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Olhos Baixos romance 2007

Maria Helena Nascimento


A Adestradora

1. Sei que muita gente conhece a sensação de estar numa vida menor que a sua. De ter menos amigos e conhecidos do que em algum lugar estava previsto ter. De passar dias em branco, quando, por alguma brecha no tempo, deveria ser possível afluir para uma corrente mais intensa de acontecimentos, encontros, descobertas. De sentir a inutilidade de estender o braço porque a verdade e a beleza sempre se retrairão ao toque. Eu, com certeza, conheço bem. Durante trinta e sete anos estive apenas olhando. Como dentro de uma loja. Só olhando. Vamos dizer que tenha sido na manhã de quinze de Maio de dois mil e um. Adoro datas, pelo absurdo que é tentar medir matéria viva, prender o tempo com alfinetes numa régua. Até onde sei, um acontecimento contém todas as datas, tudo tem pelo menos uma véspera e um dia seguinte, mais as vésperas das vésperas e os dias seguintes aos dias seguintes. Mas posso dizer que na manhã de quinze de Maio de dois mil e um minha vida mudou. Sem acrescentar o “para sempre”, porque talvez nada mude uma vida para sempre. Mais do que simplesmente mudar: naquela manhã, minha vida foi finalmente jogada, à força, de volta a seu próprio curso. 2. Uma cortina de água caía lá fora, borrando o céu, as copas das árvores e os telhados das casas. Ainda não eram sete horas. A esta hora o mundo ainda é novo, tudo pode ser refeito e melhorado, antes do primeiro abrir de pálpebras. E se a chuva lava tudo assim, melhor, é um começo limpo. Puxei o cobertor até o queixo, mas não fez diferença. Veio o primeiro espirro do dia, depois outro, e toda a série que conheço tão bem desde pequena. Hugo já tinha tomado banho, devia estar cheirando a sabonete. Não existe, dizem, simetria na natureza, mas li em algum lugar que, talvez por isso mesmo, os olhos humanos a buscam constantemente. E que talvez também _ e aqui já não sei se li ou se estou inventando _ o que chamamos de beleza física seja o que mais se aproxima da simetria perdida. Não importa. Se era o que os meus olhos buscavam, encontravam todos os dias nas duas metades das costas dele e nas pernas, que eram minha parte preferida. Os músculos eram um conjunto harmonioso, funcionando em silêncio enquanto ele puxava o cinto do cabide e o fazia deslizar em volta da calça, esticava os braços e vestia a camisa social azulclara. Hugo tinha esse dom, o de não fazer barulho. Quando treinava sozinho na


quadra de tênis, o único ruído era o das batidas da bola na raquete e na parede. No escritório de casa, era preciso estar bem perto da mesa dele para ouvir seus dedos tocarem o teclado do computador. (Eu estava sempre bem perto, principalmente tarde da noite, encolhida no sofá ao lado da mesa, aproveitando o som das teclas para dormir como um bebê.) Ele iria viajar para Nova Iorque dali a alguns dias para ver um cliente que estava processando os próprios pais e a irmã por causa da herança de um avô. Ainda não tinha decidido se me levaria. Pelo sim, pelo não, eu queria logo ir guardando umas imagens para os dias em que talvez ficasse sozinha. Mas preferia observá-lo sem falar nada, porque dizer o que eu sentia sempre desencadeava uma pequena maldição. Todas as vezes em que eu disse com todas as letras que o amava, o castigo veio infalível. Um dia disse sem pensar, acordando, como estava agora. Naquela noite ele apareceu bem mais tarde que o normal em casa, depois de ter tomado alguns uísques com o sócio, e foi desagradável comigo, seco; sem contar que suas mãos estavam ásperas e seu toque me fez sentir sono. Nunca vou saber se foi por causa da bebida ou da companhia _ Cláudio não me suportava e nem eu a ele. A sociedade dos dois tinha a mesma idade do meu casamento, cinco anos. Da minha parte, nunca disse nada contra os dois abrirem um escritório de advocacia, ao contrário dele, que várias vezes insinuou que Hugo merecia alguém melhor, mais loura, com peito maior talvez, como as namoradas que ele emendava umas nas outras. Quando o casamento de fato aconteceu, Cláudio resolveu se calar para sempre, mas a opinião permaneceu também para sempre nos olhos dele, claramente visível para mim. Da segunda vez, escrevi um bilhete apaixonado e pus na pasta de Hugo. Pois bem, duas horas depois de escrever esse bilhete fui nadar no clube, como sempre, mas escorreguei na escada e enfiei o queixo na borda da piscina. Passei a manhã no pronto-socorro, acompanhada pelo professor impaciente que não parava de olhar o relógio e contar as aulas que estava perdendo, e saí de lá com três pontos. Da última vez (três é o número que nunca ouso ultrapassar), o efeito de dizer “eu te amo” foi apenas o de deixá-lo ainda mais calado que o habitual. Então, nada de bilhetes nem de frases ditas no impulso, estava resolvido, podíamos viver sem isso. 3. Pus as sandálias e desci para a cozinha. Preferi, como sempre, não tocar no jornal. Tomei a primeira caneca de café, a segunda, e só então pensei em comer. Vi que o forno estava ligado e as fatias de bolo dentro dele quase queimando; a lufada quente que veio em meu rosto quando o abri melhorou por um momento a alergia. Bolo não é o melhor café da manhã para quem tem problemas respiratórios, já pedi tanto... Mas Elza só faz o que quer. Devia insistir mais, eu sei, afinal eu era a dona da casa. Mas dobrar a vontade de alguém, sinceramente, não sei fazer isso. Se existisse um instrumento para medir a pressão que cada um pode exercer sobre os outros, começando por “suplicar”


e indo até “coagir”, o ponteirinho comigo pararia, tremendo, com muito esforço, em “pedir com jeito”. Mas nunca encarei como um problema o fato de ser incapaz de me fazer obedecer. E não tinha sido mesmo, até então. Primeiro, nasci menina. Segundo, em uma família de gente comum, mediana, resultado do casamento de uma dona-de-casa carioca com um comerciário goiano, no começo dos anos sessenta, cuja maior aspiração era ser igual a todo o mundo. Cresci como qualquer outra criança, entre fortes-apache e bonecas Susi espalhados pelo chão do apartamento, esperando um dia ser uma aeromoça linda, de cabelos escorridos e voz suave. Uma aeromoça que falasse inglês, que tivesse um caso de amor secreto com o comandante e que ajudasse a salvar o avião ameaçado de explodir por um espião russo, inconformado com o horror que a cicatriz em seu rosto tinha me despertado quando ele tentou me beijar à força. Nasci aqui mesmo, na cidade mais bela e úmida do sudeste brasileiro. Parece que o clima de Santos é pior, não conheço Santos. Nunca chamei atenção, nem por ser bonita, nem por ser feia; nem por estar, nem por não estar numa sala. Alguns anos fui gordinha, outros magra. Usei óculos dos oito até os trinta anos, quando a hipermetropia ficou reduzida ao grau normal de todas as pessoas, que, só por curiosidade, não é zero. De jeito nenhum fui graciosa, com os ombros curvados e os olhos sempre procurando o chão. Espremida entre dois irmãos, tinha tudo para ter sido a princesinha do papai, mas nunca fui. Fui sim a vítima _ vou tentar ir mais devagar com as palavras _ habitual da ninhada de três filhos: um dos pais escolhe o mais velho, o outro escolhe o mais novo e o do meio... bom, décadas depois ele ou ela entende que aquilo, se não era a liberdade, era pelo menos uma grande sorte, crescer longe da vista amorosa e tirânica de um adulto. Daí a palavra vítima ser um exagero, mas já usei, paciência. Quando meu irmão mais novo morreu de pneumonia, aos sete anos (um anjo, o mais bonito e mais inteligente dos três), soube que tinha perdido para sempre qualquer chance de ser especial. Crianças que vagam assim despercebidas rendem lembranças interessantes, anos depois. Por exemplo, uma tarde de verão. A testa apoiada na grade verde descascada do portão da casa de meus tios na serra onde passei todas as férias até os quatorze anos, olhando a estrada de terra. Um carro passava de vez em quando, sem levantar poeira (chovia todos os dias depois do almoço). Eu estava, como sempre, longe das outras crianças. Havia alguns gatinhos recém-nascidos numa cocheira ali perto, mas eu não podia ir vê-los, como tinha feito todos os outros dias, porque o jardineiro, com medo do carinho letal das crianças, tinha passado uma corrente na porta. Eu sonhava com os gatinhos ainda cegos e não duvido que no meio da ternura que sentia por eles houvesse mesmo alguma maldade, também cega e tateante. Três mulheres apareceram na estrada. Tinham lenços amarrados no cabelo, vinham andando e rindo, às vezes esbarrando umas nas outras de tanto rir. Eram parecidas com todas as outras moças do lugar, que


cozinhavam e arrumavam de dia nas casas de veraneio e voltavam depois do jantar para suas próprias casas, que eu não podia imaginar onde eram. Passaram pelo portão sem me ver, mas uma delas, ao virar-se para falar no ouvido da outra, pôs os olhos em mim sem querer. Mostrou-me às outras. As três se aproximaram, curiosas. Achei que talvez fossem me dizer por que se divertiam tanto e abri um sorriso também. A que já estava bem perto do portão se abaixou para olhar meu rosto, depois pulou, fazendo uma mímica de susto e as três cambalearam às gargalhadas de volta para a estrada. 4. O silêncio na cozinha era estranho. O silêncio e o fato de estar sozinha. Hugo não podia ter ido embora sem se despedir, jamais tinha feito isso durante todo o tempo em que estávamos casados. A xícara e o prato dele estavam intocados, o que também não era normal tão perto da hora de sair. Havia outro prato e outra xícara na mesa. Cláudio devia ter aparecido para irem juntos à cidade, fazia isso muitas vezes. Fred entrou de repente, correndo, e veio direto atacar a ponta do meu robe de flanela. Eu adorava encontrá-lo pela manhã. Os dentes afiados puxavam a barra do robe para um lado e para o outro sem parar. Consegui botálo no colo. Ele tentava alcançar meu rosto com o focinho, que era a única parte fria do corpo irrequieto. Para mim era um bebê, embora numa conta aproximada já devesse estar entrando na adolescência. Em algum lugar suspenso acima do passado existe uma matilha mítica com todos os cães que eu tive, cães que nunca conviveram entre si porque se sucederam, como consolo uns pela morte dos outros. Dessa matilha, Fred é o ponto máximo. O primeiro foi um pequinês preto, Índio, sempre irritado, os dentes de baixo projetados para fora. Depois, quando os pequineses foram aparentemente extintos, veio Juju, a cocker spaniel ruiva, e aí meus pais, meus irmãos e eu conhecemos o amor verdadeiro _ ainda que às vezes incômodo, como o amor verdadeiro pode ser. Quando minha avó morreu, Juju passou cinco dias prostrada numa espreguiçadeira de pano, sem comer. Mas as orelhas de um cocker dão trabalho e com Juju a casa passou a ter cheiro de cachorro. Também por isso, quando ela morreu, passado o tempo do luto no qual a família toda jurou jamais ter outro cão para não passar de novo “por aquilo”, houve um gato. Mas o gato nunca teve um interesse especial por nenhum de nós; fugiu numa manhã de Natal e nunca mais apareceu. Não me lembro mais do nome dele. Depois veio Bob, um bassê. Bob não tinha cheiro e era muito inteligente. Mais do que Torquato, meu irmão _ segundo meu pai, quando bebia mais que o normal e se achava espirituoso. O boxer foi uma experiência radical, quando a família se mudou para um apartamento maior, no Posto Seis. Todo o mundo tinha medo do boxer. Era


ótimo para crianças, diziam, mas ele as derrubava com sua efusão. Foi o primeiro que trouxe a questão inusitada da ordem. Era preciso fazê-lo obedecer ou ele dominaria a casa, mas nenhum de nós, como já expliquei, queria ou gostava de estar diante deste dilema. Então, este boxer, como tantos outros cachorros de tantas outras famílias, um dia foi “para o sítio” – seja lá o que isto quer dizer. Não era a tal casa na serra de que falei antes; era um outro lugar, distante e vago como o céu ou o inferno. Seria melhor, “muito melhor!”, para ele e para todo mundo. Já morando sozinha, tive uma Yorkshire, mas me afligia, delicada demais. E agora, depois de insistir muito com Hugo, tinha o labrador de oito meses, que juntava todas as qualidades dos outros a uma relativa ausência de cheiro e uma alegria inesgotável. Já estava embolada no chão com ele quando Hugo entrou na cozinha. Reparei que a camisa que acabara de vestir estava empapada de suor, apesar do frio. Seu olhar ganhou uma sombra perigosa quando me viu com o cachorro. “Vem um minuto na garagem comigo”, ele disse. E antes que eu pudesse perguntar por que, ele disse: “agora!” e foi apertando os dedos em volta do meu cotovelo como uma pinça gelada. 5. Melhor pular a descrição técnica, mesmo porque entendo pouco de carros. Só percebi o que tinha acontecido quando ele escancarou a porta do jipe e me segurou de frente para os bancos de couro dilacerados. O estofamento do banco do motorista tinha sido puxado para fora; molas e fios apareciam no meio dos fiapos. Um chute dele acabou de derrubar o resto do pára-choque. A outra parte estava pelo chão, espalhada em pedaços retorcidos. Ele me fez dar uma volta em torno do carro para que eu visse os arranhões por toda a lataria. Senti que esperava uma explicação e tentei desesperadamente encontrar minha responsabilidade naquilo. Eu tinha deixado a porta da garagem aberta? Algum vândalo passara a noite ali dentro? Hugo apenas me encarava, possesso, até que explodiu: _ Foi a porcaria do seu cachorro! Eu quero ele fora dessa casa, hoje! Agora! Ou saio eu! Seu cachorro! Meu cachorro! Tive que tapar a boca com a mão. Ele nunca tinha gritado antes comigo, nem no dia em que chutei sem querer umas garrrafas de Brunello di Montalcino que ele tinha acabado de tirar, com todo cuidado, do carro anterior àquele. Mas ainda não era o pior: Cláudio – só agora eu o via – estava encostado num canto, me olhando com uma cara de piedade enojada. Sempre odiei o cabelo dele, encaracolado como o de um menino grande e mau. Apontou para a janela do carro, para que eu visse o que sobrara do notebook de Hugo _ mais ou menos dois terços. O computador estava no banco de trás do carro e continuava fechado, apesar de destruído, lembrando um estranho


sanduíche mordido. O teclado preto que embalava meus cochilos no escritório praticamente não existia mais. Preferia ter sido eu toda mastigada e revirada do avesso, qualquer coisa, menos passar por aqueles dois dias em que não nos falamos, a não ser para eu pedir desculpas, que só o irritaram mais. Na emergência, deixei Fred na casa de minha vizinha, Inês, mas ele não poderia demorar demais por lá porque estranhava, latia muito, iria atrapalhar as sessões dos pacientes que ela recebia em casa. Foi ela quem me disse, mais tarde naquela mesma manhã, enquanto eu ainda chorava diante de mais uma xícara de café, que às vezes eu sou de uma inabilidade comovente. A propósito de eu ter tentado proteger o cachorro quando Hugo quis jogar o extintor do carro em cima dele. _ Talvez se você tivesse tentado acalmá-lo, em vez de abraçar o cachorro... enfim, se tivesse ficado um pouco mais do lado dele, quem sabe... mas isso não importa agora, pára um pouco de tomar café, você está com a língua marrom. Não conseguia parar de pensar no dia em que Hugo tinha me levado para ver o carro, uns dois meses antes. Estava apaixonado pelo Land Rover, mas queria minha aprovação mesmo assim. Como se eu fosse capaz de não aprovar alguma coisa que o deixava entusiasmado daquele jeito. Eu não podia sequer de imaginar o que ele estava sentindo agora porque não tinha nada, objeto nenhum que tivesse desejado tanto. Em relação ao notebook, eu era mais fria. Os computadores são traiçoeiros por natureza. Não estou fugindo da responsabilidade pela destruição de uma máquina cara e por tudo que estava dentro dela, não é isso. Mas é que, para mim, o que se guarda num computador já está sob ameaça e é um milagre que sobreviva. Se não for um cachorro, será uma criança, uma queda de luz, um ladrão: por mais que doa, tudo aquilo, no fundo, foi feito para ser perdido. As coisas não melhoraram com o tempo, como eu secretamente esperava e sempre espero. Inês tinha razão. (Conheci pouca gente na vida que tivesse tanta razão e tão freqüentemente como Inês.) O grande erro não tinha sido deixar o cachorro dormir na garagem numa noite de chuva, qualquer um podia ter feito isso. O grande erro tinha sido protegê-lo naquela hora. Era mais fácil pensar que tinha sido um impulso, mas a verdade é que se eu tivesse tido um segundo, dez, um minuto inteiro a mais para pensar, teria feito o mesmo. Nenhuma situação imaginável justificaria abandonar um cão de meses diante de um homem cego de ódio e com um botijão de metal na mão. Não havia saída, não podia mais ser desfeito. E os dias horríveis que viriam depois já estavam todos no olhar de mágoa furiosa que ele me devolveu antes de largar o extintor no chão com um estrondo e ir embora. Noites seguidas tentei encostar de leve as mãos ou os joelhos nas costas dele, e


ele respondeu chegando mais para fora da cama. Não somos bons de conversa, nunca fomos, por isso nem tentei. O que resolvi foi ficar menos tempo em casa, para ver se ele sentia minha falta. Ia bem cedo para meu consultório e voltava quase na hora de dormir. A sala ainda cheirava a novo, como no dia em que ele havia me dado de presente, há um ano. Passei tardes debruçada sobre a enorme mesa de massagem, olhando os Dois Irmãos através dos vidros duplos que deixavam todo barulho do lado de fora. Não mais do que cinco clientes tinham deitado naquela mesa. Não sabia como fazer para que as pessoas fossem me procurar, preferia que outros me indicassem. Outros me indicaram, algumas vezes, mas poucas. Numa delas, um homem muito pálido e barbeado até a alma, usando um terno caro, bateu na porta na hora do almoço. Não tinha ligado antes para marcar, mas sabia meu nome. Disse que se chamava Ernesto e eu não tive coragem de não deixá-lo entrar. Mas quando mostrei a poltrona _ precisávamos conversar antes, claro_ ele me olhou de cima a baixo, desconfiado. Notei que a roupa branca solta que sempre uso para trabalhar o incomodava. Meu cabelo preso num coque também não era o que ele esperava ver. _ Acho que eu vim ao lugar errado... você é massagista mesmo, não é? É, eu era. Então tinha sido engano, ele disse, enquanto voltava para a porta. Um engraçadinho do escritório tinha dado meu nome e o endereço da sala como sendo de outra coisa. Que outra coisa? perguntei. Não que eu não soubesse, mas a falta de interesse dele em me explicar e a pressa com que saiu, reclamando por ter perdido a hora do almoço, me ofenderam muito. Ele não me dava nem a possibilidade de uma fantasia, daquelas que viram depoimentos na revista Nova (que não tenho na sala de espera): fiz sexo com um desconhecido na minha mesa de massagem. Fui garota de programa por uma tarde. Um mal-entendido salvou meu casamento. Mas não, sou massagista mesmo e, pelo jeito, não valho a viagem que Ernesto fez do Centro até a Gávea. 6. Precisava resolver o problema do cachorro. Inês não o agüentava mais. Para ele aquela manhã na garagem não tinha sido nada, certo? Para ele aquela manhã tinha marcado apenas uma mudança de endereço, mas a rotina de destruição continuava igual. Subia nos sofás, mastigava tudo que encontrava, independente de gosto, textura ou importância. Cravava os dentes na barra da calça das pessoas e sacudia com força de um lado para o outro, como os tubarões fazem. Comia muito, fazia cocô a toda hora, em todo lugar e, às vezes, comia o cocô. Sentia-se solitário à noite e latia horas e horas, madrugada adentro. Crescia assustadoramente rápido. Estava portanto a ponto de perder também minha amiga mais próxima e única.


Fiquei sabendo de uma mulher que criava cachorros fora do Rio. Amava todos e aceitava ficar com qualquer um. Morava num sitiozinho, em Guapimirim. Não encarei como uma solução definitiva, mas como um intervalo para decidir o que fazer. Provavelmente eu faria logo as pazes com Hugo; provavelmente viajaríamos e eu teria algumas semanas sem pensar naquilo, o que seria maravilhoso para nós dois. (Nova Iorque foi onde passamos nossa lua-de-mel, onde sempre íamos quando havia tempo e dinheiro sobrando, o lugar no mundo de que ele mais gostava; tudo sempre deu certo para nós em Nova Iorque). Como não dirijo fora da cidade – digamos fora da Zona Sul - estava fora de questão ir a Guapimirim sozinha, então tive de achar um táxi que aceitasse me levar com Fred. Sairia uma fortuna, mas valeria a pena. A tal dona Edite morava numa ladeira de terra, cortada por veios profundos escavados pela chuva. Eu procurava a campainha por trás de uma fileira de latas de óleo plantadas com espadas-de-São-Jorge, quando dois vira-latas cheios de feridas vieram até o portão. Havia mais um deitado, amarrado à calha da casa cor de rosa por um pedaço de fio elétrico, mas este nem se mexeu, como se não tivesse ânimo para perturbar a nuvem de moscas que o rodeava. Dois tornozelos inchados prendiam um lençol num varal de arame e um deles acertou em cheio o cachorro deitado, para que ele saísse do caminho do lençol seguinte. O cachorro soltou um ganido rouco. Desisti da campainha e dei meia volta para encarar de novo a Avenida Brasil. Fred arfava no banco ao meu lado, enquanto eu tentava encontrar outra solução. Neste ponto eu cheguei a acreditar que tinha um problema grave. Só ao chegar em casa de volta entendi que não, quando Elza me abriu a porta dizendo que Hugo já tinha viajado. Sem se despedir de mim, sem dizer quando voltaria e sem deixar o telefone do hotel. Tentei não aparentar coisa nenhuma. Fiz minha cara neutra. Não preciso fazer esta cara, meu rosto já é neutro, mas ficou mais. Disse alguma bobagem sobre precisar pedir água mineral na mercearia _ talvez até tenha conseguido dizer isto sorrindo, não duvido _ e subi correndo as escadas, fugindo da pulsação surda que me socava o peito e os ouvidos. Olhava para os móveis, para os objetos, buscando socorro em sua familiaridade, mas eles não me reconheciam. O chão, o chão não iria me faltar numa hora daquelas; escorreguei e caí ajoelhada no tapete ao lado da cama. Tinha sido abandonada. Não conseguia respirar. Uma daquelas duas coisas iria me matar, eu tinha certeza. Quando finalmente consegui encher o peito de ar, comecei a chorar. Chorei uma hora, duas, chorei até as sete e meia da manhã do dia seguinte, quando senti sede. Elza estava na cozinha, mas eu já não me preocupava em esconder coisa nenhuma, nem pensei em lavar o rosto. Perguntou se eu queria que ela levasse o cachorro para a casa dela por uns tempos. Não tinha problema, ela disse. Não, nem pensar, muito obrigada. Agora eu preferia que ele continuasse ali. 7.


Uma semana sem chuva, ar limpo, paisagem nítida. Uma semana morando no prédio comercial. Um erro previsível, o encontro desastroso com Raulzinho, exnamorado de oito anos atrás, recém-separado. Mais ou menos duas garrafas de vinho, noite sim, noite não. Uma volta para casa, por engano, com o dia nascendo. Algumas tardes sozinha na Livraria da Travessa. Algumas tardes sozinha no cinema. Uma televisão na frente da mesa de massagem, uma espécie de heresia que a emergência havia tornado necessária. Surpreendentemente, não comprei roupas ou sapatos. Mas anotei tudo o que eu queria: uma bota caramelo, sem salto, na Espresso. Uma gargantilha de contas pretas e flores de miçangas coloridas, na No Way. Uma calça Levis 514 preta, assim que coubesse em mim, em qualquer loja Levis. E só. Estava monástica. Não chorei mais, mas também não sorri naqueles dias. Resolvi me dedicar seriamente, de uma vez por todas, ao trabalho. Era uma vergonha que eu precissasse ser deixada sozinha para me dar conta de como minha vida era sem propósito e sem utilidade. Liguei para pessoas, já não me lembro para quantas, oferecendo meus serviços. Algumas marcaram hora, outras ficaram de aparecer assim que tivessem tempo. Pensei em trabalhar de graça também, em algum hospital público ou posto de saúde. Não queria que a massagem fosse um luxo, queria que fosse corriqueira como uma aspirina. Quanta dor a menos haveria no mundo se as pessoas buscassem alívio nas mãos de outras. Eu só não sabia como fazer acontecer. Tinha a visão, mas não conseguia ainda sair correndo e anunciando a boa nova em todos os lugares, mostrando as palmas das minhas mãos e dizendo aqui está o remédio! Então continuava a maior parte do tempo ali sentada, sozinha, vendo televisão. Foi quando ela apareceu. Não olhei antes pelo olho mágico, não sei por quê, sempre olho. Abri a porta de uma vez. Hoje, quando me lembro, não posso deixar de pensar em como seria mais fácil se as pessoas entrassem em nossas vidas com música, como no cinema, anunciando que papel terão no drama. Agora sei que uns poucos acordes sombrios teriam sido suficientes para me prevenir, mas na ignorância daquela hora teria apostado, não sei, em guitarras. Guitarras havaianas, guitarras portuguesas, guitarras em chamas; e também pianos, vozes, violinos. Ela chegou, claro, falando demais. Liliane. Antes tinha ido ao andar errado, ou à sala errada, não me lembro. E precisava de um copo d’água, mas não gelada, e um pouco de sal porque sentia que a pressão estava baixa, mas desistiu antes que eu pudesse dizer que não tinha sal no consultório, era melhor simplesmente sentar e abaixar a cabeça. Deixou o casaco pelo avesso no encosto da cadeira, como as crianças fazem. Sem eu ter perguntado, disse que já estava se sentindo melhor e jogou o cabelo para trás com aquele gesto de prendê-lo num rabo de cavalo imaginário. Provavelmente já tinha falado mais em dez minutos do que eu naquele dia inteiro. Então se levantou e eu vi a barriga que não tinha reparado


antes. Deviam ser quatro, cinco meses? Ela não disse. Falou dos olhos que ardiam, das mãos que andavam ásperas, dos pés inchados. Demorei a me lembrar de onde nos conhecíamos: de uma Casa Cor. Ela trabalhara como recepcionista num dos ambientes, o Quarto do Rapaz, se não me engano. Era conhecida de alguma amiga que nos apresentou. Uns meses depois tinha estado na minha casa para me vender uns tapetes de algum parente seu que ia se mudar, tapetes excelentes que iam me sair quase de graça. Eu interpretei mal o que vi. Pensei: é uma mulher muito ansiosa, mas não era. Ela falou de um desequilíbrio e realmente a palavra era melhor. Muita coisa habitando uma pessoa só. Já fiquei grávida uma vez e não gosto de falar disso. Não cheguei a sentir as mudanças, a não ser as mais iniciais. Pelo que ela descrevia, era muito violento. “O gosto das coisas está trocado. Vou comer um tomate. É o mesmo tomate de sempre, mas eu ponho na boca e não é mais o mesmo, ainda é um tomate, mas é outro, me dá um nervoso!” Havia até alguns episódios de telepatia sem importância, que também atribuía à sensibilidade aumentada: “pensei na mãe da minha amiga Regina, que eu não vejo desde o primário. Sem razão nenhuma pensei na mulher, lembrei que ela e a filha eram idênticas, as duas dentuças, e dou de cara com ela na primeira esquina!” Eu anotava tudo, sem saber direito o que fazer com aquilo. Uma coisa era certa, Liliane precisava relaxar naquele momento. Isto eu podia fazer. O corpo de uma mulher grávida assim tão de perto era uma coisa nova para mim. Tentei não olhar demais e me concentrei nos ombros. Evitei a barriga, que não era território meu, e apenas passei óleo de leve na pele esticada, sem massagear. Parecia tudo quieto do lado de dentro. Liliane também tinha se calado, finalmente, e olhava a janela com o ar de quem fazia uma conta de cabeça. Seus membros não estavam tensos como eu imaginava, eram mornos, flexíveis, de um magro arredondado. Massageei as costas enfiando as mãos entre elas e a mesa, usando seu próprio peso para fazer pressão. Depois escorreguei as mãos pelas pernas, fiquei por algum tempo nos pés, até ela soltar um suspiro. Naquela noite pensei nela antes de dormir. (Tinha resolvido voltar a dormir em casa. De certa forma a vergonha que eu sentia por ter sido deixada havia diminuído. Não a dor, só a vergonha. Porque oficialmente ainda era só uma viagem de negócios que Hugo tinha feito para Nova Iorque, eu ainda tinha todo direito de estar ali.) Mas disse que pensei nela. Foi assim: há uma linhagem de meninas de todos os colégios onde estudei, e também de clubes, de prédios vizinhos em Copacabana, de todos os cantos do passado, que têm em comum o fato de serem atiradas, alegres, algumas um pouco más, nem preciso dizer bonitas. Eram meninas distantes, interessantes, de um jeito que eu tinha certeza de que jamais seria. Liliane poderia perfeitamente ter sido uma delas, das Alices, Normas, Angelas. Mas minha mania de construir linhagens imaginárias de meninas e cachorros começava a me cansar. Adormeci logo. Já de madrugada


tive um sonho com vários leões. Estavam dentro de uma sala circular de mármore. Uns deitados em degraus, outros andando sem ruído, procurando se acomodar. Eu estava num canto da sala, paralisada por não saber se aquilo era mais bonito do que perigoso, ou mais perigoso que bonito. Ou perigoso justamente porque bonito, ou o contrário. Até que um deles passou ao meu lado e empurrou a cabeça áspera contra a minha mão. Dei um pulo de susto e acordei com as lambidas de Fred, já com duas patas em cima da cama, tentando subir. Fiz um carinho nele sem entender como tinha ido parar ali; nunca deixei que ele subisse para os quartos, era a condição que Hugo tinha imposto para aceitá-lo em casa. Havia um portãozinho de madeira na escada que devia ficar sempre fechado para ele, todo o mundo sabia. Eu devia ter esquecido aberto na noite anterior. E por que não esqueceria? Não tinha esquecido de tomar banho também? Não estava há dois dias usando as mesmas meias? 8. Quando desci, revivi, de uma forma mais fria e acelerada, aquela outra manhã. Fred tinha comido todo o cabo da melhor raquete de tênis de Hugo. Elza segurava o resto da raquete descarnada enquanto olhava para mim com a mesma desaprovação com que olhava para ele, como se eu o tivesse ajudado a fazer aquilo. E quer saber? Eu tinha mesmo. Protegendo-o, deixando que andasse por ali como se também fosse dono da casa. Fred abanava o rabo, a boca aberta e a língua pendurada num sorriso parvo. Naquele momento não houve em mim mais um fiapo de simpatia por ele. Eu começava a entender que ele tinha entrado em minha vida para causar problemas. É possível, acontece com pessoas, acontece com cachorros. Mas a raiva me trouxe uma iluminação. Não teria pensado em minha cunhada se não tivesse realmente chegado ao limite. Não seria fácil, eu a tinha encontrado pouquíssimas vezes sem Hugo estar presente e em todas elas eu tive a impressão de estar sobrando. Para algumas pessoas, ter esta impressão é como respirar, portanto fica difícil saber quando é real. Este é o perigo: às vezes é real e a pessoa não dá o crédito devido, faz o tipo despreocupado simpático quando está de fato sobrando. Quanto mais Ludmila me conhecia, menos me levava a sério. Quando nos recebia, depois de dar um abraço longo e cheio de intimidade em Hugo e conseguir um resumo detalhado das condições de saúde e de trabalho dele, depois de constatar também que ele estava com uma “cor boa”, ela se virava para mim e eu podia jurar que ela ia dizer: trouxe maiô? Vai brincar na piscina enquanto a gente conversa... Mas ela apenas me perguntava um “como vai?” sem acréscimos, partindo do princípio - certo - de que eu não fazia nada mesmo além de existir. Conheci Ludmila quando ela estava voltando ao Brasil para se casar, depois de dez anos morando na Suíça. Um dia me telefonou, muito educada, perguntando se meu vestido para a cerimônia poderia ser bege ou gelo, já que uma outra


madrinha, diretora do banco onde ela trabalhava, pretendia usar um vermelhosangue e ela tinha receio do altar ficar colorido demais se eu estivesse pensando em azul-real ou verde-esmeralda, por exemplo. Ela ainda não me conhecia pessoalmente, mas, por acaso, sou uma mulher que prefere morrer a vestir uma roupa longa azul-real ou verde-esmeralda e era justamente bege o vestido que eu tinha pensado em comprar. Hugo ficou aliviado quando contei, porque detestava trocar coisas em lojas e seria necessário trocar se eu já tivesse comprado outro. Ludmila agora era mãe de um menino de quatro anos e de uma menina de dois. E diretora do banco, no lugar da mulher de vermelhosangue. “Por pouco tempo”, Hugo costumava dizer, orgulhoso, porque outras empresas e bancos andavam sempre de olho nela e seus PHDs, ou masters, sua competência, seu jeito firme mas feminino de equacionar situações complexas na vida e nos negócios, etc. Como eu disse, não iria procurá-la de jeito nenhum se não precisasse muito, até porque era dificílimo que ela tivesse tempo para receber alguém depois do nascimento dos filhos. Tinha passado a acordar às cinco e meia da manhã para passar algumas horas com eles antes de sair para o trabalho. Mas eu precisava ir, tinha certeza de que podia dar certo. Sabia o que precisava dizer, devia levar o assunto para as crianças, que eram sua paixão, dizer como é maravilhoso para elas ter um animal. E Fred já tinha passado da fase pior, de filhotinho, agora era pura diversão. Não, não usaria a expressão “pura diversão”, era o slogan de alguma ração, ia acabar soando debochado. Toquei na casa dela às seis da manhã do dia seguinte. Os dois seguranças levaram quase meia-hora para voltar depois que me anunciei, mas o portão acabou se abrindo para mim. Ela veio me receber francamente aflita, usando um tailleur e um par de luvas de látex, dessas de médico, sujas de barro esbranquiçado. Não sorriu. As crianças estavam no chão brincando com um montinho de argila sobre uma tábua. Algum problema com o Hugo? ela quis saber. Tive que explicar que não, estava tudo bem em Nova Iorque. Mas eu tinha falado com ele? ela insistiu. Claro!, menti, tenho falado sempre, não houve nada com Hugo, nada mesmo. Então mandei meu discurso sobre Fred. Eu sabia que às vezes podia ser muito convincente, era raro, mas podia; era preciso que eu me sentisse verdadeiramente misturada ao que queria dizer. Terminei dizendo que o cachorro precisava pertencer a Rafael e Vitória, e tinha certeza de que minhas palavras não errariam o alvo. Acabei com a boca seca, mas achei melhor esperar que ela dissesse alguma coisa antes de pedir um copo d’água. _ É o mesmo que acabou com o carro do meu irmão? ela perguntou, enquanto arrancava as luvas com um estalo desagradável. Gaguejei que sim, me odiando por não ter lembrado que ele devia ter contado a ela, e tentei explicar que aquilo tinha sido um acidente infeliz que... Obrigada, ela atalhou. Se um dia ela e o marido resolvessem que as crianças precisavam de cachorro, com certeza escolheriam uma raça pequena. E já comprariam um animal treinado. Porque o que tinha acontecido com o carro era inadmissível.


Não que ela quisesse se meter, mas já que eu havia trazido o assunto... Olhou para os filhos enquanto se livrava das luvas numa cestinha de lixo e tive a impressão de que seus olhos se encheram de lágrimas. _ Você me fez perder meus últimos quinze minutos brincando com eles hoje. Quando eu voltar, à noite, eles vão estar dormindo. Nunca mais faça isso. Tomei uma decisão depois daquilo. A partir daquele momento eu iria agir contra minha vontade. Porque minha vontade nunca quis o que é melhor para mim, essa é a verdade. O que se chama agir com o coração, seguir a intuição, no meu caso era caminhar sempre e direto para o desastre. À noite não consegui comer _ de raiva. Fiz questão de olhar para Fred com todo desprezo de que fui capaz, enquanto tomava um copo d’água gelada na cozinha. Devolvi a ele o que ele me deu: perda, dor, humilhação. Sabia que estava sendo covarde, sabia que estava sendo ridícula, mas ainda assim precisava descontar em alguém ou alguma coisa, e ninguém melhor que o verdadeiro responsável. Há um mês atrás, o modo como ele inclinou a cabeça tentando decifrar meu olhar teria esquentado toda a cozinha numa onda de ternura. Agora, só me fazia largar o copo vazio no mármore da pia, apagar a luz e sair sem olhar para trás. Mandei que Elza passasse a prendê-lo na despensa vazia durante a noite. Liliane voltou ao consultório na sexta-feira, sem marcar hora, com uma crise de ciática. Fingi que a encaixaria no lugar de alguém que, por sorte, tinha cancelado. Notei que a barriga estava um pouco mais pontuda do que antes. Pedi que deitasse de lado dessa vez, e pude olhar melhor as costas. Sempre tive inveja das mulheres que têm omoplatas meio salientes, como as dela. Sei que é só uma questão de postura: quem se apruma e abre o peito, automaticamente projeta as omoplatas desse jeito que eu gosto. O caso é que nem todo mundo se apruma e abre o peito, pelo menos não o tempo todo. Reparei que ela estava mais calada do que o normal _ se fosse hoje, eu saberia que estava triste. Fui puxando assunto, em parte porque era natural, em parte por curiosidade mesmo. Confirmei a impressão que tinha tido desde o começo, de que ela vivia de expedientes, ainda que num nível um pouco mais alto do que aquilo que a gente costuma imaginar quando ouve esta expressão. Eu penso logo em alguém de mais de cinqüenta anos que no verão vende biquínis da confecção do cunhado, alguma coisa assim, mas ela estava um pouco acima disto. Era visível na pele, no cabelo, que vinha de uma infância rica e isto produz adultos arruinados bem diferentes dos adultos arruinados de nascença. Hugo tinha me ensinado isto, que anos de divórcios e partilhas tinham ensinado a ele. “Patrimônio não é nada”, ele dizia, “o importante é manter o dinheiro entrando, e isso a maioria dos filhos de família rica não sabe fazer”. Era a expressão de um acrobata que eu via nos olhos dela. Alguém que vivia suspenso milagrosamente acima do abismo pelos fios frágeis dos contatos do passado. Daí o emprego na Casa Cor; daí as antigüidades, os tapetes, os quadros que sobraram na família e que Liliane de vez


em quando oferecia aos conhecidos. Perguntei, é claro, sobre o pai do bebê, o marido, ou quem quer que estivesse com ela naquilo. Eu imaginara que aquela gravidez era problématica de algum modo, como são tantas. Não esperava o sorriso doce, quase inocente. _ Estou morando com meu professor de filosofia. Entrei num grupo de estudo, tinha umas pessoas que eu precisava conhecer. Artistas, esse tipo de gente, que ainda não é muito minha praia. E acabei praticamente casada com o professor. É a minha cara _ disse numa gargalhada, enquanto se sentava. Nosso tempo ainda não tinha acabado, mas ela estava melhor e precisava ir, tinha um outro compromisso. Disse também que eu tinha conseguido um milagre naquela tarde e beijou as mãos que operaram o milagre. Existe um momento perfeito, quando eu era pequena, que é o modelo dos outros momentos perfeitos que espero ter ainda na vida, e que aconteceu na calçada da praia. Eu dava a mão à minha mãe e ia coleando devagar pelo interminável S preto no chão. Algum acaso estranho tinha posto naquele instante todas as coisas no lugar certo: aquela sensação de dezembro na pele _ uma mistura de maresia, cigarras e folhas vermelhas nas amendoeiras; a noite começando às oito horas, a luz amarela dos postes de Copacabana. Estranhamente também, minha mãe não estava com pressa, não estava irritada com meu pai, não estava com a cabeça longe, estava ali comigo. Pra onde no mundo eu gostaria de viajar? ela perguntou de repente. Minha mãe não era uma mulher que pensasse muito em mundo, antes em vizinhos e por isso fiquei surpresa. Mundo, para ela, era o que havia na coleção encadernada – com suas iniciais em ouro: C. F. V – das Seleções do Reader’s Digest, todas as revistas de 1962 a 1969, seu orgulho e sua maior diversão na vida. “Pra onde?” Pólo Norte, eu disse. “Pólo Norte? Hum, longe, tão frio... eu não, eu tinha vontade de conhecer a França, ela disse, onde as mulheres são lindas e sabem se vestir bem mesmo sem dinheiro.” Mas eu queria saber como é andar em cima das horas, respondi. Cada passo que você dá no Pólo Norte, pisa numa hora do mundo. Então numa voltinha rápida você passa um dia inteiro! Ela parou de andar, me olhou desconcertada por um instante, depois me deu um beijo no alto da cabeça, um beijo como o selo de um rei, como o beijo de uma fada num conto de fadas. Vem tomar um picolé, anda, ela disse, e foi me puxando para a carrocinha. Encontrei Elza alvoroçada. Hugo tinha telefonado para mim. Andei por ali sem dizer nada. Bebi água, sentei, peguei o jornal, larguei o jornal e só então perguntei o que ele tinha dito. Nada, só ligou. Meu pescoço latejava, meu rosto estava quente, eu não sabia se já podia ficar feliz. Era só um telefonema, sem recado.


_ Posso soltar agora? Não entendi. _ O cachorro, tá preso desde ontem de noite. Latiu o dia todo, ninguém agüenta mais. Corri para a despensa, assustada por ter esquecido. Estava em silêncio agora. Abri a porta com cuidado para não machucá-lo e me abaixei para fazer um carinho nele, antes mesmo de acender a luz. Só senti a dor, o fogo, e depois as marcas dos dentes, cada dente uma gota de sangue fazendo um arco na minha mão direita. 9. As tais dez injeções não foram necessárias, ele estava vacinado contra raiva, mas precisei de um antibiótico e um antiinflamatório. A mão inchou e latejou por alguns dias. Tive muita vergonha de ter sido mordida _ da história, quero dizer: meu próprio cachorro, eu que gosto tanto dele, etc. _ e prometi a mim mesma que não contaria a ninguém. A dor em si não me incomodava tanto; as pontadas, no final das contas, coincidiam com a pulsação dolorida do tempo desde aquele telefonema. Vou pular mais uma descrição técnica, a desta espera. Vou dizer apenas que o telefonema não veio nos próximos três dias e que na noite do terceiro dia, sentindo o machucado da mão começar a coçar, um sinal infalível de recuperação, decidi também não pensar mais naquilo e levar as coisas como estavam antes. Não sei bem dizer como estavam antes, não estavam certas, não estavam firmes, mas seguiam seu curso de algum modo vacilante e aquilo era preferível a viver em suspenso. Então, com não mais do que cinco minutos desta decisão tomada, a cama parecendo mais amigável, o sono mais merecido, o telefone tocou no corredor escuro. Ouvi o bip que anunciava a ligação internacional e o alô. Um farol varreu o teto exatamente nesse momento, e comecei sem querer a prestar uma atenção incomum aos objetos que sempre estiveram ali ao lado do telefone: uma fileira de porta-retratos e um vaso com uma palmeirinha, normalmente sem cor definida àquela hora. Ao som daquela voz secreta e diminuída que sai de um fone encostado ao ouvido quando em volta tudo está em silêncio, eu parecia sorrir mais nas fotos. Minha boca era mais vermelha e meu cabelo mais castanho contra a neve de Bariloche em 1981. A mãe e o pai de Hugo entrelaçaram com mais força os dedos na foto de casamento. A palmeirinha no vaso se agitou, como se estivesse de volta à brisa morna da praia onde nasceu. Hugo me pedia desculpas por ter exagerado na raiva, dizia que sentia saudade de mim. Dizia que voltaria na quarta da semana


seguinte. Dizia que me amava. Eu quase não falei. 10. Com a perspectiva da volta dele, passei a me ocupar mais da casa. Faltavam coisas, inclusive comida. Naqueles dias eu andara vivendo, e obrigando Elza a viver também, de macarrão, queijo ralado, biscoito e café. Precisava de tangerinas, mangas, coisas assim. De copos novos, de outra manta para a cama. Resolvi também dar um fim em minhas caixas de papelão, que ele odiava tanto, empilhadas junto à parede do escritório. Caixas estampadas de oncinha, de rosas, listras, que escondiam uma mixórdia vergonhosa que eu não conseguia jogar fora. Levei um rolo de sacos de lixo comigo. Primeiro, descobri que a poeira entra, mesmo nas caixas com tampa. Depois, que a fúria amortece já quando se pega a primeira carta, a primeira rolha de vinho, a primeira flor seca. É preciso ter paciência com as coisas soltas, sem lugar certo - ainda que elas nos façam um pouco de mal, como os fios elétricos me fazem mal. Para coisas irremediavelmente avulsas, não há outra solução a não ser jogar tudo em alguma caixa, assim como não há solução para os fios, a não ser escondê-los e tentar esquecer que eles estão lá. Talvez se a gente pudesse ter vitrines de museu em casa, e prender aquela rolha com um longo alfinete sobre um feltro preto, aquela flor, aquele guardanapo escrito, os aros foscos dos óculos que são a única coisa que me sobrou de meu pai. Com cartõezinhos embaixo explicando o que são e dando datas. Mesmo assim o museu teria que crescer a cada ano, só a morte do dono conseguiria detê-lo, então não há solução também para as lembranças. Esses óculos já tiveram lentes, meu pai os usou até o fim. Tirei-os da mesa de cabeceira do hospital quando desocupei o quarto dele. Agora sou obrigada a reconhecer que toda morte é natural. As vidas são tantas e tão pequenas e a crosta terrestre se movendo o tempo todo, o choque esmagador e imperceptível das placas de rocha moendo, engolindo tudo. O chão, que eu sempre conheci tão bem, no fundo nunca me enganou. Às vezes você anda por dentro de casa descalça, pisando nele como sempre, e aí, de repente, não é mais como sempre: você pisa sim, mas sente nas plantas dos pés o quanto aquela solidez pode faltar de um segundo para o outro. Aquilo dá medo, mas dá ao mesmo tempo uma espécie de prazer que vira o seu estômago. Desisti dos sacos azuis e levei as caixas, do jeito que estavam, para o consultório. Estava acabando de enfiá-las embaixo da bancada quando Liliane tocou a campainha. Trazia de presente para mim uma caixa de chocolates Baci, desfalcada de uma fileira inteira. Estranhou o curativo na minha mão e me obrigou a contar o que tinha sido. Quis detalhes, raça e idade do cachorro, há quanto tempo estava comigo, em que situação tinha me mordido. Quanto mais eu contava, mais ela balançava a cabeça, chocada, e insistia para que eu o treinasse ou me livrasse dele de uma vez. Para abreviar meu desconforto, eu


disse que procuraria um bom treinador, bem longe. Até por que Hugo estava voltando, etcétera. (como era delicioso poder contar a história assim: Hugo tinha ido viajar e agora estava voltando, só isso, omitindo toda a angústia do intervalo entre uma coisa e outra). Mas ela me corrigiu, cortante: eu precisava treinar o cachorro. Era a mim que ele tinha de obedecer. Ninguém me obedece, nem eu quero mandar em ninguém, expliquei com um certo orgulho. _ É? E como é que você chegou até aqui? Talvez com os outros mandando em mim, brinquei. _ Você acha isso engraçado? Porque é exatamente o que esse cachorro vai fazer com você. Me deixa pelo menos mostrar que é possível? Eu a teria convidado de qualquer modo para ir à minha casa, mais cedo ou mais tarde. Elza sorriu quando me viu acompanhada de uma amiga, mas a odiou instantaneamente quando a viu apagar o cigarro embaixo da torneira, na pia em que ela lavava louça. Mostrei o tapete que ela me vendera dois anos antes, sem ter muita certeza de que era o certo, e fui logo buscar Fred. Eu queria acreditar que a mordida tinha sido uma espécie de equívoco por causa do confinamento, da escuridão, do susto ao ver a porta abrir de repente, mas a verdade é que nos olhávamos desconfiados agora. A velha alegria ainda estava nos olhos dele, mas em segundo plano, pronta para vir para frente só se eu desse algum sinal de que merecia. Não quis dar esse sinal. Liliane já estava esperando no jardinzinho, resplandecendo ruiva como eu nunca tinha visto. Fui me sentar na grama, esperando a experiência. Espantei com um peteleco um grilo que subia pela barra da minha calça. Liliane conversava com Fred, acariciando-o entre as orelhas; depois puxou-o para uma volta da qual eu seria o centro. Ele começou a correr junto às pernas dela, ainda confuso por não saber para qual de nós duas olhar. Estava maior e tinha alguns nós no pêlo que eu não tinha notado. Minha falta de encanto por ele tinha chegado ao limite. Já pensava no próximo, no definitivo: um pastor de Shetland, menor, doce, com menos poder destrutivo. À medida que Liliane apertava o passo e se abaixava para falar com ele, seu cabelo escapava do rabo de cavalo, como num sussurro, de um jeito que me dava um aperto no peito. “Alto!” ela disse, uma, duas, várias vezes, interrompendo as corridinhas, até ele entender que devia parar. Em algum momento ele entendeu, não era mais coincidência. Parou e levantou os olhos, esperando novas ordens. E ela sorriu para mim, esperando que eu estivesse convencida. Que calor irradiava seu rosto, os cílios atravessados de luz. Sorri também. Depois, para que não restasse nenhuma dúvida, Fred aprendeu também a sentar, em apenas três tentativas. Era o bastante por aquele dia. Ficamos esticadas na grama tomando suco de tomate enquanto um triângulo de sol ia sumindo muro acima. Fred deitado quieto, a cabeça entre as patas,


afastado de mim. Perguntei a ela se não tinha medo. _ Medo de quê? De se aproximar de um bicho que não conhecia. Ele tinha mordido a própria dona, afinal. _ Não, não... _ ela riu _ ele sabe que eu sou mais forte. Tem um homem dentro de mim, ele respeita. E como eu não entendesse logo: _ É um menino. Era um menino. Outra coisa que eu não sabia. 11. Naquela noite, assim do nada, considerei várias vezes a idéia de vender o consultório. Estava novo, era lindo, daria um bom dinheiro, que eu poderia aplicar numa loja. Uma sorveteria, talvez, de sorvetes de frutas brasileiras. Pequena, especial, cara. Porque talvez eu não tivesse mesmo sido feita para aquela relação tão íntima com estranhos que havia na massagem. Talvez eu não quisesse tocar o corpo de pessoas que eu mal conhecia, talvez eu preferisse só entregar casquinhas e copinhos protegidos por guardanapos de papel nas mãos delas. Vê-las de pé, vestidas, sorrindo e tentando se entender com suas crianças indecisas e barulhentas, pedindo para provar o sapoti, a graviola, o chocolate com pedaços de chocolate. Uma loja aberta para a rua. Liliane chegou no dia seguinte na hora do almoço, de surpresa, ofegante, meio palmo de barriga para fora da camiseta, carregando um embrulho grande e desajeitado. Perguntei se queria comer comigo, disse que não, mas acabou sentando e pedindo um prato. Reparei que seus lábios estavam inchados e que havia uma sombra rosada nas narinas. Tirou uma caixa de madeira da sacola, pôs em cima da mesa e me olhou como se fosse fazer uma mágica. Foi soltando as cordinhas que uniam os lados da caixa. Ali estava o que a minha casa precisava, ela disse, e pelo amor de Deus, que eu não fosse pensar em dinheiro, não era a hora. A caixa se abriu para os quatro lados, como uma flor. Deitada de lado sobre uma almofada de seda desbotada estava a estatueta de uma mulherzinha nua, a cabeça apoiada num dos braços. Um corpo quase infantil, seios pequenos, quadris estreitos, de um material claro, parecendo polido por muito manuseio. Havia restos de tinta preta nos cabelos presos atrás da nuca e nos riscos dos olhos. A boca entreaberta era um entalhe pequeno e fundo, de


cor castanha. Ao lado dela, na almofada, descansava um palito comprido, de pedra verde. Era chinesa e tinha mais de cem anos, ela explicou. Tinha sido de um tio de sua mãe, diplomata e colecionador. _ Mas o melhor de tudo é pra que ela servia. Isso ficava na mesa de um médico chinês. Eles achavam o fim do mundo, claro, uma mulher ir sozinha ao médico e ficar sem roupa na frente dele. Então a paciente usava essa bonequinha pra mostrar o lugar onde estava sentindo dor. Apontava com esse palito aqui _ que, aliás, é jade, quebra à toa, cuidado. Agora, imagina só a consulta: a bonequinha nua entre eles, o palito passando da mão de um pra mão do outro, os dois se olhando, a mulher envergonhada, o médico tendo que imaginar o corpo dela por baixo da roupa... pra mim isso é bem mais forte do que ficar nua na frente de um cara! Você me paga em dez anos se quiser, mas isso tem que ser seu, tem que ficar aqui. No seu quarto. Isso é um talismã do sexo. E esse bebê – acrescentou, séria - esse bebê foi feito diante dela. A estatueta foi direto para a cômoda em frente à cama. Era hipnótica. Principalmente a boca pequena, entreaberta num sorriso vazio, que parecia guardar o rastro de uma palavra recém-pronunciada, uma palavra que eu devia entender e não entendia. O palito translúcido lembrava a antena de um grande inseto verde. Depois veio um redemoinho de dias secos, dias de espera. E a manhã de ir ao aeroporto. Eu tinha dormido mal. Também tinha medo de ir ao aeroporto dirigindo. As mãos suadas agarravam o volante, como se o carro pudesse sozinho errar o caminho e parar entalado numa viela onde eu seria morta por meninos de onze anos com metralhadoras. Hugo tinha pedido que eu não fosse, mas tive que insistir ou não conseguiria recomeçar aquela história de onde eu queria. Eu era uma mulher capaz de buscar um homem no aeroporto, ponto final - esse tinha que ser um dos pressupostos da nossa nova vida. Cheguei sem problemas. Fui ao banheiro do primeiro andar, escovei os dentes e lavei o rosto entre turistas recém-chegadas de olhos vermelhos. Soltei o cabelo, não gostei, prendi de novo. Esperei no portão de desembarque, tentando não parecer ansiosa demais. E então, no momento exato em que notei um pedaço de fita adesiva na sola do sapato e me abaixei para tirá-lo, ele me abraçou. Me levantou do chão. Senti seus braços magros, quentes, por baixo da camisa. Procurei seu cabelo, seu pescoço, queria me dissolver naquele cheiro de viagem e cansaço. As costas, que eu não esquecia nunca, dentro dos meus braços. Eu não era mais uma pessoa carregando um amor, eu era aquele mesmo amor, uma coisa só, tocada pelo dedo luminoso da vida. Só isso para sempre, era pedir muito? Saí daquele abraço com uma espécie de febre. Queríamos falar, queríamos andar e falar, de qualquer coisa, da desorganização do aeroporto, do tíquete do estacionamento que eu não sabia onde estava, da calça apertada de


uma mulher que passava. Ele dirigiu na volta. Há quantos anos, em quantos carros eu tenho estado sentada ao lado dele, vendo seu perfil e atrás dele a rua passando rápido pela janela. Eu e meus momentos perfeitos. A nuca, o jeito como ela foge e vai se esconder no colarinho, os olhos que não podem se desviar do caminho para olhar para mim, a metade do sorriso... chego a esquecer de respirar. Ele me deu a mão por cima da alavanca de mudança. Nem vi a Linha Vermelha passar, já era a Lagoa que aparecia em cheio no fim do túnel. Ficamos jogados um pouco no sofá, tomando café. Tinha mandado Elza passar a manhã fora e levar Fred. (Depois, bem depois, eu falaria nele. Diria que estava sendo treinado, que estava muito melhor, mas que se ele quisesse, eu o daria, sem problema.) Hugo não reparou que eu tinha mudado algumas coisas na sala, mas era tão pouco que eu mesma, no lugar dele, não teria reparado. Ele me deu uma parte do jornal; fingi que lia, mas continuei a olhá-lo sem que ele percebesse. Eu me sentia ainda desnutrida da imagem dele e quanto mais olhava, menos me satisfazia. Isso me acontece muito: preciso desesperadamente ver o todo, mas só consigo ver pedaços. E são tantos os pedaços, é tão aflitivo tentar juntá-los, porque sei que nunca vou dar conta da pessoa inteira. Quando acho que já gravei com segurança as sobrancelhas rareando docemente nos lados do rosto, e passo para aquela nuca de que já falei, ou para as unhas das mãos, limpas e transparentes como água, aí as sobrancelhas já estarão desaparecendo da minha memória, depois a nuca, e assim por diante. Ele estava abatido e mais bonito, e tinha acabado de largar o jornal no chão. _ Preciso de um banho, vem comigo? Eu disse que ia, claro, e deixei que ele fosse primeiro. Corri para a cozinha e tomei direto quatro goles da vodca do congelador. Era sério, era preciso, diante do que me esperava naquele banheiro. Como ficar de pé na luz, de frente, nua, como? E abrir o peito, e levantar os olhos, depois de ter sentido o medo que eu senti? E sorrir? E ver meu próprio corpo? E vê-lo olhando meu corpo? E gostar disso tudo? Bebi mais, esperando que aqueles elásticos que me atravessavam por dentro arrebentassem todos ao mesmo tempo. Consegui escapar demorando o tempo suficiente para a água quente do boiler acabar. Fingi que preferia esperar de pernas cruzadas sobre a cama, com um sorriso que tentava sair inteiro, mas que não passava de um tremor nos cantos da boca. “Estou nervosa”, fui avisando. Então ele viu minha mão machucada. Os cortes ainda não estavam completamente cicatrizados. Os dedos dele passaram de leve por ali, perguntou se tinha sido o cachorro. Dei de ombros, com vergonha de mais aquele vexame. Perguntou se eu tinha sido medicada, se doía. Não, não doía mais, só se apertasse com força. E como não pensei nisso? é claro que o milagre tinha que vir de uma ferida. Foi por ali que o contato foi feito. E aqui, sinto muito, não vou ter opção a não ser descrever.


Não é noite. Há uma claridade violenta no quarto. Mesmo com a vodca que tomei, não há torpor, não há desnudamento lento, roupas escorregando para o chão, nada disso. Imagine alguém que pára no meio de um dia quente e resolve comer uma fruta, sentado no degrau de uma velha varanda: sem impedimentos, com uma idéia simples, única: enterrar os dentes naquela fruta. E não falei de dentes à toa: o que nos unia antes de todo o resto ainda era a mão dele apertando a cicatriz da mordida de cachorro na minha mão. Por essa mão ele me levou até a janela. Ajudou-me a sentar no parapeito, com o sol batendo em cheio nas minhas costas. Eu precisava, como todo mundo precisa, ouvir coisas, e ele disse, dissolveu minha aflição falando no meu ouvido. Falava direto com meu corpo, e meu corpo começou a responder e a tomar o controle das coisas. Minhas pernas se fecharam em volta do quadril dele, com amizade, com camaradagem, com um sentimento de igual pra igual que eu não tenho a toda hora com qualquer um. Deixei a cabeça pesar em cima de seu ombro e mergulhei no vermelho de dentro das pálpebras fechadas. Uma brisa fria secava o suor nas minhas costas. O sono que eu tinha espantado para ir ao aeroporto voltou irresistível depois que caímos na cama. Não sei por quanto tempo cochilei, mas acordei quando meu braço pendeu para fora da cama e encontrou sem querer a caixa de Baci no chão, com um último bombom. Era exatamente do que eu precisava. Hugo estava de costas para mim, a cabeça em cima da minha barriga. Mordi o bombom e pus o resto em sua boca. Dividimos também um copo d’água que tinha sobrado da noite. Meio bombom, meio copo d’água: era como se estivéssemos no ponto mais alto de uma cerimônia secreta e sagrada. O casamento profundo de uma pessoa com outra, selado pela comunhão do alimento mais perfeito e do líquido primordial. Nascemos tão longe um do outro, tão sozinhos, erramos cegos durante anos, mas estávamos predestinados a chegar juntos àquele instante. Inocentes, ignorantes, conduzidos por uma força misteriosa até o momento em que ele tinha tocado no meu machucado. Ali tinham começado os gestos rituais, a cerimônia propriamente dita, que chegava ao clímax agora, com o chocolate dividido e o gole d’água. Entender o segredo multiplicava minha alegria. Hugo ainda estava com a cabeça apoiada em minha barriga, o cabelo úmido cheio de caracóis que iriam desaparecer quando ele se penteasse. Eu não podia ver seu rosto, mas sabia para onde ele estava olhando. Primeiro para a janela, depois reconhecendo o quarto, que não via há algumas semanas. Estava tão tranqüilo agora quanto eu. De repente senti a respiração dele se quebrar, numa espécie de susto mudo. Depois veio uma desordem que ele tentou acalmar mas não conseguiu. Não reconheci sua voz. _ Que boneca é aquela?


Fiquei feliz dele ter reparado. E, claro, agora eu entendia, ela não estava lá por acaso, ela era um dos objetos do ritual. Expliquei para que servia e contei que tinha comprado de uma amiga. Ele ficou em silêncio por algum tempo. _ Que amiga? _ ele quis saber, e agora havia, sem dúvida, um tremor em sua voz. _ Liliane, respondi. _ Lembra, um dia ela veio aqui pra vender um tapete e... Então foi minha voz que falhou. De repente minha testa se cobriu de um suor frio, grudento. Hugo se levantou e ficou sentando de lado para mim, olhando a janela. Entendi que não ia falar mais nada, nem eu sabia o que perguntar, ainda que alguma coisa gritasse e esperneasse no silêncio, querendo ser perguntada. Então finalmente lembrei de outro momento. Durou só alguns segundos, há um ano atrás, naquela mesma casa. Liliane tinha vindo entregar o tal tapete que comprei. O rolo era pesado, mas ela o carregava nos braços. E usava – por que me lembro disso? - uma camiseta preta que ficou coberta de fiapos de lã. Estava com pressa, eu também estava atrasada para alguma coisa e não podia levá-la até a porta, pedi a Hugo que levasse. Dei tchau e subi para tomar um banho. A caminhonete dela estava estacionada lá fora. Olhei sem querer pela janela do quarto, essa mesma onde eu tinha me sentado umas horas atrás, e aí começam a contar os segundos de que falei: um, Liliane beija Hugo no rosto, normal, e vai entrar no carro. Dois, ele a segura por um instante, como a gente segura uma criança, e começa a tirar os fiapos de sua camiseta. Eu devia ter visto um erro ali? Nos dedos dele tão aplicados, catando fiapinho por fiapinho, por toda a camiseta preta? Três, ela abaixa e levanta os olhos, indo dos dedos para os olhos dele. Então dá um sorriso de lado, balança a cabeça, entra no carro ainda sorrindo e vai embora. Quatro, ele espera um pouco na rua, chuta umas pedrinhas, e volta para dentro de casa, mãos nos bolsos, como sempre faz quando está animado com alguma coisa. Foi só isso e eu fui capaz de entrar no banho em seguida, cantarolando ainda por cima, como se não tivesse visto nada. E agora ele estava sentado aos meus pés na cama, olhando a janela, tentando acalmar a respiração e me contar alguma coisa.


Ruiva, rubi

1. Se eu tivesse ficado com raiva de alguma uma coisa, uma só, nessa história toda, seria de um final de tarde de verão, na varanda. Hugo comia uma tangerina olhando o morro ainda coberto de sol e me explicava, consternado, por que, apesar de me amar tanto, não queria ter filhos. “Minha infância foi ruim. Nunca fui feliz com a minha mãe.” Como se alguém pudesse ser feliz com a própria mãe! Dela não senti raiva. Apesar de eu ter acreditado que existiria uma amizade entre nós, que ela traria para minha vida cores fortes, gargalhadas, essas coisas, não fiquei decepcionada. Não sei, não consigo ter raiva de mulher. A última lembrança que tenho, antes de uma paz estranha ter tomado conta de mim, é do momento em que entendi tudo, quando a peça final se encaixou, macia como um estojo de veludo que se fecha, com um estalo abafado, elegante. Quando isso aconteceu, então apareceu do nada na minha cabeça uma seqüência de números, 25013026. Eu precisava repetir baxinho, sem parar: dois cinco zero um três zero dois meia. Ou dois zero três meia? Ou dois meia três zero? De repente toda minha aflição estava naqueles quatro últimos algarismos que não conseguiam se fixar em lugar nenhum, como se estivessem escritos sobre água. E Hugo ainda me atrapalhava, dizia coisas que eu não conseguia ouvir _ e chorava! Hugo chorando! Para fugir de mais esse constrangimento, peguei logo o telefone e arrisquei 2501 3620. Não era. Tentei as outras combinações (todas não, são milhares ou milhões). De repente, ele gritou e tentou tirar o telefone de mim _ não entendi. Por que tirar o telefone de mim? Segurei-o com mais força ainda e me concentrei nas teclas, meus olhos chegavam a doer de tanto que eu queria enxergar bem aquelas teclas e manter cada uma no seu lugar, e não ameaçando se mexer, como estavam. Finalmente disquei 2501 3026. Atendeu uma mulher que disse “JB Táxi, boa tarde”. Eu sorri, juro, de verdade, com alegria sincera. Disse o número lá de casa, disse que pagaria em dinheiro, disse que não sabia ainda para onde queria ir, mas que até chegar lá descobriria. E desliguei sorrindo, já em paz. E fui saindo, ainda sorrindo. Hugo ainda falava e eu continuava a não entender o que ele dizia. E não enxergava direito também, nem respirava direito, estava tudo estreito, concentrado num ponto só, que latejava no ar à minha frente. Eu devia sair e seguir esse ponto à minha frente, até o táxi que estaria esperando lá embaixo em cinco minutos. De repente me vi já na rua, sem ter passado pelas escadas, nem pela sala, nem pela porta. O motorista perguntou meu nome, eu disse, hein? e


fui entrando. Pra onde? ele perguntou. 2. Eu deveria ter uma tia pelo menos, uma tia sozinha que morasse em Copacabana, na Dias da Rocha, num apartamento barulhento que não tivesse recebido um móvel novo desde os anos setenta. Que tivesse um prato de guardar bolo com uma tampa de plástico furadinha, com os buraquinhos irremediavelmente encardidos. Que tivesse uma empregada de idade indefinida chamada Penha, que ganhasse muito pouco, que fosse ríspida com ela e que não agüentasse mais trabalhar naquela casa, mas que não tivesse paciência de procurar outra melhor porque não existe outra melhor. Mas eu não tenho essa tia, portanto não tinha o que fazer em Copacabana. Então tive uma inspiração e mandei: Tijuca. Onde não conheço ninguém e ninguém me conhece. Onde na Tijuca? o motorista quis saber. Sei lá por que me pulou um nome na cabeça: rua Doutor Satamini. E na rua Doutor Satamini posso dizer que tive um golpe de sorte como há muito tempo não tinha. Estávamos andando devagar pelo lado direito, eu fingindo que procurava um número, quando de repente olhei para o primeiro andar de um prédio e vi a placa ALUGA-SE. Precisei esperar três dias num hotel quase vazio em Laranjeiras _ eu, que sempre odiei hotéis e amei casas. Mas setenta e duas horas depois daquela viagem de táxi, eu estava sentada no chão da sala do meu apartamento novo. O barulho lá fora era constante e me envolvia, materno. Não sei como não pensei nisso antes: as pessoas deviam sempre morar onde há pessoas. Nada de mato ou do som exasperante do mar: pessoas. E elevadores velhos que dão um tranco cada vez que são obrigados a se mexer. Mães que ameaçam enfiar a mão nos filhos, porteiros desbocados, radinhos, padeiros que chegam às cinco da manhã freando suas bicicletas, e carros, muitos carros de gente irritada, garotos e garotas que estudam à noite e que conversam no elevador como se estivessem sozinhos. Como é que eu pude viver longe disso por tanto tempo? Não dormi aquela noite, sentada no chão, hipnotizada pelo barulho. Meu apartamento não tinha um só móvel, o que me deixava feliz porque então eu teria muito o que fazer no dia seguinte. Saí bem cedo para tomar café na padaria. Um servente com tamancos de madeira jogava água no chão do corredor enquanto contava um crime ao porteiro. Antigamente vendiam tamancos de madeira na mercearia, os pares ficavam pendurados em arames no teto. Dei bom dia aos dois. Disse que tinha alugado o duzentos e um. A noite em claro, o estômago vazio, o fato de tão rápido já ter uma casa só minha, tudo isso tinha me deixado eufórica. Disse sem precisar pensar duas vezes que me chamava Judite. O nome veio de um filme que vi quando era pequena e que me matou de medo, continuação de A Mosca


da Cabeça Branca. Judite era a louca que vivia trancada num quarto secreto, escondida de todos. Tinha o rosto deformado por uma queimadura terrível e saía de madrugada, meio engessada em seu velhíssimo robe de matelassê, matando gente, tirando sangue das pessoas. Eu não queria ser óbvia, foi só um nome que surgiu, já que essa infância da qual nunca me livro está sempre voltando, como um refluxo ácido do estômago. Quanto mais eu ando para frente, mais colada nos meus calcanhares ela vem. 3. Só liguei o celular de novo no terceiro ou quarto dia. Já devia ser perto do fim de semana. Judite já tinha feito até um começo de amizade no prédio, com Marcele, do quatrocentos e doze, quase uma menina, morando com o marido e dois filhos num apartamento de um quarto, como o meu. A caixa-postal tinha vinte e três recados e apaguei todos sem ouvir. Existe uma espécie de glória em estar no centro de um sofrimento, um prazer como o de ter um bebê sagrado na barriga, não sei explicar. No centro do sofrimento eu já não sofria, nem tinha raiva. Era como o círculo de céu azul no olho do furacão. Resolvi chamar Inês para tomar um café no fim da tarde. Ela chegou assustada à loja onde marquei, num shopping da Praça Saens Peña. Era bom vê-la confusa uma vez na vida. _ Por que neste lugar? É perigoso voltar daqui mais tarde. Onde é que você andou esses dias? Eu liguei mil vezes! Como é que você está? Respondi que estava melhor e morando na Tijuca. _ Como morando na Tijuca?! Por quê? Com quem? Não havia dúvida de que ela estava preocupada comigo. Hugo tinha contado tudo. Ela me disse que ele andava muito aflito desde que eu tinha ido embora. Que chegou a pensar em ligar para a polícia, mas que ela o convenceu de que eu devia estar segura, que se alguma coisa ruim tivesse acontecido eles teriam logo notícias, etc. Eu a fiz parar neste ponto, não queria saber mais dele, nem que ele soubesse de mim. E mandei o único recado possível, que ele não me procurasse em hipótese alguma. Também a fiz jurar que não contaria a ninguém onde eu estava. Falei sobre uma era que se encerrava, etc. Eu sabia que ela não levava a sério minha mudança de endereço, achava secundário, encarava como sintoma de algo pior. Não me preocupei com isso e ainda pedi que alugasse o consultório para mim, com tudo dentro. Nunca tinha dado certo mesmo, agora, além de tudo, era longe demais para mim. Receber algum dinheiro todo mês também seria bom, não pretendia viver das minhas economias para sempre. Ela não concordou logo. Disse que compreendia que eu tivesse reações extremadas porque estava ferida demais, mas que eu tentasse não me isolar, que o


isolamento seria pior. Mas eu não estou ferida, pensei. É outra coisa, não é ferida. Fui arrastada por uma ventania para um lugar muito longe de onde sempre estive. Se eu me cortei ou me arranhei não é importante, o importante é descobrir onde é que eu fui parar. 4. Acho que emagreci. Meu rosto, pelo menos, emagreceu. Minhas sobrancelhas, que sempre me reconfortavam quando eu as encontrava no espelho porque me davam um ar honesto, desceram um pouco, e entre elas e os olhos agora havia uma sombra nova. Inês quis me encontrar de novo para trazer minhas roupas, mas eu pedi que ela desse tudo a Elza. Não queria mais aquelas camisetas brancas, nem as pretas, nem as calças de linho, nem aquelas sandálias pesadas que tinham custado duzentos euros e pareciam custar vinte. Nem as coisinhas com retalhos, com bordados, com crochê, aquele ar largado-caro de Frida Khalo fazendo trekking. Essa é uma língua falada por poucos, só os iniciados num raio de cinco quilômetros em direção a Botafogo e mais cinco em direção ao Leblon podem entendê-la. Eu queria roupas que tivessem sido cortadas e costuradas aos milhares, com pressa, que custassem sempre em torno de cinqüenta reais. Queria também, e esse era o ponto realmente ambicioso do meu plano, ter o cabelo ruivo e comprido. Eu andava mesmo com muita sorte, porque arranjei trabalho sem querer. Marcele ia precisar deixar o emprego na sapataria do tio, a creche dos filhos estava cara demais e não compensava trabalhar. O tio de Marcele devia ter uns setenta anos, o rosto pendurado como o de um bassethound. Tinha uns fios duros de barba rala espetados bem em cima do pomo de Adão que me davam aflição de olhar. Perguntou se eu tinha experiência no comércio. Eu disse a verdade, que tinha uma graduação em História da Arte e uma formação em massagem feita em Bruxelas. Depois de um instante ele perguntou de novo a mesma coisa e eu disse que sim, podia-se dizer que sim, eu tinha certeza de que daria uma boa vendedora. Comecei na segunda-feira seguinte. Ganharia seiscentos reais, sem comissão. Peguei adiantado uma sandália de plataforma. As calças novas eram incrivelmente desconfortáveis, de um jeans muito duro, ainda cheirando a tinta, e tinham umas tachinhas aplicadas no quadril. Mudavam meu jeito de andar e de me abaixar também. Para que eu ficasse de joelhos no carpete na frente dos clientes era preciso descer até um certo ponto e depois me jogar. Nessa altura da minha vida eu não deveria gostar tanto de me ajoelhar diante dos outros, mas ainda gostava. Cada par de pés diante de mim queria me ensinar alguma coisa. Eu não tinha nojo, tinha curiosidade e respeito. E quando aparecia alguém usando aquelas meias baratas, bem finas, que depois de duas lavagens


alargam no cano, eu sentia uma ternura tão grande me engolfando que precisava respirar fundo para não chorar. Os pés às vezes eram quentes e secos, às vezes frios e úmidos. Raramente quentes e úmidos. Não se pode dizer, só de olhar para a pessoa, de que tipo os pés dela são. O cheiro não me incomodava. Uma menina de dezoito anos chamada Bruna trabalhava comigo e me olhava como se eu fosse louca quando eu dizia isto. Bruna preferia mil vezes aspirar o carpete, arrumar o estoque, até limpar o banheiro, do que ficar com a cara enfiada nos pés dos outros o dia inteiro. Seu sonho era sair dali e trabalhar com telemarketing, sentada, conversando, conhecendo gente legal pelo telefone. Uma amiga dela tinha feito amizade com um velho assim, estava com ele até hoje, ele pagava quase tudo pra ela. Bruna tinha um cabelo muito comprido, estranho, ondulado no alto da cabeça e liso a partir das orelhas. Quis saber quanto tempo tinha demorado para ficar daquele tamanho. Ela riu muito. “Não dá pra notar? Então é por que ficou bom, ainda bem. É megahair, se você quiser eu te levo no salão que eu fiz.” Vinte e quatro horas mais tarde eu tinha cabelos ruivos que batiam no meio das minhas costas. Elza apareceu de surpresa uns dias depois, logo depois de eu ter chegado da sapataria; entendi que Inês, apesar de trabalhar com segredos dos outros, era incapaz de guardar o meu. Eu não estava com a menor vontade de conversar, mas ela não parecia disposta a ir embora. _ Você não me perguntou nada, mas eu vou dizer mesmo assim _ ela começou, zangada. Tentei não ouvir, indo para a cozinha. _ Isso que você fez não existe! _ ela gritou. Uma mulher não sai de casa por causa de outra! A casa é sua, o marido é seu! Enquanto ela gritava, abri e fechei armários e cantarolei bem alto a primeira música que me veio à cabeça: ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir... tenho muito pra contar... dizer que aprendi... Ela não desistiu e apareceu na porta, muito séria. Meu cabelo ficou bonito, não ficou? perguntei. _ E o Fred? Nem dele você sente falta? Seu Hugo não gosta de cachorro, vai acabar dando um fim nele. Engasguei com a lembrança de Fred. Talvez fosse bom tê-lo ali comigo no apartamento. Mas esta sensação imediatamente se desfez numa espécie de náusea. Disse a ela que não queria cuidar de nada por um longo tempo. Se ele morasse comigo ia acabar morrendo de fome.


_ Seu Hugo me pediu pra te avisar que ele botou dinheiro na sua conta. Disse que vai continuar botando todo mês. Isso eu nem respondi. Elza já tem uma certa idade, eu não iria agredi-la pedindo que dissesse a ele para enfiar o dinheiro no cu. Peguei meio pacote de biscoitos, pus na mão dela, fiz com que jurasse não dizer onde eu estava, pedi para sair porque eu estava cansada e ela foi.

5. Algum tempo mais tarde conheci um homem chamado Cassius, com U e S, que acabou sendo a causa de minha demissão da sapataria. Tinha chegado numa noite, minutos antes da loja fechar. Parecia muito, muito cansado. Vinha com uma mulher baixinha, de saia curta de babados e pernas musculosas, e uma adolescente de nariz entupido e cara estúpida. As duas suspiravam de impaciência o tempo todo enquanto ele procurava sapatos marrons para trabalhar. Mas Cassius se apaixonou timidamente por um par de mocassins beges, de camurça. E ousou revelar isso baixinho, quase que se desculpando; foi o que bastou para que as duas começassem um massacre, repetindo “Bege! Bege!”, com uma ironia raivosa que foi me fazendo perder a cabeça. Cassius tentava explicar que há muito tempo queria ter mocassins claros, mesmo que não fossem o que tinham vindo comprar, mas isso só as deixava mais agitadas e ferozes. Agüentei o quanto pude até que explodi e perguntei quem é que iria pagar a porcaria do sapato. Eram elas? E quem iria usar? Aliás, quem pagava os sapatos delas? Pedi por favor para deixarem o homem escolher a droga do sapato em paz. A garota se escondeu atrás da mulher, que abria e fechava a boca sem conseguir dizer nada, até que saiu, batendo a porta e dizendo que voltaria no dia seguinte para falar com meu chefe. “Volte”, eu disse, “volte sim” e tranquei a porta. Cassius não levou sapato algum e não teve coragem de olhar para mim durante toda a discussão. No dia seguinte, no entanto, quem voltou foi ele. A primeira coisa que perguntou foi se eu era casada. Porque uma mulher casada geralmente não falava daquele jeito que eu tinha falado, não tinha aquela simpatia por um homem. Talvez, não sei. Mas gostei de dizer que nunca tinha sido casada na vida. Ele perguntou se eu não queria sair depois do trabalho, eu respondi que não podia. “Você tem alguém?” ele quis saber, eu disse que tinha, pensando no meu apartamento, no meu colchão, na cafeteira, coisas que juntas tinham uma densidade de pedra para mim naquele momento. Eu tenho alguém sim. Talvez ele não tenha acreditado muito, porque deixou um cartãozinho comigo, caso eu mudasse de idéia: Toldos Bomtempo - Cassius Amaral representante de vendas – pabx 3324 0900.


Naquela mesma noite, voltando do trabalho, fiz uma descoberta que iria mudar minha vida dali para frente. Descobri a filial Tijuca da Batata Inglesa. Uma batata custa seis reais e é bem grande (elas vêm sempre do mesmo tamanho, não sei como). É servida assada, com a casca, e vem aberta no meio, dentro de uma caixinha de papelão. Há vários recheios: requeijão, queijo ralado, carne moída, manteiga (ou uma coisa que eles chamam de manteiga) temperada com salsinha, até estrogonofe. Ora, eu ia passar no supermercado para comprar mais um pacote de biscoitos para jantar (eu não tinha panelas nem facas em casa), quando passei pela porta da loja, bem na hora em que a atendente despejava uma colher de molho à bolonhesa em cima de uma batata fumegante, antes de cobrir tudo com queijo ralado e entregá-la a uma mulher. Cheguei mais perto, não conseguia parar de olhar aquilo - acho até que incomodei a mulher que comia. Era perfeito. Eu não precisava de mais nada, uma daquelas a cada refeição seria mais do que suficiente. Passei a almoçar e jantar lá todos os dias. Eram doze recheios, de forma que eu podia comer um por dia, no almoço e no jantar, de segunda a sábado, sem repetir nenhum. Na semana seguinte eu mudaria a ordem, para ter sempre uma impressão de variedade. As moças que serviam no balcão usavam luvas plásticas e os cabelos presos numa touca engomada presa a uma rede. Os cabelos eram sempre fartos demais e chegavam a deformar as redes, criando volumes desajeitados atrás da nuca. Meu cabelo agora também não se acomodaria obedientemente numa rede. Quanto menos dinheiro você tem, mais rebelde o seu cabelo. Talvez porque eu as observasse demais, elas fingiam não me reconhecer, apesar de me verem duas vezes por dia, todos os dias. Com o tempo, comecei a reparar que havia uma grande vantagem em comer apenas um alimento: meu corpo começou a ficar mais puro, concentrado. Eu pensava menos e com mais ordem. Prestava uma atenção maior às coisas. O excesso de informação que vem de uma alimentação caótica causa uma espécie de ruído dentro da pessoa, como um rádio mal sintonizado. Agora eu me entendia com mais clareza. Na rua também, me enganava menos com os outros. Olhava para a cara das pessoas que cruzavam comigo e podia vê-las sem a minha interferência, olhar como se não fosse com o meu olhar. Não posso descrever a tranqüilidade que isso traz. Por exemplo, aquela desconfiança que se aprende desde cedo a ter dos estranhos. Aquilo se baseia no fato de não termos como saber o que vai na cabeça de cada um, mas quando se sabe _ não tudo, claro, mas o essencial, se eles oferecem perigo ou não _ a rua é sua, o mundo é seu. Meu primeiro teste foi à uma hora da manhã, com um homem que estava sozinho no ponto de ônibus. Estava com as costas apoiadas no vidro pichado, usava uma jaqueta com capuz e olhou para mim com um ar malévolo, quando viu que eu andava em sua direção. Normalmente eu nunca chegaria perto dele; se precisasse pegar o ônibus ali, ficaria bem antes do abrigo, de pé debaixo da luz do poste, o pescoço latejando de medo. Mas me sentei bem perto, no único banco que não tinha sido arrancado. Tirei uma lata de guaraná da bolsa, estiquei os braços tranqüilamente na direção do homem e abri a lata. O refrigerante


estava quente e tinha vindo balançando pelo caminho, então espirrou para todos os lados e molhou os pés dele. O homem pulou para o lado, surpreso, e resmungou alguma coisa. Eu levantei as sobrancelhas e o olhei bem dentro dos olhos para me comunicar com a pessoa que ele era, independente do tempo e do lugar, a pessoa que sempre foi e sempre seria; depois virei as costas tranqüilamente e comecei a tomar meu guaraná. Continuei de costas para ele por uns bons quinze minutos, até que um ônibus finalmente parou e ele subiu, depois de me lançar um olhar de ódio. De novo: normalmente eu teria medo, até armado o sujeito podia estar, mas como é que vou explicar? O medo é uma promessa que raramente se cumpre, se você for pensar bem. 6. Cassius voltou a me procurar na sapataria. Sei o que ele queria: ter um caso regular. Depois de ter visto a família dele, era óbvio que seria esta a salvação, não por que ele precisasse amar ou ser amado, mas porque comendo alguém à tarde, uma vez por semana ou a cada quinze dias, ele se sentiria menos humilhado e suportaria melhor a mulher e a filha. Nada disso ele me disse, talvez nem mesmo pensasse ainda, mas eu já sabia, e aceitei para ajudá-lo. Mantive os encontros por uns dois meses. Ele foi mudando de semana para semana, ficando visivelmente menos infeliz e mais confiante. Íamos sempre a uma pizzaria na Praça Saens Peña – eu não comia, claro, já tinha comido minha batata. Ele falava muito sobre a concorrente, Toldos Machado, que oferecia pagamento dividido em vinte e quatro parcelas, mas que não trabalhava com um material da mesma qualidade da Bom Tempo, que podia parcelar em no máximo seis. Eu não podia imaginar como o mundo é duro, ele dizia, e como se joga baixo neste ramo dos toldos. E que vantagem tem em passar dois anos pagando por uma coisa? Dá tempo daquela coisa sujar, quebrar e ainda se está pagando. Eu assentia, bebia água, fazia perguntas sobre limpeza e conservação, para não deixar a conversa morrer. Cassius me olhava feliz e desconcertado, nunca tinha encontrado uma mulher tão interessada em seu trabalho. Neste meio-tempo eu perdi o meu. O tio de Marcele me dispensou sem maiores explicações, mas Bruna me disse que era porque eu demorava demais no almoço e tinha me metido com um freguês. Como ele ficou sabendo disso eu não sei. Talvez a mulher de Cassius tivesse mesmo voltado, afinal. Eu já tinha me acostumado a achar seiscentos reais muito, iriam me fazer falta. Não contei a Cassius da demissão, não queria que ele se sentisse culpado. Mas precisava resolver o que faria dali para frente. Tentava pensar nisso num final de tarde, enquanto ele cochilava. Chovia fino pela fresta da janela, mas não fazia frio. Uma bala tinha entrado e se alojado perto do teto do quarto, alguns dias antes. Não a vi entrar, simplesmente cheguei em casa voltando da Batata Inglesa


e encontrei aquilo. Ao menos os vidros estavam abertos, senão teria sido uma sujeira e uma fortuna para consertar tudo. Se bem que talvez a despesa não fosse minha e sim do proprietário, num caso desses era preciso pesquisar. O barulho lá fora, milagrosamente, não era pesado como costumava ser àquela hora. Às seis horas da tarde, geralmente o apartamento vibrava junto com o trânsito, talvez aquele dia fosse feriado. Eu devia aproveitar a calma e o silêncio para pensar no futuro e em dinheiro. Havia uma música vindo do rádio do porteiro lá embaixo, mas eu não podia distinguir qual era e gostava disso; às vezes gosto de entender sons errados, frases erradas. Fechei os olhos só um pouco, não pretendia dormir. Mas ao invés do futuro, por um instante estive deitada de novo numa cama pequena de solteiro, de cabeceira cor de creme, onde lençóis velhos de flores miúdas se revezavam ao longo das semanas, com um cheiro de pano limpo que me acalmava como poucas coisas no mundo. Cassius acordou sozinho e eu também abri os olhos. Tinha um despertador interno que não o deixava passar das seis horas da tarde longe de casa. Achei que devia fazer um carinho nas costas dele, que estavam frias e um pouco repugnantes. _ Você tem uma mão macia... Deixei escapar que tinha sido massagista, já me arrependendo a cada palavra. Ele me olhou surpreso. “Massagista como?” Eu disse que tinha tido um consultório, há muito tempo atrás. Ele riu aliviado, já começando a se vestir. _ Que susto, massagista para mim eu penso logo em outra coisa. Eu ia responder qualquer besteira, mas de repente um nome pulou sozinho do fundo da minha cabeça. Ernesto. Ernesto, a quem só vi uma vez na vida e que também pensava logo em outra coisa quando ouvia falar em massagista. Cassius me agarrou e beijou meu pescoço dizendo que já estava com saudade. Eu me desvencilhei logo e fui levando-o até a porta. Uma euforia sem motivo tomou conta de mim depois que ele saiu. Mas por quê? O que é que eu devia fazer e não sabia? Então, trancando a porta, na volta da chave, de repente entendi qual seria o próximo passo. Minha missão com Cassius estava terminada. Agora eu devia ligar para Inês, para dizer que parasse de procurar inquilino para o consultório. 7. Antes me certifiquei com o porteiro do prédio de que Hugo não aparecia há algum tempo. Em junho ele tinha passado três vezes, em julho uma, e agora, nos primeiros dias de agosto, ainda nenhuma. Devia saber que eu estava alugando e tinha desistido de me procurar por lá. Alguns meses de consultório fechado não tinham feito diferença. Nem ao menos havia poeira porque as


janelas, como expliquei antes, tinham uma vedação perfeita. Havia apenas duas baratas mortas num canto e um leve cheiro de água podre vindo do ralo do banheirinho, nada que um pouco de desinfetante não resolvesse. Li os classificados com atenção, sentada em cima da mesa de massagem. Acabei me decidindo por copiar o anúncio de uma tal Letícia: “madura, tudo em cima, mãos de fada, realiza todas as fantasias.” (De quem? Dela, do cliente, todas as fantasias que existem no mundo? A redação não era boa, eu sei, mas a comunicação, nestes casos, é misteriosa, acontece justamente fora da gramática, ou da concordância, ou da regência, sei lá.) Recebi o primeiro telefonema logo cedo no dia seguinte; horas depois abri a porta para um homem magro, de jeans e camiseta, com cara de jornalista ou músico. De qualquer modo, o oposto do executivo que eu esperava ver dando uma escapada do escritório na hora do almoço. Só abrindo a porta me dei conta de como seria fácil puxar um canivete e me matar ali dentro _ eu nem sequer faria barulho, sei disso, sou daquelas que perde a voz com qualquer susto. Mas ele não puxou canivete nenhum. Ganhei cento e cinqüenta reais antes do almoço sem me cansar um décimo do que me cansaria se tivesse feito uma massagem nele. Acabei aquele dia um pouco lenta, física e mentalmente, mas parecia que eu e aquela sala finalmente tínhamos encontrado uma vocação. Infelizmente, não era bem assim e a semana seguinte me mostrou isto. Pouca gente me ligava. Tentei outros textos para o anúncio; mas como competir com Vanessa _ marquinha de biquíni, loura natural, 18a., corpo alucinante _ sem contar uma mentira que seria desmascarada meia-hora depois? Ao longo daquela semana só apareceram oito homens, era bem pouco. E eu não gostava muito daquilo, a verdade era essa. No máximo servia como um exercício de sair do corpo, existe até um nome pra isso, uma técnica, mas eu fazia intuitivamente. Um dos clientes _ o mais velho dos oito, claro _ chegou a reclamar, disse que eu não ajudava muito, que minha alma, minha cabeça não estavam ali. Alma? Cabeça? Achei que ele era maluco e dei um desconto de trinta reais. Não estou sempre atrás de sexo; é ele às vezes quem me pega, geralmente de surpresa, me leva para algum lugar que não conheço e me devolve no fim, intacta. (Dificilmente vivo a excitação de antecipá-lo. Por exemplo, andar numa tarde de sol pelo fim do Leblon, depois de ter comprado uma revista, sentar e tomar um café enquanto leio essa revista; passar uma manhã na Leroy-Merlin comprando pequenos e estranhos objetos que a maioria das pessoas nem sabe que existem e que vão resolver problemas em casa para os quais parecia não haver solução no mundo _ isso sim, é uma excitação que vale a pena antecipar.) E havia ainda o anúncio, que precisava sair no mínimo uma vez por semana e que custava caro, no final não compensava. Deixei passar o fim de semana e na segunda-feira, quando me preparava para deixar o consultório, levando as poucas coisas que eu tinha ali, a campainha


tocou, sem que ninguém tivesse telefonado antes. Achei que era o porteiro, fui abrir e dei de cara com Cláudio, o sócio de Hugo. Tinha esquecido que ele existia e não gostei de ter de me lembrar. Fiquei um pouco perdida parada na porta e ele logo esclareceu que estava ali porque um conhecido tinha estado durante a semana comigo; os dois conversaram, esse conhecido deu o endereço, ele achou que podia ser, mas não pôde acreditar, depois foi checar e viu que era mesmo meu consultório. Depois da explicação, ficamos algum tempo em silêncio, eu ainda sem coragem de perguntar exatamente o que ele tinha ido fazer ali, ele com um sorrisinho no rosto de que eu não gostava nem um pouco. “E então?”, ele perguntou. “E então nada”, respondi, já com a chave na mão. “Mais cinco minutos e você já não me pegava aqui, estou fechando a sala hoje. Vou alugar.” O sorrisinho continuou lá, enquanto ele dizia que não acreditava. Aquilo foi me irritando. Disse a ele que pouco me importava se ele acreditava ou não e que o fato de estar cobrando para trepar não me fazia aceitar automaticamente qualquer pessoa. Não trabalhava com advogados, por exemplo. Ele riu muito, mas logo ficou sério. “Pensa bem”, ele disse. “Pensa. Depois de tudo que te aconteceu, esse pode ser o dia mais feliz da sua vida.” O problema é que eu não quero pensar em tudo que me aconteceu, eu respondi, já tentando forçar a passagem para fora. Mas ele se plantou ali na porta e me empurrou para dentro. Tropecei e caí de costas, por cima da estante onde guardava os vidros de óleo e os cremes. Ele ficou sem jeito e me estendeu a mão para que eu levantasse. Só que eu, a essa altura, estava com as costas machucadas e cega de raiva e enfiei o pé no peito dele, com toda força. Ele foi bater na parede, os olhos arregalados. Os cachinhos de cabelo grudados na testa suada me viravam o estômago. “Filha da puta, eu queria te ajudar!” “Filha da puta é você, seu escroto!”, gritei. Levantei sozinha, louca para que ele aproveitasse o fato de estar do lado da porta para ir logo embora. “Eu pensei que você quisesse se vingar dele”, ele continuou, com um tom de voz magoado. “Você sabia que ele está morando com ela, na casa onde você morou? Eles viajaram ontem para Nova Iorque, para o mesmo hotel onde ele sempre ficava com você.” Peguei a primeira coisa pesada que vi pela frente, uma pirâmide de vidro que graças a Deus não pegou nele, porque deixou um buraco do tamanho de uma moeda de vinte e cinco centavos no reboco da parede. Dessa vez ele saiu. De repente a porta estava aberta e parecia que ele nunca tinha estado lá nem dito aquelas coisas. E eu estava no chão, a estante derrubada, meus vidros espalhados, pequenas manchas de óleo se juntando numa mancha maior que avançava lenta sobre o tapete. Naquela noite, não sei, me deu preguiça de sair e ver mais gente do que já tinha visto. Jantei meia batata com estrogonofe que tinha sobrado da véspera. Algumas horas mais tarde acordei com batidas na porta do quarto. Estava completamente escuro. Ouvi uma voz indefinida do lado de fora chamar “mãe?”. Era claramente “mãe” e claramente comigo. Abri a porta do quarto, mas não era ninguém. Não consegui mais dormir até de manhã.


8. Cassius foi me procurar depois que fiquei dez dias sem falar com ele. Conversamos no hall e não tive nenhum problema em dizer que não podia mais vê-lo. Como é bom ser convincente, e como você fica convincente quando sabe que está fazendo um bem para alguém. Ele tentou insistir, cortei. Disse a verdade: nosso tempo juntos tinha acabado e ele estava proibido de me perguntar por que. “Mas por quê?” ele perguntou (era um verdadeiro ignorante). “Não tem por que e vamos parar com essa mania de achar que tudo precisa ter um por quê! Por que não tem importância nenhuma, pelo contrário; geralmente é a pergunta mais inútil que você pode fazer sobre uma situação. E faz muita diferença sim, pagar um toldo em vinte e quatro vezes! Mesmo que quebre, mesmo que estrague! É melhor do que pagar tudo adiantado e quebrar depois, não é? O que é que faz você se sentir mais idiota?” Dessa vez ou ele entendeu ou desistiu, porque foi se afastando até o elevador sem dizer nada. 9. Fazia quatro meses que eu tinha saído da casa do Jardim Botânico. Às vezes era obrigada a olhar o calendário para ter certeza, porque parecia muito mais tempo. A obra da Light na esquina já tinha acabado e a Net estava levantando tapumes perto da igreja presbiteriana no quarteirão de trás, o que era uma pena, porque eu adorava passar na frente daquela igreja. Acho que as igrejas protestantes são sempre de pedra. A do Jardim Botânico era, uma outra no Largo do Machado também. Deve ser porque eles sabem o efeito que as construções de pedra têm sobre as pessoas que se sentem desamparadas. A pedra é quente, tem uma vida menos escandalosa que os animais e os vegetais, mas tem sua vida. A igreja era guardada por um portão sempre fechado com cadeado. Havia um jardim na frente, com dois canteiros em forma de feijão, sempre muito bem tratados, o que chegava a ser chocante em meio à desordem da rua. Mas não sei por que falei disso. Eu odeio, com toda força, o número quatro. Nasci num dia quatro, então conheço-o intimamente, desde bem pequena; não sei como ninguém percebe o quanto ele é dissimulado, o quanto se faz de coitadinho, doentinho, e põe a culpa de tudo nos outros. Nove meses sim, seria um tempo bonito, o nove é elegante e misterioso. Inês me ouvia calada. Tinha aparecido sem avisar. Ela não é de fazer isto, sempre achou uma grosseria. Não sorriu quando abri a porta, não quis a água que ofereci, não aceitou almoçar comigo na Batata Inglesa. Perguntou que história era aquela do porteiro me chamar de Judite, eu desconversei. E agora me ouvia, calada e impaciente, falar das pedras e dos números. Quando acabei,


perguntou se eu não queria cortar o cabelo, o megahair estava esquisito, dava pra ver as emendas do cabelo bem no meio do comprimento. Não ligo pras emendas, as emendas são o de menos. Precisa chegar muito perto pra ver, quase ninguém chega tão perto assim dos outros. Ela entrou na cozinha sem pedir, depois no banheiro e depois no quarto. Na volta respirou fundo e disse que a casa estava cheirando mal. Então me segurou pelos braços como nunca tinha feito antes _ Inês também não é muito de tocar os outros. Olhou nos meus olhos, disse que eu precisava sair dali. Nunca, adoro a rua Doutor Satamini. “Então limpa essa casa! Olha pra você! Você vai sair comigo agora, vamos arrumar esse cabelo, fazer as unhas... e essas roupas, isso passou do limite há muito tempo!” Esse negócio de manicure me toca muito. Quando eu era pequena, fazer as unhas toda semana era o que separava as meninas das mulheres. Só por isso deixei que ela me levasse. Inês escolheu um cabeleireiro na Gávea, no alto da rua Jequitibá, perto do convento onde eu ia às vezes com minha mãe comprar biscoitos. A Gávea então era longe, um passeio de tarde inteira para quem morava em Copacabana e não tinha carro. Meu braço ficava esticado enquanto ela me puxava pela escadinha de cerâmica vermelha que ia do portão até a casa. Para precisar ter sido içada daquela maneira, eu devia ter uns três, quatro anos de idade, no máximo. Ainda tenho a sensação de ter a mão dentro da mão dela, os olhos na altura de seus quadris. Minha mãe forte, decidida, cabelos ainda escuros, me arrastando sempre que ia à costureira, à manicure, ou ao convento comprar biscoitos. Inês agora me puxava pela mão até o banquinho da manicure, no fundo do salão. Pintei as unhas de vinho. Depois ela falou muito tempo baixinho, tentando me convencer de que meu cabelo cresceria rápido, mas não deixei que ela mandasse tirar o megahair. Aparar um pouco até podia ser, mas tirar tudo, me deixar de cabelo na altura dos ombros, não. “Mas isso é cabelo morto, cabelo de outra pessoa, é horrível!” E quem disse que a gente não pode ter cabelo de outra pessoa? Nunca tinha pensado nisso, mas a idéia é bonita, é como receber o coração de alguém, ou adotar um filho. Não deixei mesmo e ela reagiu amuada como uma criancinha. Apenas dei um retoque na tintura e hidratei. Ela me deixou em casa mais tarde, mas avisou que voltaria. Disse que não ia me deixar ficar sozinha me alimentado de batatas e seus olhos ficaram vermelhos. Mas eu não estou sozinha, respondi, eu tenho vivido tanta coisa, cada coisa... 10. Meu irmão Torquato. Estava tão acostumada a não pensar nele. A lembrar do menino que estudou comigo na mesma sala da Escola São Sebastião (porque estava sempre um ano atrasado) como uma pessoa totalmente distinta do pobre homem que ele se tornou. Tanto que nunca atribuí a Hugo nosso afastamento. Como ele não


suportava Torquato, posso dizer que ele apenas facilitou o que eu não teria força para fazer sozinha: ir deixando nossa relação se esgarçar até não existir mais. Porque os irmãos, vamos encarar, são pessoas que só fazem sentido na infância. Torquato ficou com a única coisa (além daquela armação de óculos de que já falei) que meu pai deixou para nós, uma loja térrea em Laranjeiras. Com a falta de visão de meu pai, é claro que a loja, na época em que ele a comprou, já ficava numa rua fraca para o comércio; com o tempo e a construção de um viaduto na frente, passou a ser um desses lugares que parecem existir porque ninguém se lembra de acabar com eles. Torquato, depois de tentar uma papelaria e uma lojinha de brinquedos (a única loja de brinquedos triste do mundo, Hugo dizia), resolveu desistir de tudo e fez do lugar o que ele chamava de um antiquário, mas que era na verdade um brechó mal arrumado e escuro. Desci de um táxi na frente da loja sem letreiro. Minha garganta começou a coçar assim que entrei. Avancei por um labirinto de móveis e bibelôs empoeirados, tentando não encostar em nada, evitando principalmente uma fileira de copos altos de uísque de cristal furta-cor, colocada absurdamente perto da borda de uma mesa. Torquato estava sentado no fundo da loja e só levantou os olhos do jornal quando sentiu que eu caminhava em sua direção. Parecia mais largo e pesado, especialmente no rosto. O cabelo farto tinha recuado um pouco dos lados da testa. Ele parecia se proteger atrás do jornal e saiu logo perguntando se era algum problema com o IPTU. E o que é que eu podia ter a ver com o IPTU daquela loja? Torquato resmungou que nunca se sabe, a prefeitura andava atrás dele, podiam ter me procurado. Não, não era nada da prefeitura. Disse logo que queria a coleção das revistas Seleções da minha mãe. Expliquei que tinha andado pensando nela recentemente. Ele não tinha a menor idéia de se estavam ou não com ele, e me mandou procurar numa estante cheia de revistas e livros empilhados. Minha garganta a esta altura coçava mais e ameaçava se fechar de uma vez, por isso tentei ser rápida e não respirar fundo. Passei por “Álgebra para a terceira série”, “Mensagens dos Espíritos”, “O Prazer de Bordar” , até encontrar doze pequenos volumes encadernados e amarrados com barbante um mínimo de organização ele tinha. Só minha mãe, no mundo inteiro, mandou encadernar as revistas de que gostava. Meu pai gostava de provocá-la dizendo que o dinheiro da encadernação era investimento, que um dia as revistas iriam valer uma fortuna. A coleção toda agora custava trinta e cinco reais. Perguntei se precisava pagar, já que, de certa forma, aquilo era meu. Torquato resmungou, estalou a língua. Ele vivia daquilo, etc., o que eram trinta e cinco reais para mim, que era casada com um cara rico? Não contei sobre a separação, mas lembrei que tinha aberto mão da minha parte na loja em favor dele - aqueles livros, sinto muito, eu merecia. Ele me propôs pagar vinte e cinco, eu levantei a voz para dizer que não queria pagar nada, mas ele fez sinal para que eu me calasse porque alguém havia entrado na loja. Vi que ele observava com atenção uma garota baixinha, de cabelo laranja, saia kilt bem curta e botinas pretas pesadas. Como era de se esperar, ela foi direto para a arara de roupas. Enquanto olhava cabide


por cabide, a mochila em suas costas passava a milímetros dos copos furta-cor. Eu tive o impulso de avisá-la, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Torquato me segurou pelo pulso. Seus olhos me imploravam para não falar. Não entendi logo, e ele juntou as mãos numa súplica irritada. O que veio depois foi o barulho do cristal se espatifando no chão, o susto da menina, um palavrão, Torquato arrastando a cadeira para se levantar. A garota se desculpava, muito sem-jeito, ele parecia sentido e simpático, mas explicava que não podia ficar no prejuízo, cada copo custava sete, vezes seis, quarenta e dois. Para provar que não mentia, mostrou um caco com uma pequena etiqueta ainda colada. Meu rosto ardia. Arranquei quatro notas da carteira e as enfiei amassadas na mão dele (“claro, você vive disso!”), antes de sair abraçada com as revistas. Nem olhei para trás. O certo seria andar furiosa por um, dois quarteirões, depois ir diminuindo o passo e pensar que afinal era o único irmão que me sobrava, a única pessoa viva no mundo que me conheceu criança, e que isto deve ter algum valor. O certo seria voltar sem dizer nada, dar um beijo no rosto dele, um beijo de perdão, de quem talvez não fosse vê-lo nunca mais, só para que as coisas não ficassem para sempre tão mal interrompidas naquele ponto, para que a última lembrança dele não corresse o risco de ser aquela. O certo seria isso. 11. Uma folha de persiana que a brisa fecha lentamente numa tarde de sol. Uma folha de persiana que o vento do inverno faz bater várias vezes contra a parede. Mas minha casa não tinha persianas de madeira e sim esquadrias de alumínio, e nada lá fora me interessava agora. A coleção de revistas aberta em cima do colchão era o único ponto quente e pulsante no mundo naquele momento: A esperada floração das cerejeiras – você sabia que os japoneses atribuíam a cada árvore uma alma? O ponto mais profundo do Pacífico, as Fossas Marianas – que formas de vida podemos esperar encontrar ali? Gelatina de três cores, receita simples para encantar as crianças. Silêncio, correção, capricho: ela usa Olivetti. A ligação caiu? Pode ter sido uma explosão solar! Canapés rápidos e drinques inventivos para o verão. Reconhecendo a idade de um carvalho. Casos incríveis dos bombeiros de New Hampshire. O perigo no fundo do copo. Mistério no gelo. Rir é o melhor remédio. Caninos: por que os temos? Todas as cores da Aurora Boreal. O celular tocava e eu não tinha notado. Atendi sem tirar os olhos da revista, o que foi um grande, um enorme erro. Antes da voz falar veio uma respiração muito funda. “É você?” Sim, era eu _ e era Hugo do outro lado, tarde demais. Precisava muito falar comigo. Por quê? perguntei. “Porque eu estava lá, e só pensava em você. Eu estava lá, na hora em que aconteceu, estava indo a pé, faltava um quarteirão, eu vi tudo. E só pensava em você.” Que tudo? Que quarteirão, estava onde? Por um instante achei que ele tinha ligado para mim por engano. “Como que tudo?” ele gritou. “Você não viu o que aconteceu? O mundo acabou! Jogaram dois aviões no World Trade Center!


Dois aviões, caiu tudo, como é que você não viu?” Duas horas depois disso eu estava sentada diante de uma vodca pura. Uma das poucas bebidas que ficam melhores em casa do que na rua. Uma vodca no congelador da geladeira é sempre mais espessa e tem um sabor melhor do que uma vodca pura na rua, que vem quase sempre aguada. Engraçado como certos momentos que a gente cerca de fantasia acabam acontecendo numa brecha do cotidiano, sem nenhuma grandiosidade, nem para o bem nem para o mal. Hugo estava do outro lado da mesa, como já tinha estado milhões de outras vezes. Os olhos estavam vermelhos e o cabelo mal cortado, pela primeira vez na vida, acho. Acreditava que tinha escapado de morrer e não conseguia parar de falar nisso. Sou sôfrega. Todos lá em casa éramos assim. Comer, comemos devagar, mas beber qualquer coisa com calma é impossível. Pedi outra vodca e só então me senti bem. Hugo disse que gostou do meu cabelo, que eu estava diferente, mas logo voltou a falar do quanto estava aturdido, do barulho, da poeira, dos gritos, do fim de um mundo, do fim de um tempo, da sensação de nada ser sólido, nada ser seguro... A terceira vodca me enjoou. Tive um refluxo ruim, misturado com raiva. Quer saber de uma coisa? Sinceramente, caguei pro World Trade Center. Caguei muito. Levantei, peguei a bolsa e avisei que voltaria para casa. Ele tirou o dinheiro da carteira e largou-o sobre a mesa, disse que me levaria. Disparei pela rua. Subimos em silêncio no elevador do edifício-garagem. Eu não conseguia raciocinar direito com aquela nuvem de álcool presa na minha cabeça. Vi que ele me observava com o canto do olho, um pouco assustado. Eu devia parecer mais bêbada do que estava, porque ele me segurou pelo braço e me acomodou no banco do carro. Pôs a mão na chave, mas não deu logo a partida, tentava recuperar o fôlego. A tarde lá fora estava muito clara, o ar estranhamente limpo para o centro da cidade. Retângulos de luz azul vazavam pelos vãos do concreto e faziam doer os olhos. Depois de algum tempo, ele perguntou se eu não queria mesmo dizer mais alguma coisa; talvez eu quisesse, mas meus dentes ainda estavam cerrados de raiva. Então ele começou a falar docemente, como se eu fosse uma criança com febre ou um bicho fugido da jaula. Perguntou se eu achava mesmo que poderíamos viver sem jamais conversar sobre aquilo. Eu tenho vivido, você não tem vivido? É claro que nós podemos. Conversar não tinha importância alguma. Nenhuma palavra iria jamais mudar o que tinha acontecido, ou amenizar, ou fazer desaparecer. Tempo e silêncio, não há outro jeito. Ele disse que eu estava enganada. _ Não te interessa saber que eu nunca quis esse filho? Que a gente já não se via quando eu soube? _ Mas estava em Nova Iorque agora com ela.


Ele levou um susto, quem te disse que ela foi comigo? Me arrependi imediatamente de ter falado, também não tinha importância, ele podia ir para onde quisesse, com quem quisesse, eu só queria voltar para casa. Mas ele continuou, estava infeliz, sua vida tinha se tornado de ponta a ponta uma obrigação amarga. O prazer, a leveza, tinham ido embora comigo. Nessa hora eu ri. Mas reparei que meu rosto estava molhado, devia ter chorado um pouco sem perceber e me senti aliviada, a nuvem de álcool finalmente começava a evaporar. Fiquei olhando pela janela do carro parado uma nesga enegrecida de morro, os prédios comerciais tão próximos uns dos outros, e dei graças a Deus de nunca ter trabalhado no centro da cidade. Então senti o beijo dele no meu pescoço. Veio junto com uma espécie de sono, não valia a pena empurrá-lo nem lutar contra aquilo, também não importava. Veio outro beijo, mais longo. Não deviam ser mais que três horas da tarde. Então ele virou meu rosto e me beijou na boca. Lembro de ter pensado que estava ganhando experiência, acumulando história e outras coisas idiotas. Ele segurou minha cabeça, agora com as duas mãos, e me beijou de novo; depois me puxou por cima da alavanca de mudança. Enrolou meu cabelo na mão e o puxou para trás, como sempre gostou de fazer, mordeu meu ombro, e posso dizer que dessa vez preferi fechar os olhos e descansar. 12. Voltei para casa dois dias depois. Estava viva de um jeito diferente, como se estivesse inchada por dentro, infiltrada por um brilho que eu não podia controlar. Lutava com toda força de que era capaz para não perder a realidade que eu construíra com tanta dificuldade nos últimos meses. Tínhamos nos despedido com as duas mãos dadas, eu pedindo muito a sério, mas sem conseguir deixar de sorrir, que não nos víssemos mais. Ele também riu e prometeu, mas sabia que já tinha cravado o anzol em mim. E eu sabia que voltaria a viver daquela falta, aberta agora como uma rosa em cima do meu peito. Senti fome, não de batatas. Resolvi fazer o jantar. Escolhi Sopa de Ervilhas com Toucinho, da revista de outubro de 63. Fui ao supermercado correndo, comprei tudo o que era preciso, inclusive uma panela, cozinhei por umas três horas _ não era uma panela de pressão _ , lendo várias vezes cada linha da receita. A casa se encheu de fumaça engordurada, pela primeira vez desde que eu tinha ido morar ali, quando joguei os pedaços de bacon na panela quente. Também pela primeira vez, abri a mesinha dobrável da cozinha e comi quase tudo sozinha. Hugo não cumpriu a promessa. Três dias depois me ligou da rua. _ Que negócio é esse de Judite? Não gosto desse nome. Deixei uma coisa para você na portaria.


Desci para ver. Fred estava preso numa coleira novinha, vermelha, amarrada ao pé da mesa do porteiro. Estava sentado quieto, parecia muito limpo e obediente. Abanou o rabo quando me viu, mas não se levantou. Ajoelhei-me para falar com ele. Então o calor da língua dele passando pela minha mão – não sei explicar, estremeci. Reconheci que todo aquele tempo faltara aquilo, que a terra rachasse por um segundo e me tragasse, me deixasse tocar o núcleo de onde emana a vida - a dele, a minha, a do homem que consertava o elevador naquela hora, a de Hugo, a do sabiá do porteiro, a do tomateiro que o vigia plantou nos fundos da garagem. Toda vida sendo uma só e vindo do mesmo lugar, as diferentes formas não servindo para nada além de distrair os olhos dos que têm olhos e fazer refletir os que podem refletir. Folhas, bactérias, lagartixas, viralatas, gatos, suor, sujeira. 13. Não existia mais nada agora entre a vida e a minha pele. Começava a esquentar de verdade, à tarde meu quarto fervia. Eu exagerava as coisas me esticando na cama bem na hora em que o sol batia mais forte. Pálpebras fechadas, os cílios batendo leves e o sol fazendo a poeira dançar em volta. A poeira é bruta e permanece sempre a mesma, não muda, não conhece o tempo, assim como cada átomo seu, que está só de passagem em você e já esteve em lugares que você nem imagina. Mas isso não é novidade, está escrito na porta do cemitério. Esbarrei com a ponta do pé em Fred, deitado ao lado da cama. Na revista de junho de 66 há uma suposta história da domesticação dos animais. Os homens ainda vivem em cavernas ou em ocos no tronco de enormes árvores. As noites são negras. Os lobos são seus inimigos, como de resto a maioria dos animais. Comem crianças, velhos, gente fraca, trazem tanto perigo como leões, tigres, hienas e sei lá mais o quê. Um dia (ok, não foi “um dia”) antes de se recolher, alguns homens jogam fora restos imprestáveis de comida. E, para seu espanto, a matilha de lobos que ronda a caverna se contenta com aquelas sobras. Os animais se deitam ali por perto para roer seus ossos em paz. Melhor ainda: para preservar aqueles que lhes deram a comida, põem para correr as hienas, os tigres e o que mais tentar se aproximar da caverna dos pobres bípedes pelados. Não leva muito tempo para que os humanos entendam que se alimentarem os lobos serão protegidos por eles. Não leva muito tempo, portanto, para surgir a fidelidade da parte deles e a gratidão da nossa - ou vice-versa, tanto faz. Hugo ligou naquela noite querendo saber se eu tinha gostado da surpresa. Fez uma verdadeira declaração de amor ao cachorro. Falou de como tinha descoberto a companhia dele, como tinha me entendido melhor _ aqui rimos, claro _, de como a presença dele ao mesmo o fazia sentir saudade de mim e amenizava a saudade de mim. Era tão bom, que resolvi desligar, antes que


ficasse insuportável. Desci para passear com Fred e quando o porteiro foi atrás de mim pela rua com a conta de luz chamando “Dona Judite!”, esqueci de me virar e responder. 14. Minha luta, mais do que nunca, era para tentar continuar a viver como se nada estivesse acontecendo. Era para não sentar, encostar, sorrir e pensar “acabou”. Para não deixar correr uma lágrima de alívio e achar que finalmente tinha virado uma página negra. Não podia ser negra. Não era justo deixar de gostar do que eu tinha vivido aqueles meses. Dei uma folga para as balconistas da Batata Inglesa, que devem ter pensado que morri. Para não romper meus laços com a Tijuca, fiz questão de procurar outro emprego por ali. Conversando com Inês, ela acabou me indicando um psiquiatra no Grajaú que precisava de uma recepcionista. Não sei se ela sabia que Hugo e eu andávamos nos vendo às vezes. Achei melhor que não soubesse, ainda era vizinha dele, devia ver coisas naquela casa que eu não fazia questão de saber. Comecei no consultório do doutor Nelson Ataliba três dias depois. Enfrentava sempre um trânsito estúpido para chegar, o que me fazia sair mais cedo de casa e deixar Fred mais tempo sozinho. Hugo tinha perguntado se eu não queria que ele voltasse para a casa do Jardim Botânico, havia mais espaço, gente para cuidar, etc. Respondi que sentiria muita saudade e ele respondeu que a idéia era esta mesmo. Eu andava tão alegre que na primeira semana de trabalho um paciente do doutor Nelson, do nada, me deu um batom de presente. De resto, eu podia até ler e ouvir música enquanto ele estava em consulta. Aproveitei para pensar bem na história de Fred voltar para a casa. Mesmo que não quisesse tirar conclusões, isto me empurrava para uma: Hugo estava morando sozinho. Eu poderia confirmar em um segundo com Inês; poderia, mas não tinha certeza de que queria, precisava manter o nível de esperança (o doutor Nelson e Inês diriam expectativa) o mais baixo possível. Isso me dava um prazer físico, uma vibraçãozinha surda alguns dedos abaixo do umbigo. O doutor Nelson Ataliba era um homem gordo, de pele bem morena, quase completamente careca. Fumava um maço e meio de Marlboro por dia e tinha acessos de tosse horrorosos, que monitorava com abreugrafias anuais. Uma tarde me pediu para pegar o resultado de uma, num hospital de Botafogo. Chovia, era o auge da hora do rush, eu não precisaria mais voltar naquele dia. Ele me deu o canhoto do laboratório e o dinheiro do táxi, mas não passava nenhum vazio àquela hora. Quase sem querer, teclei no celular 25013026. Havia um ponto do JB táxi ali perto - havia pontos pela cidade toda, apesar de se chamar JB táxi. Era difícil que houvesse algum disponível, mas não custava


tentar. Depois de quarenta minutos debaixo de uma marquise, o carro apareceu. Conseguimos cruzar os dois túneis com muita dificuldade. Saímos na Lagoa e retornamos para Botafogo, o que demorou mais uma eternidade. O motorista, ainda bem, não queria conversar, o único barulho eram as batidas dos limpadores de pára-brisa. Eram seis horas da tarde. Sempre detestei seis horas da tarde e sempre detestei Botafogo, mas estava de bom-humor. Os carros não se moviam na rua estreita, o sinal abria e fechava apenas para colorir as gotas no vidro. Então o rádio do carro fez bip e uma voz de mulher falou do outro lado “PA quinze, PA quinze... senhor Hugo, Rua Inglês de Souza 43, Jardim Botânico... destino Clínica Perinatal de Laranjeiras, de imediato, recebe?... Senhor Hugo, Rua Inglês de Souza 43, destino Clínica Perinatal de Laranjeiras, de imediato.” O motorista pegou o fone e disse que não podia; algum outro deve ter se encarregado de ir, porque o rádio voltou a ficar em silêncio. Meu coração desapareceu de dentro de mim. Na calçada alguém abaixou com um estrondo a porta de ferro de um botequim.


A primeira faísca do sol que sobe

1. Não sei se o colocaram de propósito no meio da cama de casal, mas tive que me ajoelhar no tapete para vê-lo de perto. Era o final da tarde, uma claridade doce e arroxeada entrava no quarto. Ele estava acordado, quieto, a cabeça virada na direção da janela. Tinha uma das mãos quase toda enfiada na boca. As sobrancelhas eram transparentes, as orelhas nacaradas. Hugo sussurrou atrás de mim que mais tarde a cor dos olhos escureceria. Antes que eu pudesse me defender daquilo, senti o impulso de cheirá-lo de leve no alto da cabeça, no meio do redemoinho de cabelos castanhos. Já tinha ouvido muita gente contar do momento de ver um filho pela primeira vez. Em todos os casos havia um detalhe que marcava o ponto exato em que o contato tinha sido estabelecido para sempre. Uma sentiu isto quando viu o pé direito do bebê, um pé estranho, magro, de dedos separados. Outra, ao reconhecer na coxa do recém-nascido as coxas de toda sua família. Outra só conseguiu alguns dias depois, ao acariciar a base das costas da filha em seu colo, tentando fazê-la dormir. Raramente acontecia através do olhar, os olhos dos bebês em geral continuam como abismos por algumas semanas. E ali eu me vi entorpecida, presa para sempre na espiral que subia daqueles cabelos para o meu nariz, com cheiro de pão, de pedras ao sol, de água. Gostaria de dizer que demorou, que foi difícil e doloroso, mas em menos de dois meses Guilherme era completamente meu e eu conhecia


uma dimensão do amor completamente nova. No mês seguinte ao nascimento, Hugo e eu tínhamos conversado todos os dias por telefone, por iniciativa dele. Foi o tempo que levou para eu ter vontade de conhecer Guilherme. Liliane tinha desaparecido no terceiro dia de hospital e se ele tivesse sequer tentado me convencer a ver o bebê desde o início acho que eu teria mudado de cidade. Quando resolvi vê-lo foi com uma disposição fria, curiosa. Hugo já estava decidido a criá-lo sozinho, triplicando o salário de Elza. Fui ingênua de imaginar que teria várias opções depois daquele encontro. Um sujeito que vai sozinho com seu cachorro à pracinha sabe do que estou falando. 2. O cartão de Madri foi o primeiro a chegar. A data era sete meses depois do nascimento. Liliane dizia que estava bem, que tinha emagrecido – como se alguém quisesse saber – e que estava morando em Figueira da Foz com uns parentes do pai, trabalhando como gerente de um restaurante. Por que motivo o cartão era de Madri e não de Figueira da Foz, não sei. Talvez tivesse ido passar um fim de semana lá. Perguntava o nome do filho. Aquele cartão nos custou várias noites de discussão. Hugo queria responder, eu não, não queria que ela soubesse o nome. Ele acabou me convencendo de que o melhor que podíamos fazer era tratá-la com cordialidade. Não valia a pena hostilizá-la porque ela era a mãe e independente do que tivesse feito, a lei estaria sempre inclinada a perdoála. E havia uma infinidade de alegações que ela poderia fazer se quisesse o filho de volta. Insanidade temporária, depressão pós-parto, falta de condições materiais para criá-lo, qualquer golpe baixo desses – eu fechava os olhos e podia ver uma juíza enxugando uma lágrima com a ponta da toga enquanto colocava o bebê nos braços dela. Supervisionei a resposta que Hugo escreveu para o endereço que ela deu em Portugal: “Ele se chama Guilherme. Um abraço, Hugo”. Para nossa surpresa e alívio, a resposta voltou com um carimbo de destinatário não encontrado. O segundo cartão veio de Ibiza - óbvio. Mandava beijos, apenas. Desejei mudar de casa, para que ela não nos encontrasse mais, mas ele me convenceu de que era bobagem. Se as coisas continuassem daquele jeito – ele calculou uma média de um cartão-postal a cada três meses - estávamos bem. Pelo que conhecia dela (e eu precisava muito esquecer a dor de imaginar o quanto ele a conhecia), ela jamais voltaria. Devia estar atrás de um homem rico, com toda certeza iria ficar pela Europa, onde a oferta era maior. Houve outros, de Nápoles (este francamente deprimido), de Atenas, de Nice, Genebra. Depois, um hiato de um ano, quando acreditei e desejei de todo coração que ela tivesse morrido num acidente de lancha, algo assim. Uma fatalidade que envolvesse as forças da natureza e não a maldade dos homens – o tipo de morte que aceito quase com


satisfação. Até que uma tarde, chegando com Guilherme da pracinha, atendi a um telefonema estranho. Um sujeito com um inglês duro dizia que tinha algo para nós e que deixaria na recepção do Hotel Luxor, na Avenida Atlântica. Hugo achou a situação suspeita e mandou Iara, a nova estagiária do escritório, buscar a encomenda. Era um cd num envelope pardo, sem etiqueta. Minha mão tremia quando o enfiei no drive do computador. Quer executar este arquivo com o Windows Media Player? Minha vontade era gritar não, não quero! Mas o filme começou a passar sozinho. Mostrava várias pessoas, a maioria usando bermudas e chapéus, andando por um caminho pedregoso e ensolarado. Uma escarpa de pedra subia do lado esquerdo; do lado direito a descida era longa e muito íngreme, terminando numa pequena praia de mar azul-turquesa. O lugar era tão alto que era possível ver a curvatura do horizonte. Quem tinha gravado aquilo também estava andando no meio das pessoas, a câmera tremia muito. Uma zoom desajeitada tentou por alguns segundos enquadrar um vulto imóvel fora de foco. Quando finalmente a imagem ganhou nitidez, um pássaro preto acabava de lavantar vôo de cima de um bebedor de pedra, ao som de um palavrão em inglês. A lente então se voltou outra vez para a paisagem, passando rapidamente por uma placa onde estava escrito toilets. Mais um pouco do mar, que tinha grandes manchas de azul mais escuro à medida que se afastava da praia; depois outra placa, em forma de seta e presa a um poste, em contra-luz, e finalmente um grupo de rapazes abraçados, o da ponta levantando uma lata de cerveja. Tudo não durou mais do que três minutos. De certa forma, fiquei aliviada. Esperava ver alguma coisa aterrorizante, não sei por quê. Hugo reviu o filme várias vezes, tentando inutilmente ler o que estava escrito na última placa. Então lembrou-se de fechar o arquivo e ver que nome tinham dado a ele: capepoint. Procuramos pelo computador e descobrimos que Cape Point é o ponto mais extremo do Cabo da Boa Esperança, que por sua vez é o ponto mais meridional de toda a África. É um parque nacional que compreende um imenso platô, escarpas e praias cobertas de vegetação agreste, da qual a Protea é a florsímbolo – linda, como uma bromélia, mas mais carnuda e exuberante, com uma aparência pré-histórica. Vimos o filme mais duas vezes. Só então consegui enxergar. Estava logo no começo. Não tínhamos reparado antes porque a câmera apontava para o mar. À esquerda, descendo as escadas de pedra na contra-mão do fluxo de turistas, ela passava, amparando alguém bem mais velho e protegido por um chapéu de abas largas. Não durava mais do que dois segundos. Na verdade, reconheci mais o cabelo do que o rosto. Não há muita gente ruiva daquele jeito. Engraçado depois de tanto tempo ela não ter mudado nem a cor nem o corte. Outros três cartões que chegaram depois disso eram de Lisboa, Sevilha e Lisboa de novo. Neste último, de poucos meses atrás, ela dizia que queria muito, o muito em letras maiúsculas, vir para o quarto aniversário de Guilherme.


3. Desde o dia em que este último cartão tinha ido para a caixa de madeira junto com os outros, passei a acordar de manhã e, não sei, era como se tudo que eu via, ouvia e pensava não ultrapassasse o nível da pele, nada ganhava profundidade. Como se uma comporta interna tivesse sido fechada por um dispositivo de emergência. (Inês explicou que este é mais ou menos o mesmo efeito que se consegue com Prozac). No Japão, acho, há uma ilha assim. Cercada por um único e altíssimo dique, esperando a volta do tsunami que já a varreu do mapa uma vez. Eu estava de pé diante do espelho do armário, segurando dois colares porque queria usar algo mais do que a roupa. Fazia questão exibir bem claramente aquela atenção com os detalhes que mostra aos outros que a pessoa está realmente bem. Inês estava comigo. “Cristal ou pérolas?” “Se você pretende ficar parecida com sua avó, pérolas, claro.” “O problema é que eu já sou parecida com minha avó, pretendendo ou não, um dia te mostro uma foto da papada que ela tinha aos quarenta anos.” “Besteira, isso se tira fácil”, ela respondeu, “fica uma cicatriz fina no pescoço, mas você já disse que cicatriza bem.” Ludmila e os filhos já estavam lá embaixo. Rafael e Vitória praticamente não falavam quando estavam fora de casa, só conversavam um pouco entre si e com a mãe. E como na presença de Hugo Ludmila sempre preferiu conversar com ele, os dois ficariam em silêncio todo o tempo. Nem ao menos ririam, como as outras crianças, ao ver Fred, que tinha ficado cego e agora dormia o dia todo, estremecendo e ganindo em sonhos intermináveis. Encontrei Hugo na cozinha com a irmã e os sobrinhos, arrumando as bebidas no gelo. Guilherme estava no colo de Elza assistindo à movimentação, os olhos enormes e quietos meio escondidos atrás do copo de plástico que segurava com as duas mãos. Pelo ar culpado com que Elza me olhou, tenho certeza de que havia coca-cola naquele copo, mas eu não conseguiria dar importância a isto num dia como aquele. A carrocinha da comida chegou em seguida e chamei Inês para provar comigo o que iriam servir. Sentamos as duas na grama, ao lado de um prato de coxinhas, rissoles, mini-pizzas, mini-hambúrgueres e mini cachorros-quentes. Não havia um fiapo de nuvem no céu. Às três horas ela telefonou e disse que estava no Rio com o marido. Eu mal conseguia respirar enquanto Hugo falava com ela no viva-voz. _ Vocês vão fazer alguma coisa, uma festinha? Claro, né? O Lacerda quer muito conhecer o Guilherme. O Lacerda já tem netos adultos, mas é louco por criança! Depois até queria te pedir uma ajuda com um problema, a filha dele. Contei pra


ele que você trabalha com essas coisas, família. E Hugo... eu sei que você não vai fazer isso, mas por favor não comenta a história toda em detalhes. Eu disse que morei com você até o bebê ter seis meses. Ou um ano, não lembro mais. Melhor dizer que foi um ano, se ele perguntar, mas acho que não vai. O Lacerda é meio cerimonioso. (Na noite daquele dia apareceu uma lua imensa e amarela no céu. Acompanhei toda a sua trajetória pela diagonal da janela em frente à cama. De madrugada, um morcego ameaçou entrar e pude distinguir o negro aveludado de suas asas na fração de segundo que durou a curva que fez dentro do quarto. Em outra época eu teria acordado a casa inteira com meus gritos. Hugo ressonava depois de um dormonid e meio.) Ela apareceu sem o marido, trazendo um coelhinho de borracha que teria sido um presente razoável um ano antes. Conversou com Elza, cumprimentou-a pela comida que ela não fez e no final pediu que embrulhasse uns doces para o Lacerda. Falou também rapidamente com Inês, vi de longe. Vi de longe também uma conversa surpreendentemente longa com meu irmão Torquato, que, até onde eu sei, ela não conhecia. De Guilherme ela chegou perto uma vez, com nervosismo visível. Sorriu, segurou o queixo dele e ofereceu o anular com o solitário pra que ele brincasse: você já viu o arco-íris? Tem as cores do arco-íris aí dentro do meu anel. Disse a ela que Guilherme nunca tinha visto um arco-íris. Liliane não tinha engordado, mas estava com os quadris mais largos. Pela primeira vez senti um bolo de raiva na garganta ao imaginar que ela realmente o tinha parido. Usava uma blusa creme e uma saia preta, mas o jeito como as pernas saíam daquela saia, não sei, alguma coisa ali me lembrava carne crua. Tentou ficar sozinha comigo uma vez, quando escapei para o escritório para respirar no ar-condiconado, mas percebi a tempo de sair pela outra porta. Mais tarde conseguiu nos encurralar, Hugo e eu, no corredor, um copo de uísque na mão. Precisávamos conversar os três, ela disse. Estava muito expansiva, teria nos dado um abraço se deixássemos. Notei que a pele do rosto estava ligeiramente mais frouxa, embora de longe não desse para perceber. Precisava nos falar da gratidão que sentia. Lacerda tinha feito com que ela enxergasse. Ele era um homem bom, apesar da história dos dois ter começado complicada. Era pai de um amiga sua, amiguinha de infância, da época em que a família de Lacerda tinha morado no Brasil, logo depois da revolução. Adolescente, ela começou a perceber que ele gostava dela de um jeito especial, diferente dos pais das outras amiguinhas, e, claro, jamais tinha contado a ninguém. Um dia, quando tinha quinze anos, depois de um almoço de domingo em Angra, de repente ficaram sozinhos na sala e ele a tinha beijado. Foi o beijo mais importante de sua vida, ela nos contou, mastigando uma pedrinha de gelo. Ela de vestido curto depois da praia, as pernas nuas coladas nas calças compridas dele, o rosto entre suas mãos. Como explicar o que havia sentido? O beijo não foi muito adiante. Quer dizer, avançou um pouco, primeiro numa rede da sala,


depois na sauna desta casa de Angra, enquanto a mulher dele e o resto da família aproveitavam a tarde para ler e cochilar, mas ela não tinha certeza do quanto, porque era virgem até então e nunca conseguiu entender se tinha realmente deixado de ser naquele dia ou não. Mas o que ela queria que compreendêssemos – e que a filha dele se recusava a compreender! - é que havia uma predestinação nela estar justamente com aquele homem agora, depois de tantos anos sem sequer saber dele. Era o ponto para o qual tinha caminhado a vida inteira. Só por isso tinha resolvido finalmente procurar Guilherme, antes não teria sentido. Hugo conseguiu falar depois de uma eternidade de silêncio. _ O que é que você quer dizer exatamente com “procurar Guilherme”? Então ela largou o copo no parapeito e pôs uma mão no meu ombro, outra no ombro dele. Estava com os olhos vermelhos. _ Exatamente, não sei ainda. Como é que eu posso saber? Mas não vou agüentar ficar longe dele de novo, isso não mesmo. Aquela noite acabou e eu ainda não tinha dormido. Vi o efeito do dormonid terminar na hora prevista e Hugo cumprir o ritual automático de sempre, sem olhar para mim ou me dizer uma palavra: pés no tapete, banheiro, camisa, cinto, gravata, até que o segurei pelo braço e disse "e aí?" Ele não respondeu . Então me abraçou com força e prometeu que não deixaria que nada de mal nos acontecesse. Que largaria os outros casos do escritório se fosse preciso, mas que dedicaria todo tempo e toda energia que tinha a impedir que ela tirasse Guilherme de nós. 4. Nossa casa virou uma espécie de bunker. Hugo preferia fazer as reuniões ali, para não perturbar a rotina do escritório. Éramos quatro: ele, Iara, que tinha sido promovida, Celso, o novo estagiário, e eu. É claro que não cabia a nós fazer nada enquanto ela não se manifestasse, mas queríamos antecipar cada movimento seu. Não era difícil, Hugo era conhecido, tinha muitos contatos. No momento em que ela pegasse um telefone para marcar a primeira entrevista com qualquer outro advogado de família no Rio, nós saberíamos. Era importante também juntar o máximo possível de informações sobre sua vida, para a hipótese de termos de provar a um juiz que ela não tinha condições de cuidar de uma criança. Também não seria difícil, Liliane saía muito de casa, ainda mais agora que tinha dinheiro. Deveria haver sempre alguém por perto, registrando um porre, um vexame, com sorte um descumprimento da lei, um pequeno crime! Iara e Celso cuidariam disso, já que ela não conhecia nenhum dos dois. Iara tinha estado na festa de aniversário, mas todos concordamos que seria


impossível que Liliane lembrasse dela. Nós nos encontraríamos toda quarta-feira à noite para o relatório dos progressos da semana e também extraordinariamente, se fosse preciso. O fato de estarmos fazendo alguma coisa concreta teve um efeito ótimo sobre mim. Passei a encarar minha rotina com outra disposição, voltei a nadar no clube e a dormir cedo como um recruta exausto. Se o que estivesse em jogo fosse menos importante, eu me crisparia diante da simples idéia de ter que conhecer o dia a dia daquela mulher. Mas não havia um modo de fazer aquilo pela metade, então eu enfiava os braços até os cotovelos com entusiasmo. No primeiro mês ela foi a três jantares em casas de pessoas, quatro festas em lugares públicos, muitos restaurantes. Lacerda só ia quando eram jantares, às festas ela ia sozinha ou com amigos. Celso conseguiu penetrar em uma delas, a do Círculo dos Decoradores. Para nossa sorte, a festa devia ser chata; Liliane encostou no balcão do bar e praticamente não saiu mais. Não deu nenhum grande vexame, mas tomou quatro gim-tônicas. Há uns vinte anos atrás, nada de errado, mas agora, era alguma coisa. Ainda por cima porque ela saíra da festa dirigindo, se isso não é irresponsabilidade, o que é? Celso tinha uma seqüência de fotos no celular que Hugo lhe comprara. A melhor de todas mostrava-a meio debruçada sobre o balcão, segurando o crachá do bartender, possivelmente para ler melhor o nome escrito. Talvez por me imaginar em superioridade, tive um momento de simpatia por ela – consegui incluí-la na história da lagartixa, do passarinho e do vigia do prédio da Tijuca, naquela consciência aguda de que, para além de tudo, éramos uma coisa só. Por que então ela precisava me ameaçar, me obrigar a atacá-la? Por que não esquecia de nós e voltava para Europa para morrer no tal acidente de lancha? No Cipriani, com mais um casal, ela teve uma discussão áspera com Lacerda. Depois, os dois passaram quase a noite toda calados, mas ela praticamente não bebeu. Na Capricciosa Lacerda não foi, e ela parecia muito alegre, dividiu três garrafas de vinho com quatro amigos e acabou a noite com a cabeça no ombro de um deles. A situação continuou assim por mais ou menos dois meses. Tínhamos nos tornado uma espécie de sociedade secreta de voyeurs. Celso admitiu que estava viciado e disse que tinha dispensado uma quase namorada para não perder suas noites atrás de Liliane. O melhor de tudo é que, até aquele momento, ela não havia feito coisa alguma no sentido de concretizar nosso maior medo. As reuniões passaram a ser francamente divertidas e não demorou para que virassem jantares. Nas semanas seguintes, Liliane foi ao motel Escort, em São Conrado, com o ex-professor do grupo de estudo de filosofia, tínhamos fotos do carro com os dois na portaria, mas não nos serviriam de muita coisa. Fez um peeling. Arranjou uma confusão na Armani do Fashion Mall, infelizmente não roubando, o que seria o ideal, mas reclamando de um cartão de crédito rejeitado.


Aparou e retocou a tintura do cabelo sem dar gorjeta para ninguém no cabeleireiro. Passou um fm de semana com Lacerda e uma amiga em Angra. Talvez a lembrança do começo do romance não fosse tão doce assim afinal, porque no sábado ela chorou sozinha na praia, depois tratou Lacerda com muita rispidez e acabou indo dormir no apartamento de hóspedes onde a amiga estava, do lado de fora da casa, de onde as duas só saíram na tarde do dia seguinte, descabeladas e sonolentas. 5. Eu tinha conseguido finalmente fazer dois mil metros na piscina; à noite estava sonolenta demais para contar uma história a Guilherme antes dele dormir. Pedi a Elza que fizesse isto e fui preparar uma massa. Hugo e Iara estavam comigo na cozinha esperando Celso, que chegava sempre mais tarde por causa da faculdade. Iara tinha conseguido a informação mais importante desde que nossa investigação começara: os dois filhos e a filha de Lacerda tinham chegado há dias de Portugal, estavam num hotel e ainda não tinham visto o pai. Isto era um ótimo sinal. Queria dizer que estavam brigando. O casamento com Liliane, se não fosse o motivo principal, com certeza não melhorava a em nada situação. Havia coisas em jogo como um banco, várias propriedades na Europa, vinhedos, Liliane podia ser pulverizada no litígio. E sem Lacerda a seu lado, suas chances de conseguir a guarda de Guilherme seriam muito pequenas, começando pelos honorários de advogado que ela não poderia pagar. Era mesmo uma grande notícia. Joguei pimenta do reino no molho, depois um punhado de sálvia. Ouvimos o carro de Celso estacionar nos fundos. Ele sempre freava bruscamente e esperava a música acabar antes de desligar o cd player e sair. Meio sem sentir, paramos os três de falar para acompanhar a movimentação dele lá fora. Despejei o molho numa travessa. Estávamos felizes, relaxados. Hugo reagiu levemente perplexo à música que vinha do carro. _ Que estranho... ultimamente toca Dark Side of The Moon em todos os lugares onde eu vou. _ É aquele meu disco mesmo, fiz uma cópia pra ele, senão o garoto só ouve metal _ Iara respondeu meio distraída. Ora, eu pensei enquanto respirava fundo e escorria o farfalle, Iara não tem carro. Se tivesse, haveria uma possibilidade de Hugo ter ouvido no carro dela algum disco ao qual ela pudesse se referir como “aquele meu”, pressupondo que ele o conhecesse bem. Ela podia andar no carro dele, o que era razoável, mas dificilmente levaria um disco seu para ouvir. Não uma moça de vinte e poucos anos; uma menina de treze talvez levasse. Portanto “aquele meu disco” ficava na casa dela, e a casa dela era um dos lugares onde ele andava indo “ultimamente”.


O rápido olhar de censura dele para ela que vi refletido na torradeira cromada na prateleira não fez diferença porque eu já tinha certeza. Continuei de costas para os dois enquanto largava a panela na pia. Quando me virei, dei meu sorriso mais convidativo e saí com a travessa de massa para a sala. No dia seguinte fui à piscina às sete horas da manhã e quase me matei de tanto nadar. Não conseguia me entender com minha respiração, queimava toda por dentro, sentia que podia desmaiar a cada vez que batia a mão na borda. Em geral adoro ficar exausta, o cansaço físico é um prêmio. Meu professor sempre soube disso, então se acostumou a me ver sair semimorta de dentro d’água. Mas desta vez eu não queria sair. Estava ao lado da escada, quase sem respiração, quando ele pulou ao meu lado e perguntou se eu estava bem. Não consegui responder, fiquei só olhando seu rosto. Convivia com ele há mais tempo do que estava casada, juntando os dois períodos. Nos conhecíamos há anos, já tínhamos conversado sobre absolutamente tudo, falávamos das notícias da manhã, trocávamos remédios para gripe, eventualmente ele apertava meus ombros quando eu terminava a aula dolorida. Foi ele quem me levou ao hospital quando cortei o queixo nos azulejos da borda. Tentei retomar o fôlego, segurei seu braço e disse que precisava de um favor enorme. Disse que o considerava um amigo. Ele respondeu meio brincando que também me considerava uma amiga, apesar de eu ter sumido por tanto tempo sem dar nenhuma satisfação. Com a respiração ainda entrecortada, pedi que não pensasse que eu era louca e expliquei que estava com ódio do meu marido, mas que ao mesmo tempo andava morrendo de tesão, só que era péssima para resolver esse tipo de coisa sozinha, nem queria procurar um estranho. Ele me olhava com a boca entreaberta. Ele treparia comigo, como amigo? Expliquei que não precisava ser nada do outro mundo e que se ele não quisesse eu entenderia perfeitamente. Ele continuou parado. Lembrei ainda que seria um favor, que se ele precisasse de alguma coisa de mim, era só falar. Finalmente ele perguntou “quando”? Na hora do jantar seria bom, se ele não tivesse nada para fazer naquela noite. Ele sugeriu que nos encontrássemos às sete e meia num japonês, na rua do cemitério. Para mim tanto fazia, eu não iria comer mesmo. Disse a ele que não se preocupasse, que às dez horas da noite ele estaria liberado para qualquer outro compromisso. Às sete e quarenta cheguei ao japonês, ele já estava lá. Pedimos saquê e cerveja. Ele estava nervoso e entusiasmado, disse que, sinceramente, não esperava de jeito nenhum que sua quinta-feira fosse acabar daquele jeito. Eu, estranhamente, estava calmíssima. Me dei conta de que quase nunca o tinha visto seco e de roupa normal e tive medo de que isso atrapalhasse alguma coisa. Fomos de táxi para o motel (ele era casado e tinha um Gol cheio de adesivos nos vidros, fácil de ser reconhecido). No caminho fiquei pensando em quando ouvi a voz dele pela primeira vez, através de um basculante, enquanto tomava banho no vestiário do clube. Uma voz forte, cafajeste, de um tipo que não se usa mais. Eu ainda não tinha visto seu rosto e aquela voz já reverberava na minha barriga


debaixo do chuveiro. Ouvi um, dois, três dias seguidos. No quarto dia saí do banho direto para a secretaria e mudei para a aula dele como se fosse a coisa mais inocente do mundo. Acabamos ficando amigos. Ele achava graça quando me via chegar de ressaca, brincava comigo quando via um telefone escrito a caneta na palma da minha mão, gostou quando contei que tinha me casado como quem conta que tirou o apêndice, como uma coisa boa mas que tem um incômodo embutido _ como um homem fala de casamento. Sem querer me perguntei se não estaria prestes a estragar alguma coisa, mas afastei logo esta idéia. Vamos não pensar?, pensei. Vamos fechar os olhos para não ver esses espelhos horríveis e deixar o cara trabalhar, e responder, e ver no que dá? Então o beijei na boca de leve (ainda não tínhamos nos beijado) e a sorte é que soltei um gemido de alívio durante o beijo, um gemido pequeno, sincero, que foi subindo como uma espiral de fumaça dentro do quarto, se expandindo, latejando. Acho que foi nesse momento que tudo começou a funcionar. Mesmo sem eu gostar especialmente das primeiras vezes (porque é aquela coisa: não se pula de cabeça num lago onde nunca se mergulhou), mas eu só tinha aquela primeira vez, era tudo ou nada e estava ofegante, montada numa das pernas dele. Ele disse baixinho “calma”, enquanto cuspia longe a embalagem da camisinha. Eu me defendi dizendo “eu avisei, eu falei”, entre beijos, e ele respondeu “avisou, claro que avisou”, enquanto arrancava a minha calça junto com a calcinha, num só movimento cheio de destreza. Faltei às duas aulas seguintes, porque achei que era isso que ele esperava. Na terceira apareci, mas ele mal olhou para mim; mandou dar dez voltas de crawl e seis de golfinho e continuou conversando com o professor ao lado. Também era isso que eu esperava. Nem quis me secar no final. Estava saindo apressada, pisando com cuidado para não escorregar no chão molhado, quando ele apareceu perto de mim e perguntou se tinha ajudado a resolver a parada. Ajudou sim, muito, eu disse. Demais, obrigada, de verdade. Deixei uma pequena poça d’água no lugar onde estava e fui embora pensando que talvez fosse melhor mudar de horário, passar para a aula do Magno. 6. Guilherme aprendeu a se vestir sozinho. As flores nas jarras da sala se sucederam roxas, amarelas, vermelhas, brancas, sempre que lembrei de comprar flores. Do mercado vieram mangas, tangerinas, uvas, depois morangos, caquis, figos e mangas de novo, no outro verão. Éramos uma família. Consegui me acostumar com Iara, cheguei mesmo a gostar da presença dela. Não sei se isto fez diferença, mas senti que entre ela e Hugo as coisas de certa forma se acomodaram, como se fosse um segundo casamento. Estávamos numa calmaria que já durava meses, quando Liliane resolveu ligar e pedir para ver Guilherme na saída da escola. Concordamos que eu não deveria ir. Às cinco horas da tarde


deste dia me enfiei num cinema gelado para ver 007 pela segunda vez. Soube que ela ficou de longe a maior parte do tempo; quando quis se aproximar para entregar um chocolate a Guilherme, pediu licença a Hugo. Logo depois foi embora, sem dizer nada. Principalmente sem mencionar uma próxima vez. Nessa noite, quando chegou em casa, Hugo me abraçou, procurou meu pescoço. Tinha um cheiro de terno misturado com álcool. Disse que jantou sei lá com quem e que na volta, no carro, ouviu a música mais linda do mundo, Através da Vidraça, de Radamés Gnatalli, precisava conseguir esta música. Iria procurar na internet e em todas as lojas que conhecia. Hugo se entusiasmava fácil pelas coisas difíceis. Senti que não devia interromper e servi mais vinho. Era minha vez, lembrei de outra música, não entendi como tinha vivido tanto tempo sem ouvi-la: it’s gonna take a miracle. O álcool tem também este dom, faz com que se enxergue a importância do que não é importante. E Jesus, Alegria dos Homens? E Veronica? Give Me love, Caravan! Algumas tínhamos em disco e colocamos para tocar, outras não, e precisamos cantar a todo volume. Quando estávamos em Cuesta Abajo, Guilherme acordou e apareceu na porta da sala. Olhamos ao mesmo tempo para ele, o cabelo escuro despenteado, os pés macios saindo das calças largas do pijama, a sombra de um sorriso na cara de sono. Colocamos os copos de lado, ao mesmo tempo, e olhamos aquele menino. *** Cabine da Espresso, com uma blusa preta de cetim. Não é bem cetim, é menos brilhante, mas ainda assim não é para o dia. A luz branca da cabine enche os meus olhos de um espanto que eu não sabia que tinha, com aquela blusa preta. *** Enfrento um sol de doer e o trânsito de Laranjeiras porque acho que devia dar um alô para meu irmão de vez em quando. A loja continua tão escura que de fora não se tem idéia do que está lá dentro. Pode ser que nem exista mais uma loja, é preciso avançar na escuridão para ter certeza. O sol só bate na vitrine empoeirada. Sim, existe uma loja ainda lá dentro, que vende coisas usadas, não necessárimente antigas. Dificilmente antigas, aliás. Talvez a única antiguidade verdadeira seja aquela que está em destaque na vitrine, dentro de seu estojo de madeira trabalhada. A estatueta nua deitada, boca entreaberta para o vazio, olhos desenhados com um só risco cor de nanquim, aquela é com certeza uma verdadeira antiguidade chinesa, e, pegando em cheio aquele sol estúpido, vai desbotar, vai durar menos, vai virar - num piscar de olhos - mais uma velharia sem valor de meu irmão Torquato.


*** Quase dormindo. Na margem de um rio, alguém me dá a mão e me ajuda a entrar num barco de madeira, pequeno e bojudo. É noite fechada e uso uma espécie de capa branca, com mangas muito largas e um capuz que cobre meu rosto, descendo quase até a altura do queixo. Mas por baixo da capa tudo é de um negro indistinto, não se pode dizer que exista um corpo ali. Talvez exista, mas não é certo. Preocupada com a falta deste corpo, interrogo, com o que seriam meus olhos, a pessoa sentada à minha frente e que rema o barco. Ela responde que nao há problema, que eu estou cansada, mas continuo viva. Então passamos por baixo de um feixe estreito de luz azulada, que desce perpendicular de muito alto. Ali tenho coragem de abaixar meu capuz. Embaixo daquela luz sinto que tenho um rosto, um relevo, e fecho os olhos agradecida como se tivesse recebido, depois de uma eternidade, uma carícia. 7. _ Já arranjou babá, ou continua entrevistando milhares de mulheres feito uma louca? As risadas saíram de detrás de uma coluna de tijolos. Onde é que eu estou mesmo? Numa delicatessen? Supermercado? Padaria? Algum lugar que tem uma coluna larga de tijolos de demolição. Algum lugar na Zona Sul, onde mulheres como eu vão comprar alguma coisa que me fez sair de casa mas que já não tem importância. A voz que fez a pergunta eu não conheço, mas o ar pára de se mexer durante aquelas risadas. De repente me dou conta de como a cidade dói, a rua dói, e como consegui atravessar tudo ignorando essa dor até chegar a esse lugar com a coluna de tijolos. Porque a voz que respondeu eu reconheço: “encontrei, finalmente, não agüentava mais, ao menos isso”. Seguro uma coisa na mão, pode ser um pão, mas não reconheço o que é. Ela sai de trás da coluna e não me vê. Há pessoas de uniforme azul-claro em volta e uma delas tira gentilmente da minha mão o que quer que eu esteja segurando e coloca numa cesta de plástico. Acho que não era um pão afinal, era uma caixa de remédio, e que eu estava numa farmácia. Uma farmácia com colunas de tijolo, pode ser. Elza pediu as contas logo depois disso. Alguma coisa explodiu silenciosa como uma galáxia microscópica, dentro do cérebro de Hugo. 8.


Guilherme estava no meu colo, sonolento e um pouco distraído olhando as imagens da igreja. Eu passava o dedo pela testa dele de vez em quando para tirar os fiapos de franja que caíam na frente dos olhos. Ludmila tinha a cabeça baixa todo o tempo, mãos dadas com os dois filhos. No banco de trás estava Iara, os olhos muito vermelhos e o rosto inchado, e Cláudio, que agora trabalhava em Florianópolis e que tinha vindo especialmente para a missa, embora não falasse comigo, o que para mim era ótimo, se alguma coisa pudesse ser ótima agora. A igreja estava cheia de conhecidos dos quais eu não sabia os nomes. A maioria gente velha; muitos com uma chama pequena e persistente no fundo dos olhos, que eu distinguia pela primeira vez. Nenhuma mulher que me chamasse atenção ainda. Guilherme começou a ressonar, a cabeça suada apoiada no meu pescoço. O suor dele é puro, límpido como o calor que reverbera no chão de um deserto. Uma mosca varejeira verde-brilhante parou no ar a pouca distância do meu rosto. Gostaria que ela estivesse ali para me tranqüilizar, que viesse me trazer um recado de longe, de que em algum lugar estavam a meu favor, que eu podia esquecer o peso, a ameaça daqueles dias e finalmente respirar. Mas ela desistiu de me fazer entender e fugiu sem que eu pudesse ver para onde. Em algum momento, provavelmente no fim, quando o padre dissesse “vão em paz”, Liliane cruzaria o enorme portão de madeira empoeirada, deixando para trás a luz do Largo da Carioca e mergulharia na escuridão fresca da igreja. Seus saltos altos ecoariam enquanto ela avançasse pelo corredor entre os bancos, até parar diante de mim. Ela estenderia os braços e a mim não restaria nada a não ser entregar Guilherme. Ou então não, Inês, Celso e Iara me levariam para comer alguma coisa, ali mesmo no centro da cidade. Ou de volta para casa. Eu tomaria uma xícara grande de café, recostaria a cabeça na parede e fecharia os olhos sentindo o calor de vozes amigas, o som de um pequeno carro de bombeiros que avança pela sala e desvia do cachorro que dorme. Uma serra cortando madeira em alguma obra bem longe. Existe dentro de cada pessoa um riachinho, um fio d’água. Há pequenos pontos de luz também, que saem de nós como abelhas de uma colméia, e vão se cruzar no céu. E flores se abrindo dentro da minha cabeça, cachos de flores desabrochando. Não pedi na igreja para ser desprotegida, pediria agora: por favor, me desprotege.

***


Olhos Baixos