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A Produção dos Desfiles das Escolas de Samba dos Ultimos Grupos de Acesso do Rio de Janeiro.

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A produção dos desfiles das escolas de samba dos últimos grupos de acesso do Rio de Janeiro Júlio César Valente Ferreira – jcvferreira@hotmail.com Departamento de Engenharia Industrial de Controle e Automação – Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca: Unidade de Ensino Descentralizada de Nova Iguaçu.

Daniel Santana Lobo – d.lobo00@hotmail.com Departamento de Engenharia de Produção – Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca: Unidade de Ensino Descentralizada de Nova Iguaçu.

Resumo: O presente artigo apresenta a preparação dos desfilies das escolas de samba que desfilam na cidade do Rio de Janeiro nos últimos grupos de acesso. A sistemática de preparação do espetáculo carnavalesco destas agremiações difere das escolas de samba posicionadas nas primeiras divisões devido a fatores que ultrapassam o referencial monentário. A coleta de dados foi promovida por levantamento de fontes bibliográficas e do acompanhamento da preparação do desfile de uma escola de samba do último grupo de acesso. Constata-se então que a preparação do desfile de uma escola de samba pertencente aos últimos grupos de acesso revela a grande dependência das redes de relacionamentos construídas por figuras-chaves destas agremiações como: presidente, carnavalesco, diretores de harmonia e mestre de bateria; e que a participação da comunidade local é a única constituinte da base de apoio que fornece suporte às atividades deste tipo de agremiação. Palavras-chave: Escolas de samba; grupos de acesso; Avenida Intendente Magalhães. 1. Introdução O carnaval carioca tornou-se um produto rentável para a mídia e uma ferramenta publicitária de grande valor e com elevado preço de mercado. Desta forma, trata-se de um empreendimento com grande rentabilidade para todos os envolvidos. A afirmativa acima se aplica quando se faz o recorte das escolas de samba do grupo especial e do primeiro grupo de acesso, que contam com transmissão televisiva e desfilam na Avenida Marquês de Sapucaí, principal palco de exibição das escolas de samba e situado na região central da cidade, local de primazia dos festejos carnavalescos. O segundo grupo de acesso ainda não se encontra plenamente nesta categoria, porém acaba capitalizando o fato de desfilar no mesmo palco de desfile e contar com a cobertura de algumas rádios AM e FM de grande porte, além de atualmente ter seu desfile organizado pela mesma entidade que gerencia o primeiro grupo de acesso. Entretanto, quando a análise foca as escolas de samba das três ultimas divisões do carnaval carioca, que desfilam na Avenida Intendente Magalhães, situado no subúrbio da cidade e afastado das regiões de primazia das festividades carnavalescas, a realidade ganha outros contornos como, por exemplo, uma infra-estrutura bem mais modesta e não contarem com a cobertura da mídia (com exceção de dois sites especializados em carnaval).

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Quando o recorte se refere às escolas de samba do grupo especial, as mesmas são estudadas há muito tempo e a produção é muito diversificada e contempla diversas publicações. Os estudos destinados às escolas de samba dos grupos de acesso são escassos, conforme destaca VICTORIO (2010), devido a pouca visibilidade social que estas escolas possuem. Apesar do número de publicações que abordem estes primeiros grupos de acesso não ser tão amplo, consideramos interessante dividir estes grupos de acesso, para estudos posteriores, visto que há sensíveis diferenças entre os mesmos, tendo como divisor o local de desfiles. A realidade destes grupos de acesso que desfilam na Avenida Marquês de Sapucaí difere bem daquela verificada nos grupos de acesso que desfilam na Avenida Intendente Magalhães. 2. Referencial teórico 2.1 Carnaval carioca e os grupos de acesso As escolas de samba são organizações culturais sem fins lucrativos, cujo produto principal produzido é a realização do desfile destas entidades durante os festejos carnavalescos (LOPES, MALAIA e VINHAIS, 2009). Estas associações atuam em uma determinada comunidade, onde também prestam serviços de resgate e preservação da identidade cultural, além de atualmente terem ampliado sua atuação, implementando projetos de educação e de assistência social. Para o crescimento desta manifestação carnavalesca, fundamental foi o reconhecimento por parte do poder público, incluindo a distribuição de subvenção financeira como forma de apoio à preparação dos desfiles. Esta valorização representou também importante estimulo para criação de inúmeras agremiações nos mais diferentes pontos da cidade, atraindo também escolas de samba de cidades pertencentes à região metropolitana do Rio de Janeiro. Ao longo do tempo, diversos modelos foram adotados para hierarquizar os grupos das escolas de samba que desfilam na cidade do Rio de Janeiro. CABRAL (1996) e FERREIRA (2004) mostram como esta evolução ocorreu, descrevendo os locais de desfiles utilizados e os resultados de todos os grupos em todos os anos em que houve competição entre estas associações carnavalescas. Sobre os grupos de acesso e a formatação de sua hierarquização e as mudanças nos locais de desfile são pormenorizados por BARBIERI (2010) e FERREIRA (2008). Nas obras citadas no parágrafo anterior, também se encontra o histórico da criação das entidades organizadoras dos desfiles que, em conjunto com o órgão de turismo da prefeitura da cidade, regulam a competição. Atualmente, três associações atuam junto ao poder público: LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba), LIERJ (Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) e AESCRJ (Associação das Escolas de Samba da Cidade do Rio de Janeiro). Cada grupo em questão possui regulamento próprio relativo à realização dos seus desfiles, além da diferenciação de atas e locais de desfile. Os valores das subvenções disponibilizadas pelos órgãos públicos variam de acordo com o nível hierárquico ao qual a escola de samba pertence. A posição nesta hierarquia também direciona uma maior ou menor possibilidade de se auferir quantidade maior de recursos via eventos de quadra, venda de fantasias, enredos patrocinados e mecenatos. BARBIEIRI (2010) destaca a alteração do quadro da hierarquia competitiva. Para este

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autor, fica bastante evidente a separação e os privilégios obtidos por cada grupo, em relação ao nível que ocupa, no que se refere aos locais de preparação e de desfile. Desde 1996, as escolas de samba na cidade do Rio de Janeiro são organizadas em 06 (seis) grupos hierarquizados: grupo especial e grupos de acesso A, B, C, D e E, cujo quadro de referência é apresentado na Tabela 1. TABELA 1 – Informações sobre os grupos das escolas de samba do carnaval da cidade do Rio de Janeiro. Grupo Especial

Entidade organizadora LIESA

Acesso A

LIERJ

Acesso B

LIERJ

Acesso C

AESCRJ

Acesso D

AESCRJ

Acesso E

AESCRJ

Dia e Local de desfile Dom. e seg. - Av. Marquês de Sapucaí Sáb. – Av. Marquês de Sapucaí Ter. – Av. Marquês de Sapucaí Dom. – Av. Intendente Magalhães Seg. – Av. Intendente Magalhães Ter. – Av. Intendente Magalhães

Participantes em 2012 13

Locais de preparação Cidade do Samba

Classificação neutra 1ª divisão

09

Galpões na região central da cidade Galpões na região central da cidade Carandiru e espaços na região da quadra Carandiru e espaços na região da quadra Carandiru e espaços na região da quadra

2ª divisão

11 15 13 12

3ª divisão 4ª divisão 5ª divisão 6ª divisão

A cada ano, estas agremiações pautam suas apresentações a partir do enredo, o qual é a proposição que constitui o fio condutor do desfile, o qual faz referência a fatos históricos, personalidades, culturas, lugares ou situações abstratas (FARIAS, 2007). A criação do enredo envolve dois momentos distintos: o literário e o plástico visual (FARIAS, 2007). 2.2 Gestão de organizações do setor artístico e cultural LOPES, MALAIA e VINHAIS (2010) destacam que o sucesso dos desfiles das escolas de samba na cidade do Rio de Janeiro foi devido a um modelo de gestão que se adequou às radicais mudanças com administração com funções descentralizadas, participativas, interdependentes e integradas. OLIVEIRA (2009) alerta que o mundo do carnaval possui um viés mais lúdico e romântico que aquele classicamente visualizado em ambientes fabris, identificando então grande resistência para adoção de princípios econômicos no gerenciamento deste tipo de empreendimento em face do risco de se limitar a intervenção artística e a qualidade do espetáculo. O ciclo de vida do desfile das escolas de samba tem sua duração variável conforme o grupo a qual a escola de samba pertença. No caso do grupo especial, OLIVEIRA (2009) destaca que a entidade organizadora estabelece um cronograma com datas-limites para entrega da sinopse do enredo e para a escolha do samba-enredo. Desta forma, OLIVEIRA (2009) salienta que muitas escolas de samba do grupo especial, logo após o desfile, já divulgam o enredo do ano seguinte, visto que a sinopse do enredo é entregue no mês de junho; nos meses de agosto, setembro e outubro ocorrem os ensaios de quadra com o concurso para a escolha do samba-enredo da agremiação e, após esta escolha, iniciam-se os ensaios técnicos com o intuito de preparar o desfile da escola de samba,

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tendo como parâmetro os quesitos de julgamento. Nos três últimos grupos de acesso, que desfilam na Avenida Intendente Magalhães, o cronograma difere bastante. A entrega da sinopse do enredo e da letra do samba-enredo ocorre na primeira quinzena de janeiro. No ano de 2012, pela primeira vez, as escolas destes grupos gravaram seus hinos em um mesmo estúdio, de forma padronizada. Porém, todo o custo desta gravação foi arcado pelas próprias agremiações, que vendiam a mídia como forma de amortizar a despesa do registro fonográfico. 3. Metodologia 3.1 Universo e amostra Em 2012, os desfiles das escolas de samba promovidos na cidade do Rio de Janeiro contaram com a participação de setenta e três agremiações. Este número varia a cada ano, pois atualmente os critérios para o promoção e o rebaixamento nos grupos das escolas de samba estão interligados àqueles adotados na hierarquização dos blocos de enredo, cujos desfiles são organizados pela Federação de Blocos Carnavalescos do Estado do Rio de Janeiro (FERREIRA, 2012). No caso desta pesquisa, desse universo de escolas de samba, a amostra a ser investigada contemplará a mais nova escola de samba a desfilar na cidade do Rio de Janeiro. Esta opção se deve ao fato de que um dos autores desta pesquisa foi apresentado a uma figura de destaque na comunidade que se interessou pela proposta e nos aproximou do corpo dirigente da escola de samba. Outra questão interessante e que nos motivou esta escolha foi o fato de que nos anos anteriores esta agremiação desfilou como bloco de enredo; e sua primeira incursão no mundo das escolas de samba poderia apresentar percalços característicos. Os dados coletados nesta pesquisa também foram utilizados por FERREIRA (2012), que investiga esta forma de manifestação carnavalesca. Também ressaltamos que os dados coletados por esta pesquisa podem ser confrontados com as conclusões da pesquisa conduzida por FERREIRA (2008), o qual estabeleceu contatos com duas escolas de samba que na época desfilavam no último grupo de acesso. 3.2 Coleta de dados Além da pesquisa bibliográfica e do conhecimento preliminar dos autores sobre o campo no qual o objeto estudado se encontra, isto é, o carnaval carioca, a coleta de dados no estudo de caso foi promovida ao longo de diversas visitas aos locais de preparação do desfile. Como espaços de produção de um desfile de escola de samba, faremos o recorte envolvendo aqueles gerenciados pela própria agremiação. Desta forma, foram visitados a quadra da escola de samba, o ateliê de fantasias e o barracão de produção de alegorias. Ao longo destas visitas, a coleta de dados foi realizada através de entrevistas informais sem o auxílio de questionários ou esquemas previamente concebidos para a condução das mesmas. Estas entrevistas foram realizadas com membros da direção da escola, trabalhadores do ateliê e do barracão e desfilantes. Após as visitas, imediatamente sempre eram redigidos diários de campo com as anotações referentes às situações vivenciadas. A opção por esta

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forma de entrevista ocorreu pelo fato da mesma permitir maior liberdade dos envolvidos e de estarmos pesquisando uma organização do setor artístico e cultural caracterizada por forte informalidade, inclusive em suas relações trabalhistas. Também incluímos como forma de coleta de dados o uso de fotografias, aparentemente trabalhando as mesmas como ilustradora de evidências e fatos. Entretanto, cabe a ressalva que temos claro que a fotografia não pode mais ser vista como apenas uma técnica de produção de imagens que integram objetividade e neutralidade, ampliando este escopo para sua análise como forma de pensamento visual e expressão autônoma (ANDRADE, 2002). Como informante privilegiado, elegemos o carnavalesco da escola, com o qual mantivemos contato mais próximo e dedicamos mais atenção através de um número maior de entrevistas e de uma maior duração das mesmas. A opção pela figura do carnavalesco se deu pelo fato deste ser um ator de grande influência e presença marcante na configuração do desfile das escolas de samba, atuando como importante mediador sociocultural (SANTOS, 2006). 4. Estudo de caso: a produção do desfile na escola de samba Boca de Siri O Grêmio Recreativo Escola de Samba Boca de Siri foi fundado em 1979, na comunidade Roquete Pinto, situado no bairro de Ramos, subúrbio da cidade do Rio de Janeiro. Esta comunidade está posicionada entre a baía de Guanabara e a Avenida Brasil (mais importante via expressa com maior fluxo viário da cidade). A escola possui quadra própria, a qual é utilizada para os ensaios e para eventos da comunidade. A escola de samba possui como madrinha a Imperatriz Leopoldinense, agremiação pertencente ao grupo especial e situada também no mesmo bairro. Porém, a distância entre as quadras é grande, sendo necessário atravessar, dentre outros logradouros, a Avenida Brasil e a linha ferroviária. Como bloco de enredo, estreou em 2003 e galgou todos os grupos da Federação de Blocos Carnavalescos do Estado do Rio de Janeiro até obter o pentacampeonato do primeiro grupo entre 2007 e 2011. Com o atrelamento dos mecanismos de hierarquização dos grupos das escolas de samba com aqueles aplicados nos grupos de blocos de enredo, a agremiação foi convidada a estrear na última divisão dos grupos de acesso das escolas de samba (FERREIRA, 2012). Apesar da tensão provocada por esta mudança, revelada por todos aqueles entrevistados pelos autores, o convite foi aceito de forma imediata. Em 2012, desfilou apresentando o enredo “Personalidade Mulher”. 4.1 Processo de produção do desfile BARBIERI (2010) pontua que, historicamente, as escolas de samba utilizavam suas próprias quadras ou locais próximos a elas para a preparação de seu desfile (em especial, as fantasias e alegorias e adereços). O primeiro espaço compartilhado de convívio entre as escolas de samba, que reunia inclusive escolas de diferentes grupos, foi o Pavilhão de São Cristóvão (hoje, Centro de Tradições Nordestinas). Também antigos galpões abandonados da Companhia Docas S/A, situados na região portuária do Rio de Janeiro, eram e continuam sendo utilizados por escolas de samba de diferentes grupos (SOUZA, 1988). Atualmente, as escolas do grupo especial preparam seus desfiles na Cidade do Samba

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(empreendimento construído pela prefeitura da cidade do Rio de Janeiro), um complexo de grandes espaços especificamente preparados para este fim. Nestes espaços, as escolas de samba deste grupo preparam alegorias, adereços e fantasias em grandes galpões cujos diversos setores de produção do desfile se comunicam no mesmo espaço físico. As transformações trazidas pela Cidade do Samba na preparação do desfile das escolas de samba do grupo especial são analisadas por BARBIERI (2009) e BLASS (2008). As escolas dos grupos de acesso continuam preparando seus carnavais em espaços improvisados e, em alguns casos, ainda adotando espaços das próprias quadras. Estes espaços improvisados sofrem melhorias na medida em que a escola ocupante possui recursos financeiros que possam ser destinados a este fim. No caso das escolas das três ultimas divisões do carnaval carioca, a subvenção oriunda do poder púbico e a capacidade de cooptar patrocínios e patronos são bem mais limitadas, inviabilizando uma sistemática de preparação do ambiente de trabalho e de gestão de custos que se compare àquela verificada no grupo especial e nos primeiros grupos de acesso. Além dos já citados galpões da região portuária, espaços coletivos são utilizados pelas escolas de samba do grupo de acesso, sendo os mesmos conhecidos como “Carandiru”. O primeiro destes espaços reúne escolas dos mais diversos grupos de acesso e se situa na região central da cidade do Rio de Janeiro (BALDAN, 2010). O segundo espaço com esta finalidade fica situado em uma rua perpendicular à Avenida Intendente Magalhães, sendo utilizado por 22 (vinte e duas) escolas dos grupos de acesso das três últimas divisões do carnaval carioca. 4.2 Captação de recursos financeiros e gestão de custos Como escola de samba pertencente ao último grupo de acesso, o Boca de Siri recebe uma subvenção do governo municipal de R$ 26.000,00 e do governo estadual de R$ 14.000,00, a título de prestação de serviço. No ano de 2012, presenciamos a preocupação dos dirigentes do Boca de Siri, pois o governo municipal disponibilizou a verba na segunda quinzena do mês de janeiro e o governo estadual somente na semana anterior ao desfile. Segundo o responsável pelas finanças do Boca de Siri, cerca de R$ 4.000,00 eram destinados ao pagamento do aluguel do barracão de alegorias e a escola ainda possuía cerca de R$ 10.000,00 de dívidas com fornecedores por conta do desfile do ano anterior. Como o desfile de 2012 foi orçado em R$ 50.000,00, então a agremiação vislumbrou três possibilidades, as quais são utilizadas concomitantemente: obtenção de recursos através de eventos realizados na quadra da escola, captação de verbas através de mecenato praticado por políticos com mandato ou pré-candidatos a estes cargos e rolagem da dívida através de carta de crédito. Segundo o carnavalesco da escola, a compra do material para a produção do desfile é orçada a partir de um cálculo aproximado daquilo que será utilizado a partir dos desenhos das fantasias e das alegorias, descontando o material já existente em estoque e aquele que será obtido por doações. Entretanto, estes cálculos são refeitos praticamente a cada semana, pois a compra de material é feita em lojas especializadas, ateliês que revendem material não aproveitado, escolas de samba que negociam esculturas e fantasias utilizadas em carnavais anteriores, não sendo garantido que a compra planejada inicialmente possa ser efetivada plenamente. Além disso, nem sempre as doações prometidas são efetuadas. Uma estratégia a ser adotada para 2013, segundo o carnavalesco da escola, será a

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antecipação da divulgação do enredo, para que a agremiação tenha mais tempo para negociar material a ser adquirido de ateliês e escolas de samba, antes de se realizar a compra de material novo nas lojas especializadas. 4.3 Remuneração dos profissionais FERREIRA (2008) destaca que a baixa remuneração e a informalidade nas relações trabalhistas são comuns no mundo do carnaval das escolas de samba dos grupos de acesso. No caso do Boca de Siri, não há remuneração para qualquer profissional, pois todos são moradores da comunidade que disponibilizam parte de seu tempo para ajuda a agremiação. Este exemplo mostra que nem sempre o carnavalesco é pago por seus serviços; conforme destaca FERREIRA (2008), que em sua pesquisa não mais encontrara este tipo de realidade que observamos no Boca de Siri. O carnavalesco mora na comunidade e é estudante da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro e, além de ser membro da diretoria da escola, vislumbra a possibilidade de alavancar sua carreira no mundo do carnaval participando de uma agremiação com muitas conquistas. A única remuneração que encontramos foi o pagamento de um cachê de R$ 20,00 no dia do desfile para cada componente da bateria e da ala das baianas, setores em que a escola possui certa dificuldade em arregimentar componentes, porém de forma menos aguda àquela encontrada por FERREIRA (2008) em outras escolas do mesmo grupo. 4.4 Barracão de alegorias O regulamento estabelece que as escolas de samba do último grupo de acesso apresentem 01 (um) carro alegórico e 01 (um) tripé, cujas características constitutivas encontram-se no regulamento publicado pela Associação das Escolas de Samba da Cidade do Rio de Janeiro, entidade que organiza este grupo. A escola de samba Boca de Siri aluga uma área de trabalho (igual para todas as escolas que lá estão) em que mal cabe uma alegoria, sendo que parte desta fica sujeito às intempéries, necessitando de proteção por sacos plásticos. O tripé fica em um dos corredores do galpão e sempre é movimentado quando a escola de samba da área vizinha necessita movimentar sua alegoria. Estas descrições estão ilustradas na Figura 1.

(a)

(b)

FIGURA 1 – (a) Parte da alegoria protegida contra as intempéries; (b) Tripé sendo montado no corredor.

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As etapas para a produção das alegorias são as mesmas, independente do grupo no qual a escola de samba desfilará, sendo estas: ferragem, carpintaria e preparação e posionamento de adereços e esculturas. Primeiramente, as esculturas, adereços e madeiras utilizados no carnaval anterior são desmontadas para reutilização do chassis que suporta todos estes elementos e reaproveitamento, venda, doação ou empréstimo das esculturas. Apesar da escola estar no última divisão, o carnavalesco revelou-nos que as esculturas do carnaval anterior foram doadas à uma escola de samba de um grupo superior que iria abordar temática semelhante. Desta forma, encontramos neste caso um contraponto aos exemplos levantados por FERREIRA (2008), o qual postula que este tipo de ação somente é feita de uma escola de divisão hierárquica superior para uma inferior. Posteriormente, a etapa de ferragem é complementada com ajustes na estrutura existente de aço da alegoria ou com a desmontagem e montagem de uma nova estrutura. No caso estudado, a opção foi em modificar a estrutura por conta das diferenças dos enredos apresentados em 2011 e 2012 e também por conta da mudança do local de desfile, pois o primeiro grupo de blocos de enredo desfila na Avenida Rio Branco, zona central da cidade, a qual possui largura maior que aquela verificada na Avenida Intendente Magalhães. FERREIRA (2008) pontua que normalmente a ação mais comum é a promoção de ajustes, visto que as escolas por ele pesquisadas não experimentaram no período uma mudança de local de desfile. A seguir, segue a etapa de carpintaria, a qual fornecerá a base para apoio e fixação dos adereços e das esculturas. Como a madeira é comprada pela agremiação, busca-se pouca utilização de cortes curvos, os quais geram desperdício de material incompatível com o poderio econômico da escola de samba em questão (FERREIRA, 2008). As etapas descritas até aqui são ilustradas na Figura 2.

(a)

(b)

FIGURA 2 – (a) Etapa de ferragem no carro alegórico; (b) Etapa de carpintaria no carro alegórico.

Por fim, temos a etapa de posionamento dos adereços e das esculturas, conforme pode ser visualizado na Figura 3. Porém, a análise destas fotografias nos revela que estas etapas não são linearmente estabelecidas, pois como o espaço de trabalho é mínimo, as esculturas assim que são recebidas já são posionadas, tendo sua pintura e empastelamento (quando necessário) feito diretamente.

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(a)

(b)

FIGURA 3 – (a) e (b) Posicionamento dos adereços e das esculturas no carro alegórico.

4.5 Ateliê de fantasias O ateliê de fantasias localiza-se no primeiro andar do prédio da associação de moradores. Porém, parte do serviço de confecção é realizada em outros locais, como a armação de aço e a costura do tecido, por falta de espaço no ateliê. Neste ateliê, são feitos os cortes dos tecidos, inserção de adereços nas fantasias e pintura. O ambiente de trabalho é de profunda informalidade, conforme já detectado no barracão, tornando um serviço de padrão fordista em uma atividade pouco fatigante. A Figura 4 mostra este ambiente onde também se visualiza a área de estoque do material.

(a)

(b)

FIGURA 4 – (a) e (b) Ateliê de fantasias.

4.6 Ensaios de quadra Os ensaios de quadra ocorrem em dois momentos específicos: escolha do sambaenredo e ensaios técnicos. Nestes eventos também há captação de recursos com a venda de comidas e bebidas. Porém, da mesma forma que se verifica nas escolas de samba do grupo especial e dos primeiros grupos de acesso, há também a realização de um ensaio técnico fora da quadra como forma de simular a situação vivenciada no dia do desfile. Entretanto, como as escolas de samba que desfilam na Avenida Intendente Magalhães não podem utilizar a mesma pelo fato desta ser uma via de intenso trânsito (ao contrário da Avenida Marquês de Sapucaí), os

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diretores do Boca de Siri utilizaram uma rua no interior da comunidade com características semelhantes à avenida de desfile. Perguntado sobre o fato de ter ocorrido uma medição anterior, o presidente da escola afirmou que foi “medido de olho”. Um detalhe marcante deste ensaio de rua foi o temporal que ocorreu no momento em que os componentes iniciavam o mesmo. Acreditávamos que o ensaio seria interrompido ou as pessoas abandonariam o mesmo. Porém, o que se verificou foi que os componentes ensaiaram com mais disposição, surpreendendo-nos. 5. Considerações finais O desfile das escolas de samba na cidade do Rio de Janeiro mobiliza milhares de pessoas na produção deste espetáculo. Porém, a realidade observada nos primeiros grupos difere daquela verificada nos últimos grupos na hierarquia. Entretanto, diversas estratégias são elaboradas e implementadas por estas agremiações de menor poder aquisitivo no intuito de sempre colocar o “carnaval na rua”. Apesar de se encontrar no último grupo de acesso do carnaval carioca, o Boca de Siri realizou um desfile digno de estar em divisão bem superior, sendo premiado com a conquista do título do grupo de acesso E e promovido para o grupo de acesso D. Apesar do orçamento limitado, a agremiação contou com grande participação das pessoas da comunidade, a partir da liderança exercida pelas figuras-chaves da agremiação, fator este que consideramos fundamental para a produção do desfile de uma escola de samba dos últimos grupos de acesso. Referências ANDRADE, R. Fotografia e antropologia: olhares fora-dentro. São Paulo: Estação Liberdade; EDUC, 2002. BALDAN, L. P. Carandiru, 2009. Textos Escolhidos de Cultura e Arte Populares, v.7, n.2, p.245-257, 2010. BARBIERI, R. J. O. Cidade do Samba: do barracão de escola às fábricas de carnaval. In: CAVALCANTI, M. L. V. C.; GONÇALVES, R. (orgs.). Carnaval em múltiplos planos. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009. BARBIERI, R. J. O. Conflito e sociabilidade em uma pequena escola de samba: o Acadêmicos do Dendê da Ilha do Governador. 148 f. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro – IFCS/UFRJ, Rio de Janeiro, 2010. BLASS, L. M. S. Rompendo barreiras: a Cidade do Samba do Rio de Janeiro. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v.23, n.66, p.79-92, 2008. CABRAL, S. As escolas de samba do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Lumiar, 1996. FARIAS, J. C. O enredo de escola de samba. Rio de Janeiro: Litteris, 2007. FERREIRA, A. E. A. Valorizando a batucada: um estudo sobre as escolas de samba dos grupos de acesso C, D e E do Rio de Janeiro. 316 f. Tese (Doutorado em História da Arte) – Escola de Belas Artes, Universidade Federal do Rio de Janeiro – EBA/UFRJ, Rio de Janeiro, 2008. FERREIRA, F. O livro de ouro do carnaval brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004. FERREIRA, J. C. V. Blocos de enredo: “escola para quem quer ser escola”. Rio de Janeiro: [s. n.], 2012. LOPES, C. A.; MALAIA, M. C. B. T.; VINHAIS, J. C. Administração em escolas de samba: os bastidores do sucesso do carnaval carioca. Simpósio de Excelência em Gestão e Tecnologia. Rio de Janeiro, 2009. OLIVEIRA, R. R. Sistemas de controle gerencial em organizações internacionalizadas: os casos das escolas de samba do grupo especial da cidade do Rio de Janeiro. 182 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Contábeis) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, Rio de Janeiro, 2009.

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SANTOS, N. S. ”Carnaval é isso aí. A gente faz para ser destruído!”: carnavalesco, identidade e mediaçãocultural. 166 f. Tese (Doutorado em Ciências Humanas) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro – IFCS/UFRJ, Rio de Janeiro, 2006. SOUZA, H. M. Engrenagens da fantasia: engenharia, arte e convivência. 208 f. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção) – Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, Rio de Janeiro, 1988. VICTORIO, L. S. O. Carnaval e trabalho: estudos de caso. 118 f. Dissertação (Mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais) – Escola Nacional de Ciências Estatísticas, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – ENCE/IBGE, Rio de Janeiro, 2010.

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