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NEGÓCIO

SONHO

SE PORTUGAL VENDER ILHAS, VLADI QUER COMPRÁ-LAS Johnny Depp, Paul McCartney e o príncipe William são alguns dos clientes de Farhad Vladi. Este alemão já vendeu 2000 ilhas, das Bahamas à Nova Zelândia, e não desiste de as procurar em Portugal. Repetir a aventura de Robinson Crusoé não é um pesadelo, mas um sonho mais barato do que um apartamento em Nova Iorque. TEXTO

Margarida Santos Lopes á 25 anos que Farhad Vladi tenta encontrar, sem êxito, “pedaços do paraíso” em Portugal, um país “bonito, com um clima ameno e uma situação política estável”. Por isso, o homem que inventou a profissão de vendedor de ilhas ficou intrigado quando leu que o cineasta Steven Spielberg tinha adquirido uma parte do arquipélago da Madeira. “Como suspeitava, a informação era falsa”, exulta o dono da Vladi Private Islands, numa entrevista

telefónica ao PÚBLICO a partir de um dos seus escritórios, em Halifax, no Canadá. “Como é que isso podia acontecer se eu e um dos meus mais fiéis colaboradores, meio alemão e meio português, tínhamos a certeza de que não há ilhas privadas à venda em Portugal?” Ora foi mais ou menos assim, com um engodo, que o jet-setter que já vendeu 2000 ilhas (a um ritmo de 30 por ano) e tem outras 120 em carteira ganhou a reputação de “mais importante” corretor neste negócio. Em 1971, quando ainda preparava um doutoramento em Economia, em Munique, foi alertado pelo jornal Süddeutsche Zeitung de que um inglês comprara uma ilha tropical no Oceano Índico por 500 marcos.

“Desde criança, fascinado pelo clássico Robinson Crusoé, que eu queria ter uma ilha”, conta Vladi, que é agora dono da espingarda de Alexander Selkirk, o marinheiro escocês que sobreviveu quatro anos nos mares do Sul e terá inspirado o autor Daniel Defoe. “Num impulso, fui até à Embaixada das Seychelles em Londres. Só havia um funcionário. Ao ouvir a minha proposta (de compra de uma ilha) e, julgando que eu era louco ou estava embriagado, expulsoume da sala.” Esta falta de hospitalidade não desalentou o filho de uma dona de casa alemã e de um professor iraniano. “Peguei em 100 marcos e enviei um anúncio para um diário local, não imaginando que daria para pagar um anúncio de página inteira — ‘Procura-se ilha para comprar’. Recebi dezenas de ofertas, mas quando cheguei à maravilhosa Cousine Island pediram-me 110 mil dólares, quantia que não tinha. De regresso à Alemanha, contactei potenciais compradores e um deles (o magnata Albert Darboven) ficou com o que eu queria (por 300 mil marcos). Foi a minha primeira comissão (3%), obtida graças à


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ajuda de um advogado que vivia do outro lado da ilha, Sir James Mancham, que mais tarde (1976-77) seria eleito Presidente.” Para ser um empreendedor bem-sucedido, Vladi começou à procura de ilhas que estivessem à venda, quis saber o que as tornava atractivas e quem eram os donos. Encontrou respostas para as primeiras duas questões na Livraria Dr. Götze, em Hamburgo. A terceira foi mais árdua de resolver, obrigando-o a consultar arquivos e notários nos EUA, em França ou na Escócia, e a recorrer à ajuda de pescadores locais. Hoje ele é o “rei das ilhas” e quem quiser comprar-lhe uma tem de ir até à sua sede na cidade alemã, onde está o “inventário dos seus tesouros”, com fotos e descrições detalhadas, organizadas segundo regiões, países e continentes. Vladi alimenta ainda a paixão por mapas antigos, o que o incentivou a comprar a livraria onde fazia a sua investigação, para a salvar da falência. O BEATLE E O PRÍNCIPE. Cousine Island, nas Seychelles, pertence agora a uma companhia de he-

licópteros que a rentabiliza alugando-a a quem tenha interesse — e muito dinheiro. Paul McCartney, o Beatle a quem a rainha de Inglaterra deu o título de Sir, festejou ali a sua lua-de-mel com Heather Mills. O casamento falhou, mas Vladi brinca que “a culpa não foi da ilha”, embora “uma ilha possa ser motivo de divórcio, se não for bem gerida”. Outro Sir, o milionário Richard Branson, também deve a Vladi o seu refúgio, nas Ilhas Virgin — o nome que deu a vários dos seus empreendimentos. Necker custou 180 mil libras a Branson em 1989; agora tem um valor superior a 50 milhões. Mais uma lua-de-mel transaccionada por Vladi, a “um preço mais baixo e que não pode ser revelado”, foi a do príncipe William, segundo na linha de sucessão ao trono britânico, e Kate Middleton. A imprensa londrina especulou que a estadia do casal, uma semana em Desroches, nas Seychelles, custou 4000 libras por noite. Outro cliente ansioso por fugir dos paparazzi  foi o “pirata das Caraíbas” Johnny Depp, que chama “Fuck Off island” à sua Little Halls Pond Cay, em Nas-

Buck Island, Ilhas Virgens Britânicas

sau, nas Bahamas — a região mais procurada e, portanto, onde o mercado é mais competitivo. “Ele já nem sequer vive naqueles 18 hectares, mas sim num barco de recreio que colocou ao largo”, adianta Vladi, assegurando que ali se mantém o encanto de dormir e acordar rodeado de palmeiras suficientemente altas para proteger dos intrusos, com águas cálidas e areia fina. A ilha foi comprada em 2004, alegadamente, por 3,5 milhões de dólares. Vladi ficou contente por não ter sido a ele a vender a Mel Gibson 22 quilómetros quadrados nas Fiji por 15 milhões de dólares. O actor e realizador nunca conseguiu o sossego que pretendia, devido às pretensões da população local de partilhar a área. “Nunca se deve comprar uma ilha habitada porque haverá sempre disputas — cometi esse erro uma vez e jurei que não o repetiria”, explicou o homem para quem, “se todo o homem é uma ilha, qualquer homem pode ter uma ilha.” “Pode-se comprar uma ilha até 50 mil dólares no Canadá — menos do que pode custar um apar-


Crossover Island, estado de Nova Iorque, E.U.A. Farhad Vladi

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tamento em Nova Iorque —, e ali passar umas férias de luxo, durante quatro semanas entre Julho e Agosto”, diz Vladi, considerando que quatro semanas “é o período ideal para não perder o contacto com o mundo real”. Apenas quatro semanas por ano, entre 25 de Dezembro e 19 de Janeiro, é o tempo que Vladi passa com a família na sua Forsyth Island, na Nova Zelândia. Aprecia mais “as florestas de O Senhor dos Anéis” (os filmes de Peter Jackson baseados na trilogia de J.R.R. Tolkien), quando as temperaturas oscilam entre os 20 e os 28 graus, do que de praias com corais. “Gosto de caminhar entre as minhas cabras de pêlo de caxemira sem me preocupar com mosquitos e outros insectos. Os meus empregados estão lá durante nove meses, mas durante três, incluindo um de férias, têm de sair”, salienta. “Só conheço um homem que há 40 anos não abandona a sua ilha — um de três únicos eremitas, mas não sei como não endoidecem com a solidão.” Na ausência de Vladi, a sua ilha pode ser alugada, tal como a do mágico David Copperfield, em

Musha Cay, nas Bahamas, que consiste em 11 ilhéus, 40 praias e cinco villas glamorosas, ao alcance de quem quiser ver desparecer num ápice 35.500 dólares por dia. Alugar antes de comprar é, aliás, o conselho que Vladi dá a quem o procura. O fundador da Microsoft, “Bill Gates, prefere o aluguer à compra por questões de segurança”, refere. “Além disso, quem aluga tem sempre a possibilidade de reclamar se o que lhe foi prometido não corresponder às expectativas.” OBSESSÃO E BIZARRIAS Uma das ilhas mais

caras que Vladi já vendeu é Norman Island, nas Ilhas Virgens Britânicas, por 12 milhões de dólares; a menos dispendiosa e mais pequena, de 500 metros quadrados, fica no Lago Charlotte, na Nova Escócia (Canadá), por 1500; a maior foi Eigg Island, na costa ocidental da Escócia, que se estende por quase 30 milhões de metros quadrados. Nem todas são desertas e inóspitas: uma que vendeu em 2010, Laucala Island, próximo das Fiji, tinha uma pista

Conselhos para realizar um sonho Farhad Vladi dá alguns conselhos e critérios a seguir antes de se comprar uma ilha – quer para os que procuram tranquilidade, quer para quem deseja um bom investimento. 1 Visitar as ilhas pretendidas antes de as comprar, para ter a certeza de que são acessíveis por mar e/ou ar. As mais populares encontram-se na Europa Ocidental, nas Caraíbas e no Pacífico Sul, embora a maioria das que são vendidas se localize na costa nordeste do Canadá, nos Estados Unidos e na Colúmbia Britânica. As restantes são consideradas áreas exóticas, onde o principal problema é os estrangeiros não poderem ser donos a 100 por cento das propriedades, além da expoisção a catástrofes naturais (tsunamis, ciclones, furacões…) ou fauna e flora hostil. Vladi recomenda que o potencial cliente se faça acompanhar de um “especialista” para evitar os logros que proliferam na Internet; 2 Obter licença para construir e saber o pode construir; há governos que condicionam a autorização ao desenvolvimento das ilhas, para que sejam um investimento lucrativo. As autoridades nas Bahamas cobram, por ano, taxas de dois por cento sobre o preço de custo; 3 As ilhas não devem ficar muito longe do continente, para facilitar o acesso a alimentos, cuidados de saúde e outras necessidades básicas, cujo transporte pode custar 200 dólares/hora; os progressos tecnológicos já facilitam as comunicações — é possível viver numa ilha numa casa pré-fabricada, com energia solar, telemóvel (graças a satélites e GPS) ou água potável (com um sistema de extracção ou dessalinização); 4 Garantir que a licença de propriedade não será partilha com governos locais, que apenas concedem um contrato de leasing temporário, como acontece, por exemplo, nas Filipinas, na Malásia ou na Indonésia; 5 As ilhas têm de oferecer condições de habitabilidade; o mercado pode ser dividido em duas categorias: as “ilhas de qualidade” (cinco por cento), próximas de infra-estruturas essenciais e, por isso, mais difíceis de adquirir; e as “ilhas de aventura” (95 por cento). As de qualidade são mais procuradas, sobretudo na costa ocidental da Europa, na América do Norte, na Nova Zelândia e na Austrália. Os investidores são os que mais procuram as ilhas de aventura na expectativa de as poderem vender mais tarde a um valor superior, porque o seu custo é geralmente baixo. 6 O país onde a ilha se encontra tem de ter um bom clima mas, acima de tudo, uma situação política estável.  (Para mais informações, consultar o site: http//www.vladi-private.islands.de)

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para jactos particulares; outras têm cais para iates e castelos. Do catálogo de 120 ilhas que Vladi tem para vender e alugar, a oferta vai do mar Mediterrâneo à Escandinávia, das Caraíbas à Austrália. Afasta os clientes de países como a Malásia, a Indonésia ou as Filipinas onde quem compra nunca será dono absoluto, porque os governos só fazem contratos de leasing. Também desaconselha pequenos países, que não especificou, onde uma mudança de regime político pode facilmente conduzir a expropriações. Ter uma ilha pode tornar-se numa obsessão, avisa Vladi, que narra a bizarria de um homem que comprou uma na Grã-Bretanha, levou para lá seis outras pessoas, colocou uma bandeira, proclamou a independência e se fez eleger presidente. “Garantiume que o seu ‘Estado’ era reconhecido pela Alemanha, porque um dia, ao sair da Bélgica, um agente fronteiriço tinha carimbado o passaporte que ele próprio emitira — é claro que acabou expulso”. Há também a extravagância de um magnata suíço chamado Dieter Kathman que comprou 12 ilhas à volta da primeira. Quando ele morreu, em 1987, a viúva comprou mais duas porque achava que o número herdado dava azar. Esta são histórias divertidas, mas Vladi também enfrentou a situação desagradável de ter sido contactado por uma empresa que queria uma ilha para ali despejar resíduos nucleares. Ele, que se assume como um protector militante da natureza, ficou em estado de choque e recusou a venda. Há alguns anos, Vladi tentou traçar o perfil psicológico e demográfico de quem compra ilhas. “A conclusão é que pouco têm em comum. São de todos os tipos, idades e origens, excepto numa coisa: são, unanimemente, muito individualistas, determinados a deixar a sua marca na propriedade que adquirem”, disse numa outra entrevista, em que descreveu uma ilha feliz (Caloy Island, comprada por budistas) e uma infeliz (Arran, onde um marido assassinou a mulher por ela lhe ter dado seis filhas quando ele só queria um rapaz). O fascínio dos oligarcas, aristocratas e celebridades por terem uma ilha terá começado com Aristóteles Onassis quando comprou Skorpios, na Grécia, depois de se casar com Jacqueline Kennedy. Ainda recentemente, quando foi chamado pela única herdeira, Athina, para avaliar este património, Vladi ficou impressionado com a especulação. “Dizia-se que Madonna tinha comprado Skorpios por 300 milhões de dólares, mas o que aconteceu, na realidade, foi que, um dia, ao passar por uma montra comparando o que estava à venda, ela comentou que Skorpios deveria valer 300 milhões de dólares.” Também circularam rumores de que Giorgio Armani tinha comprado Skorpios, mas ele apenas lá tinha estado numa festa. Vladi não gosta de especuladores mas acredita que a crise financeira mundial vai permitir separar o trigo do joio. “Atraídas pela publicidade na Internet, há pessoas que se deixam tentar e compram uma ilha por 75 mil dólares convictas de que a poderão vender por três milhões; depois entendem que foram enganadas.” A recessão não afectou o negócio, garante, mas as “ilhas de qualidade” só representam cinco por cento do mercado. Quem as compra, fica emocionalmente ligado e não se desfaz delas. As outras 95 por cento são classificadas como “ilhas de aventura”. Se é fantasia que o comprador procura, mas está com dificuldades de se adaptar à experiência, Vladi fornece-lhe um “kit Gucci” que contém uma tenda, uma cana de pesca, uma cama de rede, um canivete suíço, uma bússola e um exemplar de Robinson Crusoé.


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