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Pr贸logo Dora D眉mmer


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ra 1939. A Guerra havia começado. Você morava com

seus pais e irmãos em uma casa humilde num gueto de Varsóvia, na Polônia, onde nascera. Filha de ciganos que abandonaram seus costumes em troca de uma vida menos difícil, foi levada pelos nazistas na calada da noite, junto com sua família, para um abrigo onde eles separavam as pessoas, e depois as colocavam em trens que as levavam para algum lugar que ninguém sabia onde ficava. A única certeza é que as pessoas que iam jamais retornavam. Foi assim que a separaram dos seus parentes. Eles haviam entrado no trem, você a próxima da fila, o soldado que veio e a impediu de entrar para formar uma fila nova. O trem se foi. Você nunca mais os viu. Foi prisioneira de um campo de concentração e trabalhos forçados até 1944. Mais da metade dos prisioneiros já havia sido assassinada pelos nazistas. De tempos em tempos eles separavam um grupo de pessoas, principalmente as mais velhas e doentes, e as mandavam para o banho coletivo. Trancadas na ducha, eles ligavam os chuveiros que derramavam um gás venenoso, ao invés de água, e as matava em poucos minutos. Naquele ano, em que você completara quinze anos de idade, misteriosamente alguns guardas apareceram mortos. Não mostravam


sinais de violência, além de marcas de mordidas e aparente falta de sangue no corpo. Um por dia, durante uma semana. As pessoas estavam assustadas, e os soldados começaram a acusar os prisioneiros. Então, eles juntaram todos no pátio, e escolheram aleatoriamente dez pessoas, entre elas você, e as puseram em fila. Atiraram no primeiro. Você era a segunda. Então o soldado que atirou disse: _Se ninguém disser quem foi o responsável pela morte dos sete soldados, o resto da fila vai morrer! E vamos matar dez por dia, nesse mesmo horário, até descobrirmos quem foi! O silêncio tomou conta do pátio. As pessoas estavam assustadas e de cabeça baixa. O soldado insistiu mais uma vez: _Alguém quer falar alguma coisa? Não? Então seus colegas vão morrer! E o soldado caminhou até você e encostou o cano do revolver na sua testa. O tambor da arma rodou, e antes que ele puxasse o gatilho, uma voz masculina quebrou o silêncio: _Fui eu. Um homem alto e magro deu um passo à frente. Essa foi a primeira vez que você viu David. O soldado o pegou pelo cabelo e bateu a cabeça dele contra o muro. A testa de David se abriu com a força da pancada, e o soldado começou a gritar: _Você acha que eu vou acreditar que um verme como você matou sete soldados sozinho? Você quer salvar a mocinha por quê, hein? Quer transar com ela, sua bixa? E o soldado deu um tiro à queima-roupa no olho esquerdo de David, e ele apagou. Obviamente, todos acharam que ele havia morrido, inclusive você. Ainda não sabia, até então, que ele era um vampiro. _Amanhã, se o responsável não aparecer, dez morrerão! E os soldados foram embora. À noite, levaram-na para um depósito, e o soldado que a ameaçara mandou que todos saíssem. A sós com você, ele começou a interrogá-la: _É melhor você me dizer quem está por trás disso! _Eu não sei de nada! – você respondeu, aflita. O soldado levantou seu queixo com a ponta do revólver. _Quem era o cara suicida? Quem ele estava protegendo? FALA!!! _Eu já disse que não sei de nada... _Vagabunda! – o soldado soltou um bofete na sua cara, e agarrou a sua coxa por debaixo da saia – Te garanto que sou bem melhor do que aquele verme... Então o barulho de algo se movendo entre os pilares de madeira e a parede do lugar mal iluminado interrompeu o depravado interrogatório, e a salvou de um estupro. O soldado, instintivamente, iluminou com a lanterna o ambiente em busca do barulho. A visão que vocês tiveram foi a de um homem suspenso na parede, apoiado pelos pés e mãos, como um inseto que descia em vertical, vindo do teto. Ele fitou vocês com seus olhos sobrenaturais, e a lanterna caiu da mão do soldado quando ele percebeu que se tratava do mesmo homem em que ele atirara pela manhã. _MEU DEUS! – o soldado gritou e largou você. Amedrontado, o nazista usou todas as balas da arma contra a criatura, que facilmente desapareceu na escuridão do recinto,


para ressurgir sobre ele e levantá-lo pelo pescoço, usando apenas uma mão. Assustada, você correu e se escondeu debaixo do estrato de madeira, usado como cama pelos prisioneiros. O soldado gritava, mas você fechou os olhos, temendo por sua vida. Ouviu o nazista agonizar, num som gutural horripilante. Só deu por si quando o silêncio retornou. Em frente ao estrato, abaixado, David apareceu, e te encarou, dizendo: _Está tudo bem agora. Ele não vai mais te importunar... – e ele sorriu, estendendo-te a mão para ajudá-la a sair dali. Você saiu debaixo do estrado e sentou-se sobre a cama. David limpou a boca com a manga da camisa, deixando nela uma mancha de sangue. Você só podia enxergar os coturnos do soldado caído, iluminados pela meia luz que entrava por uma janelinha. _Não vou lhe fazer mal, criança. Não precisa ficar com medo. Ele olhou-a e percebeu que você estava atônita, então mudou de assunto: _Meus olhos são de cores diferentes, está vendo? Um azul e outro castanho. Sabe por quê? Você só balançou a cabeça de um lado para o outro, sem saber o que fazer. _Bem, eu era garoto, e me meti numa briga com um cara maior do que eu por causa de uma namorada. – ele sorriu para você – Levei um soco nesse olho, o castanho, que era azul. Quase perdi o olho, que inchou muito. Desde então, a pupila dele ficou paralisada, o que dá a impressão dele ter cor diferente, quando na verdade, ainda é igual ao outro... Aí, hoje de manhã, eu achei que o soldado fosse acertar o olho bom, e eu pensei “Os dois podem ficar iguais!”, só que ele errou o olho, e isso me deixou puto da vida! O vampiro então olhou para o corpo estendido do soldado, e completou, te dando uma piscadela: _E quando eu fico nervoso, eu viro um bicho! Literalmente... Dali em diante, seu destino mudou de rumo. Na manhã seguinte, acharam o corpo nu do soldado no depósito, mordido no pescoço e pendurado pelos pés, com uma mensagem escrita na carne das costas que dizia: “Para cada um que morrer, mais dez soldados seguirão meu exemplo”. O assunto foi abafado, e não se ouviu mais falar nessa história. ***


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sinal do campo sempre tocava cedo, e se tinha poucos

minutos para estar de pé e em fila no pátio, todos os dias, não importando se havia sol, chuva ou neve. A fome, o cansaço e o medo eram sentimentos constantes naqueles dias. David encostou-se a você, com discrição, pôs uma maçã em suas mãos, e sussurrou: _Precisamos dar o fora daqui. Eu já estou de saco cheio desse lugar, e vou levar você comigo. As coisas vão piorar muito, se é que isso é possível... Você tinha a mesma sensação. Cada dia, mais pessoas morriam. _Quando formos tirar a neve da estrada, vamos aproveitar a distração dos soldados pra escapar. Fique de olho em mim. O vampiro era bom para você, te protegia, e se não fosse por ele, talvez você já tivesse morrido de fome. Sua juventude e a falta da família contribuíram para que você procurasse em David um ponto de apoio, carinho e amizade. Embora fosse ele algo ainda incompreendido por você, e vez ou outra aparecesse um nazista morto sem maiores explicações. Os soldados fizeram uma fila, deram a você, a David, e aos outros uma pá, e os levaram para fora do campo, a fim de removerem a neve do caminho dos carros.


Os soldados já estavam distraídos em conversas e vocês cavavam a neve há quinze minutos, quando David olhou para você e disse que esperasse até o sinal. Um garoto ao seu lado, mais ou menos da sua idade, prestava atenção na conversa entre vocês dois, e por um momento você achou que ele poderia delatá-los, mas o garoto continuou cavando. David disse: _Quando eu bater, corra para aquele lado – e apontou para a esquina – Corra o máximo que conseguir até o matagal. David, então, caiu de joelhos propositalmente, e esperou que o guarda viesse esculhambá-lo. O soldado chegou perto, deulhe uma coronhada com o rifle nas costas, e disse, engatilhando a arma na cabeça dele: _Levante agora, ou não vai levantar nunca mais! David levantou devagar, olhou para você e piscou. O garoto atrás de você observava. De repente, David bateu com a pá na cara do soldado, que desmaiou. Você correu o máximo que pôde. O garoto fez o mesmo. Quando virou a esquina, você viu os soldados pularem todos de uma vez só em cima de David, e serem arremessados para todos os lados, como se fossem sacos de farinha. Os outros prisioneiros correrem para o lado oposto. Ouviuse muitos disparos. Um soldado apareceu na esquina, e atirou em sua direção. O tiro atravessou o ombro do garoto logo atrás, e ele caiu no chão, gritando de dor. Você não podia parar. Ouviu David gritar mais uma vez “Corra! Não olhe”, e outro disparo ecoou pelo quarteirão. Você parou quando alcançou as árvores, porque seu fôlego não te permitia mais prosseguir. Escondida atrás de um tronco, esperou. David apareceu carregando no ombro o garoto que te seguira. _Vamos, meu bem, antes que a infantaria inteira chegue e o próprio Hitler venha nos caçar! Esconderam-se no porão de uma casa em ruínas. David pôs o garoto no chão. O menino sangrava muito e estava em choque. Chorava de dor e de medo. _Eu não quero morrer, não quero morrer! – gritava. _ACALME-SE! – David berrou com ele. O vampiro rasgou a blusa do menino expondo o ferimento. Ele sentiu o cheiro do líquido viscoso, e você viu nos olhos dele o desejo pelo sangue que caia pelo braço do rapaz. _A bala atravessou – disse. David arregaçou a manga da camisa e mordeu o próprio pulso, abrindo um corte profundo. As costas do casaco dele estavam esburacadas pelos disparos dos soldados. Ele havia tomado muitos tiros. _Isso dói? – você perguntou. _Dói. - Ele demorou a responder. Então, o vampiro jogou o próprio sangue no ferimento do rapaz, que cicatrizou quase que instantaneamente. Você e o garoto ficaram boquiabertos. _Você é um garoto de sorte – David disse – Vai viver. Mas nunca mais faça essa burrice, podia estar morto agora. E a propósito, qual é seu nome, hein? _É Andrei, senhor.


Você e Andrei tinham muitas coisas em comum: a idade, a má sorte, a perda da família, e agora a David. _Não me chame de ‘senhor’, garoto. Eu detesto essa palavra... ***


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té o fim da Guerra, os três viveram se escondendo

entre escombros, viajando a noite, e cruzando fronteiras. Quando a Guerra terminou, em 1945, David tentou deixá-los em um abrigo para órfãos do holocausto, mas vocês se negaram a ficar. Já gostavam demais dele. E ele havia se apegado a vocês. Então David os levou consigo, embora anos mais tarde ele viesse a admitir que se arrependera de tê-lo feito. Mudaram-se para Londres, na Inglaterra, onde o vampiro mantinha uma casa espaçosa e bem mobiliada. A casa possuía dois andares e um sótão, e havia sido construída há muitos anos. Cada um de vocês tinha um quarto, e David preferiu ficar com o sótão, onde passava todo o dia e grande parte da noite. O vampiro era dono de algum tipo de fortuna, e era fácil notar isso pelo requinte do ambiente onde moravam, apesar de ser a casa uma construção modesta. Mas ele não falava muito sobre isso, apenas dizia que juntara alguns pertences ao longo de muitas décadas. Você e Andrei ali cresceram, estudaram, e se formaram. Tiveram uma vida normal, na medida do possível, já que não eram uma família comum. Mas conseguiram ser felizes, por algum tempo, embora os traumas e as feridas abertas pelos nefastos acontecimentos da guerra tivessem deixado marcas permanentes.


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lgumas coisas que você e Andrei aprenderam sobre o

Senhor (Sir) David Jones, depois de anos de convivência: 1. David não gosta muito de falar sobre o assunto “vampiro”. Ele não nega quem é, mas odeia o fato. Também não gosta de falar sobre o seu passado. E por motivos óbvios, o assunto é completamente proibido fora de casa. 2. David odeia flores, principalmente as silvestres. Em especial, tem aversão por rosas selvagens e pelo acônito, que tem uma flor roxa e é venenoso. 3. David é alérgico a alho. Ele não os proíbe de comer, desde que vocês isolem o condimento do ambiente e escovem bem os dentes. 4. David também é alérgico à prata. Tanto mais que ao alho. Nada de talheres, travessas, vasos, joias, ou qualquer outra coisa que contenha o metal. 5. Ele não dorme. Algumas vezes ele “emberna” por um tempo, às vezes por dias, mas isso é raro.


6. Ele tolera a luz do sol, mas não se sente muito bem durante o dia. Sua percepção e seus sentidos ficam prejudicados com a luz, principalmente a visão. 7. David é cheio de obsessões e manias estranhas. Sofre de TOC (transtorno compulsivo obsessivo). Tem mania por simetria e ordem. Também tem mania de contar objetos ou sequências de números. 8. Ele detesta símbolos religiosos. Não lhe afetam em nada, mas ele odeia tudo que lembre a igreja. 9. Os móveis da casa não podem ser de certos tipos de madeira, como mogno, carvalho ou álamo. 10. Fuma cerca de dois a três maços de cigarros por dia. A fumaça parece ter um efeito inebriante sobre ele, e David sempre fica sonolento depois de fumar muito. 11. David tem hábitos alimentares desconhecidos. Ele detesta assassinatos, embora você mesma tenha presenciado alguns durante o tempo de prisão. Também já foi visto caçando pássaros e pequenos animais pela vizinhança. 12. Visitas em casa não são permitidas sem o consentimento dele, em hipótese alguma. David também não quer empregados na casa. 13. quentes, manhã, e não coma

Tem obsessão por imitar pessoas comuns: gosta de banhos usa óculos para ler sem precisar, lê o jornal pela senta-se à mesa para o café, almoço e jantar, embora nada.

14. Ele possui algumas habilidades ocultas, as quais não revela com frequência. Tem uma força física incomum, um olfato apurado, e uma audição afinada. Sua visão é distorcida, confunde cores com facilidade e tem uma noção imperfeita de profundidade, por ser cego de um olho, embora enxergue objetos e movimentos com precisão. David tem uma personalidade carismática e amável. É leve, culto, inteligente, e brincalhão, embora seja um tanto reservado. Tem um raciocínio rápido, e umas “tiradas ácidas”, do tipo que perde o amigo, mas não perde a piada. Também é ‘sacana’ às vezes, no sentido negativo da palavra. Leva consigo uma profunda tristeza inconfessável. Constantemente, é vítima de seu mal humor. E embora não admita, é muito ciumento, possessivo e teimoso. Mas tem um grande coração. Passa grande parte do dia lendo, e visita a biblioteca com frequência. Se importa em estar atualizado com a época em que vive. Às vezes viajava pela Inglaterra, e passava uns poucos dias fora, porém, com raridade.


Joga xadrez com Andrei. Gosta da sua companhia para o teatro, para a ópera, para o cinema, e para a novela. Ajuda você com os serviços domésticos, como pequenos concertos, jardinagem, louça, manutenção, e tarefas que exigem força ou esforço excessivo. Mas faz outros serviços também, se você pedir, exceto cozinhar. Por causa do TOC, prefere não sair para fazer compras. David parecia habituado com este tipo de trabalho, e o executava com facilidade, agilidade e disciplina. E o fazia muito bem feito. Ele a servia como a um escravo. Você não entendia esse comportamento. E David parecia feliz por ser assim. Com Andrei, porém, a situação era inversa. David mandava e desmandava no rapaz a seu bel-prazer. E Andrei obedecia. O vampiro também tinha uma vida secreta. Costumava sair algumas noites, sem dar satisfações ou ter horários. Fazia as “coisas sujas” longe de casa, e longe da vista de vocês, e jamais as confessava. Por ser você a “menina dos olhos” dele, foi em você que ele confiou seus assuntos ordinários, como a conta bancária. Você tinha acesso livre ao dinheiro de Sir Talbot (Talbot era o sobrenome que David usava na época). O vampiro possuía a “modesta” quantia de 500.000,00 libras esterlinas (cerca de 1 milhão e meio de Reais). Os rendimentos deviam ser usados para as despesas mensais, sob sua responsabilidade. _Eu tinha quase cinco milhões, mas os malditos nazistas me roubaram! – ele contou. Já Andrei fazia o serviço sujo, como conseguir documentos falsos e outras obrigações civis, necessários a alguém que não existe para a sociedade. Você mesma e Andrei possuíam registros falsos de adoção, por David Robert Talbot, e usavam os nomes de Dora Talbot e Andrei Talbot. ***


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que faz sozinho aqui, no escuro? – um dia você

perguntou ao vampiro, quando o encontrou sozinho no quintal, sentado no degrau de acesso a porta dos fundos. Era começo de noite. _Pensando – ele fumava. Já tinha fumado um maço inteiro, pois as cinzas transbordavam do cinzeiro – Sente-se aqui um pouco! _Se você apagar essa porcaria, eu penso no seu caso! Ele riu e apagou o cigarro no chão. _Está bem agora? – disse. _Não entendo como você suporta essa coisa fedida! – você se sentou ao lado dele, tampando o nariz por causa do cheiro do fumo. _É mais fácil suportar o cheiro que a fome. _O que uma coisa tem haver com a outra? _Deixa prá lá... _Se eu fosse você, à uma hora dessa eu estaria agitando a cidade, meu querido! – você comentou – Por que ainda está em casa? Sem fome? _Eu estou sempre com fome. _E então? Por que está em casa? _Às vezes prefiro evitar certas coisas...


_Isso não responde a minha pergunta. Você fala pouco a seu respeito... _Porque, acredite, é melhor assim. _Está bem, eu desisto! Você venceu... Ele fez uma longa pausa. Por fim, quebrou o silêncio: _Você se lembra do dia em que o soldado nazista quase a estuprou no galpão? _Infelizmente, isso é o tipo de coisa que a gente nunca esquece! Mas você estava lá, e me salvou. _É. Salvei. Mas não entrei lá atrás do soldado... _Como? - você se espantou com a confidência. Temia ter que ouvi-la até o final. _Eu fui até o galpão atrás de você, meu amor! – ele abaixou a cabeça, envergonhado. _David... _Ainda confia em mim? _É claro que sim. Se você quisesse, já teria matado nós dois, digo, a mim e a Andrei. Mas não o fez! No fundo, você não estava tão segura do que dizia. Saber disso não era uma coisa tão fácil. _O que você fazia naquele campo de concentração, David? Nada te prendia ali. _A comida me prendia. Você olhou para ele e de repente ele se tocou que dera uma resposta deseducada. _Me desculpe, eu não quis... _Tá tudo bem. Eu já tinha imaginado. _Eu precisava ter cautela. Era mais seguro me infiltrar no meio dos prisioneiros e ficar invisível. E depois, os filhos da mãe invadiram o meu quarto em Berlin, e tive que deixá-los me arrastar de pijamas. Foi uma cena ridícula! Depois o silêncio retornou. Você apoiou a cabeça no ombro dele, e segurou sua mão calejada. A pele dele era fria, e o seu toque fez com que ela roubasse o seu calor. _Como é ser um vampiro? _Eu não sei muita coisa... Só sei o que eu tenho sentindo todo esse tempo. _E o que você tem sentido? _Fome. _Fome é a única coisa que você sente? _Não. Continuo sentindo as mesmas coisas que sentia quando era humano, eu acho. Não me lembro de como era ser humano... _Frio? Calor? _Sim. Eu não tenho calor próprio, mas posso sentir a temperatura das pessoas ou do ambiente em que estou. _Dor? _Da mesma forma que você pode sentir. _Tesão? _Muito! – ele riu – Essa parte é complicada... _O que tem de complicado? _Às vezes não sei qual a diferença entre fome e tesão. São coisas muito intensas, que muitas vezes se confundem, se misturam. São como um vício, e quando se quer satisfazê-los ao mesmo tempo, quase sempre acaba mal... _Tem alguma namorada? _Não dá para ter uma namorada...


_E se ela fosse como você? David olhou para você, e se fez de desentendido: _Por que essa conversa agora? _Vejo você sempre sozinho. Não se cansa disso? _Isso é inevitável quando se vive para sempre... _Mas você sabe que não precisa ser sozinho! David entendeu a mensagem e a encarou. Disse, em tom sério: _Não, Dora! Isso nunca vai acontecer! Eu não vou fazer isso com você ou com Andrei. Principalmente com Andrei, que é um destrambelhado! _E a mim? Por que não? Ser um vampiro era uma fantasia fascinante e tentadora. David, no entanto, desaprovava explicitamente a ideia. _Porque... – isso doía nele, de alguma forma – Porque eu te quero bem! Seria egoísmo meu vê-la sofrer. _Sofrer é uma consequência da vida. É inevitável que aconteça! – você justificou. _Mas não deve ser uma consequência da morte. _Prefere me ver morrer, então? _Prefiro vê-la ter uma vida longa e saudável. _E quem me garante que vai ser assim? David olhou de volta para o céu, e terminou a conversa: _Acho que vai chover hoje, não acha? ***


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ndrei era filho de judeus ucranianos, e como você,

perdeu toda a família nos campos de concentração. Não que isso fosse algo aceitável, mas Andrei tinha uma dificuldade maior para lidar com o assunto, e sua revolta era algo que o atormentava. Podia-se dizer que Andrei era o resultado do seu desejo de vingança. _Eles também mataram a minha família, David. Eu entendo o que é sentir revolta! _Eu sei, Dora! Mas você consegue viver independente disso. Andrei não. Andrei vive em função disso. E infelizmente, isso fez dele um homem mau. O que Andrei esquece é que ele podia não estar aqui agora. E ainda me culpa por eu não querer transformálo em um... você sabe! Enquanto você era a preferida de David, Andrei era uma espécie de capacho. Um escravo dedicado, com intenções de receber retribuição pelos serviços prestados. Tinha se formado em direito, e isso lhe servia bem para executar seu trabalho sujo. Se tornar um vampiro era o que Andrei mais almejava, e você entendia isso como uma forma de fugir da morte que ele tanto temia, e de se tornar forte contra um mundo que lhe havia oprimido, da pior forma possível.


_Eu também perdi minha família, David. Sei que estão mortos, mas eu não os vi sofrer e morrer... Fui poupada disso, de certa forma, ainda que minha dor seja enorme. Andrei não. Ele viu de perto a família morrer. Ele me contou que viu o pai ser baleado na cabeça, na frente dos filhos... _Andrei passou muito tempo com medo de ser morto, Dora. Depois acreditou nos nazistas quando ouviu que ele era um ser medíocre e inferior por ter nascido numa família judia. Invejarme não vai resolver o problema de autoestima dele. O que ele precisa é fazer análise! _Análise não resolve. – você justificou – Ainda acordo no meio da noite por causa dos pesadelos! _E se você se tornar uma vampira, vai ter pesadelos pelo resto da eternidade! _Tenha paciência com ele, David. Eu concordo que Andrei é problemático, mas um dia ele vai superar tudo isso. _Olha, Dora, eu vou te dar um conselho, e espero que você me escute: quem cria cobra, um dia amanhece picado! Você entendeu bem? Andrei também tinha suas qualidades. Era bem educado, simpático, e tinha um rosto bonito e leve como o rosto de um garoto. Tinha a face da inocência. O problema era que estas qualidades quase nunca condiziam com sua verdadeira personalidade dúbia e obscura. Havia uma dor profunda estampada na sua alma, e você não sabia exatamente para que caminho essa dor o tinha carregado. Males à parte, ele era a pessoa mais próxima que você tinha, desconsiderando o vampiro. ***


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ez anos se passaram desde a chegada em Londres.

Você e Andrei estavam no auge dos seus vinte e cinco anos. Uma noite, os dois foram até um restaurante local para jantar, e Andrei estava entristecido e calado. _Engoliu a língua? – você comentou. _Ãm? Ah, desculpe, eu só estava pensando em minha mãe... Hoje é aniversário da morte dela... – e ele olhou para o código numérico tatuado no antebraço pelos nazistas. _Olha, Andrei, o que aconteceu com a gente foi horrível! Sempre haverá marcas. Mas não podemos mudar o passado. Nós só podemos viver o presente, e temos que ser felizes, ao máximo. Tivemos uma segunda chance. David nos deu isso! Vamos ser gratos, ok? Muitos estão mortos agora... _Eu ia morrer lá como todos os outros, Dora! _Mas não morreu. Em um momento de loucura suicida, você decidiu correr e fugiu da morte. _Eu não fugi da morte. E nem você fugiu. David é o único que está livre dela... _Hunf! Vai começar com esse assunto de novo? O garçom veio trazer a sobremesa: bolo gelado com sorvete de creme. Andrei trocou a conversa. _David não está bem, já notou?


_Sim. Ele anda mal humorado. Acho que um pouco deprimido também... _Nós sabemos o que está acontecendo. O que vamos fazer? _O que você quis dizer com “nós sabemos”? _Ah, Dora! Você sabe que David acha que, agora que somos adultos e não dependemos mais dele, vamos deixá-lo. _O mau humor dele é falta de sexo, meu filho! – você foi direta - E ele sabe que não vamos deixá-lo. – completou. _Sim, mas um dia não estaremos mais aqui, porque um dia morreremos. E David não suporta a solidão. _Eu sei, eu sei. Mas não podemos evitar, nós vamos envelhecer, e é isso. David quer que seja assim. Parece que quer ficar só, e é teimoso como uma mula, você sabe... _Ele não vai fazer. Mas nós sabemos que não é isso o que ele quer. No fundo, não é... _Sei... E o que você sugere? _Podemos facilitar a coisa! _Ah! Não comece... _Você não quer ser imortal? Que mal há em ficarmos juntos para sempre? Quem sabe assim o tempo não nos faz esquecer as más lembranças e toda a dor? _Você teria coragem? _Você não teria? – Andrei a olhou fixamente – Esse é o momento, Dora! Estamos na nossa melhor fase, na nossa melhor forma! Seríamos jovens e bonitos para sempre. David não ficaria só, e seríamos uma família feliz por toda eternidade. Droga, não entendo porque às vezes ele é tão egoísta! _Ele está tentando nos proteger, Andrei. _Proteger de quê? De sermos o que queremos ser? Ele está nos negando o direito de escolha. O direito de sermos seres absolutos, com potencialidades jamais imaginadas por seres humanos comuns! Ou David está enciumado por ele não ser mais tão jovem quanto nós? _Pelo amor de Deus, Andrei! Não força a barra, tá? David não tem problemas com a idade... _Você pode convencê-lo, Dora! _Não. _Você pode! E nós sabemos muito bem disso. Ele é apaixonado por você! _Andrei, vamos parar com essa conversa, está bem? _Dora... Tsc, tsc, tsc... Eu mesmo, se tivesse um par de peitos, já teria feito! _Já ouviu falar em silicone, irmãozinho? – você debochou dele. _Você mesma disse que o mau humor do tio David é falta de sexo, não é? _Andrei, chega, ok? _Dora... por favor! Não finja agora que você é uma santa, que eu conheço bem a tua fama! _A minha deve ser melhor que a sua, com certeza! _Pense bem... O humor do tio David ia melhorar muito! _Garçom! – você chamou – Traga a conta, por favor! _Vamos lá, Dora! – Andrei implorou – Você ia ser escrava do tio David. E eu seria obrigado a ser seu escravo. E você poderia me pisar como um tapete para toda a vida, infelizmente, mas eu posso suportar isso!


_Pode ter certeza que eu ia adorar pisar em você, maninho! _Eu aposto que sim! – ele concordou – E você e David iam poder ver novelas juntos para todo o sempre! Um horror aquela coisa mexicana que vocês assistem, como é mesmo o nome? _Os ricos também choram. _Putz! Andrei riu antes de continuar: _Eu sei que David deseja a mesma coisa. Só que ele é orgulhoso demais para quebrar uma regra criada por ele próprio. Nós merecemos sermos felizes, ainda mais depois de tudo que passamos. Ser eternamente jovem, nunca adoecer, nunca morrer, poder desfrutar eternamente os prazeres da vida, sem culpa, sem cobranças... Estar no topo da cadeia alimentar. Por que alguém odiaria ser um ser tão maravilhoso? David tem mais escrúpulos do que muita gente que nós conhecemos. Matar? As pessoas matam seus semelhantes por motivos torpes! O ser humano é desprezível. E praticar uma faxina moral não faria mal a sociedade, só porque ninguém tem coragem de admiti-lo. Ou você acha que aqueles nazistas estão fazendo alguma falta? David fez um grande favor ao mundo, isso sim! Andrei provou o bolo com sorvete. _Uma delícia esse bolo! – ele comentou - E vamos ser sinceros... – ele voltou ao raciocínio - Aonde mais você ia achar um tio ricaço, que fala “Sim senhora!” para tudo que você diz, lava a louça, é noveleiro, e se der bobeira, ainda tem muita coisa para te ensinar? Pense, garota! Não sabemos quando anos o tio David tem, mas... sabemos que ele é bem velhinho, certo? Eu sei porque ele mesmo já deu a entender isso várias vezes. Então, podemos concluir que ele deve ter uma boa experiência acumulada, e vocês mulheres não gostam dos homens mais experientes? É a chance de termos o nosso “Felizes para sempre”, e isso incluiu nós três! _Andrei... _Dora, já vi você sair com coisa pior. Não faça doce! É só fechar os olhos, e pronto! – ele riu. Andrei era arrogante e tinha um jeito insuportável, mas às vezes, sabia ser convincente. Talvez ele tivesse razão quanto à vida ser curta demais. Talvez não houvesse tempo suficiente para cicatrizar todas as feridas provocadas pela maldade do mundo, e ainda ser feliz. _Então, me faz um favor, Andrei... _Sim? _Volte mais tarde para casa hoje! – você concluiu a conversa. _É assim que se fala, garota! – ele sorriu. *** Aquela noite de verão tinha sido a mais quente dos últimos vinte anos. De volta a casa, e em frente ao espelho, você escovava seus cabelos, enquanto lembrava-se das palavras de Andrei. O plano era ser mordida, para em seguida, mordê-lo. Um nervosismo tomava-lhe conta, já que as coisas podiam acabar muito mal, afinal, você ia se jogar dentro da jaula do leão, que sobre as grades parecia um gato manso, mas que não


deixava de ser uma fera engaiolada. E feras são sempre feras, principalmente se mal alimentadas. O risco era o preço a se pagar. Pintou os olhos, a boca de vermelho, desistiu do perfume. O cheiro precisava ser o seu. O que importava era o sangue... Tirou as roupas íntimas, vestiu por cima do corpo um vestidinho de tecido fino. Prendeu desajeitadamente os cabelos, para que os fios caíssem pela nuca. Respirou fundo. Descalça, você subiu as escadas que levavam ao sótão. Abriu lentamente a porta do cômodo. David estava sentado na poltrona, lendo alguma coisa interminável e provavelmente muito chata. Você se aproximou, desabotoando o vestido aos poucos. David tirou os óculos, surpreso, e exclamou: _O que você está fazendo, Dora? _Não diga nada! – você ordenou, tirando-lhe das mãos o livro e jogando seu corpo sobre o dele. Prendeu a pélvis do vampiro entre as suas coxas e deixou os seios caírem para fora do vestido. No primeiro segundo, David não reagiu a nada. Atônito, deixou que você subisse sobre ele, desafivelasse o cinto da calça e deslizasse a mão para dentro da roupa. No segundo seguinte, entregue aos seus beijos, ele já tinha o desejo aceso e dominado por você. Ele segurou-a com força e levantou-se da poltrona. Caíram sobre a cama. No terceiro momento, você passou as mãos sobre as costas dele, sentindo a pele fria e cheia de ranhuras por debaixo da camisa. Você tentou puxá-la, mas ele segurou seu braço e olhoua, como se aquilo não fosse permitido. Os olhos dele tinham mudado, e brilhavam na penumbra do recinto. Eram bonitos e assustadores. O vampiro escorregou o nariz pelo seu pescoço, seduzido pelo seu cheiro, e faminto pelo seu sangue. Um arrepio percorreu a sua espinha. O hálito frio da morte beijava a sua pele quente e macia. O passado veio à tona. Nesse momento, lembrou-se dos gritos do soldado nazista sendo sugado até se afogar no próprio sangue. O som da garganta agonizante dele nunca mais saiu dos seus ouvidos. Ficou com medo. Ia morrer e não estava pronta. Então, no último segundo, antes do seu corpo ser finalmente tomado por ele, um impulso irracional fez você fechar os antebraços sobre o rosto, como se protegessem a cabeça de um impacto fatal. Você o empurrou e implorou para que se afastasse. _Não, David, por favor! Por sorte, o choque da rejeição o fez acordar e retomar o controle dos próprios instintos. Você enrolou o corpo no lençol e se levantou dali em direção à porta, parando apenas para abaixar-se e pegar seu vestido, caído no chão. Saiu sem coragem de olhar para trás. ***


Você ficou sentada no quintal dos fundos, sobre os degraus do terraçinho, arrependida e envergonhada. Estava tão certa de que tudo ocorreria como o planejado, que se surpreendeu com seu instinto de sobrevivência. Não podia imaginar que ele seria mais forte que sua própria força de vontade. Sentia-se enojada pela sua sordidez. Não era como esnobar um cara qualquer só porque podia fazê-lo. Tinha sido cruel por se aproveitar do sentimento e da fraqueza de um amigo. E você conhecia David o suficiente para saber que ele ficaria mortalmente magoado. O medo e o nervosismo ainda faziam suas mãos tremerem, e você não tinha coragem de entrar na casa, nem para vestir uma calcinha. Tinha um receio real de ser atacada se o fizesse. Não sabia onde o vampiro estava, e se ainda estava lá dentro. _Como eu fui me deixar levar? – se perguntava. Ao menos ainda estava viva. Andrei chegou e a encontrou chorando. Ele fez cara de quem se frustraria com o que estava por ouvir. Enfim, a olhou e disse: _Não funcionou, não é? _Claro que não! Meu Deus, nunca senti tanta vergonha... – você se lamentava. _O que aconteceu? _Eu não pude... Não consegui. _Mas você... _Não é fácil morrer, tá legal? – você se irritou. Andrei ficou em silêncio. Depois perguntou: _E David? _Deixei-o no sótão, acho que está por lá, não sei ao certo... Nem sei como vou encará-lo de novo! Andrei ficou em silêncio mais uma vez. Começou a andar em círculos, nervoso. Abraçou a nuca com as duas mãos, e então, explodiu: _Você deu o maior fora nele! Eu não acredito que você fez isso!!! _Como é que é? – você bravejou, incrédula de toda situação. _Isso mesmo! Perdemos a melhor chance que tínhamos! Ele não vai querer tomar um segundo fora! Que merda, Dora!!! Vai ter que arranjar um jeito de concertar isso! _Vai pro inferno, Andrei! Eu não sei onde estava com a cabeça quando concordei com seu plano diabólico! Eu devia estar bêbada... _Mas não estava! – ele olhou-a com raiva – Estava sóbria quando concordou comigo, e agora que fez besteira, quer pôr a culpa em mim? Ah! Assim é muito fácil, né? Só que não fui eu quem largou o cara de pau duro lá em cima! – ele apontou para a janela do sótão. Seu ódio por Andrei foi tão grande naquele momento, que você pegou o cinzeiro que David sempre largava nos degraus da escadinha e jogou contra ele. O objeto acertou a testa do rapaz, rasgando o supercílio e deixando o sangue fluir para fora da pele. Andrei segurou o ferimento, depois olhou para o líquido vermelho manchado sobre a palma da mão.


_Olha o que você fez! – ele a culpou. _Pena que não rachou sua cabeça ao meio! – você devolveu. Então o barulho de um trovão retumbou pelo céu acinzentado, anunciando a chegada de uma tempestade. Um vento gelado soprou seus cabelos e espalhou o cheiro do sangue que escorria da cabeça do ucraniano. Andrei procurou um lenço no bolso da calça e cobriu o corte. A pancada parecia tê-lo acalmado. Ele disse: _Ok. Ficar discutindo não vai resolver nossa situação, então, vamos pensar em como podemos amenizar as coisas... _Não! Chega de planos perversos! Eu estou fora! _Você está mais dentro disso do que eu! – Andrei foi enfático – Vai ter que se desculpar com ele, enquanto ganho tempo para pensar em outro jeito de conseguirmos a imortalidade. O plano perfeito já era, graças a você! _Quem você pensa que é para falar assim comigo? O trovão se repetiu, e uma chuva forte e cortante caiu sobre vocês, congelando-os. _Vamos entrar! – Andrei gritou. _Não! David pode estar lá dentro! _E daí? _E daí que ele pode estar fora de si por causa... você sabe... E sua testa está sangrando. Nós podemos acabar virando o jantar dele! _Nesse caso, não ia ser uma má ideia! – Andrei segurou seu braço – Vamos entrar os dois, quem sabe assim não resolvemos essa parada de uma vez só? E ele a jogou para dentro da cozinha e entrou em seguida. Andrei pegou um pedaço de cano de ferro, do tamanho de um bastão de beisebol, largado ao lado da pia depois de um concerto. _Por precaução, caso as coisas deem errado... – comentou. Você tentou ascender a luz, mas não havia energia. _Era só o que faltava... Um relâmpago iluminou o ambiente. A casa estava em silêncio. _David? – Andrei chamou. Não houve resposta. _Venha! – e Andrei foi à frente. Você o seguiu. Chegaram aos pés da escada. _Andrei, melhor não... – você o advertiu. Então, lembrou-se que o vampiro era antes de tudo um caçador. Olhou para o teto, insegura. _O que está fazendo? – Andrei te repreendeu. _O teto... Eu o vi descer do teto uma vez! _Ele quem? Do que está falando, Dora? _David surpreendeu o soldado assim! Andrei, no entanto, fez uma cara de desprezo e não deu atenção. Pôs o pé no primeiro degrau, empunhando o cano com as duas mãos. Gritou mais uma vez: _DAVID? A voz grave e suave do vampiro encheu a sala, num tom mal humorado. _Vai me acertar com isso? – ele falou com certa mágoa.


Uma luz bruxuleante e amarelada, vinda de trás dos dois, iluminou a escuridão, e então David apareceu, ao lado de vocês, segurando um castiçal. Já estava vestido e parecia recomposto. Tinha a outra mão dentro do bolso, e a face séria. _Ãm... – Andrei gaguejou – Não, de forma alguma! – ele abaixou a arma improvisada, sem jeito. Você ficou calada. Não tinha certeza do que viria a seguir. David tirou o cano das mãos de Andrei. A testa dele ainda sangrava, e os olhos do vampiro brilharam com o cheiro do líquido vermelho. _Melhor limpar isso! – David disse a ele, irritado. Andrei lavou o ferimento no lavabo. Quando voltou, David disse aos dois: _Sentem-se! Vocês obedeceram, e se sentaram no sofá, lado a lado. David ocupou a poltrona em frente. Estava puto da vida... ***


S

entados no sofá da sala, você e Andrei não diziam

nada, e sentindo-se como crianças prestes a levarem uma surra, apenas observavam o vampiro começar a bronca: _Então, vocês planejavam me persuadir a dar a vocês a imortalidade! _Não! – Andrei tentou fingir um desconhecimento de causa – De onde você tirou isso? _Escutei vocês gritando no quintal... – David ergueu as sobrancelhas, com ironia. Andrei se calou. A situação ruim ficou ainda pior. O vampiro não encarava o rapaz. Encarava você, de quem ele não esperava a punhalada. _Não imaginava que você fosse capaz... Era constrangedor olhar para ele. David continuou: _Apesar da covarde traição de vocês, meus filhos ingratos, e já que não é a primeira vez que sou traído; e muito provavelmente também não será a última, quero dizer que decidi dar a vocês aquilo que realmente merecem! As palavras dele foram secas. David se levantou, foi até a cozinha, e retornou à sala, com uma pequena faca e uma taça nas mãos. Sentou-se novamente na poltrona e usou a faca para rasgar o próprio pulso. Encheu


metade da taça com seu sangue, e colocando-a sobre a mesa de centro que os separava, disse em tom sério: _Quem vai ser o primeiro? Você e Andrei, sem nada entenderem, permaneceram quietos. A escuridão, a taça, e a luz fraca e bruxuleante do castiçal davam à cena a aparência de um ritual de magia negra. O vampiro curvou-se para frente, e encarou-os. Estava bastante magoado e nervoso. _Não é isso que desejam? A eternidade e a escravidão estão aí, diante de vocês, basta que vocês as peguem e bebam! O silêncio dos dois ainda continuou. _E então? Desistiram assim tão rápido? Depois de todo o trabalho que tiveram? Passar de um para o outro, acham que é assim que funciona, como um vírus? O vampiro pegou a taça e ofereceu-a a Andrei. _Você primeiro. Satisfaça sua ambição, sua prepotência e sua ignorância, meu filho malvado! Tome! Andrei ficou um pouco receoso, por causa da atitude do vampiro. Enfim, quebrou o silêncio: _É só isso? _Por que não descobre por si mesmo? – David propôs, com cinismo. Andrei tomou a taça nas mãos, e a levou até boca. Tomou uma boa dose, mas o vampiro tirou-lhe o copo antes que bebesse todo o líquido. _Deixe um pouco para sua irmã. Uma overdose não vai te fazer bem! Aquela situação era desconfortável e estranha no mais alto grau. Andrei ficou um tempo em silêncio, e logo em seguida, começou a gargalhar, como se sob influência de uma poderosíssima droga. _Ah, ah, ah, ah... Você tem que provar Dora, é fantástico! David te ofereceu a taça quase vazia. _Sua vez, meu bem! Segurando a taça, você não tinha certeza sobre o que estava por fazer. O vampiro a olhava com pesar, como se a estivesse persuadindo a envenenar-se. Andrei delirava em surtos de alegria. _Porque mudou de ideia? – você perguntou. _Beba apenas um gole, criança! – foi tudo o que ele respondeu. Depois desviou o olhar para o chão, chateado. _Me desculpe, eu não quis... _Quis sim. Apenas beba. Sem pensar em mais nada, nem nas consequências, você sorveu o líquido denso que desceu pela garganta e penetrou em todas as células do seu corpo, antes mesmo de chegar ao estômago. O efeito era instantâneo, e você foi tomada de uma euforia devastadora, que trazia um bem estar indescritível. Era como se as portas do Paraíso tivessem sido abertas para te receber... ***


Q

uando

acordou

na

manhã

seguinte,

você

não

se

lembrava de absolutamente nada. Levou um grande susto quando se viu no chão da sala, nua, ao lado de Andrei, completamente despido. _Meu deus do céu! Horrorizada, você agarrou suas roupas e subiu as escadas, correndo em direção ao seu quarto. Vestiu-se, imaginado onde estaria David. Tentava não pensar no que tinha feito. Foi até o sótão. Ele estava lá. Quando você entrou, encontrou o vampiro sentado em sua poltrona de leitura. Ele disse: _Você já voltou a si? _Meu Deus, David, transei com Andrei! _Eu sei. Eu os ouvi a noite toda. E acho que os vizinhos também ouviram... _E você não me impediu? _Devia ter impedido? Um ódio súbito te tomou por inteira. Você acertou um tapa sonoro no rosto do vampiro. David virou a cara com o bofete. _Está se sentindo melhor, agora? – ele falou em tom de cobrança – Eu ainda estou péssimo pela noite passada! Você tremia de nervoso.


Vendo-a descontrolada, David se levantou e a fez sentar na poltrona. Ele explicou: _Acontece sempre na primeira vez. É comum as pessoas perderem o juízo e ficarem a mercê dos seus instintos mais primitivos na primeira dose. É comum também não se lembrarem do que fizeram no dia seguinte... _O que vai acontecer com a gente agora? – você quis saber – Vamos nos tornar como você? _Não. Vocês estão vivos. E se depender de mim continuarão assim. Mas se tomarem doses moderadas com frequência, desfrutarão de uma vida eterna, com corpos jovens e sentidos mais aguçados que os das pessoas normais. Claro, às vezes podem surgir efeitos colaterais, mas esse tipo de reação é pessoal, e pode não acontecer com todos. David foi até à janela e se expôs ao sol da manhã. _E se eu não quiser mais? – você argumentou. _Eu espero que você seja forte o suficiente para resistir à abstinência, Dora! Porque é insuportável! Ele saiu da janela, e encostou-se a parede. Olhou para você e terminou: _Burrice sua abrir mão da própria liberdade... ***


D

avid estava certo com relação à abstinência.

O sangue do vampiro era um vício irrecusável. Funcionava como uma droga potente, que enlouquecia quem o dispensava, e escravizava quem o queria. Você notou algumas mudanças físicas depois da primeira dose, principalmente com relação aos seus sentidos. Porém, três semanas depois daquela noite, sua menstruação falhou. Desesperada, achando que poderia ter engravidado de Andrei, você decidiu consultar um médico. _David, eu estou desconfiada de que... Não aconteceu esse mês, sabe? Será que você poderia me acompanhar até o ginecologista e fingir que é meu marido? Não quero ir sozinha e passar essa vergonha... (O ano era 1955. Seria impossível escapar de um julgamento negativo, até mesmo do médico). _Dora, acho que eu tenho que te explicar umas coisinhas antes de irmos até lá... _David, eu não quero ter um filho daquele espírito de porco! Eu prefiro me matar! _Dora, você não está grávida. _Como David? – você se espantou - Como sabe que não? _Quer dizer... tem uma explicação para isso. _Então acho bom você me dizer tudo o que sabe!


_Escute, Dora, isso é um efeito do meu sangue agindo no seu corpo. Enquanto você tomar dele, não vai mais sangrar... _Por que não, David? _Porque... porque o que ele faz é interromper as mudança física naturais do corpo. Cabelo, pelos, unhas, não vão mais crescer, a pele não vai mais se renovar, o seu ciclo vai cessar... A infertilidade é uma consequência disso. Não há possibilidade de você estar grávida. _Quer dizer que não tem bebê? Que não posso engravidar? _Sim. O sangue de David tinha te despertado diversas sensações. A comida parecia mais saborosa, seu paladar conseguia distinguir com exatidão diferentes sabores, a visão ficou mais nítida, os ouvidos mais apurados, os prazeres intensificados. O sexo ficou indescritivelmente melhor. Além disso, outra coisa aconteceu a você: seu sexto sentido tornou-se uma espécie de vidência. Uma sensibilidade sobrenatural de ter conhecimento sobre acontecimentos presentes e futuros passou a assombrá-la. Não era voluntária, e na maioria das vezes era indecifrável. _Você já era sensível, Dora. Meu sangue só fez com que seu sentido evoluísse. Também não gosto de certas coisas que vejo às vezes. Mas com o tempo você se acostuma. Tem que compreender que agora você está mais próxima do limiar que separa a vida da morte, e isso te faz capaz de enxergar além dos seus sentidos comuns... Andrei não desenvolveu nenhuma aptidão especial. Mas era indiscutível que sua personalidade havia se alterado para pior. Sua ambição e prepotência tomaram uma proporção maior, e ele desenvolveu um tipo de raciocínio doentio e desvirtuado, que para ele parecia ter uma lógica indiscutível. Sobre isso, David dizia: _Como eu disse, o sangue age de diferentes formas, não cria nada, só transforma o que já existe. É como fermento, apenas faz crescer. Lamento por Andrei, mas ele escolheu seu caminho e não há nada que eu possa fazer a respeito... Andrei implorava diariamente ao vampiro que terminasse o que havia começado. Ele queria ser mais poderoso, queria ser independente. Por motivos óbvios, David sempre lhe negou o pedido. ***


1970

. David vendeu o sobrado da rua Albani e

vocês se mudaram para um apartamento na abastada rua Baker, um famoso endereço londrino. O apartamento era espaçoso, e dessa vez havia um quarto para cada um, inclusive para o vampiro. Foi nesse bairro que você conheceu Anthoni Le Branc, um imigrante francês, conhecido pelo apelido inglês de Tom. Ele trabalhava como garçom em um restaurante na Baker. Tom tinha vindo do sul da França, e não tinha família. Era um jovem humilde, atlético, engraçado e bom de cama. A paixão entre você e ele foi inevitável. E o ciúme de David também. _David, você já sabe que a Dora anda de namorado novo? – foi Andrei quem provocou a situação, com seu ar cínico e dissimulado de sempre. _Que bom pra ela! – David respondeu, sem tirar os olhos do jornal – Não vai nos apresentá-lo, meu bem? _Ah... sim. Vou trazê-lo aqui! – você respondeu um pouco sem jeito. _Ótimo, minha querida! – David tentou disfarçar sua insatisfação – Convide-o para o jantar! O vampiro se levantou do sofá. _Bem, se me dão licença, vou até à biblioteca. Vejo vocês mais tarde! Ah, e não se esqueça de convidar o rapaz, Dora! E ele saiu.


_Você não presta, Andrei! Nunca fiz isso com você! _Porque não é de mim que ele tem ciúmes! – Andrei se divertia. _Ah, então é assim? Pois esteja aqui as sete em ponto para o jantar, querido irmãozinho! Eu vou preparar um prato muito especial... *** _Como é mesmo o seu nome, meu jovem? – David interrogou Tom, tentando ser simpático. _Anthoni, senhor. Mas, todos me chamam de Tom. Andrei tentava disfarçar o riso. _Você faz o quê mesmo? _David! – você interrompeu o interrogatório, trazendo nas mãos a travessa com a carne assada. _Nós só estamos conversando, Dora! _Só que agora chega de conversa, Sr. David, senão o jantar vai esfriar! – e você pôs a travessa sobre a mesa. _Deixe, Dora, eu te ajudo! – Tom se ofereceu. O francês levantou-se e pegou a faca, pondo-se a cortar a carne em fatias. Ofereceu uma a David, que recusou. _Não. Obrigado. Estou de regime! Tom serviu os pratos restantes. E todos começaram a degustar a comida, exceto David. Tom estava um tanto desconfortável com o vampiro lhe encarando. Você deixou a carne de lado. Ela estava temperada com muito alho, e o condimento tinha um gosto excessivamente forte para um paladar sensível como o seu. Andrei começou a tossir por causa do alho. Tom não notou diferença alguma. _Acho que exagerei no tempero, meu querido irmão! – você desculpou-se cinicamente, com um sorriso torto. Andrei te olhou com o canto dos olhos, e secou o jarro d’água. Inocentemente, Tom comentou: _Não exagerou, não! Está ótimo! – e completou – O senhor devia provar! – Tom disse a David – Sua filha é uma excelente cozinheira! O vampiro se tocou que era um tanto estranho alguém sentado à mesa sem provar a comida. Ele olhou para você procurando algum escape, e você retornou o olhar sem a solução que ele buscava. Então, corajosamente, David concordou: _É... acho que não vai fazer mal eu sair do regime só um dia... Antes que David tocasse na comida, você se antecipou e começou a fazer um prato só com arroz e legumes. _Pode deixar que eu te sirvo! David estava tenso. E antes que devorasse a primeira garfada, Andrei, maldosamente, soltou: _Não vai provar a carne assada? Está especialmente temperada, não é irmãzinha? David olhou com ódio para Andrei, que retornou um sorriso malicioso. _Não! – você reagiu. _Como não? Não está uma delícia, Tom? – Andrei procurou o apoio do garçom.


_Está sim! Uma delícia! – Tom confirmou. Sem opção, David pôs uma fatia no prato, e levou um pedacinho a boca. Andrei estava entusiasmado. Você esperava com medo a reação alérgica explodir. David mastigou sofridamente o pedaço de carne. Tentou sorrir, mas engasgou quase que instantaneamente, começando a tossir, como se sufocasse. Tom se levantou para tentar acudi-lo, deixando os talheres caírem no chão. _Deixem comigo! Eu tenho treinamento para essas situações! – e Tom agarrou David por trás, abraçou sua cintura, e desferiu uma série de golpes para dentro da barriga, pressionando o diafragma. Era uma cena cômica. Andrei não conseguiu mais manter a falsa polidez e desatou a gargalhar da situação ridícula. David agarrou a barra do seu vestido, e você tentou fazer Tom parar. O garçom o soltou, e David correu e se trancou no banheiro. Vocês escutaram sons estranhos vindos do lavabo. _Vamos chamar uma ambulância! _Não, Tom! Está tudo bem! É... David é alérgico a alho, mas ele vai sobreviver! – você tentou concertar. _AH, AH, AH, AH!!! Pena que não filmamos isso! – Andrei se divertia. _CHEGA COM ISSO, ANDREI!!! Vá ver se David precisa de ajuda!!! – você se irritou. _Acho que é melhor eu ir embora! – Tom disse, envergonhado. Você o acompanhou até a porta. Do lado de fora, você se desculpou: _Tom, nem sei o que te dizer... Me desculpe! _Não tem do que se desculpar, foi só um incidente. _Não, Tom, não foi um simples incidente... sabe... é complicado... _Olha, Dora, você está sempre me dizendo que com você as coisas são complicadas. Eu gosto muito de você, mas acho que se vamos levar isso para frente, está na hora de você confiar em mim! _É esse o problema, Tom! Eu confio, mas não quero, e nem posso te envolver... _Mas eu já estou envolvido! Tom segurou suas mãos e esperou que você desabafasse. Você estava apaixonada demais para conseguir terminar tudo. _Quer saber, Tom, você tem razão! Tenho que confiar em você, sei que vai me entender! David que se foda... _Nossa! – ele exclamou – Qual o problema com seu pai? _David não é meu pai! David é um vampiro. É isso. Ele é um vampiro e me adotou há muitos anos. Vivo com ele desde então... Tom escutou, mas ficou em silêncio. _Ah, ah, ah! – ele brincou - Sem piadas, Dora, qual é o problema? _É verdade Tom! É inacreditável, mas é verdade! Eu juro! Eu vivo com David porque me viciei no sangue dele! Eu tenho que regularmente tomar certas doses para me manter assim como você me vê agora! Faço isso há mais de quinze anos. Isso me impede de ter uma vida independente, longe dele, entende?


_Dora, acalme-se! _Como vou me acalmar? O que você viu lá dentro foi a reação alérgica de um vampiro ao alho que eu pus na comida! Agora ele deve estar vomitando as tripas trancado no banheiro! Tom nada dizia. Olhava para você com cara de espanto. _Eu não quero esconder de você quem eu sou, Tom! _Está bem, eu acredito em você! Mas se acalme. Amanhã a gente conversa, está bem? Vá descansar um pouco... Ele te beijou. _Até amanhã, amor! E se foi. *** Ao entrar no apartamento, você se deparou com David, de pé ao lado do sofá, com os braços cruzados e uma expressão séria. _Você está melhor? – você quis saber. _Alho, Dora? _Como eu ia imaginar que você ia fazer a burrice de comer? _Precisamos conversar... _Não, David. Eu não estou com saco para escutar suas críticas agora! _Mas vai escutar! – e ele falou num tom seco – Você precisa deixar esse rapaz! _Como é que é? _Você escutou muito bem. Você fez uma cara de desdém. _Peraí, David, você acha que pode mandar em mim desse jeito? _Não estou mandando. Estou sendo razoável. Será impossível manter esse relacionamento. Não me importo com o que você faça, desde que não se prejudique... _Ou melhor dizendo, David, que não prejudique você! Razoável? Ah, pare com essa pieguice! Você está com ciúmes do Tom, isso sim! _Eu? Com ciúmes? – ele debochou – Você sabe que ciúmes é um sentimento que eu não preciso ter! _Ah! Então é assim? Você acha que eu não posso viver sem você? Que basta você estalar os dedos que eu vou vir correndo beijar seus pés? Pois isso acabou agora! Eu vou embora! Você caminhou até a saída. Quando puxou a maçaneta, David apareceu e empurrou a porta, fechando-a. Foi tudo muito rápido, você não pode ver os movimentos dele. Ele bravejou: _Você está alterada! Andrei apareceu para apimentar a briga. _Deixe ela ir, David! Em uma semana, quando ela começar a envelhecer rapidamente, vai voltar chorando para você! David ficou em silêncio por uns três segundos, e com pesar, abriu a porta, e disse em voz baixa: _Vai. Você não reagiu. _Pode ir. Faça o que tem vontade... E ele encostou-se na parede, desbloqueando seu caminho. Nesse instante você parou e ponderou. Sem o sangue do vampiro, sua saúde e sua vida iriam se complicar excessivamente. E se Andrei não estivesse presente, você choraria. Então, sentindo-se humilhada, você declarou:


_Você só está dizendo isso porque sabe que eu não posso fazê-lo. Maldita hora em que me deixei escravizar por você! Você vampiriza tudo, David, o meu calor, a minha vida, a minha liberdade, e a minha paciência! E ainda se faz de benfeitor! Eu já comecei a te odiar, sabia? David nada dizia, apenas escutava as palavras duras que você cuspia na cara dele. _E você sabe por que eu te odeio? Porque eu quero ter vida própria, droga! Estou decida a viver com Tom! _E ele está decido a viver com você? – David devolveu – Você já se perguntou se ele ia correr o risco de viver ao lado de um predador por sua causa? _Eu vivo do seu lado. Eu devia temer isso? – você o encarou. David ficou em silêncio. Depois, ele resmungou, rancoroso: _Ele não vai te querer quando souber a verdade sobre você... _Ele já sabe. O vampiro se alarmou com a notícia, mas em dúvida, desferiu: _Você está blefando! Não passa de uma menina mimada! _E você não passa de um demônio! Não é nada mais do que uma besta prisioneira de sua própria loucura! E agora quer enlouquecer a gente também! Porque não vai para o inferno, que é o seu lugar? – você se irritou e correu para o seu quarto. Chorou de portas fechadas quase a noite toda. Na manhã seguinte, tomou o café sozinha, até Andrei aparecer. _Dora? _O que foi, espírito de porco? _Acho melhor você vir ver uma coisa... Foram até o quarto do vampiro. Você viu David deitado na cama, completamente imóvel, de barriga para cima e olhos fechados. Parecia morto. _Ele está dormindo? – você perguntou. _Eu não sei. David não dorme... Vocês se aproximaram e ficaram observando. O vampiro não esboçava nenhuma reação. Andrei comentou: _Ontem ele ficou parado uma meia hora depois da discussão. Vi ele fumar seis maços de cigarros! Seis maços! Ficaram em silêncio um breve momento. Andrei continuou: _O que vamos fazer? _Eu? Nada. _Eu estou ouvindo bem? – Andrei se irritou – Nós estamos com um problema aqui! _Então, fique procurando o botão de “liga/desliga” sozinho! E você saiu. *** Você desceu a rua em direção ao restaurante onde Tom trabalhava. Queria vê-lo e conversar sobre a noite passada. Ao chegar, viu o garçom arrumando algumas mesas, e sem querer, ouviu uma conversa que Tom tinha com um colega. Ele dizia: _Eu não sei. Estou um pouco assustado. Acho que ela está com problemas sérios e está fantasiando uma história maluca de que o pai é um vampiro!


_Vampiro? – o outro garçom se interessou. _É. Ela deu a entender que ele a faz de prisioneira, ou qualquer coisa assim. Acho que ele deve ser autoritário, sei lá. Deve ser o diabo. E o cara é esquisito mesmo. Me dava calafrios o jeito que me olhava, um tipo pálido, parecia que ia me devorar... – e Tom soltou um pequeno riso. _Sério? Tipo como? _Ah, John, não sei. O que eu mais achei estranho foi quando a mina chegou com o jantar, e o cara nem tocou na comida. Aí, quando ele resolveu comer, quase morreu engasgado. Ela me disse que ele era alérgico a alho. É uma família muito estranha... E o irmão dela, então, com cara de psicopata? _Onde ela mora? Tom apontou para o prédio do outro lado da rua. _Naquele apartamento. Você conhece um médico ou alguém que possa ajudar? _Meu caro, eu não conheço nenhum médico, mas conheço outra garota para te apresentar! Vou te dar um conselho: mulher é que nem carro, quando dá problema, a gente troca! _E desde quando eu preciso de marmanjo para me apresentar mulher, hein? – Tom brincou. Seu sangue ferveu no grau máximo. Quando você se deu conta, já estava em cima dele, tirando satisfações: _Eu acho melhor você seguir o conselho do seu amiguinho, Tom! Arranje outra garota, porque essa aqui você perdeu! _Dora?! – o garçom se surpreendeu. Você queria dizer mais coisas, mas as palavras faltaram, e tudo o que conseguiu fazer foi subir a rua, para longe dali. Você não queria fraquejar na frente dele. Tom correu atrás de você, e a segurou pelo braço. _Dora! Pare com isso! É jeito de falar, é conversa de homem, sabe? Eu só estava tirando uma, qual é? Você sabe que eu gosto de você! _Se gostasse, Tom, acreditava em mim! Acreditava em cada palavra que eu te disse! Arrumei a maior confusão por sua causa! Me desentendi com David para te defender! E para quê? Para chegar aqui e escutar você fazer pouco de mim? _Eu não estou fazendo pouco de você, só acho que você precisa de ajuda! E eu quero te ajudar! _Não preciso da sua ajuda! Você puxou o braço, e foi embora. *** De volta ao apartamento, você se recolheu no seu quarto, e quis ficar só. Tom não acreditava em você. E era compreensível que ele agisse dessa forma. A situação era tão absurda... Se fosse o contrário, você também não acreditaria. Então, como podia culpálo? E gostava tanto dele... Depois você foi até o quarto de David para vê-lo. Encontrou Andrei ao lado da cama, junto do vampiro, ainda imóvel. _E então? – você perguntou ao rapaz. _Continua desacordado.


_Isso vai passar. Da outra vez passou. Acho que são os cigarros... _E se não passar? O que vamos fazer, ãm? _Vai passar, Andrei. Eu sei. _Assim espero... – Andrei parecia zangado com você. Naquela noite você assistiu à novela sozinha. *** Na manhã seguinte, você e Andrei tomavam o desjejum, quando ele comentou: _Minha barba está crescendo... _David vai acordar logo, Andrei, vamos ter paciência... _E se não acordar logo? Nós precisamos do sangue, Dora! _Eu sei, mas temos que esperar. Não podemos pegar, assim, sem permissão. Seria falta de respeito! _Você diz pro cara que ele é uma besta louca e depois vem falar de respeito? _Ele mereceu. E cale a boca! O rapaz tomou de uma vez o café, e levantou-se da mesa. Antes de sair da cozinha, disse: _Preciso ir até o fórum resolver algumas coisas para o David. Fique com ele. Você lavou a louça, depois ficou ao lado do vampiro, lendo um livro. Baixou o som do telefone que não parava de tocar. O barulho já te causava dor de cabeça, mas você não ia atender aos chamados de Tom. Ainda estava magoada com ele. Ficou ali tempo o suficiente para cair no sono e cochilar. *** O barulho da maçaneta te acordou uma hora depois. Pensou que pudesse ser Andrei, mas alguém forçava a fechadura. Você se levantou e espiou o que acontecia pela vão da porta do quarto. A porta de entrada abriu, e uma mulher e um homem entraram no apartamento. O homem era John, o amigo de Tom. _Vamos ser rápidos, temos que sair daqui antes de escurecer. É tempo o suficiente para pegarmos o sangue e darmos o fora daqui! – o homem falou. _E onde vamos encontrar o conde Drácula, hein John? _Não sei, procure nos quartos, devem estar dormindo nos caixões, sei lá! Não sabe que vampiros dormem durante o dia? _Está bem! Procurar nos caixões... _Rápido, boneca! Vamos faturar uma nota com os traficantes! ‘V’ vale uma grana preta! E uma seringa cheia é o suficiente para nos deixar milionários! A mulher entrou no quarto, e inevitavelmente a encontrou. _Achei uma, John! - Ela apontou um revolver para você – Paradinha aí, morcega, ou vai levar prata no peito! O tal John entrou no quarto. Ele a reconheceu. _Essa é a namorada do Tom! – ele disse à mulher – Calminha aí, garota, nós só queremos o vampiro! Fique calada! – John olhou para David desacordado na cama – É ele? Você nada respondeu. O homem tirou de uma sacola um jogo de correntes prateadas, e uma seringa grande.


_Bem mais fácil do que imaginei! – ele sorriu – Aí, gata, me dá cobertura! _DAVID!!! – você gritou, na esperança que o vampiro acordasse, mais nada aconteceu. O homem perdeu a paciência e lhe acertou uma bofetada no rosto. _Eu mandei ficar calada, VAGABUNDA! – gritou com você. David abriu os olhos com o som do tapa. Imediatamente ele saltou da cama, e mesmo ainda atordoado e sonolento, jogou John contra a parede do quarto. O homem caiu desnorteado, mas antes que David reagisse novamente, a mulher deu uma gravata em você, e meteu o cano do revólver na altura do seu coração. _Aí, bonitão! – ela gritou para David – Fica quietinho, senão vou fazer um buraco no meio dos peitos da sua puta das trevas, você entendeu? _Dora! – David se viu sem saída. Isso deu tempo para John se recompor. Ele levantou-se, e apontou outra arma para o vampiro. _Se você colaborar, ninguém se machuca! – ele falou – Deite no chão de costas para cima, cara, e ponha as mãos para trás! – John ordenou a David, preparando as correntes de prata. _Não faça isso! – você pediu. Você sabia que David era bem mais forte e mais ágil do que aqueles dois estabanados. Podia pegá-los facilmente. Mas ele hesitou. O medo de que você se ferisse, caso ele falhasse, o fez ficar sem reação. Nesse instante, você entendeu que para o vampiro você era mais importante do que ele próprio. David, então, apenas a olhou, e ajoelhou-se, obedecendo ao homem. Esperou que fizessem com ele o que pretendiam, para que fossem embora o quanto antes. _Dora? De repente, a voz de Tom ecoou pela sala. Ele continuou: _A porta está aberta, eu vou entrar, está bem? Os dois assaltantes se alarmaram. _Droga, John! O que vamos fazer? – a mulher perguntou ao parceiro. _Eu vou me livrar, dele! Segure os dois aqui! Mas antes que John tivesse tempo de sair do quarto, Tom apareceu na porta e viu tudo. _DORA!? – ele se espantou - O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO, JOHN? SOLTE ELA! _Calma, cara, calma! Escuta, vai rolar uma grana boa, a gente divide, certo? – John tentou persuadi-lo. _DO QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO? SOLTE ELA AGORA! – e ele se lançou sobre o amigo para acertar-lhe um soco. Então, a mulher atirou. Tom tombou no chão. _NÃO!!! TOM!!!! – você gritou. _Que merda, boneca! – John gritou para a mulher. Tom sangrava e agonizava no chão do quarto. Andrei apareceu. Ficou imóvel na porta, especulando que reação tomar. David aproveitou a distração dos assaltantes e tomou a arma das mãos da mulher, tão rápido que você só percebeu quando o vampiro disparou um tiro na testa de John.


A mulher gritou “John!”, mas antes que reagisse, David a puxou pelo pescoço, e a arrastou para fora do quarto, dizendo: _Gostaria de levar você para jantar, ‘boneca’! _Não! NÃO! – ela implorava. Livre, você correu até Tom. O tiro tinha atingido o coração. _Não morra, Tom! NÃO MORRA! – você chorava. Tom perdia os sentidos, não havia nada que se podia fazer. O desespero e a dor de perdê-lo eram reais. Andrei ainda estava paralisado. Observava o vampiro sugar o sangue da mulher. De onde você estava, só dava ver os pés dela estrebucharem. David foi rápido, e quando terminou, voltou ao quarto. Estava com os olhos brilhantes e os dentes à mostra. Tinha um fio de sangue escorrendo pelo canto da boca. _David... eu te imploro... não deixe Tom morrer! Por favor! – você pediu ao vampiro. David te encarou, com certo pesar, e disse: _Não há nada que eu possa fazer... Sinto muito! _Trás ele de volta pra mim, David, por favor! Eu não posso suportar... _Dora, você não pode me pedir isso... _David... me ajuda... por favor!!! _Eu não posso... _Por mim, David... FAÇA ISSO POR MIM! David ficou sem reação. Por fim, balançou a cabeça positivamente. Era claro que ele não suportava vê-la sofrer, e foi impossível a ele negar o seu pedido mais uma vez. _Andrei, tire Dora daqui, e feche a porta quando sair! O ucraniano se revoltou: _Você não pode fazer isso, David! Não seria justo comigo! _CALE-SE ANDREI! FAÇA O QUE MANDEI, E SE NÃO PUDER FAZER, ENTÃO SAIA E NÃO ATRAPALHE!!! – o vampiro perdeu a compostura. Andrei saiu do quarto, irritado pelo esporro. David ajudou-a a se levantar e pediu para que esperasse do lado de fora do quarto. Ele fechou a porta e ninguém sabe o que se passou lá dentro. O corpo da mulher estava estendido no chão da sala. Ela tinha uma mordida arroxeada no pescoço, e os olhos abertos e assustados. Andrei estava inerte, pensativo. Ele sempre ficava assim quando planejava alguma coisa, e você sabia que ele ia tentar se beneficiar de algum jeito da situação, mas isso não era uma preocupação para o momento. Estava aflita demais para se importar. _Você sempre consegue o que quer, não é? – ele falou. _Azar o seu David não ir com a sua cara! Ele guardou a resposta afiada na ponta da língua, mas não disfarçou o olhar hostil. Demorou muito até que a porta se abrisse, e David aparecesse. Ele encostou a porta assim que pisou na sala. _David, e Tom? Ele está bem? _Ele vai ficar bem. Eu espero... Ele já estava quase morto, temos que esperar agora. David sentou-se no sofá.


_Andrei, me vampiro ordenou.

faça

um favor... Livre-se dos corpos! – o ***

O francês despertou. Demorou tanto que David chegou a achar que tinha falhado. Ficou confuso durante muito tempo e tinha dificuldades de raciocínio. Mas aos poucos, ele recobrou algumas lembranças. _David... – você se aproximou do vampiro – Obrigada! Muito obrigada mesmo! – e o abraçou. Estava grata por ele ter atendido ao seu pedido, mesmo não querendo. Ele não disse nada, apenas arregalou as sobrancelhas, e sorriu. _Quanto tempo fiquei desacordado? _Um dia e meio. _E a novela ontem? _O Maurício finalmente pegou a Angelita com o irmão dele na cama, e descobriu sobre o sumiço das joias da família! _Putz! Eu fui perder justo esse capítulo... *** Tom havia entrado no apartamento para conversar com você, e não teve sorte. De início, ele não aceitou bem o novo destino. Não compreendeu bem sua posição até começar a sentir fome. Quando isso aconteceu, David o levou do apartamento, e ficaram dois dias fora. Depois que Tom retornou, você tentou conversar, mas ele parecia magoado com sua decisão. David pediu para que você desse um tempo a ele. _O que ele queria que eu fizesse? Que o deixasse morrer? _Calma, Dora. É uma mudança muito radical, ele só precisa se acostumar... Mas não demorou a que vocês se aproximassem de novo. Tom a amava, e você a ele. A única pessoa que detestava tudo de fato era Andrei. Era evidente a inveja que ele sentia. E para manter uma convivência pacífica, David já tinha imposto ao novato algumas regras: _Se você quiser viver conosco, há algumas regras que você terá que seguir cegamente – David explicou a ele – Primeiro, eu mando aqui, e a minha palavra é a lei. Sacou? _Ok, senhor! _E não me chame de ‘senhor’! – David realmente odiava essa palavra. _Ok, chefe! _Regra número dois: dentro de casa não se come. E isso quer dizer que a sua vida depende diretamente da vida e do bem estar de Dora, do contrário, eu mesmo vou fazer questão de te destruir! Tom engoliu em seco. _Terceira regra: jamais divida o seu sangue com Dora ou Andrei, mesmo que eles implorem, e não o faça em hipótese alguma, certo? _Certo.


_Bom garoto! Não desobedeça estas três regras básicas, e você vai viver muito! Mais tarde, em conversa com Tom, ele disse a você: _Sinto muito não ter acreditado em você quando me disse que seu pai era um vampiro... _Tudo bem, eu te entendo. E David não é meu pai. _Vocês são amantes? _Tom! Que é isso agora? Acha que eu te enganaria? _Não. Claro que não. É... que ainda estou muito confuso, é só isso... Você o abraçou, e ele deitou a cabeça no seu ombro. _Você tem um cheiro tão gostoso... – Tom beijou seu pescoço – Uma pele tão macia... Eu... eu te quero tanto! E o rapaz avançou para cima de você, e a mordeu. Os dentes penetraram a pele, e você tentou se libertar do abraço fatal, mas não podia vencer a força do vampiro. _Tom... Pare! SOCORRO!!! David apareceu e arrancou Tom de cima de você, a força. O vampiro mais velho segurou o novato pelo colarinho, e gritou: _Eu te avisei! Não avisei? E David quebrou o pescoço do rapaz, que caiu inerte. _MEU DEUS! DAVID!!! O vampiro mais velho correu até você. _Dora, você está bem? _O que você fez a ele? _Ele vai acordar logo. E quando isso acontecer, nós vamos ter uma conversa muito séria... David expulsou Tom do apartamento. Disse que enquanto ele não tivesse controle e força de vontade suficientes, não voltaria a morar junto de vocês. Você relutou, mas David respondeu: _Sorte sua eu estar por perto! David alugou um apartamento para Tom, e durante muito tempo proibiu as visitas do rapaz a casa, liberando-as mais tarde, sob supervisão. Isso atrapalhou o relacionamento de vocês, e fez com que Tom se distanciasse. _Você nem fala mais comigo direito! Por que, Tom? _Dora, é melhor você ficar longe de mim, não é seguro. Eu... quase te matei, poxa! Sabe como eu me sinto? _Tom... _Dora, me esquece! Não dá mais... Eu mal consigo ficar perto de você sem desejar o seu sangue! Não quero te machucar... Assim, Tom se afastou completamente. E você sofreu. _Ah! Você achou mesmo que o bonitão ia traçar o seu sangue, Dora? Você é do David, e ele não vai deixar ninguém chegar na frente, sacou? Inocência sua achar que o vampirão ia deixar o cara ficar aqui de boa! _Andrei, me faz um favor: VÊ SE MORRE!!! ***


_B

em...

Andrei

começou

Aqui

estão

os

documentos. Meu novo nome será Andrei Talbot Junior, filho de Andrei Talbot, meu eu anterior, e Margaret Talbot, fictícia, já falecidos. E Dora será Doralice Talbot, irmã de Andrei Talbot Junior, filha dos mesmos pais. Ficamos os dois como descendentes de minha personalidade anterior, e Dora Talbot morreu sem deixar herdeiros. Aqui estão as certidões de óbito, e Dora e eu estamos oficialmente mortos... Andrei e David discutiam a sucessão de bens e troca de identidades, necessárias aos novos tempos. Desde a guerra, quarenta anos já haviam se passado, e era impossível manter um RG onde se tinha uma idade avançada para um rosto tão jovem. Você e Andrei, então, contavam com cerca de cinquenta anos cada. _Doralice? – você criticou. _Foi o melhor que consegui, não reclame! – Andrei continuou – E aqui está a certidão de morte de David Robert Talbot, aos noventa anos de idade, vítima de câncer pulmonar! – o rapaz esboçou uma risada, aproveitando-se do fato do vampiro fumar sem limites. David se irritou: _Vá se danar!


_Então, agora que você está morto, David, os seus bens são de propriedade dos seus netos. Ou seja, eu e Doralice. Meio a meio... _E cadê a doação da sua parte à Dora, Andrei? – o vampiro quis saber. O rapaz apenas olhou para o homem de meia idade, e respondeu: _Está aqui, assinada por mim, doando tudo que herdei para a minha querida irmãzinha, ficando completamente na miséria! – ele disse, descontente. David pegou o documento e verificou a transmissão de bens entre os irmãos. _Ótimo! Agora você é dona de tudo que eu tenho, meu bem! – o vampiro disse a você – E meus documentos novos? – ele perguntou. _Estão aqui. Só falta um que pegarei na quinta. Seu novo nome será David Jones, quarenta e cinco anos. Pedi aos falsificadores para serem bonzinhos com a sua foto! David mostrou ao rapaz o dedo do meio. _Agora Dora precisa fazer o restante, ir até o banco, dar baixa em tudo isso, o inventário está terminado, e minha parte como advogado está feita! – Andrei terminou o assunto. _Bom trabalho, Andrei! – David elogiou o rapaz. Depois de verificar os documentos novos, o vampiro olhou para você, e disse com um sorriso: _Precisamos nos casar, meu bem! O casamento de fachada serviu para que David pudesse voltar a ser dono dos bens dele. Foi estranho ir com David até o juiz de paz e casar-se com ele, e depois voltar para casa e fingir para a sociedade que eram um casal, quando na verdade não eram. Todos passaram a conhecê-la como a Senhora Jones: Doralice Jones. Para terminar a farsa, mudaram-se para uma casa nova; um confortável sobrado num bairro de classe média. Você conhecia bem a necessidade de toda a trama, mas ainda se perguntava quantas vezes ia precisar fazer isto durante a sua vida: trocar de nome, trocar de casa, trocar de vizinhos, trocar de amigos... ***


Q

uinta-feira. Sete da noite.

_Filhos ingratos, estou de saída! – David anunciou, assim que cruzou a sala em direção à porta da rua. Passou por você, e te deu um beijo no rosto. Estava bem vestido, de cabelos molhados, e usava o seu perfume masculino preferido. – Não esperem por mim! E saiu. _Vocês já repararam que toda quinta-feira o David sai todo perfumado daqui, e com um sorriso de orelha a orelha? Aonde será que ele vai, hein? – você comentou com Andrei e com Tom. Os dois jogavam pôquer na mesa de jantar. Tom fez que ia explodir uma gargalhada, mas segurou o riso. Andrei espremeu os lábios discretamente para não rir também. _Êpa... – você notou um segredo entre ambos – O que vocês sabem que eu não sei, ãm? _A gente? – Tom falou de um jeito debochado – Nada... Você encarou os dois e pôs as mãos na cintura. Eles permaneceram calados. Então, Tom se levantou. _Bem... Já tá na hora de eu sumir! – Ele vestiu a jaqueta e beijou o seu rosto em cima do beijo do David – Não esquenta a cabeça com o David não... ou a casa vai ficar fedendo chifre queimado! Ele riu mais uma vez. _Vá se danar, Tom! – você o empurrou para o lado, respondendo à brincadeira – Não sou mulher dele! _É... – ele sorriu maliciosamente - ...mas a dona Margarete que mora aí do lado não sabe disso... Ela comentou comigo ‘Não sabia que o Sr. Jones trabalhava de madrugada!”, e eu respondi “Mas ele não trabalha. É um vagabundo!”. Ela fez uma cara... _Eu não acredito que você fica fazendo fofoca com essa velha intrigueira! Muita obrigada, Tom, pela fama de corna! _Ah, qual é, Dora? – ele deu de ombros, pouco se importando – Ela faz fofoca da vida de todo mundo, você acha que eu não sei


que ela conta as vezes que eu entro e que eu saio daqui? Agradeça sua fama ao David, e a dona Margarete! – ele riu de novo. – Até mais, Dora! – E foi embora. Andrei guardava as cartas e as fichas na caixinha de madeira. _E então? – você se voltou para ele. _Então o quê? _Não vai me contar do que vocês estavam rindo? Agora fiquei curiosa! _É só uma prostituta de quem David compra sangue... e outras coisas! – Andrei respondeu friamente, sem a ironia que era uma característica marcante dele – O francês só estava tentando te fazer ficar zangada porque é um pau mandado do David, e porque é rancoroso... _Ah... Achei que esse cargo já fosse seu! _Engraçadinha! – Andrei fez cara de desprezo. _Comprar sangue? Isso não é perigoso? Digo, assim as pessoas ficam sabendo da verdade... – você se preocupou. _É. Disse isso a ele. Mas o vampirão acha que é uma alternativa atraente, então... paga muito bem pra neguinho ficar de bico fechado. – aí Andrei sorriu com ironia – E essa menina da quinta-feira é a preferida dele! E é uma putinha bem gostosa! _Ah... sei... E você também usa dos serviços dela... _Quem me dera! – Andrei se jogou no sofá e abriu um livro – Eu não tenho as cinco mil pilas que ela cobra... _Cinco mil Libras? Que é isso? Desse jeito vamos ficar pobres bem rápido! _É. Você entendeu, né? Que bom... – Andrei fechou no ponto que queria. _E... _E que você podia dar uns toques no tio David antes de termos que esmolar! _Eu? O dinheiro não é meu, irmãozinho, lembra? _É... mais ou menos... Você o herdou, lembra? E se casou, lembra? Legalmente, metade dele é seu! _Isso seria imoral da minha parte. _Tanto quanto transar com prostitutas sem tirar a aliança do dedo? Eu te conseguia uma boa indenização num litígio... Bastaria você chorar só um pouquinho na frente do juiz! _O problema é do David, não meu. Vamos mudar de conversa antes que este assunto se transforme em algum plano perverso aí dentro dessa sua cabecinha de espírito de porco? _Ok. Eu só quis de dar um toque... – Andrei voltou para sua leitura. _O que está lendo, Andrei? _Análises e considerações sobre o código civil. – A voz dele soou descontente - Do jeito que as coisas andam, melhor eu me preparar para reabrir meu escritório... *** David voltou cedo. Pela janela, quando se preparava para dormir, você o viu entrar e se sentar para fumar no quintal dos fundos. Você tinha ficado preocupada depois da conversa com Andrei. E se alguém contasse, ou fizesse chantagem, ou chamasse a


polícia? Ia ser difícil de resolver. E o dinheiro acabava na medida proporcional com a qual ele não era reposto. Você podia trabalhar, mas seria uma desgraça ter que pular de emprego em emprego assim como vocês pulavam de bairro em bairro. Tudo era complicado. Até para manter o mesmo nível de vida seria. Você já estava tão mal acostumada... Andrei conseguira te deixar com uma pulga atrás da orelha. Isso ele sabia fazer muito bem. _Cobra! Como estava sem sono, vestiu seu robe e desceu para conversar com o vampiro. Ele ficou surpreso ao vê-la. _Achei que estava dormindo... _Estou sem sono. – você se sentou no banco ao lado dele. – Voltou cedo... A noite estava entediante? Ele parecia preocupado. _Não... É, quer dizer, estava sim. _Que pena... – você teve vontade de aproveitar e pôr o assunto no meio da conversa – Não encontrou quem você queria? David olhou para você. Depois, ascendeu um cigarro. Quando cuspiu a fumaça, falou: _Está se referindo à Margô? _Quem é Margô? _A prostituta das quintas-feiras. Pensa que não sei que Andrei desova todos os meus negócios no seu ouvido? Ele balançou a cabeça de um lado para o outro e tragou mais uma vez o cigarro. _Não foi de propósito. – você se desarmou - Não quero que se chateie... Eu só estou preocupada. Sabe, não quero que você se meta em nenhuma confusão. _De que tipo? _Não sei... Com a polícia? Financeira? _Cobra! Não sei por que ainda me valho do Andrei... _Calma, Dav. Eu entendo que as coisas são complicadas para você, e que não se resolvem simplesmente ligando para a padaria e pedindo uma pizza... Sei o quanto é difícil! E é exatamente por esse motivo que você tem que correr de encrencas, porque vai ser ainda mais difícil se livrar delas depois... _Não há com que se preocupar, meu bem! Prostitutas não dão cadeia, embora o dinheiro sempre acabe, mais cedo ou mais tarde... Mas vou repô-lo. Não perca seu tempo se estressando com as insinuações de Andrei. Fique sossegada! _Se não há problemas, então por que está tão preocupado? Ele demorou um pouquinho, mas respondeu. _Um amigo de longa data precisa de um favor... E eu devo esse favor a ele. Vou resolver isso amanhã. O que posso adiantar é que, dependendo da situação, vou ter que trazer uma garota para casa. _Explique melhor. _Ela vai precisar do meu sangue. Muito provavelmente. Este meu amigo está ausente. Eu não vou ter outra opção... _Esse seu amigo, vampiro, tem uma escrava, assim como você tem a mim e ao Andrei, certo? E essa escrava ficou sozinha, de repente... _Você entendeu. _Não sei não, Dav... De mulher aqui em casa já basta eu! _Dora... por favor!


_Ai... Tudo bem, Dav. Contanto que ela não crie problemas... e contanto que você me conte sobre esse seu amigo depois! _Sabia que ia compreender... _Eu sempre te compreendo. Embora você não mereça! Ele sorriu. *** _Esta é a Licia. – o vampiro disse – Ela vai ficar um tempo com a gente... _Seja bem vinda! – você logo se apresentou. Andrei também a cumprimentou. Mas parecia desconfiado. Tom gostou da rapariga, e se apressou em jogar seu charme para cima dela. Licia era uma jovem da sua idade, mas com cara de menina. Ela trouxe uma mala e David a alojou no sótão. Parecia muito confusa. Ela contou que havia perdido a memória, e que não sabia nada a respeito de si própria. E nem a respeito do Hugh. Por sorte, o vampiro a tinha encontrado. _Preciso encontrar esse tal de Hugh, mas ele desapareceu! – a garota disse. – Andrei me perguntou sobre ele, mas eu não soube responder... _Andrei te perguntou sobre ele? _É. Me disse que era só curiosidade. _Só curiosidade? – você ironizou. – Abra os olhos, querida! _Não conheço ninguém, não posso voltar para meu apartamento porque os caçadores de vampiro estão atrás de mim, e sou obrigada a acreditar naquilo que as pessoas me dizem... Estou mais perdida que bala em tiroteio... Licia já morava na casa há quatro meses. O ano era 1984. Julho. ***

FASE 1 - Prólogo  

Texto de início.

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