Ilha de moçambIque a febre do imobiliário chegou à ilha do sonho avIação cIvIl
primeiro vôo da ethiopian airlines é em julho lá fora angola, o défice, a dívida e... outra vez o défice
‘rodada’ Quanto valem vinhos, cervejas e espirituosas para a economia
6 Observação
Mundial da Rússia 2018 Uma imagem que assinala um momento socio-económico com impacto local e global
8 Radar
Panorama economia, banca, Finanças, Infraestruturas, Investimento, País, agenda
14 Macro
ENQUADRAMENTO
14 Vale o carvão ultrapassou o alumínio e, é já hoje, a principal exportação nacional
18 Imobiliário depois de anos de declínio, o sector começa a dar sinais de recuperação
26 Nação
bEbIDAs
26 O mercado da ‘rodada’ Quanto valem afinal as bebidas alcoólicas para a economia de todos nós 34 Na voz de... Hugo Gomes, administrador da cervejas de Moçambique
38 ProvÍncIa
Ilha de Moçambique, Nampula como o sector imobiliário está a provocar mudanças no modo de vida da Ilha
42 Mercado e FInanças
Aviação civil o que vem aí, com a entrada em cena da ethiopian airlines no mercado
46 EMPresas
PME
PHC Uma antiga no mercado, mas com o espírito de uma startup
48 MeGaFone
Marketing o que está a acontecer no mundo das marcas em Moçambique e lá por fora
65 ócio
66 Escape O lodge Nascer do sol é um refúgio criado há quase vinte anos. Mas que é muito mais do que isso
68 Gourmet chez Fred, um pouco de europa em Maputo
69 Adega como o gin se tornou moda 70 Agenda Música, livros e filmes 71 Arte dois documentários bem perto de todos nós
72 Ao volante O inovador vision Mercedes Maybach Ultimate
50 fIGUra do MÊs Turismo noor Momade, Pca da cotur é hoje, um dos rostos do turismo nacional
52 socIedade
Empreendedorismo como uma multinacional quer promover um conjunto de ideias para mudar o mundo
58 lÁ Fora Angola com a crise da dívida pública, e o crescimento do défice estrutural, para onde vai a economia?
Oportunidades e desafios para a aviação civil
estimado leitor, esta edição da Economia & Mercado dedica especial atenção à previsão da entrada da Ethiopian Airlines no mercado moçambicano de aviação civil. É mais uma companhia aérea a operar nas rotas domésticas, ligando todas as capitais provinciais do país.
Este operador, que conta com 72 anos de actividade, pretende tornar-se até 2025 na companhia aérea mais competitiva e líder na aviação civil em África. O reforço da liberalização do transporte aéreo doméstico, regional e internacional anunciado em Abril de 2017 pela Autoridade de Aviação Civil de Moçambique - IACM vai modificar significativamente a configuração do mercado de aviação civil e o posicionamento dos operadores, o que vai implicar, certamente, alterações das opções estratégicas das companhias que tradicionalmente operam em Moçambique, sob o risco de verem a continuidade das suas operações comprometida.
Os riscos associados à insuficiência de liquidez previsível de algumas concorrentes de fraca capacidade financeira requerem a implementação de medidas de reestruturação profundas, ousadas e corajosas para lhes dar melhor performance económica, financeira, técnico-operacional e comercial.
Tudo medidas que, outrossim, pedem a adopção de postura criativa, inteligente e de sabedoria para tirar vantagens no relacionamento com gigantes que operam com economias de escala e vantagens competitivas na vertente de frota, manutenção, operação, formação, financeira e dos serviços comerciais.
O acordo de Yamoussoukrou, assinado em 1990, pressupõe a liberalização do sector de aviação com o intuito de potenciar oportunidades de negócio de um continente que vai ter um aumento exponencial dos seus principais indicadores, da sua população à criação de riqueza, melhoria da qualidade de vida ou expansão da classe média. Nesta região de África, são ainda menos de 0,5 os passageiros per capita, muito longe da média europeia que se situa em 1,4 passageiros per capita.
Naturalmente colocam-se ao sector nacional os desafios associados à baixa sofisticação e qualidade das infra-estruturas aeroportuárias, à frota envelhecida, às insuficiências nos serviços de manutenção de frota, na formação aliada à fraca qualificação do capital humano.
A abordagem integrada destas duas vertentes (oportunidades e mitigação de desafios) é que irá permitir o crescimento harmonioso do sector de aviação em toda a África e especialmente aqui mesmo, em Moçambique.
E é perspectivando o futuro que a E&M, disponibiliza informação relevante aos estimados leitores, todos os meses, como um instrumento de tomada de decisão pois ‘quem lê, sabe mais’.
JunhO 2018 • nº 03 Director
PROPRIEDADE Executive Moçambique
DIRECTOR Iacumba Ali Aiuba COnsElhO EDITORIAl Alda Salomão; António Souto; Narciso Matos; Rogério Samo Gudo DIRECTORA EDITORIAl
GRUPO EXECUTIVE Ana Filipa Amaro
EDITOR EXECUTIVO Pedro Cativelos JORnAlIsTAs Celso Chambisso; Hermenegildo Langa; Cristina Freire Elmano Madaíl; Rui Trindade PAGInAÇÃO José Mundundo FOTOGRAFIA Jay Garrido; Vasco Célio PRODUÇÃO Iona - Comunicação e Marketing, Lda (Grupo Executive) PUBlICIDADE DEPARTAmEnTO COmERCIAl Ana Antunes (Moçambique) ana.antunes@executive-mozambique. com; iona@iona.pt/contacto@iona.pt (Portugal)
ADmInIsTRAÇÃO, REDACÇÃO E PUBlICIDADE Executive Moçambique; Rua do Telégrafo, nº 109 – Sala 6, Bairro Polana Cimento, Maputo – Moçambique; Tel.: +258 21 485 652; Tlm.: +258 84 311 9150; geral@executive-mozambique.com DElEGAÇÃO Em lIsBOA Rua Filipe Folque, nº 10 J – 2º drtº,1050-113 Lisboa; Tel.:+351 213 813 566; Fax: +351 213 813 569; iona@iona.pt ImPREssÃO E ACABAmEnTO Minerva Print - Maputo - Moçambique TIRAGEm 4 500 exemplares númERO DE REGIsTO 01/GABINFO-DEPC/2018
Iacumba Ali Aiuba
observação
Moscovo, Rússia
Mundial de futebol de 2018: o grande capital da
rússia
Junho é, de quatro em quatro anos, mês de Mundial de futebol. E nos dias que correm, este é o jogo que está no centro de toda uma indústria que movimenta biliões de dólares e vale, por exemplo, 3% do PIB de toda a zona euro. É ali que estão concentrados os campeonatos mais valiosos do mundo, como a Premier League. Mas, Mundial é Mundial, um mundo (negócio) à parte. E que negócio! Realiza-se na Rússia, de 14 de Junho a 14 de Julho, e foi considerado pelo próprio Vladimir Putin “um trunfo para revitalizar a economia russa”, esperando que os 10,3 mil milhões de dólares investidos (do processo de candidatura até ao custo de obras nos 12 estádios, infra-estruturas e logística operacional de toda a competição) tenham um impacto “enorme na revitalização da economia”. E de facto assim será, já que se estima uma receita total de 13,7 mil milhões de dólares (praticamente o PIB anual de Moçambique, mas alcançado em apenas um mês), para além dos ganhos indirectos gerados pela criação de 220 mil postos de trabalho, e pelos cerca de 560 mil turistas que irão visitar o país. Se no relvado as hipóteses de sucesso da selecção da casa não parecem substanciais, no “banco” a Rússia já é a grande vencedora da competição.
RADAR
eNerGia
Exploração de gás. A produção de LNG na Área 4 da Bacia do Rovuma, em Cabo Delgado, poderá começar um ano antes do que o inicialmente previsto, em 2022, de acordo com o anúncio do ministro dos Recursos Minerais e Energia, Max Tonela, que falava na Assembleia da República, em Maio. O governante revelou que em Março deste ano, “deu-se o corte da primeira chapa de aço para a construção do sistema de ancoragem da plataforma flutuante de liquefação de gás no campo Coral Sul da Área 4”, explorado pelo consórcio liderado pela italiana ENI e a norte-americana Exxon Mobil. A conclusão da construção da plataforma flutuante está prevista para finais de 2021, prevendo-se que chegue às águas moçambicanas no final do primeiro trimestre de 2022. O consórcio vai investir oito mil milhões de dólares.
Refinaria de Gás. Era algo de que já se vinha falando há algum tempo, mas agora é a ENH quem o confirma. Moçambique irá dispor de uma refinaria de gás nos próximos anos. “O projecto está em fase de estudo de viabilidade económica, de acordo com informações avançadas pelo PCA da Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH), Omar Mithá.
Segundo ele, o concurso público para a construção da refinaria foi lançado em Abril deste ano e “não deixa dúvidas
que o projecto irá contrinuir sobremaneira para reter parte da produção em território nacional, bem como para fazer baixar a factura energética do país”.
O PCA da ENH revelou ainda que, “enquanto se espera pelo início da exploração de gás na bacia do Rovuma “ir-se-à conceber um projecto de importação da matéria-prima para ser refinada no país e consequentemente escoar o produto para os países do hinterland (sem contacto com o mar).”
Gás Doméstico. O Porto da Beira já dispõe de um terminal oceânico de gás doméstico, um empreendimento cuja finalidade é, “melhorar a oferta de gás doméstico para as regiões Centro e Norte do país”, disse, na cerimónia de inauguração da infra-estrutura, em Maio passado, o Presidente Filipe Nyusi. O terminal terá capacidade para armazenar três mil toneladas métricas de gás e terá capacidade para encher 5 mil botijas de gás doméstico e abastecer 12 camiões-tanque diariamente. Para a instalação do terminal de gás
foram investidos cerca de 38 milhões de dólares, dos quais 31 milhões financiados pelo Banco de Exportação e Importação da Índia.
Negócios. A CTA e a companhia petrolífera sul-africana SASOL anunciaram, em Maio passado, a formalização de uma parceria para a facilitação da participação de entidades nacionais em oportunidades de negócio nos projectos de hidrocarbonetos operados pela multinacional em território nacional. À luz do memorando, a SASOL deverá então passar a “informar a CTA sobre os planos e necessidades de procurement que os seus projectos impliquem,” permitindo, por sua vez, que a CTA “partilhe tal informação com os seus membros de modo a facilitar a capacitação de empresas locais para participação nos concursos abertos, desde que sejam cumpridos os critérios determinados”.
Para já, a multinacional anunciou que dispõe de um budget de 100 milhões de dólares anuais para a contratação de serviços e compra de bens a empresas moçambicanas.
18,3 mil milhões precisam-se
A Anadarko Petroleum (concessionária da Área 1 do Rovuma) está nos mercados em busca de 18,3 mil milhões de dólares, (em bancos e agências de crédito), um valor recorde para a indústria do LNG mundial. A demanda crescente do mercado chinês devolveu o “apetite” aos principais investidores internacionais, sendo previsível que o FID do projecto seja apresentado “dentro de um ano”, dizia recentemente o CEO da Mitsui (10% da joint venture da exploração) Tatsuo Yasunaga.
Combustíveis. Os preços da gasolina e do gasóleo foram, uma vez mais, agravados em Maio. Quanto ao gás doméstico, ele ficou mais barato, no quadro da revisão mensal dos preços dos combustíveis.
O custo da gasolina subiu assim 1,6%, (de 65,01 para 66,03 meticais por litro), enquanto o preço do gasóleo foi agravado em 3%, (de 61,16 para 62,92 meticais por litro). Quanto ao gás doméstico, passa de 65,18 para 60,94 meticais, denotando uma queda de 6,5%, face ao preço até aqui em curso.
O Governo continua a subsidiar o gasóleo para utilização agrícola, pesca artesanal e produção de energia em pontos distantes da rede pública de abastecimento. de combustíveis
Electricidade. O preço da energia eléctrica poderá, ao que a E&M apurou, voltar a aumentar nas próximas semanas. As negociações para o efeito já estão em curso entre a empresa pública Electricidade de Moçambique (EDM) e o Governo. O esforço visa cobrir “os crescentes custos operacionais”, anuncia a EDM.
ecONOmia
Diversificação económica. Moçambique poderá dispor, nos próximos anos, “de um incremento de fundos de instituições internacionais para projectos de diversificação económica”, de acordo com o mais recente relatório sobre a economia nacional, elaborado pelas consultoras Africa Monitor Intelligence e Eupportunity. Sem estimar o valor, o relatório aponta que as contribuições virão maioritariamente da UE, Banco Mundial, Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), e serão canalizadas para “o desenvolvimento rural, florestal e o crescimento do sector agrícola.”
Dívida externa. A renegociação da dívida pública externa pelo Governo é um processo em curso. Recentemente, o ministro da Economia e Finanças, Adriano Maleiane, assumiu que o Governo “não está a pagar a dívida comercial garantida pelo Estado”, (avaliada em 1 859 milhões de dólares), mas “continua a lutar pela sua reestruturação.“
Segundo o governante, a conclusão das negociações com os credores “é um passo fundamental para melhorar a classificação da dívida e os seus rácios de sustentabilidade.”
Ainda assim, anuncia que o país “tem estado a pagar regularmente o serviço da dívida externa multilateral e bilateral”, bem como a interna, tendo desembolsado 217 milhões de dólares em 2017, ano em
que o total da dívida pública externa foi apurado em 10,6 mil milhões de dólares.
Ambiente de negócios. Reduziu para metade o tempo de espera para a instalação de energia nas empresas, (de 68 para 30 dias), “o que será mais um incentivo para encorajar o surgimento e criação de novos investimentos no país”, revelou em Maio o director comercial da EDM, Benjamim Fernando, durante um encontro com o conselho directivo da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA).
Para o efeito, a empresa fez entrar em funcionamento uma nova plataforma informática de registo de pedidos dedicada a empresas, que permite gerir todo o processo e garantir que em 30 dias tenham os contadores instalado. O acesso à rede eléctrica é um dos constrangimentos identificados no relatório ‘Doing Business’, através do qual o Banco Mundial classifica a facilidade de fazer negócios em cerca de 190 países.
Empreendedorismo. A Incubadora Tecnológica e de Empresas (ITE) da Universidade Politécnica formou um total de 18 estudantes em empreendedorismo. A formação foi coordenada pela Erasmus Centre for Entrepreneurship da Holanda, à luz de um protocolo firmado com a instituição privada moçambicana de ensino superior. Espera-se que o curso, (com duração de duas semanas), contribua para o estabelecimento de uma disciplina dedicada ao
cOmpra De prODUTOs aGrÍcOlas
A BOLSA DE MERCADORIAS DE MOÇAMBIQUE (BMM) informa a todas entidades públicas e privadas, camponeses e comerciantes individuais, associações de camponeses e o público em geral que possui uma lista de parceiros interessados em adquirir os seguintes produtos agrícolas:
Neste contexto, todos aqueles que tiverem os produtos acima descritos em quantidades iguais ou superiores a 50 TONELADAS, que pretendam vender, poderão entrar em contacto com a BMM através dos seguintes contactos:
Milho
GERGEliM
RADAR
empreendedorismo, nos cursos leccionados pela Universidade Politécnica.
O Instituto Superior de Ciências e Tecnologias de Moçambique (ISCTEM) e a Universidade Eduardo Mondlane (UEM) também têm projectos de cooperação similares com a instituição holandesa.
izyshop. A plataforma digital de ligação entre consumidores, produtores e retalhistas, assinou um memorandum de entendimento com a DHD Holding, empresa detentora do grupo SOICO e de outras empresas, para aquisição de uma participação no Izyshop. O acordo foi anunciado durante a última edição da MozTech pelo PCA do grupo – Daniel David. O PCA da Izyshop, Titos Munhequete, afirmou que se trata de “uma parceria estratégica que irá permitir ao Izyshop aumentar a oferta de produtos e serviços na plataforma online com vista à expansão pan-africana da Izyshop.”
Agricultura. Associações de produtores de Gaza receberam apoio do empresariado local (da CTA) para a regularização e apoio jurídico, passo importante na criação de condições para facilitar o acesso a diferentes iniciativas de capacitação, linhas de financiamento, mecanização e tecnologias, O empresariado local, oficialmente representado pela núcleo regional da CTA prestou assistência a um conjunto de associações de agricultores nos distritos de Chongoene, Manjacaze, Chibuto e Chókwè, onde levou a cabo accões de esclarecimento sobre os serviços prestados pelo Gabinete de Apoio Empresarial, incluindo os pacotes de financiamento disponíveis. paÍs
Produção alimentar. “A China desembolsou cerca de 10 milhões de dólares para apoiar a presente campanha agrícola em Moçambique”. O anúncio foi feito pela voz do embaixador chinês em Moçambique, Su Jian, que apontou a agricultura e segurança alimentar como “sectores prioritários” do investimento chinês no país: “Escolhemos a agricultura como o sector em que se deve investir mais nos próximos tempos em Moçambique”, assinalou, acrescentando que “cinco das maiores empresas chinesas estão a operar” em Moçambique, precisamente nesses sectores, para além da área das infra-estruturas e vias de acesso.
investigação agrária. O governo da Índia anunciou os resultados do programa de apoio ao sector da agricultura através da formação profissional. Assim, cerca de 13 mil pessoas, entre produtores agrícolas, extensionistas e estudantes do ramo de agronomia, receberam acções de formação em técnicas de investigação e transferência de tecnologia para aumento de produtividade do arroz, milho e trigo à escala nacional.
A acção (ainda em curso), insere-se no projecto de Investigação e Transferência de Tecnologias desenvolvido pela organização indiana Angelique International.
Segurança alimentar. Mais de 250 técnicos agrários moçambicanos irão receber formação na identificação e gestão integrada da praga denominada Lagarta do Funil do Mi-
lho, considerada uma ameaça à segurança alimentar e nutricional no país. A acção será ministrada pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), e deverá ser replicada depois para cerca de 6 000 agregados familiares, através das escolas da ‘Machamba do Camponês’. Estima-se que, até ao final do projecto que visa melhorar a capacidade de resposta e contenção da praga, previsto para Março de 2019, sejam abrangidas de forma indirecta cerca de 75 000 famílias.
Desnutrição crónica. Mais e 570 mil crianças menores de dois anos, nas províncias da Zambézia, Centro do país, e Nampula vão beneficiar de um pacote de apoio avaliado em 25 milhões de dólares, prestado pela UE e UNICEF. O representante do UNICEF em Moçambique, Marcoluigi Corsi, assinalou que o apoio “visa ajudar a prover nutrição básica para crianças e mulheres grávidas e lactantes.” Na Zambézia, a taxa de desnutrição crónica é de 41%.
Madeira. As receitas do combate ao contrabando de toros de madeira fez aumentar 10 mil vezes a receita anual de exploração deste recurso em apenas três anos, de 500 mil meticais para 5 000 milhões de meticais, declarou em Maio, o ministro da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural, Celso Correia, durante uma sessão parlamentar. A campanha que possibilitou a redução do contrabando da madeira é conhecida por “Operação Tronco”.
algodão. A produção de algodão está em alta e com boas perspectivas. De acordo com os números apresentados pelo Instituto de Algodão de Moçambique (IAM), em Maio, a expectativa é de que a presente campanha agrícola produza 100 mil toneladas de algodão na província de Nampula face aos cerca de 36 mil registados na campanha anterior. O crescimento é atribuído ao aumento do número de agricultores de 170 mil na época 2016/2017 para 227 mil na presente época (2017/2018), bem como da área de cultivo, de 114 mil para 187 mil hectares no mesmo período.
Transportes. Mais 200 autocarros foram disponibilizados (em Maio) pelo Governo para o transporte público em todo o país. Segundo o ministro dos Transportes e Comunicações, Carlos Mesquita, o sistema de transportes públicos urbanos de Maputo (para onde se destinaram a maior parte dos autocarros), passa a ter capacidade para responder a 72% da procura diária estimada em 600 mil passageiros. Cálculos do Governo apontam que até final deste semestre sejam entregues mais 70 unidades, elevando a cobertura para 92%.
china. O projecto denominado Acesso à TV por Satélite para 10 mil Aldeias Africanas, começou já a ser implementado em cerca de 25 países africanos. No distrito de Marracuene, as primeiras de cerca de 500 famílias rurais já dispõem de TV por satélite desde o passado mês de Maio.
MCNET, uMa solução iNovadora
Rogério Samo Gudo, PCA da MCNET - Mozambique Community Network, apresenta em entrevista, a mais recente solução inovadora para o mercado moçambicano – o Port Community System
Como e quando a MCNet surge no mercado nacional?
A parceria foi estabelecida pelo Estado Moçambicano com vista a eliminar os constrangimentos burocráticos que impedem o desenvolvimento do comércio externo; reduzir o tempo de processamento das declarações aduaneiras; aumentar a capacidade das Alfândegas para minimizar o risco sobre a colecta de receitas e fortalecer os mecanismos de controlo de práticas ilegais de comércio.
Quais são as suas áreas de cobertura?
Somos a empresa responsável pela implementação do projecto da Janela Única Electrónica (JUE), uma plataforma que permite a troca de informação entre os vários agentes comerciais através de um ponto único de contacto. A solução
tem como principais objectivos uma melhor eficiência na arrecadação das receitas aduaneiras; expansão do comércio; transparência no processo de desembaraço aduaneiro; um movimento mais eficiente de mercadorias; melhoria do processo de importação através da redução do tempo de desembaraço nos portos, aeroportos e fronteiras. A MCNET tem implementado outros projetos e tem disponível para o mercado diversas soluções, como por exemplo: E-Evaluator – Determinação do valor aduaneiro que permite assegurar conformidade nas avaliações aduaneiras efectuadas as cargas e combater a existência de documentação não verdadeira; OMNIS – Visibilidade Electrónica da Carga que permite o rastreio de carga transportadas por estrada, ferrovia ou mar
em tempo real ou tempo real diferido e disponibilizando um conjunto de dados críticos a monitoria e gestão da carga em transporte; VALITRADE – Fluxo de Informação Interactivo para a verificação e validação de transacções sensíveis e susceptíveis a fraude incluindo a realização de análises e verificações com base em critérios de risco. | LEGALTRACE – Rastreabilidade da Madeira e Verificação de Legalidade que permitem monitorar e controlar as actividades florestais através da cadeira de valor da Madeira no país.
PORT COMMUNITY SYSTEM – Soluções Portuárias que permitem a gestão centralizada, electrónica e transparente dos processos e procedimentos de cargas e descargas nos portos e envolvendo os seus mais diversos actores públicos e privados.
Tendo estado representado na feira de tecnologia Moztech, como avalia a participação da empresa no evento?
Participámos na qualidade de Parceiro Estratégico e avaliamos a nossa participação como tendo sido bastante positiva. Trouxemos um stand de elevada qualidade, oradores e palestrantes nacionais e internacionais abalizados nas diversas matérias que foram a debate e reflexão; e ainda reconhecemos e premiamos indivíduos que têm contribuído para o continuo desenvolvimento da nossa solução JUE. Fizemos networking, disseminámos os nossos serviços, produtos e soluções e estreitamos relações com diversas entidades públicas e privadas.
Quais são as projecções da MCNet para os próximos anos?
A MCNet apresenta agora uma nova solução sempre com o objectivo de acelerar procedimentos, reduzir riscos e imprimir transparência – a plataforma especifica para a gestão de portos de seu nome Port Community System. E esperamos concentrar os nossos esforços na introdução deste complemento á Janela Única Electrónica.
Em que consiste essa plataforma?
O fluxo de informação dentro e ao redor de cada porto é complexa e apresenta várias camadas. O manuseamento das cargas e mercadorias requer a intervenção de um elevado número de intervenientes que fazem parte da comunidade portuária e que tornam este processo complexo. Assim, conscientes que os portos
em Moçambique movimentam volumes significativos de tráfego de importação e exportação e cada vez mais crescentes aliados à sua posição estratégica na região, a MCNET apresenta esta solução que pretende endereçar os desafios complexos colocados pela existência de uma extensa rede de agentes portuários, de um elevado volume de informação que deve ser trocada no manuseamento da carga portuária e a quantidade de documentação em papel que é consequentemente necessário trocar entre todas as partes.
Que vantagens terá a sua utilização? Através da disponibilização de uma plataforma electrónica aberta, única e online será agora possível a troca segura de
MCNet - MozaMbique
CoMMunity network, S. a .
Fundação
Dezembro de 2009
É uma Parceria Público Privada constituída pelo Estado Moçambicano, Escopil Internacional e a CTAConfederação das Associações Económicas de Moçambique.
informação entre organizações públicas e privadas fazendo a comunidade portuária de Moçambique mais competitiva a nível da região onde está inserida. Esta plataforma irá permitir a comunicação em tempo real entre a autoridade portuária e os vários agentes da comunidade portuária não só simplificando acelerando procedimentos.
Em termos efectivos, que efeitos terá a utilização desta solução para os parceiros da MCNET?
Irá permitir a melhoria no rastreio das cargas e mercadorias e reduzindo o tempo de desembaraço. Os agentes poderão apresentar as suas declarações ás autoridades portuárias e utilizarão um sistema de cores para comunicar o seu grau de processamento. Outro aspecto que a plataforma possibilita é a inspecção das cargas e mercadorias movimentadas nas plataformas logísticas. A documentação, selos, entre outros aspectos são suportados pela nossa plataforma. Nos casos em que a carga não passa a inspecção várias alternativas são possíveis – devolução e destruição da carga, ou modificação para outros usos – e a nossa plataforma irá automatizar todos os procedimentos e documentação associados a estes aspectos. Custos de digitalização e sua verificações manuais são também reduzidos pelo recurso a esta plataforma que inclui igualmente uma solução de rastreio das cargas. A plataforma permite ainda endereçar os desafios associados à consolidação de carga em contentores onde uma vez mais um conjunto elevado de actores e num mesmo espaço físico se encontram a operar. Complexos processos administrativos e diferentes procedimentos alfandegários estão envolvidos pois cada tipo de carga que é incluída no contentor tem diferentes requisitos que deve cumprir o que dificulta em termos de tempo o processo de aprovação do despacho da carga. A plataforma automatiza o processo e integra, em tempo real, os despachos e documentação necessários e eliminando o tempo e erros envolvidos com o tradicional processamento manual. Trazemos-lhe assim, a Port Community System como um sistema de gestão integrado de informação portuária com o objectivo de facilitar e simplificar os procedimentos portuários e com o objectivo de contribuir para a construção de um espaço nacional e regional de circulação de mercadorias cada vez mais eficiente e efectivo.
Agilização de processos aduaneiros é uma das soluções propostas pela MCNET
Carvão alCança reCorde e reanima a eConomia naCional
Pela primeira vez desde 2012, a Vale apresenta resultados positivos da exploração de carvão em Moçambique, com a facturação a bater recordes numa actividade adormecida pelas condições do mercado internacional dos últimos anos. Resta saber se esta tendência se irá manter por muito tempo.
em cinco anos, as actividades de extracção e exportação de carvão foram acumulando prejuízos para a Vale, uma das maiores mineradoras em todo o mundo. Ao mesmo tempo que, no Brasil, a empresa (através de algumas das suas subsidiárias) se via envolvida em investigações e num processo de mudança da sua estrutura accionista, em Moçambique (e em muitos mercados em que opera) a rentabilidade das operações, estava longe das expectativas iniciais. Olhando para o mercado nacional, se nos primeiros anos,
a operação da Vale teve menos altos que baixos, o que se justifica pelos avultados investimentos iniciais de suporte ao início das actividades (em Moçambique esse valor andará perto dos 6 500 milhões de dólares), e pelo abrandamento industrial na China, Japão e Estados Unidos, que levou os preços do carvão no mercado internacional a bater no fundo. O que complicou, e de que maneira, as contas da Vale e dos restantes operadores do mercado nacional. Recuando no tempo, no auge da crise dos
preços internacionais do carvão de coque, em 2015, as empresas mineiras chegaram a despedir mais de 4 000 funcionários em todo o mundo. Naquele ano, o preço do carvão metalúrgico (aquele que é utilizado na produção de aço, e que representa o principal negócio da Vale), chegou a cair para os 80 dólares por tonelada, depois do pico de 291 dólares por tonelada, que se registava em 2011. Mas, em Agosto de 2016, os preços começaram a recuperar até atingirem um valor próximo dos 200 dólares
por tonelada, em finais do mesmo ano. Actualmente na casa dos 139 dólares, a recuperação do preço do carvão reanimou a extracção de carvão e abre boas perspectivas para a reanimação do sector que, de há ano e meio a esta parte, tem finalmente dado sinais de pujança. E é precisamente essa alteração de fundo que os resultados apresentados no relatório e contas da Vale Moçambique reflectem, e que não se fica pelo mercado nacional.
No Brasil, onde fica a sede da empresa, só em Abril deste ano a Vale foi a que mais valorizou no mercado bolsista de São Paulo, cerca de 100 milhões de dólares em apenas 30 dias.
Em Moçambique, o mercado reergueu-se e os resultados do ano passado já demonstram um impacto significativo do carvão no desempenho da economia no seu todo (1,6 mil milhões de dólares de exportação). Para ter uma noção, só a exportação de carvão da Vale corresponde a 72% das exportações do sector extractivo e 36% do volume global de exportações do país, tendo inclusivamente ultrapassado a líder crónica nacional, no que a exportações diz respeito, a Mozal. Por outras palavras, se excluirmos o carvão, o país vende muito pouco ao exterior, mas ainda assim, o carvão ajudou a economia, quando ela mais precisava.
Primeira vez com lucro
Segundo o relatório de contas da empresa, que reporta ao exercício económico de 2017, a produção de carvão da mina de Moatize totalizou 11,2 milhões de toneladas, um crescimento de 101% em relação às 5,6 milhões de toneladas produzidas em 2016, um salto que reflecte a operacionalização da segunda mina da Vale, designada de Moatize II. O EBITDA (resultado antes dos impostos e da depreciação), atingiu pela primeira vez um valor positivo desde a entrada da Vale em operações, em Março de 2012. Um salto de 162% (mais 15 mil milhões de meticais) em relação a 2016.
Já as receitas, aumentaram 122%, algo que a mineradora explica “pela melhoria do preço do carvão no mercado internacional”, impulsionada pela crescente fiscalização e restrição da produção das minas na China, bem como pela entrada em funcionamento do corredor logístico Moatize-Nacala (que liga a mina em Tete ao porto de Nacala, numa extensão de 912 Km), e que permitiu o escoamento da produção. Outra razão que explica o desempenho
milhões de dólares
É o valor que a mineradora prevê pagar em impostos ao estado atÉ ao final do ano, se os preços no mercado internacional não voltarem a cair
positivo da operação de Moatize é a apreciação do metical em relação ao dólar. Se em 2016 a moeda norte-americana atingiu a casa dos 80 meticais, no ano passado a moeda nacional recuperou para próximo dos 60 meticais.
Pelas mesmas razões, o resultado líquido também cresceu consideravelmente, atingindo 66 000 milhões de meticais, depois de registar avultados prejuízos nos anos anteriores (ver gráfico da página seguinte), que levam a que, em termos acumulados (desde o início das suas operações), a empresa continue a apresentar um resultado líquido negativo de 380 000 milhões de meticais.
Outra boa notícia para a Vale, tem a ver com o volume de investimentos que tem vindo a cair. Em 2017, ele caiu para metade (de 10 000 milhões para 5 000 milhões de meticais) face ao período homólogo, porque em 2016, a empresa concentrou esforços na finalização da mina Moatize II, que duplicaria a capacidade de produção, com impacto nos resultados deste ano. E o volume do investimento de 2017 ilustra bem essa realidade, uma vez que a empresa apenas teve de assegurar a continuidade das operações bem como as acções sociais, o que naturalmente absorveu recursos bastante menores.
optimismo moderado
No entanto, se o carvão “aqueceu” a economia nacional quando ela estava a esfriar, o optimismo não pode ser exagerado.
PReço do caRVão RecuPeRou
Depois do pico de 2012, o preço do carvão de coque no mercado internacional caiu a pique e só começaria a recuperar em Agosto de 2016
Porquê? Porque existem muitas contas a ajustar enquanto as condições actuais do mercado (interno e internacional) se mantiverem, fruto de anos de produção insuficiente.
Em relação aos impostos a pagar ao Estado e graças à melhoria dos indicadores de desempenho, a Vale prevê canalizar até 30 milhões de dólares (aproximadamente 1.8 mil milhões de meticais) para a Autoridade Tributária. Trata-se de um número muito acima do que foi pago quando a Vale enfrentou prejuízos avultados em 2016 e teve de pagar apenas 10 milhões de meticais (o câmbio estava muito depreciado e volátil). A este nível, fonte da empresa faz questão de dizer que os principais impostos pagos pela Vale ao Estado são mesmo em royalties (impostos pagos pelo direito de exploração do carvão).
Aproveitando a onda favorável do mercado, a Vale está a investir em acções de sondagem, para investigar outras áreas disponíveis na sua concessão de Tete.
Macro
A aposta da Vale, deve-se ao reconhecimento de que o carvão de Tete é de qualidade, internacionalmente reconhecida de resto, para a indústria metalúrgica, e que a Vale considera “tratar-se de um produto premium” e uma opção forte que tem ganho quota de mercado, num mercado concorrencial dominado pela Austrália, maior competidor externo (e maior produtor mundial), que fornece carvão aos grandes compradores mundiais (Estados Unidos, China e Índia).
No mesmo documento, a Vale garante ainda que Moçambique “apresenta outras vantagens” para rivalizar com a Austrália e que justificam a sua aposta neste mercado, apontando a “localização geográfica privilegiada em relação a alguns dos principais mercados mundiais, nomeadamente a Índia e o Brasil”.
Como desvantagem, neste aspecto, apresenta-se o factor-distância em relação
a outros mercados asiáticos como o Japão, Coreia, Taiwan ou a Europa (face à Austrália).
Ainda assim, esta desvantagem é, lê-se no relatório e contas, “compensada pela facilidade logística no acesso de navios de grande porte que carregam o carvão a partir do porto de Nacala, o que acrescenta valor à competitividade da empresa na operação moçambicana.”
volatilidade de preços e incerteza
No entanto, se o presente é de algum optimismo e desafogo (ainda para mais se olharmos à previsão de aumento da produção de 33,9% este ano), a verdade é que no mercado do carvão, o que hoje parece, amanhã pode não ser.
Ao contrário de outras commodities cujos valores de mercado podem ser mais facilmente previsíveis a médio-prazo, o preço do carvão pode apresentar
a exportação de carvão da Vale corresponde a 72% de todas as exportações do sector extractivo e a 36% do volume global de vendas ao exterior. Já ultrapassou o alumínio da Mozal
PRodução seMPRe a auMentaR
O ano de 2017 fechou com um crescimento de produção na ordem de 101% face ao ano anterior, atingindo um recorde de 11,2 milhões de toneladas. Em 2018, prevê-se um crescimento de 33,9%, para os 15 milhões de toneladas
em milhões de toneladas
Moatize, tete: em 2018 a Vale prevê um crescimento de 33,9% da produção de carvão, para os 15 milhões de toneladas
grandes variações num curto espaço de tempo. Porque a fixação dos preços está dependente de um sem-número de condicionantes. Que vão da ocorrência de fenómenos climáticos extremos com impactos na cadeia de produção na Austrália (como aconteceu com o ciclone Debbie, há um ano, gerando uma inflação imediata de 8% no preço) às políticas macroeconómicas (nomeadamente industriais) nos principais mercados compradores.
É por estas razões que, de acordo com o que apurámos junto da Vale, não existe segurança plena nesta curva de estabilidade que se verifica, e principalmente não se arrisca demasiado em previsões optimistas de que ela tenha chegado para permanecer.
Até porque a ‘lição’ de 2015 e 2016, tornou, de uma forma geral, os operadores de mercado (não só em Moçambique) mais cautelosos na realização das suas contas e nas projecções para o futuro. Temendo que os preços possam voltar a cair, a Vale não está assim em condições de projectar o volume de investimentos que vai realizar nas suas concessões, nem assegurar quanto irá desembolsar em impostos para o Estado nos próximos anos, uma vez que esses, são números que dependerão de condicionantes que têm a ver com o preço de venda do carvão nos mercados internacionais.
Ou seja, os curtos ciclos de variação de preços, deixam a companhia sem capacidade de planificar o volume de exportações e de receitas que poderá realizar nos próximos anos, o que deixa algum espaço de preocupação, essencialmente pelo peso que o sector ganhou nos últimos 16 meses na balança comercial (ao nível das exportações e da entrada de dólares na economia), sendo hoje, efectivamente essencial no quadro macro-económico nacional.
Um pequeno exemplo disso aconteceu recentemente, quando o Governo admitiu rever em baixa as previsões de crescimento económico de 5,3% para cerca de 3%, baseando-se, principalmente, nas projecções da Vale, que reduziu também ela as metas de produção de 2018 de 16 milhões de toneladas para 15 milhões devido às enxurradas que se abateram sobre as províncias de Nampula e Tete, dificultando a actividade produtiva e o transporte.
Ainda assim, será o carvão a principal alavanca do crescimento esperado para este ano. Só que é preciso assegurar o que possa vir por aí de negativo.
Receita: a funcionaR cada Vez MelhoR
O crescimento do volume de produção e a recuperação do preço do carvão, foram determinantes para o crescimento expressivo da receita, também empurrado pela redução da dívida com os accionistas graças à recuperação das taxas de câmbio
Olhando de novo para a conjuntura global, ela parece não estar do lado da evolução positiva do preço do carvão nos mercados, algo que alimenta os receios da Vale.
PositiVos
Os resultados financeiros foram positivos pela primeira vez, devido ao aumento do volume de produção e à melhoria dos preços do carvão no mercado internacional
E existem várias leituras para esse facto, expressas por analistas de commodities de todo o mundo que olham a chegada de Donald Trump à Casa Branca, com o seu discurso de reactivação da indústria norte-americana, como factor catalisador que levou os outros grandes players mundiais, nomeadamente a China, o Japão e a Índia a reforçarem a actividade industrial, fomentando a produção interna de uma matéria-prima entretanto já banida em muitos países, como o Reino Unido). No entanto, isso criou um micro-ciclo de aumento do valor das commodities (nomeadamente o petróleo que anda há semanas acima dos 75 dólares por barril) o que, por arrasto, pode ser favorável para o carvão.
diversificação “é urgente”
No entanto, se a quebra do preço do carvão pode, por enquanto, não passar somente de uma previsão que pode ou não concretizar-se, as incertezas da Vale são interpretadas como factor potenciador de eventuais constrangimentos na actividade económica de forma mais global, em Moçambique.
1 001 milhões de dólares
O resultado líquido da Vale em Moçambique em 2017
inVestiMento: cai PaRa Metade
A redução do volume de investimentos evidencia a finalização da fase de expansão da mina de Moatize II. A partir de 2017, investimentos serão direccionados para a manutenção, acção social e sondagem de novas bolsas de carvão
À E&M, o economista Constantino Marrengula, docente da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), levanta a velha questão da necessidade de “diversificar a economia” para escapar aos efeitos negativos de uma eventual quebra de receitas da venda de carvão, ou de um potencial (e até expectável) abrandamento do sector extractivo.
Reconhecendo que a diversificação económica de que tanto se fala não se concretiza “num curto espaço de tempo”, o professor considera ainda assim urgente “desenhar prioridades políticas no sentido de criar uma linha de coordenação entre as instituições públicas, em busca de resultados práticos, que tenham visibilidade e peso na economia, em poucos anos.”
A economia nacional até pode ter tido um balão de oxigénio com o aumento da receita proveniente das exportações de carvão mas, é preciso fazer o trabalho de casa, para não ficar exclusivamente dependente desta matéria-prima.
tExtO Celso Chambisso fOtOgrAfIA D.R.
Resultados:
Pela PRiMeiRa Vez
ImobIlIárIo cresceu em altura, caIu no preço, e agora parece estabIlIzar
Depois do pico de preços e investimentos de 2013, o sector imobiliário foi acompanhando a evolução da economia, e abrandando até quase parar. Cinco anos depois, o mercado estará no entanto mais realista e, havendo ainda poucos novos investimentos, a verdade é que a oferta melhorou, e até já há novos negócios no horizonte
o mercado imobiliário é, sem dúvida, um grande indicador da saúde de qualquer economia. Recordemos que foi por aí, como sabemos, que começou a grande crise de 2008, com o rebentar da bolha imobiliária nos Estados Unidos, que se viria a alastrar a todo o mundo, com consequências que foram muito para além de um segmento de mercado basilar e que se estenderam à banca, fizeram cair governos, e obrigaram o mundo mergulhar numa crise que, ainda hoje deixa
resquícios em economias de todo o mundo. Olhando para Moçambique, com o início do crescimento acima dos 7% do início da década, o sector imobiliário foi dos que mais cresceu.
Depois, viria o abrandamento económico e, de novo, o imobiliário foi o que deu os primeiros sinais desse novo tempo mais austero, que se notou (e ainda nota) no mercado desde 2014, quando se iniciou a queda abrupta dos preços no mercado imobiliário (residencial, escritórios e retalho), com destaque para as cidades de Maputo, Beira, Nampula e Pemba. E os preços continuam a cair, na exacta medida em que a oferta continua a subir, numa das mais lógicas leis essenciais da economia real.
É exactamente por isso que um conjunto de especialistas ligados ao ramo imobiliário ouvidos pela E&M descartam qualquer “crise” no mercado mobiliário, e falam sim, “do reajuste de um sector que foi construído numa base especu-
lativa”.Luís Coimbra, director-geral da AVANCE, uma empresa especializada em administração de infra-estruturas em Moçambique, considera a crise económica que devasta o país desde 2015, “a causa fundamental para acabar com o nível de especulação que vigorava no mercado imobiliário.”
Mas algo de positivo pode ser construído mesmo em cima de uma má base. “De facto, sabemos das más consequências para o mercado imobiliário, mas o fenómeno acabou por trazer algo de bom. É preciso ver que o mercado imobiliário nacional foi construído numa base especulativa onde qualquer empreendimento tinha preços completamente desnivelados face à realidade, independentemente da qualidade, localização ou finalidade da obra. E isso accabou”, justifica Luís Coimbra.
economia não ajudou
A mesma opinião é perfilhada por Nuno Tavares, director-geral da REC, empresa de consultoria no ramo imobiliário, a trabalhar no mercado moçambicano há cerca de 18 anos. “A crise acabou por servir um pouco de lição para os investidores do ramo que estavam a seguir um caminho errado, onde apenas se construía para a classe alta e que qualquer coisa valia um milhão de dólares ou mais. Há muito que o país precisava de corrigir o sector imobiliário, porque há um sindrome que impede uma actuação harmoniosa entre os investidores do sector.”
Depois, há o excesso de oferta que se verifica um pouco em todos os segmentos (residencial, retalho, e escritórios). “Sim. O mercado imobiliário é de reacção lenta, ou seja, entre a aprovação do investimento, a construção e a entrada do stock para o mercado, podem passar dois, três anos. E o que aconteceu, foi que o mercado mudou. Os investimentos foram baseados numa perspectiva e com uma determinada conjuntura que mudou. E, se no retalho o potencial de crescimento ainda é grande e a maioria da oferta até já está construída (com o Baía Mall e o Novare Matola a ocuparem a grande fatia da área construída), essa realidade nota-se sobremaneira no segmento dos escritórios em que, face à situação de contracção económica há, por um lado, excesso de oferta (que advém da entrada no mercado de muitas novas unidades) e por outro a saída de muitas empresas do mercado de procura. E isso reflecte-se nas taxas de ocupação e nos preços pedidos, onde se verificam quebras entre 30 a 40%”, aponta.
rEsiDEnCial: ofErta ainDa vai auMEntar
Quando o stock em construção estiver finalizado representará um aumento de 50% face à oferta actual
stock em construção
dólares por m2
EsCritórios E rEtalho:
Grande maioria dos projectos já está em funcionamento, o que se reflecte numa quebra de preços de quase 40%
ra de melhores dias) represnta praticamernte 50% em relação ao stock já finalizado. Uma situação que leva Nuno Tavares a demonstrar preocupação pela saturação da oferta. “Só na cidade de Maputo, existem cerca de 1 889 unidades vagas ou devolutas de apartamentos contra 1 429 unidades ainda em construção, e algumas delas, se calhar, já não podemos chamar de novos, porque estão lá há dois ou quatro anos sem utilização”, revela. Aliás, o excesso do stock em todos os segmentos, mas especialmente no residencial é, por esta altura, “preocupante, pois mostra que o mercado é pouco sustentável visto que ainda se observa uma baixa taxa de ocupação dos principais empreendedimentos de Maputo, de cerca de 30%”.
boas consequências
dólares por m2
dólares por m2
FONTE REC | Real Estate Consulting
Se há três ou quatro anos, no segmento dos escritórios, um metro quadrado era negociado por 40 dólares, agora, a tendência é de fechar o contrato a 22 ou 26 dólares, quase metade do valor, face ao que acontecia há quatro anos”, complementa. Se olharmos ao stock residencial existente a situação é um pouco diferente, uma vez que o número de unidades em construção (muitas delas abrandaram o ritmo de construção, ou chegaram mesmo a parar nos últimos anos, à espe-
Há pouco mais de quatro anos, com a economia a crescer acima dos 7%, e com a previsão de chegada de um cada vez maior número de quadros expatriados e de empresas multinacionais e com a probabilidade que, parecia então mais do que certa, de uma aceleração imparável da economia assente na massificação da descobertas de gás, carvão e outros recursos minerais, a procura de apartamentos, escritórios e espaços para compra e arrendamento decorria a uma velocidade estonteante. Os preços, em dólares (na altura com um câmbio muito favorável para o lado do metical) ‘alimentavam’ um mercado com uma oferta reduzida no volume de metros quadrados e nos padrões de qualidade dos imóveis.
Tudo isso mudou, já se percebeu. A começar precisamente por ai. Pela mudança do sistema de pagamento de compras, vendas e arrendamentos, agora feitos em meticais. Para quem nos lê, talvez este tenha sido um dos bons efeitos da crise. Os preços baixaram, e baixaram em meticais, quando tinham subido em dólares. “É verdade. A ‘meticalização’ do mercado imobiliário é uma realidade incontornável, num mercado que funcionava, quase por inteiro, em dólares. E quando comparamos uma renda que pagamos hoje em meticais com a que era praticada há dois ou três anos, também verificamos essas quebras em torno dos 40% a 50%.” E há exemplos concretos dessa realidade. Há quatro anos, um apartamento T3, na zona da Polana Cimento, seria facilmente alugado por um valor a rondar os 2 000 a 2 500 dólares, cerca de 120 a 150 000 meticais ao cambio de actual, mas agora, esses apartamentos são arrendados
macro
por valores a rondar os 50 000 meticais, o que corresponde a 800 dólares, hoje em dia. É uma verdade incontornável, esta, mas que não se verifica em todos os segmentos. “No segmento escritórios, ainda continua a predominar, sobretudo nas zonas de edifícios de classe “A”, situados em zonas prime, preços pedidos em dólares, que depois são convertidos em meticais”, revela Nuno Tavares.
o que vem aí?
A resposta surge ainda hesitante para grande parte dos agentes do sector, mas há já quem anteveja alguns indícios de retoma.
Elsa Santos, da Investe Imóvel é dessa opinião. “Teremos ainda por mais algum tempo uma fase de estabilização em baixa, uma vez que a correção foi muito abrupta no tempo e ao nível da quebra de valores.”
No entanto, um regresso ao passado, àqueles primeiros anos da década, em que o imobiliário (e outros sectores económicos) viveram um período de ebulição gastadora no qual tudo parecia repentinamente demasiado bom para ser verdade, não é de todo expectável.
“Sim, isso não voltará a acontecer. Mesmo que não se possa voltar a registar o pico de oferta e procura como o registado em 2013, o que prevemos que suceda a partir de 2020, é o mercado voltar a merecer destaque na economia nacional. Mas os preços não voltarão a sofrer essa escalada, acima de tudo porque a oferta será mais ampla e comportará de outra forma a procura que se antevê”, afiança.
Quem casa quer casa. só que não pode “Moçambique está num caminho de retoma ainda lenta, mas que começa a notar-se em alguns indicadores. Continuo a afirmar que fora da cidade de Maputo haverá espaço para erguer novos empreendimentos de habituação e retalho essencialmente para segmentos B e C, e daqui a cinco anos vamos começar a ter um mercado imobiliário mais maduro, mais diverso e substancialmente mais estável.” O ano de 2020, é assim o ano da retoma, dizem os especialistas. “Os ciclos deste sector são de dez anos e acreditamos que a partir desse momento, as coisas possam começar a melhorar, e voltaremos a ter um mercado muito competitivo, mas talvez só em 2023 voltaremos a registar uma oferta igual ou superior à procura”, acrescenta. Do lado do investimento, a oportunidade para comprar irá estender-se por
abrandamento da economia colocou travão a fundo nos investimentos do sector imobiliário. no entanto, o mercado reestruturou-se e há novos segmentos a surgirem no mercado
alguns anos. Mas, do lado da procura, o dilema está no facto de a oferta ter sido construída, quase na sua totalidade para um target premium. Que existe, de facto, mas é muito mais volátil do que o target B e C, e que representa a grande maioria da população nacional que continua a debater-se com sérios problemas para conseguir ter habitação própria. Assim, se por um lado se verifica a estagnação do sector imobiliário direccionado para as classes de maiores rendimentos, por outro, nota-se o surgimento de projectos imobiliários com o foco num outro segmento de mercado: a classe média. “É difícil quantificar, mas existem nos últimos dois anos, muitos investimentos em projectos autónomos, de privados, nas zonas limítrofes do centro de Maputo, como o Alto Maé, Malhangalene ou Amílcar Cabral. É um tipo de investimento que é difícil de quantificar, mas que apresenta alguma dinâmica. E se somarmos tudo isso, a expressão económica é capaz de ser interessante e elevada”, explica Nuno Tavares.
No fim de contas, para além da baixa de preços de compra e arrendamento, do aumento do volume de construção para quem mais precisa, o solavanco por que passou o sector imobiliário levou ainda ao surgimento de um curioso sub-segmento: o aluguer de curta e média duração através de plataformas como o Airbnb ou o Booking.com, que são hoje utilizadas por alguns agentes imobiliários do mercado, que alugam apartamentos que não foram ainda vendidos (como os do Olimpic Terrace ou os das Torres Rani, entre muitos outros), em modalidades que compreendem um conjunto de serviços ‘chave-na-mão’ (Internet, empregados, e contas incluídas) que, por ora, conferem rotação a apartamentos que, de outra forma, não teriam ocupação. Caso para dizer que, se entreabrem janelas onde há poucos meses haviam demasiadas portas fechadas.
texto Pedro Cativelos & Hermenegildo langa fotoGrafia d.r.
Nova poNte. uma obra graNde, em quase tudo
assim é. Especialmente se olharmos ao números envolvidos em toda a obra da ponte da Katembe: dos milhões do investimento, aos quilómetros de extensão, passando pelos metros de altura. Assim, depois de quase uma década de discussão e com mais de um ano de atraso, aquela que é a maior ponte suspensa de África, e a 53ª a nível mundial, tem inauguração prevista para este mês (dia 25), servindo de ícone de celebração dos 43 anos da independência nacional. O design e a construção ficaram a cargo da China Road and Bridge Corporation (CRBC), a terceira maior empresa de construção a nível mundial, com sede em Pequim, enquanto o controlo de qualidade foi efectuado pela GAUFF Engineering. Mas, foram muitos os intervenientes que
participaram numa obra que promete mudar a própria economia da capital do país. Com um vão principal de 680 metros sobre a baía de Maputo e uma altura de pilão de 141 metros, a Ponte Maputo-Catembe oferece aos visitantes uma vista imponente, que se foi erguendo na linha do horizonte da cidade.
Após o asfaltamento e outros trabalhos finais, como pinturas e sinalização, não é ainda certo, ao que a E&M apurou, que a obra seja aberta ao tráfego após a cerimónia de inauguração, dado ainda existirem linhas de transporte de energia por recolocar e comerciantes por transferir na zona onde estão a ser construídos os acesso-norte, mas é certo que, dentro de algumas semanas, será possível conduzir entre as duas margens de Maputo.
3 041 metros
É o comprimento total da ponte. com quatro faixas de rodagem, a secção em betão armado pré-esforçado corresponde a 1,1 quilómetros sobre a margem norte e outros 1,2 sobre a margem sul, cabendo 680 metros ao vão central.
200 quilómetros
será a extensão dos acessos, (entre os quais outras cinco pontes-viaduto de pequena dimensão), e as estradas para a fronteira da ponta do ouro e a ligação boane-bela vista.
800
milhões de dólares
É o valor final da obra. a maior ponte suspensa (área de tabuleiro) em toda a áfrica, e representa tambÉm o maior investimento infra-estrutural do país em toda a sua história
3 000 postos de trabalho o número de trabalhadores envolvidos na obra ao longo dos 3 anos é semelhante, por exemplo, aos da construção da ponte 25 de abril, em portugal.
60 metros
a colocação dos pilares de betão foi precedida da instalação de 24 estacas com 100 metros de profundidadee 2,2 metros de diâmetro em cada uma da margens, sobre as quais foram posteriormente erguidas as torres.
57 blocos
o tabuleiro que vai ligar a capital ao sul do país é como se fosse um jogo de peças de encaixe: 57 blocos de aço gigantes fabricados na china foram transportados num cargueiro pelo mar índico até à capital moçambicana.
137 metros de altura
se as fundações das duas torres principais da ponte chegam aos 100 metros de profundidade, a altura do tabuleiro (60 metros) vai permitir o tráfego de navios de grande porte para o porto de maputo.
680
metros
É a área de tabuleiro suspensa (a maior em áfrica) sobre a baía, com pilares numa e noutra extremidade, nomeadamente na zona do porto de maputo e do lado da catembe.
130
toNeladas
mesmo sendo oco, cada um dos blocos pesa 130 toneladas. foram içados do cargueiro que os transportou desde a china por uma grua especial que os colocou em posição, encaixados uns nos outros.
as maiores poNtes suspeNsas do muNdo
Akashi-Kaikyo, Japão Xihoumen, China Great Belt, Dinamarca 1 2 3
Localizada no estreito de Akashi, no Japão, é a ponte com o maior vão suspenso do mundo, 1 991 metros.
Inaugurada em 2007, está em Zhoushan, a segunda maior ponte suspensa do mundo com um vão de 1 650 metros.
Liga as ilhas da Zelândia e Fiónia atravessando o Grande Belt. Tem o terceiro maior vão livre do mundo com 1 600 metros.
Nação
O mercadO da ‘rOdada’
É uma indústria que movimenta perto de 750 milhões de dólares por ano, em Moçambique. Entre o formal e o informal, o que se bebe em cima da mesa e o que entra por ‘baixo do balcão’, as bebidas alcoólicas serão um dos ramos de actividade mais dinâmicos da economia. A E&M leva-o a beber um copo pelo mercado das cervejas, vinhos e espirituosas
ao copo ou em garrafa, em shot ou long drink, sozinho ou numa roda de amigos. Aprecie-se, ou não, as bebidas com álcool fazem parte das nossas vidas desde tempos imemoriais, seja porque nos ajudam a criar melhores momentos, a celebrar conquistas ou apenas porque é impossível viver no mundo contemporâneo sem dar por elas na TV ou em qualquer grande evento global. Se China (27%), Estados Unidos (12%) e Brasil (5,7%) são os três maiores mercados consumidores de álcool no mundo, os primeiros países africanos desta tabela só vêm mais lá para baixo.
Mas, isso está a mudar. Nos primeiros anos desta década, o consumo de vinho em África aumentava cinco vezes mais rápido do que a média mundial e o mesmo acontecia com todas as outras bebidas alcoólicas, das cervejas às espirituosas, de acordo com um estudo da IWSR, organização internacional de análise do mercado das bebidas, divulgado em 2016. No entanto, e apesar desse crescimento massivo, no mesmo estudo falava-se de problemas relacionados com “impostos, questões alfandegárias e corrupção”,
elementos apontados como os principais criadores de gargalos ao mercado. Por outro lado, a IWSR referia também a existência de “múltiplos desafios em termos de infra-estruturas e de distribuição, que muitas vezes levam a que os produtos sejam transportados e acondicionados a uma temperatura incorrecta (o que altera a sua qualidade).” Mas os problemas de um mercado que, globalmente, até tem demonstrado uma quebra nos últimos dois anos, fruto das políticas de consciencialização levadas a cabo em mercados ocidentais (o que acontece também com o tabaco), não têm impedido a sua expansão. Principalmente no continente asiático e em África, onde conhece um crescimento exponencial, que se nota até pela forma como os gigantes do sector (ABInBev, Distel, Pernod Ricard, Diageo e outras) se têm posicionado e investido cada vez mais em mercados emergentes africanos como terrenos de crescimento das suas marcas e referências.
A esse nível, a África do Sul é o maior mercado do álcool no continente. Com um volume total estimado de 30,9 milhões de
caixas de 9 litros (12 garrafas), representa 30% do consumo de todo o continente. Lá bem mais atrás, surge outra economia forte, a Nigéria, com 15,2 milhões. E Angola fecha o top-3 dos maiores apreciadores de bebidas, com 12,8 milhões de caixas. O poderio económico parece, de resto, associado à sede dos mercados consumidores. Será também por isso que Moçambique vem um pouco abaixo nesse ranking, com pouco mais de 4,7 milhões. Mas essa ligação entre mais um copo ou garrafa na mão e o dinheiro no bolso torna-se evidente, quando se percebe que, entre 2010 e 2016, o consumo interno de bebidas cresceu quase 30%, precisamente na altura em que a economia mais se expandiu, na história do país.
O caso das cervejas
A loira (e as suas outras versões ao nível da cor e do sabor) é a rainha do mercado das bebidas.
Em Moçambique, o mapa das cervejas é quase tão simples de traçar como elas são de beber. Estima-se que a cerveja represente mais de 50% do total do mercado das bebidas, em que a líder
Nação
Os sAbOrEs dE uM MErcAdO...
as cervejas são a bebida alcoólica mais consumida em Moçambique, um mercado que cresce, no seu todo, perto dos 4,5% ao ano. No entanto, todos os segmentos apresentam taxas de crescimento assinaláveis
em milhares de caixas de 9 litros / 12 garrafas
Cerveja
Mixed Drinks
Espirituosas
... quE É cOMO O bAlãO: sEMprE A subir
Consumo total de bebidas tem aumentado, apesar do abrandamento económico, Tendência de consumo tem seguido padrões de escolha baseados no custo. Gordons, Gilbeys, Johnnie Walker, Jameson, 2M e vinhos sul-africanos são os que mais vendem
em milhares de caixas de 9 litros / 12 garrafas
Milhões de caixas
Foi a quantidade de álcool consumida em Moçambique ao longo de 2016 5,3
fonte IWSR 2016 e euromonitor
a multinacional holandesa (presente em 20 mercados africanos) investiu 100 milhões de dólares numa fábrica que será inaugurada em 2019, na zona de Bobole, no distrito de Marracuene, um empreendimento de 113 hectares que foi apresentado como “um acréscimo de valor para a economia moçambicana, através da abertura de centenas de postos de trabalho e de utilização de matéria-prima maioritariamente nacional”, pelo director-geral da empresa em Moçambique, Nuno Simes.
Por fim, temos as importadas, como a Superbock (UNICER) que tem procurado aumentar a sua quota de mercado, mas com uma expressão ainda residual.
as espirituosas e os vinhos
Por Moçambique, o whisky é rei (Johnnie Walker e Jameson, dos portfólios da Diageo e Pernod Ricard, respectivamente) uma tendência que se repete por quase toda a África.
Mas o whisky é seguido de perto pelo crescimento do gin, uma tendência global sendo que, nos últimos anos, a Gordons tem ganho cada vez maior peso no mercado interno, algo que se explica pelo factor-preço, num segmento (bebidas espirituosas) onde a Distel, a HJS e a Cicoti também marcam presença enquanto distribuidores e representantes de algumas outras marcas.
Quanto aos vinhos (principais representantes são a Mercury, Socimpex, Mozamvini, DIstel, Tropigália e Mega) é também o custo que está a ditar as regras do mercado. Em 2014, cerca de 646 mil caixas (12 garrafas) de vinhos portugueses entraram em Moçambique. Mais do dobro, face à oferta sul-africana desse ano (299 mil). Mas dois anos depois, esse é um chão que já deu uvas para os portugueses e os sul-africanos tomaram a dianteira, fruto da depreciação do metical face ao euro, mas também devido ao custo reduzido de importação de vinhos da África do Sul (factor proximidade), com 605 mil caixas, face às 397 mil oriundas de Portugal.
O peso do álcool na economia
incontestável é a Cervejas de Moçambique (CDM, maioria do capital é detida pela cervejeira líder mundial, a ABInBev que produz sete das dez cervejas mais vendidas no mundo), e que com as suas nove referências domina mais de 90% de um mercado que consome 2,8 mi-
lhões de hectolitros por ano, sendo que aí, é a 2M quem comanda as preferências dos moçambicanos.
Depois há a Heineken, a sua maior concorrente. Nesse sentido, e porque a média de consumo nacional ainda apresenta uma larga margem de crescimento,
No total, e se nesta conta agregarmos tudo o que conta no universo das bebidas, do formal que se comercializa no retalho, passando pelo informal que se passa fora dele, pelo informal ilícito que até é a maior fatia do mercado, e a ele somarmos todos os que de uma forma ou de outra trabalham neste ramo de actividade, acrescentarmos os custos de transporte e adicionarmos os valores da logística
Vinhos
utilizada, não esquecendo os impostos, os eventos, a publicidade... em suma, toda a actividade económica que, de forma directa ou indirecta tem algo a ver com bebidas, rapidamente percebemos que elas representarão hoje na economia nacional, um valor a rondar os 750 milhoes de dólares. No entanto, de acordo com um estudo do Euromonitor sobre o mercado moçambicano, publicado em 2016, apenas 34% de todas as bebidas que se consomem em Moçambique são lícitas, sendo que as cervejas são as menos penalizadas por este fenómeno (22%), os vinhos são afectados em 67%, e as espirituosas, estão um pouco acima dos 80%.
Ou seja, em cada dez bebidas que pedimos, seis têm a probabilidade de terem sido, ou falsificadas (60%), ou contrabandeadas. E chegamos à tal média que o estudo aponta de 66% de bebidas alcoólicas que nos são servidas sem passar pelo crivo da Autoridade Tributária ou de qualquer inspecção sanitária. Já para não falar dos riscos de saúde que isso implica. São estes, de resto, os maiores problemas do mercado das bebidas: a falsificação e o contrabando,HelenaDionísio,country-manager da Pernod Ricard em Moçambique, uma gigante mundial do ramo das es-
35,6
milhões de litros é o volume de bebidas vendidas em moçambique, provenientes do mercado informal ilícito, 66% do total do mercado das bebidas no país, de acordo com um estudo da euromonitor
pirituosas, explica isso mesmo à E&M. “Apostamos seriamente neste mercado e há um movimento para termos cada vez mais e melhores bebidas, mais seguras e cada vez de melhor qualidade. Claro que o aumento da renda média e o investimento na região por parte de empresas multinacionais do sector impulsionam o crescimento. Mas há questões para resolver, porque os desafios do mercado são ainda considerávels”, diz.
E esses desafios são diversos e já estão estudados. São aliás elencados no relatório da IWSR sobre o mercado nacional de bebidas, de 2016. “As espirituosas são quem mais sofre com a distorção do mercado”. Helena concorda: “há de facto um gigantesco mercado informal ilegal de bebidas que entram a partir da África do Sul e nós, enquanto representantes oficiais, temos de tentar ser competitivos ao nível do preço, mas é complicado.”
A questão é pertinente. No mercado Estrela, nos arredores de Maputo, funciona um verdadeiro mercado abastecedor do país, ao nível das bebidas, especialmente espirituosas e vinhos.
Sendo tudo considerado informal, parte do que ali se vende já é adquirido nas representações oficiais das grandes
Helena dionísio, country manager da pernod ricard: “Mercado tem potencial, mas há ainda muitas questões por resolver”
Nação
cerveja a rainha dO mercadO
Cervejas de Moçambique continuam a dominar largamente o segmento mas a Heineken quer crescer
MArcAs 5,5
28
milhões de litros
vinhOs sul-africanOs na frente espirituOsas a luta cOntinua
Vinhos sul-africanos roubaram quota no mercado aos portugueses e cresceram 50% em dois anos
aqui, a luta é travada entre whiskys e gin que dominam 85% do consumo total das chamadas bebidas brancas
20
12,4
milhões de litros
112
6,7
milhões de litros
Os cerca de 66% de bebidas alcoólicas ilegais introduzidas em Moçambique causam anualmente uma perda fiscal de mais de 320 milhões de dólares
distribuidoras que têm tentado ser competitivas entrando nesses mercados. “Sim, sem dúvida. Temos de ter uma política agressiva de preços, por vezes com margens mínimas, para sermos competitivos com o que chega de fora sem pagar impostos. No entanto, mantemos a nossa aposta no país, e pretendemos reforçar cada vez mais o nosso papel de colaboração com as autoridades fiscais em prol da melhoria de todo o sector”, assume a representante da Pernod.
a selagem
Num sector de actividade que mexe com tantos milhões, a tributação desses valores começou, há já alguns anos a chamar a atenção do Estado. E foi por isso que, há pouco mais de dois anos, foi aprovada a legislação que impunha a selagem de bebidas (e também de tabaco).
Por essa altura, em que o mercado parecia caminhar para se estruturar, os desafios que se anteviam pareciam justificar a criação de uma associação que representasse os interesses dos players do sector. Foi por isso criada a APIBA, em
2017, “da vontade e desejo de vários produtores e importadores, que se conheceram nas reuniões promovidas em 2015 pela Autoridade Tributária, (AT) Alfândegas e Ministério da Indústria e Comércio, nos debates de preparação para a legislação da selagem de bebidas alcoólicas”. A APIBA tem assim o intuito de, “promover a cooperação entre produtores e importadores de bebidas alcoólicas e as autoridades para formalizar o sector.” Adolfo Correia, administrador da Tropigália (distribuição de alimentos e bebidas) e presidente da APIBA, começa pela grande questão que apoquenta o sector actualmente, a selagem das bebidas.
A 14 de Setembro de 2016, era aprovado o diploma ministerial 59/2016 que estabelecia a obrigatoriedade da selagem de bebidas alcoólicas para efeitos de controlo fiscal. Os dados da APIBA estimam que os tais 66% de bebidas alcoólicas ilegais introduzidas em Moçambique originem uma perda fiscal anual de perto de 320 milhões de dólares (o valor inclui também a produção local de bebidas artesanais e as falsificações).
A maior parte de espirituosas e vinhos contrabandeados entram em Moçambique oriundos da África do Sul, ou através da Suazilândia, por via da região de Namaacha. “A fronteira entre a Suazilândia e Moçambique é mais difícil de inspecionar devido à falta de infra-estruturas de vigilância. De Namaacha, os produtos são transferidos para um veículo diferente. Os contrabandistas também usam rotas e veículos turísticos para evitar a detenção. De Ressano Garcia (o principal ponto de entrada para a cerveja contrabandeada), usam veículos ou camiões para transportar os produtos, uma caixa de cada vez, ao invés de grandes quantidades, que são mais facilmente detetados”, pode ler-se numa apresentação da APIBA, que deixa no entanto, um “elogio crescebte do esforço do Executivo para resolver esta questão”. No entanto, revela o mesmo documento, “os operadores ilícitos estão a adoptar estratégias cada vez mais sofisticadas, como a compra de produtos confiscados em leilões locais. E assim recuperam os bens confiscados, com perdas muito reduzidas.” E sem pagar imposto. Voltando ao selo: assim, em 2016 quando foi anunciado, era aplaudido pelos dois lados: o Estado que via nesta medida uma forma de recuperar a receita fiscal que não arrecada quando a mercadoria
OutrAs
OutrOs
OutrOs (tEquilA, ruM, licOrEs)
em milhares de caixas de 9 litros / 12 garrafas em milhares de caixas de 9 litros / 12 garrafas
fonte IWSR 2016 e euromonitor
é contrabandeada, e os importadores formais que podiam começar a trabalhar num mercado regulado, em que as bebidas deixam de ser vendidas no mercado informal 40% abaixo do preço de mercado legal.
À época, Adolfo Correia, numa entrevista ao jornal O País, dizia que a chegada da medida “só pecava por tardia.” Mas, logo de início, o processo não correu como o esperado por parte da APIBA.
pressão do mercado
Num período transitório, os selos começaram a ser colocados no mercado e foi concedido um período excepcional para todos os operadores poderem adaptar-se às novas regras. Até que a AT emanava, em meados do ano passado, a ´ordem de serviço 31’ em que fixava um conjunto de ajustamentos ao processo de entrega dos selos (nacionais e internacionais), colocando o valor dos nacionais em 12,5 meticais por garrafa (a maioria importadas), enquanto os internacionais (na maioria formais) tinham de pagar
A ApibA estima que não existam registos do número de série na plataforma estabelecida para rastrear milhões de selos que se prevê que ainda estejam no sector informal prontos a serem utilizados
175 meticais, “o que representa que as empresas formais pagavam por garrafa, o que o sector informal pagou por uma caixa de seis unidades”.
Contactada pela E&M, fonte da AT justificava a medida como “fórmula temporária encontrada”, para fazer acabar os stocks ainda existentes de bebidas adquiridas ilegalmente.
Depois, a questão da atribuição dos selos também é, de resto, criticada pela APIBA. A começar pelo seu processo de aquisição em que, inicialmente se registaram centenas de empresas. Por isso, a APIBA estima que existam milhões de selos no mercado, tendo mostrado à nossa reportagem casos de bebidas importadas com selo de produção nacional (pagam muito menos, face aos importados). Quase dois anos depois, a opinião de Adolfo Correia não mudou. Mas, em nome dos interesses da associação, pede algumas mudanças ao procedimento da selagem. “Estamos a dialogar com a AT. Há uma série de questões. que vão do excesso de selos no mercado até ao facto de po-
Nação
ApibA: principais players da indústria de produção e exportação de bebidas pedem mercado mais regulado
“não há registo de número de série na plataforma para rastrear mais de 1,2 milhões de selos que se estima que ainda estejam no sector informal. E o scan do selo não reconhece a origem”
cados nos países de origem das bebidas).” Helena Dionísio, representante do segmento das espirituosas, as mais afectadas por esta questão, concorda. “Estamos totalmente a favor do processo de selagem de bebidas, porque é a melhor forma de defender os interesses do Estado e também dos operadores do mercado. É preciso dizer, e temo-lo feito junto das autoridades que têm estado muito dialogantes com a APIBA, que só em impostos, estamos a falar de centenas de milhões de dólares que se perdem em receita fiscal.”
cOMO funciOnA O MErcAdO
divide-se em duas partes: lícito (retalho e informal), e o contrabando
em milhões de litros
derem ser reutilizados que nos levam à empresa que os fabrica e que não tinha quaisquer referências nesta área para algo desta dimensão.” De forma ainda mais directa, a APIBA aponta esses problemas: “não há registo de número de série na plataforma Insight (Opsec) para rastrear mais de 1,2 milhões de selos que se estima que ainda estejam no sector informal, ao abrigo do período de selagem extraordinária concedido no ano passado e o scan do selo não permite reconhecer a origem ou o produto ao qual foi associado”. Ao mesmo tempo, dizem, “as empresas formais fizeram investimentos avultados para cumprir o regulamento dentro do período estipulado, o que resultou num aumento de custos na ordem de 30% (os selos têm de ser cololícitO
Hugo Gomes, administrador da CDM, é da mesma opinião: “A empresa que faz os selos não tem experiência global de selagem. Eles estão a usar-nos como cobaias e a AT já não tem dúvidas disso. O
66% ilegal
320 milhões de dólares estimativa anual do valor que o estado perde em impostos sobre bebidas
engraçado é que eles ainda conseguiram dizer-nos que a experiência que têm de selagem é de bicicletas e produtos nutricionais. O Estado é soberano e saberá tomar as decisões que achar melhores para o país, mas como moçambicano fere-me ouvir isto. Para as cervejas, a selagem causa perdas de produtividade brutais.” O que é facto é que a desregulação do mercado nacional levou a que a multinacional Diageo (que tem marcas como o Johnnie Walker, a Smirnoff ou a Guiness) saísse de Moçambique, e passasse a operar a partir da África do Sul. E que até a CDM, que chegou a apostar numa unidade de distribuição de espirituosas, também desistisse desse mercado. Resta saber como selar o assunto do selo, e tirar a rolha ao problema. Até lá, beber ou não beber pode ser sempre uma questão. Um brinde a isso.
TexTo Pedro Cativelos
FoToGraFia Jay Garrido
em milhões de dólares
fonte IWSR 2016 e euromonitor
“Queremos acrescentar valor à economia nacional”
Hugo gomes Administrador da Cervejas de Moçambique
é a empresa de maior notoriedade no mercado nacional das bebidas. pela relevância que marcas como a 2m, ou a laurentina conquistaram no dia-a-dia de milhões de moçambicanos, ou pela dimensão dos números que envolvem tudo o que tenha a ver com as cervejas de moçambique (cdm). com um lucro líquido que mais do que duplicou quando comparado com igual período do ano anterior (receita global de mais de 16 mil milhões de meticais) e com as marcas de baixo custo a registarem o maior crescimento de sempre, a cdm é um gigante (talvez o único) da indústria de consumo nacional. e o tempo passou à velocidade de um trago fresco numa tarde de verão. da então denominada companhia de refrigerantes macmahon, ainda nos anos 50 do século passado, à compra da maioria do capital pela sab miller na década de 90. até que em outubro de 2016, quando a multinacional mudou de dono, por via da fusão com a abinbev., também a cdm passou a fazer parte do portfolio da maior cervejeira do mundo. mas nem estando integrada num grupo que lídera o mercado a nível global
Já exportamos
actualmente para a áfrica do sul, portugal, inglaterra, e estamos a estudar a possibilidade de o começar a fazer para a austrália. não é ainda um caminho com potencial comercial, mas esperamos que um dia, venha a ser
(emprega cerca de 200 mil funcionários e está presente em mais de uma centena de mercados) faz a cdm “esquecer a sua identidade”. num rigoroso exclusivo à e&m, hugo gomes, administrador da cervejas de moçambique, revela os próximos passos da estratégia de crescimento de uma empresa, com sabor verdadeiramente nacional
Sendo uma das maiores indústrias do país, o que mudou com a entrada no capital da empresa de um gigante mundial como a ABInBev? temos estado a evoluir como empresa nesta nova roupagem, uma vez que, a partir de outubro de 2016, a empresa entrou numa grande família global. se olharmos ao potencial do mercado africano não tenho dúvidas de que será um mercado sustentável para os próximos 100 anos. e queremos continuar a crescer aqui mesmo. actualmente, enquanto grupo, estamos em 12 países no continente, mas os nossos planos de crescimento passam por crescer cada vez mais. de resto, o que mudou, foram os padrões de actuação, quer sob o ponto de vista de produção, de venda ou distribuição,
Na voz de...
por
dia,
cerca de 50 milhões de pessoas de todo o mundo consomem pelo menos
uma das marcas do portefólio
Como conseguem agregar várias marcas numa única empresa, tendo em conta até que, no passado, algumas dessas marcas eram até concorrentes?
temos hoje nove marcas, desde as mais premium, como a stella artois que introduzimos no ano passado, ou a budweiser, mas também outras como castle lite, flying fish, laurentina, manica, impala e a 2m, claro. devo destacar que a impala é feita com base na mandioca, e recentemente, em dezembro, lançámos uma outra impala feita com milho local.
Havendo uma lógica mais global enquanto grupo, mantém-se essa aposta nas cervejas feitas a partir de matéria-prima nacional îniciada em 2011?
Sem dúvida. Uma das filosofias da abinbev é que, qualquer seja o mercado que operamos, tentemos acrescentar valor à economia local, não única e exclusivamente a partir dos impostos elevadíssimas que pagamos, mas também procurando ser parte integrante da cadeia de valores locais.
global da abinbev
Falou no pagamento de impostos, o que me leva a perguntar-lhe sobre a questão da selagem de bebidas, que tanta polémica tem gerado nos principais operadores do mercado. Em que ponto está esse processo? actualmente empregamos cerca de 1 000 trabalhadores de forma directa, e 150 000 indirecta. depois, a nossa contribuição fiscal é, em média, de 1,2 milhões de dólares por semana, cerca de 4,8 milhões de dólares em impostos (ice e iva). em 12 meses, e contando com outras taxas, a cifra é bem maior. até temos uma delegação permanente da autoridade tributária nas nossas unidades de produção. posso dizer que somos um dos maiores contribuintes fiscais do Estado, e digo-o com orgulho porque queremos cumprir o nosso papel. indo à selagem, é preciso dizer que o objectivo primário é mitigar a problemática da evasão fiscal, algo como que a cdm está completamente de acordo. só que, enquanto nos vinhos e espirituosas, a taxa de evasão fiscal (de acordo com um estudo do euromonitor, ver tema nação) está nos 66%, nas
cervejas está nos 5%. e depois, há a questão da diferença que há entre a produção de cervejas, em muito maior quantidade...
Que torna o processo moroso, é isso?
Sem dúvida. Até fizemos um estudo para perceber que, se formos incluir a selagem no processo de produção de cerveja podemos registar uma quebra de produção que varia entre os 20% e os 40%. Por fim, há ainda a questão da desproporcionalidade, pois é preciso olhar para aquilo que é o custo para a introdução da selagem face ao benefício que a mesma trará. com a quebra de produtividade, em linhas de enchimento que, por hora, produzem entre 40 mil e 60 mil garrafas, se perdemos uma tão grande percentagem de capacidade de produção, iremos vender menos, gerar menos receita, e isso reflectir-se-á no volume de impostos que pagamos.
Porque foi então incluída a obrigatoriedade de selo nas cervejas? acredito que terá sido uma precipitação.
Então, uma medida para fazer aumentar a receita pode, na prática, fazer com que ela diminua... É isso mesmo. Porque a receita fiscal legislada foi aplicada para os três segmentos das bebidas de forma igual, quando o das cervejas é claramente diferenciado, e isso está comprovado pelos números do que já pagamos em impostos. estamos e continuamos a fazer de tudo no sentido de elucidar quem de direito para que se reveja este posicionamento. na verdade, inicialmente quando foi aprovada a primeira legislação sobre esta matéria de selagem, as cervejas, pelo menos as localmente manufacturadas, estavam isentas do processo. o mais importante neste momento é que, de forma unânime, aquilo que é indústria cervejeira, nós e os nossos concorrentes, estamos unidos na apiba e pensamos que não é razoável a introdução da selagem neste sector. e devo dizer também que, a nível mundial, existe selagem de bebidas em 80 países, mas só em cinco é que se aplica às cervejas.
Mas quando fala em quebras de produção na casa dos 30%, é algo preocupante para uma empresa desta dimensão… naturalmente que sim, e acabamos por perder todos. o estado perde, a cervejas
de moçambique perdem e as 150 mil pessoas que estão na nossa cadeia de produção e distribuição também perdem.
Quem é que afinal ganha com tudo isto? quem ganha com a selagem? (sorri) é uma questão que deixo no ar.
No passado, a CDM chegou a entrar noutros segmentos, como as espirituosas, mas abandonou esse caminho. Sendo África um continente com potencial ao nível das soft drinks, por exemplo, não planeiam alargar o leque de produtos disponibilizados? o nosso core business é a manufactura e comercialização de cervejas. é isso que nos distingue. mas, naturalmente, se
4,8
milhões de dólares
É a factura de impostos que a cdm paga mensalmente à autoridade tributária
surgirem as oportunidades certas pode ser que abracemos outras áreas. depende muito do mercado, do timing… dou-lhe um exemplo curioso: recentemente, com a escassez de água na áfrica do sul suspendemos a produção de cerveja e apostámos no fornecimento de água às comunidades. Esse acontecimento reflecte a visão do grupo, de estar integrado na comunidade.
A cerveja é um dos poucos produtos verdadeiramente ‘made in’ Moçambique. Sendo que a CDM já detém uma fatia de mercado claramente predominante no mercado nacional, com uma quota acima dos 90%, é viável apostar no aumento da exportação que hoje é residual se comparada com a produção para o mercado interno?
temos orgulho em sermos das poucas indústrias nacionais em larga escala. embora as cervejas utilizem matérias-primas que são produzidas fora do país, como a cevada, temos tentado criar soluções para incorporar cada vez mais matéria-prima local, como a mandioca ou o milho de que falava, precisamente para fazer decrescer o peso da importação na produção, contribuindo para a produção interna. e depois, há a lógica da exportação. somos uma empresa global e em 25% dos mercados em que operamos temos uma fábrica que o abastece. no entanto, já exportamos actualmente para a áfrica do sul, portugal, inglaterra, e estamos a estudar a possibilidade de o fazer para a austrália. não necessariamente numa lógica comercial porque nem teríamos capacidade produtiva para tal. mas a médio ou longo prazo pensamos em “voar alto” para os mercados internacionais com as marcas nacionais.
Em praticamente todos os mercados existem habitualmente dois ou mais grande concorrentes no segmento das cervejas. Em Moçambique e com a Heineken a prometer crescer, como é que a CDM olha para a concorrência? o mercado interno tem potencial de crescimento, porque o consumo médio de cerveja ainda está abaixo da média regional. e é por isso que, desde que as regras do jogo sejam iguais para todos a concorrência é sempre bem-vinda,
texto PEdro CativElos fotografia Jay Garrido
Muita cerveja: as cinco linhas de enchimento produzem até 60 mil garrafas por hora
Febre imobiliária toma conta da ilha de moçambique
Uma azáfama inusitada tem perturbado a dolência contemplativa da Ilha de Moçambique, em Nampula.
Os insulares da província dos Macua preparam, com afinco, a celebração dos 200 anos de elevação a cidade da primeira capital do país que lhe tomou o nome. E querem-na, em Setembro, com o esplendor de outrora
ilha de moçambique. Situada a nordeste, prenhe de ruínas majestosas sinalizando tempos de fulgor mercantil –quando se trocava ouro, marfim, tecidos, especiarias e homens feitos escravos –, é nesse burgo que decorrem bastos trabalhos, embora de pequena escala, visando a recuperação dos grossos edifícios. Não se trata apenas da vaidade natural dos ilhéus, ilustrada pela máscara alva de mussiro – creme natural que nutre e suaviza a pele – recobrindo o rosto das mulheres da Ilha, mas da urgência em manter o título de Património da Huma-
nidade (atribuído pela UNESCO em 1991) e receber condignamente os convidados para a festa do aniversário. Com a efeméride, também se procura relançar o turismo, que tanta falta faz à economia local, demasiado dependente dos humores do mar e do peixe que ele decide parir.
E, como resultado imediato desse esforço há agora um novo mercado instalado na Ilha – o do imobiliário. Nada barato e que poderá revelar-se perverso, levando à gentrificação daquela língua de coral onde vivem pouco mais de 65 mil pessoas.
província
NaMpula
Lugar Ilha de MoçaMbIque
área 184 km2 popuLação 65 700 região NoRTe
O processo de restauro do edificado na chamada Cidade de Pedra e Cal, e principalmente no Bairro do Museu, onde se encontram os grandes prédios cuja construção remonta ao século XVII, embora já viesse ocorrendo desde o alvor deste milénio, conheceu novo fulgor quando arrancou a organização das comemorações do bicentenário da cidade. “Segundo o levantamento feito em 2016, identificámos 421 ruínas de risco”, diz Agostinho Mabote, da Protecção Arquitectónica, Histórica e Arqueológica do Gabinete de Conservação da Ilha de Moçambique (GACIM). Excepto por alguns edifícios institucionais e meia dúzia nas mãos de particulares, tudo o resto indiciava o colapso iminente.
Face ao diagnóstico alarmante, o Conselho Municipal tentou evitar a catástrofe com pedagogia impositiva. “O Município consciencializou as pessoas para a necessidade de reabilitação. Se não fosse a casa toda, pelo menos as fachadas. E, em 2016, avisou que, quem não reabilitasse as casas, corria o risco de perdê-las”, recorda Mabote.
A ameaça surtiu efeito, mas talvez não o esperado: “Provocou um fenómeno – os titulares dos imóveis acabavam por cedê-los a estrangeiros e mudarem-se para a zona de Macuti”, na outra metade da Ilha, divida entre a Cidade de Pedra e Cal e a Cidade de Macuti, com a fronteira virtual riscada pela Igreja Nossa Senhora da Saúde, construída pelos Padres Capuchinhos no século XVII.
estratificação social na cidade dividida
A Cidade de Macuti encontra-se no lado Sudoeste da Ilha de Moçambique e foi, desde sempre, o aglomerado mais pobre, de construção precária e algo desordenada. As casas dos bairros anárquicos de Litine, Macaripe e Esteu nasceram na depressão legada pela pedreira que, nos séculos XVIII e XIX, serviu para fornecer o material que levantou as opulentas casas setecentistas do Bairro do Museu. É por isso que, conforme se vê hoje, aquele casario de vielas estreitas e arenosas, cheias de lixo e crianças à solta, tem as coberturas ao nível da estrada, o que redunda em alagamentos inevitáveis na época das chuvas.
É para lá, para a Macuti – assim chamada devido à cobertura do casario, feita de folhas de coqueiro, entretanto rendidas pela chapa zincada – que, agora como dantes, rumam os menos abonados. Gerando um outro mercado, dedicado ao aluguer de casas para gente de baixa
A diferença de preços entre a Macuti, em que um T2 custa 600 mil meticais, e a Pedra e Cal, em que a mesma tipologia pode pode valer 2,5 milhões de meticais é brutal. E tende a aumentar
renda e impulsionado pela instalação da Universidade Lúrio em 2017. A academia trouxe à Ilha, entre professores e alunos, cerca de 240 novos residentes no tempo lectivo, e uma benesse para muitos, como confessa Anrane Omar Anrane.
O guia turístico de 29 anos encontrou, na massa estudantil, complemento para a escassa verba que a actividade principal lhe proporciona: “Há muita procura de quartos pelos estudantes. Como não têm dinheiro para viver na Cidade de Pedra e Cal, vão para a Macuti. E lá alugo-lhes quartos por mil meticais ao mês, que já conseguem pagar”, afirma Anrane. Porém, mais do que estudantes ou funcionários públicos, os novos inquilinos da Macuti são, afinal, os velhos residentes da Ilha.
A troca de residência engendrou nova profissão local, exercida na informalidade habitual – o mediador imobiliário. Encontramo-lo no terraço do bar Flor de Rosa, fruindo da brisa vespertina temperada pelo Índico: “O meu contacto já está nas mãos das pessoas e, se aparece um cooperante ou alguém a precisar de casa, a primeira sugestão é o Fifty!”, apresenta-se. Fifty, baptizado Braimo
Fumo há 31 anos, quando nasceu na Cidade de Pedra e Cal, é um veterano no negócio e, por conhecer tão bem o mercado, traz nele uma mágoa antiga: “Uma coisa que me põe doente é alguém ser natural da Ilha e vender a casa por 150 mil meticais, quando hoje podia vendê-la por 150 mil dólares”, rumina, em velada censura aos próprios pais, hoje residentes em Macuti.
Segundo Fifty, a diferença de preços entre a Macuti e a Pedra e Cal é abissal: “Uma casa T2 ou T3 pode custar entre 600 a 700 mil eticais na Macuti; no Bairro do Museu (núcleo da Pedra e Cal), é sempre a partir dos 2,5 milhões de meticais. E em mau estado”, garante. Dos clientes que lhe solicitam os serviços, “a maioria é gente de fora, que tem condições de comprar uma ruína e vir de férias. Há mesmo muito estrangeiro!”, realça Fifty.
regras apertadas oneram recuperação Uma fartura de forasteiros na inversa proporção dos locais, empurrados para fora da Cidade de Pedra e Cal pela miragem do dinheiro fácil ofertado pelos investidores, expatriados quase todos, com capacidade para res-
Preços dispararam: stock imobiliário cada vez mais dividido entre ricos e remodelados, e pobres e abandonados
província
ponder às imposições regulamentares. Em 2007, eram 11 mil as casas da Ilha. Hoje, serão cerca de 15,5 mil habitações, de acordo com os dados do último censo do INE, de 2017. “Pelo custo de reabilitação, percebeu-se que são os estrangeiros que estão por detrás dos pedidos de licenciamento de obras”, refere Mabote. E o custo não é pequeno, bem pelo contrário. Desde logo, devido às condicionantes do Decreto 27/ 2006, de 13 de Julho, o qual determina, no Art. 6.º do Capítulo II, que “a conservação, restauro, reabilitação e manutenção do património edificado da Ilha de Moçambique devem ser feitos com estrito respeito às características (terraços e fachadas) e ao material original utilizado nas construções (pedra, cal e macuti)”.
mudança à vista
Esse é um dos problemas quotidianos de Ricardo Otero enquanto director da obra do balcão do BCI na Ilha, a cargo da construtora Mozago. “O custo directo do material que se encontra cá – calcário coralino, a cal e as madeiras –, até é relativamente barato”, calcula, “mas a quantidade necessária aumenta muito o custo global das obras”. Por um lado, o fabrico da cal, para argamassa do reboco e caiamento, é moroso; e, por outro, há materiais que rareiam. “O acesso à madeira mecrusse, espécie local de uso tradicional, é cada vez mais difícil, porque, embora ainda se possa usar, está protegida devido à exploração ilícita”.
Acresce o custo da insularidade. “Muitos dos materiais incorporam ainda os custos de transporte mais as margens dos intermediários. No fundo, a logística é o que pesa mais. As distâncias e os tempos encarecem tudo”, contabiliza o jovem engenheiro civil, português de Braga. No que ao tempo respeita, avulta o peso da mão-de-obra. Os homens da Mozago que labutam na esquina fronteira à Igreja da Misericórdia destacam-se dos pequenos estaleiros espalhados pela cidade de Pedra e Cal pelo laranja do fardamento rigoroso, conforme às normas da higiene e segurança no trabalho, e disciplina exemplar.
Mas, sendo humanos, há factores impossíveis de controlar: “Os operários locais sabem que, concluída a obra, acaba a fonte de rendimento. Assim, para cumprir prazos, em vez de se contratar ao mês, que seria mais barato, tem de ser por empreitada”, indica Otero. “Outra dificuldade é o facto de a maioria da população (95%) ser muçulmana, pelo que, no Ramadão, a produti-
A Ilha vista do céu: pequena em dimensão, é um dos territórios com mais história em Moçambique
vidade baixa drasticamente”, lamenta. E, face a tais custos, nem todos respeitam com o escrúpulo da Mozago as regras construtivas. Gabriele Mellazi, milanês radicado na Ilha há 18 anos, já assinou ali mais de 40 intervenções desde que projectou a recuperação do Escondidinho, na Praça das Amoreiras. Assistiu ao devir mercantil e admite, pesaroso, a elusão do normativo por alguns empreiteiros visando mitigar custos. “Sou um dos quatro arquitectos ‘oficiais’ da Ilha e, até pelos princípios éticos que recebemos na faculdade, tentamos fazer respeitar as recomendações da UNESCO. Infelizmente, nem sempre com êxito”, admite.
O emprego de cimento, por exemplo, é visível a olho nú em muitas das obras em curso na Ilha de Moçambique. Os técnicos do GACIM, a quem cabe zelar pelo respeito regulamentar e licenciar obras, têm noção das prevaricações. E actuam, não raro de forma preventiva, embora a estatística possa transparecer outra realidade: “Em 2016, o GACIM deu cerca de 22 pareceres favoráveis a obras de reabilitação, no ano seguinte, em 2017, passou 27 e, este ano, vamos já em 14 – estamos mesmo a andar!”, exulta Agostinho Mabote. Para logo referir que, ainda assim, os pedidos vão muito para além destes números. “O problema é que as pessoas, ao perceberem que as ruínas valiam dinheiro, começaram a reivindicá-las. Temos mais pedidos de viabilidade mas, como se não consegue saber quem são os legítimos proprietários, fica difícil”, assinala.
15mil habitações
Em apEnas uma década, o númEro dE habitaçõEs da ilha, crEscEu cErca dE 30%. dEpois, a crEscEntE procura turística fEz com quE o património imobiliário dEtido por naturais da ilha, mudassE dE mãos, dando lugar a novos nEgócios
Garimpo nas ruínas de ninguém É usual viverem, dentro das ruínas cujas paredes alcançam um metro de espessura, famílias prolíferas e transgeracionais, sem documentação que ateste a propriedade excepto a longevidade da ocupação. Negociar nessas circunstâncias, de múltiplas reivindicações àvidas de dinheiro instantâneo, é um tormento. Que o diga Jorge Ferraz. A gerir o restaurante Karibu, um dos melhores da cidade, chegou à Ilha disposto a recu-
perar o vasto edifício onde agora fica o Feitoria Boutique Hotel, na Rua Amílcar Cabral, e dar continuidade à experiência hoteleira contraída em Joanesburgo, na África do Sul. “Viviam na ruína cerca de 14 famílias. Foi preciso muito tempo para chegar a acordo com elas, e tivémos de contar com a ajuda das autoridades religiosas locais ao longo de todo este processo. Foi oneroso e muito, mas mesmo muito desgastante”, afirma. De tal modo que, surgida a oportunidade, desfez-se do imóvel.
Outros, porém, levam a termo os objectivos – converter o velho burgo colonial num vasto parque hoteleiro. Mabote não tem dúvidas: “Fora os edifícios institucionais, todas as reabilitações são para exploração comercial”.
A verdade, torna-se incontestada. E a estatística confirma a natureza da compra, venda e troca de imóveis na Ilha – em 2005, havia 89 camas para visitantes; hoje, segundo o GACIM, são já 428 para receber os 11 000 forasteiros (7 000 deles estrangeiros) que demandam à Ilha todos os anos.
No futuro que se avizinha, a Cidade de Pedra e Cal, com a desejável inflação do afluxo turístico e correlativa conversão de imóveis, ficará repleta de residentes ocasionais e vazia dos seus habitantes... habituais. E assim tornar-se-á na colónia, de férias, de um grupo de estrangeiros afortunados.
Mabote, sempre optimista, vê nesse horizonte o desenvolvimento económico que sempre tardou em chegar por estas bandas: “No fundo, isto acaba por ser bom porque cria emprego durante a reabilitação e, depois, emprego permanente – a hospedagem garante logo, no mínimo, três ou quatro postos de trabalho”.
Entre consequências imediatas, e a mais longo prazo, a verdade é que há mudanças que se tornarão incomportáveis para os próprios ilhéus. Senão o serão já – segundo Mabote, “uma ruína Tipo 3, sem tecto nem janelas, custa aqui (Cidade de Pedra e Cal) 1,5 milhões de meticais, tranquilamente; em Nampula, uma casa igual, novinha, pronta a habitar, andará peos 1,2 milhões – já com muro e gradeamentos...”. A troca até poderia compensar – se Nampula não ficasse a 200 quilómetros deste paraíso tropical, e acima de tudo, se a Ilha, não fosse de facto a casa que todos querem comprar, arrendar, e tornar sua.
texto Elmano madail fotografia Jay Garrido
mercado e finanças
Ethiopian airlinEs comEça Em Julho a sobrEvoar moçambiquE
A companhia não promete passagens baratas, mas assegura que vai praticar tarifas que possibilitem a “um cada vez maior número de moçambicanos o privilégio de voar”. A crescente concorrência no sector da aviação civil anima o empresariado nacional, que prevê o alívio dos custos de fazer negócios pelo país
a entrada da gigante africana ethiopian airlines (por diversas vezes eleita a melhor companhia aérea de África e uma das que tem registado maior ritmo de crescimento ao nível operacional) no mercado interno, marca o início de uma nova era da aviação comercial em Moçambique. A da abertura ao mundo do espaço aéreo moçambicano que, ao longo dos 42 anos da independência foi dominado pelas Linhas Aéreas de Moçambique, a companhia de bandeira nacional.
O primeiro vôo está marcado, oficialmente, para 1 de Julho próximo, confirmando
o início da exploração das 108 rotas atribuídas à Ethiopian Airlines no ano passado pelo regulador do mercado, o Instituto de Aviação Civil de Moçambique (IACM). Tratou-se então, de uma medida histórica, por criar espaço para que, pela primeira vez, uma companhia estrangeira explorasse as rotas do mercado doméstico.
Em entrevista à E&M, o director-geral da companhia em Moçambique, Daniel Tsige, “assume os esforços feitos no sentido de que comecemos em Julho de 2018. Garanto que estamos cada vez mais próximos de começar as nossas operações
em Moçambique. E a meta é, claro, começarmos na data planeada”, insistiu.
Nesse sentido, a Ethiopian Airlines admite haver “alguns pequenos detalhes por acomodar,” principalmente no que diz respeito à contratação de pessoal para completar o quadro de funcionários já posicionados nos diferentes sectores que compõem a operação em território nacional: “creio que tudo o que ainda falta fazer estará resolvido antes da data do início efectivo das operações”, disse o responsável pela companhia.
Daniel Tsige não deixa de elogiar “o clima de cooperação saudável com o re-
gulador moçambicano (o IACM) e com as autoridades aeroportuárias (a empresa Aeroportos de Moçambique), sinónimo de que a Ethiopian Airlines está (obviamente) à altura das exigências destas entidades a diversos níveis, sobretudo no que diz respeito à segurança.” E prossegue: “Já progredimos muito relativamente aos procedimentos para explorarmos o mercado moçambicano. Estamos na última fase de preparação e a mais importante é a que se segue: o início das operações”, assegura Tsige. O IACM não conseguiu, em tempo útil, fornecer à E&M os dados actualizados sobre o processo de abertura do espaço aéreo e a entrada de novos operadores, incluindo a Ethiopian Airlines. Mas em Setembro do ano passado, aquando da atribuição da licença à companhia etíope, o Presidente do Conselho de Administração da instituição, o comandante João de Abreu manifestava uma natural “satisfação com este grande avanço”, que considerava “essencial para o sector, bem como para toda a economia nacional.”
Ethiopian não será low cost Pode, para muita gente, ser uma desilusão. Mas, a verdade, é que ao contrário do que tem sido veiculado desde o anúncio da entrada da Ethiopian no mercado, dando conta de que as passagens seriam de baixo custo, a Ethiopian Airlines revela à E&M que efectivamente “não será assim”. O que a companhia admite, é que “as tarifas serão competitivas”, dentro dos valores que o mercado pratica actualmente. “Não iremos aplicar tarifas baixas, mas também não vamos fazer os preços que são praticados pelas operadoras nacionais, quer na classe económica quer na executiva. Queremos praticar preços acessíveis ao poder de compra da maior parte dos moçambicanos e criar condições para que mais pessoas tenham a possibilidade de viajar de avião”, explicou o director-geral da companhia.
Outra promessa para os consumidores é a aposta da companhia na oferta de “serviços premium com um standard de qualidade de acordo com o que a Ethiopian Airlines tem oferecido em todos os destinos e mercados em que opera.”
Para se instalar em Moçambique, a companhia aérea teve de recrutar técnicos formados fora, sobretudo na Etiópia. Segundo o director-geral da companhia, há um tipo específico de tarefas cujas qualificações ao nível das exigências da Ethiopian Airlines não existem em Mo-
ReceitAs A AumentAR…
A receita da empresa tem registado aumentos sucessivos devido ao crescente reinvestimento na aquisição de equipamento e na internacionalização das operações para novos mercados
çambique. “Para essas tarefas específicas temos estado a contratar trabalhadores estrangeiros, provindos da Etiópia e de outros países em que temos operações. Mas posso garantir que o nosso principal objectivo era contratar quadros moçambicanos porque a contratação estrangeira sai mais cara e queremos efectivamente poder contar cada vez mais com quadros nacionais”, assume Daniel Tsige, referindo-se principalmente a pilotos e técnicos de manutenção.
… pAssAgeiRos tAmbém
O crescimento do número de passageiros (e também do volume de carga) justifica, em grande medida, o crescimento de todos os indicadores de desempenho
cRescimento geRou mAis postos de tRAbAlho
Em resultado do constante investimento, a Ethiopian tem vindo a aumentar o quadro de pessoal. Em dois anos, a companhia contratou cerca de 4 000 profissionais
A Ethiopian Airlines diz ser esta “uma das suas agendas, “a formação de moçambicanos para gradualmente substituir a mão-de-obra estrangeira utilizada no arranque da operação. Temos essa experiência que já foi levada a cabo com sucesso noutros mercados em que operamos como o Malawi, Zâmbia, Togo.” Nesse sentido, prossegue, “iniciaremos a operação com mão-de-obra mais experiente e com profundo conhecimento técnico que já trabalha connosco há muito tempo. Por exemplo, queremos pilotos capacitados para operar os modelos de aeronaves que a companhia utiliza mais habitualmente. O mesmo deve-se passar em relação aos técnicos de manutenção. Quanto às outras funções, estamos empenhados em realizar curtas acções de treinamento porque já existe um grau de especialização elevado no mercado interno”, explica Tsige. Quanto à frota, a companhia irá operar quatro aeronaves, um Boeing 737 e três da marca Bombardier Q400, que entende serem adequados para a configuração geográfica de Moçambique, por assegurarem eficiência no transporte de passageiros e de carga para curtas e longas distâncias.
Para já, a licença da Ethiopian para o espaço aéreo nacional concede-lhe o direito de exploração comercial de 108 rotas que ligam todas as dez províncias nacionais.
destinos internacionais
Companhia etíope voa para mais de uma centena de destinos, nos cinco continentes
aviões
É a frota anual da companhia etíope que prevê crescer para 140 aeronaves até 2025, por forma responder aos planos de expansão de médio-prazo
No entanto, a Ethiopian Airlines irá, numa segunda fase, submeter o pedido de autorização para que, a partir de Maputo, possa começar a voar para outros destinos no exterior, fazendo de Moçambique um hub regional.
menos custos e maior eficiência nos negócios Há muito que se faz notar a insatisfação de muitos eventuais consumidores (particulares e empresários) em relação aos elevados custos de passagens aéreas, bem como pelas limitações impostas pela insuficiência de meios das companhias nacionais para responderem à procura
fonte ethiopian Airlines
em milhões de dólares
em milhões
número de trabalhadores
mercado e finanças
do mercado interno. A concorrência, pela razão óbvia, ajudará a baixar os preços das tarifas e a melhorar a qualidade dos serviços prestados, trazendo consigo um maior grau de eficiência. É dos livros de economia esta lógica, e só pode ser boa para tornar o mercado mais competitivo, a todos os níveis.
Por isso não é de admirar a satisfação do empresariado com a entrada da Ethiopian Airlines no mercado, mesmo sabendo que esta não irá operar numa lógica de segmento low cost.
Ouvido pela E&M, o vice-presidente da Confederação das Associações Económicas (CTA), Castigo Nhamane, sublinha este aspecto e entende que haverão vantagens: “a LAM cobra muito alto pelas passagens, aplica muitas taxas, algumas das quais não se sabe para que servem. Creio que até para a própria LAM será benéfica esta competitividade interna.”
lam mais forte
A CTA aponta mesmo o elevado custo das passagens como uma “barreira decisiva para o desenvolvimento do turismo” e chama atenção para que a LAM se prepare técnica e financeiramente para enfrentar a Ethiopian Airlines, pois de contrário irá perder o mercado. “Todos acreditamos que o conseguirá fazer. Para o consu-
108
rotas domésticas
Foram atribuídas à Ethiopian airlinEs pElo instituto dE aviação Civil dE moçambiquE , E vão pErmitir ligação a todas as Capitais provinCiais
midor final, será bom, certamente.”
A E&M procurou saber que medidas a LAM está a levar a cabo para enfrentar uma concorrência da dimensão daquela que Ethiopian prometer oferecer. Um dos representantes da instituição assumiu alguma inquietação internamente e garantiu que a companhia de bandeira nacional “já realiza uma série de acções” para se fortalecer, bem como à sua posição no mercado: “como companhia aérea e instituição que opera no negócio da aviação civil consideramos bem-vinda a concorrência. Mas não vamos divulgar a estratégia que estamos
a levar a cabo para nos robustecermos ainda mais perante a abertura à concorrência”, revelou a fonte da direcção da companhia aérea nacional preferindo não avançar mais detalhes.
Não se conhecendo em detalhe o conjunto de medidas para o fortalecimento da estratégia de acção da LAM no mercado, há dados que permitem avaliar esse posicionamento. Nomeadamente, na área das rotas de baixo custo.
Foi público, por exemplo, o memorando assumido em Março deste ano com a companhia aérea Fast Jet, que opera no mercado doméstico low cost desde Novembro de 2017.
Esse documento prevê uma lógica de cooperação comercial “abrangente e de longo prazo com vista à optimização de sinergias nas operações de vôos para destinos comuns e complementares, bem como a cooperação em outras actividades comerciais, carga, engenharia e manutenção”, estando actualmente em avaliação, ao que apurámos, um aprofundamento desta parceria por parte das companhias lideradas por António Pinto (LAM) e Nico Bezuidenhout (Fastjet). A mesma fonte próxima da direcção da LAM, adianta alguns desses caminhos: “por exemplo, o excedente de passageiros que procuram a LAM pode ser canalizado para a nossa parceira, mas os moldes de compensação devem ser devidamente estudados porque a Fastjet não dispõe de técnicos de manutenção de equipamentos (incluindo aeronaves). O mesmo sucederá em relação aos serviços de check in partilhados”, adianta. Durante vários anos, a lógica que dominou o mercado da aviação civil demonstrava relutância em relação à concorrência, apesar de Moçambique até ser signatário do tratado de Yamoussoukro (Costa de Marfim) de 1999, que preconiza a abertura do espaço aéreo para promover a cooperação económica. E se os efeitos desse fechar de portas foram de facto prejudiciais ao mercado, também o terão sido para a própria companhia nacional, que procura recuperar as milhas aéreas entretanto perdidas. Um facto reconhecido pelo próprio Presidente Filipe Nyusi, quando visitou a empresa recentemente e admitiu que era preferível “abrir espaço para novos operadores, porque senão, teria de se começar a pensar na sua privatização.”
tExtO Celso Chambisso fOtOgrAfiA Jay Garrido
daniel tsigue, director-geral da ethiopian: “vamos ser competitivos”
Bempresa PHC Software MoçaMbique
FundaÇÃo 1998
FunCionÁrios 100 nÚmero de parCeiros 20 nÚmero de Clientes 500
FaCturaÇÃo
10,8
milhões de euros
Pelo terceiro ano consecutivo o grupo registou globalmente um crescimento do volume de negócios com valores recorde
novos Clientes
1 227
fruto deste número, a PHC internacional anunciou o crescimento do volume de negócio internacional em mais de 26%
merCados
5
a empresa conta com um total de 182 colaboradores nos seus escritórios de Lisboa, Porto, Madrid, Luanda, Lima e Maputo
PHC, Uma emPresa antiga, Com alma de startUP
No mercado nacional desde 1998, a PHC é líder no segmento das soluções de software de gestão empresarial. E apesar da conjuntura desafiante, o negócio corre melhor do que nunca
fundada em 1989, a PHC Software, é uma empresa multinacional que desenvolve ferramentas de gestão e que, apesar de ter sido fundada em Portugal, rapidamente escolheu Moçambique como o primeiro mercado para se internacionalizar, “pelo potencial que sempre demonstrou.” Depois, expandiu-se para Angola, Perú e Espanha, mas o mercado nacional é um dos que tem registado um crescimento assinalável ao longo dos últimos anos, “Sem dúvida. Só nos primeiros quatro meses de 2018 estamos a crescer 40% face ao período homólogo”, revela João Sampaio, director da unidade internacional da empresa. “A nossa filosofia é a de uma startup, apesar dos nossos quase 30 anos de existência. Estamos constantemente em busca de inovação e reinvenção. Por isso, não só em Moçambique, continuamos com taxas de crescimento de dois dígitos, um óptimo sinal, especialmente numa indústria tão competitiva como a nossa.” Num ecosistema económico que não tem sido favorável, o ramo das soluções de software de gestão, tem estado a ganhar tracção, alavancado pela necessidade de criação de padrões de clareza das
contas das empresas públicas e privadas, algo especialmente importante numa economia que se relaciona com doadores externos como é o caso da moçambicana. “Sem dúvida, essa é uma tendência, de todos os mercados onde estamos, e pretendemos fazer parte dessa evolução”, assume. Dos mais de 500 clientes da PHC em Moçambique, destacam-se algumas grandes empresas nacionais como a Aeroportos de Moçambique, CFM, Águas de Maputo ou o Ministério da Economia e Finanças. “Moçambique é um mercado que claramente reconhece a nossa presença e os nossos clientes sabem que estamos cá para ficar”, garante. Para o responsável pelos mercados internacionais da PHC a concorrência é “positiva”, diz, até para “o alcance do crescimento deste segmento de mercado”, explica. Já o factor diferenciador é, na opinião de João Sampaio, “uma plataforma tecnológica adaptável às necessidades do parceiro, seja ele micro ou uma grande empresa, em qualquer ramo de actividade.”
texto Hermenegildo langa fotografia Jay garrido
fastjet auMenta vôos doMésticos
De acordo com a companhia aérea recém-entrada no mercado aéreo nacional, (em Novembro de 2017 tornou-se a primeira companhia estrangeira a fazer vôos domésticos em Moçambique. as ligações domésticas entre Maputo e a cidade da Beira, assim como a rota Maputo-Tete, passam a ter mais duas rotas diárias.
Para a Fastjet, o objectivo passa por “responder à demanda provocada pelos atrasos e cancelamentos de vôos do outro operador do mercado”, assume a companhia, em comunicado.
standard Bank anuncia produtos e serviços digitais
Fornecer serviços inovadores assentes na segurança, rapidez e simplicidade, é objectivo do lançamento das Terminais de Caixas Automáticas (ATM) de depósitos que permitem depositar valores em conta de terceiros e dos serviços de autenticação de utilizador no NetPlus App/mobile banking com recurso à impressão digital. De acordo com o Standard Bank, esta inovação permite também, a abertura de conta num processo online. A iniciativa surge em resultado de pretender acompanhar a dinâmica do mundo tecnológico para além de assegurar a qualidade de vida das pessoas e o progresso das nações. E ainda, o processo insere-se na facilitação do acesso dos seus serviços aos clientes.
fidelidade aposta nas start-up
seguradora apresentou programa de incentivo à inovação tecnológica na Moztech
“inovar e apoiar as startup nas áreas de insurtech, fintech e healthetech”. Numa iniciativa designada Protechting, a Fidelidade-Moçambique anunciou que pretende, desta forma, impulsionar o empreendedorismo local através da criação de facilidades para o apoio à inovação tecnológica. De acordo com Carlos Leitão, director-geral da Fidelidade Moçambique, “através do Protechting”, programa de aceleração de startup, a seguradora pretende reforçar a sua posição enquanto empresa “tecnológica, inovadora e promotora de desenvolvimento de novos projectos que necessitam de apoio para o seu avanço e inserção no mercado.” Presente no mercado moçambicano desde 2014, e sendo a terceira seguradora mais antiga do mundo a FIdelidade Moçambique apresenta-se atenta, às tendências sociais, do mercado nacional:“A nossa ideia é reflectir sobre o que não existe ainda e o que podemos trazer, enquanto empresa com um grande passado, para sermos diferenciadores no mercado moçambicano”, sublinha Carlos Leitão, explicando ainda que, “os candidatos do Protechting competem por um prémio de dez mil euros, e pela participação numa incubadora na China (país em que fica a sede do grupo Fosun, empresa detentora da FIdelidade).”
O Protechting foi anunciado no decorrer da quinta edição da feira tecnológica de Moçambique, (MOZTECH).
Mastercard e faceBook lançaM sisteMa de pagaMento digital
Para contribuir para a entrada no mundo (e na economia) digital de milhares de pequenas empresas africanas, a Mastercard introduziu recentemente um mecanismo de pagamento digital em colaboração com o Facebook Messenger.
De acordo com um comunicado da Mastercard, é já possível configurar contas monetárias digitais que, com códigos QR, permitem efectuar e receber pagamentos, com o intuito de “amplificar o acesso de pequenas empresas e empresários a novos mercados melhorando os seus meios de subsistência.”
Numa primeira fase, o sistema estará disponível na Nigéria.
Banco central cria incuBadora para serviços financeiros
A configuração de um ambiente propício para a expansão dos serviços financeiros, é um dos objectivos do Banco de Moçambique (BM). Nesse sentido, foi anunciada em Maio a criação da primeira incubadora de empresas a ser criada dentro do Banco Central, que deverá ser dedicada, de acordo com a comunicação do BM, “à inclusão financeira com recurso a tecnologias de informação.”
A Fidelidade é a terceira seguradora mais antiga do mundo. A sua estratégia de expansão e internacionalização abrange Espanha, França, Luxemburgo, Cabo Verde, Angola, Macau e Moçambique, onde, desde 2014, conta com 46 colaboradores.
O projecto será financiado pela Suécia e Reino Unido, e propõ-se a facilitar “o acesso a formas de pagamento, remessas e criação de poupança as empresas.”
Turismo será força económica decisiva
noor momade
PCA da Cotur
moçambique tem um enorme potencial turístico para o qual, só recentemente o mundo parece começar a despertar. No entanto, e porque é de viagens que se fala, há pouco mais de duas décadas, uma família moçambicana teve a coragem de se aventurar em território desconhecido, e fez nascer a Cotur, o mais reconhecido operador turístico do mercado nacional. Noor Momade, a face visível da empresa, é também PCA da AVITUM, a associação que procura fazer do turismo uma força motriz da economia.
Qual é a sua relação com o turismo: uma paixão, um desafio ou uma missão? É tudo isso. O sector do turismo, como qualquer outro, tem as suas dificuldades e ameaças, que requerem criatividade para as solucionar. É tudo uma questão de paixão, na medida em que exerço a minha actividade no sector com um gosto profundo e por amor a algo que nos últimos anos conquistou o estatuto de causa nacional. E é igualmente uma missão, claro. Um dia
Turismo
quero olhar para trás e ver que, em conjunto com os meus parceiros, consegui dar uma contribuição para que o turismo evoluísse no país.
A Cotur nasceu ainda nos anos 90. Havia já mercado nessa altura?
Era tudo diferente. Alguns podem ter pensado que éramos uns aventureiros ao criar a Cotur, poucos anos após o fim da guerra civil que tinha destroçado o país em vários aspectos. Não havia nada que pudesse indiciar a prática do turismo. Creio que, ao longo destes anos, a Cotur terá tido a sua modesta contribuição para a construção de uma percepção positiva de um sector cada vez mais importante na economia.
Como se pode medir essa contribuição?
Naturalmente que todo o reconhecimento e prémios internacionais que temos recebido por muitas das nossas acções são um incentivo para qualquer pessoa ou instituição empresarial. Não somos, de todo, uma excepção.
cNoor Momade, nasceu em Nampula e tem formação em gestão de empresas. o seu percurso profissional conta uma história de mais de duas décadas dedicadas aos turismo.
fundador da Cotur, formou com outros colegas a associação das agências de Viagem e operadores turísticos de Moçambique –aVitUM, em 2012, onde é também presidente em exercício, cargo que acumula, desde 2017, com a liderança do pelouro da cooperacão económica e relações exteriores da Confederação das associações económicas de Moçambique, a Cta
O turismo é assumido como uma das alavancas da economia, mas a contribuição para o PIB ainda é diminuta. Como se altera a situação?
É de saudar que o Presidente Filipe Nyusi tenha colocado o turismo como um dos pilares da economia. Inspirados no hino nacional, que diz “milhões de braços e uma só força”, todos, sem excepção, devemos dar o nosso contributo para construir e materializar este desígnio nacional. Devemos orgulhar-nos da marca de identidade do povo moçambicano, a hospitalidade, para que possamos eternizar o consagrado ditado popular “Moçambique, quem te conhece, não te esquece”.
Esse é também o objectivo traçado para a Avitum Sem dúvida. Há grandes desafios e é por isso que a associação é parceira do Governo na harmonização das principais questões do sector, liderando os processos negociais necessários para fazer do turismo uma força económica decisiva no crescimento do país..
Como se perspectiva o futuro do turismo nacional?
A de um futuro risonho e acredito que o país será um dos melhores destinos turísticos em África. É algo que está ao nosso alcance, pelo potencial natural e garantida que está a manutenção da paz efectiva uma condição essencial.
Cristina freire fotografia Jay Garrido
Contribuição do sector para as contas nacionais é ainda reduzida, mas há cada vez mais investimentos e os agentes contam com o apoio do Governo para melhorar desempenho
texto
chama-se ‘abinbev sustainability challenge for africa’s top innovators’ e o objectivo do projecto é permitir que um conjunto de startup de todo o continente possam criar soluções inovadoras que vão ao encontro dos 17 Objectivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), subscritos em 2015 numa cimeira global da ONU, por mais de 150 países. A Incubadora do Standard Bank, em Maputo acolheu o lançamento de uma iniciativa que promete dar 50 mil dólares às ideias vencedoras, criadas por startup nacionais que conseguirem criar as melhores soluções para os grandes problemas de África e do Mundo. Numa iniciativa on-
Problemas antigos, soluções inovadoras
Acabou por se tornar um cliché aos olhos do mundo, a imagem de uma África descalça e com fome. Ela continua a existir claro, mas coabita hoje com realidades impensáveis há uns anos. Como o movimento continental de mudança que se baseia na inovação tecnológica levada a cabo por milhares de startup que atingem expressão mundial a partir de países como o Quénia
de, de acordo com Hugo Gomes, administrador da CDM, “se lança um apelo à juventude para que assuma a dianteira na produção de soluções inovadoras para questões tão essenciais como a fraca produção agrícola, as mudanças climáticas, ou os efeitos nefastos de muitos dos males causados pelo Homem. Queremos dar o nosso contributo para criar um catalisador que possa eliminar algumas das barreiras que frustram as acções dos agentes de desenvolvimento”, diz.
Muitos destes temas, tornaram-se clichés, de tanto serem repetidos em textos e imagens. Uma África de miséria. No entanto, o que aqui se
H u g o gomes,cdm
mudar o mundo
“Esperamos que iniciativas como esta incentivem os jovens de Moçambique e de toda a África a criarem soluções inovadoras para os problemas que nos afectam há já demasiado tempo”
pretende é a fusão de dois mundos. Ou melhor, a sua complementaridade. Por muito que se queira, não se pode fugir aos dilemas que muitas regiões de África enfrentam, tão antigos, quanto reconhecidos de todos. Condições meteorológicas extremas, recursos naturais em abundância mas com a riqueza pouco distribuída pelas várias camadas sociais, reduzida produtividade dos recursos-humanos, défice de inovação, altas taxas de custos de insumos, reduzido acesso à terra e falta de mercados sustentáveis. “São as grandes barreiras ao alcance de resultados que correspondam às expectativas da classe produtora
sociedade
AS CinCo mEtAS Do DESEnvolvimEnto
São cinco os desafios de desenvolvimento sustentável que os jovens empreendedores de todo o continente africano terão de incluir nos seus projectos.
agriCultura inteligente
Preconiza a busca de soluções inclusivas de alto impacto que melhoram o acesso dos produtores a recursos, produtos e processos agrícolas.
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Água Clima
Procuram-se soluções inovadoras para expandir o acesso a serviços de água e saneamento aos domicílios sem acesso a fontes de água potável.
familiar africana”, sublinha. Mas África não é só isso. As estimativas em relação ao número de novas empresas startup no continente, não sendo definitivas, mostram-nos que existem já mais de uma centena hubs de inovação espalhados por todo o continente. E se em 2012, havia apenas cerca de 40 milhões de dólares de edge funds investidos neste tipo de projectos, em 2018, estima-se que esse valor já ascenda aos 600 milhões, o que é demonstrativo de que algo está a mudar. “África é um berço para a inovação e uma importante fonte de soluções para mudar o mundo. Com uma população de 1,2 mil milhões de pessoas, uma classe média em ascensão e uma impressionante taxa de crescimento na utilização de tecnologias mobile e acesso à internet (no Quénia, por exem-
A busca por uma solução que ofereça suporte a comunidades de baixa renda para se adaptarem e aos desafios das mudanças climáticas.
plo, 99% das assinaturas de internet estão associadas a uma operadora de telecomunicações), África parece ser assim, um dos lugares onde ser empreendedor, pode realmente fazer a diferença.
novas soluções
Para a ABInBev (uma das muitas multinacionais que, por via das suas políticas de responsabilidade social têm, nos últimos anos, apostado nesta via de premiar ideias inovadoras de jovens africanos) a inovação pode mesmo ser a solução para mudar a face negativa de muitos dos problemas socio-económicos de África e do Mundo, usando as novas tecnologias como fonte de geração de soluções eficientes para fazer face aos desequilíbrios das sociedades africanas. “Não podemos alcançar nada disto sozinhos
PaCkaging e reCiClagem emPreendedorismo
O que fazer com fluxos de resíduos transformando-os em recursos geradores de valor, ajudando a garantir um futuro sem desperdício.
A procura de uma solução comercial inovadora que ajude a solucionar o problema do desemprego conjugando todos pontos anteriores numa solução.
e, é por isso que lançamos globalmente os nossos objectivos de sustentabilidade”. Para Godfrey Munedzi, do Standard Bank, um dos apoiantes da campanha, os problemas que o continente africano enfrenta “não são de agora, e é por isso que pretendemos fazer da iniciativa um motor de soluções que respondam positivamente aos múltiplos desafios sectoriais, com enfoque para a área agrícola (tecnologia, formação e acesso ao financiamento), hídrica (nomeadamente a escassez e optimização de recursos), ambiente (utilização cada vez maior de fontes renováveis, sendo que a agenda de desenvolvimento preconiza que até 2025 sejam correspondentes a um terço do total da oferta energética existente), e novas soluções de reciclagem adaptadas à realiÁfrica é mais do que isso. São milhares de startup alinhadas para fazer a mudança acontecer. Das pequenas coisas do dia-a-dia, até aos grandes problemas do continente. E tudo, pela via da tecnologia
dade social de vários países africanos”, diz à E&M. Sendo a agricultura o sector que serve de base à generalidade das economias africanas (a par das diferentes indústrias extractivas) é por ela, que passa igualmente o futuro de um continente onde se prevê um enorme salto populacional na próxima década. Assim, um vasto grupo de jovens empreendedores de Moçambique, Botswana, Gana, Lesoto, Tanzânia, Namíbia, Zâmbia, África do Sul, Nigéria, Uganda e Suazilândia tem a oportunidade de elaborar projectos inovadores nas cinco áreas indicadas (agricultura inteligente, gestão eficiente de água, acção climática sustentável, embalagem circular e empreendedorismo) que contribuam para o alcance dos ODS. “Estamos à procura dos verdadeiros empreendedores africanos que nos possam ajudar a encontrar soluções para alguns dos desafios enfrentados pelo continente”, sublinhou. As melhores ideias, serão premiadas com uma visita de trabalho a Silicon Savannah, em Nairobi.. O Quénia é, de resto, um bom exemplo para Moçambique.
A iHub, do Quénia é um ecossistema local que começou a formar-se, em 2010, em torno da tecnologia, com hubs de inovação, fundos de capital de risco e, claro, boas ideias. quando surgiu, tinha 2 mil membros. Hoje, são mais de 18 mil, os jovens empreendedores que, por ali, procuram inventar o progresso. E é ali, que os jovens nacionais que vencerem o desafio proposto pela ABInBev, poderão ir parar também, Mas o vencedor terá um acompanhamento específico de uma incubadora em Nova Iorque durante dez semanas, e concorrerá com outros projectos vencedores dos outros continentes, uma vez que a iniciativa é desenvolvida nos cinco continentes.
Para Hugo Gomes, esta iniciativa “é uma forma de acção concreta para evitar que os grandes problemas predominantes no continente sejam
ultrapassados através de uma utilização sustentável dos recursos naturais e de soluções alternativas às actualmente existentes. Registámos, nos últimos anos, aqui mesmo em Maputo, restrições de água, algo que não acontecia antes. E isso é um reflexo das mudanças climáticas. É um problema nosso, e de todos, sejam particulares, ou empresas.”
impacto positivo
Um grupo de jovens empreendedores presentes no lançamento (na incubadora de startup do Standard Bank, em Maputo), observam atentamente a apresentação. O futuro pode estar já ali. Lídia Gonçalves, jovem empreendedora na área do fomento agrário, entende que “a iniciativa pode estimular os jovens empreendedores a conjugar as diversas percepções em volta daquilo a que chamamos de economia verde.”
Cleiton Marrengula, ao seu lado, assume-se também como empreendedor, ele na área de energias renováveis. “Sem dúvida, é gratificante Moçambique ser abrangido por iniciativas assim. Temos de optar pela inovação. Nós, os jovens, temos que aproveitar, para mostrar o nosso potencial para ajudar o mundo.”
Essa noção de empreendedorismo, um termo tão em voga nos dias que correm, está na mente de todos. E espera-se, que também nas acções. “A questão do acesso ao emprego formal em África é, como sabemos, uma das grandes fragilidades das nossas economias e este desafio que aqui é feito tem também esse intuito de perceber como podemos, a partir das quatro iniciativas acima referidas, criar mais postos de trabalha.”
Tânia Tomé, embaixadora do “Africa Sustainability Challenge”, diz mesmo que “oportunidades como esta dão espaço à vontade, objectivos, e mostram-nos o caminho longo que há a percorrer se queremos chegar à mudança.”
tExtO Hermenegildo langa
fOtOgrAfiA d.r.
OPINIÃO
Economia de mercado e gestão da riqueza pública da Nação
Salim Cripton Valá • PCA da Bolsa de Valores de Moçambique
tornar os mercados nacionais abertos ao livre comércio e movimentos de bens, serviços, pessoas e capitais é um dos mandamentos sagrados da economia de mercado, que prevalece desde o lançamento da obra-prima de Adam Smith “A Riqueza das Nações”, em que as economias mais fortes são apologistas da mais rápida, mais extensa e intensiva liberalização do comércio e dos movimentos de capitais, pessoas e serviços. Assegurar que o mercado desempenhe o seu papel nevrálgico na alocação eficiente de recursos e que o governo melhore a prestação de serviços públicos constituem desafios complexos e delicados na formulação e implementação de políticas económicas compreensivas. Temperar de forma adequada a “mão invisível do mercado” e a “acção oportuna de um governo preocupado com o bem-estar do cidadão”, é uma questão de grande alcance prático e estratégico.
Uma economia baseada no balanceamento entre o papel do mercado e do governo, estará melhor apetrechada para enfrentar uma economia mundial volátil e cheia de incertezas e instabilidade, cuja recuperação plena se mostra como um processo ainda sinuoso e prolongado. Construir essa interacção é uma condição indispensável para a prosperidade das Nações. Os Governos de vários países têm biliões de dólares em activos públicos, como empresas, terras, florestas, edifícios, infraestruturas, monumentos, recursos hídricos, faunísticos e minerais, sendo em geral mal administrados e, com frequência, nem sequer levados em conta. Planificadores, gestores, economistas e estrategas de política pública têm estado mais concentrados em gerir programas de austeridade e administrar a dívida pública desde a crise financeira de 2007-08, negligenciando e subalternizando a gestão da riqueza pública da Nação. Na maior parte dos países, como muito provavelmente ocorre em Moçambique, a riqueza pública é maior do que a dívida pública e administrá-la melhor poderia ajudar a resolver o problema do endividamento, ao mesmo tempo que forneceria o conteúdo e a substância
para uma futura estratégia para o crescimento económico inclusivo e sustentável. Detter & Folster (2016) apontam que a melhoria da gestão da riqueza pública poderia render retornos maiores que os investimentos mundiais conjuntos, ajudando a ganhar a guerra contra a corrupção e promovendo a “boa governação”. Os autores realçam que Áustria, Finlândia e Singapura são, de resto, bons exemplos a esse nível. Tendo os governos muito mais riqueza do que têm conhecimento, perante uma situação crítica de elevado endividamento e uma forte pressão para a adopção de “draconianas medidas de austeridade”, parece ser recomendável avaliar os activos públicos meticulosamente, administrá-los de forma competente e usá-los em prol do bem comum.
A riqueza pública da Nação pode ser uma maldição, se for deixada como um “pacote de biscoitos aberto”, tentando aqueles que a supervisionam com má gestão, corrupção ou clientelismo. Mesmo em países desenvolvidos, a sua riqueza pública encoraja a corrupção, e pode induzir a enormes falhas. Uma ideia avançada por alguns países, ousada mas exequível, permitiria aprimorar e blindar os mecanismos de gestão da riqueza pública da Nação, é confiar todos os activos comerciais estatais a um Fundo de Riqueza da Nação (FRN), que pudesse empregar algumas das pessoas mais talentosas do sector público e privado para administrar tais activos de modo mais eficiente possível. Já no passado foi advogada a criação, no contexto da “Agenda 2025: Visão e Estratégias da Nação” (CdC, 2003), de um Fundo Soberano, para a gestão das receitas provenientes da exploração dos recursos naturais. Autores como Collier (2010) e Stiglitz (2016) referem que essa opção ajuda alguns países a evitar a “maldição dos recursos naturais”. No quadro de uma economia de mercado florescente, a adequada gestão da riqueza pública da Nação beneficia a economia como um todo, e sai fortalecido o cidadão, a sociedade, o mercado e o governo. É um daqueles jogos que, quando bem feito, trás benefícios partilhados para todos os intervenientes.
Parece ser recomendável avaliar os activos públicos meticulosamente, administrá-los de forma competente e usá-los adequadamente em prol do bem de toda a sociedade
Os riscOs dO agravamentO da dívida pública angOlana
As finanças públicas angolanas têm passado por um (longo) período de turbulência. Os factores dessa instabilidade têm ecos sociais, políticos e económicos, denominadores comuns de uma crise financeira resultante da queda dos preços do petróleo, responsáveis por mais de metade das receitas fiscais angolanas
a combinação destes factores tem afectado de forma preocupante a sustentabilidade das finanças públicas, o que se tem traduzido no agravamento do endividamento público para níveis que comprometem o desenvolvimento económico do país.
A dívida pública poderá aumentar ainda mais em 2018. O Orçamento Geral do Estado (OGE) de 2018 previa, inicialmente, um défice fiscal global de 2,9% do PIB, resultante das receitas fiscais projectadas cobrirem somente 69% das despesas fiscais esperadas.
Na base destas previsões estava a perspectiva de crescimento económico na ordem dos 4,9%, muito devido às expectativas iniciais de recuperação do desempenho do sector petrolífero. No entanto, as autoridades angolanas decidiram rever as projecções económicas para um patamar mais conservador, tendo reduzido, expressivamente, a previsão de crescimento da economia em 2,5 pontos percentuais, a situar-se em 2,4%. A principal razão desta revisão advém do ajustamento da performance esperada do sector petrolífero a um ritmo inferior.
projecções demasiado optimistas É de realçar que, muitas vezes, o Estado angolano adopta projecções económicas mais optimistas tendo como objectivo influenciar as expectativas dos agentes económicos.
Em todo o caso, o recomendável é sempre adoptar projecções económicas mais conservadoras, de modo a possibilitar a adopção de políticas económicas mais prudentes. No caso de Angola, em particular, seria demasiado optimista esperar que uma economia que passou por um período de estagflação tenha uma forte aceleração logo a seguir. A recuperação de um ciclo económico recessivo tende a ser gradual, com as devidas ex-
cepções para uma petro-economia como a angolana. Deste modo, com a revisão das estimativas de crescimento económico, o défice fiscal poderá ser maior do que o previsto inicialmente, possivelmente a rondar 3,5% do PIB angolano.
O lado bom da dívida
O défice fiscal por si só não é um problema grave, pois é normal que o Estado tenha, por vezes, despesas superiores às receitas, no sentido de que a disponibilização dos bens e serviços públicos básicos é imperativa por questões de estabilidade social, política e de soberania nacional, ou seja, não podem ser condicionados pela limitação de receitas. Daí surge a necessidade de o Estado recorrer, muitas vezes, a recursos financeiros adicionais para financiar o funcionamento do aparelho público. O défice fiscal é ainda benéfico quando resulta da necessidade de o Estado financiar as despesas de capital, aquelas que se traduzem em investimentos públicos com vista a aumentar a capacidade produtiva da economia e, deste modo, gerar crescimento económico ou promover as exportações. E justifica-se, por outro lado, que em situações de crise económica o Estado adopte políticas orçamentais expansionistas (défices orçamentais) para efeitos de estabilização macroeconómica, promoção do emprego e do crescimento económico.
Porém, quando a economia estiver numa fase de crescimento económico sólido, o Estado deve adoptar políticas orçamentais de carácter mais contracionista de modo a gerar superavits orçamentais. Contudo, a acumulação de défices fiscais sucessivos e a necessidade de o Estado recorrer à emissão de dívida pública para financiá-los são sinais da existência de sérios problemas nas finanças públicas dum determinado país. Conforme acima referido, devido à forte dependência das receitas fiscais petrolíferas e à queda das mesmas, Angola acumulou, nos últimos três anos, sucessivos défices fiscais que fizeram disparar a dívida pública para níveis considerados como alarmantes. As evidências empíricas tendem a apontar rácios a partir de 60%, 75% e 90% do PIB%. Contudo, o indicador
No ano passado, ultrapassou o limiar dos 60%, duplicando o seu valor em apenas quatro anos
Ao que tudo indica, Angola sofreu um processo de enviesamento deficitário da política orçamental, não tanto devido à utilização da política orçamental para efeitos de estabilização macroeconómica, mas devido ao processo de ajustamento das despesas públicas a um ritmo inferior à queda das receitas fiscais.
sucessão de acumulações perigosas para a economia angolana
não pode ser visto duma forma isolada, sendo que a análise deve ser complementada por outros indicadores económicos e sociais de cada país. Em 2017, a dívida pública angolana situou-se em 62% do PIB (sem considerar a dívida das empresas públicas), sendo composta por cerca de 53% de dívida externa, avaliada em 6 422 mil milhões de kwanzas (ao câmbio final de 2017, equivaleria, aproximadamente, a 39 mil milhões de dólares), e a dívida interna representa os restantes 47%, estimados em 5 733 mil milhões de kwanzas (cerca de 35 mil milhões de dólares).
Totalizando cerca de 74 mil milhões de dólares, chegamos facilmente à conclusão que Angola tem uma dívida per capita de 2 467 USD, ou seja, assumindo uma população estimada de 30 milhões de habitantes, cada angolano deve em média esse valor em dólares. Num país onde cerca de um terço da população vive abaixo da linha da pobreza (com menos de 1,25 dólares por dia), os baixos salários e o elevado desemprego tornam-se um fardo enorme para o cumprimento da dívida pública para a sociedade angolana.
Ao nível social, Angola está mais pobre porque os recursos foram utilizados para a amortização da dívida pública e não para investimentos em educação, saúde ou infra-estruturas básicas
A acumulação sucessiva de défices fiscais tem tido impactos nocivos sobre a economia devido ao aumento das taxas de juro, algo que resulta da necessidade de financiamento do Estado competir com a necessidade de financiamento do sector privado (empresas e famílias). A competição por recursos financeiros escassos exerce uma pressão sobre as taxas de juros, levando os credores a cobrarem taxas mais elevadas. Como o Estado é considerado “infalível”, ou seja, o risco de insolvência é teoricamente nulo, os credores, com vista a minimizar o risco e maximizar o retorno, tendem a financiar mais o Estado em detrimento do sector privado.
Esta redução do financiamento ao sector privado pode comprometer o processo de diversificação da economia, que tem como ponto de partida a dinamização das iniciativas empreendedoras do sector privado. Uma dívida pública elevada compromete a capacidade de endividamento externo do Estado, com impactos no cumprimento do serviço da dívida em curso devido à deterioração da avaliação do risco (rating) que tende a traduzir-se no aumento das taxas de juros das obrigações da dívida pública em moeda estrangeira (eurobonds) nos mercados internacionais.
Um outro impacto verifica-se no stock das reservas internacionais líquidas, pois o Estado utilizará parte das reservas cambiais do país para garantir o cumprimento do serviço da dívida, reduzindo recursos necessários para garantir a oferta interna de bens e serviços através das importações.
Ao nível social, o país torna-se mais pobre porque os recursos que são utilizados para a amortização da dívida pública poderiam ter sido canalizados para investimentos na educação e saúde ou em infra-estruturas básicas.
Por outras palavras, a redução do investimento público afecta a capacidade da economia angolana transformar o enorme potencial económico em riqueza efectiva. A dívida pública afecta não só o bem-es-
FONTE Relatório de fundamentação do OGE 2018
Dívida Défice fiscal
Lá Fora
tar das gerações actuais, mas também das gerações futuras, pois terão de pagar impostos mais altos para amortizar uma dívida de que não beneficiaram directamente. A elevada carga fiscal, que por norma os países com níveis de dívida elevado tendem a ter, desincentivam o investimento privado.
Elevados défices fiscais e dívida pública têm um efeito de feedback, isto é: défice gera dívida e dívida gera défice, conduzindo a uma trajectória de insustentabilidade da dívida.
défice gera dívida e dívida gera défice E, por fim, a constatação de que a dívida pública elevada tende a aumentar as desigualdades económicas e sociais, pois as evidências empíricas indicam que as classes sociais mais baixas são as mais afectadas pelo peso do endividamento. Internamente, os principais credores do Estado angolano são os bancos comerciais, facto que se reflecte na composição da carteira de activos da banca (cerca de um terço é representado pelos títulos de dívida pública). Já externamente,
elevados défices fiscais em conjugação com altos índices de dívida pública têm um efeito de feedback, ou seja: défice gera dívida e dívida gera défice, conduzindo a uma trajectória de insustentabilidade da dívida, com efeitos sucessivos sobre toda a economia
os principais credores são as instituições financeiras, organismos internacionais e outros Estados.
De realçar que o principal credor do Estado angolano é a China, em resultado, sobretudo, dos acordos feitos na era da reconstrução política e social do país, num período pós-guerra civil, que apenas terminou em 2002.
Segundo as estimativas do Fundo Monetário Internacional para 2018, contando a partir de 2014, o rácio médio de dívida pública da África Subsahariana ronda os 53%. Os países mais endividados são, Cabo-Verde, Eritreia, República do Congo, Gâmbia e Moçambique. África do Sul, Namíbia e Nigéria apresentam rácios de endividamento confortáveis (56%, 44% e 23%), mas ainda assim, alvo de preocupações dos respectivos executivos.
Já Angola, ultrapassou a média regional no ano de 2016, uma consequência directa da estagnação económica que tem assolado uma das economias que, em tempos mais crescia em todo o continente africano. Assim, uma dívida pública só é sustentável quando uma determinada economia é capaz de gerar internamente rendimentos suficientes para cumprir o serviço da dívida.
Tal pode ser feito através da aplicação dos recursos adicionais obtidos através do endividamento em investimentos que aumentem a capacidade produtiva e exportadora da economia.
texto NelsoN eduardo, ecoNomista e doceNte uNiversitário fotografia istock
Futuro decidido aqui: No ministério das Finanças de Angola, a maior preocupação é o equilíbrio das contas públicas
OPINIÃO
A utopia da mecanização agrícola em Moçambique
Hermenegildo
Langa • Jornalista da Economia & Mercado
como sabemos e sentimos, vivemos num tempo e num contexto adverso da economia moçambicana, quase de rastos nos últimos anos, devido a um conjunto de factores que colocam o país numa incerteza. Olhemos para um dos sectores que mais tem contribuído para o PIB. No campo governativo impera o discurso da mecanização agrícola, que contrasta com a prática tomada, uma vez que o sector já era marginalizado em termos de Orçamento com essa síndrome da dívida ilegal. E quando tudo levaria a crer que a fasquia dos 10% que o Orçamento de Estado (OE) deveria dedicar ao sector (como acontece em mercados vizinhos), ela não será atingida até que se reanime a economia nacional. O problema, é que a tal reanimação da economia, não pode ser feita sem um peso cada vez maior da agricultura na criação de riqueza nacional.
Como dizer que a agricultura é a base do desenvolvimento, se dos 302,9 mil milhões de meticais do OE para 2018, cerca de 63% do total da despesa pública será alocado a sectores ditos prioritários (saúde, educação, água e saneamento), e apenas 5,7% para a agricultura que, porventura, deveria ser considerada também ela prioritária tal como aqueles que acima descrevo, e receber mais fundos do Estado.
Porque, com toda franqueza, não parece fazer sentido continuar a proclamar este discurso ilusório, porque não passa de uma mera utopia esta mecanização agrícola enquanto motor principal de desenvolvimento se esta não for uma área considerada prioritária para o governo.
Será com essa reduzida contribuição que pretendemos lançar uma campanha de mecanização do sector e impulsionar o seu desenvolvimento progressivo? E será assim que conseguiremos atingir o fim do caminho, e o objectivo do desenvolvimento que passa por estancar as inúmeras e dolorosas bolsas de fome e malnutrição que assolam tantos moçambicanos que não têm o que comer por causa da seca já que dependem somente das águas da chuva para produzirem algo nas suas machambas?
Talvez para alguns seja este o caminho certo. Quem sabe?
Mas como poderemos querer mecanizar a agricultura e ao mesmo tempo receamos investir nas tecnologias para incrementar os níveis de produção e a passagem da agricultura de subsistência para a comercial?
A pouca importância que o governo dá a agricultura, apenas vem reforçar a tese segundo a qual a mecanização nada mais é do que um mero discurso que não encontra aplicabilidade quando olhamos para o Orçamento alocado. E para a falta de interesse em tirar maior proveito dos recursos hídricos para incrementar a produtividade.
Tudo leva a crer que estamos perante uma predominância de incapacidade institucional, mas também empresarial, para retirar o melhor proveito da terra fértil e dos recursos hídricos de que o país dispõe para incrementar os níveis de produção de um sector que contribui em quase 25% para o PIB.
Mas qual o porquê entre essa dicotomia discursiva e a realidade? Serão as políticas agrícolas que se mostram incapazes de captar a realidade moçambicana? Talvez.
É preciso incrementar a produtividade, e dessa forma reduzir a importação de produtos de primeira necessidade, fenómeno que faz de Moçambique um dos maiores importadores do mercado sul-africano, e de outros da região e do mundo.
A tudo isso, alia-se a escassez de investimentos no sector agrícola que tem vindo a agravar-se com a depreciação do metical dos últimos anos, a que se alia a incapacidade financeira do empresariado nacional para potenciar a agricultura e o agronegócio, finalizando no mito bem real da banca comercial que olha para este sector imenso como sendo de elevado risco por não oferecer garantias de retorno do investimento.
Não estará então na hora de reinventar o discurso de que agricultura é a base de desenvolvimento e passar à prática. Creio que todos sentimos que, mais do que palavras, são necessárias acções fortes que passam por harmonizar o discurso e a realidade.
Há ainda uma incapacidade grande para tirar melhor proveito da terra fértil e dos recursos hídricos de que o país dispõe para incrementar os níveis de produção agrícola
ócio
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O lodge Nascer do Sol é um refúgio criado há quase vinte anos. Mas que é muito mais do que isso
g68
Chez Fred Um pouco de Europa, do lugar aos sabores que por lá moram. E tudo aqui tão perto
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Bulldog Um passeio harmonioso, num copo de aromas suaves, delicados, e únicos
(neg)ócio s.m. do latim negação do ócio
nasCer
noites sugeridas: 3
Preço médio: 2500 mzn
eLodge nasCer do soL
Casas que transformam vidas
há histórias que transformam locais e modos de vida. O Nascer do Sol foi inaugurado há 20 anos, com apenas uma casa e uma enorme vontade de ajudar a comunidade. Decorria o ano de 1998 quando o casal Peet e Erma Jansen Van Vuren conheceu as dunas e a praia de Chizavane, que a par com as gentes locais lhes trouxeram a certeza de que naquele areal seria erguida uma nova vida. O que começou por ser uma única casa, cresceu e hoje o complexo tem 14 casas espalhadas pelas dunas, onde casuarinas dão sombra e abrigo a muitas famílias de pássaros, que garantem um delicioso acordar.
Cada casa é única e existem de vários tamanhos, com ou
sem piscina. A maior, para 10 pessoas, serve as famílias grandes ou a quem tenha muitos amigos e os queira juntar. A mais pequena é para duas pessoas. Mas há um denominador comum em todas: as mantas, os cortinados e muitos objectos decorativos, que foram costurados e esculpidos pela comunidade da pequena aldeia. Este é, aliás, o propósito do casal sul-africano: ajudar a população local. E este pormenor torna o lodge ainda mais acolhedor. Mas há mais. Além das casas com tudo o que é preciso, existem 12 casinhas, onde só cabe um quarto e la-
vabo, para campistas, ou seja, é o mesmo que fazer campismo sem precisar de tenda. Neste lugar, o sol nasce mesmo à nossa frente e com ele vem o relaxar e os banhos na praia a qualquer momento. Na maré vazia forma-se uma piscina natural, ideal para as crianças. Quando chegar a hora das refeições, se não tiver vontade de cozinhar o restaurante do lodge garante que comida nunca vai faltar. Mas se preferir fazer as suas refeições, leve só o necessário, isto porque os pescadores da praia vendem peixe e alguns mariscos acabadinhos de sair do mar. Os legumes podem ser comprados na machamba da comunidade e alguns condimentos, temperos e produtos de última hora estão à venda na pequena loja do Nascer do Sol. O local também permite a realização de congressos e casamentos, mas se já estiver casado, pode renovar os votos no imenso areal.
tExtO Cristina Freire FOtOgraFia riCardo FranCo
Praia de Chizavane –Xai Xai
+258 28 264 500
do soL
o nasCer do soL foi inaugurado ao púbLiCo há pouCo mais de 20 anos. Contava então Com apenas uma Casa, mas representava mais do que isso... uma enorme vontade de ajudar a Comunidade
roteiro
Como ir
São 250 km a partir de Maputo pela Nacional 1 até Chizavane. Depois de entrar na estrada de areia e andar cerca de 10 km, vai encontrar o Lodge Nascer do Sol. aconselhamos um 4x4.
onde Comer
aconselhamos o restaurante do lodge, mas se quiser conhecer o que se passa à volta, siga até à praia de xaia xai e procure o Café Pescador. a ementa vai desde os peixes e mariscos, até às carnes suculentas e bem temperadas. E, as sobremesas são inesquecíveis.
Preço médio por refeição: 1500 Mzn.
o que Fazer
Na praia: quando a maré baixa, pode acompanhar os jovens pescadores de ostras e mexilhão. Se quiser fazer um pouco de exercício, jogue mini-golf no lodge. À noite, se o céu estiver limpo, observe a quantidade de constelações que vivem por cima de si. Se vir uma estrela cadente peça um desejo.
CheZ fred a europa aqui tão perto
a atmosfera remete-nos, de imediato, para um salão de chá ou uma brasserie em Paris, Bruxelas ou Viena.
Mas a verdade é que estamos em plena Av. Julius Nyerere, bem no centro da cidade de Maputo, no “Chez Fred”, um projecto que, embora com apenas um ano de existência, já se tornou conhecido pelo seu carácter único e distintivo. Antes de nos determos nas muitas e variadas iguarias que nos propõe, há que sublinhar, no entanto, o facto de a sua ambiência evocar uma longa e bem estabelecida tradição europeia, fazendo sobresair o toque diferenciador, pessoal mesmo. O lugar não é uma mera réplica mas sim uma genuína recriação de um “modelo”, algo que se torna particularmente evidente na atenção e no bom gosto que foi investido nos mais infímos detalhes.
Nada disto seria, no entanto, suficientemente relevante se a degustação proposta não reflectisse a mesma exigência, sofisticação e qualidade que se observa na encenação do espaço. E estas características são inquestionáveis. Dos ‘croissants’, com os seus múltiplos recheios, aos ‘éclaires’, das ‘tarteletes’, ao emblemático ‘chausson aux pommes’, da extensa variedade das sanduíches ao leque das bebidas propostas (cafés, chás, chocolates) – todos eles demonstrativos desse empenho em proporcionar uma “experiência” ímpar no contexto local. “O ‘Chez Fred’ surgiu porque se tornou claro para nós que não havia na cidade nada de semelhante” – contam-nos Frederico Gomes e Ingrid Lasoen – “a oferta em termos de pastelaria era toda muito igual, muito repetitiva.”
Mas o grande desafio que se colocava, era como garantir que a qualidade da oferta estivesse ao mesmo nível daquela que se tem na Europa. “A nossa ambição era ‘ter’ a Europa dentro de Maputo.” E assim aconteceu.
O passo seguinte foi procurar o parceiro certo, a Délifrance, um dos maiores operadores no fornecimento deste tipo de produtos, e de que se tornaram os representantes em Moçambique.
Sem terem qualquer tipo de história ou experiência neste segmento, passar do sonho à sua concretização foi, para Frederico Gomes e Ingrid Lasoen um longo e laborioso processo.
Mas o resultado fala bem por si próprio, e parece confirmar as palavras do poeta António Gedeão quando escreve que “o sonho comanda a vida”.
basta transpor a porta de entrada para se ter a sensação de que se mudou subitamente de Continente
Chez Fred
Av. Julius Nyerere, 914 Moçambique
tExtO rui trindade
FOtOgraFia Jay garrido
beefeater burrough’s reserve
região
Reino Unido desCrição
um London Dry com leve estágio em barricas de Lillet reCeita
5 cl de gin simples, com gelo e uma rodela de lima
g’vine fLoraison
região
França desCrição destilado à base de uva, denota-se a flor da videira colhida no momento da floração. É por isso extremamente floral e distinto reCeita
5cl de gin; framboesas e lima; 20 cl tónica 1724
nordés
região
Espanha desCrição um gin diferenciado, com ingredientes inusuais como louro, eucalipto, salicórnia, algas e um destilado de Alvarinho reCeita
5 cl de gin; limão e hortelã menta; 20 cl tónica Fever Tree Mediterranean
buLLdog
London drY gin
País
reino Unido região
Londres
ComPosição zimbro, grãos, mirtilos, amêndoas e baunilha destilação alambiques de cobre aroma
Frutas Cítricas Paladar Macio e apimentado teor alCoóliCo 40% sugestão
Misture com uma tónica premium (por exemplo uma Fever tree tonic) e lima
o gin tem uma Longa história e pouCos poderiam imaginar, apenas há aLgumas déCadas, o fenómeno a que hoje assistimos por todo o mundo.
suave e deLiCado, úniCo buLLd og
London drY gin:
dizer que o gin é a bebida da moda tornou-se redundante. Porque já o é há alguns anos e nada indica que venha a deixar de o ser nos tempos mais próximos (sobretudo se atendermos aos valores de mercado que ano após ano o confirmam).
Acompanhar as novidades do mercado tornou-se, entretanto, uma tarefa quase impossível. Sobretudo no que diz respeito à chamada produção artesanal, um dos segmentos mais dinâmicos e inovadores. E as surpresas chegam de todo o lado. Veja-se, por exemplo, o caso do artesanal brasileiro “Amázzoni” que conquistou o prémio de melhor produtor artesanal do ano no recente World Gin Awards 2018.
O gin tem uma longa história. A primeira receita conhecida foi desenvolvida no século XVII, na Holanda, e foi concebida como medicamento devido às conhecidas propriedades curativas do zimbro. Mais tarde, foram os ingleses que lhe deram a “forma” com que o viemos posteriormente a conhecer e o tornaram verdadeiramente popular.
A “revolução” que, sobretudo nos últimos 15 anos, recolocou o gin no centro das preferências dos consumidores e alargou as suas formas de consumo é o fruto de uma complexa conjugação de factores, que coindidem na reinvenção da receita tradicional através da adição de uma variedade de novos elementos e na sofisticação dos processos de destilação.
Um bom exemplo, entre muitos outros possíveis, é o “Bulldog”. E é a nossa sugestão deste mês. Apesar de ser um “London Dry” – como são designados os “clássicos” do mundo dos gins - este é um pouco “rebelde”. Não só pelo facto de ser certificado como vegan e kosher (não possui processos que atentam contra a natureza nem utiliza ingredientes de origem animal) mas também porque é sujeito a uma quarta destilação na qual são utilizados frutos e botânicos pouco comuns para os gins - mirtilos, amêndoas e baunilha. Desta forma, torna-se macio e quase cremoso. Perfeito para quem acha o gin forte demais ou gostaria de encontrar mais sabores a cada gole.
tExtO rui trindade
música filmes livros
eXposiçÕes
ExPOsIçãO MIstA
“A sOMBRA DOs sONhOs”
Fundação Fernando
Leite Couto
Exposição Mista:
Desenho, Pintura e Fotografia galeria de Exposições inauguração:
6 de Junho às 18h30
Patente até 30 de Junho
Entrada Livre
mi sook Park (Coreia do sul)
imane kamal idrissi (marroCos)
ExPOsIçãO COLECtIvA INtERNACIONAL
“MystERy OF FOREIgN AFFAIRs”
Camões - Centro Cultural Português em Maputo inauguração:
14 de Junho às 18h
Patente até 27 de Julho
De segunda a sexta das 11h00 às 18h00
Entrada Livre
•Em destaque
17º CICLO DE CINEMA EUROPEU
Centro Cultural Português da Beira
22 de maio a 6 de Junho
tendo arrancado em Maputo, o 17º Ciclo de Cinema Europeu está agora a decorrer na cidade da Beira.
O tema escolhido este ano é o “Património Cultural”. No mercado cultural dos nossos dias, que tanto influi e determina as nossas preferências e gostos, falar de “Património Cultural” através do cinema permite-nos contra-arrestar a homogeneização que traz consigo a industrialização da Cultura.
Este ano, 11 filmes vão mostrar em diferentes perspectivas, a diversidade do património cultural nos povos e países da Europa.
Mais uma vez, o Ciclo contará com um programa paralelo dirigido a todos os públicos, com filmes para os mais pequenos.
músiCa
kONgOLOtI sEssIONs COM tRks E CONvIDADOs
Fundação Fernando Leite Couto
Dia: 1 de Junho
Hora: 18h
MARRABENtA MáRIO tIMANE
45 ANOs DE MúsICA EM MOçAMBIQUE
Fundação Fernando
Leite Couto
Dia: 8 de Junho
Hora: 18h
kWIRI – ROBERtO ChItsONDzO (ED.khUzULA)
O livro-disco “Kwiri”, editado recentemente, retrata a a vida e obra do músico e compositor moçambicano roberto Chitsondzo.
Com prefácio do escritor Ungulani Ba Ka Khosa, o livro reúne depoimentos e textos inéditos que abordam a sua vida e obra. O disco que acompanha o livro tem também a participação de músicos que quiseram participar nesta homenagem como Yolanda Kakana, Jimmy Dludlu, Moreira Chonguiça e Nelton Miranda.
Os CONtINUADOREs APREsENtAM
“FILhOs DO MAR” COM tIAgO CORREIA-PAUL E tRkz
Centro Cultural
Franco-Moçambicano
Sala grande
Dia: 8 de Junho
Hora: 20h30
sEssõEs DE gARAgEMBANDA
M´LAIO
Fundação Fernando
Leite Couto
Dia: 15 de Junho
Hora: 18h
teatro
15º fiti- FEstIvAL INtERNACIONAL tEAtRO DO INvERNO gRUPO tItIRItERO (ARgENtINA) APREsENtA “DE BANFIELD A MéxICO”
Fundação Fernando Leite Couto
Dia: 7 de Junho
Hora: 18
15º fiti- FEstIvAL INtERNACIONAL tEAtRO DO INvERNO gRUPO tItIRItERO (ARgENtINA) APREsENtA “DE BANFIELD A MéxICO”
Fundação Fernando Leite Couto
Dia: 13 de Junho
Hora: 18
tEAtRO PARA Os MAIs PEQUENOs “As MENtIRAs DO COELhO” gRUPO DE tEAtRO M’BEU
Fundação Fernando Leite Couto
Dia: 23 de Junho
Hora: 10h30
Cinema
1ª FEstA DO CINEMA
Centro Cultural Franco-Moçambicano auditório
Dia: 23 de Junho
Hora: 10h30 – 20h
dois retratos doCumentais de maputo da Cena CuLturaL
o primeiro, realizado por Tina Kruger e intitulado “Living Art – an aesthetic ethnography”, já teve uma apresentação pública no Centro Cultural Franco-Moçambicano e vai iniciar agora uma ronda por uma série de festivais internacionais.
O segundo, realizado por Aurore Vinot e intitulado “Vagando Maputo”, está ainda em fase final de pós-produção e há a expectativa de poder ser estreado em Outubro deste ano durante a 3ª edição do festival Maputo Fast Forward (MFF).
A alemã Tina Kruger vive e trabalha em Moçambique há mais de uma década. A sua obra reflecte a multidisciplinariedade do seu currículo académico (antropologia visual, etnografia, estudos em lusofonia), a variedade dos seus interesses (sociais, culturais, estéticos) e a diversidade das suas competências (design gráfico, fotografia, cinema, video).
“Living Art” é uma etnogra-
fia estética das artes contemporâneas em Maputo. Os protagonistas do filme são sete jovens artistas contemporâneos trabalhando nas areas de dança, pintura, escultura, música, e graffiti. O filme foi seleccionado para inúmeros festivais que irão ter lugar ao longo de 2018, entre eles o Fine Arts Film Festival de Venice (Califórnia, EUA). Enquanto se aguarda por novas projecções em Moçambique, o trailer está disponível online no You Tube. Por seu turno, o documentário “Vagando Maputo”, de Aurore Vinot resulta também de um longo contacto com Moçambique. A fotógrafa e realizadora francesa percorreu o país, ao longo dos últimos dez anos, e apaixonou-se pela
a Cena CuLturaL
dinâmica cultural da capital. “Vagando Maputo” é um retrato vivo e emocionado de pessoas e ambientes e onde encontramos protagonistas tão diversos como o escritor Mia Couto, o cineasta Lícinio de Azevedo, o fotógrafo Mário Macilau e o artista plástico Gonçalo Mabunda. Mas o que torna este documentário verdadeiramente diferente é o destaque que dá a uma nova geração de e criadores como Ricardo Pinto Jorge, Nandele & The Mute Band, Trkz ou Teoria do Groove.
tExtO rui trindade FOtOgraFia Jay garrido
e Criativa de maputo
é retratada de forma vibrante em dois doCumentários reCentes
‘Living art’ e ‘vagando por maputo’
Centro Cultural FrancoMoçambicano e disponível online
saLão automóveL
de pequim apresenta protótipos futuristas
o salão automóvel de pequim, que decorreu entre 25 de Abril a 4 de Maio, tornou-se, em anos recentes, uma das grandes “montras”, a nível mundial, para as principais marcas e para as inúmeras startup que estão a investir fortemente nos carros eléctricos.
O Salão foi uma ocasião privilegiada para conhecer as mais variadas propostas – dos SUV eléctricos aos desportivos de luxo – mas o que ficou na retina de muitos observadores e curiosos foram alguns dos concept cars expostos. Entre os vários protótipos futuristas que sobressaíram no Salão Automóvel de Pequim um, em particular, mereceu uma atenção especial: o Vision Mercedes Maybach Ultimate Luxury.
Com um visual arrojado, o modelo tem uma grade frontal grande com faróis LED, maçanetas embutidas nas portas e o vidro traseiro é dividido ao meio de forma vertical. O in-
terior é super-luxuoso e bastante espaçoso, especialmente para os passageiros do banco de trás que podem desfrutar de assentos individuais e dispõem de uma bandeja onde é inclusivamente possível aquecer um chá ou um café. Apesar de se tratar de um carro eléctrico, é muito potente (748 cavalos com uma autonomia de 322 km por carga de bateria) podendo chegar aos 250 km/h. E é também um carro cujas dimensões impressionam: 5,26 metros de comprimento, 2,11 m de largura, 1,76 m de altura e rodas de 24 polegadas.
Esta verdadeira peça futurista não tem ainda valor final definido, tendo sido apresentado numa versão de cor vermelha com o interior branco
não tendo a marca divulgado se há outras opções de cores previstas.
Revelamos também modelos que chamaram (e de que maneira) as atenções: o iX3 da BMW, o seu primeiro SUV eléctrico, que deverá começar a ser produzido em 2020 e será fabricado na China; o sedan H500 e o utilitário K350, apresentados pelo estúdio italiano Pininfarina, famoso por desenhar grande parte dos mais belos Ferraris da história automóvel, ambos usando um motor eléctrico de 300 kW (408 cv); e o EZ-GO, da Renault, que já tinha sido exibido em Genebra (Suíça), e que é, de todas as propostas, a mais “futurista” por se tratar de um “veículo autónomo” idealizado para ser usado na cidade em regime de compartilhamento.
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uma das grandes “montras”, a níveL
mundiaL , para as prinCipais marCas e startup que querem entrar no mundo automóveL