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Revista Marambaia 43

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Bico de Pena

Toshio Katsurayama é condômino do Marambaia

sei. Na dúvida, afastei a minha cachorra a uma distância segura e fiquei a admirar aquele belíssimo exemplar. A visão daquele galo me remeteu à infância, quando ainda morava no sítio do meu pai. A nossa casa era de madeira, sem forro e com janelas improvisadas. Havia um galo “metido a besta” que dormia numa mangueira que ficava em frente à janela do nosso quarto. Toda madrugada, antes das cinco horas, o bendito galo cismava de iniciar a sua cantoria desafinada. Não havia quem conseguisse dormir depois disso e o meu irmão estava cheio dessa interferência em seu sono. ‘Ainda mato esse galo desgraçado!’ bufava o meu mano, embrulhando-se nas cobertas e cobrindo os ouvidos. De nada adiantava, pois essa cantoria desafinada continuava até o dia raiar. Começamos a bolar um plano diabólico para nos livrar desse despertador inoportuno, mas a nossa mãe protegia esse velho galo. A galinhada caipira precisava de um macho fertilizador e esse “bandido” não negava fogo. Um verdadeiro reprodutor. A oportunidade surgiu no fim daquele ano. A colheita tinha sido boa e os meus pais resolveram assar alguns frangos para a tradicional festa do Ano Novo. Ficamos encarregados de escolher os frangotes disponíveis, aqueles que não tinham muita utilidade, pois só comiam e não punham ovos. ‘Escolham os mais gordinhos, viu?’ foi a recomendação expressa de nossa mãe. Meu mano e eu planejávamos incluir o velho galo no rolo, sacrificá-lo e depois inventar uma história qualquer para justificar o malfeito. Havia um monte de frangotes dispostos a herdar o trono do velho galo desafinado e achávamos que a mãe não iria se importar muito. Pegamos alguns dentes de milho, fizemos um furo bem no meio deles, passamos um barbante nesse buraco, demos alguns nós e estava pronta a armadilha para apanhar os bichinhos famintos. Era jogar a isca, esperá-los engolir o milho, aguardar um pouco e puxar o barbante. Pimba! Não falhava nunca. Muito mais fácil do que correr atrás deles, porque eles eram rápidos e espertos. Em pouco tempo tínhamos quatro frangotes gordinhos e o velho galo cantador. Como diz o dito popular, os últimos seriam os primeiros! O galo seria a nossa primeira vítima. O nosso problema era como fazer isso. Nenhum dos dois tinha muita experiência na arte e técnica de sacrificar animais. O serviço “sujo” sempre ficara a cargo da mãe. A gente só os depenava depois de mortos. ‘Vamos chamar a mãe, mano?

‘Cê tá louco? Aí ela descobre o nosso plano. Vamos ter que acabar com o bicho de um jeito ou de outro. Escolhemos um jeito menos radical. Resolvemos espetar uma agulha na nuca do coitado. Já tínhamos visto a vizinha fazer isso e funcionara a contento. Só que nervosos e afoitos, picamos o velho galo uma dúzia de vezes e o bichinho esperneava, cacarejando furiosamente e não morria. Exaustos e já meio desesperados, resolvemos torcer o seu pescoço, mas mesmo assim o galo resistiu, aumentando a nossa aflição. Em ato de desespero final, meu mano pegou um facão afiado e decepou a cabeça do pobre diabo. Cabeça de um lado, corpo do outro. Para surpresa nossa o galo saiu espirrando sangue para todos os lados e se mandou para o meio do capinzal. E sumiu! ‘Ih, mano, deu mer...! Traumatizados pela fuga do galo sem cabeça e assustados com a nossa incompetência, desistimos da tarefa. Chamamos a mãe, inventamos uma história sobrenatural sobre o acontecido e acabamos confessando o crime. Levamos uma “coça” da mãe, uma bronca do pai e, como castigo, ficamos sem comer frango assado naquele Ano Novo. Nunca mais tivemos que sacrificar qualquer animal, mas aquela imagem permaneceu em nossa memória por muito tempo e nos deu muitas noites mal dormidas. Sessenta anos depois, olhando para esse galo cantador, fico a imaginar se os vizinhos daqui também não se sentem incomodados com o seu canto, especialmente se isso ocorrer em horas impróprias, antes do sol nascer. Se estiverem passando por esse tormento, um pequeno consolo. Pelo menos, esse galo é bem mais afinado que o nosso!

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