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#04 ano V março 2018

(in)cômodo:

obstáculos à convivência humana

MÃOS NA

CABEÇA p 26

MEU CORPO NÃO É

PÚBLICO p 124

RUPTURA DO

INVISÍVEL p 148


Universidade Federal de Goiás

Reitor Edward Madureira | Vice-Reitor Sandramara Matias Chaves | Pró-Reitora de Graduação Flávia Aparecida de Oliveira Pró-Reitor de Pós-Graduação Laerte Guimarães Ferreira Júnior | Pró-Reitor de Pesquisa e Inovação Jesiel Freitas Carvalho Pró-Reitora de Extensão e Cultura Lucilene Maria de Sousa | Pró-Reitor de Administração e Finanças Robson Maia Geraldine Pró-Reitor de Desenv. Institucional e R.H. Everton Wirbitzki da Silveira Pró-Reitor de Assuntos da Comunidade Universitária Maísa Miralva da Silva

Faculdade de Informação e Comunicação

Diretora Angelita Pereira de Lima | Coord. do Curso de Jornalismo Rosana Maria Ribeiro Borges | Coord. do Curso de Relações Públicas Luciano Alves Pereira Coord. do Curso de Publicidade e Propaganda Daniel Christino | Coord. do Curso de Gestão da Informação Douglas Farias Cordeiro Conselho Editorial da FIC Ana Carolina Rocha Pessoa Temer, Claudomilson Fernandes Braga, Daniel Christino,Goiamérico Felício, Carneiro dos Santos, João de Melo Maricato, Lisandro Nogueira, Luiz Signates, Magno Luiz Medeiros, Maria Francisca Nogueira, Maria Luísa Mendonça, Simone Antoniaci Tuzzo, Suely Henrique de Aquino Gomes e Tiago Manieri de Oliveira

Coletivo Magnífica Mundi

Site www.magnificamundi.fic.ufg.br | Email magnificamundi.ufg@gmail.com Faculdade de Informação e Comunicação - Universidade Federal de Goiás Campus Samambaia - Goiânia - GO - CEP 74001-970 – Caixa Postal 131

Revista Laboratorial do Curso de Jornalismo N° 04 | Ano V | Março de 2018 | Goiânia-GO Contato becoscomunicantes@gmail.com EXPEDIENTE Conselho Editorial Amanda Damasceno Batista, Angelita Pereira Lima, Elisama Costa Ximenes, Jéssica Estély Chiareli Nazareth, Jéssica Adriani Rodrigues, Nilton José dos Reis Rocha, Vinicius de Morais Pontes e Wilson José Bueno Júnior Edição Geral Luciene Dias Fotografia da capa Luiz Phillipe Araújo | Contra-capa Namie Yoshioka Edição de Capa Luiz Phillipe Araújo e Marcela Figueiredo Autores Anna Clelma Santos, Bárbara Noleto, Cida Costa, Daniela Versiane, Flávia Silva, Frederico Oliveira, Gabriela Gregório, Giovana Germano, Isabela Maione, Júlia Larissa, Leicilane Tomazini, Letícia Gontijo, Letícia Pereira, Lucas Afonso, Luiz Phillipe Araújo, Maiara Dal Bosco, Marcela Figueiredo, Mariana Guimarães, Mariana Siqueira, Miguel Souza, Namie Yoshioka, Natália Cruz, Pedro Lopez, Rafael Caique,Samaya Boelter, Samuel Leão, Selina Jânia, Tandara Reis, Thallya Rodrigues e Yasmin Santos Projeto Editorial e Gráfico Elisama Costa Ximenes, Nilton José dos Reis Rocha, Jéssica Estély Chiareli Nazareth e Jéssica Adriani Rodrigues Editoração Eletrônica Turma de Jornalismo Impresso Revisão Luciene Dias Colaboração Ana Carolina Neves, Eduardo Spicacci, Tuca Vieira Diagramação Ana Carolina Petry e Turma de Jornalismo Impresso


BILHETE

Erremos pelos becos da cidade Uma das melhores formas de se conhecer uma cidade é deixar-se perder nela. E ao nos perder é essencial a abertura para o encontro com a magia e a complexidade, que muitas vezes se apresentam no desamparo, no preconceito, na fome e na miséria. São formas variadas da mesma violência urbana que afeta o nosso cotidiano. Para nos perder é fundamental a compreensão do que seja errar. O ser errante aposta no caminhar e não no caminho e faz deste caminhar a razão da sua ação. Esta ação errante, mas plena de autoconhecimento e reconhecimento, pode se configurar, em alguma medida, no tão buscado fazer-pensar comunicacional. Com esta proposta, a quarta edição da revista Becos Comunicantes possibilita a ação, materializando nosso desejo de errar tanto pela cidade e quanto pela construção de um laboratório integrado de Jornalismo. A primeira turma da nova matriz curricular apostou no laboratório e se envolveu no mesmo caminhar para construir a revista com o tema da violência urbana. Nesses breves passos errantes pela cidade, nos encontramos com violência policial, institucional, política, social enfim. Vemos de perto, e por uma narrativa especial, o abandono, o preconceito, o isolamento e a miséria. Formas de violência urbana que chegam ao nosso cotidiano e foram captadas pelos olhares atentos do grupo que constituiu a primeira turma da disciplina Jornalismo Impresso, do curso de Jornalismo, da Universidade Federal de Goiás. A revista Becos Comunicantes oferece, assim, um corpo para as muitas possibilidades de prática jornalística e processos de aprendizagem. E aqui estão, de forma experimental, atualidade, periodicidade, publicização, universalidade e difusão coletiva. Tudo isso em um formato que tem a intenção de publicar textos com maior profundidade e criatividade. O que esperamos é que a leitura alcance novos sentidos para o poema Becos de Goiás, de Cora Coralina, que inspira o próprio nome da revista. “Amo e canto com ternura, todo o errado da minha terra”, ressignificando o errar e nos convidando à ternura do olhar. Ou seja, nossa aposta está no caminhar e na ternura. Se fazer jornalismo consiste fundamentalmente em contar histórias, o que colocamos aqui são histórias contadas pelas letras de outras histórias. Um encontro possível no caminhar e convergente o que nos impulsiona Cora Coralina quando anuncia: “Conto a estória dos becos, dos becos da minha terra, suspeitos...”. Esta edição da revista Becos é um chamado para que não nos calemos, sejamos nós jornalistas, errantes ou jornalista errantes. Luciene de Oliveira Dias


LAÇOS Do portão pra fora

Pacto velado

CHOQUE

SINTOMAS

TRAU

Mãos na cabeça

Onde mora o perigo?

Cid que exc

Do lazer ao medo

Futuro roubado

Sen de o pele

Paixão e violência

Um caminho de pedras

Tran cole seg

Sinal vermelho: corpos em risco

Acesso negado


#04 ano V março 2018

CICATRIZ

UMA

FERIDA

dade e clui

Meu corpo não é público

A ruptura do invisível

ntir outra e(o)s

Quando ser mulher se torna um crime

Resistências nos terreiros urbanos

nsporte etivo: luta gmentada

Histórias de vidas inacabadas

HISTERIA Trincheiras do subconsciente


LAÇOS


LAÇOS

TEXTO Bárbara Noleto e Samaya Boelter FOTOS Bárbara Noleto DIAGRAMAÇÃO Samaya Boelter

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Do portão pra fora Com o avanço da tecnologia e o passar do ����������������������������������������� tempo, diversas profissões foram deixando de existir. Todo aluno de ensino médio, por exemplo, vê isso quando estuda temas como a revolução industrial; onde grande parte do foco é no desemprego vinculado a maquinas que passaram a exercer funções que eram anteriormente exercidas por seres humanos. Mas isso não quer dizer que apenas no setor industrial essas substituições aconteceram. Aliás, elas acontecem até hoje. Como podemos ver com a situação atual dos porteiros, com a chegada das portarias remotas. De acordo com o jornal “O Hoje”, até 2013, Goiânia contava com cerca de 40 condomínios monitorados remotamente. E a cada ano, desde então, mais condomínios adotam a portaria eletrônica. Mas de que modo isso afeta a segurança dos moradores? No edifício Leblon, no Setor Nova Suíça, os porteiros foram substituídos no fim de abril de 2017. O edifício adotou câmeras monitoradas remotamente e entrada com digital. Entretanto isso não foi suficiente para impedir que pouco tempo depois uma moradora fosse assaltada na porta


de casa. A vítima, Deusanete Carneiro Maciel, afirma que “a presença do porteiro provavelmente não teria feito diferença, pois já aconteceram outros assaltos aqui, na cara do porteiro”. Já a síndica do edifício Leblon, Zilda Paes Costa, discorda com a fala de Deusanete. Ela diz que a escolha foi realmente baseada na questão financeira e que a segurança com certeza seria mais eficaz com a presença dos porteiros: “Como moradora, acho que têm ficado muito a desejar. Acho que se der uma melhorada na economia os moradores concordariam em recontratar os antigos funcionários”. “Aqui em casa temos um problema sério com a portaria eletrônica, o cachorro não pode passar pela entrada principal e a de serviço não possui digital. Para entrar com o cachorro, é preciso ligar na central de atendimento remota. Muitas vezes, minha filha mais nova fica até 20 minutos esperando que os atendentes a deixem entrar, correndo o risco por ficar parada ali tanto tempo, ela se torna um alvo fácil”. Reclama outra moradora do edifício, Rosana Braga. Com base nesses depoimentos, foi realizada uma pesquisa online com aproximadamente 70 pessoas. Veja os resultados nos gráficos a seguir:

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Na mesma pesquisa, foram computados comentários como: “Acho que além de gerar desemprego, a automação não é suficiente e eficaz para o trabalho de uma portaria. Porteiros não deveriam ser substituídos por tecnologia, e sim auxiliados por ela.” “A substituição é útil. Porteiros são humanos e podem cometer erros bobos, que poderiam ser evitados com as portarias eletrônicas.” “O porteiro além de controlar a entrada e saída das pessoas do prédio acabam se acostumando com a rotina de algumas pessoas, e isso pode ser benéfico. No meu prédio mesmo uma senhora que mora sozinha sofreu um acidente e quem deu falta dela e ligou para ver se estava tudo bem foi o porteiro, e depois disso todos ficam de olho nela. Dependendo do prédio, dos moradores e dos porteiros é possível criar um vínculo muito legal e que beneficie todo mundo.”

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“Conheço mais meus porteiros do que conheci meus vizinhos, pois os vejo to-


dos os dias, conversamos todos os dias. Sei que se precisar de algo terei ajuda, como já aconteceu quando minha casa pegou fogo e nenhum vizinho ajudou, mas o porteiro sim.” “Se não tomarmos cuidados daqui a pouco estaremos todos reduzidos a máquinas. Nada de pessoas. Só máquinas.” “Do ponto de vista dos moradores, depende do tamanho do prédio. No que eu moro, 24 andares, oito apartamentos por andar, não é administrativamente adequado.” As opiniões são diversas e muitos ficam indecisos so bre o posicionamento nesse cenário. A maioria concorda que o ideal seria ter os dois recursos ao alcance. Entretanto, levando em conta o preço dos recursos, o ideal raramente é trazido para o real. E até entre os porteiros existem opiniões divergentes sobre o assunto. E por isso, oito deles foram entrevistados sobre o assunto. 1) Júnior César da Conceição “Meu maior medo é do dia-a-dia mesmo. Afeta todo mundo, mas de certo modo nós ficamos expostos. A gente é a vidraça. Quer queira, quer não, se alguma coisa for para acontecer, nós somos os primeiros.” 2) David Sanchez Camargo “Com certeza a gente se sente um pouco responsável pelos moradores. Às vezes alguém sai aqui de madrugada, só para ir na farmácia aqui da esquina. Eu não posso sair do posto para acompanhar, mas eu fico da11


qui olhando. Porque eu fico com medo, as vezes é uma senhora, às vezes alguém chega sozinho de madrugada correndo, porque é perigoso mesmo, e nem sempre a digital funciona na hora. Então eu mesmo abro o portão.” 3) José Domingos “Vai da condição dos condôminos. Eu acho que a portaria chama segurança, mas cada lugar tem que ser de um jeito. O importante é atender as necessidades dos moradores.” 4) Fábio Santos “Todo porteiro tem medo. Medo principalmente pela vida. Medo de vir um ladrão e matar você.” 5) Antônio Deivid “Tem coisa que a portaria remota não pode fazer. Eu estaciono o carro de morador que temais dificuldade no volante. Já denunciei agressão de morador dentro de casa. Teve até uma vez que uma moradora idosa caiu na escada e bateu a cabeça na quina. Me diz, quem ia socorrer se eu não tivesse aqui?” 6) Alcimar Ferreira Oliveira “Já passei por algumas situações. Já fui intimida-

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do, ameaçado com arma, já tentaram me agredir. Além de roubo. Não é comum, mas acontece. Nesse tipo de situação você tem sempre que manter a calma e não adianta você querer ser o herói, porque você não é. A profissão não exige isso de você. A única coisa que ela exige é que você mantenha a atenção e comunique a autoridade competente.” 7) Paulo Roberto “Se um porteiro não se sente pelo menos um pouco responsável pelos moradores, ele está na profissão errada. E você também não dura muito tempo na profissão. Em um mês deve ser mandado embora porque não encaixa no perfil do profissional. É uma coisa que não dá certo.” 8) Edimar Tavares “O sistema informatizado é bom, não é ruim não. Porque diminui os gastos do condomínio em uns 30%. Mas o sistema tem muitas falhas. Por exemplo, em condomínios onde tem muita gente, a biometria não funciona direito, quando um abre podem entrar dez. Além disso, numa emergência, não tem como socorrer imediatamente. O eletrônico serve para abrir e fechar as portas e gravar as imagens.”

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Prós:

- O preço é cerca de 70% do gasto com porteiros; - O porteiro não pode ser rendido ou ameaçado por bandidos, estando na central; - Fim das dificuldades com burocracia trabalhista; - Conversas e autorizações de entrada são registradas em sistema.

Contras: - Condomínios muito grandes podem ter problemas com o fluxo de entrada; - Falta alguém ajudando os idosos, pessoas com deficiência e recebendo encomenda; - Dependência de energia e conexão com internet. Além do sistema sujeito a falhas; - É preciso o envolvimento de toda coletividade para se adaptar ao novo formato de portaria.

Já o representante do Sindicato dos Empregados em Edifícios, Helenilson Quintas, diz o seguinte: “o ideal é o recurso humano trabalhar em conjunto com o recurso tecnológico. E o principal motivo da troca dos porteiros por recursos digitais é, de fato o preço. Mas não é a única razão. Alguns condomínios dizem que o motivo é algum tipo de problema com o porteiro”. Ele também diz que o sindicato é contra essa troca, mas que não podem fazer nada, pois não detém

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poder sobre as escolhas dos moradores. “Acontecem fatos lá fora que dão a impressão de que não tem ninguém vendo. Às vezes você vai cobrar da empresa e eles perguntam ‘mas que dia foi?’. Se tem uma portaria que deveria estar te olhando, eles deveriam saber. Se é uma portaria remota, não deveriam ficar 24 horas por dia vigiando? O portão de serviço, por exemplo, ficou três dias quebrado. Se eu não tivesse descido lá, eu não teria visto. E ninguém da empresa viu? São uns detalhes que se tivesse um porteiro seriam percebidos. Se tivesse um porteiro, no mesmo dia ele iria me falar ‘Dona Zilda, o portão está quebrado’. São umas situações assim que me deixam pensando. Poxa, mas, cadê a vantagem então? Aonde está a segurança?”.

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LAÇOS

TEXTO ILUSTRAÇÃO DIAGRAMAÇÃO Mariana Guimarães

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“Eu estava sentada aqui conversando, quando �������������������������������������������� de repente eles começaram, fiquei muito assustada.” Disse a estudante de Ciências Sociais de forma baixa e insegura, já que os protagonistas do evento que ela contava estavam sentados próximos a nós. A aluna, que preferiu não se ideWntificar, estava explicando como aconteceu o mais recente episódio de violência fruto do tráfico de drogas na Universidade Federal de Goiás (UFG). Dois traficantes que atuam em facções rivais começaram uma discussão, que até então não se sabe o motivo, e logo depois partiram para o conflito corporal durante uma manhã letiva no pátio da Faculdade de História (FH). Oque conseguiu se ver foi que um deles aplicou uma rasteira no outro, que tem deficiência física, e ali mesmo, eles começaram a trocar murros, socos, chutes e ofensas. O episódio, que traz espanto pela sua crueldade e agressividade, também choca por ter acontecido dentro do perímetro da Universidade. O tráfico é uma realidade no Campus II da UFG e um dos seus principais pontos de venda, as chamadas “bocas de fumo”, é o pátio da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) e da Faculdade de História (FH). Mas esse conflito não é o primeiro que acontece no Campus Samambaia devido ao tráfico. No ano de 2015, o jornal goiano O Popular produziu uma matéria que descrevia um episódio onde aconteceu uma troca de tiros entre traficantes e ladrões no estacionamento da FIC. Procurada por nossa equipe de reportagem com relação a posição da instituição quanto essa questão e em relação ao mais recente incidente, ela não se pronunciou. Nesse sentido, é de olhos fechados para a realidade que tanto a reitoria, que insiste em ignorar tanto a presença quanto a violência causada pelos traficantes, quanto os alunos da Universidade, idam com esse assunto tão denso e que envolve ou17


tras questões polêmicas como a descriminalização das drogas e a presença da Policia Militar (PM) no Campus. De qualquer maneira, essa postergação contribui para a continuidade dessa realidade no Campus. “Às vezes eu vejo um distanciamento da reitoria com a responsabilidade dela com a integridade física dos seus alunos”, afirmou a estudante que preferiu não se identificar. Quando se chega no pátio da FIC/FH tudo ���������������������������������������� aparenta tranquilidade. Os estudantes se distribuem em grupos sobre as mesas, bancos e escadas. Entretanto, basta um olhar mais minucioso para se perceber a presença dos traficantes, que normalmente ficam em grupos sentados nos bancos espalhados pelo local. A partir do momento em que você tem essa percepção, o clima já se torna um pouco mais tenso e inevitavelmente você se pega olhando

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para onde eles estão sentados, como numa espécie de checagem, gerando um incômodo intenso. Entretanto, só se consegue ter noção da real dimensão do problema, quando se busca discutir de forma aberta o assunto. Nenhum estudante que cedeu entrevista para nossa equipe quis ser identificado. Com uma voz baixa e olhos arregalados, uma das garotas afirmou que apesar de ser usuária de drogas há muitos anos não concorda com a presença do tráfico: “Para mim isso aqui não devia nem ter começado”.O olhar agitado e o desespero ao ressaltar por várias vezes que não queria ser identificada, já contava tudo: o medo e o mal-estar causado pelo tráfico de drogas estão infiltrados nos estudantes da UFG. Outra estudante de Ciências Sociais foi categórica ao afirmar que a presença do tráfico na universidade é um empecilho na sua vida acadêmica. “O ambiente do tráfico proporciona para mim inconvenientes que não tem como driblar.” Mesmo com

A cena: desenho feito pela entrevistada que relatou o momento da briga entre os dois traficantes. Na imagem ela mostra os dois, traficantes (“outro trafica” e “trafica sem a perna”, a “Tia Net” (comerciante que fica no pátio) e os “alunos nos bancos”

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a dificuldade de conversar com os alunos e pessoas que frequentam os pátios da FIC/FH, aqueles que foram entrevistados falaram muito sobre o desconforto que a presença do tráfico traz para eles. “Eu nunca passei por uma situação de coerção direta, mas já presenciei situações entre eles que me deixaram insegura.” Outro aluno afirma que além da organização do tráfico o assustar, a forma com a qual o governo lida com isso também o preocupa. “O tráfico me amedronta, especialmente no que se refere às políticas públicas para combatê-lo, como forças militares e coerção”, afirmou ele.

“Qual a solução para esses traficantes? Quem vai tirar eles de lá?”, questionou-me uma aluna enquanto estávamos conversando sobre a presença do tráfico de drogas na UFG. Entretanto, os meios para solucionar esse problema são complexos. A presença da polícia foi descartada por todos os estudantes entrevistados. “A PM no Campus não é o caminho a meu ver”, disse um deles. “Eu não acredito que a polícia seja a solução, porque há um grande problema na forma como o encarceramento é feito”, confirmou outra estudante. Uma das alunas de Ciências Sociais, que carrega um tom de voz forte e sequer pestaneja ao falar, afirmou sem dúvida alguma que a culpa era da reitoria. “Eu não acredito que a reitoria saiba lidar com a situação, porque ela éomissa, fecha os olhos para o tráfico. Alguma coisa só acontece lá dentro quando alguém morre ou algo do tipo”, afirmou. Outros estudantes também confirmaram que sentem a situação ser esquecida pela reitoria. “Ela (A Reitoria) é extremamente omissa nesse quesito”, disse um estudante do curso de História. O papel do estudante na formação dessa situação também foi levado em conta. “Eu acredito que quem compra droga dentro da Universidade é tão omisso quanto a reitoria em relação a sua respon

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sabilidade com a vida acadêmica”, afirmou categoricamente a mesma aluna. Já um outro rapaz lembrou que apesar de o aluno ter parte da responsabilidade, o problema é maior do que isso. “O usuário é a ponta do iceberg desse problema. A reitoria e o Estado possuem ao meu ver, muito mais responsabilidades”, disse. Entre opiniões dissonantes, concorda-se em uma coisa: o tráfico dentro do Campus Samambaia só será superado através do diálogo entre todas as partes. Uma aluna de Ciências Sociais afirma que é preciso acontecer pesquisas para solucionar o problema sem afetar ninguém que usufrua do espaço público, seja da comunidade acadêmica ou não. “Acho que primeiramente debates ou pesquisas, abrangeriam mais pessoas e mais ideias. A reitoria tem que pensar uma forma, que não prejudique outras pessoas que queiram usufruir do enorme espaço do campus”, afirmou. Um outro estudante de História concorda que além de apreensões dos traficantes que comandam os grupos, campanhas de conscientização e debates também devem acontecer para resolver o problema da melhor forma possível. “Devia existir programas de conscientização para que os usuários parem de comprar drogas na universidade, minimizando a presença deles. A reitoria, neste sentido, deveria promover debates entre toda a comunidade acadêmica, com especialistas do ramo, para solucionar esse problema de forma ampla”,disse.

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O pátio da FIC/FH é um caleidoscópio. Ali é �������������������������������������������� um espaço de ocupação total dos estudantes, onde eles podem exercer sua liberdade individual e coletiva. Aparentemente, a convivência desses estudantes com o tráfico de drogas, que por diversas vezes, estão sentados lado a lado em um dos bancos do local, é pacífica. Um estudante de História afirma que existe ali uma espécie de acordo social. “O que parece ocorrer no tráfico de drogas no Campus é uma espécie de “pacto social” de paz entre os traficantes, a reitoria e os usuários. Desde que não afete esteticamente o campus, não ocorra atos violentos e problemas de saúde entre os alunos – que são os consumidores - (assaltos, mortes, overdose), todos fingem que não há problema algum.” Entretanto, também pode se notar, com uma simples conversa com alguns alunos da FIC e da FH, que a situação causa desconforto neles. Praticamente em todas as conversas sobre o assunto com estudantes ou outras pessoas que ficam pelo pátio, o tom de voz foi automaticamente diminuído e olhos passaram de forma mecânica a se movimentar com mais rapidez para os lados, como numa espécie de vigilância constante de quem poderia estar ouvindo ou vendo nossa conversa. O incômodo em falar dessa situação fica estampado no rosto dessas pessoas durante todo o tempo. O espaço, que outrora era visto como um lugar de efervescência cultural e de produção de debates construtivos, passa a viver uma espécie de pacto velado, que abarca a Universidade, os traficantes e os alunos, sejam eles usuários ou não. “Parece que damos dois passos para frente e três para trás”, afirmou um estudante de História quando questionado sobre a questão do pertencimento e uso do pátio FIC/FH pelos alunos e sobre como isso estava se perdendo devido a presença do tráfico. “As soluções deste problema não me agradam, sobretudo na possível repressão aos usuários e aos movimentos estudantis com a entrada das forças policias-militares no campus.” 22


O caminho em busca de uma solução que abrange à vontade e respeite todos os estudantes é difícil e em alguns aspectos são maiores do que os limites da Universidade como, por exemplo, a descriminalização das drogas. Entretanto, nota-se o anseio dos estudantes por um lugar que seja único e exclusivamente ocupado por eles. “Meu desejo é que ali seja um ambiente de troca de ideias, convivência e paz entre todos os que ali estejam. Não dá mais para sentar no pátio e ao mesmo tempo ficar com medo de uma ação violenta inesperada”, disse um dos alunos. “Eu acredito que a gente devia usufruir da universidade com os objetivos que ela se propôs: que o espaço fosse para o estudo, para a cultura, para a arte e para exposições que fossem ao encontro dos objetivos da pesquisa, extensão e ensino. Tudo que é contrário a isso, eu não acho que devia ter espaço na universidade”, disse a mesma aluna que outrora falava de forma enfática e decidida, agora com uma voz mansa e cheia de desesperança.

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CHOQUE


CHOQUE

MÃOS NA CABEÇA!

Setor Coimbra, por volta das 15h30. Uma ���������������������������������������� rua sem saída e sem movimentação de pessoas. Em uma moto, um casal está a caminho do supermercado onde trabalham, e passam por uma viatura da Polícia Militar. Depois de passar por um semáforo, percebem a sinalização para parar. Começa aí uma abordagem policial traumática para Anna Claudya, de 21 anos, e o namorado, Henrique Eduardo, de 20. Aos gritos, os policiais mandaram ambos colocarem as mãos na cabeça, e deram início a uma sequência de abusos verbais. Ao perceberem que Anna Claudya usava uma “pulseirinha de Bob Marley”, a chamaram de “vagabunda maconheira”, alegando que já sabiam o “tipo de gente” que se tratavam, apenas por conta desse objeto, ignorando o fato de que estavam uniformizados e a caminho do trabalho. A pulseira em questão, nas cores verde, vermelha e amarela, era usada por ela há anos. No estado do Pará, onde morava, o acessório simbolizava o respeito às raças. Quando se mudou para Goiás, continuou usando inocentemente, sem saber que a pulseira se tornou um meio de identificá-la como maconheira, sendo que ela nunca fumou nenhum tipo de cigarro. O motivo alegado pelos policiais 26

TEXTO Anna Clelma Flávia Silva FOTOS ILUSTRAÇÃO DIAGRAMAÇÃO Flávia Silva


para a abordagem foi o fato de que a placa da moto estava pendurada, e que enquanto isso não fosse arrumado, o casal não seria liberado. Por sorte, Henrique carregava algumas ferramentas e conseguiu ajeitar a placa, o que finalizou a abordagem. De acordo com a vítima, não houve agressão física, mas sim uma tentativa de deixar o rapaz encurralado, já que ele chegou a ser agarrado pelo pescoço. Ele já havia passado por situações semelhantes anteriormente, então considerava “só mais uma abordagem... É ruim, desagradável, mas é o trabalho deles”. Ela, que nunca tinha vivido algo semelhante até então, se sentiu humilhada com os xingamentos, e passou dias chorando e indignada com a polícia. O modo de vestir e a aparência não deveriam ser o critério para identificar um criminoso. Para Anna Claudya, quando um policial aborda, por mais que 27


a pessoa esteja usando uma vestimenta das piores, nunca se sabe quem é o próximo, assim como uma pessoa que esteja bem vestida pode ser um bandido. Para ela, por não saber de quem se trata, a abordagem deveria ser no mínimo de quem está abordando uma outra pessoa, pensar que está lidando com um ser humano, até que seja averiguado se é fugitivo ou não, o mínimo é que nessa hora a gente seja tratado como ser humano. E esse não é um caso isolado. Uma enquete realizada com 30 alunos da Universidade Federal de Goiás (UFG) mostra as diferentes concepções da abordagem policial. Cerca de 60% dos entrevistados passaram por uma abordagem. Gabriel cursa Engenharia e diz acreditar que quem não deve não teme. Para ele, a abordagem foi tranquila e em geral são assim “quando o cidadão coopera com a ação policial”. Não é o que diz Sheridan, estudante de Artes Visuais. Segundo ele, em uma festa assediaram sua namorada, o que gerou uma discussão. Um policial chegou e deu início a uma sequência de brutalidades com o rapaz. “De repente [o policial] me acertou um golpe no pescoço e em seguida, apertando minha garganta, me empurrou por uns 10 metros enquanto gritava palavras que eu nem entendia. Com uma mão na minha garganta e a outra com o dedo no rosto, ele dizia que ia me tirar dali”. O que chamou a atenção do estudante é que o outro rapaz que havia cometido o assédio estava no mesmo lugar que antes e não sofreu nenhuma consequência. Pelo contrário, ria de Sheridan enquanto apanhava. Com um questionamento do porque isso teria acontecido, ele se atentou para a única diferença que havia entre eles: a cor da pele. Sheridan, um jovem negro sofria agressões do policial enquanto o rapaz branco ria-se da situação. Para o pesquisador em Violência e Criminalidade, Dijaci de Oliveira, “esses estereótipos são construídos a partir do pre28


conceito existente na sociedade. Tais valores vão sendo repassados para toda a estrutura. Temos uma sociedade que é racista institucionalmente. O policial recebe o treinamento a partir desse racismo institucional e é o que vai definir quem é que tem menos direito: a pessoa negra. Os estereótipos precisam ser quebrados. Os grupos preferencialmente abordados são negros, jovens. Se eu só abordo negro, com quem eu vou achar droga?”.

Um policial militar, que preferiu não se identificar, parece orgulhoso de sua profissão. “É gratificante, mas também estressante”, disse. Segundo ele, um policial sai de casa sem ter a certeza de voltar, e combate o crime para dar segurança para a sociedade, mesmo com o risco da própria vida. Seus valores são honestidade, dignidade e amor pela profissão: “se não fosse isso, eu não estaria há 29 anos prestando serviço pra comunidade.” 29


Violência Histórica

Com relação às abordagens, a corporação se������������������������������������������� gue um Procedimento Operacional Padrão, conhecido como POP. De acordo com o policial, todas as viaturas abordam da mesma maneira, independente do grau de risco que a situação ofereça, de modo a oferecer segurança para si mesmo, para a equipe e para transeuntes. As abordagens são feitas mediante denúncia recebida pela polícia, ou aleatoriamente, em caso de suspeita baseada em levantamentos feitos pelo próprio PM. O policial assume que em certas situações, levam em conta o local e as vestimentas usadas pelo suspeito, e que as abordagens podem ser feitas em um lugar mais afastado. “Algo que levamos para vida toda: nunca levamos uma dú-

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vida pra casa. Deu vontade, levantou suspeita, a abordagem é feita”, afirma. Para o policial, o abuso de autoridade por parte da corporação é errado, pois ultrapassa os limites da lei. No entanto, também é facultado ao policial o direito de agir de forma enérgica para conter a situação. “Para que ele tenha o controle da situação, às vezes é obrigatório fazer uso da força, mas pra tudo isso há um ritual a ser seguido”. O próprio significado da palavra enérgico, que foi citada várias vezes pelo policial e pelas pessoas ouvidas na enquete, reforça a situação. Por definição, enérgico é aquele “que tem ou manifesta energia física; força física.” Dijaci David

Pesquisador em Violência e Criminalidade

Ainda segundo Dijaci, o problema da violência no Brasil é histórico. Outros países conseguiram controlar, o que não aconteceu aqui. Ele explica que a violência policial vem desde a formação, quando esta é para desumanizar o cidadão. A forte hierarquia e o grau de submissão também são fatores que contribuem: “ O policial tem que ser disciplinado, tem que obedecer a hierarquia e ser submisso ao comando. Essa lógica radical faz com que o policial não queira saber se você é mulher, criança, idoso. Ele vai obedecer a regra. Se tem que bater, ele vai bater” 31


Enquanto o policial considera que atualmente existe uma inversão de valores no país, pois direitos humanos só existem para defender “bandido, pilantra e gente que não presta”, Dijaci explica que: “O Estado não quer distribuir renda, porque se há a distribuição de renda, há a diminuição da desigualdade e também de uma forma de violência que é a de obter bens através do roubo, do assalto.” “Mas a renda não é única”, continua. “Deve haver a diminuição da desigualdade racial, da desigualdade de gênero, a geracional, o preconceito contra pessoas de origens diferentes, e eliminar todas as práticas de desigualdade porque elas são as produtoras de práticas de violência”. A lógica do medo faz com que você aceite a violência policial porque supostamente é a melhor maneira de enfrentar a criminalidade. No entanto, enfrentaremos a criminalidade com política social. Henrique, assim como tantos outros cidadãos, foi abordado violentamente pela polícia tantas vezes que se mostra conformado com a situação. Segundo ele, aumentar o número de policiais na rua não é garantia de resolver o problema da violência. A única coisa capaz de resolver a situação é investir no futuro das pessoas, dando oportunidade de estudo e trabalho.

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CHOQUE

DO LAZER AO MEDO TEXTO DIAGRAMAÇÃO Daniela Versiane Mariana Siqueira Tandara Reis

FOTOS Vitor Monteiro/Esporte Goiano 34


O

O futebol é o esporte mais popular do Brasil, mas nos últimos anos a maioria dos torcedores está amedrontada e não quer ir mais aos estádios. Isso se dá pela grande onda de violência que vem tomando conta das arenas antes, durante e depois dos jogos. De acordo com o estudo do sociólogo Maurício Murad, em 2010 foram 12 mortes, em 2011 foi um homicídio a menos. Mas nos anos seguintes esse número dobrou, foram 23 mortes em 2012 e 30 em 2013. O número voltou a cair em 2014 para 18 e em 2015 foram 15 vítimas. Por mais que a quantidade tenha diminuído nos últimos anos, a crueldade aumentou e os crimes estão passando a ser planejados. Em Goiás, a situação não é diferente. Os casos de violência dentro dos estádios também fazem parte da história do futebol goiano. No último clássico entre Goiás e Vila Nova, no dia 24 de junho, os jogadores do Vila foram comemorar o triunfo colorado com a torcida e algumas pessoas que estavam assistindo invadiram uma área restrita, o que gerou uma confusão na arquibancada do Estádio Serra Dourada, deixando um torcedor ferido, além de espalhar o pânico entre as pessoas que estavam presentes na partida.

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A violência no futebol é resultado de quê? Da ineficiência do Estado? Da Polícia? E de quem é a responsabilidade? Dos clubes? Das torcidas organizadas? Existe um perfil de quem pratica esses atos agressivos nas arenas? Para o sociólogo do esporte Fernando Segura Trejo é possível determinar um perfil das pessoas que provocam brigas nos estádios. As múltiplas formas de agressão podem ser separadas como “violência entre os torcedores”, que configura apenas uma categoria, “violência da segurança, isto é, da polícia que muitas vezes provoca em diferentes circunstâncias, em diferentes contextos, atos de violência.” É importante que as pessoas saibam que há a “agressividade dos torcedores comuns, que às vezes esquecemos isso e pensamos que a violência só está vinculada a torcida organizada”. Em contrapartida, para o tenente e chefe da Sessão Operacional do Batalhão de Eventos da Polícia Militar, Ricardo Junqueira, não é possível definir um perfil dos agressores, mas concorda no que diz respeito às organizadas. “Hoje em dia não existe um perfil. As pessoas acham que são só as organizadas que tem problemas, que se envolvem em fatos criminosos, e isso não é verdade.” O tenente afirmou ainda que a maioria dos contratempos que acontecem dentro dos estádios são causados pelos torcedores “comuns”.

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Feuguero consequat. Rat, quat, con velenibh eugiamet aut nulputem quatum dionsecte ero cor sequisl ip Para o sociólogo do esporte Fernando Segura Trejo é possível determinar um perfil das pessoas que provocam brigas nos estádios. As múltiplas formas de agressão podem ser separadas como Torcida organizada “violência entre os torcedores”, que configura apenas uma categoria, “violência da segurança, isto é, da polícia que muitas vezes provoca em diferentes circunstâncias, em diferentes contextos, atos de vio �������������������������������������� De acordo comÉoimportante estatuto do lência.” quetorcedor, as pessoas saibam que há torcida organizada é, “para efeito da lei, a pesa “agressividade dos torcedores comuns, que às vezes soa jurídica de direito privado ou existente dea violência só está esquecemos isso e pensamos que fato, que se vinculada organiza apara o fim de torcer e torcida organizada”. apoiar entidade de prática esportiva detenente qual- e chefe da SesEm contrapartida, para o quer natureza ou modalidade”. A lei ainda são Operacional do Batalhão de Eventos da Polícia exige que osMilitar, integrantes das torcidas tenham Ricardo Junqueira, nãoque é possível definir um um cadastroperfil atualizado como membro, dos agressores, mas oconcorda no que diz rescontenha entre outras informações nome peito às organizadas. “Hoje em dia não existe um completo, fotografia e número do CPF. perfil. As pessoas acham quetimes são só as organizadas No estado de Goiás os três maiores que pelo tem problemas, quetorcida se envolvem em fatos crimde futebol têm menos uma orinosos, e isso não éaverdade.” O tenente afirmou aiganizada. Os principais são Força Jovem nda que aMetal maioria dos contratempos que acontecem Goiás, o Movimento Esmeraldino, que dentroaodos estádios são causados pelos torcedores são relacionadas Goiás Esporte Clube, a “comuns”. Torcida Esquadrão Vilanovense, e a Torcida isi bla facincinibh et, suscip eugait lorting enibh et, Sangue Colorado que são as principais do nisi blam aut la Atleticanos commy non eugait pratuero Vila Nova, equis a Torcida Dragões diam, si blan ut praessecte feugue core feu do Atlético odoluptat Goianiense. feugue tat, quam nem ilit iriliqu ipsummo dolenisl ipsus As torcidas organizadas sempre são ssequisim dolor sum el utpatetue tionseq uatinit as fontes dosti problemas de violência nos eslobore delisi. tádios. Mas pratincidunt dados apontam que o hent Brasilaliscilla tem Ut autatumsan con velenisi o maior número de mortes em brigas provotionsed et lan veroMurad et lorem dolortis atinim ver seqcadas por elas. O sociólogo destacou uis acil indelitos ute tatem lumtodo init país vel irit luptatie magnit ut que apenas 3% dos foAgna core duisim eliquis modit, core te euram punidos.autat. Os crimes que envolvem a participação nos estádios são racismo, xenofobia, machismo, agressão, mutilação e morte.

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Para a estudante de nutrição e vilanovense, Emanuelly Gomides, apesar de não querer generalizar, a maioria dos torcedores das organizadas são os responsáveis pela “bagunça”. “Para entrar na organizada, já tem que ser ciente que não vai ser totalmente pacífico”, salientou a torcedora. Já segundo o tenente Ricardo Junqueira, através da identificação feita pela Polícia Militar e Ministério Público é possível destacar que no último confronto entre torcidas, torcedores de todas as classes se envolveram na confusão. Para o tenente a sensação de anonimato de quem se infiltra nas torcidas organizadas aumenta a chance de casos de violência. Em Goiás, os integrantes dessas torcidas precisam ter além do cadastro que o Estatuto do Torcedor exige. Existe também outro requisito, que é um número de tamanho e local padrão bordado na camiseta oficial de cada membro. Esse número está presente na camisa e na carteirinha do torcedor e esta é mais uma forma de identificação que a polícia usa para evitar ao máximo o anonimato. A medida faz parte de um acordo entre a PM, as torcidas e o Ministério Público. Entretanto, a insegurança dentro dos estádios ainda é pertinente, muitas das ações dos policiais 38


não agradam os torcedores. O esmeraldino Rogério Lopes da Cunha afirma que a Polícia Militar demora muito para agir. “A PM vai deixando o povo entrar nas brigas e depois quando eles vão tentar separar já é tarde”. Rogério ainda ressalta que “a Polícia Militar aparenta ter medo dos torcedores”. Apesar dos times serem rivais as opiniões dos torcedores não são muito diferentes. Emanuelly Gomides frequenta o estádio sempre que seu time está em campo e relatou que quando está na arena se sente mais segura, mas até conseguir estar lá dentro o medo é muito grande. “Só visto a camisa do meu time dentro do estádio, o que acho horrível, já que deveria ser uma coisa saudável.” 39


Uma das principais medidas que se têm tomado na tentativa de coibir esses confrontos entre torcedores rivais ou não, é a política de torcida única, que agrada a polícia, por facilitar seu trabalho. No entanto, para Trejo, isso pode funcionar em alguns jogos em particular, mas ter apenas a torcida de um clube dentro do estádio não evita a violência. Como exemplo, o sociólogo salienta que essa política foi implementada na Argentina em 2013, e nos últimos quatro anos as estatísticas indicam que “a violência no futebol argentino está longe de ser contida”, pelo contrário, tem aumentando. Para Trejo, a saída mais simples e imediata “é punir, identificar os indivíduos, isto é, banilos dos estádios. Mas isso não é uma solução. Eu pensaria no sistema da Alemanha, que foi implementado nos anos 90 e que permite que, hoje, os torcedores possam ter um espaço regulado dentro dos estádios e que tenham mediadores para ajudá-los, com o clube e com a polícia”. Toda a selvageria que tem frequentemente acontecido dentro das arenas de futebol pode ser uma consequência de questões relacionadas à sociedade, porém, aqui não nos cabe fazer uma avaliação do que motiva o comportamento violento de certos torcedores. O que precisa e deve ser discutido é de que maneira essa situação pode ser resolvida.

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A violência nas arenas tem destruído algo cultural no nosso país, que é o costume e o prazer do torcedor de frequentar as partidas de futebol do seu clube de coração. De acordo com a jornalista esportiva Núbia Alves, é nítido como o público têm deixado de ir aos jogos. Segundo ela, já aconteceram muitos episódios violentos nos estádios, em Goiás. Houve épocas em que “toda semana um torcedor matava outro, alguém da Esquadrão matava alguém da Força, alguém da Força Jovem matava alguém da Esquadrão, alguém da Sangue matava alguém da Esquadrão...” porque existem também confrontos entre torcedores do mesmo clube, ou seja, se um pai de família quer levar seus filhos ao estádio, ele desiste. Ninguém quer colocar sua vida e a vida da sua própria família em risco. O futebol é um esporte, sua função na sociedade é fazer com que algumas pessoas, amantes da modalidade, possam ver essa prática desportiva como uma fonte de prazer e não de medo, como vem acontecendo nos últimos anos, e fazendo com que as cadeiras das arquibancadas sejam substituídas pelos sofás das salas.

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CHOQUE

PAIXÃO e VIOLÊNCIA no clássico goiano

TEXTO ILUSTRAÇÃO DIAGRAMAÇÃO Isabela Maione

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É véspera do maior clássico de Goiânia. A excitação já está presente entre os torcedores e entre os clubes. No último jogo do Goiás, a torcida já ensaiava os gritos para os adversários, o histórico pesando a favor é o bastante para a festa nas arquibancadas. No último jogo do Vila Nova sobraram provocações, por ter vencido o último clássico, pela boa fase do time e pela torcida querer mais combustível pra rivalidade.

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O amor ao time é tanto que contra o maior rival se torna cada vez mais comum ver torcedores com a camisa do clube pela rua, bandeiras penduradas nas janelas, apostas em bares, faculdades e até entre família. O clima é palpável, é possível ver e sentir que o clássico está chegando. Para o grande dia só existe a expectativa, a torcida e a força de vontade de ser melhor em campo e fora dele: quem vai levar o maior público? Qual vai ser o maior bandeirão? Quem vai gritar mais alto? Quem vai sair feliz e com os três pontos? O clássico é tão contagiante que não importa qual o time do coração, a emoção que envolve os torcedores é difícil ser colocada em palavras. Para o torcedor colorado Pedro Henrique Catulio, Goiás x Vila Nova dura mais de uma semana. “O clássico começa uma semana antes com a ansiedade. No dia do jogo, a emoção e a adrenalina são únicas desde que chego ao estádio até o jogo acabar. O barulho da torcida, os cantos, faz esse momento ser único” e essa sensação vai além do time de futebol, a torcedora esmeraldina Dyéine Costa também afirma que o clássico é “um misto de tudo, nervosismo, ansiedade e alegria”. Apesar de todo torcedor amar o clima de clássico, nem tudo é alegria. Em Goiânia, se tornaram comuns notícias de brigas, ameaças e até mortes nos dias ou nas vésperas do clássico e essa violência quase sempre é relacionada às torcidas organizadas. Existem vários tipos de torcidas em diferentes países, mas as mais famosas no Brasil são as torcidas uniformizadas, que possuem uma marca própria e uma estrutura hierarquizada. Mesmo possuindo uma marca própria, seu próprio logotipo e da sua existência não ser vinculada economicamente aos clubes de 44


futebol, essas torcidas são movidas pela paixão ao futebol . A existência das organizadas divide opiniões, alguns são a favor por deixarem as festas nos estádios mais bonitas, com as bandeiras, gritos e com a bateria, que anima a torcida e atua como o décimo segundo jogador apoiando o time. Já outras pessoas associam essas organizações à violência e não entendem como alguém pode brigar e até tirar vidas em nome do amor ao futebol.

Das arquibancadas

Independente de ser a favor ou contra, o que poucas pessoas fazem, é tentar entender essas torcidas e enxergar essa rivalidade pelos olhos do torcedor. Para a ritmista e membro da Força Jovem do Goiás, Thays Cristhyna Rocha, a simpatia e a paixão pela torcida organizada vêm desde pequena e sempre esteve ligada a sua paixão pelo Goiás. Organizadora da Torcida Feminina da Força Jovem, a estudante conta como é a rotina antes de um clássico. A preparação da Torcida começa duas semanas antes do jogo e são feitas reuniões na sede das torcidas todos os dias, cada dia da semana com uma zona – forma como se dividem por bairros e localização geográfica. Essas reuniões acontecem para traçar as rotas e os horários que cada torcida faz até chegar ao estádio para evitar confrontos com a organizada adversária. Essas rotas são entregues para o batalhão de eventos da Polícia Militar, para fim de controle. Além dessas rotas, são feitas análises pelos diretores de quais problemas cada zona enfrenta e como ela mesma diz, apesar do pedido da própria diretoria ser evitar ao máximo os confrontos, a torcida também se prepara 45


para o pior. Em casos de torcidas adversárias se encontrarem durante a caminhada, cada “bonde” está por si só e nunca se deve recuar ante a torcida adversária, mas sim enfrentar. O colorado Jonathan Pereira, ex-membro da Torcida Esquadrão Vilanovense afirma que ele não sente medo devido à rivalidade das torcidas. O torcedor, que carrega na pele o amor pelo Vila Nova com seis tatuagens do time, afirma que “perigoso é, porque tanto a torcida do Vila quanto a do Goiás, eles são traíras, eles não têm dó, eles batem e hoje em dia estão matando”. Insegurança Um ponto compartilhado entre torcedores - comuns e organizados - de ambos os times é o que não se vê nos meios de comunicação. Todos se sentem inseguros quanto ao serviço prestado pela Polícia Militar. Pedro Henrique, que não é membro de nenhuma torcida organizada acredita que a polícia não está preparada para atuação em grandes eventos. E o despreparo não acontece só em clássicos. A esmeraldina Dyéine relata que em jogos comuns do Brasileirão os policiais agem com excessos desnecessários, “é difícil se defender, eles estão ali pra zelar pela paz, mas nem sempre é o que acontece”. A ritmista Thays afirma que não existem confrontos com a PM, porque além de não ser vantajoso, não é correto. A relação entre Polícia e torcida organizada é delicada, “não somos bem vindos pela Polícia, muito menos tratados

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com respeito, somos tratados com preconceito e torcedor organizado pra eles é sinônimo de vagabundo”. A insegurança em relação ao policiamento não é atoa, todos os torcedores tem alguma história pra contar que mostra esse despreparo. Pedro Henrique, por exemplo, conta que em qualquer situação de tumulto os policiais nem olham quem está por perto, “acaba sobrando pra idosos, crianças e mulheres e acredito que não tem como se defender, pois é desproporcional o confronto”. Jonathan conta ainda da semifinal do campeonato entre Aparecidense e Vila Nova, em que alguns torcedores invadiram o campo depois da classificação, “eles podiam ter ido até quem invadiu, mas ‘tacaram’ bomba de gás no meio da torcida, eu tava com a minha filha, ela é criança, tinha mulher grávida lá”. A torcedora da Força Jovem ainda diz que pra ela, algumas situações são intencionais, “é proposital, eles adoram deixar as torcidas cara a cara pra ver a reação, somos testados diariamente por eles, esperam um escorregão nosso pra ir requerer ao Ministério Público a extinção das torcidas”. Mas a torcedora não tira a culpa das organizadas, “às vezes a culpa é nossa sim, às vezes é, mas nem sempre”. Outra forma de abuso relatada pelos torcedores organizados é quando os policiais responsáveis por monitorar as torcidas organizadas em dia de jogo torcem pelo time rival, “é normal eles obrigarem os torcedores a cantar o hino do time rival, ou fazer a gente tirar a camisa do time ou da organizada, e isso não é noticiado e muito menos denunciado”.

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Torcida Única

Uma ����������������������������������������� solução encontrada pelas autoridades como medida preventiva de violência nos estádios é a ordem de torcida única, em que apenas a torcida do clube mandante entra no estádio, mas essa é uma opção refutada por todos os entrevistados. Para os torcedores, é possível que diminuam os casos de brigas dentro do estádio, mas a outra torcida estaria livre para armar situações contra os rivais, que estão no jogo e têm que voltar pra casa. Jonathan afirma que é comum, por exemplo, a torcida que não pode entrar no estádio esperar a outra em maior número nos terminais ou em bairros que tem maior concentração da organizada adversária, “só vai afastar a confusão para as periferias e terminais”.

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A �������������������������������������������� decisão de torcida única ainda pode levar ao estádio muitos torcedores à paisana, além de atrapalhar o grande espetáculo das torcidas: a disputa pelo grito mais alto, a festa mais bonita e, claro, a maior torcida. Mesmo com toda a violência, brigas e despreparo da Polícia Militar, não existe a chance de abandonar o estádio ou o clube do coração. É unanimidade que a paixão pelo futebol e o amor pelas arquibancadas faz valer a pena enfrentar todos os problemas. Não importa o time; o amor e a emoção de viver um clássico e apoiar por noventa minutos estão acima de tudo.

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CHOQUE

Sinal vermelho: corpos em risco TEXTO DIAGRAMAÇÃO Lucas Afonso e Yasmin Santos FOTOS Lucas Afonso

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O desrespeito com os pedestres é frequente e compõe as situações de violência que geram acidentes no trânsito. Atropelamentos são casos recorrentes dentre os tipos de acidentes de transportes terrestres e são causados muitas vezes pela irresponsabilidade de quem está na condução, não respeitando a sinalização e os elementos que deveriam assegurar a travessia dos pedestres. Jordana Neves, estudante de 18 anos, conta que no dia em que comemorava a aprovação na graduação, em março de 2017, um acidente por imprudência impediu sua amiga de terminar a travessia na faixa de pedestres. “Ao atravessar, passou a primeira e a segunda faixa, dois carros pararam, o terceiro não parou e pegou duas amigas minhas, uma caiu mais perto de mim e a outra, o carro levou”, disse com a voz baixa e engasgada.


“O que vejo é que quando as pessoas estão dirigindo elas não tomam a responsabilidade para si, levam o acidente como se fosse algo isolado”, disse Jordana. A estudante relatou que o motorista saiu do veículo, não prestou socorros às vítimas e ainda culpou a mulher que estava o acompanhando, “ele tentou parecer que a mulher é que estava dirigindo, pois ela estava com a habilitação, e ele não”. O engasgo de Jordana, ao falar sobre o assunto, estimula o reconhecimento da dor do próximo e causa empatia com aquelas pessoas que tiveram suas vidas afetadas pela violência urbana. A humanização se torna mais do que necessária quando o indivíduo, ao conduzir um veículo, responsabilizase também, pela integridade do próximo. Nas vias públicas da grande metrópole, o trânsito de pessoas e carros parece dar vida ao meio urbano, tornando-o um grande organismo vivo. A velocidade permite um caráter dinâmico do cotidiano citadino. O movimento é intrínseco à cidade, veículos e indivíduos são os elementos formadores deste grande emaranhado de seres andantes e máquinas velozes. Quando em conflito, o meio responde com consequências degradantes e truculentas, e assim, a violência no trânsito se emerge como um grande entrave a ser debatido e enfrentado.

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Autoridade embriagada

A brutalidade nas ruas se tornou algo tão comum no dia a dia dos cidadãos que qualquer caso, quando não acontece dentro da própria família, é tratado com indiferença, e muitas vezes, com desrespeito. Essa questão se torna perceptível ao ouvir histórias como de Marcos Antônio Guimarães, funcionário público de Vianópolis, interior do estado de Goiás. Segundo seu relato, ele estava voltando do serviço, em setembro de 2000, quando um policial embriagado o atropelou, fazendo com que ele colidisse a cabeça no para-brisa do carro, quebrando-o e ferindo-se levemente. Ao invés de prestar socorro, a autoridade que causou o acidente tentou fugir do local deixando para trás a vítima, mas seu nível de embriaguez era tanto que ele mal sabia onde estava. Tudo que o funcionário público pôde fazer foi registrar em boletim de ocorrência (BO), mas não surtiu efeito, uma vez que o policial saiu impune, e nenhuma medida foi tomada. 52


“Não se pode mais confiar nas leis e nas pessoas” foi sua resposta quando questionado sobre como ele se sente após o ocorrido. Ele também diz que no trânsito é necessário ter uma atenção redobrada com os pedestres quando se é motorista, pois da mesma forma que ele foi vítima, todos os cidadãos estão propensos a se tornarem também, caso não haja uma cautela por parte dos condutores. Porém, esse não foi o único acidente sofrido por Marcos Antônio, ele passou por outras duas situações no trânsito. Já sofreu uma colisão com um ônibus do eixo anhanguera, na capital goiana, que resultou em uma fratura na clavícula. E o outro acidente ocorreu na rodovia, onde um veículo entrou na pista contrária sem olhar para a frente e bateu de frente com Guimarães, causando um incêndio que por pouco não tirou sua vida e de sua companheira. “Foi uma agonia querendo sair, mas estava com o joelho fraturado e minha companheira também teve quatro fraturas, mas no fim ficou tudo bem”, disse Marcos Antônio. 53


Local errado, hora errada

É normal ver alguém dizendo que es����������������������������������� tava no local errado e na hora errada, foi o que aconteceu com Waliffer Junio de Oliveira Vaz, motoboy de 21 anos, que trabalha na região metropolitana de Goiânia. O assunto a ser abordado com Junio dizia respeito aos tipos de violência que costuma presenciar durante seu tempo de trabalho, uma vez que na maior parte de seu dia, ele está presente nas ruas da cidade. Entretanto, minutos antes de falar conosco, Junio foi vítima de um acidente. Um carro foi roubado e na pressa para fugir, o ladrão colidiu com sua moto causando ferimentos leves em seu joelho. O motoboy diz ser normal esse tipo de acidente. Quando perguntado como ele se sente ao ter que ir para as ruas todos os dias por conta de seu trabalho, Junio declara ter medo. “Hoje em dia se você não andar atento no trânsito, é provável que algo aconteça, por isso precisamos de atenção redobrada.”

Em números

Na década de Ação pela Segurança no Trânsito (2011-2020), lançada em maio de 2011 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), governos de todas as instâncias e de várias nacionalidades se comprometeram a agir em prol da prevenção de acidentes no trânsito, os quais deixam mais de 1 milhão de vítimas fatais, de acordo com a OMS. 54


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Os números de mortes decorrentes de ������������������������������������ acidentes de trânsito no Brasil são alarmantes e se destoam do índice aceitável pela OMS, são 21,8 mortes a cada 100 mil habitantes. Ao analisar os índices referentes ao estado de Goiás, a discrepância é maior ainda, foram 35 mortes para cada 100 mil pessoas no ano de 2014, segundo o Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde. Iniciativas como as do Observatório de Mobilidade e Saúde Humanas (OMSH) contribuem para o dimensionamento dessa situação ao verificar e coletar dados, bem como, promovem ações preventivas. Criado em 2012 o OMSH, o técnico em vigilância de saúde do Observatório, Eduardo Belchior, age na vigilância dos acidentes de trânsito no Estado, mais precisamente àqueles que geram internações ou óbitos. 55


“O Observatório atua no levantamento de diferentes bancos de dados e promove a capacitação de diversos profissionais que atuam nas áreas de saúde e trânsito para o desenvolvimento de ações de vigilância sobre os acidentes de trânsito”, disse Belchior. Segundo dados do OMSH, no ano de 2015, o coeficiente de mortalidade em Goiânia foi de 20,8 mortes a cada 100 mil habitantes e neste mesmo ano, na capital goiana cerca de 287 pessoas morreram por acidentes de trânsito. Dentre o perfil das vítimas, as mais recorrentes são homens de 20 a 29 anos. Mortes por acidentes de trânsito segundo categoria em Goiás - 2015

PEDESTRE 1.824

CICLISTA 406

AUTOMÓVEL 3.126

MOTOCICLETA 3.178

Mortes por acidentes de trânsito a cada 100 mil habitantes em Goiás 32,9 30,5

32,7 32,4 31,3

30,4 30,4

30,5 2010 56

2011

2012

2013

2014

2015

Fonte: Observatório de Mobilidade e Saúde Humanas do Estado de Goiás


Saúde pública Consequentemente, um importante setor da sociedade é afetado. “A violência no trânsito sobrecarrega a saúde pública, principalmente nos hospitais de urgência e emergência. Além da sobrecarga nas unidades de saúde, existe também o alto custo para o atendimento dessas vítimas”, argumentou Eduardo Belchior. De acordo com os dados coletados pelo OMSH, no ano de 2015 foram realizadas 5.342 internações hospitalares apenas em Goiânia. Os números registrados nas observações de órgãos especializados e, sobretudo, o dia a dia de quem transita pelas vias públicas demonstram uma conjuntura social, que envolve saúde pública e integridade do ser humano. A promoção da conscientização neste espaço urbano se torna uma possibilidade às pessoas que trafegam pelas ruas e avenidas de pequenas a grandes cidades, inseguras, violentadas.

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SINTOMAS


SINTOMAS

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TEXTO Rafael Caique ILUSTRAÇÃO DIAGRAMAÇÃO Selina Jania

Goiânia é uma das cidades mais populosas do Brasil. De acordo com estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, a capital goiana já possui quase 1,5 milhões de habitantes em 2017, ocupando o ranking de 11ª cidade mais habitada do Brasil. O aumento populacional em ritmo crescente de Goiânia também é acompanhado por uma série de problemas sociais, como as dificuldades de mobilidade, o desemprego e o aumento da violência urbana. Apesar dos problemas relacionados à violência na capital não estarem diretamente associados ao rápido crescimento populacional, é inegável observar a coincidência da elevação nas taxas de homicídios e crimes contra o patrimônio com o incremento populacional. Ou seja, há uma tendência para que quanto maior seja o número de habitantes de uma cidade maior seja também a incidência de crimes. Em 2015 um estudo da ONG mexicana Conselho Cidadão pela Seguridade Social Pública e Justiça Penal, apontou que Goiânia ocupava a 29ª posição entre as 50 cidades mais violentas do mundo. A ONG utilizou como metodologia o número de homicídios divididos por 100 mil habitantes e incluiu apenas cidades com 300 mil habitantes ou mais. Goiânia registrou a média de 43,38 homicídios para cada 100 mil habitantes.

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Cartografia do medo Tratar sobre a violência em uma cidade como Goiânia vai muito além de uma análise dos dados estatísticos e ocorrências de crimes pelos órgãos responsáveis. A percepção que a população tem em relação à insegurança sugere uma espacialização dos bairros mais violentos, numa espécie de cartografia do medo na capital. Para traçarmos um mapeamento da violência na cidade, a Revista Becos Comunicantes realizou uma enquete através da plataforma Formulários Google, contando com a participação de 200 voluntários que responderam alguns questionamentos sobre a espacialização da violência em Goiânia. O primeiro item sondado na enquete vai direto ao ponto: você se sente seguro em Goiânia? O resultado obtido não causa surpresa, a sensação de insegurança é consoante aos moradores. No segundo item, buscamos levantar como as pessoas consideravam o policiamento na capital. Ao serem questionadas se as ações policiais atendiam mais efetivamente os bairros mais centralizados do que os bairros Item 1

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Item 2


periféricos ou não, tivemos o seguinte resultado: mais da metade dos voluntários acredita haver maior patrulhamento na centralidade da cidade. Entrando mais especificamente nas ocorrências de criminalidade, perguntamos quais eram os tipos de crimes considerados mais habituais em Goiânia. Ganhou em disparada o roubo à transeunte. Por último, chegamos ao ponto da espacialização da violência em Goiânia questionando qual era ou quais eram os bairros considerados mais violentos pela população. Os bairros da região Noroeste figuram como os mais violentos da capital no imaginário de boa parte das pessoas. Porém, dentre os bairros mais citados na enquete, que permitiu a indicação de mais de um bairro pelo participante, temos um resultado pouco esperado: a região central e alguns bairros considerados nobres em Goiânia lideram o ranking, em comparação aos bairros mais periféricos que foram menos citados.

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O gráfico reflete a percepção da violência que os moradores possuem em relação aos bairros de Goiânia, ou seja, a indicação de um ou outro bairro parte da relação subjetiva que essas pessoas possuem com o espaço urbano e nem sempre podem refletir as estatísticas oficiais. Se o morador tem medo, pouco importa para ele se diminuiu ou aumentou os índices de violência em um bairro ou região da cidade.

C

Setor Bu 12%

Jardim Eu 12%

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Conjunto Itatiaia 1%

Jardim Guanabara 1%

Urias Magalhães 2% Centro 23%

ueno %

uropa %

Jardim América 47% Bairro Rodoviário 2%

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Espaço e Violência Sobre o processo de espacialização da violência em Goiânia, o geógrafo Eguimar Chaveiro, que é vinculado ao Instituto de Estudos Socioambientais (IESA) da Universidade Federal de Goiás (UFG), aponta que: “A violência ocorre de várias maneiras e em vários níveis e tipos. A violência simbólica, por exemplo, ocorre em todos os lugares, nos bairros de elite e nos bairros da periferia. A violência invisível da corrupção, das negociatas e, inclusive, do narcotráfico, ocorre nos bairros de elites mais que nos bairros pobres. Mas a violência social e urbana ocorre mais nos bairros pobres, como tem demonstrado as pesquisas. Vale perguntar o que viola e gera violência? Pode-se interrogar também a relação entre os tipos de violência e sua ocorrência espacial”. Tratando-se do imaginário em que a Região Noroeste é considerada uma das mais violentas da capital, Eguimar enfatiza que “em geral há um imaginário que pobreza é igual à violência. Mas pode-se inverter: a pobreza é um produto da violência do latifúndio, da concentração de renda, dos desmandos do Estado. Em muitos casos os bairros empobrecidos, como os da Região Noroeste, são formados por migrantes. E a migração é quase sempre uma violência com o sujeito que, no seu lugar de origem, não pode constituir a sua vida. Posto assim, não se pode analisar a violência somente pela notificação policial, nem apenas pela ocorrência imediata, mas pelo processo. A Região Noroeste faz parte desse processo”. 66


Questionado se a violência em Goiânia extrapola a questão da criminalidade e se existem outras nuances, Eguimar é enfático: “Extrapola sim. A diferença entre crime e violência é necessária para aprofundar o entendimento da constituição da violência. O crime é localizado no âmbito da lei e das prerrogativas do Estado. A violência pode ocorrer - e geralmente ocorre - com, inclusive, os que possuem as funções de evitá-las como a polícia e como o Estado”. Segurança Pública De acordo com o artigo 144 da Constituição Brasileira, a segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. Em seu parágrafo 5º especifica que às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública. A Polícia Militar do Estado de Goiás, através de sua assessoria de comunicação, trouxe alguns esclarecimentos acerca do atual cenário da segurança em Goiânia.

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Questionado sobre quais são os bairros onde são registrados mais crimes em Goiânia, o assessor de comunicação da PMGO, Tenente Coronel Marcelo Granja, aponta que “vai de acordo com a ocorrência na região. Por exemplo, no Jardim América a incidência maior é de roubos a veículos. Mesmo diminuindo a cada trimestre, ainda é uma região conhecida por mais ocorrências desse tipo de crime. Cada região possui uma incidência de crimes específicos”. Tratando do direcionamento das ações policiais para as regiões da capital, Granja explica que todos os bairros, tanto os mais periféricos e os considerados nobres, são atendidos igualmente e de acordo com a demanda de ocorrências: “Os setores são divididos em unidades. A Polícia Militar tem uma viatura para cada setor? Não. A Polícia trabalha com índices de criminalidade. Se você tem setores que a cada trimestre através de relatórios do Observatório da Secretaria de Segurança Pública apresentam mais ocorrências, a Polícia Militar direciona as ações para um patrulhamento mais efetivo nesses bairros. Você tem que direcionar para onde estão os focos de criminalidade”.

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Indagado sobre o trabalho no combate ao crime em Goiânia, Granja também destacou as ações que a Polícia Militar está desenvolvendo: “Nós temos em andamento o Bom dia Cidadão. O Comércio Seguro, onde os comerciantes através dos grupos no WhatsApp tem contato direto com os policiais da viatura. Se ele identifica uma atitude suspeita próximo ao comércio ele já avisa no grupo. Com o uso das redes sociais ao nosso favor estamos também reduzindo a possibilidade de ocorrer um crime. A população precisa entender que a Polícia Militar trabalha na prevenção, então é fundamental que as informações sejam repassadas para que as ações sejam mais efetivas. Temos também a Operação Duas Rodas, onde são realizados bloqueios para a abordagem de motociclistas em atitudes suspeitas”.

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SINTOMAS

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TEXTO ILUSTRAÇÃO DIAGRAMAÇÃO Selina Jania

“Se essa rua, se essa rua fosse minha...” essa ����������������������������������������������� entre outras cantigas de roda eram entoadas nas ruas de uma cidade que emergia. A rua era um espaço ocupado pelo lazer. Amarelinhas, pique-bandeira, pega-pega eram passatempos que não faltavam para compor o cenário das ruas dos bairros da cidade, assistidas pelas donas de casa que empoleiravam as suas cadeiras de fio em frente às casas. Com o tempo, os carros velozes e constantes tomaram espaço. O perigo iminente das ruas afastou as cadeiras de fios das calçadas. Os desenhos de giz, que demarcavam os espaços e funções de brincadeiras de criança, apagados. A crescente urbanização e industrialização alterou o estilo de vida das pessoas. As ruas e praças, principalmente em bairros periféricos, se tornaram um lugar de vadiação e propostas da marginalidade. “A violência urbana é muito dependente do processo social geral da cidade, como o acesso a políticas sociais. No caso do Brasil, há um processo de diminuição das políticas de saúde, educação e o aumento do desemprego. Consequentemente há uma expansão da violência na cidade” explica o sociólogo Nildo Viana. Nesse espaço preconizado, a faixa etária infantil e juvenil é a que mais sofre, principalmente por ocupar um lugar de pouca voz e autonomia para luta de seus direitos. Para Viana, a violência nunca é gratuita e, também, não surge do nada, mas antes como revolta por aquilo que fora negado ou infligido. Uma criança infratora, não nasce um bebê infrator. Mas variados fatores, psicológicos e sociais, influenciam no desencadear de um comportamento violento e desafiador das leis.

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“Ele era uma pessoa maravilhosa, uma criança divertida, carinhosa, totalmente diferente do que ele veio a ser depois”, Layza Mendes Fortes relembra, com lágrima nos olhos, de seu irmão, Elvis Fortes, assassinado a tiros enquanto estava foragido de um centro de internação para menores. De família humilde, com poucas condições, tinham o necessário em casa. “A gente nunca teve as coisas que os meninos de hoje em dia gostam de ter, roupas de marca, tênis e dinheiro no bolso. Mas nunca faltou comida dentro de casa, tínhamos o que vestir e o que calçar. Não precisávamos ir para rua pegar o que era dos outros.” As lembranças que Layza tem do irmão não são as mesmas daqueles que acompanharam, no ano de 2013 em rede nacional, o caso do assassinato de quatro adolescentes na Serra das Areias. Para ela, um irmão que a abraçava e sempre queria proteger, para os outros, alguém que cometia delitos, um infrator da lei. Elvis aos 14 anos começava a mostrar um comportamento diferente. Abandonou os estudos, saía sozinho para festas, passou a beber e fumar. Porém, a situação perdeu o controle quando começou a se envolver com novas amizades desconhecidas da família. “Eles buscavam ele na porta de casa, falavam que já iam voltar, mas passavam dias. Nós ficávamos preocupados, ligando atrás e ele não atendia. Apenas esperando alguma notícia. Ele mentia e falava “não mãe, estamos só viajando, está tudo bem, a gente não está fazendo nada”. Até que em uma noite recebemos uma ligação dizendo que ele havia sido preso em outra cidade por roubo. Saímos daqui de madrugada, direto para a delegacia, pois ele era menor de idade e tínhamos que responder por ele”, relembrou Layza do prefácio de uma história cheia de medos e preocupações que se iniciaria. 72


Sofrimento da família

Medo.Sentimento constante na vida de famílias que possuem crianças e adolescentes no mundo da criminalidade. Uma ligação no meio da noite. O soar de uma sirene de ambulância ou da polícia. Tudo se torna um alerta de que algo ruim possa estar acontecendo. Layza relembra dos momentos difíceis que sua família passou em casa, causados pela incerteza do que poderia estar pela frente. “A gente sofre muito. Porque ele estava preso e saía, falava que não iria mais fazer isso, mas começava tudo de novo. A gente falava “olha o pesadelo de novo”, ficávamos sem dormir, chorava e se o telefone tocava saíamos correndo pensando que era notícia do Elvis, era uma angústia”. Bené Rodrigues, como prefere ser chamado, perdeu o filho, morto violentamente a tiros, de 26 anos, mas sua entrada na criminalidade foi por volta dos 15 anos. O seu maior sonho era poder tirar o filho das entranhas da marginalidade, mas todo o esforço era subtraído pelas influências negativas encontradas nas ruas e amizades. “Eu fiz tudo o que estava ao meu alcance, cheguei a ir com meu filho embora de Goiás. Fomos para a Amazônia e ficamos 73


seis meses lá, fomos para a Inglaterra, para a fazenda, para vários lugares. Eu fiz todos os esforços, mas cada vez que voltávamos parecia que estava pior e, infelizmente, não consegui mantê-lo fora”, lamentou Bené que diferente da maioria dos pais de outros casos, estava sempre acompanhando o filho e buscando meios de restaurá-lo. Além do sofrimento intrafamiliar, a família que possui casos de adolescentes em conflito com a lei sofre socialmente. Layza e Bené contam que a família fica marginalizada, amigos e familiares se afastam e são vistos como cúmplices do jovem.

A punição

Ato infracional, ao invés de crime. Centro de Internação e não prisão. A forma de se referir aos casos de crianças e adolescentes em conflitos com a lei está cheia de trocadilhos. Os termos são alterados devido à inimputabilidade do menor de 18 anos, considerado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), como sendo incapaz de responder por seus atos criminais. Julgados pela justiça como indivíduos em formação e passíveis de recuperação, as medidas penais referentes aos adolescentes giram em torno de sua ressocialização e reeducação. No entanto, a realidade é bem diferente do que está no papel. As leis são bem idealizadas e construídas sob um olhar pedagógico e multidisciplinar, ressaltam bem a intenção de provocar a reflexão e mudança de comportamento dos adolescentes em conflito com a lei, mas a atuação do Estado se mostra falha em vários aspectos. As medidas socioeducativas são cumpridas em liberdade assistida, meio aberto ou por internação. O período máximo de internação é de três anos, sendo 74


avaliados de seis em seis meses. Em meio aberto, o adolescente presta serviço gratuito à comunidade de até oito horas por semana. Essa lei é aplicada a faixa etária de 12 a 18 anos. Se até os 21 anos o jovem não cumpriu as medidas socioeducativas determinadas pela lei, o caso é arquivado. A coordenadora do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), em Inhumas, Aparecida Muniz, conhecida como Rosa, conta que cerca de 20% dos adolescentes que passam por sua supervisão demonstram arrependimento e interesse de transformação, o que influencia no alto índice de reincidência desses jovens ao mundo da criminalidade. Segundo o sociólogo Nildo Viana, a reincidência dos jovens ao mundo do crime está ligada a uma variedade de fatores. Entre elas a deficiência das políticas sociais e a má infraestrutura e administração da aplicação das medidas socioeducativas que não gera os efeitos necessários para a ressocialização dos adolescentes. Mas o fator principal, apresentado pelo sociólogo, é que ao sair das instituições socioeducativas, o adolescente volta para sua mesma vida, ou seja, com o desemprego, relações problemáticas com a família e outras influências variáveis. A tendência do jovem a voltar a cometer crimes também está relacionada à intensidade da recompensa dos delitos cometidos comparada aos seus prejuízos. O psicoterapeuta Natanael Ribeiro explica que o modo que as punições são aplicadas é menos eficaz do que os reforçadores que levam o adolescente a cometer delitos. Entre esses reforçadores podem se destacar as tensões sociais, dinheiro, drogas, bebidas alcoólicas e a facilidade de acesso a bens de consumo. 75


“O sistema de apreensão de adolescentes no Brasil é um sistema falido. Eu tenho aqui adolescente que praticaram homicídio e não tem vaga nas instituições para ele cumprir as medidas socioeducativas em meio fechado. Então a juíza, por falta de estrutura, manda esses meninos cumprirem em meio aberto”, conta Rosa sobre a precariedade das condições oferecidas pelo Estado para cumprir as medidas socioeducativas necessárias. A coordenadora nota que os adolescentes sentemse impunes diante de seus atos, independente da intensidade de seus delitos. “Em grande parte dos crimes noticiados, sempre coloca o adolescente como o “bode” da história. O adolescente que roubou, matou e assaltou. Por quê? Porque eles sabem que a pena máxima de internação é de três anos e a juíza vai revendo isso de seis em seis meses”, aponta coordenadora do CREAS que acompanhou muitos casos de adolescentes que, em seis meses, passaram da internação para a semiliberdade. Com 246 municípios, o estado de Goiás apresenta apenas seis cidades com Unidades de Internação para Adolescentes. Um número inferior e desproporcional às necessidades e demandas do estado. Em relatório do estado de Goiás realizado pelo programa Medida Justa em 2010, sobre a forma que as medidas socioeducativas estavam sendo realizadas no Brasil, cita o caso de um adolescente que permaneceu um ano e oito meses em cadeia pública até ser transferido para uma unidade de internação. A falta de unidades nas cidades interioranas de Goiás já era uma preocupação, pois adolescentes provenientes de municípios distantes 76


eram privados de um trabalho intenso com a família, sendo que muitas não tinham condições suficientes de deslocarem de suas cidades ao local de internação do adolescente. Natanael Ribeiro, como psicoterapeuta, entende que reduzir maioridade penal não é a melhor solução. “A impunidade é um problema, mas a punição também é. Se prender fosse solução a nossa população carcerária seria cada vez menor, mas ela é cada vez maior e precária. O adolescente preso é um grande aluno na escola da bandidagem. Esse adolescente não entrou pra esse mundo de graça. O Estado falhou, a família falhou, e vamos fazer o que? Punir. Vivemos em uma sociedade punitiva. Isto não é problema de polícia e justiça, simplesmente, mas sim social, que tende a piorar. Os jovens e adolescentes estão desiludidos da vida, o índice de suicídio, gravidez na adolescência e meninas e meninos menores envolvidos com o crime tem aumentado. A prisão ainda é muito estigmatizada. Cadeia ainda é para gente pobre e negra, infelizmente a realidade é essa”, explicou o psicoterapeuta. Para o jovem que adentra no mundo do crime, as promessas de fama e dinheiro fácil funcionam como um canto de sereia. Tudo parece atraente. Aquele tênis e roupa de marca, que demoraria anos para conseguir com um salário mínimo, os “corres” de uma noite já garantem o suficiente para a aquisição desses bens de consumo. São atalhos para a realização de anseios gerados por uma sociedade capitalista, mas que o desfecho, na maioria das vezes, é semelhante ao das lendas onde marinheiros, seduzidos pelo belo canto das sereias, eram levados ao fundo do mar e ali tinham o seu futuro roubado. 77


SINTOMAS

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Um caminho de Pedras TEXTO DIAGRAMAÇÃO Pedro Lopes

FOTOS Pedro Lopes e Tuca Vieira

O périplo da família de Isabel da Silva, 60, ��������������������������������������������� começou numa tarde quente. Por volta das 12h, sua neta trazia febre alta e vomitava. A garota foi levada às pressas para o Cais do setor Residencial Buena Vista. Não sabiam que, por falta de médicos, ainda percorreriam os Cais de Abadia e Campinas até chegarem à unidade do bairro Novo Mundo, onde finalmente atenderiam a criança por volta das 18h. “E se fosse o caso de morte? Já era”, reflete. Para o estudante Lucas Rodrigues, 23, que há 10 anos faz tratamento com nefrologista no Hospital das Clínicas,a saúde em Goiânia só piora. Ele conta que, naquela tarde de outubro, só funcionavam dois equipamentos para exames no Centro de Hemodiálise do HC , insuficientes para a demanda. O conferente Eliel dos Santos, 38, enf rentou uma jornada de três meses até obter um simples check-in de um exame para seu filho caçula, de 9 meses. A Santa Casa, único hospital que faria o procedimento, havia deflagrado, em julho, uma greve que durou quatro dias por parte dos médicos residentes que reivindicavam o pagamento de bolsa atrasada. 79


Lucas rodrigues

Ao menos boa ������������� parte dessa tormenta não existiria se a verba destinada à Saúde fosse integralmente aplicada. No percurso, o desvio de somas vultosas para bolsos nada modestos. Nos últimos 13 anos, Saúde e Educação foram os setores alvos de quase 70% dos esquemas de corrupção e fraude descobertos por operações policiares, aponta a ControladoriaGeral da União. A corrupção, um male crônico com raízes em um Brasil colonial, afeta o país de cabo a rabo. A pauta é velha, mas não cansa de estampar manchetes em jornais. Desde 2003, foram deflagradas 247 operações envolvendo desvios de verbas federais repassadas aos municípios. “Em ambientes em que a corrupção é alastrada o que predomina é o exclusivismo, ou seja, os recursos são administrados de forma a satisfazerem os interesses de um número limitado de grupos sociais”, explica o professor doutor em Ciência Política Robert Bonifácio. 80


EM CHAMAS

Corre no momento a Operação Lava Jato, a maior contra a corrupção já realizada no Brasil. Até o momento, a investigação revelou um rombo de 6,7 bilhões nas contas públicas e já condenou 119 pessoas, dentre elas nomes de peso da política. Outras duas operações em voga que investigam desvio de recursos públicos e sonegação de impostos, a Acrônimo e Zelotes, respectivamente, também avolumam cifras surpreenden81


tes na medida em que desvendam novos escândalos. O conjunto de operações amalgamadas com extensos inquéritos também abre um debate em torno do Judiciário. Considerado caro e moroso, só o Supremo Tribunal Federal, a mais alta instância, composto por apenas onze ministros, acumulava , pelo menos até o ano passado, 53.931 ações aguardando julgamento. O vazamento de informações confidenciais para a imprensa e a exposição maciça e seletiva dos investigados, mesmo antes de julgados, é amplamente denunciado por especialistas e pela mídia alternativa. A crítica ganhou reforço após o violento suicídio do ex-reitor da Universidade federal de Santa Catarina, em outubro passado. Luiz Carlos Cancellier morreu após lançar-se em um vão do Beiramar Shopping, em Florianópolis. No bolso, trazia uma bilhete com os dizeres: “minha morte foi decretada quando fui banido da universidade”. O ex-reitor era suspeito de desviar verbas destinadas ao Programa de Educação à Distância, o EAD. Foi preso por um dia, em setembro, mas seguiu afastado do cargo enquanto era investigado pela Operação Ouvidos Moucos, da Polícia Federal. A professora de Jornalismo pela UFG e assessora de imprensa, Silvana Coleta, conta que a imprensa constrói e destrói imagens com muita rapidez. “No caso do ex-reitor, me parece que ele não suportou o fato de ser pré-julgado”, avalia. Ela enfatiza que o afã dos repórteres em divulgar a notícia em primeira mão compromete a apuração rigorosa dos fatos e afeta profundamente a reputação das pessoas expostas. Para o professor da Faculdade de Direito da UFG e doutor em filosofia, João Gonçal82

Minha morte foi decretada quando fui banido da universidade


ves Neto, “ao invés de vermos uma atuação política do aparato de Justiça no sentido de proteger a democracia, a cidadania e o frágil estado de Direito, vemos o contrário: espetáculos midiáticos, coparticipação no retrocesso social e político no país e oportunismo corporativo”, diz. “Quando juízes, promotores e policiais decidiram politizar partidariamente suas ações, desrespeitar a própria lei, aproveitarse da visibilidade para antecipar juízos e condenar publicamente quem possui responsabilidade administrativa ou política, puseram em risco o próprio amadurecimento institucional que permitiu ações mais independentes. Resta saber se haverá algum saldo positivo no futuro”, complementa o professor.

O CASO MUTIRAMA

Em maio passado, foi deflagrado pelo Ministério Público de Goiânia a operação Multrigrana, que investiga a atuação de um grupo que desviava o dinheiro das bilheterias 83


do Parque Mutirama e do Zoológico para fins políticos e de enriquecimento pessoal. A operação coincidiu com um acidente meses depois, em julho, quando o eixo do brinquedo Twister rompeu-se em pleno funcionamento. Iraci da Conceição, a que mais se feriu, teve a perna esmagada e enfrentou quatro cirurgias. Os laudos apontam que o acidente poderia ter sido evitado se houvesse manutenção técnica regular dos brinquedos. Uma perícia da Policia civil no parque apura ainda possíveis riscos de desabamento do teto do cine 4d e do castelo, trilhos soltos do trem, mal funcionamento dos freios do brinquedo Torre, dentre outras falhas. A máfia da bilheteria do parque faturou cerca de 2 milhões somente entre maio e dezembro de 2016. Segundo reportagem do O Popular, o dinheiro desviado ao longo dos anos, estimado em 70 milhões, equivaleria ao valor suficiente para ao menos 461 reformas do brinquedo Twister.

Panela de Pressão

Outro sintoma grave da corrupção brasileira é a profunda desigualdade social. Pesquisa divulgada em setembro pela Oxfam revela que seis brasileiros concentram a mesma riqueza que os 100 milhões mais pobres do país, metade da população. O relatório aponta ainda desigualdades racial e de gênero. Se continuarmos avançando neste rimo, mulheres ganharão como homens só em 2047, e os negros como os brancos em 2089. Apesar da ascensão das classes populares nos últimos anos, a desigualdade manteve-se intocada. Na avaliação do professor Bonifácio, o corrompimento das instituições retarda o avanço do país nesse sentido. “Com essa configuração, todo o arcabouço de84

O conluio, a promiscuidade entre as elites políticas e econômicas do Brasil fazem com que 67% da corrupção incida sobre saúde e educação


mocrático e o primado da lei assumem um caráter meramente formal, estando os seus conteúdos quase que totalmente corrompidos. Isso é nocivo para a redução das desigualdades. A corrupção, portanto, contribui para a reprodução enviesada de um sistema injusto.” Para aqueles que são cozinhados em redutos precários e sem perspectiva social, o passo rumo ao gatilho é encurtado. E a violência urbana explode. O Brasil é o pais que lidera o ranking de mortes por assassinato, mostra o Atlas da Violência 2016, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Em 2014, foram 59.627 mil homicídios, uma alta de 21,9% se comparado ao ano de 2003. “Podemos em grande parte atribuir essas mortes, sobretudo de jovens negros e pobres, à falta de um projeto de inserção social. O conluio, a promiscuidade entre as elites políticas e econômicas do Brasil fazem com que 67% da corrupção incida sobre saúde e educação, ou seja, justamente sobre as pastas que poderiam incluir milhões de pessoas em um projeto de país menos violento. A corrupção não tem matado só pessoas, mas gerações”, observa a professora doutora em Sociologia e pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Criminalidade e Violência (Necriv), Michele Cunha.

A corrupção não tem matado só pessoas, mas gerações

No entanto, a doutora em sociologia pela Universidade de Brasília e professora pela UFG, Dalva Souza, alerta para o risco de cair em uma visão casuística que vincula criminalidade à pobreza. “É um erro considerar isso, o 85


Arte

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ção

que é confirmado pelas estatísticas, visto que a maioria da população brasileira é composta de pobres e essa mesma maioria não comete crimes, ao contrário, trabalha duro, ainda que em empregos precários que só garantem sobrevivências igualmente precárias”, observa. “Porém, em uma sociedade extremamente desigual como a do Brasil, o acesso aos direitos básicos é restrito, e as pessoas se sentem desprotegidas, o que afeta as relações sociais, contribuindo para o aumento da violência”, atesta. O acesso a direitos básicos no Brasil, como educação, não é prioridade do Executivo. No início do ano o governo de Michel Temer comemorava a aprovação da Lei Orçamentária Anual com mais recursos para a educação, previsto em R$ 107,5 bilhões. Em abril, no entanto, uma canetada congelou 4,5 bilhões do setor alegando crise financeira. Junto com a Educação, os ministérios da Defesa e dos Transportes foram os mais afetados pelo contingenciamento de R$ 42 bilhões do orçamento.

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O freio pôs na berlinda o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que enfrenta dificuldades no pagamento de bolsas. Michele lamenta o cenário e comenta sobre a cadeia que uma educação de qualidade pode gerar.“Não há dúvida de que educação pública, de qualidade e universal , além de promover mobilidade social , cria interesses e valores mais propensas à pacificação”, diz. Um artigo dos pesquisadores do Ipea Daniel Cerqueira e Danilo Santa Cruz Coelho, aponta, com base em dados de 2010, que a universalização do ensino médio para pessoas com mais de 15 anos de idade poderia diminuir em 42,3% o número de homicídios no Brasil. “É apenas um exercício estatístico, porém, pode ser uma pista para responder à questão”, avalia Dalva. O pedregoso caminho para seguir as pistas não seria tão sangrento se a corrupção não estivesse tão enraizada na história do Brasil.

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SINTOMAS

Acesso negado: , ... uma duas

TEXTO FOTOS DIAGRAMAÇÃO Luiz Phillipe Araujo

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várias vezes


A linha tênue entre exclusão moral e violência ����������������������������������������������� urbana ainda é ignorada pelo poder público. Em um cenário de escassas ações de base, tentativas de rever desigualdades respiram com dificuldade na capital de Goiás. A eficácia dos Centros de Convivência ao oferecer atendimento social às parcelas mais vulneráveis da população segue invisibilizada. Para além dos números divulgados anualmente, a população goiana tem opinião formada: “o povo está cansado de ter medo de sair de casa”, esse é o desabafo de Letícia Pereira, moradora do setor Pedro Ludovico, região sul, mas que poderia ser a fala de qualquer um vivendo Goiânia em seu cotidiano. Sob essa demanda o poder público propõe algumas iniciativas por hora duvidosas. As estratégias de enfrentamento ao tráfico de drogas, por exemplo, se mostram ineficientes. Os números se repetem, e a longo prazo os problemas não são solucionados. Além do enfrentamento tradicional, Letícia e aqueles que concordam com ela devem conhecer as outras formas de encarar a violência, estratégias que podem ser resposta eficiente quando o assunto é violência urbana. Existem projetos sociais que visam solucionar de maneira efetiva os números envolvendo a temática. Isso significa, que além de lidar com o crime de forma direta, trabalhos de base buscam pensar de maneira aprofundada em como diminuir os índices, para que dessa forma, uma sociedade melhor possa ser estruturada. 89


Esperança pautada no acesso Entre discretas ações existe um projeto ���������������������������������������� governamental antigo: Centros de Convivência (CC), esse são locais que recebem a população para realizar atividades de desenvolvimento individual e coletivo. Começaram a ser implantados no Brasil em meados dos anos 80, após a luta do movimento antimanicomial. Em alguns anos o serviço se expandiu, quando em 2002, os centros passaram a ser previstos para toda a sociedade. Larissa Moreira é residente em psicologia no Hospital das Clínicas de Goiânia, e compõe um movimento que luta pela implantação de Centros de Convivência na capital. Para a estudante, os CC’s pensados como promotor de inclusão e saúde podem indiretamente diminuir os índices de violência urbana, pensando no porquê do atual quadro e a partir disso desenvolver estratégias de base. “ Não basta saber que existem 20 jovens usuários de drogas e que eles precisam ser retirados dessa situação, é necessário pensar no porquê desses jovens terem chegado a esse estado.” E qual será a realidade desses locais em Goiânia? A reportagem visitou três bairros em diferentes regiões da cidade: Setor Pedro Lúdovico, Jardim América e Jardim Novo Mundo. Os três estão na lista dos dez mais violentos de Goiânia, isso segundo os dados divulgados em 2016 pelo observatório da Polícia Militar de Goiás (PM-GO). Tendo em vista serem regiões críticas para a segurança pública, existiriam nesses locais centros de convivência?

As ruinas da região sul No setor Pedro Ludovico, sexto bairro mais violento da capital não há um Centro de Convivência, mas existe uma associação de bairro, que em tese cumpriria a função de um CC. É um prédio robusto 90


localizado ao lado do Isidória, um terminal de ônibus coletivo com grande fluxo de pessoas. A fachada do local causa estranhamento, uma mistura de abandonado com privado, isso porque apesar do local apresentar traços de uma obra inacabada, há diversos anúncios de serviços (particulares). Dentro do prédio a situação não é diferente. As várias salas contam com algumas características em comum: cortinas improvisadas feitas de lençol, mofos na parede e móveis velhos. Há também uma espécie de salão de festas, lá não há reboco nas paredes e fora pintado de forma a tentar esconder uma obra não concluída. Sobre os serviços: para quem se interessar em algum curso terá que pagar por ele, o curso de informática, por exemplo, custa 480 reais, o de manicure custa 200 e o de cabeleireiro 500. Você pode ainda fazer aula de dança, se puder pagar 80 reais mensais. Os moradores da região se dizem insatisfeitos, Janeide Pires, uma pedagoga que mora no Setor Pedro há pelo menos 40 anos é incisiva ao opinar sobre o local. Ela diz que não funciona como deveria e confirma o que foi visto pela reportagem: a estrutura é precária! A pedagoga faz mais uma denúncia: “a maioria da população do bairro não tem condições de pagar, se fossem oferecidos de forma gratuita haveria uma procura maior. Acaba que não funciona” Sobre o porquê de tantos serviços particulares, já que ali é um prédio público, não houve respostas por parte da direção. O único serviço público no local é uma Unidade Municipal de Assistência social (UMAS), que funciona em uma pequena sala para atender programas sociais, como usuários do Bolsa Família. Não há perspectiva de quando o local irá passar por reformas e também não existe outro projeto que dê conta da função de um Centro de Convivência para o bairro. 91


Expectativa levada por um caminhão Começa outra busca, agora no Jardim ������������������������������������ América. É o bairro mais populoso da capital, com mais de 41 mil moradores (IBGE) e segundo dados do observatório da PM tem o maior índice de crimes da capital. Mas há uma boa notícia, o site da prefeitura de Goiânia informa a existência de um Centro de Convivência na região, inclusive seria um serviço modelo, desses que intitulam como “referencia”. Após uma breve visita às redes sociais da instituição é possível constatar que ali há serviços públicos bem estruturados. Em um primeiro contato vem à tona que na verdade o local já não existia “oi, querido, o centro foi fechado há quase um ano”, foi essa a resposta a um convite de entrevista feito no Facebook. A informação era de que em setembro de 2016 o Centro de Convivência e Cultura Cuca Fresca (CCC Cuca Fresca) teria sido fechado pelo poder público. O local que atendia cerca de 325 pessoas teve as portas fechadas. Mas afinal, o que de fato houve com o Cuca? Quem fala sobre o CC é Marla Castro, excoordenadora. Igualmente estava presente Heloiza Helena Massanaro, que fez parte da secretária de saúde mental em Goiânia na época da fundação do Cuca. A ex-coordenadora começa explicando como foi possível inaugurar o primeiro centro de convivência da cidade: foi uma conquista! “Os apoiadores tinham contato com centros que existiam em outras cidades e começaram a lutar pela implantação em Goiânia, isso desde 1996”, relata com tom saudosista. Em meio aos relatos um que colocava fim à história: “No dia 23 de setembro de 2016 um caminhão chegou na porta, desceram três homens e fomos informados: ‘vamos tirar tudo daqui’. Não houve nenhum diálogo por parte da prefeitura, usuários foram surpreendidos, trabalhadores surpreendidos, a comunidade foi surpreendida. 92


Todos ficaram em choque, as pessoas no geral ficaram tão surpresas que elas não sabiam o que fazer. Carregaram os móveis e acabou...”. Ainda hoje, os antigos membros tentam articular formas de retomar o serviço. Criaram um movimento de resistência nomeado de Desencuca, que faz diversas ações, como um cineclube quinzenal. Porém ainda é insuficiente, os mais de 300 antigos usuários estão desamparados. Uma ação feita pela Defensoria Pública do Estado de Goiás (DPE-GO) determinou que a prefeitura retomasse as atividades, a qual se nega a retomar, alegando necessidade de ajustes no projeto.

Sou Dagoberto, sou vários outros Após o fechamento não se há notícias exatas de como é a vida dos antigos usuários. Entretanto, Heloiza Massanaro e Marla Castro dizem que é possível afirmar que existem muitos em situação de vulnerabilidade. A dimensão do encerramento das atividades fica ainda mais evidente a partir dos relatos de Heloiza: “ Tivemos uma antiga colaboradora diagnosticada com depressão e que deixou o país para tentar se recuperar. Houve, inclusive um caso mais extremo: o do senhor Dagoberto”. Quem seria esse senhor? Seu nome completo: Dagoberto Rodrigues Filho, um frequentador do Cuca, 68 anos. No centro tocava gaita e pandeiro, se tornou amigo de Carolina Santos, produtora cultural, ela inclusive publicou um texto sobre a amizade entre os dois. Em meio à relatos ela diz que “Dagoberto entrou como oprimido, mansinho, como quem pede desculpa por estar incomodando”. No mesmo texto ela conta como surgiu a amizade entre os dois: “ocorreu que ele quis dividir comigo seu diagnóstico, e me disse que tinha depressão”. Na verdade Dagoberto tinha vários outros transtornos psíquicos. Ele recebeu atendimento no Cuca Fresca durante seu funcionamento, se apegou à sua amiga Carolina e aos outros usuários. Acontece 93


que após a decisão da prefeitura ele não aceitou o fechamento. Como sempre transitou pela cidade de forma independente continuo a ir até o antigo prédio onde era atendido, encontrava as portas fechadas e em seguida ia embora, assim fez por duas semanas. Dagoberto chegou a gravar um vídeo pedindo às autoridades para que o centro não fosse fechado. Na gravação feita pela instituição ele manda recado para o secretário da saúde, e pergunta: “por que o senhor não conversa com o governador para que esse centro não seja fechado? Esse local proporciona lazer aos menos favorecidos”. Ele encerra o vídeo se identificando: “eu sou o Dagoberto, aquele homem pequeno de estatura, mas que tem coragem de falar o que é necessário”. Porém as autoridades se recusaram a escutar o apelo do homem que viria morrer semanas depois. Um mês após o fechamento, a fragilidade de Dagoberto não suportou o desamparo. Durante uma provável crise não retornou para casa, foi encontrado dentro de uma torre de alta tensão. A torre que estava abandonada, havia sido deixada em um canteiro central da cidade pela companhia de distribuição de energia elétrica: Celg Distribuição S.A. (Celg D.). Apesar da torre fazer parte de uma obra paralisada, a empresa não a havia retirado, alegando estar esperando a retomada dos trabalhos. O que o corpo de bombeiros diz, é que provavelmente o senhor tenha entrado para se abrigar e não conseguiu sair. Dagoberto foi vítima direta da inexistência de políticas públicas para atendê-lo. Para Marla, outros inúmeros foram afetados: “alguns antigos usuários de drogas voltaram a fazer o uso. Moradores de rua voltaram aos seus antigos lugares de vulnerabilidade”. Mas ainda há expectativa de que o centro seja reaberto. Após a decisão da DPE-GO, a prefeitura de Goiânia terá que, em algum momento, retomar as atividades. Apesar disso, Heloiza Massanaro diz que a decisão não especifica o local, a estrutura e a forma como será esse serviço: “quando for retomado, nos preocupa muito como será o formato”. 94


Há fôlego na região leste Ao contrário dos outros dois bairros já citados, no Jardim Novo Mundo a situação é completamente diferente. No bairro há um centro de convivência, inclusive recém-inaugurado. O Centro de Convivência do Adolescente (CCA) se encontra no segundo bairro mais violento da capital. É gerido pela Organização das Voluntárias de Goiás (OVG), uma instituição do Governo Estadual. Após marcar uma visita com antecedência, a gerente recebe a reportagem. Leidyanna Aguiar expõe um constante tom de orgulho quando fala sobre o local que administra. Para Leidyanna, o foco do CCA é trazer atividades que façam os jovens exercerem cidadania, diz ainda que o centro propõe diversas ações dentro e fora do prédio: como a realização de passeios pela cidade. Outro ponto destacado por ela é que o projeto não exige frequência escolar, ela diz que “a maioria dos projetos sociais exigem que os usuários estejam na escola, nós não colocamos isso como critério para ele frequentar o centro. O nosso objetivo é apoiar o retorno para a escola”, explica a gerente do centro. Hauã Santos, Alex Gomes e Kelly Tayne, todos com 14 anos são frequentadores. Eles contam como é a rotina no centro. Alix diz que antes do CCA ele ficava em casa o dia todo e que gosta muito do local: “chegava da escola, e só ficava assistindo TV e no celular”. Hauã diz que era sedentária e a prática de esportes mudou a sua rotina. Kelly Tayne conta que durante as férias foi a passeios proporcionados pelo CCA, só ao cinema foi duas vezes, e relata: “antes 95


eu nem saia de casa”. Kelly ainda conta mais uma vantagem: o número de amigos aumentou depois de sua entrada no centro. Com toda sua estrutura terá o CCA seu futuro garantido? A gerente diz que a ideia é expandir o número de vagas. Mas não estaria o Centro de Convivência do Adolescente com o futuro traçado a se assemelhar com o Cuca Fresca? O Cuca também apresentava um serviço eficiente. Resta esperar e torcer um por uma consolidação e expansão desses locais. Somando os quatro atuais centros de convivência de Goiânia são cerca 500 vagas para a população composta por quase um milhão e meio de pessoas.

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TEXTO Miguel Souza Natalia Cruz ILUSTRAÇÃO ElenaBs / Alamy Stock Vector FOTOS DIAGRAMAÇÃO Natalia Cruz

A acessibilidade é necessária na vida do ser humano, tendo ele deficiência ou não: este é um conceito indissociável da dignidade humana. O apagamento de pessoas com deficiência está presente na mídia e no cotidiano, sendo a falta de acessibilidade um indicativo disso. A constituição brasileira define acessibilidade como “possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e autonomia, de espaços, mobiliários, equipamentos urbanos, edificações, transportes, informação e comunicação, inclusive seus sistemas e tecnologias, bem como de outros serviços e instalações abertos ao público, de uso público ou privados de uso coletivo, tanto na zona urbana como na rural, por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida”. Segundo pesquisa realizada pelo IBGE em 2010, pelo menos 24% da população brasileira tem algum tipo de deficiência. Negar a acessibilidade a essas pessoas é também violar o direito de ir e vir e ignorar a existência de cerca de 45 milhões de brasileiros. Professor da Universidade Federal de Goiás e integrante do corpo docente do programa de pesquisa e pós-graduação em geografia (mestrado e doutorado), Tadeu Alencar Arrais debate sobre essa questão: “Pensamos e administramos nossas cidades a partir de médias. E o que é a média? É masculina, primeiramente, na história da cidade não há muito espaço para crianças, idosos e mulheres. Então esse é o primeiro corte. O segundo é, como podemos identificar na história das cidades, a exceção que responde por qualquer tipo de “deficiência” que fuja aos padrões da publicidade.” 101


“Esses grupos esquecidos sempre existiram, porém, estavam protegidos da esfera pública pela esfera privada, algo que ainda acontece em nossa sociedade”, explica o professor. A falta de acessibilidade não é só arquitetônica, ela entra em âmbitos comunicacionais, informacionais e pedagógicos. O censo demográfico de 2010 ainda apontou que 44,9% dos brasileiros acima de 15 anos com algum tipo de deficiência não possui o ensino fundamental completo. Por isso a importância do apoio de instituições escolares na inclusão de pessoas com deficiência. Combatendo essa barreira pedagógica, a professora Vanessa Helena Santana dirige o Núcleo de Acessibilidade da Universidade Federal de Goiás (UFG). Segundo ela, “atender a formação de professores e profissionais mais inclusivos é um papel de todos os cursos da UFG que está previsto na Lei. Fazemos eventos constantes para minimizar a barreira atitudional e fazer formação com a comunidade acadêmica.” O Núcleo conta com projetos como Dançando com a diferença, Biblioteca acessível, rodas de conversa sobre inclusão e acessibilidade, seminários sobre acessibilidade e outras ações cujo intuito é diminuir a barreira atitudinal entre os estudantes. Além dos diversos eventos realizados dentro da universidade, Núcleo de Acessibilidade também tem parceria com projetos como O Centro de Referência em Desenvolvimento do Halterofilismo Paralímpico, que treina atletas para competições. O projeto surgiu na intenção de melhorar a qualidade de vida de pessoas com deficiência e apresentar o esporte em suas vidas. O medalhista de ouro Agnaldo Ferreira, afirma que o governo tem a responsabilidade de tirar pessoas com deficiências 102

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a esquerda pra direita, respectivamente: Agnaldo Ferreira Lima, Augusto Martins, Ramon Fernando e Karlos Eduardo Souza Abreu.

de situações difíceis e levá-las para o esporte: “Se o governo ajudasse e trouxesse as pessoas pra cá seria uma oportunidade de tirar muita gente do mundo das drogas. Conheço muitos que vivem nessa vida.” O esporte também entra na vida das pessoas como uma forma de socialização. É o que conta o preparador físico do Centro, Ramon Fernando, que afirma que muitas vezes a pessoa com deficiência pode se sentir isolada do mundo, e o treinamento além de uma forma de manter a saúde, também uma 103


forma de integração à sociedade: “Quando começam a se relacionar com outras pessoas e vem treinar, elas percebem que tem possibilidade de socialização. Elas se sentem mais à vontade, conversam, riem, trocam experiências.” A organização do espaço urbano não é neutro, é uma forma de discurso político e social. “Cada sociedade, em seu tempo histórico, produziu um determinado espaço e também foi reproduzida em um determinado espaço.”, explica o professor Tadeu Alencar Arrais. Segundo ele, a história da cidade é a história “contínua, cotidiana, invisível, de luta pela sobrevivência dos mais pobres”. “A história da cidade não é uma história feita de documentos ou relatos heroicos. É a história do conflito, do impedimento de viver e frequentar determinados lugares. Do grande conflito e também de milhares de conflitos que não tem espaço da agenda dominante.” Preparador físico Ramon Fernando e o atleta Karlos Eduardo Souza Abreu.

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As políticas de inclusão e o advento de ferramentas que permitam a capacitação e acessibilidade de pessoas com deficiência são de suma importância para a inserção desse grupo na sociedade. Além disso, a cooperação mútua entre os indivíduos de determinada comunidade é um meio facilitador do processo de inclusão social. Um exemplo disso é a rede social Twitter, que possui recurso para que usuários descrevam imagens às pessoas com deficiência visual. Em um primeiro momento, a possibilidade de legendar imagens postadas no site causa um estranhamento em quem nunca parou pra pensar que deficientes visuais também utilizam redes sociais. O processo de inclusão é construído no cotidiano e é necessário que todos contribuam para que se possa avançar nesse ponto. Habituados desde cedo a interpretar o mundo baseando-se em nossas experiências pessoais, inconscientemente temos comportamentos e práticas capacitistas. Capacitismo é definido como o preconceito direcionado a pessoas com qualquer tipo de deficiência. Como o próprio termo sugere, é enxergar pessoas com deficiência como indivíduos incapazes, inferiores, inaptos a viver autonomamente. O termo “pessoa com deficiência” é amplamente difundido e aceito atualmente. A ideia é que a pessoa venha antes da sua deficiência e não o oposto. Termos como “portador de necessidades especiais” e “portador de deficiência” reforçam a exclusão e segregação, já que a palavra “portador” é terminologia médica e remete à doença. Dar acesso não é nenhum favor. O direito de pessoas com deficiência de viverem as suas vidas de forma autônoma é uma obrigação social. Obrigação, atualmente negligenciada.

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SENTIR DE OUTRAS 106

PELE(O)S


TEXTO DIAGRAMAÇÃO Gabriela Gregório Samuel Leão

Ao acordar numa ensolarada manhã de sábado, percebi que iríamos passear, de imediato fiquei muito animado e não pude conter minha alegria, fui correndo abraçar meus donos. Infelizmente, estava com fome e um pouco fraco, pois já não comia há dias, mas tudo isso foi amenizado quando me convidaram para dar uma volta de carro. Andamos por vários minutos, até um lugar que tinha imensos campos verdes, queria muito brincar lá. Enquanto descia do carro, na iminência de poder correr livremente, percebi que o carro dos meus donos começou a se distanciar. Alguma coisa deveria estar acontecendo, fiquei muito preocupado e me dispus a correr atrás do veículo por quilômetros, até ficar sem fôlego e toda minha força esvair-se do meu magro corpo. Então, decidi esperar, tinha a convicção que eles voltariam quando percebessem que eu não estava mais com eles. Esperei por muito tempo, consegui contar a luz do dia se acender e apagar quinze vezes, contudo não me dei por vencido. Fui até um lugar de pedras, onde muitos carros como os dos meus donos passavam, era tudo muito rápido, não entendia o sentido daquilo. Esperei por ali, alguns daqueles carros deveria ser da “mamãe”, afinal ela dizia que me amava, que eu era seu “filho” e nunca me abandonaria. No momento que pensava nela, um daqueles carros veio na minha direção, pensei que seria minha mamãe, foi a última coisa que pensei até acordar em um lugar totalmente desconhecido.

FOTOS Gabriela Gregório

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Segundo os relatos de Carlos Oliveira, membro da ONG Vida Lata, Thor foi resgatado atropelado em uma rodovia no interior de Goiás, próximo à cidade de Trindade. Thor é um labrador de cinco anos, de raça pura e muito dócil. O cão foi abandonado pelos donos, possivelmente após descobrirem que ele sofria de um tumor no baço. Segundo Carlos, é muito comum cães serem abandonados pelos donos depois de descobrirem que estes sofrem de uma doença. Thor estava desnutrido e desidratado por m u i t o tempo e extremamente debilitado, seu tumor crescia progressivamente e devido ao atropelamento, teve uma pata amputada. Diferente do deus Thor da mitologia nórdica, o labrador não foi cultuado pela humanidade, não é visto como um símbolo de proteção e não é imune a todos os males. Mas como seu homônimo, a imagem do cão é ligada diretamente com a força sobre-humana e a cura. A determinação do cachorro compadece muita gente, não só da ONG, mas também nas redes sociais e principalmente de seus novos donos. Thor foi adotado há cerca de dois meses e agora vive feliz e saudável em seu novo lar. O destino de Thor, não é o mesmo de milhões de animais que vivem nas ruas. Conforme a Organização Mundial da Saúde, só no Brasil existem mais de 30 milhões de animais abandonados, entre 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães. Em cidades de grande porte, para cada cinco habitantes há um cachorro. Destes, 10% estão abandonados. No in108


terior, em cidades menores, a situação não é muito diferente, em Anápolis, por exemplo, são mais de 50 mil animais, estimando 5 mil abandonados. As responsabilidades públicas com os animais se dividem em vários órgãos. O cuidado de animais silvestres é prioritário do IBAMA, além da delegacia do meio ambiente que pode intervir tanto nesses casos quanto em agressões à natureza sem animais ou vítimas diretas. O Estado de Goiás possui apenas uma delegacia do meio ambiente, número considerado insuficiente para atender aos mais de 30 municípios que apresentam demandas no Estado. ONGs e Associações também desempenham importante papel principalmente no resgate de pets debilitados em meio urbano e em suas recuperações. Outro órgão de extrema importância, porém pouco conhecido pela população, é o Centro de Zoonoses, que trabalha especificamente na prevenção e no combate de doenças que circulam entre a população animal e/ou humana. Em entrevista, o profissional José Luís Ribeiro, Médico Veterinário, funcionário de carreira na Prefeitura de Anápolis desde 2002 e atual coordenador do Centro de Controle Zoonoses (CCZ) do município, esclarece e detalha a realidade do trabalho no combate às mais diversas formas de risco e violência animal. Nas palavras do veterinário, as pessoas confundem o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), na verdade ele não é voltado ao bem estar animal, apesar de maus-tratos ou recuperação serem também abordados, entretanto a função primordial desse órgão é o controle de pragas e doenças que circulam entre a população pet, silvestre e humana. 109


Ainda segundo José Luiz Ribeiro, a instituição foi inaugurada em Goiás na década de 80. O foco era na erradicação da raiva canina, principal zoonose até então e antes motivo de óbito. Felizmente foi erradicada nos anos 2000, apesar de ainda encontrada em morcegos, porém de forma que não atinge a população. Outra endemia encontrada é a Leishmaniose Viceral Humana, consequentemente a canina também. Não há registro de contaminação no município de Anápolis, apenas é encontrada em regiões de grandes lagos e extensões aquáticas, alguns focos goianos são a região de Corumbá, Pirenópolis, Goiânia e Distrito Federal.

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Além disto, o CCZ trabalha com campanhas de conscientização, principalmente com palestras em escolas sobre posse responsável de animais, o que é o primeiro contato com a população para prevenir situações de maus-tratos. Infelizmente, o Brasil não tem leis eficazes para defender os animais, apesar da Lei 9605/98 (Lei de Crimes Ambientais) prever os maus-tratos como crime, a justiça é lenta e as punições são leves, como apenas pagar multas. Enquanto a justiça não faz sua parte, cabe a ONGs como a Vida Lata e O Recanto dos Anjos Peludos tentarem minimizar o abandono, mesmo de maneira improvisada. Enquanto uns fazem tudo para ajudar, como Lucíola Cascão que administra o Recanto dos Anjos Peludos e cuida de mais de 230 cães sozinha, outros vão pelo caminho oposto. Um canil em Osasco, na Grande São Paulo, mantinha mais de 135 animais sobre condições inóspitas. O caso foi noticiado pela ativista Luisa Mell, protetora dos animais, seu instituto recebeu uma denúncia no dia 27 de setembro de 2017 sobre as más condições em que se encontravam os cães e de que estes eram espancados. Os cachorros estavam amontoados em um canil certificado que funcionava em uma casa de alto padrão. Sem banho e alimentação correta, tinham fezes grudadas nos pelos, diversas doenças e nítidos sinais de espancamento. Foram encontrados nove corpos de filhotes no lixo. Os animais foram levados todos para a ONG da ativista. O resgate contou com o auxílio da Polícia Civil, Centro de Controle de Zoonoses e Vigilância Sanitária. No local, foram identificados cães da raça Yorkshire, Lhasa apso, Pug e Labrador Golden. O local vendia filhotes para pet shops. Toda esta violência era acobertada por médicos veterinários e sustentada pelo lucrativo comércio de animais. Os cachorros ainda estão sob custódia judicial e permanecem no Instituto Luisa Mell, esperando para serem adotados, e o canil ainda não recebeu punições. 111


A repercussão do resgate foi muito positiva, os vídeos feitos por Luisa viralizaram e fez um grande número de pessoas entenderem o quão nocivo é o mercado de vendas de animais e que é necessário denunciar os maus-tratos, vidas dependem de uma queixa. Essa é a melhor maneira de combater os crimes contra animais. Quem presencia o ato é quem deve denunciar. Deve haver testemunha, fotos e tudo que puder comprovar o alegado. Ameaça de envenenamentos, bem como envenenamentos de animais, também podem e devem ser denunciados. O decreto 24645/34 (Decreto de Getúlio Vargas) determina quais atitudes podem ser consideradas como maus-tratos conforme a lei 9605/98. Abandonar, espancar, golpear, mutilar e envenenar; manter preso permanentemente em correntes; manter em locais pequenos e anti-higiênico; não abrigar do sol, da chuva e do frio; deixar sem ventilação ou luz solar; não dar água e comida diariamente; negar assistência veterinária ao animal doente ou ferido; obrigar a trabalho excessivo ou superior a sua força; capturar animais silvestres; utilizar animal em shows que possam lhe causar pânico ou estresse; promover violência como rinhas de galo e farra-do-boi. É válido lembrar que a violência animal não se estende somente a animais domésticos. Um exemplo disto é o fato de que mais de 15 animais morrem nas estradas brasileiras a cada segundo. Diariamente, morrem mais de 1,3 milhões de animais e ao final de um ano, até 475 milhões de animais selvagens são atropelados no Brasil. Estes dados são recolhidos pelo o “atropelômetro”, uma iniciativa do CBEE, a qual estima em tempo real o número de vertebrados terrestres silvestres mortos por atropelamento nas rodovias brasileiras. 112


O resultado é tão assombroso porque a grande maioria dos animais mortos por atropelamento são pequenos vertebrados, como sapos, pequenas aves e cobras. A estimativa é a de que morrem aproximadamente 430 milhões de pequenos animais. O restante dos 45 milhões se dividem em 40 milhões de animais de médio porte, como gambás, lebres e macacos. E 5 milhões são de grande porte, como onça-parda, lobos-guarás, onças-pintadas, antas e capivaras. A maior parte do atropelamento ocorre na região Sudeste, especialmente no estado de São Paulo, seguida pelo Sul, Nordeste, Centro-Oeste e Norte, sucessivamente.

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Sob a perspectiva de um personagem urbano O empresário Valtercides Pereira da Silva, atualmente aposentado e morador do mesmo local há mais de 40 anos, relatou sua vivência e suas percepções da região, local onde pode-se facilmente encontrar vacas pastando em meio ao lixo urbano e outros animais domésticos desamparados em situação de rua. Valtercides vive a realidade de muitos cidadãos que vivem às margens da cidade, onde o descarte do lixo não possui tamanha eficiência e a vida silvestre ainda coexiste vagando entre os pastos e as ruas. Apesar de não possuir animais em casa, ele não pôde deixar de perceber a realidade que o cerca, vindo do meio rural, sempre teve relações muito naturais e respeitosas com os animais que conviveu. O aposentado conta que foi o segundo morador de seu bairro e vive no lugar desde 1978. De acordo com Valtercides: “Na época os animais eram todos soltos pelas ruas, mas com tempo a região cresceu, um ano e seis meses depois que chegamos, foi asfaltada e recebeu energia elétrica. Desde sempre tivemos problemas por morarmos na beira de um morro e as pessoas descartarem lixo aqui, sempre havia cães mortos ou outros animais jogados aqui tarde da noite. Quanto aos cavalos, vacas e outros animais maiores, o problema está nas cercas que sempre se rompem e os animais das fazendas ao redor daqui acabam entrando para cidade e mexendo no lixo.” Ao perguntá-lo sobre as atitudes do poder público ele afirma que desconhece iniciativas ou ações da prefeitura para ajudar com estes animais, tanto os de rua quanto os mortos jogados aqui. Tudo que o governo costuma fazer é enviar garis para limpar o excesso de lixo do morro, porém apenas anualmente. Em relação aos animais mortos, nada é feito. Sobre animais silvestres e pássaros, a resposta foi : “Ah, mas sempre houve pardal, é uma praga esse bicho, dá o ano inteiro. De vez em quando aparecem alguns 114


pombos da cidade por aqui, mas como sabemos que eles são sujos e possuem doenças, tentamos espantar sempre. Espantamos também as matracas que aparecem, mas aí já é por causa do barulho irritante. Ultimamente o povo daqui está alimentando dois casais de seriemas (pássaros silvestres de grande porte, tradicionais do cerrado) e por isso eles voltam e piam alto, bonito todo fim de tarde.” Frente ao mundo animal que nos cerca, percebe-se que talvez o homem seja o único ser que invade o território do outro. Que agride sem ser ameaçado. Que abandona sem ter motivo. Que maltrata sem justificativa. Que reclama por ser importunado por animais, sendo que o ambiente em que vivemos é tão deles quanto nosso. E que tem a capacidade de racionalidade, mas não usa. Divulgar e mostrar a realidade é necessário para entendermos o que acontece diante de nossos olhos, mas ninguém parece enxergar. Combater o problema é fundamental. Mais importante ainda é não deixar que ele aconteça. Sabemos que todos precisam ter direito a vida e nós humanos com certeza somos minoria perante aos demais habitantes da Terra. Por isso devemos respeito. 115


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Por meio de caixas de som espalhadas pelo perímetro do Terminal Isidória, em Goiânia, uma voz aveludada, com texto da Secretaria de Segurança Pública do Estado de Goiás, aconselha que os cidadãos protejam seus bens e fiquem atentos, para evitar roubos ou furtos, por exemplo. Caso as infrações ainda ocorram, o telefone da polícia militar é repetido várias vezes ao dia e a ideia de segurança no transporte público chega a ser considerada. No entanto, essa mesma ideia de segurança vai se findando ao se conhecer a realidade do local e do dia a dia dos usuários. Casos de assédio, furtos, assaltos e racismo são mais corriqueiros do que se estima. Situações assim, por vezes parecem adentrar aos ônibus de forma inata e ali fazer morada, quadro já tão naturalizado à rotina, como os empurrões que ocorrem nas filas de embarque. É neste cenário, que cada um vai se virando como pode, entre esconder os pertences, fazer vista grossa, ou dar a cara a tapa à própria sorte ao ver uma situação de violência. Esta última opção é bem conhecida de João Batista da Silva, 53. Ele, que já presenciou situações de assédio diversas vezes, quando o vê, sempre fala ou tenta avisar, não tendo medo das consequências que seu ato pode ocasionar. João Batista justifica sua postura: “Se fosse com minha filha ou esposa, eu não iria gostar”. A empatia – ou senso de justiça – de João Batista, às vezes, também pode se manifestar de modo coletivo. Foi o que aconteceu com Irene de Carvalho, 57. Ela, que já sofreu com racismo, 15 anos antes de ter a idade atual, foi agarrada pelo cabelo e sentiu, encostado contra si, um homem desconhecido, mas denominado de “monstro”, que insistia em encostá

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Texto Diagramação Letícia Gontijo Maiara Dal Bosco Ilustração Eduardo Spicacci

la e dizer que ela deveria ficar quieta e aceitar o que estava acontecendo. Foi aí que a população fez com que o motorista parasse o ônibus e fizesse o homem descer, para alívio Irene, que recorda que antigamente tinha que ficar calada nesse tipo de situação, mas que hoje a Lei Maria da Penha ampara as mulheres, e que atualmente não tem mais tanto medo de andar de ônibus, apenas de assaltos. É fácil encontrar quem tenha medo de assalto, ou mesmo tenha presenciado algum dentro de um ônibus ou terminal. Francisca dos Santos, 47, precisa fazer uso do Eixo Anhanguera para se deslocar até o trabalho, mas sempre que pode vai para outros terminais com a finalidade de achar um caminho alternativo. O motivo, Francisca contou: “Já fui furtada no Eixo sem perceber. Tiraram o celular da minha bolsa”, o que ela mesma também já viu sendo feito com outras pessoas, mas que, segundo ela, não se pode avisar quem está sendo roubado porque é perigoso, lamentou. Em circunstâncias assim, além de esconder os pertences para se precaver, Denis Marcos Santos, 23, dá a receita a quem precisa usar o transporte: “Tem que ter fé”, destacou o jovem que já presenciou uma abordagem delituosa no coletivo parado. Para além dos relatos dos usuários, surge a vivência de uma figura que sempre está presente no

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transporte, o motorista do ônibus. Amarildo Alves, 51, trabalha há 10 anos nessa função em Goiânia e já testemunhou enquanto trabalhava, não somente roubos de celulares, mas também arrastões e esfaqueamento. No entanto, tomar atitude diante da violência presenciada, no caso desse profissional, pode ser ainda mais complicado: “não tem como fazer nada, pois somos marcados nas linhas pelos bandidos. Todos os dias estamos na mesma linha, no mesmo horário, só podemos abrir a porta e deixá-los sair” lastima Amarildo, que gosta da profissão que escolheu, mesmo com os perigos diários que esta apresenta, mesmo com a rotina puxada de quem levanta todos os dias às 02:30 da manhã para ir trabalhar. Amarildo tem medo da violência urbana e em meio à sua simpatia, explica: “tenho medo pois tenho amor à vida. Quem não gosta de viver?” – questiona, sorridente. As pessoas que utilizam o transporte coletivo da capital, de modo geral, têm ideias e anseios acerca do que poderia ser feito para melhorar as condições de segurança no transporte. Os usuários acreditam que deveria haver mais policiamento nos terminais e também no interior dos ônibus, com a presença de policiais à paisana para coagir a prática de novos delitos, câmeras de monitoramento nos veículos para agir depois da ocorrência da infração de fato, ajudando no reconhecimento dos suspeitos e como medida preventiva. E até mesmo alterações na legislação brasileira para que ela se torne mais rígida nesses parâmetros. Outro aspecto mencionado é a quantidade de pessoas transportadas por vez em cada viagem. Para o usuário Wilson Vilassa, 50, não existe um transporte digno devido à superlotação. Ele acredita que o uso de um sensor que indique que o veículo atingiu a lotação, não permitindo a entrada de mais passageiros, diminuiria a 118


violência no meio. Uma medida similar é exposta pelo capitão do Quadro de Oficiais da Polícia Militar, Johnathan Tarley Alga dos Reis Rodrigues, que é coordenador dos Conselhos Comunitários de Segurança do Estado de Goiás (CONSEG), e está no cargo há cinco anos. Ele afirma que o Conselho Comunitário de Segurança, que é interligado à Secretaria de Segurança Pública do Estado, existe há 30 anos e possui decreto autorizado pelo governador do Estado

de Goiás com permissão para que a essa Secretaria possa criar, juntamente com as forças policiais, ações para prevenir e antecipar a prática de crimes. Nesse sentido, o capitão Johnathan explica porquê são necessárias medidas preventivas: “as pessoas conseguem ver apenas o superficial, que é o ponto de vista repressivo, mas existem outras coi119


sas antes que podem ser feitas, pois o problema de segurança pública não é um problema de polícia, e sim um problema de política pública.” Para ele, onde não tem política pública que atende a demanda da comunidade, por consequência haverá um problema policial. Johnathan completa dizendo que a polícia trabalha na consequência do crime, e a ideia do CONSEG é quebrar a visão repressiva que se tem, o que explica, segundo ele, a polícia ser tão requisitada como solução de conflitos. Johnathan entende que o CONSEG atua como controle social, pois seus trabalhos são voltados para a prevenção da violência, por meio de projetos e também acionando outros órgãos que são responsáveis. O capitão explica que com um ambiente saudável, a prática de crimes seria menos provável. Sobre isso, a SSP já tomou, inclusive, algumas providências. Uma delas foi trazer a Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC) para dentro da Secretaria, com o intuito de monitorar os veículos públicos. Com isso, ambas agem em parceria para que esse monitoramento seja efetivo e os problemas identificados. Em caso de assaltos, agressões e assédios dentro do transporte coletivo, a orientação é que a vítima faça a solicitação do envio de viaturas de polícia ao local. Após o pedido, essa viatura chegará o mais rápido possível, para que a situação seja resolvida dentro dos trâmites legais.

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Ao conversar com usuários do transporte coletivo no Terminal Isidória, constatamos que mais de 65% dos entrevistados já sofreram ou presenciaram algum tipo de violência no transporte coletivo, entre roubos, furtos, agressões e assédios. Metade das mulheres entrevistadas já presenciaram ou sofreram alguma situação de violência no transporte coletivo. Diante disso, a CONSEG criou o Conselho Comunitário de Segurança de Mulheres. As mulheres deste Conselho fazem parte de um grupo para tratar especialmente a violência contra a mulher dentro dos ônibus. A prioridade do grupo é cumprir uma agenda na empresa de transporte coletivo Metrobus, que opera o Eixo Anhanguera na capital, para pensar estratégias visando diminuir a violência sofrida pelas mulheres no transporte. É nesse panorama que ações governamentais e privadas vão auxiliando a população que necessita fazer uso do transporte coletivo a prosseguir com sua rotina. Para muitos, esse meio de locomoção é a única maneira viável para realizar atividades diárias, quando vidas não podem parar em razão da violência urbana cotidiana, e persistem, mesmo apesar dos medos e experiências apreensivas.

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TEXTO DIAGRAMAÇÃO Júlia Larissa Letícia Santos FOTOS Letícia Santos

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Em uma segunda-feira, assim como nos outros dias da sua rotina, a estudante Gabriella de Almeida Gomides, de 20 anos, sai apressada da aula com destino ao restaurante onde seus pais trabalham. No transporte coletivo, ela percorre um trajeto da faculdade para o terminal Isidória e de lá recorre a outro ônibus até o centro de Goiânia. Seria mais um dia típico na vida da Gabriella. Mas um acontecimento nesse trajeto não permitiu que fosse. Ao entrar na linha 006, com destino a sua última parada, o setor central, a estudante se ajeitou como pode, já que o ônibus estava lotado. Acompanhada de vários esbarrões que julgava ser normais devido ao horário de pico, Gabriella também percebeu a presença de um homem posicionado com muita proximidade nas suas costas. Sem muito tempo para analisar a situação, seu destino chegou. Caminhando até o restaurante, a estudante constatou que havia acabado de sofrer uma violência no transporte público. “Cheguei ao meu destino e desci. Caminhei até ao restaurante que meus pais trabalham, até que o vento bateu na minha roupa e eu senti aquele negócio molhado e gosmento na minha perna.

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Sem lembrar o rosto do agressor, a jovem preferiu não cogitar a realização de denúncia pois acredita que não surgiria justiça. “Eu não denunciei porque eu não sabia como era a pessoa, fiquei tão desnorteada, não sabia nem o que fazer. Acho que ninguém que estava no ônibus viu o que aconteceu comigo”, diz. Desde o episódio, Gabriella conta que enfrenta dificuldades para voltar a sua rotina e se sentir segura novamente no transporte público. “Depois disso não queria ir mais à faculdade porque eu teria que usar o transporte público e ainda hoje não consigo mais entrar em ônibus lotado. É muito constrangedor lembrar de tudo que passei.” Segundo a delegada Ana Elisa Gomes Martins, titular da Primeira Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher de Goiânia (DEAM), a superlotação nos transportes públicos é um dos motivos que facilitam o agressor de realizar este crime. Para ela, existem muitos mais casos do que são noticiados, além de muitas vezes, a denúncia não ser realizada pela vítima devido à incredulidade nas ações estatais. “Mas o mais correto é a vítima realmente denunciar a agressão, informar as autoridades policiais sobre a violência ocorrida.”

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Processo de apuração e estatísticas A delegada, explica ainda que, a realização de denúncia no caso de crimes sexuais, salvo poucas exceções, dependem da expressa manifestação da vítima. Ela frisa a importância de buscar ajuda imediata ao constatar essa prática de violência no transporte público. “No momento, se não houver um policial próximo, é necessário informar o motorista, para que ele tome as medidas necessárias, como acionar a Polícia Militar pelo número 190 ou até mesmo informar alguma delegacia”. De acordo com uma pesquisa feita pelo Datafolha e encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança, 40% das mulheres maiores de 16 anos sofreram algum tipo de assédio, e 5,2 milhões de mulheres brasileiras já foram vítimas de violência de cunho sexual no transporte público. A história de Ana Karolyna Silva, 23 anos, é mais uma das que não entraram para as estatísticas. No retorno da faculdade ela conta que sentiu uma mão por baixo da blusa que estava em seu colo. “Eu estava no ônibus e como a distância era muito grande até minha casa, acabei cochilando, enquanto isso, sentou um senhor do meu lado e começou a passar a mão na minha perna. Quando despertei me deparei com aquela mão, quando olhei para ele, imediatamente se levantou e saiu. Eu estava sonolenta e no momento demorei a entender a situação, logo depois a minha ficha caiu e eu compreendi o que havia acontecido.” Ao ser questionada sobre o motivo pela qual ela optou por não realizar uma denúncia naquele momento, a estudante afirma que não soube como agir. “O ônibus estava vazio, não havia muitas pessoas e eu não recorri a ninguém, pois sequer eu lembrava o rosto do senhor, seria como denunciar um anônimo”, conta. 129


A delegada Ana Elisa faz uma ressalva. Explica que muitas pessoas desconhecem o processo de apuração e consideram que o ato puro e simples da denúncia constituiria todo este processo. “Para que o Ministério público formalize a denúncia do agressor é necessário que a delegacia encaminhe os elementos fornecidos pela vítima, como provas e testemunhas, para que haja a comprovação da conduta denunciada. Apenas a fala da vítima contra a do agressor torna o crime insustentável.”

Impunidade e novos casos

Na manhã do dia cinco de outubro, data que a delegada Ana Elisa concedeu a entrevista sobre importunação ofensiva ao pudor, a pequena Ailla, de 11 anos entrou para esta infeliz estatística. Ela estava com sua mãe e seu irmão mais novo indo para a Escola, quando foi surpreendida por um homem na linha 014, sentido Parque Atheneu. A garota estava muito assustada com o que havia acontecido e sua mãe, Adriana Paula Barbosa, relatou o ocorrido. “Aquele homem que chegou algemado. Ele tirou o órgão genital e esfregou na minha filha. No momento do ocorrido eu estava sentada com meu filho mais novo, em um banco um pouco mais a frente do local que ela estava em pé e só percebi o que estava acontecendo quando ela me chamou. A minha primeira reação foi tentar entender o que estava acontecendo, tentar proteger ela. Eu nunca havia presenciado algo assim, apesar de sempre ouvir falar, a gente nunca imagina que possa acontecer com a gente. Costumo fazer o possível para ficar junto deles no ônibus, mas desta vez infelizmente não consegui”, conta. 130


Adriana complementa que o ônibus estava cheio como de costume. “O ônibus estava superlotado e eu atrasada. As pessoas que estavam no ônibus me ajudaram a informar o motorista e o ônibus foi imediatamente parado para aguardar a viatura da polícia chegar. O homem foi imediatamente trazido para a delegacia.” O constrangimento causado por este tipo de violência no transporte público e a impunidade para o autor da ação ainda são os principais motivos do baixo índice de denúncias realizadas contra esses crimes. Segundo Kryshia Freitas, mestranda em História pela Universidade Federal de Goiás e membro do Grupo de Estudos de História e Imagem (GEHIM – UFG), é comum o relato de várias colegas de trabalho ou mesmo alunas que reagiram diante de uma situação de abuso e foram reprimidas. “Ainda que denunciados, os casos de assédios têm se mantido pois para além de termos uma legislação extremamente falha neste sentido, a mulher ainda é culpabilizada pela sua agressão”: “Mas também, isso lá é tamanho de roupa para andar na rua?”, “O que você estava fazendo na rua sozinha?”, “Larga de ser boba, não da moral! É assim mesmo”, diz.

Designação dos termos

A delegada Ana Elisa explica que na maioria das vezes a utilização do termo “assédio sexual” não é correto para designar essa violência no transporte público, sendo substituído por Importunação ofensiva ao pudor. “O termo ‘assédio sexual’ só pode ser utilizado para caracterizar crimes por hierarquia. Sempre um chefe e um subordinado. A ‘violação mediante fraude’ caracteriza os crimes sexuais que o criminoso aproveita da situação 131


em que a vítima não se encontra em condições para manifestar sua real vontade no momento. E o termo ‘importunação ofensiva ao pudor’ é uma contravenção penal, utilizado para definir o crime que o autor utiliza termos que causam constrangimento para coagir a vítima e diferentemente do estupro a vítima consegue sair da situação”. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública e Penitenciária de Goiânia (SSPAP) entre janeiro e agosto de 2017 foram registrados 46 casos de importunação ofensiva ao pudor. No mesmo período do ano de 2016 foram registrados 58 casos. Mediante tantas ocorrências, Ana Elisa responsabiliza a legislação por não ter abraçado a necessidade de criar uma lei inter-

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mediária entre estupro, considerado um crime pesado e importunação ofensiva ao pudor, uma contravenção penal muito leve. “A importunação ofensiva ao pudor se trata de uma contravenção penal que não dá cadeia pra ninguém”, desabafa.

Objetificação feminina na mídia

Para Kryshia Freitas, o hábito de sexualizar a mulher nos meios de comunicação intensifica ainda mais a perpetuação do machismo e faz com que a violência com a mulher ultrapasse além do transporte público, tantos outros espaços físicos na sociedade. “Assistimos a programas de entretenimento ou propagandas que utilizam

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a figura da mulher utilizando poucas roupas para assegurarem a audiência ou público consumidor para um determinado produto. Assim, o modo como a mulher é representada associa o corpo feminino a um objeto de desejo. Este trejeito por sua vez, alude que a mulher seja passível de aquisição da mesma forma que um produto de valor comercial. Sobretudo, quando a mulher expõe o seio em um ambiente público para alimentar ao seu filho é descriminada e tolida.” Para ela, as politicas públicas são fundamentais na reversão dos casos de violência sexual no transporte público. “Acredito que caiba as políticas públicas terem um maior cuidado na lida com esses casos de violência, os tratando com máxima importância e

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que seja ressaltado a necessidade de se reformular o Código Penal no que tange as leis que envolvam a dignidade sexual”. Outro problema que agrava a sensação de insegurança e a ocorrência do machismo é a dificuldade da população em compreender práticas, conceitos e comportamentos que dizem respeito a vida social. “Dificilmente o sentimento de impunidade será alterado enquanto nós, sociedade, não tivermos consciência sólida do que vem a ser: feminicídio, misoginia, machismo, violência doméstica. Trata-se de esclarecimentos fundamentais para que a mulher deixe de ser considerada um ser inferior e por consequência, ter o seu corpo ou psicológico violado”, complementa Kryshia.

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TEXTO FOTOS Leicilane Tomazini Frederico Oliveira ILUSTRAÇÃO Helô D’Ângelo Carlos Latuff DIAGRAMAÇÃO Ana Carolina Petry

Dados do Ministério da Saúde de 2010 apontam que a cada 11 minutos uma mulher é violentada no Brasil. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cerca de 15 mulheres são assassinadas todos os dias no país. Em relação a outro terrível crime, o estupro, o IPEA aponta que mais de 50 mil mulheres são estupradas por ano, sendo que 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos. Esses são só alguns dados do imenso problema de segurança pública que atinge as mulheres brasileiras, e o feminicídio é mais um com o qual se preocupar. Segundo o Mapa da Violência, elaborado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que a analisa o problema em 83 países, o Brasil ocupa a 5ª posição com as maiores taxas de feminicídio. Em 2010, o país ocupava a 7ª posição no ranking, com uma taxa de 4,4 homicídios de mulheres por 100 mil. Três anos mais tarde, em 2013, houve um aumento de 9% no número de assassinatos, com uma taxa de 4,8 mulheres mortas, deixando o país na 5ª posição, somente atrás de El Salvador, Colômbia, Guatemala e Federação Russa. 137


Sobre a lei

O conceito de feminicídio surgiu na década de 1970, a fim de conceder visibilidade à discriminação contra a mulher, que em sua forma mais grave culmina na morte. A lei nº 13.104, de 9 de março de 2015 altera o art. 121 do Código Penal, para prever o feminicídio como circunstância qualificadora do crime de homicídio, e o art. 1º da Lei nº 8.072/90 inclui o feminicídio no rol dos crimes hediondos. Segundo a lei, o feminicídio consiste no assassinato cometido contra a mulher por razões da condição do sexo feminino, ou seja, trata-se de um crime que inclui desde abusos verbais, físicos e sexuais, até diversas formas de mutilação resultando na morte da vítima. Segundo a advogada Carolina Sidião, para que ocorra o crime é preciso levar em consideração a “intenção de quem está matando, se o assassino está matando em razão do gênero”. Além disso, ressalta também que apesar de a maioria dos assassinos serem homens, o feminicídio também pode ocorrer quando uma mulher mata outra pelo mesmo motivo, ou seja, pelo simples fato desta ser também mulher. Segundo ela, uma estratégia bastante comum utilizada para diminuir a pena dos criminosos é a alegação de que estes estavam sob “forte emoção” quando cometeram o crime. A pena para quem comete o crime aumentará de um terço até a metade diante de três situações: durante a gravidez ou três meses após o parto; se for cometido contra menores de 14 anos, maiores de 60 anos ou mulher com algum tipo de deficiência e se for cometido na presença de parentes da vítima. A pena para o homicídio qualificado, como é o caso dofeminicídio, é de reclusão de 12 a 30 anos. 138


Batalha constante

Para ressignificar o conceito de mulher em nossa cultura, retirando-a do papel de sexo frágil e principalmente de culpada por algum tipo de crime que lhe aconteça, deve se iniciar a mudança na educação dos filhos justamente no local onde são cometidos os maiores números de violência contra a mulher, em casa. A partir da quebra dessa visão patriarcal, sexista e misógina é possível obter uma nova configuração do papel da mulher na sociedade. Papel esse que lhe é mais do que um direito; que deve ser encarado como um dever de todos na tentativa da resolução de um problema histórico que deve ser imediatamente combatido. Apesar da resistência de alguns órgãos do judiciário em enquadrar homicídios cometidos contra as mulheres como feminicídio, a criação da Lei amplia a discussão a respeito do tema. De acordo com a professora da Escola de Direito de São Paulo da FGV Marta Machado, estudos revelam que o índice de mulheres que pedem ajuda antes do assassinato é baixo, seja por questões culturais, seja pelo histórico de violência doméstica sem intervenção do Estado ou por falha na aplicação de medidas protetiAr te :R vas. A denúncia de qualquer tipo ep ro du çã de violência contra as mulheres é o a melhor forma de alertar a sociedade sobre o problema, para que ass i m , sejam criadas medidas que protejam o direito à vida das vítimas e punam os criminosos. A vítima deve denunciar o crime em uma delegacia de polícia ou ligar para a Secretaria de Políticas para as Mulheres através do número 180. 139


Faces do feminicídio

O homicídio que vitima as mulheres unicamente por sua condição de sexo, agora é configurado na Lei do Feminicídio. Acerca disso, uma questão pode ser levantada: a inserção do feminicídio no hall dos crimes hediondos é eficaz na redução desses atos? A princípio, é necessário o entendimento de que a violência de gênero envolve uma determinação social dos papéis masculino e feminino. A problemática tem início quando esses papéis são socialmente percebidos de maneiras diferentes, quando o sexo masculino é supervalorizado em detrimento do feminino. Assim, as relações violentas são induzidas por essa imposição de papéis entre sexos. Em pesquisa realizada pela internet, um grupo variado de pessoas, incluindo homens e mulheres de diferentes faixas etárias – majoritariamente jovens de 18 a 25 anos, concluiu que a medida que caracteriza o feminicídio como crime hediondo não é eficaz para reverter esse quadro. As causas do problema devem ser resolvidas em sua essência. É claro que punições mais severas podem diminuir os casos de violência doméstica, entretanto, dada a complexidade de ão duç um assunto que envolve uma hepro e R e: Art rança patriarcal e machista, é imprescindível que se discutam mecanismos que deem às mulheres o suporte devido.

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Diana

Enquanto dava seu depoimento, em seu próprio quarto, Marlene colocou um DVD do aniversário de 15 anos da filha, ao fundo músicas gospel compunham o momento e aumentavam a emoção. Ela começou a contar a trajetória de sua menina. “Nós éramos muito coladas, até selinho a gente dava, muita gente não entendia, mas era uma forma de carinho entre nós duas.” Diana tinha apenas 12 anos quando conheceu Álvaro, ele por volta de 40. A mãe não se preocupou com aquela aproximação porque achava que não causaria mal nenhum à filha. Mas a relação dos dois foi além. De funcionária Diana passou a ser a namorada. Três anos depois ela teve seu primeiro filho - o primeiro dos quatro que viriam pela frente, a partir dali a menina cheia de vida foi perdendo o brilho e ganhando hematomas.

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Álvaro a espancava. “Ele batia nela quase todos os dias”, relembrou a mãe. Os anos foram passando e aquela situação não melhorava. Álvaro já tinha ameaçado Diana de morte muitas vezes. A mãe temia pela filha, mas não sabia o que fazer. Em julho de 2015, 14 anos após se envolver com Álvaro, Diana desapareceu e ali Marlene viu o mundo se abrir. Quando a encontrou, seu estado era o pior possível. Sua filha foi levada até o posto de saúde e de lá encaminhada para o Hospital Estadual de Urgências de Goiânia Governador Otávio Lage de Siqueira (HUGOL), direto para a UTI. Ficou um mês internada. Diana teve uma parada cardiorrespiratória. “Eu só beijei no rosto dela, que estava inchado, e disse: minha filha, eu te amo demais.” Com lágrimas escorrendo, relembrou a mãe. Diana perdeu a vida e o assassino continua solto! Na prática, esse é o efeito do feminicídio. 142


Arte: Reprodução

“Lei do Feminícidio coroa uma luta”

A delegada da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher - DEAM, de Goiânia, falou sobre a Lei 13.104/2015 e sua aplicabilidade na sociedade brasileira. Apesar de não cuidar de casos de violência contra a mulher depois que ele se torna feminicídio, a delegada falou da nova Lei, de como a Polícia Civil atua na prevenção de casos e o que fazer para não deixar chegar a esse ponto. Segundo Ana Elisa Martins, a Delegacia da Mulher não apura os feminicídios: “por enquanto, ainda temos uma estrutura acanhada em número de servidores, bem aquém do necessário para que possamos assumir essa atribuição”. Ela afirma que a investigação é feita até a tentativa do feminicídio, ocorrendo morte, existe uma Delegacia especializada na apuração dos crimes de homicídios e feminicídios. Para a delegada, em virtude do avanço da sociedade, do crescimento populacional, e das péssimas políticas públicas que temos hoje em dia, estamos vendo uma população sem educação, em péssimas condições, se isso acontece, a violência cresce. “Se a violência cresce, ela vai atingir também setores e meios nos quais muitas vezes ela não caminhava. Nós temos uma cultura mais patriarcal, mais machista...” De acordo com Ana Elisa, a Lei do Feminicídio vem só coroar uma luta que está sendo estabelecida há muitos anos. A Lei Maria da Pe143


nha veio em 2006 e foi o resultado de uma punição que o Brasil recebeu de organizações internacionais por não ter tratado com a necessária atenção o caso de Maria da Penha. O País foi obrigado a estabelecer uma lei específica que tratasse das questões que envolvessem vítimas de violência doméstica. Em razão dessa luta e de todo esse movimento que vem sendo estabelecido durante muitos anos, a Lei Maria da Penha, da mesma forma que a Lei do Feminicídio, coroa essa luta. A Lei do Feminicídio veio só agregar mais importância ao tema. Quando questionada sobre a eficácia em transformar o feminicídio em crime hediondo, a delegada foi categórica: “Não adianta eu chegar ao agressor e falar que ele vai ficar mais tempo preso porque cometeu crime hediondo. As consequências desses crimes, que inclui o feminicídio, é que a negociação judicial é mais criteriosa, mas eu não diria que trará o resultado esperado. O que não podemos tolerar é a ideia do homicídio/ feminicídio ter ocorrido. Acredito que quando

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o homem está possuído pelo ciúme, na maioria das vezes a motivação é a posse que tem sobre a vítima - Se você não é minha, não vai ser de mais ninguém -. Ele não vai deixar de matá-la por ser um crime hediondo”. Para a delegada, o que temos que fazer é trabalhar para que não tenham homens que sejam capazes de fazer isso. “Se não investirmos em educação, não educarmos nossos filhos em casa, não tivermos uma criação livre de preconceitos, vamos continuar criando matadores de mulheres. Infelizmente vivemos numa sociedade em que estamos sempre rotulando as outras pessoas”. Ana Elisa afirmou que seu trabalho consiste em sempre incentivar as denúncias, mas existe uma limitação em virtude do número reduzido de policiais e delegados. “Acredito que assim teríamos mais pessoas com seus procedimentos concluídos e enviados ao judiciário”.

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CICATRIZ


CICATRIZ

Transexualidade TEXTO DIAGRAMAÇÃO Marcela Figueiredo Thallya Rodrigues ILUSTRAÇÃO Ana Carolina Neves

Duas semanas se passaram e não havíamos conseguido um só relato pessoal. Como iríamos falar sobre a violência urbana com transexuais sem nenhum contato direto de alguém que tenha sofrido por isso? Mais uns dias se passaram e não conseguíamos entender a nossa falta de fonte. “60% não gostam de reviver a violência falando sobre isso, as outras 40% estão mortas”. Entendemos. Somente após a fala de Felipa Maia, 32, tomamos consciência das vivências ocultas, dos segredos escondidos por trás de cada fala, dos gestos reprimidos por cada trans que tivemos a chance de conversar. Horário nobre, 21 horas, sentados nos sofá da sala podemos acompanhar na novela a história de Ivan. Sendo homem trans, além da luta por direitos sociais, o personagem vive em constante medo. Mesmo após o processo de transexualização, Ivan fica grávido e perde o bebê após ser espancado brutalmente no meio da rua. Medo. “Medo de ser que realmente sou. Já fui xingado na sala de aula e na rua, de uma forma ameaçadora. Não me sentia tão receoso, mas dá uma certa aflição de alguém poder chegar e simplesmente vir me agredir só por causa da aparência.” Sentimento compartilhado por Noah Alves, 23, também homem trans. 148


e:

Segundo dados do relatório da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e Intersexuais (ILGA), o Brasil é o país que mais mata transexuais e travestis. “O corpo trans é um corpo feito para ser massacrado, humilhado”. Assim diz Rafaela Lincoln, estudante da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás (UFG) e mulher trans. Infelizmente, ainda é comum ouvir que alguma mulher trans foi encontrada morta em um local isolado, ou que apanhou até a morte. Tortura. Crueldade. Preconceito. A sociedade moderna ainda trata com selvageria esses corpos que parecem ter sido criados apenas como instrumentos de violência. Nunca pessoas, coisas. Dandara. Luana. Samily. Danielle. Todos são nomes de mulheres trans brutalmente assassinadas nas ruas. As formas de homicídio são as mais selvagens possíveis. Tiros, linchamentos e até tesouradas. Experimente combinar as palavras “mulher transexual é morta” no Google. As notícias não têm fim. E o mais alarmante: são atualizadas cotidianamente. De acordo com a Associação das Travestis e Transexuais do Triângulo Mineiro, 95% das travestidas estão inseridas no mundo da prostituição, enquanto apenas 5% das travestis e transexuais de Uberlândia de fato conseguiram se inserir no mercado de trabalho formal “... para essas meninas que são prostitutas, por mais que eu seja uma garota que sofra violência cotidiana com olhares e conversinhas, além dessa violência, elas tem a infeliz oportunidade de estarem todo dia expostas a diversos tipos 149


de homens violentos. O fato de ser uma mulher trans me faz ser tratada como uma prostituta por vários rapazes com quem converso”, diz Rafaela. O Brasil matou ao menos 868 travestis e transexuais nos últimos oito anos, segundo a ONG Transgender Europe, em 2016. Os dados são alarmantes. Mas pior ainda é saber que, em muitos casos, não só há pouquíssima proteção para esses corpos como também a punição para os agressores é dificultada. Felipa Maia nos conta que em seus vários anos de vivência como mulher trans já viu muitas amigas serem agredidas e assassinadas. “Morreram duas colegas minhas devido à agressão, foram esfaqueadas... Uma levou seis tiros. Oitenta por cento das minhas amigas que eu conheci há quinze anos atrás, nenhuma ainda é viva, porque foram agredidas fisicamente, porque foram mortas nas ruas. E não vão atrás. Quando sabem que tem uma trans ou uma travesti envolvida, a polícia deixa de mão porque é mais problema. Nós somos vistas como 150


o podre da sociedade, o estorvo”, denuncia. As inseguranças passam a ser tão constantes, que as pessoas trans já não sabem mais se podem contar com as autoridades em casos de violência. A quem recorrer afinal? “A Delegacia de Atendimento Especializado à Mulher atende sim, mulheres trans. Não homens. Porque, pelo que está previsto em lei, é necessário que aquela pessoa seja lida como mulher, socialmente, para a Lei Maria da Penha ser aplicada. Já recebi duas ocorrências de mulheres trans que foram agredidas recentemente. Quando os homens trans procuram a delegacia, temos que orientá-los para outras unidades, que irão tratar do assunto.” Afirma a delegada Laura Castro, da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher em Goiânia (DEAM), que também é uma mulher trans. A violência contra as pessoas transexuais é um assunto em pauta. A população cada vez mais luta a favor de políticas públicas contras tais agressões. Novelas. Debates. Discurso midi151


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áticos. Não há mais como fechar os olhos e ignorar tamanha hostilidade. “Acho que uma das soluções para isso é o debate em sociedade. Falando nisso, na questão da punição, apenas jogar a pessoa lá na cadeia sem reeducá-la não é efetivo. Eventualmente essa pessoa irá voltar para a sociedade sem ter nenhuma condição para tal. É preciso reeducar. Debater sobre o assunto, trazer isso para o público, fazer as pessoas entenderem. Não por meio da imposição, mas por meio do diálogo.” A própria delegada está ciente que já não basta a punição física sem um acompanhamento social e psicológico sobre o assunto. “É uma batalha, de você olhar no espelho todo dia e encarar o mundo, encarar o que você vai ter que ouvir porque você ouve piadinha, você ouve xingamento, você ouve elogio. É um furacão de coisas na sua cabeça. Você tem que se amar muito pra ser uma trans, uma travesti. Espero que um dia essa agressão acabe porque nós estamos sendo mortas de graça... Não só nós, como os gays, os homens trans e as lésbicas. É a vida... É se amar, amar o próximo e fazer com que cada dia seja melhor e entregar nas mãos de Deus porque a agressão é inevitável.”, conta Felipa.

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TEXTO FOTOS DIAGRAMAÇÃO Giovanna Germano

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Para os adeptos das religiões de matriz ���������������������������������������� africanas a prática da crença sempre foi uma forma de resistência. Desde período colonial quando os escravos lutavam para manter viva sua fé e essa representava para os colonos uma ameaça a sua dominação, até os dias atuais onde terreiros são invadidos e pessoas são agredidas. Na época escravocrata, a hegemonia do cristianismo garantia a permanência desse sistema, a igreja até mesmo justificava a escravidão como uma forma de salvar a alma dos negros. Apesar de ter se passado um século desde desse período, ainda há quem lute pela a supremacia do cristianismo, e permanece com a visão construída pelos portugueses de demonizar as religiões de origem africana. E essa intolerância religiosa pode assumir contornos de violência, segundo os dados da Secretaria Nacional de Direitos Humanos (SDH), entre janeiro e setembro de 2016 foram registradas 300 denúncias de intolerância religiosa e dessas denúncias 26,19% das vítimas eram candomblecistas e 25,79% eram umbandistas. O exemplo recente foi agressão que Ialorixás e Babalorixás ( mães e pais de santo) sofreram no seu terreiro de candomblé na baixada fluminense, no Rio de Janeiro, onde foram obrigados por fiéis evangélicos a destruírem objetos sagrados do candomblé.

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Esse caso foi um dos poucos a alcan çarem visibilidade na sociedade, já quando se trata das religiões cristãs, ao acontecer qualquer ato considerado desrespeitoso a essa crença, isso gera comoção e entra com facilidade na pauta midiática, mesmo que a violência que essas crenças sofram sejam mínimas comparadas com o preconceito que pessoas que praticam culto afro-religioso vivem diariamente. Como lembrou a professora especialista em religião Janira Sodré. “O caso clássico do ataque ocorrido a santa padroeira do Brasil que gerou uma comoção nacional, nos caso das religiões Africanas você tem pessoas mortas e templos inteiros destruídos’’. Essa maneira social intolerante de tratar religiões de origem não europeia, não é justificada apenas pela construção histórica do país, ela também vem do racismo enraizado na cultura brasileira, como explicou a professora Janira “A intolerância religiosa não se dá em campo amorfo, homogêneo, linear de uma operação social qualquer, a intolerância se dá no caso brasileiro na dinâmica de uma sociedade racista que percebe as religiões de origem étnica vinculada a comunidade negra brasileira como algo menor, subalterno e até mesmo demoníaco’’. Após o episódio de brutalidade no Rio de Janeiro, a preocupação aumentou dentro do terreiro que Ana Carolina Lucas Ferreira frequenta, a candomblecista contou que a preocupação principal, após a grande repercussão que a notícia gerou é que isso possa influenciar grupos de ódio em Goiânia. “A insegurança é grande. Não ter a liberdade de expressar a sua religião com medo do que as pessoas irão falar, ou agir, e depois do que 156


aconteceu no Rio de Janeiro, ficamos assustados’’, afirmou Ana Carolina, com seu turbante na cabeça e roupa branca e recém iniciada no Candomblé ela precisa usar roupas claras por três meses e disse andar por toda a cidade com essas vestimentas e que apesar da sensação de insegurança que as estatísticas crescentes de violência gera, ela não vai deixar de cumprir com sua religião “Eu não sinto medo por mais que eu sei que a intolerância e a violência existem, mas eu tenho muita fé nos meus guardiões espirituais’’, declarou. Apesar de ter pouco tempo dentro da religião, já carrega histórias como vítima de preconceito, ela lembrou que recentemente, ao sair com os amigos do terreiro, ouviu gritos de insulto e ameaça “Eles falaram em entrar no nosso terreiro e atirar nas pessoas, nós ficamos com medo e rezamos para os nossos Orixás’’, conto Ana Carolina Lucas.

A precária laicidade do estado

A constituição federal garante liberdade de consciência e de crença, e a proteção dos locais de culto, porém essa laicidade não é colocada em prática, principalmente pelos órgãos públicos. Um exemplo disso é a nova decisão do Supremo Tribunal Federal de liberar Ensino Religioso confessional nas escolas públicas. Nesse modelo os professores podem transmitir suas crenças aos alunos e ensinar apenas sobre uma determinada religião. A professora Janira Sodré lembrou que o Ensino Religioso é a única disciplina garantida na Constituição Federal: “O que é interessante observar de que 157


modo o Ensino Religioso foi composto no texto constitucional, e nós veremos a forte penetração cristã na produção do texto jurídico maior da nação. Então, quando você tem essa operação em que o cristianismo de vertente católica consegue inserir o ensino religioso no texto constitucional é evidente que essa inserção vem marcada pelo poder hegemônico da religião cristã católica, do seu clero da proximidade desse clero superior com setores de executivo, judiciário e sobretudo legislativo, no contexto constitucional. Em seguida, o Supremo Tribunal faz sua interpretação da Constituição, e essa interpretação ela também evada dessas operações de proximidades das elites brancas brasileiras ao cristianismo ao seu clero e instituições eclesiásticas’’. Para ela, isso é proselitismo religioso que acarretará intolerância religiosa para as tradições não hegemônicas. “Ao ler o texto constitucional sobre o ensino religioso, o supremo tribunal federal vem corroborando o poder da hegemonia cristã no espaço público, e estabelecendo que as instituições religiosas mais poderosas possam manter professores de ensino religioso preparados para ensinar sua própria religião”, explicou. 158


Apesar de toda opressão que as pessoas da religião de vertente africana sofrem, há uma luta constante para garantir sua identidade e liberdade: “As religiões negras no Brasil sempre representaram territórios densos de africanidade e de uma resistência a uma operação de colonização mental. Essa resistência das matrizes africanas sempre foi foco de grande ataque e resistência da sociedade envolvente, e como consequência as religiões de matriz africana sempre foram mal interpretadas e marginalizadas na operação nacional’’, explicou a professora Sodré.

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Para ela, isso é proselitismo religioso que acarretará intolerância religiosa para as tradições não hegemônicas. “Ao ler o texto constitucional” sobre o ensino religioso, o supremo tribunal federal vem corroborando o poder da hegemonia cristã no espaço público, e estabelecendo que as instituições religiosas mais poderosas possam manter professores de ensino religioso preparados para ensinar sua própria religião‘’, explicou. Apesar de toda opressão que as pessoas da religião de vertente africana sofrem, há uma luta constante para garantir sua identidade e liberdade:

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“As religiões negras no Brasil sempre representaram territórios densos de africanidade e de uma resistência a uma operação de colonização mental. Essa resistência das matrizes africanas sempre foi foco de grande ataque e resistência da sociedade envolvente, e como consequência as religiões de matriz africana sempre foram mal interpretadas e marginalizadas na operação nacional’’, explicou a professora Sodré. Os constantes retrocessos ameaça a laicidade pouco efetiva do estado brasileiro, são causados, sobretudo por grupos fundamentalistas cristãos que tentam impor seus valores e moralidades dentro da Constituição. A luta atual é para conseguir visibilidade em relação aos atos de violência que sofrem as religiões da comunidade negra e impedir que grupos religiosos hegemônicos oprimam ainda mais essas religiões que já são historicamente perseguidas.

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TEXTO Cida Costa FOTOS DIAGRAMAÇÃO Selina Jania

Viver nas ruas tem sido a situação de centenas ����������������������������������������������� de pessoas em Goiânia e os motivos são variados. Segundo levantamento de dados da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas), a propaganda de que a cidade tem muita oferta de emprego faz com que pessoas do Pará, Maranhão e outros estados do nordeste migrem para Goiás em busca de melhores condições de vida. Outro perfil são os jovens entre 18 e 24 anos que saem de casa por problemas familiares, envolvimento com entorpecentes ou são foragidas da polícia que usam drogas e querem ter a liberdade de não serem cobradas. Como a sociedade é desigual, a falta de escolas para todas as crianças resulta em cidadãos e cidadãs com baixo nível de escolaridade. Em consequência, muitos não conseguem empregos qualificados ou renda para comprar uma moradia. Muitas dessas pessoas não tiveram estrutura em casa e foram parar nas ruas sem perspectivas de um futuro digno, ao contrário do que os direitos humanos reservam para todo cidadão brasileiro. 163


�������������������������������������� Um exemplo é o caso de Tiago, que não quis ser identificado por seu verdadeiro nome. Ele, que tem 23 anos, diz que cresceu nas ruas e tem família, porém seu pai era alcoólatra, sua mãe analfabeta e atualmente subsiste de reciclagem para sustentar a família. O menino começou a estudar, mas seu foco foi extraviado por aliciadores de maconha, ele convivia nas ruas com outras crianças, mas aos nove anos de idade já começou a fumar maconha e hoje está nesta vida incerta e sem destino. Outra pessoa é Carlos Augusto Pereira, 60 anos, que já foi um cantor reconhecido no mundo da música no Rio de Janeiro. Ele, foi casado, teve duas filhas e durante a sua trajetória na carreira musical viajou para os Estados Unidos, Uruguai e vários estados do Brasil. Carlos Pantera, seu nome artístico, teve muito sucesso e foi rico. Entretanto, no auge da sua carreira se envolveu com as drogas e durante 20 anos de sua vida perdeu tudo que conquistou inclusive a família. Hoje ele mora na Casa de Apoio às pessoas em situação de rua, está doente com insuficiência renal e aguarda há três meses na fila de espera para uma cirurgia. Há 10 anos ele não usa drogas, espera recuperar a saúde e para recompensar o tempo perdido com a família ele planeja voltar para o Rio de Janeiro.

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O Poder público tem parte de ����������������������������� responsabilidade desses problemas, mas existem projetos implantados para amenizar a situação de risco que essas pessoas vivem. A diretora da Semas, Helizangela Alves do Nascimento, e o gerente do Centro POP (Centro de Referência Especializado para população em situação de rua), Welligton Carlos Pereira, explicam que existe uma equipe de abordagem que oferece abrigo a essas pessoas. Atualmente são duas casas funcionando, o Centro POP que está no Setor Sul e a Casa da Acolhida que está em Campinas, as duas instituições oferecem três refeições ao dia, roupas, cobertores, local para fazer a higiene pessoal e lavar roupas. Segundo a última divulgação no site da Prefeitura de Goiânia, existem 351 pessoas em situação de rua, porém esses subsídios não são suficientes para reduzir esse número de pessoas sem abrigo. A diretora da Semas diz que há necessidade de investimentos em apoio familiar com atendimentos psicológicos, condições educacionais para poderem trabalhar e moradia, além de segurança. 166


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HISTERIA


HISTERIA

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TRINCHEIRAS DO SUBCONSCIENTE TEXTO ILUSTRAÇÃO DIAGRAMAÇÃO Namie Yoshioka

Eu não era uma Julia Roberts vagando por ����������������������������������������� Notting Hill. Na verdade, sequer havia visto o famoso filme que fez desse bairro uma atração turística por acaso. Mas as pessoas comentam, pessoas usam e abusam desse artifício especial que nos faz animais pensantes, únicos e dominadores, e, principalmente, pessoas alimentam ideias, formulam conceitos e compartilham informações sem nem ao menos perceberem que estão fazendo. Pessoas constroem lugares, objetificam ideologias e rotulam aquilo que der na telha. São como análises de filmes, quando a dúvida bate, sempre vamos atrás da opinião do outro para saber se realmente vale a pena sair do conforto e segurança de casa, e gastar dez libras em um vídeo com duas horas de duração. Mas, nesse caso, eu não precisei me embasar em ideias pré-estabelecidas para saber o que era e como funciona Notting Hill. Dez anos me pareciam suficientes para saber que aquele bairro era mais do que a livraria em que Hugh Grant desenrolou a história de amor com Roberts, aliás, vez ou outra, fãs do filme aparecem em Notting Hill, tietam o lugar e alimentam seu valor cinematográfico. Dez anos me mostraram também, que esse bairro possui outras histórias acumuladas, sejam elas verdadeiras ou enfeitadas demais, afinal, é um costume do ser humano ser tendencioso, apesar de nunca assumirmos tal comportamento. E como moradora e frequentadora do bairro conhecido de Londres, obviamente, eu acabaria contribuindo com a minha própria. Notting Hill era um livro com folhas soltas de tão aberto. 171


Talvez fosse verão quando a minha história aconteceu, já que eu me lembro de não estar me sentindo muito bem na época, e o calor de Londres costuma ser extremo e marcante – meio abrasileirado, eu diria –, assim como o inverno. Pessoas cruzavam as ruas em roupas coloridas como as construções antigas de Notting Hill, e leves como os trens que deslizam pelos trilhos no metro. Naquele dia, assim que desci da estação carregando todo o peso de um aspirador de pó preso em uma maleta, eu sabia que precisava riscar todos os tópicos na minha lista de fazeres e ir direto para casa, porque algo que eu havia comido no dia anterior estava fazendo meu estômago cantarolar sinfonias do mal-estar. Então, já estava decidido, eu iria para casa, tomaria chá como os britânicos e descansaria como qualquer trabalhadora em terras desconhecidas tão conhecidas. Eu só precisava cumprir com o último tópico da minha lista. Encarar a fila de um banco para conversar com uma máquina, com certeza, não ajudaria em nada nas minhas dores estomacais, mas eu precisava depositar aquele envelope antes que o mês acabasse se desmanchando no calendário. Esperei, esperei e esperei, revezando o peso do meu corpo em cada perna, aliviando minhas mãos da alça da maleta e fechando os olhos, como se esperasse abri-los apenas quando toda aquela fila tivesse desaparecido. O tempo corria lá fora, depressa, sem acréscimos de descanso ou chances para o rapaz que entregava jornal de graça para pedestres desinteressados. Chegava a ser cômico a forma em que as pessoas fugiam das notícias, sempre ocupadas demais para sequer olhar para quem oferecia uma cópia do LondonLite sem juros; talvez por medo das manchetes que quebram o cotidiano monótono, reportagens sobre atentados, queda de bolsas, furos de famosos e mais atentados.

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Eu nem ao menos acreditei quando estava, finalmente, apertando botões no caixa eletrônico e, por fim, saindo do banco, sem pesos ou preocupações. Notting Hill continuava quente, quase me fazendo desistir de subir uma única rua e chegar em casa. Portas bateram, sapatos foram jogados, e água para chá esquentado em uma rapidez tremenda que nem percebi o momento em que adormeci no sofá da sala, ao som do solo de guitarra que meu suco biliar fazia até então. Naquele dia, não devo ter sonhado com nada importante, talvez coisas abstratas e surrealistas demais para minha memória suportar. Um cochilo automático, indolor, sem pensamentos do subconsciente impedindo meu desligamento total do mundo. “Mãe?” Cantarolou algum tempo depois, e dessa vez eu sabia que não se tratava de nenhum musical vindo do meu estômago. Minha filha me observava com olhos apertados, testa franzida e curiosidade escorrendo pelos seus cílios escuros, em um ângulo em que pessoas costumam olhar defuntos em caixões. Por segundos, minha cabeça rodou, embaçou a cara do pai que minha filha tinha, e fez estrelas surgirem no teto de gesso. Mas algo estava diferente, um diferente melhor, como se a orquestra já tivesse recolhendo os instrumentos no meu teatro estomacal. O “’tá tudo bem?” vindo da minha menina foi respondido com um suspiro de alívio. Estômago calado, sem ruídos ou vestígios da baderna de antes. Mais um suspiro de alívio. “Você nem ao menos viu o que está acontecendo lá fora, não é?” Minha filha voltou com suas questões difíceis, perguntas retóricas recheadas de julgamentos do típico jovem moderno sem paciência com pessoas que não captam informações

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instantaneamente. Minha atenção ainda estava em câmera lenta para conseguir perceber os movimentos dela entre me estender um copo d’água e bisbilhotar pela janela da sala. “Onde você estava esse tempo todo, mãe? Colocaram uma bomba no banco da rua de baixo, uma bagunça”. Informoume, como quem informa sobre o caminho até o Big Ben para um turista, mordiscando as cutículas das unhas enquanto continuava a bisbilhotar o mundo lá fora. Esses ingleses... pensei comigo mesma, rotulando até mesmo quem não era inglês e me incluindo nesse processo. Eram dez anos em Notting Hill, dez anos em Londres, dois anos sendo contagiada pela fobia por ataques terroristas dos europeus, quando a Grã-Bretanha ainda não havia rompido seus laços com o restante do continente. Desde 2015, qualquer objeto não reconhecido ou desacompanhado em locais superlotados já era considerado um verdadeiro inimigo do Estado. No começo, eu pensei que isso era um medo bobo, beirando o desnecessário, coisa de filme de ação, mas que possuía sim um sentido preocupante e que até mesmo chegava a desenvolver uma violência urbana implícita, disfarçada como exagero ultrapassado. Depois conclui que sim, o medo de atentados era real, e enquanto os brasileiros fogem de balas perdidas, os ingleses fogem de explosões. O último gole d’água desceu refrescante, juntamente com a tranquilidade em saber que horas atrás eu estava no mesmo banco que agora parece ter sido alvo de terroristas. Talvez se não fosse pelo meu mal-estar, eu ainda estaria lá, tratando de algum outro assunto, ou atravessando as ruas da redondeza, batendo perna e presenciando alguma explosão que a BBC trataria de registrar cada segundo. Sorte ou não, salva por uma dor estomacal.

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Tão salva e viva que eu já sentia vontade em voltar a riscar tópicos na minha lista de fazeres, depositar envelopes e usar aquele aspirador de pó sem preocupação alguma. Por algum motivo, meu corpo gelou, um arrepio desceu por todas minhas costas e eu já até mesmo conseguia sentir gotículas de suor se formarem na minha testa. A pior sensação já criada pelo ser humano começou a surgir das pontas dos meus pés, até atingir o meu último fio de cabelo. O esquecimento batia com força, nocauteava meus vasos sanguíneos e pedia revanche. “Que maleta?” Foi a reposta da minha filha para a minha pergunta, o que foi o suficiente para tirar todo o alívio que meu corpo havia se acostumado até então. O apartamento era inglês, tipicamente pequeno e com janelas grandes, mas mesmo assim não deixei de me levantar e ir à procura de uma maleta tão grande para estar escondida em algum canto dali. Nada. Nem um sinal de um pontinho acinzentado no meio daquele apartamento. Eu havia a carregado por tantos lugares, com a pressão pesando no meu braço desde o metrô até o banco. O banco. Olhei para minha filha, ainda sondando o acontecimento lá fora, e quando ela percebeu a angústia transpirando minha pele, vi seus ombros tencionarem e seu rosto se desmanchar em perplexidade. “Não me diga que...”. Sim, e talvez eu lhe diga mais. Desci as escadas estreitas do prédio, sem sequer usar o corrimão com o devido cuidado, pisando na calçada em arrependimento profundo. Eu já conseguia enxergar a rua de baixo interditada por aquelas faixas amarelas com letras gritantes de WARNING (perigo) por todo lado, carros abandonados de qualquer jeito, restaurantes, pubs, lojas e conveniências de portas fechadas, e curiosos corajosos distribuídos de forma pingada por ali. A polícia estava no local,

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juntamente com o corpo de bombeiros, exército e serviço antibomba de Londres, como se estivessem aguardando algum show de horror começar, fantasiados nos seus uniformes e segurando suas armas de filmes de ficção científica. Se em terra as forças já estavam estabelecidas, no céu, sobrevoando o local, haviam helicópteros jogando flashes de luzes sobre o banco e algum poder divino fazendo o sol do verão sumir dali, deixando o tempo nublado e alimentando mais ainda aquela cena parafraseada de alguma série policial. Voltei com meus suspiros, não aliviados dessa vez, mas sim preocupantes, talvez pelo fato de que eu não queria acreditar que uma rua inteira estava interditada por motivos causados por ninguém menos que eu e uma maleta. Quanto mais me aproximava do local, mais denso o ar parecia, carregado pelas sirenes de carros da lei, rostos apavorados e cochichos desconfortáveis. “A senhora não pode entrar aqui” um policial ditou, o sotaque britânico pesando na ponta da sua língua. Claro, eu não poderia simplesmente atravessar aquele mundaréu de segurança e retornar com o meu aspirador como se nada tivesse acontecido. Estava fora de cogitação, e a forma como todos aqueles pares de olhos me encaravam era garantia disso. Eu precisei limpar a garganta várias vezes, antes de por fim dar com a língua entre os dentes, dedurar minha própria bagunça ao policial e esperar por uma reação não tão ruim. Na época, eu realmente achei que havia conseguido uma boa reação, mas depois de algum tempo percebi que não poderia ter sido pior. Afinal de contas, eu só precisei ir buscar minha própria maleta dentro do banco que estava cercada por um grupo especial do serviço de antibombas e suas roupas de astronautas, cutucando com algu-

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ma coisa a minha maleta, aparentemente, terrorista. Me explicar mais uma vez pareceu durar por horas, como um julgamento em que o martelo do juiz desaparece e nada pode ser resolvido. Os astronautas das bombas me fizeram abrir a maleta com cuidado tremendo, cheio de protocolos e preparados para o pior. Assim que viram o aspirador de pó vermelho espremido ali, eu poderia jurar que havia ouvido algum tipo de grunhido desapontado. Desfilar por Notting Hill nunca pareceu tão difícil como naquele dia, com minha maleta pesando mais do que em qualquer outro dia, mas não mais que os olhos grudados em cada movimento meu. Os helicópteros continuavam dançando no céu, as luzes piscando, os cochichos incomodando, as sirenes colorindo e provocando poluição sonora e pânico por onde alcançava. Talvez, Julia Roberts tenha se sentido assim quando esteve em Notting Hill, rodeada por olhos e câmeras, com seguranças para todos os lados. Mas, sem a maleta com aspirador de pó, claro, porque isso já seria fantasioso demais.

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Becos comunicantes #04  
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