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Opinião

MARIA E A MISSÃO DA IGREJA Maria sempre foi modelo fiel de discípula missionária do Pai. Acolheu em seu ventre materno o filho de Deus. Não mediu esforços para prosseguir o caminho, a verdade e a vida, sendo sincera em suas ações. Ela, primeiramente, admirou, contemplou o mistério que haveria de vir. Na contemplação, fez eclodir uma profunda sintonia de fé entre ela e a missão a ser concretizada. Quando vemos Maria realizando com seus gestos a simples missão, percebemos o testemunho que todos, como Igreja, deveríamos testemunhá-lo. Com Maria, aprendemos o verdadeiro sentido da missão. Ela nos ensina o caminho que leva à verdade. Ensina-nos a peregrinar e, com sua ternura de mãe, nos conquista e capacita a viver a realidade da fé. Animados no amor do discipulado, devemos viver a missão, dia após dia, com as mesmas virtudes com que Maria a realizou. Virtudes de Maria As sete virtudes de Maria que nos ajudam a repensar nossa missão são: a humildade; o amor a Deus e ao próximo; acreditar; esperar; viver a castidade; a obediência e a paciência. Se melhor consultarmos os escritos dos Evangelhos, não encontraremos essas virtudes explícitas, mas veremos nas entrelinhas os gestos simples com que Maria soube demonstrar sua maturidade espiritual. Maria acreditou em Deus e tomou a decisão de prosseguir o caminho na missão. Viveu a esperança, soube esperar o tempo certo de falar e agir. Viveu a castidade, respeitou o tempo de José e vice-versa. Viveu a pobreza do coração, aberta à graça de Deus e soube, também, ser obediente e paciente. Como seria maravilhoso se todos nós vivêssemos essas virtudes! Talvez a missão fosse muito mais tranquila e serena. Maria, exemplo de Missionária Maria acolhe em seu ventre a ternura de Deus. Ela escuta, medita e interroga-se a respeito do sentido de tal saudação (cf. Lc 1, 29). Além de tantos desafios, coloca seu esforço total na missão. Ela abdica de tudo e sai em busca do zelo e do cuidado “pastoral”. Ah! como seriam maravilhosas nossas Comunidades se caminhassem com os pés no chão e vivessem a serenidade de Maria! Como seria bom se todos os discípulos missionários tivessem o dom da caridade de Maria! (cf. Lc1, 26-45). É preciso sair do comodismo pastoral. É preciso arriscar a própria vida para atravessar as montanhas, ou seja, as dificuldades que vão surgindo no meio do caminho. Toda a nossa Diocese, neste tempo de missão, é chamada a sair e arriscar com força e coragem o deserto diocesano. Temos que desentupir as vias que direcionam nossa caminhada na direção da mina que é o Cristo, centro da vida. É viável existir o ardor missionário para desbravar e assim, cultivar a terra de missão. É preciso apren-

pelo Filho no caminho do Calvário. Ela caminhou, apontou e ratificou com seu testemunho de fé a castidade em espírito e verdade. Em sua paciência, soube contemplar o Calvário do Filho na missão. Ensina-nos a fazer a vontade do Filho. Nas bodas de Caná, diz: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (cf.Jo 2, 5). Segundo o Documento de Aparecida, nº 364, devemos estar atentos, uma vez mais, à escuta do Mestre e, ao redor de Maria, voltarmos a receber com estremecimento o mandato missionário de seu Filho: “Vão e façam discípulos todos os povos” (Mt 28,19). De antemão, podemos nos fazer algumas perguntas: Como Maria viveu essa fé? Em que sentido Maria representa um modelo para a fé da Igreja? Deixamo-nos iluminar pela fé de Maria, que é nossa Mãe? De que modo Maria é para a Igreja exemplo vivo de amor? Que missão é esta que queremos? Somos realmente missionários que vivem o Evangelho ou estamos simplesmente preocupados com status, poderes, arquiteturas, flores, departamentos ou coisas do tipo?

der com Maria a ter simplicidade e, ao mesmo tempo, a prontidão para escutar, procurar e propagar as ações do Reino de Deus. Maria, na sua pequenez, deu sabor à vida de missão e hoje, nós somos convidados a fazer a diferença com nossas atitudes cristãs, seguindo suas orientações: “Faça-se em mim segundo a Tua palavra” (Lc 1, 38). Maria, muito mais que os sábios e entendidos daquela época, compreendeu pela fé. Ela muito mais nos ensinou e ensina a servir sem desanimar. Maria viveu a missão ad intra e ad extra, ou seja: A missão ad intra, uma missão interna no convívio com Deus, seu Filho e o Espírito Santo, com os apóstolos, na comunidade e no trabalho. Já a missão ad extra, uma missão mais pé no chão. É uma missão para fora, aliás, externa, ou seja, fora do contexto peculiar, num lugar totalmente diferente da realidade onde vivera uma cultura simples. Maria realmente colocou a mão no arado e não olhou para trás (cf. Lc 9, 62). Ela abraçou a missão e até subiu o calvário com seu Filho. Quando Jesus se entrega na cruz, ela não foge da dor, mas abraça a cruz e se “entrega” com radical amor à missão de propagar, edificar e santificar a Igreja. Somos discípulos missionários a caminho da missão, tendo como modelo pri-

mordial, Maria. Com Maria aprendemos a nos relacionar com Deus, buscando aprofundar e completar aquilo que falta em nós, na comunhão. De fato, “estamos num grande barco. Nesse barco não existe freio, motor e, muito menos, direção. Quem nos impulsiona a prosseguir é o Espírito Santo”, disse Dom Luiz Vitral, fazendo menção a Fernando Pessoa em nosso retiro do clero, em 2013. Corajosamente navegar é preciso. Maria, modelo de Fé “Ela é modelo de fé não só porque, como judia, esperava o Redentor e, com seu sim, aderiu ao projeto de Deus, mas porque, desde aquele momento da vida, ela se centrou em Jesus” (Papa Francisco). Diz ainda a Constituição Lumen Gentium: “Como já ensinava Santo Ambrósio, a Mãe de Deus é figura da Igreja na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo” (n. 63). Devemos ser assim na missão: fazermo-nos servos, servindo com amor e muita obediência. Necessitamos romper o nosso comodismo e, muito mais, nosso partidarismo. Não pode existir na missão desleixo. Isso fere a Igreja e a toda sua caminhada. Precisamos agir com maestria, seguindo as pegadas de Maria, traçadas

Maio/2014

Maria e a Igreja A Igreja não é uma empresa, mas o corpo místico de Cristo (cf. 1Cor 12, 12-21). O próprio Papa Francisco disse: “Nossa Senhora quer trazer também a nós o grande presente que é Jesus e, com Ele, nos traz o seu amor, a sua paz, a sua alegria. Assim é a Igreja, é como Maria: a Igreja não é um negócio, não é uma agência humanitária, a Igreja não é uma ONG, a Igreja é enviada a levar Cristo e o seu Evangelho a todos; não leva a si mesma – se pequena, se grande, se forte, se frágil, a Igreja leva Jesus e deve ser como Maria quando foi visitar Isabel. O que levava Maria? Jesus. A Igreja leva Jesus: este é o centro da Igreja, levar Jesus!” Como sacerdote recém-ordenado, preocupam-nos certos procedimentos na evangelização. Parece que o essencial está sendo, cada vez mais, deixado de lado. Não podemos permanecer inseguros e parados diante do tempo e do espaço. Temos que agir e lutar, fazer a diferença como fez Maria nas bodas de Caná. Conforme disse Madre Tereza: “O que eu faço é uma gota d’água no meio do oceano. Mas sem ela, o oceano será menor.” Portanto, fazer a diferença é missão de todos nós. E mais, é preciso profetizar e testemunhar com o amor sincero. Um aperto de mão, um minuto de atenção, uma palavra de esperança, um sorriso sincerol, uma pequena gentileza, tudo isso acompanhado da oração, da tolerância e do equilíbrio, nos leva a um porto seguro. Sejamos como Maria que reza com a vida. Tenhamos a quota de honestidade, as gotas de sua sinceridade e o seu contributo de caridade, pois mergulhados nessa riqueza, não nos arrependeremos jamais. Por Pe. Gilmar Antônio Pimenta, vigário paroquial na Paróquia Nossa Senhora da Penha, em Passos

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