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Crônicas manchadas de verde Diário de um torcedor goiano na torcida do Palmeiras

Álvaro de Castro Moura Neto


CrĂ´nicas manchadas de verde DiĂĄrio de um torcedor goiano na torcida do Palmeiras


Orientação

Alfredo José Lopes Costa Projeto gráfico e diagramação

Lucas Botelho

NETO, Álvaro de Castro Moura Crônicas manchadas de verde: Diário de um torcedor goiano na torcida do palmeiras. / Álvaro De Castro Moura Neto. – Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2016. (90 páginas) 16 cm X 11 cm

1. Futebol. 2. Palmeiras. 3. Crônicas. 4. Livro-reportagem. 5. Jornalismo Esportivo.


Álvaro de Castro Moura Neto

Crônicas manchadas de verde Diário de um torcedor goiano na torcida do Palmeiras

Goiânia, 2016


Agradecimentos

A

o professor Alfredo Costa por ter tido a paciência e o entendimento necessários sobre a intenção e o motivo da idealização deste trabalho – e, como bom apreciador do futebol, por ter entrado de cabeça no “clima” do livro. Aos professores Thiago Zancopé e Thiago Cury Luiz por terem fornecido informações importantes para o desenvolvimento do trabalho. Aos meus pais Álvaro Moura e Marisane Moreira por terem me dado todo o suporte afetivo e monetário durante toda minha vida estudantil. Aos demais professores e colegas do curso pela convivência e aprendizado no ambiente acadêmico. Aos técnicos da FIC pelo suporte necessário para o desenvolvimento das atividades de ensino. Aos meus primos Ricardo Júnior e Brunno Santos, além de minha tia Maria José de Castro por terem me recebido em São Paulo durante os períodos que visitei a cidade de São Paulo. Também é necessário agradecer à todos os meus amigos que dentro e fora da universidade pelos anos de companheirismo e fraternidade. Por fim, à Sociedade Esportiva Palmeiras, principal razão do meu amor pelo futebol, e a todos os torcedores palmeirenses que cantam e vibram no Brasil e no mundo.


O

Prefácio

s refletores da grande mídia estão sempre apontados para violência, confronto e brutalidade, quando o tema são torcidas organizadas. O assunto é sempre caso de polícia nos jornalões. Não mesmo. O relato do repórter-torcedor “infiltrado” nas torcidas organizadas palmeirenses desmistifica essa visão, ao nos convidar a acompanhálo, para além dos estádios, nos locais em que os adeptos dessas associações frequentam, mais interessados em cantar e vibrar em paz do que em arrumar confusão. Para captar os bons fluidos desse universo à parte, é preciso entender essa paixão pelo esporte mais popular do país. Emotivas ao extremo, as crônicas que formam este livro revelam que essas torcidas são um atrativo superpositivo para o futebol e merecem um olhar mais atento por parte do jornalismo esportivo. Afinal, ao comandar as palavras de ordem e entoar os cânticos são as autoras do “roteiro” do espetáculo, do qual as emissoras de TV querem se apropriar. Heróis, glórias, traumas. Criatividade, tradição e clichê. Não é preciso ser um apaixonado pelo Palmeiras para apreciar o entusiasmo dessas tribos. Basta apreciar o jogo da bola e tudo o que se relaciona a esse grande espetáculo. Alfredo José Lopes Costa

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São Paulo

15 | Caminhando, até contra o vento, com o Palmeiras 21 | São Paulo, cidade verde 25 | A Lapa vista por olhos goianos 29 | Sempre morei na rua Turiassu 33 | Bar Alviverde 37 | “Ô, Ô, Ô, Ô! O TRAUMA ACABÔ! 4 A 0 PRO VERDÃO”

Torcida palmeirense

43 | Rasta Alviverde 47 | Mancha comanda torcida em verde e branco

Meus percalços

55 | Jornalista ou torcedor? 59 | O brutamontes e a Dona Maria 63 | Conhecendo a geografia do estádio: o setor “Gol Norte” 69 | Via Anchieta 73 | Os sete santistas

As finais

79 | Sofrência na casa do adversário 85 | Este livro já estava escrito 91 | Posfácio


São Pau

São


ulo

o Paulo


Caminhando, até contra o vento, com o Palmeiras

S

empre fui palmeirense. Não saberia precisar minuciosamente o dia, local e hora de quando comecei a torcer pelo Palmeiras, mas, seguramente me sinto torcedor desse time desde as minhas primeiras recordações. Morando em Goiânia, é claro que sentiria falta do meu time, em minha cidade. Em flashes, lembro do meu pai, flamenguista inveterado, assistir a jogos do Palmeiras nos anos 1990 e tratar o time como uma “máquina”. É assim que me lembro vagamente da cena do meu pai vendo a partida final do campeonato paulista de 1996, vencido pelo Palmeiras. Minha família tem alguns palmeirense, um deles, Ricardo, me “ensinou” a viver o Palmeiras desde criança. A coleção de camisas do clube é grande por conta desse primo. A memória fica mais forte a partir de 1999. Lembro claramente da final da Copa Libertadores da América. Do pênalti cobrado por Evair, na final

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memorável em que César Sampaio levanta a taça tão desejada. Eu tinha sete anos de idade. Moleque torcedor, ou torcedor moleque, não sei. De lá para cá, minha vida, basicamente, caminhou lado a lado com o Palmeiras, diariamente, mesmo a mil quilômetros de distância. Do título da Copa dos Campeões de 20001, à final da Libertadores perdida para o Boca Juniors no mesmo ano. É engraçado pensar que não tenho nenhuma memória do pênalti defendido por Marcos na semifinal da mesma Libertadores, diante do rival Corinthians. Mal sabia eu que a fase realmente ruim do clube estaria chegando e que o amor teria que ser grande para suportar os tenebrosos anos 2000. Lembro com detalhes da tristeza de um garoto de dez anos com o rebaixamento do seu time em 2002,. Naquele tempo, o principal medo eram as brincadeiras - ou seria bulling? - dos colegas na escola. Chorei dentro do carro do meu pai, um Gol GTS, modelo antigo e de cor azulada. Fui amparado por minha avó e meus tios: “futebol é assim mesmo, logo passa”, “o Palmeiras vai subir, fica tranquilo”, “não chora por futebol, um dia tudo volta ao normal, o Palmeiras vai voltar à série A”. Com o coração partido, foi complicado assimilar aquilo tudo. 1 A Copa dos Campeões de 2000 foi a primeira edição do torneio nacional e tinha como objetivo determinar o quarto representante do Brasil na Libertadores de 2001. O Palmeiras conquistou o título da competição depois de derrotar na partida decisiva o Sport por 2 a 1. Título palmeirense em meio ao desmanche da Era Parmalat, onde Murtosa quebrava uma sequência que conquistas que haviam sido polarizadas por Wanderley Luxemburgo e Luis Felipe Scolari.


De 2003 lembro do quadrangular final da segundona, de jogos memoráveis com o Marília e da companhia do Botafogo na liderança. Os grandes subiram, Marcos brilhou. Meu ídolo da época era o volante Magrão. Grande Magrão. Pena que três anos depois esse ídolo estaria vestindo a camisa do Corinthians – a maior das traições que um jogador palmeirense pode cometer. O futebol é “uma caixinha de surpresas”. Coisas assim acontecem. Entra 2004, um ano de reconstrução e vaga na Libertadores. Para tudo dar errado nos anos seguintes. Anni horribili: 2005 e 2006 não existem no calendário palmeirense. Corinthians campeão brasileiro, São Paulo campeão da Libertadores e do Mundial. Os piores rivais conquistando títulos. Um filme de terror, tinha 13 anos e convivia com primos, colegas e amigos torcedores de outros clubes comemorando e eu quietinho no meu canto. As derrotas nas oitavas de final de duas Libertadores seguidas para o São Paulo foram traumatizantes. Do gol do são-paulino Cicinho em 2005 ao pênalti mandrake2 em 2006, foi difícil aguentar. Em 2007 ano nulo. Algo de bom tinha que acontecer em 2008. E de fato aconteceu. Que fosse apenas um Campeonato Paulista, que fosse diante de um time do interior. O time dirigido por Vanderlei 2 Utilizado para qualificar algo falso , que surgiu do nada ou sumiu repentinamente . Alusão ao personagem Mandrake que era um mágico que tinha o poder de aparecer e desaparecer qualquer coisa que quisesse. "Foi marcado um pênalti mandrake". Sinônimo de falso, forjado, inexistente.

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Luxemburgo tinha qualidade. O Palmeirense se encheu de orgulho novamente. Meu primo Ricardo, citado no início do texto, fez questão de me levar à final. A contragosto do meu pai, eu embarquei na aventura. Foram dias maravilhosos, vivos até hoje em minha mente. Com 16 anos, pisei pela primeira vez no Palestra Itália em dia de jogo. Era contra a Ponte Preta, no primeiro jogo a vitória veio por 1 a 0. Festa garantida. Êxtase total, 5 a 0, estádio completamente lotado, mais de 27 mil pessoas. Voltarei a esse episódio novamente. Em 2009 o título na mão, ano da consagração. Com carreata em Goiânia atrás do ônibus de jogadores do Palmeiras, ano épico, ano com gol de Cleyton Xavier contra o Colo Colo do Chile, São Marcos defendendo pênaltis e mais pênaltis contra o Sport de Recife na Copa Libertadores. No Brasileiro perdemos um título ganho, daquelas coisas que só podem acontecer com o Palmeiras. Flamengo campeão com gol olímpico de Petkovic no Palestra Itália. Acontece. Os anos 2010 e 2011 foram para ser esquecidos, com rivais vencendo, e eu Álvaro sofrendo, como sempre, intensamente cada derrota do Palmeiras. Incontáveis discussões com diversas pessoas. O futebol nunca foi apenas lazer e divertimento para mim. Não considero isso bom, mas não tenho outro jeito de viver o esporte. Em 2012, como bom palmeirense, o céu e o inferno moram lado a lado. De um título épico ao rebaixamento inesperado. De novo, Palmeiras? Porquê? Se vencemos a Copa do Brasil, por que cair no Brasileiro? A Série B chegaria em 2013 e a caminhada continuaria, não importa para


que lado o vento soprasse. Somos Palmeiras. Ganhamos, perdemos, caímos novamente, voltamos novamente à primeira divisão. Já 2013 foi um ano tranquilo, até demais, faltou sofrimento, faltaram jogos decisivos. O Palmeiras precisava voltar. Voltou, pero no mucho3. O ano de 2014 foi um filme já visto. Como pode um clube desse tamanho quase cair novamente? Perdendo em casa, com estádio novo e torcida, como sempre, presente, o Palmeiras quase sucumbiu. Salvo por um rival. Foi sofrido, mas sobrevivemos. O ano seguinte “seria o ano da virada”, eu não acreditei, com 22 para 23 anos, já estava acostumado, não veria o Palmeiras com a esperança de antes, confesso que estava cansado. No ano do centenário, com a torcida ao lado, o time não conseguia demonstrar nenhuma força. Mas vamos a 2015, com um pé na frente e outro atrás. Para o ano de 2015 tudo foi caminhando conforme o planejado dentro do clube. Isso fez com que a confiança aumentasse aos poucos. A torcida empurrava a equipe. O novo estádio, Allianz Parque, antigo Palestra Itália. Eu precisava conhecer, agora um jovem adulto, a nova casa do meu clube do coração. Marquei a viagem, fui a São Paulo para uma jornada de três jogos entre os meses de junho e julho. Daí a história começa, o ano 2015 merece um texto a parte. Assim farei. 3 Apesar de ter retornado à Série A do Brasileiro, o Palmeiras deixou muito a desejar dentro e fora de campo. Trocas de treinadores, jogadores ruins e futebol poucos vistoso durante o ano histórico do centenário.

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São Paulo, cidade verde

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ão Paulo é uma cidade maluca. Ao mesmo tempo em que fascina por suas inúmeras opções culturais, também assusta por sua grandiosidade e intensidade urbana. Os prédios não param de subir, os carros não param de passar. Porém, é normal ver pessoas andando em qualquer parte da cidade à noite, sem nenhum tipo de medo. Em Goiânia, nunca fiquei perambulando pelo centro da cidade. Em São Paulo, as noites regadas a cerveja terminavam também com muitos quilômetros andados pelas ruas, becos e vielas. Bares, lanchonetes e padarias que funcionam durante 24 horas sem parar são comuns. Destaco o famoso Estadão, lanchonete com diversas opções de refeição durante toda a noite. Cravado no centro da cidade, bem próximo à Avenida Consolação, o Estadão se destaca pela comida rápida e saborosa. Das inúmeras vezes que fui até uma lanchonete, nenhuma estava vazia, não importava a hora. E as padarias?

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Na bela Avenida Paulista, a qualquer hora do dia ou da noite, você encontra sopas, sushis, sashimis, macarronadas, pizzas, hambúrgueres e até... pães! Chegando na Zona Oeste, com suas ladeiras íngremes e vida noturna agitada, a Vila Madalena vai sempre ter algum bar aberto esperando por você. Pelo menos por mim esperavam. No mais, falar de Zona Oeste é falar de Palmeiras1, que é o que interessa. As vias que chegam ao estádio são as melhores da cidade. Conheci também os estádios dos dois rivais da cidade, nenhum tem a mesma facilidade de chegada e saída. Essa pode ser uma das explicações do por que a torcida palmeirense ocupa de forma tão massiva a região em dias de jogos. O transporte público da cidade nunca me atendeu de forma ruim. O preço não é dos melhores, porém a qualidade do serviço é absurdamente melhor do que Goiânia, por exemplo. O principal fator disso tem nome: Metrô. O transporte público mais facilitador e bem pensado para uma cidade de grandes dimensões e população. Confesso que o metrô até me fascina. Inúmeras vezes atravessei a cidade de São Paulo, de leste a oeste, de sul a norte, todas de metrô, sempre esbarrando em palmeirenses, o que me deixava mais à vontade. As 1 O Palestra Itália comprou a área do Parque Antártica em 1920, a equipe já disputava jogos no local desde 1917. Após reformas na área, o Palestra inaugura o Stadium Palestra Itália. No mesmo período a sede do clube se muda do centro da cidade para o entorno do estádio.


viagens não duravam mais de 40 minutos, mesmo em horários de grande aglomeração de pessoas. Tudo bem que nunca morei na cidade e também não precisava diariamente do transporte público, mas que ele me agradou, isso agradou bastante. Enfim, para falar de São Paulo, um livro inteiro e outras quantas edições seriam necessárias. Fica aqui apenas uma homenagem à cidade que sempre me recebeu bem. Mesmo com a garoa e o frio que tive que passar por lá. Mas, principalmente, é a cidade do Palmeiras, é onde nasceu o Palmeiras, então, é com certeza a cidade que mais irei visitar na vida. E quem sabe, um dia, nela morar. São Paulo é a cidade mais verde do mundo... Aos olhos de um palmeirense, é claro.

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A Lapa vista por olhos goianos

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airro pacato, apesar de central. Bairro tradicional, apesar dos novos prédios que tomaram conta de muitas das antigas ruas proletárias . Bairro palmeirense, apesar de se ver corinthiano por toda parte. Em São Paulo é assim, não tem como fugir, você vai achar torcedor do clube rival por toda a parte. Porém, na Lapa, é muito italiano, é muito torcedor palestrino, daqueles que fazem questão de colocar a bandeira não janela de casa, de colocar o pôster do título dentro do próprio estabelecimento comercial – que são muitos, outra característica do bairro -, pouco importa quem vai lá para comprar, ali é uma casa palmeirense. Fora isso, a distância do bairro para o Palestra Itália é pouca, 20 minutos de marcha até a casa do Palmeiras. Quando vou a casa da tia Zezinha, em São Paulo, fico justamente no Alto da Lapa1, famosa Vila 1 O Alto da Lapa é um bairro nobre do distrito da Lapa, na cidade de São Paulo, no Brasil. Foi construído na década de 1920

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Romana, perto do meu clube de coração. Não existe região da cidade mais verde e branca. Zona Oeste, próximo à sede do clube, entre bairros como Pompéia e Perdizes, a Lapa é o local perfeito para um palmeirense residir ou se hospedar na cidade paulistana. Partindo da Rua Camilo, esquina com a Rua Aurélia, onde atravesso a rua para comprar o jornal do dia, descendo a Aurélia para tomar um suco no bar do Tito. Virando à direita em qualquer ponto até a Rua Clélia, fatalmente você vai sair no Palmeiras, chegando pela Avenida Pompéia ou pela Matarazzo, o Palestra é logo ao lado. Quando não descia ao lado do meu primo, que mora em São Paulo e conhece as ruas, os becos e as ladeiras da capital paulista – isso mesmo, o terreno é acidentado -, descia meio na sorte. Não ia pela rua indicada, não virava no ponto certo, o que me faz andar um pouco mais, talvez. Pouco importa, com esses erros, pude ver outros lugares, outros palmeirenses descendo rumo ao estádio, aos bares, com bandeiras, bonés e camisas do clube, carregando sempre entusiasmo de torcedores que vivem aquilo muito mais do que eu, mas todos com a vontade igual de ver o Palmeiras ”no gramado em que a luta o aguarda”, como diz a letra do hino do clube. Das seis vezes que desci na ida e subi na volta, pela Companhia City. Se situa a sudoeste do bairro da Lapa. Foi desenvolvido para a população operária, porém acabou por atrair imigrantes bem-sucedidos financeiramente, principalmente italianos.


apenas uma voltei triste com a derrota. O jogo valia pouco, time reserva, dia de chuva, o Palmeiras perdeu. Em todas as outras cinco voltei feliz, mesmo com as subidas intermináveis e o cansaço de ver um jogo inteiro em pé. No retorno, parando na mesma Rua Aurélia, esquina com a Camilo, sei que amanhã vou atravessar a rua, comprar o jornal do dia para ler sobre a vitória do Palmeiras – será que o que eu vi era mesmo verdade ou apenas um sonho? - e ir até o Palestra Itália. Goiano e palmeirense em São Paulo, todo dia sou campeão, o amor é verde, todo dia é dia de Palmeiras, Palmeiras.

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Sempre morei na Rua Turiassu

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ravada no meio da zona oeste de São Paulo. Cercada de grandes avenidas e alimentada por pequenas ruas, com sobrados antigos da cidade. Embaixo, comércios, bares e lanchonetes. Na parte de cima, casas, na sua maioria, com bandeiras palmeirenses na janela. Mesmo sendo uma das mais tradicionais da cidade, a Rua Turiassu recentemente teve o trecho próximo ao Allianz Parque mudado de nome para Rua Palestra Itália, em homenagem ao clube. Para alguns palmeirenses mais tradicionais, é e sempre será Rua Turiassu. Afinal de contas, na certidão de nascimento do clube está lá o endereço: Rua Turiassu, número 1.870. Recomendo como melhor roteiro para chegar ao Palmeiras, vindo pela Rua Turiassu – ou Palestra Itália, vá lá -, uma parada na Pastelaria Brasileira, em frente ao Shopping Bourbon, esquina com a Avenida Pompéia. Apesar dos ótimos salgados, a lanchonete é uma pastelaria e com certeza está entre as melhores da cidade. O pastel com caldo

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de cana de lá foi o lanche que me acompanhou durante mais de um mês em São Paulo. Sempre na Turiassu, sempre na Pastelaria Brasileira, a pastelaria mais palmeirense do mundo. Seguindo em frente, literalmente esbarramos com os ambulantes da região, que vendem de tudo do Palmeiras, das famosas camisas “oficiais” falsificadas, a réplicas de camisas históricas, também imitações “perfeitas”. Copos, faixas, tudo que se possa imaginar com o símbolo ou as cores do Palmeiras se acha no trecho agora chamado Rua Palestra Itália. Andando mais um pouco, a entrada clássica do clube. Ali, aglomeram-se, dia após dia, torcedores tirando fotos – eu fui um deles – e sócios do Palmeiras adentrando o clube social. Tem até o saudoso periquito, antigo mascote oficial do clube – que foi trocado nos anos 1980 pelo porco –, que ainda faz a festa da criançada verde e branca. Do outro lado da rua, o Bar Alviverde é para gente grande, uma espécie de santuário boêmio palmeirense. Mas outros botecos com cerveja gelada e sanduíches de pernil parecem se reproduzir em dias de jogo em frente ao Palmeiras. Destaco o Bar São Marcos, que, além do salgado fresquinho e da cerveja gelada, ostenta o nome do goleiro que só traz boas lembranças ao torcedor. Então, quem for à Turiassu, indico desbravar bar por bar na porta do estádio. Cada um deles conta um pedaço da história do clube. É só não exagerar na bebida para não perder o rumo do estádio antes do jogo. Não posso deixar de mencionar o caótico trânsito na Turiassu nos dias de jogo. Muitas vezes,


com a concentração de torcedores na porta do estádio, é complicado para pedestres e motoristas coexistirem. Nunca vi acidente mais grave, mas a polícia teima em não fechar o trecho para carros nesses dias. Parece coisa de corinthiano! Mas para o bom palmeirense, nada atrapalha o programa. Ficar horas e horas perambulando por essa avenida é algo realmente prazeroso. Afinal, é como se estivéssemos na própria rua onde passamos a infância e a adolescência. Em poucos dias, passei a ter a sensação de que sempre morei na Rua Turiassu.

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Bar Alviverde

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ão sou muito fã de shopping center, tudo muito brilhante, tudo chamando demais a atenção. Não tenho culpa se ao lado do estádio do meu time existe um shopping dos mais “chiques”. Para ir do Bar Alviverde para a entrada B ou Gol Norte do Allianz Parque, não tem jeito, você tem que atravessar o Bourbon. A não ser que queira dar uma volta bem maior. E eu não quero nunca. Mas prefiro falar de boteco, é onde me sinto melhor e mais em casa. Situado na Rua Palestra Itália (antiga Rua Turiassu), esquina com a Rua Caraíbas, o Bar Alviverde é um santuário palmeirense. Nunca fui à região do Palmeiras sem passar por lá e encontrar o bar cheio de palmeirenses. Tudo é verde, do chão às paredes, passando pelos forros da mesa e os pequenos banheiros. Até os roqueiros são esverdeados e cantam, com funkeiros e sambistas da mesma cor, a música de Moacir Franco: “O amor é verde, branca a razão, eu plantei palmeiras no coração”. Confesso que o estilo boteco de esquina me agrada. Como bom goiano, senti falta da cerveja

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Antártica. Até porque o atual Allianz Parque chamavase Parque Antártica. Mas hoje, da marca Antártica, só a Original. Não tem jeito, porque não cabe no meu bolso. Vai Skol mesmo. O importante é estar entre amigos, mesmo que eu não conheça rigorosamente ninguém naquele lugar. São tantas camisas do Palmeiras, da Mancha Verde e de outras torcidas organizadas, que o bar é uma grande mancha verde e branco na capital paulista. Nas caixinhas de som no alto das paredes, Moacir Franco continua a cantar: “Para a natureza se eternizar, hasteou palmeiras em seu altar”. Não tem jeito, do lado direito é a sede da Torcida Organizada Mancha Alviverde, do outro lado a Torcida Acadêmicos da Savóia. O local é exatamente em frente à entrada oficial do clube. Por ser o boteco mais próximo do Palmeiras, a cerca de dez passos, o Bar Alviverde pode ser considerado um ponto turístico da região. Faço questão de fazer o pedido clássico: “ uma cerveja e eu sanduíche de pernil, por favor. Não tem Antártica, não tem problema, traz a que tiver”. Saio do bar e entro no estádio. Aos poucos os gritos de “Palmeiras, Palmeiras” da arquibancada abafam a voz de Moacir Franco lá no Bar Alviverde: “Esse amor imenso flor da emoção, um jardim suspenso1 pela paixão”. 1 No final da década de 1950 foi iniciada uma nova e profunda reforma no Estádio Palestra Itália, onde a arquibancada foi totalmente reconstruída e passou a ter mais do que o dobro da capacidade anterior. O campo foi suspenso – daí surge o nome de “Jardim Suspenso” – e foram construídos vestiários no sub-solo.


“Ô, Ô, Ô, Ô! O TRAUMA ACABÔ! 4 A 0 PRO VERDÃO”

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rival tricolor, São Paulo, sempre apareceu como um “carma” na minha vida. Durante toda a adolescência tive que lidar com os anos de glórias são-paulinas. De 2005 a 2008, foi complicado lidar com o sucesso do rival, ainda mais em uma faixa de idade em que as situações são vividas com muito mais entusiasmo. Não fugia de discussão com um sãopaulino, mesmo sabendo que o Palmeiras andava mal das pernas. Não tinha como fugir da “zoação”, porque piada sobre futebol não é considerado bullying. Mas devia ser. O dia 28 de junho de 2015 espantou esse trauma. Não era uma final. Mas vir à capital paulista para assistir a um clássico do futebol nacional, o chamado “Choque-Rei”, é algo especial. Acordar cedo, chegar ao Allianz Parque seis horas antes do jogo, ver

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o entorno completamente lotado de torcedores, tudo é emoção. O Palmeiras já vinha de uma goleada sobre o São Paulo no Campeonato Paulista. A torcida sabia que a fase era boa e compareceu em massa. Mais de 32 mil pessoas dentro do estádio. O que viria pela frente, na minha primeira vez dentro da nova arena, foi um resultado avassalador: 4 a 0. Depois de um começo complicado, quando o Palmeiras parecia esperar o São Paulo dentro do próprio campo, confiando nos contra-ataques, as coisas começaram a acontecer. De longe, fico “secando” Rogério Ceni, um dos jogadores mais amados pela torcida são-paulina, e proporcionalmente um dos mais odiados pela torcida palmeirense. O ambiente vertical e hostil da nossa casa não fez bem ao veterano. A partir dos 30 minutos os gols começaram a sair naturalmente e a alegria dos torcedores do “Verdão” começava a aparecer. Entro no ritmo, mesmo acompanhando o jogo na área destinada à imprensa. Olho para o lado e sinto “bons fluidos” com o que vejo. Um homem aparentando mais de 60 anos. Ele também pisava no novo estádio pela primeira vez, vinha de Maringá (PR) para acompanhar o Palmeiras. Também estava “disfarçado” com a credencial de imprensa e, grande coincidência, também estava comigo em 2008, quando vimos o “Verdão” bater a “Macaca”, Ponte Preta, na final do “Paulistão”, por 5 a 0, no antigo Palestra Itália. Voltamos a nos encontrar sete anos depois. Para quem entende as superstições do futebol, um sinal do além de que o saldo seria positivo.


Dentro de campo, pude acompanhar um Egídio fenomenal pelo lado esquerdo.O lateral jogou como nunca. Gabriel, monstruoso no meio campo, Rafael Marques, sempre oportunista. Até mesmo Victor Ramos, sempre questionado por imprensa e torcida, deixou o dele. Para finalizar com “chave de ouro”, o argentino mais palmeirense dos últimos anos deixou o seu.. “Porcooo!” “Porcooo!” “Porcooo!”. O “grito de guerra” ecoa dentro e fora do estádio. “Lágrimas de emoção”, “vibração da torcida”, “barulho ensurdecedor”. Danem-se os clichês, afinal de contas, futebol é mesmo uma “caixinha de surpresas”. Linda vitória, “chocolate” no rival, para acabar de vez com o trauma de adolescência, que, com certeza, não era só meu...

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Torcida palmeir

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Torcida meirense


Rasta Alviverde

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urante a Segunda Guerra Mundial, em que o Brasil mandou tropas para lutar contra a Itália, por pressão do governo nacional, o Palestra Itália mudou seu nome para Palmeiras. O clube, entretanto, continuou a ser o representante da colônia italiana em São Paulo. Mas hoje para ser palmeirense é preciso ter DNA ou passaporte italiano? A resposta é não. Para ser palmeirense basta ter a cabeça feita pelo Palmeiras. Foi assim que surgiu a Torcida Organizada Rasta Alviverde, que busca aproximar o clube a um estilo de música, o Reggae, e ao movimento Rastafári, surgido na Jamaica entre a classe trabalhadora e camponeses afrodescendentes em meados dos anos 1920. Essa torcida sempre despertou minha curiosidade em conhecer o grupo, a ideia e como o movimento se mantém ativo. Tive a oportunidade de realizar essa vontade ao encontrar alguns integrantes da torcida em Goiânia. Três “loucos” pelo Palmeiras vendiam adesivos na porta do Estádio Serra Dourada, antes do duelo entre Palmeiras e Goiás pelo Campeonato Brasileiro.

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“Um é cinco reais, mas pra você a gente faz três por dez reais”, comentou o torcedor. “Manda aí, na hora”, respondi. Gosto mesmo da ideia de ter o Palmeiras vinculado à ideologia de uma figura como Bob Marley, líder musical e político de uma geração. O diálogo continuou e uma pergunta surgiu: “Velho, como vocês fazem para vir a Goiânia”, indaguei. “Cara, nós viemos de ônibus, normal mesmo, sem caravana, só veio nós três. Estamos vendendo os adesivos pra conseguir a grana e voltar pra São Paulo”, respondeu o torcedor com dreads e camisa branca do Palmeiras. Nesse momento, o gole de cerveja desceu devagar. Comecei a pensar no trabalho que deve ser para “esses caras” chegarem ao estádio, atravessar mil quilômetros para ver o Palmeiras, sem ter a certeza de como vai dar pra voltar. Tem que gostar muito. A admiração superficial pela torcida aumentou nesse momento. Os “rastas” palmeirenses levam a ideologia de ter “a cabeça” pelo Palmeiras realmente ao limite. Quando se fala em torcida organizada, imaginamos estereótipos regrados de preconceitos. Torcedores que só gostam de briga, vagabundos, sem trabalho, sem ter o que fazer. Será que é fácil e coisa de vagabundo optar por seguir um clube, por apoiar incondicionalmente sem ter a certeza nem da vitória, nem da volta para casa? Eu tenho certeza que não. Conhecendo e vendo como as coisas funcionam em torcidas diferentes, digo que não. Mais tarde, durante as finais da Copa do Brasil, acompanhei a pintura na nova sede da Rasta Alviverde.


O local é em frente ao Palmeiras, ao Estádio Palestra Itália. A rua Diana é ponto de encontro de torcedores palmeirenses antes dos jogos. Um lugar mais tranquilo, considerado mais “família” por não ter a agitação da Rua Caraíbas, sede da maior organizada palmeirense, Mancha Alviverde. Voltei a Goiânia com duas camisas da Rasta Alviverde. Voltei também com boas ideias e novas perspectivas de como se torcer e acompanhar um time de futebol. As boas conversas e a troca de experiências valeram muito. Minha opção foi fazer a cabeça pelo Palmeiras, ao som de Bob Marley e uma cerveja bem gelada da Rua Diana. Mas também, muita coisa paira no ar, além dos aviões de carreira de Congonhas...

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Mancha comanda torcida em verde e branco

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onhecer a sede da Torcida Organizada Mancha Alviverde foi algo completamente diferente em diversos aspectos. Quando pensamos em torcida e torcedores organizados, logo pensamos em imagens que vemos na grande mídia de brigas entre pessoas carrancudas e violentas, envoltas em um clima nunca amistoso. Na verdade o que aconteceu foi o contrário. Desde a minha primeira entrada na sede, situada na Rua Caraíbas, meio desconfiado, receoso, logo fui recebido por alguns membros interessados em me ouvir e em atender às minhas solicitações. A Mancha foi criada para defender o Palmeiras no ano de 1983. A rota de colisão se faz ao ter posicionamento totalmente antagônico à maior torcida do Palmeiras até os anos 80, a Torcida Uniformizada do Palmeiras, ou TUP. A criação da torcida, inicialmente chamada apenas de Mancha

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Verde, foi inspirada num vilão, já aposentado, das histórias em quadrinhos da Disney, o Mancha Negra, que atormentava o Mickey e deixava sempre uma mancha de tinta preta no local onde cometia seus crimes. Preto não, no nosso caso é verde. Na sede funcionam a loja e a parte administrativa da torcida. A butique atende todo tipo de torcedor. Durante pouco mais de uma hora que fiquei no prédio, foi possível ver pessoas das mais diversas faixas etárias, homens majoritariamente, é verdade, mas também com boa presença de mulheres e famílias inteiras. O uso de camisas da torcida é mais comum do que as do clube, até porque todo o material à venda tem alusão ao Palmeiras. Os produtos têm boa qualidade, porém alguns preços estão acima da média. É muito difícil achar camisas ou acessórios com preços abaixo de R$ 50. A paixão custa caro. Mas, para o palmeirense, é por uma boa causa. Ninguém reclama, ninguém pechincha. Manchistas de toda a cidade chegavam a todo o momento, se amontoando em frente à sede, onde a bateria já estava a postos, controlando os cânticos com muita fumaça, foguetes e rojões. Uma verdadeira festa é instaurada numa espécie de concentração nas longas horas de espera para o jogo. A Mancha é o Palmeiras e o Palmeiras é a Mancha. Uma precisa da outra. O Palmeiras é a razão de ser do torcedor manchista. Uma torcida com mais de 30 anos de vida, com o tamanho e a importância da


Mancha não existe hoje em dia. Mesmo que a relação tenha sido conflituosa em alguns casos históricos1. Nos jogos que acompanhei no setor Gol Norte do Palestra Itália, reduto da torcida dentro do estádio, pude constatar que a Mancha é realmente o pulmão da arquibancada, ela dita o ritmo da torcida. Além do hino do clube, mais de 20 diferentes cânticos são entoados durante uma partida. Coração acelerado, emoção à flor da pele. Uma experiência que todo palmeirense devia ter era estar no meio da torcida organizada durante os 90 minutos de uma partida. As torcidas organizadas fazem parte da cultura futebolística do Brasil e devem ser respeitadas e valorizadas. Avante Palmeiras! Avante Mancha! A música mais cantada pela Torcida Mancha Alviverde tem o título: “Nada vai mudar o nosso amor”. Veja abaixo a letra. "Nada vai mudar o nosso amor, Nada vai mudar nossa paixão Palmeiras minha vida é você Você mora no meu coração Por isso eu sou feliz, por isso eu sou feliz Por isso eu canto forte... MANCHA 1 O apoio da Mancha Alviverde ao Palmeiras é incondicional, mas isso não impede que os conflitos entre torcida e clube deixem de acontecer. Quando a crise é grande, a maior cobrança vem da organizada, como no período do rebaixamento, ou a quebra do salão de troféus em 1990 e as agressões aos jogadores Valdívia e Fernando Prass após a derrota para o Tigres da Argentina, em 2013.

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Te amo meu Verdão, Te amo meu Verdão Te amo até a morte..." "Olê, Olê Eu canto eu sou Palmeiras até morrer Olê, Olê Eu canto eu sou Palmeiras até morrer de alegria Dá-lhe alegria, alegria no coração. Daria a vida inteira para ser campeão A Taça Libertadores, Obsessão Tem que jogar com a alma e o coração (Olê, Olê) Olê, Olê Eu canto eu sou Palmeiras até morrer (Olê, Olê) Olê, Olê

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Torcer, cantar, nunca parar. Dentro do estádio é isso. Impossível ficar próximo da Mancha e não entoar todos os cânticos da torcida. Dos clássicos carnavalescos adaptados para o Palmeiras, às músicas de autoria própria. Se o Palmeiras joga, a Mancha está lá, a Mancha vai estar lá. Porque ao nosso Verdão, seja no campo ou na arquibancada, nunca irão nos igualar.



Livro - Crônicas manchadas de verde (amostra)