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ECONOMIA | POLÍTICA | ESPORTES | HUMOR | CULTURA

Ano 4 • N0 54 • Maio de 2014 • R$ 5,00

materiaprimarevista.com.br

A gigantesca contribuição da medicina privada para a saúde dos mineiros Diretoria da rede Mater Dei de Saúde. Dr. Henrique Salvador, Dra. Maria Norma Ligório, Dra. Renata Grande, Dra. Maria Norma Moraes Silva, Dr. José Salvador Silva, Dra. Márcia Géo

Planos de saúde já atendem 53% dos belohorizontinos, que preferem a qualidade, a segurança e o conforto dos hospitais privados, como a nova unidade do Mater Dei, inaugurada neste 31 de maio

A Copa do Mundo nos tempos em que a vida era risonha e franca

39 coisas para você fazer pelo menos uma vez na vida


CONTINUAR E FAZER SEMPRE MAIS. ESSE É O COMPROMISSO COM MINAS GERAIS. Conheça alguns resultados do Governo de Minas.

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Belo Horizonte, 31 de Maio de 2014

Prezado amigo, Tenho o prazer de lhe apresentar a revista MatériaPrima. Trata-se de publicação mensal, já na sua edição nº 54, que chega aos leitores com o compromisso de cumprir um papel importante e exclusivo: mantê-los bem informados sobre as questões mais relevantes da economia e da política de Minas Gerais. Também pretende refletir o pensamento de Minas, a respeito de assuntos políticos e econômicos de caráter nacional. Minas Gerais se posiciona para ser ouvida, por conta da sua pujança econômica. Sua produção anual de riquezas tem dimensões semelhantes às do Chile. É maior que as do Uruguai, Paraguai e Bolívia, somadas. A sua força decorre da liderança em muitas atividades. Minas Gerais produz mais automóveis que a Argentina. Outro objetivo de MatériaPrima é o de transbordar para os demais estados brasileiros a expressão política dessa força econômica. Espero que a publicação agrade ao caro amigo. Caso seja do seu interesse assiná-la, comunique-se com a Cláudia Dolabela, do Departamento de Assinaturas, no telefone (31) 2534.0600. O custo da assinatura é de apenas $60,00 por ano. Com o abraço do

Durval Guimarães Editor-chefe


índice

Página 10

ENTREVISTA Prisão de celebridades desperta atenção para sistema carcerário

Cadeia no Brasil sempre foi punição para pretos, pobres e prostitutas. Até o dia em que o ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, mandou um cardume de personalidades do “Mensalão” para a cadeia. Em Belo Horizonte há deputados, advogados e uma banqueira, Kátia Rabelo, do ex-Banco Rural, atrás das grades. Como muita gente sentiu na pele o perigo que está correndo, o drama dos encarcerados saiu da área de serviço e ganhou o espaço social. Entrevista com o professor Livingsthon Machado, ex-juiz da Vara de Execuções Criminais de Contagem. Página 25

REPORTAGEM DE CAPA Hospital Mater Dei mostra a força da medicina privada

O governo federal criou o SUS-Sistema Único de Saúde para atender toda a população brasileira. Como ele é precário e ainda se encontra muito distante dessa meta, os brasileiros perceberam que somente a medicina privada pode lhe socorrer na hora do perigo. Em Belo Horizonte, 53% da população já dispõe de carteirinhas de plano de saúde. Ocorrida no dia 31 de maio, a inauguração do Hospital Mater Dei, com 320 leitos e 21 salas de cirurgia, se revela uma conquista para a cidade. Página 59

SPECULATION NEWS

Página 59

Feira do livro de BH: Lacerda anuncia imposto especial sobre livros com vogais

A Feira do Livro, tradicional evento cultural realizado em BH, foi adiada para depois da Copa do Mundo. Os escritores, perplexos, denunciam que o adiamento foi provocado pelo despacho do prefeito Márcio Lacerda que tributa, segundo os intelectuais, “a aquisição de livros contendo vogais numa taxa de R$ 0,20 por cada letrinha”. Denunciam ainda o imposto sobre o eufemismo. Fontes anônimas da Secretaria Municipal da Fazenda preveem ainda a cobrança de impostos sobre os ditongos, a utilização injustificada de gerúndios – a ser punida não apenas com multa, mas considerada crime inafiançável e inalcançável por embargos infringentes. (Nota retirada da seção Speculation News, cada vez mais informativa.) Página 17

NOMES & NOTAS A universitária comprou um carro novo com apenas um mês de prostituição

Bianca, 19 anos,uma linda estudante de Direito, queria um carro para ir à Faculdade. Ela morava na casa do avô, que não concordou em dar o presente. O que ela fez? Pediu emprego numa casa noturna e, por conta dos seus maravilhosos atributos físicos e uma enorme disposição para o trabalho, comprou um carro zero quilômetro antes de completar 40 dias de trabalho. Seu desempenho causou alvoroço entre colegas de universidade, que querem imitar o seu feito. 4

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Página 40

COPA DO MUNDO “A Copa que eu vim, vi e perdi”

Duas vezes Márcio Prado nesta edição: a primeira, com a Copa de trágica memória, a do Maracanazo de 50, num Independência recém-inaugurado; a segunda, quando o campo do América (hoje ocupado também pelos atleticanos) foi reformado e novamente entregue à torcida. Em ambos os textos, Márcio, com seu estilo suave e bem-humorado, relembra fatos e pessoas que fizeram deste Independência um marco na história do futebol mundial. E, principalmente, reafirma a esperança “de os estádios voltarem a ser o que foram para nós: templos onde celebrávamos, nas tardes de domingo, a paixão pelo nosso time, o amor pelo esporte, e o convívio fraterno e civilizado com os nossos irmãos”. Em tempo: #VaiTerCopa. Página 50

HORA EXTRA 39 coisas para você fazer uma vez na vida

O tempo não para e você precisa fazer alguma coisa importante na vida. Algo fundamental, não necessariamente grandioso, mas suficientemente agradável para comentar com seus netos, daqui a alguns anos. Exemplo: viajar de carro do Oiapoque ao Chuí, com a família, conhecendo essa maravilha chamada Brasil. Ou cuidar de um idoso num fim de semana, em qualquer asilo da cidade. Alguma coisa pode ser feita.

Colunas e artigos Editorial...........................................................06 Palavra do Leitor............................................ 08 Querido Diário................................................ 30

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2534-0600

Diretor responsável e editor geral: Durval Guimarães

Colaboradores: João Paulo Coltrane, Christiano Machado e Valério Fabris

Editor de texto: Márcio Rubens Prado (in memoriam) - Carlos Alenquer

Comercial/Publicidade: Geraldo Eugênio

Diagramação: Mayza Nunes

Assinaturas: Cláudia Dolabela

Redação, Administração e Publicidade: Rua Canopus, 11, sala 5 - São Bento - 30360-112 - Belo Horizonte - MG

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editorial

Os verdadeiros inimigos do povo

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No tempo em que os animais falavam, o serviço público era uma das mais imprescindíveis atividades de uma sociedade. Os cidadãos, ricos ou pobres, se orgulhavam de manter, com seus impostos, um quadro de servidores públicos honrados e responsáveis pelos diversos serviços colocados à disposição da sociedade. Nesta atividade, trabalhar se confundia com servir, atender, cuidar e proteger. Servir à comunidade era trazer um pouco de alento e esperança, principalmente aos mais carentes, cuidando de um bem que é público. Naqueles recuados tempos, o serviço público não era profissão ou emprego qualquer. Como já se disse sabiamente, era o desafio de cuidar e proteger do que parece que não tem dono, que não é de ninguém, mas que de verdade é de todos nós. Desta forma. a estabili-

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As greves só atingem aqueles que dependem dos hospitais, escolas e transportes públicos. Isto é, prejudicam os mais humildes. dade dos servidores se justificava como reconhecimento do esforço e da impessoalidade na gestão da coisa pública. Mas não é isso que a gente vê hoje. A despeito de todos os esforços dos governos para equipar as escolas e os hospitais públicos, os resultados são desastrosos por toda parte. As escolas sequer alfabetizam as crianças e só conseguem levar os alunos à Universidade por conta de política de cotas, essa inexplicável reserva de mercado que desconhece o mérito. Por sua vez, os hospitais se acostumaram a atender os seus humildes pacientes nos corredores num absoluto descaso com os cidadãos. Além disso, há greves que não só causam danos imensos à população humilde, como acrescentam os transtornos nas ruas em inexplicáveis manifestações que nos levam

à exasperação. Como o povo não é bobo, encontra uma solução para o problema: aqui em Belo Horizonte mais da metade da população desfruta dos planos de saúde para garantir o acesso aos serviços médicos. E aqueles que podem pagar, matriculam seus filhos na escola particular. Lamentavelmente, quando se fala em servidor público, o povo quase sempre imagina descaso, incompetência, desrespeito aos mais humildes e, muitas vezes, a mais deslavada corrupção. Para não ficarmos só na queixa, segue nossa reivindicação: o servidor público deve se conscientizar da responsabilidade e da importância do papel que exerce. Se quisermos avançar e alcançar uma sociedade cada vez mais justa, precisamos de serviços públicos mais eficientes e servidores dedicados e motivados. Simples assim.


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palavra do leitor

palavra do leitor Multa para quem votou errado Teremos eleições gerais agora em outubro quando escolheremos o futuro presidente da República e o governador de Minas. Acho que dá tempo para fazer uma pequena mas importante reforma eleitoral. Eu me refiro à ampliação das multas aos eleitores. Hoje, quem não vota e não se justifica, é multado. Pois defendo que se cobre multa também de quem votou errado. O cidadão alagoano votou duas vezes no Fernando Collor (para presidente e senador)? Paga uma multa. Votou quatro ou cinco vezes no Michel Temer? Paga outra multa. Votou no José Genoíno? Paga uma multa e faz trabalho comunitário. Só desse jeito os eleitores aprendem. Luís Fernando Melo (Belo Horizonte-MG) Todo governo tem um povo que merece A cada quatro anos trocamos de governo. Mas o povo continua o mesmo. Será que já não é hora de pensar em trocar de povo? Há outra pergunta: 8

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será possível eleger um governo melhor se ele é escolhido por esse povinho que a gente encontra todos os dias nas ruas, no trabalho e, sobretudo, dirigindo como animais nas nossas ruas e estradas? Há a terceira pergunta: como proteger os governos de um povo cada vez mais ordinário, consumista e à procura de emprego por baixo do pano? Vejam, por exemplo, esses jovens que protestam contra tudo nas ruas. Os computadores deles estão cheios de programas piratas e músicas captadas de forma ilegal. Todos só enxergamos a corrupção alheia. Em resumo, o Brasil é um país formidável, mas o seu povo... Garibaldi Marques (Betim-MG) Europa se curva a um partido político bem brasileiro Martin Sonnenborn foi o 96º eleito para o Parlamento Europeu pela Alemanha. Ele é líder de um partido que se diz “sem conteúdo”. Não se parece com muito dos partidos políticos brasileiros? Na verdade, sua agremiação

é mais importante que nossos partidos ridículos, pois faz da ironia um instrumento da pregação política. Em 2000, Sonnenborn mandou faxes oferecendo subornos a delegados da FIFA se dessem o seu apoio à Alemanha como organizadora do campeonato do mundo de 2006. Um deles acabou por se abster, levando a um empate entre os delegados, e o campeonato acabou mesmo por ir para a Alemanha. A recompensa oferecida era um cesto com especialidades da Floresta Negra, incluindo salsichas e um relógio de cuco. Ele explica a razão do seu partido sem conteúdo: “como não tínhamos em que partido votar, resolvemos criar o nosso”. Ele também explicou porque não tem ideologia: ”Não queremos ter uma posição, porque na Alemanha as posições dos partidos mudam: é-se a favor da energia atômica e depois contra; é-se pelo serviço militar obrigatório e depois contra”, justifica.É desses políticos que precisamos.É de gente que não defende o mínimo para todos, mas o máximo para cada um. Erivelton Martins (Araçuaí-MG)


até aqui eram ocupadas pelos automóveis particulares. Em seu egoísmo, os proprietários de automóveis não perceberam que o governo federal, ao facilitar a compra financiada de automóveis, beneficiou a indústria veículos mas prejudicou a qualidade de vida das cidades. A estes incentivos soma-se o fato de o nível de vida de uma parte significativa da população ter melhorado. Desde o Plano Real as condições mudaram em geral e puderam acessar mais serviços. Querem melhor transporte e não apenas transporte.

Denegrir ou denigir, eis a questão Gosto da língua portuguesa. Em certos casos me chamam até de obsessiva. Daí a minha birra com uma carta de leitor (edição 53 desta revista), na qual o autor escreve “denigrir”, em vez do consagrado “denegrir”, e a redação responde com o mesmo “i” no lugar do (repito, consagrado) “e”. Não entendo a razão – ou entendo demais: pura rabugice do redator responsável pela seção. Maria dos Prazeres (Brasília-DF) Ao contrário do que você imagina, Maria, é por respeito ao leitor: se ele escreveu “denigrir”, não havia porque responder usando “denegrir”. Mesmo porque o Houaiss concorda que um é m.q. o outro. Ou seja: mesmo que. Matéria Prima Só a imprensa não percebeu a revolução do BRT Há dois tipos de jornalismo em Minas. Há os jornais que apenas enxer-

gam defeitos ou, então, publicações como a revista MatériaPrima, que deve ser editada em outro planeta. Ou seja, não toma conhecimento de nada. Veja, por exemplo, essa verdadeira revolução nos transportes em Belo Horizonte, que tem o nome de BRT, o abrasileirado Move. A cada dia os jornais procuram um defeito, enquanto a revista jamais tratou do assunto. O ar condicionado é apenas uma das vantagens do novo BRT. A outra – a maior – é o fato de ter reduzido substancialmente o tempo de viagem, dado que o veículo circula em corredores exclusivos, onde não se cruza com o restante trânsito. Tem economizado meia hora em cada viagem, ou mais. Numa cidade de quase três milhões de habitantes, completamente esmagada pelo peso dos carros particulares e com um sistema de transportes públicos mais do que deficiente, o BRT é, neste momento, a “menina dos olhos” da população. Claro, não agrada a todos. Proprietários de carros, que não querem deixá-los na garagem, apresentam a velha queixa de que os ônibus articulados roubaram faixas que

Vias engarrafadas, pessoas fechadas dentro de ônibus quentíssimos, motoristas desesperados, irritação crescente.Tudo isto ajuda a explicar o fato de os grandes protestos de 2013 nas cidades brasileiras terem começado por causa do aumento das passagens de ônibus e contra o poderoso lobby que administra este transporte. As pessoas têm mais dinheiro, e não estão dispostas a aceitar serviços de tão baixa qualidade. A solução foi percebida pelo prefeito Márcio Lacerda, que consiste na criação do BRT, que custa dez vezes menos que o metrô e pode ser construído em apenas três anos. Há quantos anos não se faz um único quilômetro de metrô em Belo Horizonte? Uns vinte, eu acho. Além disso, o custo operacional do metrô é tão alto, que ele sempre será deficitário. É melhor pagar um táxi, dar um sanduiche e um suco a cada usuário do metrô do que mantê-lo operando. O BRT irá criar uma rede de transporte público com melhor nível de conforto e velocidade. Também vai contribuir para a racionalização de muitas linhas de ônibus que operavam em competição no mercado, levando à sobrecarga nas vias, nos pontos de parada, e superposição de itinerários. Márcio Carlos Amorim (Belo Horizonte-MG) MAIO DE 2014 |

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ENTREVISTA

Ele pôs o dedo na ferida. E ela continua aberta O professor Livingsthon Machado, ex-juiz da Vara de Execuções Criminais de Contagem, critica o uso político do discurso sobre segurança pública: “o direito tem de ser repensado como prevenção do crime, não como elemento de barganha política”. POR ANA PAOLA AMORIM

Livingsthon Machado, ex-juiz da Vara de Execuções Criminais de Contagem

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Em 2005, o criminalista Livingsthon José Machado, juiz da Vara de Execuções Criminais de Contagem, determinou a soltura de presos que cumpriam pena irregularmente em distritos policiais do município. Para um deles, foram 16 alvarás de soltura. Em outro, 39. Ele conta que todos os presos encontravam-se em situação irregular e viviam situações degradantes. Com isso, colocava a nu a precariedade do sistema prisional no estado, cobrando das autoridades medidas mais eficazes para o combate ao crime. Mas a resposta se voltou contra o autor da interpelação: Livingsthon foi afastado do cargo por uma decisão da corregedoria, respondeu a processo administrativo e em 2009 não aceitou a transferência compulsória para uma vara cível, que seria o mesmo que aceitar a punição por seu ato. Mas o problema carcerário continua uma ferida aberta e não há como deixar de reconhecer a necessidade de mudanças profundas no sistema, como o ex-juiz de Contagem denunciava. Em 2010, o CNJ-Conselho Nacional de Justiça emitiu uma norma limitando o prazo para que os presos em medida cautelar respondam a processo e, desde então, vem promovendo mutirões junto aos tribunais de justiça para acelerar esses processos. Aos 51 anos, de volta à advocacia, Livingsthon – que no início da vida profissional foi detetive da polícia civil – divide seu tempo entre seu escritório, em frente ao Fórum de Contagem, e as aulas na PUC Minas e na Escola de Advocacia da OAB. São quase 20 anos de magistério, e estudos sobre a questão prisional, com olhos voltados para

encontrar alternativas que, acredita, só é possível se o sistema for alterado. Medir a extensão do problema é uma tarefa impossível: os pesquisadores de segurança pública trabalham com o problema de inconsistência de dados da área e os números oficiais disponíveis estão subestimados. O banco de dados do Departamento Penitenciário Nacional, do Ministério da Justiça depende da disponibilização das informações pelas secretarias estaduais de Segurança Pública, mas não há padronização e frequentemente os dados estão abaixo do que ocorre realmente nos presídios. Daí, não há indicadores confiáveis. Mas os poucos dados evidenciam a ineficiência do sistema: temos a quarta maior população carcerária do planeta em números absolutos; o índice de reincidência ultrapassa os 70% e, por baixo, o número de presos sem julgamento chega a perto da metade do total de homens e mulheres presos no país. Em Minas, estima-se que esse número seja mais da metade. O perfil dos presos também mostra um recorte social dramático: a maioria é jovem, negra, pobre e de baixo nível de instrução: cerca de 45% dos presos possuem ensino fundamental incompleto. Livingsthon é um dos defensores do sistema conhecido como APAC-Associação de Proteção e Assistência aos Condenados, um modelo criado no início dos anos 1970, na cidade de São José dos Campos, em São Paulo, por um grupo liderado pelo advogado Mário Ottoboni e amigos cristãos. O princípio do método, que prevê a participação efetiva da sociedade nos pre-

sídios e o envolvimento dos presos na administração dos problemas, foi amparado pela Constituição de 1988. Embora desativado em São José dos Campos, foi difundido para outras cidades e hoje uma das principais referências desse modelo encontra-se em Itaúna, cidade do centro-oeste mineiro. Matéria Prima entrevistou o professor Livingsthon em seu escritório em Contagem, para saber um pouco mais sobre essa proposta e discutir a sua avaliação sobre a situação do sistema prisional brasileiro.

No dia a dia vemos a nossa incapacidade de lidar com a prevenção do crime MatériaPrima - O problema do sistema prisional brasileiro geralmente é descrito a partir de um paradoxo: de um lado, violência crescente e apelo por penas mais severas; de outro, superpopulação prisional e mazelas do sistema carcerário. Saltam aos olhos os problemas do alto índice de reincidência, a condição desumana dos presídios e a falta de dados confiáveis. Parece a descrição do caos. Como descrever o caos? Livingsthon José Machado - A pergunta que normalmente faço aos meus alunos é: para que temos esse direito penal e a própria execução penal? Como pensamos isso e com qual objetivo? Só para punir? MAIO DE 2014 |

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ENTREVISTA

Cotidiano das prisões brasileiras, marcado por superlotação de detentos.

Quando se ouve a notícia de um crime, logo segue a informação de que ninguém, até aquele momento, foi preso, como se a prisão fosse a única resposta. Penso que a pena não tem outro sentido que não seja o de prevenir o crime. É o que chamamos de prevenção geral: a ideia de que se eu praticar uma conduta ilícita, um crime, eu receberei uma reprovação da conduta e, em função do temor da represália, eu não devo agir desta maneira. As várias narrativas de conduta que temos na lei penal é para evitar que aconteça, não para que cada dia mais a gente tenha mais processos, mais juízes, mais policiais militares, mais investigadores e um número maior de vagas (ou de falta de vagas) no sistema penitenciário. Tudo isso que temos visto no dia a dia demonstra nossa incapacidade de lidar com o problema da prevenção do crime. Não estamos 12

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conseguindo prevenir o crime. MP - E por quê? Tem alguma explicação? O sistema é pensado sob uma base e funciona sob outra distinta? O que falta para ser aplicado? LJM - A primeira ideia de direito penal é a ideia de proteção aos direitos individuais: eu tenho um direito, meu direito foi violado, nasce para mim um outro direito de responder ou de retrucar. Essa ideia estava no início do direito penal. Mas, no primeiro momento, não havia proporcionalidade dessa resposta. Pensou-se, então, na evolução dessa ideia, a da resposta ser proporcional ao agravo. O que passa disso é abuso de direito. Isso é que chamamos de “vingança privada”. A pena ficou como uma forma de vingança, de responder. Pensando ainda na evolução des-

se pensamento, passa-se a pensar: não é mais o direito da pessoa de responder ao agravo; com essa ofensa que cometi, não ofendi somente o direito de uma pessoa. A interpretação disso traz um fundamento religioso que, nessa época da história (estamos falando da Idade Média), o pecado, o ilícito são a mesma coisa. A questão religiosa está muito presente na teoria do Estado. Na verdade, até hoje é assim. Em nossa constituição de 1988, final do século XX, encontramos no preâmbulo: “nós, representantes do povo, reunidos sob a proteção de Deus...”. Isso para mostrar que não é do dia para noite que se muda o fundamento das ideias. Ainda na Antiguidade, a ideia da vingança passou a ser não a ideia privada, mas a vingança em nome de Deus. O processo, durante muito tempo, foi assim.


Justiça feita em nome de Deus e julgamentos feitos com base em manifestações divinas. Evoluiu-se um pouco, com a separação entre poder político e poder religioso. Então a ideia da vingança passou a ser do Estado. Vingança pública é o Estado que tem o direito de punir ou de dar esta resposta. Ainda ouço pessoas dizerem isso. MP - Quer dizer que a base é a vingança? Esse fundamento religioso da expiação permanece? LJM - Por que até hoje os lugares onde as pessoas vão cumprir pena chamam-se penitenciárias? Se for ao dicionário de etimologia da palavra, vai ver que não está relacionada à pena, mas ao lugar onde vão as pessoas que devem cumprir penitência. Apesar de tantos anos passados, os sentimentos das pessoas estão arraigados. MP - Isso é uma característica do nosso sistema penal? LJM - Não. É geral. Isso está arraigado na mente humana.

Não conheço nenhum sistema penitenciário no mundo que seja ‘desenvolvido’ MP - Mesmo em sistema prisionais mais desenvolvidos, com menores índices de criminalidade? LJM - Eu vou ser sincero: não conheço nenhum sistema peniten-

ciário no mundo que seja “desenvolvido”. Temos bases e objetivos e recursos diferentes. Mas falar em sistema desenvolvido, não. Pelo menos não que eu conheça. Conhecer um sistema eficaz, eu não conheço. Conheço algumas iniciativas, mas que ainda precisam de muitos ajustes. MP - Um dos problemas apontados no sistema é o déficit de vagas nas penitenciárias, estimado em 256 mil, pelos dados oficiais do Ministério da Justiça. LJM - E este número está muito subestimado. MP - Sim, mas há um déficit, elevado, e uma demanda por construir mais prisões, como uma solução para o problema. Esse raciocínio é correto? LJM - Não. Mesmo que fosse esse o número – e penso que ele está subestimado porque não temos consistência nos dados nesse setor – e fossem construídas mais 300 mil vagas, por exemplo, daqui a um ano, haverá um déficit de 600 mil, porque a origem do problema não foi corrigida. É isso que estamos tentando raciocinar. Não adianta apresentar soluções mirabolantes sem conhecer o problema inteiro. Não adianta tratar a questão da execução penal como um problema isolado. O problema é só falta de vaga? Uma das poucas certezas que temos – até porque é uma norma constitucional – é que não haverá pena de caráter perpétuo, não haverá prisão de guerra, em razão dessas garantias constitucionais; uma das poucas certezas que temos é que aquele sujeito que entra

no sistema prisional um dia vai sair daí. A questão é: como essa pessoa sai de lá? Melhor ou pior do que entrou? Tudo é pensado para que ele saia melhor. Só que a gente vê a todo momento que ele sai pior. O Estado, por sua vez, tem de se equipar melhor, tem de investir mais em segurança pública. Mas o Estado tem outras atividades. Então, o que fazemos enquanto sociedade organizada, enquanto Estado? Estamos sempre correndo atrás do crime. Se não fizermos um diagnóstico, conhecendo a origem, vamos continuar o resto da existência humana correndo atrás do criminoso. E não ficar na frente dele impedindo que o crime aconteça. O direito tem de ser repensado como prevenção do crime, não como elemento de barganha política, de discurso político, como a gente vê. E não só no Brasil. No mundo todo acontece isso. Projetos mirabolantes de segurança pública como objetos de disputa política. Mas nunca como política pública. MP - Outro problema é que não há visibilidade, por parte da mídia, de uma discussão relacionada à segurança pública fora de períodos de comoção nacional. Exemplo é a mudança no código penal na época do assassinato da atriz Daniela Perez. A demanda que se sobrepõe é aquela que exige respostas imediatas aos problemas de violência. Como contornar essa situação? LJM - Na verdade ninguém se lembra da violência, dos problemas relacionados à segurança pública, senão quando ela falta. Somente quando há um fato de relevância é que as pessoas se lemMAIO DE 2014 |

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ENTREVISTA

Penitenciária inaugurada pelo governo mineiro no ano passado, no modelo PPP

bram de buscar soluções para estes problemas. A questão mais interessante é que a resposta mais cômoda é que isto se resolve com polícia na rua e não buscando combater a origem da violência ou dos fatores de desordem na segurança da coletividade. O crime também é um fenômeno social que, fora de controle, gera inquietação e a busca de medida como a redução da idade penal, da adoção pena de morte, de penas cruéis etc. A mídia, sem dúvida, tem boa parte de responsabilidade nisto tudo também, pois só tem olhares imediatistas, sua preocupação é “vender” a notícia no momento, nada se importando com as consequências de sua atuação como agente importante na formação de opinião. MP - A sua experiência talvez seja uma das mais ilustrativas para a 14 materiaprimarevista.com.br

falta de espaço de discussão dos problemas relacionados ao sistema prisional e à segurança pública. Falo da sua decisão de soltar os presos irregulares dos distritos policiais de Contagem em 2005. Gostaria que comentasse esse episódio e como foi a repercussão. LJM - Em 2005 eu era o juiz titular da Vara de Execuções Criminais e Corregedoria de Presídios da comarca de Contagem MG e naquela época me deparei com uma série de ilegalidades praticados pelo Estado. Na ocasião, o governador anunciava melhoras na segurança pública, mas aquilo não passava de uma boa farsa. As cadeias de Belo Horizonte, como a famosa Furtos e Roubos, havia sido desativada. Só que não se conseguia fazer um gesto de mágica e sumir com todos os presos que ali estavam recolhidos. Qual foi então a

política de segurança implementada? Os presos recolhidos nas delegacias de Belo Horizonte foram distribuídos pelo interior do Estado, inclusive Contagem. Tudo de forma irregular e sem as mínimas condições de higiene, salubridade e, sobretudo, de segurança. Toda semana um ou duas unidades prisionais da região metropolitana de Belo Horizonte registravam fugas de presos, mas isto a mídia não noticiava. As decisões que fui tomando, de suspender as execuções de penas que ocorriam de modo ilegal e abusivo, passaram a incomodar o governo, pois mostrava que não havia nenhuma política de segurança pública. As decisões que prolatei desagradaram o governo de Minas, que começou a pressionar então o Tribunal de Justiça, que acabou determinado minha remoção para uma vara não criminal


onde não incomodaria os governantes. Não concordei com esta remoção, pois entendi que não teria independência para julgar outras causas tendo que esquecer a Constituição e as Leis. Estes acontecimentos tiveram uma repercussão até internacional pela violação das garantias de toda e qualquer pessoa e gerou um enorme descrédito no judiciário. MP - De lá para cá, o que mudou? Como você, na condição de advogado e de cidadão, acompanha e avalia esse quadro? Quais são os principais problemas? LJM - Como eu disse, tenho visto uma falta de preparo muito grande e um medo enorme nos magistrados a decidirem segundo a consciência de cada um, medo de desagradar os governantes e serem punidos ou terem a carreira prejudicada.

Suponho que mais de 50% dos presos não deveriam estar na cadeia MP - Quantos presos, estima-se, estão em situação irregular em Minas? LJM - As informações oficiais que dispomos não são confiáveis. Apesar disso é preciso também distinguir o que é prisão irregular do que seja prisão desnecessária. Por irregular podemos entender as prisões

sem ordem judicial. Nesse aspecto, o número é bem pequeno. Já quanto às prisões desnecessárias, mesmo com ordem judicial, podemos estimar em mais de 50% do número de presos não deveriam estar no presídio. Essa situação já foi constatada por mais de uma vez pelo CNJ-Conselho Nacional de Justiça. MP - Quais seriam as alternativas? Você é um dos defensores de implantar nos presídios o modelo de gestão criado pela Associação de Proteção e Amparo aos Condenados, o conhecido modelo APAC? LJM - O modelo APAC surgiu como tentativa para resolver os problemas relacionados à execução de pena e envolve tudo isso: inobservância dos direitos do presos, ineficiência da execução penal. A proposta começa com a Igreja – novamente a questão religiosa presente. Partiu de pessoas com fundamentos religiosos, que, em 1972, se reuniram em São José dos Campos, interior de São Paulo, com o propósito de pensar uma forma de mudar o sofrimento dos que estão cumprindo pena para que eles não saiam de lá pior do que entraram. Esse grupo fez um projeto experimental para separar alguns presos e tentar recuperá-los. Foram à direção de um determinado presídio e pediram que separassem um número determinado de presos para que fizessem uma “jornada com Cristo”. Foi o nome que eles deram. Queriam fazer um trabalho para resgatar os valores. O que o sistema prisional fez: não me lembro dos números exatos agora, mas,

por exemplo, ao invés de encaminhar os 10 presos pedidos, encaminharam 70, porque o problema de vagas era muito grande. Aplicaram a proposta naquele grupo bem maior do que planejado inicialmente. Acharam que não daria resultado por conta da quantidade e pelo fato de terem sido pegos de surpresa, mas o resultado foi positivo. Foi progredindo. MP - Onde ficaram esses 70 presos? LJM - Saíram do presídio e participaram de atividades religiosas, grupos de orações etc. O nome, APAC, surgiu inicialmente de “Amando o Próximo, Amarás Cristo”. Esse foi o fundamento inicial. Depois passou a se chamar “Associação de Proteção e Amparo ao Condenado”. Depois se organizou juridicamente e começou a arrecadar recursos para construir um lugar onde os presos pudessem cumprir a pena. O que perceberam nas reuniões foi o distanciamento do indivíduo preso da sociedade. Distanciamento que começa pela família. Ele é separado da família. Então, o grupo tentou aproximar a família do preso e o preso da família. E trouxe a responsabilidade, no caso daqueles que não tinham família, para que algumas pessoas apadrinhassem esse preso, como família desse preso, para acompanhar e proporcionar condições de reintegração social quando saísse do presídio. Esse é um fundamento da APAC: a participação da família na recuperação do preso é fundamental. Percebeu-se, com a experiênciam que a participação da sociedade diminuiu o custo da execução. MAIO DE 2014 |

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ENTREVISTA Hoje, os dados oficiais dão conta que cada preso custa em média 1,6 mil reais/ mês. Afirmo que esse dado é subestimado. Cada preso hoje, no sistema prisional, custa em torno de 6 a 7 salários mínimos/mês. E descobriu-se que no modelo APAC há uma redução significativa de custos. Em 1984, a nossa lei de execução penal, que é a lei 7.210, previu no artigo 4º a cooperação da sociedade na execução penal e criou uma figura chamada conselhos tutelares para administrar essas questões, de modo a incorporar aquela experiência que foi pensada na APAC. Mas isso nunca existiu. O conselho da comunidade nunca existiu. Essa ideia da participação social surgiu com o modelo APAC, cujo fundamento é o envolvimento da sociedade local. Mas qual é o sentimento que se tem em relação à possibilidade de se ter um presídio perto da casa da gente? Ninguém quer. MP - Mas o presídio está ligado a uma situação de violência extrema. LJM - Pois é. E por qual razão? A questão é identificar a razão. Preso quer confusão ali? Ele não

Em Itaúna, um acréscimo de R$ 1 na conta de luz permitiu a construção do presídio 16 materiaprimarevista.com.br

quer confusão perto de onde ele está cumprindo pena. Quer o problema lá longe. E por que o presídio é um problema para as localidades onde está? Por conta do entorno. A história da Nelson Hungria é um exemplo que eu conheço desde sua construção. Na época em que foi construída eu era policial civil e trabalhava na Acadepol, onde funcionava o distrito de criminalística. Eu assisti aquela região, que hoje é Nova Contagem, explodir. Pessoas vinham cumprir pena, e o prefeito, para fazer proselitismo, começou a distribuir imóveis naquela região e foi criando uma população que foi chegando e se ajeitando como podia. Não tinha água, não tinha luz, não tinha rua, não tinha nada. Mas a população foi chegando. Como o cara saia dali para ir para outro lugar? Não tinha recurso, não tinha trabalho, não tinha nada. Era uma fonte de criminalidade. Hoje Nova Contagem deve ter quase 400 mil habitantes. Surgiu de onde? Em torno do presídio. Temos problemas de segurança pública por causa do presídio? Não. Por causa do entorno. MP - Qual a principal contribuição da APAC? LJM - O que o modelo APAC preconizou nos anos 70 e depois a lei de execução penal fez? Chamar a comunidade local a participar dos problemas da execução, porque eles é que vão conviver com eles. Quem vai apresentar soluções? As pessoas que serão diretamente afetadas. É isso que passamos a incorporar no modelo

constitucional em 1988: a participação de todos que podem ser afetados por aquela situação. Só que isso ficou só na ideia. MP - É um sistema que poderia ser implantado, por exemplo, na Nelson Hungria? LJM - Qualquer sistema é possível. Vou dizer que não é possível implantar para 100 por cento dos presos que estão lá. Nem possível implantar para 100 por cento daqueles que estão em regime semi aberto. É condição pessoal de cada condenado. Tinha preso na APAC com 450 anos de condenação. Quer dizer: 450 anos de condenação é inviável, completamente sem recurso, sem pretensão de socialização. Voltaram ao convívio social porque aquela pessoa foi identificada como adequada ao modelo APAC. Em razão da experiência em Itaúna, o juiz de lá faz palestras em outros países, como o Canadá, que adotou o modelo. Também aqui, temos adesão ao modelo. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais acolheu esse projeto como um projeto institucional. MP - Itaúna continua? LJM - Continua. Assim como Nova Lima, como modelo de sucesso. Até em presídio comum temos o modelo. Não é um modelo que resolva todos os problemas da execução penal. Mas é uma possibilidade. Uma alternativa que precisa de ser aperfeiçoada. Costumo dizer que nada na vida só tem um lado bom. Qualquer sistema vai ter seu defeito. Precisamos corrigir.


NOMES & NOTAS

Tucanos quiseram comprar o passe de Antonio Andrade por R$20 milhões

Deputado Federal Antõnio Andrade (PMDB): Me ofereceram R$ 20 milhões para mudar de lado

Tratado com o prestígio de craque de futebol de fama internacional, o presidente do PMDB mineiro, deputado Antônio Andrade, disse ter sido procurado pelo presidente estadual dos tucanos, Marcos Pestana, que lhe ofereceu R$ 20 milhões para mudar de time. Isto é: receberia o dinheiro se aceitasse a vaga de senador na chapa de Pimenta da Veiga. O dinheiro não seria para uso próprio e, sim, para financiar a campanha dos seus 70 companheiros que irão disputar vagas na Câmara dos Deputados e 20 que irão disputar votos para a Assembleia Legislativa.

A denúncia de Andrade ocorreu na reunião mensal da comissão executiva, que é a instância máxima do PMDB mineiro. Aberto à imprensa, o encontro é realizado na sede da agremiação, uma bonita mansão no bairro Santo Agostinho, a menos de 200 metros de distância da residência do ex-governador Hélio Garcia.

Andrade informou que preferiu continuar fiel ao acordo com os Partido dos Trabalhadores e permanecerá como candidato a vice-governador na chapa de Fernando Pimentel. Sua denúncia foi prontamente rebatida na imprensa por Pestana, ao rechear sua resposta com boa quantidade de insultos e impropérios.

As reuniões são absolutamente democráticas e todos falam o que querem, sem censuras. A certa altura, o deputado estadual e pastor Vanderlei Miranda disse abertamente que iria votar na Dilma para presidente da República, mas não tolerava o tratamento que recebia do cerimonial do Palácio do Planalto. “Sempre que

Naquela manhã de 26 de maio, os dirigentes do partido tinham o propósito de definir se prosseguiriam na aliança com o Partido dos Trabalhadores ou lançariam candidatura própria ao Palácio da Liberdade.

ela vem a Minas, os deputados estaduais são colocados longe do palanque e tratados com desconsideração. Ela se esquece de que somos os soldados do partido”, declarou. O religioso se queixou também que o seu partido é muito cruel com os companheiros derrotados nas eleições. “Nós não voltamos para recolher os companheiros feridos na batalha. Eles são esquecidos no relento”. Vanderlei lembrou, especificamente, o caso do prefeito de Teófilo Otoni, Getúlio Neiva, que sofreu uma derrota no passado e ninguém cuidou dele. “O Getúlio foi abandonado com muitas dívidas e ficou completamente fudido (sic). No entanto, os tucanos o acolheram numa diretoria da Copasa. Então, é claro, ele ficará com o Aécio”, lamentou. A reunião aprovou a aliança com o PT por unanimidade. MAIO DE 2014 |

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NOMES & NOTAS

Sim, somos todos macacos. Mas sem bananas O Brasil poderá deixar de ser o país da banana. A fruta já não é barata; ninguém mais usa o termo a preço de banana. Mas a situação é ainda pior: o Brasil poderá importar a fruta. A preocupação é tão grande que o deputado federal Roberto de Lucena (PV-SP) esteve em reunião com o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Ricardo Berzoini, para pedir a suspensão da Instrução Normativa nº 3 de 20/03/2014 que avalia a liberação da importação da banana. A medida ainda está em estudo e precisa ser regulamentada; no entanto, já gera preocupações entre os produtores em Minas Gerais.Uma das cidades mais embananada com a medida é Jaíba, no norte de Minas, célebre pela produção da fruta.

Osires diz que álcool pode ser combustível com vida curta poderá ter vida curta. O ex-ministro afirmou que a propulsão elétrica é uma modalidade de grande futuro, “sendo provável que, em dez anos, os veículos sejam movidos a eletricidade”.

O ex-presidente da Embraer e exministro da Infra Estrutura, Osíres Silva, advertiu os produtores de ál18

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cool a intensificar seus investimentos e tirar proveito imediato desse agronegócio, pois o combustível

Segundo Osires, os motores movidos a gasolina, mesmo os mais sofisticados, são máquinas de má qualidade e de baixo rendimento e que, nem de longe, se comparam em eficiência aos motores elétricos. Como consolo, sugeriu aos produtores de álcool que se dedicassem à pesquisa do hidrogênio, que é encontrado na cana de açúcar e também será utilizado nas baterias dos carros elétricos e não é encontrado de forma isolada na natureza”.


O ex-ministro disse ainda que jamais se esqueceu do grande sacrifício que realizou, quando estudante de engenharia, para adquirir

uma régua de cálculos. Hoje, o equipamento tão desejado está perdido em alguma gaveta do seu escritório, já que foi substituído

vantajosamente por computadores. “Assim também acontece com muitos produtos e o com o álcool não será diferente”, declarou.

A universitária comprou um Ford Ka, zero km, com um mês de prostituição em tempo integral Mais de 30 garotas de Belo Horizonte passaram o carnaval em Salvador, compraram abadás e entradas nos camarotes de luxo e se divertiram com um dinheiro que seus pais nem imaginam onde elas foram buscar. Mas nós revelamos agora: descolaram o dinheiro nas casas de prostituição de Belo Horizonte. São antigos os casos de estudantes que alugam seus graciosos corpos para pagar os estudos e ter vida mais confortável. Mas esse hábito pegou fogo no ano passado, quando uma jovem – vamos chamá-la de Bianca – pediu um carro de presente aos avós com quem morava, e recebeu uma negativa. Indignada com a recusa, decidiu ir à luta e obter o dinheiro, a seu modo. Apresentou-se numa boate e ofereceu seus serviços, percebendo, na hora, que a entrada nesse mercado era fácil para quem tinha um rosto bonito e um corpo escultural. A única exigência do gerente foi vê-la em roupas íntimas, com objetivo de conferir a qualidade da mercadoria. Aprovada no teste, ela recebeu a informação de que poderia ficar no salão. Estava admitida, sem preencher qualquer papel. A prostituição é crime e qualquer relacionamento formal compromete a casa. Ela seria, portanto, apenas uma fre-

quentadora. Sua receita financeira seria a metade do valor cobrado pela saída com o eventual cliente, tabelado em R$500,00. Como o pagamento era realizado antecipadamente, não havia possibilidade de inadimplência. E o cliente é filmado, discretamente, pelas câmeras do estabelecimento, facilitando sua identificação em caso de problemas. Em um mês, trabalhando mais do que alguém é capaz de imaginar, indo e voltando à boate várias ve-

zes por noite, até o amanhecer, ela realizou o seu sonho: comprou, por R$ 35 mil, um Ford Ka, zero km, com ar condicionado e direção hidráulica. Tal conquista propagouse rapidamente no meio universitário, contando com o auxílio das redes sociais. A ambição seduziu muitas garotas, que percorreram o mesmo caminho. Com Bianca, elas não se contentaram apenas com o carro, mas com a prosperidade adicional, que inclui até o carnaval na Bahia, conforme foi dito no início. Esse é o assunto de todas as conMAIO DE 2014 |

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NOMES & NOTAS versas nas salas de aula da capital. Entre quatro paredes. MatériaPrima percorreu algumas das principais casas noturnas da cidade que vendem serviços sexuais das suas frequentadoras. Além das profissionais de todas as noites, a revista encontrou um número expressivo de senhoras casadas, que adicionam o dinheiro dessa atividade ao orçamento doméstico. Aqui, o depoimento de uma delas: “Eu sou uma prostituta de nível médio. Nem muito cara, nem das mais baratas. Cobro R$ 500,00 dos clientes da boate. Mas aceito R$ 250,00 dos que me procuram à tarde, por telefone, e me levam para o motel.

Tenho 37 anos. Ao contrário do que muita gente pensa, não existe apenas prostituição de alto nível ou, então, aquela de beira de rodoviária. Meus clientes são geralmente pessoas de nível de gerência. A maior parte vem de São Paulo prestar serviços eventuais em Belo Horizonte, ou fazer palestras”, revelou. E prosseguiu: “É incrivel o desconhecimento das pessoas em relação à prostituição em segredo, como a que eu faço. Eu trabalho mais à tarde, quando meu marido está no serviço. Vou à boate só quando os clientes tradicionais desaparecem e tenho que ampliar a rede de con-

tatos. O que faço não é traição ou infidelidade. Amo meu marido e ele me ama. Sei que o casamento se dissolveria se faltasse dinheiro em casa. Eu faço isso para preservar o amor e a felicidade doméstica. Lembro-se da minha primeira aula de Direito de Família, na Faculdade de Direito da UFMG, onde me diplomei. Nosso professor, confessando profunda admiração pelo samba Segredo, citava os autores, Herivelto Martins e Marino Pinto, dizendo que ‘quando o infortúnio nos bate à porta, o amor nos foge pela janela’. Na minha casa, a desgraça financeira nunca baterá palmas no portão”.

A passarela cinza dos políticos mineiros da por MatériaPrima, a roupa deve mostrar que o seu usuário é coerente, sério e seguro. “Isto é o que deve buscar o estilo governamental: tudo equilibrado para ser um político que quer passar credibilidade “, explicou. Para ela, um político nunca deve vestir-se rigorosamente na moda, “porque a moda passa e caduca. Um político não pode dar ao luxo de ficar fora do seu tempo a cada seis meses. Seu objetivo é sobreviver no cargo e no tempo.”

Pimentel e Aécio, os dois políticos mineiros mais bem vestidos.

Os políticos mineiros governam uniformizados: um terno cinza ou azul marinho, e muitas vezes mal aprumado. A Assembleia Legislativa e a Câmara Municipal e os palácios dos governos estadual e municipal exibem diariamente essa monotonia.

políticos se preocupam muito com o vestuário,pois sabem que a mídia é importante para a fixação de sua imagem. Os políticos mineiros se preocupam o suficiente com suas roupas? E o deve dizer a roupa de um político?

Nos principais países do mundo os

Segundo consultora de moda ouvi-

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Também os politicos são importantes por sua função de representação, lembrou um consultor político na área de comunicações. Os políticos no Parlamento “são os nossos representantes. E se apresentar com dignidade é uma questão de respeito democrático. Ninguém votaria em um político com a roupa suja ou rasgada.” Os especialistas concordam que os políticos mineiros não são lá essas coisas em matéria de vestuário. “Sua imagem pode ser melhorada e deve


ser valorizada um pouco mais, projetando uma ‘mensagem’ melhor. Aqui, as melhorias só foram notadas quando Aécio Neves chegou ao governo de Minas, que usava ternos feitas sob medida. O ex-ministro Pimentel, o ex-goverandor Antonio Anastasia e o atual governador Alberto Pinto Coelho são outras exceções”, afirmam. Obsessão. ”Acho que estamos obcecados com o terno e gravata”, diz o consultor. “O uniforme político foi criado ainda no século XIX e desde então houve pouca mudança. Para eles é um escudo, exceto nas viagens ao interior, ou nos fins-de-semana, quando se permitem o uso ou não da gravata.” Quanto ao traje das mulheres mineiras na política, ele não está totalmente definido O que fazem as mulheres? Ou se vestem imitando os colegas masculinos ou se mostram demasiadamene femininas, opções que não as isentam de julgamento. Na verdade, ainda têm que chegar a uma vestido que mostre consistência, mas

com um olhar feminino e belo. “Um bom exemplo de quem sabe se vestir bem é Renata Vilhena, secretária de administração do governo estadual”, observa a consultora. De uma maneira geral, as observações dos especialistas coincidem. Exemplo: as diferenças entre as políticas de direita e de esquerda foram se dissolvendo nos últimos anos, na era do capitalismo global. Ocorreu o mesmo com o traje estereotipada da esquerda e direita? Claro, os políticos chegaram à conclusão de que, se todos criassem uma imagem de centristas e conciliadores, poderiam conqusitar mais votos. Quando se muda a mensagem, também se muda a imagem. Hà políticos que querem se mostrar boêmios chiques, um pouco hippies. Pessoas com mais de 50 anos tendem a ser mais parecidas, pois é uma idade em que não aceitamos mudanças tão rapidamente. Diferenças. Há pessoas que gostam de se vestir com jeans. Nem todo mundo tem de se vestir da mesma forma, mas tem que ser reconhecido

pelo eleitorado. Mensagem em camisetas com o logotipo no peito também são comuns em certos setores da esquerda. Mas podem distrair os eleitores para a camiseta e fazer com que eles esqueçam o seu discurso. Sobre o presidente dos EUA, Barack Obama, há um consenso entre os consultores de moda: o seu encanto natural se estende para além da sua roupa e pode ser elegante, mesmo em um traje de banho do mar, ou até dobrar sua camisa ao curvar-se para cumprimentar uma menina, situações em que tem sido visto nos últimos tempos. Exemplos em que o carisma do personagem vem primeiro. O verdadeiro poder é, por exemplo, o do falecido Steve Jobs, que nem sequer precisa de uma roupa formal para projetar uma imagem poderosa. Bastava-lhe uma camiseta de gola alta preta e jeans. Em resumo, é muito perceptível quando você vê algo algo e não se sente adequado com o que viu. Roupa não é só para vestir, mas vivê-la, como se fosse uma segunda pele, a que realmente fica visível.

Peito de silicone comemora meio século de existência O implante de mama completou 50 anos. Tornou-se a segunda cirurgia plástica mais popular do mundo, depois da lipoaspiração. Cerca de 1,5 milhão de mulheres se submeteram a ela em 2010, segundo informações da rede de televisão BBC, de Londres. O propósito prioritário? O justificado e saudável desejo de se empinar a autoestima. Os primeiros seios artificiais foram colocados, em abril de 1964, em Timmie Jean Lindsey, uma mãe de seis filhos, no Jefferson Davis Hospital, em Houston, Texas. “Eu só enMAIO DE 2014 |

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NOMES & NOTAS tendi, naquela época, a magnitude da mudança, no dia em que saí do hospital e os homens começaram a assobiar quando me viram” diz Lindsay, agora com 80 anos. O aniversário vem cercado de alguma controvérsia, sobretudo depois que a empresa francesa Poly Implant Prothèse inflou o mercado com implantes mamários defeituosos. Apesar desses problemas, a operação

de implante de mama continua gozando de boa saúde. De acordo com os dados de 2010, os Estados Unidos ostentam o título de país onde a cirurgia é mais realizada. Mas, no per capita, o Brasil ocupa, disparado, bojudo primeiro lugar em número de cirurgias. Alguém haverá de perguntar: “Como esta revista, que trata muito de negócios, encontrou o caráter econômico desta notícia?”´. Aqui: “´Estima-se que sejam realizadas 450

cirurgias mensais de implante de silicone em Minas Gerais. Os preços variam de acordo com a fama do cirurgião plástico. Mas a média é de R$ 8 mil, dos quais R$ 1.600 se destinam ao pagamento do silicone, que pode ser dividido. Isso significa que as mineiras (ou, sejamos justos, muitos maridos e namorados mineiros) investem R$ 1,2 milhão, a cada mês, na reconstituição e embelezamento dos seios. Firmes e encantadores.

Os fantásticos lucros brasileiros com os jogadores de futebol

Craques brasileiros: muito dinheiro e quse sempre muita confusão.

Na única vez em que entrevistamos Alexandre Kalil, o presidente do Atlético, para a revista MatériaPrima, ele informou, com a maior naturalidade, que o Galo devia R$ 600 milhões. Criou-se, então, a dúvida: como um simples clube de futebol, sem nenhum patrimônio expressivo, pode suportar uma divida que exige o pagamento de pelo menos R$ 3 22 materiaprimarevista.com.br

milhões mensais de juros? Sim, os dirigentes dizem, como Kalil, que a maior parte é dívida fiscal, jamais cobrada. Trata-se, é claro, de meia-verdade, pois o Leão se apossou dos milhões que o clube pensava em arrecadar com a venda do seu craque Bernard para um time da infeliz Ucrânia. E, naturalmente, se apossará de todas as outras.

Cabem aqui alguma reflexões. O Brasil é o principal exportador de jogadores de futebol para os campeonatos europeus, que albergam os melhores clubes do mundo. Segundo dados do Observatório de Futebol do Centro Internacional de Estudo do Desporto (CIES), nos últimos anos o Brasil tem tido sempre o maior contingente de jogadores estrangeiros na Europa:


529 em 2009, 566 em 2010, 524 em 2011, 515 em 2012 e 471 em 2013. Há tantos craques na Europa (sem falar naqueles que seguem para a Ásia) quanto os que ficam no Brasil para o campeonato Brasileirão. E, obviamente, não se trata apenas de uma questão de quantidade. Nos últimos 20 anos, em cinco ocasiões o prêmio Bola de Ouro foi para brasileiros (Ronaldo em 1997 e 2002, Rivaldo em 1999, Ronaldinho em 2005 e Kaká em 2007). E o prêmio jogador do ano da FIFA, desde 2010 fundido com a Bola de Ouro, foi oito vezes para jogadores brasileiros entre 1991 e 2009. Grande receita. As transferências de jogadores, principalmente para a Europa, também representam uma importante receita para os clubes brasileiros. Segundo contas do jornal Público, de Lisboa, com base nos dados do site Transfermarkt, nos últimos oito anos os clubes brasileiros receberam mais de R$ 3 bilhões em vendas de jo-

gadores e gastaram apenas um décimo desse valor em compras. Além da qualidade individual dos jogadores brasileiros, a seleção canarinha é também a mais bem-sucedida. Participou em todas as edições do Mundial e venceu a prova por cinco vezes, duas façanhas que nenhuma outra seleção conseguiu. Os títulos da seleção e a produção constante de novos craques contrastam, porém, com o nível do campeonato brasileiro, quase mais falado pela violência, os estádios vazios e as polêmicas do que pelos gols. Em 2013, a média de espectadores no Brasileirão foi de 14.900 pessoas. “O que nos coloca em 16.º do ranking mundial”, diz o economista Fernando Ferreira, diretor da Pluri Consultoria, uma empresa de São Paulo dedicada ao estudo do futebol. “A média desaba para 7.200 espectadores, considerando as quatro divisões do campeonato brasileiro. Quando são incluídos nos cálculos a Copa do Brasil e os

campeonatos estaduais, a média afunda para quatro mil por jogo. A taxa de ocupação dos estádios no ano passado não foi além dos 26%”, informou. Números mentirosos. Estes números servem para Juca Kfouri rebater a ideia, tantas vezes repetida, de que o Brasil é o país do futebol. “Se há mentira que o brasileiro adora repetir é que o Brasil é o país do futebol. Não é. A Inglaterra é muito mais país do futebol do que o Brasil, porque reverencia muito mais o jogo”, diz o colunista da Folha, argumentando: “Em toda e qualquer pesquisa de opinião que se faça no Brasil sobre tamanho de torcidas, o primeiro contingente, na casa dos 27 ou 28%, é de pessoas que dizem não se interessar por futebol. Só depois vêm Flamengo, Corinthians, São Paulo...” Mesmo que se admita que a paixão dos brasileiros pelo futebol esteja sobrevalorizada, é legítimo perguntar por que razão os torcedores não vão mais ao estádio. O

Bola de Ouro: futebol brasileiro brilha só no exterior.

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NOMES & NOTAS que justifica que um país com cerca de 200 milhões de habitantes tenha uma média de espectadores nos estádios inferior às segundas divisões inglesa e alemã? Fernando Ferreira diz que poderia enumerar várias razões, mas destaca cinco: os preços dos bilhetes, a violência das torcidas organizadas (morreram 30 pessoas em estádios em 2013 e agora em maio um torcedor foi atingido mortalmente por um vaso sanitário), o excesso de jogos com pouca importância (“somos o único país do mundo que ainda tem campeonatos estaduais ocupando 2/5 do calendário”), a fragilidade financeira dos clubes; e os problemas de transportes. “As grandes cidades brasileiras têm problemas seríssimos de violência, trânsito e transporte público. Isso dificulta a chegada e saída do público dos estádios, principalmente quando os jogos ocorrem mais tarde. Nessa situação, as pessoas preferem não arriscar e assistem via pay per view em casa, com conforto, segurança e ainda pagando menos”, explica o economista. Não raras vezes, há jogos às 22h, que são transmitidos depois da telenovela, uma instituição brasileira. Futebol e bom senso. Muitos destes problemas estiveram na origem do Bom Senso FC, um movimento de jogadores que exige mudanças no futebol brasileiro, especialmente na organização do calendário (quase 85% dos clubes não têm atividade durante o ano inteiro, ficando parados após os estaduais) e no controle das finanças dos clubes. “É triste ver que, apesar do potencial gigantesco, o futebol é tratado amadoramente como um circo 24 materiaprimarevista.com.br

de uma cidade do interior”, disse recentemente Paulo André, ex-jogador do Corinthians, atualmente na China, e um dos líderes do Bom Senso FC, que tem centrado as suas críticas na CBF. No final do ano passado, o movimento fez alguns protestos originais, com jogadores sentados no gramado antes do início de um jogo ou trocando passes durante um minuto. A greve é uma ameaça em cima da mesa, embora ainda não tenha havido acordo entre os jogadores. O movimento, no entanto, ganhou notoriedade e a presidente Dilma Rousseff reuniuse com representantes da entidade dos jogadores. Um dos males do futebol no Brasil, diz Juca Kfouri, é uma classe dirigente “inepta, corrompida e corruptora”. Entre 1989 e 2012, a CBF foi presidida por Ricardo Teixeira, ex-genro de João Havelange, presidente da FIFA entre 1974 e 1998. Apesar de durante anos ter sido alvo de suspeitas de corrupção, Ricardo Teixeira só abandonou a CBF em 2012, após um caso envolvendo um jogo amistoso das seleções de Portugal e do Brasil, em 2008, em Brasília (vitória brasileira por 6-2). “Ele cometeu um erro, mais ou menos comparável à célebre prisão do Al Capone, que foi preso não pelo contrabando de bebidas, mas por dívidas fiscais”, explica Juca Kfouri. “O Ricardo Teixeira se envolveu no amistoso Portugal-Brasil em Brasília, com Sandro Rosell, ex-presidente do Barcelona, que montou uma empresa-fantasma. Para este jogo foram investidos R$ 9 milhões, dinheiro do governo do Distrito Federal. O Ricardo Teixeira nunca tinha feito isso, porque o

sábio João Havelange o orientou para que nunca a CBF recebesse um tostão de dinheiro público, de modo que nunca fosse fiscalizada pelo Tribunal de Contas da União. Então cometeu esse equívoco. Neste amistoso de festa, o governo de Brasília patrocinou o jogo, pôs R$ 9 milhões na mão de Sandro Rosell, cuja empresa tinha como endereço uma fazenda de Ricardo Teixeira. E ele percebeu que ia ser apanhado, vendeu tudo o que tinha no Brasil e foi embora.”, relembrou. Tudo como dantes. Com a queda de Ricardo Teixeira, José Maria Marin assumiu a presidência da CBF. “É uma CBF piorada. Os hábitos morais são idênticos, com o agravante de que José Maria Marin foi serviçal da ditadura brasileira”, aponta Juca Kfouri. “É famoso por ter feito um discurso como deputado que culminou com prisão, tortura e morte do jornalista Vladimir Herzog, em 1975. E é mundialmente famoso pelo episódio da medalha, que embolsou numa premiação de juvenis na Taça de São Paulo, a 25 de Janeiro de 2012. Ele era um dos que punham medalhas no pescoço dos vencedores e, quando ninguém estava olhando, pôs uma no bolso”. O caso correu o mundo e, mais tarde, Marin veio dizer que se tratou de uma cortesia da organização. Este é apenas mais um exemplo daquilo que Fernando Ferreira chama “o paradoxo do futebol brasileiro”: “Somos a sétima economia do mundo e um país com tradição de futebol. A péssima situação de nossos clubes e campeonatos evidencia que temos um problema sério de gestão.”


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A medicina privada se revela o grande remédio para a saúde dos mineiros Planos de saúde já atendem a 53% da população da capital. A nova unidade do Hospital Mater Dei acrescenta 320 leitos e 21 salas à disposição de seus usuários DURVAL GUIMARÃES

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matéria de capa

A burocracia aninhada na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, tem a especial predileção de falsear a realidade com o fraudulento propósito de mascarar seu deficiente desempenho. Por exemplo: no setor de saúde, ela batizou o precário atendimento ao povo brasileiro com o pomposo nome de SUS-Sistema Único de Saúde, que não é único nem é universal, já que nem todos tem acesso ao socorro médico, mesmo praticado por cubanos. E ela trata a medicina privada com o insignificante título de serviço complementar, embora os serviços particulares, em Belo Horizonte já atendam a mais de 50% da população. O povo, que não é bobo, implora a Deus que o preserve longe das filas e do mau atendimento na rede pública, onde são comuns os leitos se enfileirarem pelos corredores. E sonha com empregos que lhe ofereça a tranquilidade de um plano de saúde para si e para a família. Pesquisa divulgada há poucas semanas, pelo DataFolha, revela que a posse de uma carteirinha 26 materiaprimarevista.com.br

de plano de saúde é um dos três grandes sonhos dos brasileiros. Os outros dois são a casa própria e a educação de qualidade para os filhos. Por isso, é natural que a população acolha com entusiasmo e esperança a inauguração da terceira unidade do Hospital Mater Dei, localizado na avenida do Contorno próximo da Avenida Amazonas onde, no passado, funcionou o Mercado Distrital da Barroca. As outras duas unidades foram inauguradas respectivamente em 1980 e em 2000 e atendem – uma ao lado da outra – nas ruas Gonçalves Dias e Mato Grosso, no bairro Santo Agostinho. Modelo. O hospital é reconhecidamente um dos melhores do país e é para lá que as médicas grávidas desejam ser levadas na hora do parto, segundo uma interessante pesquisa realizada há algum tempo pelo semanário Pampulha. Se os profissionais do ramo manifestam essa preferência é natural, portanto, que 1.300 pessoas em situação de emergência, busquem diariamente, naquele hospital, o so-

Em 34 meses de construção, 22 pavimentos para abrigar 320 leitos, 21 salas de cirurgia, 52 consultórios de oncologia e o melhor prontosocorro do País corro para suas agudas enfermidades. A gigantesca demanda pelos serviços privados de saúde, que se repete dos demais hospitais levou o dr. José Salvador Silva o fundador do Hospital Mater Dei, a erguer e entregar á população, em apenas 34 meses, essa unidade de 22 pavimentos, com 320 leitos de internação, 21 salas de cirurgia, um departamento para tra-


tamento de câncer com 52 consultórios para aplicação de medicamentos. Destaca-se, também o parque de exames de diagnósticos extremamente complexo, equipado com todos os equipamentos para mais variadas modalidades de tomografia, disponíveis no mundo hospitalar. A central de esterilização de materiais é a mais moderna entre todos os hospitais brasileiros, da mesma forma que o pronto atendimento para as emergências também não encontra similar no país. Privacidade. A preocupação do Hospital Mater Dei com o conforto dos pacientes parecia ter alcançado seu limite na Unidade 2, onde até um piano é o ouvido ao cair das tardes. O som emana de um negro Steinway & Sons de cauda, plantado num lugar de destaque da enorme sala no quinto andar, que acolhe convalescentes e seus acompanhantes em confortáveis poltronas de couro. Escolhidos entre os melhores alunos e professores do Conservatório de Música, os pianistas se revezam diariamente na execução de repertórios suaves que inspi-

ram tranquilidade. Na Unidade 3, esta que foi inaugurada no dia 31 de maio, a atenção com os pacientes se superou: há um pavimento inteiro com 17 suítes à disposição de clientes que necessitam de absoluta privacidade. São os casos de atores ou outras celebridades que, ainda hoje, mal chegam ao prontosocorro, são cercados por multidões que solicitam autógrafos ou querem fazer selfies em seus telefones celulares, indiferentes aos problemas de saúde que os levaram a procurar uma emergência. Agora, eles terão até elevadores e garagem privativos. A Unidade 3 inicia suas atividades em apenas sete pavimentos e com os serviços de 503 profissionais. Em plena capacidade, que será alcançada em um ano, terá dois mil funcionários, aos quais se somarão três mil médicos que trabalham como autônomos. Este exército de trabalhadores, somados aos 1.750 funcionários e 2.500 médicos das outras duas unidades, dará à rede hospitalar a dimen-

são, do ponto de vista de pessoal, de poderosa indústria siderúrgica. Recursos. O novo Hospital Mater Dei teve o custo de R$ 300 milhões, dos quais metade foi coberta com recursos próprios. A outra parte foi buscada em financiamento do BNDES. O investimento do hospital incluiu

A Fiat, a Unimed, a Andrade Gutierrez e os antigos proprietários dos Supermercados Bretas foram os grande concorrentes do Mater Dei na licitação MAIO DE 2014 |

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matéria de capa os R$ 53 milhões, desembolsados à vista, na aquisição, em leilão, do terreno do extinto Mercado Distrital da Barroca. Por falta de interesse dos consumidores, aquela feira livre estava desativado havia muito tempo e o prefeito Márcio Lacerda decidiu vender a área que ocupa uma quadra da avenida do Contorno. Segundo o prefeito informou à época a MatériaPrima, os recursos seriam destinados á construção de escolas e creches na periferia. Realizado há três anos, o leilão foi marcado por grande ansiedade, por parte do dr. Salvador, o fundador do hospital. Segundo o seu filho, dr. Henrique Salvador, o atual presidente do Mater Dei, a família havia prospectado mais de 20 terrenos, in-

cluindo o local onde está localizado o restaurante Raja Grill, na avenida Raja Gabaglia. Mas todos os terrenos apresentavam uma ou outra restrição. Foi quando surgiu o edital de licitação da prefeitura, com a determinação de que o pagamento, em leilão, do terreno do Mercado Distrital deveria ser feito à vista.

zados com a venda da rede para um grupo holandês. Dr. Salvador apresentou seu envelope maior, no valor de R$ 53 milhões, que se revelou imbatível. “Durante os nossos 36 anos de existência, jamais distribuímos dividendos, então conseguimos fazer poupança para todos os nossos investimentos”, explicou dr. Henrique.

Propostas. Dr. Salvador preparou três propostas com valores crescentes, uma das quais seria escolhida para enfrentar os competidores, de acordo com o seu porte. A cautela se revelou acertada. Na hora do pregão apareceram a Fiat Automóveis, a Unimed, a Construtora Andrade Gutierrez e mais os antigos proprietários dos Supermercados Bretas, capitali-

Quantas pessoas serão atendidas diariamente na nova unidade? Dr. Henrique informa que, com área de quatro mil metros quadrados, somente o pronto-socorro tem capacidade para atender 114 pacientes de forma simultânea. Somando todas as outras clínicas e atividades cirúrgicas, o atendimento diário será de 3.300 clientes, com todo conforto, incluindo vagas na garagem para todos.

A crença na expansão dos planos de saúde Como os associados de planos de saúde são, de uma forma ou de outra, atendidos diariamente na rede de hospitais privados existentes em Belo Horizonte de onde virá a multidão de pacientes esperada na Unidade 3 do Hospital Mater Dei? Dr. Henrique responde: “Atualmente nós temos um overbooking de quarenta internações por dia. São pessoas que se submetem a cirurgias e ali mesmo aguardam a liberação de apartamentos para serem internadas. O Hospital está com quase cem por cento de ocupação. Médicos fazem reservas com muitos meses de antecedência para assegurar a cirurgia de seus pacientes”. À beira da superlotação – finalmente evitada com a inauguração da nova unidade – o Hospital 28 materiaprimarevista.com.br

Recepção da Unidade 2


Mater Dei nunca recusa pacientes, segundo dr. Henrique. “Vários hospitais em Belo Horizonte fecham os prontos-socorros quando ficam superlotados. Eles simplesmente mandam os pacientes buscar outra solução. Nós nunca fizemos isso, procuramos atender a todos, pois se alguém procurou um hospital é porque está necessitando de urgência jno atendimento”, explicou. Crescimernto. O presidente do Mater Dei lembra que, há dois anos, o hospital atendia 700 pacientes por dia no pronto socorro das outras duas unidades. Hoje, são pelo menos 1.200 atendimentos, num crescimento avassalador. Ele acredita que à demanda atual se somará o aumento do número de pessoas que deseja se associar aos planos de saúde. Hoje, 53% dos moradores em Belo Horizonte já são beneficiados por esse serviço”. O crescimento dos usuários dos planos, segundo informou, é determinado pelo grande crescimento da economia mineira, já que 80% das carteirinhas são fornecidas pelas empresas aos seus trabalhadores e familiares. Apenas 20% são usuários individuais, na condição de pessoa física. Dr. Henrique acrescenta que o Mater Dei é o hospital preferido de muitas empresas de atuação nacional, como a Cia. Vale do Rio Doce, que envia ao hospital pacientes que trabalham em suas unidades até da Amazônia. “Também nos procuram pacientes de Brasília, do Sul da Bahia, do Rio e São Paulo – e nem sempre podíamos atendê-los, por falta de vagas, pois nossa preferência são para os moradores de Belo Horizonte”, explicou.

Por último, o presidente do Mater Dei lembra que, desde 2007, houve uma redução de 12% no número de leitos oferecidos pela rede privada hospitalar, em todo o país. “Apesar do aumento da demanda, caiu o interesse empresarial em crescer no ramo de hospitais”. A razão do desinteresse? “São complexas e árduas as nossas relações com o governo, com as administradoras de planos de saúde, com médicos e com os usuário”, explicou. Gerenciamento. Outro aspecto que torna o negócio pouco atraente é a sua complexidade gerencial. Dr. José Salvador cita com frequência uma frase de Peter Druker, o renomado especialista em gestão, nascido nos Estados Unidos. Segundo Druker, a gestão de um hospital é tão complexa quanto a de um porta-aviões numa guerra. De fato, numa tarde tranquila de domingo, a rotina de um hospital pode ser quebrada com a chegada dezenas de ambulâncias com vítimas de grande acidente rodoviário. O hospital deve dar conta do serviço. Segundo dr. Salvador, o Mater Dei está preparado para essas emer-

gências que, em menor porte, já testaram a eficiência do seu hospital. Quando elas ocorreram, jamais pegaram a família desprevenida, pois todos costumam chegar ao trabalho por volta de 6h30m e sempre há um deles até as 22h. O hospital é conduzido por dr. José Salvador, sua esposa, dra. Norma e os filhos, também médicos, Henrique, Maria Norma e Márcia. Dr. Salvador vai ao hospital todos os dias, incluindo os domingos e faz parte de sua rotina visitar os pacientes em seus apartamentos. Todos trabalham conectados, o tempo inteiro, aos seus celulares, pois a cada minuto um cliente liga solicitando referências de especialistas ou solicitando reservas.Segundo dr. Henrique, o melhor médico não é apenas o mais capacitado tecnicamente mas o sempre disponível. “Não adianta ele ser uma sumidade em sua especialidade, se nunca é encontrado. Da mesma forma, não adianta os gestores nunca serem localizados. A urgência nem sempre é para procedimentos médicos, mas para atender a ansiedade das pessoas”, concluiu. (D. G.)

CTI do Hospital Mater Dei

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Querido Diário

Registro dos principais fatos ocorridos ou com repercussão em Minas, nos mês de

maio de 2014 5, segunda

Em BH, Eduardo Campos sinaliza que PSB apoiará Pimenta da Veiga ao governo de Minas. nacional e a nossa convenção (para homologar a candidatura dele à Presidência da República) será no dia 10 de junho. Até lá, todos os estados terão que decidir a política de alianças em cada região”, disse o ex-governador. Segundo ele, dos 27 estados brasileiros, em 15 o PSB já escolheu que rumo tomar na política de alianças.

Ex-governador Eduardo Campos

O ex-governador de Pernambuco e pré-candidato à Presidência da República Eduardo Campos disse nesta segunda-feira, em Belo Horizonte, que não vai interferir na disputa interna do PSB em Minas. O partido ainda não definiu que participação terá na campanha eleitoral deste ano ao governo de Minas. De um lado, há os que defendem a candidatura do 30 materiaprimarevista.com.br

ambientalista Apolo Heringer. Em contrapartida, a aliança com o PSDB é uma vertente de outro grupo de militantes do partido, que querem apoiar a candidatura do tucano Pimenta da Veiga. Também presidente nacional do PSB, Campos disse que esta é uma questão a ser decidida entre os dirigentes do partido em Minas. “Estamos no comando

Apesar da cautela para não melindrar parte dos colegas de partido em Minas, que apoiam a candidatura de Heringer, Campos sinalizou qual deverá ser o caminho a ser seguido pelo PSB no Estado. De acordo com ele, o presidente do PSB mineiro, deputado federal Júlio Delgado, tem reiterado que a maioria quer apoiar a candidatura de Pimenta. Em troca do apoio, afirmou Campos, o PSB ganharia a primeira suplência na chapa para senador, cujo précandidato é o ex-governador Antônio Anastasia (PSDB).


15, quinta

Linha Lagoinha-Savassi do metrô de BH será em dois níveis de forma que todo o trajeto passe debaixo das ruas e não seja necessária nenhuma desapropriação na região, que é uma das mais valorizadas da cidade. A partir de agora, o projeto será analisado pela Caixa e pelo Ministério das Cidades e, caso aprovado, um termo de compromisso pode ser assinado ainda este ano para transferência de R$ 2,6 bilhões, verba estimada para a obra.

Ilustração do projeto do metrô para a Savassi

A Linha 3 do metrô de Belo Horizonte, cujo projeto foi entregue nessa quinta-feira pelo governo de Minas à Caixa Econômica Federal, terá um trajeto de 4,5 quilômetros

em dois níveis e com quatro estações entre a Estação da Lagoinha e a Savassi. Os túneis serão de 15 metros de diâmetro e os trilhos serão implantados em dois andares,

Segundo o secretário de Estado de Transporte e Obras Públicas, Fabrício Torres Sampaio, a solução encontrada para evitar que as estruturas dos prédios do Centro e da Savassi sejam obstáculos à obra do metrô foi construir o trecho em dois andares, em vez de dois trilhos paralelos. “Com esse modelo que adotaremos em BH, não teremos que entrar debaixo de prédios ou outras construções. O túnel será mais estreito para que toda sua extensão passe pelas ruas, de forma mais segura”, explica Sampaio.

19, segunda

Aécio lança Anastasia ao Senado e Dinis vice na chapa de Pimenta ao governo de Minas

Anastasia (E) e Dinis Pinheiro foram lançados pré-candidatos ao Senado e a vice-governador, respectivamente.

O lançamento oficial das précandidaturas a vice-governador do deputado Dinis Pinheiro (PP), na chapa de Pimenta da Veiga (PSDB), e a senador do ex-governador Antonio Anastasia (PSDB) acontece nesta segunda-feira em Belo Horizonte. Liderado pelo senador Aécio Neves, pré-candidato à Presidência da República, a aliança batizada de Movimento Todos por Minas reuniu nesta

manhã em torno de 2.500 políticos, entre prefeitos, parlamentares e militantes na sede do Ginásio do Cruzeiro, no Barro Preto, no Bairro Centro-Sul.

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Querido Diário 21, quarta

Joaquim Barbosa autoriza transferência para Minas de Marcos Valério ferido, mesmo com essas notícias. “Apesar da cautela recomendada pelo juízo das execuções penais de Contagem/MG, considerada a possível existência de um plano para extorquir o apenado Marcos Valério ou seus familiares, o próprio condenado insiste no pedido de transferência”, ressaltou o ministro. “Ademais, a administração garantiu haver condições de receber o preso em condições de segurança”, completou.

Marcos Valério deverá ser transferido para um presídio em Contagem

O presidente do STF-Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, autorizou a transferência para um presídio de Minas Gerais do publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza, condenado por participação no esquema do mensalão. Desde novembro ele cumpre pena no complexo

penitenciário da Papuda, em Brasília. Apesar de terem sido divulgadas notícias sobre um suposto esquema de extorsão a Marcos Valério no sistema penitenciário mineiro, Joaquim Barbosa decidiu a favor da transferência. Ele observou que o próprio publicitário quer ser trans-

Marcos Valério deverá ser transferido para um presídio em Contagem. Ele quer cumprir a pena de 37 anos, 5 meses e 6 dias próximo à localidade onde vive a sua família. No despacho, Joaquim Barbosa citou artigo da lei que estabelece as regras para a execução penal no Brasil. De acordo com ele, o dispositivo garante o direito do preso a permanecer em local próximo ao seu meio social e familiar.

22, quinta

Aécio Neves sobe seis pontos em pesquisa do IBOPE Aécio Neves (PSDB) subiu seis pontos percentuais em relação a última pesquisa Ibope, realizada no período de 10 a 14 de abril. Os dados divulgados nesta quinta-feira (22/5) revelam que o salto foi de 14% para 20%. O senador, no entanto, continua ocupando o segundo lugar.

Dilma Rousseff (PT): 40% / - Aécio Neves (PSDB): 20% / Eduardo Campos (PSB): 11%

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Como os candidatos ditos nanicos tiveram uma pontuação baixa, Dilma volta a ter chances de reeleger no primeiro turno, já que a soma

das intenções de voto dos adversários chega a 35% ante os 40% da petista. O ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos está em terceiro, com 11%. Ainda de acordo com a pesquisa, o pastor Everaldo Pereira (PSC), tem 3% das intenções de voto, enquanto Eduardo Jorge (PV) e José Maria (PSTU) têm apenas 1%. Os demais pré-candidatos não pontuaram. Brancos e nulos somam 14% e indecisos chegam a 10%.


Essa também foi a primeira pesquisa realizada após a polêmica propaganda apresentada pelo PT na semana passada, na qual aponta que “fantasmas do passado” poderão voltar caso a oposição seja eleita em outubro. O Ibope entrevistou 2.002 pessoas, em 140 municípios, entre os dias 15 e 19 de maio. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Veja os resultados da pesquisa de maio:

- José Maria (PSTU): 1%

- Dilma Rousseff (PT): 40%

- Levy Fidelix (PRTB): 0%

- Aécio Neves (PSDB): 20%

- Mauro Iasi (PCB): 0%

- Eduardo Campos (PSB): 11%

- Randolfe Rodrigues: 0%

- Pastor Everaldo (PSC): 3%

- Brancos e nulos: 14%

- Eduardo Jorge (PV): 1%

- Não sabe/não respondeu: 10%

- Eymael (PSDC): 0%

24, sábado

Secretário de Transporte contesta devolução de estudo do metrô de BH

Secretário Fabrício Torres: complemento do projeto será entregue em 20 dias

O secretário de Estado de Transportes e Obras Públicas, Fabrício Torres Sampaio, criticou a Caixa Econômica Federal (CEF) por ter cobrado mais detalhes no orçamento do projeto de construção da Linha 3 (Lagoinha/Savassi) do metrô de Belo Horizonte. Segundo Sampaio, o projeto apresentado pelo governo de Minas está completo e o órgão federal pediu mais detalhes sobre os custos porque não tem forma de ava-

liar o material recebido. “Eles pedem uma planilha específica para os preços unitários. Mas, para o caso do metrô, a Caixa não tem preço para avaliar a maioria dos itens, porque nunca mexeu com metrô”, disse Sampaio. Ele afirmou também que a construção da Linha 2 (Barreiro/Nova Suíça) e as reformas na Linha 1 (Eldorado/Vilarinho) dependem apenas da vontade política do Palácio do Planalto.

No início desta semana, o Ministério das Cidades informou ao Estado de Minas que a fase de análise do projeto de engenharia da Linha 3 do metrô ainda não começou porque faltaram documentos a serem enviados por parte do governo de Minas à Caixa. O órgão federal afirma que na documentação entregue na semana passada faltaram detalhes no orçamento e no cronograma da obra. Segundo o secretário Fabrício Sampaio, dos 30 itens enviados pela Secretaria de Transporte e Obras Públicas (Setop), a Caixa pediu detalhamento em 10. O secretário explicou que os preços usados no orçamento entregue à Caixa foram baseados em valores utilizados pela empresa que administra o metrô de São Paulo. “Retiramos esses preços nos editais do metrô de São Paulo. São preços públicos, que a Caixa admite usar, já que não tem tabelas para eles. Ela não tem condições de analisar e pedir a composição de custos, então fez um estudo e escolheu os itens que mais pesam no preço final da MAIO DE 2014 |

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Querido Diário obra. Não tínhamos esse custo porque pegamos o preço de São Paulo. Agora, já pedimos o valor desses itens, com detalhamentos sobre, por exemplo, quantas horas/homem

custarão as escavações com a tecnologia shield (em português, escudo), os encargos sociais e outros itens. Vamos detalhar isso tudo para chegar ao preço unitário. Vamos

entregar isso tudo em 20 dias e, se a Caixa não pedir mais nada, ela aprova o orçamento. Mas ninguém sabe o que mais pode ser pedido”, afirmou Sampaio.

26, segunda

Grupo Gerdau patrocina nova fase do Museu das Minas e do Metal ao lado do CEO da Gerdau, André Bier Gerdau Johannpeter, o governador destacou a importância de parcerias como essa para Minas Gerais.

Museu Gerdau na Praça da Liberdade.

O governador Alberto Pinto Coelho inaugurou, nesta segunda-feira, a nova fase do Museu das Minas e do Metal, que integra o Circuito Cultural Praça da Liberdade, o maior complexo cultural do país.

Nessa nova etapa, o Museu passa a se chamar MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal, em referência à empresa que assumiu a sua manutenção desde dezembro do ano passado. Durante a cerimônia,

“O Governo sozinho pode muito pouco, mas o Governo em parceria pode muito e a sociedade é que ganha. Isso tem sido uma tônica, ao longo dos últimos governos em Minas Gerais”, afirmou. André Bier Gerdau Johannpeter também destacou a importante parceria da Gerdau com Minas Gerais, Estado onde o grupo realizou 40% de seus investimentos totais nos últimos três anos. “Isso mostra a nossa parceria e a nossa confiança em Minas Gerais”. A previsão é de que sejam investidos R$ 11,5 milhões no museu, nos próximos cinco anos.

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meio ambiente

A pior poluição é a miséria Em todo o planeta, multiplicam-se as ações corporativas, com o propósito de permitir uma convivência mais harmônica entre economia e recursos naturais. Christiano Machado

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Assim como o Dia do Trabalho, celebrado todos os anos em vários países, o Dia Mundial do Meio Ambiente, no cinco de junho, a cada edição, ganha mais força e notoriedade no planeta. Sempre marcado por comemorações, protestos e manifestações, a data foi instituída pelas Nações Unidas, em 1972, após conferência em Estocolmo, na Suécia. Ao considerar o tema merecedor de um dia internacional, a ONU evidenciou a mudança de postura em torno do assunto e a preservação dos recursos naturais entrou definitivamente para a lista de prioridades do planeta. Hoje, é quase impossível desvincular o termo “sustentabilidade” da agenda de qualquer corporação, particularmente daquelas que atuam em mercados globalizados. Como observou o secretário de Geologia, Mineração e Transformação do Ministério de Minas e Energia, Carlos Nogueira, a preocupação com a preservação do meio ambiente foi absorvida até mesmo por antigos e tradicionais vilões, como as mineradoras. Como exemplo, cita a mina de Carajás, no Pará. Segundo ele, uma verificação por satélite mostraria que foram preservadas toda a fauna e a flora no entorno da mina. “Gerar impacto a mineração vai, como toda atividade gera. Mas, se for acompanhada e feita por gente séria, esses impactos serão bem menores”, salienta. O secretário observa que atividades como a mineração podem ter impacto mais reduzido, pela possibilidade de controle do local em que a empresa atua. Na realidade, hoje, os maiores candidatos a vilões da sustentabilidade são a pecuária e a agricultura, particularmente por causa

Preservar a natureza é bom para todos.

dos seus avanços sobre florestas e matas nativas, feitos por grandes extensões geográficas. A despeito do inegável apetite do agronegócio para ampliar suas áreas produtivas, mesmo nesta seara há iniciativas importantes, nem sempre forçadas pela legislação. Uma delas é o Clube dos Amigos da Terra (CAT), organização nãogovernamental formada por produtores rurais e orientada para a proteção ambiental. No ano passado, já havia mais de 80 unidades do CAT espalhadas pelo País, empenhadas na difusão do plantio direto, sistema que evita o assoreamento dos rios. Em municípios como Sorriso, localizado no norte do Mato Grosso e um dos maiores produtores de soja do País, segundo o CAT local, 90% do cultivo já seria por meio do plantio direto. Na mesma cidade, uma fazenda modelo pertencente a um de seus dirigentes, a ONG realizava um importante trabalho de educação ambiental com alunos da rede escolar do município e da região. É preciso ter clareza, como bem lembrado pelo liberal Milton Fried-

man, que embora executivos e homens de negócio em geral possam ter, individualmente, responsabilidade social, às empresas o que interessa é produzir lucros para os acionistas. Gerar riquezas econômicas, aliás, é mesmo o seu papel. Logo, os avanços empresariais na área podem até ser influenciados por novos níveis de conscientização dos gestores, mas, naturalmente, representam, também, respostas substantivas do mercado às novas exigências do consumidor e ao endurecimento das legislações ambientais de diferentes países. Sucessos empresariais como o obtido pela Natura com a associação dos seus produtos à idéia de uma Amazônia sustentável deixam claro um novo posicionamento do consumidor. A exigência de selos verdes para a entrada de produtos em certos mercados, particularmente os da Europa, deram um empurrãozinho essencial nos programas de responsabilidade social e sustentabilidade ambiental. Quando ao endurecimento da legislação, não é preciso ir muito longe para auferir os seus MAIO DE 2014 |

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meio ambiente impactos sobre a preservação dos recursos naturais.

Às vezes, é caso de polícia Em entrevista recente para MatériaPrima, o ambientalista José Carlos Carvalho, que foi secretário estadual de Meio Ambiente, informou que entre 1995 e 2000, foi desmatada, em Minas Gerais, 40,75% da sua área de Mata Atlântica que ainda estava de pé. No último relatório, feito há poucos meses, o percentual havia caído para 0,4%. Indagado sobre o que foi feito para se conseguir uma redução tão impressionante, o ex-secretário respondeu: “Melhoramos a fiscalização e o policiamento

ambiental, em um trabalho com Instituto Estadual de Floresta. Criamos 13 companhias de policiamento em Minas, contratamos mais 1500 policiais ambientais para operar em todo o estado e fizemos concurso público para contratar mais de 500 funcionários. Além disso, investimos em equipamentos, como a compra de mil veículos e dois helicópteros vinculados especificamente à atividade fiscalizadora. A propósito, Minas é o único estado brasileiro que possui helicópteros para a realização desses serviços”. Para a sociedade, contudo, pouco importa se a relação mais favorável entre economia e meio ambiente

resulta de boas intenções, de estratégias de mercado ou de respostas às pressões da legislação. A população quer é a preservação ambiental. A despeito do enorme fosso que ainda separa o Brasil de condições ambientalmente sustentáveis em um grau considerado satisfatório, não há como negar um número significante de batalhas vencidas na guerra contra a agressão ao meio ambiente. No final, o resultado é positivo para todos. Batalhas importantes – talvez as mais decisivas – porém, ainda precisam ser travadas, agora em outro front, encabeçado pela ação governamental: o de combate à pobreza, sem dúvida um dos importantes focos de poluição ambiental.

O embate pobreza X riqueza na questão ambiental Decidir se são os pobres ou os ricos os maiores responsáveis pelo uso irracional dos recursos naturais é uma questão que dá “panos para manga”, principalmente entre os acadêmicos. De um lado, encontram-se aqueles que acusam, por exemplo, o efeito devastador da pobreza, particularmente nas zonas rurais. Isso porque, sem acesso às melhores terras e aos recursos necessários para uma produção ambientalmente sustentável, os pobres tenderiam a buscar seu sustento em áreas mais frágeis, erodidas e próximas às fontes d’água, e a fazê-lo sem os cuidados básicos necessários. Em função da pobreza, comunidades inteiras dependem para sua sobrevivência de alguma forma de extrativismo mineral ou vegetal, de onde tiram o seu sustento, sem ter a preocupação ou consciência de ali estar deixando 38 materiaprimarevista.com.br

um grande passivo, que impactará negativamente suas próprias vidas e a do restante do planeta. Nas periferias dos grandes centros urbanos, a desastrosa combinação entre desemprego, informalidade, falta de saneamento básico, condições precárias de moradia e baixos níveis de educação teriam, como conseqüência, problemas como o acúmulo e o tratamento inadequado do lixo. Algumas vezes até a instalação de grandes massas urbanas em locais inadequados como antigos aterros sanitários, responsável por tragédias como a observada este ano em Niterói, no Rio de Janeiro. O que se fala, na verdade, é de um círculo vicioso entre pobreza e degradação ambiental, em que um problema leva a outro, sucessivamente. Desmatamento, poluição e

aquecimento global levariam à queda da qualidade de vida e das oportunidades econômicas para os mais pobres. Vistos nessas condições, os pobres, por sua vez, tenderiam a se arremessar inadequadamente sobre os recursos naturais, única forma de tentar garantir sua sobrevivência. Os efeitos do círculo seriam perniciosos para a sociedade em geral, mas principalmente para aqueles em situação de fragilidade social. Doenças infecciosas, por exemplo, quase sempre resultantes do consumo de água de má qualidade, entre os mais pobres, chegariam a causar o dobro de mortes causadas por variadas moléstias. Cabe aos governos, portanto, importantes iniciativas para melhorar indicadores econômicos e sociais. Ao atacar a pobreza, o Estado gera condições mais favoráveis a ques-


tões como reciclagem de resíduos e conservação de água e energia, fatores importantes para garantir mais saúde à economia e gerar empregos, ampliando a qualidade de vida dos mais pobres. A própria superintendente executiva da Associação Mineira em Defesa do Ambiente (AMDA), Maria Dalce Ricas, reconhece ser a pobreza um dos maiores entraves para a sustentabilidade no mundo. “Não tem como negar: quanto mais pobre, mais o agente é degradador do meio ambiente”. Ela salienta, por exemplo, que são nas áreas mais pobres, onde não se tem infraestrutura para coleta e destinação adequada de lixos, que os córregos servem como depósitos de esgoto e lixo. “Não precisamos ir muito longe não. Na própria região metropolitana de BH, há córregos onde só tem lixo. Uma tristeza”, lamenta.

O egoísmo exacerbado Não se trata, naturalmente, de jogar sobre costas dos pobres a responsabilidade pelos problemas ambientais. A ganância econômica também contribui primordialmente para que muitos se vejam privados de uma coleta de lixo adequada e esgotos in natura sejam lançados diretamente nos rios, contribuindo para a degradação dos mananciais de água. Dalce usa como exemplo o setor ruralista e sua atividade em relação ao desmatamento. Segundo ela, tudo que acontece de ruim para os grandes ruralistas está relacionado às florestas. “Se a derrubada de floresta resolvesse problema de pobreza, não teríamos pobreza, porque Minas Gerais já teve mais de 80% de suas florestas devastadas”. A am-

As cidsades podem conviver com o verde.

bientalista denuncia que os grandes pecuaristas –cita como exemplo os do Norte de Minas – camuflam os verdadeiros interesses, usando os pequenos e médios agricultores como pretexto. “A verdadeira intenção deles é comprar a terra, que na região é barata, derrubarem a florestas para fazer carvão e depois ocupar a área com gado”. O ex- secretário estadual de Meio Ambiente, José Carlos Carvalho, é outro que vê a degradação do meio ambiente como resultado tanto da pobreza quanto da riqueza. Segundo ele, o meio ambiente é destruído pela ostentação dos ricos e pelo estado de necessidade dos pobres. “Os dois contribuem, embora sejam opostos. Os ricos, com um padrão de consumo insustentável, que vai bem além do necessário para se ter uma vida digna. E os pobres sobrevivendo por conta do uso predatório dos recursos naturais”. Mas há uma tendência, entre diversos acadêmicos, de associar níveis mais elevados de renda a um incremento de padrões de consumo

ambientalmente mais limpos. E a acreditar que intervenções destinadas a combater a pobreza e os seus efeitos – água de boa qualidade, despoluição do ar e ampliação do acesso ao saneamento básico – ajudam a reduzir problemas sociais como a incidência de diversas doenças entre os pobres. Alguns estudos afirmam, por exemplo, que uma ampliação de 1% nos investimentos em saneamento pode reduzir em 2,5% a mortalidade infantil. Ou seja, embora seja seu papel uma marcação cerrada sobre as empresas para garantir o cumprimento da legislação ambiental, o Estado tem um desafio muito mais amplo para, enfim, conseguir trabalhar pelo bem estar geral, o que inclui benefícios econômicos e sociais. Como defende José Carlos Carvalho, o fundamental é ter bom senso: a destruição dos recursos naturais leva inexoravelmente à impossibilidade do desenvolvimento. Da mesma forma, não é certo imaginar uma proteção extrema, rígida, que também leve ao imobilismo do desenvolvimento do País. MAIO DE 2014 |

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copa do mundo

Uma Copa que eu vim, vi e perdi Márcio Rubens Prado(*) Belo Horizonte, junho de 1950. Garoto de 15 anos, que chegara do interior há pouco mais de três meses, eu esperava, pipocando de emoção, o começo da Copa do Mundo. Emoção que parecia não tocar a maioria dos outros 352.723 habitantes da cidade. Mais preocupados, obviamente, com temas domésticos, do dia-a-dia. Como as eleições gerais de outubro daquele mesmo ano, em que concorreriam candidatos a todos os postos: presidência da República (Getúlio contra o Brigadeiro); governo do Estado (JK contra Gabriel Passos); senado; câmara federal; assembleias legislativas; e câmaras municipais. (Um parêntese irrecusável: naqueles belos tempos, os vereadores não ganhavam coisa alguma, trabalhavam de graça, com a mesma voluntariedade e dedicação dos membros da Sociedade de São Vicente de Paula. Saudade não tem idade...). As exigências da FIFA, então, eram ninharias diante do que a feroz entidade mostra hoje. Atropelando até as leis nacionais, arrancando consideráveis lascas em nossa soberania. 40 materiaprimarevista.com.br


Márcio Rúbens Prado, editor da revista MateriaPrima na reinauguração do Independência

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copa do mundo

Gaetjens que marcou o gol dos EUA carregado pelos torcedores no Independência.

As razões da escolha O Brasil foi escolhido para sediar a Copa de 1950 porque atendia à exigência básica da FIFA: era um dos poucos países que não sofrera consequências diretas causadas pela II Grande Guerra (exigência que valeu também para a copa seguinte, 1954, realizada na Suíça). Assim, a entidade, que não tinha bala na agulha para arrotar grandezas, pediu, prioritariamente, a construção de estádios decentes nas seis cidades-sede da disputa: Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. 42 materiaprimarevista.com.br

Assim, em 1947, o prefeito Otacílio Negrão de Lima assinou um compromisso com a FIFA para a construção de um novo estádio. O que não era uma exigência absurda, uma vez que os aqui existentes eram pequenos, acanhados, paroquiais. O melhorzinho era o do América, que recebeu uma reforma em 1948, passando a caber, pasmem, 12 mil torcedores. A construção foi confiada ao Sete de Setembro. Um clube do segundo escalão do futebol mineiro. Dono do terreno adequado, situado nas fronteiras da Floresta, Horto e Sa-

grada Família. O estádio foi logo batizado de Independência, numa clara alusão ao nome do time e à nossa gloriosa data. Um projeto de respeito: estádio de 45 mil lugares; gramado de dimensões oficiais 110 m x 70 m (as regras da FIFA permitem a variação de 90 a 120 m de comprimento, por 45 a 90 de largura); e pista de atletismo em torno do gramado, com seis metros de largura. Quando as obras começaram a patinar, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) as encampou. E entregou o estádio a tempo.


Os bondes velozes Mobilidade urbana? Qual o quê! Quanto aos meios de locomoção, transporte urbano, essas coisas, não houve exigência alguma. A pachorrenta linha de bondes, que servia ao bairro do Horto, dava para o gasto, percorrendo, calma e graciosamente, toda a extensão da rua Pouso Alegre. Nos dias dos grandes jogos, dada a insuficiência do transporte, os torcedores iam a pé, em bloco, para o estádio. Nossa noção de distância era bem diferente, descansada. Andar a pé era uma obrigação aceita com prazer e humildade, ninguém (tinha) precisava de usar carro até para pegar pão quente na padaria da esquina. Os automóveis particulares eram raríssimos, as lotações (miúdos micro-ônibus) substituíam os bondes rumo aos novos bairros que surgiam. Enfim, repito, nós íamos para o Independência quase sempre a pé, no dedão,

lado a lado com os torcedores adversários, num alegre procissão de calor humano e amor ao esporte. Éramos educados, respeitosos, cordiais, sem nunca imaginar que, um dia, teríamos de conviver com essas excrescências chamadas ´´torcidas organizadas´´, uma das maiores vergonhas e ignomínias de qualquer país que se pretenda civilizado, cristão e decente. Assim, a entidade, que não tinha bala na agulha para arrotar grandezas, pediu, prioritariamente, a construção de estádios decentes nas seis cidades-sede da disputa: Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Assim, em 1947, o prefeito Otacílio Negrão de Lima assinou um compromisso com a FIFA para a construção de um novo estádio. O que não era uma exigência absurda, uma vez que os aqui existentes eram pequenos,

acanhados, paroquiais. O melhorzinho era o do América, que recebeu uma reforma em 1948, passando a caber, pasmem, 12 mil torcedores. A construção foi confiada ao Sete de Setembro. Um clube do segundo escalão do futebol mineiro. Dono do terreno adequado, situado nas fronteiras da Floresta, Horto e Sagrada Família. O estádio foi logo batizado de Independência, numa clara alusão ao nome do time e à nossa gloriosa data. Um projeto de respeito: estádio de 45 mil lugares; gramado de dimensões oficiais - 110 m x 70 m (as regras da FIFA permitem a variação de 90 a 120 m de comprimento, por 45 a 90 de largura); e pista de atletismo em torno do gramado, com seis metros de largura. Quando as obras começaram a patinar, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) as encampou. E entregou o estádio a tempo.

Cinco estrelas nenhum Ah, quase me esquecia dos hotéis. A sua escolha foi de uma simplicidade franciscana. Mais ou menos em abril de 1950, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD, antecessora da CBF) mandou um funcionário a BH para, assessorado por um funcionário da Federação Mineira de Futebol (FMF), escolher os hotéis que iriam receber os bolivianos, ingleses, iugoslavos, norteamericanos, suíços e uruguaios. Em coisa de duas, três horas, eles indicaram os hotéis Brasil Palace, Financial, São Miguel e Grande Hotel (onde é, hoje, o Arcangelo Maletta). Em

Nova Lima, nas imperiais acomodações da Mina de Morro Velho. Por isso, além do estádio, da PBH a FIFA exigia apenas a garantia de renda mínima de Cr$1,5 milhão de cruzeiros (cerca de 75 mil dólares, ao câmbio da época, US$1 igual a Cr$18,62) para os três jogos; e mais uma taxa de Cr$240 mil cruzeiros (uns 12 mil dólares). Em troca, a entidade - que, mesmo sem bala na agulha, era blindada munheca de samambaia - garantia a realização de três jogos na cidade; doava 150 ingressos à PBH; e bancava as passagens, a estada e o transporte das seleções visitantes.

Foi assim, essa simplicidade, essa singeleza, essa inocência que se abriram as portas e os corações da cidade para o espetáculo inesquecível que é uma Copa do Mundo. Na verdade, uma fugaz pausa de um mês para, esquecidas as guerras, atentados e conflitos deste mundo insano, vibrarmos com os jogos realizados em estádios apinhados de torcedores. De todas as raças, cores, credos e amores, unidos em torno de um amor comum: o esporte. Este sim, a maneira civilizada de exercer a lei do mais forte. MAIO DE 2014 |

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copa do mundo

Ao fundo, o conforto dos torcedores no independência num dos jogos da Copa.

Dinheiro e dias fugazes A festa da Copa durou, para nós, apenas nove dias - de 25 de junho a 2 de julho. O jogo inaugural, no dia 25 de junho, teve 7.400 pagantes e outro tanto de caronas. A renda foi um desastre (principalmente para a Prefeitura): apenas CR$232.000,00 (uns 12.500 dólares). Iugoslávia 3 X 0 Suíça. O segundo foi no dia 29 de junho – Estados Unidos 1 X 0 Inglaterra. Público pagante: pouco mais de 11 mil torcedores. Público presente: mais de 36 mil, com a inclusão de uns 25 mil chepeiros (a gíria da época para classificar os caroneiros). A renda, outra 44 materiaprimarevista.com.br

decepção: Cr$310.000,00 (quase 17 mil dólares). As bilheterias não comportaram a avalanche do povão – a Prefeitura decretara feriado municipal, a partir do meio-dia – que superlotou as arquibancadas, no peito e na raça. Ainda mais que o preço único do ingresso era pesado para os nativos: Cr$30,00, correspondentes a quase 14% do salário mínimo vigente (em dinheiro de hoje, quase 90 reais). Finalmente, o terceiro e último jogo: Uruguai 8 X 0 Bolívia. A pior das rendas: CR$160.720,00 (8.500 dólares), oriundos de pouco mais de 5.400 pa-

gantes. E o triplo de chepeiros. Assim, por esses números, a Copa ficou bem cara para nós. Somadas as três rendas, tivemos de repassar à FIFA CR$798.000,00 (42 mil dólares). Em 1950, isso era muito dinheiro. Mas, na totalização da Copa, pelo menos o Brasil levou vantagem: a renda bruta de todos os jogos chegou a Cr$36 milhões (quase US$20 milhões); as despesas somaram CR$16 milhões (US$8,5 milhões). Como era verde, inocente e esmolambado o nosso cruzeiro (a moeda, não confundam, por favor).


Dinheiro e dias fugazes Mas, pelo sim, pelo não, nossa BH também lucrou com a Copa. Principalmente pelas boas e institucionais sobras que pegamos: > a cidade e o Estado entraram definitivamente no mapa do mundo, com a repercussão do espetacular naufrágio inglês no Independência. > O conjunto arquitetônico da Pampulha deixou boquiabertas as delegações e os turistas que apareceram por aqui. Exceto a delegação inglesa, que só conheceu o aeroporto; as mansões da Morro Velho, em Nova Lima; e o estádio. Povinho metido a besta. > A invasão da redação dos Diários Associados pela delegação uruguaia. Os belicosos vizinhos do sul, furiosos com o tom de deboche do noticiário do Estado de Minas sobre a vitória contra a Bolívia, entraram uivando na redação, distribuindo socos, pontapés e demais delicadezas típicos de um povo birrento e brigão. > Os colegas do Estado de Minas carregaram a mão em cima dos uruguaios como uma raivosa revanche, por causa de um escandaloso (para

a época) acontecimento. As garotas belo-horizontinas soltaram os espartilhos e partiram para um acintoso corpo-a-corpo com os jogadores uruguaios, em intermináveis e sedutoras romarias ao Grande Hotel. Os futuros campeões do mundo se portaram à altura, tomando o langoroso pugilato das meninas. A tal ponto que o colunista Gato Félix (pseudônimo do escritor Moacyr Andrade) ralhou feio com as garotas. Vejam um trecho da crônica que ele escreveu, no Diário da Tarde, sobre a súbita e inédita liberalidade das nossas graciosas moçoilas: ´´Foi muito reparado aquele derriço de vocês pelos jogadores uruguaios, minhas azougadas patrícias. Explica-se a cordialidade. É até bonita. Faz parte da política da boa vizinhança. Cordialidade e amabilidade são uma coisa, assanhamento é outra. É claro que os uruguaios não haviam de repudiá-las. Estava de colher, pois vocês iam procurá-los, rir para eles, requestando-os... Mas, a verdade é que vocês são uma pe-

Time dos EUA, protagonista da maior zebra do futebol mundial.

quena, insignificante parcela de nossa sociedade. Entretanto, eles, visitantes e estrangeiros, não sabem disso e podem pensar que todas as outras são iguais. Algum poderá ter escrito em seu caderno de apontamentos de viagem esta impressão: ´´Son tan calientes las muchachas de Belo Horizonte que iban a conquistarnos - mire usted! - a la puerta del hotel´´. > A devastação do estoque de cervejas e demais biritas do Montanhês, que abriu seu dançante e democrático salão para todas as delegações. Com ênfase para os norte-americanos, que se deslumbraram com as esfuziantes e hábeis dançarinas e entornaram garrafas de uísque (já decentemente batizado naqueles tempos) em quantidade industrial. > O estádio Independência, que se transformou no principal do Estado, e serviu de alicerce para o futuro lançamento do futebol mineiro ao espaço mundial, o Mineirão. O Independência foi, como já se disse, produto das humildes exigências, num tempo em que o mundo ainda pensava as feridas da carnificina da II Grande Guerra. E, para finalizar, o dinheiro ainda não tinha, com o seu poder deletério, entrado na seara que transformou o futebol na indústria mais poderosa da terra. Nem a indústria automobilística, nem a indústria do turismo, nem o tráfico de drogas podem competir com o outrora pudico e lúdico esporte bretão. MAIO DE 2014 |

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Os meninos admirados Para encerrar este papo, já bastante cumprido, vou tentar resumir o que foi a Copa de 50 no seu lado puramente esportivo. Principalmente o ápice que foi, para mim e o Paulo Lott, assistir, in loco, a maior zebra de todos os tempos do futebol mundial. Paulo, um conterrâneo completo: nascemos na mesma rua de São Miguel y Almas de Guanhães. No mesmo ano (vocês acham que vou dizer?). Fizemos o grupo escolar na mesma turma. E viemos no mesmo ano estudar (Curso Clássico) e trabalhar em Belo Horizonte. Este amigo de infância, que me suporta até hoje, fraternalíssimo, pelos caminhos da vida, participou comigo – e mais uns 35 mil mortais sortudos – do mitológico espetáculo daquela tarde de 29 de junho de 1950, o lendário jogo Inglaterra X Estados Unidos.

Data em que dividimos as toscas arquibancadas do recém-inaugurado Independência com cavacos, pedaços de tijolos, montes de areia e respectivos pedregulhos, evidências empoeiradas típicas das construções inacabadas. De um lado, os ingleses. O English Team. Uma seleção que nunca havia disputado uma Copa. Achavam os moradores das ilhas da Grã Bretanha – e, com eles, os escoceses, galeses e irlandeses – que não podiam descer do seu pedestal de autoproclamados reis do futebol para jogar com as plebeias seleções de outros países. Tanto que usaram o seu campeonato mundial exclusivo (o Home Championship) para disputar as eliminatórias para a Copa de 50 e classificar duas seleções. Tão irritantemente convencidos que a Escócia, por ter ficado em 2º lugar, não veio disputar a Copa

aqui no Brasil. Uma boa maneira de disfarçar a mediocridade e a empáfia. O English Team se concentrou nas mansões da Cia. de Morro Velho, em Nova Lima. Como já haviam vencido o Chile (2X0) no Maracanã, quatro dias antes, e sabendo que o próximo adversário seriam os analfabetos norteamericanos, nem se deram ao trabalho de treinar. Estes, não menos conscientes da sua insignificância (perderam para a Espanha, na estreia, por 3X1), nem treinaram. O único esporte que praticaram, com especial dedicação, foi o levantamento de copos. Não só no Grande Hotel, cuja adega dizimaram, como também nas pistas de Montanhez. Ali, se deslumbraram com as batidas do samba e de limão, o uísque batizado (e crismado) e o molejo irresistível das bailarinas.

Uma lenda em 90 minutos O Independência, lotado até as grimpas. Incluído o Morro do Pitimba, populosamente inaugurado naquela tarde. Lotação que se completou pela total balbúrdia dos portões, praticamente despedaçados pelo cardume de torcedores que invadiu o Horto (era feriado municipal, pós-meio-dia). Os ingleses entraram em campo sem conceder um mínimo olhar para as arquibancadas. Já os americanos como o autêntico ajuntamento de pernas de pau que eram. Por exemplo: o goleiro, Borghi, era motorista de uma agência funerária. O centroavante Gaetjeans foi ´´laçado´´ às pressas no Brooklin para compor a delegação. Os irmãos John Souza e Edward Souza jogavam de 46 materiaprimarevista.com.br

brincadeira, muito orgulhosos de pertencer à família do compositor, maestro e comandante da banda dos fuzileiros navais americanos, John Philip Souza, o descendente de imigrantes portugueses autor de quase todas as marchas e hinos patrióticos do povo americano. Jogo começado, a superioridade dos ingleses era esmagadora. Os jogadores da rainha fustigavam os americanos de todo jeito, principalmente via aérea, característica do futebol inglês desde a invenção do futebol, no canteiro de obras dos jardins da Babilônia. Os americanos, já prevendo as futuras viagens ao cosmo, mandavam chutões e balões para o espaço em todas as órbi-

tas possíveis. Lá pelos 38 minutos do primeiro tempo, no único ataque digno desse nome, o ponta-direita americano cruza a bola para a área. O atacante (?) Gaetjeans haitiano naturalizado americano, estudante e garçom em Nova York – parte, parte por instinto, desembestado para a área. Área onde o goleiro Williams e o beque Alf Ramsay (futuro treinador da seleção) sofrem um surto hamletiano: ´´Ir ou não ir para a bola?´´. Hamlet que se dane, pensou Gaetjeans, escorregando no gramado e casquinhando a bola com seu cabelo crioulo das Caraíbas, mandou leonor lá no cantinho, onde a cotovia inglesa dormia. Bola no filó imperial: EUA 1 X 0 Inglaterra.


Williams, goleiro da Inglaterra, parecia não acreditar no gol dos EUA.

A zebra galopa Terminado o primeiro tempo com esse espantoso 1 x 0, os comentários nas arquibancadas eram unânimes: “Os americanos não vão aguentar. Tão fulminados. Vão levar o maior fumo, a maior tunda”. Então vieram os 45 minutos mais longos e dramáticos da historia do futebol. Tempo em que os americanos aprenderam até a faze r cera, eles que, em matéria de futebol, nem sabiam a tabuada de somar. O beque direito, por exemplo, um tal de Charlie Colombo, lembrou-se botar a mão na bola (ele era profissional daquele futebol grosseiro deles, jogava de quarterback); e lembrou-se tão bem que, a cada tiro de meta – e os bateu às

dezenas -, deixava uma das luvas cair, levando uma eternidade para calçá-la. Com os ingleses sapateando de desespero. Aí incluído o então considerado o maior ponta-direita do mundo, Stanley Matthews, que foi poupado da humilhação de jogar contra o bando de pernasde-pau americano. E como, naqueles tempos, não podia haver substituição, o craque assistiu, surrando o traseiro num plebeu banquinho de angico, ao naufrágio da esquadra inglesa. Quando o jogo acabou, a torcida invadiu o campo e carregou os espantados e incrédulos vencedores em triunfo. A zebra foi tão gritante (ou melhor, galopante) que o New York Times recusou-se a publicar a notícia da vitória,

achando que era gozação de algum jornalista bem-humorado. Afinal de contas, a imprensa americana só mandara um jornalista para cobrir a Copa. Mandou, não, ele veio por conta própria, já que a direção do jornal onde trabalhava, o Saint Louis Dispatch, considerava um desperdício de dinheiro cobrir uma copa do mundo de um esporte desconhecido por nove entre dez americanos. Os ingleses só se recuperaram do espantoso desastre na Copa de 1966. Que conquistaram bem ao jeito deles, no mais puro estilo Francis Drake. Ou seja, vencendo os alemães com gol roubado e coisas mais. Já os americanos evoluíram alguma coisa, não se recusando a espalhar zebras por aí, o que é coisa típica de time pequeno. MAIO DE 2014 |

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Uma odisseia tropical A Copa de 1950 foi a mais original, estranha e mitológica de todas. Veio carregada de todos os ingredientes que a tornaram lendária, mítica, inesquecível. Foi a primeira realizada após a II Grande Guerra, já que a carnificina impossibilitou a realização das Copas de 1942 e 1946.

participaram: Bolívia, Brasil, Chile, Espanha, Estados Unidos, Inglaterra, Itália, Iugoslávia, México, Paraguai, Suécia, Suíça e Uruguai. > Quatro seleções classificadas desistiram de participar: a Índia, porque a FIFA não permitiu que seus jogadores atuassem descalços; a Escócia, porque só tirou o 2º lugar nas eliminatórias disputadas no Reino Unido; a França, chamada para substituir os escoceses, recusou o convite, porque não aceitou jogar em Recife (longe demais), cidade-sede de sua chave; a Turquia apenas mandou dizer que não estava ´´a fim´´ e ficou quieta em casa. > Alemanha e Japão nem participaram das eliminatórias. Foram proibidos de competir, por causa das atrocidades da II Guerra. > A Itália participou como campeã da última copa disputada (França, 1938), mas só veio porque a FIFA pagou todas as despesas de viagem e hospedagem. > As seleções foram divididas em quatro grupos: 1 - Brasil, Iugoslávia, México e Suíça; 2 - Chile, Espanha, Estados Unidos e Inglaterra; 3 - Itália, Paraguai e Suécia; 4 - Bolívia e Uruguai.

> O país-sede não poderia ter sofrido qualquer impacto direto e negativo da II Grande Guerra. Por isso, o Brasil foi a sede em 1950; a Suíça, em 1954; e a Suécia (que sofreu arranhões superficiais no conflito), em 1958. A partir daí, instituiu-se um rodízio, que vigora até hoje.

> Convidada de última hora, a Bolívia aceitou depressinha, mas viajou muito para jogar pouco, apenas uma vez. Sua chave só tinha duas seleções: ela e o Uruguai. Depois de levar uma balaiada de 8X0 (aqui em BH), arrumou as malas e foi cuidar de lhamas e alpacas nas grimpas dos Andes.

> As cidades-sede no Brasil foram Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.

> A chave da Itália foi para São Paulo, por causa da grande colônia italiana. O jogo de estreia (2x3 para os suecos) teve a presença de mais de 40 mil torcedores, no Pacaembu.

> Das 16 concorrentes previstos pelo regulamento, apenas 13 seleções

> Para ser campeão, o Uruguai disputou apenas quatro jogos: 8x0 Bolí-

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via (primeira fase); 2 x 2 Espanha, 3x2 Suécia, e 2x1 Brasil (quadrangular final). > Brasil e Uruguai não disputaram a finalíssima e, sim, o último jogo do quadrangular com a Espanha e a Suécia. O Brasil chegou a esse último jogo com quatro pontos (duas vitórias – 7x1 na Suécia e 6x1 na Espanha), e o Uruguai com três – empate com a Espanha (2x2) e vitória contra os suecos (3x2). > Com o Maracanã entupido por mais de 200 mil torcedores, segundo diz a lenda, o Brasil entrou precisando de um empate. E fez o primeiro gol logo no começo do 2º tempo. Depois, Schiafino e Gighia escreveram o final da história. Que dói até hoje, tragédia que nenhum penta, hexa ou heptacampeonato conseguirá apagar. > A derrota do Brasil, na final com o Uruguai, motivou manifestações e desesperos de todo o tipo. Com destaque para os jornalísticos. Entre eles, a genialidade hiperbólica de Nelson Rodrigues, antológica: “Cada povo tem sua irremediável catástrofe nacional, algo assim como Hiroshima. A nossa catástrofe, a nossa Hiroshima, foi a derrota frente ao Uruguai, no Maracanã”. (*) O grande jornalista Márcio Prado assistiu aos jogos da Copa do Mundo de 1950 em Belo Horizonte. Mais que isso, ele foi um dos torcedores da seleção dos Estados Unidos na sua inimaginável vitória sobre a Inglaterra por uma a zero, no recém-inaugurado estádio Independência. Ele se preparava para ver a segunda Copa do Mundo em Belo Horizonte, mas foi traído pelo seu coração e nos deixou em oito de janeiro deste ano. O presente texto são suas recordações daquele absurdo torneio que nos legou um feito ainda mais devastador: a derrota do Brasil para o Uruguai, na partida final, realizada no Maracanã, em 16 de julho de 1950.


Emoção não tem idade Janeiros demais, tempos idos, tardes antigas, memórias esfumaçadas. Espero que vocês consigam medir a emoção vivida por mim e alguns torcedores, que pisaram o gramado do novo Independência, na manhã de 14 de março de 2012. Isso mesmo, quase 62 anos depois da Copa do Mundo, que tivemos a honra e a glória de assistir, em junho de 1950. Foi uma visita promovida, em tom de homenagem, pelo secretário de Estado Especial da Copa do Mundo (Secopa), Sérgio Barroso, reunindo algumas (com perdão pela prosopopeia) testemunhas oculares da História, que viram, entre outros lendários acontecimentos, a vitória dos EUA contra a Inglaterra, na tarde de 29 de junho de 1950.

Esqueci-me, como um repórter de meia tigela, de anotar o nome de todos os presentes. Mas guardei na memória e registro aqui as presenças do meu companheiro da arquibancada em 50, Paulo Lott (esse povo de São Miguel y Almas de Guanhães está em todas); do presidente do nosso time de coração, o americaníssimo Afonso Celso Raso; dos ex-jogadores do Deca, Amarelinho e Roberto Castro; do (segundo ele próprio) ex-gandula, flanelinha, vendedor de picolé, jogador e juiz Antônio William Gomes; do aposentado Elmo Cordeiro; do advogado Salvador Velloso (que veio à homenagem de maca); e de algumas torcedoras, entre elas a sra. Hermínia Veríssimo Araújo. Esta, numa época em que as mulhe-

res eram raríssimas nos estádios, não saía do Independência – afinal, não podia deixar de aproveitar a vizinhança do então pomposamente chamado de Gigante do Horto. E, quase me esquecia, do doutor José Salvador Silva, que também esteve nas arquibancadas Reencontramos em 1950, mas não pode comparecer em 2012, ocupado na construção do Mater Dei do antigo Mercado Distrital da Barroca. Enfim, foi isso, ali no Independência, a História, a nossa Penélope, que continua tecendo e tecendo, incansável, aquele mesmo tapete verde, onde vivemos os sonhos e as ilusões da juventude. Tempos que não voltam mais. Mas que trazem a esperança de os estádios voltarem a ser o que foram para nós: templos onde celebrávamos, nas tardes de domingo, a paixão pelo nosso time, o amor pelo esporte, e o convívio fraterno e civilizado com os nossos irmãos. Queira Deus! (MRP)

Visita ao novo Independência dos torcedores que assistiram ao jogo Inglaterra x EUA.

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trinta e nove ideias para um homem realizar pelo menos uma vez na vida João Paulo Coltrane

O grande escritor argentino Jorge Luís Borges vem sendo acusado, desde o começo da internet, de ser o autor de um poema comovente ´´Instantes´´ -, em que lamentaria não ter feito muitas coisas nos tempos da infância e da juventude. Andar descalço numa tarde de chuva, por exemplo, apesar dos seus matusalênicos 80 anos. O poema é tão lacrimoso e piegas que a viúva do escritor, a não menos argentina Maria Kodama, entrou na justiça para provar, com fartas evidências materiais e literárias, que Borges jamais escre-

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vera tamanha pasmaceira lacrimal. Os enxundiosos verbos pertencem à lavra da americana Nadine Stair, que os cometeu numa antologia editada pela Bantan Books, em 1987. O poemastro saiu ao lado de uma caricatura de Borges, daí a confusão. Assim, em mais um desagravo ao genial escriba hermano, sugerimos, hoje, às nossas distintas leitoras e ilustres leitores, o cometimento real de singelas doideiras pelo menos uma vez na vida. Enfim, se um de vocês cometer umas três ou quatro delas já será bom. Vamos lá:


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viver em outro país Provoque um sumiço básico. Vaze. Escafeda-se rumo ao desconhecido. Escolha, de preferência, um lugar, no mínimo tranquilo, para mergulhar no anonimato. No passado, para conhecer o mundo, as pessoas entravam na marinha; ou iam estudar no exterior; ou até se alistavam na Legião Estrangeira. Hoje, estão mais preocupadas com o paredão do BBB. Enfim, mesmo que você se lasque, dê no pé.

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faça alguma coisa assustadora Enfrente seus medos mais terríveis, aqueles que estão agarrados no fundo da sua alma. Pare de evitá-los. Por exemplo, na festa de aniversário da empresa, peça a palavra e fale, em estilo Felipão Scolari, tudo o que você pensa sobre o seu chefe imediato. Mas só ouse tamanho gesto se já tiver uma proposta de novo emprego no bolso.

quebre uma vidraça Principalmente, se você, nos tempos do grupo escolar, não tenha quebrado uma vidraça da sua escola. Com o roteiro de fuga previamente preparado, pegue uma pedra, menor que a do Drummond (aquela que estava no meio do caminho), e bombardeie a janela da escola mais próxima. Se for preso, alegue um ataque de nostalgia crônica.

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dê uma de cozinheiro Tente transformar ingredientes grosseiros de uma receita, tipo grãos de feijão e arroz e pedaços de carne em um prato saboroso. Melhor ainda, convide a namorada para compartilhar a refeição. Uma excelente maneira de você aquilatar os sentimentos da dona a seu respeito. Se disser que gostou, ponha-a porta afora. Se não, sugira que ela vá pra cozinha e faça o rango. Bom apetite!

tome um banho de loja Em vez de dar o dinheiro ao seu filho para comprar o sexto par de tênis, ou mais outro vestido de grife para sua filha gastadeira, vá a uma e renove seu guarda roupa.

Cuide de um infante da sua família Se você entrou já na gloriosa fase de solteirão irremovível, ofereça-se para tomar conta do seu sobrinho mais novo (o Rafael, dito Rafinha, um capeta banguela de seis anos que, graças a Deus, (ainda) não anda armado). Cometa essa loucura, enquanto seu irmão e a mulher (dele) vão assistir ao show da dupla Algarismo & Romano. Ao se cansar de lidar com o belzebu-mirim, dê-lhe uma dose (dupla) de conhaque e bote-o pra dormir. O que você também deverá fazer, imediatamente.

cometa um poema Para acabar esse namoro interminável, em que a dona está insistindo nessa conversa de morar juntos, rememore seus tempos de ginásio, rabisque um poema de amor e ofereça-o para a apressada donzela. E saia logo correndo para o boteco mais próximo, pois a moça fez curso de Letras e sofrerá um violento choque gramatical, tal o grau de seu analfabetismo literário. MAIO DE 2014 |

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venda tudo o que você não precisa Dê uma geral no seu lar doce lar e venda tudo que puder. Você vai descobrir a fortuna que gastou em traquitanas idiotas e quinquilharias estúpidas. E contemplar as prateleiras desocupadas com uma inusitada sensação de vazio e de riqueza (espiritual)

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cante em público Numa churrascaria, tome o microfone da incômoda dupla sertaneja que está zurrando nos seus ouvidos e solte a voz. Cante o ´´Menino da Porteira´´ e seja posto pra fora em estado de absoluta felicidade – o garçom se esqueceu de cobrar a conta.


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jogue uma partida de xadrez Baixe na Praça Sete e desafie um daqueles aposentados folgados para uma partida de xadrez. Após a surra, alegue que seu adversário conhecia as descaídas do tabuleiro, rosne um ´´assim não vale´´ e volte pra casa com toda a humildade franciscana que sua mãe lhe ensinou. Afinal, até a ignorância enxadrística tem limite.

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ofereça seu lugar no ônibus Mas que seja para uma representante da terceira idade. Para não cair na conversa daquela dona gostosíssima, que, com os cabelos úmidos, entrou no ônibus lotado e reclamou: ´´Este ônibus não tem um cavalheiro pra dar o lugar para uma senhora grávida?´´. Um passageiro desconfiado, ao ver aquele monumento em pé, perguntou: ´´E a senhora está grávida há quanto tempo?´´. Ao que a dona deu uma olhada no relógio de pulso e informou, com um sorriso satisfeito: ´´Ah, uns 45 minutos!´´.

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apareça no velório de alguém que você nunca viu na vida Você não terá que chorar. Você vai apenas assentar-se próximo do caixão, fingir um ar desconsolado e, uns 40 minutos depois, cumprimentar a viúva. Dependendo das circunstâncias, você poderá até lhe aplicar até um abraço mais, digamos, aconchegado.

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faça uma promessa e mantenha Seja qual você escolher, que seja, simultaneamente difícil e óbvia. Deixar de ir ao futebol por um ano (também torcer pelo Atlético ninguém merece, né?); deixar de beber por três semanas; ´´praticar´´ celibato por três meses; ficar calado três horas seguidas.

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encher a barrigona Algumas pessoas gostam de comida mineira, outras preferem a chinesa. E algumas amam a cozinha baiana. Mas todos adoram pizzas, bruschettas, panacottas, risotos e lasanhas. Assim, pinte num restaurante italiano e coma tudo o que puder, como se fosse sua última refeição antes de ser fuzilado na manhã seguinte.

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produza e dirija um filme Nada de videozinho pro You Tube. Mas filme mesmo, com história. Nele, você vai aprender duas coisas: falhará na primeira tentativa; e descobrirá o tempo enorme que se gasta para fazer o monstrengo, mexendo com som, iluminação, câmeras, atrizes temperamentais etc.

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fabrique cerveja, vinho ou cachaça Esse trabalho faz você apreciar a bebida com outro paladar. Além disso, fará você pagar, com mais generosidade, 30 reais por uma garrafa de merlot chileno, ou 60 mangos por um Johnny Walker, ou 50 justos reais por uma Havana. Mas não se meta a produzir uísque falsificado, pois nem todo mundo tem tolerância ao iodo. Ainda mais se for nacional.

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reconheça a realização dos outros Assuma sua insignificância, e reconheça que muitos fizeram mais do que você mesmo poderia esperar de si mesmo.

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mergulho submarino Tente, será uma experiência encantadora. Se você não morrer afogado, ao sair da água se sentirá, com todo o respeito, que nem a Ursula Andress chegando à praia com aquele biquíni celestial e a faca na cintura (de vespa). E recordará, para sempre, a belíssima paisagem do fundo do mar.

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aprenda a tocar um instrumento musical Piano, violão, clarinete, trompa, cítara, qualquer um serve. Mas, jamais em tempo algum, tente aprender a tocar acordeom em domicílio. A não ser que tope enfrentar uma jihad dos vizinhos, que promoverão a guerra santa para varrê-lo da face da terra. Com sanfona e tudo.

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hospede-se na suíte imperial de um hotel Bem chique, onde você possa tirar onda de novo rico. Exija café, digo, breakfast na saleta da suíte; jornal enrolado em plástico leitoso; camareiras no mínimo nórdicas; banheiras romanas, etc. Jamais cumprimente o porteiro efusivamente, abraçando o uniformizado profissional como se ele fosse um marechal. Os galões dele são de mentirinha, sabia?

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ordenhe uma vaca. Beba o leite Lembre-se de suas origens campestre: meta as mãos no úbere na mulher do boi, puxando-o delicadamente para baixo. E ouça como música divina o som do líquido pipocando no balde. Em seguida, beba o leitinho fumegante. Mas, não tire, nem beba leite de vaca recém-parida. O leite dela será puro colostro, ótimo composto para a imunidade dos bezerros. Já que, pra todos os efeitos, você não é um bezerrão, precate-se.

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construa um muro Mas não venha com projetos faraônicos, tipo muro de Berlim. Pegue pá, tijolo e argamassa e faça uma singela mureta, separando seu lote daquele vizinho idiota, que cria o cachorro mais cagão do hemisfério sul e arredores.

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tire alguém do buraco Não se trata de empréstimo, que, quando oferecido, é sempre gesto bonito. Ofereça orientação, faça-se presente. Muitas vezes, a pessoa com problemas – dinheiro, drogas, qualquer que seja – simplesmente não consegue enxergar o caminho. Eles necessitam apenas do som da sua voz e do calor humano do seu coração.

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tenha um animal de estimação Se for no seu apartamento, pode ser um papagaio ou um pássaro que voe por todos os aposentos a casa. Em sítios ou fazenda, quem sabe um cachorro? É uma forma de contato carinhoso com a natureza.


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viaje de moto até Porto Seguro

Mas vá pela Serra do Cipó, passando por Diamantina. Percorra com o vento na cara toda a imensa serra que desemboca em Araçuaí. O movimento de automóveis é quase ausente, tranquilidade pura. Depois, acompanhe o Rio Jequitinhonha até Belmonte, onde ele deságua no mar. É viagem para três dias em contato direto com o solo, onde, provavelmente, você levará alguns tombos. Sem problemas, você merece.

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pegue um carro e vá do Oiapoque ao Chuí Tem jeito melhor de conhecer esse imenso país? São muitos os caminhos. Leve até a família. Torre a grana nas estradas de terra e nos românticos vilarejos deste imenso país. Enfim, gaste com você, sua mulher e a filharada jovem, ao invés de guardar dinheiro para ser dilapidado por genros, noras e parasitas afins.

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jogue rugby Trombe com rapazes 38 quilos mais pesados que você, fuce a grama, encharque-se de suor, ouça grunhidos pré-históricos, senta seu o crânio se chocar com o inimigo... tudo isso explodirá seu depósito de adrenalina. E os ´´entendidos´´ chamam essa carnificina de jogo inteligente e estratégico. Seja o que Deus quiser, pois o que a pancadaria tem de melhor é a cerveja do final, sempre acompanhada de mercurocromo, ataduras, esparadrapos e emplastro Sabiá.

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deixe crescer a barba, mesmo que grisalha E sinta-se realizado se alguém chamá-lo de Bin Laden. Ou de Pai João. Não se esqueça de que o corretíssimo Dom Pedro II usava uma barbona de dar complexo em lobisomem e mula-sem-cabeça.

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viva sob um nome falso em algum lugar muito longe Como o deserto da Jordânia. Ou as montanhas da Mongólia Exterior. Se escapar com vida (morto não vale a pena, né?), volte e se transforme no herói da hora, contando (e exagerando, óbvio) as suas aventuras.

pague por sexo Para provar aquelas histórias de suas conquistas na juventude, informe à roda que, no último fim de semana, você pagou por sexo pela primeira vez. Sem barganha, nem pediu troco (afinal, pedir troco pra 20 pratas seria o cúmulo, hein?).

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evite mentir durante um dia inteiro Sabemos que, no seu caso, será impossível. Mas não custa tentar. Ou seja, minta para você mesmo.

supere o seu pai na maior habilidade dele Mas faça isso como uma homenagem e não um desafio.

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entre em contato com aquele velho amigo sumido E faça tudo para reatar a velha amizade. Você já notou que os amigos dos tempos de grupo escolar, colégio e universidade são os que mais bem guardados nos escaninhos do seu coração? Você recuperará, de graça, a juventude perdida.

tire férias sem fazer reserva, sem guia e sem rumo E suma para a Patagônia ou região semelhante. Você viverá a vida como ela é: sem agenda e nenhuma certeza do que acontecerá no dia seguinte. Mas, leve roupas de frio. Arriscar é bom, mas não exageremos.

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beije carinhosamente seu tio Mesmo que ele seja um sovina e tenha recusado lhe emprestar (doar seria o termo mais correto) a grana pra trocar de carro.

mande fazer um terno e sapatos sob medida Se a grana não der, pelo menos compre um terno e um par de sapatos decentes num brechó. E ponha uma etiqueta de grife no bolso interno do paletó. Giorgi Armani continua na onda.

coma verduras que você mesmo plantou E, com pinta de ecólogo do Green Peace, mastigue gostosuras que fazem a nossa felicidade gustativa, como rabanete, brócolis, maxixe e delícias congêneres. Esse será o primeiro passo para entrar de sola na luta para salvar a ecologia deste planeta bichado. MAIO DE 2014 |

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entre num piquete na Praça Sete E grite, sem medo, a palavra de ordem mais azarada de toda manifestação: “O povo unido jamais será vencido!”. E prepare-se: essa frase vem sempre acompanhada de cassetete, cachorros latindo e bombas de gás lacrimogêneo.

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acabe a relação com uma mulher, sem outra nos bastidores Ao menos uma vez na vida, deixe de ser canastrão e comporte-se como o cavalheiro que você nunca foi.

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tudo o que você queria ler numa revista inteligente, mas nunca publicaram (*) joão paulo coltrane

Cientistas garantem que reservatórios de hidrelétricas ficaram vazios desde que o meteorologista Ruibran dos Reis saiu da Cemig ocupados com a falta de chuvas e com a possibilidade de apagão, lamentam a aposentadoria daquele visionário e estão iniciando um movimento denominado #VoltaRuibran, que tem o propósito de reinstalá-lo num daqueles grandes gabinetes da estatal mineira. Agora num cargo de recrutamento amplo. Segundo o documento, que já conta com 650 mil assinaturas e teria apoio irrestrito da Federação da Agricultura, Ruibran é um profissional justo, criativo e que pensa carinhosamente no turismo sempre fazendo nevar ou espalhando muito frio nas cidades do Sul de Minas. Circula no Facebook e em outras redes sociais a suspeita de que os reservatórios das hidrelétricas mineiras começaram a se esvaziar desde que o meteorologista Ruibran dos Reis saiu da Cemig. “Ele é um daqueles homens que faziam chover. E não só isso: ele regulava as trovoadas e sabia dimensionar as tempestades, de modo que os castigos da natureza fossem suportados igualmente por todos.

Sem discriminações ou perseguições ecológicas”, segundo os posts. Conhecido pela exatidão das suas previsões, Ruibran ficou mundialmente famoso pela previsão do Dilúvio (que durou 40 dias e 40 noites) e pela sua insistência em convencer Noé a construir sua heroica Arca. Fazendeiros do norte de Minas e industriais de toda parte, pre-

Um movimento paralelo defendeu a sua substituição por Mãe Diná, aquela vidente que jamais errou em suas previsões, desde uma simples garoa nos cafezais de Três Corações ou tempo fechado no aeroporto de Confins – o que, por sinal, segundo seus construtores, somente deveria ocorrer de 400 em 400 anos. Mas, infelizmente, ela morreu agora na primeira semana de abril, e o movimento perdeu substância. MAIO DE 2014 |

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SPECULATION NEWS

Mantega quer lucrar com a campanha anti-racismo e deve aumentar imposto sobre bananas Um jogador de futebol de pele escurinha comeu uma banana atirada por um adepto extremamente racista da equipa adversária e lá começou mais uma campanha idiota nas redes sociais. Milhões de brasileiros em todo o mundo com a hashtag #SomosTodosMacacos postaram uma foto comendo uma banana contra o racismo. Vendo a repercussão do caso, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, reuniu- se com sua equipe logo após o jogo Villarreal-Barcelona e aprovou de imediato o aumento do ICMS da banana em 50%. Minutos depois o ministro recebeu um apelo do governo de Minas, tentando convencê-lo a abrir uma exceção para a banana do Projeto Jaíba, que é gostosa, tem vitamina e faz crescer. Mas, em nome de uma inexplicável isonomia tributária, a ideia foi recusada.

Alexandre Kalil mistura-se a peregrinos em Portugal para saber se o terceiro segredo de Fátima é a data em que o Galo será campeão do mundo O presidente do Galo, Alexandre Kalil, foi visto na procissão do Adeus, no Santuário de Fátima, em Portugal, acompanhado do seu diretor de futebol e de Cuca, o extreinador do clube. O evento religioso marca a devoção dos católicos à aparição de Nossa Senhora a três crianças portuguesas, Lúcia, Francisco e Jacinta, em 1917. As três crianças afirmaram, na época, terem testemunhado a aparição de Nossa Senhora de Fátima, que lhes contou três segredos, sendo que o último jamais foi revelado por elas. Kalil foi ao santuário informado de que, finalmente, o segredo seria revelado a um atleticano presente à perigrinação (ele mesmo) e que se tratava da data em que o clube seria finalmente campeão do mundo. 60 materiaprimarevista.com.br


Scolari nega sonegação fiscal em Portugal e remete explicações para a sua contabilista, a Nossa Sra. do Caravaggio Segundo a imprensa portuguesa, o treinador da seleção brasileira, Luis Felipe Scolari, o Felipão, está sendo investigado por sonegação fiscal naquele país. Os jornais informaram que o treinador, ao tomar conhecimento da acusação, ligou imediatamente para a ministra da Fazenda, Maria Luisa Albuquerque, para se explicar. “Minha contabilista, Nossa Senhora do Caravaggio, entregou os papéis e pagou tudo certinho, certinho, até porque eu estava interessado em ganhar um Audi no sorteio promovido pelo Ministério da Fazenda, com o propósito de aumentar a arrecadação de impostos. Um abraço e a gente se vê na Copa”, concluiu.

Pimentel já pediu votos a 273 facções do Partido dos Trabalhadores. Falta se reunir com 217 tendências do PC do B O ex-ministro Fernando Pimentel, que inicia sua campanha para o governo de Minas, lamenta, mais uma vez , que a esquerda só se une na cadeia. Desde que iniciou a busca de adesões para o seu projeto eleitoral, já pediu voto a 273 facções da sua agremiação, o Partido dos Trabalhadores e ainda se encontra muito distante de alcançar o número total de 758 tendências registradas até hoje. “O problema são as facções clandestinas e também aqueles líderes que militam em três ou quatro tendências simultaneamente, pois não gostam de MAIO DE 2014 |

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SPECULATION NEWS futebol e passam a noite discutindo política em botequins vagabundos. De cada conversa surge uma facção” disse com aparência de desânimo. Segundo um dos seus aliados, nenhuma outra facção será considerada além daquelas contabilizadas nos arquivos dos diretórios espalhados pelo estado até a presente data. Portanto, estarão excluídas da tão sonhada divisão de cargos na administração estadual. “Sim, con-

tinuaremos o partido da boquinha, mas não para todos”, garantiu. Até o fechamento desta edição, exatos 1.758.326 militantes se candidataram aos cargos de recrutamento amplo na Cidade Administrativa, enquanto outros pleiteiam a criação de vagas em autarquias e empresas públicas. Só na Cemig se reivindica a criação de 750 mil vagas, das quais 300 mil para acendedores de lampiões, embora os

postes tenham iluminação elétrica desde o século passado. A mesma ambição por cargos se repete no aliado PCdoB. De certa forma, há uma alívio com a ausência do PSTU e do PSOL nessa frente. O maior número de pretendentes, porém é do PMDB. Até agora, Pimentel já pediu apoio dos stalinistas, maoistas, anarquistas, titoístas, revisionistas, trotsquistas, hedonistas, eletricistas, narcisistas, ecologistas, reformistas e masoquistas.

Penitenciária Nélson Hungria vai cobrar café da manhã de turistas interessados em conhecer Marcos Valério falsificação de campanhas publicitárias, formação de Caixa Dois e compra de parlamentares. Segundo uma fonte Secopa, os britânicos se mostram desamparados nessas atividades, desde a recente e lamentada morte de Ronald Biggs, o famoso ladrão do trem pagador inglês.

Um numeroso grupo de turistas ingleses despertou no secretário Tiago Lacerda, da Secretaria Especial da Copa, o interesse para um novo e rendoso negócio a ser explorado durante a Copa do Mundo, numa parceria Público-Privada. A autoridade mirim (é filho do prefeito Marcio Lacerda, de Belo Horizonte) teria sido procurado por diplomata britânico interessado em agendar visitas

de seus compatriotas aos presidiários Marcos Valério, Eduardo Tolentino, Ramon Holleback e Cristiano Paz na penitenciária Nelson Hungria. Como se sabe, as personalidades citadas foram condenadas pelo escândalo do Mensalão e ganharam fama internacional, em decorrência da avançada tecnologia que desenvolveram na lavagem de dinheiro,

Por enquanto, a posição de Tiago é a de que lugar para se aprender atividades extracurriculares são as salas de aulas da Fundação dom Cabral. No seu entendimento, as penitenciárias são locais para se cumprir penas. No entanto, numa deferência aos ingleses, estuda-se a permissão do café da manhã (breakfast?), desde que alunos e professores sejam acompanhados por agentes penitenciárias, os quais estarão liberados do pagamento dos lanches. Estuda-se, ainda, a possibilidade de oferecer passeio turísticos das esposas inglesas à penitenciária Estevão Pinto para uma visita à Kátia Rabelo e aos produtos artesanais que ela e Simone Vasconcelos produzem, como lazer criativo, em seus aposentos privativos.

(*) As revistas não publicaram porque – em alguns casos – nada disso aconteceu. Mas poderia ter acontecido, quem sabe. 62 materiaprimarevista.com.br


A informação que forma e transforma o seu ponto de vista. Os fatos que formam e deformam a realidade. As noticias que todo mundo quer ver e que muitos não gostariam de ver publicadas.

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MATERIAPRIMA ano 3 • n 0 39 • Fevereiro de 2013 • r$ 5.00

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josé sAlvAdor silvA

presidente do hospital mater dei

miNas é maior por causa deles: 31 empresá rios que abriram as portas para o nosso grande futuro

estado chora sobre o leite derramado: a itambé é mais uma empresa que se vai.

lázaro gonzaga, o presidente da fecomércio , teme ser morto por colegas da diretoria.

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