar o dom artístico de alguns membros da família e, assim, arrumar trabalho para todos ao mesmo tempo e resolver os graves problemas financeiros por que passavam. Houve quem comentasse que havia loucos naquela casa os quais sofriam o acesso sempre à mesma hora, momento em que tentavam quebrar tudo na casa e atacar os outros. Por muito tempo a causa do fenômeno foi um mistério. Os únicos que comentavam com os

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moradores sobre o fenômeno eram as outras crianças. Alguma coisa grave, porém, impedia que os barulhentos revelassem tão bem guardado segredo. Notava-se neles uma ponta de vergonha toda vez que algum inocente tocava no assunto. Os vizinhos passaram a observar melhor e descobriram que o tal fenômeno não ocorria quando a mãe estava em casa, o que raramente acontecia. Quanto à presença do pai, não se sabia se também interromperia a misteriosa façanha, porque ele nunca estava em casa àquela hora. O que mais chateava a vizinhança era uma terrível coincidência. A tal barulheira sempre acontecia no exato momento em que o vendedor de pão passava. Como ele utilizava uma buzina para anunciar a sua passagem pela rua, muitas vezes alguns moradores deixaram de comprar pão por não conseguirem ouvi-la, tão grande era a algazarra naquela morada misteriosa. Os vizinhos mais próximos resolveram prestar mais atenção ao fato para descobrirem o mistério sem, contudo, terem de se expor. Descobriram, por exemplo, que antes de começar a algazarra, sempre havia uma menininha na frente da casa. Tão logo ela entrava, a batucada e a gritaria ensurdecedoras começavam. Outro detalhe

observado era que, antes do silêncio, sempre a mesma menininha aparecia. Tão logo ela entrava, a batucada e a gritaria paravam. Que segredo e que poder guardaria a pequenina? Era preciso observar mais, trocar informações, encontrar o fio da meada. Resolveram pedir ajuda ao vendedor de pão. Ele não seria visto como bisbilhoteiro ou inconveniente, já que era seu ofício oferecer o pão de porta em porta. Poderia aproveitar para descobrir o que, de verdade, acontecia lá dentro. O vendedor, que também se sentia prejudicado naquele quarteirão, aderiu de pronto. Na casinha do barulho ele pararia por mais tempo, insistiria, tentaria olhar mais fundo, puxaria conversa. Tantas tentativas quantas frustrações. Pelo menos se conseguiu um dado novo: quanto mais insistia o padeiro em buzinar à porta da casinha do barulho, mais alto este ficava, até que aparecia a tal menininha, que o dispensava. Voltava para dentro, minutos depois aparecia na porta, olhava o padeiro que já ia longe, entrava de novo e o barulho cessava. De tanto verem tal cena se repetir, passaram a desconfiar de que o padeiro estava envolvido com o tal mistério e havia aceitado a tarefa só para despistar. Quem sabe ele tinha parte com o coisa ruim e a sua passagem por ali provocava o acesso de loucura daqueles

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destrambelhados? Uma coisa era certa. As investigações deixavam cada vez mais claro que o padeiro tinha alguma ligação com aquilo tudo. Certo dia, cansados do mistério, os importunados resolveram tirar aquilo a limpo. Combinaram um ataque surpresa no momento em que o padeiro estivesse exatamente em frente à famigerada casinha. Assim, desmascarariam também o dito cujo. Foi o que se deu. Todos a postos. O Padeiro caminha lentamente pela rua empoeirada. A buzina costumeira parece anunciar o momento fatídico. O som se aproxima. Aumenta também a algazarra. Buzina. Gritos. Buzina. Mais gritos e barulho de batidas em latas. Nervos à flor da pele. Medo. Expectativa. Buzina mais alta. Barulho mais alto ainda. No ponto. Portas e janelas se abrem. Dezenas de pessoas saem em disparada. Enquanto alguns imobilizam o padeiro, outros saltam a janela semi-aberta da casinha e abrem a porta por dentro. A multidão adentra aquele espaço exíguo. Levam junto o suspeito. Passam pela pequena sala, ganham a cozinha, chegam ao quintal. A cena. Três meninas de cinco, oito e onze anos batem furiosamente em latas vazias de querosene. Ao mesmo tempo, gritam freneticamente palavras incompreensíveis. No meio da cena, um bebê de dois anos. Susto. Silêncio.

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Todos se olham tentando entender a situação. A menina maior vasculha o emaranhado de rostos. De repente, arregala os olhos e fixa-os no rosto desfeito do padeiro. Todos percebem aquele diferente olhar. Ela caminha na direção do suspeito. Está pálida. O padeiro apreensivo. Momento de revelação. Para à sua frente, olha-o de cima a baixo e pergunta: - A buzina, cadê a buzina? Ele enfia a mão no bolso lateral da calça e retira o pequeno instrumento de trabalho. Ao ver aquilo, dentro da própria casa, tão perto do bebê, a menina se assusta e começa a chorar: - Num aperta moço, num aperta isso. Ocês pode fazer o que quiser, mas num aperta a buzina. Os entreolhares demonstravam nada entender. A menina aponta para o bebê ainda sentado em meio às latas amassadas: - Sabe gente, o som que ele mais cunhece é o dessa buzina, e a coisa que êl mais gosta no mundo é de pão. Num aperta a buzina. Num faz êl chorar.


O pão nosso de cada dia

De uma semana cansado Com o corpo quebrado De viver explorado Pelo voraz patrão

- Ouça bem o que lhe digo Comerás o melhor trigo Terás doce de figo E farta refeição

Acorda atrasado Sai descabelado Esquecendo o guisado O infeliz peão

Começou a caminhada Para compor a pratada Colherada a colherada Doada por cada mão

Ao bater meio-dia Com a barriga vazia O peão desconfia: - Hoje num como não

De toda comida provada Foi a mais variada Também mais temperada Na vida do peão

Ante o olhar insosso Aproxima um bom moço Com um guisado de osso: - Venha cá meu irmão

Comeram à vontade E em solidariedade Viram a possibilidade De fazer revolução

- A partilha é nosso abrigo Todo mundo está contigo Aqui você tem amigo A turma tem coração

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Já caía a tarde quando a caravana adentrou o pequeno povoado, depois de 25 dias de caminhada. Vinham do sertão baiano, afugentados pela seca. Às margens do Rio Pampã, estava a esperança de prosperidade para aquela e as próximas gerações. À frente do grupo, um rapazola de 17 anos foi o primeiro a por o pé na nova terra. Portava uma espingarda chumbeira às costas e um embornal pendurado no ombro. A julgar pela sua expressão, ele havia chegado ao paraíso. Todos perceberam aquele ar de encantamento e atribuíram o seu estado de espírito ao fim da longa viagem, com a consequente chegada à terra prometida.

Poder de amor

O que só ele viu, foi a imagem de uma garota que atravessou rapidamente a rua, embrenhandose por um beco depois de voltar ligeiramente os olhos para a caravana que passava. Aquelas faces pálidas marcadas por maçãs quase vermelhas, o seu jeito dançante e leve de andar e aquele brilho intenso nos olhos trouxeram para o jovem rapaz um misto de embriaguez e saudade. A menina, mulher na flor da adolescência, bem lembrava a leveza, o movimento, as cores, a beleza e o cheiro das flores da caatinga sertaneja. Naquela noite foi difícil dormir. Não só pelas dores no corpo, depois de quase um mês se deitando sobre um couro de cabra, mas, principalmente, pela ansiedade de ver o dia amanhecer e se

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arriscar pelas vielas do lugarejo a ver se se depararia com aquela visão angelical.

nenhum passo. Não se sabe por quanto tempo permaneceram ali a se olharem.

Os próximos dias foram úmidos porque chovia e porque é úmida a paixão. O insistente gererê teimava em manter as pessoas recolhidas. A semana virou uma eternidade.

Os cavalos vinham em disparada. Os cavaleiros haviam perdido o controle dos animais. Para salvar as próprias vidas, todos fugiram correndo para dentro das casas deixando deserta a rua. Todos, menos um. Ele só tinha ouvidos para os sons do coração da menina e para o ritmo da sua respiração. O desastre era iminente. Num último instante o instinto feminino, que gera a vida, lutou contra a morte. De súbito, ela percebeu o perigo e emitiu um involuntário som: VEM!

O sábado amanheceu claro, para alegria dos que faziam da feira o seu ganha-pão ou simplesmente um local de encontros, sua semanal diversão. A menina acordou cedo. O cheiro do café já estava no quarto. Lá fora o tropel dos cavalos indicava um dia movimentado no povoado. Era preciso se enfeitar. O vestido curto de chita rosada, usado na última missa, realçava ainda mais a sua beleza e dava a ela um ar mesmo de moça. Maquiagem? Só a da natureza. Não era tão longa a distância da sua casa até a praça do mercado, mas ela demorava um pouco mais do que de costume. Ia devagar. Na confluência de ruas que dá entrada à praça, quis o destino que os dois se encontrassem. Ele, parado no meio da rua a depositar sobre ela o mais terno e admirador dos olhares. Então era verdade. Ela existia mesmo, não fora uma miragem. Ela, sentindo-se olhada até o fundo da alma. Todos os sentidos do rapaz se voltaram para a presença daquela menina encantadora. Deu mais

A um segundo da morte, ele se lançou para frente deixando passar a cavalhada que ainda lhe tocou os cabelos. Tão violento foi o seu deslocamento, que ele atropelou a bela menina e os dois foram ao chão. Corpos sobrepostos, corações disparados. Milagre. De repente tudo ficou parado. Nada se mexia. Nem gente, nem bicho, nem planta, nem mesmo o ar. Até o tempo parou. O universo estava conspirando em favor do amor. Afrodite, sabendo que o universo não pode de todo parar, realizou um grande feito. Ordenou ao Rio de Contas que sulcasse o chão até se encontrar com o Rio Pampã e enchesse de água o seu leito para que a mistura fertilizasse a terra e gerasse muitos e bons frutos por toda a eternidade. Há mais de setenta anos.

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De amor O mais bonito Que esse mundo já viu. Até a lua caprichava Pra enfeitar Um encontro seu. Transmudava em quatro fases Numa noite de luar Entrava no cio Alternava o brio Para o sol enamorar Quando o brilho Dos seus olhos Se fundiam num olhar O universo conspirava Em favor do bem amar. Num raio de sete léguas Via-se flor desabrochar E a passarada alvoroçada Começava a cantar.

Infinito amor

Sem sono Nem comida A vida, o amor O amor, a vida Certo dia procurado Pelo bem, sua querida, Ficou depressa sabendo Que ia mudar de vida.

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(O PAI DA MOÇA) Ô casa , ô dexa, Num ispero mais não. O povo fala Num credito não... Mais é mió acabá Cum essa tal falação. Ocê pruveita agora E pede logo a mão. (O MOÇO) Pelo sol qui mi alumia Sou, no mundo, o mais feliz. Pois casá cum tua fia Foi o qui eu sempre quis. Mais mi iscuta meu sinhô, Num quero pricipitá O qui eu tenho é só amô Nada mais posso ofertá. (O PAI DA MOÇA) Num é do qui tô falano Disso num faço questão. A vida é ganha trabaiano Si está bem o coração. (O MOÇO) Ô minha mãe, o que qui eu faço, O pai dela me apertô. Num tenho onde cair morto


Mais eu morro de amô. Me ajuda minha mãe Nessa hora de aflição Posso ter o corpo quebrado Mais me salva o coração. (A MÃE DO MOÇO) Vê se acalma minino Isso vai se resorvê. Ispera chegá o teu pai Ele fala cum ocê. Num fica disisperado O amô a de vencê. (O PAI DO MOÇO) Uma coisa me arresponda Se pur ela tem amô E se o amô dela por ti Pode suportá a dô. A vida vai difíci, Mais pussíve de vencê Se ocê apoiá ela E ela apoiá ocê. Cês pode morar no rancho Lá nas terra do Dotô E eu te dô na mea As roça de catadô. O moço foi lá correndo À amada perguntou.

A resposta logo veio Um botão aberto em flor. Se lhes faltasse algo, Supririam com amor. Tendo o assunto resolvido, O pai dela procurou. Foi selar o compromisso De, em nome do amor, Dedicar toda a sua vida A cuidar daquela flor. A cidade convidada Testemunhou a união E sabia que era eterna A revelada paixão. Nunca seria esquecida Aquela hora sagrada, Sem um gole de bebida A cidade embriagada

Qui a festa já cabô. É hora de ir pro rancho Nosso ninho de amô. A mudança tá arrumada Na cacunda do jeguim, Começa nossa jornada Vamo junto até o fim. Só eu dano amô procê E ocê dano amô pra mim.

Noite a dentro em batucada Dançaram até cair. Deuses e homens cansados Foram todos dormir. Só o casal ainda acordado Via a aurora surgir. (O MOÇO) Vamo imbora minha querida

Miguel Canguçu Os textos fazem parte do livro Façanhas (a ser lançado).

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Numa ocasião em que um sucesso das telas argentinas chegava às nossas salas, sempre com o devido atraso, claro, o jornal Folha de S. Paulo entrevistou o professor Jean-Claude Bernardet, especialista em História do Cinema Brasileiro, sobre semelhanças e diferenças entre nossa cinematografia tupiniquim e a que vem da terra de Astor Piazzolla. Bernardet, elencando diferenças entre os dois cinemas da mesma LatinoAmerica, mostrou que os filmes realizados no Brasil, em sua maioria voltados para um grande público, tendem a imitar o cinema americano em aspectos técnicos, onde os cineastas brasileiros têm se esmerado com afinco e grande talento, seja em direção de fotografia, edição, edição sonora e por aí vai. No entanto – e aqui vem a parte interessante do que Bernardet coloca –, o cinema latinoamericano, em seu conjunto (e vamos pegar aqui o cinema argentino, como exemplo maior do que iremos colocar), mira muito mais a cinematografia europeia do que aquela realizada em terras de Obama. Até aí, ótimo. Mas o que Bernardet realmente queria dizer com isso, e ele continua sua comparação e crítica, é que o cinema argentino busca dialogar com o cinema realizado em países como Espanha, França, Portugal, Inglaterra ou Itália no sentido,

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aí sim, de trazer à tona alguns pilares – roteiros bem armados, personagens bem escritos, belos diálogos, tramas bem construídas, boa direção de atores – que busquem o que há de mais humano, a humanidade na forma artística mais pura, sem pirotecnias técnicas para disfarçar deficiências, digamos, naquilo que o público efetivamente busca num filme: uma boa estória. E assim, o professor mostra que uma parcela da cinematografia brasileira sofre da síndrome de “quero ser cinema americano” e proporciona uma enxurrada de filmes nas telas com extremo apuro e grande talento técnico, mas que no frigir dos ovos, sai perdendo no aspecto mais puro, mais humano de uma obra feita para o cinema. Quando, enfim, perguntado pelo jornal qual seria a dica dele para os cineastas brasileiros, Bernardet dispara: “sejam menos talentosos”. Claro, que se compararmos alguns títulos produzidos em toda a LatinoAmerica (não esquecendo jamais de que fazemos parte dela, por favor), vamos verificar uma pilha de filmes não raro desiguais em sua força de alcance pelo público. Sim, estamos aqui estabelecendo um tipo de campeonato Brasil x países hermanos, em que no conjunto da obra saímos perdendo de longe, haja vista a pá de anos em que festivais de importância realmente significativa em termos

cinematográficos como os de Cannes, Berlim e Veneza, há muito não veneram algum título aqui produzido. Cannes, por sua vez, e isso é visto em matérias de jornal, é um festival notório onde a seleção de filmes não leva à Croisette títulos brasileiros há algum tempo. O motivo: falta qualidade. Sim! Não que não produzamos material suficiente, mas quem é que poderia, por clemência, selecionar (imaginem!) “2 Filhos de Francisco” ou “Lula, o Filho do Brasil” ou “Muita Calma Nessa Hora” ou “Se Eu Fosse Você 2,3,4...” ou o que valha, para enviar a Cannes? Quem levaria um “Até que a Sorte nos Separe”, um “Qualquer Gato ViraLata” ou um “Cilada.Com” para um festival desse nível? Opa, dirão outros, mas estaríamos nos esquecendo de filmes como “Central do Brasil”, “À Deriva”, “Tropa de Elite” (ou o que valha), um “O Som ao Redor”, um “O Céu de Suely” ou ainda um “Desmundo”, um “Sudoeste” ou “Febre do Rato”, em que outros parâmetros são estabelecidos. Não. Mesmo assim, nesses últimos tempos, em Cannes, foi um solitário “Linha de Passe”, de Walter Salles e Daniela Thomas, que arrebanhou uma Palma para Sandra Corvelloni como melhor atriz ou mesmo a cineasta Vera Egito, namorada e coroteirista de Heitor Dhalia em “À Deriva”, abriu e fechou a Semana da Crítica com dois de seus curtas. Puxa! – ainda assim dirão – mas e daí?

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Não temos qualidade, é isso que se quer dizer? Voltemos a Bernardet: e adianta um apuro técnico, um talen-to genuíno na parte técnica, se na grande, imensa maioria, o que nos falta é a base? E a base se chama: roteiro+direção+elenco? Vamos dar um contra-exemplo, só para não dizer que estamos pegando pesado ou expon-do uma ferida que ninguém gostaria de ver escrita nas páginas de jornais – e olha que os grandes jornais brasileiros de há algum tempo, graças aos deuses, já estão batendo nesse ponto, principalmente quando se defrontam filmes argentinos com uma parcela da nossa cinematografia tupiniquim. Juan José Campanella é o diretor de “O Segredo de Seus Olhos”, com o astro Ricardo Darín. O filme venceu o segundo Oscar conquistado pelo cinema argentino. Campanella, em visita ao Festival de Gramado, em 2012, disse que os filmes argentinos que atravessam a fronteira e chegam às nossas salas e às dos países compra-dores, são em média 10% daquilo que realmente se produz por lá e que essa porcentagem, afirma o cineasta, representa o que há de melhor na cinematografia deles e que há, sim, muito lixo entre as coisas que se fazem na terra de Piazzolla. Isso não tira o mérito. Cineastas como Lucrecia Martel, Carlos Sorín, Marcello Piñyero, Daniel Burman, Lucia Puenzo,

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Pablo Trapero, Gustavo Taretto e tantos outros, são a cereja do bolo no cinema argentino, e produzem filmes como “Esperando o Messias”, “Medianeras”, “XXY”, “El Perro”, “Carancho”, “Kamchatka” ou “La Niña Santa” e ainda obras seminais como “La Ciénaga” ou canduras como “La Luna de Avellaneda” e “O Filho da Noiva”, títulos em que o elemento humano não somente está visceralmente presente, mas percebe-se claramente que é dele que parte o alicerce dos filmes aqui citados: roteiro+direção+elenco. Em 2001, por ocasião ou logo depois da crise argentina do Currallito, o INCAA (a Ancine argentina) reuniu os cineastas com a ideia de equilibrarem os filmes que são desovados para as telas, não só os filmes de arte (como os de Lucrecia Martel), mas também os filmes de apelo mais popular, de maior comunicação com o espectador (com astros como Cecilia Roth, Norma Aleandro ou mesmo Ricardo Darín). Ou seja, eles perceberam que não poderiam descarregar apenas filmes comerciais, mas teria que haver um equilíbrio com os filmes de arte. Coisa pensada. Para citar como exemplo, acabei de assistir a um filme com Darín, trazido por um amigo, “Tese sobre um Homicídio”, e que esteve em cartaz


em Buenos Aires há pouco tempo, ou seja, que demorará algum outro (talvez uns dois anos, com muita sorte e já sendo pessimista) para chegar às nossas salas. A película conta no elenco com o ator Alberto Ammann, o mesmo que interpretou o dramaturgo e poeta Lope de Vega no filme “Lope” (de Andrucha Waddington). Roteiro impecável, personagens críveis, bem escritos, trama deliciosa de acompanhar, boa direção de atores, ótimos diálogos e tudo isso embalado por uma direção de fotografia primorosa, belo trabalho de direção de arte, de enquadramento e montagem. Um filme completo daqueles que a gente não consegue produzir aqui. A base, portanto, que eles têm, é a estória, não o elenco. Darín, em determinado ponto do filme, transfigura-se de tal forma no enredo que você se esquece de que ali está Ricardo Darín. O filme te absorve, te encanta, te envolve. Como “Medianeras”, com a linda espanhola Pilar Lopez de Ayala, sob direção de Gustavo Taretto. Ambos são filmes que, da mesma forma, puxam o espectador da poltrona do cinema, que saem da sala de cinema com você. Pois humanidade é o ingrediente tangente aos dois. Dois filmes brasileiros foram lançados em nossas salas na mesma sexta-feira. De um lado, o filme independente “Febre do Rato”, de Claudio Assis,

chega a 10 salas em todo o território nacional, em seu final de semana de estréia. Do outro, “Até que a Sorte nos Separe”, uma globochanchada que deve ter custado os olhos da cara, alcança 900 salas no mesmíssimo final de semana. Ora, se um filme independente faz 10 salas e tem sido elogiado por público e crítica e um filme de gosto duvidoso realizado via Lei Rouanet, com elenco global, alto orçamento, chega a quase metade das salas do Brasil, alguma coisa está muito estranha. Dirão os defensores da Globo – ah, mas é mercado. Mercado é mercado, dirão. Ok, mas quando você tem distribuidores estrangeiros (Warner, Fox, UIP, Disney, Columbia) que levam filmes brasileiros a nossas salas, em acordos comerciais que indicam inclusive que parte dessa renda de bilheteria volta para o próprio cinema brasileiro, uma porcentagem mínima (mas é porcentagem), tudo continua soando tão estranho quanto. Vê-se que aquilo que se despeja para o respeitável público nada mais é do que uma cinematografia comercial ao talo, com filmes que não acrescentam nada e o público achando, no final das contas, que está vendo algo que preste só porque tem artistas globais. Engodo. Filmes como “O Som ao Redor” e “Sudoeste”

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podem trafegar pelo mundo afora através de países compradores, canais de TV que os exibam ou festivais, tal como fizeram. No entanto, as globochanchadas não são dignas nem dos americanos comprarem, eles que são reconhecidamente tão ávidos por roteiros estrangeiros para produzirem com atores americanos para o mercado mundial. Já filmes como o de Almodóvar, na Espanha, a exemplo de “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, já foram cooptados para serem produzidos nos Estados Unidos, como muitos outros casos (“Abre Los Ojos”, do chileno radicado na Espanha, Alejandro Amenábar, foi produzido depois com Tom Cruise e virou “Vanilla Sky” ou “O Homem que Amava as Mulheres”, do francês François Truffaut, teve seu remake americano produzido nos anos 80 pelo cineasta Blake Edwards). O que se busca são histórias feitas a partir, muitas vezes, de idéias muito simples, com elementos muito vivos, humanos. Não se imagina um americano comprando direitos de obras pseudo-espetaculares como “Cidade de Deus” ou mesmo o roteiro de uma globochanchada como “Até que a Sorte nos Separe”. Nada do que eles já teriam feito nos EUA, inúmeras vezes, até.

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O star system brasileiro é movido pela TV, não pelo cinema. O ator brasileiro mira a TV, pelo mero fator financeiro ou de vitrine (muitas vezes trata-se de uma quimera, não uma realidade palpável) e o público brasileiro é metrificado pelas novelas de TV, querendo ver seus astros das telelágrimas diárias tanto no teatro, em peças muitas vezes insossas e feitas às pressas, quanto no cinema. Pois bote reparo se é pos-sível assistir a um filme como “Anahy de lãs Missiones”, do gaúcho Sergio Silva, sem que você tenha que correr no mesmo final de semana de estreia sob pena de não conseguir mais vê-lo no cinema, a não ser, infelizmente, em DVD, tempos depois. E isso acontece com muitos outros filmes de lançamento menor, como “Vida de Menina” (de Helena Solberg) ou “3 Efes”, de Carlos Gerbase. Mercado é mercado, dirão. Ou devemos dizer, Globo Filmes e os outros, se é que os outros conseguem um lugar ao sol com tamanho vigor de um monopólio quase absoluto. Para finalizar, antes de retornarmos a Jean-Claude Bernardet e suas pensatas sobre o cinema brasileiro, dois pequenos relatos: “Gonzaga, de Pai para Filho”, um fracasso de bilheteria (pois alcançou somente 1,3 milhão de espectadores, não se pagando e nem gerando lucro) custou aos cofres via Leis do Audiovisual, Fundo Setorial do Audiovisual, Rouanet e tudo o mais a bagatela de R$ 12 milhões. Ainda nas telas, com o filme em plena exibição, a Globo exibe a película em duas partes, na mesma semana, para


todo o País. Outro fracasso retumbante, “Xingu”, fez apenas 375 mil espectadores nas salas de cinema. Custou os olhos da cara, quase R$ 12 milhões e não se pagou. A Globo exibiu o filme em três partes, para todo o Brasil, algumas semanas depois que ele saiu de cartaz. E por aí vai. São filmes que tiveram todo o aparato da TV, com elenco global, de apelo e comunicação com o público como “O Palhaço”, de Selton Mello, que fez apenas 1,5 milhão de espectadores e também não se pagou nas salas. Nem zerou o caixa, deu preju. E ainda foi parcialmente rodado no Pólo Cinematográfico de Paulínia, cria da prefeitura local via dinheiro dos derivados de petróleo e da própria Rede Globo pra dar suporte a filmes que ganharão prêmios no Festival de Paulínia, como foi o caso escancarado (e por que não dizer escandaloso) do próprio “O Palhaço”? E olha que o filme anterior de Selton, “Feliz Natal”, é muito mais artístico, muito mais calcado em cinema de autor, uma bela mistura de influências que ele absorveu de cineastas como John Cassevettes, Lucrecia Martel e Luiz Fernando Carvalho. Por sua vez, filmes produzidos em Minas Gerais e que não têm em seus elencos atores e atrizes globais, são exportados para vários países e continuam a ser produzidos em Minas, só que com dinheiro feito lá fora. É o jeito de burlar a falta de público e salas aqui.

Cinema de arte x cinema comercial. Globochanchadas x filmes de produção mais independente. Trabalhos perfeitos e talentosos tecnicamente x filmes escritos e interpretados com humanidade, Brasil x hermanos latinoame-ricanos. Que belo campeonato, esse. Mas é um campeonato pelo público espectador, no escurinho da sala de cinema. Quando se encanta o público, ganha-se. É como faz a concorrente mais forte em terras brasílicas: a novela de TV, essa perversa. O cinema encantando o público, ganha o público. O Brasil e seus cineastas talentosos precisam atentar para isso. Cinema se faz com bilheteria e não somente com filmes pré-pagos em editais, cuja trajetória nas te-lonas esquece justamente o consumidor final. E Bernardet, o belga apaixonado por cinema brasileiro e que escreveu um artigo seminal sobre como e porque o cinema argentino está (e é) melhor que o nosso, apenas reitera: “cineastas brasileiros, sejam menos talentosos”. Ouçamos o professor.

Rui Jobim Neto

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E se os racistas estiverem certos a respeito dos Negros? E se a influência africana no Brasil for realmente negativa? Para comprovarmos a hipótese de que o racismo tem fundamento, iniciaremos o nosso processo de branqueamento do país por uma, tipicamente afrobrasileira, roda de Samba. Retiraremos de lá o agogô, o batuque, a cuíca. Logo em seguida, retiraremos a ginga, o tempero, as raízes do Samba, o Samba. Até que a roda veja Pixinguinha e Cartola apagando as luzes, fechando suas portas, desaparecendo da memória e da história do Brasil. Aproveitando o ensejo, vamos desaparecer também com os escritos de Machado de Assis e afundar o navio negreiro com Castro Alves dentro. Vamos pichar as obras de Aleijadinho e aleijar Pelé em nossos corações. Vamos sabotar a história de Sabotage e Zumbi a partir de hoje será somente o morto-vivo do videogame – e se for à Bahia, enforque Gilberto Gil. E para mantermos a coerência do discurso, não será permitido o uso de palavras afroimportadas como cafuné, cachaça, moleque, dengo – e pena de morte para quem tomar uma branquinha. Alguma dessas heranças fará falta ao Brasil ou a você? A súbita saudade que nos bate só em pensar no mundo sem essa negritude é a parte que nos

cabe dessa miscigenação pulsando pela parte de dentro da pele, falando mais alto que qualquer discurso racista. O Negro que nos ensinaram a repudiar sem explicação lógica ainda é aquele criado pelos colonizadores do mundo para desvalorizá-los como mercadoria, baixando seu preço. Esse é o Negro não-assumido dentro de cada um, com o qual ninguém quer se parecer. Assinemos agora a abolição desse Negro, vamos libertá-lo para que ele fuja do imaginário coletivo. Que suma para deixarmos fluir a negritude genuína que corre em nossas veias ou em nossos quadris. Esse Negro é parte da gente e repudiá-lo nem sempre é racismo, às vezes é falta de amor próprio. O racismo mensura arbitrariamente o valor das pessoas baseado em uma palheta de cores em tons de cinza – quanto mais claro, melhor. E por falar em cores, ouvi de uma criança outro dia: “Tia, é verdade que se a gente ficar em baixo do arco-íris e a chuva cair a gente fica todo pintado de colorido?” E, entusiasmada, emendou: “vamos pintar todo mundo de colorido, Tia?” Topei na hora. Aquela menininha de apenas seis anos, sem perceber e de forma lúdica, acabava de encontrar uma forma de resolver nossas questões raciais, a partir de então não teríamos mais uma cor, teríamos todas. Marina Mara

A FORÇA DO NOSSO LADO NEGRO 61


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SEMEAREMOS NOSSAS CASAS NO MAR que é terra fértil e líquida. Aqui hão de crescer nossas raízes enlaçadas às mãos dos mortos que seguem arrastados pelas tormentas de vento e fumaça que os amanhecem, serão estes mortos os eternos habitantes das paredes iluminadas pelas velas, Serão estes os náufragos intangíveis, invisivelmente manchados de sal branco como a esperança; Serão estes corpos de madeira, estas estacas molhadas enterradas nas costas da história as únicas pontes que suportarão as outras chuvas e o peso e a chegada das multidões solitárias que só poderão ver nossas máscaras se agitando nos olhos negros do vento em meio a um sol cheio de algas...

A POESIA DE MARIO GARCÍA ALVAREZ 65


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(PAISAGEM DE TELHA E ZINCO) Às vezes vem a morte para iluminar nossos olhos e nos mostrar a madeira de que somos feitos, descobrimos então que detrás dos anjos tecidos em crochê só com magia cobrimos nossas misérias e acendemos o farol de nossos peitos, esta foi a luz ou as luzes às quais os casais apaixonados fazem seus desejos e sonhos na ponta de Ten-Ten. Só a magia nos faz resistentes ao esquecimento e à bicada do alfinete que de vez em quando sentimos se cravar em nossas costas, com magia lambemos nossas feridas e invertemos as derrotas constantes. Só a magia e as palavras ou as palavras e a magia que sobem e descem nas gargantas como as marés ou as correntes em nossos corpos flutuando na margem porque o verme também deixou de penetrar os solitários ossos da alma e só a morte veio para iluminar nossos olhos.

De: As Palafitas… Da Paisagem Los Palafitos… Del Paisaje. Registro de Propriedade Intelectual Nº 116.486 ISBN 956-288-731-6 Traducción al português - Tradução ao português Geruza Zelnys de Almeida - Raquel Parrini

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RETRATO Eu proibiria seu amor por ser feroz, por ser cruel, por ser belo, por sua indecente suavidade, por sua carne vermelha viva por ser seu azul-loiro e moreno negro, por elevar, por subir os índices de contaminação, o proibiria, para outros, óbvio.

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OLHOS Te miro por cima por baixo por um lado pelo outro como o outro não te mira

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IMITAÇÃO DE NARCISO I O amor está no púbis, e nos dedos que acariciam a floresta e no estreito espaço da sua carne palpitando nas mesmas carícias. Da tristeza vem o amor cheio de sal e saliva como este dedo que desce e sobe no deslizante espaço da sua carne. O amor sempre foi caverna, árvore, folhagem, penetrando as raízes mesmas do verme, ali onde o amor se desfaz em seus próprios ossos,

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como uma explosão de carne dentro da carne. Abraçamos o amor em beijos e abraços imaginados para cair e não cair brandamente no abismo se agitando no vento. Como o poeta na página acaricia a palavra coxa, lábio, clitóris (que faltava nestes versos), o homem acredita tocar a mulher e a mulher o homem, como o poeta o poema, e cada qual se beija a si mesmo nos lábios do outro,


cada qual se esfrega a si mesmo na pele do outro que ama a imagem criada por seus próprios olhos. Assim como o poeta se ama a si mesmo no poema e na superfície da letra, assim o homem, a mulher acariciam o próprio sonho sonhado em seus olhos e cada um ama o amor que para si mesmo criou em seu próprio espelho.

II Se eu te amasse como a mim mesmo ou Tu me amasses como eu te amo, ninguém nos amaria mais do que eu

De: Poemas In-Públicos Poemas In-Púbicos. Inscrição Nº 93.288 I.S.B.N. 9567390-05-3 Traducción al português - Tradução ao português Geruza Zelnys de Almeida - Raquel Parrini

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ÁS VEZES NADA MAIS QUE O SILÊNCIO

POR ANOS, SOB A LUA escrevemos inúmeras palavras que não são a menarquia de uma virgem; e seguimos teimosamente, enchendo de palavras as areias desta praia, nestas noites de lua cheia quando parece que o mar se foi para sempre de nossa vista, deixando-nos mais sós, mais anônimos, mais inéditos.

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e os gumes do silêncio atravessando costas e rios, os gritos sem voz acomodados na janela nossos gestos perdidos no ar - incitando o riso dos convidados a queda livre a palavra atravessada na garganta como um pedaço de carne crua no bosque invisível de células e estrelas que somos. Às vezes nada mais que o silêncio o espaço em branco a chuva sobre os tetos ou o caminho que não nos diz nada às vezes, isso é simplesmente e nada mais é o poema. “Tudo é tão falso e tão bonito”. (*)1 *. Gonzalo Rojas (Lebu, Chile, 20 de diciembre de 19161 – Santiago, Chile 25 de abril de 2011) poeta chileno.

Sempre haverá uma jangada na memória, uma margem, uma raia infinita até onde chegam nossos ossos depois dos naufrágios, porque mesmo que não haja nem a sombra de uma árvore haverá um poema que fale de uma árvore: de suas folhas mortas continuarão crescendo palavras, o Sol sobreviverá pelo papel, limpando das sombras estas manchas, fazendo o pasto crescer, juntando as margens, fechando as cicatrizes sob o pasto verde da terra.


A POESIA DE MARIO GARCÍA ALVAREZ 73


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INTEMPÉRIE Ao chegar da velhice, por cima da cidade e das luzes, entoamos canções fúnebres sobre as folhas novas e as árvores imaginadas, nosso canto se confunde com as noites que arrastam correntes e choros de crianças mortas. De alguma parte sempre vem a velhice como o vento que traz cheiro de cavalo molhado e morto. A lua flutua por cima da velhice e a morte deste cavalo branco que vai se enchendo de estrelas e chuvas com vento.

Somos carne crua que canta e envelhece em seu canto. No meio do bosque sem luzes já não podemos contemplar o crescimento de nossas árvores imaginadas Só pensamos em entoar canções fúnebres ao ver que a lua passa com a morte do cavalo. No meio do bosque, Só nós escutamos nosso canto.

Entoamos canções fúnebres quando desde longe chega a velhice para instalar-se em nossos móveis e o bosque: acomodados na janela e as árvores imaginadas vemos passar a lua com a morte do cavalo branco nas costas, e recordamos nossos primeiros passos eretos na nudez do céu, quando as palavras giravam como peixes no rio ou simplesmente células perdidas na caverna. Voltaremos a correr pelos prados imaginados em busca do mamute que nos dará calor e carne, sonhamos novamente com nossas anônimas caças a sentir que a morte ronda pelos cantos da folhagem e a lua, cantamos, e as palabras vão ficando sem saliva:

De: (Des)Cobertas de Papel e Folhagem (Des) Pliegues De Papel y Follaje. Inscrição Nº 93.288 I.S.B.N. 956-7390-06-1 Traducción al português - Tradução ao português Geruza Zelnys de Almeida - Raquel Parrini

A POESIA DE MARIO GARCÍA ALVAREZ 75


Relat贸 rios da Estrada


de Ferro Bahia e Minas


I - EXECUÇÃO DOS CONTRATOS CELEBRADOS PELA COMPANHIA ESTRADA DE FERRO BAHIA E MINAS Sendo absolutamente impossível a companhia executar no prazo determinado todos os trabalhos a que se obrigou em vista do contrato de 1889 deverão caducar a 7 de março de 1894 todos os privilégios concedidos pela estado à mesma companhia.

II - CONDIÇÕES FINANCEIRAS DA COMPANHIA Infelizmente os saldos do empréstimo de 16.500.000 francos, destinados aos trabalhos do Prolongamento da estrada de ferro, foram empregados em cauções de títulos que, não representando hoje a décima quinta parte do valor das cauções, deixam a companhia em sérios embaraços e sem recursos para o prosseguimento dos trabalhos da construção. Não é lícito esperar que semelhantes títulos se valorizem dentro do prazo de dez anos e nem presumível que os acionistas façam novas entradas de capital, visto ter a companhia não só hipotecado ao Banque Parisienne toda a estrada construída, mas tomado ainda o compromisso de preencher as formalidades legais para assegurar a primeira hipoteca sobre os trechos a construir.

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Parece, pois, que os trabalhos estarão condenados à uma paralisação por longo tempo, se não se fizer sentir a ação benéfica do governo para sobre as dificuldades do presente. Espero, porém, que a diretoria da companhia e os credores estrangeiros, pesando bem todas as circunstâncias, não contrariarão os interesses gerais, criando óbices à pronta realização de um melhoramento, que é um desideratum há longos anos alimentado e condição indispensável ao desenvolvimento da lavoura, comércio e indústria desta zona.


III - PROLONGAMENTO DA ESTRADA DE FERRO Movimento de terra

Entre os quilômetros 120 e 130 construíram-se seis bueiros capeados, dois bueiros abertos, encetou-se a construção de mais um bueiro capeado e pouco andamento tiveram as obras dos pontilhões dos quilômetros 113, 126 e 130.

Do quilômetro 185 ao 233,8, contrato dos drs. Lemos e Trotselr,1 fez-se o movimento de terra na extensão de 1,080; não tendo, porém, sido iniciada a construção de obra-d’arte alguma.

Entre os quilômetros 130 e 140 foram concluídos cinco bueiros capeados e encetou-se a construção de um outro.

1

Telégrafo

Do quilômetro 120 ao 185, empreitada do dr. J. da S. Leite Fonseca, foi preparado o leito na extensão de 8,524 quilômetros.

Nota do organizador. O nome Trotselr parece incorreto.

Os serviços das duas empreitadas estão suspensos; sendo os da primeira desde o fim do mês de julho, quando manifestou-se a revolta dos trabalhadores pelo atraso dos pagamentos, e os da segunda desde 16 de novembro.

Foram estabelecidos 32 quilômetros de linha telegráfica do quilômetro 155 a 187, e mais 12 quilômetros a partir de Teófilo Otoni em direção a Saudade (quilômetro 2052), acompanhando o leito da estrada de rodagem. 2

Nota do organizador. No original está, incorretamente, quilômetro 202 em vez de 205, provavelmente por motivo de erro tipográfico.

Obras-d’arte

Entre os quilômetros 90 e 113 foram construídos três bueiros capeados e dois bueiros abertos. Entre os quilômetros 113 e 120 foram construídos dois bueiros capeados e adiantou-se a construção de três pontilhões.

Os trabalhos estão paralisados desde princípio de novembro, por falta de isoladores. Faltando 34 quilômetros para a ligação das linhas, cumpre à companhia, no seu interesse e no do público, apressar a conclusão do serviço.

RELATÓRIOS DO ENGENHEIRO FISCAL DA ESTRADA DE FERRO BAHIA E MINAS 79


Via permanente

Até o fim do corrente mês devem estar assentados os trilhos em frente à estação de Todos-os-Santos, entre os quilômetros 112 e 113. No fim do ano passado os trilhos estavam assentados até o quilômetro 102,5; o que evidencia a excessiva morosidade do assentamento da via permanente, tendo-se feito em um ano trabalhos que poderiam ser executados em 15 dias. Para o prosseguimento dos trabalhos entre a estação de Urucu e de Todos-os-Santos, foram feitas duas pontes de madeira, que só puderam ser permitidas como obras provisórias. Estando adiantados os trabalhos do leito até o quilômetro 149 e havendo trilhos e dormentes em depósito, seria de grande conveniência a intervenção do governo de modo a poder a companhia dar todo impulso ao assentamento de trilhos, ativar a construção das obras-d’arte e concluir o pequeno movimento de terra até aquele ponto para ser inaugurada a estação de São Paulo no fim de junho do ano vindouro. Pode-se conseguir semelhante desideratum com a importância da garantia de juros que a companhia terá de receber pelo semestre atual.

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Estações

Concluiu-se a alvenaria de tijolos da estação de Todos-os-Santos, que já está coberta de telhas. Tanto nesta estação como na de Urucu a sala do armazém só tem porta para o lado da linha, resultando grande inconveniente para o movimento das tropas e carros.

Caixa-d’água

Foi montada no quilômetro 30 uma caixa-d’água, que era indispensável ao serviço do tráfego, visto ser de 49 quilômetros a distância entre as estações de Aimorés e Mayrink.

Condições técnicas do traçado Tendo desaparecido no incêndio da estação de Aimorés todos os trabalhos de escritório referentes aos primeiros 20 quilômetros da linha e não estando concluídas as plantas e perfis da revisão dos estudos do quilômetro 20 até Teófilo Otoni, só pude organizar as tabelas de alinhamentos e declividades da linha entre os quilômetros 20 e 205.


Pelo resumo que apresento, ver-se-á que as condições técnicas da linha são mais favoráveis do que as de outras estradas mineiras; o que não é de admirar, porquanto a linha desde o quilômetro 30 acompanha o Rio Mucuri até o quilômetro 112 e daí o seu afluente Todos-osSantos até a cidade de Teófilo Otoni. Em anexo apresento também um esboço com a planta da estrada e o seu grade em escala reduzida, que permitirão ajuizar melhor do traçado. Por falta de dados mais positivos e que inspiram maior confiança, organizei com alguns rascunhos, que podiam ter sido alterados na execução dos trabalhos, a planta e grade dos primeiros quilômetros da linha.

Tabela de declividades entre km 20 e 205

em rampas de 0 a 0,5%

34.887,5m

em rampas de 0,5%

6.600,0

em rampas de 0,5% a 1%

7.739,0

em rampas de 1%

2.660,0

em contrarrampas de 0 a 0,5%

4.456

em contrarrampas de 0,5%

629

em contrarrampas de 0,5% a 1%

803

em contrarrampas de 1%

1.080

Extensão em nível

124.905,8m

67,52%

em contrarrampas de 1% a 1,5%

180

Extensão em rampas

51.886,5

28,04%

em contrarrampas de 1,5%

346,7

Extensão em contrarrampas

8.207,7

4,44%

em contrarrampas de 2%

713

Total

185.000 RELATÓRIOS DO ENGENHEIRO FISCAL DA ESTRADA DE FERRO BAHIA E MINAS 81


Em declives superiores a 1% a extensão é somente de 1.239,7 m ou 0,67% da distância total. Quanto a declividades a Estrada de Ferro Bahia e Minas leva grande vantagem sobre todas as outras do estado, como verificar-se-á pela comparação abaixo feita.

Porcentagem da extensão em nível de diversas estradas Estrada de Ferro Bahia e Minas (na distância de 185.000m)

67,52%

Estrada de Ferro Oeste de Minas na distância de 685.755m, compreendendo a linha do Sítio a São João d’El-Rei, prolongamento a Oliveira e Lavras, linha de Oliveira a Sçao Francisco e ramal de Itapecerica

58,99%

Estrada de Ferro de Muzambinho (linha principal com 146.800m)

41,40%

Estrada de Ferro do Sapucaí (linha principal de Soledade a Eleutério e ramais de Baependi, na distância de 352.796m

37,66%

Estrada de Ferro Leopoldina (na distância de 478.696m, compreendendo a linha principal de São Geraldo a Saúde, ramal do Alto Muriaé, sub-ramal da Serraria até a linha principal, sub-ramal do Pomba e ramal de Juiz de Fora e Piau

33,71%

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Porcentagem da extensão em retas nas diversas estradas No trecho baiano da Estrada de Ferro Bahia e Minas a extensão em nível é de 32,35%. Há porém 43,66% em declives de 0 a 1%.

Relação dos alinhamentos

Estrada de Ferro Bahia e Minas

58,05%

Estrada de Ferro Oeste de Minas

58,01%

Extensão em tangentes

107.388,58m

58,05%

Estrada de Ferro Muzambinho

53,77%

Extensão em curvas

77.611,42

41,95%

Estrada de Ferro Leopoldina

50,86%

Estrada de Ferro de Sapucaí 3

50,60%

Total

185.000 3

Nota do organizador. A expressão que aparenta ser “de Sapucaí” está em parte faltando letras ou ilegível.

No trecho baiano da Estrada de Ferro Bahia e Minas a extensão em tangentes é de 71,42%. Infelizmente o primitivo contrato permitia para os primeiros 20 quilômetros da linha mineira declives superiores a 2%, que melhor fora não terem sido empregados; porquanto a Serra de Aimorés é muito baixa, sendo de 201,70 m a sua maior altitude no ponto em que é atravessada pela linha.

Linha em tráfego

O estado de conservação da linha é mau, havendo muitos aterros abatidos, falta de lastro em trechos extensos e grande número de dormentes podres.

Os descarrilhamentos são frequentes; não tendo porém havido acidente algum do qual resultassem contusões ou ferimentos em passageiros e nem grande estrago do material. Ainda não foram construídos a ponte e pontilhões a que fiz referência no meu relatório do ano passado. Com a enchente do mês de novembro caíram dois esteios da ponte provisória sobre o Rio Urucu. Para a desorganização do serviço de conserva

RELATÓRIOS DO ENGENHEIRO FISCAL DA ESTRADA DE FERRO BAHIA E MINAS 83


muito tem concorrido a irregularidade dos pagamentos ao pessoal, que têm sido feitos com atraso de seis, oito e 11 meses. Cumpre à companhia tomar providências prontas e enérgicas para a completa reorganização de serviço tão importante e que não deve ceder a primazia a nenhum outro. Se o não fizer e se derem-se alguns descarrilhamentos de graves consequências, poderá ficar sem o insignificante material rodante, que ainda salva as dificuldades do tráfego.

Parada de trens

É de grande utilidade para os fazendeiros do Ribeirão Sete de Setembro o estabelecimento de um desvio e plataforma coberta no quilômetro 30, determinando-se também no horário a parada dos trens.

a composição dos trens; porquanto as condições técnicas da linha desde o quilômetro 30 até a cidade de Teófilo Otoni são muito superiores às do trecho entre Aimorés e aquele ponto, máxime às dos primeiros 20 quilômetros.

Ponte de Urucu

A diretoria da companhia não deve descurar da construção da ponte definitiva sobre o Rio Urucu; sendo urgente e indispensável dar começo às alvenarias dos encontros.

Horário dos trens

Houve irregularidades no tráfego, tendo sido suprimidos alguns trens de passageiros; alegando a inspetoria falta de lubrificantes, por estar trancado o porto do Rio de Janeiro aos vapores nacionais.

Não convém ainda a construção da estação projetada e orçada, porque os fretes dos produtos daquele vale não são bastantes para o pagamento do chefe da estação, telegrafista e serventes.

Continuando porém o movimento de vapores entre os portos de Caravelas e Bahia, o fato não pode ter justificação, porque havia um mercado, não contemplado o de Vitória, para serem feitos os suprimentos necessários.

Quando houver maior densidade de tráfego em toda a estrada, será de muita utilidade a construção da estação, mesmo para regularizar

Determinando o regulamento um único trem de passageiros por semana, a supressão deste causa grande transtorno aos viajantes, pois que

REVISTA MUCURY 84


os outros trens são facultativos e organizados ad libitum da inspetoria.

A despesa por quilômetro foi de 396$694.

Balancete do tráfego

Comparando a receita em nove meses com a de todo o ano passado, ver-se-á que houve aumento de 72,6%.

A despesa tendo sido de 36:099$130, houve um déficit de 4:842$166.

Para facilitar a comparação, organizei o quadro infra, contendo os algarismos da receita e despesa desde a inauguração da estação Mayrink, a 13 de abril de 1891.

A receita do tráfego, desde 1° de janeiro até 30 de setembro do ano corrente, foi 31:256$964.

A receita por quilômetro, no período supra, foi de 343$483.

Período de tempo

Receita

Despesa

Déficit

4:431$350

18:954$059

14:522$709

Ano de 1892

18:106$213

43:431$165

25:324$952

De 1° de janeiro a 30 de setembro de 1893

31:256$964

36:099$130

4:842$166

De 30 de abril a 13 de dezembro de 1891

RELATÓRIOS DO ENGENHEIRO FISCAL DA ESTRADA DE FERRO BAHIA E MINAS 85


Para o lisonjeiro resultado do tráfego no exercício corrente, muito influíram a inauguração da estação de Urucu a 31 de julho de 1892, e o melhoramento da picada que comunica a estação com a estrada de rodagem.

Espaço de tempo

Comparando as diversas verbas da receita com as do exercício passado, nota-se aumento em todas, como verificar-se-á pela discriminação abaixo feita dos produtos das passagens, bagagens e encomendas, mercadorias diversas, telégrafo e transporte de animais.

Receita de Passageiros

B. e enc.

Mercadorias

Telégrafo

Animais

Ano de 1892

3:519$500

542$130

13:172$633

519$470

352$460

De 1° de janeiro a 30 de setembro de 1893

4:931$900

610$974

24:294$030

945$080

474$980

O processo seguido pela companhia para discriminar a despesa é muito imperfeito; não permitindo ajuizar das quantias despendidas com a conserva da linha, tração, estações e dependências, etc. O balancete do trimestre de 1° de julho a 30 de setembro demonstra um saldo de 806$795; tendo sido a receita de 12:811$785 e a despesa de 12:004$990.

REVISTA MUCURY 86

O saldo foi absorvido pelo déficit do primeiro semestre. O resultado do tráfego, depois de inaugurada a estação de Urucu, posto que pequeno não deixa de ser animador e mostra a conveniência de prolongar quanto antes os trilhos até o quilômetro 149. Inaugurada a estação de São Paulo a receita


aumentará, devendo exceder de 60% à atual; resultando ainda para os agricultores grande economia pela diminuição das despesas de transportes em costas de animais e mais facilidade para exportação dos seus produtos. A maior parte da colheita do café do município de Teófilo Otoni ainda não pôde ser transportada, principalmente pela falta de tropas. Para tornar mais evidente o prejuízo que o

atraso dos trabalhos da Estrada de Ferro Bahia e Minas ocasiona aos lavradores, basta refletir que, sendo a safra de café superior a 80.000 arrobas, o seu transporte até a estação de Urucu ficará por preço superior a 240 contos, quando pela estrada de ferro, se estivesse concluída conforme o contrato celebrado em 1889 pela companhia, ficaria por menos de 40 contos de réis. O que os agricultores perdem em fretes poderia ser mais utilmente empregado em novas culturas, compras de maquinismos, etc.

Estatística do tráfego Passageiros De 13 de abril a 13 de dezembro de 1891 o movimento foi de Durante o ano de 1892 o movimento foi de De 1° de janeiro a 30 de setembro4 de 1893 o movimento foi de 4

998 passageiros

Em nove meses do exercício corrente o número de passageiros foi de 14% maior do que em todo o ano passado.

Bagagens e encomendas No ano de 1892 foram transportados

14.941 quilogramas

De 1° de janeiro a 30 de setembro de 1893

23.635 quilogramas

1.978 passageiros

2.262 passageiros

Houve aumento de 58%. Deve-se, porém, observar que nos algarismos supra está incluído o movimento da estação de Aimorés.

No original está “dezembro de 1893” por evidente engano. RELATÓRIOS DO ENGENHEIRO FISCAL DA ESTRADA DE FERRO BAHIA E MINAS 87


Telegramas

O acréscimo foi de 29,9%.

De 1° de janeiro a 30 de setembro de 1893, foram transmitidos 1.217 telegramas com 16.484 palavras.

Observação — No balancete que foi apresentado não consta exportação de café pela estação Mayrink.

Durante o ano de 1892 foram transmitidos 489 telegramas com 5.088 palavras.5

Parando, porém, os trens de carga no km 24 da linha para o recebimento dos produtos das lavouras do Ribeirão Sete de Setembro, os fretes deveriam ser cobrados desde a estação Mayrink, pois que a prática seguida em diversas empresas de viação férrea consagra o princípio de fazerse a cobrança dos fretes da estação anterior ao lugar da parada.

5

No original está “5.880”. Tudo indica que o correto é 5.088.

Para mais, em nove meses do atual exercício, 728 telegramas com 11.396 palavras.

Animais

De 1° de janeiro a 30 de setembro de 1893 o número de animais transportado foi de 186.

Da escrituração deveria pois constar despacho de café pela estação Mayrink.

No segundo semestre de 1892 o número transportado foi de 99.

Madeiras

Café exportado No ano de 1892 a exportação foi de

482.205 quilogramas

De 1° de janeiro a 30 de setembro de 1893 foi de

626.739 quilogramas

Durante o ano de 1892 foram exportados 102.400 quilogramas. De 1° de janeiro a 30 de setembro 293.900 quilogramas. O aumento da exportação foi de 187%.

Sal

A importação de 1o de janeiro a 30 de setembro de 1893, foi de 115.630 quilogramas. REVISTA MUCURY 88


a redução da tarifa de sal a cem réis por tonelada e por quilômetro.

Farinha

A importação (de 1° de janeiro a 30 de setembro) foi de 35.623 quilogramas.

Os fretes marítimos foram reduzidos, principalmente para os produtos mineiros.

O peso de todas as mercadorias importadas e exportadas (de 1° de janeiro a 30 de setembro de 1893) foi de 1.823.633 quilogramas. No segundo semestre de 1892 foi de 827.627 quilogramas.

Tarifas

Havendo clamores do comércio desta zona por causa das tarifas do trecho baiano da Estrada de Ferro Bahia e Minas e dos fretes elevados cobrados nos vapores da companhia, fui por ato de 8 de fevereiro, autorizado pelo governo, entrar em acordo com a diretoria da companhia para celebração de um convênio, que salvaguardasse os interesses gerais. Graças à boa vontade da diretoria em corresponder à justa pretensão do governo do estado, foi assinado a 16 de fevereiro o convênio; sendo alteradas as tarifas da seção de navegação e uniformizadas as da estrada de ferro, feita porém

Para as mercadorias importadas não foi possível obter as concessões da minha proposta, todavia a redução foi considerável; assim, por exemplo, o preço do transporte (do Rio a Caravelas) de uma tonelada métrica de tecidos de algodão, lã, e etc., que era de 166$666 réis, foi reduzido a 40$000 réis. Posto que este preço seja ainda alto em comparação com os fretes dos portos do Havre, Liverpool e outros da Europa para o Rio de Janeiro e também os do Lloyd Brasileiro para mercadorias importadas, todavia o comércio está satisfeito com o resultado obtido. Referência Bibliográfica Versiani, Pedro José. Relatório do engenheiro fiscal da Estrada de Ferro Bahia e Minas. In: Minas Gerais. Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Relatório apresentado ao dr. presidente do estado de Minas Gerais pelo secretário de estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas dr. David Moretzsohn Campista no ano de 1894. Ouro Preto: Estado de Minas Gerais, 1894. p. 114-123.

Fernando da Matta Machado

RELATÓRIOS DO ENGENHEIRO FISCAL DA ESTRADA DE FERRO BAHIA E MINAS 89


Desde 1982 que me filiei no clube do Atlético Petróleos de Luanda ou simplesmente Petro de Luanda, era raro ou mesmo não se falava tanto de chicotada psicológica.

A partir daí, não só multiplico os números, até também as palavras, os termos, os vocábulos, os morfemas, os semas, os semantemas, os sememas, os monemas e tudo mais.

Na altura andávamos com o dicionário de Alfredo Camacho da Porto Editora “ O Nosso Dicionário”e o consultávamos para o aumento do vocabulário, sobretudo dos termos da gíria desportiva, já que éramos fãs para não dizer fanáticos, aliás fã é abreviatura de fanático, só que este último encerra uma denotação pejorativa.

Por outras palavras, ganhei o hábito e a mania de multiplicar as palavras no papel, por causa do medo de falar em público e de errar a pronúncia dos termos muito compridos, principalmente os da gíria dos médicos, a exemplo da palavra hipopotomonstrosesquipedaliofobia.

Chicotada, adjectivo derivado do nome chicote é bem conhecido por nós, desde os anos que entramos na escola, concretamente desde a pré-kabunga e apanhámos uma boa xikotada; xicote de jinzunzu e de mulolo, plantas da minha zona e do meu gueto. Lembro-me ter aprendido a tabuada numa semana em 1977, o ano em que estudei a 3ª classe com o prof. Salvador, de nome completo Manuel Salvador, do Lombe. Aprendi a tabuada por causa de um xicote que me tirou fora de série ao errar a multiplicação 9 x 7= 63.

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Outra xicotada não mais com x mas com ch foi do prof. José Malungo do Uíge, este tinha a sua esposa Florinda e o prof. chamava-a hipocoristicamente por Flor, e nós então como putos da 2ª classe lá no mato ficávamos embasbacados com este nome! Flor é parte de uma planta completa, agora como é que pessoa lhe chamam de flor? É verdade que nós cantávamos: planta completa é aquela tem raiz, caule, folhas, flores e frutos. Quando alguém não pronunciasse bem a palavra, chamavam-lhe de burro ou que falasse kimbundu, e a palavra burro doía mais que o xicote.


Nesta fase que decorre o Girabola Político em Angola, sinto muita pena dos treinadores das equipas e das selecções que estão a trumunar nos 18 estádios da pátria do mais velho Ngola. Muitos desses treinadores vão apanhar uma boa chicotada psicológica, principalmente aqueles que desperdiçarem os pontos na tabela classificativa. Os que perderem pontos, nunca mais porão os pés no clube do rio seco, a equipa dos kuembas, a campeã em chicotadas psicológicas dadas aos treinadores desde a sua fundação. Nesta equipa; atacar, atacar sem marcar golo…fora! O girabola político de 2012, associou 9 equipas, das quais 5 craques (3 delas veteranas) e 4 coligações. Uma tem o nome de FUMA, vai deixar fuma e não vai fumar, pois fuma é a forma do verbo fumar, conjugado no imperativo, porque a mesma está a pedir, a aconselhar e a ordenar o people a puxar por ela, mas na minha língua, fuma é glória, é fama. Outra é a CASA para os recém-casados, pois temse dito que quem casa, quer casa. Para nós que já temos casas que os nossos chefões chamam

de casebres, mas são melhores que as do Zango, as do Panguila e as ditas casas evolutivas, vamos votar no zero. Então, quem quer ser famoso, fuma; e quem quer casar, casa. Estou só a treinar as fintas, para quando criar a minha equipa que vou denominála BEBA (Bem-Estar Básico para os Angolanos), coligada com a COMA, todos vão ficar bebuchos (vida em abundância), no próximo quinquénio (2017). Viva a Coligação BEBA!...Viva!... Para terminar, queiram desculpar-me porque falei demais, se o tema é chicotada psicológica política, por que da xicotada de jinzunzu e de mulolo? É só para dizer que falar muito é ser prolixo e escrever demais é ser ortolixo segundo a neologia eiffeliana.

Miguel da Silva In, O quotidiano da Eiffel-Malanje 06/08/2012 04H00

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Na época que cantávamos o sivaiy, sivaiy a Suku que quer dizer “ louvai, louvai a Deus” como coristas, tivemos uma troca de experiência com os nossos correligionários da comunidade do Kota município de Kalandula e lá fomos recebidos por um pastor metodista cognominado Bué. Tudo surgiu pelo facto desse pastor ter dito frequentemente, que desde que se tornou cristão, está abençoado e tudo tem: cabra bué, boi bué, filho bué, dinheiro bué. Agora, o BUE é Balcão Único do Empreendedor. Empreendedor é aquele que sabe fazer kadienge (negócio) e emprega os que não fazem nada e não têm nada a fazer. Corruptodorismo é a Caixa de Colecta, que os delegados de turmas de algumas escolas de Malanje fazem no fim do ano lectivo e pagam a alguns profs. para passarem de classe. A escola que não há essa colecta é a Eiffel, onde o ensino é gratuito e de qualidade no verdadeiro sentido da palavra. Nessa escola, a bata, o material didáctico e até a folha de prova é grátis; só se paga o uaua

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(ônibus), mas se o aluno for do tipo João Tyamba ou Pepino, não gasta nada. O problema não está em comprar as folhas de provas ou batas, mas reside no facto de muitos profs. fundarem o CCC, tudo porque para se conseguir um crédito no BPC tem de gastar dois pares de sapatos, no vaivém, ter um padrinho, não de casamento, mas na cozinha. Solução: 50 dólares cada aluno, vezes tantos que a turma alberga, já tem um bolo para um kubico ou um popó. Se o BPC não dá crédito e o BUE é apenas eleitoralista, se bem que está a tirar muitos kunangas da pobreza, então vamos à CCC que é a Caixa de Colecta do Corruptodorismo, porque o chefe chegou de dizer que em Angola, não se vive de salário, mas de fontes alternativas. Esse slogan soa harmoniosamente e kuia aos ouvidos dos craques e esquecem-se que muitos chefes, depois de tomarem um vinho a mais e surpreendidos por um microfone nos lábios, falam lixo! Meu estimadíssimo, excelentíssimo, ilustríssimo e caríssimo teacher, a expressão “ o ensino em


Angola não é de qualidade”, que ecoa todos os dias até nos media não lhe diz nada? Estão a dizer a você como culpado desse vitupério, porque é você que recebe os 50 dólares do mal remunerado, seu colega para o seu filho passar, enquanto os chefes, seus filhos não estudam aqui na banda, porque têm massa para formá-los nas universidades renomadas do mundo. E é ele que vem à rádio e à televisão depois de chupar sua birra, a escandalizá-lo e o senhor ou a senhora ainda bate palmas a apoia-lo: mas é verdade… é verdade mesmo… não é uma questão de consciência e de reflexão? “ E essa bodega, digo não”! Não, não e não. Não quero ser crítico como os escritores, nem prolixo como os políticos, mas quero apontar uma saída: facturem cartões de recarga da Unitel e da Movicel, entreguem-nos aos putos que zungam ou mesmo às cantinas e farmácias, e no fim do dia recolham alguma massa para aguentar o mês. Mais vale chamar-lhe de candongueiro, que lhe denominarem corrupto. Corrupto é a mesma coisa dizer bruxo, porque o bruxo é quem protagoniza o

mal e quando as pessoas começam a choramingar, é ele ainda que vem com disfarces: o que é que se passa? Mas candongueiro também não é pejorativo?! Não, não é pejorativo, porque até os nguvulus fazem candonga. Ah! Só no partido único é que os candongueiros eram levados aos comícios e empolgados nas tribunas para serem mostrados ao povo e este ovacionava em uníssono: abaixo os candongueiros… no tempo do Kota Neto, de nome completo Domingos Afonso Neto, o 2º Comissário Provincial de Malanje (actualmente diz-se Governador). Na democracia, a candonga faz parte da economia de mercado: é negócio, é biolo é desenrascar, é business. Miguel da Silva In, O quotidiano da Eiffel-Malanje 06/08/2012 09H00

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Em abril de 2012, conheci a indigenista Geralda Soares. Gêra, como é carinhosamente chamada, representa o esforço pela valorização e resgate da cultura e história indígenas de toda a porção Leste de Minas Gerais, região que engloba os vales do Rio Doce, Jequitinhonha, Mucuri e São Mateus. Ela é referência indigenista na região, a oportunidade em que nos conhecemos foi o lançamento de seu livro Na Trilha Guerreira dos Borun. Foram alguns dias muito importantes para que pudesse acessar aspectos da história dos vencidos, que graças a esforços da agora amiga, vem sendo ajuntado no mosaico deste nosso Mucuri. É esta região qual diversas etnias indígenas, chamadas de Botocudos, em alusão às tampas de barris de bebida alcóolica, se refugiaram até o século XIX dos “portugueses”, dos Kraí (os loucos), dos brancos. NA TRILHA GUERREIRA DOS BORUN: OS MUCURIÑ 101


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Havia aí uma questão delicadíssima: os brancos, que se pensavam os homens de verdade contra os botocudos, os selvagens, as tampas de barris; por outro lado tínhamos os Borun, que em sua língua significava “homens verdadeiros” em contraposição aos Kraí, os de cabeça doida, loucos. Não haveria outra coisa: guerra, massacre, sangue. Eis a história do Mucuri, com exceções, sempre poucas. Os vencedores? Os brancos, os Kraí. Aqueles indígenas que não morreram, a todo custo mimetizaram-se, hoje muitos são somente história mal contada.

o de contar a história dos que perderam a guerra, mas também de buscar aqueles que abandonaram o ser índio para sua própria sobrevivência. Este é o caso dos Mocuriñ. Passaram décadas como não índios, mas no início do século XXI, retomaram sua condição e história indígenas e estão, com muito trabalho, revisitando sua ancestralidade, buscando e interpretando sua existência, pesquisando, retomando e reinventando suas tradições. No dia 15 de abril de 2012, estávamos ansiosos. A expedição até a comunidade indígena dos Mocuriñ contou com também com a presença de Ademar Lemos, Leonardo Cambuí.

O trabalho da nossa amiga Gêra é não somente

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Não saímos tão cedo quanto imaginávamos, mas chegamos a tempo do almoço que Dona Castorina, a matriarca de origem aranã, tinha-nos preparado: frango caipira, arroz, feijão e macarrão. Estávamos famintos e a comida deliciosa. Aos poucos foram chegando. Uns sozinhos, outros em grupos, em núcleos familiares, e cada um com seu cachorro. Ah, e tinha um papagaio. Logo tínhamos mais de 10 pessoas conversando sobre suas origens, história, notícias dos familiares, daqueles que não puderam reunir-se, dos que ainda moram em outros lugares e de suas inquietações como comunidade e como indígenas. Neste encontro ainda assistimos ao vídeo de um casamento recente Maxakali. Foi discutida a participação em eventos nos quais a condição indígena é tema, e as mulheres presentes solicitando mais participação. Das mais de dez pessoas, haviam 4 gerações, avós, filhos, netos e bisnetos. Os últimos já nasceram índios, nasceram mocuriñs! Um assunto importantíssimo fora iniciado, a construção do Kieme ou Kijeme, a casa coletiva onde as reuniões, encontros, discussões, rituais e festas ocorrem, é o ponto nevrálgico da aldeia. Discutiram as técnicas, os materiais, o local onde seria erguido este marco importantíssimo na retomada de no reapoderamento do ser índio dos mocuriñs. As fotografias retratam este nosso encontro e os momentos das discussões, e são um presente, aos indígenas deste nosso Mucuri, do Leste, Jequitinhonha e São Mateus, e são nosso presente aos Mocuriñ e a nova e grande amiga, Gêra.

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Sobre os mocuriñs, trago um trecho extraído do livro Na Trilha Guerreira dos Borun, de Geralda Soares1: 1

SOARES, Geralda Chaves. NA TRILHA GUERREIRA DOS BORUN. Belo Horizonte: Núcleo de Publicação do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix., 2010. P. 209-211.

O Povo Mocuriñ é formado pelos descendentes do Capitão Pohok, condutor de longa migração de vários povos, saindo da proximidade dos colonos europeus no Vale do Mucuri e se estabelecendo no vale do Itambacuri. Pohok torna-se aliado dos Frades Capuchinhos na fundação do Aldeamento de Itambacuri em 1873. E avô de Domingos Ramos Pohok ou Pacó, primeiro professor indígena bilíngue de Minas Gerais. Os Mocuriñ vivem hoje na Comunidade dos Xavier, no Município de Campanário, no Vale do Mucuri. Domingos Ramos Pacó, sua filha Noemia Xavier e o indígena Chico Bugre são os antepassados mais próximos dos atuais Mocuriñ. Ao todo são aproximadamente 100 pessoas que vivem na área rural e urbana desta região. Algumas famílias migraram para São Paulo e Belo Horizonte. Domingos Ramos Pacó escreve a História de Itambacuri que é arquivada no APM (Arquivo Público Mineiro) em Belo Horizonte por Frei Olavo Timmers, OFM.

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Em 1986 este documento é publicado pelo economista Eduardo Ribeiro no livro ‘Lembranças da Terra do Jequitinhonha e Mucuri’, e em 2006 uma equipe de pesquisadores do CEDEFES2 e do Conselho dos Povos Indígenas de Minas Gerais e do GTME3 faz os primeiros contatos com a comunidade dos Xavier, iniciando aí seus contatos com entidades ligadas a Causa Indígena, com os demais indígenas e com a FUNAI. 2

Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva. Grupo de Trabalho Missionário Evangélico.

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Passam então a participar das atividades organizadas pelos indígenas e apoiadores. Em 2006 são oficialmente apresentados na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. O povo Mocuriñ luta pelo seu reconhecimento pelos órgãos oficiais, pelo direito a um atendimento diferenciado na educação e saúde e pela ampliação da área de 19 alqueires em que vivem. O reconhecimento do Povo Mocuriñ como mais um povo indígena de Minas e o resgate de uma divida histórica do Vale do Mucuri, de Itambacuri e da Sociedade para com aqueles que sobreviveram ao longo processo de exclusão e discriminação dos indígenas nesta região (SOARES, 2010).


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Entrevista feita com a dupla Pablo y Lola que circulam, em um Fiat 147, a América do Sul. No início de 2013 estiveram em Teófilo Otoni. Em seu show trazem também a cultura popular argentina, suas aspirações e preocupações que são compartilhadas nos países e cidades que percorreram. Vamos lá sem mais rodeios.


Como surgiu o Fiat 147? Essa foi a primeira pergunta que desejamos fazer (risos).

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El FIAT 147 siempre nos acompañó en nuestras aventuras musicales. En realidad a Pablo lo acompañó un poco más de tiempo. El padre lo compró 0km hace 20 años, y con él aprendió a manejar. Así que tiene un significado sentimental muy grande. Es un integrante más de este viaje. Siempre decimos que somos 3. Él necesita cuidado, un lugar dónde dormir, y todo lo necesario para que nos pueda llevar seguros a donde vayamos. Éste es el 3er viaje largo que hacemos con el VivaCHE (un juego de palabras con el modelo que es “vivace” y su origen), que en total suman casi unos 60.000 kilómetros de notas musicales. Creemos que ya está listo para ir a otros planetas.


A cultura popular sul-americana é realmente maravilhosa. As referências da cultura popular argentina que daqui do Brasil temos acesso e notícias são Mercedes Sosa, grande frequentadora de Minas Gerais, e Atahualpa Yupanqui. Qual a relação de vocês com o universo da cultura popular?

Nosotros creemos en un canto comprometido, despojado de superficialidades. La cultura popular se nutre de las expresiones del pueblo, y los artistas tienen que estar atentos a captarlas como esponjas y volcarlas en sus trabajos. Eso hicieron esos dos grandes referentes de nuestra cultura popular, y eso intentamos hacer nosotros. Uno de los objetivos de este viaje es nutrirnos de las realidades de esta extraña y rica mezcla latinoamericana, y dejarnos influenciar por sus matices. Antes de salir de gira veíamos grandes diferencias entra la cultura popular sudamericana. Las distancias entre Brasil y Perú, para dar un ejemplo, nos parecían enormes, o mismo entre Argentina y Colombia. Sin embargo, luego de haber experimentado sus culturas, su gente, y sus paisajes, nos dimos cuenta que esas distancias están basadas en preconceptos, y todos tenemos una historia común que nos une mucho más de lo que imaginamos. En esencia somos mucho más parecidos de lo que creemos, y las pequeñas diferencias son las que nos enriquecen como pueblo latinoamericano. Esa maravillosa cultura popular que tenemos en común, es la que nos permitió compartir nuestra música a lo largo de tantos kilómetros. Más allá de los diferentes lenguajes, ritmos, o estilos, siempre estábamos hablando en un mismo idioma.

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Viajar pela América do Sul, deve ser mesmo uma experiência encantadora. Qual o itinerário que vocês fizeram? O que mais marcou vocês na passagem por estes países?

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Esta gira se dividió en dos partes. La primera (2010-2011) recorrimos toda la patagonia Argentina-Chilena, llegando casi donde termina el continente americano. En la segunda (la actual), salimos de Buenos Aires, cruzamos los andes a más de 5500 metros de altura, hacia Chile. Pasamos uno de los desiertos más áridos del mundo (Atacama) hasta Perú, donde nos divertimos en intrincados caminos de montaña y experiencias culinaras. De allí subimos bordeando el océano Pacífico, pasando por Ecuador y su diversidad de paisaje y cultura, hasta llegar a Colombia, tierra del café y la amabilidad. Ya cerca del extremo norte de Sudamérica, llegamos a Venezuela, a bañarnos en las cálidas aguas del caribe y sus ritmos. Siguiendo hacia el sur, nos adentramos en la selva amazónica, para comenzar a transitar por la enormidad de Brasil y bajar por el Litoral Atlántico, conociendo todo tipo de paisajes y costumbres diversas. Luego fuimos para el interior, donde conocimos la Chapa Diamantina y Mina Gerais, llegando así a Teófilo Otoni.


No show que fizeram em Teófilo Otoni, no Espaço Cultural In-Cena, vocês falaram sobre de problemas ambientais trazidos pelas grandes mineradoras. Vocês tem alguma posição política que perpassa o projeto? Se sim, qual?

Sí, nuestra posición relacionada con los problemas ambientales es evidente en nuestras canciones. Desde la biología y la música, siempre hemos intentado difundir y educar sobre las problemáticas ambientales. Respecto a la megaminería, en este contexto político y económico actual, creemos es una actividad incompatible , tanto desde el punto de vista del cuidado medio ambiente natural como del social. El mal uso de químicos venenosos (como el cianuro o ácido sulfúrico), el abuso de bienes naturales como el agua, o la des-culturización producida por una actividad extractiva intensiva, nos parece perjudicial para cualquier pueblo. Conocemos y apoyamos muchas luchas ambientales, de pueblos que se han unido para decir NO a estos atropellos. En algunos casos se ha logrado (mediante voto directo del pueblo). Son necesarios cambios en las políticas, en los controles, y en las lógicas económicas. Desde nuestro lugar seguiremos difundiendo esas luchas en cada recital para que más personas se concienticen sobre este problema que nos toca a todos.

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Nas estradas e estadas durante quase um ano, vocês tiveram experiências com expressões da cultura popular dos outros países? Se sim, como foi? Isso vai impactar no trabalho de vocês como artistas? Como?

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Sí, hemos compartido con muchos músicos. Sin dudas no somos las mismas personas ni artistas que eramos cuando salimos de Buenos Aires. Fuimos captando y procurando nuevas expresiones, ritmos, estilos, que nos fueron moldeando internamente. Nuestra idea es incorporar ritmos nuevos en nuestro repertorio. Queremos seleccionar una canción de cada país, una que sea representativa, y hacerla en el marco de un espectáculo con la línea temática de éste viaje.


Por fim, o que sugerem a artistas que também desejam pegar estrada de forma independente?

Que muestren su trabajo sin preconceptos. La gente sabe percibir cuando las expresiones son auténticas. Que se organicen. Hacerlo de forma independiente no quiere decir hacerlo solos. En todo el camino hubo gente que nos ayudo que nos dio una mano y nos empujó a que sigamos firmes por el camino. Que sean perseverantes. Lleva mucho trabajo, dedicación y esfuerzo, pero al final la verdad que vale la pena. Y que disfruten... viajar con la música (o con cualquier proyecto que gusten) es maravilloso.

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Por natureza, o ser humano é gregário, procura encontrar-se, associar-se, reunir-se. Uns mais, outros menos de acordo com as características pessoais de cada um, sinal também da diversidade de modos de ser, existir, sentir e conceber o mundo e as relações. Atualmente temos variados meios de comunicar, registrar e intercambiar e muita informação disponível. Mas nem a disponibilidade de meios ou de informação conseguem substituir o fato que as relações são acionadas indivíduo por indivíduo. A sociedade vem dando cada dia maior importância ao pensamento individual e à posição individual de seus membros, o que é retrato do nosso tempo e poderia significar a “libertação do indivíduo para dizer o que pensa”. Porém, promovendo somente o indivíduo, pode também provocar um exasperamento das posições pessoais em detrimento de posições de interesse coletivo ou público, naturalmente. A contemporaneidade é essencialmente este universo paradoxal onde teríamos tudo para

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aproximar-nos, mas as práticas cotidianas não permitem a aproximação, pelos mais diferentes motivos. Nos ambientes-padrão do dia a dia cada vez mais as pessoas se sentem levadas a assumir a postura de "resolvo-o-meu-problema-de-agorae-já-é-muito". Algo fundamental para a instauração de novos contextos é a compreensão da urgência de assumirmos em conjunto novas posturas e novos compromissos em busca do bem comum. Pensar formas de escapar do isolamento, do individualismo "avulso", que privilegia o voluntarismo e a delegação descompromissada. É importante situar a discussão do sentido de bem comum para além do atendimento imediato dos interesses pessoais ou momentâneos ou apenas para a resolução de "problemas", vez que, desaparecido o problema, a tendência seria o desaparecimento do espaço coletivo que motivou o aparecimento da reunião ou da comissão criada. O sentido precisa ser outro. Ao invés do quadro de "unidos-apenas-pararesolver-problemas-que-surgiram", o que se coloca é que precisamos avançar no sentido

de construir continuamente um espaço público onde a vida possa ser melhor para todos. Não podemos mover-nos apenas à custa de problemas, mas precisamos mover-nos também com base em metas e sonhos possíveis. Poiesis, no sentido pleno e mais autêntico do termo como invenção, ou como DEHEINZELEN (2012) propõe: É preciso sonhar e semear imagens e ideias de futuros desejáveis que possam inspirar inovação e orientar escolhas, sobretudo na direção da mudança de modelos que necessitamos para o mundo melhor – e possível... a maneira como enxergamos o futuro influencia sua criação. As escolhas de hoje desenham o mundo de amanhã. Mudando as escolhas, podemos mudá-lo. (p.10)1 1

DEHEINZELEN, Lala. Desejável mundo novo [livro eletrônico]: vida sustentável, diversa e criativa em 2042. São Paulo : Ed. do Autor, 2012

Não precisa ir longe, pensar nos "grandes eventos cívicos" de construção da coisa pública, no parlamento ou nos conselhos. Em qualquer ambiente que seja deparamo-nos o tempo todo com exemplos cotidianos de experiências limitadas de senso coletivo. O que acontece

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nos conselhos, comissões e espaços públicos de deliberação é apenas reflexo dessa pouca disposição concreta para a busca do bem comum. Por outro lado, o artista, por trabalhar diretamente com o ambiente da sensibilidade, muitas vezes não encontra lugar para exercer sua atividade profissional no ambiente corporativo. As precariedades burocráticas e as dificuldades de assumir compromissos que exigem regularidade assustam o artista mais que a média dos cidadãos. Já não basta pensar "não vou trabalhar em empresas, vou ter meu próprio grupo". Neste sentido, o surgimento dos coletivos artísticos aconteceu como tentativa de resolver esta dupla realidade da falta de espaço para encontro e das dificuldades do compromisso continuado e regular. É uma tendência em várias partes do país e do mundo. Encontra-se um coletivo e toda parte do Brasil. Uns mais efetivos e "abertos" e outros mais funcionais e impermeáveis. Para muitos, os coletivos seriam aqueles espaços onde cada um pode ser si mesmo, sem

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tantas preocupações com compromissos ou burocracias, porém é exatamente onde falta compromisso mínimo (ou regras mínimas) que as deficiências aparecem. Alguém tem que ocupar-se do lugar, do comer, do pagar as contas, do limpar o lugar que todos usam, do manter o lugar onde se vive, se ensaia. Neste panorama, alguns chegam à conclusão que os coletivos podem não funcionar, o que não é bem assim. Os coletivos não são a panaceia, não resolvem todos os problemas. No meu entendimento eles vêm conseguindo resolver uma parte sim que é o lugar do encontro, da socialização. Uns mais frágeis, outros mais robustos. Não há como confirmar se contribuem efetivamente para o panorama da profissionalização artística ou excelência artística. Mas pode ser que nem seja este o papel dos coletivos. Dito isto qual papel assumem as "instituições representativas", como os sindicatos, as associações de grupos ou as cooperativas artísticas. O problema da representatividade e das suas fragilidades não é privilégio do setor artístico,


visto que atinge em a sociedade como um todo. Cada vez mais as pessoas acham cômodo entregar nas mãos de alguém a busca de soluções ou a procura de condições melhores. Muitas assembleias de sindicatos de artistas, quando acontecem, têm pouquíssimas pessoas participando. A disposição para os assuntos que envolvem o interesse coletivo/público parece ter perdido força. Num tempo cada vez ‘menos participativo por opção’ e com menor compromisso com a coletividade (vejamos os exemplos de reuniões de condomínio esvaziadas, de associações de bairro esvaziadas, de eleições virtuais de obras de ‘orçamento participativo’, de sindicatos sem representados, por absoluta falta de tempo das pessoas para participar das reuniões coletivas), é bom que tenhamos sim o desejo de incentivar a participação das pessoas, mas que o façamos num contexto de “responsabilização compartilhada” e não só de “conquista de direitos”. Este é o princípio básico da Gestão Compartilhada e parece ser um dos principais desafios que os coletivos encontram. Podemos dizer com segurança que vale acreditar

no trabalho de natureza coletiva e cada grupo precisa encontrar seu método de trabalho e sua forma de associar-se e regular sua atuação em conjunto. Vários são os caminhos que a atividade artística pode tomar. Não há outro caminho senão o de promover a cultura e a arte como componentes primordiais da vida de qualquer cidadão e, a partir do ambiente favorável propiciado por este movimento, desenvolver uma cultura do compromisso com o coletivo como algo essencialmente “seu” também.

José Oliveira Junior Escritor, Comunicador, especialista em novas tecnologias em comunicação; diretor não remunerado de apoio ao trabalhador associado do SATED Minas; Supervisor de pesquisa do Observatório da Diversidade Cultural; Consultor da UNESCO para a implantação do Sistema Nacional de Cultura em Minas Gerais.

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