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Não largues a so A obesidade é a verdadeira "epidemia do século XXI". Crianças e adultos enfrentam os problemas de saúde provocados pelo excesso de peso. Tempo de identificar a base do problema e tentar corrigir hábitos. textos Marco Roque ESTES SÃO alguns versos da música "Con-

Larga a sopa, João, Não comas mais Não dês ouvidos às mentiras Dos teus pais Larga a sopa, João Sou eu que digo Larga a sopa que o espinafre é meu amigo.

cerca de 41 por cento". Para além disso, o facselhos de Avô", de B Fachada, que tem pasto de haver cada vez mais crianças e adultos sado nas rádios nos últimos meses. Se esta obesos "acaba por limitar a subida da curva música tenta contrariar a velhinha de esperança de vida", conclui. "Come a papa, Joana", hoje, mais O problema não é só das crianças, do que nunca, a alimentação e é geral. "Comemos muitos alio peso das crianças está em fomentos de alto valor energético co. Na semana passada, foram e temos um consumo baixo de das crianças apresenta conhecidos os primeiros resulenergia, o que nos está a levar excesso de peso em Portugal em 2007 tados de um estudo da Orgapara um destino do qual dificilnização Mundial de Saúde que mente conseguiremos sair", sublidemonstra que existem cada vez nha o nutricionista. E "os números mais crianças obesas em Portugal. indicam que os custos de obesidade rePara Sérgio Cunha Velho, médico presentam quatro por cento do PIB, nutricionista no Hospital Pedidevido às doenças que arrastam". átrico de Coimbra, a situação Quando uma criança chega a uma é "quase catastrófica". Em consulta com excesso de peso das crianças apresenta Portugal, "temos números – "na verdade estamos a falar de excesso de peso em elevados de obesidade infanPortugal em 2011 peso a mais, pois nem sempre til", revela Sérgio Cunha Velho, excesso de peso é obesidade" – o acrescentando que "o último esnutricionista tenta compreender tudo, feito há mais de quatro anos, quando começou o aumento de peso. apontava para excesso de peso em cerca "Há quatro períodos críticos: a gravidez, de 32 por cento das crianças e, neste momeno peso à nascença, o primeiro ano de vida e to, há um estudo da Sociedade Europeia de os seis anos de vida, altura em que ocorre o Obesidade que aponta uma evolução para adiposity rebound, isto é, quando o índice de

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16JuNHo 2011


1.º passo - Faça seis refeições saudáveis por dia (pequeno-almoço, lanche do meio da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e ceia). Não salte refeições. 2.º passo - Inclua diariamente seis porções do grupo dos cereais e tubérculos (como arroz, milho, pão, massa, batata) nas refeições. Dê preferência aos alimentos pouco refinados (como o pão de mistura) e aos alimentos na sua forma mais natural.

sopa, João! massa corporal bate em baixo", refere Sérgio Cunha Velho. O objetivo é descobrir o "como, quando e porquê", de modo a tratar o problema. Para além disso, é importante lembrar que a obesidade pode formar-se muito cedo, mesmo antes da criança entrar para a escola. "Muitas vezes pensa-se que a escola vai corrigir problemas de peso, mas tal não acontece. A criança chega à escola com peso a mais e vai ser marginalizada pelos colegas", refere o médico, indicando que "ela acaba por ser incompreendida por todos". As crianças "não engordam porque querem, mas sim porque as deixam engordar", sublinha. Sérgio Cunha Velho tenta incutir a responsabilidade aos pais. "Peço sempre que venha a mãe e o pai às consultas. Se eu não mexer na origem, na génese, não consigo resolver o problema". Estamos perante a necessidade de alterar a forma de pensar da família. "Tentamos, devagar, ir mudando hábitos alimentares não só na criança, mas também na família", revela Sérgio Cunha Velho. "Não serve de nada tentar convencer uma criança a fazer uma alimentação saudável, se os pais se estão a 'marimbar' para aquilo. As minhas consultas acabam por ser para toda a família". O nutricionista gostava de ver diferentes instituições juntarem-se para resolver este problema. "Temos de deixar de construir capelinhas, para criar uma grande catedral",

avança, indicando que "enquanto não juntarmos todas as entidades, pessoas e organizações que podem promover hábitos saudáveis, nunca mais saímos disto". Para o médico, em primeiro lugar está a família, "como primeiro educador", seguido das escolas e câmaras municipais (através da escola primária). Em quarto lugar surge a Igreja. "As pessoas riem-se desta ideia, mas se conseguíssemos que a Igreja nos deixasse fazer um catecismo alimentar juntamente com o religioso, era fantástico", explica. Como exemplo aponta o pão: "Jesus Cristo multiplicou o pão e disse que era o pão da vida – isto é a divinização de um alimento", defende. E sublinha que há outros elementos na Bíblia que apontam na direção de uma alimentação saudável. Assim, com um "catecismo alimentar, as crianças, ao aprender o Pai Nosso, ganhavam também informação sobre o valor dos cereais", exemplifica. Para combater a obesidade é mesmo necessária uma alteração de comportamentos. "Não é com caminhadas que se fazem uma ou duas vezes por ano que se resolvem as coisas. Educar e mudar comportamentos leva tempo e muito esforço – porque nada é mais íntimo que alimentação, que se transforma no seu próprio corpo", refere Sérgio Cunha Velho. Isto porque "a obesidade é uma doença crónica, não se cura, controla-se", conclui.

(indicados pela nutricionista Mélanie Coelho)

10 passos para uma alimentação saudável

3.º passo - Coma diariamente pelo menos três porções de legumes e verduras nas refeições. 4.º passo - Coma diariamente três porções ou mais de frutas nas sobremesas e nos lanches. 5.º passo - Consuma diariamente três porções de leite e derivados e duas porções de carnes, aves, peixes ou ovos. Retirar a gordura visível das carnes e a pele das aves antes da preparação torna esses alimentos mais saudáveis. 6.º passo - Consuma, no máximo, duas porções por dia de azeite, óleos vegetais ou manteiga. Fique atento aos rótulos dos alimentos e escolha aqueles com menor teor de gorduras trans. Dê preferência ao consumo de azeite. 7.º passo - Evite açúcar, bolos, produtos de pastelaria, chocolates, sobremesas doces e outras guloseimas, refrigerantes e sumos industrializados. 8.º passo -Diminua a quantidade de sal na confeção dos alimentos. Evite consumir alimentos industrializados com muito sal, como o hambúrguer, salsicha, linguiça, presunto, salgadinhos, conservas, molhos, temperos prontos. 9.º passo - Beba pelo menos dois litros (seis a oito copos de água) por dia. Dê preferência ao consumo de água natural ou tisanas (cidreira, tília, camomila, etc..). 10.º passo - Torne a sua vida mais saudável, praticando pelo menos 30 minutos de actividade física todos os dias e evite bebidas alcoólicas e tabaco.

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Há que combater o estigma da obesidade A obesidade é uma doença que vai para além do excesso de peso. Lélita Santos, coordenadora da Unidade Nutrição e Dietética dos HUC, lembra que "o mais importante é a composição corporal do indivíduo". Isto porque a obesidade, definida pela OMS, é o excesso de gordura. Assim, "interessa-nos saber o tipo de obesidade e a distribuição da gordura", revela. "Uma pessoa que seja obesa e tenha o depósito de gordura a nível central, tem uma maior propensão para as lesões vasculares. Até pode não ser mais pesada do que outra pessoa – com uma distribuição mais periférica - mas é uma situação mais grave", acrecenta. Os problemas de saúde inerentes à obesidade são a diabetes e a hipertensão, bem como a propensão para enfartes e acidentes vasculares cerebrais. Quando a obesidade é mais periférica – em particular nas mulheres, na zona das ancas – existem patologias mecânicas, como as artroses. No entanto, há outro problema: as doenças do sono. "Hoje está comprovado que as pessoas com obesidade central têm uma predisposição para patologia do sono: desde alterações do sono até apneias

gravíssimas", sublinha Lélita Santos. Nos HUC existem consultas dedicadas para tratamento da obesidade. "É feita uma análise da distribuição de gordura corporal, bem como um historial dos alimentos que o doente costuma consumir e a evolução do peso do indivíduo desde que nasceu", conta a responsável. Depois começa-se o tratamento, que é "dietético e implica uma mudança de estilo de vida". Orientado "por um nutricionista que modula os hábitos, o doente reduz um bocadinho a dieta. Não pomos metas, só dizemos que tem de ir diminuindo devagar, mas bem", completa. Quase nunca se aplicam tratamentos farmacológicos, pois não existem quase nenhuns medicamentos que inibam o apetite como deve ser. "Quando a situação é muito grave, podemos, em última instância, partir para a cirurgia bariátrica", conclui. Para Lélita Santos, o importante para prevenir e tratar o problema é fazer-se uma alimentação saudável, criar-se um hábito. "Perder peso, mais do que sacrifícios, implica disciplina". Confrontada com a popularidade de um programa de televisão que foca a questão da perda

de peso, Lélita Santos considera-o contraproducente. "Aqueles tipos de programa são péssimos, até para educar os obesos. As pessoas são humilhadas, não são tratados como doentes", refere a médica, sublinhando que a obesidade é uma doença crónica e os doentes merecem sempre muito respeito. "O imenso esforço que essas pessoas fazem não traz nenhuma vantagem, porque não há nenhuma educação alimentar". E, para o público em geral, acaba por ser ainda mais estigmatizante. "A obesidade já é estigmatizada e não o devia ser porque é uma doença. Os obesos ficam muito mais estigmatizados, não concordo nada. Acho que é péssimo e contraproducente", completa. A opinião é a mesma em relação a dietas e programas alimentares que surgem em força nesta altura do ano. "Muitas dessas dietas que andam por aí fazem perder peso, mas à custa de massa muscular – é pior a emenda que o soneto, que leva a obesidade ioiô", defende. "Até se pode perder 20 quilos, mas não vai fazer isso toda a vida e, inexoravelmente, volta a recuperá-los. Volta a fazer o mesmo, não foi educado", explica.

erros alimentares mais comuns Os erros alimentares são muitos e variam de pessoa para pessoa. Mélanie Coelho, nutricionista, aponta os mais comuns: Começar o dia sem tomar pequeno-almoço. É fundamental tomar o pequeno-almoço, porque o nosso corpo já esteve muito tempo sem comer e necessita da energia dos alimentos para recuperar e para se preparar para o dia que se segue. Comer em grandes quantidades e poucas vezes ao dia. Quando se come poucas vezes ao dia, a consequência mais natural é que se vá comer mais de cada uma dessas vezes e, além disso, que vá comer pior – alimentos mais calóricos e menos saciantes. Saltar refeições. O que a acontece quando salta uma refeição é que fica com mais fome e depois tem menos cuidado com o que escolhe para comer e além disso come mais, mais

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depressa e pior. Temos que comer para não ter fome, pois quando temos fome, por norma devoramos tudo o que se vê à frente. O pequeno-almoço, o almoço e o jantar são refeições fundamentais e devem ser respeitadas. Não ter horários para as refeições O ritmo frenético, o stresse, as correrias ou o excesso de trabalho fazem com que não se consigam estabelecer horários certos para as refeições. É um erro, porque o nosso organismo, tal como nós, também precisa de regras. Fazer do jantar a refeição mais importante e completa Depois de um dia de trabalho, onde provavelmente se comeu pouco e a correr, sabe muito bem sentar a uma mesa farta e comer e beber tudo aquilo que nos dá prazer. O jantar, para quem não trabalha pela noite dentro, é a refeição que antecede muitas horas de repouso do corpo, e em repouso o corpo precisa de poucas calorias para desempenhar as funções que ficarão activas.


dicas para organizar as refeições A melhor forma de organizarmos as refeições é seguir a roda dos alimentos. A alimentação deve ser: Completa: comer alimentos de cada grupo e beber água diariamente; Equilibrada: comer maior quantidade de alimentos pertencentes aos grupos de maior dimensão e menor quantidade dos que se encontram nos grupos de menor dimensão, de forma a ingerir o número de porções recomendado; Variada: comer alimentos diferentes dentro de cada grupo variando diariamente, semanalmente e nas diferentes épocas do ano; Adaptada à idade, actividade física, estado de saúde ; Complementada com actividade física.

Passar o dia a petiscar fritos, bolachinhas e snacks. Estas novas tentações são alimentos de alto valor calórico e de alto teor de gordura, mas que nem assim dão uma sensação de saciedade. Cada aperitivo parece chamar pelo seguinte, e vai-se ingerido muito mais calorias do que se comesse refeições completas. No final, ainda fica com a sensação de que não comeu nada de substancial e não se sente saciado. Comer muito rapidamente, sem mastigar convenientemente os alimentos. Quando se come devagar, sentimos uma maior sensação de saciedade, que na verdade não nos é dada pelo estômago, mas sim pelo cérebro. Por isso quando mais devagar comermos, mais tempo estamos a dar ao cérebro para que ele retenha o que se come. Assim, ele vai transmitir rapidamente, a indicação de que está satisfeito.

Condimentar excessivamente os alimentos. Os alimentos têm muitos nutrientes preciosos que na maioria das vezes são anulados pelos condimentos em demasia. O sal – um dos condimentos mais usados – é muito maléfico para o organismo. Favorece a retenção de líquidos e é muito perigoso para quem sofre de hipertensão.

Será possível "comer para emagrecer"? a 14 DE ABRIL foi inaugurada, no Estádio Cidade de Coimbra, uma clínica de emagrecimento que, com base na nutrição, pretende colocar em prática o slogan "comer para emagrecer". Sara Couto, uma das sócias da Clínica LEV, revela que a unidade tem tido muito sucesso. "Somos procurados por todo o tipo de pessoas, desde os 16 aos 70 e muitos, tanto homens como mulheres". A clínica oferece um tratamento dividido em três fases. "Numa primeira fase tem de se substituir toda a alimentação tradicional pelas refeições Lev, com uma lista de legumes autorizados. Numa segunda fase introduz-se uma refeição de carne ou de peixe magros, e, numa terceira fase, hidratos de carbono de carga glicémica reduzida (fruta, produtos lácteos, etc)", conta Sara Couto. Ao longo do tratamento, os clientes são acompanhados por uma nutricionista, inclusivamente "numa quarta fase, que já não conta como tratamento, onde a pessoa faz a alimentação tradicional mas continua a ser seguida, de modo a não recuperar o peso perdido". O tratamento promete a perda entre cinco a sete quilos, em trinta dias. "Ao contrário das dietas tradicionais, em que as pessoas ficam ansiosas por sentir fome, no plano Lev tal não acontece, a ausência de fome é uma realidade". Para além disso, uma outra vantagem do plano Lev é a existência de uma grande variedade de doces que podem ser consumidos", refere. "Temos uma variedade de mais de cem refeições, entre salgados e doces", refere a responsável.O plano Lev é acompanhado de suplementos para "garantir que é 100% seguro". A grande vantagem, refere Sara Couto, é que "desde que a pessoa seja disciplinada e cumpra o plano, o resultado é garantido". Para além disso, "sabe perfeitamente a duração que vai ter o tratamento – num plano tradicional as pessoas vão avaliando os resultados sem ter um fim definido – aqui sabem que começam no dia x e terminam no dia y, com a garantia de que perderam o peso definido", completa.

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Come a sopa João  

Reportagem sobre obesidade.

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