Narrativas Visuais, Universo Caipira

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Narrativas Visuais

universocaipira

Ô, DE CASA?

VISUAIS NARRATIVAS universo

caipira

Projeto de pesquisa que resultou no desenvolvimento de exposição fotográfica virtual, realizada pela artista visual Mona Luizon. São quatro obras que retratam através da Fotografia, o universo rural em suas nuances tipicamente caipiras, sobretudo na porção noroeste do interior do Estado de São Paulo. As obras produzidas tem como temática a cultura rural e, em particular, o universo das culturas tradicionais do campo, representado no projeto pelo caipira, tipo social que habita as regiões da Paulistânia. “O caipira é fruto do processo de expansão geográfica pelos sertões brasileiros, é o construtor de uma cultura própria, condutora de um modo de vida singular que compreende os modos de produzir, habitar, a religiosidade, o dialeto e as suas expressões mais subjetivas, como por exemplo, a arte - diz Mona”. A história da fotografia remonta ao século XIX, e diversos processos fotográficos que possibilitaram a captura de imagens permanentes surgiram após a fixação da primeira imagem em 1826. Utilizando alguns desses processos conhecidos como ‘alternativos’ a artista narra em imagens, fragmentos do seu território de origem, honrando a cultura rural.

ORIGEM BRASIL

A imagem escolhida para abrir a exposição é um retrato simbólico acerca da colonização do Brasil. A mão que segura a cruz, simboliza a catequização jesuíta, e a ideia de usar urucum nessa primeira imagem é trazer a referência dos povos indígenas que aqui viviam antes da colonização. “Brasil Origem” foi gravada pelo sol no papel utilizando a técnica anthotype ou antotipia. A técnica é um processo fotográfico que envolve a utilização de pigmentos vegetais como material fotossensível e que permitem a gravação de imagens fotográficas. Utilizei como pigmento o urucum, um excelente corante natural, já utilizado há milhares de anos pelos povos originários. No processo, colhi sementes de urucum do sítio, deixando de molho de um dia para o outro, para extrair a tinta. O próximo passo foi emulsionar o papel utilizando um pincel. Após a secagem, preparei a montagem para a exposição solar. Criei o “sanduíche” com a matriz da imagem e o papel e deixei ao sol por três dias. Anterior a esse resultado, testei com uma mesa de luz que construí, mas não obtive sucesso. Foi necessária a ação da luz solar e do tempo nessa produção imagética. Essa é uma imagem efêmera que desaparecerá com o tempo.

BRASIL ORIGEM

Técnica: Antotipia, pigmento de urucum sob papel.

Suporte: Papel aquarela 300gr/m² Monocromático

CAFÉ

Técnica: Lumen Print

Suporte : Papel Fotográfico

PB

CAFÉ

O Ciclo do Café perdurou por mais de 100 anos, entre os anos de 1800 e 1930, a cafeicultura se manteve como a principal atividade econômica do Brasil. Esse período recebeu esse título porque, o café se tornou naquela época, um produto fundamental de exportação brasileira. Um momento muito importante de modernização do interior foi a chegada do trem de ferro. Este novo transporte foi responsável pelo enriquecimento dos "barões do café" e pelo início da urbanização da capital, interior e Baixada Santista, por onde escoava a mercadoria. “Por volta de 1852, vilazinhas e lugarejos localizados na porção interiorana do país eram tomados por uma avalanche de transformações (...) O rei café trazia consigo a eletricidade, o automóvel e o telefone, os tecidos finos, o petit pavé, os bulevares, o calçamento das ruas e os palacetes, o aeroplano, o poudre de riz, o teatro e o cinematographo, entre outras novidades”. (DOIN, 2007, p. 95). A matriz natural utilizada foi a folha de um cafeeiro. A técnica fotográfica utilizada nessa obra foi a Lumen Print, que utiliza papéis com sais de prata que reagem à luz, escurecendo. É uma impressão de contato com exposição ao sol por algumas horas que representa esse ciclo.

SE NASCI AQUI, JÁ NÃO ME LEMBRO

Trago nessa obra a reflexão sobre o território do interior paulista, onde encontramos áreas extensas com plantio da cana-deaçúcar. Por onde anda, só tem cana, pra onde olha, só se vê cana. “São Paulo lidera a produção sucroalcooleira no Brasil, que é o maior produtor mundial. Produção paulista deve subir para 78,5 t por hectare em 2023, de acordo previsão do Instituto de Economia Agrícola do Governo do Estado. Se no ano passado a média colhida foi de 76,8 toneladas de cana por hectare, a produção de cana em São Paulo agora alcança 78,5 toneladas na mesma área”. Empresas multinacionais dominam o território paulista semeando, plantando, adubando (com veneno) e colhendo a cana-de-açúcar com ciclos intercalados e sem pausa de plantio causando a destruição dos nutrientes do solo. O pequeno produtor, que hoje tenta investir seu tempo na terra, perde sua plantação pois divide o espaço com arrendamento para a plantação, essa que detém o controle de pragas por meio de agentes tóxicos. Mas o caipira permanece. Ainda está ali. No silêncio e na solidão rodeado de cana-de-açúcar e veneno. Já não se lembra de como era o local onde nasceu.

Técnica: Fotografia Digital

Suporte : Papel Fotográfico COR

SE NASCI AQUI, JÁ NÃO ME LEMBRO

FIM DE TARDE NO SERTÃO

Técnica: Lumen Print

Suporte : Papel Fotográfico

PB

FIM DE TARDE NO SERTÃO

Esta é uma fotografia solar utilizando a técnica de longa exposição solargrafia. A imagem resultado da técnica é aparente, não precisando de processamento químico, e negativa, onde as cores se encontram invertidas no papel. Na solargrafia utilizamos câmeras pinhole e papel fotográfico sensível a luz para capturar grau a grau da trilha solar. Os sais de prata escurecem à luz, criando o contorno da imagem diretamente no papel. A técnica é um conceito e uma prática fotográfica baseada na observação e registro da trajetória do Sol no céu (diferente em cada lugar da Terra) e no seu efeito na paisagem. Essa obra teve a exposição solar de 72 horas. Utilizei uma câmera-lata de sucata para o registro. O negativo foi escaneado e as cores invertidas digitalmente. Os dias de exposição foram de 22 a 25 de outubro 2023, em uma semana nublada e chuvosa na cidade de São José do Rio Preto - SP. Essa obra fala sobre o tempo. E sobre o território também. Essa técnica fotográfica tem resultados diferentes em cada lugar do mundo. Aqui vemos o fim de tarde no sertão

REFERÊNCIAS

A Belle Époque caipira: problematizações e oportunidades interpretativas da modernidade e urbanização no Mundo do Café (1852-1930) a proposta do Cemumc. Disponível em:

https://www.scielo.br/j/rbh/a/RmdDfyx3GHhqJV7M58r6Lvr/.

SP expande produtividade da cana-de-açúcar com tecnologia, pesquisa e clima favorável 23 de Agosto 2023. Disponível em:

https://www.saopaulo.sp.gov.br/ultimas-noticias/sp-expandeprodutividade-da-cana-de-acucar-com-tecnologia-pesquisa-e-climafavoravel/#:~:text=Cultura%20mais%20rent%C3%A1vel%20no%20val or,5%20toneladas%20na%20mesma%20%C3%A1rea.

narrativas visuais, universo caipira
http://mililitrosdearte.com.br/

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