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Revista

APÍTULO

Ano 1 Edição 1 Junho Julho 2009 Venda proibida

Ficção e poesia

A cidade de JOÃO ALMINO PASSADO E PRESENTE NAS LEMBRANÇAS DE UM FOTÓGRAFO CEGO

JORNALISMO

ENTREVISTA

DEBATE

É possível sair da pauta e mergulhar na ficção?

ANTÔNIO MIRANDA e a Biblioteca Nacional

Tradução x Criatividade

E mais: poema inédito de FERNANDO MARQUES

/

Crítica PULSO INSTANTÂNEO


índice

Entre pautas Como alguns jornalistas conseguem superar deadlines e se dedicar à literatura.

4 Cidade retratada Com O livro das emoções, o diplomata João Almino discute fotografia e memória.

10 Debate Quando o tradutor deixa de fazer mera transcrição, ganha asas e se torna um poeta?

16 Entrevista Antônio Miranda, diretor da Biblioteca Nacional de Brasília, fala sobre literatura a Capítulo.

20 Despalavras

28 3+ 26 +

Agenda Web

junho / julho 2009

Poema inédito de Fernando Marques ilustrado por Liliana Carvalho Pires.

+

Lançamentos

24


Revista

APÍTULO

Carta da editora Desde pequenos, aprendemos que a leitura é a mais importante das atividades intelectuais. Nos livros está guardada a sabedoria de milênios. Quando são romances, nos conectamos a um mundo possível apenas ao imergir nas ondas de letras e palavras, no mar revolto das tragédias ou nos ventos risonhos da cal-

Universidade de Brasília

maria. Nas revistas, encontra-se passatempo e mesmo superação de sabedorias anteriores, o combate intelectual dos periódicos científicos. No fim da infância, os quase adolescentes descobrem diários. É o início da literatura-memória para uns e da literatura-desavergonhada para outros, que correm os olhos furtivos nas linhas escritas pela irmã mais velha. Ainda há a curiosidade autorizada: é quando conhecemos Anne Frank, Bridget Jones, o conselheiro Aires, Alexei Ivanovich... Na saudade, escrevemos cartas. Para caso de esquecimento, pontuamos na agenda. Se precisar de alerta, fazemos um bilhete. A escrita é, acima de tudo, memória. Ela resgata o que foi, reforça o que somos e registra, como em uma foto, o que não pode desaparecer. Cadu, protagonista da ficção O livro das emoções, mostra a força das imagens mentais sobre as imagens reais. Com a descrição das fotos no livro, foi possível elaborar a ilustração de capa, transformando a lembrança em recortes rasgados que formam um acumulado passional de sentimentos. A força da memória também está nas palavras de Antônio Miranda, entrevistado desta edição, que conta a importância do passado na formação da literatura na cidade. A Revista Capítulo é, sobretudo, uma publicação sobre memória e literatura. É o registro daquilo que não se pode esquecer e que deve ser conhecido e acumulado por todos em Brasília. Não há uma, mas muitas literaturas locais. Esta revista é o esforço de tentar representar as diversas facetas dessa arte e acompanhar seu desenvolvimento. Boa leitura!

Projeto gráfico, diagramação, direção

Faculdade de Comunicação Projeto Final em Jornalismo Aluna: Marina Fernandes Professora Orientadora: Márcia Marques Coorientadora: Gabriela Freitas

de arte, texto e edição: Marina Fernandes Capa: Marcelo Brandt (foto) e João Diel Bastos (ilustração) COLABORADORES: Reportagem: Jamila Tavares, Malu Barsanelli, Marcela Heitor, Nair Rabelo Fotografia: Andressa Anholete, Marcelo Brandt Ilustrações: João Diel Bastos - página 12 (joaomarrom@yahoo.com.br) Juliana Fontes - página 26 (www.juliana-fontes.blogspot.com) Liliana Carvalho Pires - páginas 16, 18 e 28 (www.flickr.com/photos/lila_cpo) Revisão: Evam Sena, Rafaela Camelo, Raquel Fernandes AGRADECIMENTOS: Aline Fernandes, André Wogel, André Thomé, Cláudia Machado, Cristina Fernandes, Cristovão Severino, Danielle Pereira, Diego de Sousa, Fabiana Silva, Fernanda Resende, Giovanna Toscano, Juliana Cristina da Silva, Luciana Gaieski, Luciano Cardoso, Ludmila Rocha, Manoel

equipe

Severino, Paula Nonaka, Rafael Bocorny, Rafaela Camelo, Raquel Fernandes, Ricardo Severino, Tatiana Veroneze, Tiago Mundim, Yuri Faulstich Agradecimentos especiais: Fernando Marques, Ronaldo Cagiano, M. P. Haickel Impressão: Athalaia Gráfica e Editora

Marina Fernandes

Tiragem: 50 exemplares


agenda - o melhor de junho e julho

24/6 Tributo ao Poeta O mineiro Affonso Ávila foi auxiliar de gabinete de Juscelino Kubitschek, colaborador em jornais, pesquisador e ensaísta. No meio de atividades tão sistemáticas, ele ficou conhecido pela experimentação poética. Cientista da forma, nas mãos dele as palavras são destrinchadas e, recriadas, nascem belas. O conteúdo de seus poemas, por vezes agressivo ou pornográfico, foi mal visto pela sociedade conservadora. Demorou até que fosse reconhecido como um dos mais importantes escritores brasileiros. Ele é o homenageado do Tributo ao Poeta, que acontece no dia 24 de junho no auditório da Biblioteca Nacional de Brasília, às 19h. A atriz Deliane Leite e o assessor do MEC Carlos Alberto Xavier serão os anfitriões.

25/6 Quinta Crônica Música e literatura ganham corpo sob a batuta do maestro cênico Jones Schneider no Quinta Crônica. O cronista homenageado do dia 25 de junho, Luiz Fernando Veríssimo, pode até não estar presente, mas vai subir ao palco escondido sob dramatizações de textos. E como a crônica é o samba da literatura, Noel Rosa também recebe homenagem. Além de interpretações, o projeto abre espaço para a discussão dos estilos e da história dos autores, o que sempre acaba em bate-papo. A música fica por conta de Alex de Souza. Às 19h30 no auditório do Centro de Formação da Câmara dos Deputados (Setor de Garagens Ministeriais Norte, Via N3).

22/7 Arte / Inconsciente Após ser premiado por nove livros de história em quadrinhos, o sombrio Lourenço Mutarelli estreou em grande estilo na literatura. É dele o romance O cheiro do ralo, que foi ao cinema sob a direção de Heitor Dhalia. Mutarelli e o amigo Milhem Cortaz, que atuou em Tropa de elite e no mesmo O cheiro do ralo, vão sentar ao divã do Centro Cultural do Banco do Brasil no dia 22 de julho às 19h30. A terapia tem o objetivo de tentar responder à pergunta “O que o universo bizarro e onírico dos quadrinhos tem a oferecer à literatura, ao teatro e ao cinema?”.

Capítulo / 3


reportagem Entre a rotina da redação e páginas de ficção, jornalistas escritores têm de pesar na balança as duas profissões. Quem sai ganhando é o leitor.

DUELO DE PALAVRAS

17 Capítulo


reportagem por Marcela Heitor

MARCELO BRANDT

P

arece óbvio que jornalismo e literatura andam de mãos dadas há muitos anos. Surgiram quase na mesma época. Em 1456, Gutenberg inventou a imprensa e também criou o livro ao editar a Bíblia. Além disso, o primeiro jornal semanário – Gazzete de France – surgiu em 1631 em Paris, considerada a capital mundial da literatura. Esses fatos históricos comprovam uma realidade também presente nos dias de hoje. Não por acaso, muitos jornalistas fizeram-se escritores pelo trabalho na mídia, da mesma forma que vários escritores conseguiram sobrevivência financeira nos jornais. Os limites entre jornalismo e literatura podem ser tão estreitos que a duas áreas correm o risco de se misturarem, podendo chegar à descaracterização de uma das partes. O jornalista e escritor Nelson Rodrigues (1912-1980) nunca escondeu que, às vezes, optava por tornar o fato mais literário, deixando de lado o princípio jornalístico da verdade. Aos 13 anos, tornou-se repórter policial. Em uma de suas coberturas, escreveu sobre um desastre de trem, dramatizando o acontecimento com um passarinho que teria testemunhado os fatos e correspondido com seu canto a ele. A matéria emocionou vários leitores, até que se descobriu que a história era inventada: a ave nunca tinha existido. Mais tarde, aos 55 anos, Nelson Rodrigues se defendeu em seu livro A menina sem estrela (Companhia das letras, 279 páginas, R$ 42). “Hoje a reportagem de polícia está mais árida que uma paisagem lunar. Lemos jornais dominados pelos idiotas da objetividade. O repórter mente pouco, mente cada vez menos. A geração criadora de passarinhos acabou... Eis o drama – o passarinho foi substituído pela veracidade que, como se sabe, conta muito menos.”

Apesar do duvidoso compromisso de Nelson Rodrigues com as regras jornalísticas, é inegável que o autor foi um ótimo exemplo de jornalista escritor, que se destacou tanto na literatura quanto no jornalismo. Poderíamos citar outros tantos nessa situação, como Olavo Bilac, Machado de Assis e João do Rio. A literatura brasileira, numa amostragem bem significativa de escritores que se aventuraram pelo jornalismo e vice-versa, deixa clara a persistente migração de autores de um campo para outro. E quando escritores são também jornalistas, eles estão sujeitos, naturalmente, a esse intercâmbio de técnicas, linguagens, adaptações e, principalmente, conflitos. Não é a toa que, às vezes, o escritor fala mais alto que o jornalista na hora de escrever uma matéria ou o jornalista alerta o escritor quando percebe que deve evitar rodeios, floreios e falta de foco em seu romance. Grande parte dos intelectuais brasileiros continua conciliando jornalismo e literatura pelas mais diversas razões, sejam elas financeiras, pessoais ou de mera afinidade com a palavra. A situação pode não ser a mesma do século passado, época de Machado de Assis e Olavo Bilac, em que literatura e jornalismo se misturavam descaradamente nas publicações diárias, nos folhetins, nas crônicas, nas críticas rebuscadas. Hoje, os jornalistas escritores continuam existindo no cenário nacional – e no brasiliense também. Para muitos, conciliar jornalismo e literatura não é um problema. Lourenço Cazarré, autor de mais de 40 livros, entre novelas juvenis, contos e romances, acredita que, como viver de venda de livros no Brasil é quase impossível, conciliar jornalismo e literatura é uma saída natural. “A ligação entre jornalistas e escritores é forte Capítulo / 5


reportagem

porque, aparentemente, a função é a mesma: escrever. No entanto, simplificando ao máximo, pode-se dizer que o jornalista usa a língua para descrever o real e o escritor a utiliza para criar um mundo ficcional. São coisas fundamentalmente diversas.“ Na visão do atualmente analista político do jornal O Estado de S. Paulo, Ariosto Teixeira, falar que existe conflito entre as partes é desculpa (para não fazer bem nenhuma das duas, no caso). “É possível sim juntar as duas

ANDRESSA ANHOLETE

Beatriz e Alessandra Roscoe fazem o que podem para separar a literatura dos estudos e do jornalismo.

coisas. O que não é possível é viver de literatura.” Na capital desde 1978, o autor de Poemas do front civil acredita que, além de um mercado editorial que favoreça as obras literárias nacionais, falta pesquisa nos textos produzidos no país. “Somos muito influenciados pelo experimentalismo francês e fazemos isso de forma muito preguiçosa. É por isso que muitos escritores dizem que, se tivessem de pesquisar para escrever, jamais escreveriam. Mas a pesquisa é essencial.” Após anos de atuação no jornalismo televisivo, a atualmente escritora de literatura infantil Alessandra Roscoe acredita que jornalismo e literatura são atividades parceiras e totalmente conciliáveis. Apesar de ter deixado a televisão, continua contribuindo para revistas. “Não vejo nenhum problema, acho até que as duas coisas andam muito juntas. Sempre brinco que, como jornalista, escrevo histórias de verdade de gente de verdade e, como escritora, invento situações e personagens. A meu ver, uma coisa completa a outra. As duas profissões têm a mesma ferramenta: a palavra. Seja ela poética ou informativa, será sempre a palavra.” Alessandra tem quatro livros publicados, dois deles com ilustrações da filha Beatriz, de 10 anos. Ela conta que, mesmo com o corre-corre dos fechamentos, sempre procurou poesia nos acontecimentos mais banais. Por isso, literatura e jornalismo nunca foram uma relação conflituosa para ela. “Posso garantir que é mais fácil prender a atenção de um telespectador do que a de uma criança, mas sempre busquei ser verdadeira e me colocar de corpo e alma não só nas minhas matérias como nos meus livros e encontros com os leitores.”


Conflitos A verdade é que, no Brasil, há tempos a literatura não consegue viver um relacionamento a dois – só ela e o escritor. Conciliá-la com outras atividades virou tradição aqui e nos países que nos influenciaram, como Portugal e França. Às vezes, literatura e jornalismo estão unidos por relações muito mais fortes do que o suposto compromisso de fidelidade conjugal. Nessa corda bamba, entre a ponta da sobrevivência e a ponta da vocação, fica a vontade de fazer bem as duas coisas. Mas essa relação equilibrada entre jornalismo e literatura nem sempre é possível. Morando em Brasília desde 2004, a editora do caderno de esportes do Correio Braziliense, Clara Arreguy, está ciente do risco que corre pela escolha de querer ser escritora e ser jornalista ao mesmo tempo. “Uma das atividades sempre fica em segundo plano. No meu caso, é a literatura que sai perdendo, porque o jornalismo me ocupa a maior parte do tempo. As duas áreas exigem tempo e energia e nem sempre eu chego disposta da redação. Na maioria das vezes estou cansada e não consigo escrever. É uma harmonia difícil de conciliar.” Jornalista há quase 30 anos e autora do recém-lançado Tempo seco (conheça mais sobre o livro na página 25), Clara Arreguy diz que só se disciplina a escrever quando tem alguma produção literária em andamento. Aí ela se obriga a continuar a obra, mesmo com os horários apertados de suas obrigações jornalísticas. É o que aconteceu durante a edição do seu último romance. A opinião de Clara Arreguy é similar à do também mineiro Joanyr de Oliveira. Ser escritor foi um acaso de sua vida, já que todos os rumos o levavam para o sentido oposto. O autor foi in-

Quem é quem? Alessandra Roscoe Escreve para a revista Cláudia. Ao lado da filha Beatriz Roscoe, escreveu A menina que pescava estrelas (LGE, R$ 15). É autora de O jardim encantado (LGE, R$ 17), A fada emburrada (Elementar, R$ 25) e O jacaré Bilé (Biruta, R$ 27). Ariosto Teixeira Jornalista, é editor de jornal, consultor e cientista político. É colunista da Agência Estado e analista político de O Estado de S. Paulo. Como ficcionista, é autor de Poemas do front civil (7 Letras, R$ 25). Clara Arreguy Natural de Belo Horizonte, chegou a Brasília em 2004 para ser editora de Cultura no Correio Braziliense. É autora de Segunda divisão (Lamparina, R$ 25) e Tempo seco (Geração Editorial, R$ 25). Joanyr de Oliveira Foi jornalista, professor e analista da Câmara dos Deputados. Aposentado, se dedica exclusivamente à carreira de poeta, cronista e contista. Escreveu, entre outros, Tempo de ceifar (Thesaurus, R$ 20); Biografia da cidade (LGE, R$ 30) e Antologia pessoal (Thesaurus, R$ 30). Pedro Biondi Teve contos, crônicas e poemas publicados em revistas, sites e antologias. Como repórter e editor, já atuou no jornalismo público, na grande imprensa e em publicações especializadas, além de escrever reportagens para vários veículos. É autor de Cheiro de leoa (Liminar, R$ 20).

Capítulo / 7


fluenciado pelo pai para ser proletário e só teve contato com o concretismo e com a poesia de Carlos Drummond de Andrade aos 19 anos, quando se mudou para o Rio de Janeiro. Foi a partir desse encontro que Joanyr começou a pensar em uma vida literária. É um dos pioneiros da literatura na capital

fato de a cidade estar fora do eixo RioSão Paulo, seja pela capital ainda ser relativamente nova. Até aqueles mais reconhecidos sofrem com essa lacuna. Jornalista desde 1998, Pedro Biondi é paulista e chegou a Brasília em 2005. Na capital, ele se divide entre o convívio ora enrique-

federal, cidade em que reside desde sua criação, em 1960. Bacharel em Direito, jornalista desde os 16 anos e analista legislativo aposentado da Câmara dos Deputados, ele também avalia que jornalismo e literatura são atividades absorventes demais para serem exercidas juntas. “Ficam os dois lados brigando pela produção. Eu fiquei no jornalismo por um tempo porque precisava me manter. Cheguei a trabalhar em três jornais. Até que passei no concurso da Câmara dos Deputados, que me pagava mais que os três empregos em redação juntos. Hoje tenho o tempo que preciso para a literatura.” O caminho seguido por Joanyr é seguido por muitos, que trocaram os anos de redação pela estabilidade – e disponibilidade de tempo – no serviço público. Com isso, conseguiram mais brechas na agenda para se dedicar à literatura. Diminuir a carga de trabalho e a absorvência que o jornalismo exige pode ser uma saída na saga de conciliar as duas atividades.

cedor, ora conflituoso do universo literário-jornalístico. “Às vezes as coisas parecem se misturar. Já tive um editor que lia meu texto jornalístico e dizia: ‘Tá pensando que você é escritor? Vai cortar isso!’ Mas é fundamental filtrar esses ensinamentos e entender o que é floreio, o que é estilo.” Além do complicado convívio entre as duas profissões, Pedro teve outros grandes desafios quando lançou Cheiro de leoa em 2007. Ele avalia que, em Brasília, existem duas realidades: a de escritores bons que não são aceitos de imediato pelas editoras e a dos sem um compromisso tão profundo com a literatura mas que, por terem nome ou contato, conseguem publicar sua obra com mais facilidade. Ele conseguiu publicar seu livro de estreia por uma editora paulista. “Mandei meu original para várias editoras, inclusive as que lançavam autores novos, e muitas demoravam mais tempo que o prazo estipulado para me dar um retorno. Outras eu sei que nem liam. Consegui a editora, mas dividi os custos da publicação. Existem escritores muito bons com relação intensa com a criação, mas que demoram a publicar justamente por essa dificuldade. E existem aqueles que escrevem um livro para sair da rotina e, para ele, a editora vem bem mais fácil. São duas realidades diferentes.” A publicação em um mercado caracterizado pela falta de editoras e pela dificuldade de distribuição só foi possível a Clara Arreguy com a aprovação de Tempo Seco no Fundo de

Mercado editorial no DF Se o convívio harmônico ou não entre jornalismo e literatura ainda divide opiniões, a visão dos jornalistas escritores sobre o mercado editorial é praticamente unânime. Todos reconhecem que existe muita gente boa produzindo na capital, mas há pouquíssimas editoras dispostas ou capazes de publicar esse material. É um problema nacional? É. Mas em Brasília ele parece mais acentuado, seja pelo 8 \ Capítulo

ANDRESSA ANHOLETE

reportagem


reportagem Apoio à Cultura do DF, o FAC-DF, uma oportunidade de lançamento que causa dependência dos editais. Para ela, o ideal é aproveitar a oportunidade e se vincular a uma editora. “Publicar é sempre o mais difícil. Eu gosto muito de mexer no texto. Se fosse por mim, eu mesma fazia a edição do roman-

e 7,4 resumem a possibilidade de toda a variedade de publicações restantes. Percebe-se que os jornalistas escritores enfrentam um problema natural de leitura no país. É uma situação, entretanto, que não depende mais do governo e das políticas de educação do Brasil para ser melhorada. Às edi-

ce. Mas para ter acesso ao mercado, não adianta querer fazer uma produção independente. O escritor precisa da editora para se inserir no mercado, ter uma distribuição. Só assim para chegar naquele leitor que ainda não conhece o seu trabalho.” As editoras de peso estão no Rio de Janeiro e em São Paulo, o que torna o Brasil ainda muito dependente da literatura dessas cidades. Por isso o reconhecimento da literatura brasiliense faz-se tão difícil, fechado aos limites do DF. Mas quais são os motivos dessa ausência mercadológica? Existem hoje 15 editoras registradas na Câmara do Livro do DF. Quase nenhuma delas chega às grandes redes de livrarias, principal ponte com o leitor brasileiro. A maioria das publicações de Brasília só é viável mediante bolsas de apoio de órgãos públicos. Mas publicar não automatiza a chegada do livro ao leitor, principalmente num país em que ainda se lê pouco, menos de cinco livros por ano por habitante. A pesquisa Retratos da Leitura do Brasil, divulgada em maio de 2008 pelo Instituto Pró-Livro, mostra que as pessoas do Centro-Oeste leem uma média de 4,5 livros por ano. Desse total, 3,4 são obras indicadas pela escola (o que inclui os livros didáticos), sobrando apenas 1,3 para leitura extraescolar. O estudo também constatou que cada residência brasileira tem uma média de 25 livros – cerca de 12 deles indicados pela escola, dois são a Bíblia, três são outros livros religiosos

toras, cabe tentar atrair público para as obras que lançam no mercado. Aos autores, o que se pode tentar fazer é apresentar livros de autores locais à população, divulgando-os em escolas, saraus, noites literárias, TV; fazendo parcerias com universidades, projetos com o governo, rodas de leitura. Enfim, todas as possibilidades que tornem o acesso e a descoberta do que é produzido mais fácil para os leitores. Há de se quebrar o círculo vicioso das rodas fechadas de escritores em que só eles se conhecem, alheios ao universo externo. C Horários apertados são vilões na rotina de Clara Arreguy.

Capítulo 18


reportagem

fotografias do INV SI EL

O livro das emoções, quarta ficção da série de João Almino sobre Brasília, aprofunda a história do fotógrafo Cadu, um cego de 70 anos que revive o passado ao organizar seu arquivo de fotos.


reportagem por Marina Fernandes

N

ão há alguém mais indicado para levantar um arquivo biográfico em imagens do que um fotógrafo. Mas quando o tema é mergulhar na história de si mesmo, até o mais experiente profissional pode recuar. E se lhe fosse suprimida a capacidade de ver? Cadu, protagonista de

nas escolhas do protagonista e sua melancolia ao lembrá-los. “A felicidade é uma miragem que conseguimos ver quando olhamos para trás ou para frente”, escreve Cadu pelas mãos de João Almino. O desenvolvimento dramático do personagem, entretanto, não se dá

O livro das emoções (Record, 256 nas linhas escritas por Cadu, por mais páginas, R$ 30), é um fotógrafo cego que um diário possa estar relacionado que tateia para reconhecer seu passaa dramas pessoais. Almino, provocado enquanto usa a memória de guia. dor, sabiamente pontua o romance Autor da consagrada Trilogia de pela descrição de acontecimentos e Brasília, onde nada é o que parece, sentimentos sem cair em melodrama. era de se esperar que o diplomata e Os encaixes resultam em texto moderescritor João Almino voltasse a surpreenno onde quem constrói o juízo de valor der. Para começar, a saga passa a ser é o próprio leitor. “Certas opiniões dos conhecida como quadrilogia; ou quarpersonagens servem principalmente teto, como prefere o autor. O persoao propósito de provocar o leitor e nagem central é o mesmo que tirou fazê-lo refletir, muitas vezes sem a a fotografia em torno perspectiva de que seja da qual se desenvolve possível encontrar reso primeiro livro, Ideias postas para as quespara onde passar o fim tões que se levantam”, do mundo (Record, 242 esclareceu João Almino páginas, R$ 32). Cadu, a Capítulo. agora com 70 anos, acaÉ com essa perspecta a sugestão da afilhada tiva que o escritor aborCarolina de retomar um da temas diversos duantigo diário fotográfico, rante o romance. Fatos relembrando os últimos da vida de Cadu, como 20 anos de sua vida. desemprego, reconheApaixonado por focimento da paternidade tografia, Almino habilde um filho preso e a João Almino mente conduz a história paixão por uma mulher em dois momentos. No com uma doença fatal, primeiro, o leitor tem a possibilidade se misturam a acontecimentos polítide folhear o livro das emoções escrito cos ficcionais e reais. Almino retoma por Cadu, com suas memórias orgade romances anteriores pensamentos nizadas de forma racional e acompasobre a ascensão de um negro à presinhadas de fotos descritas como só um dência do Brasil e o respeito à homosverdadeiro escritor-fotógrafo poderia sexualidade. Do universo real, saem fazer. Intercalado a essas páginas está reflexões sobre a guerra americana ao o diário pessoal do personagem, esterrorismo provocada pelos ataques de crito ao mesmo tempo em que mon2001, a abertura comercial dos países ta o livro de fotografias. Como em um subdesenvolvidos e o desvio de verquebra-cabeça, é possível conhecer o ba para compra de ambulâncias que impacto que fatos e pessoas tiveram virou CPI em 2005.

“Fotografar

é ver com o

olho treinado; recortar e guardar o

MARCELO BRANDT

que se vê.”

Capítulo / 11


meçar por sua beleza de linhas curvas que inspiram na arte que Cadu escolheu como profissão. “Brasília excitava com carícias verdes o cerrado rústico. Eu a redescobria sensual e audaciosa, de uma poesia variada, que podia ser lida aqui como barroca, ali como arcádica, depois como concreta e acolá

Ainda mais presente que o diálogo do romance com questões polêmicas é o mergulho poético feito por João Almino sobre a presença feminina. Cadu inicia o arquivo fotográfico com memórias dos últimos 20 anos. E não é para menos. O período coincide com sua volta a Brasília após o fim do relacionamento com Joana, com quem esteve junto desde o suicídio da primeira esposa, Vera. O que acontece logo nas 20 primeiras páginas do romance marca uma tendência que é seguida durante toda a história. Ao lado de mulheres fortes e, ainda, intuitivas e sensíveis, o protagonista se mostra fraco diante dos próprios anseios, construindo uma vida marcada por tudo aquilo que ele não consegue realizar. Para aliviar os fracassos, a cidade se abre de forma dócil para o novo morador. Mesmo como pano de fundo, Brasília talvez seja a mais forte personagem feminina do livro, a co-

“A foto de número 18 é uma das muitas que fiz de seus gestos ou expressões. Três dedos de sua mão voltavam-se para o alto, enquanto sua face enrugada se iluminava ao enunciar duas ou três coisas incompreensíveis.” O livro das emoções, de João Almino

12 \ Capítulo

como marginal, mais adiante como puros haikais”, elogia ele. A delicadeza é tão sagrada ao personagem construído por Almino que lhe serve de inspiração para ensaios fotográficos. Um deles, banal pelo tema e gracioso em seu desenvolvimento, é composto por imagens que exploram a harmonia da natureza com a cidade e, ainda, com o sentimento de seus habitantes. A partir de fotos de flores, Cadu idealiza uma instalação fotográfica de forma que o ritmo é ditado pelos tons captados na chapa fotográfica. Ao lado das cores, outro ensaio enquadra o que o fotógrafo batiza como seus triângulos. De longe, são formas geométricas. De perto, surgem pelos e a textura da pele da região mais íntima das mulheres com quem o fotógrafo esteve. Nada poderia ser mais feminino. É com essa sutileza na descrição que João Almino desenvolve personagens desde a primeira ficção, atingindo uma doce e intensa força em O livro das emoções. É com um Cadu ora mundano, ora poeta, louro, altíssimo e cego, que o autor aproxima a solidão do personagem do que Clarisse Lispector disse serem os primeiros habitantes da cidade no século IV a.C. na crônica Nos primeiros começos de Brasília – comparação inevitável até mesmo para Cadu, em sua sensata velhice. “A raça se extinguiu porque nasciam poucos filhos. Quanto mais belos os brasiliários, mais cegos e mais puros e mais faiscantes, e menos filhos.”


reportagem

Além da ficção A cegueira de Cadu é inata, começa a aparecer em idade adulta, já em torno dos 60 anos. Os objetos desaparecem pouco a pouco, as fotografias se tornam desfocadas e o protagonista começa a disparar a máquina a partir de sons ou movimentos, até que ele tem de tocar uma das fotografadas para conseguir captar uma imagem centralizada de seu rosto. A história de Cadu não está presa à ficção. Em muitos momentos, se assemelha à vida do artista plástico californiano Pete Eckert. Escultor e designer, ele é vítima de Retinite Pigmentosa, uma doença genética que o deixou completamente cego aos 28 anos. Atualmente, aos 52, ele é o mais premiado fotógrafo cego dos Estados Unidos, merecedor do prêmio máximo da organização Artists Wanted, formada por prestigiados artistas de Nova York. “Mesmo sem estímulos, ou talvez especialmente sem estímulos, o cérebro humano continua a criar imagens. Eu sou uma pessoa muito visual, apenas não consigo ver”, explicou em entrevista ao Museu da Universidade da Califórnia. A obra de Eckert é composta pelo que ele chama de “cinema de uma foto”: imagens únicas de eventos, que representam narrativas simplificadas. Suas fotos mais famosas, entretanto, são feitas em estúdio. Com a câmera programada para captar imagens durante cinco minutos de exposição, Pete Eckert redesenha o objeto fotografado a partir do toque com alguma fonte de luz, como lanternas, velas, isqueiros ou lasers. A luz rabisca o filme fotográfico em diversas cores, enquanto o longo tempo de exposição revela, na penumbra, um pouco do objeto fotografado. Eckert não é um caso isolado. Evgen Bavcar, um esloveno radicado em Paris, é cego desde o 12 anos. Ele perdeu a visão por consequência de dois

“Um cego está sentado na beira da calçada de pedra portuguesa que imita os desenhos de Copacabana. Sua cabeça está levemente reclinada, o olho direito fechado, enquanto o olho esquerdo, de íris esbranquiçada, deita o olhar morto fixo sobre a água que a chuva acumulara e na qual seu corpo se reflete.” O livro das emoções, de João Almino

acontecimentos violentos. Enquanto o olho esquerdo foi danificado pelo choque com um galho de árvore, o direito foi perdido em uma explosão ao brincar com um detonador de minas. As últimas imagens de que lembra, paisagens da janela de um hospital na sua terra natal, estão até hoje presentes na obra de Bavcar, composta por fotografias em preto e branco, com forte batalha entre luz e sombra. Eckert, Bavcar e outros renomados fotógrafos cegos são parte de uma recheada exposição do museu ARTSBlock, na Califórnia, até o dia 29 de agosto. A mostra, Sight Unseen, tem objetivo de mostrar que os fotógrafos cegos possuem uma visão muito clara do mundo. E por que não? É como disse a escritora e crítica de arte Susan Sontag no livro Sobre fotografia (Companhia das Letras, 224 páginas, R$ 4): “Ao nos ensinar um novo código visual, as fotos modificam e ampliam nossas idéias sobre o que vale a pena olhar e sobre o que temos o direito de observar.” Basta conferir o catálogo da exposição (disponível em www.cmp.ucr.edu/ exhibitions/sight unseen) para comprovar.

Capítulo / 13


O homem por trás da lente

Com quatro livros passados em Brasília, João Almino pode ser considerado um novo fundador da cidade. Na sua versão, a capital não é apenas o centro político do Brasil, mas uma possibilidade de explorar personalidades livres de estereótipos. A desordem mascarada pelo planejamento urbanístico, a alta desigualdade social e a presença massiva de moradores naturais de outros estados geram contrastes que a tornam ideal para o universo ficcional. As ficções Ideias para onde passar o fim do mundo (ganhador do prêmio do Instituto Nacional do Livro e prêmio Candango de Literatura), Sambaenredo, As cinco estações do amor (prêmio Casa de las Américas 2003) e O livro das emoções foram lançadas com exatos sete anos de diferença, intervalo que o autor garante ter sido obra do acaso. Nascido em Mossoró, no Rio Grande do Norte, Almino viveu em Fortalezá, Ceará, durante grande parte da juventude. Seu contato com Brasília se fortificou ao mudar para a cidade, onde morou por mais de uma década. Atualmente morando em Chicago, onde atua como cônsul-geral do Brasil, o diplomata concedeu a Capítulo uma entrevista por e-mail e declarou, em primeira mão, que pretende continuar a série, lançando um livro já no ano que vem.

BIA WOUK

Seus livros foram inicialmente pensados para formarem uma trilogia? Se sim, o que o fez escre-

João Almino tem Brasília como projeto estético e literário. Ele acredita que a cidade ajuda a filtrar estereótipos.

14 \ Capítulo

ver o quarto livro? Inicialmente pensei que, após a publicação de Ideias para onde passar o fim do mundo, eu iniciaria uma série de romances centrados em cada um dos personagens principais daquele livro. Seriam bem mais do que três. Com o tempo, alguns desses projetos


reportagem de livros me pareceram desnecessários. Quando concluí o terceiro, acreditei que já havia esgotado o universo daqueles personagens. Embora não fosse minha intenção inicial, a escrita do quarto romance me fez recuperar, em parte, o projeto original. Ideias para onde passar o fim do mundo e Samba-enredo estão extremamente ligados pela história que contam. Ambos têm uma visão universal dos personagens, enquanto os dois últimos da série se focam na história pessoal, desejos e motivações de Ana e Cadu em fases maduras. O que o levou a se focar nesses dois personagens? Após exprimir duas distintas visões de conjunto, retomei a idéia, que já estava presente desde o início, de construir romances em torno de um personagem principal. Depois de uma história em torno de um personagem feminino, outra com um personagem masculino. Existe um longo intervalo de tempo entre as publicações. Pelo que você costuma afirmar, passou todo esse tempo pensando nas histórias. Como você as concebe, desenvolve e escreve? Como mantém o estilo narrativo coeso, evidenciando características dos narradores-personagens, se são escritas em intervalos longos? Escrevo com bastante regularidade, algumas poucas horas todos os dias. Os anos transcorridos entre um livro e outro foram simplesmente o tempo necessário para que as histórias amadurecessem e para que eu me contentasse com a forma. Passo muito mais tempo nas revisões do que na escrita. E é também por meio das revisões que é possível atingir a unidade e coerência necessárias.

Ideias para onde passar o fim do mundo tem um fantasma como narrador. Em Samba-enredo, um computador. Já em O livro das emoções, o narrador é cego e relembra sua história com imagens. Em As cinco estações do amor, Ana usa a história que escreve como uma espécie de desabafo e se deprime no processo. Você acredita que a partir da interrupção do contato direto dos narradores com o mundo (livros 1, 2 e 4) eles conseguem uma visão mais racional dos fatos sem perder, entretanto, o lirismo? Os efeitos produzidos por cada um desses narradores são distintos. O fantasma baixa sobre cada um de seus personagens e, com isso, a narrativa em terceira pessoa pode adquirir dimensão de primeira. Já a máquina ultra-inteligente do futuro, que olha para um passado que é nosso mundo atual, permite uma visão do presente a partir de ângulos inusitados, a raO livro cionalidade fria da máquina se contrapondo à espontaneidade caótica e quente que contempla. Já o narrador cego pode ver mais do que o olho alcança, porque trabalha com a memória e a imaginação. Espero que nos três casos tenha sido possível transmitir emoção.

das emoções Record 256 páginas R$ 30

Podemos esperar a continuação da série? Em primeira mão: o quinto romance está relativamente avançado e gostaria de concluí-lo a tempo do aniversário dos 50 anos de Brasília, mas ainda não sei se isso será possível. C Capítulo / 15


debate

e d a d i v i t cria

uma questão de

É

possível

fazer poesia

em uma tradução

?

16 \ Capítulo


por Jamila Tavares

H

á quem não se dê conta do quase milagre que é visitar uma livraria e encontrar centenas de livros, originalmente escritos nas línguas mais diversas, editados em português. Há também quem julgue toda tradução uma farsa, um atentado contra a essência da obra original. Há ainda xiitas literários que defendem a aposentadoria de todos os tradutores e o ensino global de, no mínimo, cinco línguas distintas. Há ainda pessoas que encaram a tradução como um exercício de recriação literária. A transposição, além de conjuntos de letras, palavras e frases adaptadas, carregam consigo diversos significados entre semânticos e culturais que superam a função da palavra como suporte para a comunicação de ideias. Pode existir ainda, entre rimas, uma brecha que sirva como suspiro para a criação literária na tradução. É por esse caminho que segue, a passos harmônicos, o poeta, contista, crítico literário e tradutor Anderson Braga Horta. Para ele, é entre vocábulos e rimas que se pode usar a criatividade. Há mais de meia década, Horta se dedica a um dos ramos mais polêmicos da já polêmica atividade de reescrever textos em língua diversa da original, a tradução de poesia. “Por que traduzir poesia? O exercício da tradução gera um prazer semelhante ao de compor uma poesia, mas é um prazer limitado, determinado pela forma determinada previamente. Na tradução, a inspiração já vem pronta, é alheia, e não algo que surgiu em sua cabeça.” Ele – que já traduziu obras do francês, espanhol, inglês, alemão e até do búlgaro – re-

escreveu um poema pela primeira vez em 1957, quando ainda era estudante de Direito na antiga Faculdade Nacional, no Rio de Janeiro. Para participar de um concurso de tradução promovido pelo Centro Acadêmico de sua faculdade, ele produziu três versões em português de um poema relativamente simples de Jean Cocteau e, sob pseudônimos, inscreveu as três. Carlos Drummond de Andrade – que, além de genial em verso e prosa, também atuou como tradutor – era um dos integrantes da comissão julgadora que escolheu uma das versões de Horta como a vitoriosa. A multiplicidade de versões de um mesmo texto é uma das características mais marcantes das traduções de Horta. Fugindo do estereótipo da tradução hermética e que se esgota em si, ele, não raras vezes, produz mais de uma versão de um mesmo poema – e chegou a produzir seis para um poema de Rimbaud. As versões não apresentam diferenças gritantes entre si, distinguem-se apenas na ordem ou na substituição de palavras. Ao disponibilizar mais de uma opção para o leitor, Horta acredita que possibilita uma maior compreensão da obra original por aqueles que leem o texto traduzido. “As versões são muito próximas. A perplexidade em que fica o tradutor segue vários caminhos. A quem nós, tradutores, devemos fidelidade? À senhora forma ou ao senhor conteúdo? É entre esses dois pólos que tem de transitar o tradutor de poesia.” A preocupação com a forma se deve à preferência particular de Horta por traduzir poemas metrificados, onde as estruturas rítmicas e silábicas acabam por adicionar dificuldades à tradução. Ele conta que a escolha por


debate recriar em português textos versificados de autores renomados como Rimbaud, Victor Hugo, Jorge Luis Borges, Pablo Neruda e Baudelaire – de quem traduziu o conhecido poema Flores do mal - foi norteada pelo seu gosto próprio, sem pensar, num primeiro momento, nas dificuldades que

no gostou tanto do resultado que incentivou Ridd a fazer mais traduções, o que desembocou na publicação de um livro com 30 poemas de Cassiano em inglês. O foco de Ridd não está na recriação de poesias, que muitas vezes aparecem no meio de outros textos

a tradução traria.

que ele está traduzindo. Seu trabalho como tradutor tem se ocupado principalmente de poesia em verso livre. “Como a maior parte dos textos que tenho traduzido é mais recente, feita do modernismo para cá, quase não lido com metrificação”, explica. Além de serem menos complicados de traduzir, Ridd acredita que os poemas em verso livre traduzem a essência do fazer poesia, pois são livres de qualquer amarra estilística. “O poema metrificado cria uma restrição sobre as escolhas lexicais e sobre a estrutura do texto. Frequentemente, percebo que a métrica obriga o poeta a falsear seu poema e que ajuda a vender textos que se apresentam como poemas, mas que pecam pela qualidade”, diz. Com vasta experiência acadêmica, Ridd não acredita que é necessário ser poeta para fazer a tradução de poemas. Diferente de Horta, que tem vários livros de poesia publicados (confira crítica sobre seu último trabalho na página 24), Ridd não se considera um poeta. “Não sou poeta, nunca fui e não sei se vou ser. As poucas coisas que escrevi, sempre detestei. A criação poética é uma outra arte. Você tem que ter algo interessante a dizer e saber como dizer isso de forma interessante”, declara. Ele, porém, não acredita que o exercício da tradução está acessível àqueles sem especialização. “Você não precisa ser poeta, mas precisa ter cultura poética, principalmente da língua para qual você vai traduzir.”

O pé da letra “Você tem que tomar certas liberdades se quer obter uma ideia aproximada do que foi dito na obra original”, afirma Horta, reconhecendo que não tem domínio de nenhuma das línguas que já traduziu. “Tenho mais desenvoltura com o espanhol e com o francês, mas o que é ter domínio de uma língua? É escrever, ler e falar essa língua de forma semelhante ao que faz um nativo. Eu não posso dizer que domino nenhuma dessas línguas que traduzi”, diz ele, defendendo que o tradutor tem que ser fiel à aura do poema, e não a uma tradução literal. Foi justamente tropeçando numa tradução literal que Mark Ridd, doutor em Letras pela Universidade de Londres e professor do departamento de Letras e Tradução da UnB, mergulhou no exercício de transposição de poemas para outras línguas. O primeiro texto que traduziu foi do poeta alagoano Jorge de Lima para um documentário sobre a ferrovia MadeiraMamoré. Quando lhe solicitaram para legendar o poema em inglês, sua língua natal, ele fez uma tradução literal – que teve de ser reescrita a pedido do diretor que queria não apenas a simples tradução direta, mas um texto com qualidade poética. Depois disso, Ridd resolveu retribuir a gentileza de Cassiano Nunes, que todos os anos lhe enviava poemas em vez de cartões de natal, e traduziu para o inglês alguns textos do poeta. Cassia18 \ Capítulo


debate quem é quem? Imersão cultural Desconhecer a cultura poética ou o contexto em que a obra traduzida vai se inserir é, na avaliação de Ridd, um dos maiores erros dos tradutores. Para ele, o poema é um objeto linguístico sofisticado, que estabelece conexões com outros textos escritos

mas pelo menos chega algo.” Anderson Braga Horta também se vale de textos explicativos para acompanhar os poemas que traduz e defende ainda a publicação dos dois textos, original e versão traduzida, lado a lado para que o leitor possa compará-los. Ele acredita que a chave pode evitar

na mesma língua e carrega junto consigo uma infinitude de aspectos culturais. “Poemas conversam com outros poemas. Eles funcionam na oposição e na sobreposição de informações. É importante fazer com que os textos tenham ressonância com outros textos da mesma língua original já traduzidos anteriormente.” Uma ferramenta que ajuda a diminuir a distância entre o texto original e a versão traduzida é a chamada chave de leitura, texto em prosa que contextualiza o poema, facilitando sua compreensão. Em casos extremos, a chave de leitura substituiu a tradução. “Quando você tem um poema que não tem condição de ser transportado para outra língua, não é como se não pudesse traduzir, mas, fora do seu ambiente, o poema perde o sentido”, explica Ridd. Ele cita a música Feijoada completa, de Chico Buarque, para ilustrar esse tipo de situação. “Olhando apenas a letra da música, você tem a sensação de que essa comida é algo extremamente maluco. E a feijoada não é apenas o prato em si, mas também um ritual com forte caráter comunitário”, conta. Ridd reconhece que a leitura de um texto facilitador retira parte do prazer de se degustar a poesia, mas explica que, em muitos casos, a chave de leitura acaba sendo a melhor opção. “A chave significa empobrecimento, mas é um instrumento válido porque é um caminho para se compreender o poema em sua língua original. O que chega na outra ponta é empobrecido,

que os tradutores caiam no erro de aprimorar o texto original. “Pode haver perdas na tradução, mas dificilmente há ganhos. O ideal é fazer uma tradução tão boa quanto o texto que lhe deu origem”, resume Horta. O fato de que a cultura brasileira ainda é desconhecida e mitificada lá fora também dificulta o trabalho dos tradutores. Ridd lembra que o nosso conhecimento da cultura e de grandes autores americanos não encontra equivalente no sentido oposto. Ele afirma que o fluxo de informações entre o Brasil e outros países é descompensado e que nós consumimos muito da cultura americana e da espanhola, mas não exportamos a brasileira. “Quando o fluxo de informações entre países é pequeno, você tem que tomar cuidado em como tornar as coisas compreensíveis. Por exemplo, um exemplo besta, manga aqui cai no chão, mas lá fora a palavra manga sempre remete a algo exótico, significado que não estava presente no contexto original.” Ridd, que estuda lançar no ano que vem um livro com 50 poemas sobre Brasília traduzidos para o inglês, acredita que o exercício da tradução é sempre uma caixinha de surpresas. “Pode funcionar, pode não funcionar e pode funcionar de forma totalmente distinta do que você planejou. Traduzir é sempre uma aposta”, conclui. C

Capítulo / 19


entrevista por Malu Barsanelli

“Nesse momento tem 15 pessoas, porque é horário de almoço. Cai um pouco”, pensa em voz alta Antônio Miranda, diretor interino da Biblioteca Nacional de Brasília, enquanto olha o número de acessos de seu site. Nele, Miranda divulga não só os trabalhos da instituição, mas também suas desventuras, já que a literatura é “coisa séria” para ele desde os 12 anos, quando “já fazia jornaleco”. Nascido em 5 de agosto de 1940, no Maranhão, ele se considera “caranhense”, já que aos sete anos mudou-se para o Rio de Janeiro. Formou-se em Bibliotecnologia na Universidade Central de Venezuela, fez mestrado na Loughborough University of Technology, na Inglaterra, e é doutor em Ciência da Comunicação pela Universidade de São Paulo. Desde 1978, faz parte do corpo docente da UnB, onde é professor na graduação, mestrado e doutorado da Faculdade de Biblioteconomia. Poeta, é autor de mais de 40 livros, alguns publicados nas línguas italiana e espanhola. Entrou na Biblioteca Nacional como voluntário pela UnB e desde 2007 dirige a instituição. O senhor morou e estudou em diversos países, em especial da América do Sul. Como foi a experiência e quando mudou-se para Brasília? Em 1966 eu me autoexilei. Usava pseudônimo quando publicava e sabia que chegariam a mim em algum momento. Eu escapei [do Brasil] no momento mais grave [da ditadura]. Então eu ganhei uma bolsa para estudar biblioteconomia na Universidad Central de Venezuela e continuar o curso que havia começado na Biblio-

20 \ Capítulo

teca Nacional do Rio de Janeiro. Estudei lá até 1970 e continuei trabalhando na biblioteca nacional do país. E fiz peças de teatro. Eu montei em 1971 um espetáculo chamado Tu país esta feliz a partir de um poemário meu. O espetáculo rodou por vários países na América Latina e na Europa. Depois, voltei ao Brasil e em 1973 ganhei uma bolsa do Conselho Britânico para fazer mestrado na Inglaterra. Voltei a Brasília em 1977 e fiquei até hoje. Por ser uma cidade nova, Brasília não tem uma cultura tão estabelecida quanto em outras cidades. Quando chegou à capital, em 1977, como via a produção literária daqui? Eu achava fantástico. Porque é a cidade mais cosmopolita do Brasil e a menos chauvinista e a menos bairrista. Isso porque era o encontro do Brasil. Você tinha intelectuais de todo o país e de fora. Era um pessoal disposto a renovar, a transformar, a criar coisas novas. Havia um espaço, uma liberdade e uma tolerância intelectual imensa, apesar de ser o fim da ditadura. Logicamente, havia grupos mais hegemônicos, como o mineiros, os goiânos e algumas tribos nordestinas fortes. Mas isso fazia parte da diversidade de Brasília. Talvez a música tenha sido a primeira expressão cultural de Brasília a sair da cidade. Foi a era do rock em Brasília, a era da poesia marginal, com Nicolas Behr, Cássia Eller, Legião Urbana. Os jovens se manifestavam fundamentalmente através da música.


MARCELO BRANDT

Capítulo / 21


entrevista

E qual era a temática da literatura brasiliense? Havia movimentos de poesia marginal grandes contra a ditadura, os chamados poetas mimeógrafos, que vicejaram em Brasília. O grupo do Briqueà-Braque, o pessoal ligado ao Nicolas Behr era muito forte. Hoje eles são os

Na sua opinião, quais são as tendências da produção literária na cidade nos dias de hoje? Não há. O século XX abrigou manifestos e diversos movimentos literários. As pessoas aceitavam certas orientações estéticas e as coisas eram rotuladas com “ísmos”. O século XXI acabou

madurões que integram a nossa marginália institucionalizada. Fazem parte da memória da cidade, mas mantêm a sua rebeldia, contestação, crítica social de deboche da burocratização. Porque a raiz deles é essa.

com isso. Aquela literatura que era feita por um grupo passa a ser feita por todos. Hoje você pode publicar um blog de manhã e ao meio-dia já ser famoso e conseguir atrair público. Também há um declínio dos suplementos literários. Dizer o que é bom e o que é ruim ficou mais difícil.

Em Entre o cristal e a chama (Eduerj, 182 páginas), Maria da Glória Barbosa afirma que “a existência do que vem a ser uma literatura brasiliense não é algo que salte aos olhos através das vitrines das grandes livrarias da cidade. O fato literário se dá no reduto de associações e de academias. Os livros são vendidos praticamente apenas nos lançamentos, e os autores compram uns dos outros. Existe uma literatura brasiliense, mas é desconhecida do grande público.” O senhor concorda? Sim. Os meios de produção e distribuição da cultura estão concentrados no eixo Rio-São Paulo. Há uma certa aversão do que se produz na cidade por causa da política e de outros fatores que não têm nada a ver com literatura. Ainda tem muita gente de fora que passa longos períodos em Brasília e que não é identificada como brasiliense. A vida intelectual, por causa do Congresso e da UnB, tem um rodízio de pessoas, o que não acontece em outras cidades. Então há uma dificuldade de classificá-las como brasilienses. Autores que realmente iniciaram e se projetaram em Brasília são poucos. E poucos têm conseguido se projetar no Brasil. 22 \ Capítulo

E o preconceito. Está mudando? Não. Mas estamos rompendo algumas barreiras, com blogs e sites, por exemplo. Festivais também dão um pequeno espaço. O que falta para a literatura brasiliense? Agressividade. Acho que temos obras, mas as pessoas precisam encontrar caminhos para vencer certas barreiras editoriais. É preciso fazer investimentos e contatos. O problema é que não temos distribuidores na cidade. O prédio da Biblioteca Nacional foi entregue em 2006, mas ela só abriu ao público em 2008. Nesse intervalo, a instituição sofreu diversos problemas e críticas. Como a situação foi administrada? Em 2006, o prédio foi entregue, mas sem móveis, sem funcionários, sem acervo. Não entregaram uma biblioteca, somente um prédio inacabado, que exigiu ajustes e reformas para poder funcionar. Ele foi abrir efetivamente em dezembro de 2008 ainda em caráter precário. Foi uma resistência grande. Ninguém entendia como uma biblioteca inaugurava e continuava


quem é quem? fechada e sem acervo. A burocracia também vem do fato de ela ser uma instituição federal e um bem público da cidade. Há ainda quem questione que Brasília não deveria ter uma Biblioteca Nacional. Felizmente, há um decreto de 1963, do então primeiroministro Tancredo Neves, que estabe-

ser uma instituição federal e por ter condições de promover as produções, como a Primeira Bienal Internacional de Poesia [ocorrida em setembro de 2008]. Além disso, a instituição pode atrair recursos privados e de ONGs estrangeiras, por causa da sua projeção nacional. Também criamos o Tributo

lice a criação da biblioteca na cidade. Ela começou no fim de 2008 com um acervo de cerca de 50 mil documentos e hoje está com mais de 80 mil e estamos comprando mais 40 mil com recursos do Ministério da Cultura. Atualmente a Biblioteca conta com 70 funcionários e cerca de 25 bibliotecários. Mas ainda temos que implementar alguns sistemas.

ao Poeta, que homenageia mensalmente autores da cidade e do Brasil. E temos agora um curso de cinema e vídeo para crianças e adolescentes. Eles têm feito vídeos sobre poetas da cidade e até colocam na internet. [Miranda se distrai novamente com os acessos de seu site]. Olha, tem 30 pessoas neste momento na minha página! Impressionante, né? Estão lendo agora em Portugal, Belém, Pelotas... [Ele se vira e continua]. Mas também estamos criando aqui um cineclube, documentários científicos. A ideia não é ficar só limitado à literatura. A Biblioteca tem que ter uma função cultural muito ampla. C

MARCELO BRANDT

O senhor acredita que a presença da Biblioteca na cidade incentive a literatura local? Tremendamente. Ela é um ponto gravitacional. Por vários motivos. Pela localização [próxima à Rodoviária], por

Capítulo 18


crítica - Pulso Instantâneo por Francisco Carvalho

A

poesia, o conto, o ensaio, a crítica, as traduções: Anderson Braga Horta se destaca em todas essas iniciativas. Publicou vários livros de poemas, aclamados pelos melhores críticos do país, o mesmo acontecendo no tocante às demais atividades literárias, inclusive

presenteiam com admiráveis lições de sabedoria poética. Bastaria lembrar o inesquecível Morte em Veneza: a história de um intelectual que se apaixona por um jovem de grande beleza que frequentava uma praia com outros membros de sua família. Os grandes livros universais, a começar

as traduções de escritores da estatura de Victor Hugo. Escritor em tempo integral, ABH é desses autores para os quais a literatura é seu modo de ser e de comunicar-se com o mundo. Seus livros, independentemente do gênero, despertam as atenções dos leitores mais exigentes. Seu último livro, Pulso instantâneo (Thesaurus Editora, 142 páginas, R$ 30), é composto de 21 narrativas voltadas para a análise dos inúmeros conflitos a que está sujeita a natureza humana em sua curta vida sobre a terra. O contista nos revela, de vez em quando, suas intuições poéticas em construções como “Ouço o canto áureo de Anderson Braga um pássaro. É como se Horta aborda um canário desfizesse em conflitos cotidianos hinos o seu novelo de lã em seu mais dourada” ou “O som de novo livro muitas respirações espraia-se pela sala e morre lentamente”. Inúmeros momentos de atmosfera poética conferem densidade e ritmo à linguagem dos contos. O poeta tem plena consciência de que a ficção no conto é instrumento para a gestação do poema. A linguagem do conto moderno é essencial para as modalidades rítmicas que se entrelaçam nas entranhas do poema. Os grandes livros de Thomas Mann, por exemplo, nos

pela Bíblia, estão repletos de textos poéticos. É o caso de Pulso instantâneo, onde o autor exercita seu talento poético para enriquecer os conteúdos ficcionais do seu livro. No livro, poesia e ficção se entrelaçam de forma cristalina, a realidade crua de repente se converte em poema. O ser humano, dotado de idéias e convicções científicas, faz uso da literatura e desce às entranhas do corpo e da alma. Confessa a fragilidade de seus limites, sabe que é contemporâneo da morte, mas é seduzido pela serpente do amor, numa de suas visitas ao paraíso do primeiro homem. Horta explora esses aspectos da existência humana e deixa claro que a vida é uma escola onde não se aprende a morrer. No final do livro, numa prosa de requintada expressão formal, certo personagem “despertou nas trevas, emparedado. Apalpou as paredes, rocha. Preso no coração da pedra, em vão perscruta o peso da matéria, a espessura da treva”. Nesse diapasão, o conto chega ao fim, numa demonstração de que o bom poeta será sempre um ficcionista de olhar voltado “para cima – através da rocha”.

24 \ Capítulo

* FRANCISCO CARVALHO é poeta e ensaísta. Publicou, entre outros, Girassóis de barro (Prêmio Fundação Biblioteca Nacional), Memórias de espantalho e Os mortos não jogam xadrez. ** Texto originalmente publicado em janeiro de 2009 na revista eletrônica Nós fora dos eixos. u www.nosrevista.com.br


+ novidades

Deboche policial Em seu novo romance, Lourenço Cazarré é sarcástico. Ou melhor, assume o posto o debochado Campestre de Campos Campelo, repórter policial, piadista e narrador. A ironia começa na descoberta de um assassinato durante o secretíssimo Congresso Internacional de Escritores de Histórias Policiais. Campestre segue a pista do assassino a bordo da Revolução de Maio, carinhoso nome dado ao seu Fusca 1968. A partir daí, qualquer perseguição só pode acabar (e terminar) em piada. A misteriosa morte de Miguela de Alcazar Bertrand Brasil 176 páginas R$ 29

Histórias de percurso Rodrigues é taxista e, como tal, conhece como ninguém a vida - pela vida dos outros. Mas em Tempo seco, de Clara Arreguy, quem conta as histórias é Miriam, sua cliente mais frequente. Sem dirigir e nova na cidade, ela faz dos táxis seu meio de socialização. Se torna parte da história de Nonato e Dorinha e, por meio dela, tenta reconstruir a sua. Entre conversas sobre o cotidiano, sobra espaço para política. Porém, mais que contar e até viver a vida dos outros, ela constrói, a cada contagem do taxímetro, um pouco da sua. Tempo seco Geração Editorial 125 páginas R$ 25

Delicadeza séria Rosângela Vieira Rocha parte de uma preocupa-

Coletânea de folhetim O trabalho de nove anos de M. P. Haickel está reunido em O amor

ção moderna para a viagem pela vida de Alice, uma adolescente com distúrbios alimentares. O livro foge do foco em motivos óbvios. Os discute, é claro, no cotidiano da jovem, sua família desestruturada e na busca pela perfeição, mas a barreira do elementar é transposta pela sutileza da descrição. A autora, como em um desafio, explora tão bem a alma feminina, da qual é conhecedora, quanto a doença, mentalmente inquietante.

de Mariano. O livro leva o nome do mais famoso dos contos que, em tempos de internet, saiu em jornais, separado por pequenos episódios cujo clima folhetinesco ficava por conta do gancho, seguido das palavras “amanhã continua”. Seguindo à risca um gênero à moda antiga, Haickel não peca pela velocidade típica do gênero. Se a cada fim de história a respiração fica presa na garganta, é melhor segurar o fôlego por toda a coletânea.

Fome de rosas Edições Dédalo 130 páginas R$ 30

O amor de Mariano Thesaurus 120 páginas R$ 25 Capítulo / 25


na rede - poesia em tempo real por Malu Barsanelli

Escrevendo

passo a passo

le está à disposição do clique curioso de quem vaga pela internet. Ou quem procura algo específico e encontra satisfação nos versos, consolo nas frases, identificação e catarse. Está aberto e disposto a se mostrar como realmente é no instante em que surge no mundo. Pode conter imperfeições, pode futuramente ser reformulado, mas seu prazer está em se mostrar desnudo. Sete mil visitas já lhe foram feitas entre transeuntes passageiros, amigos e leitores frequentes. Assim é a rotina do livro/blog Poesia em tempo real, da paraibana Amneres Pereira. Seguindo o conselho de escrever diariamente proferido pelo amigo escritor Fernando Mendes Viana, Amneres decidiu não apenas publicar

tal para estudar Letras na Universidade de Brasília. Junto com a bagagem, trouxe o que se tornaria seu primeiro livro, a novela Pedro-Penseiro, publicada quando tinha 19 anos. Depois dele, vieram outros seis, todos dedicados à poesia: EmQuatro (Thesaurus), Humaníssima trindade (Edição do Autor), Rubi (Francisco Alves Editora), Razão do poema (Takano), Entre elas (Projecto Editoria, R$ 20) e Eva – Poemas em verso e prosa (Thesaurus, R$ 30). Para Amneres, escrever é quase como um processo terapêutico. “Não teria equilíbrio se não escrevesse. É o que me ajuda a processar o mundo e sua grande velocidade”, conta. Antes de começar a publicar no blog, Amneres havia deixado quinze poemas prontos, como uma espécie de backup, caso não conseguisse

um blog literário, mas o próprio livro em processo criativo. Todos os dias, desde 27 de novembro do ano passado, ela posta um novo poema que irá compor a obra final. Os que acompanham o blog encontram relatos da rotina, reflexões fugazes da realidade social brasiliense e pequenos vislumbres da biografia da autora. Pílulas poéticas cujas proporções são adequadas para os dias corridos e as horas escassas daqueles que, mesmo com pouco tempo, não dispensam o prazer do lirismo. Radicada em Brasília desde 1979, a escritora chegou à capi-

postar diariamente. O que de fato ocorreu. Em pouco tempo o estoque literário acabou, mas, em contrapartida, a poetisa adquiriu velocidade e fluidez criativa suficiente para que o processo diário se tornasse natural. “A experiência me permitiu adquirir intimidade com as palavras enquanto fazia um mergulho interno. É um processo muito sofrido. É como se fosse uma análise freudiana, como amadurecer à força”, detalha. Dolorido, mas gratificante. O retorno dos leitores-internautas foi uma experiência inédita para a escritora: “Surpreendi-me com a cumplicidade

por Nair Rabelo

E


do leitor”. Realmente participativos, os visitantes comentam os textos, enviam e-mails para a autora e até mesmo algumas iniciativas literárias. “É como se recuperássemos aquele tempo antigo das cartas, com trocas de confidências, de ideias”, delicia-se a paraibana. Até onde a obra vai, a escritora não sabe ao certo. Aliás, nunca sabe quando uma obra sua vai terminar. Mas Amneres suspeita que será em breve. “Vai ser doloroso, mas começo a me dedicar a um outro projeto”, comenta em referência a Crônicas brasilienses, uma série semanal de crônicas que já aparecem entremeando os posts do blog. Finalizado o Poesia em tempo real, os textos serão revisados e publicados na forma tradicional. A previsão é que o livro faça parte da coleção OiPoema, composta por obras de Nicolas Bher, Luis Turiba, Vick Prado e Cris Sobral. O o lançamento está previsto ainda para este ano. Amneres promete que os textos permanecerão disponíveis no blog para quem quiser ler, comentar, compartilhar. Afinal, é disso que se trata o diário virtual da escritora: poesia diária, 24 horas, ao alcance de todos. u www.poesiaemtemporeal.com/ category/livro-blog

+ sites

Reflexão e discussão Por diversas vezes, a mistura de sensibilidade e filosofia não consegue diálogo com o mercado editorial. O caminho até o público é um destino possível com a editora Casa das Musas. A intenção é potencializada com um jornal online, onde há uma discussão do possível pelas mãos de colaboradores de peso. A edição de maio traz uma rica entrevista com Daniel Innerarity, doutor em filosofia pela Universidade de Navarra e pesquisador sobre a filosofia da literatura. u www.casadasmusas.org.br

Weblivro Em 20 anos de jornalismo, José Rezende Jr. fez de tudo um pouco e teve o privilégio de trocar idéias com um time de dar inveja, como Miúcha, Zélia Gattai e Chico Buarque. No caminho para a ficção, passou pela arte dos perfis. Tudo isso está no site do escritor, que ainda oferece para download o seu primeiro livro, A mulher-gorila e outros demônios (7 Letras, R$ 24). Já o recém-lançado Eu perguntei para o velho se ele queria morrer (7 Letras, R$ 27) está nas livrarias. u www.joserezendejr.jor.br

Vitrine contemporânea Quem tem gosto pela literatura não pode deixar o Cronópios fora da lista de favoritos. Revista eletrônica, blog e observatório do mais novo e criativo da literatura brasileira, tem 4 anos de fundação, o que resultou em um recheado arquivo de artigos. Tudo isso com design pra lá de interessante: acesso simples e textos divididos em categorias objetivas. De Brasília saem colaborações de Fernando Marques e João Bosco Bezerra Bonfim. u www.cronopios.com.br Capítulo / 27


poema inédito

Despalavras por Fernando Marques

Avesso ao vivo, na aparência buscando-o, sigo inapto para o contato, o faro, sem jamais penetrar o olhar alheio de fato, o tato nos dedos esquerdos falta, * Fernando Marques é escritor, compositor os abraços equívocos, e jornalista. Publicou Zé (Perspectiva, 136 os enlaces falhos. Onde convívio, desprezo, onde carinho, descaso, onde cansaço, cansaço. Nada de nítido sob o sol dos sonhos, sob o sal da saliva letras gagas, despalavras. Parece que aspiro ao obscuro, persigo o difícil, liberto no outro suas unhas absurdas, garras bizarras de dor e rancor. Quando cumpria o imperfeito aprendizado, não percebi que seria assim, nem me contaram: hoje com certo humor e algum atraso atravesso mares a nado.

28 \ Capítulo

páginas, R$ 15) e o livro-disco Últimos – comédia musical em dois atos (Perspectiva, 144 páginas, R$ 45). É autor da comédia A quatro (encenada em Brasília em 2008). u www.fernandomarques.art.br


Revista Capítulo  

Revista sobre literatura brasiliense produzida como projeto de conclusão de graduação pela jornalista Marina Fernandes

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