O Atual - Ovibeja 2024

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Nota de Abertura

O Cante Património celebra 10 anos sobre a atribuição dessa distinção

A 27 de novembro de 2014, na 9ª Sessão do Comité Intergovernamental de Salvagurada do Património Cultural Imaterial da UNESCO votou, por unanimidade, a integração do Cante Alentejano na Lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade, tendo destacado a candidatura exemplar apresentada por Portugal.

A ideia da candidatura e os seus contornos, são aqui explicados no artigo que João Rocha, ex-presidente da Câmara Municipal de Serpa, escreveu para esta nossa edição.

Eles são factuais e contados na primeira pessoa, por quem esteve na génese deste processo.

A empreitada levada a cabo para construir esta candidatura, veio provar que “a jornada é mais importante que o destino”. Mesmo antes de ser entregue, a candidatura já tinha alcançado parte dos seus objetivos.

O conjunto de personalidades que a candidatura agregou, as largas dezenas de municípios e freguesias que a subscreveram – embora alguns por tacanhice política não o tivessem feito inicialmente – e mais importante que todo o resto, a dinâmica de inventariação e contato com todos os grupos corais do Alentejo e da diáspora, valeram só por si.

A distinção a 27 de novembro de 2014 foi o corolário desta jornada. É, pois, justo afirmar que o Cante, elemento identitário dos alentejanos, ganhou com este processo uma nova vida.

Se o mérito de termos viva esta tradição se deve aos milhares de Cantadores e Cantadeiras que a fizeram chegar até nós, também é justo destacar o papel que as autarquias locais têm desempenhado no apoio e na promoção dos grupos corais e do Cante, particularmente, nos últimos anos, com a introdução do Cante nas escolas, contribuindo desta forma para a preservação deste património coletivo.

Ao editarmos, por ocasião da Ovibeja, esta publicação dedicada a assinalar os 10 anos da elevação do Cante Alentejano a património da humanidade, O Atual associasse a todos que, ao longo de gerações, transportaram esta bandeira comum do Cante a Vozes, capaz de nos unir a todos em uníssono.

Ficha Técnica

Diretor: Justino Engana

Redação e Coordenação: Inês Patola

Edição de vídeo: Nelson Patriarca

Ilustração da capa: Susa Monteiro

Grafismo: Cocas Produções

Tiragem: 2000 exemplares

Propriedade: Harmony Rhythms – Unipessoal, Lda NIPC: 515 987 344

geral@oatual.pt

João Rocha

Ex-presidente da Câmara Municipal de Serpa E BEJA

Quando se estava a preparar a candidatura de Serpa à Rede de Cidades Criativas da UNESCO, no tema Música, em maio de 2011, num almoço em Lisboa no restaurante Gondola, onde estavam presentes o Professor Carlos Laranjo Medeiros e o Embaixador Fernando Andresen Guimarães, na altura Presidente da Comissão Nacional da UNESCO, a Câmara Municipal de Serpa foi desafiada por este último a avançar também com a candidatura do Cante Alentejano a Património Cultural da Humanidade. Na ocasião, colocou-se a questão de ser a Câmara Municipal de Serpa a assumir sozinha esta candidatura, tendo-se decidido por um trabalho mais alargado com outros parceiros, designadamente a MODA – Associação do Cante Alentejano, a Casa do Alentejo, a Confraria do Cante e o Turismo do Alentejo.

De imediato foi iniciado o processo, com a Câmara Municipal a sustentar a candidatura, tendo-se obtido, logo em setembro, apoio financeiro através do QREN/ INALENTEJO, assinados Protocolos de Cooperação com diversas instituições e entidades, constituída uma Comissão de Honra e uma Comissão Científica, integrando personalidades como António Cartageno, Carminda Cavaco, Joana Carneiro, João Ranita Nazaré, José Rodrigues dos Santos, Armando Torrão, Salwa Castelo Branco, Maria Inês Cordeiro e Paulo Lima. Foi também constituída a Comissão Executiva, liderada pelo Professor Carlos Laranjo Medeiros (que coordenou a equipa técnica) e que incluiu, para além de eu próprio, enquanto presidente da Câmara Municipal de Serpa, António Ceia da Silva, então presidente do Turismo do Alentejo, Francisco Torrão, João Proença, presidente da Casa do Alentejo de Lisboa e Joaquim Soares, da MODA.

Foi efetuada a inscrição do Cante Alentejano no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial e desenvolvidos esforços junto dos municípios com cante para promoverem o seu reconhecimento como Património Cultural Imaterial de Interesse Municipal, contando com essa classificação ( até março de 2012) por parte de 15 municípios: Almodôvar, Alvito, Amadora, Borba, Cuba, Ferreira do Alentejo, Grândola, Moura, Mourão, Odemira, Ourique, Reguengos de Monsaraz, Serpa, Setúbal e Vidigueira. Em simultâneo, foram realizados reuniões e encontros com os grupos corais e outras entidades,

CANTE ALENTEJANO

RECONHECIMENTO E RESPONSABILIDADE

tendo-se conseguido a adesão de 131 grupos corais, incluindo grupos de fora de Portugal, de 33 Câmaras e 24 Assembleias Municipais, não só do Alentejo (apenas as Câmaras Municipais de Beja e Alcácer do Sal não declararam apoio), mas também da Grande Lisboa. Foram ainda recebidas 102 declarações de apoio de juntas de freguesia e 1455 declarações de apoio de cidadãos a título individual. Com todo este envolvimento das comunidades, dos grupos, das várias pessoas, a candidatura foi construída, incluindo o Plano de Salvaguarda do Património Cultural Imaterial do Cante Alentejano e outros elementos de submissão obrigatória, nomeadamente as 10 fotos (com seleção do fotógrafo Augusto Brázio) e o filme promocional de 10 minutos, realizado por Sérgio Tréfaut, focando o papel do cante na comunidade, os seus processos de transmissão e desafios. Foi um trabalho exaustivo de inventariação e caracterização dos grupos de cante, no Alentejo, fora do Alentejo e fora de Portugal, com recolha de informação e entrevistas aos responsáveis, análise do universo envolvido e a importância do cante para a preservação da ligação das diferentes comunidades emigrantes à sua região de origem, ao país e à preservação da língua, num processo de recolha documental intenso. Destaco, neste processo, o trabalho exemplar numa Escola da Damaia, onde foi criado um grupo de cante constituído por crianças de origens diversas, mostrando a universalidade e diversidade desta

expressão cultural. Todo este universo foi documentado e ficou evidente na candidatura e nos vários materiais de suporte, nomeadamente no filme documental e nas exposições fotográficas. O Dossiê de candidatura foi apresentado a 30 de março desse ano às entidades oficiais, em Lisboa. Como é sabido, e porque estava em apreciaçãoo a candidatura da Dieta Mediterrânica, o Estado Português optou por adiar a entrega da candidatura do Cante à Unesco em ano seguinte, o que veio a acontecer em 2014. A 27 de novembro desse ano a UNESCO inscreveu o Cante Alentejano na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, num momento inesquecível para todos os que amam o Alentejo, para Portugal e para a Diáspora. E isso deveu-se em primeiro lugar aos cantadores, os verdadeiros detentores do cante, por terem sabido preservar a memória e assim contribuir para a sua salvaguarda. Foi – e continua a ser – graças a este trabalho e ao amor pelo cante que conseguimos o reconhecimento, um trabalho que ganhou notoriedade e trouxe, também, maiores responsabilidades. Dito isto, e tendo acompanhado estes trabalhos na parte inicial, destaco o importante e decisivo papel de algumas pessoas que, com entusiasmo e empenhamento, muito fizeram para atingir tal objetivo. Mas também não posso deixar de referir que, agora há muita gente que aparece na linha da frente, mas na altura não apoiaram ou nada fizeram para este trabalho de conjugação

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de vontades de que resultou o reconhecimento do Cante Alentejano pela UNESCO. O que importa, sobretudo, é afirmar que o Cante, é de todos, é do mundo! E é, sobretudo, dos cantadores, seus legítimos detentores, facto bem evidente no filme “Alentejo, Alentejo”. Porque o Alentejo é único, tem uma identidade própria, associada às suas pessoas, à sua cul-

No palco da Unesco, o Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa interpreta “Alentejo, Alentejo”

tura e ao seu património. E o Cante Alentejano é património mundial, não pertence a este ou àquele, aqui ou ali... pertence a todos e é responsabilidade de todos. É necessário olhar com mais cuidado para todo o processo e o Museu do Cante em Serpa, deve assumir o seu papel preponderante, porque o reconhecimento da UNESCO não é vitalício. Há ainda, muito traba-

lho a fazer para cumprir o Plano de Salvaguarda e dá-lo a conhecer aos cantadores, num trabalho permanente de apoio ao movimento coral e às ações previstas, para a necessária sustentabilidade do cante e o desenvolvimento da região.

ver vídeo Video José Serrano/Diário do Alentejo

Etimologicamente, não vamos tecer considerações sobre a matéria dadas as limitações que nos obrigam, a que outros, mais doutos, a elas se refiram. Vamos tão somente debruçar-nos sobre o cante alentejano, suas origens e actualidade. Tão vasta tem sido a sua historiografia, metodológica, científica, e, no entanto, as dúvidas subsistem, não se verificando que as teses defendidas, tenham substância que congreguem opiniões, antes, porém, são bastante divergentes.

Do conhecimento que nos foi transmitido, pelos nossos antepassados, pela experiência colhida no terreno, apesar da parca formação musical, antropológica (sociológica), registamos estar no limiar de uma forma de expressão musical/popular, sem paralelo, a nível nacional e internacional (passe o arrojo da última palavra).

Acompanhando o cante desde muito novo, tinhamos seis anos, quando pela primeira vez, acompanhámos o Grupo da Casa do Povo de Serpa (1953). A partir dai, jamais deixámos de acompanhar o Cante em variadíssimas situações, convivendo com os grupos do concelho de Serpa e de outras terras, que, até hoje, bem dignificam esta forma singular de expressão musical única,

Não particularizando a matéria, o convívio, granjeado ao longo dos anos, com tantos e bons, cantadores (felizmente temos jovens que irão perpectuar o cante) permite-nos afirmar que o respeito manifestado por esta forma de expressão musical é testemunhado, por todos os grupos que tiveram a oportunidade de actuar além-fronteiras, inclusivamente ganhando certames.

A Candidatura do Cante a Património Cultural Imaterial da Humanidade, aceite, foi um motivo de orgulho para os alentejanos ,arrojada sem dúvida, mas, enaltecedora dos nossos valores culturais, que não se revêm somente nos aspectos, gastronómicos, arquitecturais e monumentais.

Vamos reflectir sobre o que, entretanto, se passou, perspectivando o cante e as suas tendências. Verificamos, o aparecimento de novas formas de interpretação, canta/autores, recolhendo, não inovando, limitando-se a aproveitar “o nosso património”, por outro lado, grupos corais já com bastante experiência, adaptando as modas ancestrais, com “poemas” adequados as suas aldeias, vilas, cidades, nada tendo a ver com o plano de salvaguarda, entre-

O Cante

gue na UNESCO.

Assiste-se por outro lado, a uma proliferação de grupos corais/instrumentais, muitos deles recorrendo a elementos pertencentes aos tradicionais, traduzindo-se numa mescla de estilos, nada adequada, à essência do CANTE, a vozes, sem auxilio de ‘artefactos”’, passe a expressão.

Estamos a falar do CANTE, em termos organizacionais, grupos corais, verifica-se, contudo, um processo de aculturação, terá a ver com a educação musical nas escolas, quem sou eu para pôr em causa, tal facto!

Nos anos Setenta, com a Dra. Ivone Portugal, directora da Escola do Magistério Primário, iniciámos um projecto com alunos do dito, autorizado, ainda durante algum tempo, os futuros alunos(as), aderiram, a Escola n°. 4, efémera a iniciativa, termina. Não estava habilitado! Hoje as coisas estão diferentes! Mas voltando ao cerne da questão: Vamos meditar: No último projecto onde estive, no qual participei... poucos conheciam o CANTE, durante horas, graças à

colaboração do Jorge Benvinda, na galeria do desassossego, foram gravadas as modas que considerava... Não quero particularizar....

Vem a propósito, do que referi anteriormente, o CANTE está actualmente “afadistado”, a nossa forma de cantar, é diferente, antes só à Capela, a não ser em determinadas situações, lá aparecia, a “flaita”, concertina, viola”! Quando no Sec. XX aparecem os grupos corais, o único instrumento, como nos dizemos era a “goela”

Verifica-se uma grande dispersão de vozes por vários agrupamentos, por vezes penso, o Cante está como os clubes de Futebol, hoje jogo aqui, amanhã, logo se vê a tática. Meditemos, um instrumentista, tem a pauta, no entanto, o MAESTRO, dirige o treino, sabe, quando devem atacar, jogar na defesa... No CANTE, é a mesma coisa, não são necessários tantos “jogadores” bastam 20, 21, com crer, determinação, basta-lhes cantarem como sabem!

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José Serrano/Diário do Alentejo

A PROMOÇÃO DO CANTE É UMA RESPONSABILIDADE DE TODOS

A classificação do Cante Alentejano como Património Cultural Imaterial da Humanidade, obtida em 2014, representou sem dúvida para o Alentejo um dos momentos mais importantes e exaltantes da nossa vida cultural e coletiva, contribuindo em todos estes anos para o reforço da autoestima dos alentejanos e da coesão social, ao mesmo tempo que lançava as bases de um movimento social e artístico que catapultou novos protagonistas e referências musicais do nosso Alentejo.

Um Alentejo autêntico que se reforçou na sua identidade e que encontrou no selo da UNESCO uma nova vitalidade e um ânimo redobrado.

O Cante vem escrevendo e reescrevendo a nossa história como povo e comunidade, passando também a alimentar o discurso e a narrativa de promoção turística, que, no Alentejo, tem sido utilizado como meio e conteúdo de enriquecimento e diversificação da nossa oferta.

A criação, estruturação e ativação de uma Rota do Cante - designação provisória à qual teremos de acrescentar maior criatividade e inovação - a realização de um grande festival de cultura polinucleado no Alentejo, através do qual valorizemos as várias manifestações classificadas pela UNESCO e, principalmente, o Cante, e a promoção do programa das comemorações do 10º aniversário do reconhecimento universal - desafio que a ERT Alentejo lançou aos Municípios no passado mês

de fevereiro - são algumas das iniciativas que nos propomos concretizar no curto e médio prazo.

Mas também outras ações que queremos dinamizar, como a Candidatura do Baixo Alentejo à Cidade Europeia do Vinho, poderão potenciar a beleza e a genuinidade do Cante Alentejano.

Importa que todas estas iniciativas se desenvolvam num quadro alargado, contando com a participação e o envolvimento das várias entidades institucionais e do trade turístico, mas também apelando à intervenção da sociedade civil e do

meio artístico e cultural (grupos, associações, músicos).

A defesa, valorização e promoção do Cante é um empreendimento diário e uma tarefa de todos. A Entidade Regional de Turismo do Alentejo, uma das grandes dinamizadoras e co-promotora da Candidatura do Cante Alentejano à UNESCO, estará sempre na primeira linha da defesa deste património imenso que nos enche a alma e nos orgulha.

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Passados 10 anos sobre a data da inscrição do cante alentejano na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Unesco, importa em primeiro lugar, festejar o Cante e o Alentejo. E, sempre, enaltecer o trabalho dos cantadores, pelo papel fundamental que desde sempre tiveram na preservação, transmissão e divulgação desta expressão cultural que passou a ser de todo o mundo.

O reconhecimento da UNESCO resultou de um importante e qualificado trabalho, de muitos anos e de muitas pessoas e entidades que promoveram a candidatura, a começar pelo município de Serpa, num vasto conjunto de outras ações de que são beneficiários o cante alentejano e os seus intérpretes, os municípios que os apoiam e todo o Alentejo e as suas gentes. Foram feitos estudos científicos, filmes, recolhas fotográficas, bibliográficas e discográficas, exposições e várias publicações, a inscrição do cante alentejano no Inventário Nacional do Património Imaterial e, sobretudo, o Plano de Salvaguarda, que assenta no valorização e dignificação do cante, com uma atenção cuidada à atividade dos grupos corais e a todos os momentos em que o Cante acontece, onde critérios como a sustentabilidade, a transmissão e a comunicação são determinantes. O Cante pode ser visto nos muitos momentos culturais que acontecem um pouco por todo o lado, há a possibilidade de participar nos ensaios e no Museu do Cante, em Serpa, o Centro Interpretativo do Cante disponibiliza informação sobre a história e os grupos de cante.

A transmissão é precisamente um dos aspetos do já referido Plano de Salvaguarda e a estratégia que tem sido concretizada vai no sentido de reforçar o cante nos locais públicos, nas festas, nos espaços formais e informais. Em simultâneo há que poten-

Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa interpreta “Alentejo, Alentejo”, durante os Sabores no Barro em 2024

Cante Alentejano - liberdade e resistência

ciar a produção científica em torno do Cante Alentejano, promovendo e apoiando projetos de investigação, nacionais e estrangeiros, apoiando projetos multidisciplinares e muitas outras iniciativas. Passaram dez anos deste esse momento excecional, dez anos em que o Cante e a cultura alentejana ganharam novos palcos e novas dinâmicas. Estamos a comemorar algo que foi um grande acontecimento, e isso deve-nos encher de orgulho. Orgulho ainda maior, pelo trabalho que foi feito até essa altura e que foi desenvolvido de maneira muito importante a partir daí na sua salvaguarda e valorização. Um trabalho persistente nos compromissos assumidos, nos muitos projetos que têm surgido, na revitalização dos grupos, no papel do Cante na criação de novas oportunidades no território. Tudo isto sem perder autenticidade, no respeito pela identidade,

pelas pessoas, pelos sítios. Criando sustentabilidades. Mas um trabalho que importa continuar reforçando-o e melhorando-o, porque que este nosso território, sempre foi e continua a ser, um espaço de liberdade e resistência.

Tem sido uma jornada coletiva, intensa e gratificante e os passos dados são decisivos na salvaguarda, valorização e divulgação do Cante Alentejano. Podemos afirmar que o Cante Alentejano, em ligação estreita com a gastronomia, com a cultura e com a história, ganhou uma força inequívoca, afirmando-se como um fator de desenvolvimento e motor de novas dinâmicas.

Parabéns a todos os que caminharam e que continuam a caminhar neste processo, num movimento que se pretende cada vez mais participado e forte!

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CEIA DA SILVA

O Cante Alentejano ecoa com a sua riqueza sonora pelas planícies do nosso Alentejo. Mas é mais do que uma simples forma musical, é um símbolo vivo da identidade e do património cultural alentejano. A sua importância transcende as canções e as melodias: abrange aspetos sociais, históricos e mesmo políticos.

O Cante é um incontornável guardião de uma tradição nacional. De geração em geração, tem passado de avós para netos, preservando as profundas raízes culturais da comunidade alentejana. As letras das canções contam muitas vezes histórias de trabalho nos campos, de amor e de saudade, refletindo sobre o quotidiano e as preocupações do povo alentejano ao longo dos séculos.

Além disso, o Cante desempenhou e continua a desempenhar um papel crucial na coesão social. As suas modas são habitualmente cantadas em grupo, em formato de coro, onde a comunidade se reúne para partilhar emoções, celebrar tradições e fortalecer laços. Esta vertente coletiva não só fortalece a identidade social e cultural, mas também promove um sentimento de propriedade, pertença e união entre os alentejanos e entre os portugueses.

Numa perspetiva histórica, o Cante Alentejano é também um testemunho vivo da resistência e resiliência de um povo. Durante os anos difíceis da ditadura salazarista em Portugal, quando a liberdade de expressão era completamente restringida, o Cante Alentejano era uma forma subtil

Cante Alentejano: guardião da identidade cultural de uma região!

mas indelével de manifestação de sentimentos e aspirações, através de letras e mensagens subliminares nas canções. Igualmente importante, o Cante Alentejano desempenha um papel fundamental na promoção e dinamização do património cultural alentejano a nível nacional e internacional. Graças aos esforços de grupos locais, associações culturais e entusiastas, o Cante tem ganhado cada vez mais reconhecimento fora da região, sendo inclusive reconhecido como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2014. Este reconhecimento não só aumentou a visibilidade

do Alentejo no mundo, como também contribuiu para a preservação e revitalização desta forma única de expressão.

O Cante Alentejano é mais do que música, é um guardião de identidade, um elo entre gerações, um testemunho vivo da história e uma janela aberta para a cultura alentejana. Preservá-lo, promovê-lo, dinamizá-lo e, quem sabe, reinventá-lo nestes tempos modernos, é proteger não apenas um património musical, mas também um legado de tradição, resistência e união que perdurará por gerações.

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ANTÓNIO ZAMBUJO MÚSICO

Se não existisse cante alentejano e eu não tivesse nascido em Beja, não seria cantor! Parece um discurso fatalista, mas é mesmo verdade, acho eu…

A primeira vez que ouvi os homens a cantar na taberna do Sintra quis saber tudo sobre aquela música. Queria fazer parte, queria aprender. O facto de não ter jeitinho nenhum para nada daquelas coisas que os miúdos gostam de fazer, e de repente descobrir uma coisa que gostava de fazer e tinha algum jeito, fez com que me interessasse ainda mais, não só pelo género, mas pela música em geral. Apesar de ter deixado de cantar durante uns tempos, nunca perdi nem a vontade nem o gosto.

Já em Lisboa o Miguel Lobo Antunes, na altura programador da Culturgest, desafiou-me para fazer um concerto diferente do que fazia com base no ultimo disco que era o Guia. Em todos os concertos canto sempre uma moda ou outra, mas a ideia era chamar um grupo para cantar comigo. Convidei o Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento porque conhecia e gostava muito, e aí regressou essa memória tão linda que estava meio adormecida, mas sempre presente. Desde esse concerto muita coisa aconteceu, mas o mais bonito de tudo é sentir na cara das pessoas que escutam o reconhecimento e a beleza das pequenas coisas.

A contemplação da arte!

Se não existisse cante alentejano e eu não tivessenascidoemBeja,nãoseriacantor!

António

Zambujo com o Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento, ao vivo no Capitólio,

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em Lisboa

ANTÓNIO JOSÉ BRITO

O cante a vozes é o reflexo de um povo que canta e que ouve. As vozes que entoam tão profundas melodias, e dizem as palavras de tantos poemas de desconhecidos autores, trazem consigo as suas e as nossas vidas em cada momento. Dos momentos bons e menos bons. O cante vem de dentro e por isso tem tanta força!

Perde-se no tempo a origem destas polifonias, mas pelos estudos e registos que têm sido feitos, é possível percebermos o seu percurso nas diferentes regiões do Alentejo. O que sabemos, seguramente, é que esta forma de expressão musical de singular importância tem sido transmitida de geração em geração de forma natural em momentos diferentes da vida das nossas comunidades. Notória foi a alteração, a dada altura, do cante espontâneo à sua prática como motivo artístico, de palco, que passou a obedecer a padrões de apresentação em público. A criação de grupos corais, com hábitos regulares de ensaio e adoção de trajes, passou a ser dominante ainda que o cante informal tenha e terá sempre o seu próprio espaço, como é exemplo a taberna, ou os convívios… rara será a festa de natureza popular que não acabe ou tenha grandes momentos de cante onde todos se sentem à vontade para fazer ouvir a sua voz. Não importa quem é o “ponto” , se há “ alto”, se são muitos ou não para fazer bom coro.

Por tudo isto, pela intrínseca natureza deste cante que se aprende ouvindo e cantando, e que é de todos, foi justo o reconhecimento da UNESCO. É verdadeiramente um Património Cultural Imaterial da Humanidade! Um marco importante que trouxe novo impulso à criação de novos grupos corais apro-

Grupo Coral Os Ganhões de Castro Verde

Video da autoria de António Casqueira

O Cante Alentejano em todos e em cada um de nós!

ximando os mais jovens a esta tradição. Poderei, contudo, admitir que este impulso, ainda que muito significativo no momento, não estará atualmente a ser a uma escala que permita a subsistência de muitos dos grupos corais existentes. O envelhecimento de muitos dos elementos contribui para que efetivamente muitos grupos não consigam manter a sua atividade. É pois preciso captar jovens para esses grupos e que estes não fiquem apenas pelas suas próprias formações, ou seja, integrados em grupos com menos elementos e todos jovens onde a abordagem ao cante é até em certa medida diferente. É preciso inovar, sim, mas também não se deve perder, em meu entender, a ligação à sua raiz.

Em Castro Verde, no sentido de contrariar esta tendência, agendamos de forma muito intensa momentos de cante nas mais diversas iniciativas

que integram a nossa programação cultural. Valorizamos este movimentos apoiando as associações que dinamizam os seus grupos, seja em termos financeiros, ou logísticos cedendo por exemplo o transporte para que estes possam fazer-se representar nas mais diversas atividades e regiões.

De grande importância e com os olhos postos no futuro, procurando a sua salvaguarda e revitalização, temos apostado no ensino do cante a todos os alunos do pré-escolar e 1º ciclo, nas escolas do nosso concelho.

De igual importância é a nossa criação do Centro de Documentação do Cante Alentejano que visa registar e preservar a história passada, presente e futura da nossa atividade coral e do Observatório do Cante Alentejano, um gabinete de recolha e estudo de dados relativos aos intérpretes da Moda, congregados em Grupos Corais.

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Presidente da CM CASTRO VERDE
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José Serrano/Diário do Alentejo

10 anos de Cante como Património Cultural Imaterial da Humanidade.

10 anos de uma expressão maior de uma das marcas que melhor nos identificam por todo o mundo. 10 anos de renascimento e de rejuvenescimento de uma tradição antiga que se vinha perdendo no tempo.

Uma das nossas tradições maiores – o Cante – está de Parabéns. Está de Parabéns todos os anos no dia 27 de novembro, evidentemente, mas está particularmente de Parabéns neste ano de 2024 porque se cumprem dez anos sobre este reconhecimento maior da UNESCO e que nos classifica mundialmente.

Para assinalar tão importante aniversário, o Município de Beja entendeu, nas duas grandes feiras que anualmente se realizam no concelho, a Ovibeja e a Patrimónios do Sul, ter como seu stand – que recebe milhares de visitantes e que é sempre dos mais procurados em cada um dos certames -, a reprodução de uma taberna, local por excelência do Cante ancestral.

De uma taberna onde nos podemos sentar; onde daremos a conhecer os magníficos vinhos do concelho de Beja; na qual divulgaremos os 14 Grupos Corais com atividade no Concelho; Tentamos assim recriar, num contexto de modernidade e de Feiras dinâmicas, um espaço que, promovendo o Município, o faça neste ano de 2024 através da tradição do Cante e das atividades a ele associadas. De forma interativa poderemos ainda acompanhar e aprender letras de modas alentejanas ou tirar fotografias em forma de Cantadores. O concelho de Beja tem neste momento 14 grupos corais ativos, de crianças, mistos, masculinos e

Grupo de Cantadores Nossa

Senhora das Neves, gravado ao vivo na Praça da República, em Beja ver vídeo

BEJA - CONCELHO QUE CANTA!

femininos, oriundos de Beja, de Nossa Senhora das Neves, de Baleizão, de Santa Clara de Louredo, da Trindade, de Albernoa, de Beringel, de Mombeja, de Santa Vitória e da Cabeça Gorda. Grupos que passaram pela pandemia que os parou durante dois anos mas que se reergueram rapidamente, fruto de uma vontade coletiva de voltar a cantar juntos. De unirem vozes para manterem as tradições de cada localidade e para reforçarem os laços de companheirismo e de camaradagem que unem os cantadores e os grupos seja localmente, seja na diáspora.

O Município de Beja volta ainda a apoiar fortemente o “Comboio do Cante” que se desloca à Ovibeja, trazendo cerca de 600 cantadores da zona periférica de Lisboa até à grande Feira do Sul, iniciativa

este ano marcada para 4 de maio e que enche a Feira de cor e de alegria.

Uma referência muito especial ainda para o Centro UNESCO de Beja que ajuda e contribui para manter forte e viva a chama do Cante, numa relação de proximidade com os grupos, promovendo ensaios assistidos e organizando atividades municipais públicas com envolvimento dos diferentes grupos para salvaguarda e promoção do Cante.

Um povo que canta nunca morrerá, como referiu Michel Giacometti, e Beja tem o privilégio maior de estar no centro do mapa nacional do Cante e com ele honrar as nossas tradições, dignificar o território e promover o Baixo-Alentejo e a sua capital: Beja! Um concelho que canta!

19 Opinião Abril 2023

PAULO RIBEIRO MÚSICO

“O cante alentejano, muito antes da distinção da UNESCO em 2014, já havia sido classificado por alguns Municípios como Património de Interesse Municipal.

O cante, forte traço identitário do povo alentejano, gerou desde sempre um sentimento de pertença à cultura, usos e costumes do Alentejo. De certo modo, a atribuição ao cante alentejano do estatuto de Património Cultural e Imaterial da Humanidade por parte da UNESCO a 27 de Novembro de 2014, acabou por funcionar como um reconhecimento do grande valor que os cantadores, grupos corais no Alentejo e na Diáspora Alentejana, bem como na generalidade das comunidades alentejanas já atribuía ao cante. Contudo, a notícia foi recebida com manifestações de grande contentamento, como um prémio para quem durante décadas e décadas manteve viva a chama desta nossa tradição. Depois de um regozijo generalizado, com o surgimento de novos Grupos, entre os quais vários Grupos Juvenis, workshops, conferências, projectos de formação do chamado “Cante na Escola”, diversos espetáculos nas mais prestigiadas salas do país com algum eco na comunicação social, a pouco e pouco o entusiasmo foi esmorecendo.

O cante sofreu também algumas transformações, decorrentes de uma tendência que se foi instalando para uma certa uniformização na forma de cantar.

A ideia de que de terra para terra se canta de forma diferente, o que representava uma grande riqueza na diversidade e genuinidade, foi-se

“Bendita seja a Paz” um tema gravado por Paulo Ribeiro com outros músicos, lançado em abril de 2024

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O Cante Alentejano resiste!

esbatendo infelizmente. Por outro lado, a paisagem e o mundo rural, alteraram-se radicalmente na última década, com um impacto significativo ao nível sociocultural. O cante tem, no entanto, resistido. Resistiu aliás a uma pandemia que paralisou o Mundo.

Apesar de tudo, sou um otimista em relação ao futuro do cante alentejano.

Novas composições estão a surgir ao mesmo tempo que muitos jovens cantadores estão ago-

ra a descobrir as modas mais antigas, nomeadamente a partir de registos do Etnomusicólogo e Folclorista Armando Leça, entre outros, agora já disponíveis. Como ensaiador do Grupo Coral Infantil “Rouxinóis do Alentejo”, tenho o privilégio de constatar o entusiasmo e interesse que muitas crianças revelam por esta forma de cantar. São já estes meninos e meninas os novos cantadores do presente e do futuro do cante alentejano. “

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Passaram 10 anos e este é o tempo certo, talvez também o necessário, para que possamos fazer uma reflexão sobre o que conseguimos fazer em conjunto pelo cante alentejano e sobre o que ainda pode e deve ser feito.

O cante alentejano, é preciso dizê-lo, já antes de ter a chancela da Unesco e de ser reconhecido como Património Imaterial da Humanidade, carregava em si, em minha opinião, um elemento determinante e agregador para a nossa vida coletiva: o de juntar as diferentes vozes de uma região num canto uníssono.

Por isso, quanto ao cante, apesar das suas especificidades e características mais próprias de cada terra, arriscaria a dizer que nunca houve divisões, nem poderia haver. Porque este já era o traço distintivo de um território, a expressão cultural mais visível da nossa identidade.

Foram, no entanto, antes de mais, e é justo que o reconheçamos, os homens e as mulheres que nunca o deixaram de cantar que tiveram um papel determinante na sua preservação e que o mantiveram vivo.

Às entidades públicas, umas mais habilitadas do que outras, coube, sim, o processo de salvaguarda, de engrandecimento e de incremento desta expressão cultural, nomeadamente através de iniciativas, programas, incentivos e mecanismos.

Acredito que nem tudo possa ter corrido como inicialmente ambicionado, mas muito também já foi feito, e bem.

O caminho que já trilhámos foi longo e tem dado os seus frutos. O cante alentejano, por exemplo, está como nunca esteve nas escolas e as novas gerações estão a aprendê-lo com os cantadores. E só por este

Grupo Coral do Sindicato

“O cante é a nossa voz comum e que nos une”

motivo já teria valido a pena.

Mas o cante espontâneo continua também nas tabernas, nos cafés, nos convívios familiares e de amigos e arrisco que nunca existiram tantos jovens a terem orgulho em o ecoar.

Está também nos grupos corais organizados, como sempre foi desejado e como o deve de continuar a ser, uma vez que são os verdadeiros guardiões deste património comum.

O cante alentejano, a partir do momento que foi inscrito com um bem raro, na verdade, extravasou as nossas fronteiras e é do mundo. Um mundo que nos pode também a nós “dar mais mundo”, que nos pode ajudar a crescer e a enaltecer ainda mais as nossas raízes, ajudando inclusive ao desenvolvimento económico e social.

Todos sem exceção ganhámos, assim, uma responsabilidade acrescida, que deve ser encarada como uma oportunidade e uma mais-valia.

Em Aljustrel temos plena consciência da nossa missão e não a descuramos. Seja no apoio aos nossos grupos corais, e a vários níveis, seja na sua transmissão às novas gerações, seja no incremento desta expressão cultural, seja no erguer de um monumento em sua homenagem, seja na promoção de eventos especificamente dedicados ao cante, como o são, por exemplo, o “Cante à Mesa” e o “Festicante”, que realizamos anualmente, e que já marcam o calendário cultural e que atraem centenas de pessoas. Sabemos que este é um ativo ao serviço da nossa comunidade, da nossa região, do nosso país. Sabemos, porém, mais do que tudo, que é nossa obrigação pugnar pela sua permanência nas nossas vidas. Porque o cante, para além de ser a nossa tal voz comum e que nos une, é verdadeiro, é genuíno e é a

nossa singularidade inscrita numa lista daquilo que de mais representativo existe na humanidade. Em Aljustrel costumamos cantar, no nosso Hino dos Mineiros, que é a moda mais representativa e que nos distingue, “Vê lá companheiro. Vê lá como venho eu…”. Por isso “vejam lá companheiros”, o que podemos nós fazer mais, e em conjunto, para afinarmos o tom. Em nome daquilo que somos. Em nome daquilo que nos define e representa. Em nome desta nossa herança indivisível.

Em Aljustrel estamos prontos para continuar a entoar a uma só voz.

Mineiro de Aljustrel, interpreta o “Hino dos mineiros” ver vídeo
Opinião 22 Abril 2023
Video da autoria de António Casqueira José Serrano/Diário do Alentejo

Em primeiro lugar, quero deixar uma palavra de apreço à ACOS - Associação de Agricultores do Sul pela realização da 40ª Ovibeja. 40 anos de dedicação à causa da agricultura é obra! Efetivamente a OVIBEJA é uma feira plural com uma identidade que a torna única, mas sobretudo como uma marca com forte notoriedade em todo o território nacional.

Em segundo lugar, quero deixar uma palavra de agradecimento ao “O Atual”, pela iniciativa da celebração dos 10 anos do Cante Alentejano com o estatuto de Património Cultural Imaterial da Humanidade, pela UNESCO.

Esta foi efetivamente uma das maiores conquistas da cultura e da identidade alentejana. Não foi apenas o Cante Alentejano que ganhou o reconhecimento da UNESCO, mas sim todo o povo alentejano. O Cante Alentejano é uma das principais características identitárias do Alentejo. Talvez a mais marcante!

O Cante nunca foi esquecido. São os homens e mulheres do Alentejo que lhe têm dado expressão desde tempos imemoriais. Hoje em dia ouvimos também os nossos jovens a cantar as modas alentejanas. Cantam-nas com orgulho! Com um orgulho identitário bastante bem visível e evidente!

O reconhecimento pela UNESCO foi fundamental para reforçar a autoestima regional, mas sobretudo para atrair muitos mais jovens para esta atividade cultural. Por isso mesmo, o Cante Alentejano jamais irá morrer!

Podemos dizer com toda a segurança que o Cante Alentejano é uma expressão musical genuína e única no mundo. É exclusiva do Alentejo!

Os Rama Verde ao vivo no concerto

Alentejo Encantado, em maio de 2023

CELEBRAMOS NA OVIBEJA O 10º ANIVERSÁRIO DO CANTE PATRIMÓNIO

Também aqueles que nos visitam querem ouvir os nossos grupos corais. Querem conhecer esta forma de expressão alentejana.

Em termos práticos, o Cante Alentejano é uma manifestação popular de canto, que une vozes entrelaçadas e solidárias. As letras das modas alentejanas falam de sentimentos, lembram acontecimentos comunitário e refletem os momentos do quotidiano do mundo rural.

No Cante Alentejano vivem-se momentos, alternados por tons, entre o ponto a sós e o coro, havendo um alto preenchendo as pausas e rematando as estrofes. Seguem-se as deixas e entra o coro. É assim o cante, espaçado, forte, expressivo, sem pressas!

Felizmente que o Cante Alentejano passou a ser da Humanidade!

A decisão foi tomada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) foi determinante para a valorização deste património imaterial.

A nós, autarcas, cabe-nos continuar o trabalho em apoiar os nossos grupos corais, valorizando este Cante que nos engrandece. A nós, autarcas, cabe-nos continuar a fazer o caminho.

Como dizia o poeta José Gomes Ferreira disse um dia “nunca vi um alentejano cantar sozinho É um modo de vida diferente de todos os outros. Isso enche-nos de orgulho!

23 Opinião Abril 2023
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MARCELO GUERREIRO

Presidente da CM OURIQUE

A identidade forjada nos tempos, nas interações com outras culturas e nas dificuldades do nosso território são uma marca diferenciadora que todas as comunidades devem preservar.

Em Ourique, temos orgulho das nossas tradições e mantemos, há muito, um forte compromisso com a valorização de todas as expressões do sentir do povo, das suas formas de estar, de conviver e de fazer. O Cante é parte desse esforço de preservação da alma, da identidade e de uma forma de ser singular, que precisa de ser transmitida entre gerações e valorizada.

A elevação do Cante Alentejano a Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO permitiu estruturar e valorizar o que estava latente nas vivências das comunidades, mas precisava do adequado reconhecimento. É esse o caminho que temos feito de valorização das expressões populares, como a música da viola campaniça, com o impulso de Pedro Mestre, ou o Cante ao Baldão, que integramos na Feira de Garvão, mas também o Cante Alentejano assumido como parte do processo educativo das nossas crianças e jovens, algo permitido pela assunção de competências descentralizadas pelo município na área da educação. Esse esforço municipal e da comunidade educativa, liderado pelo professor José Diogo Bento, já permitiu ao município de Ourique ser distinguido na 4ª Edição do Prémio Autarquia do Ano, com o projeto “Educar para a arte - Oficina de Cante Alentejano”, na subcategoria de Incentivos ao Sucesso Escolar, mas sobretudo consagrou na comunidade o Grupo Coral Infantil do Concelho de Ourique, com a participação de cerca de 40 crianças. Embalados pelas modas do cante do grupo infantil e pelo esforço sustentado de afirmação do Mundo Rural e da geração de melhores condições de vida, de atração e de fixação de população, o projeto tem contribuído para a geração de dinâmicas positivas

Grupo Coral Infantil do Concelho de Ourique

Vídeo cedido gentilmente por VideoPlanos

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O CANTE É PARTE DA NOSSA ALMA

que se integram na estratégia de desenvolvimento local de Ourique.

Os territórios rurais confrontam-se com um amplo conjunto de desafios estruturais e de novas realidades que precisam de respostas integradas, mitigando as dinâmicas negativas e valorizando as dimensões positivas, onde se integram as marcas de identidade, as afirmações do potencial produtivo dos nossos produtores e agricultores, a geração de novas oportunidades de desenvolvimento e a construção dos caminhos de futuro que queremos, da transição energética ao combate às alterações climáticas.

Em Ourique, estamos a trabalhar neste contexto, em que o Cante Alentejano, na expressão informal dos lugares tradicionais e dos convívios ou estruturada da Oficina e do Coro Infantil, continuará a ter lugar de destaque como marca do presente e do futuro. O projeto da Oficina do Cante Alentejano e o seu desenvolvimento como expressão de afirmação de uma marca de identidade continuará numa lógica de preservação de uma tradição sentida, reconhecida e apreciada, que já granjeou interações com outros tipos de músicas, com projeção nacional.

O Cante Alentejano é parte incontornável da programação cultural do concelho, presente nas tradições, como o Natal ou o Cante aos Reis, e nos eventos como a Feira do Porco Alentejano, a Feira de Garvão, entre outras. O município de Ourique continuará a investir na educação pela arte, com este pilar da música e do Cante na oferta educativa do concelho, no quadro de políticas de proximidade que permitem respostas mais céleres aos desafios e uma estratégia sustentada de valorização das marcas de identidade muito além do presente. Uma década de Cante Alentejano como Património Imaterial da Humanidade gerou um conjunto de dinâmicas positivas e uma maior consciência geral para

resgatar a expressão cultural da letargia em que estava projetando-a para um patamar de afirmação para o futuro.

A ensino do Cante nas escolas por via do projeto “À descoberta do saber”, integrado nos Planos Inovadores de Combate ao Insucesso Escolar e o Coro Infantil são importantes sementeiras de um presente e de um futuro que queremos marcado pela diversidade das expressões de identidade, a qualidade de vida e o desenvolvimento local.

O Cante tem futuro, porque assim o queremos e, em conjunto, trabalhamos para isso. Podem contar com Ourique!

Parabéns a todas e a todos que percorreram o caminho desta década de afirmação do Cante Alentejano e que mantêm o compromisso para continuar a acrescentar valor e manter as tradições da nossa identidade como baixo alentejanos.

25 Opinião Abril 2023

Portugal celebra este ano, 10 anos de elevação do Cante Alentejano a Património Cultural e Imaterial da UNESCO. Esta distinção, atribuída a 27 de novembro de 2014, é um testemunho do valor único e da riqueza cultural deste género musical que é profundamente enraizado na alma do Alentejo, com ênfase para o nosso Baixo Alentejo. Foi graças à persistência e ousadia das nossas gentes e instituições que o Cante foi reconhecido e elevado ao patamar em que se encontra. O Cante Alentejano, podemos dizer que é mais do que uma simples forma de música; é uma expressão autêntica da identidade e do espírito do povo alentejano.

Originário das vastas planícies alentejanas e do trabalho árduo nos campos da região, o cante surgiu como uma manifestação de solidariedade e resistência, refletindo as experiências e os sentimentos da comunidade regional, como forma de desabafo e também como modo de enfrentar os longos e duros dias no trabalho “de sol a sol”. Com as suas vozes harmoniosas e melodias cativantes, o cante alentejano é uma verdadeira celebração da tradição oral e da cultura popular. Transmite histórias de amor, saudade, luta e esperança, tocando os corações de todos os que o ouvem.

A elevação do Cante Alentejano a Património Cultural e Imaterial da UNESCO foi e é um reconhecimento da sua importância como um tesouro cultural que merece ser preservado e promovido para as gerações futuras. É também um tributo aos inúmeros grupos corais, aos mestres e aos indivíduos que dedicam as suas vidas a manter viva esta tradição tão querida de todos.

O Cante Alentejano desempenha um papel crucial na preservação da identidade cultural e na promoção da coesão social no Alentejo e em Portugal como um todo.

O Cante Alentejano é uma expressão autêntica da identidade alentejana, refletindo as tradições, valores e experiências únicas do povo da região. É uma forma de arte que está profundamente enraizada na história e na vida quotidiana do Alentejo.

Podemos dizer que esta forma de arte tem um poder unificador, reunindo as comunidades em torno da música e da tradição. Os grupos corais que praticam o cante não apenas preservam a herança cultural, mas também fortalecem os laços sociais entre os membros, promovendo um sentido de pertença e solidariedade.

O CANTE PERMITE APROXIMAR GERAÇÕES

Por ter sido transmitido oralmente ao longo das gerações, o cante alentejano é, sem dúvida, um veículo importante para a transmissão da história, das tradições e das experiências do povo alentejano. As letras das canções muitas vezes narram histórias de trabalho no campo, amor, saudade e resistência, preservando assim a memória coletiva da comunidade.

As modas interpretadas, têm a grande capacidade de atrair tanto os residentes locais como os visitantes, contribuindo para a vitalidade cultural da região e para o turismo cultural. Os espetáculos de cante, festivais e outras manifestações culturais relacionadas ajudam a promover o Alentejo como destino turístico e a preservar a autenticidade da cultura local.

A elevação do cante alentejano a Património Cultural e Imaterial da UNESCO conferiu-lhe um reconhecimento internacional merecido, destacando a sua importância como parte integrante do património cultural da Humanidade. Isso não apenas aumenta o prestígio do cante, mas também tem estimulado a sua preservação e promoção em nível nacional e internacional.

A elevação do Cante a Património Cultural e Imaterial da Unesco, veio permitir também aproximar gerações. Os mais novos começaram a ganhar um maior interesse por esta arte, da qual muitas vezes estavam afastados.

Os grupos corais que praticam o cante alentejano muitas vezes incluem membros de diferentes idades, permitindo uma transmissão direta de conhecimento e habilidades dos mais velhos para

os mais jovens. Isso cria uma conexão única entre as gerações, onde os jovens podem aprender com a experiência e a sabedoria dos mais velhos. Desde 2014, surgiram alguns novos Grupos Corais, outros que estavam “apagados”, foram reativados, tal foi o orgulho para todos, a subida deste patamar.

À medida que a cultura contemporânea globalizada se torna mais predominante, o cante alentejano desempenha cada vez mais um papel forte junto de todos.

Ao envolverem-se com esta tradição ancestral, os jovens são expostos às raízes culturais profundas da sua região e podem sentir um orgulho renovado na sua herança.

Participar em grupos corais de cante alentejano também proporciona aos jovens a oportunidade de desenvolver competências sociais importantes, como trabalho em equipa, comunicação eficaz e respeito mútuo. Estas competências são valiosas não apenas na prática do Cante, mas também na vida diária e no futuro profissional dos jovens.

A distinção da UNESCO há 10 anos, conferiu ao Cante Alentejano um reconhecimento internacional renovado, aumentando o seu prestígio, promovendo o Alentejo. Ao mesmo tempo, incentivou esforços renovados para preservar e promover a sua salvaguarda, documentação e educação, visando transmitir conhecimento e às gerações futuras.

A distinção veio estimular investimentos em infraestruturas culturais relacionadas, como centros

27 Opinião Abril 2023

de interpretação, museus ou espaços de apresentação dedicados ao cante, como as Casas de Cante. Tal, proporciona um ambiente propício para a prática e apreciação desta forma de arte. Felizmente, o Cante ganhou um novo fôlego e renovado orgulho, reagrupando os mais velhos e atraindo os mais novos, para não deixar cair a tradição. Acredito que foi uma decisão, a da Unes-

Grupo Coral Feminino Flores do Campo, de Almodôvar

Vídeo gravado na abertura da FACAL 2023

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co, que virou radicalmente, para melhor, a página desta nobre forma de cantar da nossa região.

Aos Homens e Mulheres, aos jovens e menos jovens, fica a palavra de incentivo pra que não deixem cair a tradição que herdaram dos nossos antepassados, o que permite levar muito mais longe a voz do nosso Alentejo. Que esta distinção inspire um renovado apreço

pelo Cante Alentejano e que continue a ecoar pelos campos e aldeias do Alentejo, enriquecendo as nossas vidas e fortalecendo os laços que nos unem como povo.

Um grande bem-haja a todos os que contribuíram para esta causa e que continuam a fazer do cante um dos principais “cultos” da região.

JOÃO

Este é o ano em que se comemoram 10 anos que o Cante Alentejano foi classificado como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Este reconhecimento valorizou muito o Cante e o Alentejo e despertou para a riqueza da alma e cultura alentejanas presente em tantos grupos corais espalhados pelo Alentejo. Falar de Cuba é falar do Cante Alentejano. É impossível falar deste património cultural da humanidade, sem mencionar o concelho de Cuba que tem hoje , por mérito próprio, o reconhecimento público da sua importância na história do Cante Alentejano sendo reconhecida como a Catedral do Cante.

Embora desvalorizada por estudos etnomusicológicos, em oposição à aparente homogeneidade do Cante Alentejano continua a persistir a opinião popular de que o Cante Alentejano surge dividido por duas grandes áreas: a margem esquerda e a margem direita do rio Guadiana e do seu vale, configurando-o como uma fronteira natural que contribuiu para que o canto polifónico nascesse e crescesse adquirindo idiossincrasias em função das especificidades dos territórios. Na margem direita é Cuba que se destaca com as modas mais pesadas, as modas de barro, mais difíceis de cantar e associadas aos barros de Beja – terras em torno daquela cidade que são difíceis de trabalhar. A respiração mais ofegante, os compassos mais lentos e arrastados, a alma que se sente na voz … caraterizam este cante singular e único : O Cante da Cuba. As modas são de raiz popular, são a expressão

da fisionomia da paisagem e da maneira de ser, de estar e de sentir do povo alentejano. São gritos de exteriorização do sentimento das nossas gentes. São o retrato fiel de cenas do quotidiano e sempre num estilo silábico, exprimem sentimentos - o amor, a paixão, a saudade, a tristeza - respeitando o nosso andamento característico onde a ornamentação vocal do alto é projetada, claramente, acima do coro, constituído por vozes marcadas pela dureza do trabalho no campo e pelas amarguras da vida . Com a mecanização dos trabalhos nos campos do Alentejo, esta manifestação cultural passou a ter como único palco espontâneo as tabernas

e adegas, onde os homens, em momentos de confraternização à volta de petiscos e do vinho, continuaram a dar voz ao que lhes ia na alma, contribuindo desta forma uma salvaguarda mútua de dois patrimónios que tão bem caracterizam a forma de estar do nosso Povo.

Enquanto herdeiros deste património invejável cumpre-nos preservá-lo, em homenagem e agradecimento a todos os Cantadores e Cantadeiras que contribuíram para a sua preservação e garantir assim que este Povo resiliente jamais se calará perante a adversidade.

Citando Michel Giacometti - “Povo que canta não morrerá” !

“Cuba : A alma que se sente na voz” Grupo
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Coral “Os ceifeiros de Cuba” interpretam “Hino da Alvorada”
Vídeo gentilmente cedido pelo Município de Cuba

RUI RAPOSO

Presidente CM VIDIGUEIRA

O Cante Alentejano tem, no território de Vidigueira, uma expressão bastante vincada que se associa às tradições e à identidade cultural do concelho. Indissociável do vinho, produto âncora da sub-região de Vidigueira, o cante ainda mantem a sua expressão espontânea nos cafés e adegas onde se reúnem os homens após o trabalho, ou em jornadas mais desafogadas, aqueles que, na maioria, já se encontram reformados, sendo o tempo aproveitado com amigos, à volta de um petisco que após alguns copos faz despertar o cante, até das vozes que se dizem mais tímidas.

Celebrar-se-á, este ano, o décimo aniversário da inscrição desta manifestação cultural na Lista do Património Mundial de Portugal à UNESCO que foi, por certo, uma mais-valia para o cante e permitiu que este voasse além-fronteiras e que fosse difundido em larga escala através de variados canais de comunicação. No entanto, faço gosto em evidenciar que, para além da sua publicitação, o cante deve ser alimentado e ainda mais enraizado nos territórios a que pertence. É nesse sentido que o Município de Vidigueira se antecipou, mesmo à inscrição na UNESCO, iniciando, há mais de 15 anos, programas educacionais de sensibilização e aprendizagem junto das camadas mais novas e em contexto escolar. Vidigueira está historicamente interligada com o cante e sua “uniformização”. Evidencia-se a existência de um Grupo de Cantores da Casa do Povo de Vidigueira que atuaram nas instalações do Grémio Alentejano (passando a designar-se, em 1939, por Casa do Alentejo), em Lisboa, aquando da deslocação do grupo à Emissora Nacional em 27 de Março de 1934. Em 1935, é criado o grupo coral da Casa

Grupo Coral

Vidigueira cultiva uma longa história no Cante Alentejano

do Povo de Vidigueira que, após o seu término, por volta de final da década de 1950 ou início da década de 1960, vem dar origem ao Grupo Coral “Os Vindimadores de Vidigueira”, pela mão de Manuel João Mansos, cuja criação foi decidida informalmente entre os elementos do extinto grupo da Casa do Povo de Vidigueira e Manuel João Mansos, junto à “Cascata”, decidindo então que os ensaios decorreriam na sua casa de habitação junto ao jardim Frei António das Chagas (antigo largo da feira), em Vidigueira. O saudoso ensaiador do grupo que prontamente se disponibilizou para o efeito, Manuel João Mansos, foi uma personagem que se fez conhecer pela sua “Voz Insurrecta” da terra mãe esquecida, mediando a revolta contra um período marcado pela Ditadura do Estado Novo. Em 2023, também em sua homenagem, realizou-se em todas as localidades do concelho, um evento dedicado à promoção e revitalização do Cante Alentejano. Todos os grupos concelhios foram convidados a promover sessões de ensaios em locais públicos, foram realizadas exposições alusivas à temática, oficinas de cante alentejano no mercado Municipal e, como forma de fechar a iniciativa, foram convidados, em representação do Alentejo, grupos corais de toda a região para se apresentarem e conferenciarem a respeito desta tão linda manifestação que também nos foi apresentada pelo grupo de cantores juvenis do Agrupamento da Escola Frei António das Chagas, de Vidigueira. Continuará a ser o nosso desígnio dar seguimento a esta forma de cantar “O Alentejo”, que mantem viva a sua memória e o seu passado histórico, maioritariamente conotado com as vivências rurais e os trabalhos agrícolas. Faremos tudo o que está ao nosso

alcance para que não se percam as tão importantes referências da identidade cultural destas gentes, das quais todos nós também fazemos parte.

Para Concluir, deixo, antecipadamente, o convite a todos os interessados para que possam reservar na V. agenda os dias 23 e 24 de Novembro, fim-de-semana em que se realizará, em Vidigueira, a segunda edição do “Festival ENCante”.

31 Opinião Abril 2023
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“Os Vindimadores da Vidigueira”
Vídeo gravado na abertura do Vidigueira Vinho 2024 José Serrano/Diário do Alentejo

MÁRIO TOMÉ

Mértola, um dos grandes e vastos concelhos do Baixo Alentejo, onde as planícies douradas se estendem até onde a vista alcança, o cante alentejano ressoa como uma melodia eterna que acompanha o Rio Guadiana ao longo das suas margens, unindo a comunidade em torno de uma tradição profundamente enraizada na alma desta região.

Numa matriz ideológica assente em vários alicerces facilmente identificados por quem cá mora, o cante tornou-se uma parte indissociável da identidade cultural de Mértola, inspirando e enriquecendo a vida das suas gentes.

Embora sem certezas exatas de como surgiu, é facto que serviu durante décadas para amenizar duro trabalho no campo de homens e mulheres que cantavam em uníssono ao longo sua jornada de sol-a-sol. Tempos que não devem ser esquecidos, mas que esperemos que não voltem! O Cante, também aí, presta um serviço a todos: Não deixa esquecer as duras vidas marcadas nas mãos e nas letras do cancioneiro alentejano.

Ao longo das décadas, muitas foram mutações, e até as perfectivas, que o Cante sofreu. Se inicialmente era no campo e que se ouviam as vozes, rapidamente passou para o convívio de fim de tarde nas tabernas dos nossos montes. Durante alguns anos, até houve quem não lhe atribuísse a importância cultural inerente às modas que relatavam uma vida de trabalho e sacrifício, ficando associado a quem excedia os seus limites nestes convívios. Mas a indissociável identidade alentejana presente nas letras não caiu em esquecimento e muito se deveu à perseverança dos vários Grupos Corais que mantiveram a singularidade do nosso Cante.

Criados antes do 25 de abril sob o pretexto de enal-

Grupo Coral

Que o Cante continue a inspirar gerações futuras a ecoar um hino à alma do Alentejo

tecer a vida Alentejana, foi após 1974 que o cante se voltou a ouvir na sua versão original com tom feminino a surgir em grupo exclusivamente femininos ou em grupos mistos.

Neste momento existem 6 grupos corais no Concelho de Mértola. Cada grupo coral tem a sua história, com as suas modas e com a sua maneira de cantar e levar Mértola a cada uma das suas atuações. Um misto de gerações que contribuem para uma riqueza e diversidade que enaltecem tempos de outrora que ficam eternizados nas letras do cancioneiro. Além disso, é fulcral o papel que os nossos grupos corais realizam na preservação e promoção desta tradição tão nossa. Desde o ensaio às atuações em festivais e eventos locais, e outras espalhadas pelo país, estes grupos mantêm viva a chama do cante alentejano, transmitindo-o de geração em geração e garantindo que ele perdure no tempo. É, sem dúvida, graças aos seus esforços que esta forma de expressão cultural continua tão viva e que a tornaram um cartão de visita para a região, principalmente desde 2014, onde o Cante Alentejano foi considerado Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

Mas não se pense que estes grupos corais são apenas guardiões do passado, são também eles agentes de mudança e inovação, adaptando-se aos novos tempos e explorando novas formas de expressão, incorporando novos elementos musicais e experimentando novas abordagens artísticas. É esta capacidade de evoluir e de se renovar que torna o cante alentejano em Mértola uma tradição verdadeiramente viva e relevante para a comunidade.

Estão nas memórias coletivas de Mértola muitos homens e mulheres que deram vida a estes grupos.

Muitos seriam os nomes que aqui teria de escrever, e sem querer ferir sustentabilidades deixo para cada família, para cada amigo o repto que mantenha essa memória presente de todos os que nos marcaram com a sua presença e voz.

É inequívoco o repertório das modas que cantam desde a vida rural, ao Rio Guadiana, desde o amor à religião, que criam um forte sentimento de pertença e identidade com Mértola e com a região!

Que o cante continue a ser um veículo de elevação da cultura alentejana e mantenha a capacidade de unir as comunidades em torno de algo tão próprio e único, ao mesmo tempo que inspira as gerações futuras a ecoar um hino à alma do Alentejo.

33 Opinião Abril 2023
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gentilmente
“Os Caldeireiros de São João”
Vídeo
cedido pelo Município de Mértola
José Serrano/Diário do Alentejo

António Bota

Presidente DA CIMBAL

No dia 27 de novembro deste ano teremos a alegria de celebrar o décimo aniversário do reconhecimento pela UNESCO do Cante Alentejano como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Apesar desta recente distinção, perde-se nas profundezes dos séculos a origem desta expressão da alma alentejana. A ele se foi recorrendo, tanto como uma espécie de bálsamo para a dureza da vida quotidiana, como para reforço dos laços de convivialidade nos momentos de encontro. Imune às tendências de cada momento, foi passando de geração em geração, unindo os mais jovens às suas origens, tradições e memórias comuns.

Os municípios do Baixo Alentejo reconhecem o Cante Alentejano como a maior expressão cultural do território, já muito antes de 27 de novembro de 2014 apoiavam e acarinhavam os grupos de cada concelho. A elevação a Património Cultural e Imaterial veio contribuir para legitimar ainda mais este apoio e para levar o Cante muito além das fronteiras do Alentejo.

Também a CIMBAL tem vindo a desenvolver ações, nos últimos anos, de promoção do riquíssimo património: o vinho de talha, a gastronomia, a natureza, a história, a viola campaniça, o artesanato e, como é óbvio, o Cante Alentejano. Exemplos destas iniciativas são “Baixo Alentejo

Defesa do Cante é, hoje, mais consensual do que nunca

no Coração de Lisboa”, “Baixo Alentejo, Terra com Memória”, o “Guia de Aves do Baixo Alentejo”, o “Guia de Museus do Baixo Alentejo”, os “Mapas Turísticos Ilustrados” com o Património Natural e Cultural da região. Concebemos vídeos que levam, através da Internet, a todo o mundo as nossas tradições e cultura. Apresentaremos, nesta 40.ª edição da Ovibeja, o Arquivo Digital do Cante Alentejano, projeto de grande relevância

na salvaguarda e valorização dos acervos documentais dos grupos de cante.

Por todo o trabalho que temos vindo a desenvolver e também pelos projetos que esperamos vir a concretizar nos próximos anos, associamo-nos à celebração destes 10 anos do Cante Alentejano como Património Imaterial da Humanidade com a convicção de que a defesa desta tradição é, hoje, mais consensual do que nunca.

O Cante em Paris

Durante a estada em Paris, o cante não deixou de se fazer ouvir, até com o ícone da cidade como pano de fundo

Opinião 34 Abril 2023
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Ricardo Zambujo
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