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Chakumbolo poéticas © 2018 1ª edição Luara Erremays / Nu Abe / Caio Jade projeto gráfico: Gim Macieira Todos os direitos reservados aos autores editado por Móri Zines


Trajetos 7

Abre caminhos

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Irrefreável fim: Seo Joaquim

10 Casas de vó 12 Conhecer idosas, reconhecer caminhos 14 Diário de bordo de Caio Jade #1 16 Mapa afetivo: como chegar na minha casa 19 Errar 20 O que ela achou 22 Diário de bordo de Caio Jade #2 24 Registro de deriva: pra onde vai minha atenção? 27 Irrefreável fim: Dona Queta

texto

células

fotografia continua fim


Abre caminhos Trajetos celulares é um exercício de escuta de mulheres idosas e em Poéticas traçamos mapas literários do que nos afeta nesses encontros. Presenciar os tempos dessas pessoas move nossas próprias histórias de vida, nos reconecta com a cidade e aguça o processo artístico para a alteridade. As próximas páginas são descaradamente sobre nós mesmos: Chakumbolo. Somos um coletivo fluido de pessoas jovens que gostam de ouvir narrativas de outros tempos. Tocadas pela potência e importância de produzir conteúdo afetivo sobre idosos para o público jovem, sobretudo para plataformas virtuais, idealizamos o projeto Trajetos Celulares: não histórias, aprovado pelo Programa VAI em 2017. Nesta série de livros buscamos compartilhar as criações coletivas nas mais diversas linguagens, inclusive os desdobramentos poéticos e íntimos. O intuito é falar a todas gerações, estimular que velhos narrem suas experiências e que as pessoas em idade produtiva possam ceder tempo e exercitar escuta. Olhamos para idosas a partir de nossa perspectiva jovem, permeada por aparatos tecnológicos e virtuais, tantas vezes inacessíveis a essas existências. Pesquisamos mobgrafia, publicações independentes e produções de baixo orçamento, acreditamos ser da maior importância abrir nosso processo do fazer artístico periférico e cotidiano de modo acessível. Vivemos dias em que a produção e difusão de arte não hegemônica, não pasteurizada faz-se exercício político de retomada de subjetividades e expõe a importância de criação que escape de tendências de mercado e consumo. Com carinho e orgulho dos trajetos percorridos apresentamos Chakumbolo Poéticas. Fica para um chá?


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Irrefreável fim: Seo Joaquim Luara Erremays

Luara Erremays

Há duas semanas meu avozinho foi para a UTI devido à complicações cardíaca, pulmonar e renal. Essa é apenas a mais recente de diversas internações que ele sofreu nos últimos 15 anos. Dessa vez estou longe e é estranho não poder falar com ele (que no telefone ao invés de dizer “tchau” deseja “boa sorte”, acho de muito bom gosto e um pouquinho ácido), então recebo notícias por mãe, que me conta, cansada e cheia de preocupação, os poucos minutos de visita. Como era de se imaginar, depois de tantos dias deitado, o ambiente hospitalar levou embora a vontade de comer. Conversa vai, conversa vem, mamãe descobriu que a família poderia levar umas comidinhas pra ajudar na recuperação. Consultando seu Joaquinha sobre o que ele gostaria de comer, a resposta veio de pronto: ‒ Bobó de camarão.

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Nesse pedido tão pequeno, quase simples e bem exótico para um senhorzinho internado, posso ver todo o minimistério do avozinho, cantarolando “cê tá pensando que cachaça é água” na volta da igreja no domingo de manhã, as noites de inverno em que ele me levava ao circo, como por toda minha vida me chamou de Nega Preta, e quando pequena me chamava de Bananinha Ôro, amarela e pintada. Trazia caixas e mais caixas de caqui e goiaba da feira, dormia enquanto via TV e me deixava sentar no encosto do sofá com as pernas no seu ombro, botar sua boina na cabeça e ficar brincando com seu cabelo (ah, o cheiro delicioso de vozinho que o cabelo dele tem). Lembro das histórias dele menino, catando os cafezinhos derrubados no chão enquanto a mãe encarava as horas e mais horas de lida na colheita, com o filho mais novo pendurado nas costas. Menino ainda catando os ourinhos que a bateia do pai deixava escapar, aprendendo trabalho enquanto aprendia a existir, uma vida cheia de labor, de honra, de obrigação. Não posso nem imaginar a dureza que deve ter sido crescer preto e pobre nesse mundão vasto e duro, nascido 40 anos depois do fim da escravidão, aprendendo profissão de cativo. Acho que como todas as existências, ele é tão grande, tão transbordante. Sinto raro esse humor, essa leveza, essa alma passarinha mesmo quando o mundo parece desabar. Bom saber que é disso que eu sou feita. Bom saber que ele segue brilhando.

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Casas de vó Nu Abe Em 2013 desenvolvi um projeto de fotografia de casas de vó. Comecei com a minha própria avó, em Brusque, Santa Catarina. Foi só no dia que fui visitá-la pra fazer as fotos que percebi como a casa dela era realmente muito legal. Cada cômodo, cada detalhe me fascinava, e me despertava também memórias de infância, de tantas brincadeiras com os primos, natais em família, aniversários, do meu avô cortando cana pra gente chupar. Memórias que nas idas à casa da minha vó sem a câmera, não eram tão intensamente ativadas. Visitei também outras avós em outras cidades de Santa Catarina, no interior de São Paulo e a casa de uma pajé em uma aldeia em Arraial d´Ajuda. Nos lugares que ia, aproveitava para fazer esse contato e conhecer avós de pessoas amigas, e pessoas que abriam suas portas pra mim. Geralmente passava uma tarde, tomando um café e ouvindo suas histórias. Foi um projeto muito prazeroso, acolhedor, aprendi muito com cada avó. As imagens foram feitas com câmera dslr, com uma lente grande angular 12-24mm, que dava conta de registrar a amplitude dos espaços, e uma lente 50mm para os retratos e detalhes, que traz uma estética de suavidade. Tenho muito mais imagens, inclusive de outras avós, e depoimentos em video. Inscrevi em alguns editais, mas não passei e o projeto acabou sendo engavetado. Mas as imagens seguem vivas, e ainda gostaria muito dar continuidade na pesquisa, e transformar em um livro. Esse era o texto de apresentação, escrito por mim e Lou. Hoje provavelmente mudaríamos algumas coisas no texto: “Casas de vó” surge do desejo de eternizar memórias e culturas ameaçadas de extinção dentro de um curto prazo devido ao avanço de um modus operandi fruto de um sistema autofágico que já não pode sustentar o seu próprio passado e o estilo de vida simples e despretensioso daqueles que com o seu trabalho forneceram o impulso para que fossem forjadas as suas primeiras fundações.

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São casas antigas e humildes, cada qual a sua personalidade, assim como suas moradoras, com mobília e decoração de outra época, e com retratos dos entes prezados de diversas gerações – os mais antigos, que já se foram; os mais novos, que partiram para uma vida mais moderna em novos lares. Pequenas e modestas casas, onde famílias inteiras foram criadas, onde o espírito de um verdadeiro lar ainda subsiste, mesmo no vazio deixado pelas ausências. Moradias anacrônicas, verdadeiras poesias em forma palpável, que vêm sendo, porém, continuamente e cada vez mais cercadas pela agressividade pragmática do asfalto e do concreto, e que em breve darão lugar a lançamentos luxuosos e caros, mas ainda assim compactos e frios. São pessoas das mais diversas origens, profissões, crenças e sotaques, que já se encontram no fim de uma longa vida de conquistas e perdas, e no momento mais frágil de sua trajetória no mundo. Vidas em que os anos são curtos, os dias longos e as horas por vezes alegres, por vezes tortuosas, lembranças guardadas em baús e na memória, recheadas de histórias de um tempo feliz, de histórias de tempos sofridos, que elas nos contam com suas palavras, gestos e olhares.

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Conhecer idosas, reconhecer caminhos Luara Erremays Numa dessas tardes quentes que fez no nosso inverno, estava voltando para casa meio seca depois de, encharcada de chuva, atravessar a cidade pelo subterrâneo. Levava na bolsa um conjunto de gouaches que me prometiam felicidades mil, e as frutas de dois reais a bacia que o moço vende na saída do metrô. Sempre que posso compro dele. Nunca pedi desconto, ele por sua vez me oferece uma bandeja a mais por metade do preço quase sempre; de sexta ele leva o aparelho de som que toca reggae e brilha cheio de leds. Naquele dia, o último lugar vazio era do lado dela. Sentei. Me disse quais eram as suas frutas favoritas, os pés de planta que tinha no seu quintal, que suco era bom pra cada coisa. Disse que antes só tomava Tang e o médico proibiu, daí começou a fazer suco em casa mesmo. E não é só de laranja, não: de pepino, couve, manga, acerola. “Até de babosa dá pra fazer suco, sabia?”. Agora nunca deixa de tomar os remédios, mas sabe que os sucos fazem muito bem, e se não fossem eles não teria a saúde que tem. Me passou seu endereço, me disse para visitá-la com frutas, para a gente conversar e tomar sucos. ‒ Enrolei o dia todo para ir ao mercado, e quando saio de casa já passa das 21h30, minha avó não gosta. Vou chegando com o passo acelerado, subo a rampa desligada e quando estou quase no topo, percebo aquela senhorinha que não se aguenta em pé. Ofereço meu braço e companhia rampa abaixo, ela diz: “quero sim, hoje tô com as vertige”. Vai me contando, passinho de cada vez, que veio da Amador Bueno pra encontrar o sobrinho, mas ele deu o bolo. Depois de uma certa hora, fecha a saída de pedestres do mercado 24h, temos 12


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que entrar e sair pelo estacionamento. Os carros parecem não nos ver, vão tirando finas da dona Tininha que sentencia: “Melhor mesmo é ir pela rua que eles não vão ter coragem de passar por cima”. Desiste de esperar o sobrinho, e a acompanho até o ponto de ônibus. Ela insiste que é velha, que pode ir sozinha e minha avó me espera em casa. Me despeço, ela me abraça com os braços em volta do meu pescoço. Pergunta: “você acredita em trevo de quatro folhas?” digo que sim, ela abre a pochete, tira um saquinho e diz: “pega um aqui. Você bota ele num saquinho dentro da carteira”. Pergunto se ela tem telefone: “o meu eu não lembro não, mas é só ligar no segundo batalhão [da PM] e perguntar pela Ti-ni-nha. Todo mundo me conhece lá”. ‒ Tenho aproveitado as tardes existenciais e a internet sem limites para ouvir videos motivacionais no Youtube. Uma mensagem que tem se repetido é a seguinte: “o que você busca está buscando por você”. Às vezes me pego idealizando o objeto da minha procura quando sei que só é necessário abrir os olhos e ouvidos para as pistas que os caminhos dão, e desde o começo desse projeto, em 2016, aprendi a abrir minha percepção para mulheres idosas, suas preocupações e ensinamentos. Sejam sucos, trevos de quatro folhas ou a importância da fé em Deus. Pouco importa qual é a narrativa, mas importa que elas narrem, tenham vontade de falar, e que se proponham a abrir suas vidas e saberes a uma estranha no caminho, alterando meu corpo no mundo, trajetos celulares.

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Diário de bordo de Caio Jade #1 Caio Jade

"Somos (...) imortais mesmo que em memórias esquecidas" Oração à vitória, Baco Exu do Blues Foi há poucos anos, e não poderia ser diferente dada minha pouca idade, que tomei consciência do que poderia ser a História, as Ancestralidades. Enquanto caminhava em uma rua de Santo Amaro, em São Paulo, percebi que os passos que eu dava, onde eles cortavam e cruzavam com meu corpo presente, muitos outros seres e histórias já haviam caminhado; percebi que o presente é prenhe de muito passado e experiência, como se o tempo e o espaço fossem feitos de diversas camadas que podemos acessar indiretamente, nas teias do inconsciente, nas percepções largas menos racionais. Memória talvez seja uma tecitura, talvez tenha mais a ver com fiandeiras do que com coleções de álbuns de fotografias guardados em gavetas; talvez ela se esconda, poética, em detalhes quase esquecidos nas poeiras do cotidiano, ou talvez ela se revele viva e ativa nas falas repetidas e persistentes daqueles e daquelas já velhos e velhas que deslocam o real ficcionando outros mundos possíveis com os quais a civilização não quis que nós nos acostumássemos; a juventude é impaciente com a velhice, talvez porque não entenda a poesia da subjetividade daqueles que já marcaram muita terra com os pés, e os rostos com o vento. Noto nos meus risos, nas minhas lágrimas, uma fome de vida que por anos não foi possível. Olho aqueles e aquelas que se preparam para partir desse mundo e noto a mesma fome brilhando em seus olhos. Talvez a gente nunca desista, talvez a vida seja luta até o último instante. Na infância, na juventude ou na velhice, parte de nós é bicho insaciável que pulsa e sonha vencer a morte; entre desejos e cansaços, nos fazemos imortais.

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Caminho pelas ruas, pelos bairros, pelos Estados do Brasil; o fio do corpo fura, corta, se entrelaça com outras tantas milhares inimagináveis malhas de Histórias. Tecidos de sentidos, de sensações, me trazem a certeza de que aquilo e aqueles que parecem miúdos precisam ser ouvidos, que é só a escuta que pode mudar o rumo das coisas e diminuir as desigualdades. A escuta pode nos levar às camadas do que já foi, do que compõe aquilo que agora é. Escuta ativa, participante, como uma fiandeira sentada ao lado da outra em uma fábrica em São Paulo no início do Século XX, como minha avó e sua irmã. Memória é aquilo que nos veste, nos protege, nos configura, dá forma, prepara quem nós somos e para onde vamos. É presença grávida de passado, sem ser linear. É arbitrária, interpretação ao gosto das paixões, se forja em ringues no inconsciente onde não controlamos nada. Eu gosto é do que chega, do que colocam no mundo. Gosto de ouvir minha vó contando tudo que quer, ver sua fala puxando os ânimos e o resto do seu corpo magro e cheio de dores em gestos. Não tem nada a ver com realidade ou ficção, verdade ou mentira, ou com proximidade com fatos, é o melhor do teatro, como é com todo mundo - em qualquer idade -, é liberdade e subjetividade, precisa ser escutado e acolhido. Seria esse, então, um milagre na poeira do cotidiano, uma história lançada ao vento, ao mar, esquecida entre os fios do destino e que, já não mais fazendo parte do nosso consciente, vai ser parte da nossa imortalidade. Nunca me esqueço do ato epifânico da Maude, no filme “Harold and Maude” do ano de 1971 - brilhantemente traduzido como “Ensina-me a viver”, onde a senhora, já velha, ao receber um presente carinhoso do jovem por quem se enamorara, lança-o ao mar dizendo “agora sempre saberei onde ele está”.

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Mapa afetivo: como chegar na minha casa Nu Abe passo pelo rastro do espetinho que custava um real e sempre tinha um monte de caras ali mas ele não existe mais dizem que mudou de lugar mas não sei pra onde foi mas pra mim ele continua existindo pois sempre que passo ali vem essa lembrança que é recente até e vem até o cheiro se bobear vez ou outra observo um detalhe alguma casa que nunca tinha reparado isso acontece mais quando ando em companhia com alguém tem uma pizzaria sorveteria que é a última a fechar e quando passo e ela já está fechada vejo que é tarde mesmo e lembro da minha mãe falando pra sempre pegar lotação porque é perigoso porque não tem ninguém na rua mas é tão boa essa sensação de escuridão e ninguém na rua tem a igreja com seu letreiro escrito algo tipo vamos acordar todos juntos contra a exploração e sempre lembro de ti quando passo ali pois tu que me fizeste perceber a mensagem que eu nunca tinha lido mesmo ela sendo luminosa vermelha gritando me leia por favor tem a igreja redonda da cúpula azul à qual pertence esse letreiro e parece que tudo gira em torno dela várias ruas dão até ela e lembro às vezes do velório do meu avô há uns quinze anos que foi ali e lembro quando passo pela escada da igreja de quando entramos eu joão e carla ali e tinha o santo antônio e vitrais lindos e dentro era tudo azul por conta da cúpula e sempre tenho vontade de dar uma entrada mas essa hora ela já tá fechada e sigo subindo me aborreço um pouco com as subidas que são tão brandas mas meu corpo e principalmente meu pulmão insiste em não gostar delas mas vamos lá passo pela banca inabitada e sempre penso que ali atrás entre ela e a pracinha a primeira pracinha do caminho tirando a praça do lado do metrô dá um bom esconderijo de gente bate uma pontinha de medo mas não é nada continuo seguindo pela escola e as coisas todas pintadas no muro que nem lembro direito o que é segunda praça e a feira que tem toda terça à tarde ali o bar vermelho que marca o meio da jornada é um bar engraçado que tem uma escada de caracol branca pequena na área externa que dá pro nada, uma stairway to heaven sempre te16


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nho vontade de subir nela cantar uma música ali em cima dar um close sigo reto tem a casinha azul um semi nível abaixo da rua na esquina do outro lado do bar que sempre tem umas roupas coloridas no varal mas à noite a cor é o escuro e as roupas não existem gosto disso mais uma praça quando não é tão tarde sempre tem uns boy fumando beck nessas praças às vezes fico meio desconfortável de passar por não saber se eles vão mexer comigo na real mexer quase nunca mexem mas comentam mas prefiro passar do outro lado da rua aí tem a praça que sempre tem os despachos vasilhas de barro com frutas comidas dentro as vezes uma pomba morta dentro as vezes as penas as pernas ensanguentadas caídas no meio da calçada e os rastros das macumbas perduram durante dias ali tem os lava rápido um murão com um carro amarelo grandão pintado e na placa escrito jordânia que é o nome da rua essa rua fofa cheia de praças e do outro lado do lava rápido mais uma praça onde tem os cachorros pretos que sempre latem e os cachorros dentro das casas que sempre latem também quando passa gente e quando é outono tem um pezinho de pitanga e pitanga me desperta uma nostalgia boa da infância passando a praça dos cachorros pretos onde tem também a casa das crianças onde um dia era dia das crianças e elas tinham colocado todos os brinquedos pra fora de casa e tavam ali na calçada brincando e parei ali e fiquei brincando umas horas com elas mas hoje não lembro dos rostos sou muito ruim com isso adoraria visitá-las fazer amizade com elas mas a timidez me faz sempre apenas passar reto ali aí logo vem o posto onde uma vez um cara doidão tava ali cuidando da conveniência e nos chamou pra sentar beber um vinho e ficou falando de como ele era bicho do mato e falou que no momento ele tava morando ali mesmo e mostrou onde dormia num espacinho na própria conveniência em meio a bombas de gás e o cheiro forte e o colchão no chão e a mochila e uns livros e tem o mercado do outro lado da rua que depois de fechado fica tocando uma rádio toda noite lá de dentro e fico imaginando mil coisas que possam estar acontecendo atrás daquele portão aí tem a casa que é em cima do dentista que é a casa que uma das meninas do dia das crianças disse que mora e eu adoraria bater ali um dia e chamar ela pra brincar e depois sempre fico na dúvida se subo pela rua da pracinha que é mais legal mas a subida é maior ou pela rua do 17


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lado que a subida é mais de boas e geralmente vou pela menor subida passando pelo milkshake que fui com a tay e tem a loja onde às vezes compro ervas pra banhos e a casa de umbanda que tenho vontade de conhecer mas que meus pais recomendam que não porque tem umas vizinhas bem treta bem treta mesmo familia italiana briguenta mas que briga por uns motivos muito errados e odeiam meus pais por histórias do passado que frequentam e fazem trabalhos ali e acho melhor mesmo não ir e chego na minha rua que gosto muito não porque é uma rua bonita ou interessante esteticamente mas porque as pessoas aqui são ótimas e passo pela casa do carlão e da tereza e sempre tenho vontade de entrar ali pra tomar um café porque eles são tão legais e passo pela casa onde sempre tem cheiro de cocô e o terreiro que frequentava onde aprendi muita coisa e abro a mochila pego a chave de casa abro a porta e ufa operação realizada com sucesso agora é correr pro abraço do colchão do computador escrever alguma coisa ver o facebook assistir netflix comer e dormir.

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Errar Luara Erremays Cresci caminhante, acho que porque não tínhamos carro e caminhar era possível e prazer: andar pelo bairro para a casa dos amigos, para a feira, para o centro, todo trânsito começava em caminhada. Tem sido assim pelos anos, ainda que cada vez mais adulta já não me equilibro pelas calçadas, não ando de costas, meus olhos não são tão apurados para encontrar amarelinhas pintadas no asfalto. Vou adultescendo e caminho porque tenho vontade, não tenho dinheiro e nem tenho nada melhor para fazer. Caminho no verão para sentir o suor e o rosto em brasas, caminho no frio pelo conforto elegante das mãos nos bolsos. Caminho porque sempre um muro mudo para ser avistado, conjecturado, transbordando ideias. Lento fui me percebendo errante, sempre perdida, deslumbrada com as casinhas, as vidas, os matos-flor que crescem por tudo apesar do concreto: resistências vegetais. Me guio sem as placas, prefiro seguir meu instinto senso de direção que funciona e quebra constantemente, por razões que desconheço. Sigo esquerdas e direitas se um cachorro me segue, se uma criança dá tchau, se tem um pé de fruta no caminho. Erro pelas ruas dançando meu ritmo inventado, escuto a especulação imobiliária e seus beats sincopados, os passarinhos que me erguem pelas orelhas, noises harmônicos embalam meus caminhos. Erro mais porque tenho pés e há sempre um caminho.

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O que ela achou Luara Erremays Ela acordou já na tarde do sábado, a língua arranhando o céu da boca. Os olhos toda hora queriam saltar e borbulhar pororocas afetivas, o transbordar de existir com um corpo vivo que resiste, geografia trajetos que atraem e repelem; potência criadora, capaz de afetar-se. O estômago que existe mar revolto. Os dias tem se amarrado de um jeito estranho, e me lembro de finitudes no crepúsculo e dos sonhos na manhã. Caminho o tempo, e chega a ser engraçado como os meses se torcem e se tocam, o emaranhado de idéias que, afinal, era trança. Ontem cheguei no apartamento dele, um quase convite, mas ainda assim entrávamos todos e tantos, ele nem sabia as nossas caras, as nossas vozes. Nunca tinha entrado na casa de alguém assim, cheia de dedos e desejos, um enorme olho curioso, devorando tanta gente, tanto concreto e os cobertores de prédios e antenas que escorrem pelos mirantes quadradinhos. Quando ele soube de nós, achou graça de não saber a verdade, e cheios de linhas retas abriu caminho entre intimidades tão fundas, sem pedir nada, apesar do seu corpo tocado, a sua cama espiada, os papéis coloridos no lustre, deus essa gostosa e as pastilhas coloridas na cozinha. Nas pastilhas eu já não podia mais segurar, tudo se confundia e espalhava água-e-sal. O chá era de calêndula e hibisco, a uva do desejo, as grandes doses, o bule pequeno, o copo de vidro. Cada objeto atingia tão fundo, subjetivos e exatos, pequenos empurrões em mergulhos de memória. Me senti alinhavada, conduzida por uma narrativa que existia naquela pele, naquela voz, nos olhos que não tremiam. Quando ganhamos a rua, fui percebendo tantas intimidades urbanas secretas, um enorme poder sobre a rua não porque aquela, mas porque rua, e sobre os humanos não porque ela, mas porque humana, genérica, transparente, permeável. Um enorme encontro sobre permissão e entrega, sobre grupos, humanidade em solidão, sobre confiar, sobre intimidade, sobre arte na sua potência máxima de revolucionar existências pelo maravilhoso. 20


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Descobri o Leonilson porque conversei sobre loucura urbana com Gabi Nu, contei que estava produzindo, que tinha começado a gravar videos e assim conseguido voltar a falar, primeiro comigo e depois com os outros. Com ela. Ela me disse para ver “A paixão de JL”. Vi e me atropelou, fui arrebatada por tudo, pela voz do Leo contando segredos de insanidades e produção, as obras tão fortes, a edição, esse rapaz sem rei todo choroso. Uns dias depois, numa das minhas experimentações de volta ao facebook, mamãe me marcou no cartaz da peça. Há pouco mais de um mês começou Trajetos Celulares, devir de cartografia afetiva do bairro que nasci e que voltei a morar há alguns meses após a morte do avô. O projeto foi escrito há muitos meses, no alto de uma montanha entre uma lagoa e o mar. Há algumas semanas, decidi sair de casa sozinha para ir a um lugar novo pela primeira vez em meses, e fui ouvir o Flávio Rabelo falar na Ação Educativa pelo Projeto Leonilson. Fiquei tão afetada, tão mexida. Acreditei que era possível fazer o impossível e esse projeto ser real, ganhar corpo e alma. Ontem fui viver a Cartografia do Afeto, que pareceu juntar tantas dúvidas e fragilidades num corpo duo, como nós, seguirmos juntos por caminhos tão diferentes, que se encontram ou não. Me privar da segurança celular de olhar com o olho da câmera e não gastar o meu próprio olho fragilidade com o mundo. Ele falou no meu ouvido, esse espaço tão íntimo, no escuro da solidão, no cair da noite, e por alguns segundos fui corpo inteiro, inundado pela voz do desconhecido tão íntimo, que me dizia pra ir sem olhar para trás. Até onde foi possível, eu fui. Então voltei, saí pela porta e não sabia onde eu estava, e apesar dos carros tão furiosos, de uma solidão sufocante, eu pude apenas escolher um lado, e ir. Para alguns passos depois encontrar olhos, sorrisos e abraços de 10, 12 anos atrás. Meia quadra compartilhada, e um encontro tão enorme que me deu força pra caminhar, perguntar na rua, não me perder, chegar até onde precisava chegar.

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Diário de bordo de Caio Jade #2 Caio Jade Quando eu nasci, ela já era velha. Carregado pra dentro da casa, nos teus braços de imperatriz, eu pequeno soldado; “essa é a tua casa. seja bem-vinda, Jade”. Ela cuidou de mim, cuida. Nas orações, no pensamento, no dinheiro da pensão do marido, avô falecido logo antes do meu nascimento, mecânico (sempre asseando as unhas e dedos pra não ficar cheio de graxa), ela me mira e olha e me aceita, eu assim menino aos 25 anos de idade. “Agora é filho então? meu Cainho, meu Caio. Vai ser pra sempre minha Jadinha”. Toda doçura, mimo e amor de vó. Avó é fundamento, é a ponte pro mundo onde aprendo o que pode ser a responsabilidade, a honra e a gratidão; viver no mundo se torna um pouco mais fácil quando passo a ouvir o que os mais velhos têm a nos dizer; agora eu entendo. Ela deu sua vida aos outros. Magrinha e fraquinha, agora é ela quem pede por carinho, mimo, atenção quase total. É a demanda da velhice, essa segunda infância, mas plena de experiência; é corpo que transborda não mais de potência, como nos pequenos, mas de plenitude e realização de si mundo. Ali o desejo ainda pulsa, nunca para; remói, remonta e atualiza, busca caminhos possíveis, busca suportar o presente de velhice e de impossibilidade motora, impossibilidade de bem estar emocional atual. Helen Puosso Cardoso Gouveia. Algumas filhas invejam o Puosso quem não têm no nome, outras se gabam por ter. Menina pobre do interior do estado de São Paulo, Birigui. Conheceu a fome, a mudança pra capital aos 9 anos de idade pra servir de empregada doméstica em troca de casa e comida a uma família. Filha de imigrantes italianos. Helen é fundamento, estrutura e assentamento. Firme de fé na Congregação Cristã do Brasil. Nascida em 1926 no dia 6 de dezembro, sagitariana. Em três dias, completará 91 anos. Minha avó, minha ancestralidade. (...) Tenho 25 anos, desses, 24 foram vividos impostos dentro de uma pele de cordeiro cisgênero e feminino. Criado como princesa, loiro, branco e de olhos claros, cabelos lisos, diferentes dos da mãe, 22


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comportamentos masculinos, mais masculinos que os da mãe - bastante masculina para os padrões de uma mulher. Criança e adolescente que rompeu fronteiras da cisgeneridade, Trans então, como se diz. Queria dizer da sensação que é ter a si mesmo meio tarde, já não tão cedo quanto alguns podem ter. Perder uma família e conquistar uma nova mesma família na vida adulta. Hoje eu sou quem eu sempre quis ser e sou aos poucos reconhecido por eles. Tão tarde os conquisto e me vejo então em História e neles, como parte genética e histórica daqueles corpos tão vivos quanto eu, tão cedo percebo a possibilidade de perdê-los para o Tempo. Minha avó anda se encaminhando pro descanso disso tudo aqui. Me lembro da morte e dos anos que passei tão próximo a ela, ideando diariamente meu próprio fim. Três anos, então. Na lateral da coxa agora a dor e a libertação de todo mal passado. O sol que se abre, o vento que entra, o futuro possível. Me recordo da vida única, diferente de tudo que já provei, no beijo de língua em uma mulher de 80 anos de idade em uma cadeira de rodas performando sua própria morte - para fugir dela. Me recordo das mulheres velhas que me rodeiam e das quais agora me afasto em gênero, me constituindo como alteridade. Recordo as canções de Caetano, Chico, Elis, Milton, Luis Armstrong, Bob Dylan, Mercedez Sosa que me fizeram o berço. Eu leãozinho ninado pelo embalo com tapinhas de minha mãe. Jorra tudo agora diante da preparação da leoa mais velha que logo caminhará em direção ao Sol, se distanciando da nossa manada, deixando nas nossas mãos a grande responsabilidade de dar continuidade ao seu legado de amor e de cuidar das nossas vidas por nós próprios, zelando nossos futuros.

À Helen Puosso, fundamento e firmamento, avó, mãe e esposa. Pelos curranchinhos de galinha chupados, pelos novelas assistidas, pelo dramático jeito de se sentir no mundo; pela fé inabalável, pelo conhecimento firme de que a gente nunca anda só quando tem fé no coração. 23


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Registro de deriva: pra onde vai minha atenção? Nu Abe comecei no parque os espinhos das árvores as formas os contornos as curvas observando cada árvore cada detalhe como são lindas como são resistentes brigada migas por rexistirem nesse lugar tão uó vocês ahazam muito e o rio ah o rio todo sujo todo fedido tadinho todo cheio de lixos e toda a sorte ou o azar de coisas seguindo a correnteza me chama a atenção uma sacolinha plástica amarela seguindo o fluxo com a água cor de burro quando foge mas não consigo pegar o cel a tempo pra fazer um video um rio nunca é o mesmo rio e um rio numa cidade só piora sorte desse de ainda estar vivo sorte dele de conseguir ao menos ver a cor do céu e algumas árvores e passarinhos tantos outros por aqui não tiveram o mesmo destino “feliz” tantos outros foram soterrados sem dó nem piedade e tão presos embaixo dos nossos pés embaixo de trocentas camadas de concreto esse pelo menos tá “livre” só que não né mas é rio é força é fundamental valeu migo vc é muito importante pro mundo força aí que um dia essa fase ruim vai passar encontro os migos sentamos os quatro numa árvore pra trocar ideias informações estabelecer parcerias diálogos entre projetos momentos agradáveis tempos depois seguimos a vida pelo parque observo as pombas duas delas tão fofas de boas na viga de cimento em cima do rio penso em fotografar mas mudo de ideia pois penso que pombas em cima de vigas é algo tão comum pras pessoas que talvez a imagem não seja interessante mas nesse momento me bateu a atenção pras pombas e a partir daí comecei a observá-las meio que sem querer minha atenção caía sobre elas passamos por uma criança deitada no chão de concreto sendo criança apenas se movimentando de um jeito qualquer sempre tenho vontade de fazer igual mas só pra criança é permitido pq crianças não são levadas a sério aí tudo bem ficar brisando mais adiante uma oferenda pra cosme e damião atravessando a rua um varal de salgadinhos pipocas e amendoins compro dois amendoins e uma pipoca tudo por um e cinquenta pergunto se pode fotografar o varal ele todo temeroso mas gentil rapidamente responde que não pois ele não pode 24


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estar ali com esses produtos um cara passa e pergunta pra ele como faz pra carregar bilhete único ele responde que carrega no bolso mesmo me despeço ganho mais uma pipoca continuo observando e tentando filmar as pombas elas são tão lindas tão de boas mas pássaros são criaturas tão ariscas quando outras existências esboçam movimentos de se aproximar eles já fogem bem que fazem tão certos passei um bom tempo tentando me aproximar das pombas e vez ou outra de alguns outros passarinhos coloridos que apareciam mas esses são mais ariscos ainda faço alguns videos que talvez não sejam interessantes pras pessoas pois são só pombas meio de longe andando nas vigas da ponte mas eu gosto e o olhar é meu e o afeto é meu então resolvi fazer porque isso aqui é também sobre o que nos afeta pra onde a gente olha pra onde vai a nossa atenção continuo o trajeto e então surgem os pés de amora algumas no chão gosto do chão olho muito pro chão muitas amoras no chão elas caem e tingem muitas manchas roxas de ex amoras que habitaram esse chão são lindas elas no pé e a imagem esmagada delas no chão é tão linda quanto trágica agora são as amoras esmagadas que me distraem e fico ali durante um bom tempo observando e fotografando as amoras esmagadas as mais recentes molhadas brilhosas mucosas sangue fresco as mais antigas já secas já desaparecendo definhando e as manchas que elas deixam de rastro depois de tudo observo também as flores secas no chão o chão é lindo não consigo parar de me admirar com cada detalhe do chão até com os lixos ah os lixos observo um por um eles não são lindos são sintomáticos a imagem deles é forte as tampinhas de garrafa embalagens bitucas quanto lixo em todos os lugares compõem junto a paisagem um cara sentado vendo o movimento dos carros insanos na avenida me chama e me mostra que mais adiante tem muito mais pés de amora vou seguindo encontro famílias colhendo amoras crianças avós o neto que sobe e chacoalha o pé pra gente pegar as amoras que caem no chão como são frágeis uma queda pode machucar caem muitas a maioria fica ali mesmo no chão salvo algumas as senhoras com potinhos pra guardar as amoras as amoras no asfalto os carros passando sem trégua os passarinhos cantando sigo adiante sinto que é hora de sair do mato de derivar na cidade sigo sem conseguir parar de me admirar com o chão vejo em cada rachadura um universo em cada verde que nasce entre o concreto uma esperança 25


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é ridículo mas é bonita essa imagem vejo rios raios raízes crateras superfícies lunares vistas de satélite olhos de et a maneira como as cores dialogam com os traços os ruídos nas calçadas partidas as árvores sobrevivendo buscando espaço pra que suas raízes possam respirar uns caras sentados numa mesa dentro de um restaurante me chamam e pedem pra que eu tire uma foto deles sigo adiante sendo guiada pelas distrações os troncos das árvores estou na cidade agora mas o mato ainda me chama os troncos um cactus imponente com brotinhos no topo as águas de coco no cercadinho paro no local das águas de coco gostei do lugar as paredes verde e roxas os salgadinhos lucky no varal parece um lugar na beira da praia de cidade pequena o cara que trabalha lá sentado numa mesa olhando a vista que poderia bem ser o mar mas era a avenida onde os carros não param de passar nem por um segundo tem uma árvore enorme na frente do local o tronco dela é tão cheio de detalhes e belezas e dores ela é muito grande o concreto a sufoca tem pregos nela será que ela sente tem o telhado sigo adiante um paredão laranja com uma porta laranja e uma suposta ex porta laranja ao lado mais águas de coco entro na rua das águas de coco os portões grávidos o cachorro manco decido que a partir de agora o cão será meu guia onde ele for eu irei seguimos os cães nas casas latindo muito talvez pelo desejo dessa liberdade sobe desce curva cocô uma kombi simples um cara dentro com uma roupa colorida produtos de limpeza o cachorro me levou até o cara o mesmo que falávamos na reunião na árvore que dizias que querias acompanhá-los um dia o cara dos ovos esse cara algum desses mas que nunca tinha dado tempo de chegar até eles quando eles passavam lá esse é o cara que circula pelo bairro vendendo produtos de limpeza multicoloridos pra senhoras donas de casa jovens adultos falando no megafone paro pra trocar uma ideia com o cara ele é ótimo combinamos de um dia acompanhar o trajeto filmando.

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Irrefreável fim: Dona Queta Luara Erremays

Nu Abe

Trabalhava na roça Carpia café Abanava café Apanhava muito Não era ruim não, a vida. Aquela mulher franzina, enrugadinha, cheia de alegria que conhecemos há mais de ano está curvada sob o peso enorme do Alzheimer. A cada visita, sobra a certeza de que o fim se acerca, a decrepitude da memória, por mais triste que seja, ainda narra histórias circulares que se repetem como o disco riscado, ainda explodem as risadas, levanta as sobrancelhas já sem pêlos enquanto me olha. Não me reconhece, mas também não me estranha. Terrível mesmo é o corpo definhando, o pé que não sara, a fome que não existe, a falta de forças para a longa jornada de ir ao banheiro e a falta do desejo de água. Afinal são 98 anos de roça, casamento e 27


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vila Franci. 98 anos que, em vão, tentamos capturar em memórias, poéticas, frames. A verdade é que nos apaixonamos pela personagem e isso não foi o bastante para nos atentar à velhice, ao padecer. Passei o dia atormentada com minha própria indisponibilidade, cumprindo apenas as visitas burocráticas, os saltos no tempo em que eu mesma não sinto no corpo: como se fosse ontem. Ela, por sua vez, cada vez mais pertinho do abismo indecifrável que é o fim, a morte, ou antes a loucura, a realidade paralela do tamanho das suas sinapses desgastadas. O fim tem cheiro, cor, e pesa muitíssimo, escorre pelos degraus, empesteia o ar, atrai as moscas, desbaratina quem está ao redor. Por mais pesar que me desperte, dona Queta está tranquila na sua jornada; a filha, a mulher responsável por ela é quem me preocupa. Vejo um corpo exausto, envergado pela solidão e as responsabilidades, as culpas, os medos. Alguém só, em confinamento com a loucura e o fim, mantendo-se quase seca na margem na sanidade e da vida, tantas vezes arrastada pela correnteza feroz que é ser inteiramente responsável pela sobrevivência de alguém. Enquanto ela fala muito rapidamente sobre os problemas de hoje, os traumas do passado, as narrativas encantadas, não deixo de ver um arquétipo mulher sob o peso do patriarcado: confinada e sozinha, julgável, despetalada. Nessa filha enxergo a solidão que acompanha as minhas amigas-mães. Se por um lado não nos responsabilizamos por nossas crianças, de outro negligenciamos os nossos idosos. Ávidos por juventude, sucesso, prazer, experimentamos a vida como drops, sem nos dar ao trabalho de aprender com os velhos, nos doar para quem não tem mais tônus para encarar a vida. Não cuidamos das pontas do nosso bando, fechamos os olhos para as dores que precisam de visita, escuta, suporte. Não queremos lidar com o fim, e cheios de birra, viramos a cara para os velhos. No ano em que minha avó nasceu, dona Queta se casou. Sei da dificuldade de minha avozinha em lidar com o mundo: tv, tablet, carnaval, whats, a falta de respeito. “Ninguém quer saber dos ve28


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lhos”, ela diz. Sempre jogado pelos cantos da minha cabeça, ignoro o pensamento de que se aproxima, cedo ou tarde, o dia em que será minha avozinha sentindo a vida deixar seu corpinho resistente ao tempo. Penso que tenho sorte de estar perto, mas também sei que estou tecendo minhas responsabilidades de futuro breve. Não descola da minha retina o sorriso que dona Queta derramou em mim quando toquei sua mãozinha tão magra, seus olhos amarelados incógnitos. Quer comer polenta com quiabo, precisamos com certa urgência providenciar. No fim, limitadíssima no meu mundinho, só quero e posso proporcionar prazeres efêmeros, arquitetar as melhores memórias possíveis. Desejo que sobre para a Nice qualquer boa lembrança do fim de sua mãe, apesar da exaustão, apesar do cansaço. Anseio por ver a alegria delas de ver a comida ser apreciada, as estranhas ouvintes. Esse misterioso ofício que nos demos, de romper o cotidiano, abraçar passados e ouvir histórias. Trabalhava na roça Carpia café Abanava café Apanhava muito Não era ruim não, a vida.

Dois dias após a visita que originou esse texto, Henriqueta foi internada e, ao final de uma semana, faleceu. Apesar de estar em contato com idosas, não esperávamos pela morte. Esperamos que esse trabalho seja o bastante para reverberar as lindas lembranças dela.

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Chakumbolo Luara Erremays é zineira, ilustradora e gosta de ouvir histórias. Trajetos Celulares foi idealizado após o falecimento de seu avô, em 2015, e a necessidade de conhecer as narrativas que idosos contam, repetem; a formação desse imaginário criado a partir da memória oral. Com Gim Macieira forma o selo Móri Zines, responsável pelas publicações do projeto. www.issuu.com/erremays

Nu Abe é artista multimeios. Pesquisa o cotidiano, os afetos, as relações, a intimidade. Se lança em derivas atrás de histórias e de não-histórias, buscando captar com a câmera que tiver em mãos as coisas e existências invisíveis, o que vai ser esquecido se não for lembrado. www.instagram.com/nubeabe

Caio Jade é transmasculino, trabalha com

performance, escrita, vídeo e fanzine. Pesquisa e realiza documentações de vivências e saberes marginalizados, apagados e desautorizados pelas normas da civilização colonialista; mapeia trabalhos de performance de pessoas Trans brasileiras. Integra o Coletivo T e o MONART (Movimento Nacional de Artistas Trans), onde é ativista por representatividade Trans nas artes. https://caiojade.weebly.com/


Agregados Gim Macieira é artista gráfica e se arrisca.

Diagramou e ilustrou com muito carinho esta coleção de livros para o coletivo Chakumbolo. Com Luara Erremays, integra a equipe Móri Zines, selo itinerante de publicações alternativas, sendo responsável pela direção de arte e design.

www.cargocollective.com/gim

Tao é artista visual não-binário e autodidata.

Saturado das palavras, busca por meio da imagem criar diálogos e laços, seja na performance, na fotografia, na filmagem ou na dança. Com o coletivo Chakumbolo, trabalhou na pósprodução dos vídeos do Trajetos Celulares. https://vimeo.com/taobruni


www.trajetoscelulares.hotglue.me

Este livro foi impresso em papel pólen bold 70g/m², dobrado e costurado à mãos pela equipe Móri Zines Cópia ___ / 50 São Paulo/SP maio de 2018


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Chakumbolo - Poéticas  

"Me parece que para contar uma história é preciso um bom começo." Chakumbolo poéticas © 2018 Luara Erremays / Nu Abe / Caio Jade projeto g...

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"Me parece que para contar uma história é preciso um bom começo." Chakumbolo poéticas © 2018 Luara Erremays / Nu Abe / Caio Jade projeto g...

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