Instruções para fotografar o tempo

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INSTRUÇÕES PARA FOTOGRAFAR O TEMPO


UEMG | Escola de Design Centro de Estudos em Design da Imagem Belo Horizonte Fotografias Anna Gago, Anna Stolf, Bruna Aranha, Daniel Ducci, Douglas Mendonça, Fernanda Romero, Gabriela Frossard, Gustavo Eleutério Pena, João Pedro Pontes, Letícia Maria Barbosa, Luix Gabriel, Marcelo Schellini, Marcus Assunção, Maria Karolyna Silvano, Maria Paraiso, Mariana Tanure, Paulo Rossi, Raquel Stolf, Rogério de Souza, Rosana Braga, Tatiana Pontes, Wladymir Lima Proposição e organização Anna Stolf e Tatiana Pontes Projeto gráfico e texto de apresentação Anna Stolf


INSTRUÇÕES PARA FOTOGRAFAR O TEMPO



Como seguir? Como pausar? Como partir?



PARAR O TEMPO PODE SER TAMBÉM PARAR PARA MOVER O TEMPO?


Através da janela e da névoa é possível enxergar o tempo por inteiro. Entre verdes e violetas, um pó mágico é lançado e um desejo é realizado. Na coincidência da saudade e do desejo há um túnel do tempo, no tempo do túnel. No tempo das infâncias, dos fungos e das coisas: nem tudo é passageiro. Para uma coleção de carrinhos de brinquedo, uma cidade de móveis se organiza. Avistando o céu, saltamos números no chão. Das danças, das andanças e das mudanças. Dos registros, das pegadas, das marcas que o tempo deixou. Luz, sombra, temporalidade em texto e textura, aconchego que não passa. Aconchego que não chega: dos modos de ausência e de compor uma morada. Da sensação de voltar no tempo, da duração de parar no tempo. Os rostos que ficam, os rostos que mudam, os rostos que ramificam. As histórias inventadas que se misturam com as histórias vividas. Aquilo que foi esquecido por alguém, mas continua nas lembranças de outro alguém. Entre a saudade e o desejo, ao mesmo tempo, uma duração longínqua e tranquila.


As Instruções desta edição do projeto Modos de fotografar foram desenvolvidas em conversas, num período em que percebemos o tempo nos atravessando de um modo um tanto ambíguo, descompassado, indeciso... Ora muito depressa, como num piscar de olhos, praticamente impossível de se capturar; ora arrastado, de ritmo frouxo, cambaleante, como se não efetuasse sua própria natureza. Nesses momentos, por pouco não aparecia diante de nós, explícito, oferecendo-nos uma câmera lenta de nosso próprio dia. Já nos dias curtos, a impressão era de que a temporalidade de muitos dias seguidos virava uma massa única, amorfa, assim tornando praticável sua existência, determinada em uma indeterminação, como se o foco estivesse numa fenda dando no infinito. Sob essa atmosfera, a princípio nos saltaram três questões: Como seguir? Como pausar? Como partir?


E, assim, uma trama de perguntas foi se formando: De que modo, hoje, podemos nos compor, considerando as experiências que vivemos nesses últimos anos? Quais são as possibilidades para nos recompormos? Quem nos tornamos como indivíduos e quem nos tornamos como coletivo(s)? É possível voltarmos no tempo, nem que seja por um dia ou dois? Como pausamos o tempo para respirar quando precisamos de tempo para respirar? Como partimos de um tempo que não mais nos cabe e/ou que não mais cabemos? É possível partir de um tempo, afinal? Deixar um tempo para trás? E/ou, então, reservar um tempo à frente? Partir um tempo em dois, em três, em quatro terços, em cinco oitavos, em números imaginários, raízes quadradas, redondas, desenhos com formas de letras, ou outras referências como folhas, texturas, sensações, sons, etc.? Separar em partes que sejam, finalmente, vestíveis, palpáveis, palatáveis, visíveis? Até que ponto, o tempo é coisa que podemos moldar de acordo com o que desejamos? O tempo seria coisa sensível para nos ouvir, nos entender, nos responder? É possível revoltar o tempo?


Conversamos, então, sobre o que poderia vir a ser essa passagem do tempo e encontramos na saudade/passado e no desejo/futuro possibilidades para a fotografia, para essa paragem do tempo, mas na possibilidade da paragem de um tempo movediço, visto que outras imagens/realidades podem se formar a partir do trabalho em fotografia. Consideramos ainda que há um amálgama de sentidos na ideia saudade-desejo como passado-futuro, pois pode haver saudade também de algo que ainda não ocorreu, a não ser talvez por meio da imaginação, em um futuro prenunciado, uma saudade de um porvir. E o mesmo vale para o inverso, podendo haver desejo daquilo que já passou, em uma nostalgia de reter determinado tempo, acontecimento, afeto passado, em um desejo de viver um agenciamento com algo que já foi vivido em outro momento. Esta proposta, portanto, não se fecha em separar o tempo em passado e futuro, mas antes em deixar o tempo em aberto para suas passagens e paragens: às pausas, às sequências e às partidas; por fim, por início e/ou entre uma coisa e outra.

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COMO FOTOGRAFAR UMA SAUDADE


1 Acesse uma saudade em seu próprio corpo e tente perceber sua cor, sua forma, seu cheiro e/ou seu som. 2 Escave as imagens da sua memória buscando reviver: • um lugar da sua infância que também é um abrigo para seu pensamento; • um abraço apertado que pausou o tempo; • um encontro divertido com pessoas, animais ou plantas. 3 Experimente olhar pelo visor da câmera como se olhasse para o passado. 4 Fotografe um perfume, um piscar de olhos e/ou um ontem que ainda não acabou. 5 Pense sobre: [...] toda percepção é já memória. [Henri Bergson]


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pó mágico



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livro de areia


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O tempo dilatado à percepção humana nunca “foi”, embora o empirismo histórico e a metafísica; e nunca “será”, apesar das inúmeras projeções em diferentes instâncias – costuma cair temporal em dia com previsão de sol. O tempo é que está, é o que nos esmaga individualmente na solidão de ser humano, independente dos laços feitos e desfeitos ao longo da vida. Nas minhas fotos, eu busquei retratar indícios de infância, por entre, com e sob o avançado da natureza. “Tem minino aqui”, é o que se pensa logo que se vê aquele cenário. Porém, em seguida, nota-se a ausência da alegria, dos risos e choros dos corpos de criança e suas urgências. Ganha espaço a minha memória, das minhas infâncias, de como eu amava andar descalço na grama, subir no escorregador por todos os meios possíveis – menos pela escada, e não escorregava. Assim, insubordinado, é como eu primeiramente, e de forma saudosa, vi minhas infâncias. De repente, após as fotos, tirei o chinelo e fui andar naquela grama. Depois, sentei no escorregador (meu quadril não cabe nele). Sentei no pneu, atento aos estalos da corda e da árvore. Ouvi os passarinhos em cantorias de acasalamento (como o tiziu), observei os fungos que brotavam do chão e das madeiras. De repente, me alegrei: estou ainda vivendo uma de minhas infâncias. O tempo, esse sujeito indecoroso, seguirá sob a regência da minha criança.

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a saudade como morada (ou ausência dela)


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Depois de sete anos residindo em outro lugar, eu volto a residir no apartamento em que nasci, dessa vez na companhia da minha cachorra. O prédio todo de tijolos alaranjados, carrega cheiros, sons, afetos e muita memória afetiva. A janela dos quartos, que nunca foram modificados, e a área de serviço, único espaço reformado do apartamento, que há mais de trinta anos minha família morou, compõem a série de fotografias da saudade. BA


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memória

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mudança

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ontem ainda


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JP



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Como pensar a saudade? Minhas imagens assumiram um caminho de encontro com a abstração, entendendo esse sentimento – quiçá – como uma energia de um corpo, ou o que se instala no tempo entre dois corpos, uma presença, uma distância, a ausência, memória, um agora, ela, ele, eu...

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RS1


biruta


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COMO FOTOGRAFAR UM DESEJO


1 Traga à tona um desejo de sua história de vida e tente perceber suas relações pessoais, impessoais e/ou a-pessoais. 2 Escave as imagens da sua memória buscando inventar: • um lugar para onde ir de barco ou avião de papel; • uma ventania de ideias num dia de praia sob uma chuva de verão; • um encontro inesperado com alguém desconhecido. 3 Experimente olhar pelo visor da câmera como se olhasse para o futuro. 4 Fotografe uma semente grávida de sonhos, um sorriso que se insinua e/ou um amanhã que já começou. 5 Pense sobre: O tempo é a intensidade dos corpos. [François Zourabichvili]



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Recortes de dias pandêmicos, em que sair para respirar se tornou o melhor dos encontros e afetos entre dois corpos que se encaixaram, se misturaram, se desejaram e no instante em que foram fotografados se “pousaram”. Assim compõem a série desejo.

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de olho no futuro

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quase o nascimento da vênus

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tempo do túnel


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AG NN BA DD DM FR GF GP JP LB LG

Anna Gago Anna Stolf Bruna Aranha Daniel Ducci Douglas Mendonça Fernanda Romero Gabriela Frossard Gustavo Eleutério Pena João Pedro Pontes Letícia Maria Barbosa Luix Gabriel

MS MA MK MP MT PR RS1 RS2 RB TP WL

Marcelo Schellini Marcus Assunção Maria Karolyna Silvano Maria Paraiso Mariana Tanure Paulo Rossi Raquel Stolf Rogério de Souza Rosana Braga Tatiana Pontes Wladymir Lima


Esta publicação é composta por Ubuntu Mono, em preto e cinzas, idealizada em meados de 2021 e lançada em meados de 2022.



FOTOGRAFIAS PRODUZIDAS ATÉ MARÇO DE 2022