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CIDADE INFORMAL

Entre o popular e o marginal [ A prox i m açõ e s

t e ó r ica s e p r á tica s]

Luís Henrique SANTOS DE SOUZA Cláudio MANETTI


Universidade Anhembi Morumbi Curso de Arquitetura e Urbanismo

CIDADE INFORMAL

Entre o popular e o marginal [ A proxim a çõ e s

t e ó r ica s e p rá tica s]

Luís Henrique SANTOS DE SOUZA Orientador: Cláudio MANETTI

TFG - Trabalho Final de Graduação São Paulo 2016


GRATIDÃO Dedico este trabalho aos meus pais, Kátia C. de Oliveira Santos e Luís H. de Souza, minhas referências de amor e devoção. Agradeço meus tutores, exímios profissionais e acadêmicos, que durante todo meu processo de formação acadêmica contribuíram para meu crescimento intelectual e profissional: Gabriela e Toninho da CPDU (Coordenadoria de Planejamento e Desenvolvimento Urbano) Subprefeitura Cidade Ademar, responsáveis pela primeira aproximação técnica frente a Cidade Informal ainda no primeiro ano de faculdade. Penha Elizabeth Pacca da SMDU (Secretaria Muncipal de Desenvolvimento Urbano) , umas das pessoas mais sábias que já conheci, plantou em mim perspectivas politicas, acadêmicas e culturais que me fizeram, e fazem, prosseguir. Daniela Marcondes da Sala São Paulo (Fundação Osesp), de passagem breve mas significativa, aflorou em mim percepções politicas e técnicas quanto a preservação e manutenção da cultura e do patrimônio histórico. E não posso esquecer do Flávio Moreira, mestre das Letras que fomentou minhas reflexões e me ajudou a lapidar a jóia deste trabalho, o texto de abertura Quintal. Núcleo Técnico do Museu da Casa Brasileira, trabalhar diariamente com vocês é inspirador, obrigado pelo apoio. Fréderic PETIT Demange, amigo e professor, que com a mais sincera disposição, compartilha conosco seu conhecimento emancipador. Maria Ângela Cabianca, minha professora e orientadora de Iniciação Cientifica, que admiro tanto! Graças ao seu apoio e atenção, pude conhecer e desfrutar da gratificante experiência que é pesquisar e produzir conhecimento. Que este caminho se prolongue na minha vida. Cláudio Manetti, meu orientador e grande professor, responsável pelas mais altas reflexões e pelo contínuo estimulo. Para além de acender a chama em muitos alunos, você mantem ela acesa, toda conversa com você é valiosa. E por fim, meus colegas do GAFAAM (Grupo de Alunos da FAU Anhembi Morumbi) e do CAEB (Centro Acadêmico Élio Batista), movimentos que renderam as melhores amizades e que juntos fizemos história no movimento estudantil da Anhembi Morumbi, lutando por uma Universidade que se faz com a participação do estudante e para o estudante. Desejo que nossas amizades continuem florescendo e que continuemos na luta por um mundo melhor!


Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

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Apresentação do trabalho

RESUMO Em que medida nossos olhares em relação à produção popular e a Cidade Informal enunciam uma percepção estigmatizada da realidade social de seus produtores, suprimindo assim possíveis outros enfoques de percepção? Em que medida estes possíveis outros enfoques de percepção nos aproximariam de novas formas de intervenção, talvez até mais próximas da forma como o povo vê a si mesmo e vê também a própria vida? É preciso compreender que para além de uma forma de sobrevivência, estes “assentamentos”, resguardam em si, às vezes inconscientemente, traços culturais que quando confrontados com os padrões da modernidade, denunciam a voracidade da transformação dos modos de vida locais, heterogêneos e culturalmente diversos em prol de uma tão discutível modernização. Esta investigação, portanto, para além de reunir ideias e autores que desnudam o outro lado da moeda, também tenta, a partir disso, reunir indícios do que seria esta nova forma de intervir e potencializar a resistência cultural local. Palavras-chave: cidade-informal, arquitetura popular, autoconstrução, favelas, loteamentos irregulares.

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“Podemos investigar as causas disso ou daquilo, mas será possível a este pensamento voltar-se para si próprio, por assim dizer, para apreender algo da própria história que o produziu?” Terry Eagleton

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Apresentação do trabalho

SUMÁRIO APRESENTAÇÃO DO TRABALHO

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QUINTAL: UMA AUTO-ETNOGRAFIA

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INTRODUÇÃO

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OBJETIVOS

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BLOCO 01: DANDO NOMES AOS BOIS

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APRESENTAÇÃO DO BLOCO

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A PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO EM TORNO DA HABITAÇÃO NO BRASIL

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ARQUITETURA POPULAR E ARQUITETURA VERNACULAR

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ASPECTOS DA CULTURA POPULAR NO BRASIL

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BLOCO 02: DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS

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APRESENTAÇÃO DO BLOCO

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CIDADE INFORMAL COMO CULTURA LOCAL

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CIDADE INFORMAL COMO SOLUÇÃO GLOBAL

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BLOCO 03: CORTANDO O MAL PELA RAIZ

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APRESENTAÇÃO DO BLOCO

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A RESIGNIFICAÇÃO DA PERIFEIRA E O MITO DA MARGINALIDADE

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BLOCO 04: PLANTANDO VERDE PRA COLHER MADURO

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APRESENTAÇÃO DO BLOCO

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ESTUDOS CARTOGRÁFICOS

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

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BIBLIOGRAFIA

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

Jardim das Imbuias/Iporanga, 2016 Fonte: Autor

Quintal : uma auto-etnografia O Quintal de casa era um grande observatório para o mundo que nos cercava. Forjado no terceiro andar de um sobrado autoconstruído, nosso Quintal era encerrado num retângulo por muros de pouco mais de um metro. Era nosso terraço-jardim, nosso refugio e nosso respiro em meio ao sufoco insalubre e hiperconstruído no qual “a vida nos colocara”. Erigido sobre o ponto mais baixo do terreno de 5X25 e que, por sua vez, enunciava sem dó um perfil em violento declive - uma verdadeira pirambeira - à medida que se afastava da rua. O Quintal suspenso, e também nossa casa, se revelavam como prova concreta da engenhosidade vertida em ginga de seus astutos construtores. Conta-se que não foi riscada uma folha de papel sequer no ato de sua concepção. Seu Dézão, a saber, nosso arquiteto, carregava consigo saberes elementares, absorvidos e compartilhados, a duras penas, entre lajes a bater e bocas para alimentar. Entre bicos e empreitadas, construtores como Seu Dézão, assentaram centenas de famílias recém-chegadas à máquina urbana paulistana. Ajustaram ao lote mínimo as mais diferentes realidades culturais, condições financeiras e perfis familiares, colaborando assim com a fundação de dezenas de comunidades da zona sul da zona sul de São Paulo. E assim, do Iporanga ao Itajaí, do Grajaú ao Icaraí, foi se estruturando a resistência; resistência que, sentenciada pela pobreza, assumiu uma condição subordinada, se agarrando às margens através da sobrevida. ***

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Apresentação do trabalho

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eu irmão e eu, quando não estávamos concentrados nos brinquedos espalhados pelo chão do Quintal, encarávamos o ato de vencer o obstáculo que a mureta representava para nossa visão como uma verdadeira modalidade olímpica. Em nossos poucos centímetros, procurávamos cravar as mãos no topo e com ajuda dos pés, escalar em direção à visão plena. Os poucos segundos de visão, proporcionados pelo impulso dos pés, foram se estendendo à medida que fomos crescendo e buscando novas alternativas – nesse sentido, usar uma cadeira foi algo revolucionário - e com isso, seduzidos pelo nosso próprio mito da caverna, encontramos novos meios e táticas para explorar essa outra extensão da realidade. A paisagem que circundava nosso Quintal era tudo menos facilmente assimilável: uma massa construtiva rica em complexidade que se descortinava sob nosso campo de visão. Era possível observar as mais ousadas alternativas de se construir e ocupar um território ambientalmente frágil e alheio à população no que diz respeito às suas carências e potencialidades naturais. Nossa casa, como que num jogo metafisico, compunha o mesmo cenário para aqueles que nos observavam do outro lado da encosta do vale. Às vezes, levado pela imaginação, eu realizava mentalmente o exercício de recompor a paisagem natural através dos escassos remanescentes vegetais e das pistas que a própria topografia enunciava. Nunca foi uma tarefa fácil, mesmo depois dos conhecimentos obtidos nos anos de faculdade. A grande massa construída ocultava qualquer vestígio do que antes ali havia. Esparramandose por encostas, topos de morro e engolindo com tamanha voracidade extensas planícies e leitos de rios, nossas comunidades se mostravam indiferentes ao território que elas urgentemente ocuparam. O Morar – com M maiúsculo - nunca foi orquestrado no Brasil em função de sua potencial capacidade de apropriação territorial e empoderamento socioambiental. Nossos pais e avós, filhos órfãos da caatinga e do cerrado, encontraram em São Paulo um lógica de produção do espaço que já emitia seus ecos no Sertão: a ditadura da terra abstraída como mercadoria, desvinculando-a totalmente de suas capacidades produtivas. ***

Lá em casa, não havia um sermão de nossa mãe que não fosse proferido tomando como

referência suas experiências passadas. Para uma criança contrariada isso dificilmente se apresentava como uma boa razão. Considerávamos um absurdo realizar tal comparação. Os restos de comida abandonados no prato abriam espaço para os relatos de uma infância marcada pelo trabalho e pela fome, em uma família de roceiros do vale do jequitionha composta por uma mãe solteira, minha vó, e seus cinco filhos. E que numa senda trágica e heroica - À La Retirantes de Portinari - cruzaram o Sudeste na década de 70, movidos pela sedução midiática do trabalho e moradia supostamente disponíveis em uma cidade em crescente expansão.

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s vezes, eram encaixadas no repertório dos sermões, breves análises de como a vida mudou. Em justificativa a negativa de brincarmos na rua, nossa mãe rememorava suas experiências de infância, experiências nas quais o brincar assumia outra escala em relação ao território. Percorrer a galopes a estrada de terra batida por várias léguas, caçar com as mãos codornas ou um tatupéba em meio ao mato, ou até mesmo nadar no rio aproveitando o lavar das roupas, eram atividades cotidianas e que, entre outras coisas, colaboraram com a construção de uma relação simbiótica entre ela e o seu entorno. Era maravilhoso ouvir tudo aquilo e ao mesmo tempo era frustrante considerar que o nosso brincar agora se resumia ao Quintal. Embora as justificativas da minha mãe colocassem no “tempo” as razões para tais discrepâncias, nossas experiências e relações sociais comprovavam que essas discrepâncias e desigualdades entre modos de viver não se resumiam à nossa experiência e à dela. *** Depois do almoço, assistíamos ao cinema americano da década de 90 através da Sessão da Tarde. Nossos sentidos eram bombardeados por peças imagéticas do Macaulay Culkin pedalando sua bicicleta num genuíno subúrbio americano entre vizinhos que regavam seus jardins e crianças que aproveitavam o sol ou andavam de patins entre os extensos gramados e calçadas da vizinhança. Uma sedução infalível do já desgastado American way of life, mas que despertava em nós as mais diversas sensações. Nos filmes, isso nunca foi abordado como um privilégio. Em nossa ingenuidade, também não encarávamos como tal. Afinal, nós estávamos à margem. Nós éramos a exceção e o cinema não tinha obrigação de mostrar a parte “feia” do mundo. As novelas gravadas no Leblon e em Copacabana também não. Acostumado a esse antagonismo, instalou-se no meu ser ainda em formação a ideia de que para ser visto, respeitado e compreendido, devemos primeiro passar por uma espécie de ascensão. E a nossa condição, imposta por uma espécie de carma social, exigia de nós uma força de superação baseada numa guerra meritocrática, injusta e equivocada. Em paralelo ao meu ingresso na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, através do Prouni (política pública de incentivo ao acesso do ensino superior privado), as comunidades assistiam à sua maior transformação. A paisagem do Quintal nunca mudou tanto. Não só fisicamente, através da expansão de cômodos, acréscimo de reboco, revestimento, lajes e infraestrutura pública, mas também na minha maneira de observá-la e compreendê-la. Hoje, a paisagem do Quintal foi descortinada pelo conhecimento que emancipa, se alterando constantemente no meu imaginário à medida que me debruço sobre ela. E a ideia de que éramos a exceção foi aos poucos sendo superada pela ideia de que também somos a resistência. Somos a sedimentação histórica de diversos modos de vida que ainda não foram completamente suprimidos por uma ideia homogênea, standartizada e totalizante de vida. ***

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Apresentação do trabalho

INTRODUÇÃO O processo de desenvolvimento teórico deste caderno se organizará através de blocos. A questão central destes blocos nasce do seguinte questionamento: podemos falar de Autoconstrução na Periferia a partir do que entendemos como Arquitetura Popular? Esta primeira pergunta abriu caminho para muitas outras como: O que é arquitetura popular e o que são as manifestações construtivas populares contemporâneas? Podemos compreender as manifestações construtivas populares contemporâneas a partir de uma “genealogia” histórica da arquitetura popular brasileira? É possível encontrar vestígios/resquícios/reminiscências de heranças culturais populares na produção das favelas e loteamentos irregulares? É possível estabelecer um elo entre as praticas construtivas do passado e as práticas construtivas do presente através de um fio-condutor socioeconômico, geográfico e cultural? Assumo que para além de “perguntas cientificas” essas indagações também expressam um anseio por novas formas de se inclinar sobre o que entendemos como “autoconstrução na periferia”. Posso dizer que algumas perguntas até correm por um viés antropológico, e que num primeiro momento podem até fugir da questão central, mas não pretendo respondelas aqui ao pé da letra. De certa forma, elas contornam o meu interesse de tentar reunir aqui alguns indicativos do que poderíamos compreender como uma nova forma de olhar para as “manifestações construtivas populares”. E por que tudo isso? Porque de uma nova compreensão, podemos gerar novos modos de intervenção. Não é meu objetivo neste trabalho negar os problemas da pobreza, da precariedade e da vulnerabilidade urbana que via de regra estão associados à produção de moradias na periferia de São Paulo. Não é minha intenção também colocar de lado na discussão o fato de que a Cidade Informal, termo bastante utilizado para se referir às favelas, loteamentos irregulares e clandestinos, se manifestam hoje como um problema de escala Global, um “caos fabricado” como diria Milton Santos, se multiplicando em larga escala nos países tidos como “em desenvolvimento”.

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Apresentação do trabalho

OBJETIVOS É proposto desde o inicio para fins investigativos, um descolamento do objeto habitação como finalidade de si mesma, pois assumimos aqui como pressuposto que o morar/habitar não se resume apenas à morada, ou pelo menos, não se resumia, conforme investigaremos nos capítulos que se seguem. Além disso, para fazer valer a compreensão do que deveria ser entendido como habitação popular, investigaremos as manifestações construtivas das camadas mais baixas pirâmide socioeconômica brasileira apontando o que podia ser feito com os recursos disponíveis e evidenciando a rica variedade tipológica, construtiva e cultural e que, num processo histórico, foram sendo reduzidas a formas mais homogêneas à medida que as populações que se encontravam à margem do capital foram se adaptando às novas demandas que o processo de “desenvolvimento” global foi impondo. Pretende-se com este trabalho também compreender as formas populares de habitar/ocupar o território Brasileiro, desempenhando um esforço crítico para que esta intenção não se resuma a uma análise formal-tipológica (metodologia muito comum em estudos de Arquitetura e Urbanismo) de como tais habitáculos se desenvolveram em determinado cenário históricogeográfico. Não se invalida aqui a importância das análises formais, no entanto é importante considerar que a constante mutabilidade do espaço não se dá apenas fisicamente, mas o modo como é percebido, imaginado ou idealizado pelos homens também interfere na decorrência de suas modificações. A produção do espaço como conceituou o filósofo francês Henri Lefebvre (2001), é resultado das diversas atividades humanas ao longo da história, que por sua vez são guiadas por fenômenos sociais, culturais e econômicos desempenhando direta influência sobre o meio natural. Com o respaldo dessas primeiras reflexões, pretende-se deslocar o olhar rumo à periferia, com o objetivo de refletir sobre as manifestações construtivas da cidade informal como reflexos ou reminiscências culturais e que por suas condições “marginais”, são entendidos aqui como herdeiros naturais dos ritos e mitos do Povo Brasileiro. Nesta mesma parte, pretende-se verificar que para além de uma reminiscência Cultural nacional, a Cidade Informal também é resultado de um processo Global, acentuado por um modelo econômico de precarização dos modos de vida de populações que se encontram a margem do sistema econômico capitalista.

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BLOCO 01 Dando Nomes aos Bois “A luta pela cidadania é a forma mais moderna, contemporânea, do conflito de classes. Por que é a luta pelos significados, pelo direito à fala e à política, que se faz apropriando-se do léxico dos direitos e levando-os, redefinindo-os, num novo patamar, de fato transformando o campo semântico ao tempo em que se apropria dele.” Francisco de Oliveira em “Aproximações ao enigma: O que quer dizer Desenvolvimento Local?” (pg.21, 2001)

Foto: Marc Ferrez, Trabalhadores em Fazenda , séc. XIX Fonte:Instituto Moreira Salles

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Apresentação do Bloco Este bloco de textos se insere num cenário no qual termos como: “Arquitetura Popular”, “Arquitetura Vernacular”, “Habitação Popular”, “Habitação Social”, “Auto-construção” entre outros associados se confundem frequentemente em seu uso e definição. Observa-se em alguns casos que estes termos só podem ser compreendidos quando verificado o contexto especifico no qual foram empregados. Partimos do pressuposto de que a inconcretude desses termos, embora flutuantes e pouco específicos, tem muito a dizer sobre a forma como nos relacionamos com a produção desses objetos. Para além de investigar como foi/é a produção diretamente, este bloco busca compreender esta produção através dos “modos de olhar” para estes objetos, partindo do pressuposto de que estas posturas também influenciam sua produção e a forma como intervimos neles, se colocando, portanto, como fruto de uma resposta acadêmica / institucionalizada / formal / erudita à manifestação popular / informal / marginalizada / periférica. No que toca a habitação, podemos sugerir também, com o respaldo de Bonduki, que esta “confusão” é reflexo de que pouco ainda foi investigado e definido sobre a sua produção na ausência de Arquitetos, seja ela incluída no que entendemos como popular, social, vernácula ou auto-construída. Portanto, é mais que necessário “dar nome aos bois”, quando não, resignificá-los: apropriandose de seus atributos ao passo que os transformamos como ferramenta de luta pela resistência.

Casas Populares / Arquitetura Popular? Foto: Tuca Reinés, Projeto Santander

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Dando Nome aos Bois

1.1 A Academia e a Arquitetura Popular Através de Nabil Bonduki Não é de se assustar o fato de que a produção habitacional das favelas e loteamentos irregulares não se fazem presentes nos inúmeros compêndios da história da arquitetura brasileira. Não é esta a critica central que buscamos realizar aqui. Podemos elencar inúmeras razões a fim de tentar justificar sua ausência. No entanto, o que se deseja aqui é refletir sobre como o “fazer popular” vem dialogando ao longo da história com a Arquitetura, ou melhor, com a Academia. “Fazer popular” este que predominantemente se manifesta através da habitação, uma vez que esta se coloca como solução primitiva para uma necessidade básica humana: o abrigo. Pois bem, em que momento da história os pobres deixaram de habitar o que era tido como popular ou vernacular para habitar espaços tidos como “marginais”, “irregulares” e/ou “informais”? Esta pergunta é atravessada por outra questão, talvez até que a anteceda: em que momento da história a habitação popular deixou de ser aquela que é realizada pelo próprio povo e passou a ser provida pelo empregador (casas operárias), pelo “empreendedor” imobiliário (cortiços) e depois pelo Estado? Na tentativa de compreender este movimento, podemos refletir sobre como a academia, que historicamente contribuiu como “comissão de ética” da arquitetura, dizendo o que é e o que não é digno de ser estudado, investigado e tido como arquitetura de fato, se relacionou em determinados períodos históricos com a produção de moradia popular. É claro que esta mera postura, não impediu a existência de práticas tidas como “marginais” e, portanto, pouco estudadas, como a chamada “arquitetura vernacular”, por exemplo, que em mais de 500 anos de história, passou a ser investigada com maior vigor no Brasil recentemente, como veremos. Quanto às manifestações construtivas encontradas em favelas e loteamentos irregulares, começaram a ser de fato estudadas após muitos anos de negação à ilegalidade. Quanto aos cortiços em São Paulo, como cita Lemos (1998), a própria proibição legal, passou a revelar a existência desses assentamentos. O cenário acadêmico virá a se modificar, principalmente na década de 80 ao se inclinar sobre as camadas mais baixas da população, seja através de uma concepção de “luta de classes” ou por um olhar com um viés “antropológico” de olhar para a alteridade. Isso nos leva ao nosso primeiro pressuposto: as manifestações construtivas populares brasileiras materializadas em habitação e que aqui entendemos como aquelas que são realizadas pelo o povo e para o povo, levam vários “nomes” dependendo do contexto no qual se quer inseri-las, no entanto, dificilmente encontram espaço no que formalmente é estudado e referido como arquitetura popular.

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A respeito disso, o próprio termo, quando associado à habitação e, portanto chamado de habitação popular, é digno de extensa discussão quanto a sua utilização, pois atualmente é atribuído à produção de moradia gerada por programas habitacionais estatais. Sendo então, junto com o termo habitação social, bastante utilizado em trabalhos acadêmicos que se inclinam sobre iniciativas públicas, entre elas, o BNH na década de 70, a COHAB a partir dos anos 60 e atualmente, a produção municipal paulistana através da SEHAB e o famoso e controverso PMCMV. Sendo assim, se levantarmos aqui a questão do “fazer popular” como elemento-chave determinante do que buscamos compreender como “arquitetura popular”, acabaremos entrando numa grande contradição, pois como já dito, o próprio termo não se limita ao “fazer popular”, mas também é utilizado como atributo para a produção de moradia que busca atender a camada populacional a qual esta produção se destina. Soma-se a esta frequente linha investigativa as habitações populares realizadas pelo setor privado no inicio do século XX, através de “empregadores industriais” e pequenos “empreendedores imobiliários”. Em relação a primeira, deu-se o nome de casas operarias e ao segundo de cortiços. Encontram-se ainda pouco esclarecidas as razões pelas quais a Arquitetura Popular tem sido investigada dominantemente por este viés especifico. De acordo com Bonduki, a história da produção habitacional no Brasil, no qual se inscrevem não só as iniciativas públicas e privadas, como também as práticas populares, manifestadas na autoconstrução e tidas comumente como informais, pouco foram investigadas em função de suas particularidades tipológicas ou arquitetônicas e quando presentes na pesquisa, não a protagonizam como objeto central da discussão. Fazendo uso do texto “Habitação no Brasil: uma história em construção” escrito em 2013 por Bonduki no âmbito de uma pesquisa temática desenvolvida entre o Departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto da FAU-USP e o Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos, podemos refletir sobre os fatores preponderantes que nortearam os interesses por estes objetos de pesquisa, as “habitações”, em razão de determinados períodos históricos. Antes mesmo de fazê-lo, Bonduki explicita em seu texto a desconcertante ausência da Habitação Popular na historiografia da arquitetura brasileira. A este respeito, citando a obra de Bruand (1981) tido como “o mais completo manual e referência bibliográfica obrigatória sobre arquitetura brasileira no século XX(...)” e que, no entanto “(...) não analisa, em quatrocentas páginas, nenhum projeto de habitação social(...)”.

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Dando Nome aos Bois

Capa do Livro Arquitetura Contemporânea no Brasil de Yves Bruand Fonte: Autor

Ainda sobre tal condição estabelecida no cenário acadêmico, Bonduki (2013) citando Lira (1996) afirma: “se não desprezou de todo esta aproximação dos arquitetos com a produção popular, frisando o seu desinteresse artístico ou histórico, o que fez então a história de nossa jovem arquitetura brasileira?”. Uma autorreflexão é então necessária a cerca de tal panorama construído em torno da historiografia da arquitetura no Brasil até finais do século XX: não é ousado sugerir que houve um rompimento entre o que era entendido como “arquitetura popular” e o que mais tarde se configurou como a forma mais popular de habitar as grandes cidades brasileiras: as favelas, loteamentos irregulares e afins. Sobre esta condição, não é arriscado sugerir que ela repercute uma relação de poder, que se faz presente no discurso hegemônico a cerca do que seja “Arquitetura”, excluindo dessa prática cultural o que é entendido como informal, e que, num primeiro momento, foram marginalizadas pela academia. Sobre este aspecto Bonduki também comenta:

O certo é que se aqueles que pesquisam e estudam habitação (popular) não a tratarem como um objeto de arquitetura, desenvolvendo metodologias e campos investigativos capazes de lhe conferir estatuto e tradição analítica, ela continuará ausente dos compêndios de história da arquitetura, assim como permanecerá intocada a definição que rejeita o próprio conceito de arquitetura popular ou arquitetura social, e que parece necessitar de uma espécie de “comissão de ética” para decidir o que é e o que não é arquitetura. BONDUKI (p.02, 2013)

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Tendo colocado em jogo este paradigma, a fim de tomar nota de que os estudos em torno da habitação são produzidos neste cenário e apresentando tais limitações, avancemos nossa reflexão a cerca do que foi a produção cientifica em torno da habitação no Brasil. A este respeito, segundo o autor, os anos 80 são determinantes nessa produção, por fundar uma linha de pesquisa que se inclina sobre as intervenções públicas catalisadas pela produção BNH a partir da década de 70. A respeito da produção estatal pré-BNH pouco foi investigado até este período, como cita Bonduki através de Valladares (1983).

BNH: Conjunto Habitacional da Pavuna Rio de Janeiro, 1976, Correio da Manhã Fonte: Arquivo Nacional

Somando-se a isto, muitas pesquisas foram impulsionadas por paradigmas teóricos em voga na época, sendo destacados por Bonduki a “teoria da marginalidade” nos anos 60 e a “teoria da acumulação capitalista” nos anos 70, que segundo o autor “buscaram refletir sobre o intenso processo de urbanização do período a partir das manifestações concretas sobre o problema da moradia dos setores, como as favelas, a autoconstrução e a expansão periférica”. Ainda neste período, buscando superar a escassez de pesquisas em torno da história da habitação no Brasil, é nítida a erupção de pesquisas a cerca da produção de habitações operárias na Republica Velha, sendo desenvolvidas através de linhas que buscavam investigar as questões de insalubridade e precariedade dessas habitações, e com isso, também começavam a ser vistos como objetos de pesquisa os Cortiços, que estavam fortemente ligados à questão do trabalho/ moradia. A este respeito Bonduki destaca os “estudos sobre a precariedade e insalubridade do cortiço habitado pelo proletariado urbano e sobre as vilas operárias vinculadas às indústrias, vistas como uma forma de controle patronal sobre a nascente classe trabalhadora brasileira”.

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Além dessas vertentes em crescente expansão, os anos 80 também são responsáveis por fundar uma linha de pesquisa que buscava compreender as intervenções do poder publico nas favelas, se inclinando sobre os processos de ocupação da terra, destacando a organização popular e os modos de vida nas favelas. A respeito da década de 80 , Janice Perlman autora de “o mito da marginalidade, também comenta: Com a abertura democrática dos anos 80, vozes de oposição se uniram e o discurso se orientou para os conceitos de exclusão/inclusão social, desigualdade, injustiça e segregação espacial. Esses estão ligados a questões de transparência, participação, democracia e cidadania. O conceito de exclusão foi além do dualismo econômico e desemprego para uma questão de direitos e oportunidades de cidadania. PERLMAN (p.07,2002)

Embora, na década de 80 possamos constatar através dos relatos de Bonduki uma importante guinada no campo de visão da produção acadêmica, se inclinando agora sobre processos antes subestimados e que já repercutem com certa preponderância na produção da cidade e na ocupação dos territórios periféricos, o autor afirma que esta geração de pesquisadores, a pesar do pioneirismo de seus trabalhos, pouco contribuiu com a redução do distanciamento entre essa produção “marginal” e o que era então entendido como “arquitetura” pela academia. Acontece que as manifestações construtivas materializadas nas habitações auto construídas de favelas, loteamentos irregulares e afins, não foram investigadas até então como objeto arquitetônico ou pensados como tal, seja no âmbito de uma arquitetura “popular” ou de uma arquitetura “vernácula”. A respeito disso, Bonduki reflete: “Agindo desta maneira, nós de certa forma contribuímos para aprofundar o distanciamento entre a habitação (tratada mais e mais como política publica e processo socioeconômico) e a arquitetura. Esforço no sentindo inverso apenas começou a ser feito nos anos 90.” BONDUKI (p.07, 2013) Os anos 90 foram importantes, segundo Bonduki, pois abrigaram o surgimento de diversos estudos que de certa forma, colaboraram com uma primeira inserção da habitação social na história da arquitetura e urbanismo. Os trabalhos de “Bonduki (1994,1996,1998a e 1998b), Souza (1994), Sampaio (1996 e 1998), Antunes (1997) e Nogueira (1996 e 1998) – talvez o conjunto mais articulado de estudos de trabalhos sobre a habitação neste período – que passam a recuperar, no âmbito do estudo da ação governamental na habitação social, a análise da arquitetura moderna. ” BONDUKI (p.07, 2013) Estes estudos se destacam então, pois atribuem certo “status” a produção de habitação social estatal, na medida em que a englobam como um componente da “arquitetura moderna”, desconstruindo a ideia de “mera obra” e incluindo-a num processo cultural, artístico e de ordem estilística, contribuindo com a geração de novos olhares para a produção da habitação social como arquitetura. Ainda sobre os anos 90, Bonduki destaca o trabalho de Lira (1996) que de certa forma corre por outro viés, mas também tem como objetivo desconstruir a ideia de “mera obra”, dessa vez no fazer popular, e que a propósito iremos investigar com maior atenção no decorrer deste caderno. Lira (1996) é importante, segundo Bonduki, pois busca “resgatar a habitação vernacular como parte da arquitetura popular, categoria que tem sido em geral rejeitada pela historiografia clássica da arquitetura brasileira”.

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Outro pesquisador que não é citado neste contexto por Bonduki, mas também se inclina sobre a habitação popular como parte da arquitetura vernacular é Gunter Weimer (2005) e que também dedicaremos espaço considerável neste caderno. Isto porque estes autores atribuem novos olhares à produção popular, resignificando o que pela academia era visto como “mera obra” e resgatando o caráter cultural destas manifestações construtivas feitas pelo próprio povo. Se pudermos supor que, em relação a produção acadêmica em torno da habitação social estatal, a resignificação ocorre à medida que são destacados seus atributos estilísticos, possibilitando a sua inserção no “movimento moderno” e o reconhecimento no meio “erudito”, a produção popular só passa a ser compreendida como “objeto arquitetônico” à medida que é desconstruída uma visão seletiva, ou melhor, elitista do que seja “arquitetura” ou até “cultura”. Nesta mesma linha, Bonduki expressa sua opinião a cerca da importância de se inclinar sobre o fazer popular:

Malgrado já ter se pesquisado muito sobre a história da habitação, resta ainda vastíssimo campo de pesquisa, aliás como não poderia deixar de ser, posto que mais de 150 milhões de pessoas habitam de alguma maneira neste país, e na visão que procuro defender aqui, todas estas moradias tem interesse de pesquisa. Não são tudo a mesma coisa, como às vezes acreditam os que olham a favela, a periferia, os conjuntos habitacionais ou a habitação rural de longe, ou seja como faz a elite brasileira e boa parte dos pesquisadores. BONDUKI (p.07, 2013)

Desta primeira reflexão fica a pergunta: seria possível sugerir que a escassez de trabalhos e, às vezes, os distorcidos “modos de olhar” para a habitação popular, são respostas acadêmicas, ora conscientes ora inconscientes, à “manutenção do privilégio” e das “relações de poder” que o sociólogo francês Pierre Bordieu (2004) coloca como as funções principais do sistema educacional, uma vez que esses objetos são produzidos dominantemente pela própria população e não por técnicos? Quanto do nosso “modo de olhar” para a produção popular (feita pelo povo) ainda está impregnado por esta visão conservadora? E o que poderíamos apreender dos pesquisadores que se inclinaram sobre o fazer popular no século XX a fim de compreender também o fazer popular no século XXI? Se Bonduki nos apresenta a ideia de que a habitação no Brasil é “uma história em construção” no que se refere a constante expansão da academia face à emergência de novas perspectivas e modos de olhar para uma amplitude de fenômenos associados à habitação e cidade, não podemos negar também que no século XXI não estamos tratando de um assunto acabado, pelo contrário, estamos tratando de um fenômeno muito recente.

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Dando Nome aos Bois

Conjunto Residencial Marquês de São Vicente, Reidy Foto : Anthony Leeds Elizabeth Leeds, Rio 1960

Se as décadas de 80 e 90 se conformam como um período chave para compreensão dessas novas perspectivas, seja em relação à produção habitacional estatal ou a aproximação da academia frente aos territórios ditos informais nas periferias das grandes metrópoles. Não podemos garantir que 20-30 anos depois, nossa compreensão ainda não carrega debilidades que repercutem na nossa forma de produzir arquitetura, para um órgão estatal, ou na hora de intervir na cidade informal, através de remoção de populações e “urbanização” de favelas.

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1.2 O vernacular na Arquitetura Popular Através de Gunter Weimer No primeiro capitulo a reflexão girou em torno da compreensão dos fatores que nortearam a produção acadêmica no século XX e que por fim, possibilitaram uma maior aproximação da academia em relação à “arquitetura popular”. Foi observado através de Bonduki, que num processo histórico a habitação, elemento-chave na compreensão do popular na arquitetura, se desenvolveu através de diferentes agentes e como veremos mais a frente com relevâncias diferentes em função do período histórico. Como resposta a essa produção de múltiplos atores, entre eles o setor privado, o setor publico e a própria população, a academia vem elegendo os produtores de seu maior interesse. Restou ao fazer popular, expresso na autoconstrução e que comumente adentra as discussões no âmbito do “popular” e do “vernáculo”, a condição de menos investigado. No entanto, o fazer popular expresso na “arquitetura popular” ou “arquitetura vernacular”, conquistou espaço relevante nas discussões de patrimônio, história e habitação. Compreender o fazer popular através da arquitetura é dar voz a autoconstrução e compreende-la como resultado de uma manifestação cultural, apesar de nela também estarem expressos outros fatores. Segundo OLIVEIRA (2003), a autoconstrução nas periferias, manifestadas nas favelas e loteamento irregulares, não pode mais ser encarada simplesmente como uma mera obra cultural, pois nelas estão presentes elementos que compõe uma nova realidade social, segundo SÁ (p.30, 2009): A visão de autoconstrução como solução “natural” também já foi objeto de crítica contudente, elaborada por autores como “Ermínia Maricato (1982) quando nos lembra que a população que usa esta forma de acesso a moradia não está mais ligada a uma economia rural de subsistência, mas se trata da massa assalariada participante de uma economia industrial capitalista. Desse ponto de vista (inspirada na visão de Oliveira), a autoconstrução é essencialmente uma consequência do baixo poder aquisitivo da classe trabalhadora e das políticas públicas excludentes, que geralmente estão atreladas ao interesse do capital privado.

Portanto, é importante observar aqui que a aproximação do vernáculo a qual este trabalho pretende, não tem como objetivo a associação direta da arquitetura vernacular à autoconstrução na cidade informal. A aproximação do vernáculo é necessária para uma compreensão contextual e histórica do fazer popular na arquitetura. Fazer popular que na auto-construção contemporânea foi precarizado e subestimado.

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Pois bem, adentrando a discussão da arquitetura vernacular, é muito comum observarmos a utilização do termo vernacular em estudos teóricos de arquitetura ao se referir as manifestações construtivas de um determinado povo. No entanto, como revela Gunter Weimer, autor do livro “Arquitetura Popular Brasileira” e amplamente mencionado como um dos maiores teóricos da “Arquitetura Popular”, o termo vernacular trata-se de um neologismo, que provem do termo latino vernaculu e que, originalmente, designava o escravo nascido na casa do senhor. Atualmente é utilizado para se referir a uma língua própria ou costumes de um país ou de uma região. No seu sentido figurado é utilizado para se referir a uma linguagem correta, sem estrangeirismos, de sintaxe perfeita. E em seu sentido etimológico, significando escravo, bobo, patife e velhaco, evidenciando, portanto, a inadequação do termo quando aplicado à arquitetura. Gunter Weimer considera o termo uma referência errônea, “visto que o equacionamento da arquitetura popular não poderia se reduzir a uma apreciação de suas qualidades plásticas, conquanto nessas manifestações as características funcionais e construtivas são bem mais preponderantes.” Ao se referir à utilização no sentido etimológico: “suas conotações pejorativas o condenam por completo”. Weimer (p.XL, 2005) Ao estimar as características funcionais e construtivas em detrimento das características plásticas, Weimer elucida um ponto importante na compreensão do que seria a Arquitetura Popular: num primeiro momento, já podemos sugerir que questões formais, plásticas ou estéticas pouco têm a oferecer como critério para definirmos o que seriam as manifestações construtivas populares. É importante destacar aqui que, embora os “juízos de valor” estéticos não colaborem para a definição do que seja a produção arquitetônica popular, isto não quer dizer que toda manifestação construtiva popular carece de propriedades estéticas ou plásticas, muito pelo contrário. Para uma correta compreensão do que venham ser as manifestações construtivas do povo, Gunter Weimer, sugere que o termo mais apropriado é o popular, do latim populus, que se referia a uma camada da população intermediária, entre a elite e a plebe. Seguindo a reflexão, Gunter Weimer, a fim de delimitar e precisa os limites da abrangência da arquitetura popular Brasileira, destaca características gerais da arquitetura popular no Brasil, sendo elas: A simplicidade: (...) “por ser resultado da utilização dos materiais fornecidos pelo meio ambiente. Evidentemente, é um produto da imaginação humana, por isso não pode ser reduzida à realização da natureza. Mas ela sempre mantém uma vinculação estreita com a natureza, em virtude das limitações econômicas às quais está sujeita. Pode-se até mesmo afirmar que ela se afasta das condições ecológicas na exata medida em que aumentam os recurso econômicos disponíveis para sua simplicidade.” Weimer (p.XLI, 2005)

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Casas Populares da Caatinga In WEIMER Gunter. Arquitetura Popular Brasileira , 2005 A adaptabilidade : “E aqui temos exemplos belíssimos, que podem ser encontrados nas mais variadas correntes imigratórias no Brasil. Imigrantes provenientes de climas frios – por vezes, extremamente frios para as condições do clima brasileiro – conseguiram adaptar suas técnicas tradicionais a seus modos de edificar às circustâncias locais (...)” Weimer (p.XLll, 2005)

Casas Populares dos Mangues e das Ribeiras In WEIMER Gunter. Arquitetura Popular Brasileira , 2005 A criatividade : em contraposição a esta característica “(...) a arquitetura erudita é muito controlada e dominada pelas mais recentes conquistas tecnológicas, o que implica o emprego de materiais sofisticados e a sujeição aos modos de vida das culturas que lhe deram origem. Por isso, a arquitetura popular está despida desse tipo de compromisso é muito mais criativa em termos de imaginação formal e no emprego de materiais de construção.” Weimer (p.XLll, 2005)

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Casas Populares do Litoral In WEIMER Gunter. Arquitetura Popular Brasileira , 2005 A forma plástica como resultado da técnica e dos materiais empregados: “A quarta característica talvez resida no modo de encarar o fenômeno da construção. Para o mestre Lúcio Costa, a arquitetura – obviamente erudita – parte do principio de que está sujeita a uma intenção plástica. Em consequência, a técnica é escolhida entre as diversas opções que permitem realizar os objetivos plásticos propostos. Na arquitetura popular, parece que, invariavelmente, acontece exatamente o contrário: a forma plástica é o resultado – entre outros – da técnica e dos materiais empregados.” Weimer (p.XLll, 2005)

Casas Populares dos Coqueirais In WEIMER Gunter. Arquitetura Popular Brasileira , 2005

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A resistência cultural ou conservadorismo: (...) a arquitetura popular – salvo condições de excepcionalidade, como fenômenos de força maior, em que as migrações são exemplos típicos – é o resultado de uma evolução multissecular e de profundo respeito às tradições culturais do grupo. Essa característica – aparentemente – se opõe à da criatividade anteriormente citada. Mas, de fato, uma não exclui a outra: em situações estáveis da sociedade, ressalta seu espirito conservador; em situações de rápidas transformações, ela se reveste de uma rara capacidade de adaptação. Weimer (p.XLll, 2005)

Ainda que as características levantadas por Weimer digam respeito às arquiteturas populares “pré-industriais” e que, portanto, se inscrevem dentro de sua definição através de um recorte temporal especifico, não há como negar as proximidades entre as características gerais levantadas por Weimer e as manifestações contemporâneas do fazer popular presentes na Cidade Informal. No entanto, tal ponto de vista não vai ao encontro das percepções de Weimer sobre a contemporaneidade da arquitetura popular expressa em favelas e loteamentos irregulares, uma vez que o mesmo cita, a respeito do “acerto” da atribuição “arquitetura popular” ao invés de “vernacular”, comentando: “ essa definição parece ser extremamente atual e muito feliz: exclui a arquitetura realizada para as elites – denominada erudita – e a dos excluídos em que , modernamente se tem usado o termo favelas e outros termos semelhados ”. Sobre este comentário, é interessante observar que a cerca do que é exposto e investigado em seu livro, Weimer, de certa maneira, se contradiz, pois suas investigações, no livro “Arquitetura Popular Brasileira”, a respeito dos modos de morar e viver, não se resume a uma classe mediana brasileira. Ainda que seja possível identificar um recorte temporal especifico em suas analises, suas pesquisas abrem espaço para condições de vida que não podem ser encaixadas numa camada social genericamente julgada como “intermediária”. Embora o uso do termo arquitetura popular, “aquela que é própria do povo e que por ele é realizada”, como Gunter Weimer define como o termo que melhor se encaixe em contraposição ao vernacular, não é possível justificá-lo pela suposta abrangência de uma camada social intermediária, antes, seria melhor fazê-lo apenas pela sua condição de prática realizada e utilizada pelo povo. Isto porque, como o próprio livro investiga, no Brasil a arquitetura popular se fez através de diferentes níveis de uma ordem social, e que por muitas vezes nos níveis mais baixos, entre eles sertanejos, caiçaras, quilombolas, indígenas, seringueiros, entre outros, identificamos uma grande parcela da população construindo suas próprias edificações, condição essa que por si só automaticamente os colocariam dentro dessa definição e tornando “o popular” realmente popular. Mas se o autor pretende excluir as “favelas e outros assemelhados” do fazer popular por razão de um caráter social marginal, devemos refletir então sobre o status das favelas e loteamentos regulares na contemporaneidade, afinal, podemos ainda nos referir a tais práticas como meras práticas marginais ou “meras exceções”? Antes disso, é interessante também refletir sobre alguns aspectos que cercam a compreensão do que seria “o popular” no Brasil.

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Retratos de Mocambos In LIRA, José Tavares Correia, “A cidade em preto e branco e a cor local’, 1998

Para aprofundar a compreensão dessas diferentes perspectivas acerca do que seria a produção popular, o trabalho do arquiteto pernambucano José Tavares Correia de Lira elucida questões importantes. Tendo como objeto de estudo os Mocambos do Recife, habitações que até meados do séc. XX, em determinadas abordagens, eram identificadas como “forma popular” de se ocupar a periferia da cidade, Lira, em seus trabalhos “A cidade em preto e branco e a cor local, (1998)”, “Mocambo e Cidade: Regionalismo na Arquitetura e Ordenação do Espaço Habitado (1997) e “A construção discursiva da casa popular no Recife (1994)”, percorre num espaço temporal as diferentes narrativas atribuídas aos mocambos ao longo da história. As variâncias narrativas identificadas por Lira demonstram que se num primeiro momento os Mocambos, numa perspectiva romântica (ver próximo texto), passaram de habitação vernacular, popular, regional e até ancestral, por suas influências africanas como o próprio Weimer (2005) cita, num segundo momento, essa perspectiva é superada por um discurso que o marginaliza.

Retratos de Mocambos In LIRA, José Tavares Correia, “A cidade em preto e branco e a cor local’, 1998

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Mocambos localizados em áreas alagadas do Recife deram origem às primeiras palafitas da cidade Fonte Museu da Cidade do Recife

Estes momentos não são necessariamente cronológicos. É interessante observar que esta alternância de perspectivas ocorre a nível das ideias, ou seja, do discurso, portanto, elas convivem cronologicamente, se fazendo presentes em perspectivas opostas. No entanto, a forma como o Mocambo é visto e encarado pela Sociedade tem participação ativa em sua transformação física ao longo dos anos, sendo também acompanhada por uma resignificação do que seria a casa popular no Recife. Como cita Lira (1998), na década de 20 e 30 discursos como o de Josué de Castro (1937) e Gilberto Freyre (1925) representam a corrente que defende os Mocambos como herança viva da cultural local e também reminiscencia ancestral de uma forma típica de ocupar o território. Em “Documentário do Nordeste” de 1937, Josué de Castro diz o seguinte a cerca dos mocambos: “Zona dos ‘mocambos’ – cidade aquática – com casas de barro batido a sopapo, telhados de campim e palha, de folhas e flandres. Cumbucas negras boiando nas águas. Veneza Americana. Poesia primitiva de negros e mestiços fazendo xangô e cantando samba. Fisionomia africana.”

“Favela Boa Ventura “ em Recife Fonte: http://mapio.net/a/14587845/

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Bomba do Heretério , Zona Norte de Recife Fonte: Diário de Pernambuco


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As manifestações dessa perspectiva regionalista em defesa dos mocambos, são também projetadas na publicação “Mucambos do Nordeste” de 1937 com autoria de Gilberto Freyre e ilustrações de Manoel Bandeira. Tais manifestações, para além de uma simples exaltação da cultura local, surgem como ativismo politico em resposta as práticas do Estado Brasileiro, representado até então por Agamenom e Getúlio Vargas e que através de politicas higienistas, levados pela pretensa insalubridade da zona dos Mocambos , produziam moradias que em nada dialogavam com a herança local. Eram também alvo de criticas a difusão de espécies exóticas em detrimento das espécies nativas na urbanização da cidade. É interessante observar que a desconstrução do mocambo como Casa Popular, seja no campo das ideias quanto na prática, colaborou com a sua marginalização e consequentemente com a sua precarização, uma vez que como cita Vaz (1998) a “exclusão está conectada a modernização”. Atualmente, a periferia do Recife ainda resguarda em si, como pode ser verificado nas fotos, uma certa regionalidade em contraposição a Cidade Formal (ao fundo) que se mostra como uma massa de edifícios “standartizados”. Constata-se portanto, através do exemplo de Recife, que a Cidade Informal, mesmo que não possamos chamá-la de “vernacular” , resguarda em si aspectos de uma resistência local que confrontada por um projeto de modernização excludente e “importado”, marginaliza e precariza formas populares que historicamente estão intimamente conectadas com o território e a cultura local.

Alto José Bonifácio, Zona Norte de Recife Fonte: Diário de Pernambuco

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1.3 Aspectos da Cultura Popular no Brasil Através de Marilena Chauí Em “Conformismo e Resistência – Aspectos da Cultura Popular no Brasil”, Marilena Chauí reflete sobre como as divergências entre Românticos e Ilustrados, duas vertentes ideológicas que se contrapuseram quanto ao conceito de cultura a partir do sec. XVIII, e também encontrando divergências na definição do que seria o popular. Para compreender em qual contexto o popular aparece nessas duas vertentes, Chauí faz uso de uma citação-chave de Barbero “o popular na cultura, posto em marcha pelo movimento Romântico, e o povo na política, elaborado pela Ilustração” CHAUI apud BARBERO (p.14.2014) Na compreensão do que seria “o povo na política” para os Ilustrados, Chauí reflete sobre a “divisão social, posta como divisão política”, retomando, portanto a distinção romana entre Populus e Plebs: “(...) Isto é, entre o Povo como instância jurídico-politica legisladora, soberana e legitimadora dos governos, e a Plebe como dispersão de indivíduos desprovidos de cidadania, multidão anônima que espreita o poder e reivindica direitos tácitos” CHAUI (p.15.2014) Sendo assim, é sugerido que para os Ilustrados o popular é construído através de uma dualidade povo-povinho, em que as praticas do primeiro são consideradas como autênticos exemplares da manifestação popular, enquanto a da outra parcela; exceções norteadas pela ignorância e pela irracionalidade. Haverá, para ela, o Povo com vontade universal e legislador soberano, unidade jurídica dos cidadãos definidos pela lei, e o povinho populacho, ignorante, supersticioso, irracional e sobretudo sedicioso – a massa perigosa. Há, pois, o Povo como generalidade política e o povo como particularidade social, “os pobres”. (...) Ao povo, portador da razão, cabe a tarefa política fundadora. Quanto ao povinho e suas “necessidades básicas”, cabe auxilia-lo através da filantropia e educa-lo através da disciplina do trabalho industrial(...). CHAUI ( p.19,2014)

Do outro lado, para compreender a perspectiva Romântica do “popular na cultura”, Chauí reflete sobre como a “afirmação da alma popular, do sentimento popular, da imaginação, simplicidade e pureza populares” tinham como objetivo central se contrapor ao racionalismo Ilustrado e que de acordo com os Românticos, era a origem da decadência e do caos social O povo romântico – sensível, simples, iletrado, comunitário, instintivo, emotivo, irracional, puro, natural, enraizado na tradição – nasce de motivos estéticos, intelectuais e políticos. Esteticamente é a resposta do Romantismo ao Classicismo, a revolta da Natureza contra a “arte”. Intelectualmente, é a resposta dos sentimentos contra o racionalismo Ilustrado, a revolta da tradição contra o progresso das Luzes, do sobrenatural e do maravilhoso contra o “desencantamento do mundo”. CHAUI ( p.19,2014))

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Como cita Chauí, é através da perspectiva Romântica que são delineadas as primeiras características que comumente seriam atribuídas à cultura popular. Entre elas:

“O primitivismo (isto é, a ideia de que a Cultura Popular é retomada e preservação de tradições que, sem o povo, teriam sido perdidas), comunitarismo (isto é, a criação popular nunca é individual, mas coletiva e anônima, pois é manifestação espontânea da Natureza e do Espírito do Povo) e purismo (isto é, o povo por excelência é o povo pré-capitalista, que não foi contaminado pelos hábitos da vida urbana.” CHAUI ( p.19,2014)

Embora essas duas forças se encontram contrapostas no campo das ideias e que como cita Chauí “ É possível observar que nas discussões brasileiras – seja nos anos 60, seja nos anos 80 – a cultura popular oscila, entre um ponto de vista romântico e um outro, ilustrado.”, estas visualizações são responsáveis por manifestações de compreensões “hibridas” a respeito do que seria o popular. Não é arriscado compreender a luz destes conceitos que a própria definição do que seria Arquitetura Popular Brasileira, investigada aqui através do trabalho de Gunter Weimer, flutua entre essas duas concepções. Sendo assim, podemos sugerir que as “manifestações construtivas marginais” expressas nas favelas e loteamentos irregulares encontram-se fora do que é comumente definido como Arquitetura Popular Brasileira, por razão de uma perspectiva Ilustrada dos estudiosos a respeito do que seria a Cultura Popular? Segundo Chauí, os aspectos da cultura popular no Brasil não se resumem unicamente a estas duas perspectivas. É importante observar também que, embora antagônicas, essas duas formulações se aproximam mais do que entendemos no campo teórico como arquétipos do que posturas reais e comuns. Na prática, estas perspectivas são a base para o surgimento de posturas heterogêneas e hibridas que frequentemente se confundem na apropriação de elementos ora tidos como “Ilustrados”, ora tidos como “Românticos”. Para nos aproximarmos com maior profundidade aos movimentos que geraram “modos de olhar” para a cultura popular no Brasil, Chauí propõe a inserção do conceito “hegemonia” como uma “contribuição interessante” na discussão. Cunhado por Gramsci (1937), Chauí o insere numa perspectiva marxista antes de defini-lo, uma vez que para Chauí p.21, 2014“(...) a perspectiva marxista se diferencia da Romântica e da Ilustrada por que seu conceito central, não é o de povo-popular, mas o de luta de classes.”

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É neste contexto, portanto, que o conceito gramsciano de “hegemonia” pode ser investigado e inserido como contribuição uma vez que para Gramsci (1937), segundo Chauí: “(...) a hegemonia é a cultura numa sociedade de classes. Hegemonia não é um “sistema”: é um complexo de experiências, relações e atividades cujos limites estão fixados e interiorizados, mas que, por ser mais do que ideologia, tem capacidade para controlar e produzir mudanças sócias. Numa palavra, é uma práxis e um processo, pois se altera todas as vezes que as condições históricas se transformam, alteração indispensável para que a dominação seja mantida.” CHAUI ( p.22,2014)

Considerando que tal modo hegemônico de se referir à habitação popular, subestimando a autoconstrução, opera não só na academia, mas também no poder público, ao regular/castrar/ formalizar modos de vida e também no mercado, ao se valer de tal panorama, para fazer vingar a habitação como mercadoria, excluindo deste objeto todas suas outras potencialidades. O conceito de hegemonia também introduz na reflexão de cultura as relações de poder inerentes a uma sociedade definida pela dominância de uma classe em relação a outra. A este respeito é interessante observar que segundo Chauí (2014) a construção da cultura popular no Brasil é baseada no “conformismo e resistência” pelo o que o próprio titulo de seu trabalho acaba enunciando. Sendo assim, a relação entre “culturas” não é mais antagônica e sim dialética. Se num primeiro momento, tínhamos a perspectiva ilustrada X perspectiva romântica, através do conceito de hegemonia, vemos uma alimentação continua de ambos os lados, o popular e o erudito dinamizado pelas relações de poder e luta de classes. Os dominados interiorizam a cultura imposta pelo erudito dominante e também podem aceitá-la (conformismo), reciclála, transformá-la , resignificá-la e as vezes também negá-la (resistência), gerando assim o que entendemos como manifestação da cultura popular.

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BLOCO 02 Dois pesos duas medidas A história nos fez, pelo esforço de nossos antepassados, detentores de um território prodigiosamente rico e de uma massa humana metida no atraso, mas sedenta de modernidade e de progresso, que não podemos entregar ao espontaneísmo do mercado mundial. A tarefa das novas gerações de brasileiros é tomar este país em suas mãos para fazer dele o que há de ser, uma das nações mais progressistas, justas e prósperas da terra. Darcy Ribeiro em “O Povo Brasileiro” (p.204, 2004)

Foto: Alice Brill, Comércio de Rua, 1953, Salvador – Brasil Fonte:Instituto Moreira Salles

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Apresentação do Bloco Este bloco de textos joga luz sobre a condição paradoxal a qual se encontra a Cidade Informal. Uma vez que podemos constatar que trata-se de uma manifestação local e ao mesmo tempo global. Portanto, considerar essa relação de “dois pesos e duas medidas” é crucial para a real compreensão deste fenômeno. Para desenvolver a questão local, ou seja, compreender a questão da autoconstrução e das formas populares de ocupar o território brasileiro, divido “o morar” em 3 ciclos: pré urbano, urbano-industrial e urbano técnico cientifico, fazendo valer o termo cunhado por Milton Santos em “ A urbanização Brasileira” (1993). É interessante observar que estes ciclos tem caráter analítico, pois não se tratam de rompimentos bruscos num espaço temporal e, portanto, aconteceram em períodos cronológicos diferentes nas mais diversas localidades brasileiras. Para desenvolver a questão global, ou seja, compreender a cidade informal como reflexo da modernização excludente do sistema econômico global capitalista, faço uso do trabalho de Chico de Oliveira, autor de “Crítica a Razão Dualista” e Mike Davis autor de “Planeta Favela”, livro que traça um parâmetro das atuais condições de moradia ao redor do mundo, mais especificamente dos países erroneamente chamados “em desenvolvimento”. Movido pelas seguintes indagações: “De onde veio (viemos) o favelado Brasileiro?” “Podemos revindicar nosso passado territorial?”Pretende-se com este bloco, para além de refletir sobre os dois lados da moeda apresentados, uma reflexão do ato politico do morar. Uma aproximação dos conceitos de apropriação territorial (cultural,social e ambiental) e também do direito a cidade. É importante destacar que para o segundo texto desse bloco, optou-se por uma narrativa omissa , uma vez que os autores apresentados por si só, apresentam o que se deseja apresentar a cerca da condição global da Cidade Informal, deixando que o leitor interaja com o texto e imagem sem interferências do autor, possibilitando assim uma livre comparação entre os aspectos globais e locais.

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Dois Pesos Duas Medidas

2.1 A Cidade Informal como Cultura Local Através de Gunter Weimer e Darcy Ribeiro

1º ciclo do morar: pré-urbano É imprescindível considerar que as formas populares de habitar o Brasil são resultado de incontáveis confluências culturais que num primeiro momento foram responsáveis por fundar uma relação inaugural do brasileiro com o seu território. Residem nessas formas populares de habitar, portanto, evidencias culturais dignas de um resgate investigativo, e que enunciam modos de vida ricos em substância cultural, ecológica e técnica, mas que num processo histórico foram suprimidas pela imposição de outras formas vistas como superiores ou mais adequadas às ideias de progresso e desenvolvimento que as forças dominantes defendiam. Se num primeiro momento, pretendemos refletir aqui em retrospecto sobre as condições gerais que norteavam o habitar no Brasil num recorte temporal que aqui chamaremos de pré-industrial, com o respaldo de Darcy Ribeiro através da obra “O Povo Brasileiro” e Gunter Weimer através de “Arquitetura Popular Brasileira” , num segundo momento, poderemos contrapor os primeiros levantamentos com as condições do periodo pósindustrial em busca de reminiscencias culturais que ainda resistem, ou talvez, não. Colocar Gunter Weimer, arquiteto brasileiro e mestre em história da cultura, para conversar tête-à-tête com Darcy Ribeiro, um dos maiores nomes da antropologia brasileira, é uma tarefa interessante a medida que vamos compreendendo em quais momentos seus pontos de vista divergem e em quais momentos eles se complementam. Junta-se a este dialogo algumas considerações que nos ajudam a compreender como ocorreu a transição da formas populares de habitar o Brasil.

Influências indígenas na Arquitetura Popular Biboca (casa pequena)

Capuaba (casa de roça) Copiá (varanda)

Caiçara (palhoça) Copé (cabana de palha) Jirau Rede de Dormir Poperi (abrigo provisório)

Taba (aldeia indígena)

Tapiri (choça) Tijupá (cabana) Urupema (trama ) Maloca (casa grande Palavras extraídas In WEIMER Gunter. Arquitetura Popular Brasileira , 2005

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

Casa de Tapiris In WEIMER Gunter. Arquitetura Popular Brasileira , 2005

Em sua investigação a cerca das influências indígenas na arquitetura popular brasileira, Weimer se concentrou na região amazônica, região que por questões históricas amplamente conhecidas, conservou e ainda conserva fortes reminiscências indígenas. No entanto, para além do uso de materiais vegetais, como pode ser verificado nos Buritis e Tapiris, a influência indígena se estende no norte do Brasil e também em algumas regiões interioranas, rurais e litorâneas através de um rico e complexo acervo de relações simbióticas entre o homem comum e o território. Os saberes indígenas colaboraram com uma rica compreensão das potencialidades presentes no meio natural e pode ser contemplado em diferentes graus de intensidade no homem amazônico, caipira, caiçara entre outros. Mesmo que a perspectiva dominante portuguesa, que estabeleceu relações predatórias e extrativistas frente ao meio natural, tenha influenciado com maiores implicâncias o desenrolar histórico da ocupação territorial brasileira, os saberes indígenas ainda permanecem no intimo do povo brasileiro. É sim possível reavivá-lo e potencializá-lo e isso já vem sendo feito atualmente através de conceitos como a agro-floresta e permacultura.

Casa de Buritis In WEIMER Gunter. Arquitetura Popular Brasileira , 2005

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Dois Pesos Duas Medidas

É sabido através de Holanda (2013) e Ribeiro (2014) que muitas tribos indígenas que inicialmente ocuparam o território brasileiro, estabeleciam uma relação semi-nômade nas suas dinâmicas de ocupação , usufruindo, portanto, do meio natural na medida em que as condições se mantinham sustentáveis e após este período, colocavam-se em busca de novos assentamentos, colaborando assim com o ciclo de renovação dos recursos naturais “explorados”. A respeito disso, observamos que o morar para o indígena não está associado a ideia de permanência ou propriedade, assumindo também outra escala, pois não se resume a unidade habitacional. Podemos sugerir que o morar/habitar compreende em uníssono o habitat, elemento chave na compreensão das relações materiais e imateriais, sendo tal prática responsável pela construção de uma apropriação territorial holística, que é diferente de ser fazer dono, é fazer-se parte. Ribeiro (2014) cita que alguns dialetos de determinados troncos linguísticos indígenas apresentam ausência de possessivos , mais uma vez comprovando a ausência do conceito de propriedade. Talvez, se ausência do conceito de propriedade também fosse ausente quando falamos de habitação, o direito a moradia para todos poderia ser melhor desempenhado. A respeito disso Marx (1183) comenta: A propriedade privada aliena não somente a individualidade do homens, mas também a das coisas. O solo não tem nada a ver com a renda fundiária, nem a máquina com o lucro. Para o proprietário fundiário, o solo é sinônimo de renda; ele aluga suas terras e recebe a renda, uma qualidade que o solo pode perder sem perder nenhuma de suas propriedades inerentes, como uma parte de sua fertilidade, por exemplo, que é uma qualidade cuja medida, ou seja, existência, depende de condições sociais, que são criadas e destruídas sem intervenção do proprietário fundiário individual. MARX (1883,p.212)

Sanzalas e Mocambos In WEIMER Gunter. Arquitetura Popular Brasileira , 2005

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

Influências africanas na Arquitetura Popular Cubata Cacimba

Sanzala Mocambo

Palavras extraídas In WEIMER Gunter. Arquitetura Popular Brasileira , 2005

A respeito das influências africanas na arquitetura popular brasileira, Weimer (2005) é um dos maiores contribuintes para a produção de conhecimento a cerca de tal reminiscência, pois muitos autores negavam a possibilidade de existir em território Brasileiro tipologias/unidades habitacionais herdadas da África e que portanto, fossem trazidas pelos negros escravizados. Perspectivas já refutadas na década de 20 e 30 pela corrente regionalista de Pernambuco , citada neste trabalho no bloco anterior, e que exaltava a ancestralidade africana dos mocambos de Recife. O próprio Freyre (1937) cita “mocambo: o esconderijo africano na sociedade colonial”. Weimer (2005) compara as palafitas de Salvador, a propósito, uma das cidade mais africanas do Brasil, com a forma com que algumas aldeias de Benim ocupam regiões alagadas, provando que ecoam no Brasil tais influências, mesmo que atualmente dados os padrões de saneamento e salubridade impostos pela modernidade esta tipologia apresente ares de precariedade. Para além de uma simples comparação tipológica, as pesquisas de Weimer investigam a fundo as origens étnicas dos povos que ocupam estas habitações. Outro exemplo interessante são as sanzalas, habitações geminadas encontradas no interior da Bahia e norte de Minas Gerais, regiões que também receberam forte ocupação negra. O que num primeiro momento indicaria uma forma genérica de ocupar a Caatinga, para Weimer é indicativo da influência angolana em território brasileiro, pois além da questão formal, esta tipologia apresenta, através de uma disposição especifica de portas e janelas, ligações com tradições angolanas.

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Palafitas em Salvador e Aldeia em Benim In WEIMER Gunter. Arquitetura Popular Brasileira , 2005

Seja através dos mocambos, palafitas, quilombos, sanzalas e até mesmo favelas é interessante observar que as habitações de origem ou ocupação negra sempre se colocaram a margem da Cidade Formal, espaço dominado pela influência da arquitetura colonial portuguesa. As tipologias de influencia negra, são por mérito inquestionável, manifestações culturais de resistência e refúgio a opressão colonial, no caso dos quilombos, sanzalas e palafitas e também a voracidade do sistema capitalista-industrial no caso das favelas. Não é a toa que Gilberto Freyre faz uso dessas tipologias para investigar a construção social Brasileira em “Sobrados e Mocambos” e “Casa grande e Senzala”.

A dominância portuguesa na Cidade Formal In WEIMER Gunter. Arquitetura Popular Brasileira , 2005

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2º ciclo do morar: urbano-industrial A TRANSIÇÃO Com acrescente influência capitalista-industrial no campo e na cidade, observamos que o habitar tem sido reduzido cada vez mais a um instrumento de manutenção das relações sociais de produção capitalista, excluindo assim, suas reais potencialidades culturais, políticas e socioambientais. A respeito deste fenômeno, Graeff (1979) comenta: Nossa prática do espaço e nossa ciência sobre a morada se desenvolveram no curso dos últimos séculos exatamente enquanto ocorria uma transformação radical das qualidades essências da morada humana. A partir da formação dos burgos na Europa do Renascimento, desfechado o processo avassalador de desenvolvimento do capitalismo, o espaço habitado passou a ser cada vez mais corrompido em seus valores de uso, na medida em que passou a ser operado como valor de troca. Nesse processo, aquilo que sempre fora produzido, visto e utilizado como obra, foi se corrompendo, reduzindo, adquirindo as qualidades comuns da mercadoria. (GRAEFF,1979, p.126)

Conforme descreve Lukács (1971) essa nova configuração, moldada pelo valor de troca, assume forma dominante perante as formas que a antecederam, superando-as e por fim, anulando-as e estabelecendo uma nova relação do Homem com aquilo que ele produz e que está à sua volta. Se ousarmos nos aproximar com maior profundidade ao que é dito por Lukács, perceberemos que este fenômeno é de grande preponderância histórica, enunciando assim uma nova forma do Homem se relacionar com o que o rodeia. Sabemos que o sistema monetário baseado em trocas antecede à Sociedade Moderna, no entanto o que se discute aqui são as implicações de uma nova configuração que não se coloca mais de forma ocasional nas relações sociais, mas que adentra o cerne de qualquer relação social que venha a se desenvolver. Como se sabe, a troca de mercadorias e as relações mercantis subjetivas e objetivas correspondentes já existiam em etapas muito primitivas do desenvolvimento da sociedade. Mas o que importa aqui é saber em que medida a troca de mercadorias e suas consequências estruturais são capazes de influenciar toda a vida exterior e interior da sociedade. Portanto, a extensão da troca mercantil como forma dominante do metabolismo de uma sociedade não pode ser tratada como uma simples questão quantitativa – conforme os hábitos modernos de pensamento, já reificados sob a influência da forma mercantil dominante. (LUKÁCS, 1989, p.195)

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A convicção de Lukács quanto à influência da troca mercantil como forma dominante das relações sociais nos leva a considerar que devemos refletir sobre nossa produção do espaço à luz das forças que operam sobre nossa sociedade, não como uma constante secundária, mas sim como um elemento chave para compreensão da sociedade moderna. Embora possamos destacar aqui a nocividade dessa relação à habitação e ao morar, e, portanto, do homem com o território, nos debruçamos sobre ela por nela encontrarmos as origens de nosso tempo, como investigou Karl Polanyi (1944) em A Grande Transformação: “A característica distintiva da “sociedade de mercado” é que as mentalidades econômicas da humanidade foram alteradas. Antes da grande transformação, as pessoas baseavam as suas economias na reciprocidade e redistribuição e não eram racionais maximizadoras de utilidade.” POLANYI( 1994, p.47) Segundo POLANYI (1944), o processo de industrialização, junto com a criação de novas instituições de mercado, é grande responsável pela propensão da Humanidade pra troca e comércio, se conformando num esforço para moldar a natureza humana de forma a se ajustar ao novo mercado baseado em instituições econômicas. Darcy Ribeiro, a respeito das influências deste processo na configuração do território Brasileiro, comenta: Assim, apesar das imensas diferenças que mediavam entre as formações socioculturais europeias e brasileiras, ambas eram fruto de um mesmo processo civilizatório. Com a industrialização se altera essa constelação urbana no que tinha de fundamental, que era sua tecnologia produtiva, transformando todo o seu modo de ser, de pensar e de agir. Provocaria uma sequência de alterações reflexas nas sociedades dependentes, de natureza, tanto técnica, quanto ideológica, que, aqui também, transfiguram o caráter da própria civilização. RIBEIRO (2014, p.181)

Cortiços Paulistanos In LEMOS, Carlos A. C., “Os primeiros cortiços paulistanos’, 1998

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Cortiços Paulistanos In LEMOS, Carlos A. C., “Os primeiros cortiços paulistanos’, 1998

Como pressuposto, podemos sugerir que o habitar sofre historicamente a pressão de duas forças que se somam e ao mesmo tempo se contrapõe. Uma que fisicamente o reduz e outra que simbolicamente o amplia. Sobre a redução, nos deparamos com um processo de desconstrução do morar em função de uma lógica produtiva que desempenha suas influências no território e na forma de ocupar, e que pouco, ou nada, confere ao espaço do morar, senão suas funções básicas de sustentação de uma divisão social do trabalho. No cenário Brasileiro, este fenômeno pode ser amplamente investigado ao contrapor as formas populares de morar que se estabeleceram anteriormente ao processo de concentração urbana, e que neste trabalho chamamos de pré-urbanas, pois estas moradias, não ignorando o fato de que também foram submetidas a pressões, mas, por sua característica dispersão e relativa liberdade no que diz respeito à subsistência e controle dos meios de produção, enunciam formas de morar que não são totalmente subordinadas ao que nas cidades se desenhou.

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Vale destacar aqui também que tal redução, não tem apenas implicações físicas, elas mesmas, num jogo dialético, são fruto de uma redução do campo semântico, subtraindo do habitar/morar, mais do que a propriedade, mas o senso de apropriação e as potencialidades de empoderamento socioambiental que a moradia poderia provocar. Segundo David Harvey (p. 40, 2013) “ a burguesia tanto cria como destrói os fundamentos geográficos - ecológicos, espaciais e culturais - de suas próprias atividades, construindo um mundo à sua própria imagem e semelhança.” Como cita Ribeiro (2014), numa perspectiva histórica, nos deparamos com um desmantelamento das condições populares de habitação, induzidas por um processo histórico global de objetificação da moradia, deculturação da população e precarização dos modos de vida.

Cortiços Paulistanos In LEMOS, Carlos A. C., “Os primeiros cortiços paulistanos’, 1998

No que toca a ampliação simbólica, nos deparamos com uma relativa valorização do espaço habitado intra-lote em função da perda sofrida pela redução quantitativa do habitar. A habitação, como espaço construído, assume então, mesmo depois do empobrecimento qualitativo do termo, tudo que a vida privada/doméstica moderna tende a proporcionar e ao mesmo tempo em que o habitar é reduzido para cumprir determinadas funções, a habitação é ampliada simbolicamente para abrigar o habitar reduzido e tomar seu lugar até, por fim superá-lo e posicionar-se como fim de si mesma.

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Estalagens Cariocas In VAZ, Lilian Fessler Vaz, “Do Cortiço à Favela’, 1998 “Num regime de terras livres, o trabalho tinha que ser cativo; num regime de trabalho livre, a terra tinha que ser cativa.” (MARTINS, 1998.pg.32)

O que observamos portanto, num contexto aglutinado por diversos fenômenos históricos, entre eles: 1. a “abolição da escravatura” em 1888, liberando a mercê da sorte uma grande massa populacional urbana; 2. o êxodo rural, dado pela crescente precarização dos meios de vida no campo, e que também foram impulsionados por regimes coronelistas contemplados pela Lei de Terras de 1850, que retirou de grande parte da população rural iletrada o direito de propriedade sobre suas terras;

Cortiço Carioca In VAZ, Lilian Fessler Vaz, “Do Cortiço à Favela’, 1998

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3. a crescente ideia de garantia de trabalho na cidade grande e satisfação dos desejemos de consumo implantados pela nascente sociedade burgesa-industrial. 4. o posterior estimulo à imigração européia em meados do séc. XX, motivado pela substituição da mão de obra escrava e por um projeto racista de embranquecimento da população. 5. a explosão demográfica urbana, associada aos fenômenos já descritos. Para absorver a demanda por moradia deste contingente populacional, é observada a rápida proliferação de tipologias habitacionais produzidas não mais pela própria população através da auto-construção, como verificamos num contexto pré-urbano, mas sim através de “empreendedores privados” que dada a escassa oportunidade de moradia nas cidades, passaram a oferecer tais aposentos. Entre eles, cortiços, estalagens e casas operárias. Este período é então marcado por uma feroz desconstrução das potencialidades da habitação, no seu sentido mais amplo, e por uma subordinação da população frente as “possibilidades” oferecidas, por piores que estas fossem. Lemos (1998), a respeito dos cortiços cita que enquanto os cortiços num contexto de revolução industrial europeia surgiram como um desdobramento da crise de moradia operária, em São Paulo “(...) a palavra cortiço apareceu mesmo antes da popularização do termo operário e da expressão casa operária.” O autor também comenta que ainda em São Paulo, as vilas operárias do inicio do séc. XX não necessariamente eram produzidas em função da proximidade de fábricas. O termo casa operária foi amplamente utilizado como sinônimo para “casa pequena”.

Vilas Operárias In GROSTEIN, Marta Dora, “Expansão Urbana e Habitação da Classe Trabalhadora’, 1998

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3º ciclo do morar: urbano técnico-científico No inicio do século XX, as formas populares de habitar o espaço urbano manifestadas nos cortiços, estalagens e casas operárias, já encontravam dificuldades em sua aceitação frente os órgãos públicos e a sociedade civil, uma vez que estes aposentos eram amplamente conhecidos por sua insalubridade. Lemos (1998) comenta que em 1886 o código de posturas do município de São Paulo tolerava “casas operárias e cubículos” apenas em zonas suburbanas, além do Tamanduateí e também em zonas rurais ou industriais. Em 1914, a lei 788 permitia vilas operárias apenas na imediação de fábricas e vetava a construção de cortiços no perímetro urbano. Com o objetivo de tentar regularizar o que já estava na informalidade, o código sanitário de 1918 apresenta medidas para “habitações coletivas”. Em 1929, o código Artur Saboya define que só haverá dois tipos de habitação coletiva permitidos por lei no município de São Paulo: apartamentos e hotéis. É pelo agravamento deste cenário que vão sendo gradativamente mitigadas as possibilidades da população de baixa renda de morar no perímetro urbano. Nesse contexto, são ocupados espaços cada vez mais longínquos e desfavoráveis, muitos deles de geografia acidentada, e que por sua relativa dificuldade de acesso eram oferecidos por bons preços e em outros casos o proprietário sequer tinha interesse em contestar sua propriedade. É então que a auto-construção volta a assumir papel importante na provisão de moradia para grande parte da população recém chegada as cidades brasileiras. Agora não mais orientada por razões culturais ou ambientais, como na arquitetura pré-urbana, mas por princípios básicos de sobrevivência, num território já fragilizado ambientalmente e que por muitas vezes era alheio a população quanto as suas potencialidades naturais.

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Favela da Catumba, Rio de Janeiro, removida em 1970 Fonte: https://zeluizfotos.wordpress.com/2015/05/

Acredita-se que o Morro da Provisão, no Rio de Janeiro, seja a primeira “favela” do Brasil. Contase que inicialmente, tratava-se de uma situação temporária, os barracos foram erguidos por soldados recém chegados de Canudos da guerra contra Antonio Conselheiro e que conseguiram aval das autoridades municipais para construí-los. O nome favela é originário de uma planta da caatinga existente em Canudos e que também foi atribuído ao novo assentamento “provisório” do Morro da Provisão. A este contingente inicial, somaram-se os ex-moradores de um dos maiores cortiços cariocas, o Cabeça de Porco. Desde então, a provisão ainda não chegou, e o morro não parou de crescer. Podemos considerar que a derrubada do Cabeça de Porco, até então o maior cortiço do Rio de Janeiro e o consequente nascimento da Favela da Provisão é o prenuncio de uma nova era na formas popular de habitar a cidade do Rio de Janeiro e também outras cidades brasileiras, uma vez que, como já visto em São Paulo, a guerra contra os cortiços também se instalara. Nas décadas seguintes, esse cenário se intensificaria a patamares antes nunca vistos. Como cita Vaz (1998) em seu trabalho “Do Cortiço à Favela”, na década de 40 e 50 as favelas já eram personagens conhecidos da vida carioca. Sendo que na década de 60 e 70 foram realizadas remoções de assentamentos que em certa medida já haviam se consolidado no imaginário popular como a Favela da Catumba em 1970 e o Morro do Castelo, totalmente removido.

Cenas do Filme “ Orfeu da Conceição” de Marcel Camus - 1959 Um raro registro de uma visualização romântica-exótica da vida nos morros cariocas Fonte: prinstscreen de vídeo alocado no youtube.com.br

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Favela Heliópolis, 1996 In SAMPAIO, Maria Ruth, “Vida na Favela’, 1998

Já no caso de São Paulo, grandes movimentos migratórios na década de 7o foram responsáveis pela rápida expansão das franjas do perímetro urbano, a partir da Cidade Informal. Diferentemente do caso carioca, a topografia de São Paulo permitia uma ocupação relativamente plana. O que possibilitou o surgimento de muitos loteamentos (irregulares e clandestinos) que ao lado das Favelas se enquadravam como as únicas possibilidades para grande parte da população recém chegada. A respeito da organização social das favelas e loteamentos irregulares a partir da deterioração urbana, Ribeiro (2013) também comenta: Em São Paulo, onde faltam morrarias, as favelas se assentam no chão liso de áreas de propriedade contestada e organizam-se socialmente como favelas. Resistem quanto podem a tentativas governamentais de desalojá-las e exterminá-las. Quem puder oferecer 1 milhão de casas, terá direito de falar em erradicação de favelas. Ribeiro ( 2009, pg.171)

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Segundo IPEA,2002: 142 apud PASTERNAK,2010 temos: • Parcelamento regular, quando está de acordo com a legislação federal, estadual e municipal. O parcelamento só é considerado regular quando - aprovado pela prefeitura - executado segundo o projeto aprovado - registrado no Cartório de Imóveis • Parcelamento irregular, quando possui o projeto de parcelamento aprovado, porém está em desacordo com as exigências físicas, jurídicas ou administrativas. As situações de irregularidade podem ser as seguintes: - técnicas: são relativas ao cumprimento das diretrizes do parcelamento, uso e ocupação sintetizados no ato de aprovação; - físicas : são relativas á implantação do loteamento e às condições dotação de infra-estrutura conforme a respectiva aprovação; - jurídicas :são relativas à garantia do direito de propriedade, inerentes á forma de aquisição, à destinação e à localização do terreno; - administrativas: são relativas às condições de registro do parcelamento e ao seu cadastro. Permitem o controle da ocupação do solo, da circulação e dos serviços urbanos. • Parcelamento clandestino, quando é executado sem nenhuma licença e está em desacordo com as exigências jurídicas e administrativas, podendo também não cumprir as exigências físicas e técnicas • Favela: assentamento precário com origem na ocupação irregular de áreas públicas e particulares, de forma gradual ou organizada • Cortiço: habitação coletiva precária de aluguel. O caráter coletivo é dado pela coabitação de várias famílias. A precariedade habitacional decorre do congestionamento e das condições de insalubridade.”

Loteamentos Populares – Jardim Brasil e Jardim Japão In GROSTEIN, Marta Dora, “Expansão Urbana e Habitação da Classe Trabalhadora’, 1998

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Loteamentos Populares – Jardim Brasil e Jardim Japão In GROSTEIN, Marta Dora, “Expansão Urbana e Habitação da Classe Trabalhadora’, 1998

Não é tarefa fácil compreender em que medida dialogam ou em que medida divergem as manifestações construtivas populares materializadas em favelas ou loteamentos irregulares localizados nas grandes metrópoles brasileiras . É possível compreender a partir de Recife ou Salvador o que seriam as favelas do Rio de Janeiro ou os loteamentos irregulares de São Paulo? Em que ponto estes movimentos convergem e são fruto de um mesmo processo histórico? Para responder essas perguntas, podemos refletir do que são feitas essas diferentes “periferias”. Quais são os elementos que a constituíram , seja no campo das ideias, seja na pratica de fato. Em “Trabalho, Família e Condições de Vida na RMSP: O caso dos Imigrantes Nordestinos de São Paulo” Baptista (2009) fala da experiência do migrante nordestino em uma favela paulistana. A experiencia humana nesta localidade assume contornos de um rede social de imigrantes, um núcleo urbano estruturado em torno da procedência cultural de seus habitantes. Essa estruturação interna é observada como um mecanismo de defesa e sobrevivência na “cidade grande”. É observado também que essa conformação social também coopera como uma espécie de resistência cultural embora drasticamente abalada pelas precárias condições de trabalho e moradia. O migrante passa de camponês a proletário. Percebe-se que a migração leva à transformação da rede de relações que tornava para si o espaço significativo e, essas mudanças radicais nos modos de vida em relação ao trabalho, vão refletir sobre a sua identidade. É todo um processo dinâmico de transformação – destruição e recriação do rural para o urbano -, tanto nos modos de vida quanto nas relações com o espaço e nos referenciais simbólicos que marcavam a sua experiência social. BAPTISTA ( 2009, pg.171)

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Ao nos perguntarmos quais seriam os elos locais/regionais e como esta consciência ou inconsciência cultural resiste num espaço tão diverso tanto geográfico quanto econômico, podemos encontrar pistas no seguinte dizer de Baptista (2009, pg.171) “ O grande fluxo de saída do rural baiano vem direcionado para São Paulo. É grande a presença do rural baiano no urbano de São Paulo e a influência do urbano (São Paulo) no rural baiano. A influência de São Paulo, no interior do Nordeste, é maior que a da capital estadual local”. Todavia, a migração se impõe para o migrante como uma alternativa viável diante das dificuldades que enfrenta. Apesar do corte com os seus vínculos de origem, o migrante resiste e procura manter preservados os seus valores, mesmo no urbano. A resistência, muitas vezes demonstrada, ao integrar-se ao trabalho formal na fábrica e/ou a tornar-se operário, mostrando-se fiel à sua cultura pré-industrial, não seria uma forma de resistir à própria sociedade em que se inclui no simbólico, mas que na prática coloca obstáculos para se integrar, preferindo canalizar as suas forças para o espaço das redes sociais que criam alternativas de sobrevivência no mundo informal? Ou o articular-se em redes, na informalidade, constitui-se uma opção de enfrentamento em relação a uma sociedade onde não há mais trabalho? BAPTISTA ( 2009, pg.171)

A contribuição de Baptista (2009) é importante pois nos aproxima do caráter cultural local presente nos assentamentos que surgiram a partir da década de 70. Embora não possamos identificar através das propriedades construtivas ou tipológicas resquícios de uma herança cultural local, o conteúdo dessas formas está inundado por relações que resistem a força mutiladora do capital.

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2.2 A Cidade Informal como Solução Global Através de Mike Davis e Francisco de Oliveira

População em assentamentos irregulares é representada pelos quadrados laranja sobre os quadros negros, que são a população em sua totalidade. A projeção futura de crescimento da população é representada através da luz laranja para assentamentos irregulares e a luz cinza para a população em geral. Fonte: Informal Settlement World Map – Designers: Christian Werthmann, with Elizabeth Randall and Fiona Luhrmann, Harvard Graduate School of Design: © Christian Werthmann (Fig 1)

As favelas e loteamentos irregulares, não se mostram mais como elementos marginais ou de exceção na composição das cidades brasileiras. De acordo com dados do relatório Un-Habit ONU de 2004, 36,36% (53,1 milhões de pessoas) da população urbana brasileira vive em favelas, em casos extremos como na Etiopia, 99,4% da população urbana vive em favelas, no entanto mesmo com a grandeza da proporção são 10,1 milhões de pessoas, 43 milhões de pessoas a menos que o Brasil. (Davis,2011) Assumir, portanto, que a exceção virou regra, nos aproxima de uma leitura menos deturpada da realidade.

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Maiores populações faveladas por país In DAVIS, Mike, “Planeta Favela’, 2005

“ (..) engolidos pela urbanização, sem migrar, suas vidas viradas de cabeça para baixo, mesmo permanecendo no lugar onde nasceram” DAVIES (p.19, 2011)

“Quando o padrão de vida de grande massa de pessoas cais abaixo de um certo nível de subsistência - nível regulado automaticamente como o necessário para um membro da sociedade -, (...) o resultado é a criação de uma multidão de pobres. Ao mesmo tempo, isso traz consigo no outro extremo da escala social, condições que muito facilitam a concentração de uma quantidade desproporcional de riqueza numas poucas mãos.” A filosofia do direito HEGEL ( ed.1957 p.150 apud HARVEY , 2013 p.45)

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Loteamentos precários Neza-Chaco-Ilza, Cidade do México Fonte: http://www.therichest.com/rich-list/poorest-list/10-of-the-largest-slums-in-the-world

“A maioria dos pobres urbanos do mundo não mora mais em bairros pobres no centro da cidade. Desde 1970, o maior quinhão do crescimento populacional urbano mundial foi absorvido pelas comunidades faveladas da periferia das cidades do Terceiro Mundo. O crescimento horizontal há muito deixou de ser um fenômeno distintamente norteamericano, se é que já foi. A “horizontalização” das cidades pobres costuma ser tão espantosa quanto o seu crescimento populacional.” DAVIES (p.46, 2013)

“ Em toda parte do Terceiro Mundo a escolha da moradia é um cálculo complicado de considerações ambíguas. Como a frase famosa do arquiteto anarquista John Turner, “moradia é um verbo”. DAVIES (p.39, 2011)

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Favela Kibera, Nairobi Fonte: http://www.therichest.com/rich-list/poorest-list/10-of-the-largest-slums-in-the-world/

“À medida que o capital se acumula, a situação do trabalhador, seja seu pagamento alto ou baixo, tende a piorar (...) Ele faz da acumulação da miséria, do tormento do labor, da escravidão, da ignorância. da brutalização e da degradação moral no polo oposto, isto é, do lado da classe que produz seu próprio produto como capital” Marx em O Capital p.799 apud HARVEY (p.45, 2013)

Uma não-insignificante porcentagem das residências das classes trabalhadoras foi construída pelos próprios proprietários, utilizando dias de folga, fins de semana e formas de cooperação como o “mutirão”. Ora, a habitação, bem resultante dessa operação, se produz por trabalho não-pago, isto é, supertrabalho. Embora aparentemente esse bem não seja desapropriado pelo setor privado da produção, ele contribui para aumentar a taxa de exploração da força de trabalho, pois o seu resultado — a casa — reflete-se numa baixa aparente do custo de reprodução da força de trabalho — de que os gastos com habitação são um componente importante — e para deprimidos salários reais pagos pelas empresas. Assim, uma operação que é, na aparência, uma sobrevivência de práticas de “economia natural” dentro das cidades, casa-se admiravelmente bem com um processo de expansão capitalista, que tem uma de suas bases e seu dinamismo na intensa exploração da força de trabalho. OLIVEIRA (p.31,2001)

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Favela Bhalswa, Delhi Fonte: http://www.therichest.com/rich-list/poorest-list/10-of-the-largest-slums-in-the-world/

“ A “superurbanização”, em outras palavras, é impulsionada pela reprodução da pobreza, não pela oferta de empregos. Essa é apenas uma das várias descidas inesperadas para as quais a ordem mundial neoliberal vem direcionando o futuro.” DAVIES (p.26, 2011)

“(...) a criação de grandes cidades e a rápida urbanização fazem que as cidades governem o campo (ao tempo em que o resgatam da “estupidez” da vida rural e reduzem o campesinato a uma classe subalterna). A urbanização concentra no espaço as forças produtivas e a força de trabalho, transformando populações dispersas e sistemas descentralizados de direitos de propriedade em imensas concentrações de poder político e econômico que acabam por se consolidar no aparelho legal e militar da nação-Estado.” HARVEY (p.41, 2013)

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Favela Manshiet, Cairo Fonte: http://www.therichest.com/rich-list/poorest-list/10-of-the-largest-slums-in-the-world/

No plano da prática a ruptura com a teoria do subdesenvolvimento também não pode deixar de ser radical. Curiosa mas não paradoxalmente, foi sua preeminência nos últimos decênios quem contribuiu para a não-formação de uma teoria sobre o capitalismo no Brasil, cumprindo uma importante função ideológica para marginalizar perguntas do tipo “a quem serve o desenvolvimento econômico capitalista no Brasil?”. Com seus estereótipos de “desenvolvimento auto-sustentado”, “internalização do centro de decisões”,”integração nacional”, “planejamento”, “interesse nacional”, a teoria do subdesenvolvimento sentou as bases do “desenvolvimentismo”, que desviou a atenção teórica e a ação política do problema da luta de classes, justamente no período em que, com a transformação da economia de base agrária para industrial-urbana, as condições objetivas daquela se agravavam. A teoria do subdesenvolvimento, foi, assim, a ideologia própria do chamado período populista; se ela hoje não cumpre esse papel é porque a hegemonia de uma classe se afirmou de tal modo que a face já não precisa de máscara. OLIVEIRA (p.09,2001)

(...) em resumo, o “subdesenvolvimento” é uma formação capitalista e não simplesmente histórica. Ao enfatizar o aspecto da dependência — a conhecida relação centro-periferia — os teóricos do “modo de produção subdesenvolvido” quase deixaram de tratar os aspectos internos das estruturas de dominação que conformam as estruturas de acumulação próprias de países como o Brasil: toda a questão do desenvolvimento foi vista sob o ângulo das relações externas, e o problema transformou-se assim em uma oposição entre nações, passando despercebido o fato de que, antes de oposição entre nações, o desenvolvimento ou o crescimento é um problema que diz respeito à oposição entre classes sociais internas. OLIVEIRA (p.08,2001)

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BLOCO 03 Cortando o Mal pela Raiz “ (..) desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai sobre tudo o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.” (BERTOLD BRECHT, 1956)

Foto: Alice Brill, Comércio de Rua, 1953, Salvador – Brasil Fonte:Instituto Moreira Salles

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Apresentação do Bloco Este bloco de um texto só trata-se de um breve ensaio sobre o “mito da marginalidade” e a contemporânea “resignificação da periferia”, correntes acadêmicas mas também político-sociais que movimentaram com força sem igual o meio acadêmico e opinião pública e que contribuíram para novos modos de olhar para as manifestações culturais antes tidas como “marginais”. A respeito do mito, é explorada a importância do trabalho da antropóloga Janice Perlman que muito tem a ensinar para Arquitetos e Arquitetas e que por sua vez, foi grande influenciadora do trabalho de Hélio Oiticica ao se aproximar da “estética da favela”. Quanto a resignificação da periferia, ela vem sendo feito através de diversos coletivos organizados desde a década de 80 e 90, reformando a periferia de dentro para fora aos olhos de quem a via com inferioridade e cortando assim o mal pela raiz.

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Cortando o Mal pela Raiz

3.1 A Resignificação da Periferia e o Mito da Marginalidade Através de Janice Perlman

Janice Perlman no Conjunto Habitacional de Quitungo, 1973 Fonte: http://www.cronologiadourbanismo.ufba.br/

A década de 70 inaugura, através de Janice Perlman e autores por ela influenciados, vasta produção cientifica a respeito das práticas sociais da heterogênea e complexa camada populacional que habitava espaços de “marginalidade”. Encontramos no campo das ciênciashumanas, destacando aqui a Sociologia e a Antropologia incluindo em seu escopo de discussão, as condicionantes históricas, manifestações culturais, organização social e muitos outros aspectos, que ajudaram por consolidar na academia “novos olhares” face os espaço de favela e seus habitantes. Talvez por se estabelecerem nessas áreas vertentes de pensamento que buscam investigar “modos de ver” que não tangenciam as perspectivas hegemônicas, contribuindo para que fossem fundadas ou talvez melhor difundidas no meio acadêmico novas percepções em relação às práticas tidas como marginais. Essas visualizações, que nasceram de uma metodologia etnológica de olhar para alteridade, possibilitaram uma leitura menos estigmatizada dessas realidades sociais e foram possibilitadas por diversos movimentos, não só acadêmicos, como também de cunho “popular”.

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

Segundo a própria Perlman (2012) a publicação foi importante pois o livro: (..) argumenta que os “mitos” existentes sobre marginalidade social, cultural, política e econômica eram “empiricamente falsos, analiticamente enganosos e devastadores quanto às suas implicações em políticas públicas direcionadas a favelas”. Conclui que os favelados não eram “economicamente ou politicamente marginais, mas explorados e reprimidos; não eram socialmente ou culturalmente marginais, mas estigmatizados e excluídos de um sistema social fechado”. A pesquisa serviu como crítica aos estereótipos predominantes sobre migrantes e moradores de favelas que fomentaram as políticas de erradicação, desabonando pressuposições como a de que favelados eram “elementos marginais” e representavam uma ameaça à estabilidade política. PERLMAN (p.01,2002)

É interessante observar que a constatação de Perlman se faz primeiro no campo das ideias, e sua critica também é alvo de um especifico “modo de olhar” estigmatizado que por sua vez influência diretamente na maneira como a população é vista e tratada pela opnião pública e pelo Estado em suas mais diversas interferências e intervenções de cunho imperativo e castrador. Intervenções as quais muitas vezes são defendidas pela Estado como “melhorias”. Mas que aos olhos da população alvo dessas politicas são interferências que viram do avesso suas relações com o lugar e a organização social até então desenvolvida. Perlman também fere o ego de muitos arquitetos e arquitetas que ao se debruçar sobre a Cidade Informal, propõe medidas “regularizadoras” e formalizadoras de modos de vida que até então se enquadram como resistência ao modo de vida homogenizante e opressor da Cidade Formal. A propósito, se de um lado, o processo de formação acadêmica é subestimado em suas potencialidades de participação social ativa, numa abordagem histórica materialista ele vem mantendo erguidos os pilares da divisão social do trabalho, garantindo assim as relações sociais de produção. A respeito disso, Pierre Bordieu, sociólogo francês, comenta: “O sistema educacional garante a transmissão hereditária do poder e dos privilégios, dissimulando sob a aparência da neutralidade o cumprimento desta função.” (BORDIEAU, 2004, p.296) Podemos inferir então que o processo de formação e aprendizagem, sendo compreendido à luz do que Bordieu (2004) entende como sistema educacional, é também passível de investigação no que diz respeito ao tipo de Sociedade que se constrói e se incentiva ao reproduzir um discurso que conserva e perpetua relações de poder e privilégio. Com isso, Bordieu (2004) também evidencia a natureza ativa da construção acadêmica, e que mesmo envolvida numa falsa neutralidade, está indiscutivelmente tomando partido na construção da realidade. A respeito de como esta condição se faz presente especificamente no ensino da Arquitetura e do Urbanismo no Brasil, Gunter Weimer em seu livro Arquitetura Popular Brasileira, comenta:

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Cortando o Mal pela Raiz

Eleições democráticas e o voto secreto não foram suficientes para desalojar retrógradas elites regionais do poder. Essas elites se apossaram de um sofisticado cerceamento cultural que impedem que qualquer tipo de questionamento sobre o atrelamento das classes populares aos aparelhos ideológicos venha a ser colocado sob julgamento. Isso explica, a nosso ver, por que as escolas de arquitetura até hoje se ocuparam exclusivamente com o ensino dos parâmetros acadêmicos da profissão. (WEIMER, 2005, p.XLVIII))

A constatação levantada deve, portanto, aguçar nossos sentidos a fim de adotar uma postura crítica em torno de nossas construções acadêmicas. Mesmo que, na maioria dos casos elas se desenvolvam no campo das ideias, sua realização é consequência de uma construção social do “modo de ver” que as antecedem e que, por sua vez, está estritamente subordinado às relações materiais que dominam nossas relações sociais. A respeito da imperatividade formalizadora da Academia da época, Perlman comenta: Na literatura sobre modernização, migrantes vindos do campo para a cidade eram vistos como mal-adaptados à vida moderna na cidade, e assim responsáveis por sua própria pobreza e fracasso em serem absorvidos pelos mercados formais de trabalho e moradia5. Os assentamentos ilegais eram vistos como “feridas cancerígenas no belo corpo da cidade”, antros de crime, violência, prostituição e destruição social. Era amplamente pensado que os moradores daquelas cabanas precárias eram eles mesmos precários, e que ao compararem suas condições de vida com a opulência ao redor eles se tornariam revolucionários raivosos. PERLMAN (p.06,2002)

O conceito de “cultura” também, muitas vezes imposto à população, é bastante problemático pois parte do pressuposto de que “cultura” é uma só e no que diz respeito as interferências do Estado a que vigorava era a perspectiva hegemônica. Sendo assim, o espaço de favela era tido como um espaço “sem cultura”, mesmo que ele abrigasse em si as mais diversas manifestações culturais. A cerca disso, o antropólogo Clifford Gertz é muito importante no campo das ciências sociais pois cunha e introduz em suas leituras etnográficas o conceito de “saber local”. A antropóloga brasileira Manoela Carneiro da Cunha em seu livro “Cultura entre aspas” também introduz uma perspectiva interessante a cerca deste tema. Em “cultura como categoria de ida e volta” Cunha reflete sobre a importância da academia nas ultimas décadas ao legitimar manifestações culturais antes tidas como à margem da visão hegemônica do que seria cultura. O movimento de ida e volta acontece quando a própria população se apropria daquilo que a academia chamou de cultura como instrumento politico para preservação de sua identidade e garantia de seus direitos. Isto pode ocorrer não só em “comunidades periféricas” como também em movimentos indígenas e quilombolas, por exemplo. A respeito da importância dessa “ legitimação” e da socialização dos saberes apreendidos, Perlman comenta: Conhecer as diversas realidades existentes dentro das comunidades populares da cidade do Rio de Janeiro se faz primordial para que se produzam políticas sociais adequadas aos interesses concretos dessa população. Além disso, o conhecimento acumulado sobre favelas e comunidades pobres serve como instrumento de organização e luta para os grupos sociais residentes nessas áreas, fortalecendo o poder de negociação desses grupos frente ao poder público. PERLMAN (p.02,2002)

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

Hélio Oiticica , 1968

É incontestável a influência dos “novos modos de olhar” para a suposta “informalidade” na evolução das práticas de intervenção nos espaços da Cidade Informal. A participação pública em grandes operações de urbanização vem sendo potencializadas, no entanto, há muito ainda o que fazer, pois ainda reside em muitos agentes do Estado, posturas imperativas e pouco afinadas com uma perspectiva contra-hegemônica em relação a modos de viver e ocupar o território. Como arquitetos, precisamos evoluir em nossas maneiras de intervir em espaços de “informalidade” visto que muitos conjunto habitacionais impostos como “melhoria” tem castrado o vigor das relações sociais e vida de nossa gente. Façamos valer a Arquitetura e o Urbanismo como “ciências humanas aplicadas”.

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Cortando o Mal pela Raiz

Hélio Oiticica na Mangueira in Estética da ginga: a arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica. Rio de Janeiro: Casa da Palavra / RIOARTE, 2001

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BLOCO 04 Plantando verde pra colher maduro “Devemos aos campos que nossas casas não sejam inferiores à terra virgem que substituíram. Devemos aos vermes e às árvores que os prédios com os quais os cobrimos sejam promessas dos mais altos e inteligentes tipos de felicidade.” Alain de Botton em Arquitetura da Felicidade

Foto: José Medeiros, Índios Calapalos, 1957 Fonte: Instituto Moreira Salles

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O DESAFIO “Vivemos em uma época em que mais de 30% da nossa população mundial urbana vive em favelas. Projeta-se que a metade do nosso crescimento urbano futuro será informal, elevando os atuais 1 bilhão de moradores de favela para 2 bilhões até 2030. Apesar desses fatos, a maioria dos arquitetos não trabalha e não sabe como trabalhar nessas áreas. A arquitetura moderna, na educação, terá fracassado se não preparar a próxima geração de arquitetos para o desafio do urbanismo informal.” Christian Werthmann Diretor do Mestrado em “Landscape Architecture Degree Programs as Associate.” Da Harvard Graduate School of Design

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

Apresentação do Bloco Este bloco, embora iniciado no 9º semestre, é resultado da 2º etapa do TFG, desenvolvida no decorrer do 10º semestre. Com o objetivo de superar a “paralisia propositiva” tão criticada por Ermínia Maricato e também o “pessimismo do intelecto” definido por Gramsci propõe-se aqui uma espaço de utopia, baseado no arcabouço teórico construído, no qual uma aproximação físico cartográfica do território possibilitaria uma extensão das problemáticas já levantadas, só que agora através de outro suporte. O titulo deste bloco foi escolhido uma vez que no final do 9º semestre os rumos deste trabalho ainda não haviam sido definidos, por isso foi apresentado à banca, esperando “plantar verde pra colher maduro” , o espaço de utopia que chamei de “núcleo de apoio a autoconstrução”, sendo o espaço de discussão da banca definitivo na viabilidade da continuidade deste trabalho. Diferentemente dos outros blocos, esta etapa terá uma narrativa mais espaçada e em primeira pessoa, para a tristeza daqueles que se apegam as formalidades, e por seu caráter visual, o texto se concentrará pontualmente, quando for necessário esclarecer algumas questões relativas ao processo.

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

A experiência dos Mutirões em Vila Nova Cachoeirinha in Habitação e Cidade. São Paulo: Fausp/Fapesp, 1998

O núcleo de apoio a autoconstrução se apresentou como possibilidade a partir da reflexão realizada neste trabalho sobre a importância da auto construção num processo histórico de produção de moradia popular. Aliado a isso, foi considerada também a importante contribuição das experiências de auto-gestão dos mutirões e das mini-usinas nas décadas de 70 e 80, entre eles destacam-se a dos bairros da Penha e de Vila Nova Cachoeirinha na zona leste de São Paulo. As ideias difundidas pelo arquiteto árabe Hassan Fathy em “Construindo com o povo” e também do bio-arquiteto Johan Van Lengen em “Manual do arquiteto descalço” foram importantes para o fortalecimento da ideia de que é preciso um emponderamento social no ato da construção. Com base nisso, foi proposto que o núcleo de apoio a autoconstrução não se inserisse no espaço como objeto interventor, mas sim como espaço de compreensão do entorno e possível catalizador, ao longo dos anos, das transformações necessárias.

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

ESPAÇO DIDÁTICO DE MEDIAÇÃO ENTRE A POPULAÇÃO E O

TERRITÓRIO

CENTRO DE ESTUDOS DO

URBANISMO INFORMAL

PRODUÇÃO E FORNECIMENTO DE

MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO

CENTRO DE FORMAÇÃO

PARA AUTOCONSTRUTORES

NUCLEO DE APOIO A AUTOCONSTRUÇÃO

BRAÇO TÉCNICO DA CPDU

RESIDÊNCIA FORMATIVA

NA CIDADE INFORMAL

PARA ARQUITETOS

DIFUSOR DE PRATICAS CONSTRUTIVAS POPULARES

ASSITÊNCIA TÉCNICA GRATUITA

SUSTENTÁVEIS

AUTOCONSTRUÇÃO ASSISTIDA

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

A experiência dos Mutirões em Vila Nova Cachoeirinha in Habitação e Cidade. São Paulo: Fausp/Fapesp, 1998

ESPAÇO DIDÁTICO DE MEDIAÇÃO ENTRE A POPULAÇÃO E O

TERRITÓRIO Propõe-se que este espaço possibilite uma maior aproximação da população frente as características ambientais naturais do território. Desconstruindo e problematizando a herança predatória portuguesa e inserindo conceitos de valorização e preservação da fauna e flora nativas através da permacultura urbana. CENTRO DE ESTUDOS DO

URBANISMO INFORMAL Propõe-se que neste espaço se instale um observatório acadêmico que estude as manifestações sociais, cultuais, arquitetônicas e urbanísticas da Cidade Informal. BRAÇO TÉCNICO DA CPDU

NA CIDADE INFORMAL No caso de São Paulo, muitas subprefeituras no que diz respeito ao urbanismo são extramente passivas. Cumprem função de zeladoria ( cadastro/aprovação) ou fiscalização. Pretende-se que este espaço seja uma extensão do poder público nos espaços de formalidade, uma vez que a maioria das subprefeituras estão instaladas nas áreas mais consolidadas de suas respectivas regiões. CENTRO DE FORMAÇÃO

PARA AUTOCONSTRUTORES Através de cursos de formação técnica e profissionalização de autoconstrutores que já estão na ativa, colaborando com o ensino de questões, estética,espaciais e estruturais e incentivando o uso racional de materiais.

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

A experiência dos Mutirões em Vila Nova Cachoeirinha in Habitação e Cidade. São Paulo: Fausp/Fapesp, 1998

ASSITÊNCIA TÉCNICA GRATUITA

AUTOCONSTRUÇÃO ASSISTIDA Através da Lei de Assistência Ténica gratuita sancionada pelo Ministério das Cidades, pretende-se que este espaço promova a autoconstrução assistida por Arquitetos e Engenheiros responsáveis. RESIDÊNCIA FORMATIVA

PARA ARQUITETOS Assim como os médicos passar por processo de residência formativa no SUS, pretende-se que este espaço possa abrigar arquiteto em formação ou recém-formados que pretendem prestar serviços para a Cidade Informal. PRODUÇÃO E FORNECIMENTO DE

MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO Através do ensino da produção de materiais construtivos populares como a alvenaria, pretende -se oferecer a população material de procedência confiável desde que vinculados as outras práticas do núcleo. Propõe-se também um resgate das técnicas construtivas primitivas (adobe, taipa e pilão) através do incentivo à bio-arquitetura. DIFUSOR DE PRATICAS CONSTRUTIVAS POPULARES

SUSTENTÁVEIS propõe-se que este espaço difunda práticas construtivas sustentáveis e de acordo com os princípios de salubridade e conforto térmico.

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

MSP

Onde? Por que lá? Como se conforma? Após apresentar estas ideias, foi discutida a intenção de se aproximar do território, mais precisamente da Cidade Informal, a fim de refletir sobre onde este hipotético núcleo de apoio a autoconstrução poderia se manifestar. Questionado pelo meu orientador sobre onde este espaço poderia se dar, automaticamente pensei no extremo sul de São Paulo, mais precisamente na região do Grajaú - Capela do Socorro região que historicamente abrigou o contingente populacional recém chegado a São Paulo na década de 70, entre eles minha família, como o texto de abertura deste trabalho Quintal indica, sendo por si só, uma boa justificativa pois é incontestável a identificação com o território para melhor compreendê-lo, mas para além da identificação a região se conforma como uma das mais vulneráveis social e ambientalmente falando. Para chegar lá, explorei o município de São Paulo em diferentes escalas a fim de responder a outra pergunta - como se conforma ? - uma vez que as relações micro e macrod desempenham profundas influências na região. É importante observar que todos os mapas deste estudo cartográfico, com exceção do mapa de vulnerabilidade social, foram realizados por mim com auxilio do programa QGIS.

1/3

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA MUNICIPAL

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

MSP LOTEAMENTOS IRREGULARES FAVELAS NÚCLEOS ASSENTAMENTOS EM

ÁREA DE RISCO CORTIÇOS

Os arquivos em SHAPE que representam a Cidade Informal (loteamentos irregulares, favelas, núcleos, assentamentos em área de risco e cortiços) e que foram manipulados no QGIS são de procedência da SEHAB - MSP . De inicio, já é possível perceber que a Cidade Informal apresenta condição periférica, por motivos já investigados neste trabalho. Com exceção dos cortiços que históricamente ocuparam as áreas centrais da cidade.

1/3

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA MUNICIPAL

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

MSP LOTEAMENTOS IRREGULARES FAVELAS NÚCLEOS ASSENTAMENTOS EM

ÁREA DE RISCO CORTIÇOS

+

ZEIS 1 ZEIS 4

Acrescenta-se ao estudo da Cidade Informal as Zonas Especiais de Interesse Social 1 e 4, SHAPES elaborados pela SMDU, que identificam respectivamente assentamentos irregulares e pontecias áreas vazias na região de mananciais, área que compreende a região do Grajaú.

1/3

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA MUNICIPAL

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

MSP DENSIDADE DEMOGRÁFICA

A respeito da densidade demográfica no município de São Paulo é interessante observar que a concentração é central e depois periférica, sendo o anel intermediário com menor densidade as áreas de varzea do rio Pinheiros e Tietê que históricamente abrigaram industrias e atualmente concentram predominantemente comércio e serviços, quando não, bairro de alto padrão com baixíssima densidade.

1/3

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA MUNICIPAL

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

MSP DENSIDADE DEMOGRÁFICA

+ ZEIS 1

Quando a ZEIS 1 é sobreposta a densidade demográfica é possível perceber que a alta densidade populacional está intimamente associada aos assentamento precários. Evidenciando a feroz desigualdade uma vez que áreas mais próximas ao centro, consolidadas e dotadas de infra-estrutura, são relativamente menos densas.

1/3

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA MUNICIPAL

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

MSP VUNERABILIDADE URBANA

Fonte: CEM - Centro de Estudos da Metrópole

No que diz respeito a vulnerabilidade social, é possível observar que ela também é periférica. Este dado é gerado a partir da de inúmeras variantes somadas, entre elas baixa escolaridade, alta criminalidade, privação do acesso a saúde e educação, adolescentes mães, entre outros.

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

MSP LOTEAMENTOS IRREGULARES FAVELAS NÚCLEOS ASSENTAMENTOS EM

ÁREA DE RISCO CORTIÇOS

Nesta etapa, os estudos cartográficos adentram outra escala, a fim de compreender a Cidade Informal na escala entre lagos, área delimitada pelas represas Billings e Guarapiranga.

1/3

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA MUNICIPAL

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

ESCALA ENTRE LAGOS

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

ENTRELAGOS INTER

MSP

REPRESA GUARAPIRANGA

REPRESA BILLINGS

1908

1925

Formação histórica - desenho sobre foto aérea

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CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA ENTRE LAGOS

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

ENTRELAGOS INTER

MSP

ÁREA DE MANANCIAIS 1975

Formação histórica - desenho sobre foto aérea

2/3

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA ENTRE LAGOS

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

ENTRELAGOS INTER

MSP

MOBILIDADE CORREDOR DE ONIBUS LINHA DE TREM EXISTENTE LINHA DE TREM PROPOSTA

Linhas 9 - esmeralda da CPTM - trechos da extensão

http://img.estadao.com.br/resources/ jpg/0/2/1452495680820.jpg

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CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA ENTRE LAGOS

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http://img.estadao.com.br/resources/jpg/0/2/1452495680820.jpg


Plantando Verde Pra Colher Maduro

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

ENTRELAGOS INTER

MSP

LINHA DE TRANSMISSÃO CORREDOR DE ONIBUS LINHA DE TREM EXISTENTE LINHA DE TREM PROPOSTA

2/3

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA ENTRE LAGOS

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

ENTRELAGOS INTER

MSP

BACIAS HIDROGRÁFICAS TOPOGRAFIA LINHA DE TRANSMISSÃO CORREDOR DE ONIBUS LINHA DE TREM EXISTENTE LINHA DE TREM PROPOSTA

2/3

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA ENTRE LAGOS

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

ENTRELAGOS INTER

MSP

ÁREAS VERDES BACIAS HIDROGRÁFICAS TOPOGRAFIA LINHA DE TRANSMISSÃO CORREDOR DE ONIBUS LINHA DE TREM EXISTENTE LINHA DE TREM PROPOSTA

2/3

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA ENTRE LAGOS

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

ENTRELAGOS INTER

MSP

LOTEAMENTOS IRREGULARES FAVELAS NÚCLEOS ASSENTAMENTOS EM

ÁREA DE RISCO

+

ZEIS 1 ZEIS 4

2/3

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA ENTRE LAGOS

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

ENTRELAGOS INTER

MSP

LOTEAMENTOS IRREGULARES FAVELAS NÚCLEOS ASSENTAMENTOS EM

ÁREA DE RISCO

+

ZEIS 1 ZEIS 4

+

LINHA DE TREM PROPOSTA

2/3

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA ENTRE LAGOS

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

ENTRELAGOS INTER

MSP

LOTEAMENTOS IRREGULARES FAVELAS NÚCLEOS ASSENTAMENTOS EM

ÁREA DE RISCO

+

ZEIS 1 ZEIS 4

+

LINHA DE TREM PROPOSTA

+

TOPOGRAFIA

2/3

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA ENTRE LAGOS

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

ENTRELAGOS INTER

MSP

A INTENÇÃO

2/3

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA ENTRE LAGOS

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

GRAJAÚ ENTRELAGOS INTER

MSP

O PLANO

3/3

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA DO PLANO

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

GRAJAÚ ENTRELAGOS INTER

MSP

O PLANO

1/2 3/3

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA DO PLANO

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

GRAJAÚ ENTRELAGOS INTER

MSP

O PLANO

3/3

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA DO PLANO

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

GRAJAÚ ENTRELAGOS INTER

MSP

QUADRANTE 3

3/3

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA DO PLANO

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

3A

3B

3C

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

Quadrante 3a Levantamento Fotográfico

CENTRO DE ESTUDOS D

URBANISMO INFOR

A partir da sobreposição: loteamentos irregulares + favelas + topografia + linha de trem proposta, aliado a visitca técnica para levantamento de pontos estratégicos, foi possivel proposto conexões transversais - edificios ponte - que ocupariam o espaço aéreo da linha férrea e serviriam de transposição ao mesmo tempo que conectam os bairros.

RESIDÊNCIA FORMATIVA

PARA ARQUITETOS Nesta etapa também percebeu-se que o programa do núcleo de apoio a autoconstrução poderia ser descentralizado em função das possibilidades fisicas e particularidades de cada trecho da linha em extensão, aumentando assim sua área de abrangência.

3A

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA DA INTERVENÇÃO

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

DO

RMAL

PRODUÇÃO E FORNECIMENTO DE

MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

Quadrante 3b Levantamento Fotográfico

Nestes 2 trechos propostos, além de possibilitar a transposição, os espaços projetados promoveriam, no primeiro caso (de cima para baixo) a conexão de uma favela com um loteamento irregular, potencializando a resistência desses espaços frente as transformações que a chegada da ferrovia traria e promovendo o intercâmbio de práticas e solução trazidas pelo núcleo de apoio a autoconstrução. No segundo trecho, a transposição vai de encontro com um córrego isolado da comunidade que através de soluções projetuais aliadas a uma apropriação territorial da população, poderiam integra-lo e garantir sua preservação

3B

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA DA INTERVENÇÃO

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

DIFUSOR DE PRATICAS CONSTRUTIVAS POPULARES

SUSTENTÁVEIS

ESPAÇO DIDÁTICO DE MEDIAÇÃO ENTRE A POPULAÇÃO E O

TERRITÓRIO

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

Quadrante 3c Levantamento Fotográfico

Os trechos propostos no quadrante 3C, para além da transposição e da proposição programática, tem como possibilidade simbólica a conexão de bairros murados e que dada a alta topografia, tem enorme potencial de perspetiva da paisagem do entorno, contribuindo assim com a implantação de observatórios técnicos.

3C

CIDADE INFORMAL

ESTUDOS CARTOGRÁFICOS ESCALA DA INTERVENÇÃO

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

BRAÇO TÉCNICO DA CPDU

NA CIDADE INFORMAL

CENTRO DE FORMAÇÃO

PARA AUTOCONSTRUTORES

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

só TREM ou VLT + BICICLETA ou BICICLETA? + PARQUE

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Não será minha intenção neste trabalho entrar no mérito da arquitetura de como se dariam estes espaços utópicos. Se o TFG se desenrolasse em 3 semestres, faria questão disso, no entanto, para aproximar o leitor das minhas visualizações a cerca do que poderia ser, esboço-a aqui. Durante todo o processo de levantamento fotográfico e visitas técnicas, não pude deixar de perceber as possibilidades que o futuro leito ferroviário resguarda em si. Para além das questões de potencialidade urbanística, o quadrante 3 deste trabalho que compreende a extensão ferroviária da linha 9 - esmeralda da CPTM foi também escolhido porque é um processo em andamento, com previsão de conclusão em 2018 e que portanto deve ser discutido pela academia a cerca de suas implicações no território. Infelizmente, não faz parte da politica pública do Governo do Estado de São Paulo uma participação efetiva da população nas tomadas de decisão quanto as necessidades de mobilidade, se o fosse esta área poderia ser melhor aproveitada em consonância com as reais carências da população. Um espaço de intervenção dessa magnitude, poderia ser objeto de uma ação integrada que incluiria a implantação de outros equipamentos desde que avaliada ao lado de outros modais, cedendo assim espaço para o desenrolar dessas ações. Optar por um VLT poderia abrir espaço para ciclovias. Optar por ciclovias poderia possibilitar a implantação de um parque linear interrompido apenas por diversos equipamentos públicos.

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

Este trabalho se desenrolou de maneira inesperada, e ao meu ver, ao mesmo tempo que é um de seus diferenciais é também seu ponto frágil. A etapa desenvolvida no 9º semestre e que compreende a gestação teórica deste trabalho foi muito importante para o amadurecimento de questões conceituais fundamentais para o desenrolar da proposição, e a extensão dela, dada no 10º semestre se deu através de um aprofundamento em questões técnicas, mas também conceituais, exigidas por um processo complexo de georeferenciamento no QGIS aliado a leitura do território para fins propositivos e não mais analíticos, como na etapa inicial. O processo em si, nas duas etapas, enriqueceu grandemente o conteúdo produzido, no entanto, a sede por uma “materialização” do processo levou o trabalho a rumos não muito conectados entre si, pois as posturas e intenções adotadas foram diferentes. Mesmo assim a investigação e valorização da autoconstrução, fio condutor deste trabalho e sua espinha dorsal, permaneceu presente em todo o decorrer do trabalho, pois a grande critica é essa, precisamos empoderar a população no ato construtivo, seja através da autoconstrução ou de processos participativos e a Cidade Informal, construída pelo povo, mesmo que orientada por pressões externas, é exemplo de que podemos fazê-lo. A intenção do núcleo de apoio a autoconstrução é de resgate das qualidades perdidas durante o processo de precarização dos modos de vida investigado neste trabalho. Embora apresentado como utopia, ao introduzir através do urbanismo, a cultura da preservação ambiental e a reapropriação territorial do brasileiro, este espaço coloca-se como alternativa viável, potencializado e estruturando a resistência. Repensar nossa relação com o meio natural requer uma mudança drástica em nossas soluções projetuais que durante muito tempo subestimaram as necessidade ecológicas, quando não, as colocaram como premissas secundárias num projeto de civilização que historicamente se contrapôs a natureza e agora sofre as consequências de tais práticas. Apropriar-se de um período de transição eminente para que junto dele se discuta um sistema econômico e politico (o capitalismo) que apenas contribuiu para o estabelecimento de tal cenário, é também provocar sua desconstrução.

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Cidade Informal: Entre o Popular o Marginal

BIBLIOGRAFIA

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Plantando Verde Pra Colher Maduro

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Cidade Informal : entre o "Popular" e o "Marginal"