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▶ CIDADES ◀

/ NOVO JORNAL / NATAL, SÁBADO, 27 DE MARÇO DE 2010

NOVO ENSINO MÉDIO E

VELHAS DEFICIÊNCIAS

/ EDUCAÇÃO / SECRETARIA IMPLANTA NOVA METODOLOGIA DE OFERTA DE DISCIPLINA, MAS NÃO RESOLVE PROBLEMA DE FALTA DE PROFESSORES WALLACE ARAÚJO / NJ

MARCELO LIMA DO NOVO JORNAL

CONVIVER COM A

ausência de professores, ventiladores na sala de aula, quadras esportivas, laboratórios é comum para os estudantes do ensino médio estadual – apesar de ser trágico, visto que essas condições podem limitar o futuro desses jovens. Além de ter que enfrentar todos esses obstáculos para aprender, este ano todos os alunos também terão que se adaptar a um experimento da Secretaria de Estado da Educação e Cultural (Seec): a oferta de disciplinas por semestre. O ensino médio por blocos propõe uma metodologia semestral semelhante ao ensino superior. No primeiro semestre do ano, o estudante vai cursar sete disciplinas. No segundo semestre letivo, outras sete. “Querem transformar a escola numa universidade”, criticou o professor de química do Colégio Atheneu, José Medeiros, com 30 anos de profissão. Esse novo método divide a opinião de professores e alunos. Para o professor de história Marcelo Sales, que dá aulas na Escola Estadual Walfredo Gurgel, o processo de ensino-apredizagem ganhou um ritmo mais rápido e mais denso de conteúdo. “Antigamente eu tinha duas aulas por semana com uma turma, agora nós temos cinco. Assim nós podemos dar um ritmo mais acelerado”, explicou. O fato é que todos reconhecem que não houve uma ampla discussão sobre o novo método, tampouco tempo para planejamento por parte das escolas. Segundo a coordenadora geral do SindicaWALLACE ARAÚJO / NJ

ELES PROMETERAM MANDAR NOVO CALENDÁRIO APÓS ESSA MUDANÇA, MAS ATÉ AGORA NÃO CHEGOU” Roberto Oliveira Diretor da Escola Judith Bezerra

▶ Na Escola Estadual Judith Bezerra de Melo, em Nazaré, alunos tentam se adaptar as mudanças implementadas pela Secretaria de Educação to dos Trabalhadores em Educação Pública do Rio Grande do Norte (Sinte/RN), Fátima Cardoso, a SEEC levou o projeto à mesa para ser debatido com os representantes dos profissionais da educação, mas não consultou a base. O sindicato vai pedir, portanto, uma “rediscussão” do projeto. “A proposta é boa, mas precisa ser profundamente debatida”, acrescentou a líder do Sinte/RN. De acordo com o diretor da Escola Estadual Judith Bezerra de Melo, Roberto Oliveira dos Santos, a notícia da mudança veio como uma bomba, faltando apenas dois dias úteis para o início do ano letivo de 2010. “No final

de uma reunião dos diretores de escola com a secretaria, eles avisaram as mudanças. Veio como uma bomba”, declarou. Roberto dos Santos informou também que a secretaria enviou um calendário para o ano letivo sem a mudança da semestralidade. “Eles prometeram mandar outro calendário depois dessa mudança, mas até agora não chegou”, relatou. O horário das aulas para cada turma estava quase pronto na Escola Judith Bezerra, no bairro de Nazaré, mas teve que ser refeito rapidamente. Com a greve iniciada na primeira semana de aulas, as equipes pedagógicas das escolas tiveram tempo

para refazer a grade de horários. “A greve foi que aliviou uma confusão maior”, ressaltou. A reorganização das aulas se tornou mais complicada porque a escola também oferece o ensino fundamental. Outro complicador foi a quantidade de turmas no ensino médio. “Se todas as escolas tivessem um número par de turmas não tinha problema nenhum”, defendeu. Segundo ele, a organização dos professores no horário fica impossível quando se têm turmas em números ímpares. No turno da noite, a escola tem duas turmas do 1º ano, duas do 2º ano e somente uma do 3º ano, cinco ao todo. Conforme

o diretor da Judith Bezerra, a escola vai precisar de outro professor de história para dar aula para uma turma apenas no primeiro semestre.

MP ATENTO Até mesmo a promotora de Defesa da Educação, Carla Campos Amico, soube das mudanças por meio de diretores das escolas. “Quando tomei conhecimento chamei as coordenadoras da SUEM [Subcoordenadoria de Ensino Médio da Secretaria de Educação] e da Codese [Coordenadoria de Desenvolvimento Escolar] para esclarecer o projeto”. A promotora solicitou também as 60 es-

colas que oferecem ensino médio em Natal analisassem novamente como seria a distribuição de carga horária dos profissionais. Até agora a promotoria recebeu os relatórios de 16 escolas. “Lamentavelmente, a implantação foi muito próxima do início do ano letivo”, comentou. Segundo Carla Amico, a promotoria vai ficar atenta ao andamento desse novo modelo de ensino médio. “Nós não interferimos na teoria do projeto da secretaria, mas é importante que essa opção seja viável para o aluno”, destacou. Para uma das diretoras executivas da ONG Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE), Eleika Bezerra, a execução do projeto deveria ser cuidadosamente planejada para que não perca a sua essência. “Teoricamente é uma ideia interessante. A pedagogia Freinet já orienta que as disciplinas sejam mais concentradas no ensino fundamental. No Médio isso pode trazer um aproveitamento melhor”, analisou. Ela também salientou que as transferências dos alunos de uma escola para outra, durante o decorrer do ano, seria um problema, visto que cada instituição decide quais disciplinas serão oferecidas para as turmas nos diferentes semestres. A reportagem tentou entrar em contato com as responsáveis por gerir o projeto, mas as duas estavam viajando. Mesmo assim tentou contato durante três dias. Segundo a assessoria de comunicação da SEEC, o secretário Otávio Tavares não conhecia este assunto profundamente. A assessoria também não indicou outra pessoa para detalhar o projeto. WALLACE ARAÚJO / NJ

“APAGÃO” DE PROFESSORES DEIXA ALUNOS SEM AULAS A terceira escola mais antiga do Brasil, ainda em funcionamento, não foge à regra. O Atheneu, localizado no bairro de Petrópolis, tem 175 anos de existência, mas nem sua contribuição para o estado o livra das profundas deficiências da gestão pública na educação. Depois do fim da greve, os estudantes voltaram às aulas, mas o velho problema da falta de professores não abandonou a rotina deles. “Eu tinha três aulas seguidas de história hoje e não teve professor”, relatou a estudante Aida Regina Gonçalves da Silva de 15 anos. A ausência do docente certamente é um problema, mas três aulas seguidas de uma mesma disciplina podem exaurir tanto o profissional da educação, quanto o estudantes. Alunos e até professores acreditam que os 150 minutos de aulas corridos podem ser uma prática antipedagógica. “É muito cansativo, principalmente nas aulas em que os professores escrevem demais no quadro”, disse Aida, expondo também que o recurso mais usado na sala de aula ainda é o velho quadro negro. O que mais aflige a estudante Yashmim Alexandra Pires Martins, do terceiro ano, são as mudanças realizadas pela Educação estadual. Nesse primeiro semestre, ela deverá ter aulas de sete disciplinas. No segundo semestre, as outras sete. “Acho que esses módulos vão atrapalhar”, opinou a garota. Para ela, a repetição das disciplinas várias vezes

por semana é o que mais a deixa cansada. Tanto para Yashmin Martins, quanto para Aida da Silva, os laboratórios não estão presentes nas aulas como deveriam. A concluinte só pisou no laboratório de informática no primeiro ano do ensino médio. Segundo elas, o laboratório é pequeno e não suporta uma turma inteira, com cerca de 40 alunos. Na sala de vídeo, por exemplo, o que impera é o desconforto das cadeiras. Vale lembrar que disciplinas como química, física e biologia podem tornar-se mais simples com o auxílio de um laboratório, no qual o estudante pode ver a aplicabilidade de fórmulas, presenciar processos microbiológicos e químicos. Além de ter que se adaptar a um novo método de ensino, Yashmin Martins tem na sua vida escolar histórias que simbolizam a falta de compromisso dos gestores públicos, vez que não conseguem colocar professores nas salas de aula. “No ano passado [durante o 2ª série do ensino médio], não tive aula de física o ano inteiro”, denunciou. Mesmo assim, ela foi aprovada e neste ano cursa o terceiro ano, só não sabe se vai conseguir passar no vestibular. Para essa situação caótica de falta de professores, Eleika Bezerra lembra uma afirmação do falecido secretário Ruy Pereira. “Há dois anos o secretário disse que haveria um apagão de professores se não se investisse no professorado”, ressaltou.

▶ Déficit de professores atinge colégios como o Atheneu, Petrópolis, que tem tradição e história O Sindicato dos Trabalhadores na Educação Pública do Rio Grande do Norte (Sinte/RN) estima que metade dos estudantes da rede estadual são atingidos pela falta de professores, ou seja, cerca de 120 mil alunos. Conforme o levantamento do sindicato, as escolas estaduais precisam de mais 2.500 profissionais nas salas de aula. De acordo com o coordenador de pessoal e recursos humanos da SEEC, Pedro Guedes, o déficit existe, mas a secretaria vem tomando providências. “A última nomeação do concurso feito em 2005 foi em 29 de dezembro de 2009. Nós chamamos 837 concursados. De 2006 para cá, foram chamados 3.505 professores”, informou. O déficit não é um número estático. Enquanto a secretaria chama novos professores para as salas

de aula, vários profissionais se aposentam, mudam de emprego ou de cidade, dentre outras situações. Ainda segundo o responsável pelos recursos humanos da secretaria, a situação no interior do estado é crítica. Em vários municípios, não foram aprovados sequer um professor de matemática, física e química. A falta de professores para os anos iniciais do ensino fundamental é muito mais grave, pois o concurso de 2005 não contemplou a contratação para esse tipo de profissional, também chamado de professor polivalente. Segundo Pedro Guedes, para amenizar esse problema a secretaria vem contratando estagiários e adotando medidas como as horas completares para professores efetivos. Dessa forma, os docentes que trabalham na

rede estadual devem ficar mais 10 horas extras para cobrir o desfalque. Contudo, a Procuradoria do Trabalho conseguiu uma liminar que proibia a contratação de estagiários. Mesmo com essa decisão judicial favorável a Procuradoria, houve um acordo entre as partes, no qual o Governo do Estado realizaria um concurso para professores temporários e também poderia contratar estagiários, enquanto os temporários não chegassem à sala de aula. O acordo prevê também que o Estado promova um concurso para docentes efetivos de todos os níveis de ensino. A seleção para professores estagiários começou depois que o ano letivo teve início.

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