Edição 0 | Agosto 2022
Eu acredito que você acredita
Entre Crenças
Conheça o mistério da Santíssima Trindade
EspíritonoCreioefeitoOração:placebo?noPai,FilhoenoSanto
Tira a mão do meu hijab
Os empecilhos que as muçulmanas enfrentam para expressar sua fé Como os interpretamestudiososoatode rezar
2∙Revista Entre Crenças ∙ Edição 0 ∙ Agosto 2022
Expediente
Colaboradores
Professor orientador: Ildo Francisco Golfetto
Entre Crenças
Editora: Mariana Tomazi Projeto gráfico-editorial: Mariana Tomazi Textos: Gabriela Santos, Mariana Tomazi e Nilson Antônio Guzzo Júnior Imagens: arquivo pessoal, Sthefany Martins, Freepik, BBC, Instagram, Getty Images, Unsplash, Pexels Imagem de capa: Wildan Zainful Faki/Pexels Imagens de contracapa: Miriam Alonso e PNW Monitoria:Production/Pexels.JulianaJacinto
Nilson Antônio Guzzo Júnior é te ólogo, professor de Filosofia, So ciologia, Geografia e Ensino Reli gioso, além de mestre em Novas Tecnologias Digitais na Educação. Mora em Macaé (RJ), tem 41 anos e formação católica, mas hoje é agnóstico, crendo em Deus pre sente em todas as religiões.
Esse trabalho é experimental, sem fins lucrativos e de caráter puramente acadêmico, criado e editado pela acadêmica Mariana Tomazi como exercício de projeto gráfico-editorial para a disciplina de Laboratório de Produção Gráfica do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) no semestre 2022-1. Não será distribuído, tampouco comercializado. Seu conteúdo e suas opiniões são de inteira responsabilidade da acadêmica, isentando assim a UFSC e o docente da disciplina de qualquer responsabilidade legal por essa publicação.
Gabriela Santos é uma macaense recém chegada na Bahia. Estu dante de Jornalismo pela Uni versidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), voluntária do Projeto Social Aretê e do #tmjU NICEF. Tem 20 anos, é católica, gosta de aprender sobre culturas diferentes e propagar informação.
Sthefany Martins é amazonen se e acadêmica de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina. Vinda de família batista protestante, desde que se entende por gente é apaixonada por foto grafia, e redescobriu seu amor pe las lentes ao entrar na graduação.
Eu acredito que você acredita Edição 0, agosto 2022
Gostaria de agradecer a todos que colaboraram para esta edi ção: entrevistados, escritores, fotógrafa, monitora, professor orien tador, amigos e familiares que deram suas opiniões, e a você, lei tor(a), que acreditou neste trabalho e nesta editora. Essa revista não seria possível sem a ajuda de cada um. Deus nos colocou no mundo para viver entre pessoas, entre culturas, entre crenças.
Manezinha da ilha criada em Aracaju (SE), com passagem em Macaé (RJ). Mariana nas ceu em família católica, e a curiosidade de conhecer ou tras crenças foi despertada nas aulas de Ensino Religioso. Ao mesmo tempo, quanto mais se aprofundava na fé cristã, mais entendia Deus como um ser amoroso, compassivo e, acima de tudo, transcendente. Desenvolver mais senso críti co também contribuiu nesse caminho: observando tanto preconceito das pessoas - dos católicos sobre outras religi ões e dos não católicos sobre a Igreja -, aumentou o desejo de saber mais para que pu desse transmitir a informação correta. Mariana tem uma missão pessoal, de mostrar a seus companheiros de fé que o Catolicismo não é a “religião certa”, e mostrar a beleza da fé cristã aos que não a conhecem. No auge dos seus 21 anos, ela concretizou essa missão na re vista Entre Crenças.
Entre Crenças é sobre respeito. Às pesso as, às religiões, ao sagrado de cada um. Em um Brasil tão plural de credos e cores, parece que não enxergamos essa pluralidade, não vemos além daquilo que acreditamos. Ou não quere mos ver. “Eu acredito que você acredita”: entender esse slogan é entender que a fé do outro é tão importante quanto a minha, pelo simples fato de ser uma fé. Para quem acredita em Deus - num ser supremo, numa energia, seja como for que você identifique o sobrenatural -, não dá para descrever a grandeza e a maravilha dessa entidade. Um ser acima de todo ser. Onipotente, oniscien te, onipresente, que transcende tudo que conhecemos. Palavras nunca serão suficientes para descrevê-Lo, porque a inteligência humana é limitada. Então, se Deus é tão grandioso, por que Ele se limitaria a uma única representação?
Arevista
Editorial Agosto 2022 ∙ Edição 0 ∙ Revista Entre Crenças ∙ 3
A Edição 0 de Entre Crenças começa com um questionamento dos estudos de religião: a oração é um efeito placebo? Depois de tentar desvendar uma experiência tão pessoal e subjetiva, con vidamos o historiador Alex Degan para refletir sobre os motivos que levaram o ser humano a crer em algo, e como as religiões influenciam na sociedade, tanto na forma de crenças individu ais quanto na forma de instituições. Nossa reportagem principal desta edição mostra o que significa o uso do hijab pelas muçul manas, e as dificuldades que elas enfrentam para expressar sua fé em paz. Traduzindo um pouco mais a missão deste projeto, apresentamos as semelhanças entre quatro religiões aparente mente distintas, descrevendo ritos que compartilham a mesma origem. Para finalizar, explicamos um dos principais mistérios da fé cristã, a Santíssima Trindade.
Fé e razão
Oração: efeito
Sumário
Como os estudiosos interpretam o ato de rezar
0806
placebo?Religare
Conversas sagradas
O papel das religiões na humanidade segundo o historiador Alex Degan
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Caminhos que se cruzam Creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo O que Wicca, Catolicismo, Candomblé e Umbanda tem em comum Conheça o mistério da Santíssima Trindade1814 AcreditaSincretismosnisso?Tira a mão do meu hijab Os empecilhos que as muçulmanas enfrentam para expressar sua fé 11 Religião se discute Agosto 2022 ∙ Edição 0 ∙ Revista Entre Crenças ∙5
Bentzinger/Unsplash.JacobFoto:6 ∙Revista Entre Crenças ∙ Edição 0 ∙ Agosto 2022
Mariana Tomazi
Resende pontua que a religiosidade, se exercida de uma forma adequada, “contribui muito para a saúde e para o desenvolvimento do indivíduo”. Isso é confirmado pela Organização Mundial da Saúde: desde a década de 1980, a OMS considera que a espiritualidade é uma das dimensões para definir saúde.
Fé e razão
s estudos para definir Deus remontam da época de Platão, e diversos pesquisadores apre sentam teorias contra e a favor da existência desse ser supremo. Da mesma forma, es tudiosos tentam explicar a espiritualidade do indivíduo, as experiências espirituais que acontecem no interior de cada pessoa e muitas vezes se traduzem em algo concreto, como uma cura física.
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No final do século XIX, figuras renomadas de variadas áreas do conhecimento se interessaram pelos chamados estados alterados de consciência. Alfred Russel Wallace, Marie Curie, Pierre Curie, Cesare Lombroso e Carl Jung eram alguns dos cientistas que buscavam entender o que acontecia quando uma pessoa entrava em êxtase, em transe. Atualmente, experiências como orações e mediunidade ainda são conceitos novos para a ciência, com inúmeros pontos divergentes entre os pesquisadores, como explica Pedro Resende, psicólogo e membro do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (NUPES), da Uni versidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
efeitoOração:placebo?
A explicação de como isso acontece, como a re ligiosidade age no organismo humano a ponto de causar curas físicas e emocionais, é um dos prin cipais pontos estudados pelos cientistas. Pedro Re sende apresenta duas abordagens da Psicologia que buscam entender esse funcionamento.
No intuito de colocar à prova a eficácia das ex periências espirituais, alguns pesquisadores condu ziram estudos incluindo o efeito placebo. Resende resume o método e os resultados dessas pesquisas em um exemplo. Os grupos A e B se reuniram para rezar por pessoas que estavam doentes, estas divi didas nos grupos C e D (A rezou por C e B rezou por D). Porém, o grupo B era placebo, ou seja, ele se reuniu mas não realizou nenhuma oração. “Na quele grupo religioso que estava orando, havia um efeito maior na saúde dos pacientes do que o outro, em que as pessoas que só estavam reunidas, mas não havia nenhum desejo”, conclui Resende.
Apesar dos estudos não serem conclusivos, e existirem pesquisas que indiquem o contrá rio, muitas pessoas veem a espiritualidade como um meio para a cura, para melhorar a saúde física e mental. Para aqueles que cre em, a relação pessoal com o sagrado continua sendo uma forma de manter o bem-estar e a qualidade de vida, independente de estudos e pesquisas, pois a fé transcende aquilo que é palpável e passível de explicação.
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A Psicologia Comportamental, por exemplo, in terpreta esse fenômeno através do coping religioso, classificado em positivo e negativo.
Uma outra abordagem, que é alvo de estu do do próprio Resende, é a Psicologia Analítica de Carl Jung. Por exemplo, se a religião foi algo importante durante a infância, e a relação foi rompida ao longo do crescimento, resgatar essa conexão pode ser a chave para tratar as doenças na fase adulta, pois a espiritualidade fez parte da estruturação da personalidade. “Jung afirma va que se reconectar com a religiosidade seria um ponto significativo para a superação de neu roses, problemas psicológicos, de diversas ques tões”, conta Resende.
A estudante de Psicologia Ana Vitória Amaral, em seu texto Neurociência da espiritualidade, também aponta algumas das consequências a longo prazo da prática espiritual: “melhoras no bem-estar mental, redução do estresse, do uso de drogas e redução de sintomas relacionados à depressão e ansiedade”.
Coping é um termo em inglês que se refere aos mecanismos de enfrentamento do ser hu mano. Em uma situação difícil, como uma per da, a pessoa religiosa pode enfrentar isso de duas maneiras. No coping religioso positivo, ela se atém à força maior para se manter firme. Apesar de não deixar de sofrer, ela “consegue se erguer e seguir sua vida adiante com mais resi liência e com mais saúde, a partir desse suporte religioso”, afirma Resende. Já no coping religioso negativo, a pessoa usa a religião para justificar o sofrimento, encara a dificuldade como uma pu nição. Ao invés de sair da situação ruim, apenas alimenta o processo negativo.
De acordo com o Pew Research Center, em uma pesquisa realizada com 34 países em 2019, uma mé dia de 62% das pessoas entrevistadas dizem que a religião desempenha um papel importante em suas vidas. Tânia da Silva, 57 anos, segue diversas linhas religiosas, e está sempre lendo sobre espiritualida de. “Não tem o termo religare, religião? Então, eu estou sempre me ligando, porque eu acho que a vida melhora quando a gente tem essas conversas”. Se manter em contato com o lado espiritual traz a ela segurança e tranquilidade.
Por que o ser humano busca crer em algo, busca o divino? O que ele está procurando?
Da perspectiva que eu trabalho, que entende as religiões como fenômenos eminentemente histó ricos, eu entendo que não são só eminentemente históricos. Ou seja, as religiões têm uma dimensão diacrônica, que varia no tempo, mas também têm
O papel das religiões na humanidade segundo o historiador Alex Degan
Com mestrado em História Econômica e doutorado em História Social, o historiador Alex Degan conversa com a revista Entre Crenças, explicando um pouco a relação ser humano e religião. Durante a fala, ele ressalta que suas colocações são do ponto de vista histórico, e que outros pesquisadores podem ter visões diferentes. Atualmente, é professor e coordenador do curso de História da Univer sidade Federal de Santa Catarina, na área de História da Ásia e História Antiga.
Os homo sapiens são uma espécie muito asso ciativa, coletiva, que aprendem muito pela repe tição. Primeiro, essa necessidade de associação coletiva é algo que está presa à nossa evolução en quanto espécie, então tem uma questão biológica. Mas também tem uma questão cultural, própria da nossa espécie, que é exatamente a necessidade de se constituir laços coletivos e associativos muito amplos, maiores do que a família. Por exemplo, um Estado. Todas essas criações históricas, que não são só ideias, são bastante concretas, pressupõem
Religare
pessoalarquivoFoto: Conversas sagradas 8∙Revista Entre Crenças ∙ Edição 0 ∙ Agosto 2022
uma dimensão sincrônica. As religiões não estão desconectadas de outros atributos, de outras ações sociais, como a economia. Da antiguidade até hoje elas estão misturadas.
Acreditar em algo e acreditar no divino são duas coisas que podem se conectar, mas também são diferentes. Não necessariamente acreditar em algo significa acreditar em algo qualificado como divino. Por que eu estou dizendo isso? Porque a definição do que é ou do que são religiões vai in fluenciar no percurso que eu vou seguir para res ponder essa pergunta.
Então sim, ela pode tanto dar um conforto num mo mento de dor, quanto uma orientação num momento de alegria, pode ofertar um padrão de conduta ética que torna possível essas associações cada vez maio res, para além de vínculos familiares. Elas estão sem pre historicamente presas a necessidades muito con cretas.Existe
Essa necessidade associativa pode estar orienta da tanto para respostas existenciais, como “por que morremos?”, quanto às questões ligadas às doenças…
crenças de valores, de tradições, de algo que torne possível essa associação para além do vínculo pa rental. Os outros primatas têm comunidades asso ciativas grandes, mas geralmente restrito ao víncu lo de uma grande família, de linhagem. No caso do homo sapiens sapiens, a gente vê essas associações de uma forma bastante ampla.
Então existe a crença, que está num sentido mais amplo, não necessariamente presa ao campo religioso; as religiões, como um estudo historica mente conduzido de instituições religiosas, como elas vão se constituindo; e as espiritualidades, reli giosidades, como uma perspectiva não só coletiva, institucional, mas individual.
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Sim, com certeza. Eu entendo as religiões por sistemas de valores, de crenças compartilhadas que se constituem a partir de vínculos extra hu manos, sobre-humanos. Não estou pontuando que necessariamente precisamos de deuses. Mas essa definição de religião, com a ideia de deus e deuses, é bastante ampla, bastante plástica. É interessan te porque comporta toda uma gama de comporta mentos que podem ser identificados como religio sos, e que nos ajudam a entender sua pergunta.
Essa construção, que chegou até as religiões, seria para sanar alguma necessidade do ser humano?
diferença entre espiritualidade, crença e religião?Dependendo da perspectiva teórica adotada, sem dúvida alguma. Para alguns, por exemplo, as religiões têm um caráter mais institucional. A cren ça, não necessariamente você crê em algo que te nha uma relação com valores extra humanos. Você pode crer que a Terra é plana, por exemplo, ou que a Terra é redonda. A crença se conecta com o uni verso e os fenômenos religiosos? Sim, mas ela não está presa só a esse conteúdo. E a espiritualidade, ou também o termo que é muito usado nos estudos das religiões, as religiosidades, teriam uma dimen são menos institucional e mais individual.
O sistema de crenças e valores têm um papel na nossa história, na nossa construção psicológica, e eu enxergo que as várias religiões se enquadram nesse contexto. Elas são uma estratégia evolutiva da nossa espécie. Essa constituição se dá conforme nossa espécie vai se constituindo como tal. Por vol ta de 50, 70 mil anos atrás - quando nossa espécie já tem pelo menos uma centena de anos-, a gente consegue observar, no substrato arqueológico, a produção de signos culturais que começam a evi denciar uma transformação cognitiva, psicológica, que indica a constituição desse sistema de crenças que tornam possível uma associação para além do pequeno grupo, para grupos médios, para grupos maiores. Então, eu diria que as religiões estão den tro dessa estratégia evolutiva.
O autor Luís Machado, num texto sobre a filosofia do futuro de Ludwig Feuerbach, diz que “as religiões existem à medida que são úteis ao homem e ao seu contexto”. O quanto essa frase está dentro da realidade?
Como um historiador, eu concordo com ela. Por que nós temos religiões que foram muito impor tantes e que desapareceram. É o caso das religiões egípcias, assírias e mesopotâmicas. Elas foram sis
“As doartigosãoreligiõesumpolíticohojemaisquenunca”
temas de crenças, de religiosidades, foram perspec tivas institucionais de organização que perduraram mais tempo do que, por exemplo, a perspectiva cris tã, e que desapareceram. De novo, depende muito da perspectiva teórica que aquele que vai estudar esse fenômeno vai adotar. Alguns autores, como o historiador das religiões Mircea Eliade, estudam as áreas que entendem por religiões e as comparam para tentar chegar na ideia de uma essência. Essa é uma perspectiva importante, muito presente nos cursos de Ciências das Religiões. Não é a perspec tiva que eu trabalho.
Como historiador, eu tento observar que cada fenômeno tem uma gênese. Eu tento observar aque le caráter radicalmente histórico. Então, mesmo as religiões como Cristianismo, Judaísmo, Budismo, que estão atuantes até hoje, se transformaram, não são a mesma coisa, elas respondem a isso que o au tor coloca na frase, são mediadas pelos homens no seu tempo e no seu contexto. Em alguns casos, há tamanha alteração das percepções de tempo e de humanidade, determinados comportamentos reli giosos se transformam de tal forma, que formam outras condutas.
Mesmo em um estado laico, é possível afirmar que a religião tem um papel tão significativo quanto os aspectos sociais, políticos e econômicos de uma sociedade?Euacredito que sim. Hoje mais do que nunca. A gente vive esse tipo de agenda, que coloca as pre ocupações percebidas como religiosas, mas nunca são só religiosas. Elas trazem também perspectivas de uma organização familiar, realização econômi ca… O fato é que as religiões são muito atuantes, estão sempre muito presentes, e são um capital po lítico. Ela pode ser usada - eu falo usada da forma mais despretensiosa possível -, trabalhada de ma neira mais inocente assim como mais consciente, pelos agentes tanto políticos quanto agentes políti co-religiosos. Isso faz parte dos nossos repertórios, preocupações, mesmo para os não crentes.
O Estado brasileiro de fato é um Estado laico, se cular, mas isso não significa que ele seja um Estado anti-religioso, muito diferente disso. Como um Es tado secular, laico, respeita todas as religiões - pelo menos é assim que deveria ser. Na Constituição Federal de 1988, que é uma constituição bastante avançada nesse quesito, tem dispositivos constitu cionais que salvaguardam uma série de comporta mentos, de crenças, de religiosidades, de religiões que constituem o Brasil contemporâneo. Não foi sempre assim. Até o final do Império, o catolicis mo era a religião oficial. As outras religiões, não é que elas eram impedidas, eram possíveis, existiam comunidades de protestantes históricos, de judeus, religiosidades afro-brasileiras, indígenas-brasilei ras, mas a forma como o Estado se relacionava com elas nunca era completa; para acessar determinados cargos, era preciso ser católico. Então, sem dúvidas, as religiões são um artigo político hoje mais do que nunca. Para surpresa de muitos, mas elas estão aí.
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Esse tipo de proibição não é exclusivo aos fran ceses. Países como Dinamarca, Holanda, Sri Lanka, Alemanha, Áustria e Bélgica têm restrições seme lhantes. É proibido por lei cobrir o rosto quando estiver em locais públicos, desde vias públicas a es colas e hospitais, dependendo do país. Legalmente, a medida é respaldada na segurança nacional, para que não haja dificuldade em identificar as pessoas.
O uso do véu islâmico é alvo de polêmicas em muitas países.
21 de junho de 2022: o Conselho do Estado da França veta o uso do burkini nas piscinas municipais do país. Burkini é um traje de banho que cobre o corpo da cabe ça aos tornozelos, comumente usado pe las muçulmanas. A decisão do tribunal supremo da justiça administrativa francesa é baseada na defesa do Estado laico. O mesmo argumento fundamenta a lei da França que proíbe usar símbolos religiosos ostensivos em público.
lamismo como religião nacional impõem que as mulheres cubram o corpo e a cabeça. É o caso do Afeganistão (após o Talibã retomar o poder), do Irã e da Arábia Saudita. Nesses países, muitos costu mes e práticas são embasados na religião islâmica, e devem ser seguidos por todas as pessoas, sejam muçulmanas ou não.
França,
Em contrapartida, alguns países que tem o Is
Mariana Tomazi
Tira a mão do meu hijab
Em ambos os casos, as mulheres do Islam não são respeitadas. O Corão, livro sagrado que rege o Islamismo, pede que as mulheres cubram todo o corpo, exceto mãos e rosto, e que usem roupas mais modestas, não coloquem o corpo em evi dência. “Dize às fiéis que recatem os seus olhares, conservem os seus pudores e não mostrem os seus atrativos, além dos que (normalmente) aparecem; que cubram o colo com seus véus e não mostrem os seus atrativos, a não ser aos seus esposos, seus pais, seus sogros, seus filhos, seus enteados, seus irmãos, seus sobrinhos, às mulheres suas servas,
ReligiãoSincretismossediscute
Opeyemi/Unsplash.AikomoImagem:
Certa vez, estava no caixa de sua loja no cen
seus criados isentos das necessidades sexuais, ou às crianças que não discernem a nudez das mulhe res” (Suratu An-Nur do Corão, ayat 31).
tro da cidade e duas clientes a questionaram so bre o véu, dizendo que por estar no Brasil não era preciso tapar o cabelo. A comerciante respondeu com outra pergunta: “Mas por que você está fa lando isso? Deus só está lá? Não está aqui?”.
Assim como as clientes de Suma, muitas pessoas do ocidente não muçulmano veem o hijab como opressão às mulheres do Islam, um símbolo que elas não teriam liberdade para fa zer as próprias escolhas. Porém, o Corão não restringe a liberdade de nenhum muçulmano, nem impede as mulheres de estudarem ou tra balharem, por exemplo. Quando morou na Jor dânia, Suma fez faculdade de Serviço Social, e hoje tem lojas de varejo e um restaurante com seu marido em Florianópolis.
Contudo, assim como os preceitos de outras re ligiões, cada pessoa tem o livre-arbítrio de seguir ou não. Essa decisão faz parte do entendimento e da relação pessoal que o fiel tem com Deus, e não deve ser proibida ou imposta por terceiros. A influencia dora digital Mariam Chami explica que “o uso do hijab é uma ordem de Deus, e sendo ordem de Deus ele é obrigatório”. Ela é brasileira, muçulmana e usa seu perfil no Instagram para desmistificar precon ceitos acerca da fé islâmica. “No entanto, nós, seres humanos, temos o livre arbítrio, cada um sabe o que faz, por isso que tem gente que usa [o hijab] e tem gente que não usa”, diz Mariam em um story.
À esquerda: Mariam Chami usando burkini. O Corão pede que mulheres não coloquem o corpo em evidência.
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Imagem: Instagram.
“O hijab protege a mulher”, diz a muçulmana Asmhan Zayed, 60 anos, mais conhecida como Suma, se referindo a um dos tipos de véu islâmi co. “A beleza da mulher é sempre onde? No rosto, corpo, cabelo. Nossa religião mandou todas as mu lheres usarem, para ficarem longe de perigos, para ninguém mexer com elas, para não escutarem uma palavra ruim de um homem”.
É comum confundir os costumes de países muçulmanos com a doutrina do Islam, já que os países se baseiam na religião. A influenciadora Mariam destaca em seu Instagram algumas das diferenças entre a religião e a cultura de alguns países, salientando que o Islam não muda com o tempo, mas as culturas e as sociedades são moldadas, transformadas. Ela ainda ressalta: “as pessoas fazem mal uso da religião, e isso que acaba confundindo ainda mais as outras pesso
Os países que colocam restrições às roupas e às atividades das mulheres mesclam religião com tradição local. “A burca é costume, não são todos os países muçulmanos que a usam”, explica Suma, que cita a situação atual no Afe ganistão: “eles ensinam que a mulher não pode fazer isso, não pode fazer aquilo, mas nossa religião não falou isso. A mulher pode estudar, trabalhar, sair também para qualquer lugar que ela queira, mas tudo com roupa comprida, larga”. Ela também conta que, na época de Ma omé, profeta do Islam, as mulheres saíam em guerra junto com os maridos.
No Brasil, não há nenhuma lei que restrinja qualquer símbolo religioso, mas o véu islâmico ain da é visto com hostilidade. Suma é natural da Pa lestina e mora em Florianópolis há mais de 25 anos. Ela conta que muita gente pergunta porque ela usa o hijab, um dos tipos de véu islâmico, e ela sempre explica que é por causa da religião.
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Images.GettyImagem:
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Mulheres protestam na Índia após escola do país proibir alunas de usarem véu na sala de aula, em janeiro de 2022.
Agosto Edição
as [que não conhecem o Islamismo]”. Apesar disso, as muçulmanas têm algumas restrições ditadas pelo Corão. Uma delas é du rante o período menstrual. Para fazer as cin co orações diárias, por exemplo, é preciso que tanto mulher quanto homem estejam puros, limpos, algumas vezes lavando o corpo intei ro, outras somente o rosto e as mãos. Quando a mulher menstrua, o Islam considera que ela está impura naquele momento, então não pode fazer as orações, jejuar nem realizar o Hajj, pe regrinação anual à cidade santa Meca. Contudo, as restrições não significam que as mulheres são inferiores, apenas diferentes fisicamente. “Seu Senhor nos atendeu, dizendo: Jamais desmerecerei a obra de qualquer um de vós, seja homem ou mulher, porque procedeis uns dos outros” (Suratu Ãl-Imran do Corão, ayat 195). O Islam prega amor e submissão a um Deus amoroso e compassivo, que perdoa e auxi lia os humanos, dando a eles o livre-arbítrio para realizar as próprias escolhas.
Imagem: BBC.
Nilson Antônio Guzzo Júnior Wicca, Umbanda, Candomblé e Cristianismo
Em tese, o sincretismo é a cone xão de diferentes doutrinas que se unem para criar uma nova, embora com resquícios das originais. Essas doutrinas podem ter natureza reli giosa, como também filosófica.
A palavra sincretismo vem do grego “synkretis mós”, que significa a união do povo de Creta contra o inimigo invasor. A expressão que mais se aproxi ma do português é o francês “syncrètisme”.
Nos dicionários, o sincretismo significa, filosofi camente, um sistema que combina os princípios de diversos sistemas, ou um amálgama de concepções heterogêneas. Sociologicamen te, seria a fusão de dois ou mais elementos culturais antagônicos num só elemento, permanecen do, porém, alguns sinais de suas origens diversas. No entanto, por esta combinação, ou fusão num só elemento, por ainda manter perceptíveis alguns sinais de sua origem, caracteriza-se certo “ecle tismo” ao termo resultante.
A celebração do Natal é um clássico exemplo, já
No sincretismo religioso, que é o que nos in teressa nesta reportagem, o ser humano usa ele mentos do seu meio ambiente e de sua cultura para
homenagear os seus deuses ou deus. Sendo assim, não existe uma religião pura ou que não houvesse mescla de cultos já existentes.
Caminhos que se cruzam
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Sincretismos 14∙Revista Entre Crenças ∙ Edição 0 ∙ Agosto 2022
Sabe-se que, em um dado momento na constru ção e na percepção das pessoas e de suas culturas religiosas, vão se fundindo aos poucos mesclados aspectos culturais, de modo que uma cultura acaba sendo absor vida por Emboraoutra.ocorra uma fusão cultural entre povos, vale a pena lembrar que a religião original doutrinária persiste. Se assim não fosse, não haveria que se fa lar em sincretismo, pois uma das culturas teria desaparecido, sim plesUmassim.dos exemplos práticos e postos a prova é a astúcia da Igreja Católica para catequizar os indígenas brasileiros. Os reli giosos adaptaram os usos e cos tumes indígenas, para que assim fosse mais fácil a conversão ao Cristianismo.AIgrejaCatólica sempre sou be se adaptar à cultura local. Com isso, sempre incorporou elementos nativos e fez deles sagrados para si. Existem diversos exemplos a serem dados para esse fim. Ao tomar para si usos e costumes de uma região, modificava-os conforme seu interesse e assim conseguia impor seus dogmas.
Osincretismo se caracteriza pela união de elementos culturais, reli giosos e ideológicos distintos que formarão uma nova cultura, religião ou sociedade.
É de conhecimento comum o quanto a mulher na Idade Média foi culpabilizada por ter “oferecido o fruto proibido a Adão’’. Igualmente, sabe-se que a falta de instrução, de dignidade de vida e de aces so a curas medicinais faziam as pessoas buscarem tratamentos alternativos para suas doenças.
A mistura de elementos pode ser observada em to das as religiões existentes, pois não existe uma religião pura. Se você chegou até aqui e compreendeu isso, conseguirá entender todo o restante que está por vir.
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Só para que não nos fuja à memória, o Cristia nismo nasceu do Judaísmo, e um dos pilares desta crença, a Torá, faz parte do conjunto de livros sa grados cristãos, a Bíblia. Igualmente, a grande fes ta judaica, a Páscoa, está presente no Cristianismo, após ser ressignificada pelos cristãos.
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que se tratava de uma festa pagã que comemorava o nascimento do deus sol. Numa jogada espetacular que culminou na conversão de vários povos, passou a ser a celebração anual do nascimento de Jesus Cristo.
Da mesma forma, a Igreja Católica tomou elemen tos da administração do Império Romano, absorven do sua organização. Um exemplo é a instituição de um líder máximo, o Pontífice. Este título, no entanto, vem de uma religião politeísta romana e pertencia ao sacerdote de mais prestígio do Colégio Pontifical.
As pedras, cristais e incensos são elementos da natureza usa dos em rituais da Wicca, relacionados à energia.
Geralmente, quem tinha tempo livre para adqui rir esse conhecimento eram as mulheres, que na Ida de Média nada podiam fazer além de cozinhar, pas sar e lavar. Somava-se a esse saber sua beleza, sua independência e, sem catequese - porque mulheres
Sincretismo na Wicca
não podiam estudar -, sua imensa fé em Maria, que era exemplo de mulher virtuosa. Assim sendo belas, sábias e inteligentes, chamavam a atenção, incomo davam o clero por sua sabedoria e por sua beleza. Os padres, para justificar sua sedução ou inveja, as chamavam de bruxas. Temos então o julgamento perfeito para queimá-las na fogueira.
O humanista Marcos Rolim, em pronuncia mento memorável à Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul em 2002, ressalta que as determi nações sobre como as mulheres eram tratadas são abundantes na literatura sacra, e fundamentam “um dos fenômenos mais terríveis da cristandade: o período de caça às Calcula-sebruxas”.quenoespaço de três séculos - de 1450 a 1750 - pelo menos 60 mil mu lheres foram queimadas como feiticeiras. Para variar, tais táticas tinham sustenta ção bíblica: em João, capítulo 15, versículo 6, pode-se ler: “Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora à semelhança do ramo e secará: e o apanham, lançam no fogo e queimam”. E, igualmente em Êxodo,
Assim como a Igreja Católica é uma mistura sinc rética de muitas outras religiões de sua época, muitas outras religiões seguem o mesmo padrão sincretizan do suas crenças com a Igreja Católica . Neste texto, falaremos da Wicca, do Candomblé e da Umbanda.
Para Spinoza, Deus é o único motivo da existên cia de todas as coisas, é a substância única e ne
Vale ressaltar que os wiccanos buscam na na tureza resposta ao seu sagrado. Nada se tem de culto ao “demônio”, mesmo porque o conceito de demônio e inferno só existe no Cristianismo - e em nenhuma outra religião.
Durante o período da escravidão no Brasil, os africanos escravizados eram proibidos de cultuarem seus Orixás, Inkices e Voduns, pois a lei da época dizia que pessoas negras não tinham alma, portanto não tinham religião. ntimidados pelos castigos, usavam como camuflagem altares com as imagens de santos católicos, cujas características melhores correspon diam às suas Divindades Africanas. Por baixo des ses altares, escondiam os assentamentos dos Orixás, dando origem ao sincretismo. Mesmo usando ima
Os africanos escravizados passaram pelo mes mo processo, e deram origem ao Candomblé, re ligião afro-brasileira. Ao chegar na colônia portu guesa, reviveram seus rituais, símbolos e festas que faziam na África, porém adaptando-as à realidade da América. Um exemplo seriam as oferendas aos Orixás que passaram a incorporar alimentos locais.
Para entender a cabeça e o aspecto religioso de um wicca vale consultar o escrito “O Deus de Spinoza”, conceito do filósofo holandês Baruch Spinoza. Apesar de nada ter a ver com a religião em questão, traz um raciocínio filosófico ao que se acredita na Wicca.
Assim, Gardner esperava desassociar o mal da bruxaria que havia sido feita pelos cristãos. Por isso, enfatizava os valores positivos e o conheci mento sobre a natureza, no lugar dos mistérios e ri tos, assim como trazia de forma essencial o resgate do sagrado feminino.
nhuma outra realidade existe fora de Deus. Ele é a fonte única e Dele surgem todos os outros elemen tos. Deus existe em si e foi gerado por si, para exis tir ele não necessita de nenhuma outra realidade.
O que vai diferir em termos práticos é que em vez de ter um único Deus, os wiccanos creem no Deus e na Deusa, presentes na natureza e no equi líbrio perfeito da energia entre os dois.
22:18, onde assinalou: “A feiticeira, não dei xarás viver”. Mas quem eram essas bruxas que mandamos queimar em praças euro peias, para o riso e o temor das concorridas audiências? Mulheres comuns que não se adaptavam aos critérios masculinos de pie dade; parteiras e curandeiras que detinham um saber não oficial; velhas de comporta mento exótico, esposas infiéis, adolescentes consideradas estranhas, qualquer uma que, por qualquer motivo, ameaçasse a vigência de um padrão de conduta
Sincretismo no Candomblé
Muitas pessoas escravizadas aparentemente abraça ram a religião católica, mas mantinham o culto a seus Orixás. Assim começou a identificação entre os santos católicos e Orixás, as procissões de padroeiros com as festas para suas divindades, entre outras práticas.
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Em vários países do continente africano, cada tribo cultuava somente um Orixá. No Brasil, como várias nações africanas se misturaram por causa da escravidão de seus povos, o jeito foi louvar o maior número possível de Orixás, para que todos se sentissem acolhidos.
A Wicca é uma religião neopagã recente fun dada pelo inglês Gerald Gardner. Trata-se da mo dernização de práticas ancestrais pagãs vividas na Grã-Bretanha. Gardner atualizou o conhecimento ancestral para o século XX e denominou essas prá ticas de Wicca. A raiz desta palavra vem de wicce, origem dos vocábulos ingleses witch, bruxa em por tuguês e wise, sabedoria.
Assim nasceu a fusão de nomes de santos ca tólicos com Orixás, que nada tem a ver um com o outro, mas foi a forma encontrada para não deixa rem a fé morrer.
• Vodum (ou vodu), da língua gbê, é uma religião baseada na ancestralidade, com origem nos povos Jeje-Fon, e hoje é a religião oficial do Benim.
Esta crença tem elementos do Kardecismo, do Candomblé, da religião indígena, do Catolicismo, entre outros cultos. O sincretismo ocorre tanto em nível doutrinal, com elementos do monoteísmo, reencarnação e figuras a serem cultuadas, quanto no aspecto exterior, pois suas celebrações ocorrem numa Casa ou Terreiro.
•Glossário
Por fim - e não menos importante - o sincre tismo nasce do povo e para o povo. Assim como o aspecto cultural que se propaga pelos tempos e pela história, a força do povo na expressão da sua fé sempre estará à frente na formação do pensamento e na construção do comportamento coletivo.
Orixá vem da língua yorubá, é o nome dado às divindades cultuadas pelo povo yorubá, uma das maiores etnias da África Ocidental.
Sincretismo na Umbanda
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• Inkice (nkisi na língua kimbundu) se refere a um espírito, amuleto, trata mento médico, máscara e certos seres humanos especialmente qualificados.
O culto é presidido por um chefe masculino, Ba balorixá ou Pai de Santo, ou feminino, Ialorixá ou Mãe de Santo. Durante as sessões, são realizadas
A Umbanda é uma religião brasileira, de matriz africana, onde ocorrem diversos sincretismos. Nas ceu em Niterói (RJ), com Zélio de Moraes, em 15 de novembro de 1908.
Memória é história, história é sagrado e tudo que é sagrado Deus faz morada!
A palavra é derivada de “u´mbana”, um termo que significa “curandeiro” na língua banta falada em Angola, o quimbundo. A Umbanda tem origem nas senzalas, em reuniões onde as pessoas escravi zadas louvavam os seus deuses através de danças e cânticos e incorporavam espíritos.
O culto umbandista é realizado em templos, terrei ros ou centros apropriados para o encontro dos pra ticantes, onde entoam cânticos e usam instrumentos musicais como o atabaque. No entanto, quando a Um banda foi criada, não existiam manifestações musicais.
gens e crucifixos, os seus cultos e rituais inspiravam perseguições por parte das autoridades e pela Igreja, que viam o Candomblé como paganismo e bruxaria.
consultas de apoio e orientação a quem recorre ao terreiro, práticas mediúnicas com incorporações de entidades espirituais e outros rituais. Apesar de se assemelharem ao Candomblé, são religiões que possuem práticas distintas.
Uma religião profundamente sincrética, que traz em todos os seus ritos, orações, cantos e louvo res traços dessas diversas religiões, e em seu nome o significado de seus propósitos.
A Umbanda cultua as mesmas festas de santos católicos para seus Orixás, faz as mesmas orações católicas acrescidas das preces kardecistas e tam bém ditadas pelos guias espirituais.
Acredita nisso?
quem acredita no Cristianismo, a Santíssima Trindade, união de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, é um mistério da fé presente na religião. Para outros, o conceito da tríade pode ser de difícil compreensão ou até mesmo desconhecido. Mas afinal, o que é a Santíssima Trindade?
Antes de entender este conceito, é necessário saber um pouco sobre o Cristianismo. É uma das três grandes religiões monoteístas atuais, que surgiu onde hoje é o Oriente Médio, com berço no Judaísmo e no período do helenismo. Seu fundamento é a fé nos ensinamentos de Jesus Cristo. Segundo a doutrina cristã, Jesus é o Deus vivo que se fez homem na Terra e propagou a comunhão entre as
Para
Creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo
Gabriela Santos
Martins.SthefanyImagem:18 ∙Revista Entre Crenças ∙ Edição 0 ∙ Agosto 2022
A palavra trindade vem do latim “trinitas” que tem como significado a junção de três em um. Quando o Cristianismo fala em Deus Pai, Deus Filho (Jesus Cristo) e Deus Espírito Santo, pontua três pessoas diferentes, mas que são, sempre foram e sempre serão uma só, mesmo que mostradas em tempos diferentes. A Santíssima Trindade se dá pelo Filho, que nasce do Pai, e o Espírito Santo, que vem do Pai e do Filho.
A fé é o que nos faz enxergar além dos li mites humanos, é a confiança de se entregar a algo transcendental. Para os cristãos, a fé em Deus é o que move suas vidas, a crença em Deus que é Pai e conforta os aflitos, em Deus que é Filho e os mostra grandes ensinamentos, e no Espírito Santo que é um ânimo e esperança em suas caminhadas. Mesmo tentando explicar, não há palavras possí veis para descrever a espiritualidade e o mistério por trás da Santíssima Trindade.
Os símbolos que representam duas pessoas da Trindade: a cruz de Jesus e a pomba do Espírito Santo. Geralmente, Deus Pai não é concretizado em símbolos.
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sociedades e os ensinamentos de Deus. A conso lidação desta fé aconteceu tempos após a ressur reição de Jesus, com seus discípulos disseminando seus ensinamentos - o Evangelho - em várias regi ões, o que influenciou na construção da civilização ocidental. Hoje, o Cristianismo está presente em muitos países ao redor do mundo, com forte pre sença no Brasil. De acordo com dados de 2020 do Datafolha, 50% dos brasileiros são católicos e 31% sãoDentroevangélicos.doCristianismo, há vários mistérios da fé, circunstâncias que fogem da compreensão humana e que só podem ser entendidas com a religião - como os milagres descritos dentro e fora da Bíblia -, e é o que forma a espiritualidade cristã. Apesar de não ser cultuada em todas as vertentes cristãs, como Teste munhas de Jeová, a Santíssima Trindade é um dos principais mistérios do Cristianismo. É a crença que Deus, Jesus Cristo e o Espírito Santo são um só Deus.
Uma explicação comum que é utilizada para en tender a Santíssima Trindade é a analogia com a água. A água é uma substância química, que tem a fórmula H2O. Ao fazer um experimento e colocá-la nos estados físicos sólido (gelo), líquido (água cor rente) e gasoso (vapor), vamos observar a substân cia em três modos diferentes, mas com sua fórmula inalterada. Ou seja, ainda que em estados físicos diferentes, a água permanece como H2O. O mesmo se aplica a Deus. Ele é um que mostra em três for mas distintas, mas não deixa de ser Deus.
Eu acredito que você acredita
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